A QUESTÃO HUMANA NO ROMANCE DE JOSÉ GERALDO VIEIRA1
“Nossos livros de escola glorificam a guerra e escondem seus
horrores. Eles incutem ódio nas veias das crianças. Eu preferiria
ensinar paz do que guerra. Eu preferiria incutir amor do que ódio”
( Albert Einstein)
Roberta Aparecida Souza da Silva
UEMS
RESUMO: Este trabalho de pesquisa visa a revisitar a “História” de conflitos militares, a partir de uma abordagem que valorize
relatos de expedicionários e familiares, enquanto pequenas histórias, construídas ficcionalmente, porém ricas em humanidade uma
analise mostrando um relato não apresentado na História Oficial. Esse novo olhar nos conduz a uma reflexão a respeito da “História”
e das histórias presentes no romance O Albatroz, de José Geraldo Vieira. A obra abriga uma perspectiva inovadora, a partir do
momento em que se atém a um processo de abertura para a expressão daqueles que participam “do lado de dentro” da História, e
nos permite conhecê-la pelo seu lado verdadeiramente humano, diferentemente do que relatam as informações oficiais,
simplesmente. O que o autor resgata, efetivamente, é a humanidade perdida em tempos de guerra e frequentemente esquecida do
legado de seus registros.
Palavras- chave: José Geraldo Vieira- O Albatroz-humanidade – conflitos militares – histórias e História.
ABSTRACT:This research aims to review the "history" of military conflicts, from an approach that values and family reports of
explorers, while short stories, fictionally built, but rich in humanity an analysis showing a report not presented in the Official History.
This new perspective leads to a discussion about the "History" and the stories present in the novel The Albatross, Jose Geraldo
Vieira. The project hosts a fresh perspective, from the moment that sticks to an opening process for the expression of those who
participate "inside" of history, and lets us know her by her side truly human, contrary to what reported official information, simply.
What rescues the author, in effect, lost humanity in times of war and often forgotten legacy of his records.
Keywords: José Geraldo Vieira- O Albatroz-humanity - military conflicts - History and stories
Introdução
O objetivo desta pesquisa é trazer para as salas de aulas as obras de um dos maiores ficcionistas
brasileiros, o autor José Geraldo Vieira, e contribuir com os esparsos estudos sobre o autor, principalmente
nos cursos de Letras.
1
Este trabalho foi orientação da Prf.ª Dr.ª Cláudia Sabbag Ozawa Galindo. UEMS de Nova Andradina, 2009.
O desejo de conhecer um pouco sobre o escritor e suas obras me veio após a solicitação de um
seminário, proposto pela professora Drª Claudia Galindo, responsável pela disciplina de Literatura Brasileira.
No entanto, após ter conhecimento de que não somente a biblioteca deste campus, como também as
do campus de Navirai, Três Lagoas, Dourados, Campo Grande e Aquidauana, não eram portadoras das obras
do autor e diante das informações relativas às suas contribuições para a Literatura brasileira, intensificou-se
em mim o desejo de conhecer alguma obra do autor e, se possível, analisá-la.
Pesquisas frustradas relativas ao autor e sua obra no Google e sites relacionados à poesia e às obras
literárias aumentava o meu desejo de conhecer o que me parecia esquecido da história da literatura. Propus a
minha orientadora, então, desenvolver uma monografia sobre José Geraldo Vieira que tivesse apenas o intuito
de tirar do cemitério do esquecimento o escritor.
Ela, por sua vez, contribuiu e muito, comprando as obras O Albatroz e A Ladeira da Memória, em
sebos de Londrina-PR. Duas obras fascinantes, porém ao ler O Albatroz vieram-me inúmeras indagações
quanto aos relatos presentes na obra, que me deixaram ávidas por pesquisas não somente quanto à literatura
produzida à época de sua publicação, mas também quanto aos fatores relacionados à Historia dos
acontecimentos durante o período relatado na obra.
“José Geraldo Manuel Germano Correia Vieira Machado da Costa (Rio, 1897-1977). De pais açorianos.
Passou a infância e a primeira juventude no Rio de Janeiro onde se formou em medicina. Conheceu de perto
os remanescentes do Parnaso e do Simbolismo que animavam a vida literária carioca antes da firmação
modernista; seus primeiros livros traem o penumbrismo da belle époque em dissolução: Triste Epigrama(1919)
e os contos de ronda de Deslumbramento (1922)- reveja esse texto. De 1920 a 1922 estudou radiografia em
Paris e em Berlim, viajando depois por quase toda a Europa. De volta ao Brasil, partilhou a sua vida entre
medicina paulista de Marília ??, mas optou definitivamente pela segunda ao estabelecer-se em São Paulo.(...)
Exerceu com assiduidade a crítica literária e artística. Ficção: A Mulher que fugiu de Sodoma, 1993; Território
Humano, 1936; A Quadragésima Porta, 1943; A Túnica e os Dados, 1947; A Ladeira da Memória, 1950; O
Albatroz,1952; Terreno Baldio, 1961; Paralelo 16: Brasília, 1966 (...)” (BOSI, 1994, p. 411)
Tendo em vista que a história da literatura tem freqüentemente relegado ao esquecimento vários
autores brasileiros, este trabalho vem justamente recuperar um ficcionista praticamente esquecido nos cursos
de graduação em Letras. A relevância da pesquisa encontra-se, neste sentido, à medida em que possa contribuir
para a fomentação de estudos literários voltados para a iniciativa de suprir tal defasagem literária. Deste modo,
o presente trabalho visa a analisar uma obra do escritor modernista José Geraldo Vieira O Albatroz, a partir
do enfoque dado às influências históricas do período da Segunda Guerra Mundial na estrutura do enredo e da
própria construção psicológica dos personagens, que oferecem um novo olhar sobre a História da humanidade.
O MODERNISMO E O AUTOR
Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira, é praxe os historiadores
justificarem as datas com que batizam o tempo frisando a importância dos eventos a que elas se acham ligadas.
Neste sentido, o ano de 1922 destaca-se na periodização literária, por conta da realização da Semana de Arte
Moderna, espécie de “declaração de fé” do movimento modernista.
Foi somente a partir de 1930, no entanto, com o legado de todo um processo de relevo social como a
Revolução de Outubro, que nascera das contradições da República Velha a que se propunha superar, que a
literatura é lançada a um estado moderno e adulto. Neste sentido é que Alfredo Bosi afirma: “Somos hoje
contemporâneos de uma realidade econômica, social, política e cultural que se estruturou depois de 1930”.
(1994,p. 383)
Já o movimento modernista, como um todo, deixa como legado o direito permanente à pesquisa
estética, à atualização da inteligência artística brasileira e à estabilização de uma consciência criadora nacional,
ou seja, uma consciência inovadora.
Grosso modo, entre os anos de 1930 e 1945 e mesmo até 1950, o panorama literário apresentava, num
primeiro plano, uma ficção regionalista, o ensaísmo social e um aprofundamento da lírica moderna em seu
ritmo oscilador entre o fechamento e a abertura do eu, a sociedade e a natureza.
“(...)A sua paisagem nos é familiar: o nordeste decadente, as agruras das classes médias no
começo da faze urbanizadora, os conflitos internos da burguesia entre provinciana e
cosmopolita (fonte da prosa de ficção). Para a poesia, a fase30/50 foi universalizante,
metafísica, hermética, ecoando as principais vozes da “poesia pura” européia de entre –
guerra(...)”. (Bosi,1994,p 386)
Ainda segundo Bosi, desde a década de 1930, o romance brasileiro moderno tem seguido quatro
tendências entre o “herói” e seu amado que, segundo ele, são:
“a) romances de tensão mínima. Há conflito, mas este configura-se em termos de posição
verbal, sentimental quando muito as personagens não se destacam visceralmente de estrutura
e da paisagem que as condicionam(...)
b) romances de tensão crítica. O herói não resiste agonicamente às pressões da natureza e do
meio social, formule ou não em ideologias explícitas o seu mal estar permanente (...)
c) romances de tensão interiorizada. O herói se dispõe a enfrentar a antinomia eu/mundo
pela ação: evade-se, subjetivando o conflito. Exemplos, romances psicológicos em suas
várias modalidades (memorialismo, intimismo, auto- análise...)
d) romances de tensão transfigurada. O herói procura ultrapassar o conflito que o constitui
existencialmente pela transmutação mítica ou metafísica da realidade. Exemplos, as
experiências radicais de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. O conflito, assim “resolvido”,
força os limites do gênero romance e toca a poesia e a tragédia.” ( Bosi,1994, p. 392)
Quanto a José Geraldo Vieira, embora seja classificado por muitos, como afirma Bosi, um marginal da
literatura, o crítico o dispõe como um aspirante a uma revolução na estrutura do romance.
“(...) há nele, além de tomadas introspectivas, uma ambição, nem sempre realizada, mas
aguilhoante, de revolucionar a estrutura do gênero romance entre nós, e fazê-la
surpreendente como um painel entre impressionista e cubista. Para tanto, joga com os planos
da realidade presente e do passado e arma símbolos que os unifiquem. O Albatroz foi, nesse
particular, a sua experiência narrativa mais feliz, enquanto logrou fixar uma constante
psicológica (da dor causada pela perda de seres amados) através de uma complexa história
de gerações.(...).” ( Bosi,1994.p. 412)
Analisando o processo estrutural de sua narrativa, afirma Bosi
“Radicalizando as próprias qualidades de atento observador, José Geraldo Vieira tende a
construir um romance substantivamente cheio, e não raro sem prejuízo da nitidez dos
caracteres e da trama. Pode-se dizer que esse traço vem ao encontro da prosa de
vanguardeira, como o nouveau roman, nominal, descritivo, antipsicológico: o que não lavra,
por força, um tento estético, sobretudo quando a tendência atua à relia do equilíbrio interno
da estrutura ficcional”. (1994, p. 312)
Especificamente na construção de O Albatroz, o observador atento transfere para a ficção as tensões
sociais vividas pela sociedade. Neste sentido é que uma análise literária da obra não pode prescindir de um
correspondente resgate histórico relativo ao período tematizado.
É Candido quem nos reforça, lembrando que o dilema literário arte e contexto há tempos já foi
resolvido esteticamente.
“De fato, antes procurava-se mostrar que o valor e o significado de uma obra dependiam de
ela exprimir ou não certo aspecto da realidade, e que este aspecto constituía o que ela tinha
de essencial. Depois, chegou-se à posição oposta, procurando-se mostrar que a matéria de
uma obra é secundária, e que a sua importância deriva das peculiaridades que a tornam de
fato independente de quaisquer condicionamentos, sobretudo social, considerado inoperante
como elemento de compreensão. Hoje, sabemos que a integridade da obra não permite adotar
nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto
numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava
pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é
virtualmente independente, se combinam como momentos necessário do processo
interpretativo.”(2000.p. 4)
Assim, explica Candido, o elemento exterior se torna interior e representa tanto quanto os demais
elementos presentes na obra, para o todo interpretativo.
“(...)o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica. O
elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos
psicológicos, religiosos, lingüísticos e outros. (...)”(2000,p. 7)
Este tipo de abordagem, de tipo sociológico na literatura, segundo explica Candido, pode se dar de
diferentes maneiras, de acordo com a abordagem ou a seleção do objeto em análise. No que se refere aos
estudos que buscam relacionar o conjunto da literatura com as condições sociais, tem-se:
“Um primeiro tipo seria formado por trabalhos que procuram relacionar o conjunto de uma
literatura, um período, um gênero, com as condições sociais.(...). A sua maior virtude
consiste no esforço de discernir uma ordem geral, um arranjo, que facilita o entendimento
das seqüências históricas e traça o panorama das épocas. O seu defeito está na dificuldade
de mostrar efetivamente, nesta escala, a ligação entre as condições sociais e as obras.”(
2000,p. 9)
Já no que se refere à presença do real na ficção:
“Um segundo tipo poderia ser formado pelos estudos que procuram verificar a medida em
que as obras espelham ou representam a sociedade, descrevendo os seus vários aspectos.”(
2000.p. 10)
Dando relevo à relação obra-público:
“(...)o
terceiro é apenas sociologia, e, muito mais coerente, constituindo no
estudo da relação entre a obra e o público- isto é, o seu destino, a sua aceitação,
a ação recíproca de ambos.”(2000,p.10)
Voltada para uma análise propriamente sociológica está a pesquisa literária direcionada à função social
do escritor:
“ainda quase exclusivamente dentro da sociologia se situa o quarto tipo, que estuda a posição
e a função social do escritor, procurando relacionar a sua posição com a natureza da sua
produção e ambas com a organização da sociedade.”(2000,.p.10)
É de caráter político a natureza do quinto tipo de análise literária de cunho sociológico, “o quinto
tipo, que investiga a função política das obras e dos autores, em geral com intuito ideológico
marcado”(2000,.p. 11) e “um sexto tipo, voltado para a investigação hipotética das origens, seja da literatura
em geral, seja de determinado gênero”.
Em comum, “nota-se o deslocamento de interesse da obra para os elementos sociais que foram a sua
matéria, para as circunstâncias do meio que influíram na sua elaboração, ou para a sua função na sociedade”
(1997.p.11e 12), entretanto, alerta Candido, “achar, pois, que basta aferir a obra com a realidade exterior para
entendê-la, é correr o risco de uma perigosa simplificação causal”(2000,.p.13). Em sentido contrário, ignorálos é incorrer em defasagem à integridade estética da obra, como lembra Candido:
“Mas se tomarmos o cuidado de considerar os fatos sociais (como foi exposto) no seu papel
de formadores da estrutura, veremos que tanto eles quanto os psíquicos são decisivos para a
análise literária, e que pretender definir sem uns e outros a integridade estética da obra é
querer, como só o barão de Munchhausen conseguiu, arrancar-se de um atoleiro puxando
para cima os próprios cabelos.” (2000,p. 13)
A arte é social, por natureza, e, deste modo, tanto participam da construção da obra as influências
sociais, quanto esta produz sobre os indivíduos repercussões socialmente sentidas.
“(...)a arte é social nos dois sentidos: depende da ação de fatores do meio, que
se exprimem na obra em graus diversos de sublimação; e produz sobre os
indivíduos um efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo,
ou reforçando neles o sentimento dos valores sociais. Isto decorre da própria
natureza da obra e independente do grau de consciência que possam ter a
respeito os artistas e os receptores de arte.” (2000, p. 20- 21)
O Real e o Ficcional
Serviram de pano de fundo a todo o enredo, os acontecimentos militares que envolveram a nação
brasileira, em particular, e o mundo todo, em escala universal. Localmente, a Guerra de Canudos;
mundialmente, as duas grandes guerras. Estes elementos sociais externos à narrativa, que teriam influenciado
a obra, também serviram de trampolim para um questionamento existencial diante das situações impostas
militarmente e do resgate humano do legado de tais situações, o sofrimento das famílias destroçadas no
turbilhão massacrante dos combates.
A fragmentação social das batalhas fatalmente incorreu em desagregação familiar, e em colapso
individual. Neste sentido, também a obra produz no meio um processo de reflexão, ao oferecer o espelho em
que se refletem as agruras sociais e as mazelas psicológicas individuais, que o meio suscitou no homem. O
meio social inspira a obra, a obra produz efeito social.
Os eventos sociais que influenciaram a obra serão narrados a seguir.
O real (conforme consta na História)
Segundo Antonio Carlos Olivieri, em Guerras e Revoluções Brasileiras, a Guerra de Canudos durou
cerca de um ano e mobilizou mais de 10 mil soldados, de 17 estados brasileiros, divididos em quatro
expedições militares. Todo o processo levou mais de 20 mil pessoas à morte e à destruição total da cidade alvo
do confronto.
A Guerra iniciou- se no mês de novembro do ano de 1896 e teve por pretexto para o seu início um
problema envolvendo madeiras para a construção de uma igreja. Antonio Conselheiro, líder da comunidade
de Canudos, em determinado momento, precisava de madeira para dar continuidade à construção da Igreja
Nova da comunidade e a encomendou em Juazeiro na Bahia; tendo, porém, feito o pagamento da madeira
antecipadamente, não a recebeu no prazo estabelecido.
Tal manobra política serviu de fundamento para que se espalhasse o boato de que Antonio
Conselheiro e seus seguidores invadiriam a cidade reclamando a madeira não entregue.
O juiz local, que já havia tido uma desavença com Conselheiro, pois este não achava justo as pessoas
pagarem impostos e retirou das ruas os panfletos que cobravam essas taxas, achou melhor estimular o pânico
na cidade, justificando, assim, uma ofensiva contra Canudos.
Diante de tais alarmes, muitos moradores resolveram deixar a cidade e o juiz solicitou junto ao
governador o reforço de tropas policiais, e foi atendido.
No dia 6 de novembro de 1986, parte de Salvador com destino a Juazeiro, a I Expedição Militar em
desfavor a Canudos, expedição esta composta de médicos e muita munição, ou seja, grande armamento.
Ao chegar no dia seguinte, a expedição encontrou uma cidade tomada de pânico e os seguidores de
Conselheiro bem longe, sem nem sequer planejar uma invasão.
No dia 21 de novembro, no amanhecer, a expedição se encontrava em Uauá, na Bahia, quando de
repente chegam centenas de conselheiristas cantando e tendo à sua frente a bandeira do Divino.
Entoavam as canções como pagadores de promessas ou como quem fosse rezar. Mas eles foram
recebidos a bala pelos soldados sentinelas, que naquele momento transformaram o local em um campo de
batalha sangrenta.
Ainda que os seguidores de Conselheiro tivessem uma grande celeridade, munidos de equipamentos
menos vantajosos, parte dos seguidores de Conselheiro pereceram em batalha, parte resolveu se retirar,
deixando para trás uma cena desoladora.
A expedição militar, embora parecesse vitoriosa, estava derrotada, pois seus expedicionários não
tinham mais forças, coragem para atacarem nem a Canudos e nem a ninguém.
Em 29 de Dezembro ocorreu a II Expedição Militar ainda em desfavor de Canudos, e estava contava
com forças federais, policia militar, além de soldados do exército.
Embora o clima de ansiedade fosse grande, festas patrocinadas por autoridades locais buscavam
contagiar toda a tropa com a confiança de uma vitória rápida sobre Canudos. O que não aconteceu, pois em
12 de Janeiro de 1897 ocorre novamente mais uma expedição sem sucesso.
Porém a III Expedição Militar tinha o objetivo de voltar com a vitória da guerra em mãos, para que
assim o Exército recuperasse novamente sua “honra”. Mas somente em 5 de abril de 1897 publica-se a ordem
do dia, criando a IV Expedição Militar contra Canudos.
Sendo assim é publicada a ordem do dia, a qual criou-se a IV Expedição Militar contra Canudos.Após
a surpreendente derrota acima mencionada, no entanto, a opinião publica estava histérica e exigia medidas
drásticas do Governo no objetivo de obterem uma rápida solução do conflito. E assim organizaram a maior de
todas
as
expedições
formada
por
expedicionários
de
17
Estados
os
quais
são:
BA,PE,
PB,SE,AL,PI,MA,AL,PA,SP,ES,MG,RJ,PR,CE,AM. Expedições essas que dispunham com os melhores
equipamento da época e contendo um efetivo de militares de seis brigadas, que estavam divididas em duas
colunas sobre Canudos. Contendo direções opostas, sendo o comandante central o General Artur Costa.
Portanto, a 1ª coluna estava sob o controle do Gal Silva Barbosa saindo de Queimadas e passando
por Monte Santo, compondo um equivalente de 3.415 homens,12 canhões Krupp e 1 canhão Withwort 32. Já
a 2ª coluna encontrava sob o comando do Gal. Claudio Savaget, que partiam de Sergipe mas em tropas
isoladas, as quais se agrupavam em Jeremoabo (BA), com direção a Canudos, composta de 2.340 homens,512
mulheres e 74 crianças.
Mas a guerra de Canudos tem seu fim em 9 de Abril de 1897, quando a primeira Divisão Naval chega
oferecendo apoio às operações militares de Canudos, comportando um efetivo de 5 navios de guerra, os
cruzeiros de 15 de novembro, /Trajano, Andrada, Timbira e Paraiba e o patacho caravelas. A Marinha também
acabou por participar da guerra de Canudos e com sua participação colocou-se um fim na mesma.
Para melhor compreender todas as questões dos conflitos no romance brasileiro de José Geraldo
Vieira é que aprofundei as minhas pesquisas sobre a Primeira e Segunda Guerra Mundial, mas utilizando por
fonte o site www.exercitobrasileiro.com. As informações abaixo são retiradas de forma literal do site acima
citado com o intuito de revelar o que a História Oficial registrou.
No início do século XX, os princípios gerais, conceitos, concepções, normas, métodos e processos
que nortearam doutrinariamente a I Guerra Mundial (1914-1918) exerceram forte influência sobre a doutrina
do Exército Brasileiro.
Com a vitória dos franceses, seus ensinamentos foram introduzidos na Força Terrestre brasileira pela
denominada Missão Francesa, que possuía uma concepção de guerra estritamente defensiva. Essa influência
atuou sobre os três campos básicos da doutrina – a organização, o material e o emprego da Força Terrestre –
e durou até o início da década de 40. Em decorrência dos ataques e das ameaças nazistas ao Brasil, em 1942 o
País declarou guerra à Alemanha.
Nesse mesmo ano, constituiu-se uma comissão mista, brasileira e americana, que influenciou
profundamente a doutrina do Exército, o que acarretou o abandono dos princípios franceses e a adoção do
modelo norte-americano. Organizou-se a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que traria, em seu retorno ao
Brasil, os ensinamentos doutrinários obtidos na convivência com os aliados no teatro de operações italiano.
Formou-se, assim, nesse período, um novo Exército, em organização, meios materiais e emprego operacional.
Paralelamente às mudanças doutrinárias, processaram-se as transformações na organização básica do
Exército. Terminada a guerra, foram aprovadas novas estruturação e articulação da Força e nova lei de quadros
e efetivos, consentânea com as peculiaridades de um Exército eficiente e moderno”.
A 1ª Guerra Mundial
“A posição brasileira no primeiro grande conflito que convulsionou o mundo no século passado
estava respaldada pela Convenção de Haya, firmada pelo Brasil em 4 de agosto de 1914. O País manteve-se
na condição de nação neutra. No entanto, as relações entre Brasil e Alemanha foram abaladas pelos seguintes
fatos: proclamação de guerra alemã feita aos países neutros por meio do confisco da liberdade dos mares;
utilização de portos nacionais para reabastecimento de navios de guerra alemães disfarçados de navios
mercantes; fomentação de greves operárias; e tentativa de mobilização das colônias alemãs em território
brasileiro.
A situação foi agravada pelo bombardeamento alemão, em águas nacionais, dos navios mercantes
Paraná, Tijuca, Guaíba, Acari, Macau, Lapa e Tupi. Estava estabelecido o estado de guerra entre Brasil e
Alemanha.
A abertura dos portos brasileiros a unidades aliadas e a assunção do encargo de patrulhamento do
Atlântico Sul pela Esquadra brasileira foram as primeiras ações em apoio ao esforço de guerra aliado.
A Divisão Naval de Operações de Guerra, comandada pelo contra-almirante Pedro Max Fernando de
Frontin, incorporou-se à Esquadra britânica e realizou o primeiro esforço naval brasileiro em águas
internacionais.
A seguir, foi enviado um grupo de pilotos aviadores navais, em janeiro de 1918, e de oficiais do
Exército Brasileiro para o Teatro de Operações (TO) europeu. Dentre esses, destacava-se o então tenente José
Pessoa Cavalcante de Albuquerque, que comandou um pelotão do 4º Regimento de Dragões do Exército
francês.
Uma missão médica brasileira foi enviada ao teatro de guerra europeu com a finalidade de instalar
um hospital. Integravam a missão 92 médicos, sendo dez militares e os demais mobilizados e convocados nos
respectivos postos privativos de oficiais. Além dos médicos, integravam a missão acadêmicos, farmacêuticos,
pessoal de apoio administrativo e um pelotão de segurança. A contribuição da missão médica brasileira
materializou-se no apoio dado à população francesa contra um surto de gripe que assolava aquele país, o que
garantiu a continuidade do apoio logístico às tropas da frente de combate.
Após o armistício, os bravos brasileiros retornaram vitoriosos à Pátria. Escreveram uma página de
glória em defesa da liberdade dos povos e fizeram com que o Brasil se ombreasse com as nações mais
importantes e poderosas do mundo”.
A 2ª Guerra Mundial – Antecedentes
“Os combates ocorridos no TO europeu a partir de 1939 deixaram o mundo perplexo diante da
violência dos acontecimentos que envolviam novos territórios e nações. A neutralidade brasileira parecia ser
insustentável frente ao turbilhão da guerra.
A posição brasileira veio a definir-se na Terceira Reunião de Consulta dos Chanceleres, ocorrida no
Rio de Janeiro, em 28 de janeiro de 1942, no qual o Brasil anunciou o rompimento das relações diplomáticas
com Alemanha, Itália e Japão, que integravam o chamado Eixo. A ajuda brasileira aos aliados já vinha
ocorrendo na forma de apoio a seus comboios navais. Essa situação ensejou ataque de submarinos alemães
contra a navegação mercante brasileira, sacrificando mais de seiscentas vidas.
A revolta do povo brasileiro em face desses ataques foi fator decisivo para o ingresso do País no
conflito, levando o governo a decretar, respaldado pelo Congresso, estado de guerra aos países do Eixo.
Por sua posição continental estratégica, dominando por meio do saliente nordestino as importantes
rotas marítimas do Atlântico Norte e do Atlântico Sul, o Brasil cooperava com o esforço de guerra de forma
efetiva. Portanto, o ato de declaração de guerra ao Eixo expôs o seu litoral ainda mais aos perigosos ataques
submarinos alemães. A estratégia brasileira foi assim delineada: primeiramente fortalecer a defesa do próprio
território e, posteriormente, enviar tropas para operar, com as forças aliadas, na Europa”.
A participação brasileira
“Com a ativação do TO Norte-Nordeste, organizou-se a defesa da área mais exposta às agressões – o
Saliente Nordestino. Foram articuladas unidades de Infantaria, Artilharia Antiaérea e de Costa, bem como
criado um sistema de vigilância de costa e estruturada a defesa civil.
O passo seguinte foi a organização da FEB, integrada por aproximadamente 25.000 brasileiros dos
quatro cantos do País, dos quais quatro oficiais-generais, 1.535 oficiais, além de três oficiais da Esquadrilha
de Ligação e Observação, 15 oficiais da ativa e reserva integrantes da Justiça Militar da FEB, 25 capelães
militares, 28 funcionários do Banco do Brasil e 67 enfermeiras. Estruturava-se da seguinte maneira: comando;
estado-maior geral; estado-maior especial; tropa especial; Infantaria Divisionária com três regimentos de
Infantaria; Artilharia Divisionária com quatro grupos de Artilharia; uma esquadrilha de ligação e observação;
um batalhão de Engenharia; um batalhão de Saúde; um esquadrão de reconhecimento mecanizado; e uma
companhia de transmissões.
A organização e preparação da FEB esbarrou em diversos obstáculos: a adaptação da doutrina militar
vigente – herança da Missão Militar Francesa – à doutrina americana; a mobilização dos efetivos; o
desaparelhamento material; e a falta de experiência de guerra.
A FEB seguiu para a Europa a bordo de navios americanos. O primeiro dos quatro escalões embarcou
a 2 de julho de 1944, sob o comando do general Zenóbio da Costa; e o último a 8 de fevereiro de 1945.
Logo após a chegada à Itália do 1º escalão da FEB – primeira força latino-americana a desembarcar
em solo italiano para combater as forças do Eixo – houve o recebimento de material e equipamento e a
integração dos brasileiros ao V Exército norte-americano. Em seguida, as forças brasileiras iniciaram um breve
período de adestramento na localidade de Vada e, em três semanas, atingiu os níveis operacionais desejados.
O recém-constituído Destacamento FEB foi atuar na frente de Pisa, integrando o 4º Corpo-deExército do general Crittemberger. Assim enquadrada, a tropa brasileira, em 18 de setembro de 1944,
conquistou Camaiore. Em seguida, cerrou sobre os postos da Linha Gótica, que representavam tenaz
resistência alemã ao avanço aliado.
Assim, em defesa da liberdade, a bandeira brasileira foi empunhada heroicamente pelos pracinhas
brasileiros em solo europeu. Apesar do pouco treinamento e das condições climáticas adversas do terreno, a
missão foi cumprida.
Ainda sob o comando do general Zenóbio da Costa, o Destacamento FEB foi deslocado para o vale
do rio Serchio, conquistando, sucessivamente, Massarosa, Monte Prano, Fornaci, Galicano e Barga.
A 1º de novembro de 1944, com a chegada de novos efetivos brasileiros à Itália, o general
Mascarenhas de Moraes assumiu definitivamente o comando da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª
DIE).
A zona de ação da 1ª DIE era o importante vale do Rio Reno, sobre a rodovia 64 ao norte de Porreta
Terme. Na frente de mais 15 km de extensão, destacava-se pelo seu valor estratégico a elevação de Monte
Castelo. Sua conquista permitiria o avanço do 4º Corpo-de-Exército na direção de Bolonha, importante nó
rodoferroviário situado na região norte da Itália.
Por sua importância no contexto da manobra do V Exército e pelas diversas tentativas de conquista
por parte da tropa brasileira, Monte Castelo representou a maior disputa entre brasileiros e alemães de todo o
conflito. Foi um combate emblemático para a FEB. Coube aos pracinhas brasileiros conquistar após quatro
tentativas, esse importante objetivo militar, a despeito do terreno lamacento e íngreme, do frio e da neve.
A capacidade combativa e o aprendizado rápido dos misteres da guerra por parte da 1ª DIE geraram
admiração e elogios dos aliados em relação às nossas tropas.
A próxima página de glória escrita pela FEB foi a conquista, em 5 de março de 1945, de Castelnuovo.
A perfeita coordenação das ações do 6º e 11º regimentos de Infantaria e o apoio da Artilharia Divisionária
redundaram nessa brilhante vitória militar, que se consumou em cerca de sete horas de combate renhido. A
partir daí, o 4º Corpo-de-Exército pôde se lançar para Bolonha.
A ofensiva da primavera de 1945, em prosseguimento à Batalha dos Apeninos, consistiu em violentos
ataques à posição alemã denominada Linha Gengis Khan. Nesse contexto, destacou-se o esforço brasileiro
para a conquista do maciço de Montese, o episódio mais sangrento da participação brasileira na 2ª Guerra
Mundial. Constituía-se em objetivo decisivo na manobra ofensiva do 4º Corpo-de-Exército. O terreno íngreme
e fortemente minado e a consistente posição defensiva em torno da localidade de Montese foram obstáculos
transpostos com bravura e com o custo de inúmeras vidas dos pracinhas brasileiros.”
O FICCIONAL (conforme consta na história)
A obra O Albatroz tem início com o recebimento de um ofício da morte de Fernando, neto da
personagem Virginia, a qual é mencionada na obra, em terceira pessoa, pelas lembranças de Maurício, irmão
de Virginia.
Mauricio, que foi professor oficial da marinha e no momento estava aposentado, senta-se em uma
poltrona na sala, começa a fazer um barco de papel e de imediato é tomado por recordações, algumas felizes,
mas a grande maioria triste.
A história é narrada pelas lembranças do personagem Mauricio, que enfatiza todo sofrimento da irmã,
a qual estudou no colégio de freiras, não obtendo o carinho da mãe, do pai e nem dele mesmo; embora o seu
pai fosse um médico conceituado na cidade, o mesmo ausentava-se constantemente na Europa onde sempre
estava a fazer novos cursos na área medicinal.
A jovem Virginia conheceu seu sogro, o coronel Aleixo, em uma coincidência no colégio de freiras,
já que ele havia ido visitar sua afilhada, que também se chamava Virginia. Diante do engano ocorrido, o
coronel Aleixo diz a Virginia Gama que nada acontecia por acaso e que na próxima visita levaria seu filho
Artur, que era oficial da marinha, com quem ela certamente se casaria.
Após alguns meses, Virginia encontra com o Coronel Aleixo em um hotel que pertencia a seu pai, e
ali também pôde conhecer Artur, com que logo acabou se casando.
Artur, por ser um oficial da marinha, era muito ausente e Virginia somente fugia da solidão lendo
vários livros, na ausência de seu esposo.
O sogro de Virginia, o coronel Aleixo, gostava de filosofar sobre a pátria, e ele deixava claro nestas
inserções os benefícios do militarismo não somente para o país, mas especialmente para os que nele se
engajavam militarmente. Segundo ele, os militares sempre usufruíam de respeito, admiração aos olhos da
sociedade, além de clubes e outras regalias.
Porém após o coronel Aleixo ser convocado a participar da Expedição da Guerra de Canudos, ali em
meios ao caos da injustiça da guerra em que ele foi um expedicionário, ele envia ao seu filho Artur uma carta,
onde retrata todo o sofrimento da guerra e onde também já está construída uma outra visão de pátria.
No discorrer da carta a seu filho, Aleixo ressalta o perigo de Canudos, construída em forma de
labirinto, sem deixar de mencionar a forma como o governo ignorava a morte dos militares e civis, sem falar
da questão da terra, e todo caos humano e social envolvidos na situação.
O coronel Aleixo morreu em batalha, não por ser alvo de um ataque, ou da mira de um fuzil,
metralhadora ou coisa parecida, nem tampouco pelo tiro que acertou o seu pé, mas por ser vítima de varíola.
Artur é já pai de um filho por nome de Carlos, do qual tinha muito orgulho, por ser conhecedor, ainda
criança, de termos e acontecimentos ligados à marinha. Tempos depois, Artur também morre, vítima de uma
explosão, morte também relacionada à sua participação militar.
Carlos, casado com Emília, que morre de eclampsia, ao dar à luz Fernando, refugia-se de seu
sofrimento pela morte da esposa, nos combates expedicionários da época.
Carlos, oficial da marinha igual a seu pai, não teve destino diferente deste, morreu em uma batalha
expedicionária.
Virginia, que já havia perdido todos os varões da família por conta do militarismo, quis poupar o neto
de futuro semelhante e o criou em uma redoma, protegido dos perigos do mundo.
Mas tempos depois, seu neto é convocado para alistar-se no exército brasileiro e assim tornar-se um
pracinha.
Fernando alista-se e começa a freqüentar a escola militar, sem o conhecimento da sua avó, que ao
saber de tudo se sente muito chateada, mas mesmo assim encoraja o neto a seguir adiante.
Fernando, já um expedicionário da força brasileira, vai à Itália participar da Segunda Guerra Mundial;
ao sair, ele é comunicado de que será um intérprete, e no campo de batalha ocupa este posto por pouco tempo.
No campo de batalha, Fernando faz um diário onde registra quase todos os acontecimentos, e reflete sobre a
sua vida, e a morte dos colegas em batalha, seus desejos, as lembranças dos dias vividos ao lado de sua avó,
dos amigos, dos sonhos e desejos que ainda queria realizar. Diante da situação em que estava, contudo, não
havia mais nenhuma certeza quanto ao seu futuro e ao futuro de seus colegas.
Sua única certeza era a de que muitos daqueles jovens sofriam as mesmas angústias que ele sofria,
mas após participar de vários resgates de prisioneiro os quais pertenciam ao mesmo pelotão, a cada saída para
batalha, Fernando levava consigo apenas a incerteza de retornar com vida.
Após várias idas e voltas ao arraial do inimigo, Fernando é metralhado e assim seu corpo frio tomba
ao solo; sua avó, ao obter tal notícia se entristece, mas o que mais a deixa triste, abatida, é a demora em
encontrar o corpo de Fernando.
Ao término da história, o avô de Fernando, pai de Emilia, mãe de Fernando, diz a Mauricio que ali,
em lugar de Virginia, ficou uma atalaia, e não uma figura mitológica, uma mulher, perplexa e desatinada com
a verificação fatal de que o amor não pode salvar as gerações que um século imolou.
Confronto entre o Real e o Ficcional
Embora os textos oficiais se limitem à narrativa exterior dos combates presentes na História, como
aquele que “vê de fora”, a narrativa ficcional de Vieira se atém à impressão interior dos expedicionários, de
quem participa dos eventos, mas dificilmente tem a oportunidade de expressar o sentimento humano dos
envolvidos nestes acontecimentos sociais, de cunho político, acima de tudo. Os pracinhas passaram quase
anônimos da História de caráter humanista.
É a participação dos personagens da obra, diretamente envolvidos nos combates, que nos revela uma
visão “interior” destas expedições. O próprio personagem do coronel Aleixo, antes convicto de seus ideais,
seguro de conceitos e impressões absorvidas “externamente” ao campo de batalha, confessa uma mudança
radical de princípios operada pela sua participação.
“Virgínia já dera à luz Carlos quando o coronel Aleixo (depois de no seu quartel, nas salas
do Ministério da Guerra e nos conciliábulos de Estado Maior fazer sempre revisão crítica
no histórico e na realidade das expedições a Canudos- cujas notícias pessimistas ou
otimistas o irritavam até quase à apoplexia) – foi mandado pelo Governo à testa dum
regimento, servir junto ao general de brigada Arthur Costa no teatro de operações.
Partiu com tropas, mapas e projetos bebidos em Kromayer e Bressonnet, conceitos e
determinações colhidos em Bonnal, e por longo tempo não remeteu notícias pessoais à
família, por mais que as redações dos jornais e os grupos da rua do Ouvidor
borborinhassem de boatos. Após informes indiretos colhidos no Campo de Sant’Ana,
inclusive quanto à chegada, saúde e ação do coronel, veio sua carta- a primeira e única.
‘Artur,
Escrevo-te não duma barraca de campanha no Alto da Favela, mas duma choça na estrada
do Canabrava, sobre uma tábua atravessada diante de mim. Lá fora está a minha ordenança
de olho vivo e de Comblain preparada, não vá (aqui tudo é possível por que tudo é empírico)
surgir algum êmulo do Tranca- Pés ou do Raimundo Boca Torta com um facão- jacaré ou
com uma lazzarina para me dar cabo do canastro. É que vim para cá com espírito positivo
(inclusive quanto às precauções), e não afoitamente como o Nunes Tamarindo ou o Quirino
Vilarim, pois isto aqui é Canudos e não, como decerto eles pensavam, um campo de
Vernéville onde as tropas se deslocariam segundo os lances de xadrez.
Esta vai mesmo a lápis cuja ponta fiz com uma Parnaíba. Por enquanto mando um relato
às pressas do que tem sucedido, porque conto narrar-te durante noites seguidas no Jardim
Botânico o que vem sendo esta expedição e o que foram as outras, já que aí no ministério,
no Palácio e na rua do Ouvidor ignoram o que isto foi e está acabando de ser. Sim, está
acabando de ser porque vamos arrasar tudo, pois que não temos meios de desviar o VasaBarris para dentro deste monturo. E, se não o fizemos ontem é porque estamos à espera hoje
de que um tal Bentinho e um tal Bernabé nos tragam, conforme prometeram, os únicos
prisioneiros que ‘vamos fazer’, isto é, umas trezentas mulheres e crianças.
A função está no fim. Pudera! Somos aqui uns cinco mil homens, sem contar os que estão
de reserva na estrada de Monte-Santo. Sim, rapaz, onze batalhões. Tropas do Pará, do
Amazonas e de São Paulo, sem contar a polícia deste Estado. O assalto vai ser iniciado por
duas brigadas, com o Dantas Barreto e o Cesar Sampaio. Pretendo escrever-te a próxima
carta já dentro do arraial. Diga a Maria-Amélia e a Virgínia que não se aflijam. Estou no
meu elemento. Esta frase pode parecer ambígua. Quero dizer “em operações” e também no
meu elemento quanto à terra, aos homens, às disparidades humanas e sociais...enfim,
fenômenos e estados de coisas, sobre que, se tivesse tempo ainda escreveria um livro
amargo. Espero que algum gênio anônimo venha a fazer isso um dia para conhecimento de
nossas lazeiras. As de cá e as daí...” (p. 51- 54)
Como citação posterior da própria obra, a previsão do coronel acabaria por se confirmar, com a
publicação, tempos depois, da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, que vem reforçar com fôlego a
recuperação das “histórias” dentro da História, ou seja, a valorização humana daqueles que se envolveram
diretamente na guerra, e não a comentavam “de longe”.
“E sorriu, com saudades do pai, acrescentando enquanto pulava do peitoril para o
assoalho: - E que previsão a dele! Lembra-se daquela carta que mandou de Canudos? “
Espero que algum gênio ainda anônimo venha a fazer isso um dia para conhecimento de
nossas lazeiras. As de cá e as daí...” Que previsão! Que pressentimento! Pois não saiu Os
Sertões?”” (p. 73)
Trechos da obra O Albatroz deixam claro o sentimento de desagregação a que estavam relegados os
expedicionários:
“Em dada manhã os jornais publicam que, devido à atitude do Governo e início de
bombardeio coercitivo da capital bandeirante, os revoltosos a haviam abandonado. As
edições da tarde contavam que eles se tinham dirigido para Bauru. Virgínia leu isso com o
neto no colo e o apertou não por especial emoção advinda dessa notícia em si; mas por que
de súbito se lhe apresentou o passado, o presente e até mesmo o futuro; e porque viu e sentiu
que era necessário livrar e defender Fernando duma espécie de força aspiradora e
redemoinhante que, por alguma lei de constância, parecia escolher e destinar os varões da
família para sacrifícios trágicos, elegendo-a sinistramente como testemunha dos períodos
rítmicos dessa condição. Que destino seu era esse?” (p 118-119)
“ Virgínia fora despojada do filho no sentido de não o ter mais ali junto de si nem de
Fernando. Passara a ser paradoxalmente irreal e ausente porque, posto em termos de filho
e de pai, se tornara um mito; porque, posto em termos e de soldado e oficial, não estava em
nenhum quadro da legalidade, mas fazia parte de um grupamento tático, alhures. Como
filho e pai se desagregara do lar, e como soldado oficial saíra dos quartéis, mas tornara
difuso, legendarizado, núcleo de boatos e consta onde os episódios se iam deformando em
mística. Dera para estudar sociologia, marxismo, optara pela Esquerda, vivia nos
subterrâneo da clandestinidade. Mesmo ausente, não ficara reduzido a esquema de
lembranças, porque o anuviava a apoteose,esse consenso brusco, imediato de louvor, essa
teoria amorfa de apreciação transubstanciando realidades e fatos.” (p. 121)
E toda a fragmentação psicológica a que estavam expostos:
“Assim, a providência imediata é inventar para uso provisório e urgente a assimilação do
absurdo, e cria uma filosofia sumária. O mundo e a realidade estão limitados a Isto aqui,
para nós. E deixa de existir o tempo, ficando só uma relação de espaço entre a expectativa
e o pânico.”.(p. 207 – 208)
“ – Fernando acha-se em ótimas mãos : logo, não podia estar melhor. Quanto a mim, não
sei se resolvo fazer o curso do Estado Maior. Penso mais em arranjar transferência para
uma guarnição longínqua, de fronteira. Mãe, onde é que acaba o desespero e começa a
resignação? (p. 116)
“ Mas a verdade é que a disposição sistemática de atividades mentais me foi faltando,
sempre sendo adiada ou jamais encontrando ensejo adequado, já que éramos cinco mil
pessoas e eu sofria dum modo ou de outro influências descentralizadoras que me punham à
mercê de regulamentos, episódios de rotina, sobressaltos teóricos, contingências vulgares,
anedotas, boatos, divulgações, peripécias, explosões de gíria, principalmente. Isto então, a
gíria, se me apresentou como uma habilidade tática e subconsciente para dissociar
atmosferas tensas”. (p.196)
“Depois o Assunção fez um número imitando Mussolini na sacada do Palácio Veneza e uma
algaravia imitando Hitler, com o competente bigode e os respectivos socos. E fez tão bem
que um dos ouvintes, o cabo Aristeu, um chocado de guerra que saira dum hospital de
restauração psicológica, teve um acesso, danou-se a quebrar tudo quanto era garrafa, e
mandar diretos nos queixos dos partigiani, a virar cadeiras, balcão, lâmpadas e
harmônicas.” (p. 224 – 225)
E todas as suas famílias, engolidas pelo turbilhão doloroso da espera, da angústia, da incerteza e da
solidão.
“Sim. Essas coisas estão escritas, predeterminadas. A isso chama o Fado. A isso se chama
a Tragédia. Dor, e isso só. Desgraça, tudo, hecatombe, catástrofe são fórmulas verbais para
dizer isso de fora. Porque o que isso é, o que foi, o que vinha sendo na sua alma, no seu
corpo, ela não diria a ninguém por mero recato.(..).” (p. 129)
O pracinha Fernando conscientiza-se que deixa de ser um observador externo da História, e
passa a ser partícipe dela; a sua visão, antes mitificada, transmitida por um discurso oficial exterior, modificase, e ele a vislumbra claramente, como quem a constrói e vivencia pelo “lado de dentro”.
“(...)Chegamos. Não sou mais o aluno de História da Civilização de meu tio-avô Maurício.
Não me lembrei sequer da pirâmide Queops, de meu bisavô Aleixo! Agora que quero ver
Nápoles, o ponto atulhado de navios cujas proas parecem guelras de carcaças; agora que
os armazéns e o casario em hemiciclo parecem e são uma ruína ainda sangrando e
fumegando; agora que a multidão nos espera para mendigar; agora que já sobem a bordo
vários figurões autênticos e não do meu devaneio, enquanto uma guarda de honra presta
continência; agora que ressoam os altos-falantes e estou formado, que sou um simples ponto
de configuração geométrica no tombadilho; agora que já não sou mais nenhum submúltiplo
de ninguém e sim eu, com todas as veras da minha curiosidade realística, - me vou dando
conta de toda essa realidade que aí está parada diante de mim: séculos de glória e
degradação.” (p. 201)
A obra faz, ainda, menção quanto aos sofrimentos dos combatentes expedicionários das revoltas, que
tiveram início dentro de sua pátria, o Brasil. Expedicionários que derramaram sangue de seus irmãos de pátria,
perderam amigos e suas próprias vidas, em um espetáculo inadequado para a pureza de jovens almas, com
corpos já tão maculados pela guerra.
“Não
lhe contei, contudo, por exemplo, que no dia 11 durante os exercícios reais se deu a
explosão duma mina ferindo diversos rapazes da 6ª companhia. Vendo como ficou e como
morreu o Gonçalves, senti a verdade daquela expressão de Habacuc: “ Tendes os olhos
puros demais para ver o mal e enxergar a iniqüidade”. Realmente. A mocidade é pura
demais, ainda, apesar de tudo, para afazer-se a isto. Existe nela assim jungida à guerra,
qualquer coisa de Prometeu e de Hipólito cujos suplícios se correspondem em faces do bem
e do mal. A mocidade esta ainda próxima de Deus, que é a criação, e longe do demônio, que
é a destruição. E a dor física (ou a deformação) significa um sacrilégio a harmonia da
ordem criada. Ver um corpo humano estilhaçado é como ver um templo caído. Ver sangue
banhando a morte duma criatura, ver seus recessos expostos, é assistir a conspurcação
eucarística.” (p. 207)
“Se um pracinha morreu por não saber nadar nada direito no Tirreno, se o Oliveira perdeu
o pé num regato e se afogou, isso ainda a vida em liberdade, foi ainda um desejo de união
com a natureza, como a folha nova que o vento atira nas águas e que desce fundindo-se à
correnteza. Mas se o Assunção, com esse nome acima das contingências, e o Gonçalves
morrem esquartejados por explosões, parece então que não é só a guerra que é horrenda, e
sim o fato da ciência se vender ao sofrimento afoito do sobrenatural. Vender-se às cegas,
sendo instrumento afoito de subserviência. O caso, por exemplo, do jeep que estraçalhou o
Francisco que ia distraído por uma estrada. Só a mocidade pode pensar que uma estrada
em tempo anormal seja platinada para paisagens e não pista para escalar o Tempo através
dos sucessivos Limites”. (p. 208)
Tiveram não somente seus corpos como suas memórias enterradas no cemitério do esquecimento, não
sendo esquecidos somente pela memória de seus familiares.
“(...) Assim, enquanto Nany se desesperava na treva dum túnel de desvalimento, Maurício
se via atrás de extensa perspectiva para onde se abriam portas lançando golfadas de cenas
e de diálogos, onde ele via e ouvia: Artur e Virginia lançando Carlinhos numa espécie de
trapézio na chácara do Jardim Botânico; Emília com o rosto apoiado no violino do qual
seus cabelos louros pareceriam infinitas cordas de sons arquiangélicos; Carlos, barbudo e
severo, no primeiro plano dum painel ecológico; Fernando a cavalo, jogando pólo, a dupla
imagemparecendo um centauro; Virgínia, com os cabelos grisalhos ao vento, apoiada sobre
a bossagem do promontório à espera de que o horizonte túrgido lhe devolvesse seus mortos,
enquanto suas próprias lágrimas, como resinas da serra, a ligavam ao oceano... Depois, o
raciocínio lógico, sem romantismo nem apoteose: a mera recordação quase cronológica
dos fatos medonhos vindo em sentido contrário, crescendo, como ondas de encontro a uma
rocha.” (p. 255)
“- Ficarão ali sempre, de atalaia, vigiando- disse o velho Nunes a Maurício. E, ao ouvir o
pranto de ambas, acrescentou. _Não são duas figuras mitológicas, não. São duas mulheres,
mesmo. E o que as põe perplexas e destinadas é a verificação de que o amor não pôde salvar
as gerações que este século imolou.” P 263
A obra relata, ademais, o descaso com o sofrimento das famílias dos expedicionários, que
vivenciaram grandes tristezas e horas de intensas amarguras, segundo Vieira.
“A solidão, na verdade, tem sido apenas minha.
Sorriu com ar resignado, apontou para fora e para longe, para o mar e para o horizonteduas cores superpostas, bem densas. – Ouve este mar, Fernando? Esta ouvindo o mar? Devo
odiá-lo? Ou não?Nele foi despejado como lingüeta de chumbo o cadáver do seu bisavô.
Nele se abateu em estilhaço seu avô. De encontro a ele caiu como um estilhaço seu pai, o
exilado. Nele, agora, vai você para a guerra. Aqueles que me foram arrancados como
pedaços da alma e da carne, parecem assim mortos, mais presentes do que nunca, porque
nessas águas estão como o sal. Odiei o mar quando fiquei viúva; execrei-o desde que perdi
meu filho. Onde estarão eles? A Eternidade, essa, não vejo nem localizo. O mar é isso ai.
Então vim para junto dele, como vigia, como sentinela se rendendo a si própria. Que tenho
sido eu nesta minha prolongada existência senão uma carpideira? Aqui tenho que perdurar,
mordendo as pedras que as lembranças me atiram. (p. 168)
“- Fernando, co- partícipe de todos os horrores, pois é de nossa família o vezo do contato
com a tragédia. Reservei-o sem querer para cordeiro de holocausto. Aqui fico à espera do
seu retorno. Volte com a paz, faça como soldado o que meu pobre filho não pôde fazer como
tenentezinho adido a delegações e congressos. Volte noivo da paz, a qualquer preço, que
bem caro o entrego ao sacrifício. E é impossível que, após os outros , desta vez não irrompa
o anjo que se interpôs entre Abraão e Isaac. –Abarcou-me e comentou:- Para os críticos,
estas imagens são literária. Para nós que as sentimos são verdadeiras.
Ficamos ali quietos diante do oceano para cuja percepção as estrelas eram vãs. Mas nossos
ouvidos captavam seu mistério familiar... (p. 169)
Despersonalizados, despreparados para a realidade que os absorvia, os pracinhas eram expostos ao
teatro de horrores da guerra, que os desarraigava do tempo, do espaço, de si mesmos.
“E eu me lembrava de novo da expressão de Habacuc, mas sem delirar como o bom Aristeu:
‘Tendes os olhos puros demais para ver o mal e enxergar a iniqüidade’. Como é que se joga
a mocidade neste absurdo? Como não hão de estar repletos os grupos suplementares do
Serviço de Saúde em suas seções de restauração psicológica, se só o troar da artilharia já
basta para desequilibrar um cérebro?
Entregamos o Aristeu a braços que não afastarão da hecatombe, mas que lhe tonificarão
os nervos para voltar ao teatro da catástrofe. É o que espera estes acidentados que vejo na
enfermaria com aparelhos de gesso. Foi o que me declarou aquele médico ianque, que sabia
bem curar estados histéricos, ansiosos, fóbicos, convulsivos, neurastênicos, debelar com
arte mágica as órgano- neuroses e as neuroses traumáticas. É o que espera aquele indivíduo
que tem sobre si, como helicóptero, uma engrenagem de fios, pás, roldanas e carretilhas,
com algarismos escritos em baixo dizendo em que data, já submetido a massagens e
exercícios, poderá voltar.(...)” (p225-226)
“É que os fatos imediatos referentes à minha pessoa estavam demonstrando afinal de
contas que eu pertencia a um sistema universal de organização ora centrípeta, ora
centrifuga, e que portanto minha individualidade, embora correspondendo a um número
(conforme tudo quanto é elemento de quantidade e de problema) sofria influências e também
influenciava os fenômenos mundiais(...) a guerra me aguardando a milhares de milhas; a
possibilidade de morrer; a lembrança de cenas cinematográficas da minha vida na frente
de batalha; os primeiros contatos com o mundo de horrores- eram pensamentos que
punham meu espírito em rotação centrípeta, fazendo-me confluir para o recesso mais
nuclear da angústia; ao passo que a compreensão de que eu não nascera para usufruir a
vida enquanto outros se expunham; a vontade teórica e ética de liquidar com a barafunda
do mundo e cooperar(como simples parcela, mas enfim cooperar) para uma solução de
emergência a que decerto se seguiria uma solução coerente com a razão; o conceito de que
ia viver uma fase de exceção e que disso me adviria uma experiência rente ao absurdo e ao
anômalo; a curiosidade precavida mas insopitável de abeira-me duma condição patética e
infernal; a resignação disfarçada em plenitude; o perigo admitido e por isso mesmo atuando
como tentação- eram pensamentos que punham meu espírito em rotação centrifuga fazendome expandir para a distância, o tempo, o espaço e a responsabilidade. ”(p. 190)
Despersonalizados, eram todos “instrumentos” de um “ideal” maior, que os anulava individualmente
a todos, e coletivamente a cada um, na impossibilidade grotesca da vivência natural das experiências próprias
da juventude “saudável”:
“(...). Cada qual representava a mesma geração para a pátria e para o tempo. O pobre e o
esfarrapado; o ignorante e o desnutrido; o rico e o operário; o estudante e o funcionário.
E, afinal, que diferença havia nos corpos e nas almas? (...)” pag 193
“Eventualmente, porém, ali agora prestes a desembarcar, éramos uma só mocidade,
sofrivelmente adestrada contra a arte da morte(...) duma estratégia e duma tática que
deixavam a batalha de Gravelotte como ingênuas peripécias de xadrez, conforme diria meu
bisavô Aleixo.” (p. 194)
Envoltos por um “interesse” maior, político, econômico, que subjugava o humano, mas que,
simultaneamente, não atingia a todos de igual maneira:
“Escuta, Nanny, eu vou para a guerra. O meu regimento vai partir. Pronto. Eu já disse, tu
já estás ciente. O governo resolveu e eu embarco por estes dias...
Que reação! Chorou, zangou, decompôs-me por haver guardado segredo, abraçou-me,
queixou-se do Estado Novo, dos Aliados, dos nazistas, dos fascistas, de Churchill, de
Roosevelt, de Milton, de Júlio, de Lauro, escondendo por fim os soluços no meu peito, com
os cabelos castanhos roçando o meu queixo.
-Tu sabias e me escondeste! Isso não se faz! Foi uma crueldade. Não mereço isso! Devias
ter sido sincero comigo. Não foste gentil.
-Juro-te que não sabia.
-Mentes. Impossível. O governo não pode tratar vós como des outils. E então a dignidade
humana, isso não conta entre vós outros, aqui?”(p. 179-180)
“Cada vez que tombei no monte Halak, em Goshen, Jericó, Zama, Farsala, os mágicos me
deram vida nova para morrer de novo em Azincourt, Verdun, Madri, Narvik e Estalingrado.
Pois este é o ciclo eterno e reversível: sempre que cresço e fico moço, morro.
Eu quero arar os campos para o trigo, quero vigiar rebanhos nas encostas, cantar nos
estaleiros e altos fornos. Mas me arrancam das aulas e dos teares e me jogam no lodo das
trincheiras.
Não adiante chorar, Malamatênia! Corta as entranhas, para que eu não nasça! (p.214-215)
“Quando o governo resolveu mandar uma Missão Médica ao teatro das operações de
guerra na Europa, tia Judite se mexeu afoitamente nos ministério, na Câmara e no senado,
até arrancar a nomeação do filho Eusébio, não admitindo nem de longe a hipótese dum civil
ou militar cá destas bandas poder vir a ser vítima da hecatombe. (..)”p98
Entretanto,
o
escritor
foi
muito
feliz
ao
intitular
a
obra
de
O
Albatroz, que parece mesmo ser referência a todo pracinha, em campo de batalha. É sabido que o pássaro
albatroz não consegue sobreviver no chão, o mesmo fica desajeitado, pois os albatrozes nada conhecem da
terra firme. O mesmo acontece com os pracinhas ao serem convocados, que nada sabem da guerra, da arte de
matar, de empunhar armas, de táticas e estratégias militares, pois que estão em matéria de sonhos, ideais,
planos, expectativas, próprios da mocidade, como lembra mesmo Fernando, “puros” demais para todos aqueles
horrores, diante dos quais não sabem como agir ou reagir.
“_ Peito bom, queixada boa, eu tenho. Mas. Que sabemos nós de guerra moderna? Não
conheço o fuzil Garand, não sei como é o morteiro de 60 m/m, não faço a menor idéia da
metralhadora leve ponto trinta, do canhão anticarro de 59m/0, do obus 105, da bazooca. Não
pesco nada de radiofonia nem de rodiotelegrafia; para mim isso de minas, manipuladores de
compressor de ar mortelete mecânico, é grego!”(p. 159)
“- Ora! Entende mais do que nós dois. O receio dela é que exatamente agora, na guerra, eu
me atrapalhe deveras tropeçando numa realidade medonha...No íntimo, a avó Virgínia
reconhece que me criou muito feito albatroz, nas alturas, e que, de repente...Sim, ela tomou
isso como um aviso teu.”( p. 183)
Situação particular de um “albatroz”, em que os expedicionários só puderam saber que iriam vivenciar,
depois de se verem sem saída diante de todos os acontecimentos.
“Por conseqüência, a viagem e a distância cada vez me afastam não da pátria e da família,
mas de mim mesmo, e eu me despedia de mim próprio, dissociado em dois. Um que criticava
e analisava, e outro que sentia e se diluía; despedia-me do que tinha sido, sem conseguir
supor ou imaginar sequer o que iria ser, já que me ia tornando peça ínfima dum compoud.
Sim era o albatroz de Baudelaire e de Melville, descido no convéns.’ (p. 196- 197)
Para alguma coisa fui criado, Mas recebi uma educação que em face da rotina e do
cotidiano me deixa como aquele albatroz de Baudelaire e de Melville, a que se referiu Nany.
Meu tio-avô Maurício me educou para exceção e modelo logarítimo.” (p. 211-212)
A simbologia alegórica do mausoléu da família também serve de recurso lacunar metafórico da
representação dos fatos que a História “abriga” e daqueles que ficam relegados ao esquecimento, abandonados.
A grande sepultura da História, tal qual o mausoléu da família do coronel Aleixo, é, muitas vezes, um grande
vácuo de nomes que jamais figurarão efetivamente nos espaços que, teoricamente, lhes eram de direito e de
cujas dores jamais saberemos.
O Albatroz, de José Geraldo Vieira, traz um olhar diante dos acontecimentos mundiais que revelam
o âmago da calamidade, do que o ser humano sofre diante das dos caprichos dos Governos, que os levam como
ovelhas ao matadouro. Limitados aos informes de números, decisões oficiais e estratégias, os expedicionários,
imersos nas catástrofes de dimensões planetárias, representam o sofrimento de caráter universal, recuperado
na ficção mais realista do escritor.
A obra faz despertar reflexões quanto aos absurdos a que os seres humanos são atirados, em que o
próprio sentido de humanidade se perde, se desfaz.
Considerações Finais
Durante análise da obra O Albatroz, é possível perceber a preocupação do autor em ressaltar todo
efeito provocado pelas situações de guerra nos indivíduos. A dor das pessoas, com a perda e distância dos
expedicionários, representada, na obra, pelo sofrimento da personagem Virgínia. E não somente os civis do
Brasil. O personagem Maurício representa os oficiais aposentados, aqueles que resistiram do campo batalha
ou não necessariamente o enfrentaram, porém não deixaram de sofrer uma espécie de “morte interna” pela
terrível lembrança das dores de uma guerra.
Além, claro, daqueles que pereceram em combate ou no cenário em que eles ocorreram. É o caso do
coronel Aleixo, que faz uma denúncia quanto à Revolta de Canudos, que não somente marcou profundamente
aqueles que participaram militarmente das expedições, mas principalmente os que foram as maiores vítimas,
as crianças e mulheres. Os personagens de Artur e Carlos alertam para as vidas dos oficiais perdidas no
processo militar e o personagem de Fernando, é o que nos leva a uma enorme reflexão quanto aos inúmeros
jovens, ou seja, os pracinhas, que tiveram seus sonhos destruídos antes mesmo de chegarem ao campo de
batalha, antes mesmos de seus corpos tombarem ao solo.
Na obra pesquisada, observa-se a verdade humana revelada no sofrimento angustiante do coração
dilacerado da personagem Virgínia, cuja altivez a transpõe para uma dimensão mítica, ao longo da seqüência
de perdas insubstituíveis de pessoas especiais (sogro, esposo, filho e neto), combatentes da Força
Expedicionária Brasileira.
Porém, a inquietação axiológica empática da dor que constitui a efervescência metropolitana tornase também universal na obra O Albatroz, de José Geraldo Vieira, já que sua narrativa transporta o leitor a um
passado mais distante, potencializando um sentimento de fragmentação próprio das situações de caos da
humanidade.
Deste modo, sua narrativa recebe os influxos sociais, que servem de matéria para sua obra, ao mesmo
tempo em que sua produção ficcional resgata o sentimento de humanidade, muitas vezes, diluído em cenários
militares. O que leva a sociedade a um processo de reflexão sobre si mesma e as transformações que a História
impõe a seus indivíduos, ainda que a expressão humana dessas experiências raramente figure no legado social
desses períodos. Desta forma, parece-nos coerente afirmar que a ficção, muitas vezes, com suas “histórias”
suplanta em humana verdade a real “História” da humanidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOSI, Alfredo. Histórica concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.
CANDIDO, Antonio.Literatura e Sociedade. São Paulo: Queiroz,2000.
OLIVIERI,Antonio Carlos. Guerras e Revoluções Brasileiras Canudos.Editora Ática1997.
SITE: www.exercitobrasileiro.com: acessado em 15/09/2010 as 15h00min
VIEIRA,José Geraldo,O Albatroz.São Paulo:Clube do Livro,1978
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A Questão Humana no Romance de José Geraldo Vieira