Roteiro Cinematográfico O Anjo Negro O Anjo Negro José Umberto Aparecem letreiros coloridos: e uma música leve de Paganini: “Tu, sábio e grande rei do abismo mais profundo, Médico familiar dos males deste mundo, Tem piedade, Satã, desta longa miséria!” Baudelaire “Cai, orvalho de sangue do escravo, Cai, orvalho, na face do algoz. Cresce, cresce, vingança feroz”. Castro Alves “O que sei, é, que em tais danças Satanás anda metido, E que só tal padre-mestre Pode ensinar tais delírios.” Grégorio de Mattos Um menino se espanta na noite Com o cão. Nem delírio, nem sonho, nem pesadelo; foi uma verdade. Sobre os ombros ele carrega até hoje esse fantasma. SEQÜÊNCIA I EXT. DIA 02 – PC – Silêncio. Sobre o sol poente caminha um bode preto em cima dos velhos telhados dos casarões da Bahia. Ele está em silhueta. Se ouve bem de leve o badalar fininho do seu sino. 03 – PM – O bode caminha tranqüilo sobre um lençol alvo. Adiante ele encontra um despacho com velas acesas, azeite de dendê, charuto, cachaça, farinha de azeite, dinheiro, etc. O bode vai se aproximando. Neste momento um enorme machado abate mortalmente sobre sua cabeça. Os atabaques soam forte ao lado do sangue rubro. Surgem letreiros negros sobre as imagens: O Anjo Negro O bode se esperneia no chão, banhando tudo de sangue e os letreiros prosseguem. Uma voz canta: Este bode, oh! Lunga lê amarra na mangueira, oh! Lunga lá. Prá tirar o couro, oh! Lunga, lê e fazer pandeiro, oh! Lunga lá. 2 O Anjo Negro 04 – PC – Panorâmica, contra a praia, com o sol declinando no horizonte, passa um negro, com trajes da cultura africana, montado num enorme cavalo branco. Mais parece um guerreiro. A imagem está quase em silhueta. (Continuam os atabaques e os letreiros negros). 05 – PC – Documentação. È a festa de Iemanjá. O povo se aglomera entre as pedras do mar. Há uma grande inquietação e euforia. O mar está furioso nas praias do rio vermelho. Os saveiros estão n’água é dia de festa da gente do candomblé baiano. Cantos são soltos no ar, com o misterioso idioma dos negros. (Continuam os letreiros). 06 – Júlia, com óculos escuros, roupa escura, se aproxima com seu carro de luxo. Ela desce do carro. 07 – Está no meio da multidão, ansiosa para entregar sua oferenda a Iemanjá. Se dirige com dificuldade para o caramanchão que vai levar os presentes da santa para o fundo do mar. Ela leva um pacote embrulhado. Documentar o ritmo das pessoas na festa do povo. Preto e branco - Viragem em azul. 08 – No caramanchão estão os presentes em grande quantidade. Júlia entrega seu presente a um negro, todo de terno branco. Sapato branco, chapéu do Panamá branco e um imenso charuto; é Calunga. Ele toma o embrulho e rasga o papel. Calunga A GENTE NÃO ARREIA PRESENTE AMARRADO, MADAME. Dentro do embrulho vêm perfume, lenço branco, bilhete. O negro toma, lê e olha com ar debochado. colar e um Calunga MADAME, VAMOS ARRIAR TODOS OS SEUS PRESENTES NO MAR, MAS O BILHETE NÃO. A RAINHA NÃO ATENDE A ESSES PEDIDOS. NADA DE ENCRENCA ENTRE MARIDO E MULHER. 09 – PC – Travelling na mão. Júlia corre desesperada no meio do povo. A animação e a confusão são intensas. Os atabaques ainda estão no ar. 10 – O negro permanece na sua posição, arriando os presentes de Iemanjá. 11 – Plano sobre o rosto de Júlia que vem angustiada, com lágrimas caindo e sujando a face com a maquilagem que se desmancha. Ela entra no seu carro de luxo. 3 O Anjo Negro SEQÜÊNCIA II INT. DIA 12 – Primeiro plano de Júlia, com olhar para cima, rezando. Entra uma música sacra. A câmera se afasta, estamos dentro da igreja do Pelourinho, templo dos negros escravos. Domina o seu barroco retorcido e bonito. 13 – Alguns planos da igreja, mostrando Júlia afastada, sozinha na amplidão do templo. SEQÜÊNCIA III EXT. DIA. 14 – PD – Os jornais do dia rolam pela máquina impressora, lendo-se como manchete principal: JUIZ DE FUTEBOL ESPANCADO NO EXTERIOR Embaixo, a foto do Juiz Hércules com a testa ferida. 15 no no do – PD – Um rádio em edição extraordinária anuncia a chegada, aeroporto, do juiz brasileiro que foi acusado de corrupção exterior, motivo pelo qual foi vítima de uma agressão dentro seu próprio carro. 16 – PM – Dentro dos estúdios de uma TV, o repórter França Teixeira divulga a mesma notícia, com as câmeras focalizando-o. 17 – PA – Nas ruas tortuosas de Salvador os vendedores de jornais gritam a todo fôlego. Menino I JUIZ ESPANCADO NAS ESTRANJAS. Menino II JUIZ LADRÃO QUE APANHOU FEIO. Muitas pessoas sensacional. compram jornal interessadas com a notícia 18 – Aeroporto. Um grupo de repórteres cercam uma senhora no grande salão de espera. Há um burburinho enorme em torno dela, ansioso de notícias. Ela é Júlia, esposa do juiz. Repórter I A SENHORA COMO ESPOSA DO JUIZ ACHA QUE DEPOIS DESSE ESCÂNDALO ELE CONTINUARÁ NA PROFISSÃO? Júlia BEM, É ELE QUEM DECIDIRÁ TUDO. 4 O Anjo Negro Repórter II ELE CONTINUARÁ ARRISCANDO A VIDA NUM GRAMADO? Júlia CREIO QUE ISTO NÃO VEIO AFETAR EM NADA. ESSAS COISAS FAZEM PARTE DA VIDA DE UM JUIZ DE FUTEBOL. 19 – PC – O avião se aproxima da pista para pousar. Neste momento entra música de inspiração negra e o som do avião. 20 – PC – No ponto de embarque se encontram vários repórteres, com câmeras de filmar, fotográfica, serviço de rádio, etc. O avião começa a pousar na pista até estacionar por completo, quando a multidão se dirige para as escadas postas na saída. Começam a descer algumas e no meio surge Hércules, com um esparadrapo na testa e de óculos escuros. O burburinho aumenta, mas só se ouve o som da música, do zum zum zum da multidão e do barulho do avião. 21 – PC – Câmera-na-mão documentando o juiz com a multidão ao redor entrevistando-o, para a qual ele responde tranqüilamente. Há uma movimentação impetuosa de câmeras e flashes contínuos. No barulho ele encontra Júlia e beija sua testa indiferentemente. 22 – PM – A multidão permanece interrogando, enquanto ele encerra a conversa e entra num carro luxuoso ao lado de sua esposa, que dirige. 23 – Dentro do carro em movimento. Jùlia EU TIVE MEDO, HÉRCULES. Hércules NÃO FOI NADA. JÁ ESTOU ACOSTUMADO COM ESTAS COISAS. ISSO JÁ FAZ PARTE DA PROFISSÃO. Ela encosta a cabeça sobre o ombro do marido. Seus olhos se fixam na distância e ela se perde dentro de si mesma. SEQÜÊNCIA V INT. DIA 24 – PG – Travelling. Uma imensa repartição pública moderna aonde funciona uma grande empresa. Os funcionários trabalham arduamente em suas mesas com uma zoada estridente das máquinas datilográficas. 5 O Anjo Negro 25 – PA – Fixo. Num setor isolado está o juiz de futebol Hércules que exerce a função de presidente na grande empresa. Ele atende algumas pessoas. 26 - PG – Fixo. A sirene automática dá sinal do fim da jornada de trabalho. Todos se levantam e o juiz também, com um ar metódico, distante das pessoas, superior. 27 – PA – O juiz pega o seu chapéu e sua bengala, enquanto isto entra no quadro um dos seus colegas. Um tipo gordo, cabelo partido no meio, bigodinho chapliniano. É faceiro. Meio amalucado. Seus olhos abrem e fecham num gesto impertinente. Sua boca às vezes também estremece. O juiz não quer muita conversa com ele, que traz um monte de papéis nas mãos. Colega HÉRCULES. CONFIAMOS EM VOCÊ AMANHÃ. Juiz EU NÃO DECIDO A PARTIDA. A SORTE É DEUS QUEM DITA NO CAMPO. Colega O DIABO TAMBÉM PODE ATENTAR. Ele fica meio nervoso e os papéis começam a cair. 28 – Close-up do juiz, meio nervoso. Juiz CUIDADO COM O QUE DIZ! 29 – PM – Câmera-na-mão. O colega fica mais nervoso ainda e grita. Colega QUE CUIDADO QUE NADA, SINHÔ. Ele começa a jogar os papéis para cima e gritar, meio aloucado. Colega SEUS COLEGAS E O POVO ESTÃO ESPERANDO O RESULTADO. DECIDA LOGO COM ISSO, SINHO. VOCÊ É O JUIZ, O MANDA CHUVA... AAHHRRRRRG! Ele dá um grunhido e morde os papéis, assanha os cabelos. Alguns funcionários agarram ele e saem arrastando-o, com as pernas em espinafrações. 30 –PA – Travelling. O juiz se conserta e sai andando. 6 O Anjo Negro 31 – PM – Interior da toalete, luxuosa, brilhante e com espelhos por todos os lados. O juiz se mira no imenso espelho, conserta o bigode e vai mijar no vaso. Hércules TOU CHEIO DISSO TUDO. TENHO QUE ME LIVRAR O QUANTO ANTES. EXT. DIA 32 – PG – Ele se dirige para seu carro. Ao abrir a porta eis que chega uma freira. Freira FOI ÓTIMO TER ENCONTRADO O SENHOR AQUI. PASSEI O DIA TODO TENTANDO TELEFONAR, MAS DAVA COMUNICAÇÃO. 33 – PP – O juiz através da janela do carro, com a porta mais ou menos aberta. Juiz POIS NÃO, MADRE. É SOBRE MINHA SOBRINHA? 34 – PA – Pegando os dois. Freira JÁ TEM DUAS SEMANAS QUE ANDA NO MAIOR MISTÉRIO DA VIDA. CREIO QUE ALGUMA COISA DE BOA NÃO ANDA POR DENTRO DELA. A SUPERIORA TENTOU RETIRAR ALGUMA COISA, MAS NÃO CONSEGUIU NADA POR ENQUANTO. AGORA SÓ A FAMÍLIA É QUEM PODE DECIDIR O DESTINO DELA. DESTE JEITO É QUE NÃO PODE PERMANECER NUMA CASA DE DEUS, GUARDANDO NATURALMENTE ALGUM PECADO. Juiz NÃO SE PREOCUPE, MADRE, QUE PROVIDENCIAREI TUDO AGORA MESMO. O juiz se despede da freira e sai em alta velocidade no seu carro. SEQÜÊNCIA VI INT. DIA. 35 – PM – Travelling. Hospital Júlia esta com trajes de médica. Ela observa alguns doentes e se detém nas gêmeas xipófagas. Ela conversa alguma coisa com as gêmeas e faz gesto de brincadeira. Uma enfermeira se aproxima e fala alguma coisa. Júlia se afasta. 7 O Anjo Negro 36 – PA – Fixo. Júlia (Com um fone na mão) ALÔ, ALÔ, É A MADRE? COMO TEM PASSADO (Pausa) O QUE, IRENE? Ela recebe a noticia pelo telefone e a sua expressão è de quem tomou um grande choque. Júlia MAS NÃO É POSSÍVEL, (Pausa) NÃO SE PREOCUPE. NÓS CUIDAREMOS DE TUDO. MAS TODO CUIDADO COM BOATOS, TCHAU. SEQÜÊNCIA VII EXT. DIA 37 – PG – O juiz estaciona seu carro no jardim de uma mansão barroca. Salta do carro e seu cachorro vem correndo ao seu encontro, na maior alegria. Perto da escadaria, o mordomo, com traços indígenas; é Índio. Ele toma a maleta do patrão. INT. DIA. 38 – PM – Ele está numa imensa sala, com uma decoração um tanto pesada pelo passado colonial, com uma arquitetura meio barroca, luxuosa. A arte ali serve como mero enfeite, não como uma forma de rejuvenescimento e amor à vida. 39 – PD – Uma gaiola vazia no meio da sala. 40 – PA – O juiz se aproxima indignado, à procura do pássaro. Juiz LUANDA! (Grita) CADÊ O PÁSSARO? Por de trás da mesa surge Carlinhos. Cabelos encaracolados, trajes exóticos, com ar desligado, trazendo o pássaro preto nas mãos. VOCÊ POR LONDRES? AQUI, Juiz (Abismado) CARLINHOS! MAS NÃO ESTAVA EM Carlinhos MUITO BONITO (Se referindo ao pássaro), MUITO BONITO MESMO, NÃO É? MAS NÃO CANTA. Juiz LARGA OS ESTUDOS, VIAJA... E COMO É, RESOLVEU ALGUMA COISA? 8 O Anjo Negro Carlinhos se dirige à gaiola placidamente. Aparece do outro lado Luanda, com ar singelo. Luanda SENHOR HÉRCULES, DOUTORA JÚLIA TELEFONOU E DENTRO DE DEZ MINUTOS ESTÁ AQUI PRÁ FALAR COM O SENHOR. É UM ASSUNTO DE URGÊNCIA. Enquanto isso, Carlinhos coloca o pássaro dentro da gaiola, carinhosamente fecha a portinhola e depois dá um estrondoso grito, que espanta o bicho e todos. Ele pula em sua moto, que está do outro lado da mesa. Liga o motor e começa a correr em disparada dentro de casa. A câmera se locomove no ambiente, num clima de desespero. Juiz OLHA, JÚLIA ESTÁ MUITO NERVOSA ULTIMAMENTE, E EU NÃO QUERO SABER DE CONFUSÃO POR AQUI. ACHO BOM VOCÊ IR EMBORA. Carlinhos permanece correndo disparado. DA OUTRA VEZ DIFERENTE. NÓS Juiz ATURAMOS VOCÊ. MAS AGORA É 41 – PA – Câmera-na-mão. Carlinhos (Disparado) EU VIM ASSUMIR UM COMPROMISSO, COROA. TOU COM ENCONTRO E HORA MARCADA... E ATÉ LÁ VOCÊS ESPEREM. UUUUHHHHAAAAIIIIII. DESCANSE QUE NINGUÉM VAI FICAR LOUCO. Ele joga a gaiola para o juiz e sai da sala correndo. 42 – PA – Fixo. O juiz está perturbado e nervoso com a gaiola nas mãos. Fica sem saber o que fazer, meio aluado e caminha para onde está Luanda. Juiz CADÊ O VELHO? Entrega a gaiola a Luanda. 43 – PM – Fixo. 9 O Anjo Negro Luanda ESTÁ RECOLHIDO NO QUARTO. 44 – PM – Travelling: A porta do quarto se abre lentamente. O quarto está meio sombrio. O velho Getúlio, abatido, meio encolhido na cama, como se estivesse com frio. Nele é refletida toda a melancolia da velhice sem salvação e ânimo para a vida. Seu terno é negro. Um padre está ao seu lado, rezando como penitente. Juiz OLÁ GETÚLIO, QUE TRISTEZA É ESTÁ. A VIDA ESTÁ SORRINDO LÁ FORA E VOCÊ ENCOLHIDO. VAMOS! REANIME QUE AINDA TEM MUITOS ANOS PRÁ VIVER. 45 – Câmera do alto alcança todos. Getúlio ( Referindo-se ao padre ) HÉRCULES, TIRE ESTE PARASITA DAQUI. Luanda TEM UMA SEMANA QUE ELE NÃO COME. 46 – PP – Fixo. Getúlio COMIDA, COMIDA, DINHERO. É SÓ NO QUE ESSE POVO SABE FALAR. Padre ( Off ) E OS ENSINAMENTOS DA IGREJA QUE ESTÃO AQUI DIARIAMENTE?... Getúlio ( Indignado ) CALE ESTA MATRACA ANTES QUE EU LHE QUEBRE A CARA. Ele se dirige pacientemente para o juiz (câmera recua) e pede com ar de criança. Getúlio POR FAVOR, TIRE ESSA VISAGE DAQUI. Há um silêncio. Julia (Off. Grita alto ) HÉRCULES! 47 – PM – Travelling. O juiz se dirige com rapidez para a sala e lá se encontra com sua esposa, que esta agoniada; traz uma notícia trágica. 10 O Anjo Negro Traja-se com elegância e usa enormes óculos escuros. Júlia ( Grita ) HÉRCULES! Sentada, retira os sapatos. Juiz O QUE FOI, JÚLIA? QUE TANTA AGONIA É ESTA? Júlia ESTIVE AGORA MESMO COM A MADRE SUPERIORA. FOI UMA TRÁGEDIA. Juiz TRAGÉDIA! QUE TRAGÉDIA? Júlia FALE MAIS BAIXO QUE É UM ESCÂNDALO. Juiz SIM, DIGA LOGO. Júlia TODO AQUELE MISTÉRIO DE IRENE FOI DESCOBERTO. O CONVENTO JÁ TRATOU DE EXPULSÁ-LA. DEPOIS, AS OUTRAS MENINAS ESTÃO HORRORIZADAS. 48 – PP – Fixo. Juiz MAS ENFIM, DE QUE SE TRATA? Júlia ( Off ) A MENINA ESCONDEU A GRAVIDEZ DURANTE SEIS MESES E FOI ENCONTRADA DESMAIADA NO BANHEIRO JÁ TENDO ABORTADO NO VASO SANITÁRIO. Juiz MEU DEUS! E SE A IMPRENSA SOUBER DE UMA COISA DESSAS, ESTOU DERROTADO. VAI SER UM ESCANDÂLO. E ISTO PODE INFLUENCIAR NO JOGO DE AMANHÃ. SEQÜÊNCIA VIII EXT. DIA Preto e branco - Viragem em azul. 49 – PM – Panorâmica. Irene vem andando por uma rua antiga. Traz uma sacola a tiracolo. Seu vestido é bem místico: comprido, inteiro, todo roxo, amarrado na cintura com um cordão branco; os pés estão descalços. Os cabelos são longos, loiros; o rosto é meio pálido, mas os lábios estão de batom rouge. 50 – Big close-up do seu rosto. Ela vem andando e pára. 11 O Anjo Negro 51 – PG – Ela começa a subir uma escada. 52 – PG – Irene caminha sobre o telhado dos velhos casarões da Bahia. Ela parece uma miragem. 53 – PM – Câmera-na-mão. Um marinheiro faceiro, todo de branco, boné, percebe ela no telhado. O marinheiro é o negro Calunga. 54 – PM – Travelling. Ele também já está no telhado. Começa a perseguir Irene. Marinheiro PRÁ ONDE É QUE TU VAI, AMIGA? ( Pausa ) Ele dá um passo adiante. Irene permanece tranqüila. Marinheiro VAMOS CONHECER O MAR, É MUITO MAIS BONITO. 55 – PP – Travelling. Irene EU NÃO GOSTO DO MAR. 56 – PM – Travelling. Marinheiro (Faceiro) EU LHE ENSINO CAPOEIRA, AMIGA, PRA VOCÊ SE DEFENDER. EU TE DOU UM NAVIO, PRA VOCÊ MORAR; E TE DOU UMA CAMA, AMIGA, PRA VOCÊ SONHAR. AMIGA, VAMOS AMIGA, ( Bis ) VAMOS CONHECER O MAR... Irene (Vira o rosto e diz num lapso) PEGUE TUDO ISSO E INVERTA... SEQUÊNCIA IX EXT. DIA 57 – Documentação livre. Entra a música do canal-100 da parte do futebol ao lado do alarido da multidão. Há uma imensa aglomeração no campo de esportes. Uma explosão total de gritarias e louvações. A câmera ai vai documentar as reações histéricas do povo em festa. 58 – No meio do campo estão os dois times jogando; no centro o juiz Hércules em plena atividade. Ele rege a partida com todo um ar de seriedade, prestando o máximo de atenção na bola e nos jogadores, que se locomovem como num balé clássico. O juiz acompanha todo esse ritmo como se fosse um bailarino. Registrando nos seus movimentos a vibração de todo um calor 12 O Anjo Negro humano que lhe cerca. Ele é praticamente o ponto central de toda a partida; mil olhares convergem apara ele em sua atividade complexa. De repente, há um lance perigoso e a platéia, descontente, começa a reclamar. O alarido é total, balbúrdia por todos os lados, nervosismo. Povo BICHA, BICHA, BICHA, BICHA... Este é o hino febril de uma massa compacta anarquicamente contra a figura do juiz. que se rebela 59 – A câmera se detém sobre o juiz, acossado pelo alarido e as provocações que aumentam de intensidade, quando é arremessado para o gramado casca de banana, ovo podre, laranja, pedra, vidro, etc. Ele sai correndo do campo como um animal acuado. INT. DIA 60 – PM – O juiz está defronte ao espelho do vestuário, quando surge na porta Júlia que entra no recinto privado do marido. Júlia NÃO ADIANTA PERMANECER NO FUTEBOL, HOMEM. ESSES MONSTROS VÃO ACABAR LHE MATANDO DENTRO DO GRAMADO. Juiz EU NÃO ENTENDO, NÃO ENTENDO ESSE POVO. ME ESFORÇO AO MÁXIMO PARA SER JUSTO, DIREITO E FIEL, MAS NÃO ADIANTA MESMO. 61 – PM – Fixo. Ele começa a trocar de roupa e Júlia está encostada contra o espelho. Júlia SER JUIZ É UMA COISA INGRATA. TANTO FAZ SER CORRETO COMO LADRÃO, QUE É TUDO UMA COISA SÓ. Juiz BASTA! Júlia ( Off ) MAS A CULPA ESTÁ TODA EM VOCÊ, QUE É CABEÇA DURA. Juiz PARE! MEUS NERVOS ESTÃO ABALADOS. DAQUI APOUCO EXPLODE TUDO. 62 – PP de Júlia. Júlia TODO MUNDO SE APROVEITA DESTA PROFISSÃO. SÓ VOCÊ QUE PERMANECE NESSA PUREZA. 13 O Anjo Negro 63 – PP do Juiz. Juiz NÃO É ISSO. 64 – PP de Júlia. Júlia O POVO NÃO ENTENDE NADA. ESSA MASSA IGNORANTE VAI DESTRUIR VOCÊ. ELES PAGAM É PRÁ ISSO MESMO. PRÁ SE DIVERTIR. Juiz (Off) VOCÊ NÃO SABE NADA DE FUTEBOL. CALE-SE! Júlia NÃO VOU CALAR. TUDO NÃO PASSA DE UM GRANDE CIRCO. E VOCÊ... VOCÊ É UM BUFÃO... É A VEDETE, É O PALHAÇO QUE FAZ RIR. EU ACHAVA MELHOR, E MAIS INTELIGENTE, QUE VOCÊ BURLASSE TUDO ISSO E RECEBESSE SEU DINHEIRO. ISTO SIM, POIS TUDO NÃO PASSA DE UMA FARSA. 65 – PP do Juiz. Juiz ISTO NÃO. NUNCA, NÃO ME VENDO À TOA. TENHO MEUS PRINCÍPIOS E NÃO IREI MANCHAR MEU NOME, JÚLIA. 66 – PA – Câmera-na-mão. Pegando os dois. Júlia VOCÊ TÁ FICANDO LOUCO. ESSA MASSA NOJENTA ESTÁ LHE RIDICULARIZANDO. OU ACHA QUE SER CHAMADO DE “BICHA” É HINO DE LOUVOR? O juiz irritado dá uns tabefes na cara de Júlia. O sangue jorra na cara e no espelho. Ele abre a porta e corre. Júlia sai atrás desembestada. SEQÜÊNCIA X EXT. DIA 67 – Do lado de fora do estádio o juiz corre rapidamente e entra no carro. Julia também. Ao entrarem são violentados por um grupo exaltado de torcedores que bate com força no automóvel. Grupo SEU CANALHA! CACHORRO, FILHO DA PUTA! BICHA, VÁ ROUBAR A MÃE.CRÁPULA! DESCARADO, CHIBUNGO. CORNO! 14 O Anjo Negro 68 – De dentro do carro o juiz tenta ligar o motor. Ambos estão com medo. O grupo bate com força no vidro do carro. Este começa a dar partida e rompe a fúria com violência. 69 – PA – Travelling. Som tranqüilo do mar. O casal é visto através do parabrisa, calado, taciturno. Ambos estão com pensamentos distantes. Júlia começa a falar para o companheiro como se estivesse falando para si mesma. Júlia TUDO ISSO ME FEZ LEMBRAR UM FATO QUE OCORREU COMIGO NO HOSPITAL. TINHA QUE OPERAR UMA MOÇA BONITA, DELICADA, OLHOS AZUIS, O PARTO ESTAVA HORRÍVEL. A HEMORRAGIA ERA INCONTROLÁVEL. ME LEMBRO BEM QUE FIZ TUDO O QUE PUDE PARA SALVÁ-LA... ( Off ) MAS TUDO EM VÃO. ( Pausa ) O MARIDO JÁ IDOSO NÃO SE CONFORMOU. ( Pausa ) QUASE ME MATA ENFORCADA NO CORREDOR SE NÃO FOSSEM OS ENFERMEIROS. ( Pausa ) PASSARAM MUITOS ANOS. MAS DE VEZ EM QUANDO EU A VEJO, EU SONHO COM OS SEUS OLHOS AZUIS COMO SE ESTIVESSEM PEDINDO ALGUMA COISA. No meio do seu monólogo aparece a imagem do negro sobre o cavalo branco, correndo contra a praia, o mar e o sol; em silhueta. 70 – PM – Travelling. O carro continua em velocidade pela rodovia, sem movimento, com os coqueiros e o mar que sacode as suas ondas eternamente. 71 – PG – De dentro do carro. No meio da pista passa um cavalo selvagem, todo branco. A câmera faz uma panorâmica, acompanhando seus movimentos selvagens. Vai ficando atrás do carro. 72 – PA- Por trás do pára-brisa. Júlia NÃO SE PREOCUPE, HÉRCULES. NÓS AINDA VAMOS TER UMA PAZ. Juiz ESTOU SENTINDO CANSAÇO. PRECISO DE UM POUCO DE SOSSEGO, DE TRANQÜILIDADE. Neste momento, Júlia dá um grito. Ouve-se o relincho selvagem de um cavalo, com um som bem forte. Preto e branco - Viragem em vermelho. 15 O Anjo Negro 73 – Câmera na mão, de dentro do carro, que desliza desgovernado no asfalto. Há uma derrapagem e o carro bate contra o poste. 74 – PM – Fixo. O cavalo branco empinando as patas. Som de vidro se quebrando e lataria amassando, relincho do cavalo. junto ao 75 – PG – Fixo. A câmera contra o sol. Contre-plongée pegando em primeiro plano o corpo de um negro estirado no meio do asfalto e, no fundo, o carro do juiz. Este descendo do carro e se aproximando. Ouve-se uma música negra, um canto nagô. É um lamento triste e tão ritmado quanto o mar. 76 – Câmera na mão. Os raios do sol se misturam às imagens. O juiz se abaixa e pega nos braços do negro desfalecido, Calunga, que se encontra de trajes exóticos, cabelos imensos, roupão vermelho e branco, brinco na orelha, de pés descalços. O juiz carrega o corpo, anda um pouco pelo coqueiral e se dirige ao carro. Coloca-o perto de Júlia que está com imensos óculos escuro. Juiz VAMOS LEVAR AO PRONTO SOCORRO. 77 – PP de Júlia. Júlia NÃO. Ela alisa a face do negro e é como se sentisse algo misterioso no interior do seu corpo. Júlia LEVEMOS PARA CASA. EU MESMA CUIDADREI DELE. 78 – PP do Juiz. Juiz A GENTE PODE SE COMPROMETER COM A POLÍCIA. 79/80 – PP de Júlia. Júlia MINHA CONSCIÊNCIA DIZ QUE NÃO. 81– PP dos três. Juiz VAMOS DEIXAR O CORPO LÁ ONDE ESTAVA. ( Indeciso ) OU ENTÃO JOGUEMOS NO MAR... 16 O Anjo Negro Júlia ESTÁ FICANDO LOUCO. COM UMA VIDA NOS BRAÇOS E PENSA EM DESTRUIR. COLOQUE AQUI DENTRO, VENHA. AO MEU LADO. EU CUIDAREI DELE. O juiz fica meio confuso. Sem saber mais o que fazer. Coloca o corpo dentro do carro, ao lado da esposa. 82 – PA – De dentro do carro. Ela coloca a cabeça do negro no seu colo. O juiz vai para a direção e dá a partida. O carro ganha de novo a pista do asfalto, embalado pelo mar e a música negra bem lírica e ao mesmo tempo forte. 83 – Big close-up do negro que abre um olho espantado e torna a fechar tranqüilo. SEQÜÊNCIA XI INT. DIA 84 – PM- Colorido. Travelling. Interior da mansão. O juiz carrega o corpo nos braços, enquanto Júlia acompanha na sua cadeira de rodas. 85 – PD – O pássaro preto está no meio da sala. 86 – PM – Travelling. O juiz olha para o pássaro que voa longe no espaço. Júlia VAMOS PARA O QUARTO. Juiz SILÊNCIO. NINGUÉM PODE SABER. ( Pausa ) ARREPENDI DEPOIS QUE TROUXE ISTO PRA DENTRO MINHA CASA. ME DE 87 – Travelling. Interior do quarto. A luz se acende, entram no maior silêncio, só se ouve o tic-tac dos passos e o zunido da cadeira de rodas. O corpo desfalecido do negro é posto em cima da cama, forrada por uma pomposa colcha de rendas brancas. O juiz põe sua cabeça sobre o peito do negro. Ausculta. Juiz ME PARECE MORTO. O CORAÇÃO NÃO BATE. 88 – PA – Fixo. Júlia toma seu pulso e põe de leve a mão direita em sua testa. Júlia VÁ CORRENDO NO LABORATÓRIO E APANHE A SIRINGA COM AQUELA INJEÇÃO. 17 O Anjo Negro 89 – PP do negro que parece estar morto e Júlia por trás de seus óculos escuros, escondendo sua cegueira. 90 – PD – A agulha penetrando de leve na veia saliente do braço do negro. 91 – PM – Travelling. O corpo do negro não dá sinal de vida. Tudo imóvel. No entanto, Júlia está confiante no seu trabalho. Depois dos preparativos médicos ela e ele saem silenciosamente do quarto. 92 – PM – O juiz tranca a porta do quarto. Júlia FIQUE COM A CHAVE. EU TOMO CUIDADO PRA NINGUÉM ENTRAR NO QUARTO. O juiz se retira e entra a mulata Luanda. Júlia LUANDA! Luanda SIM, MADAME. Júlia NÃO DEIXE NINGUÉM SE APROXIMAR DAQUI. Aponta para o quarto. 93 – PM – O juiz pega um jornal e lê com curiosidade a primeira página que tem a seguinte manchete: JUIZ DESONESTO É EXPULSO DO CAMPO PELO POVO Ele está com ar preocupado. Sua esposa se aproxima lentamente na cadeira de rodas. Júlia QUE FOI QUE HOUVE, HÉRCULES? Juiz NÃO É NADA NÃO. Dissimula a questão. Enrola o jornal e joga-o encima da mesa. Juiz EU PRESSINTO QUE ALGUMA COISA ESTÁ PRA ACONTECER COM A GENTE. 94 – PA de Júlia. Júlia SE ESTÁ PRA ACONTECER QUE ACONTEÇA LOGO. NÃO PODEMOS PASSAR A VIDA TODA ADIANDO OS PROBLEMAS. O QUE TEM DE SE RESOLVER QUE SE DECIDA O QUANTO 18 O Anjo Negro ANTES. NÃO TENHO MAIS PACIÊNCIA PARA ESTAR ESPERANDO. MINHA CEGUEIRA ESTÁ VENDO MAIS DO QUE SEUS OLHOS SÃOS. 95 – PA do Juiz. Juiz NÃO FIQUE CRIANDO COISAS, JÚLIA. TANTAS PREOCUPAÇÕES. JÁ BASTAM DE Acende um cigarro. Juiz ISTO É UMA FASE QUE LOGO PASSA. Júlia DESCOBRI QUE O MUNDO FOI FEITO PARA QUEM TEM VISÃO. QUEM NÃO VÊ O SOL NÃO TEM DIREITO DE VIVER. 96 – PA dos dois. Juiz NÃO DIZ BOBAGENS. ISTO SÓ FAZ PIORAR. Joga fora o cigarro. Júlia ( Sua face mostra uma certa serenidade ) NÃO ME INTERESSA MAIS O MUNDO DE VOCÊS. A PARTIR DE AGORA CRIAREI MEU MUNDO PRÓPRIO. O UNIVERSO DOS CEGOS QUE VÊEM. Toca a sirene. 97 – PM – Fixo. O mordomo Índio entra pela porta com a sobrinha Irene, olhar cabisbaixo, trajando roupão bem comprido e bastante místico, de cor roxa, contrastando com sua pele alva. 98 – PM – Contracampo. Júlia QUEM É? Juiz (Exaltado) QUEM PODERIA SER? A SAFADINHA DA NOSSA SOBRINHA. Júlia DOMINE SEU VOCABULÁRIO. DESTE MODO NÃO VAMOS OBTER NADA. Juiz 19 O Anjo Negro O QUE É QUE SE TEM MAIS PRA SE OBTER? A ÚNICA SOLUÇÃO É QUEBRAR A CARA DESTA SEM-VERGONHA, DESCARADA. Nisto, a câmera sobre a cadeira de rodas. Ele se exalta e tenta agredir a menina, que é amparada pelo mordomo. Júlia sai desembestada na sua cadeira de rodas. Há uma grande confusão em torno deles. 99 – PA – Surge o velho Getúlio que grita para tranqüilizar os ânimos acirrados. Getúlio PAREM SEUS ANIMAIS. PARECEM QUE PERDERAM O HÁBITO DE CIVILIZADOS. Ele se mete no meio do grupo que se acomoda. Toma a moça e fala com ar paternalista. Getúlio SÓ AGORA, DEPOIS DE VELHO, ACABADO DE GUERRA, É QUE VIM PERCEBER QUE FAMÍLIA SÓ CRIA CONSUMIÇÃO. SÓ FAZ DESTRUIR. A GENTE CRIA UM BOCADO DE BACUREUZINHO PRA DEPOIS SE FAZER DE BESTA. Entra no corredor e leva a moça pelo braço. Getúlio SE A MOÇA FEZ O SERVIÇO, TÁ FEITO E NÃO TEM CRISTÃO QUE DÊ JEITO. A GENTE NUNCA PODE DAR PRA TRÁS NAS COISAS. ACHO QUE FOI MELHOR ELA TER BOTADO OS BREGUEÇOS NA LATRINA DO QUE DEIXAR NESTE MUNDO DE MERDA. E TEM MAIS: EU EXIJO SILÊNCIO. ESTA CASA PARECE QUE VIROU UM MERCADO. Sai com a moça. 100 – PM de Júlia. Júlia ME DÊ A CHAVE DO QUARTO, HÉRCULES. VOCÊ ÍNDIO, AVISE A LUANDA PRA CUIDAR DO QUARTO DE IRENE. A câmera acompanha a cadeira de rodas para o quarto. Ela abre a porta e entra. Na cama não está mais ninguém. O negro Calunga sumiu, mas ela não percebe isto. Chega perto da cama e fica parada como se estivesse olhando para ele por trás de sua cegueira fatal. SEQÜÊNCIA XII EXT. DIA 20 O Anjo Negro 101 – Documentação livre. É festa da lavagem do Senhor do Bonfim, padroeiro da cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, conhecido nos terreiros dos orixás como o velho Oxalá. Sua cor é o branco. Do adro da Conceição da Praia parte o cortejo místico da cultura afro-baiana que se dirige numa longa caminhada ao alto da colina onde fica a igreja. O povo se encontra nas ruas. Carroças enfeitadas de flores, as jarras d’água de cheiro, as baianas todas cobertas de branco, gente de tudo que é espécie formam a procissão popular do candomblé da Bahia que vai lavar e purificar o adro da escadaria do santo Oxalá, grande orixá. 102 – Calunga se encontra também no meio das festividades. Suas roupas, seus cabelos, seu gingado se confundem no ritual alvo e festivo. Gente do povo, no meio do povo, mas não está com ninguém. Fala com todos, conversa com todos, mas não esbarra em ninguém. Seu mundo é a brincadeira. O ritmo. O gingado. De vez em quando um deboche doce e tranqüilo de nego doido varrido. Ele é uma espoleta atirada na África e explodida no Brasil. Ri. Pula. Não fica quieto. É um azuretado. Caminha ao ritmo e, às vezes, fora do ritmo das baianas de roupas alvas que vão a igreja católica lavar seu santo e suas almas. 103 – No largo ele está festivo. Molha os pés nas águas. Se molha. Se purifica. Terminando o ritual de nego safado e ousado, parte para o ritmo libidinoso e sem vergonha do samba de roda. Se umbiga com moças criouladas e brancas, toma cerveja e come tira-gosto. Sua euforia contagia a festa popular. Sua figura se assemelha, às vezes, a um agente do outro mundo integrado na praça calorosa e louca. Os sambas de roda lançam seu grito: Eu fui no mato, oh! ganga, Cortar cipó, oh! ganga!... E vi um bicho, oh! ganga, De um olho só, oh! ganga... 104 – Calunga tá no meio, mexe, e remexe. Bate palmas e sacode o corpo macio no ritmo imprevisto da dança. As mulatas, os mulatos cada qual tirando seu samba e falando dos seus amores ou dissabores ou brincadeira, ao passo em que contam tudo e ligam tudo a uma bela e suave umbigada ao som e ao ritmo da loucura e da embriaguez tropicais. SEQÜÊNCIA XIII EXT. DIA 105 – PG – Câmera na mão. Sobre algumas pedras se encontram algumas filhas de santo. Elas dançam num ritmo frenético. Há todo um mistério litúrgico em torno dos elementos que o compõe, todas trajando roupas típicas do ritual. Calunga está no meio, 21 O Anjo Negro com a mesma roupa anterior. A festa é bonita e colorida. Ela é liderada por um velho, de barbas brancas e com trajes africanos baseados, sobretudo, em palhas. 106 – PG – Fixo. No mar uma pequena balsa, enfeitada com flores e outros artifícios, estando nela o velho. Calunga está também na balsa. Estão bem no centro da Baía de Todos os Santos. 107 – PM – Eles conversam como se num ritual. Velho MEU FIO, SUA ALMA FOI LIMPADA DE TUDO QUE É MAL. VOCÊ AGORA TÁ PREPARADO PRA TRABAIÁ COM SEUS IRMÃOS DAS ÁGUAS. SEU DESTINO FOI TRAÇADO E VOSMECÊ TEM AGORA QUE CUMPRIR COMO UM SANTO. 108 – Fixo. De gaivotas cantam. longe os dois na solidão do alto mar. As 109 – PM – Fixo. Calunga EU NUM DOU PRA SANTO, MEU PAI. MEU CAMINHO TEM QUE SER OUTRO. EU MESMO É QUEM VOU TRAÇAR. Velho VOCÊ NÃO É OBRIGADO A ACEITAR. ESTÁ NO SEU DIREITO ESCOLHER. 110 – PP de Calunga. Calunga MEU MAR É OUTRO. POR ELE PASSA MUITO NAVIO. 111 – PG – Panorâmica lenta. Calunga ( Off ) MUITOS BARCOS, MUITOS PEIXES. E EU VOU TER QUE VIAJAR POR CIMA DE TODOS ELES. ASSIM TRACEI, ASSIM CUMPRO... Velho ( Off ) SEGUE SEU CAMINHO, CALUNGA, MAS TERÁ QUE VOLTAR NADANDO. ESTA VAI SER SUA PRIMEIRA PROVA. 112 – PP do velho, contemplativo e distante. 113 – PP de Calunga que olha para o horizonte. 22 O Anjo Negro 114 – PG – Fixo. Calunga contempla a imensidão do mar e depois de um instante tira a roupa e salta nu dentro das águas salgadas de sua Iemanjá. Som do mar e das gaivotas. O negro nada no meio da baía... é um ponto preto nas águas. ( Se possível fazer de avião, subindo ao céu e Calunga se perdendo no mar ). SEQÜÊNCIA XIV INT. DIA 115 – PM – Travelling. No solar, Júlia e o juiz Hércules estão impacientes. Ambos demonstram preocupação com o desaparecimento misterioso do negro cabeludo. Júlia MAS NÃO É POSSÍVEL! COMO ELE DESAPARECEU? A câmera persegue a cadeira de rodas no seu nervosismo por dentro do quarto já vazio. Juiz ( Preocupado ) JÚLIA, TENHA CALMA. ISTO É UM SEGREDO DE NÓS DOIS. 116 – PM – Travelling. Júlia está na sala, impaciente, pega a sineta e toca nervosa. Surgem Índio, Luanda, Irene e o velho Getúlio. Júlia VOCÊS VIRAM ALGUÉM POR DENTRO NEGRO... ALTO... FORTE... DE CASA?... UM 117 – PP – Travelling. Enquanto são ditas estas palavras, a câmera desfila por sobre a face de todos, e a pergunta causa certo embaraço em todos. Há uma interrogação na face de cada um. A câmera se detém no velho Getúlio. DE PRETO FUGIU. AQUI SÓ Getúlio CONHEÇO O PASSARINHO, MAS JÁ 118 – PP – Fixo. Irene EU CONHECI UM, MAS FOI LÁ FORA. 119 – PM – Travelling. Os rostos de Júlia e do juiz Hércules ficam meio apreensivos. Preocupados. Reina certo silêncio e expectativa entre eles. 23 O Anjo Negro Juiz FOI O TAL QUE FEZ EM VOCÊ? Neste exato momento toca a campanhia. 120 – Travelling. O mordomo se dirige à porta para abrir. Segue Luanda, que sai. Surge Carlinhos na sua moto, que entra na maior barulheira casa à dentro. Ele dá uma volta gritando. Carlinhos ÔI, PESSOAL! Juiz PELO QUE ESTOU VENDO SÓ FALTAM TRAZER AQUI PRA DENTRO PROSTITUTAS. 121 – PP de Getúlio. Getúlio E OS INGLESES, MENINO, AINDA FAZEM AQUELA GASIMIRA DA BOA? 122 – PM – Travelling. Carlinhos deixa a moto encostada na parede. Índio carrega-a para fora. Carlinhos MINHA QUEDA MESMO É O MAR. QUE DOÇURA. QUE LOUCURA. SEM ELE NÃO VIVO EM PAZ... “É DOCE MORRER NO MAR...” ( Cantarola e faz uma pausa ) Juiz E SEUS ESTUDOS?... Carlinhos SÓ ME INTERESSA AGORA ESTE SOL TROPICAL... ESTE AZUL... E O RESTO É SILÊNCIO... 123 – PP do juiz. Juiz É, A BURGUESIA TEM SEUS ENCANTOS. 124 – PP do velho Getúlio. Getúlio TÁ AÍ, FALOU EM VIVER É MESMO QUE TER OUVIDO A BOMBA ATÔMICA. 125 – PM – Fixo. Carlinhos A ARQUITETURA PERDEU SENTIDO PRA MIM. BUSCO COISAS NOVAS. COISAS QUE ME INTERESSAM AGORA, NESTE 24 O Anjo Negro INSTANTE. NÃO ENCONTREI AINDA O QUE SEJA, MAS ESTOU PROCURANDO, PESQUISANDO... Juiz ISTO É DESCULPA PRA QUEM NÃO QUER FAZER NADA. NA ÉPOCA DOS MOVIMENTOS ESTUDANTIS ERA A MESMA COISA. AGORA SÓ FEZ MUDAR DE FORMA. Carlinhos HOJE TUDO SE TORNOU INÚTIL. É. INÚTIL. ESTÁ TUDO VAZIO... 126 – Close-up de Irene. Irene E SUZANA, NÃO VEIO COM VOCÊ? 127 – PM – Fixo. Carlinhos ELA FICOU ATRÁS. FOI POR OUTRO CAMINHO. Juiz ( Irritado ) NÃO ENTENDO ESSA JUVENTUDE. NÃO ENTENDO. A MINHA CONSTRUIU ALGUMA COISA, TINHA UM IDEAL. HOJE EU CHEGO A CONCLUSÃO DE QUE VOCÊS SÓ SE PREOCUPAM EM SE OLHAREM NO ESPELHO PARA VER SE OS CABELOS E A BARBINHA ESTÃO NO LUGAR. Carlinhos TÁ POR FORA, MEU TIO. IH! VOCÊ TÁ POR FORA. POR FORA COMPLETAMENTE. 128 – PP de Júlia. Júlia ÍNDIO, VÁ ARRUMAR O QUARTO DE CARLINHOS. Neste exato momento a campainha torna a tocar. 129 – PP de Getúlio. Getúlio HOJE É DIA DE VISITAS. SÓ ESPERO É QUE A MORTE NÃO VENHA NOS VISITAR. ( Um tom irônico ) 130 – PM – Travelling. Todos estão imóveis. Júlia ÍNDIO, QUE ESTÁ ESPERANDO? VÁ ABRIR A PORTA! 25 O Anjo Negro A câmera acompanha o mordomo, que vai meio receoso; antes que chegue na porta, esta se abre e eis que surge o negro Calunga, trazendo um berimbau na mão, tocando entre os dedos. Seu ar é de libertino, com o corpo em bamboleio de capoeirista. 131 – PP de Júlia. Júlia QUEM É? 132 – PA – Travelling. Calunga continua no seu ritmo dengoso Calunga SOU EU, MADAME. O juiz começa a apresentá-lo. Juiz ESTE CAVALHEIRO É NOSSO HÓSPEDE, TAMBÉM. Calunga MUITO PRAZER! Saúda a todos até chegar no velho. Getúlio NEGO, NÃO PEGO EM SUAS MÃOS PRA NÃO ME SUJAR DE TINTA. MAS TOCA ESSA CABACINHA AÍ QUE É PRA EU OUVIR. 133 – PM – Fixo. Do outro ângulo oposto ao anterior. Calunga POIS NÃO MEU AMO. ( Ele toca o berimbau e dança; o velho fica feliz da vida com aquele som ritmado ) ESTE AQUI É O SOM DAS ALEGRIAS E DAS TRISTEZAS DOS NEGUINHOS. E OS BRANCOS TAMBÉM SÃO VIDRADOS NELE, MEU AMO. Carlinhos ME ENSINA ESTE GINGADO, CAMARADA. SEQÜÊNCIA XV INT. NOITE 134 – Sala de jantar. Está ornamentada como noite de Natal. Aliás, toca-se música natalina. Todos se dirigem para a mesa, cada qual pegando o seu lugar, com toda a formalidade possível. Nas cabeceiras estão Júlia e o juiz Hércules. Na mesa há frutas de várias espécies, vatapá, caruru e outros ingredientes. 135 – PP de Calunga. Ele pega um enorme charuto e começa a acender. 26 O Anjo Negro 136 – PP do juiz com cara de quem não está satisfeito com as regalias do preto. 137 – PP de Calunga Calunga CADÊ O VELHO GETÚLIO? 138 – PP de Júlia Júlia ELE TEM DIAS QUE NÃO COME. 139 – PM – Travelling. Vem numa certa carreirinha o velho Getúlio, demonstrando uma certa satisfação interior. Está todo de branco. Passa pela árvore de Natal e brinca com os cristais coloridos e com o Papai Noel. 140 – PP – Fixo. Pega toda a mesa. Calunga solta uma baforada do seu charuto. Calunga QUEBROU A GREVE DE FOME, MEU AMO? 141 – PAp de Getúlio que começa a tomar sua posição na mesa. Getúlio HOJE É DIA EM QUE PRETO BEBE DO MESMO VINHO DE BRANCO. 142 – PG – Travelling. Há um certo silêncio. Quietude. Juiz AGORA VAMOS TODOS REZAR. A música pára. 143 – PA de Calunga que rebate a fala anterior. Calunga NÃO É CHEGADO AINDA O MOMENTO. Ele se levanta e vira o quadro do “Coração de Jesus”. O preto morde um pouco seu charuto e solta uma baforada. Calunga PRIMEIRO VAMOS BRINDAR AO NOSSO ENCONTRO. Carlinhos CADÊ O VINHO? Calunga 27 O Anjo Negro EU PREFIRO A CACHAÇA. Juiz ( Indignado ) EU EXIJO MAIS RESPEITO NA MINHA CASA. OS INCOMODADOS PODEM SE RETIRAR QUE A SAÍDA É FRANCA. Carlinhos MAIS AQUI ESTÁ TUDO MUITO FRIO. É BOM ESQUENTAR. 144 – PA de Getúlio: com ar de bufão. Getúlio PELO JEITO O NEGUINHO TEM SABEDORIA. ENTÃO DEIXEMOS ELE MOSTRAR. O CIRCO É SEMPRE BOM PRA NOS DIVERTIR, E ESTA MESA AGORA É UM PICADEIRO. 145 – PM com a câmera um pouco de baixo. Calunga dá um grito. Calunga SILÊNCIO! Sua expressão se modifica. Parece que baixou um “espírito” no seu corpo. Ele respira fundo e, com os olhos fechados, bota os dois dedos para cima. 146 – Plano mais próximo de Calunga. Ele se treme todo. Está endemoniado. Ele mete a cara, de charuto e tudo, num vaso de vatapá. A câmera mostra seu rosto todo melado de amarelo. Seus olhos estão pegando fogo. Ele grita algumas palavras em nagô: boca, ouvido, bunda, pênis. 147 – PM – Travelling. A câmera faz um círculo sobre as pessoas que estão paralisadas e com certo medo. 148 – PM – Fixo. Câmera do alto. Pega toda a mesa. 149 – PM – Travelling. Surgem da porta Luanda e Índio, ambos nus. Ela está com uma tocha de fogo na cabeça; ele traz um garrafão de vinho. Eles aparecem como num ritual, acompanhado de uma música africana. 150 – Close-up do Juiz. Juiz O QUE É ISTO?... 151 – Close-up de Júlia Júlia QUE FOI HÉRCULES? 28 O Anjo Negro A câmera faz uma panorâmica e estaciona no rosto indignado do juiz. Juiz QUEREM TRANSFORMAR NOSSA CASA NUMA PODRIDÃO. VOU AGORA MESMO ACABAR COM ESTA BRINCADEIRA. Tenta se levantar, mas é surpreendido por Calunga com seu manto tropical. Calunga NÃO SE AFOBE, PATRÃO. NÃO É CHEGADA A HORA. TENHA CALMA. TOME PRIMEIRO DO VINHO. Ele leva o cálice para o juiz, que não aceita. Ele insiste e leva o cálice “na raça” à boca do juiz, derramando o líquido vermelho pela cara. O juiz toma o cálice e resolve beber, um tanto temeroso. 152 – PG – Travelling. Todos elevam o cálice e bebem do vinho. Getúlio fica meio desconfiado, cheira o copo e depois decide engolir sua dose, demonstrando satisfação. 153 – PA do juiz que termina o seu gole de vinho. Pára e fala. Juiz BASTA DE TANTO PAGANISMO! ESSES RETIRAR. MANDE VOCÊ, CALUNGA! DOIS DEVEM SE 154 – PP de Calunga. Calunga MAS LOGO EU? 155 – PP do juiz. Juiz LUANDA, ÍNDIO SE RETIREM! 156 – PAp de Irene já meio transtornada. Irene MAIS UMA DOSE, LUANDA, ESTÁ UMA DELÍCIA! A câmera faz uma panorâmica brusca para Júlia. Júlia MENINOS, RESPEITEM OS MAIS VELHOS! 157 – PP de Carlinhos no embalo. 29 O Anjo Negro Carlinhos MINHA TIA, NÃO FALE. Acende um cigarro de maconha e puxa fundo. Carlinhos A NOITE FOI FEITA PARA DANÇAR. 158 – PG – Com a câmera na mesma altura da mesa. A toalha é puxada com força e todos os pratos caem no chão. 159 – Câmera na mão livre. O negro sobe encima da mesa e começa a dar alguns saltos da capoeira. Seu corpo está como um endemoniado. 160 – PP do juiz que está indignado. Levanta-se da mesa como um possesso. 161 – PM – Fixo. O juiz se aproxima do telefone, disca alguns números, mas verifica que não dá nenhum ruído. Ele olha para o chão. 162 – PD – Fixo. Os fios estão todos cortados. 163 – PA – Travelling. Dirige-se a uma peça e, da gaveta, apanha uma pistola, colocando-a no bolso do paletó, depois de a mirar. Retorna à sala de jantar. 164 – PG – Todos estão ao redor da mesa, sambando. O juiz passa a mão no rosto e é pesado. Senta-se ao lado de Júlia que está em linha reta. O juiz passa sua pistola para com o negro ainda como se o sentisse lúcida, com a face as mãos da esposa. 165 – As mãos de Carlinhos e de Irene se encontram por baixo da mesa. Eles se abaixam e saem por debaixo da mesa correndo para um canto da sala. 166 – PP dos dois, deitados no chão. Carlinhos COMO É QUE É AQUELA CANÇÃO? Irene ME ESQUECI. JÁ FAZ TEMPOS. Carlinhos pega um violão que está ao lado. Irene VEJA SE VOCÊ SE LEMBRA. Ele começa a dedilhar as cordas do violão e depois canta. 30 O Anjo Negro Carlinhos ESTOU SÓ CADA VEZ MAIS ESTOU SÓ MEU BARCO NÃO NAVEGA NO MAR MEU AEROPLANO NA LINDA GALÁXIAS NÃO SABE POUSAR E CADA DIA EU FICO MAIS SÓ. 167 – PM – Júlia se vira para o juiz Hércules e fala. Júlia PARE ESSA CANÇÃO! Ele se afasta da esposa e procura Luanda. A câmera retorna para Júlia que sai com a cadeira de rodas pela penumbra, a pistola nas mãos, suspensa. 168 – PM – Fixo. A câmera fica na mesma altura da mesa, na sua extremidade, estando do outro lado, sozinho, o velho Getúlio, que ri para si mesmo. O riso se prolonga como o de um bêbado. A câmera começa a se aproximar em zoom mostrando a face do velho que conversa com seus próprios fantasmas. 169 – PAp – Fixo. Getúlio tira do bolso uma figurinha de Trouille, chamada “Meus Funerais”, que é uma mistura do profano e do sagrado, no confronto entre o negro dos panos funéreos com a brancura dos corpos nus das carpideiras. O velho ri e coloca a figurinha dentro do bolso do seu paletó branco de casimira. 170 – PP do rosto de Getúlio. Getúlio CADÊ SUA VALENTIA, ANTÕI SILVINO? Ele ri com as bochechas se movendo. 171 – PM – Fixo. Neste momento, como numa mágica surge em cima da mesa a figura lendária do cangaceiro, em traje de gala, com os longos cabelos descidos nos ombros, loiros. Dá saltos com uma longa espada nas mãos. Entra a música Assun Preto com Luiz Gonzaga e sua sanfona. 172 – PAp do cangaceiro, num contraluz. As imagens são bem rústicas. Antônio Silvino VOCÊ ME PAGA, GETÚLIO. FUI TRAÍDO NESTE SERTÃO DE DEUS. MAS MINHA VINGANÇA AINDA ESTÁ POR VIR. OS MORTOS TAMBÉM DESTROEM SEUS INIMIGOS. DA BOCA DO 31 O Anjo Negro CÉU VAI SAIR UM BATALHÃO DE ANJOS, TODOS DE BRANCO, COM O MENINO JESUS NA FRENTE. VOCÊ NÃO VAI MORRER NEM DE ESPADA NEM DE BACAMARTE. SEU FIM É MAIS TRISTE, GETÚLIO. NÃO É A BALA QUE VAI COMER SUAS TRIPAS; É A SOLIDÃO... VOCÊ VAI PENAR DE TÃO VELHO. 173 – Close-up do velho balançando as bochechas, rindo das suas próprias misérias. EXT. DIA 174 – Flashback - Câmera livre. Dentro de uma caatinga está Antônio Silvino todo amarrado. Todo sujo. Um homem todo de preto, montado num cavalo, dá uma surra com uma espada longa. Seu rosto está todo ensangüentado. O homem enfia toda a espada no cangaceiro, que sai pelas costas. Antônio Silvino ( Off ) MORRI SOZINHO, COMPADRE. TRAÍDO COMO UM JUMENTO. EU TENHO VERGONHA. VERGONHA DO MEU POVO QUE CONFIOU EM MIM. AINDA VINGO MINHA HONRA COM ESTA MESMA ESPADA QUE ABENÇOOU MEU CORAÇÃO. Sua voz é de quem está muito cansado. INT. NOITE 175 – PP de Getúlio. Getúlio ( Rindo na mesa ) SETE LÉGUA, PINGA FOGO, TROVOADA, PARAÍBA, CASCAVEL, TIRIRICA, AMARELO... CADÊ SUA VALENTIA ANTÕI SILVINO? Seu riso se prolonga. 176 – PAp. Câmera na mão. Num canto da sala Luanda está em pé, ainda nua. O juiz se aproxima e alisa suavemente o seu corpo macio. Os dois se abraçam, se beijam e se deitam. Ele não tira o seu paletó, satisfazendo-se tão somente com carícias. Ele beija todo o seu corpo e se concentra mais intensamente nas suas coxas dengosas. Ele na penumbra carrega Luanda (Travelling) e a deita num dos terraços da casa colonial. 177 – PP – Cortando os rostos de ambos. Juiz LUANDA, TENHO MEDO. 32 O Anjo Negro Luanda NÃO SE PREOCUPE, PATRÃO, QUE A NOITE ENCOBRE TUDO. Juiz ESTOU FELIZ AQUI, MAS INTRANQÜILO. E JÚLIA... ONDE ESTARÁ? Luanda ESQUEÇA, PATRÃO, ESQUEÇA. 178 – PA – Travelling. No meio da casa está Júlia, vem andando na cadeira de rodas com a pistola nas mãos. O negro se aproxima lentamente, retira a arma das suas mãos e joga á distância. Júlia ( Nervosa ) QUEM É? Torna a fazer a pergunta. Júlia QUEM É? O negro continua a rolar a cadeira pela penumbra da casa colonial. À proporção que roda, ela vai se tomando de pavor, pressentindo perigo próximo devido ao seu estado de insegurança. 179 – PM – Travelling. A câmera de baixo. O negro com um sorriso nos lábios desce a cadeira de rodas pelas escadarias, aos trompaços. Júlia QUEREM ME MATAR! O negro tapa a sua boca e aí aumenta o grau de suspense. 180 – PM – Fixo. Câmera de cima. A cadeira, ao chegar embaixo das escadarias, num imenso salão, o negro dá um brusco empurrão na cadeira que se precipita no movimento. Júlia SOCORRO! Ela grita até a sua cadeira parar. Ela consegue fazer a volta e o negro começa a se aproximar. Ela se afasta com medo. 181 – PAp. Câmera mais aproximada. Júlia ( Com os lábios tremendo ) 33 O Anjo Negro NÃO QUERO MORRER. DIGA O QUE VOCÊ QUER. EU LHE DOU TUDO. O negro dá um imenso tabefe. Ela chora. Ele retira-a da cadeira, toma-a nos braços em soluços e carrega-a para um lindo tapete. 182 – PAp – Câmera na mão. O negro começa a despi-la e iniciam as carícias com muito calor. Ela cede ao assédio e participa, mas com certa ansiedade. 183 - PP - Travelling vertical. O rosto branco de Júlia desce pelas costas negras de Calunga. 184 - Irene delira pelo meio do salão, com as mãos para o ar, parecendo está bem longe da terra. Carlinhos a acompanha. Carlinhos ESTAMOS PERDIDO. ( Fala enquanto cabelos de Irene ) ACABOU TUDO. Irene NÃO CARLINHOS, NÃO. acaricia os Carlinhos corre, pega uma poltrona e coloca em cima da mesa do jantar. Traz Irene pelo braço, ajuda a subi-la na mesa e a faz sentar na poltrona. Ela está completamente fora de si. Ele apanha uma coroa de espinho e sobe de novo na mesa. Carlinhos ( Tom discursivo ) ISTO AQUI NO PASSADO ERA UM PELOURINHO. OS ESCRAVOS NEGROS DERRAMARAM SEU SANGUE NESSE CHÃO. ELE HOJE VEIO AQUI PARA A GENTE LEMBRAR. NINGUÉM AINDA ENTENDEU. MAS ELE VEIO REVER SEU SANGUE. Ele mete a coroa de espinhos na cabeça de Irene. 185 - PP - Fixo. Irene com sangue descendo pelo rosto. Ela dá um berro. 186 - PP de Calunga. Calunga CALE A BOCA MOLEQUE SAFADO. SEQÜÊNCIA XVI EXT. DIA 187 - PM - Fixo. Algumas pessoas estão olhando da grade com a expressão meio escandalizada. Surge o padre no meio do pessoal. 34 O Anjo Negro Padre NÃO É POSSÍVEL. SÓ PODE SER FIM DE MUNDO. 188 - PG - Fixo. Focaliza toda a paisagem do jardim onde se encontram Irene, Luanda, Índio, Carlinhos, Calunga e o velho Getúlio, todos brincando no meio do gramado. Eles se encontram totalmente nus, com os corpos pintados com cores berrantes. Passeiam livremente pelo meio das flores e por entre grutas. Despidos, na maior pureza desta vida, como se tivessem retornado ao Éden. 189 - PM - Fixo. As pessoas continuam nas horrorizadas. O padre está meio envergonhado. grades, ainda Homem QUEM FAZ TUDO ISTO É O DINHEIRO. 190 - PP de um que está no grupo. Pessoa QUEM ESPERAVA TANTA SENVERGONHICE LOGO DESSE PESSOAL GRÃ-FINO. SE AQUI FORA É ASSIM, IMAGINA LÁ DENTRO COMO NÃO DEVE SER. 191 - PM de todos Jovem AH, EU LÁ DENTRO! Todos olham para o jovem com ar de censura. 192 - Planos livres em câmera na mão. O pessoal da casa despido, em torno de um cavalo branco, num imenso gramado. Todos eles estão coloridos. Brincam como crianças, correm de cavalo, riem. Tomam um banho de rio numa cascata de águas claras. Se purificam debaixo da Fonte de São Bartolomeu. SEQÜÊNCIA XVII INT. DIA 193 - PM - Fixo. Quarto de Júlia e do juiz Hércules. Ambos estão deitados. Ela está com uma máscara negra nos olhos. Ele se levanta e se espreguiça como ar de quem estivesse cansado. Lava o rosto. Faz alguns exercícios no chão. 194 - PAp focalizando o juiz que sobe e desce no seu exercício. Juiz NÃO IMAGINO O QUE A GENTE POSSA FAZER. Júlia JÁ ESTÁ TUDO FEITO, HÉRCULES. 35 O Anjo Negro Juiz CONTINUAR ASSIM É QUE NÃO É MAIS POSSÍVEL. AFINAL DE CONTAS MINHA REPUTAÇÃO ESTÁ EM JOGO. ( Pensa um pouco ) AH! JÁ SEI O QUE VOU FAZER. (Levantando-se) Um plano de Júlia na janela, de máscara. Zoom. 195 - PG - Travelling. Ele se dirige, todo pronto, para o café da manhã. Abre a porta do corredor, com o contraluz da porta. 196 - PP do juiz com o rosto espantado. 197 - Panorâmica por sobre a sala imensa colonial toda transtornada. A maioria dos quadros estão no chão. Os móveis desarrumados, fora dos lugares habituais. O juiz pega na mesa a sineta e badala; ninguém atende. Juiz ( Gritando ) LUANDA! Enquanto grita ele se dirige para uma vitrola e liga-a. 198 - PA - Travelling. Entra uma música negra, um lamento lírico talvez, advindo dos sofrimentos no pelourinho. Ele se afasta e apanha um jornal. Ao começar a ler, o juiz se espanta com a notícia e corre para desligar o som da vitrola. 199 - O juiz joga em cima da mesa e a câmera se aproxima do jornal. No cabeçalho está uma nota em primeira página policial: PROCURA-SE VIOLENTO ASSASSINO NEGRO 200 - PM - Travelling. Fica meio pensativo e corre desesperado pela casa, até sair pela porta. EXT. DIA 201 - PC disparada. Panorâmica. Seu carro, nas ruas da cidade, em SEQÜÊNCIA XVIII INT. DIA 202 - PD - Fixo. Ele aperta a campanhia de um apartamento. 203 - PAp - Fixo. O rosto do juiz está profundamente abatido e é como se já estivesse perdido alguns quilos. Está combalido fisicamente. A porta se abre e surge uma mulher, Carol, que não esconde um ar de bruxa sofisticada, mas bonita, loira, assanhada, olhos acesos. 36 O Anjo Negro Carol OH! É VOCÊ! ENTRE. IH! ESTA ABATIDÍSSIMO. 204 - PM - Travelling. Ele se senta numa poltrona com ar abatido. Ela se afasta para pega um copo d'água e um calmante. A câmera acompanha. Carol ESSES DIAS TODOS SEM DAR NOTÍCIAS. JÁ ESTAVA PREOCUPADA. EU SOUBE DA ARRUAÇA QUE SE DEU NO CAMPO. ( Pausa ) FALA ALGUMA COISA. PARECE QUE PERDEU A LÍNGUA. 205 - Close-up do juiz. Juiz CAROL, TUDO INDICA QUE ESTOU FICANDO LOUCO. 206 - PM com a câmera de baixo focalizando Carol Juiz ( Off ) E O PIOR DE TUDO É QUE ESTOU FICANDO IMPOTENTE. Neste exato momento Carol se abaixa para pegar o comprimido e deixa aparecer sua calcinha. Carol ( Levantando-se ) É TUDO IMPRESSÃO, MEU BEM. ME CONTA O QUE ESTÁ HAVENDO. Ela leva o copo para o juiz, que toma o líquido. Juiz JÁ PENSEI EM IR À POLÍCIA. MAS NINGUÉM ACREDITAR. E MINHA REPUTAÇÃO PODE PIORAR. VAI 207 - Close-up de Carol. Carol SIM, MAS DE QUE SE TRATA? 208 - PP do juiz. Juiz O DEMÔNIO TOMOU POSSE DA MINHA CASA. ESTÁ TUDO DE PERNAS PRO AR. VOCÊ FOI A ÚNICA PESSOA EM QUEM PENSEI PRA ME AJUDAR. A câmera faz uma panorâmica para Carol 37 O Anjo Negro Carol BEM, EU POSSO CONSULTAR MEUS AMIGOS E EM SETE DIAS ELES RESOLVEM TUDO. ANTES EU QUERO SABER SE VOCÊ ACEITA O DINHEIRO PARA APITAR A PARTIDA. A câmera retorna ao juiz. Juiz ISTO A GENTE TRATA DEPOIS. 209 - PA - Travelling. Carol UM MOMENTO QUE VOU ME COMUNICAR COM O PESSOAL. (Pegando o fone) ALÔ, ALÔ. CÂMBIO. ALÔ, ALÔ. EXT. DIA Preto e branco - Viragem em azul. 210 - Aparece um letreiro em preto e branco: UMA SEMANA ÉPICA 211 - Segunda-feira: Super-Homem luta com o negro Calunga. Este vence-o. 212 - Terça-feira: Um cowboy americano é derrotado em duelo clássico. 213 - Quarta-feira: Um samurai é ferido no peito esquerdo e morto. 214 - Quinta-feira: Tarzan é posto a correr com um sagüim nas costas. 215 - Sexta-feira: Um Marquês de Caravelas morre com um pontapé do negro. 216 - Sábado: Al Capone também é morto. 217 - Domingo: Um gladiador da época antiga de Roma, também de preto, luta - há lances clássicos, mas Calunga vence. INT. DIA Colorido. 218 - Big close-up de Carol que está com o rosto abismado. Ela pega sua bola de cristal e se senta. 38 O Anjo Negro 219 - PP - Fixo. Pela sua expressão está vendo algo misterioso na bola. Uma luz forte ilumina seu rosto. Carol HÁ UMA FORÇA SOBRE NÓS. É A LUZ DO SOL ATRAINDO A GENTE PARA O TERREIRO DOS ORIXÁS. NEGRO Juiz ( Off ) NÃO SERIA BOM UMA MACUMBA? Carol ( Com ar de mistério e de medo ) PSIU!... SILÊNCIO. OS DEUSES VÃO OUVIR MEUS PEDIDOS, GRAÇAS AS FORÇAS DO MAR E DA NOITE. SARAVÁ MEU PAI! Ela levanta os braços para cima, fecha os olhos e se treme toda como se tivesse possuída por um espírito brabo. SEQÜÊNCIA XIX INT. DIA 220 - PG - Travelling. Júlia se encontra sozinha no imenso casarão em desalinho. Ela caminha na sua cadeira de rodas que desliza à toa pelos corredores. 221 - PG – Câmera na mão. Uma série de pessoas maltrapilhas surgem pela casa, quase todas negras e mulatas. Cada uma carregando um objeto. Elas levam, suspensas, as sete flâmulas coloridas com os riscos bordados dos Exus. Elas cantam uma canção. Na sala principal encontra-se uma série delas levando os móveis, os quadros, as frutas enquanto Júlia vagueia entre elas sem perceber o que se passa ao seu redor. As pessoas roubam como se fossem formigas no outono. 222 - PM - Travelling. Júlia se afasta das pessoas e sem nenhuma proteção ela passa por inúmeros perigos, arriscando-se a cair e se arrebentar. Sua cegueira proporciona uma atmosfera de suspense. No entanto, ela continua impassível, como se nada tivesse acontecendo. 223 - PM - Fixo. Júlia está por fora da mansão, beirando o precipício alto. 224 - PM - Fixo. Neste exato momento vai chegando o juiz e estaciona o carro, abismando-se com o perigo por que passa a sua esposa. Juiz JÚLIA, CUIDADO! 39 O Anjo Negro 225 - PM - Fixo. Júlia que, ao ouvir as palavras, pára de caminhar. 226 - PAp - Fixo. Juiz PARE AÍ E ME ESPERE. NÃO SE MOVA! Ele corre para retirar ela do perigo. 227 - PM - Fixo. Ele já está perto dela segurando a cadeira. Juiz CADÊ O PESSOAL? 228 - Close-up de Júlia desorientada. Júlia FOI TODO MUNDO EMBORA. ATÉ O GETÚLIO. NINGUÉM QUIS ME ESPERAR. 229 - PA - Travelling. Os dois se movimentam. Ele começa a empurrar a cadeira de rodas. Juiz ASSIM ESTÁ ÓTIMO. FICAREMOS LIVRES AGORA. Júlia NÃO, HÉRCULES. NÃO ESTAMOS LIVRES. ESTAMOS PRESOS, CERCADOS. A ÚNICA SOLUÇÃO PARA NÓS É O DESQUITE. 230 - PAp - Travelling. Juiz VOCÊ ESTÁ LOUCA? AGORA QUE TODO MUNDO FOI EMBORA. A GENTE PODE MUDAR DE VIDA, SER FELIZ. Júlia ISTO NÃO EXISTE MAIS. CONTINUAR DESTA MANEIRA É VIVER A ENGANAR A NÓS MESMOS. E EU NÃO QUERO VIVER ETERNAMENTE ENGANADA. Juiz MAS LOGO AGORA QUE EU MAIS PRECISO DE VOCÊS E ME DEIXAM SOZINHO. Júlia FOI VOCÊ MESMO QUEM QUIS ASSIM. O juiz se levanta. 231 - Close-up em travelling de Júlia enquanto se ouve em voz off a fala do juiz. Juiz 40 O Anjo Negro ( Off ) DESCOBRI UMA VERDADE, JÚLIA: NÃO ADIANTA SER CORRETO NO MUNDO. SÓ OS LOUCOS É QUE POSSUEM A PAZ. TAMBÉM JÁ ME DECIDI. NÃO PORQUE QUIS, MAS PORQUE ME IMPUSERAM! A PRÓXIMA PARTIDA EU DECIDIREI COM DINHEIRO. Júlia JÁ DEVIA TER FEITO ISTO HÁ MUITO TEMPO. 232 - Close-up do juiz em travelling. Juiz AQUELE PRETO DESCARADO É O RESPONSÁVEL POR TUDO ISTO. MAS EU JURO QUE ELE AINDA ME PAGA. EU JURO QUE ELE ME PAGA E MUITO CARO. 233 - Close-up de Júlia em travelling. Júlia ESTÁ COMPLETAMENTE ENGANADO. O QUE ELE VEIO FOI ME REVELAR UMA VERDADE QUE EU NUNCA TERIA DESCOBERTO. MESMO CEGA EU FUI CAPAZ DE IR ALÉM DE VOCÊS. MUITO ALÉM! Quando ela diz estas palavras o juiz empurra o carrinho com mais força. 234 - PM - Travelling. Ele empurra a porta da brutalidade. Lá dentro está tudo vazio, a casa-oca. casa com 235 - PP do juiz que fica amarelo ao pressentir sua autoridade abalada. Aquilo talvez representasse, para ele, o fim de tudo. 236 - PG – Câmera na mão. O juiz no meio da sala vazia. Juiz NÃO É POSSÍVEL! VOU PRESTAR CONTAS AGORA COM ESSES MISERÁVEIS. Ele empurra a cadeira com violência que corre em disparada pelos mosaicos bonitos. Pega na parede uma aristocrática chibata e grita possesso. LUANDA, ÍNDIO CACHORROS. SE Juiz APRESENTEM PARA APANHAR COMO Dá uma chicotada no chão. Os dois empregados entram e, com movimentos bruscos, o juiz começa a chicoteá-los. 41 O Anjo Negro Eles começam a se chocar e se enrolam no chão numa atmosfera de loucura e frenesi. Júlia também entra no meio da confusão com sua cadeira de rodas dentro do imenso casarão vazio. SEQÜÊNCIA XX EXT. DIA 237 - PG - Panorâmica. Praia. Por do sol. O carro do juiz vem em disparada pela areia da praia com a água salpicando todo o automóvel. O sol, por trás, enebriando tudo. O carro pára com o cavalo branco que está assustado. Ele salta do carro e o cavalo corre para a praia. 238 - PG - Travelling. O juiz caminha pela beira da praia. Logo a seguir está um grupo de candomblé que dança um ritual na beira da praia. Todos dançam ao ritmo envolvente. 239 - PM - Câmera na mão. Ele se aproxima do grupo e entra na melodia e na dança, como se estivesse a pedir algo aos orixás. As águas molham suas vestes grã-finas. A câmera documenta todo o grupo dançando o ritmo por excelência negro. 240 - PG - Travelling. No auge da dança surge, um pouco distante, a figura estranha de Carol, toda de branco, vestido meio transparente, a chamá-lo de dentro das águas. Ele sai correndo. O vento está bem forte e assobia desesperado nos ouvidos. 241 - PM - Fixo. Surge uma sereia muito bonita, loira, cabelos longos, metade peixe metade mulher. Sua face é bem branca e os lábios estão vermelhíssimos. A sereia está na beira da praia. 242 - PAp - Travelling. O juiz continua correndo, desesperado. O vento continua assobiando forte. Uma voz estranha chama à distância. Voz ( Off ) HÉRCULES! HÉRCULES! HÉRCULES! 243 - PAp - Fixo. Uma série de planos com a sereia, os lábios meio abertos, disfarçando um riso enigmático. Ela está na areia, dentro d'água, nas pedras, no espaço. 244 - PM - Câmera na mão. O juiz e Carol se encontram e se abraçam. O assobio do vento vai diminuindo. Carol COMO É, MEU BEM?... FICOU BOM DE VERDADE? Juiz NÃO MUDOU NADA. CONTINUO NA MESMA. 42 O Anjo Negro Carol NÃO SE PREOCUPE. ( Beija-o ) TUDO PASSA E VOCÊ SERÁ FELIZ. 245 - PAp - Câmera na mão. Os dois abraçados sob as ondas brancas e fortes. Juiz CAROL, DECIDI RECEBER O DINHEIRO DA PARTIDA. EU PEGO NA MÃO DE QUEM? Carol NÃO PENSE NISSO AGORA. NO MOMENTO O QUE INTERESSA É OUTRA COISA Ela abraça o juiz e faz carícias Juiz NÃO ADIANTA. NÃO SINTO NADA. NADA. NEM CÓCEGAS. 246 - A câmera, de outro ângulo, pega os dois corpos dentro das ondas, já todos molhados. Carol SE ESFORCE QUE VOCÊ CONSEGUE. FAÇA UMA FORCINHA. VÁ! Juiz ( Gritando ) JÁ DISSE QUE NÃO POSSO. Carol TENTE MEU BEM, TENTE. Aumenta o clima neurótico e erótico. 247 - PM - O juiz começa a se afastar, querendo correr para a areia, mas é impedido. Ela quase rasga seu terno preto. Juiz ( Explosivo ) PÁRA COM ISTO, SEU ANIMAL. EU NÃO POSSO. NÃO POSSO. Há uma luta entre os dois. Ele permanece recusando. Já estão na areia da praia. Juiz PARE, PARE COM ISSO SENÃO ENLOUQUEÇO. ME SOLTA! ME SOLTA! Neste momento ele tira uma pistola do seu bolso e, em estado fora de si, atira na moça. 43 O Anjo Negro 248 - PM - Fixo. Do peito de Carol sai uma nódoa de sangue. Ele vem cambaleando e cai nos braços do juiz, morrendo. 249 - PA - Travelling. O juiz toma ela nos braços e fica sem saber o que fazer. Depois sai correndo desesperado pela praia. Escurecimento. 250 - PG - Travelling. É quase noite. Ele corre pela rua com o corpo ensangüentado nos braços. Está tudo deserto. 251 - PG - Travelling. Ele se esconde de qualquer pista. Os dois corpos rolam pela noite misteriosa. Ele parece um vampiro correndo na escuridão com a sua vítima. 252 - PM - Fixo. Surge uma limousine antiga, preta, na rua deserta. 253 - PM - Travelling. O juiz aumenta os seus passos. Morre de medo. 254 - PD - Os faróis acesos da limousine. 255 - PA - Travelling. O reflexo do carro começa a perseguir o juiz. Há um clima de suspense e perseguição. O juiz corre pelos paralelepípedos e ao lado de árvores que modelam a avenida deserta. 256 - PM - O carro permanece perseguindo-o com seus imensos faróis. 257 - PAp - Travelling. O juiz continua correndo. O perigo aumenta; ele está cansado; vai diminuindo a marcha até parar numa parede, já desistindo de continuar fugindo. Fica fixo na parede com o corpo branco nos braços. Os faróis do carro estão fixos neles dois. 258 - PM - Fixo. De dentro do carro sai o negro Calunga, com as vestes exóticas e muito sério. 259 - PM - O juiz percebe de quem se trata e sai correndo com o corpo nos braços. 260 - PM - O juiz se aproxima do carro respirando forte, mas aliviado. Os dois, juntos, colocam o corpo da mulher dentro da limousine. 261 - PP deles dois dentro do automóvel. A respiração é ofegante. O juiz, em estado de desespero, beija a boca do negro por alguns segundos. 44 O Anjo Negro 262 - PM - Fixo. O carro parte dentro da noite. 263 - PM - Travelling. Eles correm sobre o quebra-mar da Baía de Todos os Santos, dentro da noite, com Carol morta nos braços. 264 - PG - Fixo. Na ponta do quebra-mar há um barco ancorado, com velas brancas. Eles ajeitam o corpo da mulher dentro do barco, que fica deitada, com as mãos cruzadas e uma vela acesa dentro da noite. 265 - PG - Eles começam a empurrar o barco que desliza nas profundezas do oceano noturno. 266 - PP dos dois que contemplam dentro da brisa e do vento que sopram. 267 - PG - O barco navega. Numa certa distância ele explode. O zoom aproxima e a tela é dominada pela explosão vermelha. SEQÜÊNCIA XXI EXT. NOITE 268 - Estádio da Fonte Nova em dia de grande jogo de futebol. Ao lado da zoada da multidão toca o Hino do Bahia, acompanhando todo o tumulto e a alegria popular. A câmera trata de fazer uma documentação do movimento agitado do jogo, como também do pessoal que assiste nas arquibancadas. 269 - PP do juiz, em plena atividade, marcando a partida com toda sua elegância pessoal quando apita. Ele está atento aos mínimos movimentos, correndo, parando, gesticulando... 270 - Documentação mais aproximada dos jogadores pelo campo como num balé coletivo. Tudo é ritmo e vida naquele recinto explosivo. 271 - Documentação mais aproximada ainda nas arquibancadas, onde todos deliram e gritam com paixão. Focalizar suas expressões e seus delírios. 272 - Planos aproximados no meio do povo onde estão duas faixas imensas: O JUIZ É BICHA! 273 - A partida segue em ritmo normal. A câmera trata de fazer toda uma documentação ao ritmo da música e dos ruídos próprios. 274 - PG - Travelling. No meio da multidão surge o negro Calunga, com as vestes exóticas, brincos nas orelhas e um rifle a tiracolo. Ele caminha no meio do povo como numa aparição. 45 O Anjo Negro 275 - Documentação da partida com o juiz em atividade e a platéia vibrando. 276 - PAp do negro que continua caminhando no meio do povo. 277 - Mais uma documentação das expressões do povo que continua vidrado no ritmo normal da partida. 278 - PAp - O negro se aproxima da torre de eletricidade aonde ficam as lâmpadas enormes que iluminam as partidas noturnas. Ele começa a subir na torre. 279 - Documentação do povo na platéia que não toma conhecimento do que está ocorrendo de estranho. 280 - PG - Câmera de baixo. O negro ainda sobre a imensa torre de refletores. Ele procura posição nas alturas, segurando-se nas imensas lâmpadas quase do seu tamanho. 281 - De cima da torre a câmera faz uma panorâmica extensiva sobre o estádio, focalizando a massa em festa, numa fusão de cores e sons. 282 - PP do negro que procura posição para seu rifle. Ele começa a mirar para baixo. As luzes dos refletores se acendem e ele toma um enorme choque. 283 - A platéia dá um pulo de ovação por algum lance que causou grande emoção. 284 - PP do negro por trás das luzes acesas, apontando o rifle para baixo e mirando pontaria. 285 - A câmera se transforma no visor do rifle e o ponto central da pontaria se localiza sobre a cabeça do juiz que se movimenta em campo enquanto o pontinho da miragem também acompanha seus movimentos. Soa um estampido bem forte. 286 - PP - Zoom. Há um zunido ensurdecedor. Câmera lenta. O juiz é alvejado bem na testa. A câmera está por trás da rede da trave. Ele corre em direção da câmera com o corpo vagando no espaço. A zoom se aproxima do seu corpo. Há um buraco imenso na testa do juiz. Entra a sirene bem forte em estado de emergência. Desfoque. SEQÜÊNCIA XXII EXT. DIA Retorno do flashback. Foca o rosto do juiz. 46 O Anjo Negro 287 - PP do juiz, com o rosto todo quebrado, por trás do vidro moído do seu carro. Continua som de ambulância. 288 - PM arrebentado. Fixo. O carro está batido num poste e todo 289 - PM da esposa do juiz, Júlia que se encontra caída do lado do carro, o rosto sangrando, com uma imensa barriga; está grávida. 290 - PM - Travelling. O carro da ambulância em disparada. 291 - PM - Travelling. O carro de reportagem de algum jornal, correndo. 292 - PM - Câmera na mão. Os veículos estacionam no local do acidente. Um grupo de pessoas curiosas está ao redor. Os enfermeiros e os jornalistas juntam-se, cada qual, cumprindo suas missões ao lado dos policiais de trânsito que também encontram-se no local. 293 - Câmera na mão. Os enfermeiros cobrem o corpo do homem que está no meio da pista, talvez morto. Por trás, encontra-se o enorme cavalo branco, empinando. 294 - Câmera na mão. Outros enfermeiros põem os corpos do juiz e sua esposa em duas macas enquanto os repórteres despejam luzes dos flashes consecutivos. Os corpos estão postos dentro da ambulância. 295 - PM - Travelling. A ambulância corre pelo asfalto na maior arruaça. SEQÜÊNCIA XXIII INT. DIA 296 - PM - Dentro do hospital. O corpo de Júlia passa por um imenso corredor. 297 - PA - O juiz está deitado numa cama móvel ao lado de uma freira. Juiz CADÊ JÚLIA, IRMA? Freira TENHA PACIÊNCIA. O juiz muda de expressão ao ver sua esposa passar no carrinho dirigindo-se para a mesa de operação. Uma outra freira aproxima-se do juiz que está impaciente. 47 O Anjo Negro Juiz COMO VAI ELA? Freira CORRE TUDO BEM, FILHO. DENTRO DE ALGUNS MINUTOS NASCERÁ A CRIANÇA. Preto e branco - Viragem em azul. 298 - PM - Do lado da porta da sala de operação surge uma junta médica com trajes típicos. No meio deles está o negro Calunga, vestido de médico, com ar diferente, altivo, cabelo um pouco mais baixo, conversando com os "colegas". 299 - Close-up do juiz que percebe a figura do negro Calunga e fica alucinado. Juiz PRENDAM AQUELE HOMEM. É UM ASSASSINO. UM LOUCO. (Os enfermeiros agarram o seu corpo que está como um maluco ) POR FAVOR, NÃO DEIXEM. ELE VAI MATAR MINHA MULHER, O MEU FILHO. (Os enfermeiros aplicam-lhe uma injeção a fim de que se acalme ) ELE É UM LOUCO. MEU DEUS, UM LOUCO. ( Abaixa a voz e começa a sentir o efeito da injeção. Ele balbucia ) CUIDADO, SENÃO ELE ME MATA TAMBÉM... ( Fecha os olhos e adormece ) 300 - Close-up de Júlia na mesa de operação, suando bastante, contraindo-se de dores e gritando. 301 - PP - Panorâmica - Câmera de baixo. Os rostos dos médicos em atividade sobre o corpo da paciente. No meio, está o negro Calunga liderando a equipe. 302 - Close-up de Júlia que continua banhada de suor, gritando. Por fim, ela desmaia de tanto sofrimento. Colorido. 303 - PM - Travelling. O juiz anda sozinho pelo corredor do hospital. Ele está de pijama. Do outro lado, encontra-se com outro paciente. Trata-se do seu colega de trabalho, também de pijama, com um bigodinho e com ar meio de debilóide. Colega HOJE ESTÁ UM MOVIMENTO DE LOUCO. Juiz E O QUE HOUVE? Colega ACHO QUE FOI UMA CRIANÇA... DESAPARECEU... 48 O Anjo Negro Juiz O QUE?... Colega ASSALTARAM O HOSPITAL! Antes dele terminar a frase, o juiz corre. 304 - PM - Fixo. O juiz corre num corredor do hospital. Depois pára numa porta e olha. 305 - PM - Fixo. Dentro do quarto está Júlia deitada. Ao seu lado, uma freira dorme. Júlia percebe o juiz. 306 - PAp - Fixo. O rosto do juiz que faz sinal de silêncio e entra nas pontas de pés. 307 - PM - Fixo. O juiz aproxima-se de Júlia que começa a se levantar. Os dois dão as mãos e se dirigem para a janela. O juiz sobe primeiro e depois Júlia. Exterior. 308 - PM - Fixo. Do lado de fora do hospital. O juiz e Júlia terminam de descer pelo muro. Estão na rua. 309 - PM - Travelling. Os dois correm pelo meio da rua, ambos em trajes de hospital. A rua está um pouco movimentada... é dia de carnaval. Uma série de caretas, vestida de diabos, começa a perseguir o casal. 310 - Entra um frevo clássico. O casal está no meio do carnaval. Os diabos fantasiados continuam perseguindo-os. Eles passam pelo meio da multidão em festa. Há um desfile de cores, ritmo e fantasia. A multidão congrega-se para brincar e uma explosão alegre. A câmera procura documentar um pouco o carnaval, principalmente o seu lado fantasioso e endiabrado. Esta é a festa predileta de Exu. SEQÜÊNCIA XXIV EXT/INT. DIA 311 - PG - O juiz e a esposa aparecem cansados no portão de sua mansão. Eles entram pelo jardim ainda em trajes de hospital. Está tudo tranqüilo. 312 - PM - Eles dois chegam na porta e empurram. Ninguém abre. Eles tornam a fazer força para abrir. Estão agoniados. Júlia MEU FILHO, POR FAVOR. EU QUERO MEU FILHO. 49 O Anjo Negro Ela diz estas palavras chorando e se espremendo de raiva e medo. Juiz TENHA CALMA, JÚLIA. CALMA. Ela berra, bate na porta e chora. 313 - PM - A porta abre por si. Os dois mudam de fisionomia. Ela pára de chorar. Entram devagar no grande casarão. 314 - PG - Travelling. Na grande sala, toda decorada, barrocamente sofisticada, está toda a família, todos sérios e com ares estranhos, sem soltarem uma só palavra. Os dois sentem o ar estranho que os cercam e mudam de expressão. 315 - PP - Travelling. A câmera desliza sobre os rostos sisudos do Padre, Getúlio, Luanda, Irene, Índio, Carlinhos e outros. Pelas suas expressões algo de errado está acontecendo ou aconteceu. 316 - PP - Travelling. O rosto de Júlia, apreensiva, enquanto anda pelo casarão. 317 PP - Travelling. O rosto do juiz, também com a expressão de quem não está entendendo nada. 318 - PP - Travelling. O rosto de Júlia, que quebra o silêncio com muito esforço. Júlia CADÊ O NENÉM, JÁ CHEGOU? 319 - PA - Panorâmica. Focaliza o padre que olha crítico, aproxima-se deles dois. Com água benta ele benze todos dois, que ficam sem nada entender. Depois se dirige para uma porta do quarto e abre-a, como num cerimonial. 320 - PP - Travelling. Júlia caminha em direção do quarto, com a expressão de espanto, misturada com alívio. Seus passos aumentam. 321 - PM ficam os medo de criança. frente. - Os dois entram no quarto grande. A porta se tranca e dois isolados. Eles olham espantados para trás, com algum imprevisto. De longe, bem baixinho, chora uma Os dois se olham e ficam apreensivos. Caminham para 322 - PP dos dois que andam com um certo mistério nos rostos. 50 O Anjo Negro 323 - PG - Fixo. Na extremidade do quarto, bem um pouco no alto, encontra-se um berço, de estrutura colonial. O choro do bebê aumenta. Eles se aproximam. 324 - PP - Travelling. O rosto de Júlia, que agora anda mais rápida, e o choro da criança aumenta. 325 - PM - Travelling. Por trás de Júlia a câmera acompanha seus passos. Já próximos do berço. O choro da criança está bem alto. Ela chega perto do berço e abre as suas cortinas brancas. 326 - Big Close-up de Júlia, que dá um grito dilacerante de horror e de ódio. Entram os atabaques e o som de candomblé. 327 - PD - Fixo. Dentro do berço está uma forte criança, recémnascida, preta, com as perninhas para cima e chorando fortemente. São feitos planos curtos. Exterior. 328 - PG - Panorâmica. A imagem do negro Calunga montada num cavalo branco, correndo desembestado na beira da praia. Sua imagem está em silhueta, com um enorme sol amarelo por trás. 329 - PG - Panorâmica. O bode preto ressurge. Tranqüilo. A sinetinha balançando. Ele passeia pela cidade. Sobre a película surge a palavra F I M. 51 O Anjo Negro 52 O Anjo Negro 53