Paixão e Traição de uma Jovem Subversiva: apontamentos sobre o caso Ana María Gonzalez e a violência política dos anos 1970 na Argentina Marina Maria de Lira Rocha* RESUMO: Este artigo trata do episódio de assassinato do General Cesário Angel Cardozo, em 18 de junho de 1976, primeiro chefe da Polícia Federal argentina, na ditadura militar, pela jovem Ana María Gonzalez, militante do grupo Montoneros. Pretende-se, a partir deste caso, discutir a geração dos anos 1970 e os militantes que ingressam na luta armada. Neste sentido, desenvolver sobre a articulação entre política e violência naquele contexto e como ela é revisitada pelos pesquisadores nos dias atuais PALAVRAS-CHAVES: Violência, política, guerrilha urbana, Argentina. ABSTRACT: This article is about a case of murder in 18 June 1976. The General Cesario Angel Cardozo, first head of the Argentine‟s Federal Police in the military dictatorship, was killed by the young Ana María Gonzalez, a militant of Montoneros. From this history, it aims discuss the generation of the 1970s and the militants who enter in the armed struggle. However, it develops about the relation between politics and violence in that context and how it is revaluated by the researchers in ours days. KEYS-WORDS: Violence, Politics, Urban Guerrilla, Argentina. *** Na madrugada de 18 de junho de 1976, é assassinado o general Cesário Angel Cardozo, chefe da Polícia Federal argentina, desde 31 de março daquele mesmo ano.1 O general foi vítima de uma bomba de 700 gramas de Trotil, enrolada em uma caixa de perfume, colocada de baixo de sua cama matrimonial, no bairro de Belgrano, em Buenos Aires.2 A assassina: uma menina de apenas 20 anos, cabelos castanhos e curtos. Uma jovem bonita, com voz doce e sorridente que vivia com sua mãe Ana María Corbijn e seus irmãos Abel e Aymará. Estudante do último ano da Escola Normal, Ana María González era boa aluna e, em apenas cinco meses, tornar-se-ia professora primária. Melhor amiga da filha da vítima, Maria Graciela Cardozo, ambas estudavam juntas e Ana freqüentava constantemente a casa do general, onde era tratada “como se pertencesse a família”. Durante toda la tarde se comportó normalmente, como si ese jueves 17 de junio fuese un día más en su vida. Pero no lo era, y ella lo sabía. Esa noche la alumna Ana María Gonzáles tenía que asesinar a un hombre. Tal vez, a toda una familia. Pero ella estaba allí (...) tranquila, serena. A medio metro suyo estaba la hija del hombre que debía * Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense. Lembramos que, em 24 de março, dá-se o golpe militar. Portanto, o general assumiu sete dias depois, tornando-se o primeiro chefe de polícia do governo militar. 2 O episódio foi dramatizado em uma cena do filme argentino Garage Olimpo, dirigido por Marco Bechis e lançado em 2005. 1 morir. Quizás ella también sería despedazada por la bomba. Pero ninguno de esos pensamientos parecía preocuparla demasiado. Si la preocupan, ella lo disimulaba muy bien.3 A menina, descrita em todos os jornais da época, teria traído a confiança de sua amiga – devastada com a notícia e fotografada sempre desolada pelos jornais; da família que a acolheu – a mulher do general, além de viúva, saiu ferida do atentado; e de sua própria família que não poderia imaginar que, por trás daquela “face doce”, escondia uma “jovem subversiva”. Ana María González capa da Gente y la Actualidad de 24 de junho de 1976 Para incorporar Ana María à história, contudo, não podemos aceitar essa simples separação entre bem e mal dada pela imprensa e demais interpretações naquela “luta contra a subversão no território argentino”. Ana era um indivíduo em um contexto e sua vivência daquele acontecimento dependia tanto de seu pertencimento social quanto de suas marcas específicas de gênero, lugar e idade.4 Neste trabalho, não se pretende desenvolver a experiência dos fatos citados pela perspectiva da personagem, pois os documentos observados não nos permitiriam uma 3 Reportagem “Ana María Gonzáles asesinó al padre de su mejor amiga”. In: Gente y la Actualidad. Buenos Aires: Editorial Atlántida, 24 de junho de 1976, N.570, p.8. 4 JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. Madrid: Siglo XXI, 2002. 1 boa análise desta expectativa. Não se trata tampouco de biografá-la ou de se tomar apenas a percepção noticiosa deste caso. Aspira-se, ilustrando com ela, investigar uma geração e a marca da luta armada no país, analisando alguns estudos que abordam o tema atualmente. Logo, tentar humanizar um pouco dessa escrita da história. Ao incorporar o homem nas engendras do tempo, devemos lembrar-nos de captar sua subjetividade, afinal “não se pode fazer uma história dos homens que ignore seja a subjetividade da condição humana, seja seus limites”.5 Contudo, como este caminho é uma via de mão dupla – os homens insurgem com sua subjetividade e ela é fruto de um contexto – pois o homem “só emerge claramente como um ser humano quando seus desejos (e ações) são considerados no contexto de seu tempo”.6 Ana María González era uma jovem militante do grupo Montoneros. No início do „Processo de Reorganización Nacional‟,7 conjuntamente ao Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP), os Montoneros eram um dos maiores grupos armados da Argentina. O termo “montoneros” foi cunhado no século XIX, em meio as rebeliões provocadas pelos “gaúchos argentinos” descontentes, que aos olhos de oligarcas liberais eram um “montón” de selvagens.8 Em fins dos anos 1960, tal nome fora adotado por aquele grupo político a fim de simbolizar a nova luta no antiimperialista no território, marcada pela especificidade da história argentina. Assim, às nove da manhã do dia 29 de maio de 1970, dois jovens vestidos de militares entraram no apartamento do oitavo piso na Rua Montevideo, em Buenos Aires, oferecendo uma custódia ao general aposentado Pedro Eugenio Aramburu, um dos líderes do golpe de 1955 contra Perón e presidente entre 1955 e 1958. Emilio Ángel Maza e Fernando Luis Abal Medina o levariam sequestrado, realizando a Operação Pindapoy, que julgou e justiçou o referido general, penalizando-o com a morte.9 Este operativo tinha três objetivos: Puni-lo pela extradição do corpo de Evita durante a ditadura e a execução de 27 peronistas em junho de 1956, penalizá-lo por sua conspiração contra o governo de Onganía, mas, essencialmente, batizar publicamente a organização no primeiro aniversário do Cordobazo. 10 [Los Montoneros son] una unión de hombres y mujeres profundamente argentinos y peronistas, dispuestos a pelear con las armas en la mano por la toma del poder para Perón y para su pueblo y la construcción de una Argentina Justa, Libre y Soberana […] nuestra doctrina es la doctrina justicialista, de inspiración cristiana y nacional.11 5 ARAÚJO, Maria Paula Nascimento; SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. “História, memória e esquecimento”. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, N.79, Dezembro 2007, p.110. 6 ELIAS, Norbert. Mozart: Sociologia de um Gênio. Rio de Janeiro: Zahar, 1995, p.15. 7 Denominação do golpe de acordo com seus integrantes e apoiadores. 8 GILLESPIE, Richard. Soldados de Perón: Los montoneros. Buenos Aires: Grijalbo, 1998. 9 Idem. 10 O Cordobazo foi uma série de manifestações, ocorridas na cidade de Córdoba em 1969, frutos de um novo ativismo social, cujos conflitos defendiam melhores condições de trabalho, com sistemas de incentivo, classificações e categorias. As manifestações urbanas foram levantadas por trabalhadores e sindicatos nas ruas, das quais os estudantes e trabalhadores não sindicalizados também participaram. 11 LANUSSE, Lucas. Montoneros: El mito de sus 12 fundadores. Buenos Aires: Ediciones B Argentina, 2005, p.207. 2 Al pueblo de la Nación: La conducción de los Montoneros comunica que hoy a las 07.00 horas fue ejecutado Pedro Eugenio Aramburu. Que Dios Nuestro Señor se apiade de su alma. ¡Perón o muerte! ¡Viva la patria!12 Lucas Lanusse propõe que a formação dos Montoneros tenha sido parte e conseqüência de um movimento de transformação social na Argentina e na América Latina dos anos 1960. Para o autor, o grupo havia se formado sob três identidades que o permeavam: a urgência revolucionária posta pela Revolução Cubana, os movimentos revolucionários dentro da Igreja, e o peronismo. A primeira trouxe a validade da luta armada com especificidades latino-americanas que argumentou sua prática. A segunda apresentou muitos jovens à militância contra a exploração e a pobreza. Enquanto a terceira mostrou àqueles que não defendiam a política peronista o apoio que a população pobre e trabalhadora devotava ao justicialismo. Un fenómeno paralelo que comenzó a darse en muchos estudiantes fue el de su “conversión” al peronismo, en un ambiente que tradicionalmente había sido uno de los principales bastiones antiperonistas. Al salir la política de las universidades, los estudiantes se encontraron con los obreros peronistas, muchos vieron en ellos al “sujeto de la revolución” y comenzaron a identificarse con el Movimiento. Por otra parte, Perón – de cuyo gobierno comenzaba a rescatarse la lucha por la justicia social y la soberanía nacional – fue descubierto como modelo y mentor espiritual por aquellos que eran aún niños cuando el líder exilado estaba en el poder.13 Logo, os Montoneros teriam sido formados pela confluência de várias experiências em diferentes províncias do país, resultados da dinâmica que marcou aquela década, e propunham três objetivos gerais: Pátria Justa, Livre e Soberana; o retorno de Perón e o socialismo nacional. Assim, o justicialismo montonero estava inserido no debate sobre o peronismo e era designado como socialismo nacional – a destruição do Estado capitalista e seu exército e a tomada de poder pelo povo. No entanto, suas divergências com o peronismo oficial levaram o grupo a distanciar-se da política de Perón e, posteriormente, de sua mulher, Isabelita, quando estes assumiram o poder, entre os anos de 1974 e 1976.14 Com o golpe militar de 1976, qualificado pela organização enquanto uma ofensiva generalizada sobre a população, os Montoneros optaram por uma estratégia de ação ativa destinada a consolidar e preparar o terreno para a resposta popular. O exército montonero, que desde 1974 havia se autodenominado clandestino, pretendia deter os avanços dos “inimigos” e reorganizar a população para a resistência. Nesta posição, as estratégias de propaganda política do grupo tornaram-se cada vez mais limitadas aos panfletos, periódicos clandestinos e comunicados de imprensa. Importante lembrar que já em setembro de 1974 institui-se uma “lei antisubversiva” que 12 La Nación, 03 de junho de 1970. p.1 e 22. In: LANUSSE, Lucas. Montoneros: El mito de sus 12 fundadores. Buenos Aires: Ediciones B Argentina, 2005, p.33. 13 Idem, p.71. 14 Para tais disputas ver: SIGAL, Silvia; VERON, Eliseo. Perón o muerte: los fundamentos discursivos del fenómeno peronista. Buenos Aires: Eudeba, 2004. 3 estabelecia prisão para jornalistas e diretores de periódicos publicadores de informações sobre “desordem ou ações guerrilheiras de qualquer espécie – rural, urbana, ou fabril”. As informações sobre estas poderiam apenas ser divulgadas a partir do discurso oficial. Com a ditadura, esta restrição se aprofunda, aumentando a política de clausuras de meios de comunicação e os desaparecimentos de homens e mulheres “subversivos” nesta guerra imaginada, que se expandia aos âmbitos político, econômico e cultural. O governo ditatorial apelava, em uma de suas propagandas, para a imagem hospitalar de uma enfermeira com o dedo à boca pedindo silêncio sob a legenda “Silêncio é saúde!”15 Neste sentido, os primeiros pronunciamentos sobre a ação de González advieram dos discursos oficiais militares. O presidente interino Rafael Videla manifestou-se logo após aquela madrugada: Que esta triste lección que hoy pongo en conocimiento de ustedes, sirva para alertarlos sobre la virulencia de aquellos jóvenes que han caído bajo en nefasto influjo del ERP, el brazo armado del ejército rojo que intenta hoy ocuparnos.16 15 ANSALDI, Waldo. El silencio es salud. La dictadura contra la política. In: QUIROGA, Hugo; TCACH, César (Comp.) Argentina 1976-2006: Entre la sombra de la dictadura y el futuro de la democracia. Rosario: Homo Sapiens Ediciones, 2006, p.113. 16 Discurso de Videla na reportagem “Una joven mató al Gral. Cardozo”. In: La Nación, 19 de junho de 1976, Ano 107, N. 37552, p.1. 4 Enterro do General Cesário Angel Cardozo na reportagem “Ana María Gonzáles asesinó al padre de su mejor amiga” de Gente y la Actualidad de 24 de junho de 1976 Um dia depois, o Ministro do Interior de seu governo, Albano Harguindegy, em mensagem divulgada por cadeia nacional de rádio e televisão, informou à população: (…) Las ideas nefastas de la izquierda marxista atenta contra nuestras familias, nuestra bandera, nuestra patria y nuestra libertad. Sepamos defenderlas. (…) Sepan que Maria Graciela Cardozo confió en su amiga creyendo que los sutiles comentarios de izquierda que de tanto deslizaba eran sólo inquietudes sociales de una buena compañera y no las palabras de una peligrosa agente del ERP. (…) Padres e hijos compatriotas: cuiden el hogar. Preserven su seguridad. No acepten generosamente las ideas implantadas en las mentes jóvenes por expertos internacionales de la subversión creyendo que son sólo inquietudes juveniles que no revistes gravedad. La seguridad y la paz del pueblo se defienden con las armas, pero se construye dentro del hogar y las escuelas.17 Vê-se que, em ambos os depoimentos oficiais sobre a ação, ela fora designada erroneamente como uma realização do ERP. O Ejército Revolucionario del Pueblo foi o braço armado do Partido Revolucionario de los Trabajadores (PRT) que lutou através da tática guerrilheira e da idéia de libertação pela guerra popular, mobilizadas na denominada segunda geração castrista.18 Em 1974, o ERP estabeleceu a guerrilha rural ao território de Tucumán. Mas, já no final de 1975, este o método estaria desarticulado, as baixas no PRT-ERP aumentariam e a unidade do Partido em torno de forças democráticas, como a Frente Antiimperialista y por el Socialismo ou o Movimiento Social de Base, tornar-se-iam inoperáveis devido a repressão. O ERP ainda intentaria uma última intervenção social, em 23 e 24 de dezembro de 1975, com o assalto ao quartel de Monte Chingolo e a tentativa de controle da zona sul de Buenos Aires, que tinha mais de dois milhões de habitantes. A operação foi descoberta e desarticulada devido uma delação, ocasionando a derrota militar e política da organização através de diversas mortes de militantes.19 Em 19 de julho de 1976, os membros fundadores e parte da Direção Central do PRT, Mario Roberto Santucho (Robi) e Benito Urteaga (Mariano), foram assassinados em Villa Martelli, e Domingo Menna, sequestrado e levado ao Centro de Detenção Clandestino Campo de Mayo, onde desapareceu. Para os integrantes do PRT, permaneceu, então, a espera pelo risco, pelo medo ou pela morte. 17 Discurso de Harguindegy reproduzido na reportagem “Una joven mató al Gral. Cardozo”. In: La Nación, 19 de junho de 1976, Ano 107, N. 37552, p.1 e Continuação do discurso de Harguindegy reproduzido na reportagem “Una joven mató al Gral. Cardozo”. In: La Nación, 19 de junho de 1976, Ano 107, N. 37552, p.18. 18 ROLLEMBERG, Denise. A ditadura civil-militar em tempo de radicalização e barbárie (1968-1974). In: MARTINHO, Francisco Carlos Palomanes (Org). Democracia e Ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2006. pp.141-152. 19 Sobre Monte Chigolo ver: PLIS-STERENBERG, Gustavo. Monte Chingolo: La mayor batalla de la guerrilla argentina. Buenos Aires: Planeta, 2009. 5 A confusão sobre a propriedade da operação pode ser explicada pelo próprio argumento de subversão, que igualava todos os inimigos sob uma única percepção: “o mal comunista de um exército vermelho global”. Contudo, a diferença entre os dois grupos supracitados é clara. Os Montoneros faziam parte de uma Tendência Revolucionária, na qual integravam-se idéias marxistas e peronistas, propondo uma luta armada dentro do âmbito urbano. Já o ERP era um exército cuja luta enfatizava a experiência foquista e o âmbito rural, participando do que se designou de Independentismo em relação ao peronismo da época.20 Assumir aquela ação tornou-se, portanto, uma atitude importante, na medida em que modificava publicamente sua autoria, contrariava o discurso oficioso e colocava em pauta a existência e o poder do movimento. Mas, a falta de liberdade de expressão complicava este procedimento, obrigando que as ações dos Montoneros e suas políticas de assassinatos audazes explicarem-se a si mesmas. Essa execução, em especial, foi uma forma escolhida para expor a oposição ao governo militar, burlando a redução da publicidade sobre ações guerrilheiras e expondo-o em várias capas de jornais. Se cultivaba cuidadosamente la simpatía hacia las actividades montoneras mediante un mínimo uso de la violencia ofensiva y una extremada selectividad de objetivos, en vez de practicar el terrorismo al azar. Los guerrilleros prestaban la preciosa atención a las operaciones simbólicas, susceptibles de provocar la adhesión de todos los peronistas.21 Em agosto de 1976, Horácio Mendizábal, quadro militar montonero, especializado em planejamento de ações (seqüestros e atentados) contra empresários, militares e inclusive um cônsul estadunidense, apresenta Ana María, em uma conferência clandestina realizada em Buenos Aires, a um jornalista da imprensa espanhola.22 Ao ser entrevistada, para a Revista Cambio 16, a jovem militante afirmou que Varias operaciones anteriores de los Montoneros no habían conseguido “romper la censura de la prensa establecida por el enemigo. Con acciones de aquel tipo [Cardozo], no tendríamos ningún problema de publicidad, pues la propia espectacularidad del hecho atraería inmediatamente la atención del público.23 Mesmo que abordada pela maioria dos grandes periódicos da época como uma assassina traidora da amizade que lhe fora proporcionada, o caso Cardozo era explicitado e ganhava capas e páginas de publicações de grande circulação. A ação era divulgada e a morte daquele símbolo da repressão exposta ao público argentino. 20 Para mais informações sobre as tendências políticas na época, ver: LANUSSE, Lucas. Montoneros: El mito de sus 12 fundadores. Buenos Aires: Ediciones B Argentina, 2005. 21 GILLESPIE, Richard. Soldados de Perón: Los montoneros. Buenos Aires: Grijalbo, 1998, p.143. 22 LARRAQUY, Marcelo. Fuimos Soldados: Historia secreta de La contraofensiva montonera. Buenos Aires: Agular, 2006, p.116. 23 GILLESPIE, Richard. Soldados de Perón: Los montoneros. Buenos Aires: Grijalbo, 1998, p.285. 6 Gente y La Actualidad, de 24 de junho de 1976, fala sobre a entrevista com a “jovem subversiva” pela Cambio 16 Segundo Novaro e Palermo, as operações armadas dos Montoneros – seqüestros, intimidações e assassinatos de diretores de empresas e empresários – tinham, majoritariamente, a intenção de auxiliar nas medidas de força dos sindicatos combativos. Contudo, para os autores, na maior parte dos casos, essas ações repercutiam negativamente nas organizações gremiais, expondo-as a represálias e deslegitimando suas conquistas e lutas.24 Fato foi que o assassinato de Cardozo justificou a ampliação de medidas repressivas, através do estabelecimento oficial da Pena de Morte para assassinos de membros das forças de segurança, funcionários judiciais ou do governo e da matança não oficial. Estas mortes eram apresentadas pela imprensa como intentos de ações guerrilheiras fracassados.25 Um estudo sobre os editoriais dos principais jornais argentinos (La Prensa, La Nación, Clarín, La Opinión e Buenos Aires Herald), entre maio e junho de 1976, expressou as opiniões destes em relação ao governo e suas ações contra a subversão. La Prensa teria dedicado 37% de seus editoriais a confrontar-se com o comunismo, o terceiro-mundismo e o peronismo. La Nación teria sua proporção maior (34%) de editoriais apoiando a reconstituição moral. Já Clarín dedicava 20% a idéia de integração 24 NOVARO, Marcos; PALERMO, Vicente. Historia Argentina. La Dictadura Militar 1976/1983: Del Golpe de Estado a la Restauración Democrática. Buenos Aires: Paidós, 2003, p.72. 25 LARRAQUY, Marcelo. Fuimos Soldados: Historia secreta de La contraofensiva montonera. Buenos Aires: Agular, 2006. 7 nacional geográfica, econômica e histórica, e outros 23% às idéias de desenvolvimento infra-estrutural, fontes de energia e indústrias básicas. El Herald, por sua vez, simpatizava-se com a política econômica do governo (23% dos editoriais são sobre o assunto) e denunciava em 43% dos editoriais a violência no país, seja da esquerda ou da direita. Os excessos da prática violenta pelo governo, entretanto, não eram registrados no La Nación, enquanto Clarín dedicou ao tema 3% de suas opiniões e La Opinión 57%.26 Blaustein e Zubieta explicam essa posição jornalística retomando a expressão “Golpe Midiático”, não em sua literalidade (golpe que teria sido dado pela imprensa), contudo como causa e conseqüência dos artifícios produtivos e da própria produção sob a função de informar. Neste sentido, denunciam a responsabilidade e a identidade de cada jornalista e meio de comunicação de assumirem-se diante do golpe e do governo militar e seus impactos no cruzamento entre o cultural, social e institucional, que levaram a produção de informação na Argentina. Donde sí importa la expresión de “golpe midiático” es cuando puede funcionar como corolario posible, como fantasía, como metafórico hito final de un proceso de transformación en las identidades culturales, en las formas de percibir y construir lazos sociales o políticos, en el avance de una maquinaria social capaz de crear o robustecer consensos y conflictos, en el triunfo de la ideología de mercado sobre lo cultural, en cambios espectaculares ocurridos en el interior mismo de los medios que van desde bellas tapas color a la infografía y de la cobertura de una pueblada a los modelos de concentración en holdings.27 Interessante lembrar que, em dezembro daquele mesmo ano, os três maiores jornais de circulação nacional – La Nación, Clarín, e La Razón – conseguiram, baixo a tutela do Ministro de Economia Martínez de Hoz, comprar da família Graiver a empresa Papel Prensa, que fabricava papel de jornal. O banqueiro e empresário David Graiver havia sido morto em um acidente de avião mal explicado, em seis de agosto de 1976. Graiver possuía ligações com o grupo Montoneros, guardando o dinheiro de seqüestros realizados pela organização que somava um total de USS 16.825.000. Grande parte deste dinheiro foi obtida com os resgates de Juan e Jorge Born, diretores e acionários da empresa Bunge & Born, seqüestrados em 19 de setembro de 1974, e de Henrich Franz Metz, diretor da Mercedes Benz, seqüestrado em 23 de outubro de 1975.28 Os jornais de meados desse ano iniciaram, então, uma campanha preocupada com os jovens e suas propensas maneiras de se render a “subversão”, o mal vermelho que estava acima de qualquer consciência crítica da juventude desinformada. Este envolveria aos jovens, com pouca experiência, que se tornavam agentes do perigo antinacional. 26 BLAUSTEIN, Eduardo; ZUBIETA, Martín. Decíamos Ayer: La prensa argentina bajo el Proceso. Buenos Aires: Colihue, 2006, p.27. 27 Idem, p.15. 28 Para a história de David Graiver ver: GASPARINI, Juan. David Graiver: El banquero de los montoneros. Buenos Aires: Editorial Norma, 2007. 8 Había que minar, entre otras cosas, las mentes y las almas. ¿Cómo? Atacando los centros vitales de la sociedad. Las mentes de los chicos y los jóvenes en colegios y universidades. La moral en general. El sentido más tradicional. Infiltrar la Iglesia y proponer una doctrina cristiana más permisiva, más temporal; menos rezos y más cuestiones sociales. Menos mortificación y más agresión. Está claro que tienen otros enemigos. Las Fuerzas Armadas y la Policía. Contra ellos la guerra es frontal y con balas. Eso es lo que se ve con más claridad. Pero la guerra se da instintivamente, en todos los flancos claves de la sociedad. La familia, los medios de comunicación, la Iglesia. Contra las Fuerzas Armadas y la Policía también… Más pornografía, más relajo. (…) Aquí el objetivo es más claro aún: las políticas del marxismo, su filosofía fundamental, deben aparecer en los medios como santa y buena. Todo lo que se opone a ella debe ser censurado… Pero ante el caso González, hay que detenerse y reflexionar. ¿Qué les están haciendo a nuestros hijos? ¿Qué maquinaría infernal logra un lavado de cerebro semejante que los hace criminales de sus amigos íntimos o de sus propios padres? … Insistimos: las madres tienen un papel fundamental que desempeñar. En este tiempo criminal que nos toca vivir, ante esta guerra subversiva que amenaza destruirlo todo, uno de los objetivos claves del enemigo es su hijo, la mente de su hijo. Y son ustedes, las madres, con más fuerza y efectividad que nadie, las que podrán desbaratar esa estrategia si dedican más tiempo que nunca al cuidado de sus hijos.29 O vocabulário cotidiano dos anos 1960 e 1970 argentinos possuíam enquanto vocabulário cotidiano carreava os sentidos da guerra, da morte e da violência política. À visão sobre a subversão e o terrorismo era incorporada a partir de uma juventude oposta ao modelo de virtudes militares – força física, sentimentos nobres, vontades firmes, lealdade, generosidade, pureza, sinceridade, respeito. O caso de Ana María foi um exemplo acentuado pela propaganda oficial e pelos discursos da grande imprensa de como uma “juventude subversiva”, “traidora e sem escrúpulos” poderia estar escondida por trás de uma face suave, de uma menina tão delicada. 29 “Carta abierta a las madres argentinas”. In: Para Ti, 5 de julho de 1976. 9 A devastação de Maria Graciela Cardozo em Gente y la Actualidad de 24 de junho de 1976 Ana María tornou-se, então, a encarnação da subversão e o ponto final no qual poderiam chegar os jovens argentinos que não fossem cuidados pela sociedade. Desta forma, a responsabilidade de manter a ordem fora transposta do quartel à família, aos amigos, à nação, que deveriam denunciar aqueles subversivos e auxiliar na contenção da subversão, evidenciando um apoio à luta antisubversiva levada pelos militares. Logo, desapareciam dos periódicos as motivações da luta daqueles indivíduos, transformados em horrores de uma herança recebida. El modo en que se había infiltrado (Ana María) – fingiendo amistad con una de las hijas del militar asesinado – dio pie para que la propaganda construyera una imagen de la juventud que se volcaba a la subversión en términos alarmantes (González tenía 19 años). Uno de los nudos de esta caracterización era señalar a los jóvenes como carentes de ideales y espíritu de sacrificio, “arruinados por unos padres que les daba todo. En particular, quién se especializó en esta versión fue el conocido periodista Bernardo Neustadt, que publicó un artículo llamado “¿Se preguntó cuántas Ana María González hay?” Poco después, la prensa controlada por el régimen daba a publicidad versiones alarmantes acerca de la “penetración subversiva” en el ámbito educativo.30 30 LORENZ, Federico Guillermo. Testigos de la derrota. Malvinas: los soldados y la guerra durante la transición democrática argentina, 1982-1987. Disponível em: http://etica.uahurtado.cl/historicizarelpasadovivo/es.contenido.php - p.9. 10 A jovem morreu em 1977, meses depois de sua mais divulgada e bem sucedida tarefa. Ao tentar invadir um dos postos de controle de trânsito do Exército com um carro, Ana María foi metralhada, falecendo horas depois em um comando clandestino da organização que pertencia. Os Montoneros incineraram-na com o objetivo de ocultar sua morte. De acordo com Hugo Vezzetti, a ocultação e a falta de celebração enquadrariam a morte de Ana em um montante não significativo de mortes, como uma “morte insignificante”.31 Segundo o autor, haveria duas explicações para a falta de significado para as mortes de inimigos ou de membros “não significativos” das organizações de esquerda. Uma se remeteria a presença cotidiana de assassinatos que trariam um costume à violência, uma generalização dos métodos terroristas e ao culto de mortos heróicos ou importantes simbolicamente. Outra seria o mito do homem novo, da autocriação moral, política e cultural do sujeito, localizada sempre em outro tempo. No entanto, pensar em “mortes insignificantes”, seja por sua não divulgação nominal ou por sua “necessidade”, implica em uma análise de geração, focalizar tais mortes e seus sujeitos no tempo. Essas outras vítimas existentes não podem ser pensadas apenas na sua diminuição pela concepção da construção do “homem novo” e na representação da violência nos dias atuais. Desde 1975, os militantes montoneros ou os “perretistas”, conviviam com a morte mais proximamente que com a possibilidade de sobreviver – observação posta por Vezzetti e por tantos outros autores que retratam a noção de costume a violência ou a barbárie aprofundada na época.32 Segundo Richard Gillespie, entre os obstáculos de recrutamento de militantes aos Montoneros estavam a falta de perspectiva em curto prazo, a questão da disciplina profissional do guerrilheiro e o perigo que tal atividade proporcionava aos seus membros e a sua família.33 Deve-se lembrar também que as “quedas” de membros da organização se multiplicavam e a utilização da tortura como forma de interrogar tornou-se comum durante a década, aumentando o risco de morte. A Condución Montonera, a fim de preservar seus quadros, recomendou que cada membro levasse consigo uma pastilha de cianureto, que começou a ser fabricada em série, e se auto-eliminasse antes da prisão. Contudo, caso o “suicídio glorioso” não fosse realizado a tempo, a diretriz era manter o silêncio e a convicção ideológica sob qualquer circunstância. Aqueles que não a cumprissem seriam considerados traidores e julgados pelo Juízo Revolucionário à Pena de Morte.34 Segundo Pilar Calveiro, ex-militante do grupo, sobrevivente dos Centros Clandestinos de Detenção Masión Seré, Comisaría de Castelar, ex-casa de Masera, e Escuela de Mecánica de la Armada, enunciava-se àquela época um empreendimento de caminho sem retorno. Isto porque se selavam pactos com o próprio sangue, com o 31 VEZZETTI, Hugo. Sobre la violencia revolucionaria: memorias y olvidos. Buenos Aires: Siglo XXI, 2009. 32 Como, por exemplo, o ensaio: HOBSBAWM, Eric. Barbárie: Manual do usuário. In: ______. Sobre a história. São Paulo: Cia das Letras, 1998. 33 GILLESPIE, Richard. Soldados de Perón: Los montoneros. Buenos Aires: Grijalbo, 1998, p.264. 34 LARRAQUY, Marcelo. Fuimos Soldados: Historia secreta de La contraofensiva montonera. Buenos Aires: Agular, 2006, pp.117-118. 11 sangue de outros companheiros mortos e com “outros sangues” de militares, polícias e vítimas da violência na época.35 Es preciso entender que, para estos jóvenes provenientes de la clase media en mayoría, “idealista revolucionarios”, algunos de ellos con una formación cristiana y los más reemplazando la mística religiosa por la mística revolucionaria, el hecho de haberse permitido asaltar bancos, robar coches, secuestrar industriales, enfrentar tiroteos y matar, a veces en defensa propia y otras cumpliendo las ordenes de exterminio emanadas de la conducción (como en las operaciones de asalto y aniquilamiento emprendidas por los Montoneros contra la policía a principio de 1975), significaban rupturas muy profundas e inquietantes con su formación moral originaria. Es probable que esto haya profundizado la sensación de “no retorno”. Sin duda tenía enorme importancia la responsabilidad sobre la “sangre derramada”, en particular para jóvenes semiintelectuales de clase media. Los militantes que siguieron hasta el fin, lo que en la mayoría de los casos significó su propio fin, estaban atrapados entre una oscura sensación de deuda moral o culpa, una construcción artificial de convicciones (ya mencionada) terriblemente inconsistente y que sólo se sostenía en la dinámica interna de la organización, la situación represiva externa que no reconocía deserciones ni “arrepentimientos” y la propia represión de la organización que castigaba con la muerte a los desertores. Al respecto, la lógica montonera sostenía, aunque no públicamente, validando la práctica de fusilar a los desertores, que “si existe el terror contrarrevolucionario, es justo que exista también el terror revolucionario”. En pocas palabras, los montoneros se encontraban aprisionados en una trampa que les habían tendido y ellos mismos terminaron de montar.36 A fidelidade com os ideais, com sua formação moral e com o coletivo – companheiros mortos e vivos – afetou, pois, os princípios éticos sobre o fim. Assim como Ana María, vários outros “soldados” morreram em combate numa Argentina na qual a violência era instrumento político da organização em que pertenciam e seu monopólio era disputado. Atualmente o problema da violência revolucionária é um dos principais pontos de discussão na Argentina, que repensa o método revolucionário da época e a validade dele para a América Latina. Esta discussão acentuou-se depois de dezembro de 2004, devido a publicação, na revista cordobesa La Intemperie, de uma carta do filósofo Oscar del Barco. Em tal mensagem, Del Barco assume a responsabilidade por todos os assassinatos cometidos pelo grupo em que militava, já que apoiava suas atividades e justificava a quebra do principio humano de “não matar”. Hay que denunciar con todas nuestras fuerzas el Terrorismo de Estado, pero sin callar nuestro proprio terrorismo. […] Yo culpo a los militares y los acuso porque secuestraron, torturaron y mataron. Pero también los “nuestros” secuestraron y 35 CALVEIRO, Pilar. Política y/o violencia: Una aproximación a La guerrilla de los 70. Buenos Aires: Grupo Editorial Norma, 2005. 36 Idem, pp.178-179. 12 mataron. […] De otra manera, también nosotros somos responsables de lo que sucedió.37 Desta forma, estende a responsabilidade pela violência dos anos 1970 aos militantes de esquerda que tomavam a “brutalidade” um meio de luta política. De acordo com Victoria Basualdo, a reintrodução e a polêmica, fundada pela carta, trouxeram às reflexões sobre a temática a questão do encargo e da capacidade de decisão e ação dos sujeitos da época. Por outro lado, a mesma carta possibilitou a interpretação sobre dimensões éticas do uso da violência e se pensar sobre fins e meios, práticas e subjetividades e condições e conseqüências históricas por seu uso.38 Horacio Tarcus acrescentou que esse debate influenciou também na visão de uma responsabilidade política, moral e individual dos assassinatos cometidos pelas organizações armadas. Estas, defendendo os socialismos reais, propunham um juízo histórico pela ação e opção do uso de determinados meios e estabeleciam a determinação de quem institui a classificação entre a violência legítima e ilegítima. No entanto, Tarcus chama a atenção de que não se pode desconhecer a assimetria entre a violência estatal e a dos grupos armados clandestinos de esquerda, já estabelecida na tão criticada Teoria dos “Dois Demônios” que influenciou a redemocratização naquele país. La historia conoce diversas teorizaciones sobre la legitimidad o el “derecho” de los oprimidos a responder a la “violencia de los de arriba” con la “violencia de los de abajo”, desde el terror jacobino hasta la teoría de “foco revolucionario” del Che Guevara, pasando por la “Dictadura del proletariado” de Marx, los magnicidios de los populistas rusos, la “acción directa” de los anarquistas o el “terror rojo” de los bolcheviques, por citar algunos hitos.39 Este polêmico tema do uso da violência, desde sua conformação, era discutido e suas justificaram diversos rompimentos em organizações de esquerda, instituições de guerrilhas e condenações de seus meios. A violência em si não era um valor. Nem a ação política apoiava-se essencialmente na violência. Ao contrário ela se apoiava, antes de tudo, na divulgação de idéias (“agitação e propaganda”), no estabelecimento de metas, na elaboração e distribuição de jornais e panfletos, no recrutamento dos quadros, no debate político, no fortalecimento do partido – que, se necessário, utilizaria a violência. Mas esse não era o sustentáculo de sua ação nem o sentido de sua prática.40 37 DEL BARCO, Oscar. Carta de Oscar Del Barco. Disponível em: http://www.elinterpretador.net/15CartadeOscarDelBarco.htm 38 BASUALDO, Victoria. “Derivaciones posibles de la polémica iniciada por Oscar del Barco: reflexiones para una agenda de investigación”. In: Políticas de la Memoria, 2006/2007, N.6/7, pp.8-13. 39 TARCUS, Horacio. “Notas para una crítica de la razón instrumental: a propósito del debate en torno de la carta de Oscar del Barco”. In: Políticas de la Memoria, 2006/2007, N.6/7, p.20. 40 ARAÚJO, Maria Paula. Esquerdas, juventude e radicalidade na América Latina nos anos 1960 e 1970. In: FICO, Carlos; FERREIRA, Marieta de Moraes; ARAÚJO, Maria Paula; QUADRAT, Samantha Viz (Orgs). Ditadura e Democracia na América Latina: Balanço Histórico e Perspectivas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008, p.263. 13 A importância dessa discussão está quando se abarca o uso excessivo da violência que esvaziou as questões políticas de alguns movimentos. Neste sentido, seria impossível ignorar as mortes, já que todas elas teriam significados (mortes simbólicas, mortes militantes, morte de enfrentamentos, mortes de civis, etc).41 O significado de mostrar ações políticas. Não se pode, contudo, na crítica, perder o sentido do passado político do uso da violência e utilizá-la sob o contexto atual: Sus actos (de los jóvenes que participaron de la política de hace treinta años) resultan incomprensibles o incluso demenciales – aún para ellos mismos – si se pretende analizar desde los referentes de sentido actualmente predominantes. Es necesario tender un puente entre nuestra mirada actual y la de entonces; no hay una verdadera y otra falsa sino se trata de construcciones diferentes que corresponden a momentos distintos del poder y de las resistencias. (…) Reconstruir la historia de un militante desaparecido desde la “normalidad de una vida plena injustamente truncada”, desconoce precisamente lo que fue su intención: no ser un sujeto “normal” – buen alumno y ahorrador – sino un revolucionario, con una vida sacrificada, de renuncia de la plenitud personal para obtener un fin superior y colectivo. Esto es lo que a sus ojos resaltaría la injusticia de su asesinato.42 Desta forma, a morte de Cesário Angel Cardozo justifica-se pelo embate político43 que utilizava da força para o empreendimento da vitória e aquilo que o general representava para a sociedade sob a visão montonera. Ele era um representante da força de oposição, um símbolo do militarismo e autoritarismo daquela sociedade. É claro que havia outros “menores soldados” que morreriam pelas mãos de guerrilheiros. A própria menina Ana María mataria outra vez, quando em tentativa de fuga, atingiu um soldado que fazia a guarda do Controle de Trânsito do Exército. Mas estas não eram mortes planejadas ou desejadas. São mortes iguais no sentido da não vida, mas são assimétricas, como nos propõe Tarcus. Como acima colocado, González não conseguiria sair ilesa de sua opção de luta, sendo metralhada e morta. A injustiça de sua morte, entretanto, não estaria apenas na 41 Apesar dos poucos trabalhos, sobre mortes e justiciamentos levados pelo ERP há o trabalho de Vera Carnovale: CARNOVALE, Vera. En la mira perretista: las ejecuciones del largo brazo de la justicia popular. Disponível em: http://www.elortiba.org/pdf/carnovale_j.pdf 42 CALVEIRO, Pilar. Política y/o violencia: Una aproximación a La guerrilla de los 70. Buenos Aires: Grupo Editorial Norma, 2005, pp.16-17. 43 Isto não significa que o plano de extermínio utilizado pelos militares à época seja justificado pelo mesmo argumento, uma vez em que não se trata de uma forma igual de percepção. 49 BENJAMIN, Walter. O autor como produtor. Conferência pronunciada no Instituto para o estudo do fascismo, em 27 de abril de 1934. In:______. Magia e técnica. Arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. Vol.1. pp.120-136. ______. Sobre o conceito de história. In:______. Magia e técnica. Arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. Vol.1. pp.222-232. ______. El narrador. Disponível em: http://www.archivochile.com 14 perda de sua vida individual, mas também na morte de sua intenção de uma sociedade mais justa. Pois com seu não cumprimento, não realização, tornou sua morte e suas ações, sem fundamento ou sem sentido para as gerações posteriores. DOCUMENTOS Gente y la Actualidad de 24 de Junho de 1976. La Nación de 18 de Junho de 1976. La Nación de 19 de Junho de 1976. La Nación de 20 de Junho de 1976. La Nación de 21 de Junho de 1976. Para Ti de 5 de Julho de 1976. BIBLIOGRAFIA ANSALDI, Waldo. El silencio es salud. La dictadura contra la política. In: QUIROGA, Hugo; TCACH, César (Comp.) Argentina 1976-2006: Entre la sombra de la dictadura y el futuro de la democracia. Rosario: Homo Sapiens Ediciones, 2006. ARAÚJO, Maria Paula. Esquerdas, juventude e radicalidade na América Latina nos anos 1960 e 1970. 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