MUDANÇAS ORGANIZACIONAIS: REFLEXÕES SOBRE O PAPEL DA LIDERANÇA E AS EQUIPES DE TRABALHO Autoria: Denis Alexandre Maria Pereira, Patrícia Martins Fagundes Cabral Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS Resumo Este estudo apresenta resultados parciais de uma pesquisa sobre as atuais lideranças e suas percepções a respeito das mudanças na forma de gerir as equipes de trabalho. Trata-se de um estudo de campo com delineamento qualitativo, tendo como sujeitos de pesquisa, lideranças de diversos segmentos do mercado, que participaram do curso de extensão Escola de Líderes ABRH-RS – UNISINOS, em uma de suas cinco edições. A coleta de dados utilizou técnicas de observação participante, entrevistas e questionários. A fundamentação teórica aborda o papel da liderança na complexidade (Bauer, 1999; Spector, 2002; Robbins, 2004; Maximiano, 2004; Mariotti,2007) e discorre sobre a contribuição dessas lideranças para o desenvolvimento das equipes de trabalho (Katzenbach e Smith, 2001; Vergara, 2005). A análise dos dados utilizou-se da técnica de análise textual discursiva, que permitiu evidenciar que as lideranças analisadas entendem que há a necessidade de adotarem uma postura mais humana em relação aos liderados, buscando o fortalecimento das relações interpessoais, a fim de gerar o desenvolvimento individual e coletivo. Os resultados apontam ainda, que a autonomia impulsiona o desenvolvimento das equipes de trabalho, e que, apesar de entenderem as alterações ocorridas no mundo organizacional, essas lideranças sentem-se inseguras sobre como agir dentro dessa nova ótica, não conseguindo atuar de maneira mais efetiva neste novo contexto. Palavras-chave: Liderança. Autonomia de Equipes. Paradigma Sistêmico Complexo. ORGANIZATIONAL CHANGES: REFLECTIONS ABOUT THE ROLE OF LEADERSHIP AND OF THE WORK TEAMS Abstract This study presents partial results of a research about current leaderships and its perceptions regarding changes in the ways of managing work teams. One concerns about a field of study with qualitative outlining, having as subject of research leaderships of several segments in the market, who have attended an extension course at the Escola de Líderes ABRH-RS – UNISINOS, in one of its five editions. Collecting data has made use of techniques of participant remark, interview and questionnaires. The theoretical groundwork approaches the role of leadership in complexity (Bauer, 1999; Spector, 2002; Robbins, 2004; Maximiano, 2004; Mariotti,2007) and discusses about the contribution of these leaderships for the development of work teams (Katzenbach and Smith, 2001; Vergara, 2005). The data analysis has made use of the technique of discursive analysis which has allowed to make evident the analyzed leaderships understand that there is the necessity that one adopted a more human posture with regard to the one under leaders, searching the strengthening of interpersonal relations in order to create an individual and collective development. The results indicate yet that the autonomy stimulate the development of work teams and that although one comprehend changes taken place in the organizational world, such changes feel insecure how act in this new view, not being able to act in a more effective way in this new context. Key-words: Leadership, Autonomy of Teams, Complex Systemic Paradigm. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Introdução O acirramento da concorrência e a globalização observada em todos os ramos da economia, aliado à rapidez nas mudanças sócio-culturais, proporciona as organizações oportunidades e imprevisibilidades. Se de um lado observam-se a introdução de novas tecnologias e métodos de gestão, do outro, percebem-se trabalhadores com níveis de conhecimento técnico que o deixam em posição de igualdade em relação aos seus líderes, apresentando um maior potencial de autonomia para a execução das tarefas. Nesse período de transição, vislumbram-se novas formas de relacionamento entre os grupos sociais, seja em família, na escola, entre os amigos ou dentro das organizações. Há um elevado desenvolvimento tecnológico, que nem sempre é acompanhado pelo desenvolvimento nas relações interpessoais, pois quanto maior a aproximação tecnológica, menor a aproximação física entre as pessoas (VERGARA, 2005). Nesse contexto de mudanças visualizam-se novas situações organizacionais resultantes da globalização e internacionalização de empresas. Os grupos de trabalho tornam-se cada vez mais heterogêneos (ROBBINS, 2004). Os colaboradores reagem de formas diferentes aos estímulos dados pelo líder. Os valores morais, crenças, aspirações futuras, aptidões, temperamento, tudo influencia na forma de cada um encarar o trabalho e de agir dentro do ambiente organizacional. Por isso, criar um ambiente de aprendizagem contínua no qual todos agreguem valor às organizações e se sintam realizados com isto; desenvolver as competências das pessoas dentro de suas equipes de trabalho visando manter a empresa numa dinâmica competitiva, construindo novos valores e culturas organizacionais flexíveis e adaptáveis às mudanças ambientais; além de tentar conciliar as expectativas da empresa em relação aos seus colaboradores e metas com as expectativas dos mesmos em relação à organização e seus objetivos pessoais; passa a ser uma árdua tarefa para as lideranças atuais. Baseando-se em tais questões, o objetivo central deste trabalho consiste em identificar que mudanças na forma de gerir as equipes de trabalho são percebidas pelas lideranças, considerando os atuais contextos organizacionais. Para tanto, buscou-se as compreensões de líderes de níveis tático e operacional de empresas de diversos segmentos do mercado. Este estudo desenvolveu-se com alunos das cinco edições concluídas do curso de extensão Escola de Líderes Associação Brasileiros de Recursos Humanos (ABRH-RS) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), que ocupam posições de liderança de nível intermediário1 em diversos segmentos do mercado, e que buscam nesse local um espaço para a atualização profissional, autoconhecimento, desenvolvimento de competências de liderança, entendimento das transformações ocorridas no mercado de trabalho, bem como o entendimento de como o líder se insere nesse novo contexto organizacional. Dessa forma, procede-se inicialmente destacando as mudanças nas organizações e os impactos dos novos paradigmas, seguido pelo processo de desenvolvimento das equipes de trabalho. Por fim, discutem-se os resultados obtidos durante o processo de pesquisa e sua aplicação no dia-a-dia dos sujeitos analisados. 1 Para este estudo tomou-se por líderes intermediários, pessoas em cargos hierárquicos em níveis tático e operacional. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Fundamentação Teórica Ao analisar organizações empresariais, percebe-se que muitas baseavam os seus processos administrativos em planejamentos e controles rígidos. Na tentativa de manter o controle das situações, os executivos buscavam contemplar em seus planos todas as possíveis imprevisibilidades e assim diminuir as incertezas (BAUER, 1999). Entretanto, o ambiente extremamente dinâmico como o atual, torna praticamente impossível o controle sobre tais ocorrências. Buscando enfrentar a nova realidade na qual as empresas se viram inseridas, muitas delas obrigaram-se a reconsiderar suas estruturas organizacionais, estratégias, normas e métodos de negócio comumente usados. Houve a inclusão de novas tecnologias e reavaliação dos processos, pois os seus líderes necessitavam de maior rapidez para desenvolver novos produtos, canais de distribuição, estratégias comerciais, entre outros (KOTTER, 1992). Conforme dito anteriormente, devido à globalização e internacionalização das empresas, observa-se a inserção de equipes de trabalho heterogêneas, misturando pessoas de diversas áreas por tempos determinados na busca de objetivos específicos. Há uma maior mobilidade dos centros de decisão através de continentes e países, impulsionados pela velocidade e quantidade de informações e o fortalecimento da atuação das redes sociais internas e externas. (DUBRIN, 1998; ROBBINS, 2004; VERGARA, 2005). Além disso, percebe-se no profissional de hoje a necessidade de trabalhar de forma mais autônoma, tanto para se autodesenvolver, quanto para que as lideranças tenham maior liberdade para dedicarem-se a assuntos mais estratégicos da organização. Para tal, as equipes de trabalho passaram a ser mais flexíveis, adaptáveis e inovadoras, podendo, em alguns casos, ser responsáveis pelo planejamento, organização e controle de suas rotinas diárias; fixando os próprios objetivos e alinhando-os aos da organização (ROBBINS, 2004; VERGARA 2005). E mais, com o advento da informática e das tecnologias de informação, surgiram equipes de trabalho formadas por pessoas dispersas em diversas regiões, que utilizam-se dessas tecnologias para unirem-se “fisicamente”. Essas equipes virtuais dividem informações, tomam decisões, cumprem tarefas e seus membros podem ser da mesma organização ou de empresas diferentes, como fornecedores ou parceiros. Em relação aos demais tipos de equipes que interagem pessoalmente, nas equipes virtuais, a satisfação com processos de interação apresenta-se menor (ROBBINS, 2004). Buscando uma maior compreensão sobre a situação das equipes virtuais, Vergara (2005) comenta que na atualidade os indivíduos apresentam um elevado desenvolvimento tecnológico e um baixo desenvolvimento interpessoal, pois a cada dia nota-se uma maior aproximação tecnológica e, ao mesmo tempo, um aumento do isolamento físico entre as pessoas. Nessa sociedade, descobrem-se novas formas de trabalho e de vida, modos de ser e pensar, revela-se a complexidade e aumenta-se consideravelmente a competitividade, faz-se parcerias, criam-se blocos econômicos e mostram-se os paradoxos. Considerando que as mudanças organizacionais abrangem aspectos internos, tais como valores, aspirações e comportamentos; e externos, como processos, estratégias, práticas e sistemas; é ineficaz alterar estratégias, estruturas e sistemas, sem alterar o pensamento que as produziu (SENGE, 2000). VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Sendo assim, é extremamente importante que as lideranças estejam preparadas para lidar com essa complexidade e sejam fomentadoras dessas mudanças, pois, em uma abordagem contemporânea, o tema liderança é discutido considerando o pressuposto sistêmico-complexo, no qual o líder, ao mesmo tempo em que influencia seus liderados, também é influenciado por estes. A atuação do líder dependerá do contexto em que é exercida e das inter-relações que se estabelecem, não apenas entre líder e liderados, mas entre todos os atores que interagem na organização e compartilham a sua cultura, o planejamento estratégico da empresa e demais fatores organizacionais e sociais que permeiam esse cenário: líderliderados, liderados-liderados, líder-líderes (pares e superiores hierárquicos) (FAGUNDES; SEMINOTTI, 2009). Entretanto, para que isso ocorra, faz-se necessário uma reavaliação do papel das lideranças, que devem promover um nível de instabilidade que estimule o desenvolvimento das potencialidades das pessoas, propiciando o aprendizado contínuo, a troca de informações, a autonomia, a cooperação, comunicação, conectividade e a busca de autoconhecimento. Além disso, precisa buscar a complementaridade de competências e ter a capacidade de vislumbrar o futuro da organização e, assim, dar sustentação aos processos de mudança que garantirão esse futuro (BAUER, 1999; SENGE, 2000; ROBBINS, 2004; ARAÚJO, 2006). Partindo-se do princípio que a liderança nas organizações atuais tende a assumir uma dimensão coletiva, resultante das interações entre todas as lideranças, independente do nível hierárquico (FAGUNDES; SEMINOTTI, 2009), acredita-se que, do mesmo modo que se busca saber as alterações no papel das lideranças dentro das organizações, deve-se, também, procurar uma maior compreensão sobre as mudanças ocorridas na forma de gerir as equipes de trabalho. Apesar dos estudos mais atuais sobre liderança apontarem transformações significativas que atribuem a ela um caráter coletivo, a consideração de aspectos individuais de liderança não deve ser desconsiderada. A atuação desses líderes e sua influência proporcionam uma importante contribuição no desenvolvimento e no bom desempenho das equipes, que refletirá nos seus resultados (LAMPERT, 1998). As lideranças devem ter uma maior proximidade com sua equipe, estreitando as relações interpessoais e direcionando-a de forma clara e direta, além de, auxiliar no desenvolvimento individual e coletivo e criar uma identidade para a equipe. Deve também, construir relações de confiança; dividir informações e conhecimentos; estabelecer normas de alto desempenho, sempre escolhidas e instituídas de comum acordo com os integrantes da equipe; construir processos seletivos que garantam a entrada de pessoas com potencial comprovado para oferecer contribuições significativas; proporcionar treinamento continuado e criar um clima de abertura intelectual e crítica, estimulando a criatividade (LAMPERT, 1998; KATZENBACH E SMITH, 2001; MAXIMIANO, 2004). Metodologia Para a realização desta pesquisa, foi adotada uma abordagem metodológica qualitativa, utilizando a estratégia de estudo de campo, devido ao seu foco ser os sujeitos da pesquisa e suas percepções, não estando vinculada a nenhuma empresa. Essa natureza de pesquisa permitiu a captação, sem modelos pré-estabelecidos, das percepções dos entrevistados e construção de correlações entre as variáveis analisadas (VERGARA, 2000). VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Considerando a acessibilidade aos sujeitos da pesquisa e, pelo curso de extensão Escola de Líderes ABRH\RS – UNISINOS ser considerado uma referência na capacitação de lideranças do Rio Grande do Sul (CLICRBS, 2009), a população-alvo deste estudo constituiuse de alunos das cinco edições concluídas do curso, totalizando quatorze (14) alunos, todos líderes intermediários dentro de suas organizações, sendo dois (2) da primeira edição e três (3) de cada uma das demais quatro edições. O número menor de alunos da primeira edição devese à indisponibilidade dos participantes contatados que, devido a demandas profissionais, não conseguiram conciliar um horário para a realização da entrevista. Os dados utilizados para esta pesquisa originaram-se da realização de uma observação participante, realizada nos dias 19 e 20 de junho de 2009, durante o módulo Liderança no Paradigma Sistêmico Complexo, da quarta edição do curso de extensão Escola de Líderes ABRH-RS – UNISINOS. A escolha por aplicar inicialmente este método baseia-se na necessidade do pesquisador em conhecer in loco a metodologia utilizada pelos facilitadores do curso, além de presenciar como as interações e trocas de experiências propostas impactam os participantes do curso. Cabe ressaltar que a receptividade dos participantes, permitindo a aproximação para a observação em todos os momentos de interações escolhidos, proporcionou o enriquecimento do material coletado para a posterior análise. Essas anotações foram reorganizadas e transformadas em documento de análise. Dando sequência à coleta dos dados, foram realizadas entrevistas e aplicados questionários semi-estruturados. Devido à indisponibilidade de tempo de alguns entrevistados, e/ou a distância em que eles se encontram, quatro profissionais foram questionados sobre a possibilidade de utilização do Messenger e e-mail. Sendo assim, as entrevistas semi-estruturadas foram aplicadas por meio de questões abertas e de forma individual. As entrevistas realizadas através do Messenger e os questionários enviados por emails correspondem a um (1) participante de cada uma das quatro últimas edições do curso. Para a análise dos dados coletados pela pesquisa, foi utilizada a Análise Textual Discursiva, contemplando fragmentos de discursos individuais, o que proporcionou uma compreensão maior do que foi dito e a correlação desse discurso com o contexto organizacional onde o sujeito da pesquisa está inserido. O ciclo de análise proposto por Moraes e Galiazzi (2007) - unitarização, categorização e comunicação – possibilitou a emergência de novas compreensões apoiados na auto-organização. Discussão dos Resultados Analisando as entrevistas e, considerando os resultados das observações realizadas durante a quarta edição do curso Escola de Líderes, constatou-se que o principal motivo das alterações ocorridas no papel do líder relaciona-se com as pessoas. A complementaridade de conhecimentos, habilidades e atitudes, além dos conceitos de liderança compartilhada, indicam a necessidade de equipes que possuam um grau de autonomia que as impulsione ao desenvolvimento. Mas, para que isso aconteça, é de extrema importância que as lideranças entendam que a situação atual mudou e que alguns comportamentos tradicionais que antes geravam bons resultados, atualmente, podem ser obstáculos (SENGE, 2000). O líder atual deve adotar uma postura mais humana em relação aos seus liderados e assim, aliar as atividades burocráticas inerentes a sua posição, ao fortalecimento das relações interpessoais. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Buscando uma maior compreensão sobre o perfil dos profissionais contemporâneos, os sujeitos da pesquisa apontaram que este profissional deve compartilhar dos mesmos valores que a organização possui. O comprometimento com a organização e sua cultura é destacado como algo essencial para este profissional, pois, para haver uma mudança significativa, faz-se necessário que o colaborador e a organização compartilhem da mesma forma de pensar e agir. Isso porque, apesar do indivíduo apresentar a ideia de individualidade, o mesmo não possui a capacidade de se desligar totalmente do meio do qual faz parte e depende (MARIOTTI, 2007). Ilustrativamente, podem-se tomar duas declarações de líderes intermediários entrevistados: “Exige-se alguém que cumpra suas funções com qualidade, cumprindo o que prometeu ao cliente, se comprometendo com a empresa e sua cultura”. “Nós procuramos as pessoas que realmente se mostram interessados, que estejam dispostos a se doar para a empresa”. Buscando a complementação do perfil exigido pelo mercado de trabalho, também são apontados: “Proatividade, eficácia, dinamismo, entre outras competências que só o cargo vai poder dizer”. Na compreensão dos sujeitos da pesquisa, no momento da contratação de um profissional, deve-se buscar a conciliação de dois perfis. O primeiro refere-se às competências gerais da organização, ou seja, aquelas que todos os funcionários devem ter. A segunda trata das competências específicas da função que será exercida. Há um entendimento entre os profissionais que participaram da análise, relatando que, para inserir-se no mercado de trabalho, a pessoa precisa demonstrar atitude, tanto para a execução de suas tarefas, quanto para buscar o seu desenvolvimento pessoal e profissional. Flexibilidade, criatividade e reciclagem constantes também são características apontadas como necessárias para os profissionais de hoje: Penso que para ser bem sucedido no mercado de trabalho, é preciso ser flexível, estar aberto ao novo, desenvolver a capacidade criativa, ser objetivo e nada prolixo. Ter disposição para reciclagem permanente, estar atento ao desenvolvimento tecnológico. Para atuar eficazmente no novo contexto, a pessoa precisa, além de desempenhar suas tarefas, ser comunicativo e acessível, bem como saber trabalhar em equipe e possuir certo nível de liderança. A ideia de liderança apresentada pelos entrevistados refere-se à autogestão das atividades que devem ser realizadas por cada colaborador. Dinamicidade e humildade para escutar e aprender com os demais também são importantes. Os profissionais devem estar atentos à complementaridade de conhecimentos e competências proporcionados pela troca de vivências com as pessoas. E mais: O profissional deve estar aberto a mudanças, antigamente as pessoas eram contra as mudanças e isso não é mais aceito hoje, o profissional deve andar junto à empresa e buscar o seu aperfeiçoamento constante. Há uma ampliação das competências necessárias para que os profissionais contemporâneos desempenhem com eficiência suas funções. Hoje, ele precisa desenvolver a capacidade de visualizar os novos contextos. Neste momento a transição que está acontecendo no mercado de trabalho fica explícita: VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Além da formação acadêmica e conhecimentos de tecnologia, o profissional precisa estar conectado com as mudanças do mundo e tendências do mercado. O paradigma do “emprego para se aposentar” se quebrou e as pessoas têm que se preparar para serem liderados por si mesmos e investir na sua carreira. Os profissionais de hoje precisam ter um pensamento voltado ao macro, saber fazer a leitura dos movimentos do ambiente, buscar aprendizagem constante, não ter medo de viver e se arriscar e saber lidar com as casualidades. Eu sempre procuro observar como os membros da minha equipe lidam com as casualidades, como agem com as adversidades e se possuem uma boa aptidão para as relações. Nas verbalizações acima se percebe que a capacidade de arriscar e vivenciar as novas experiências é algo essencial para o desenvolvimento individual e coletivo, sendo assim, é um importante requisito para que o profissional possa atuar dentro dos novos contextos organizacionais. É inerente a qualquer atividade humana o erro, mas nota-se dentro das organizações que as pessoas evitam se expor e ter um maior controle das suas atividades, somente pelo medo de errar e, dessa forma, ficar expostas a críticas e repreensões. Os relatos anteriores evidenciam que um dos requisitos citados para o profissional na atualidade é a autonomia. Sendo assim, cabe ao líder alinhar sua atuação na busca do desenvolvimento dessa autonomia em sua equipe de trabalho. Um bom líder tem uma equipe capaz de andar com as próprias pernas. Ele desenvolve talentos para o mercado. Então, amplia-se a percepção de autonomia de equipes, acrescentando a ela, o sentimento de comprometimento que é possível gerar entre os envolvidos quando se busca esse desenvolvimento. A ideia de continuidade de gestão também fica aparente no relato: Percebo que é de fundamental importância o líder desenvolver autonomia de sua equipe, porque o liderado só segue o líder porque acredita nele. As pessoas são passageiras e as empresas não, logo, é importante que os colaboradores possam ser mais autônomos justamente para que se sintam integrantes da equipe e que tenham responsabilidades com o trabalho que desempenham. Unindo Bauer (1999) e Mariotti (2007), comenta-se que desenvolver a autonomia não significa incentivar o individualismo, pois o desenvolvimento da individualidade não exclui a solidariedade e, sim, reforça-a. Nesse contexto, a autonomia deixa de ser um contraponto à dependência, tornando-se relativa a ela, ou seja, não há autonomia completa sem vínculo com a dependência. Apesar de considerar a autonomia das equipes de trabalho importante e necessária, cabe-se lembrar que a cultura e a estrutura da organização influenciam diretamente as equipes de trabalho. Ressalta-se que as condições proporcionadas pela empresa é que limitarão essa autonomia: Autonomia é vista como uma coisa muito importante e necessária. Mas o que devemos ver é se as condições da empresa proporcionam isso. Dependendo da cultura e do “jeito” da empresa, as equipes não conseguem trabalhar assim. A estrutura da empresa influencia muito nesse aspecto. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Para gerar criatividade e agregar valor as suas atividades, todas as pessoas e grupos precisam um razoável grau de autonomia, que os possibilite estabelecer objetivos e definir sua forma de trabalho, mesmo que essa forma não agrade, eventualmente, o seu superior (BAUER, 1999). Mas, para que se possa desenvolver a autonomia de uma equipe de trabalho faz-se necessário que a liderança também tenha um determinado grau de autonomia de seus superiores. Pois: a empresa tem que te dar abertura e apoio para ter autonomia. Assim acaba ocorrendo uma transferência, pois a mesma autonomia que tenho da empresa eu repasso para a equipe. Ou seja, essa colocação indica que o grau de autonomia dispensado pelo líder a sua equipe está diretamente ligado ao grau concedido por seus superiores a ele. Seguindo com suas considerações sobre a autonomia, Mariotti (2007) utiliza-se de um conceito de Morin, dizendo que “a autonomia depende”. Isso porque, apesar do indivíduo apresentar a ideia de individualidade, o mesmo não possui a capacidade de se desligar totalmente do meio do qual faz parte e depende. A preocupação com o contexto organizacional também é levantada nas verbalizações analisadas. Conforme os sujeitos da pesquisa, a autonomia deve ser vista como oportunidade de desenvolvimento, e cabe às lideranças proporcionarem essas oportunidades às pessoas de suas equipes. O discernimento necessário ao líder no momento de delegação de tarefas aparece de forma muito clara em seus relatos. Tu tem que dar autonomia prá pessoa poder se desenvolver, ou seja, tem que saber delegar, como delegar, dar responsabilidade e atribuições, e oportunidades para que essas pessoas se desenvolvam. Logicamente dentro do cenário e do contexto da empresa, tem coisas que tu não vai poder; responsabilidades que tu não pode passar adiante, mas você deve sim proporcionar esse desenvolvimento. Conforme Fagundes, Rocha e Seminotti (2007), quando as lideranças possuem pouca clareza do seu papel na organização, elas tendem a apresentar dificuldades na definição de responsabilidades, limites de autonomia e tomada de decisão. Entende-se que a delegação de atividades não significa o total afastamento do líder em relação à atividade delegada. Para que não ocorram desvios de planejamento e dualidades de interpretação, a autonomia deve ser proporcionada de forma supervisionada. Além disso, o acompanhamento durante este desenvolvimento serve para direcionar a equipe para a resolução de problemas. A autonomia deixa de ser um contraponto à dependência, tornandose relativa a ela, ou seja, não há autonomia completa sem vínculo com a dependência (BAUER, 1999). A autonomia precisa ser exercitada por todos, pois quem exerce autonomia precisa assumir as responsabilidades pelos atos e pelas decisões adotadas; quem concede autonomia, deve dar acesso à informação necessária para tomada de decisões e os limites devem ser claramente estabelecidos. Não se pode confundir autonomia com “deixa que eles se virem”. É preciso haver supervisão, até para saber se a equipe precisa de orientação ou se precisa corrigir rumos. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Autonomia tem que ser desenvolvida, mas sempre acompanhada para resolver problemas internos e externos. A pessoa prá ter autonomia tem que saber o que está fazendo, ter treinamento para executar as coisas com segurança. Ensinar a abrir e ampliar o campo de visão da pessoa, enxergar além do que vê hoje, e isso demanda um tempo diferente para cada pessoa. A delegação de autonomia para uma equipe é o resultado de um processo de construção individual e coletiva que demanda um determinado tempo. O processo de desenvolvimento de autonomia deve ser algo conquistado e não delegado, ele deve ser construído com o tempo. É necessário darmos um tempo para que elas possam pensar e refletir sobre o que foi proposto. Conforme se viu, esse tempo de adaptação sofrerá variações de uma pessoa para outra, de acordo com as características de cada uma. Mariotti (2007) comenta que o desenvolvimento humano é um processo contínuo, mas, para que ele ocorra, faz-se necessário compreender a dinâmica da cognição. Isso ocorre porque o conhecimento chega às pessoas como um grupo de informações definidas, e estas, serão processadas de acordo com os valores e crenças individuais. A influência da maturidade organizacional e pessoal é outro ponto trazido pelas lideranças ouvidas. Em suas narrativas, há uma indicação esclarecendo que, para que haja o desenvolvimento da autonomia, necessita-se que a equipe apresente um nível de maturidade que permita a ela compreender esse processo. O descompasso entre a autonomia concedida e a maturidade da equipe reflete de forma negativa, visto que gera um sentimento de insegurança e dependência dos liderados. Para desenvolver autonomia, a maturidade da equipe é fundamental. O difícil é achar o ponto da Autonomia x Controle. As equipes devem sempre ter um nível de autonomia que respeite sua maturidade. Muitas vezes a autonomia é dada, mas as pessoas não sabem como trabalhar com ela e sentem-se perdidas e inseguras. Ao se falar em autonomia de equipes de trabalho é indispensável lembrar-se que ela deve ser usada respeitando o potencial das pessoas e o contexto organizacional, somente assim esta autonomia proporciona benefícios para a organização. No entanto, para que isso aconteça, faz-se necessário analisar de que forma ocorrem a interdependência e a recursividade entre as políticas da empresa, lideranças e liderados e quais são os seus reflexos na vida organizacional (FAGUNDES; ROCHA; SEMINOTTI, 2007). No entanto, na prática, de que forma essas lideranças buscam desenvolver as suas equipes de trabalho? Compartilhar os conhecimentos, delegar tarefas e provocar os colaboradores a pensarem sobre as adversidades emergentes promovem o desenvolvimento dos liderados. Estimular a participação dos integrantes dos grupos nas decisões é benéfico para o crescimento da equipe, mas, conforme citado anteriormente, deve-se observar o grau de maturidade dessa equipe, pois de outra forma os resultados poderão ser muito aquém dos esperados. Essa situação é percebida nos relatos: Ensino tudo o que sei e cobro deles que façam por si próprios, não me tragam um problema sem pelo menos duas soluções. E é claro que VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br estou sempre aprendendo com a minha equipe, ouço muito a opinião deles. Eu delego bastante as coisas prá eles e fico somente ajudando quando necessário. A gente precisa que as pessoas trabalhem a vontade e pensem sobre suas tarefas, até porque, no caso da empresa onde trabalho, muitas pessoas ficam distantes da matriz. As falas acima demonstram claramente o relacionamento dialógico de influência entre líder e liderados no qual o líder influencia os liderados e, ao mesmo tempo, sofre influência dos mesmos (MARIOTTI, 2007). A execução de capacitações, treinamentos, processos de feedback, sempre baseados em uma comunicação transparente e objetiva também são estimuladores da aprendizagem nos grupos. Por isso, antes de começar a desenvolver a autonomia das equipes de trabalho: Elas são preparadas primeiro conhecendo os fluxos de trabalho da empresa, conhecendo cada setor e suas obrigações, depois as rotinas operacionais e suas implicações, além disso, reuniões de feedback periódicas onde são feitas indicações de cursos e treinamentos necessários para a pessoa se desenvolver. Para desenvolver o meu grupo de trabalho eu procuro falar de forma muito clara quais são os pontos de maior observação, delegando e compartilhando com eles a responsabilidade pelo andamento e incorporação dos processos. O processo de desenvolvimento é facilitado quando há um estreitamento das relações interpessoais. Entre as formas de aproximação entre líderes e liderados, comentadas pelos sujeitos da pesquisa, citam-se as integrações fora da organização, que proporcionam um conhecimento mais profundo das pessoas. Esse aprofundamento das relações auxilia o líder a entender o momento vivido pelos liderados, e, assim, planejar e incentivar o desenvolvimento do grupo de forma mais eficaz. Os relatos abaixo ilustram esta situação: Por meio de treinamentos mensais com foco nas competências que devem ser desenvolvidas, nas reuniões setoriais e nas integrações da equipe fora do local de trabalho, pela escuta dos mesmos. Esta escuta me facilita entender o estado atual deles. Os treinamentos são realizados de forma individual e coletiva e sempre são feitos respeitando os diferentes momentos de cada um. Quando a gente mexe na essência das pessoas, é necessário darmos um tempo para que elas possam pensar e refletir sobre o que foi proposto. Cada um possui tempos distintos para esse processo. Buscar ideias e estimular a execução das mesmas também são práticas utilizadas no desenvolvimento das equipes de trabalho. “Busco estimular as idéias e estimular que tomem iniciativa e que procurem resolver os problemas que tem condições para resolver, sem depender de decisão superior. Evidentemente que as regras devem ser previamente estabelecidas”. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Para embasar o relato anterior, cita-se Robbins (2004) que afirma que os líderes devem aprender a delegar o controle das atividades aos funcionários, e estes devem aprender a ter responsabilidade sobre o seu trabalho. Observa-se uma grande coerência no entendimento do grupo analisado sobre os benefícios do desenvolvimento das equipes em relação ao seu grau de autonomia. A liberdade dos líderes é citada como uma das principais vantagens de ter equipes autônomas nas organizações. A possibilidade de focar-se em assuntos mais estratégicos da organização e, dessa forma, responder de forma mais ágil as imposições do ambiente externo, representa uma dessas vantagens. Vendo na parte do benefício, eu tenho a liberdade de como um gestor, poder focar mais na parte de gestão e menos na parte de execução. Te dá um respaldo prá ti poder trabalhar tranquilamente um pouco mais na parte de gestão, de relacionamento, de aperfeiçoamento, não só próprias da tua atividade como das pessoas que estão subordinadas a ti. Prá um líder, uma equipe mais autônoma te dá uma tranquilidade maior para poder se preocupar com coisas mais estratégicas, tu consegue subir um pouco e verificar o estratégico da coisa, quais são as políticas, o que tu precisa realmente ter atenção. Hoje eu consigo ter tempo de verificar como a gente vai trabalhar de forma melhor e com menor custo. A delegação hoje me dá essa tranquilidade prá estar cuidando das coisas mais estratégicas. As ideias de disseminação de conhecimento, compartilhamento de informações e processos ficam evidenciadas nesses relatos. Outra tendência explicitada é a ampliação da visão dos líderes sobre os reflexos de suas ações, englobando processos e relações interpessoais. Nota-se também que, quando possuem um nível de autonomia relevante ao contexto onde estão inseridas, as equipes de trabalho tendem a se sentir mais a vontade para aprender, além de mais comprometidas devido ao seu envolvimento direto com as situações. Quando a equipe consegue trabalhar de forma mais autônoma, deixa mais tempo livre para os seus líderes se preocuparem com outras situações. As pessoas quando trabalham mais a vontade aprendem mais também, porque precisam se envolver mais com as coisas. A oportunidade de vivenciar as realidades organizacionais através da autonomia proporciona o aumento da maturidade da equipe e o desenvolvimento da autoanálise. Alterações nos níveis de segurança e confiança das pessoas também são apontadas como um reflexo desse processo, pois: ...uma equipe que consegue um nível de autonomia que responda ao que a empresa precisa proporciona aos seus líderes uma maior liberdade e independência. Ela apresenta um aumento em sua maturidade e isso facilita o entendimento dela em relação às consequências do uso de sua autonomia, ou seja, ela também se desenvolve. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br E mais, “Quando tu faz as pessoas participarem das decisões, ouvindo-as e dando oportunidade de opinar diretamente, essas pessoas acabam desenvolvendo além da autonomia, um nível de segurança, confiança e maturidade maior”. Aprofundando-se em suas considerações, um dos entrevistados verbaliza que na atualidade o trabalho pode ser paralelizado, aumentando a produtividade e desenvolvendo novos líderes. A ideia de gestão compartilhada é apontada em diversas obras como uma importante quebra paradigmática, necessária para um bom desempenho das organizações dentro do novo contexto. Complementando o comentário anterior, acrescenta-se que, quando alinhado ao planejamento da empresa, a autonomia das equipes de trabalho pode representar um diferencial competitivo perante as demais empresas do mesmo ramo. Com uma equipe autônoma consegue-se implantar e desenvolver mais coisas ao mesmo tempo, responder as necessidades da empresa de forma mais ágil, diminuir os custos. Ganha-se qualidade e um diferencial de mercado dentro do ramo onde operamos. A otimização do tempo e a diminuição dos custos também são benefícios apresentados no relato acima. Para alguns sujeitos da pesquisa, a autonomia é algo inerente e dissipado em suas organizações de forma tão efetiva, que ele não consegue visualizar um cenário que funcione de outra forma. Uma equipe autônoma é a única forma de fazer as coisas funcionarem, digo isso baseado na minha concepção, na forma de trabalho do meu setor e da minha empresa. Consegue-se implantar e desenvolver mais coisas ao mesmo tempo, responder as necessidades da empresa de forma mais ágil, diminuir os custos. Ganha-se qualidade e um diferencial de mercado dentro do ramo onde operamos. Wellis, Byham e Wilson (1994) apresentam o aumento de qualidade e produtividade, flexibilidade, comprometimento, redução de custos, multifuncionalidade, entre outros, como benefícios atingidos através da autonomia das equipes. Cabe ressaltar que a autonomia confere, além do desenvolvimento das pessoas, uma maior confiança para enfrentar as adversidades, o refinamento da capacidade de delegação, agilidade na tomada de decisão e reflexão sobre essas decisões. A lógica da continuidade de gestão também é trazida de forma muito conveniente: A autonomia possibilita o desenvolvimento das pessoas, permite desenvolver a capacidade de delegação, exige compartilhamento de informações, agiliza a tomada de decisões, leva as pessoas a pensar mais detidamente sobre as decisões e sobre as possibilidades; prepara futuros líderes. Pessoas com autonomia ficam mais positivas e preparadas para enfrentar as coisas que acontecem. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Percebe-se entre os entrevistados que as equipes que possuem um grau de autonomia coerente com o seu nível de desenvolvimento apresentam colaboradores trabalhando mais satisfeitos e confiantes. As pessoas ficam mais felizes e essa satisfação com o trabalho e com o ambiente de trabalho gera um grande diferencial. Essas percepções também foram observadas durante a coleta in loco, onde os líderes apontaram como os principais benefícios das equipes que trabalham de forma mais autônoma: um ambiente menos estressante; maior facilidade para atingir objetivos; trabalho flui melhor; processos de feedback menos tensos e complementaridade de conhecimentos, habilidades e atitudes. Complementando, Parker (1994) comenta que equipes que possuem um nível de desenvolvimento elevado trabalham em um clima mais informal, confortável e descontraído; a liderança é coletiva, as discussões são abertas e buscam o crescimento e amadurecimento; os conflitos são resolvidos mais facilmente; e evidencia-se um bom grau de aceitação a críticas. Entretanto, apesar das lideranças entrevistadas perceberem a autonomia das equipes de trabalho como algo benéfico ao desempenho de suas gestões, muitas relatam sobre dificuldades em conseguir desenvolver um grau de autonomia dessas equipes que seja relevante ao contexto em que elas estão inseridas. E, conforme os contextos organizacionais dos participantes, as dificuldades encontradas ultrapassam as necessidades de conhecimentos técnicos, localizando-se mais especificamente no campo das relações humanas. O medo e a insegurança das pessoas também são observados nas falas. Os liderados acabam se fechando e não emitindo suas opiniões e os líderes, apresentam-se inseguros em compartilhar o poder e o conhecimento, sentindo-se ameaçados em seu poder formal (FAGUNDES; SEMINOTTI, 2009). Limitações que eu tenho referem-se ao receio e medo das pessoas de tomar a frente das coisas e falar o que elas pensam. O que vejo como limitação é o medo das pessoas, por muitas vezes acharem que não conseguem se desenvolver, ser inseguras. A insegurança do líder em compartilhar poder e conhecimento e, reconhecer que outros também têm capacidade para tomar decisões com competência é um dos maiores entraves percebidos pelos sujeitos da pesquisa. A cultura organizacional e a indisponibilidade da equipe para assumir essa responsabilidade também são citadas em seus relatos. Essa situação fica explícita no relato abaixo: O líder deve saber confiar e delegar. Não ter medo de dar autonomia, mesmo que as coisas não saiam exatamente como ele planejou. Os benefícios a médio prazo compensam. Os problemas são porque muitos líderes ficam inseguros no momento de compartilhar o seu poder e passar adiante o conhecimento; a cultura organizacional muito hierarquizada e a concentração de poder de decisão nas mãos de poucos também dificultam. É preciso verificar se há interesse da equipe em dispor desta autonomia. Muitas vezes, a limitação é imposta pela própria equipe que se recusa a tomar decisão já que há alguém “que é pago para isso”. Reforçando a ideia de que o grande desafio está em fazer as pessoas entenderem o motivo pelo qual as mudanças acontecem, e, assim, assimilarem essas mudanças como VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br oportunidade de desenvolvimento, cita-se Wellis, Byham e Wilson (1994), que comentam que uma das limitações das grandes mudanças está ligada à resistência dos colaboradores, principalmente quando eles não têm uma visão geral da mudança. A cultura da empresa deve estar madura o suficiente para comportar essas mudanças. O grande problema está em fazer as pessoas entenderem o porquê das mudanças. Como a gente lida com pessoas que possuem diferentes formas de pensar e agir, muitas vezes percebemos que não há uma real compra da ideia, e, assim, não cooperam. A organização também precisa estar madura o suficiente para dar suporte a isso. O maior desafio tá na questão do quanto as pessoas entendem que isso é uma oportunidade de desenvolvimento. Muitas vezes, as pessoas entendem que tu tá deixando de fazer uma atribuição tua e passando. O mais difícil é tu conseguir pessoas que entendam isso e admirem essa oportunidade, digamos assim, sem ver como apenas mais um trabalho delegado, mais uma atribuição. As situações inerentes à complexidade paradigmática atual aparecem nas falas dos entrevistados. Relações antagônicas envolvendo controle, autonomia, distância e poder são constantemente levantadas. Percebe-se, então, que há um sentimento de incerteza dos líderes em relação ao novo contexto. As pessoas são muito diferentes e aqui na organização elas estão acostumadas à figura do líder coordenando as atividades. Quando isso não acontece, sentem-se inseguras e as coisas não saem de forma tranquila. A falta de tempo e a sobrecarga de trabalho também dificultam muito essa relação com as pessoas. O tempo é o principal limitador de tudo. A resistência de alguns integrantes da equipe que tiveram uma criação mais autoritária também é limitador, porque eles acreditam que o líder deve deter todo o conhecimento e só mandar fazer. E também a dificuldade que a maioria das pessoas tem em mudar justamente porque a mudança faz com que elas saiam da comodidade. Nas verbalizações anteriores, percebe-se que alguns modelos mentais seguem muito presentes dentro das organizações. Cabe às lideranças encontrarem formas de contornar esses limitadores, para, assim, criarem ambientes de desenvolvimento individual e coletivo. Segundo Mariotti (2007), quando não se consegue a quebra dos modelos mentais, cria-se um efeito de repetição e monotonia, adotando as mesmas práticas e evitando a inovação. As novas relações de trabalho surgem novamente como um desafio a ser enfrentado pelas atuais lideranças, destacando-se as estruturas em rede: A distância é o maior entrave para o desenvolvimento da autonomia da equipe, a parte de motivá-los fica bem complicada. Porque, como tenho 24 unidades sob minha gestão, tu tem que ver toda a parte pessoal a distância, o que impede de chegar nas pessoas e conhecêlas. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Como se observa na fala anterior, essas estruturas acabam, muitas vezes, gerando uma grande distância física entre os gestores e seus colaboradores, pois em muitos casos as equipes estão espalhadas por diversas filiais em diferentes regiões do país. Com o mundo em transição, nota-se que as relações de poder entre líderes e liderados sofrem alterações. No passado, os líderes eram considerados as pessoas que possuíam um maior preparo técnico. Atualmente, devido ao grande avanço tecnológico, principalmente na área das comunicações, observam-se líderes e liderados com níveis de instrução formal similares. Essa mudança origina uma relação muito tênue entre autoridade e liderança, gerando um sentimento de insegurança desses líderes. Ao desenvolvermos a autonomia há um contraste, pelo perfil de liderança de pessoas que a gente tem sob nossa gestão; tem pessoas com opiniões muito formadas, pessoas com grande experiência, e tu tem que dar um respaldo prá elas, ou seja, por esse perfil de gestão elas estão praticamente no mesmo nível, tanto nível técnico, como no nível intelectual e no nível de contato de afeto com as pessoas. E tu tem um desafio nisso, é saber o momento de te sobrepor, de te impor, até quanto tu deve, tu pode se sobressair. Quando é necessária a tua mão em cima ou não. Entre as principais limitações percebidas durante a observação de campo destacam-se: tempo limitado das lideranças para focar a gestão de pessoas, dificuldade de lidar com pontos tensionantes nas relações interpessoais e profissionais, modelos mentais referentes à posição hierárquica que não respondem mais as transformações paradigmáticas contemporâneas, dificuldades de trabalhar com frustrações (autoconhecimento do líder) e de entender os contextos no qual está inserido. Nota-se nos relatos das lideranças atuais que apesar de entenderem as alterações ocorridas no mundo do trabalho, os líderes ainda sentem-se inseguros sobre como agir dentro dessa nova ótica. Na grande maioria das manifestações, há evidências que os líderes já percebem uma dissonância entre o que costumavam fazer e o que precisam aprender a fazer para responderem mais efetivamente as novas formas de vida e de relacionamentos sociais, sobretudo nas organizações de trabalho. Desta forma verifica-se que são nos contextos de complexidade (Bennis, 1996 apud ARAÚJO, 2006) que se encontram não apenas os desafios, mas as possibilidades de sucesso das ações de liderança do futuro. Considerações Finais A realidade das organizações contemporâneas obriga-as a buscar, cada dia mais, formas de tornarem-se mais dinâmicas e mutáveis. A necessidade por inovação, flexibilidade, criatividade e adaptabilidade surge como fatores chaves, para que a empresa mantenha-se eficaz e com bons resultados financeiros. A crença na existência do “líder herói” citada por Senge (2000) mostra-se cada vez mais irreal, pois está na contramão do desenvolvimento de equipes autônomas. Na verdade, percebe-se que as próprias lideranças estão, gradativamente, acordando para essa nova realidade. Não há como criar, inovar, flexibilizar e, principalmente, adaptar-se rapidamente às mudanças organizacionais se não for através das pessoas. A tendência pela adoção de modelos de gestão participativa, principalmente incentivando a autonomia de seus grupos de trabalho, justifica-se pela necessidade das lideranças em VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br desenvolver as equipes e assim, desligarem-se das rotinas mais operacionais, direcionando o seu tempo às atividades mais estratégicas e cruciais à organização. O estudo realizado para fundamentar essa pesquisa trouxe a percepção de profissionais de diversos segmentos mercadológicos, que ocupam posições de gestão em níveis tático e operacional dentro de suas organizações, sobre as mudanças na forma de gerir as equipes de trabalho. As mudanças organizacionais geraram transformações nas relações de trabalho. A heterogeneidade das equipes de trabalho imprimiu uma nova dinâmica na forma de trabalhar e de se relacionar. Observam-se equipes com interações pessoais, e outras, virtuais. Equipes permanentes, e aquelas formadas por um tempo determinado para desempenhar uma tarefa específica. Neste contexto, os líderes precisam buscar a complementaridade dos conhecimentos e habilidades, bem como potencializar a criação de um ambiente de troca de informações, autonomia, cooperação, aprendizado, comunicação e conectividade, capazes de impulsionar o desenvolvimento individual e coletivo. Para trabalhar com esta complexidade, o líder necessita humanizar o tratamento com os liderados, fortalecendo as relações interpessoais e buscando o desenvolvimento da autonomia das equipes de trabalho. Devem, também, buscar formas de estreitar as relações interpessoais com os seus liderados e instigar suas equipes a desenvolverem suas competências emocionais. Observa-se que equipes com maior nível de autonomia apresentam pessoas mais satisfeitas e comprometidas. Os líderes dessas equipes usufruem mais liberdade para dedicarem-se a ações mais estratégicas do negócio e a relação de confiança é mútua. Sendo assim, para atingir um nível de autonomia que traga benefícios à organização, as lideranças precisam buscar: enfrentar o medo e a insegurança das pessoas em expor suas opiniões; a sua própria insegurança no compartilhamento de poder e conhecimento; a cultura organizacional e os modelos mentais que remetem a posições hierárquicas; além da dificuldade de lidar com pontos tensionantes e com frustrações. Cabe ao líder desenvolver a maturidade da sua equipe. Essa maturidade, por sua vez, refletirá na maturidade organizacional, permitindo que as pessoas tenham um maior entendimento dos processos de mudança. Não há uma única forma considerada correta para gerir as equipes de trabalho, assim como, um nível de autonomia considerado adequado a todas as organizações. As lideranças precisam conhecer o contexto em que estão inseridas e, assim, trabalhar os antagonismos vislumbrando a criação de um ambiente de desenvolvimento de competências coletivas, através da autonomia compartilhada. Entender que as relações antagônicas são inerentes ao exercício da liderança e que a adoção de uma visão mais sistêmica traz benefícios no desempenho de suas gestões são alguns dos principais passos a serem tomados pelos gestores atuais. Recomenda-se que estes líderes busquem espaços que proporcionem a reflexão sobre a sua atuação como gestor, o desenvolvimento do autoconhecimento e a troca de experiências e vivências. Estas lideranças devem buscar uma maior compreensão de como esses agentes interagem entre si e com o ambiente em que estão inseridos, para, assim, usarem essas aprendizagens como impulsionadoras de reflexão e inovação, com vistas à constante renovação organizacional. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br Referências ARAUJO, Luis César G. de. Gestão de Pessoas: Estratégias e Integração Organizacional. São Paulo: Atlas, 2006. BAUER, Ruben. Gestão da mudança: Caos e complexidade nas organizações. São Paulo: Atlas, 1999. CLICRBS. Disponível em: <http://www.clicrbs.com.br>. Acesso em: 16 maio 2009. DUBRIN, Andrew J. Princípios da Administração. Trad. Roberto Minadeo. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1998. FAGUNDES, Patrícia M.; ROCHA, Cláudia B. Jotz da; SEMINOTTI, Nedio. Como os Gestores se Apropriam da Emoção no Desenvolvimento de Suas Competências de Liderança. XXXI Encontro da ANPAD. Rio de Janeiro: EnANPAD, 2007. FAGUNDES, Patrícia M.; SEMINOTTI, Nedio. Competências de Liderança e Competências Gerenciais: um Olhar Dialógico. XXXIII Encontro da ANPAD. Rio de Janeiro: EnANPAD, 2009. FAGUNDES, Patrícia M.; SEMINOTTI, Nedio. A Dimensão Coletiva da Liderança. Caderno IHU Idéias. Ano 7 - Nº 120. São Leopoldo: Instituto Humanitas Unisinos, 2009. KATZENBACH, Jon R.; SMITH, Douglas. Equipes de Alta Performance: Conceitos, princípios e técnicas para potencializar o desempenho das equipes. Rio de Janeiro: Campus, 2001. LAMPERT, Tom. Como influenciar pessoas: influência intensiva para habilidades profissionais. Rio de Janeiro: Infobook S.A., 1998. MARIOTTI, Humberto. Pensamento complexo – suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 2007. MAXIMIANO, Antônio Cesar Amaru. Introdução à Administração. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2004. MORAES, Roque; GALIAZZI, Maria do Carmo. Análise textual discursiva. Ijuí: Uniijuí, 2007. PARKER, Glenn M. A nova estratégia competitiva: a equipe e seus integrantes. São Paulo: Pioneira, 1994. ROBBINS, Stephen P. Comportamento organizacional. 7. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004. SENGE, Peter. A Dança das Mudanças: Os desafios de manter o crescimento e o sucesso em organizações que aprendem. 8. ed. São Paulo: Campus, 2000. VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e Relatórios de Pesquisa em Administração. São Paulo: Atlas, 2000. ______. Gestão de pessoas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2005. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br WELLIS, Richard S.; BYHAM, Willian C.; WILSON, Jeanne M. Equipes Zapp: Criando energização através de equipes autogerenciáveis para aumentar a qualidade, produtividade e participação. Rio de Janeiro: Campus, 1994. VII Convibra Administração – Congresso Virtual Brasileiro de Administração – www.convibra.com.br