2010/08/25 AS COLIGAÇÕES NO DOMÍNIO M ARÍTIMO. O PRESENTE . QUAL O FUTURO ? José Pereira da Cunha[1] PARTE I- O Domínio Marítimo no mundo em que vivemos No mundo global em que vivemos, enfrentamos diariamente um leque alargado de riscos e ameaças, nos mais variados domínios, cuja resposta adequada carece do envolvimento, em regra, de mais do que um actor, ou organização, pelo que o conceito de coligação constitui à data uma nova realidade para se encontrar as soluções, em particular no domínio marítimo que se tornam cada vez mais complexas, materializando aquilo que poderemos chamar de parceria cooperativa para intervenção em situações de crise. Neste domínio identificam-se igualmente riscos e ameaças específicas, numa coabitação complexa entre prevaricadores e produtores de riqueza, que nos espaços marítimos enfrentam os novos desafios e exploram as oportunidades de desenvolvimento sustentável. Sublinham-se, entre outros, alguns dos principais responsáveis por um clima de elevada perturbação e ansiedade, tais como, o terrorismo, a pirataria, a proliferação de armas de destruição em massa, a emigração ilegal, o tráfico de droga e armamento, a poluição, a par da necessidade imperiosa da salvaguarda dos recursos de Zonas Económicas Exclusivas (ZEE), a protecção ambiental e outras actividades de carácter humanitário como a busca e salvamento. A razão de uma crescente preocupação relativa à circulação de pessoas e bens nos oceanos decorre do facto de que noventa por cento do comércio mundial (quatro triliões USD) é movimentado por via marítima em mais de 210 milhões de contentores, por 121.000 navios mercantes que cruzam diariamente nove passagens estreitas (choke points) com destino a 10.000 portos de referência espalhados pelo planeta. Este quadro de extraordinária relevância para a sobrevivência da civilização obriga naturalmente à necessidade de demonstrar a capacidade para garantir segurança e, transmitir confiança às entidades envolvidas na navegação e no comércio marítimo, para operarem livremente nas linhas de comunicação estabelecidas. Para se atingir este desiderato torna-se indispensável uma actuação e colaboração interdisciplinar eficaz, na prevenção e combate a alguns dos pesadelos que ameaçam, um pouco por todo o lado a liberdade neste domínio. No entanto, a coexistência em simultâneo de um apreciável número de culturas e línguas complexas, traduz, por si só, diferentes conceitos doutrinários, normas, procedimentos ou políticas com diferentes objectivos, suportados na prática por Sistemas de Informação e Comunicação, cuja utilização “disruptiva” por outrem, representa também um novo pesadelo. Não menos importante, os assuntos de natureza ambiental e climática constituem motivo para grande preocupação, pelo menos para alguns. Em termos de segurança geral, o ambiente caracteriza-se por uma enorme imprevisibilidade espacial e temporal, e uma incerteza em dimensão, qualidade e forma, o que sugere a necessidade de uma maior interdependência dos actores, decorrente da globalização dos problemas, sendo requerido às Forças de Segurança/Armadas, para fazer face a estas perturbações aleatórias, grande flexibilidade, elevada prontidão e capacidade de projecção. Perante este cenário a questão que se coloca é: - “O que fazer para enfrentar este quadro de desafios e ameaças”? Numa primeira aproximação afigura-se desejável o desenvolvimento de capacidades e sinergias na Gestão do Domínio Marítimo a diferentes níveis, Nacional/Regional/Global, a fim de manter as Sea Lines of Comunications (SLOC) passíveis de serem utilizadas de forma segura. No cenário actual, o nível regional, aonde se registam o maior número de incidentes, constitui o patamar de maior enfoque, em particular em águas litorais e nos estreitos internacionais. Na prática torna-se necessário promover a vigilância sobres os espaços marítimos através de um conjunto de acções que se desenvolvem para o efeito, designadamente a monitorização, recolha, analise, fusão e disseminação da informação no sentido de simplificar o apoio à decisão e, a concretização de algumas tarefas cujo resultado final contribui decisivamente para a segurança das SLOC. Neste entendimento, o objectivo é edificar de forma contínua um panorama relativo ao Ambiente Marítimo, através da colaboração activa e permanente dos países, organizações civis e militares, para o conhecimento e partilha de informação em rede, permitindo em tempo, detectar, avaliar e decidir a acção adequada a qualquer situação. Toda esta actuação converge naturalmente para o desenvolvimento do “Maritime Situational Wareness”, ponto de partida para a execução de “Maritime Security Operations”. Nesta altura torna-se imperativo colocar a questão relativa às organizações existentes, e à sua disponibilidade e capacidade de intervenção para actuar quando necessário. Numa primeira aproximação identifica-se uma vulnerabilidade comum a todas as organizações ou iniciativas, que é a geração de recursos para a edificação das capacidades capazes de traduzir uma resposta eficaz às situações. Algumas das soluções existentes encontram-se em vias de esgotamento, pelo que uma nova realidade aponta para coligações temporárias que se constituem para a concretização de determinado tipo de operações especificas, sendo exemplos mais significativos as “Combined Maritime Forces” lideradas pelos USA na luta contra a pirataria e terrorismo, a abertura a actores fora das organizações instituídas, bem como acordos e protocolos estabelecidos caso a caso, como com a Ucrania e Israel na OAE, e porque não, incluir neste conceito a componente naval da Operação Atalanta. PARTE II- Operações de Coligação: Pilares Operações de coligação representam um novo caminho, razão pela qual se pretende promover uma abordagem a este assunto, contribuindo com uma reflexão simples sobre alguns factores e princípios que deverão obedecer à constituição e ao desenvolvimento de uma operação sob este conceito. O primeiro passo é definir os pilares para a assunção de uma coligação para a execução de uma determinada operação. Na linha de partida perfilam-se três importantes suportes para o seu desenvolvimento: Confiança; Objectivo Comum; e Apoio Político. O sucesso de uma coligação decorre do alinhamento existente e demonstrado pelos “actoresparceiros” relativamente aos pilares enunciados, nem sempre perfeitamente perceptível, e que em alguns casos conduz inevitavelmente a situações de divergência, contradição e fracasso. Num segundo patamar afigura-se indispensável dotar os intervenientes com as ferramentas próprias para a execução. Não basta ter e manifestar uma grande confiança, os mesmos objectivos e forte apoio político, se não existirem idênticos procedimentos, disponibilidade de rede estruturada para a partilha de informação, e finalmente um conceito de operação sustentada no princípio de “Mission Command”. Regressando aos três pilares, importa elaborar um pouco no sentido de clarificar conceitos tão básicos, e que “a priori “não sofrem contestação, no entanto, o que parece simples não é. Começando pela “Confiança”, esta não se ganha, nem se adquire por acordo ou protocolo, pelo contrário desenvolve-se na articulação e na compreensão perfeita da situação e do problema, através de uma comunicação permanente e pela demonstração de coesão dos actores. Em regra consolida-se em pequenos detalhes que não são passíveis de se generalizar, porque cada caso é um caso. Várias vezes me questionaram se tinha confiança nos representantes Somalis de Puntlândia para desenvolver acções de cooperação no combate à pirataria no Golfo de Aden , e a minha resposta foi sempre a mesma, qual é alternativa? Em boa verdade situações há, em que a ausência de alternativa sugere a assunção de determinadas linhas de acção, porque não correr o risco representa a inabilidade para a condução do processo. O “Objectivo Comum” carece de uma obediência tanto quanto possível aos princípios da concentração da força e economia de esforço. Em diversos “fora” internacionais referi com uma certa insistência que as operações inicialmente conduzidas contra a pirataria não obedeciam aos princípios básicos da guerra transmitidos nas escolas e academias militares. O tempo tem-se revelado um prestimoso conselheiro e a prossecução de um objectivo carece de partilha de informação e desconflituação. Finalmente, o “Apoio Politico” decorre de um objectivo final desejado, compreensível e tangível pelos actores envolvidos no processo, bem como de um suporte legal e de uma matriz para o uso de força perfeitamente equilibrada. Que fazer se os diferentes actores não têm uma abordagem legal idêntica ou se a orientação nacional para o uso da força é desigual? Um quadro desta natureza constitui um enorme constrangimento para o Comandante Táctico. E, por fim, a liderança. Como se operacionaliza? Através de um único actor, partilhada, e a que nível. Estes detalhes, que à partida parecem não ter significado particular, representam de uma forma simplista a fronteira entre o desejável, o possível e o fracasso. PARTE III- Operações de Coligação: Ferramentas Atingido o nivelamento nos pilares enunciados, é a altura de aparelhar os executantes com as ferramentas indispensáveis ao cumprimento das tarefas. E, tal como no processo de construção de um edifício, os alicerces são fundamentais para a sua concretização e, em operações, as normas e procedimentos padrão devem ser objecto de entendimento e ajustamentos, no sentido de se encontrar uma linguagem comum e neste particular, a NATO leva uma grande vantagem. A interoperabilidade consubstanciada em doutrina, treino, procedimentos tácticos e organização constituem o ponto de partida para a realização de operações em coligação, pelo que o entrosamento antecipado com os potenciais parceiros representa um objectivo primário das actividades a desenvolver. O século XXI é, no domínio das Tecnologias de Informação (TI), um espaço imenso que requer uma avaliação cuidada. As ferramentas existentes são inúmeras, no entanto torna-se indispensável dispor de alguma capacidade tecnológica, garantir a sua interoperabilidade e, finalmente, interagir utilizando as facilidades de forma coerente, pelo que este processo carece ainda de algum entendimento. Senão vejamos, a NATO, no ambiente marítimo, é suportada em termos de TI pelo MCCIS, os USA (N), em regra, utilizam o CENTRIX, disponibilizando aos seus parceiros acesso parcial, de acordo com uma matriz específica, e outras coligações utilizam a Internet para troca de informação simples (ex: Mercury), e ainda, o AIS, a TV32 o Tetris etc, etc. Isto tudo para explicar que este domínio que deveria ser um facilitador é, em alguns casos, um potencial gerador de constrangimentos não ultrapassáveis, principalmente ao nível do panorama táctico. Em vários encontros com Comandantes de Forças Navais, de países não NATO, uma questão que me colocavam sempre, era exactamente como procedia à transferência da imagem táctica, razão pela qual disponha sempre de um slide com o segredo “atlantista” que respondia a esta curiosidade, mas que provocava um sinal de frustração nos meus interlocutores, sabendo de antemão que não teriam acesso a esta facilidade. Presentemente existe um conceito errado, e infelizmente largamente disseminado, para se considerar que a informação deverá ser o condutor de uma operação. A necessidade de informar e ser informado e a partilha de informação, constituem o factor muito importante para a execução de operações com sucesso. No entanto, subsistem ainda grandes reservas, em parte decorrente de uma cultura adquirida no passado, no tratamento da informação, que limita decisivamente um maior avanço nesta área. Todo o processo de recolha, fusão, análise e disseminação carece de uma consolidação no sentido de minimizar os excessos que naturalmente não conduzem, nem auxiliam, a partilha de informação. E, finalmente, delegar, e evitar interferências que possam perturbar o planeamento e a condução de uma operação. À tendência natural de um comando superior se envolver no processo de um comando inferior, vitima das “modernices” tecnológicas, deverão as chefias cultivar o conceito de “Mission Command”, permitindo uma liberdade de actuação serena e harmoniosa dos intervenientes, com particular destaque para os membros dos “staff”. PARTE IV- O Futuro Qual o caminho a seguir, atento as dificuldades que se poderão deparar no estabelecimento de coligações, ou outras modalidades edificadas para fins e objectivos específicos no combate às novas, velhas ameaças? Na ausência de requisitos pré-definidos para a edificação de coligações, julga-se ser possível considerar alguns tópicos que permitam consolidar uma iniciativa desta natureza, designadamente: - Reforçar os pontos comuns. Qualquer que seja a aproximação há uma necessidade imperiosa de identificar os laços que poderão potenciar o estreitamento das relações e desenvolve-los. Estes constituir-se-ão como a base de sustentação para o futuro; - Atravessar as barreiras da diferença. Naturalmente não se espera que actores, que se identificam para contribuir para um determinado objectivo, tenham à partida soluções ou modalidades de acção idênticas, pelo que é fulcral um entendimento no sentido de ser possível promover os ajustamentos que traduzam uma convergência consolidada; - Suporte legal. Presentemente, qualquer tipo de operação requer uma avaliação relativa ao seu enquadramento legal, a fim de permitir a identificação das limitações e constrangimentos que poderão afectar a acção dos seus executantes, razão pela qual a participação de “Legal Advisers” representa uma exigência fundamental para a consolidação da matriz do emprego de forças ao nível táctico, em particular no uso da força; - Partilha de informação. Há uma tendência para despejar toda a informação disponível ou omitir indiscriminadamente parte, e o problema reside exactamente no facto de não se obter um consenso para regular o fluxo, validando o que é importante e minimizando o ruído; - Liderança. A definição de uma estrutura coesa, com regras e assumida pelos actores representa inevitavelmente o ponto final para a concretização com sucesso, ou para o falhanço de uma operação em coligação. Em síntese, a imensidão do espaço líquido do Planeta Terra representa um obstáculo que não é possível tornear, e contra factos inultrapassáveis, não há argumentos que remedeiem os riscos e as ameaças que emergem em alguns locais que no passado marinheiros distintos as combaterem com a voz da razão, o canhão. Hoje, a realidade é bem diferente, mas o facto é que as ameaças e os riscos continuam lá, sendo requerida no domínio marítimo uma presença com meios, que permita olhar em frente com determinação. No entanto a escassez de recursos sugere novas fórmulas que traduzam soluções a conjugar com as existentes no âmbito das organizações militares. [1] Contra-almirante. Comandou o Standing NATO Maritime Group 1 (antiga STANAVFORLANT), durante 2009, tendo sido responsável pelas operações Allied Protector e Ocean Shield no Golfo de Áden e costas da Somália, para combate à pirataria. 26 TEXTOS RELACIONADOS : 2012/06/18 O DUPLO USO COOPERAÇÃO E A NOS ESPAÇOS M ARÍTIMOS [1] José Afonso Galrito[2] 2012/04/04 PIRACY : STRATEGY OR PHENOMENON?[1] Bruno Reynaud de Sousa[2] 2011/12/05 A PIRATARIA M ARÍTIMA NA SOMÁLIA[1] José Rodrigues Pedra[2] 2011/12/04 QUO VADIS ESTRATÉGIA MARÍTIMA EUROPEIA?[1] José Rodrigues Pedra[2] 2011/11/04 A GRANDE OPORTUNIDADE Alexandre Reis Rodrigues 2011/10/30 O SENHOR MINISTRO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA E A SALINIDADE DAS ÁGUAS José Castanho Paes[1] 2011/06/06 RACIONALIZAR, NÃO É A PALAVRA DE ORDEM ?[1] Alexandre Reis Rodrigues 2011/04/25 ESTRATÉGIA DA NATO E SEGURANÇA MARÍTIMA[1] Nuno Sardinha Monteiro[2] 2011/02/21 M ARINHA DE DUPLO USO: UM CONCEITO PÓS - MODERNO DE UTILIZAÇÃO DO PODER MARÍTIMO [1] Nuno Sardinha Monteiro e António Anjinho Mourinha[2] 2010/12/26 A PIRATARIA MARÍTIMA: ENVOLVENTE E CENÁRIOS [1] Alexandre Reis Rodrigues 2010/09/30 A SEGURANÇA NO M AR PORTUGUÊS [1] Alexandre Reis Rodrigues 2010/07/27 PIRATARIA NA SOMÁLIA: ASPIRINAS , ANTIBIÓTICOS E CIRURGIAS [1] Nuno Sardinha Monteiro[2] 2010/07/14 F ORÇAS PARA O BEM [1] Nuno Sardinha Monteiro[2] 2010/07/08 O M AR DO F UTURO[1] Armando Dias Correia[2] 2010/04/05 SUBMARINOS , AFINAL PARA QUÊ ?[1] Alexandre Reis Rodrigues 2010/03/14 A SOBERANIA DOS ESTADOS E O M AR - A REALIDADE PORTUGUESA[1] João Pires Neves[2] 2010/02/17 AFINAL O QUE É A PIRATARIA? Eduardo Serra Brandão[1] 2009/03/24 LANÇAMENTO – “A LARANJA M ACULADA – TERRORISMO DE LIVRO NO MAR PORTUGUÊS ” Alexandre Reis Rodrigues 2008/06/01 A PASSAGEM ÁRCTICA DO NOROESTE [1] Alexandre Reis Rodrigues 2007/08/08 OCEANO ÁRTICO: A ÁRDUA DISPUTA RUSSA PELAS RIQUEZAS NATURAIS DA REGIÃO . Gilberto Barros Lima [1] 2007/05/06 A GNR E M AIO) O M AR TERRITORIAL (VERSÃO INTEGRAL DO ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL Alexandre Reis Rodrigues 2007/04/25 AS F ORÇAS ARMADAS E A ECONOMIA Alípio Tomé Pinto[1] 2007/04/14 CONHECIMENTO, USO E CONTROLO DO M AR PORTUGUÊS José Castanho Paes 2007/02/09 ESTRATÉGIA NACIONAL PARA O M AR: UMA QUESTÃO José Castanho Paes 2007/01/09 O NAUFRÁGIO [1] Alexandre Reis Rodrigues 2006/01/17 O EMPREGO DO PODER NAVAL NO SÉCULO XXI Alexandre Reis Rodrigues FULCRAL PÚBLICO DE 5