INTERVENÇÕES/PROJECTOS apoiados pelo FUNDO SOCIAL EUROPEU
√ Artigo sobre o projecto “Poder Caminhar”
(IGFSE 2010)
Inclusão promovida dentro e fora da prisão
Duas candidaturas, em Leiria e Lisboa, viabilizaram um projecto invulgar de
formação de jovens reclusos que inclui aqueles que lhes são mais próximos fora da
prisão. Preparar o regresso destes jovens à sociedade e participar no seu projecto
de vida são desafios assumidos por pais, irmãos, tios, avós, namoradas e amigos.
Bruno completa 23 anos de vida e sopra a vela do bolo que a avó, a tia e o irmão lhe
trouxeram. Para sua felicidade, timidamente estampada no rosto, o dia de
aniversário coincide com a sessão de formação que traz a sua família ao
Estabelecimento Prisional de Leiria (EPL), onde está detido desde 2008. A avó e a tia
de Bruno não hesitaram em aceitar fazer parte do projecto “Poder Caminhar”,
promovido pela Associação Humanidades, em parceria com o EPL, a Direcção Geral
dos Serviços Prisionais e a I.Zone Knowledge Systems (empresa de consultoria,
formação e desenvolvimento de tecnologias de informação). O projecto prevê a
participação de familiares ou outras pessoas relevantes na vida do recluso (amigos,
namoradas, etc), aos quais se atribui o nome “significantes”, na preparação da sua
reintegração na sociedade.
Vocacionado para jovens em fim de pena, o projecto “Poder Caminhar” começou a
ser implementado em Julho de 2010 no EPL, com acções de formação para 12 jovens
reclusos, todos com saída da prisão prevista para o primeiro semestre de 2011. Em
sessões de grupo recebem formação em temáticas que se poderão revelar basilares
para o recomeço de uma vida fora da prisão. Planeamento e gestão da vida pessoal,
Competências para o emprego, Matemática para a vida, Criatividade e arte,
Comunicação e relação interpessoal, Igualdade de género, Estilos de vida saudável,
mas também Informática e Português compõem os módulos ministrados por
diferentes formadores, procurando consciencializar os reclusos que a sua
reintegração na sociedade não será fácil e que precisam de estar munidos com o
maior número possível de competências para fazer face à dura realidade que se
preparam para enfrentar.
A importância do apoio contínuo
Além das sessões de grupo, o projecto inclui sessões individuais com os formadores
de referência, para a elaboração, caso a caso, de um projecto de vida. São estes
formadores que, além das competências que transmitem, acompanham, passo a
passo, o progresso dos jovens na construção, individual e familiar, de um novo
percurso para as suas vidas. Às famílias (ou pessoas “significantes” na vida do
recluso) é proposto que participem nessas sessões para que se envolvam
pessoalmente no projecto de vida elaborado pelo recluso e preparem desde já a sua
chegada à comunidade. Bruno tem um jeito especial para desenhar e até pensou em
IGFSE/NC
1/3
enveredar pelo Design, mas está agora mais empenhado em seguir uma profissão no
meio dos penteados. Treina diferentes estilos nos colegas e prepara agora o seu
portefólio com fotografias dos penteados mais criativos. A tia de Bruno
comprometeu-se a procurar informações sobre os cursos que ele poderá frequentar
para seguir o seu projecto. “Vir aqui é importante para que ele veja que não está
sozinho. Nós vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para que o regresso dele
seja mais fácil”, assume a tia do recluso.
Do mesmo grupo de formandos faz parte Luís, de 25 anos, detido em Leiria desde
2003. Foi no EPL que concluiu o 9º ano de escolaridade e na sessão individual que
teve hoje com a formadora Joana Lapa recolheu na Internet algumas moradas que
lhe serão úteis para se inscrever nas “Novas Oportunidades” para concluir o 12º ano.
“Arranjar emprego é o meu grande objectivo. Sei que o país vive uma crise e que não
é fácil arranjar emprego, logo mais difícil será para mim. Quando sair, vou
certamente sentir-me perdido, mas pelo menos já levo algumas orientações”, revela
o recluso, para quem “este projecto está a ser muito útil e a nossa relação com os
formadores está a ser cada vez melhor”.
Com um horizonte profissional mais concreto, Luís António, de 22 anos, espera a
saída da prisão onde passou os últimos 15 meses para emigrar para a Suíça com a
namorada e a filha de 3 anos. “Já lá tenho um cunhado e vou para lá viver e
trabalhar como pintor de paredes”, afirma com convicção. “Neste curso aprendi
sobretudo a planear a minha vida. Já tinha uma ideia daquilo que ia fazer, mas agora
está tudo mais claro e sinto-me mais preparado. Aqui aprendi também a prever o
que pode dar certo e errado nos meus projectos”, conta o recluso. A mãe e a
namorada participam activamente no projecto e Luís António reconhece que “é
muito importante saber que conta com esse apoio exterior”.
No total, são 542 horas de formação co-financiada pelo Fundo Social Europeu (FSE)
através do Programa Operacional do Potencial Humano, para dois grupos de 12
reclusos. Como as verbas são atribuídas territorialmente, a Associação Humanidades
criou o projecto “Poder Caminhar Leiria”, para a formação dos reclusos, e o projecto
“Poder Caminhar Lisboa”, para as sessões com os familiares e significantes dos
reclusos.
E em todas estas sessões é trabalhado o desenvolvimento de uma rede de suporte
ao recluso, que o ajudará a concretizar o seu projecto de reintegração na
comunidade envolvente, seja no meio escolar ou profissional. “Sem o FSE seria
impossível avançar com este projecto, que é o primeiro desta natureza a ser
implementado com reclusos e com aqueles que lhes são mais próximos”, reconhece
Isabel Lopes, coordenadora do projecto na Associação Humanidades. “Não
queremos escamotear a realidade e por isso temos jovens conscientes da realidade
de exclusão que vão enfrentar. O nosso objectivo é fazê-los reflectir sobre o que
querem fazer quando saírem da prisão. E as famílias, que ficaram muito espantadas
com este projecto, estão hoje muito mobilizadas”, constata Isabel Lopes. “Apenas
estamos a preparar estes jovens para que eles sejam respeitados como cidadãos,
evitando que eles reincidam na criminalidade e promovendo efectivamente a sua
inclusão”.
IGFSE/NC
2/3
Missão: combater a exclusão
A ideia de submeter o projecto “Poder Caminhar” surgiu de uma reflexão sobre
alguns dos problemas que mais afectam as jovens utentes do Centro de Apoio à
Mulher que a Associação Humanidades criou há 11 anos. Ali é dado apoio a
diferentes situações de gravidez na adolescência, proporcionando às jovens grávidas
ou recém-mamãs a possibilidade de prosseguir os estudos ou dar início a uma
carreira profissional, contando com o apoio necessário para cuidar dos seus bebés
durante todo o período de construção de uma nova vida familiar. “Percebemos que
muitas destas jovens grávidas têm parceiros mais velhos, em percurso de reclusão, e
por isso decidimos desenvolver conteúdos de formação e metodologias de
estruturação de um projecto de vida também para o sexo masculino. É assim que
nasce o Poder Caminhar”, explica Isabel Lopes, coordenadora do projecto.
“Chegámos facilmente à conclusão de que a intervenção não poderia ficar limitada
ao Estabelecimento Prisional de Leiria, por isso decidimos submeter uma segunda
candidatura para alargar o projecto às famílias dos reclusos ou pessoas mais
próximas, que os vão acolher após a saída da prisão”, relata Isabel Lopes, segundo a
qual “as famílias reagiram com espanto, duvidavam que os seus familiares reclusos
estivessem a ser alvo de tanta atenção, mas hoje estão muito mobilizados. Em
alguns casos estão já a desenvolver contactos na comunidade para que eles
frequentem cursos ou consigam trabalho após a saída”.
A Direcção Geral de Serviços Prisionais recebeu o projecto com cautela, confirma
Isabel Lopes, salientando que esta é a posição mais natural de uma entidade que já
viu muitos projectos de formação de reclusos dar entrada nos estabelecimentos
prisionais, uns deles com mais sucesso que outros. “Mas hoje o projecto é
claramente bem recebido, está a ser monitorizado em permanência e estudamos
cada evolução individual”, assegura a responsável da Associação Humanidades.
“Estes jovens estão conscientes da realidade de exclusão que vão enfrentar e nós
também não quisemos escondê-la. Eles receiam sobretudo a discriminação e o
desemprego. Muitos deles estavam prestes a sair sem objectivos na vida e sem
qualquer apoio para concretizar os seus sonhos, os seus projectos. Queremos fazêlos reflectir sobre o que querem e ajudá-los a calendarizar os próximos passos”.
IGFSE/NC
3/3
Download

texto completo