Roteiro Cinematográfico
O Anjo Negro
O Anjo Negro
José Umberto
Aparecem letreiros coloridos: e uma música leve de Paganini:
“Tu, sábio e grande rei do abismo mais profundo,
Médico familiar dos males deste mundo,
Tem piedade, Satã, desta longa miséria!”
Baudelaire
“Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, vingança feroz”.
Castro Alves
“O que sei, é, que em tais danças
Satanás anda metido,
E que só tal padre-mestre
Pode ensinar tais delírios.”
Grégorio de Mattos
Um menino se espanta na noite
Com o cão. Nem delírio, nem
sonho, nem pesadelo; foi uma
verdade. Sobre os ombros ele
carrega até hoje esse fantasma.
SEQÜÊNCIA I
EXT. DIA
02 – PC – Silêncio. Sobre o sol poente caminha um bode preto em
cima dos velhos telhados dos casarões da Bahia. Ele está em
silhueta. Se ouve bem de leve o badalar fininho do seu sino.
03 – PM – O bode caminha tranqüilo sobre um lençol alvo.
Adiante ele encontra um despacho com velas acesas, azeite de
dendê, charuto, cachaça, farinha de azeite, dinheiro, etc. O
bode vai se aproximando. Neste momento um enorme machado abate
mortalmente sobre sua cabeça. Os atabaques soam forte ao lado
do sangue rubro. Surgem letreiros negros sobre as imagens:
O Anjo Negro
O bode se esperneia no chão, banhando tudo de sangue e os
letreiros prosseguem. Uma voz canta:
Este bode, oh! Lunga lê
amarra na mangueira, oh! Lunga lá.
Prá tirar o couro, oh! Lunga, lê
e fazer pandeiro, oh! Lunga lá.
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O Anjo Negro
04 – PC – Panorâmica, contra a praia, com o sol declinando no
horizonte, passa um negro, com trajes da cultura africana,
montado num enorme cavalo branco. Mais parece um guerreiro. A
imagem está quase em silhueta. (Continuam os atabaques e os
letreiros negros).
05 – PC – Documentação. È a festa de Iemanjá. O povo se
aglomera entre as pedras do mar. Há uma grande inquietação e
euforia. O mar está furioso nas praias do rio vermelho. Os
saveiros estão n’água é dia de festa da gente do candomblé
baiano. Cantos são soltos no ar, com o misterioso idioma dos
negros. (Continuam os letreiros).
06 – Júlia, com óculos escuros, roupa escura, se aproxima com
seu carro de luxo. Ela desce do carro.
07 – Está no meio da multidão, ansiosa para entregar sua
oferenda
a Iemanjá.
Se dirige com dificuldade para o
caramanchão que vai levar os presentes da santa para o fundo do
mar. Ela leva um pacote embrulhado.
Documentar o ritmo das pessoas na festa do povo.
Preto e branco - Viragem em azul.
08 – No caramanchão estão os presentes em grande quantidade.
Júlia entrega seu presente a um negro, todo de terno branco.
Sapato branco, chapéu do Panamá branco e um imenso charuto; é
Calunga. Ele toma o embrulho e rasga o papel.
Calunga
A GENTE NÃO ARREIA PRESENTE AMARRADO, MADAME.
Dentro do embrulho vêm perfume, lenço branco,
bilhete. O negro toma, lê e olha com ar debochado.
colar
e
um
Calunga
MADAME, VAMOS ARRIAR TODOS OS SEUS PRESENTES NO
MAR, MAS O BILHETE NÃO. A RAINHA NÃO ATENDE A ESSES
PEDIDOS. NADA DE ENCRENCA ENTRE MARIDO E MULHER.
09 – PC – Travelling na mão. Júlia corre desesperada no meio do
povo. A animação e a confusão são intensas. Os atabaques ainda
estão no ar.
10 – O negro permanece na sua posição, arriando os presentes de
Iemanjá.
11 – Plano sobre o rosto de Júlia que vem angustiada, com
lágrimas caindo e sujando a face com a maquilagem que se
desmancha. Ela entra no seu carro de luxo.
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O Anjo Negro
SEQÜÊNCIA II
INT. DIA
12 – Primeiro plano de Júlia, com olhar para cima, rezando.
Entra uma música sacra. A câmera se afasta, estamos dentro da
igreja do Pelourinho, templo dos negros escravos. Domina o seu
barroco retorcido e bonito.
13 – Alguns planos da igreja, mostrando Júlia afastada, sozinha
na amplidão do templo.
SEQÜÊNCIA III
EXT. DIA.
14 – PD – Os jornais do dia rolam pela máquina impressora,
lendo-se como manchete principal:
JUIZ DE FUTEBOL ESPANCADO NO EXTERIOR
Embaixo, a foto do Juiz Hércules com a testa ferida.
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no
no
do
– PD – Um rádio em edição extraordinária anuncia a chegada,
aeroporto, do juiz brasileiro que foi acusado de corrupção
exterior, motivo pelo qual foi vítima de uma agressão dentro
seu próprio carro.
16 – PM – Dentro dos estúdios de uma TV, o repórter França
Teixeira divulga a mesma notícia, com as câmeras focalizando-o.
17 – PA – Nas ruas tortuosas de Salvador os vendedores de
jornais gritam a todo fôlego.
Menino I
JUIZ ESPANCADO NAS ESTRANJAS.
Menino II
JUIZ LADRÃO QUE APANHOU FEIO.
Muitas pessoas
sensacional.
compram
jornal
interessadas
com
a
notícia
18 – Aeroporto. Um grupo de repórteres cercam uma senhora no
grande salão de espera. Há um burburinho enorme em torno dela,
ansioso de notícias. Ela é Júlia, esposa do juiz.
Repórter I
A SENHORA COMO ESPOSA DO JUIZ ACHA QUE DEPOIS DESSE
ESCÂNDALO ELE CONTINUARÁ NA PROFISSÃO?
Júlia
BEM, É ELE QUEM DECIDIRÁ TUDO.
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O Anjo Negro
Repórter II
ELE CONTINUARÁ ARRISCANDO A VIDA NUM GRAMADO?
Júlia
CREIO QUE ISTO NÃO VEIO AFETAR EM NADA. ESSAS
COISAS FAZEM PARTE DA VIDA DE UM JUIZ DE FUTEBOL.
19 – PC – O avião se aproxima da pista para pousar. Neste
momento entra música de inspiração negra e o som do avião.
20 – PC – No ponto de embarque se encontram vários repórteres,
com câmeras de filmar, fotográfica, serviço de rádio, etc.
O avião começa a pousar na pista até estacionar por completo,
quando a multidão se dirige para as escadas postas na saída.
Começam a descer algumas e no meio surge Hércules, com um
esparadrapo na testa e de óculos escuros. O burburinho aumenta,
mas só se ouve o som da música, do zum zum zum da multidão e do
barulho do avião.
21 – PC – Câmera-na-mão documentando o juiz com a multidão ao
redor entrevistando-o, para a qual ele responde tranqüilamente.
Há uma movimentação impetuosa de câmeras e flashes contínuos.
No
barulho
ele
encontra
Júlia
e
beija
sua
testa
indiferentemente.
22 – PM – A multidão permanece interrogando, enquanto ele
encerra a conversa e entra num carro luxuoso ao lado de sua
esposa, que dirige.
23 – Dentro do carro em movimento.
Jùlia
EU TIVE MEDO, HÉRCULES.
Hércules
NÃO FOI NADA. JÁ ESTOU ACOSTUMADO COM ESTAS COISAS.
ISSO JÁ FAZ PARTE DA PROFISSÃO.
Ela encosta a cabeça sobre o ombro do marido. Seus olhos se
fixam na distância e ela se perde dentro de si mesma.
SEQÜÊNCIA V
INT. DIA
24 – PG – Travelling. Uma imensa repartição pública moderna
aonde funciona uma grande empresa. Os funcionários trabalham
arduamente em suas mesas com uma zoada estridente das máquinas
datilográficas.
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O Anjo Negro
25 – PA – Fixo. Num setor isolado está o juiz de futebol
Hércules que exerce a função de presidente na grande empresa.
Ele atende algumas pessoas.
26 - PG – Fixo. A sirene automática dá sinal do fim da jornada
de trabalho. Todos se levantam e o juiz também, com um ar
metódico, distante das pessoas, superior.
27 – PA – O juiz pega o seu chapéu e sua bengala, enquanto isto
entra no quadro um dos seus colegas. Um tipo gordo, cabelo
partido no meio, bigodinho chapliniano. É faceiro. Meio
amalucado. Seus olhos abrem e fecham num gesto impertinente.
Sua boca às vezes também estremece. O juiz não quer muita
conversa com ele, que traz um monte de papéis nas mãos.
Colega
HÉRCULES. CONFIAMOS EM VOCÊ AMANHÃ.
Juiz
EU NÃO DECIDO A PARTIDA. A SORTE É DEUS QUEM DITA
NO CAMPO.
Colega
O DIABO TAMBÉM PODE ATENTAR.
Ele fica meio nervoso e os papéis começam a cair.
28 – Close-up do juiz, meio nervoso.
Juiz
CUIDADO COM O QUE DIZ!
29 – PM – Câmera-na-mão. O colega fica mais nervoso ainda e
grita.
Colega
QUE CUIDADO QUE NADA, SINHÔ.
Ele começa a jogar os papéis para cima e gritar, meio aloucado.
Colega
SEUS COLEGAS E O POVO ESTÃO ESPERANDO O RESULTADO.
DECIDA LOGO COM ISSO, SINHO. VOCÊ É O JUIZ, O MANDA
CHUVA... AAHHRRRRRG!
Ele dá um grunhido e morde os papéis, assanha os cabelos.
Alguns funcionários agarram ele e saem arrastando-o, com as
pernas em espinafrações.
30 –PA – Travelling. O juiz se conserta e sai andando.
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O Anjo Negro
31 – PM – Interior da toalete, luxuosa, brilhante e com
espelhos por todos os lados. O juiz se mira no imenso espelho,
conserta o bigode e vai mijar no vaso.
Hércules
TOU CHEIO DISSO TUDO. TENHO QUE ME LIVRAR O QUANTO
ANTES.
EXT. DIA
32 – PG – Ele se dirige para seu carro. Ao abrir a porta eis
que chega uma freira.
Freira
FOI ÓTIMO TER ENCONTRADO O SENHOR AQUI. PASSEI O
DIA TODO TENTANDO TELEFONAR, MAS DAVA COMUNICAÇÃO.
33 – PP – O juiz através da janela do carro, com a porta mais
ou menos aberta.
Juiz
POIS NÃO, MADRE. É SOBRE MINHA SOBRINHA?
34 – PA – Pegando os dois.
Freira
JÁ TEM DUAS SEMANAS QUE ANDA NO MAIOR MISTÉRIO DA
VIDA. CREIO QUE ALGUMA COISA DE BOA NÃO ANDA POR
DENTRO DELA. A SUPERIORA TENTOU RETIRAR ALGUMA
COISA, MAS NÃO CONSEGUIU NADA POR ENQUANTO. AGORA
SÓ A FAMÍLIA É QUEM PODE DECIDIR O DESTINO DELA.
DESTE JEITO É QUE NÃO PODE PERMANECER NUMA CASA DE
DEUS, GUARDANDO NATURALMENTE ALGUM PECADO.
Juiz
NÃO SE PREOCUPE, MADRE, QUE PROVIDENCIAREI TUDO
AGORA MESMO.
O juiz se despede da freira e sai em alta velocidade no seu
carro.
SEQÜÊNCIA VI
INT. DIA.
35 – PM – Travelling. Hospital Júlia esta com trajes de médica.
Ela observa alguns doentes e se detém nas gêmeas xipófagas. Ela
conversa alguma coisa com as gêmeas e faz gesto de brincadeira.
Uma enfermeira se aproxima e fala alguma coisa. Júlia se
afasta.
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O Anjo Negro
36 – PA – Fixo.
Júlia
(Com um fone na mão)
ALÔ, ALÔ, É A MADRE? COMO TEM PASSADO (Pausa) O
QUE, IRENE?
Ela recebe a noticia pelo telefone e a sua expressão è de quem
tomou um grande choque.
Júlia
MAS NÃO É POSSÍVEL, (Pausa) NÃO SE PREOCUPE. NÓS
CUIDAREMOS DE TUDO. MAS TODO CUIDADO COM BOATOS,
TCHAU.
SEQÜÊNCIA VII
EXT. DIA
37 – PG – O juiz estaciona seu carro no jardim de uma mansão
barroca. Salta do carro e seu cachorro vem correndo ao seu
encontro, na maior alegria. Perto da escadaria, o mordomo, com
traços indígenas; é Índio. Ele toma a maleta do patrão.
INT. DIA.
38 – PM – Ele está numa imensa sala, com uma decoração um tanto
pesada pelo passado colonial, com uma arquitetura meio barroca,
luxuosa. A arte ali serve como mero enfeite, não como uma forma
de rejuvenescimento e amor à vida.
39 – PD – Uma gaiola vazia no meio da sala.
40 – PA – O juiz se aproxima indignado, à procura do pássaro.
Juiz
LUANDA! (Grita) CADÊ O PÁSSARO?
Por de trás da mesa surge Carlinhos. Cabelos encaracolados,
trajes exóticos, com ar desligado, trazendo o pássaro preto nas
mãos.
VOCÊ POR
LONDRES?
AQUI,
Juiz
(Abismado)
CARLINHOS! MAS
NÃO
ESTAVA
EM
Carlinhos
MUITO BONITO (Se referindo ao pássaro), MUITO
BONITO MESMO, NÃO É? MAS NÃO CANTA.
Juiz
LARGA OS ESTUDOS, VIAJA... E COMO É, RESOLVEU
ALGUMA COISA?
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O Anjo Negro
Carlinhos se dirige à gaiola placidamente. Aparece do outro
lado Luanda, com ar singelo.
Luanda
SENHOR HÉRCULES, DOUTORA JÚLIA TELEFONOU E DENTRO
DE DEZ MINUTOS ESTÁ AQUI PRÁ FALAR COM O SENHOR. É
UM ASSUNTO DE URGÊNCIA.
Enquanto isso, Carlinhos coloca o pássaro dentro da gaiola,
carinhosamente fecha a portinhola e depois dá um estrondoso
grito, que espanta o bicho e todos. Ele pula em sua moto, que
está do outro lado da mesa. Liga o motor e começa a correr em
disparada dentro de casa. A câmera se locomove no ambiente, num
clima de desespero.
Juiz
OLHA, JÚLIA ESTÁ MUITO NERVOSA ULTIMAMENTE, E EU
NÃO QUERO SABER DE CONFUSÃO POR AQUI. ACHO BOM VOCÊ
IR EMBORA.
Carlinhos permanece correndo disparado.
DA OUTRA VEZ
DIFERENTE.
NÓS
Juiz
ATURAMOS
VOCÊ.
MAS
AGORA
É
41 – PA – Câmera-na-mão.
Carlinhos
(Disparado)
EU VIM ASSUMIR UM COMPROMISSO, COROA. TOU COM
ENCONTRO E HORA MARCADA... E ATÉ LÁ VOCÊS ESPEREM.
UUUUHHHHAAAAIIIIII. DESCANSE QUE NINGUÉM VAI FICAR
LOUCO.
Ele joga a gaiola para o juiz e sai da sala correndo.
42 – PA – Fixo. O juiz está perturbado e nervoso com a gaiola
nas mãos. Fica sem saber o que fazer, meio aluado e caminha
para onde está Luanda.
Juiz
CADÊ O VELHO?
Entrega a gaiola a Luanda.
43 – PM – Fixo.
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O Anjo Negro
Luanda
ESTÁ RECOLHIDO NO QUARTO.
44 – PM – Travelling: A porta do quarto se abre lentamente. O
quarto está meio sombrio. O velho Getúlio, abatido, meio
encolhido na cama, como se estivesse com frio. Nele é refletida
toda a melancolia da velhice sem salvação e ânimo para a vida.
Seu terno é negro. Um padre está ao seu lado, rezando como
penitente.
Juiz
OLÁ GETÚLIO, QUE TRISTEZA É ESTÁ. A VIDA ESTÁ
SORRINDO LÁ FORA E VOCÊ ENCOLHIDO. VAMOS! REANIME
QUE AINDA TEM MUITOS ANOS PRÁ VIVER.
45 – Câmera do alto alcança todos.
Getúlio
( Referindo-se ao padre )
HÉRCULES, TIRE ESTE PARASITA DAQUI.
Luanda
TEM UMA SEMANA QUE ELE NÃO COME.
46 – PP – Fixo.
Getúlio
COMIDA, COMIDA, DINHERO. É SÓ NO QUE ESSE POVO SABE
FALAR.
Padre
( Off )
E OS ENSINAMENTOS DA IGREJA QUE ESTÃO AQUI
DIARIAMENTE?...
Getúlio
( Indignado )
CALE ESTA MATRACA ANTES QUE EU LHE QUEBRE A CARA.
Ele se dirige pacientemente para o juiz (câmera recua) e pede
com ar de criança.
Getúlio
POR FAVOR, TIRE ESSA VISAGE DAQUI.
Há um silêncio.
Julia
(Off. Grita alto )
HÉRCULES!
47 – PM – Travelling. O juiz se dirige com rapidez para a sala
e lá se encontra com sua esposa, que esta agoniada; traz uma
notícia trágica.
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O Anjo Negro
Traja-se com elegância e usa enormes óculos escuros.
Júlia
( Grita )
HÉRCULES!
Sentada, retira os sapatos.
Juiz
O QUE FOI, JÚLIA? QUE TANTA AGONIA É ESTA?
Júlia
ESTIVE AGORA MESMO COM A MADRE SUPERIORA. FOI UMA
TRÁGEDIA.
Juiz
TRAGÉDIA! QUE TRAGÉDIA?
Júlia
FALE MAIS BAIXO QUE É UM ESCÂNDALO.
Juiz
SIM, DIGA LOGO.
Júlia
TODO AQUELE MISTÉRIO DE IRENE FOI DESCOBERTO. O
CONVENTO JÁ TRATOU DE EXPULSÁ-LA. DEPOIS, AS OUTRAS
MENINAS ESTÃO HORRORIZADAS.
48 – PP – Fixo.
Juiz
MAS ENFIM, DE QUE SE TRATA?
Júlia
( Off )
A MENINA ESCONDEU A GRAVIDEZ DURANTE SEIS MESES E
FOI ENCONTRADA DESMAIADA NO BANHEIRO JÁ TENDO
ABORTADO NO VASO SANITÁRIO.
Juiz
MEU DEUS! E SE A IMPRENSA SOUBER DE UMA COISA
DESSAS, ESTOU DERROTADO. VAI SER UM ESCANDÂLO. E
ISTO PODE INFLUENCIAR NO JOGO DE AMANHÃ.
SEQÜÊNCIA VIII
EXT. DIA
Preto e branco - Viragem em azul.
49 – PM – Panorâmica. Irene vem andando por uma rua antiga.
Traz uma sacola a tiracolo. Seu vestido é bem místico:
comprido, inteiro, todo roxo, amarrado na cintura com um cordão
branco; os pés estão descalços.
Os cabelos são longos, loiros; o rosto é meio pálido, mas os
lábios estão de batom rouge.
50 – Big close-up do seu rosto. Ela vem andando e pára.
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O Anjo Negro
51 – PG – Ela começa a subir uma escada.
52 – PG – Irene caminha sobre o telhado dos velhos casarões da
Bahia. Ela parece uma miragem.
53 – PM – Câmera-na-mão. Um marinheiro faceiro, todo de branco,
boné, percebe ela no telhado. O marinheiro é o negro Calunga.
54 – PM – Travelling. Ele também já está no telhado. Começa a
perseguir Irene.
Marinheiro
PRÁ ONDE É QUE TU VAI, AMIGA? ( Pausa )
Ele dá um passo adiante. Irene permanece tranqüila.
Marinheiro
VAMOS CONHECER O MAR, É MUITO MAIS BONITO.
55 – PP – Travelling.
Irene
EU NÃO GOSTO DO MAR.
56 – PM – Travelling.
Marinheiro
(Faceiro)
EU LHE ENSINO CAPOEIRA, AMIGA, PRA VOCÊ SE
DEFENDER. EU TE DOU UM NAVIO, PRA VOCÊ MORAR; E TE
DOU UMA CAMA, AMIGA, PRA VOCÊ SONHAR. AMIGA, VAMOS
AMIGA, ( Bis ) VAMOS CONHECER O MAR...
Irene
(Vira o rosto e diz num lapso)
PEGUE TUDO ISSO E INVERTA...
SEQUÊNCIA IX
EXT. DIA
57 – Documentação livre. Entra a música do canal-100 da parte
do futebol ao lado do alarido da multidão. Há uma imensa
aglomeração no campo de esportes. Uma explosão total de
gritarias e louvações. A câmera ai vai documentar as reações
histéricas do povo em festa.
58 – No meio do campo estão os dois times jogando; no centro o
juiz Hércules em plena atividade. Ele rege a partida com todo
um ar de seriedade, prestando o máximo de atenção na bola e nos
jogadores, que se locomovem como num balé clássico. O juiz
acompanha todo esse ritmo como se fosse um bailarino.
Registrando nos seus movimentos a vibração de todo um calor
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O Anjo Negro
humano que lhe cerca. Ele é praticamente o ponto central de
toda a partida; mil olhares convergem apara ele em sua
atividade complexa. De repente, há um lance perigoso e a
platéia, descontente, começa a reclamar. O alarido é total,
balbúrdia por todos os lados, nervosismo.
Povo
BICHA, BICHA, BICHA, BICHA...
Este é o hino febril de uma massa compacta
anarquicamente contra a figura do juiz.
que
se
rebela
59 – A câmera se detém sobre o juiz, acossado pelo alarido e as
provocações que aumentam de intensidade, quando é arremessado
para o gramado casca de banana, ovo podre, laranja, pedra,
vidro, etc. Ele sai correndo do campo como um animal acuado.
INT. DIA
60 – PM – O juiz está defronte ao espelho do vestuário, quando
surge na porta Júlia que entra no recinto privado do marido.
Júlia
NÃO ADIANTA PERMANECER NO FUTEBOL, HOMEM. ESSES
MONSTROS VÃO ACABAR LHE MATANDO DENTRO DO GRAMADO.
Juiz
EU NÃO ENTENDO, NÃO ENTENDO ESSE POVO. ME ESFORÇO
AO MÁXIMO PARA SER JUSTO, DIREITO E FIEL, MAS NÃO
ADIANTA MESMO.
61 – PM – Fixo. Ele começa a trocar de roupa e Júlia está
encostada contra o espelho.
Júlia
SER JUIZ É UMA COISA INGRATA. TANTO FAZ SER CORRETO
COMO LADRÃO, QUE É TUDO UMA COISA SÓ.
Juiz
BASTA!
Júlia
( Off )
MAS A CULPA ESTÁ TODA EM VOCÊ, QUE É CABEÇA DURA.
Juiz
PARE! MEUS NERVOS ESTÃO ABALADOS. DAQUI APOUCO
EXPLODE TUDO.
62 – PP de Júlia.
Júlia
TODO MUNDO SE APROVEITA DESTA PROFISSÃO. SÓ VOCÊ
QUE PERMANECE NESSA PUREZA.
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O Anjo Negro
63 – PP do Juiz.
Juiz
NÃO É ISSO.
64 – PP de Júlia.
Júlia
O POVO NÃO ENTENDE NADA. ESSA MASSA IGNORANTE VAI
DESTRUIR VOCÊ. ELES PAGAM É PRÁ ISSO MESMO. PRÁ SE
DIVERTIR.
Juiz
(Off)
VOCÊ NÃO SABE NADA DE FUTEBOL. CALE-SE!
Júlia
NÃO VOU CALAR. TUDO NÃO PASSA DE UM GRANDE CIRCO. E
VOCÊ... VOCÊ É UM BUFÃO... É A VEDETE, É O PALHAÇO
QUE FAZ RIR. EU ACHAVA MELHOR, E MAIS INTELIGENTE,
QUE VOCÊ BURLASSE TUDO ISSO E RECEBESSE SEU
DINHEIRO. ISTO SIM, POIS TUDO NÃO PASSA DE UMA
FARSA.
65 – PP do Juiz.
Juiz
ISTO NÃO. NUNCA, NÃO ME VENDO À TOA. TENHO MEUS
PRINCÍPIOS E NÃO IREI MANCHAR MEU NOME, JÚLIA.
66 – PA – Câmera-na-mão. Pegando os dois.
Júlia
VOCÊ TÁ FICANDO LOUCO. ESSA MASSA NOJENTA ESTÁ LHE
RIDICULARIZANDO. OU ACHA QUE SER CHAMADO DE “BICHA”
É HINO DE LOUVOR?
O juiz irritado dá uns tabefes na cara de Júlia. O sangue jorra
na cara e no espelho. Ele abre a porta e corre. Júlia sai atrás
desembestada.
SEQÜÊNCIA X
EXT. DIA
67 – Do lado de fora do estádio o juiz corre rapidamente e
entra no carro. Julia também. Ao entrarem são violentados por
um grupo exaltado de torcedores que bate com força no
automóvel.
Grupo
SEU CANALHA! CACHORRO, FILHO DA PUTA! BICHA, VÁ
ROUBAR A MÃE.CRÁPULA! DESCARADO, CHIBUNGO. CORNO!
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O Anjo Negro
68 – De dentro do carro o juiz tenta ligar o motor. Ambos estão
com medo. O grupo bate com força no vidro do carro. Este começa
a dar partida e rompe a fúria com violência.
69 – PA – Travelling. Som tranqüilo do mar. O casal é visto
através do parabrisa, calado, taciturno. Ambos estão com
pensamentos distantes. Júlia começa a falar para o companheiro
como se estivesse falando para si mesma.
Júlia
TUDO ISSO ME FEZ LEMBRAR UM FATO QUE OCORREU COMIGO
NO HOSPITAL. TINHA QUE OPERAR UMA MOÇA BONITA,
DELICADA, OLHOS AZUIS, O PARTO ESTAVA HORRÍVEL. A
HEMORRAGIA ERA INCONTROLÁVEL. ME LEMBRO BEM QUE FIZ
TUDO O QUE PUDE PARA SALVÁ-LA... ( Off ) MAS TUDO
EM VÃO. ( Pausa ) O MARIDO JÁ IDOSO NÃO SE
CONFORMOU. ( Pausa ) QUASE ME MATA ENFORCADA NO
CORREDOR SE NÃO FOSSEM OS ENFERMEIROS. ( Pausa )
PASSARAM MUITOS ANOS. MAS DE VEZ EM QUANDO EU A
VEJO, EU SONHO COM OS SEUS OLHOS AZUIS COMO SE
ESTIVESSEM PEDINDO ALGUMA COISA.
No meio do seu monólogo aparece a imagem do negro sobre o
cavalo branco, correndo contra a praia, o mar e o sol; em
silhueta.
70 – PM – Travelling. O carro continua em velocidade pela
rodovia, sem movimento, com os coqueiros e o mar que sacode as
suas ondas eternamente.
71 – PG – De dentro do carro. No meio da pista passa um cavalo
selvagem,
todo
branco.
A
câmera
faz
uma
panorâmica,
acompanhando seus movimentos selvagens. Vai ficando atrás do
carro.
72 – PA- Por trás do pára-brisa.
Júlia
NÃO SE PREOCUPE, HÉRCULES. NÓS AINDA VAMOS TER UMA
PAZ.
Juiz
ESTOU SENTINDO CANSAÇO. PRECISO DE UM POUCO DE
SOSSEGO, DE TRANQÜILIDADE.
Neste momento, Júlia dá um grito. Ouve-se o relincho selvagem
de um cavalo, com um som bem forte.
Preto e branco - Viragem em vermelho.
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O Anjo Negro
73 – Câmera na mão, de dentro do carro, que desliza
desgovernado no asfalto. Há uma derrapagem e o carro bate
contra o poste.
74 – PM – Fixo. O cavalo branco empinando as patas.
Som de vidro se quebrando e lataria amassando,
relincho do cavalo.
junto
ao
75 – PG – Fixo. A câmera contra o sol. Contre-plongée pegando
em primeiro plano o corpo de um negro estirado no meio do
asfalto e, no fundo, o carro do juiz. Este descendo do carro e
se aproximando.
Ouve-se uma música negra, um canto nagô. É um lamento triste e
tão ritmado quanto o mar.
76 – Câmera na mão. Os raios do sol se misturam às imagens. O
juiz se abaixa e pega nos braços do negro desfalecido, Calunga,
que se encontra de trajes exóticos, cabelos imensos, roupão
vermelho e branco, brinco na orelha, de pés descalços.
O juiz carrega o corpo, anda um pouco pelo coqueiral e se
dirige ao carro. Coloca-o perto de Júlia que está com imensos
óculos escuro.
Juiz
VAMOS LEVAR AO PRONTO SOCORRO.
77 – PP de Júlia.
Júlia
NÃO.
Ela alisa a face do negro e é como se sentisse algo misterioso
no interior do seu corpo.
Júlia
LEVEMOS PARA CASA. EU MESMA CUIDADREI DELE.
78 – PP do Juiz.
Juiz
A GENTE PODE SE COMPROMETER COM A POLÍCIA.
79/80 – PP de Júlia.
Júlia
MINHA CONSCIÊNCIA DIZ QUE NÃO.
81– PP dos três.
Juiz
VAMOS DEIXAR O CORPO LÁ ONDE ESTAVA. ( Indeciso )
OU ENTÃO JOGUEMOS NO MAR...
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O Anjo Negro
Júlia
ESTÁ FICANDO LOUCO. COM UMA VIDA NOS BRAÇOS E PENSA
EM DESTRUIR. COLOQUE AQUI DENTRO, VENHA. AO MEU
LADO. EU CUIDAREI DELE.
O juiz fica meio confuso. Sem saber mais o que fazer. Coloca o
corpo dentro do carro, ao lado da esposa.
82 – PA – De dentro do carro. Ela coloca a cabeça do negro no
seu colo. O juiz vai para a direção e dá a partida. O carro
ganha de novo a pista do asfalto, embalado pelo mar e a música
negra bem lírica e ao mesmo tempo forte.
83 – Big close-up do negro que abre um olho espantado e torna a
fechar tranqüilo.
SEQÜÊNCIA XI
INT. DIA
84 – PM- Colorido. Travelling. Interior da mansão. O juiz
carrega o corpo nos braços, enquanto Júlia acompanha na sua
cadeira de rodas.
85 – PD – O pássaro preto está no meio da sala.
86 – PM – Travelling. O juiz olha para o pássaro que voa longe
no espaço.
Júlia
VAMOS PARA O QUARTO.
Juiz
SILÊNCIO. NINGUÉM PODE SABER. ( Pausa )
ARREPENDI DEPOIS QUE TROUXE ISTO PRA DENTRO
MINHA CASA.
ME
DE
87 – Travelling. Interior do quarto. A luz se acende, entram no
maior silêncio, só se ouve o tic-tac dos passos e o zunido da
cadeira de rodas. O corpo desfalecido do negro é posto em cima
da cama, forrada por uma pomposa colcha de rendas brancas. O
juiz põe sua cabeça sobre o peito do negro. Ausculta.
Juiz
ME PARECE MORTO. O CORAÇÃO NÃO BATE.
88 – PA – Fixo. Júlia toma seu pulso e põe de leve a mão
direita em sua testa.
Júlia
VÁ CORRENDO NO LABORATÓRIO E APANHE A SIRINGA COM
AQUELA INJEÇÃO.
17
O Anjo Negro
89 – PP do negro que parece estar morto e Júlia por trás de
seus óculos escuros, escondendo sua cegueira.
90 – PD – A agulha penetrando de leve na veia saliente do braço
do negro.
91 – PM – Travelling. O corpo do negro não dá sinal de vida.
Tudo imóvel. No entanto, Júlia está confiante no seu trabalho.
Depois dos preparativos médicos ela e ele saem silenciosamente
do quarto.
92 – PM – O juiz tranca a porta do quarto.
Júlia
FIQUE COM A CHAVE. EU TOMO CUIDADO PRA NINGUÉM
ENTRAR NO QUARTO.
O juiz se retira e entra a mulata Luanda.
Júlia
LUANDA!
Luanda
SIM, MADAME.
Júlia
NÃO DEIXE NINGUÉM SE APROXIMAR DAQUI.
Aponta para o quarto.
93 – PM – O juiz pega um jornal e lê com curiosidade a primeira
página que tem a seguinte manchete:
JUIZ DESONESTO É EXPULSO DO CAMPO PELO POVO
Ele está com ar preocupado. Sua esposa se aproxima lentamente
na cadeira de rodas.
Júlia
QUE FOI QUE HOUVE, HÉRCULES?
Juiz
NÃO É NADA NÃO.
Dissimula a questão. Enrola o jornal e joga-o encima da mesa.
Juiz
EU PRESSINTO QUE ALGUMA COISA ESTÁ PRA ACONTECER
COM A GENTE.
94 – PA de Júlia.
Júlia
SE ESTÁ PRA ACONTECER QUE ACONTEÇA LOGO. NÃO
PODEMOS PASSAR A VIDA TODA ADIANDO OS PROBLEMAS. O
QUE TEM DE SE RESOLVER QUE SE DECIDA O QUANTO
18
O Anjo Negro
ANTES.
NÃO
TENHO
MAIS
PACIÊNCIA
PARA
ESTAR
ESPERANDO. MINHA CEGUEIRA ESTÁ VENDO MAIS DO QUE
SEUS OLHOS SÃOS.
95 – PA do Juiz.
Juiz
NÃO FIQUE CRIANDO COISAS, JÚLIA.
TANTAS PREOCUPAÇÕES.
JÁ
BASTAM
DE
Acende um cigarro.
Juiz
ISTO É UMA FASE QUE LOGO PASSA.
Júlia
DESCOBRI QUE O MUNDO FOI FEITO PARA QUEM TEM VISÃO.
QUEM NÃO VÊ O SOL NÃO TEM DIREITO DE VIVER.
96 – PA dos dois.
Juiz
NÃO DIZ BOBAGENS. ISTO SÓ FAZ PIORAR.
Joga fora o cigarro.
Júlia
( Sua face mostra uma certa serenidade )
NÃO ME INTERESSA MAIS O MUNDO DE VOCÊS. A PARTIR DE
AGORA CRIAREI MEU MUNDO PRÓPRIO. O UNIVERSO DOS
CEGOS QUE VÊEM.
Toca a sirene.
97 – PM – Fixo. O mordomo Índio entra pela porta com a sobrinha
Irene, olhar cabisbaixo, trajando roupão bem comprido e
bastante místico, de cor roxa, contrastando com sua pele alva.
98 – PM – Contracampo.
Júlia
QUEM É?
Juiz
(Exaltado)
QUEM PODERIA SER? A SAFADINHA DA NOSSA SOBRINHA.
Júlia
DOMINE SEU VOCABULÁRIO. DESTE MODO NÃO VAMOS OBTER
NADA.
Juiz
19
O Anjo Negro
O QUE É QUE SE TEM MAIS PRA SE OBTER? A ÚNICA
SOLUÇÃO É QUEBRAR A CARA DESTA SEM-VERGONHA,
DESCARADA.
Nisto, a câmera sobre a cadeira de rodas. Ele se exalta e tenta
agredir a menina, que é amparada pelo mordomo. Júlia sai
desembestada na sua cadeira de rodas. Há uma grande confusão em
torno deles.
99 – PA – Surge o velho Getúlio que grita para tranqüilizar os
ânimos acirrados.
Getúlio
PAREM SEUS ANIMAIS. PARECEM QUE PERDERAM O HÁBITO
DE CIVILIZADOS.
Ele se mete no meio do grupo que se acomoda. Toma a moça e fala
com ar paternalista.
Getúlio
SÓ AGORA, DEPOIS DE VELHO, ACABADO DE GUERRA, É QUE
VIM PERCEBER QUE FAMÍLIA SÓ CRIA CONSUMIÇÃO. SÓ FAZ
DESTRUIR. A GENTE CRIA UM BOCADO DE BACUREUZINHO
PRA DEPOIS SE FAZER DE BESTA.
Entra no corredor e leva a moça pelo braço.
Getúlio
SE A MOÇA FEZ O SERVIÇO, TÁ FEITO E NÃO TEM CRISTÃO
QUE DÊ JEITO. A GENTE NUNCA PODE DAR PRA TRÁS NAS
COISAS. ACHO QUE FOI MELHOR ELA TER BOTADO OS
BREGUEÇOS NA LATRINA DO QUE DEIXAR NESTE MUNDO DE
MERDA. E TEM MAIS: EU EXIJO SILÊNCIO. ESTA CASA
PARECE QUE VIROU UM MERCADO.
Sai com a moça.
100 – PM de Júlia.
Júlia
ME DÊ A CHAVE DO QUARTO, HÉRCULES. VOCÊ ÍNDIO,
AVISE A LUANDA PRA CUIDAR DO QUARTO DE IRENE.
A câmera acompanha a cadeira de rodas para o quarto.
Ela abre a porta e entra. Na cama não está mais ninguém. O
negro Calunga sumiu, mas ela não percebe isto. Chega perto da
cama e fica parada como se estivesse olhando para ele por trás
de sua cegueira fatal.
SEQÜÊNCIA XII
EXT. DIA
20
O Anjo Negro
101 – Documentação livre. É festa da lavagem do Senhor do
Bonfim, padroeiro da cidade do Salvador da Baía de Todos os
Santos, conhecido nos terreiros dos orixás como o velho Oxalá.
Sua cor é o branco. Do adro da Conceição da Praia parte o
cortejo místico da cultura afro-baiana que se dirige numa longa
caminhada ao alto da colina onde fica a igreja. O povo se
encontra nas ruas. Carroças enfeitadas de flores, as jarras
d’água de cheiro, as baianas todas cobertas de branco, gente de
tudo que é espécie formam a procissão popular do candomblé da
Bahia que vai lavar e purificar o adro da escadaria do santo
Oxalá, grande orixá.
102 – Calunga se encontra também no meio das festividades. Suas
roupas, seus cabelos, seu gingado se confundem no ritual alvo e
festivo. Gente do povo, no meio do povo, mas não está com
ninguém. Fala com todos, conversa com todos, mas não esbarra em
ninguém. Seu mundo é a brincadeira. O ritmo. O gingado. De vez
em quando um deboche doce e tranqüilo de nego doido varrido.
Ele é uma espoleta atirada na África e explodida no Brasil. Ri.
Pula. Não fica quieto. É um azuretado. Caminha ao ritmo e, às
vezes, fora do ritmo das baianas de roupas alvas que vão a
igreja católica lavar seu santo e suas almas.
103 – No largo ele está festivo. Molha os pés nas águas. Se
molha. Se purifica. Terminando o ritual de nego safado e
ousado, parte para o ritmo libidinoso e sem vergonha do samba
de roda. Se umbiga com moças criouladas e brancas, toma cerveja
e come tira-gosto. Sua euforia contagia a festa popular. Sua
figura se assemelha, às vezes, a um agente do outro mundo
integrado na praça calorosa e louca. Os sambas de roda lançam
seu grito:
Eu fui no mato, oh! ganga,
Cortar cipó, oh! ganga!...
E vi um bicho, oh! ganga,
De um olho só, oh! ganga...
104 – Calunga tá no meio, mexe, e remexe. Bate palmas e sacode
o corpo macio no ritmo imprevisto da dança. As mulatas, os
mulatos cada qual tirando seu samba e falando dos seus amores
ou dissabores ou brincadeira, ao passo em que contam tudo e
ligam tudo a uma bela e suave umbigada ao som e ao ritmo da
loucura e da embriaguez tropicais.
SEQÜÊNCIA XIII
EXT. DIA
105 – PG – Câmera na mão. Sobre algumas pedras se encontram
algumas filhas de santo. Elas dançam num ritmo frenético. Há
todo um mistério litúrgico em torno dos elementos que o compõe,
todas trajando roupas típicas do ritual. Calunga está no meio,
21
O Anjo Negro
com a mesma roupa anterior. A festa é bonita e colorida. Ela é
liderada por um velho, de barbas brancas e com trajes africanos
baseados, sobretudo, em palhas.
106 – PG – Fixo. No mar uma pequena balsa, enfeitada com flores
e outros artifícios, estando nela o velho. Calunga está também
na balsa. Estão bem no centro da Baía de Todos os Santos.
107 – PM – Eles conversam como se num ritual.
Velho
MEU FIO, SUA ALMA FOI LIMPADA DE TUDO QUE É MAL.
VOCÊ AGORA TÁ PREPARADO PRA TRABAIÁ COM SEUS IRMÃOS
DAS ÁGUAS. SEU DESTINO FOI TRAÇADO E VOSMECÊ TEM
AGORA QUE CUMPRIR COMO UM SANTO.
108 – Fixo. De
gaivotas cantam.
longe
os
dois
na
solidão
do
alto
mar.
As
109 – PM – Fixo.
Calunga
EU NUM DOU PRA SANTO, MEU PAI. MEU CAMINHO TEM QUE
SER OUTRO. EU MESMO É QUEM VOU TRAÇAR.
Velho
VOCÊ NÃO É OBRIGADO A ACEITAR. ESTÁ NO SEU DIREITO
ESCOLHER.
110 – PP de Calunga.
Calunga
MEU MAR É OUTRO. POR ELE PASSA MUITO NAVIO.
111 – PG – Panorâmica lenta.
Calunga
( Off )
MUITOS BARCOS, MUITOS PEIXES. E EU VOU TER QUE
VIAJAR POR CIMA DE TODOS ELES. ASSIM TRACEI, ASSIM
CUMPRO...
Velho
( Off )
SEGUE SEU CAMINHO, CALUNGA, MAS TERÁ QUE VOLTAR
NADANDO. ESTA VAI SER SUA PRIMEIRA PROVA.
112 – PP do velho, contemplativo e distante.
113 – PP de Calunga que olha para o horizonte.
22
O Anjo Negro
114 – PG – Fixo. Calunga contempla a imensidão do mar e depois
de um instante tira a roupa e salta nu dentro das águas
salgadas de sua Iemanjá.
Som do mar e das gaivotas. O negro nada no meio da baía... é um
ponto preto nas águas.
( Se possível fazer de avião, subindo ao céu e Calunga se
perdendo no mar ).
SEQÜÊNCIA XIV
INT. DIA
115 – PM – Travelling. No solar, Júlia e o juiz Hércules estão
impacientes. Ambos demonstram preocupação com o desaparecimento
misterioso do negro cabeludo.
Júlia
MAS NÃO É POSSÍVEL! COMO ELE DESAPARECEU?
A câmera persegue a cadeira de rodas no seu nervosismo por
dentro do quarto já vazio.
Juiz
( Preocupado )
JÚLIA, TENHA CALMA. ISTO É UM SEGREDO DE NÓS DOIS.
116 – PM – Travelling. Júlia está na sala, impaciente, pega a
sineta e toca nervosa. Surgem Índio, Luanda, Irene e o velho
Getúlio.
Júlia
VOCÊS VIRAM ALGUÉM POR DENTRO
NEGRO... ALTO... FORTE...
DE
CASA?...
UM
117 – PP – Travelling. Enquanto são ditas estas palavras, a
câmera desfila por sobre a face de todos, e a pergunta causa
certo embaraço em todos. Há uma interrogação na face de cada
um.
A câmera se detém no velho Getúlio.
DE PRETO
FUGIU.
AQUI
SÓ
Getúlio
CONHEÇO O PASSARINHO,
MAS
JÁ
118 – PP – Fixo.
Irene
EU CONHECI UM, MAS FOI LÁ FORA.
119 – PM – Travelling. Os rostos de Júlia e do juiz Hércules
ficam meio apreensivos. Preocupados. Reina certo silêncio e
expectativa entre eles.
23
O Anjo Negro
Juiz
FOI O TAL QUE FEZ EM VOCÊ?
Neste exato momento toca a campanhia.
120 – Travelling. O mordomo se dirige à porta para abrir. Segue
Luanda, que sai. Surge Carlinhos na sua moto, que entra na
maior barulheira casa à dentro. Ele dá uma volta gritando.
Carlinhos
ÔI, PESSOAL!
Juiz
PELO QUE ESTOU VENDO SÓ FALTAM TRAZER AQUI PRA
DENTRO PROSTITUTAS.
121 – PP de Getúlio.
Getúlio
E OS INGLESES, MENINO, AINDA FAZEM AQUELA GASIMIRA
DA BOA?
122 – PM – Travelling. Carlinhos deixa a moto encostada na
parede. Índio carrega-a para fora.
Carlinhos
MINHA QUEDA MESMO É O MAR. QUE DOÇURA. QUE LOUCURA.
SEM ELE NÃO VIVO EM PAZ... “É DOCE MORRER NO
MAR...” ( Cantarola e faz uma pausa )
Juiz
E SEUS ESTUDOS?...
Carlinhos
SÓ ME INTERESSA AGORA ESTE SOL TROPICAL... ESTE
AZUL... E O RESTO É SILÊNCIO...
123 – PP do juiz.
Juiz
É, A BURGUESIA TEM SEUS ENCANTOS.
124 – PP do velho Getúlio.
Getúlio
TÁ AÍ, FALOU EM VIVER É MESMO QUE TER OUVIDO A
BOMBA ATÔMICA.
125 – PM – Fixo.
Carlinhos
A ARQUITETURA PERDEU SENTIDO PRA MIM. BUSCO COISAS
NOVAS. COISAS QUE ME INTERESSAM AGORA, NESTE
24
O Anjo Negro
INSTANTE. NÃO ENCONTREI AINDA O QUE SEJA, MAS ESTOU
PROCURANDO, PESQUISANDO...
Juiz
ISTO É DESCULPA PRA QUEM NÃO QUER FAZER NADA. NA
ÉPOCA DOS MOVIMENTOS ESTUDANTIS ERA A MESMA COISA.
AGORA SÓ FEZ MUDAR DE FORMA.
Carlinhos
HOJE TUDO SE TORNOU INÚTIL. É. INÚTIL. ESTÁ TUDO
VAZIO...
126 – Close-up de Irene.
Irene
E SUZANA, NÃO VEIO COM VOCÊ?
127 – PM – Fixo.
Carlinhos
ELA FICOU ATRÁS. FOI POR OUTRO CAMINHO.
Juiz
( Irritado )
NÃO ENTENDO ESSA JUVENTUDE. NÃO ENTENDO. A MINHA
CONSTRUIU ALGUMA COISA, TINHA UM IDEAL. HOJE EU
CHEGO A CONCLUSÃO DE QUE VOCÊS SÓ SE PREOCUPAM EM
SE OLHAREM NO ESPELHO PARA VER SE OS CABELOS E A
BARBINHA ESTÃO NO LUGAR.
Carlinhos
TÁ POR FORA, MEU TIO. IH! VOCÊ TÁ POR FORA. POR
FORA COMPLETAMENTE.
128 – PP de Júlia.
Júlia
ÍNDIO, VÁ ARRUMAR O QUARTO DE CARLINHOS.
Neste exato momento a campainha torna a tocar.
129 – PP de Getúlio.
Getúlio
HOJE É DIA DE VISITAS. SÓ ESPERO É QUE A MORTE NÃO
VENHA NOS VISITAR. ( Um tom irônico )
130 – PM – Travelling. Todos estão imóveis.
Júlia
ÍNDIO, QUE ESTÁ ESPERANDO? VÁ ABRIR A PORTA!
25
O Anjo Negro
A câmera acompanha o mordomo, que vai meio receoso; antes que
chegue na porta, esta se abre e eis que surge o negro Calunga,
trazendo um berimbau na mão, tocando entre os dedos. Seu ar é
de libertino, com o corpo em bamboleio de capoeirista.
131 – PP de Júlia.
Júlia
QUEM É?
132 – PA – Travelling. Calunga continua no seu ritmo dengoso
Calunga
SOU EU, MADAME.
O juiz começa a apresentá-lo.
Juiz
ESTE CAVALHEIRO É NOSSO HÓSPEDE, TAMBÉM.
Calunga
MUITO PRAZER!
Saúda a todos até chegar no velho.
Getúlio
NEGO, NÃO PEGO EM SUAS MÃOS PRA NÃO ME SUJAR DE
TINTA. MAS TOCA ESSA CABACINHA AÍ QUE É PRA EU
OUVIR.
133 – PM – Fixo. Do outro ângulo oposto ao anterior.
Calunga
POIS NÃO MEU AMO. ( Ele toca o berimbau e dança; o
velho fica feliz da vida com aquele som ritmado )
ESTE AQUI É O SOM DAS ALEGRIAS E DAS TRISTEZAS DOS
NEGUINHOS. E OS BRANCOS TAMBÉM SÃO VIDRADOS NELE,
MEU AMO.
Carlinhos
ME ENSINA ESTE GINGADO, CAMARADA.
SEQÜÊNCIA XV
INT. NOITE
134 – Sala de jantar. Está ornamentada como noite de Natal.
Aliás, toca-se música natalina. Todos se dirigem para a mesa,
cada qual pegando o seu lugar, com toda a formalidade possível.
Nas cabeceiras estão Júlia e o juiz Hércules. Na mesa há frutas
de várias espécies, vatapá, caruru e outros ingredientes.
135 – PP de Calunga. Ele pega um enorme charuto e começa a
acender.
26
O Anjo Negro
136 – PP do juiz com cara de quem não está satisfeito com as
regalias do preto.
137 – PP de Calunga
Calunga
CADÊ O VELHO GETÚLIO?
138 – PP de Júlia
Júlia
ELE TEM DIAS QUE NÃO COME.
139 – PM – Travelling. Vem numa certa carreirinha o velho
Getúlio, demonstrando uma certa satisfação interior. Está todo
de branco. Passa pela árvore de Natal e brinca com os cristais
coloridos e com o Papai Noel.
140 – PP – Fixo. Pega toda a mesa. Calunga solta uma baforada
do seu charuto.
Calunga
QUEBROU A GREVE DE FOME, MEU AMO?
141 – PAp de Getúlio que começa a tomar sua posição na mesa.
Getúlio
HOJE É DIA EM QUE PRETO BEBE DO MESMO VINHO DE
BRANCO.
142 – PG – Travelling. Há um certo silêncio. Quietude.
Juiz
AGORA VAMOS TODOS REZAR.
A música pára.
143 – PA de Calunga que rebate a fala anterior.
Calunga
NÃO É CHEGADO AINDA O MOMENTO.
Ele se levanta e vira o quadro do “Coração de Jesus”. O preto
morde um pouco seu charuto e solta uma baforada.
Calunga
PRIMEIRO VAMOS BRINDAR AO NOSSO ENCONTRO.
Carlinhos
CADÊ O VINHO?
Calunga
27
O Anjo Negro
EU PREFIRO A CACHAÇA.
Juiz
( Indignado )
EU
EXIJO
MAIS
RESPEITO
NA
MINHA
CASA.
OS
INCOMODADOS PODEM SE RETIRAR QUE A SAÍDA É FRANCA.
Carlinhos
MAIS AQUI ESTÁ TUDO MUITO FRIO. É BOM ESQUENTAR.
144 – PA de Getúlio: com ar de bufão.
Getúlio
PELO JEITO O NEGUINHO TEM SABEDORIA. ENTÃO DEIXEMOS
ELE MOSTRAR. O CIRCO É SEMPRE BOM PRA NOS DIVERTIR,
E ESTA MESA AGORA É UM PICADEIRO.
145 – PM com a câmera um pouco de baixo. Calunga dá um grito.
Calunga
SILÊNCIO!
Sua expressão se modifica. Parece que baixou um “espírito” no
seu corpo. Ele respira fundo e, com os olhos fechados, bota os
dois dedos para cima.
146 – Plano mais próximo de Calunga. Ele se treme todo. Está
endemoniado. Ele mete a cara, de charuto e tudo, num vaso de
vatapá. A câmera mostra seu rosto todo melado de amarelo. Seus
olhos estão pegando fogo. Ele grita algumas palavras em nagô:
boca, ouvido, bunda, pênis.
147 – PM – Travelling. A câmera faz um círculo sobre as pessoas
que estão paralisadas e com certo medo.
148 – PM – Fixo. Câmera do alto. Pega toda a mesa.
149 – PM – Travelling. Surgem da porta Luanda e Índio, ambos
nus. Ela está com uma tocha de fogo na cabeça; ele traz um
garrafão de vinho. Eles aparecem como num ritual, acompanhado
de uma música africana.
150 – Close-up do Juiz.
Juiz
O QUE É ISTO?...
151 – Close-up de Júlia
Júlia
QUE FOI HÉRCULES?
28
O Anjo Negro
A câmera faz uma panorâmica e estaciona no rosto indignado do
juiz.
Juiz
QUEREM TRANSFORMAR NOSSA CASA NUMA PODRIDÃO. VOU
AGORA MESMO ACABAR COM ESTA BRINCADEIRA.
Tenta se levantar, mas é surpreendido por Calunga com seu manto
tropical.
Calunga
NÃO SE AFOBE, PATRÃO. NÃO É CHEGADA A HORA. TENHA
CALMA. TOME PRIMEIRO DO VINHO.
Ele leva o cálice para o juiz, que não aceita. Ele insiste e
leva o cálice “na raça” à boca do juiz, derramando o líquido
vermelho pela cara. O juiz toma o cálice e resolve beber, um
tanto temeroso.
152 – PG – Travelling. Todos elevam o cálice e bebem do vinho.
Getúlio fica meio desconfiado, cheira o copo e depois decide
engolir sua dose, demonstrando satisfação.
153 – PA do juiz que termina o seu gole de vinho. Pára e fala.
Juiz
BASTA DE TANTO PAGANISMO! ESSES
RETIRAR. MANDE VOCÊ, CALUNGA!
DOIS
DEVEM
SE
154 – PP de Calunga.
Calunga
MAS LOGO EU?
155 – PP do juiz.
Juiz
LUANDA, ÍNDIO SE RETIREM!
156 – PAp de Irene já meio transtornada.
Irene
MAIS UMA DOSE, LUANDA, ESTÁ UMA DELÍCIA!
A câmera faz uma panorâmica brusca para Júlia.
Júlia
MENINOS, RESPEITEM OS MAIS VELHOS!
157 – PP de Carlinhos no embalo.
29
O Anjo Negro
Carlinhos
MINHA TIA, NÃO FALE.
Acende um cigarro de maconha e puxa fundo.
Carlinhos
A NOITE FOI FEITA PARA DANÇAR.
158 – PG – Com a câmera na mesma altura da mesa. A toalha é
puxada com força e todos os pratos caem no chão.
159 – Câmera na mão livre. O negro sobe encima da mesa e começa
a dar alguns saltos da capoeira. Seu corpo está como um
endemoniado.
160 – PP do juiz que está indignado. Levanta-se da mesa como um
possesso.
161 – PM – Fixo. O juiz se aproxima do telefone, disca alguns
números, mas verifica que não dá nenhum ruído. Ele olha para o
chão.
162 – PD – Fixo. Os fios estão todos cortados.
163 – PA – Travelling. Dirige-se a uma peça e, da gaveta,
apanha uma pistola, colocando-a no bolso do paletó, depois de a
mirar. Retorna à sala de jantar.
164 – PG – Todos estão ao redor da mesa,
sambando. O juiz passa a mão no rosto e é
pesado. Senta-se ao lado de Júlia que está
em linha reta. O juiz passa sua pistola para
com o negro ainda
como se o sentisse
lúcida, com a face
as mãos da esposa.
165 – As mãos de Carlinhos e de Irene se encontram por baixo da
mesa. Eles se abaixam e saem por debaixo da mesa correndo para
um canto da sala.
166 – PP dos dois, deitados no chão.
Carlinhos
COMO É QUE É AQUELA CANÇÃO?
Irene
ME ESQUECI. JÁ FAZ TEMPOS.
Carlinhos pega um violão que está ao lado.
Irene
VEJA SE VOCÊ SE LEMBRA.
Ele começa a dedilhar as cordas do violão e depois canta.
30
O Anjo Negro
Carlinhos
ESTOU SÓ
CADA VEZ MAIS ESTOU SÓ
MEU BARCO NÃO NAVEGA NO MAR
MEU AEROPLANO NA LINDA GALÁXIAS
NÃO SABE POUSAR
E CADA DIA EU FICO MAIS SÓ.
167 – PM – Júlia se vira para o juiz Hércules e fala.
Júlia
PARE ESSA CANÇÃO!
Ele se afasta da esposa e procura Luanda. A câmera retorna para
Júlia que sai com a cadeira de rodas pela penumbra, a pistola
nas mãos, suspensa.
168 – PM – Fixo. A câmera fica na mesma altura da mesa, na sua
extremidade, estando do outro lado, sozinho, o velho Getúlio,
que ri para si mesmo.
O riso se prolonga como o de um bêbado. A câmera começa a se
aproximar em zoom mostrando a face do velho que conversa com
seus próprios fantasmas.
169 – PAp – Fixo. Getúlio tira do bolso uma figurinha de
Trouille, chamada “Meus Funerais”, que é uma mistura do profano
e do sagrado, no confronto entre o negro dos panos funéreos com
a brancura dos corpos nus das carpideiras. O velho ri e coloca
a figurinha dentro do bolso do seu paletó branco de casimira.
170 – PP do rosto de Getúlio.
Getúlio
CADÊ SUA VALENTIA, ANTÕI SILVINO?
Ele ri com as bochechas se movendo.
171 – PM – Fixo. Neste momento, como numa mágica surge em cima
da mesa a figura lendária do cangaceiro, em traje de gala, com
os longos cabelos descidos nos ombros, loiros. Dá saltos com
uma longa espada nas mãos.
Entra a música Assun Preto com Luiz Gonzaga e sua sanfona.
172 – PAp do cangaceiro, num contraluz. As imagens são bem
rústicas.
Antônio Silvino
VOCÊ ME PAGA, GETÚLIO. FUI TRAÍDO NESTE SERTÃO DE
DEUS. MAS MINHA VINGANÇA AINDA ESTÁ POR VIR. OS
MORTOS TAMBÉM DESTROEM SEUS INIMIGOS. DA BOCA DO
31
O Anjo Negro
CÉU VAI SAIR UM BATALHÃO DE ANJOS, TODOS DE BRANCO,
COM O MENINO JESUS NA FRENTE. VOCÊ NÃO VAI MORRER
NEM DE ESPADA NEM DE BACAMARTE. SEU FIM É MAIS
TRISTE, GETÚLIO. NÃO É A BALA QUE VAI COMER SUAS
TRIPAS; É A SOLIDÃO... VOCÊ VAI PENAR DE TÃO VELHO.
173 – Close-up do velho balançando as bochechas, rindo das suas
próprias misérias.
EXT. DIA
174 – Flashback - Câmera livre. Dentro de uma caatinga está
Antônio Silvino todo amarrado. Todo sujo. Um homem todo de
preto, montado num cavalo, dá uma surra com uma espada longa.
Seu rosto está todo ensangüentado. O homem enfia toda a espada
no cangaceiro, que sai pelas costas.
Antônio Silvino
( Off )
MORRI SOZINHO, COMPADRE. TRAÍDO COMO UM JUMENTO. EU
TENHO VERGONHA. VERGONHA DO MEU POVO QUE CONFIOU EM
MIM. AINDA VINGO MINHA HONRA COM ESTA MESMA ESPADA
QUE ABENÇOOU MEU CORAÇÃO.
Sua voz é de quem está muito cansado.
INT. NOITE
175 – PP de Getúlio.
Getúlio
( Rindo na mesa )
SETE
LÉGUA,
PINGA
FOGO,
TROVOADA,
PARAÍBA,
CASCAVEL, TIRIRICA, AMARELO... CADÊ SUA VALENTIA
ANTÕI SILVINO?
Seu riso se prolonga.
176 – PAp. Câmera na mão. Num canto da sala Luanda está em pé,
ainda nua. O juiz se aproxima e alisa suavemente o seu corpo
macio. Os dois se abraçam, se beijam e se deitam. Ele não tira
o seu paletó, satisfazendo-se tão somente com carícias. Ele
beija todo o seu corpo e se concentra mais intensamente nas
suas
coxas
dengosas.
Ele
na
penumbra
carrega
Luanda
(Travelling) e a deita num dos terraços da casa colonial.
177 – PP – Cortando os rostos de ambos.
Juiz
LUANDA, TENHO MEDO.
32
O Anjo Negro
Luanda
NÃO SE PREOCUPE, PATRÃO, QUE A NOITE ENCOBRE TUDO.
Juiz
ESTOU FELIZ AQUI, MAS INTRANQÜILO. E JÚLIA... ONDE
ESTARÁ?
Luanda
ESQUEÇA, PATRÃO, ESQUEÇA.
178 – PA – Travelling. No meio da casa está Júlia, vem andando
na cadeira de rodas com a pistola nas mãos. O negro se aproxima
lentamente, retira a arma das suas mãos e joga á distância.
Júlia
( Nervosa )
QUEM É?
Torna a fazer a pergunta.
Júlia
QUEM É?
O negro continua a rolar a cadeira pela penumbra da casa
colonial. À proporção que roda, ela vai se tomando de pavor,
pressentindo
perigo
próximo
devido
ao
seu
estado
de
insegurança.
179 – PM – Travelling. A câmera de baixo. O negro com um
sorriso nos lábios desce a cadeira de rodas pelas escadarias,
aos trompaços.
Júlia
QUEREM ME MATAR!
O negro tapa a sua boca e aí aumenta o grau de suspense.
180 – PM – Fixo. Câmera de cima. A cadeira, ao chegar embaixo
das escadarias, num imenso salão, o negro dá um brusco empurrão
na cadeira que se precipita no movimento.
Júlia
SOCORRO!
Ela grita até a sua cadeira parar. Ela consegue fazer a volta e
o negro começa a se aproximar. Ela se afasta com medo.
181 – PAp. Câmera mais aproximada.
Júlia
( Com os lábios tremendo )
33
O Anjo Negro
NÃO QUERO MORRER. DIGA O QUE VOCÊ QUER. EU LHE DOU
TUDO.
O negro dá um imenso tabefe. Ela chora. Ele retira-a da
cadeira, toma-a nos braços em soluços e carrega-a para um lindo
tapete.
182 – PAp – Câmera na mão. O negro começa a despi-la e iniciam
as carícias com muito calor. Ela cede ao assédio e participa,
mas com certa ansiedade.
183 - PP - Travelling vertical. O rosto branco de Júlia desce
pelas costas negras de Calunga.
184 - Irene delira pelo meio do salão, com as mãos para o ar,
parecendo está bem longe da terra. Carlinhos a acompanha.
Carlinhos
ESTAMOS PERDIDO. ( Fala enquanto
cabelos de Irene ) ACABOU TUDO.
Irene
NÃO CARLINHOS, NÃO.
acaricia
os
Carlinhos corre, pega uma poltrona e coloca em cima da mesa do
jantar. Traz Irene pelo braço, ajuda a subi-la na mesa e a faz
sentar na poltrona. Ela está completamente fora de si. Ele
apanha uma coroa de espinho e sobe de novo na mesa.
Carlinhos
( Tom discursivo )
ISTO AQUI NO PASSADO ERA UM PELOURINHO. OS ESCRAVOS
NEGROS DERRAMARAM SEU SANGUE NESSE CHÃO. ELE HOJE
VEIO AQUI PARA A GENTE LEMBRAR. NINGUÉM AINDA
ENTENDEU. MAS ELE VEIO REVER SEU SANGUE.
Ele mete a coroa de espinhos na cabeça de Irene.
185 - PP - Fixo. Irene com sangue descendo pelo rosto. Ela dá
um berro.
186 - PP de Calunga.
Calunga
CALE A BOCA MOLEQUE SAFADO.
SEQÜÊNCIA XVI
EXT. DIA
187 - PM - Fixo. Algumas pessoas estão olhando da grade com a
expressão meio escandalizada. Surge o padre no meio do pessoal.
34
O Anjo Negro
Padre
NÃO É POSSÍVEL. SÓ PODE SER FIM DE MUNDO.
188 - PG - Fixo. Focaliza toda a paisagem do jardim onde se
encontram Irene, Luanda, Índio, Carlinhos, Calunga e o velho
Getúlio, todos brincando no meio do gramado. Eles se encontram
totalmente nus, com os corpos pintados com cores berrantes.
Passeiam livremente pelo meio das flores e por entre grutas.
Despidos, na maior pureza desta vida, como se tivessem
retornado ao Éden.
189 - PM - Fixo. As pessoas continuam nas
horrorizadas. O padre está meio envergonhado.
grades,
ainda
Homem
QUEM FAZ TUDO ISTO É O DINHEIRO.
190 - PP de um que está no grupo.
Pessoa
QUEM ESPERAVA TANTA SENVERGONHICE LOGO DESSE
PESSOAL GRÃ-FINO. SE AQUI FORA É ASSIM, IMAGINA LÁ
DENTRO COMO NÃO DEVE SER.
191 - PM de todos
Jovem
AH, EU LÁ DENTRO!
Todos olham para o jovem com ar de censura.
192 - Planos livres em câmera na mão. O pessoal da casa
despido, em torno de um cavalo branco, num imenso gramado.
Todos eles estão coloridos. Brincam como crianças, correm de
cavalo, riem. Tomam um banho de rio numa cascata de águas
claras. Se purificam debaixo da Fonte de São Bartolomeu.
SEQÜÊNCIA XVII
INT. DIA
193 - PM - Fixo. Quarto de Júlia e do juiz Hércules. Ambos
estão deitados. Ela está com uma máscara negra nos olhos. Ele
se levanta e se espreguiça como ar de quem estivesse cansado.
Lava o rosto. Faz alguns exercícios no chão.
194 - PAp focalizando o juiz que sobe e desce no seu exercício.
Juiz
NÃO IMAGINO O QUE A GENTE POSSA FAZER.
Júlia
JÁ ESTÁ TUDO FEITO, HÉRCULES.
35
O Anjo Negro
Juiz
CONTINUAR ASSIM É QUE NÃO É MAIS POSSÍVEL. AFINAL
DE CONTAS MINHA REPUTAÇÃO ESTÁ EM JOGO. ( Pensa um
pouco ) AH! JÁ SEI O QUE VOU FAZER. (Levantando-se)
Um plano de Júlia na janela, de máscara. Zoom.
195 - PG - Travelling. Ele se dirige, todo pronto, para o café
da manhã. Abre a porta do corredor, com o contraluz da porta.
196 - PP do juiz com o rosto espantado.
197 - Panorâmica por sobre a sala imensa colonial toda
transtornada. A maioria dos quadros estão no chão. Os móveis
desarrumados, fora dos lugares habituais. O juiz pega na mesa a
sineta e badala; ninguém atende.
Juiz
( Gritando )
LUANDA!
Enquanto grita ele se dirige para uma vitrola e liga-a.
198 - PA - Travelling. Entra uma música negra, um lamento
lírico talvez, advindo dos sofrimentos no pelourinho. Ele se
afasta e apanha um jornal. Ao começar a ler, o juiz se espanta
com a notícia e corre para desligar o som da vitrola.
199 - O juiz joga em cima da mesa e a câmera se aproxima do
jornal. No cabeçalho está uma nota em primeira página policial:
PROCURA-SE VIOLENTO ASSASSINO NEGRO
200 - PM - Travelling. Fica meio pensativo e corre desesperado
pela casa, até sair pela porta.
EXT. DIA
201 - PC disparada.
Panorâmica.
Seu
carro,
nas
ruas
da
cidade,
em
SEQÜÊNCIA XVIII
INT. DIA
202 - PD - Fixo. Ele aperta a campanhia de um apartamento.
203 - PAp - Fixo. O rosto do juiz está profundamente abatido e
é como se já estivesse perdido alguns quilos. Está combalido
fisicamente. A porta se abre e surge uma mulher, Carol, que não
esconde um ar de bruxa sofisticada, mas bonita, loira,
assanhada, olhos acesos.
36
O Anjo Negro
Carol
OH! É VOCÊ! ENTRE. IH! ESTA ABATIDÍSSIMO.
204 - PM - Travelling. Ele se senta numa poltrona com ar
abatido. Ela se afasta para pega um copo d'água e um calmante.
A câmera acompanha.
Carol
ESSES DIAS TODOS SEM DAR NOTÍCIAS. JÁ ESTAVA
PREOCUPADA. EU SOUBE DA ARRUAÇA QUE SE DEU NO
CAMPO. ( Pausa ) FALA ALGUMA COISA. PARECE QUE
PERDEU A LÍNGUA.
205 - Close-up do juiz.
Juiz
CAROL, TUDO INDICA QUE ESTOU FICANDO LOUCO.
206 - PM com a câmera de baixo focalizando Carol
Juiz
( Off )
E O PIOR DE TUDO É QUE ESTOU FICANDO IMPOTENTE.
Neste exato momento Carol se abaixa para pegar o comprimido e
deixa aparecer sua calcinha.
Carol
( Levantando-se )
É TUDO IMPRESSÃO, MEU BEM. ME CONTA O QUE ESTÁ
HAVENDO.
Ela leva o copo para o juiz, que toma o líquido.
Juiz
JÁ PENSEI EM IR À POLÍCIA. MAS NINGUÉM
ACREDITAR. E MINHA REPUTAÇÃO PODE PIORAR.
VAI
207 - Close-up de Carol.
Carol
SIM, MAS DE QUE SE TRATA?
208 - PP do juiz.
Juiz
O DEMÔNIO TOMOU POSSE DA MINHA CASA. ESTÁ TUDO DE
PERNAS PRO AR. VOCÊ FOI A ÚNICA PESSOA EM QUEM
PENSEI PRA ME AJUDAR.
A câmera faz uma panorâmica para Carol
37
O Anjo Negro
Carol
BEM, EU POSSO CONSULTAR MEUS AMIGOS E EM SETE DIAS
ELES RESOLVEM TUDO. ANTES EU QUERO SABER SE VOCÊ
ACEITA O DINHEIRO PARA APITAR A PARTIDA.
A câmera retorna ao juiz.
Juiz
ISTO A GENTE TRATA DEPOIS.
209 - PA - Travelling.
Carol
UM MOMENTO QUE VOU ME COMUNICAR COM O PESSOAL.
(Pegando o fone) ALÔ, ALÔ. CÂMBIO. ALÔ, ALÔ.
EXT. DIA
Preto e branco - Viragem em azul.
210 - Aparece um letreiro em preto e branco:
UMA SEMANA ÉPICA
211 - Segunda-feira: Super-Homem luta com o negro Calunga. Este
vence-o.
212 - Terça-feira: Um cowboy americano é derrotado em duelo
clássico.
213 - Quarta-feira: Um samurai é ferido no peito esquerdo e
morto.
214 - Quinta-feira: Tarzan é posto a correr com um sagüim nas
costas.
215 - Sexta-feira: Um Marquês de Caravelas morre com um pontapé
do negro.
216 - Sábado: Al Capone também é morto.
217 - Domingo: Um gladiador da época antiga de Roma, também de
preto, luta - há lances clássicos, mas Calunga vence.
INT. DIA
Colorido.
218 - Big close-up de Carol que está com o rosto abismado. Ela
pega sua bola de cristal e se senta.
38
O Anjo Negro
219 - PP - Fixo. Pela sua expressão está vendo algo misterioso
na bola. Uma luz forte ilumina seu rosto.
Carol
HÁ UMA FORÇA SOBRE NÓS. É A LUZ DO SOL
ATRAINDO A GENTE PARA O TERREIRO DOS ORIXÁS.
NEGRO
Juiz
( Off )
NÃO SERIA BOM UMA MACUMBA?
Carol
( Com ar de mistério e de medo )
PSIU!... SILÊNCIO. OS DEUSES VÃO OUVIR MEUS
PEDIDOS, GRAÇAS AS FORÇAS DO MAR E DA NOITE. SARAVÁ
MEU PAI!
Ela levanta os braços para cima, fecha os olhos e se treme toda
como se tivesse possuída por um espírito brabo.
SEQÜÊNCIA XIX
INT. DIA
220 - PG - Travelling. Júlia se encontra sozinha no imenso
casarão em desalinho. Ela caminha na sua cadeira de rodas que
desliza à toa pelos corredores.
221 - PG – Câmera na mão. Uma série de pessoas maltrapilhas
surgem pela casa, quase todas negras e mulatas. Cada uma
carregando um objeto. Elas levam, suspensas, as sete flâmulas
coloridas com os riscos bordados dos Exus. Elas cantam uma
canção. Na sala principal encontra-se uma série delas levando
os móveis, os quadros, as frutas enquanto Júlia vagueia entre
elas sem perceber o que se passa ao seu redor. As pessoas
roubam como se fossem formigas no outono.
222 - PM - Travelling. Júlia se afasta das pessoas e sem
nenhuma proteção ela passa por inúmeros perigos, arriscando-se
a cair e se arrebentar. Sua cegueira proporciona uma atmosfera
de suspense. No entanto, ela continua impassível, como se nada
tivesse acontecendo.
223 - PM - Fixo. Júlia está por fora da mansão, beirando o
precipício alto.
224 - PM - Fixo. Neste exato momento vai chegando o juiz e
estaciona o carro, abismando-se com o perigo por que passa a
sua esposa.
Juiz
JÚLIA, CUIDADO!
39
O Anjo Negro
225 - PM - Fixo. Júlia que, ao ouvir as palavras, pára de
caminhar.
226 - PAp - Fixo.
Juiz
PARE AÍ E ME ESPERE. NÃO SE MOVA!
Ele corre para retirar ela do perigo.
227 - PM - Fixo. Ele já está perto dela segurando a cadeira.
Juiz
CADÊ O PESSOAL?
228 - Close-up de Júlia desorientada.
Júlia
FOI TODO MUNDO EMBORA. ATÉ O GETÚLIO. NINGUÉM QUIS
ME ESPERAR.
229 - PA - Travelling. Os dois se movimentam. Ele começa a
empurrar a cadeira de rodas.
Juiz
ASSIM ESTÁ ÓTIMO. FICAREMOS LIVRES AGORA.
Júlia
NÃO, HÉRCULES. NÃO ESTAMOS LIVRES. ESTAMOS PRESOS,
CERCADOS. A ÚNICA SOLUÇÃO PARA NÓS É O DESQUITE.
230 - PAp - Travelling.
Juiz
VOCÊ ESTÁ LOUCA? AGORA QUE TODO MUNDO FOI EMBORA. A
GENTE PODE MUDAR DE VIDA, SER FELIZ.
Júlia
ISTO NÃO EXISTE MAIS. CONTINUAR DESTA MANEIRA É
VIVER A ENGANAR A NÓS MESMOS. E EU NÃO QUERO VIVER
ETERNAMENTE ENGANADA.
Juiz
MAS LOGO AGORA QUE EU MAIS PRECISO DE VOCÊS E ME
DEIXAM SOZINHO.
Júlia
FOI VOCÊ MESMO QUEM QUIS ASSIM.
O juiz se levanta.
231 - Close-up em travelling de Júlia enquanto se ouve em voz
off a fala do juiz.
Juiz
40
O Anjo Negro
( Off )
DESCOBRI UMA VERDADE, JÚLIA: NÃO ADIANTA SER
CORRETO NO MUNDO. SÓ OS LOUCOS É QUE POSSUEM A PAZ.
TAMBÉM JÁ ME DECIDI. NÃO PORQUE QUIS, MAS PORQUE ME
IMPUSERAM! A PRÓXIMA PARTIDA EU DECIDIREI COM
DINHEIRO.
Júlia
JÁ DEVIA TER FEITO ISTO HÁ MUITO TEMPO.
232 - Close-up do juiz em travelling.
Juiz
AQUELE PRETO DESCARADO É O RESPONSÁVEL POR TUDO
ISTO. MAS EU JURO QUE ELE AINDA ME PAGA. EU JURO
QUE ELE ME PAGA E MUITO CARO.
233 - Close-up de Júlia em travelling.
Júlia
ESTÁ COMPLETAMENTE ENGANADO. O QUE ELE VEIO FOI ME
REVELAR UMA VERDADE QUE EU NUNCA TERIA DESCOBERTO.
MESMO CEGA EU FUI CAPAZ DE IR ALÉM DE VOCÊS. MUITO
ALÉM!
Quando ela diz estas palavras o juiz empurra o carrinho com
mais força.
234 - PM - Travelling. Ele empurra a porta da
brutalidade. Lá dentro está tudo vazio, a casa-oca.
casa
com
235 - PP do juiz que fica amarelo ao pressentir sua autoridade
abalada. Aquilo talvez representasse, para ele, o fim de tudo.
236 - PG – Câmera na mão. O juiz no meio da sala vazia.
Juiz
NÃO É POSSÍVEL! VOU PRESTAR CONTAS AGORA COM ESSES
MISERÁVEIS.
Ele empurra a cadeira com violência que corre em disparada
pelos mosaicos bonitos. Pega na parede uma aristocrática
chibata e grita possesso.
LUANDA, ÍNDIO
CACHORROS.
SE
Juiz
APRESENTEM
PARA
APANHAR
COMO
Dá uma chicotada no chão.
Os dois empregados entram e, com movimentos bruscos, o juiz
começa a chicoteá-los.
41
O Anjo Negro
Eles começam a se chocar e se enrolam no chão numa atmosfera de
loucura e frenesi. Júlia também entra no meio da confusão com
sua cadeira de rodas dentro do imenso casarão vazio.
SEQÜÊNCIA XX
EXT. DIA
237 - PG - Panorâmica. Praia. Por do sol. O carro do juiz vem
em disparada pela areia da praia com a água salpicando todo o
automóvel. O sol, por trás, enebriando tudo. O carro pára com o
cavalo branco que está assustado. Ele salta do carro e o cavalo
corre para a praia.
238 - PG - Travelling. O juiz caminha pela beira da praia. Logo
a seguir está um grupo de candomblé que dança um ritual na
beira da praia. Todos dançam ao ritmo envolvente.
239 - PM - Câmera na mão. Ele se aproxima do grupo e entra na
melodia e na dança, como se estivesse a pedir algo aos orixás.
As águas molham suas vestes grã-finas. A câmera documenta todo
o grupo dançando o ritmo por excelência negro.
240 - PG - Travelling. No auge da dança surge, um pouco
distante, a figura estranha de Carol, toda de branco, vestido
meio transparente, a chamá-lo de dentro das águas. Ele sai
correndo. O vento está bem forte e assobia desesperado nos
ouvidos.
241 - PM - Fixo. Surge uma sereia muito bonita, loira, cabelos
longos, metade peixe metade mulher. Sua face é bem branca e os
lábios estão vermelhíssimos. A sereia está na beira da praia.
242 - PAp - Travelling. O juiz continua correndo, desesperado.
O vento continua assobiando forte.
Uma voz estranha chama à distância.
Voz
( Off )
HÉRCULES! HÉRCULES! HÉRCULES!
243 - PAp - Fixo. Uma série de planos com a sereia, os lábios
meio abertos, disfarçando um riso enigmático. Ela está na
areia, dentro d'água, nas pedras, no espaço.
244 - PM - Câmera na mão. O juiz e Carol se encontram e se
abraçam. O assobio do vento vai diminuindo.
Carol
COMO É, MEU BEM?... FICOU BOM DE VERDADE?
Juiz
NÃO MUDOU NADA. CONTINUO NA MESMA.
42
O Anjo Negro
Carol
NÃO SE PREOCUPE. ( Beija-o ) TUDO PASSA E VOCÊ SERÁ
FELIZ.
245 - PAp - Câmera na mão. Os dois abraçados sob as ondas
brancas e fortes.
Juiz
CAROL, DECIDI RECEBER O DINHEIRO DA PARTIDA. EU
PEGO NA MÃO DE QUEM?
Carol
NÃO PENSE NISSO AGORA. NO MOMENTO O QUE INTERESSA É
OUTRA COISA
Ela abraça o juiz e faz carícias
Juiz
NÃO ADIANTA. NÃO SINTO NADA. NADA. NEM CÓCEGAS.
246 - A câmera, de outro ângulo, pega os dois corpos dentro das
ondas, já todos molhados.
Carol
SE ESFORCE QUE VOCÊ CONSEGUE. FAÇA UMA FORCINHA.
VÁ!
Juiz
( Gritando )
JÁ DISSE QUE NÃO POSSO.
Carol
TENTE MEU BEM, TENTE.
Aumenta o clima neurótico e erótico.
247 - PM - O juiz começa a se afastar, querendo correr para a
areia, mas é impedido. Ela quase rasga seu terno preto.
Juiz
( Explosivo )
PÁRA COM ISTO, SEU ANIMAL. EU NÃO POSSO. NÃO POSSO.
Há uma luta entre os dois. Ele permanece recusando. Já estão na
areia da praia.
Juiz
PARE, PARE COM ISSO SENÃO ENLOUQUEÇO. ME SOLTA! ME
SOLTA!
Neste momento ele tira uma pistola do seu bolso e, em estado
fora de si, atira na moça.
43
O Anjo Negro
248 - PM - Fixo. Do peito de Carol sai uma nódoa de sangue. Ele
vem cambaleando e cai nos braços do juiz, morrendo.
249 - PA - Travelling. O juiz toma ela nos braços e fica sem
saber o que fazer. Depois sai correndo desesperado pela praia.
Escurecimento.
250 - PG - Travelling. É quase noite. Ele corre pela rua com o
corpo ensangüentado nos braços. Está tudo deserto.
251 - PG - Travelling. Ele se esconde de qualquer pista. Os
dois corpos rolam pela noite misteriosa. Ele parece um vampiro
correndo na escuridão com a sua vítima.
252 - PM - Fixo. Surge uma limousine antiga, preta, na rua
deserta.
253 - PM - Travelling. O juiz aumenta os seus passos. Morre de
medo.
254 - PD - Os faróis acesos da limousine.
255 - PA - Travelling. O reflexo do carro começa a perseguir o
juiz. Há um clima de suspense e perseguição. O juiz corre pelos
paralelepípedos e ao lado de árvores que modelam a avenida
deserta.
256 - PM - O carro permanece perseguindo-o com seus imensos
faróis.
257 - PAp - Travelling. O juiz continua correndo. O perigo
aumenta; ele está cansado; vai diminuindo a marcha até parar
numa parede, já desistindo de continuar fugindo. Fica fixo na
parede com o corpo branco nos braços. Os faróis do carro estão
fixos neles dois.
258 - PM - Fixo. De dentro do carro sai o negro Calunga, com as
vestes exóticas e muito sério.
259 - PM - O juiz percebe de quem se trata e sai correndo com o
corpo nos braços.
260 - PM - O juiz se aproxima do carro respirando forte, mas
aliviado.
Os dois, juntos, colocam o corpo da mulher dentro da limousine.
261 - PP deles dois dentro do automóvel. A respiração é
ofegante. O juiz, em estado de desespero, beija a boca do negro
por alguns segundos.
44
O Anjo Negro
262 - PM - Fixo. O carro parte dentro da noite.
263 - PM - Travelling. Eles correm sobre o quebra-mar da Baía
de Todos os Santos, dentro da noite, com Carol morta nos
braços.
264 - PG - Fixo. Na ponta do quebra-mar há um barco ancorado,
com velas brancas. Eles ajeitam o corpo da mulher dentro do
barco, que fica deitada, com as mãos cruzadas e uma vela acesa
dentro da noite.
265 - PG - Eles começam a empurrar o barco que desliza nas
profundezas do oceano noturno.
266 - PP dos dois que contemplam dentro da brisa e do vento que
sopram.
267 - PG - O barco navega. Numa certa distância ele explode. O
zoom aproxima e a tela é dominada pela explosão vermelha.
SEQÜÊNCIA XXI
EXT. NOITE
268 - Estádio da Fonte Nova em dia de grande jogo de futebol.
Ao lado da zoada da multidão toca o Hino do Bahia, acompanhando
todo o tumulto e a alegria popular. A câmera trata de fazer uma
documentação do movimento agitado do jogo, como também do
pessoal que assiste nas arquibancadas.
269 - PP do juiz, em plena atividade, marcando a partida com
toda sua elegância pessoal quando apita. Ele está atento aos
mínimos movimentos, correndo, parando, gesticulando...
270 - Documentação mais aproximada dos jogadores pelo campo
como num balé coletivo. Tudo é ritmo e vida naquele recinto
explosivo.
271 - Documentação mais aproximada ainda nas arquibancadas,
onde todos deliram e gritam com paixão. Focalizar suas
expressões e seus delírios.
272 - Planos aproximados no meio do povo onde estão duas faixas
imensas:
O JUIZ É BICHA!
273 - A partida segue em ritmo normal. A câmera trata de fazer
toda uma documentação ao ritmo da música e dos ruídos próprios.
274 - PG - Travelling. No meio da multidão surge o negro
Calunga, com as vestes exóticas, brincos nas orelhas e um rifle
a tiracolo. Ele caminha no meio do povo como numa aparição.
45
O Anjo Negro
275 - Documentação da partida com o juiz em atividade e a
platéia vibrando.
276 - PAp do negro que continua caminhando no meio do povo.
277 - Mais uma documentação das expressões do povo que continua
vidrado no ritmo normal da partida.
278 - PAp - O negro se aproxima da torre de eletricidade aonde
ficam as lâmpadas enormes que iluminam as partidas noturnas.
Ele começa a subir na torre.
279 - Documentação do povo na platéia que não toma conhecimento
do que está ocorrendo de estranho.
280 - PG - Câmera de baixo. O negro ainda sobre a imensa torre
de refletores. Ele procura posição nas alturas, segurando-se
nas imensas lâmpadas quase do seu tamanho.
281 - De cima da torre a câmera faz uma panorâmica extensiva
sobre o estádio, focalizando a massa em festa, numa fusão de
cores e sons.
282 - PP do negro que procura posição para seu rifle. Ele
começa a mirar para baixo. As luzes dos refletores se acendem e
ele toma um enorme choque.
283 - A platéia dá um pulo de ovação por algum lance que causou
grande emoção.
284 - PP do negro por trás das luzes acesas, apontando o rifle
para baixo e mirando pontaria.
285 - A câmera se transforma no visor do rifle e o ponto
central da pontaria se localiza sobre a cabeça do juiz que se
movimenta em campo enquanto o pontinho da miragem também
acompanha seus movimentos. Soa um estampido bem forte.
286 - PP - Zoom. Há um zunido ensurdecedor. Câmera lenta. O
juiz é alvejado bem na testa. A câmera está por trás da rede da
trave. Ele corre em direção da câmera com o corpo vagando no
espaço. A zoom se aproxima do seu corpo. Há um buraco imenso na
testa do juiz. Entra a sirene bem forte em estado de
emergência. Desfoque.
SEQÜÊNCIA XXII
EXT. DIA
Retorno do flashback. Foca o rosto do juiz.
46
O Anjo Negro
287 - PP do juiz, com o rosto todo quebrado, por trás do vidro
moído do seu carro.
Continua som de ambulância.
288 - PM arrebentado.
Fixo.
O
carro
está
batido
num
poste
e
todo
289 - PM da esposa do juiz, Júlia que se encontra caída do lado
do carro, o rosto sangrando, com uma imensa barriga; está
grávida.
290 - PM - Travelling. O carro da ambulância em disparada.
291 - PM - Travelling. O carro de reportagem de algum jornal,
correndo.
292 - PM - Câmera na mão. Os veículos estacionam no local do
acidente. Um grupo de pessoas curiosas está ao redor. Os
enfermeiros e os jornalistas juntam-se, cada qual, cumprindo
suas missões ao lado dos policiais de trânsito que também
encontram-se no local.
293 - Câmera na mão. Os enfermeiros cobrem o corpo do homem que
está no meio da pista, talvez morto. Por trás, encontra-se o
enorme cavalo branco, empinando.
294 - Câmera na mão. Outros enfermeiros põem os corpos do juiz
e sua esposa em duas macas enquanto os repórteres despejam
luzes dos flashes consecutivos. Os corpos estão postos dentro
da ambulância.
295 - PM - Travelling. A ambulância corre pelo asfalto na maior
arruaça.
SEQÜÊNCIA XXIII
INT. DIA
296 - PM - Dentro do hospital. O corpo de Júlia passa por um
imenso corredor.
297 - PA - O juiz está deitado numa cama móvel ao lado de uma
freira.
Juiz
CADÊ JÚLIA, IRMA?
Freira
TENHA PACIÊNCIA.
O juiz muda de expressão ao ver sua esposa passar no carrinho
dirigindo-se para a mesa de operação. Uma outra freira
aproxima-se do juiz que está impaciente.
47
O Anjo Negro
Juiz
COMO VAI ELA?
Freira
CORRE TUDO BEM, FILHO. DENTRO DE ALGUNS MINUTOS
NASCERÁ A CRIANÇA.
Preto e branco - Viragem em azul.
298 - PM - Do lado da porta da sala de operação surge uma junta
médica com trajes típicos. No meio deles está o negro Calunga,
vestido de médico, com ar diferente, altivo, cabelo um pouco
mais baixo, conversando com os "colegas".
299 - Close-up do juiz que percebe a figura do negro Calunga e
fica alucinado.
Juiz
PRENDAM AQUELE HOMEM. É UM ASSASSINO. UM LOUCO. (Os
enfermeiros agarram o seu corpo que está como um
maluco ) POR FAVOR, NÃO DEIXEM. ELE VAI MATAR MINHA
MULHER, O MEU FILHO. (Os enfermeiros aplicam-lhe
uma injeção a fim de que se acalme ) ELE É UM
LOUCO. MEU DEUS, UM LOUCO. ( Abaixa a voz e começa
a sentir o efeito da injeção. Ele balbucia )
CUIDADO, SENÃO ELE ME MATA TAMBÉM... ( Fecha os
olhos e adormece )
300 - Close-up de Júlia na mesa de operação, suando bastante,
contraindo-se de dores e gritando.
301 - PP - Panorâmica - Câmera de baixo. Os rostos dos médicos
em atividade sobre o corpo da paciente. No meio, está o negro
Calunga liderando a equipe.
302 - Close-up de Júlia que continua banhada de suor, gritando.
Por fim, ela desmaia de tanto sofrimento.
Colorido.
303 - PM - Travelling. O juiz anda sozinho pelo corredor do
hospital. Ele está de pijama. Do outro lado, encontra-se com
outro paciente. Trata-se do seu colega de trabalho, também de
pijama, com um bigodinho e com ar meio de debilóide.
Colega
HOJE ESTÁ UM MOVIMENTO DE LOUCO.
Juiz
E O QUE HOUVE?
Colega
ACHO QUE FOI UMA CRIANÇA... DESAPARECEU...
48
O Anjo Negro
Juiz
O QUE?...
Colega
ASSALTARAM O HOSPITAL!
Antes dele terminar a frase, o juiz corre.
304 - PM - Fixo. O juiz corre num corredor do hospital. Depois
pára numa porta e olha.
305 - PM - Fixo. Dentro do quarto está Júlia deitada. Ao seu
lado, uma freira dorme. Júlia percebe o juiz.
306 - PAp - Fixo. O rosto do juiz que faz sinal de silêncio e
entra nas pontas de pés.
307 - PM - Fixo. O juiz aproxima-se de Júlia que começa a se
levantar. Os dois dão as mãos e se dirigem para a janela. O
juiz sobe primeiro e depois Júlia.
Exterior.
308 - PM - Fixo. Do lado de fora do hospital. O juiz e Júlia
terminam de descer pelo muro. Estão na rua.
309 - PM - Travelling. Os dois correm pelo meio da rua, ambos
em trajes de hospital. A rua está um pouco movimentada... é dia
de carnaval. Uma série de caretas, vestida de diabos, começa a
perseguir o casal.
310 - Entra um frevo clássico. O casal está no meio do
carnaval. Os diabos fantasiados continuam perseguindo-os. Eles
passam pelo meio da multidão em festa. Há um desfile de cores,
ritmo e fantasia. A multidão congrega-se para brincar e uma
explosão alegre. A câmera procura documentar um pouco o
carnaval, principalmente o seu lado fantasioso e endiabrado.
Esta é a festa predileta de Exu.
SEQÜÊNCIA XXIV
EXT/INT. DIA
311 - PG - O juiz e a esposa aparecem cansados no portão de sua
mansão. Eles entram pelo jardim ainda em trajes de hospital.
Está tudo tranqüilo.
312 - PM - Eles dois chegam na porta e empurram. Ninguém abre.
Eles tornam a fazer força para abrir. Estão agoniados.
Júlia
MEU FILHO, POR FAVOR. EU QUERO MEU FILHO.
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O Anjo Negro
Ela diz estas palavras chorando e se espremendo de raiva e
medo.
Juiz
TENHA CALMA, JÚLIA. CALMA.
Ela berra, bate na porta e chora.
313 - PM - A porta abre por si. Os dois mudam de fisionomia.
Ela pára de chorar. Entram devagar no grande casarão.
314 - PG - Travelling. Na grande sala, toda decorada,
barrocamente sofisticada, está toda a família, todos sérios e
com ares estranhos, sem soltarem uma só palavra. Os dois sentem
o ar estranho que os cercam e mudam de expressão.
315 - PP - Travelling. A câmera desliza sobre os rostos sisudos
do Padre, Getúlio, Luanda, Irene, Índio, Carlinhos e outros.
Pelas suas expressões algo de errado está acontecendo ou
aconteceu.
316 - PP - Travelling. O rosto de Júlia, apreensiva, enquanto
anda pelo casarão.
317 PP - Travelling. O rosto do juiz, também com a expressão de
quem não está entendendo nada.
318 - PP - Travelling. O rosto de Júlia, que quebra o silêncio
com muito esforço.
Júlia
CADÊ O NENÉM, JÁ CHEGOU?
319 - PA - Panorâmica. Focaliza o padre que olha crítico,
aproxima-se deles dois. Com água benta ele benze todos dois,
que ficam sem nada entender. Depois se dirige para uma porta do
quarto e abre-a, como num cerimonial.
320 - PP - Travelling. Júlia caminha em direção do quarto, com
a expressão de espanto, misturada com alívio. Seus passos
aumentam.
321 - PM
ficam os
medo de
criança.
frente.
- Os dois entram no quarto grande. A porta se tranca e
dois isolados. Eles olham espantados para trás, com
algum imprevisto. De longe, bem baixinho, chora uma
Os dois se olham e ficam apreensivos. Caminham para
322 - PP dos dois que andam com um certo mistério nos rostos.
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O Anjo Negro
323 - PG - Fixo. Na extremidade do quarto, bem um pouco no
alto, encontra-se um berço, de estrutura colonial. O choro do
bebê aumenta. Eles se aproximam.
324 - PP - Travelling. O rosto de Júlia, que agora anda mais
rápida, e o choro da criança aumenta.
325 - PM - Travelling. Por trás de Júlia a câmera acompanha
seus passos. Já próximos do berço. O choro da criança está bem
alto. Ela chega perto do berço e abre as suas cortinas brancas.
326 - Big Close-up de Júlia, que dá um grito dilacerante de
horror e de ódio.
Entram os atabaques e o som de candomblé.
327 - PD - Fixo. Dentro do berço está uma forte criança, recémnascida, preta, com as perninhas para cima e chorando
fortemente.
São feitos planos curtos.
Exterior.
328 - PG - Panorâmica. A imagem do negro Calunga montada num
cavalo branco, correndo desembestado na beira da praia. Sua
imagem está em silhueta, com um enorme sol amarelo por trás.
329 - PG - Panorâmica. O bode preto ressurge. Tranqüilo. A
sinetinha balançando. Ele passeia pela cidade.
Sobre a película surge a palavra F I M.
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O Anjo Negro
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O Anjo Negro
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Aparecem letreiros coloridos: e uma música leve de Paganini: