Algumas questões relacionadas com a
Agitação e a Propaganda
Kalinin, 1942
Conferência de Secretários de Propaganda
dos Comitês Regionais do Komsomol
Camaradas: Não me vou referir às questões de organização do trabalho do Komsomol: este é
problema vosso e vós mesmos resolvereis sobre a forma de trabalho que melhor vos convenha.
Somente abordarei a questão das formas de que deve se revestir hoje a agitação e a propaganda.
Hoje encaro o Komsomol sob um aspecto algo diferente do anterior. Antes da guerra, eu via no
Komsomol uma juventude ainda não madura, que gostava de passear e divertir-se e não muito
disposta a cansar a cabeça com problemas intrincados, uma juventude que deve desenvolver-se e
fortalecer-se fisicamente para se converter em homens maduros no tempo devido, distanciando-se o
mais possível da velhice.
Mas estalou a guerra. E hoje, esta claro, os komsomóis — o não só eles, mas todas as pessoas
— adquirem experiência da vida com muito maior rapidez. Por isso, se compararmos nosso
Komsomol com a Juventude Comunista de outros países, resultará, naturalmente, que nossos
membros do Komsomol são muito mais maduros, e isso os toma maiores de idade. Com efeito, hoje
em dia nossos jovens de dezessete anos já devem preparar-se para ingressar no exército. Falo
apenas da preparação. Quando forem chamados às fileiras, a questão já será outra; mas já pensam
em seu ingresso nas fileiras do Exército Vermelho.
E o meio ambiente? É sabido que a agitação deve adaptar-se às condições circundantes. Hoje
em dia o Komsomol constitui em nosso país, particularmente no campo, uma organização social
muito poderosa. É claro que, hoje, o Komsomol toma uma parte muito mais ativa na vida social,
política, econômica e cultural do país, participa em massa — e isso é fundamental na guerra e,
naturalmente, no trabalho de agitação e propaganda. E não é só entre a juventude que deve realizar
todo esses trabalho, mas também entre o resto da população. Já vedes que a importância política do
Komsomol é hoje superior à de antes da guerra. Por isso, o Komsomol deve realizar um vasto
trabalho de agitação e propaganda e dominar melhor as formas desse trabalho.
Cada momento histórico exige uma forma peculiar de agitação e propaganda. É indubitável que
atualmente nossas formas de agitação não podem ser idênticas às de dois anos atrás, por exemplo. E
é natural. Se hoje nos apresentássemos diante das massas com as mesmas formas de agitação e
propaganda que usávamos antes, estas resultariam pouco eficazes, não produziriam entre a
população a mesma impressão que causavam antes da guerra. Por exemplo, se há dois anos atrás
nos apresentássemos numa reunião de kolkhozianos duma grande aldeia e pronunciássemos um
discurso saturado de piadas, anedotas ou frases pomposas, é possível que nos tivessem recebido
com agrado; o povo teria rido, nos aplaudiria e ficaria contente. Acaso, hoje podemos pronunciar
um discurso dessa natureza? É claro que não. Hoje o povo passa grandes dificuldades; são muitos
os que perderam seus entes queridos; hoje a população realiza um trabalho muito grande e muito
duro e em troca a satisfação de suas necessidades está muito limitada. A vida tornou-se rigorosa. As
pessoas se tornaram mais concentradas, mais pensativas. Por conseguinte, a agitação e a propaganda
devem estar em consonância com a situação reinante e com o estado de ânimo do povo.
Mas, quais devem ser as formas de agitação e propaganda e em que fontes poderiam buscá-las
os dirigentes do Komsomol encarregados deste trabalho? Onde procurá-las? Com que exemplos
aprender?
Devo dizer que em nossa imprensa ainda não são abundantes as novas formas de agitação e
propaganda: apenas começa a exteriorizá-las em proporção crescente. Mas, onde se pode aprender
melhor do que na imprensa, na qual colaboram as pessoas mais qualificadas? Entende-se que,
atualmente, o melhor material para os agitadores é constituído pelas crônicas de guerra. E é natural,
pois hoje não se vive fora da guerra. De uma ou de outra forma, todos os sentimentos da população
estão relacionados com a guerra, com seus êxitos e reveses. Por isso, também vós, os dirigentes da
propaganda entre a juventude, deveis buscar nessas fontes a inspiração principal de vosso trabalho
de agitação e propaganda.
Existem essas possibilidades, existem modelos que poderiam ser aproveitados no trabalho de
agitação?
Penso que existem, embora não sejam muitos. Mas, cada dia que passa, aparecem na imprensa
em número crescente os bons artigos dos quais já se pode extrair material de propaganda, que
podem ser imitados em certo grau e na leitura dos quais se pode aprender. Subentende-se que
quando digo imitar, não me refiro a uma imitação mecânica: esses é um procedimento pouco eficaz;
é preciso fazê-lo reelaborando o material de acordo com as condições locais, com determinada
camada da população, com o caráter do auditório ante o qual tendes que intervir.
Acho que os artigos de Tíkhonov e Símonov, por exemplo, são boas crônicas de guerra; as
publicações de guerra constituem um bom material para os agitadores. Todos vós quereis vir a
Moscou para receber ajuda e indicações de como levar a cabo o trabalho de agitação. Mas é difícil
dar indicações para isto; ademais, como é possível transmitir e assinalar as formas de agitação?
Cada qual faz a agitação a seu modo. Julgo que a imprensa é a fonte principal onde se pode
aprender a forma de levar a cabo a agitação e a propaganda. Não me refiro aos artigos oficiais, que
são os que determinam o conteúdo e a linha política geral da propaganda e esboçam o conjunto dos
problemas que se erguem perante nós; somente assinalarei as novas formas que aparecem em nossa
imprensa.
Não sei se lestes o último artigo de Símonov, “Dias e noites”. Devo dizer-vos que está bem
feito. Em geral, seus artigos apresentam um quadro real dos combates. No artigo a que me refiro,
todas as proporções e medidas foram observadas. Está escrito com sobriedade. À primeira vista
produz a impressão de uma simples crônica, mas, na realidade, é a obra de um artista, um quadro
inesquecível por muito tempo.
É preciso reconhecer que Símonov foi o primeiro a descrever a luta dos operários de
Stalingrado, particularmente a dos operários da fábrica de tratores, fato de grande importância
social e política. Cito suas palavras:
“Na cidade não existem agora simples habitantes; só restam defensores. E suceda o que
suceder, qualquer que seja o número de máquinas que tenha sido evacuado das fábricas, as oficinas
continuam sendo oficinas; e os velhos operários, que entregaram à fábrica os melhores anos de sua
viada, continuam cuidando até às últimas possibilidades humanas dessas oficinas, nas quais todos
os vidros saltaram aos pedaços, em que ainda se sente o cheiro da fumaça dos incêndios recémapagados.
Não assinalamos tudo aqui — diz o diretor, indicando um encerado com a cabeça. E começa a
contar-nos que faz alguns dias os tanques alemães abriram uma brecha num setor da linha defensiva
e se lançaram contra a fábrica. A notícia chegou às oficinas. Era preciso empreender algo com
urgência antes que anoitecesse, para ajudar os soldados a fechar aquela brecha. O diretor mandou
chamar ó chefe da oficina de reparações e ordenou que fosse terminada quanto antes a reparação de
uns tanques que já estavam quase prontos. Os operários que souberam reparar os tanques com suas
próprias mãos, souberam também, naquele momento de perigo, montar neles e converter-se em
tanquistas.
Ali mesmo, no pátio da fábrica, com uns voluntários das milícias populares — operários e
inspetores — formaram-se várias tripulações. Montaram nos tanques e depois de encher com seu
estrépito o pátio deserto, lançaram-se através do portão da fábrica diretamente ao combate. Foram
os primeiros que interceptaram o caminho aos alemães, que tinham aberto passagem perto da ponte
de pedra dum pequeno riacho. Um enorme barranco — que os tanques só podiam transpor
atravessando a ponte — os separava dos alemães. E foi precisamente naquela ponte que a coluna de
tanques alemães se encontrou com os tanquistas da fábrica.
Travou-se intenso duelo de artilharia. Enquanto isso, os infantes alemães, armados de fuzis
automáticos, começaram a cruzar o barranco. Então, a fábrica opôs sua própria infantaria à
infantaria alemã: atrás dos tanques soviéticos apareceram no barranco dois destacamentos de
milicianos, um deles comandado por Kostiutchenko, o chefe da milícia local, e pelo professor
Pástchenko, decano da cátedra do Instituto de Mecânica, e o outro sob o comando de Popov, chefe
da oficina de ferramentas e do velho fundidor Krivúlin. O combate foi travado nos abruptos
declives do barranco, transformando-se com frequência em luta corpo a corpo. Naquele encontro
sucumbiram os velhos operários da fábrica, Kondrátiev, Ivanov, Volódin, Símonov, Mómotov,
Fomin e outros, cujos nomes, agora, estão na boca de todos na fábrica.
Naquele dia, transformaram-se os arredores do bairro operário. Nas ruas que davam para o
barranco apareceram barricadas. Para levantá-las, empregou-se tudo que havia à mão: ferro de
caldeiras, chapas de blindagem, armações de tanques desmontados. Como na guerra civil, as
mulheres levavam cartuchos a seus maridos e as moças se dirigiam das oficinas diretamente para as
linhas de fogo e, depois de fazer o primeiro curativo nos feridos, os levavam para a retaguarda.
Foram muitos os que morreram naquele dia, mas por esses preço, os operários milicianos e os
soldados conseguiram deter os alemães até à noite, quando novas unidades chegaram à brecha”.
Por acaso, não é bom este quadro verídico dos combates em defesa de Stalingrado?
“Os pátios da fábrica estão desertos. O vento assobia ao passar pelas janelas quebradas. Quando
alguma granada de morteiro estoura nas vizinhanças, por todas as partes voam sobre o asfalto
pedaços de vidro partido. Mas a fábrica continua lutando, como toda a cidade. E se alguém pudesse
acostumar-se às bombas, às granadas, às balas e, em geral, ao perigo, diríamos que aqui se
habituaram a ele, e se acostumaram como ninguém em parte alguma chegou a acostumar-se”.
Nesse mesmo artigo o camarada Símonov mostra os sentimentos experimentados pelo povo.
Eis um episódio do qual é protagonista uma moça enfermeira, oriunda de Dniepropetrovsk. que
acompanha através do Volga os transportes de feridos.
“A meu lado, na borda da balsa, ia sentada uma praticante de uns vinte anos, uma jovem
ucraniana chamada Stchepenha, com o singular nome de Vitória. Era a quarta ou quinta vez que
realizava a travessia para Stalingrado...
A balsa já se aproximava da margem.
— E não obstante, sinto um pouco de temor toda vez, ao desembarcar — disse logo Vitória. Já
me feriram duas vezes, uma delas muito gravemente, e apesar de tudo não acreditei que pudesse
morrer porque, apenas comecei a viver e não conheço nada da vida. Como podia morrer assim, de
repente?
Naquele instante a moça tinha os olhos grandes e tristes. Compreendi que o que dizia era
verdade: aos vinte anos é terrível ter sido ferida duas vezes, já ter passado quinze meses
combatendo e voltar a Stalingrado pela quinta vez. Era tanto o que a esperava no futuro: toda uma
vida, todo o amor, talvez o primeiro beijo, quem sabe! E eis aqui a noite, um incessante estrondo;
face a face, a cidade em chamas e uma jovem de vinte anos que para lá se dirige pela quinta vez. E é
preciso fazê-lo, apesar do temor que sente. E dentro duns quinze minutos passará entre as casas em
chamas, e em alguma das ruas dos subúrbios, entre as ruínas, sob o assobio da metralha, recolherá
os feridos e os conduzirá à outra margem; e se conseguir chegar, regressará à cidade pela sexta
vez”.
O autor podia ter descrito uma jovem valente, que desconhece o medo e as vacilações, como
costuma fazer-se entre nós. Mas ele preferiu fazer-nos ver os sentimentos humanos, as emoções
humanas. Este quadro é um material magnífico para os agitadores e propagandistas.
Convém assinalar a forma como se apresenta neste artigo a questão da glória e do heroísmo.
Faço-o para comparar com o modo de ser abordado este problema por outros correspondentes.
Símonov escreve:
“Se, aqui (em Stalingrado) é difícil viver, é ainda mais impossível viver na inatividade. Mas
viver combatendo, viver matando alemães isso, sim, é possível; é assim que é preciso viver aqui e
assim viveremos, defendendo a cidade, entre chamas, fumo e sangue. E se a morte pende sobre
nossas cabeças, a glória, em compensação, está ao nosso lado, converteu-se em nossa irmã entre
estas ruínas e o soluço dos meninos órfãos”.
Os agitadores e propagandistas devem buscar a seiva vivificante da palavra e do pensamento
russos e levá-la ao povo.
É interessante e instrutiva a descrição dum combatente de nosso exército que luta nas ruas de
Stalingrado. Piotr Boloto, um dos quatro que cortaram a passagem de trinta tanques e que com seus
fuzis antitanque puseram fora de combate quinze deles.
“... lembrando-se do combate em que avariaram os quinze tanques... sorri logo e diz:
— Quando me vinha em cima o primeiro tanque, juro-lhe que pensei que tinha chegado o meu
fim. Depois, o tanque se aproximou e começou a arder e comprovou-se que tinha chegado o fim
dele e não o meu. E, diga-se de passagem, devo confessar-lhe que durante aquele combate enrolei e
fumei cinco cigarros. Bem, não vou mentir, talvez não os tivesse fumado inteiros, mas o certo é que
enrolei cinco cigarros. Assim costumam ser as coisas durante o combate: quando o tempo permite, a
gente deixa o fuzil de um lado e se põe a fumar. Durante o combate pode-se fumar, o que não se
pode fazer é falhar na pontaria, porque se falhares uma vez, já não terás mais oportunidade de
fumar. Assim são as coisas!...
Piotr Boloto esboça um largo e sereno sorriso de homem seguro de ter interpretado como deve
sua vida de soldado, essa vida em que, às vezes, se pode descansar e fumar um cigarro, mas na qual
não se pode falhar”.
Existe nisso material para o propagandista e o agitador? Creio que há um material abundante.
Basta apenas, lê-lo, meditar sobre ele e transmiti-lo habilmente ao auditório. Entende-se que os
correspondentes nem sempre conseguem escrever bons artigos; predominam as crônicas do tipo
“Nas margens do Têrek”. Em nossos jornais aparecem com frequência artigos do seguinte teor:
“Ao entardecer, quando o combate amainava, quando centenas de cadáveres alemães ficaram
estendidos no vale, quando terminavam de consumir-se os tanques alemães incendiados e o inimigo
retirava para a retaguarda seus canhões de campanha, todos souberam... que durante o combate o
sargento Rakhalsk, com sua metralhadora convenientemente camuflada, abriu um fogo mortífero
contra as colunas alemãs que avançavam e aniquilou cinquenta homens. Honra e glória ao sargento
Rakhalsk.
Todos souberam que o sargento Tupotchenko, desprezando a morte, arrebatou aos fascistas
quatro companheiros feridos e os tirou do campo de batalha. Honra e glória ao sargento
Tupotchenko!
Todos souberam que num encontro corpo-a-corpo, o soldado Jhienko matou seis alemães.
Honra e glória ao soldado Jienko!”
Aqui está uma forma de escrever completamente diferente. Eu não recomendaria imitá-la. O
autor, como um ricaço que se diverte, reparte honras e glória a torto e a direito. (Risos.) Isto é uma
desconsideração para com os homens que demonstraram verdadeiro heroísmo, é uma
desconsideração para com os leitores, pois o menos que o autor faz é descrever aqueles homens.
Enumera, guiando-se pelas folhas de serviço, o que fizeram os combatentes, acrescentando duas
palavras: “honra e glória”. A propósito de que vêm essas exclamações de “honra e glória, honra e
glória”? Com a glória não se deve brincar. O soldado que faz fogo com seu fuzil ou com sua
metralhadora, rechaça os alemães e os aniquila, não faz mais do que cumprir com seu dever como
qualquer outro em situação de combate.
O Bureau de Informação Soviético — órgão do Governo ao assinalar o comportamento heroico
destes oú daqueles soldados e oficiais, não prodigaliza honras e glórias, como costumam fazer
alguns correspondentes. Parece-me que estes não atribuem a devida importância ao sentido das
palavras do idioma russo. Não compreendem que a glória não é distribuída, mas que a glória se
conquista. Já faz dois meses que Stalingrado, cidade enorme, de grandes tradições militares de
significação histórica, em dura luta contém as hordas inimigas, causando-lhes perdas de tal natureza
que, de fato, estabilizaram as demais frentes.
Ali, o heroico é o pão de cada dia. E isto deve ser descrito com fatos, sem retórica nem frases
altissonantes. Nossos soldados não necessitam dos elogios de um repórter; para eles o melhor elogio
é a descrição verídica dos seus atos.
No trabalho de agitação e propaganda é preciso evitar por todos os meios as estridências. Não é
o momento de se aparecer perante o público com discursos ruidosos, com artifícios retóricos e uma
dialética doutorai. Agora o povo não está para isso. Nestes momentos, se alguém se apresentasse
numa assembleia operária ou numa reunião de kolkhozianos e começasse a pronunciar um discurso
ribombante ou a dar lições ao povo, este diria: “A propósito de que vem ensinar-nos?” Hoje em dia
é preciso explicar com clareza e paciência o que ocorre na vida, descrever com palavras verazes as
dificuldades experimentadas pelo povo.
Se pronunciais discursos de agitação e propaganda isentos de atavios, de artifícios retóricos,
lições e preceitos — compreendo, naturalmente, que isto costuma ser difícil — estou certo de que
vosso trabalho de agitação e propaganda será muito mais eficaz.
Os artigos de Ehrenburg ocupam um lugar especial em nossa literatura de agitação. Acho que
se pode aprender muito com ele e que em seus artigos há muito o que aproveitar para o trabalho de
agitação.
Como devem ser considerados os artigos de Ehrenburg? Ehrenburg sustenta uma luta corpo a
corpo com os alemães, assesta golpes a torto e a direito. Ataca com fúria e golpeia os alemães com
tudo o que lhe está ao alcance da mão: dispara contra eles com seu fuzil e quando acaba os
cartuchos, ataca-os a coronhaços, golpeando-os na cabeça e onde pode. Nisto reside o principal
mérito militar do autor.
Pode o propagandista e agitador extrair um bom material de seus artigos? Indubitàvelmente. É
claro que não se deve cornar um artigo isolado, mas três, quatro ou cinco fatos, analisá-los e
aproveitá-los, de acordo com circunstâncias concretas. Não se deve copiar unicamente o que está
escrito; todo o material deve ser primeiramente meditado e assimilado.
Em nossa imprensa, como podeis ver, existem, apesar de tudo, numerosos materiais. Publicouse uma série de artigos bastante bons sobre a guerra, particularmente em “Krásnaia Zviezdá”, que
podem ser muito bem aproveitados. Estão bem escritos e podem servir de material apropriado para
o agitador e propagandista, principalmente para o Komsomol.
O que eu desejaria recomendar-vos é que em vosso trabalho de agitação e propaganda eviteis as
palavras rebuscadas. Existem entre nós alguns aficionados em recorrer a elas. Por exemplo, na
imprensa encontramos com frequência a expressão “um atirador super-certeiro”. Pessoas que
dominam perfeitamente o russo fizeram-me a seguinte pergunta: “Diga-nos, como atira esses
homem: por cima do alvo ou de que maneira?” É claro que a pergunta tinha bastante malícia.
Alguém empregou essa frase rebuscada que depois começou a passear pelas páginas dos jornais.
Mas essa palavra não tem um sentido concreto. Se chamássemos de atirador supercerteiro a um
caçador que costuma abater muitos animais, ele se poria a rir. Em realidade, que pode significar
esses “supercerteiro”? Acaso significa que esses atirador cumpre algo, superando o plano,
ultrapassando os 100%? Deveis ter presente que ao dizê-lo se perde a noção da medida no que se
refere à pontaria. Essa expressão, além de ser desacertada do ponto de vista do idioma, o é também
na sua essência. Seu emprego, inclusive, é prejudicial ao nosso trabalho. Por que? A razão é muito
simples. Suponhamos que o atirador supercerteiro acerta cem vezes em cem impactos possíveis
(compreende-se que ultrapassar essa porcentagem é impossível); então o homem que faz 80 ou 90
impactos seria um atirador certeiro, o de 70 impactos, um bom atirador, e o de 60, regular. Eis ao
que isto conduz! E tudo porque a gente não atribui importância ao sentido das palavras. O emprêgo
de têrmos tais como “supercerteiro” não mostra mais do que um afã de rebuscamento que, no final
de contas, conduz ao absurdo. Os agitadores e propagandistas devem evitar o emprêgo de palavras
rebuscadas. Elas não servem para nada!
Freqüentemente, podemos encontrar casos de petulância nos tópicos jornalísticos. Não faz
muito li num jornal a descrição dum episódio de guerra, onde se contava como o tenente X, chefe
duma companhia, dirigiu um ataque dentro das possibilidades de sua unidade e se apoderou dum
lugar povoado. Depois de narrar todas as fases do combate, o correspondènté acrescenta que o
tenente se tinha apossado da localidade no estilo de Suvórov. É admissível, no caso presente, essa
expressão? Sim, naturalmente; mas não obstante, a expressão “no estilo de Suvórov” deve
empregar-se com sumo cuidado. Se nos pusermos a aplicá-la a toda ação bélica relativamente
pequena, levada a cabo por uma seção ou uma companhia, lhe tiraríamos importância. Resulta que a
atuação de Suvórov — grande capitão, que se cobriu de glória numa série de campanhas
brilhantemente realizadas — é comparada pelo correspondente com uma ação que, embora
importante, é relativamente limitada. Devemos elevar os tenentes ao nível de Suvórov, mas não
atribuir-lhes, sem mais aquela, o “estilo suvoroviano” por uma só ação acertada. Aparentemente
temos aí uma frase leve, simples e boa: “No estilo de Suvórov”, mas duvido de que os ouvintes
fiquem satisfeitos. É preciso que as palavras sejam eficazes, que as expressões e a apreciação do
comportamento dos homens sejam mais modestas, que as pessoas a quem vos dirigis sintam que as
palavras não são sugeridas por um estado de ânimo passageiro, porém que foram meditadas uma
por uma.
Quero chamar vossa atenção para outra expressão empregada com bastante frequência nas
crônicas de guerra. Em virtude de encontrá-la quase diariamente, ela pode gravar-se profundamente
em nossa memória. E não obstante, tampouco é muito feliz e costuma induzir a confusões. Dizem
os correspondentes: “tal unidade não retrocedeu nem um só passo”. Repetida várias vezes, a frase
alçou voo. Mas ao mesmo tempo a gente lê uma crônica da frente na qual se diz que tal ou qual
unidade conservou suas posições e então pensa: aqui não diz que não tenha retrocedido um só
passo; será que, apesar de tudo retrocedeu? (Risos). Pois bem, camaradas, quando se fala ou se
escreve, sobretudo quando se escreve, não se deve pensar somente como nós mesmos entendemos
tal ou qual acontecimento, também se deve pensar em como o entenderão os demais. Por outro lado,
o apelo “Nem um só passo atrás!” tem um profundo sentido, já que precisamente o primeiro passo
de retrocesso é o mais perigoso, pois lhe sucede inevitavelmente a retirada.
A palavra não deve ser manejada de qualquer maneira. O descuido nas expressões não fará
mais do que tirar influência aos agitadores e propagandistas.
O que foi dito acima se refere à propaganda no exército. Mas como marcham a agitação e a
propaganda na retaguarda?
No mesmo número de “Krásnaia Zviezdá” em que se publicou o artigo de Símonov á que acabo
de me referir, aparece também um artigo de K. Finn: “As mulheres da cidade de Ivánovo”. Devo
dizer-vos que todos nós estamos hoje tão absorvidos pelas ideias e as emoções ligadas à guerra que
nem sempre lemos os artigos em que se descreve a vida e o trabalho na retaguarda. Mas este é um
bom artigo. Naturalmente, como acontece em toda a nossa vida, nele a retaguarda e a frente
aparecem entrelaçadas. O autor relata seu encontro, num jardim, com uma mulher de uns trinta
anos, que lhe conta sua dor, a forma como a recebeu e como suporta sua desgraça.
“— Ontem recebi a notícia. Mataram meu marido na frente. A carta chegou pela tarde. Eu
acabava de voltar do trabalho...”
Já tinham doze anos de casados e haviam vivido entranhadamente unidos. Não tinham filhos.
E era para fim um marido e um filho. Eu o amava com um carinho especial. Se você soubesse
como...
Não pôde pronunciar a palavra “era”. E assim, evitando esta palavra, temendo-a e temendo ao
mesmo tempo falar do marido como de uma pessoa viva, de modo confuso, com frases
entrecortadas, como exclamações, mas sem lágrima, contou-me que ao receber a carta perdeu os
sentidos. Quando voltou a si, saiu correndo da casa. Para onde? Não sabia. Andou vagando pelas
escuras ruas de Ivánovo, pela cidade onde tinha nascido, onde conhecia cada pedra, cada casa
Reinava a escuridão, mas ela soube encontrar todos os lugares em que havia estado com seu marido.
Recordou o que lhe tinha dito ele, ali, na esquina da rua Socialista, ou aqui, num banco da praça do
Teatro Municipal. E imaginava por um instante que não tinha acontecido nada, que não havia
guerra, que seu Vássia vivia e estava a seu lado. Mas logo a dor tornava a invadi-la.
Hoje fui trabalhar. Eu atendo uma máquina retorcedora. Temia não poder ir, que me faltassem
as fôrças para ocupar meu posto. Mas me dominei. Convenci-me a mim mesma: “Vai ao trabalho,
Marússia. Por ele, pelo teu Vássia. Ele aprovará”. E hoje, enquanto trabalhava, parecia-me que ele,
o meu amado, estava a meu lado. Minhas amigas me observavam sem revelar seus sentimentos, mas
às escondidas de mim choravam em silêncio. Agora volto do trabalho. E imagine que me dá medo
passar pelos lugares onde costumava passar com Vássia”.
Ou então este outro relato do mesmo autor, no qual descreve como nasceu a amizade entre os
servidores de uma bateria e umas moças do Komsomol de Ivánovo:
“Dússia Lébedeva tinha feito, com outras companheiras de trabalho, uma viagem à frente,
levando presentes para os soldados e oficiais. Ali teve ocasião de visitar uma bateria.
Servem nessa bateria uns rapazes guapos e ágeis. E como atuam bem! Em nossa presença
destruíram uma cozinha de campanha alemã e com ela doze fritzes. “Isto é para você, Dússia —
disseram-me os artilheiros — um bom presente por motivo de sua chegada”. O que miais me
surpreendeu ali foi a limpeza: seus canhões refulgiam como se tivessem sido lustrados. Em geral,
observava-se que na bateria reinava uma ordem exemplar.
E foi então que Dússia teve a ideia de que valia a pena fazer maior intimidade com os
artilheiros, relacioná-los com as moças de sua brigada, estabelecendo uma amizade cordial e sincera
entre uns e outras. Mas naquele momento Dússia não se atreveu a dizê-lo aos artilheiros. E quando
voltou a Ivánovo, depois de consultar as companheiras, decidiu-se a escrever uma carta aos
servidores daquela bateria, propondo-lhes a emulação: “Esmaguem vocês os fritzes e nós
superaremos nosso plano de produção”.
Não vos parece que o artigo citado está escrito com veracidade? Por conseguinte, está bem
escrito. Cabe a vós saber aproveitá-lo com o mesmo acerto. É um verdadeiro achado para um
propagandista.
Outro exemplo: o autor descreve como essas mesmas moças começaram a corresponder-se com
uns artilheiros que não recebiam cartas de ninguém. Um propagandista não deve passar ao largo de
um fato como este, de tanta importância em tempo de guerra:
“Um dia, o camarada Máltsev, novo comissário da bateria, escreveu para as garotas. Eis aqui o
final da carta: “Ah, sim, um pedido mais (em segrêdo). Em minha bateria há uns soldados, bons
rapazes, que não mantêm correspondência com suas casas por motivos que facilmente
compreendereis. Costumam estar bastante tristes, particularmente quando chega o correio e eles não
recebem carta alguma. Na realidade, é muito penoso. Peço-lhe, Dússia, que pense no que lhe digo e
me envie pelo menos uns três ou quatro endereços de suas amigas. Isso me permitirá entregar a
meus soldados tais endereços e livrá-los das penosas esperas. Suplico-lhe que não o interprete como
um atrevimento e sim como um pedido para o bem da causa comum. E quanto ao rumo que tome
esta correspondência, os soldados o decidirão por si mesmos”.
Dússia enviou os endereços. Estabeleceu-se o intercâmbio de cartas. E agora quando chega o
correio à “nossa bateria”, não só recebem cartas os que têm parentes próximos, como também as
recebem os combatentes cujas casas e aldeias foram destruídas pelo maldito inimigo. Sem dúvida
também os artilheiros de “nossa bateria”, nas horas de descanso, falam nas moças do distante
Ivánovo e as chamam de “nossas garotas”.
Em seguida relata o autor outros episódios da vida das operárias de Ivánovo. Descreve sua vida
e seu trabalho de modo concreto, verídico, e se percebe que nos oferece um pedaço da vida real.
Não destaca nada intencionalmente, tudo parece natural. É um artigo muito útil para o
propagandista e, particularmente, pará o agitador. Vós me considerais um agitador experiente. Eu
não me tenho nessa conta (risos), mas não poderei dar-vos tanto como esses artigos, sempre que os
abordeis e analiseis com toda a serenidade.
Tais artigos e tudo o que aparece de novo em nossa imprensa — o novo e valioso no meu modo
de ver — e que sugere formas de agitação mais eficazes para os momentos atuais, publica-se
melhor na imprensa militar. Ao que parece, esta imprensa está mais próxima das emoções
relacionadas com a frente.
É isto, camaradas, tudo o que eu queria dizer-vos.
Como poderíamos resumir, portanto, nossa palestra? Creio que podemos fazê-lo do seguinte
modo: nossa imprensa proporciona material suficiente; é preciso apenas aproveitá-lo com
habilidade. Temos autores de talento. Eu me referi só aos artigos aparecidos nos últimos dias. Não
falei da obra “A Frente”, de Korneitchuk, que tem grande importância e orienta em muitas questões,
trazendo um material digno de ser analisado. É muito rigorosa a hora em que vivemos. Como já vos
disse, nosso povo cumpre um enorme trabalho que absorve todas as suas energias. Ao mesmo
tempo, o nível de vida baixou, as condições de existência pioraram. Nosso povo é tão heroico, tão
valente e firme que não há necessidade de criar nada artificialmente, nem de exagerar na
propaganda; basta tomar o material oferecido pela vida do povo e do exército e falar com plena
consciência das dificuldades que suporta o povo e da necessidade absoluta de derrotar o inimigo
custe o que custar. Asseguro-vos que se falar-des ao povo aproveitando tais materiais, esses método
de agitação será o mais eficaz e o que maior influência exercerá. (Aplausos.)
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Algumas questões relacionadas com a Agitação e a Propaganda