O COMPORTAMENTO DO PREÇO DO LEITE TIPO C PAGO AO PRODUTOR
NO ESTADO DE SÃO PAULO CONFRONTADO COM A REALIDADE DOS
PRODUTORES DA MICRORREGIÃO DE MARÍLIA
[email protected]
APRESENTACAO ORAL-Comercialização, Mercados e Preços
SIMONE GOLDMAN BATISTIC RIBEIRO; SANDRA CRISTINA DE OLIVEIRA;
LEONARDO DE BARROS PINTO; ANDRÉA ROSSI SCALCO.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA, UNESP - TUPÃ - SP - BRASIL.
O comportamento do preço do leite tipo C pago ao produtor no Estado
de São Paulo confrontado com a realidade dos produtores da
microrregião de Marília
Grupo de Pesquisa: Comercialização, Mercados e Preços.
Resumo: O agronegócio é o maior negócio da economia brasileira e também da economia
mundial. Dentre as atividades que se destacam no agronegócio nacional, especificamente
no estado de São Paulo, tem-se a pecuária leiteira. Esta é uma importante atividade
econômica geradora de emprego e renda para o estado. O presente trabalho teve como
objetivo principal estudar o comportamento do preço médio mensal do leite tipo C, pago
ao produtor paulista, confrontando com a realidade vivenciada pelos produtores da
microrregião de Marília. Para tanto foram utilizadas informações econômicas sobre a
atividade leiteira no estado de São Paulo, no Brasil e no mundo, de modo a posicionar o
papel do produtor de leite tipo C, bem como a sua remuneração. Foram utilizadas ainda
técnicas de séries temporais, baseadas em alisamento exponencial, para analisar o
comportamento do preço médio mensal do leite tipo C, pago ao produtor paulista, no
período de agosto de 1994 a outubro de 2009, deflacionado pelo IGP-DI. Desta forma,
pôde-se comparar e discutir os resultados desta análise com as informações obtidas por
meio de uma pesquisa com uma amostra de produtores da microrregião de Marília e com
as demais informações existentes na literatura. De uma forma geral, observou-se que o
preço médio mensal do leite tipo C no estado de São Paulo aumentou nominalmente nos
últimos anos, aliado ao aumento da produtividade, porém tem-se observado uma queda
acentuada do número de produtores e na produção em todo o estado. Esta situação também
tem sido fortemente vivenciada pelos produtores da microrregião de Marília, que já foi
considerada uma das maiores bacias leiteiras do estado de São Paulo.
Palavras-chave: preço, produção leiteira, técnicas de séries temporais.
The behavior of the price of milk type C paid to the milk producers from São
Paulo State confronted to the reality of the producers from the micro region of
Marília.
1
Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2010,
Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural
Abstract: The agribusiness is the largest business of the Brazilian and world economics.
Among the activities that stand out in national agribusiness, specifically in São Paulo State,
there is the milk production. This is an important economic activity that provides
employments and income to the state. This present work had, as the main goal, to study the
behavior of the monthly average price of the milk type C, paid to the milk producers from
São Paulo State confronted to the reality of the milk producers from the micro region of
Marília. Therefore, some information about milk activity in São Paulo, in Brazil and in the
world were used, in a way to position the role of the milk type C producers, as well as their
remuneration. Time series techniques were used, based on exponential smoothing, to
analyze the behavior of the monthly average price of milk type C, paid to the producers
from São Paulo State during the period from August 1994 till October 2009, deflated by
IGP-DI. In this way, it was possible to compare and to discuss the results of the study to
the information obtained from a research made with a sample of producers from the micro
region of Marília and from literature. Generally, it was observed that the monthly average
nominal price of the milk type C from São Paulo State increased in recent years, as well as
the productivity, however it has been observed a sharp drop in the numbers of producers
and in milk production in the whole State. This situation also has been strongly
experienced by the producers from the micro region of Marília that once was considered a
dairy region from São Paulo State.
Keywords: price, milk production, time series techniques.
1 Introdução
A pecuária leiteira destaca-se entre os principais segmentos do agronegócio
nacional e desempenha um papel relevante no suprimento de alimentos e na geração de
emprego e renda para a população brasileira e, especificamente, para o estado de São
Paulo.
O maior produtor mundial de leite são os Estados Unidos cuja produção em 2007
foi de 84.189 mil toneladas, seguido pela Índia e pela China. O Brasil destacou-se, neste
mesmo ano, como o sexto produtor mundial, com uma produção leiteira de 25.327 mil
toneladas (FAO, 2007).
O maior produtor de leite do Brasil é o estado de Minas Gerais sendo, atualmente,
responsável por cerca de 30% da produção brasileira. O estado de São Paulo, cuja
produção era considerada a segunda do Brasil em 1998, foi perdendo posição a partir de
1999, até que em 2007 ocupou a sexta posição com 1.627 milhões de litros (IBGE, 2008).
Este foi ultrapassado pelos estados do Rio Grande do Sul, Goiás, Santa Catarina e Paraná.
Dentre as regiões do estado de São Paulo onde se encontra o rebanho bovino de
leite, pode-se destacar a microrregião de Marília. No final dos anos noventa esta região foi
considerada bacia leiteira1 do Estado de São Paulo. Porém, o preço do leite pago ao
produtor não acompanhou os altos custos da atividade, gerando uma drástica queda de
1
Bacia leiteira é a zona de abastecimento formada por propriedades agrícolas que se dedicam à atividade de
produção de leite localizada em uma região fisiográfica, canalizada para um processador e destinada a um
centro de consumo. Pode ultrapassar os limites geográficos do município ou do estado (GLOSSÁRIO
AGROPECUÁRIO/2010).
2
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produção em pouco tempo: em 2000 era de cerca de 35 milhões de litros, mas em 2006
caiu para 21 milhões de litros, ou seja, houve uma queda de aproximadamente 40% ao ano
(IBGE, 2008). Apesar desta redução, a produção leiteira continua sendo uma das mais
importantes atividades econômicas para o estado e para a microrregião de Marília.
Uma vez que o preço é uma variável decisória muito importante para o produtor
rural, bem como para o setor do agronegócio, a análise desta variável pode revelar
informações relevantes acerca da dinâmica deste setor e contribuir para o entendimento e a
assistência à tomada de decisões econômicas.
Este trabalho teve por objetivo geral estudar a evolução do preço do leite tipo C,
pago ao produtor do estado de São Paulo, confrontando com a realidade observada na
microrregião de Marília. Especificamente, por meio de entrevistas com produtores desta
microrregião, buscaram-se opiniões e informações acerca do comportamento da atividade
leiteira no decorrer dos últimos anos, no que diz respeito principalmente às oscilações na
produção e no preço da referida cultura. Foi realizada ainda uma análise de uma série
histórica do preço do leite C, pago ao produtor paulista, no período de agosto de 1994 a
outubro de 2009, usando técnicas de séries temporais baseadas em alisamento exponencial,
a fim de buscar uma compreensão da tendência deste mercado específico e algumas
alternativas para a melhoria de tal atividade.
2 Contextualização
2.1 Características da pecuária leiteira
A partir de 1990, com o fim do tabelamento de preços, gerou-se um grande
aumento da produção de leite nacional, como pode ser observado na Figura 1.
* Estimativa Embrapa Gado de Leite
Fonte: IBGE – Pesquisa Pecuária Municipal, 2007.
Figura 1 – Evolução da produção de leite no Brasil (1991-2007).
3
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2.2 A sazonalidade do leite
De uma forma geral, o preço pago pelo leite passou a ser definido pela oferta e
demanda do produto, determinando o preço da safra e da entressafra (BANKÚTI, 2009).
Ou seja, na época de baixa precipitação pluviométrica, a produção de pastagens diminui e,
consequentemente, a produção do leite diminui. Assim, o preço pago pelo leite aumenta
consideravelmente, devido à alta demanda pelo produto por parte dos laticínios. Já na
época chuvosa, este quadro se altera e, em virtude da grande oferta de leite, o preço
diminui.
2.3 A Instrução Normativa Nº51
Em 2002 foi criada a Instrução Normativa Nº51 (IN Nº51), que define a qualidade
do leite consumível, com regulamentos técnicos de produção, identidade, qualidade, coleta
e transporte de leite. O prazo para que os produtores se adaptem a IN Nº51 tem sido
prorrogado desde aquele ano. O último prazo estipulado é 2011. De acordo com Pereira
(2009), se a IN Nº51 vigorar, as vantagens do setor serão a oferta de um produto de
qualidade à população, facilidade de exportação, e profissionalização do setor, porém
aqueles produtores incapazes de produzir leite apto ao consumo humano serão excluídos.
Fato que já vem ocorrendo nos últimos anos. De acordo com Martins (1997), a exemplo do
que ocorreu na Argentina e nos Estados Unidos, o número de propriedades leiteiras
brasileiras tende a diminuir com a profissionalização do setor, hoje inserido no conceito do
agronegócio. Outro fator negativo, segundo Pereira (2009), é que a informalidade do setor
aumente. A parcela de leite produzida de maneira informal, ou seja, vendida sem
tratamento e sem fiscalização de um órgão sanitário competente para a população, é de 30
a 40% da produção nacional.
2.4 A produção leiteira no estado de São Paulo
Segundo Pereira (2009), as bacias leiteiras tradicionais, como São Paulo e Minas
Gerais, estão diminuindo a produção, que aumenta em regiões de fronteira agrícola. De
acordo com Rubez (2003) isto aconteceu por causa do leite longa vida, que extinguiu o
caráter regional das marcas de leite, pois atualmente pode ser produzido em pequenos
municípios e vendido em outros a milhares de quilômetros de distância. Na Figura 2 podese observar ainda a queda contínua da produção no estado São Paulo, desde 1990. De
segundo produtor nacional, o estado de São Paulo é hoje o sexto colocado. De acordo com
Silva e Fredo (2007), São Paulo perdeu posicionamento no mercado para os estados de
Goiás e do Paraná, pois estes adotaram políticas de benefícios fiscais e financiamentos.
Outros fatores, segundo os mesmos autores foram: a pouca organização dos produtores
paulistas; a decadência do sistema cooperativo paulista; a venda do plantel devido à baixa
remuneração e aos altos custos de produção.
Conforme dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA) do estado de São Paulo,
a participação do leite no Valor de Produção (VP) do estado que era de 6,3% em 1997,
hoje é de 3,4% (agregando a soma do leite tipo C com 2,7% e do leite B com 0,7%), o que
4
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coloca a atividade entre os principais produtos relacionados na mesma análise, mesmo com
a queda de produção, demonstrando a importância da mesma para o estado.
* Estimativa Embrapa Gado de Leite.
Fonte: IBGE – Pesquisa Pecuária Municipal, 2008.
Figura 2 – Evolução da produção de leite em São Paulo em bilhões de litros (1990-2007).
2.5 A produção leiteira na microrregião de Marília
A microrregião de Marília é uma das microrregiões do estado brasileiro de São
Paulo pertencente à mesorregião Marília. Sua população foi estimada em 2006 pelo IBGE
em 338.113 habitantes e está dividida em treze municípios. Possui uma área total de
4.862,975 km² (IBGE/2009). A microrregião de Marília engloba os municípios de Álvaro
de Carvalho, Alvinlândia, Echaporã, Fernão, Gália, Garça, Lupércio, Marília, Ocauçu,
Oriente, Oscar Bressane, Pompeia, Vera Cruz, conforme Figura 3 a seguir.
Esta microrregião se destacava como bacia leiteira e como produtora de café até o
final dos anos noventa. Grandes produtores aproveitavam a topografia do município,
cercado por itambés, para produzir café na parte alta (a altitude elevada é elemento
importante na produção de café de qualidade) e leite na parte baixa (as pastagens em
baixas altitudes eram fertilizadas com a precipitação de chuva, que carregavam nutrientes
dos cafezais).
5
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Fonte:
Wikipédia (2010)
Figura 3: A microrregião de Marília.
Os produtores contavam ainda com duas grandes cooperativas agrícolas: a
Cooperativa dos Cafeicultores da Região de Marília (COOPEMAR) e a Cooperativa dos
Produtores de Leite da Alta Paulista (COPLAP), esta última tinha matriz no município de
Tupã, que se encontra a setenta quilômetros do município de Marília. Ambas cooperativas
eram competitivas, bem administradas e fortaleciam as duas cadeias produtivas na
microrregião de Marília. A exemplo do que ocorreu no estado de São Paulo, a microrregião
de Marília também apresentou grande queda na produção em pouco tempo, motivada pela
baixa remuneração do leite, altos custos de produção, introdução da cultura da cana-deaçúcar, e o enfraquecimento das cooperativas. A COPLAP passou por um processo de
falência e fechou sua unidade em Marília, mantendo a matriz em Tupã com outra razão
social. A falta de profissionalização, gestão ineficiente, ausência de uma participação
efetiva dos cooperados e as altas taxas de tributos provocaram o desaparecimento de
cooperativas em todo o Brasil. As cooperativas são frágeis e dependentes de apoios
financeiros de instituições, como governos federal, estadual e municipal. À medida que
estas instituições suspendiam esta ajuda, começavam as dificuldades de sobrevivência. Na
Tabela 1 pode-se observar que a microrregião de Marília está entre as dez que mais
tiveram queda na produção leiteira.
6
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TABELA 1 - Microrregiões com produção de leite decrescente (2000-2006).
Produção de leite (milhões litros) Produtividade (litros/vaca/ano)
2000
2006
2000
2006
UF
Microrregião
1
SP
São José do Rio Preto
124
2
MG
Itabira
3
GO
Ceres
4
SP
5
AL
6
7
81
714
726
108
77
2.371
1.349
208
178
1.199
1.006
Batatais
74
44
1.712
1.604
Batalha
84
55
1.747
1.637
RO
Cacoal
85
55
888
506
SP
São Carlos
54
33
2.232
2.202
8
RO
Colorado do Oeste
36
19
1.029
450
9
PR
Astorga
95
80
1.578
1.665
10
SP
Marília
35
21
909
1.051
11
RS
Porto Alegre
41
29
2.008
2.282
12
SP
Birigui
62
50
1.040
1.375
13
SP
Araçatuba
43
31
1.027
1.357
14
15
16
MG
SP
SP
Araçuaí
Rio Claro
Araraquara
27
16
26
16
6
15
873
827
854
604
704
768
Fonte: IBGE, 2008.
3 Metodologia
3.1 Coleta de dados
Neste trabalho foi considerada uma série histórica de preços médios mensais do
leite tipo C, recebidos pelo produtor paulista, no período de agosto de 1994 a outubro de
2009, disponibilizados na base de dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA).
Devido à constante desvalorização da moeda nacional (R$) em períodos de
inflação, torna-se necessário corrigir os preços de produtos agropecuários em relação a um
dado período Assim, os preços foram deflacionados pelo Índice Geral de Preços –
Disponibilidade Interna (IGP-DI). Este não é o índice de inflação mais indicado para
refletir o comportamento dos preços do setor do agronegócio, mas por ter sido
convencionalmente adotado, por muitos anos, como medida da inflação brasileira, adquiriu
especial importância e teve o seu uso difundido em análises econômicas (MENDES &
PADILHA JUNIOR, 2007).
Buscou-se ainda mensurar e analisar as opiniões dos produtores de leite da
microrregião de Marília, como forma de obter resultados e de propiciar discussões que
contribuíssem para o estudo sobre a evolução da atividade leiteira no estado de São Paulo,
mais especificamente na microrregião de Marília.
A pesquisa de opinião é uma ferramenta eficaz na avaliação de posições e
tendências de diversos segmentos sociais e, baseada em dados científicos, serve como
instrumento para identificar problemas e buscar soluções (IBOPE, 2009).
7
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Assim, foi elaborado um questionário2 constituído por questões fechadas e abertas
referentes à impressão dos produtores sobre a atividade leiteira ocorrida nos últimos doze
meses (novembro de 2008 a outubro de 2009) no estado de São Paulo e na microrregião de
Marília, e à perspectiva dos mesmos para o próximo período (novembro de 2009 a outubro
de 2010).
Este questionário foi aplicado via telefone a uma amostra de 15 produtores3 de leite
da microrregião de Marília, segundo um processo de amostragem não probabilístico. A
amostra foi constituída por produtores participantes do Projeto Lucra Leite do
SEBRAE/SP, especificamente pelos mais comprometidos com o referido projeto, ou seja,
produtores que: participam de associações ou grupos de produtores, preenchem planilhas
de produção e de custos e receitas, buscam informações sobre o mercado do leite. Este
perfil foi determinante na escolha do grupo, uma vez que a coleta de dados referente à
percepção do grupo sobre a atividade leiteira estaria mais fiel à realidade.
O projeto Lucra Leite do SEBRAE/SP consiste em fornecer orientações técnicas
nas propriedades, de maneira individual e dentro da realidade, necessidade e objetivo de
cada produtor. As orientações técnicas compreendem o manejo de pastagens, formação de
forrageiras, criação, manejo, manejo sanitário, melhoramento e produção dos animais. Os
produtores são orientados quanto ao preenchimento de planilhas de acompanhamento do
rebanho e da produção (escrituração zootécnica). Eles aprendem a preencher planilha de
custos e receitas. Desta maneira eles conseguem mensurar o custo de produção de um litro
de leite. Os produtores visualizam ainda, por meio de planilhas e gráficos, o lucro ou o
prejuízo e onde gastaram mais dinheiro. Todos estes dados facilitam o seu entendimento
sobre o mercado do leite e permitem avaliar se o preço pago aos produtores da região está
coerente com os gastos dos mesmos.
Como mencionado anteriormente, os produtores de leite que participaram da
pesquisa são dos municípios de Gália, Guaimbê, Lutécia, Marília, Oriente, Pompéia e
Quintana. Os municípios de Quintana e Lutécia não são pertencentes à microrregião de
Marília, mas são municípios limítrofes à região estudada, e por isso, são influenciados
pelas mesmas condições favoráveis e adversas que os demais municípios. Além disso, os
produtores destes dois municípios são integrantes de associações de produtores de leite dos
municípios de Pompéia e de Marília, respectivamente. Deste modo, considerou-se a
opinião dos produtores oriundos destes sete municípios, uma vez que estes possuem
capacidade de transmissão de dados para a pesquisa proposta, pois são organizados em
seus controles de produção e financeiros. Alguns deles vendem o leite refrigerado em
tanques de refrigeração por expansão direta, coletivos ou individuais. Outros são
produtores informais, que vendem queijo ou leite diretamente ao consumidor final, sem
fiscalização sanitária.
3.2 Procedimento de análise estatística
2
Questionário é um instrumento de coleta de dados baseado em um roteiro de perguntas, cujo sistema
consiste em obter informações de um indivíduo de forma indireta – telefone, e-mail, carta, etc (MARCONI E
LAKATOS, 2002).
3
A amostra foi composta por cinco produtores de Marília, cinco produtores de Pompéia e um produtor de
cada um dos seguintes municípios: Gália, Guaimbê, Oriente, Lutécia e Quintana.
8
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Os dados primários e secundários foram tabulados e analisados por meio de
técnicas de Estatística Descritiva, ou seja, foi feita uma descrição e uma análise dos
mesmos usando métodos gráficos (apresentação gráfica e/ou tabular) e métodos numéricos
(apresentação de porcentagens, medidas de posição e/ou dispersão).
Para a análise dos preços médios mensais reais foram utilizadas ainda as técnicas
estatísticas de Séries temporais, que são baseadas na identificação de padrões (ou
componentes) existentes em séries históricas, de forma que se possam fazer previsões
sobre a variável estudada, orientando a tomada de decisões.
Uma série temporal é um conjunto de observações ordenadas no tempo,
comumente em intervalos iguais, de tal forma que existe uma relação de dependência entre
as mesmas. Os movimentos característicos (ou componentes) de uma Série Temporal
podem ser classificados como: movimentos em longo prazo ou tendência; movimentos
estacionais ou sazonalidade; movimentos cíclicos ou ciclo; e movimentos irregulares ou
aleatoriedade (SPIEGEL, 1994).
Os principais objetivos da análise de séries temporais são: investigar o mecanismo
gerador da série temporal, ou seja, como esta foi gerada; descrever o comportamento da
série por meio de gráficos, medidas descritivas, verificação da existência de movimentos
característicos, etc; e, ou fazer previsões de valores futuros da série (a curto ou em longo
prazo) por meio de modelagens matemáticas (MORETTIN e TOLOI, 2006).
As técnicas de séries temporais de Modelo Fixo são de fácil implementação e
utilização, pois apresentam equações definidas baseadas em avaliações a priori da
existência de determinadas componentes nas séries históricas, e se ajustam rapidamente às
mudanças no comportamento de preços agropecuários. Tais técnicas não exigem o uso de
séries muito longas e são apropriadas para previsões de curto ou médio prazo. Neste estudo
foi empregada a técnica denominada “Alisamento Exponencial Triplo” (AET – Método de
Winters), uma vez que esta se mostra adequada às séries que apresentam tendência e
sazonalidade.
A técnica do Alisamento Exponencial Triplo considera três coeficientes de
amortecimento, que extraem da série a aleatoriedade, a tendência e o fator sazonal,
respectivamente. A precisão obtida pelo Alisamento Exponencial Triplo está diretamente
associada à seleção de tais coeficientes. O procedimento mais objetivo é selecionar os
coeficientes que forneçam o menor erro ou resíduo (diferença entre os valores reais e os
valores previstos), ou seja, que proporcione a melhor previsão (WANKE e JULIANELLI,
2006).
A seleção desses valores foi feita por meio do “Erro Absoluto Médio Percentual”
(EAMP), que avalia a magnitude do erro com relação à série temporal, determinando os
erros de previsão em percentuais absolutos. Desta forma, para a obtenção das previsões,
considerou-se o vetor de coeficientes de amortecimento que apresentou o menor EAMP.
A sistematização e a análise estatística dos dados foram realizadas por meio de
Planilhas do Excel 2007 e do Minitab Statistical Software.
9
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4 Resultados e discussões
4.1 Preço real versus preço nominal
Foi coletada da base de dados do IEA uma série histórica de preços pagos
mensalmente ao produtor de leite tipo C do estado de São Paulo, no período de agosto de
1994 a outubro de 2009. Estes são chamados de preços nominais, ou seja, são preços
absolutos. Por este motivo, ao se analisar a Figura 3 a seguir observa-se que,
aparentemente, houve aumento no preço pago ao produtor de leite, ou seja, em agosto de
1994 o produtor recebia R$ 0,23 por litro de leite e em outubro de 2009 este preço foi de
R$ 0,74 por litro.
Posteriormente foram determinados os preços reais desta série histórica,
descontando-se a inflação do período, pelo IGP-DI. Pode-se observar na Figura 3 que os
preços do leite na realidade oscilaram pouco, apresentando um leve decrescimento e,
conseqüentemente, uma perda no poder de compra do produto. Em agosto de 1994 o preço
pago foi de R$ 0,23 por litro e, em outubro de 2009, em valor real, este preço foi de R$
0,18.
De uma forma geral observou-se que, durante o período estudado, os preços reais
caminharam abaixo dos preços nominais e, enquanto os preços nominais mostraram
tendência positiva, os preços reais apresentaram uma leve tendência negativa.
O poder de compra do leite é a quantidade de litros de leite necessários para
comprar insumos e serviços utilizados na pecuária leiteira. Pode-se deduzir que o poder de
compra do produtor de leite paulista diminuiu possivelmente causado pela inflação, que
gerou esta queda real do preço pago, dificultando investimentos no setor e melhoria na
produção leiteira do estado.
A Figura 4 mostra ainda a sazonalidade da atividade leiteira, que por causa da baixa
oferta de alimentos ao rebanho leiteiro na época da seca, tem alta de preços no período. O
preço do leite volta a cair quando há grande oferta de alimentos no período das chuvas,
pois há aumento de produção leiteira no período. Esta sazonalidade é observada tanto nos
preços nominais, quanto nos reais.
4.2 Análise estatística do preço real do leite tipo C pago ao produtor paulista
A Tabela 2 mostra algumas medidas descritivas obtidas a partir da série de preços
deflacionados (preços reais), possibilitando uma visão geral do comportamento dos preços
médios mensais do leite tipo C no período estudado.
10
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Fonte: IEA, 2009.
Figura 4 – Preço nominal versus preço real do leite tipo C: agosto de 1994 a outubro de 2009.
Os resultados da análise descritiva mostraram que o preço médio da série de dados
foi de R$ 0,167 com uma variabilidade de R$ 0,027 em relação ao preço médio, ou seja, os
dados concentram-se na faixa de R$ 0,140 a R$ 0,194. Observa-se ainda uma
homogeneidade dos preços no período (pouca oscilação em relação a media), uma vez que
o coeficiente de variação (relação entre média e desvio-padrão) é de aproximadamente
15,9%. Das 183 observações consideradas, o maior preço observado foi de R$ 0,230,
referente aos meses de agosto e de outubro de 1994. Por outro lado, nota-se que o menor
preço praticado foi de R$ 0,117, referente ao mês de fevereiro de 2006.
TABELA 2 – Medidas descritivas do preço real do leite tipo C pago ao produtor
paulista (real/litro).
Parâmetros
Valores
Média
Desvio-Padrão
Coeficiente de Variação
Mínimo
Máximo
0,167
0,027
0,159
0,117
0,230
Com respeito à análise de séries temporais proposta neste trabalho, foram testados
diferentes valores para os coeficientes de amortecimento definidos por α , β e γ do
método de Alisamento Exponencial Triplo, até encontrar aqueles que apresentavam o
menor erro de previsão (EAMP = 2,79604). Os valores para α , β e γ que melhor
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representaram a previsão foram α = 0,98 (nível), β = 0,02 (tendência) e γ = 0,02
(sazonalidade). Quanto mais próximo de um o coeficiente estiver, maior a influência da
componente serial. Quanto mais próximo de zero, menor a influência da mesma.
Observou-se que o nível teve valor próximo a um (grande influência na previsão), já a
tendência e a sazonalidade apresentaram valores próximos a zero (baixa influência na
previsão). Portanto, apesar da pouca influência da tendência e da sazonalidade, estas são
componentes relevantes no comportamento da série estudada, pois o erro (EAMP) da série
estudada foi menor quando utilizado o AET, em comparação com outros métodos de
alisamento exponencial (Simples e Duplo).
Na Figura 5 podem ser observados os preços reais e os previstos pelo método AET.
Percebe-se que ambas as séries caminharam praticamente juntas durante o período,
apresentando pouca diferença (erro) e evidenciando, portanto, o bom ajuste do modelo. Em
vermelho pode-se observar a previsão do preço médio mensal para os próximos doze
meses, ou seja, de novembro de 2009 a outubro de 2010, por meio do método ajustado. Há
previsão de leve crescimento de preços, mas seguindo sazonalidade natural inerente ao
produto.
Winters' Additive Model for preço real
Actual
0,27
Predicted
preço real
Forecast
Actual
Predicted
0,22
Forecast
Smoothing Constants
Alpha (level):
0,980
Gamma (trend): 0,020
Delta (season): 0,020
0,17
MAPE:
MAD:
MSD:
0,12
0
50
100
2,79604
0,00473
0,00004
150
Time
Figura 5 – Valores reais (em preto) e valores previstos (em azul) obtidos pelo método de AET.
Conforme a Tabela 3 a seguir, a previsão para o próximo período produtivo é de
que os preços reais diminuirão na época de grande oferta de alimentos aos animais
(período chuvoso), que vai de novembro de 2009 a março de 2010, e aumentarão na época
de baixa oferta de alimentos (período seco) que vai de abril de 2010 a outubro do mesmo
ano. Observa-se também uma tendência de aumento dos preços no período citado com
relação aos doze meses anteriores (novembro de 2008 a outubro de 2009). A Tabela 3
mostra ainda os limites (inferiores e superiores) da variação do preço real para este mesmo
período.
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TABELA 3 – Preços reais previstos para o período de novembro de 2009 a outubro
de 2010 (real/litro), obtidos pelo método de AET.
Período
Nov/09
Dez/09
Jan/10
Fev/10
Mar/10
Abr/10
Mai/10
Jun/10
Jul/10
Ago/10
Set/10
Out/10
Previsão
0,177
0,171
0,167
0,166
0,169
0,175
0,182
0,187
0,193
0,197
0,194
0,190
Limite Inferior
0,165
0,154
0,145
0,136
0,133
0,132
0,133
0,132
0,130
0,128
0,119
0,109
Limite Superior
0,188
0,189
0,192
0,196
0,205
0,217
0,231
0,243
0,255
0,265
0,269
0,272
4.3 Pesquisa de opinião junto aos produtores da microrregião de Marília
O grupo selecionado para a pesquisa vende o leite produzido para os seguintes
laticínios da região: Hércules, de Herculândia; Gegê, de Oscar Bressane; Milk Lins, de
Lins; Promilat, de Promissão; e Néctar, de Tupã.
Ressalta-se que dois produtores deste grupo selecionado (que representam 13% da
amostra) vendem o leite ou o queijo diretamente ao consumidor final, ou seja, de maneira
informal, sem fiscalização sanitária.
Primeiramente os produtores foram questionados com respeito aos preços
praticados no estado de São Paulo no período de novembro de 2008 a outubro de 2009.
Destes, 67% responderam que sabiam o preço médio pago ao produtor nos últimos doze
meses, fornecendo o valor médio mensal de R$ 0,72 (média calculada a partir dos preços
relatados).
Ao serem questionados se estavam informados sobre a média de preços recebidos
por eles mesmos no último ano, 93% responderam afirmativamente, fornecendo o valor
médio de R$ 0,75. Porém, descartando os valores fornecidos pelos dois produtores
informais, o preço médio mensal decresce para R$ 0,58.
Quanto ao custo de produção de um litro de leite nos últimos doze meses, 87% dos
entrevistados sabiam dizê-lo, informando um valor médio equivalente a R$ 0,45. Por outro
lado, quando questionados sobre a obtenção de lucro durante o mesmo período, a maioria
dos produtores (53%) respondeu negativamente (destes, 37,5% tiveram prejuízo com a
atividade e 62,5% não tiveram nem lucro nem prejuízo, ou seja, mantiveram-se em
equilíbrio). Dentre os motivos alegados para a não obtenção de lucro destacaram-se o
aumento no preço dos insumos e o alto custo da mão-de-obra (vide Tabela 4).
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TABELA 4 – Causas apontadas pelos produtores da microrregião de Marília para a
falta de lucro da atividade leiteira em suas propriedades.
CAUSAS APONTADAS
Preço baixo pago pelo leite
Aumento no preço dos insumos
Queda da produção leiteira
Alto custo da mão-de-obra
Investimentos na propriedade
%
25
62,5
25
62,5
12,5
Ao serem questionados sobre a crença na melhoria do preço do leite pago ao
produtor nos últimos dez anos, 73% responderam que não. Destes, 53% acreditavam na
influência da inflação, que interferiu principalmente no valor dos insumos. Aqueles que
responderam afirmativamente (27%) relataram que a melhoria ocorreu entre os anos de
2001 e 2005. As causas apontadas foram: a venda do leite refrigerado, melhores condições
de negociação com os laticínios, concorrência entre os laticínios, queda no número de
produtores, melhoria da qualidade do leite, melhoria do rebanho, melhoria na alimentação
fornecida ao rebanho.
Por outro lado, 67% dos produtores previram que o preço do leite pago ao produtor
ficará estável em 2010 (aumentando na época da seca e diminuindo na época das águas) e
os demais que haverá aumento no valor do mesmo. Nenhum produtor acreditava na
ocorrência de queda do preço do produto.
Foi feita ainda a seguinte afirmação aos produtores pesquisados: “A produção
leiteira da microrregião de Marília vem se reduzindo desde o ano 2000”. Aqueles que
concordaram com a afirmação (80%), consideravam que o alto custo de produção e o preço
baixo do leite pago ao produtor da microrregião eram os principais motivos que
justificavam tal situação.
Quando questionados se continuariam na atividade leiteira nos próximos cinco
anos, 87% dos produtores responderam que sim, 7% que não continuariam e os demais que
não sabiam. Os motivos alegados para a continuidade da atividade foram: investimento em
redução do custo de produção (melhoria genética e das pastagens), não saber trabalhar em
outra atividade.
4.4 Algumas discussões
Os produtores pesquisados responderam questões acerca da impressão dos mesmos
sobre a atividade leiteira no período de novembro de 2008 a outubro de 2009 no estado de
São Paulo e na microrregião de Marília, e da perspectiva para o próximo período
(novembro de 2009 a outubro de 2010).
No que refere especificamente aos preços nominais do leite tipo C recebidos pelo
produtor paulista no período passado, novembro de 2008 a outubro de 2009 (IEA/2009),
uma comparação das percepções relatadas pelos produtores da microrregião de Marília
14
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com a situação ocorrida no estado de São Paulo foi realizada a partir das informações a
seguir:
Segundo os dados do IEA, a média dos preços (nominais) do leite tipo C pagos ao
produtor paulista no período de novembro de 2008 a outubro de 2009 foi de R$ 0,64,
enquanto que a percepção dos produtores da microrregião em estudo foi de R$ 0,72. Ou
seja, os produtores pesquisados acreditavam que os preços praticados no estado de São
Paulo estavam mais altos do que realmente estão.
Outra comparação pode ser realizada acerca dos preços médios mensais (nominais)
do leite tipo C recebidos pelo produtor no estado de São Paulo e os valores recebidos pelo
grupo de produtores na microrregião de Marília. Neste mesmo período, o valor médio
calculado a partir dos preços fornecidos por todos os produtores pesquisados foi de R$
0,75, ou seja, maior do que a média de preços praticada no estado de São Paulo, que foi de
R$ 0,72. Como o IEA não utiliza em sua base de dados os preços praticados por produtores
informais, descontando-se os preços fornecidos pelos produtores informais do grupo, a
média dos preços nominais diminui para R$ 0,58. Este valor é bem menor que o preço
médio do estado de São Paulo, confirmando a opinião dos produtores de que existem
microrregiões paulistas que recebem valores mais altos pelo litro do leite tipo C do que a
microrregião de Marília.
Cabe ressaltar que o preço médio mensal nominal do leite tipo C aumentou
consideravelmente no decorrer do período estudado, passando de R$ 0,23 (agosto de 1994)
para R$ 0,74 (outubro de 2009), conforme Figura 3. Enfatiza-se que estes foram os valores
extremos (menor e maior, respectivamente) registrados no período. Porém, ao serem
questionados sobre o aumento progressivo, os produtores disseram que este não foi
percebido, pois a inflação no período influenciou principalmente no valor dos insumos
agropecuários. Esta percepção dos produtores é bastante coerente, e os preços reais
refletem tal situação.
Os produtores declararam ainda que sentiram a perda do poder de compra do leite,
citando exemplos de dificuldade na aquisição de ração concentrada e de óleo diesel.
Aqueles que declararam ter tido lucro com a atividade utilizaram a pastagem rotacionada
como alimentação principal do rebanho, fator que barateou o custo.
No que diz respeito à previsão do preço nominal do leite para o ano de 2010, os
67% dos pesquisados que acreditavam que este estaria estável, citaram a sazonalidade da
produção como uma característica intrínseca à atividade. Os demais, que acreditavam no
aumento do preço do leite, ressaltaram também a influência da sazonalidade. Este fator foi
considerado e confirmado pela análise estatística da série histórica de preços reais, por
meio do ajuste do método de AET, e teve peso considerável na análise, confirmando que a
sazonalidade da produção é uma característica importante da produção leiteira paulista.
Além disso, pode-se ressaltar que a percepção dos produtores que acreditavam no aumento
do produto para os próximos 12 meses (novembro de 2009 a outubro de 2010) corrobora
com a análise de séries temporais apresentada na Seção 4.2, que aponta um leve acréscimo
do preço do leite tipo C em valores reais.
Destaca-se que, de acordo com informações da Embrapa Gado de Leite (2008),
40% dos produtores de leite nacionais são informais. Na amostra de produtores da
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microrregião de Marília encontrou-se um percentual de 13%, fato que confirma que esta
característica da atividade leiteira também se faz presente no estado de São Paulo.
Segundo informações da Embrapa Gados de Leite (2008), a microrregião de
Marília teve uma queda de 60% da produção leiteira nos últimos dez anos. Na pesquisa,
80% dos produtores concordaram com esta afirmação, citando casos de outros produtores
que abandonaram a atividade leiteira durante o período citado, e relembrando que a
microrregião já foi considerada como uma das Bacias Leiteiras do estado, com um rebanho
de excelente genética, selecionada para produção. Um dos produtores cita ainda o próprio
exemplo: no ano 2000 ele produzia 3.500 litros de leite por dia, hoje ele produz apenas
1.000 litros. Isto ocorreu porque os preços recebidos pelo leite que produzia foram
menores que seus custos de produção e ele teve de vender grande parte do rebanho e dos
equipamentos.
Com relação à entrada e expansão da cultura da cana-de-açúcar, 17% dos
produtores citaram esta como uma das causas da queda da produção leiteira na região, mas
ela não é muito percebida pelos produtores do município de Marília, pois a topografia
deste é muito acidentada, impossibilitando esta atividade agronômica. Os produtores que
perceberam o avanço desta atividade são os de Pompéia e de Lutécia, municípios situados
próximos a usinas de beneficiamento de cana-de-açúcar.
Os produtores pesquisados informaram que têm se preparado para a vigência da IN
N°51, demonstrando preocupação com a conservação e armazenamento do leite, higiene na
ordenha, manejo sanitário do rebanho, dentre outras, pois participam do Programa Lucra
Leite do SEBRAE/SP. Neste programa, além dos produtores receberem orientações quanto
à produção leiteira, o leite produzido por cada propriedade é avaliado quanto à sanidade.
De acordo com o resultado de cada granja leiteira, os produtores são orientados sobre as
melhorias a serem feitas para a obtenção de leite de qualidade.
Segundo dados de IBGE (2008) observa-se que a produção de leite da microrregião
de Marília teve uma grande queda no período entre os anos 2000 e 2006, porém na Tabela
5 pode-se observar que houve aumento na produtividade. Esta característica é levantada
pelos produtores, que estão investindo em melhoramento das pastagens e numa genética
melhorada para a produção leiteira, com o objetivo de reduzir o custo de produção.
Outro fator importante para se observar no estudo é o alto custo da mão-de-obra
especializada, sendo esta a causa apontada para a falta de lucro dos produtores que fazem
uso dela.
Apesar de toda dificuldade da atividade mencionada neste estudo, a maioria dos
produtores pretende continuar produzindo leite nos próximos cinco anos. Alguns
produtores citaram os seguintes motivos: não sabem trabalhar em outra atividade; estão
melhorando as pastagens e a genética do rebanho para diminuir custos de produção. Devese acrescentar a dificuldade que a atividade impõe aos produtores, pois se o preço do leite
não está bom é difícil vender a um preço razoável um rebanho de boa genética, além de
todos os equipamentos necessários a atividade leiteira.
16
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5 Consideraçãoes finais
Historicamente a pecuária leiteira não é uma atividade econômica que proporcione
alta margem de lucro e segurança para o investidor. Mas, os produtores que se adaptarem
às exigências sanitárias da IN N°51, reduzirem o custo de produção ao melhorar as
pastagens e a genética do rebanho e gerenciarem as suas propriedades rurais como
empresas rurais, conseguirão sobreviver com o que a atividade proporciona de mais
atraente para os produtores rurais: renda mensal.
Há uma leve tendência de melhoria do preço do leite para os próximos meses (com
a natural sazonalidade de produção/preço pago), mas, de um modo geral, há tendência
negativa no estudo da série temporal para preços reais. Esta afirmação reflete a perda do
poder de compra do produtor de leite, que terá de trabalhar arduamente na redução dos
custos para a obtenção de lucro.
O preço médio mensal (nominal) pago ao produtor na microrregião de Marília é
menor do que o preço médio praticado no estado de São Paulo, o que significa que outras
microrregiões do estado são mais bem remuneradas. Mas este fator não justifica a queda da
produção na microrregião, pois a queda produtiva é observada no estado inteiro, sendo que
40% das dez microrregiões brasileiras que mais apresentaram redução na produção estão
no estado de São Paulo.
O estado de São Paulo e a microrregião de Marília vêm perdendo em produção,
mas aumentando em produtividade, pois os produtores estão se especializando na atividade
(melhoria das pastagens e do rebanho), o que reflete a profissionalização do setor.
De um modo geral, apesar da tendência de aumento do preço do leite para os
próximos doze meses, a análise estatística mostra tendência negativa. O estudo mostra
ainda que existe pouca oscilação na série histórica, ou seja, houve pouca variação no preço
real nestes últimos quinze anos. Portanto, se os preços variam pouco, deduz-se que o
aumento da produção e da produtividade são fundamentais para a manutenção da
atividade.
Apesar das dificuldades apontadas para a manutenção da atividade leiteira, a
maioria dos produtores que participaram da pesquisa pretendia continuar no setor, pois
segundo suas afirmações, têm investido na redução dos custos de produção.
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