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DÚVIDAS QUANTO AOS CUIDADOS EM SAÚDE DE
CUIDADORES POR CRIANÇAS EM RISCO NUTRICIONAL
EM UMA REGIÃO DE VULNERABILIDADE SOCIAL DE
X Salão de Iniciação
Científica PUCRS
PORTO ALEGRE
Carina Andriatta Blume1, Carla Cristina Boni1, Maria Rita Cuervo1, Martine Hagen2, Simone
Canabarro1, Alessandra Campani Pizzato1
1
Faculdade de Enfermagem, Fisioterapia e Nutrição, PUCRS, 2 Universidade Federal de Ciências
da Saúde de Porto Alegre
Introdução
Segundo Barroso, Sichieri e Costa (2008), os dados socioeconômicos, principalmente o
poder aquisitivo e o grau de escolaridade dos membros da família repercutem diretamente nas
condições de saúde da mesma. Estes fatores estão associados ao estado nutricional da família e
são decisivos para a instalação da desnutrição infantil.
Mello, Luft e Meyer (2004) observaram que, além da desnutrição, a obesidade infantil é
um fator de risco para o acometimento de diversas doenças na vida adulta. A obesidade é
denominada como uma epidemia, uma vez que atinge aproximadamente seis milhões de jovens
brasileiros.
Percebe-se, a partir da análise da realidade brasileira, a importância da realização de
atividades de vigilância nutricional que visem instruir os indivíduos para o seu auto-cuidado.
Considerando que estas intervenções devem estar de acordo com as reais necessidades da
comunidade, o objetivo deste trabalho é analisar as dúvidas em relação aos cuidados em saúde
informadas por cuidadores de crianças diagnosticadas com desnutrição e obesidade residentes
em uma região de vulnerabilidade social de Porto Alegre – RS.
Métodos
Foi realizado um estudo descritivo, com abordagem qualitativa, em base de dados
secundária a um estudo de vigilância e educação em saúde intitulado: “Características
Socioculturais das Crianças Desnutridas e Obesas em uma Unidade Básica de Saúde do
Município de Porto Alegre” (XAVIER et al, 2008). A população do presente estudo foi
composta pelos cuidadores destas crianças de 0 a 5 anos, de ambos os sexos, diagnosticadas com
desnutrição ou obesidade, a partir dos índices antropométricos de peso/altura (P/A), peso/idade
(P/I) e altura/idade (A/I). Esses três indicadores foram obtidos comparando-se as informações de
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peso, altura, idade e sexo com as curvas de referência, como a do National Center for Health
Statistics (NCHS). Foram classificados como desnutridas as crianças que apresentaram um dos
índices antropométricos abaixo do percentil 3, e como obesas aquelas acima do percentil 97.
Foi realizada uma busca ativa a domicílio sobre as dúvidas relacionadas à saúde que os
cuidadores gostariam que fossem trabalhadas em oficinas, através do seguinte questionamento:
“Quais as dúvidas que você tem com relação aos cuidados em saúde?”. Responderam a esta
entrevista apenas 32 cuidadores que estavam presentes nos domicílios no período da coleta de
dados que foi de, aproximadamente, 15 dias. Foi realizada uma leitura criteriosa das respostas,
sendo as mesmas analisadas de acordo com a análise de conteúdo de Roque Moraes (1998),
seguindo as seguintes etapas: 1) Preparação das informações; 2) Unitarização do conteúdo; 3)
Categorização das unidades; 4) Descrição e interpretação dos dados.
Foram respeitados os aspectos éticos envolvidos na pesquisa com seres humanos de
acordo com as questões expressas na Resolução 196/96 do CNS – MS. Foi assinado o termo de
confidencialidade e privacidade dos dados.
Resultados e Discussão
A análise das entrevistas obtidas na coleta de dados permitiu a identificação das seguintes
categorias de resultados: 1) Higiene bucal; 2) Vermonises; 3) Anemia; 4) Saúde da Mulher.
1 Higiene bucal
Com relação à higiene bucal, percebeu-se que os problemas bucais são detectados em
estágios muito avançados: “[...] Precisa dentista.... tá com a boca podre [...]”(S28), porém é
fundamental que sejam tratados desde o seu princípio para evitar que o quadro se agrave
(BARDAL et al, 2006)
2 Verminoses
No Brasil, a prevalência de infecções por parasitas intestinais é elevada, especialmente
em populações de baixa renda e em crianças, visto que as condições de saneamento básico,
higiene, moradia e educação são extremamente deficientes (FERREIRA et al, 2006), como se
observa em alguns depoimentos: “[...] a criança estava descalça, com o bico passando em tudo
que era lugar [...]” (S14).
3) Anemia
No presente estudo, as dúvidas mais freqüentes relacionadas à anemia foram associadas
às suas causas, prevenção e tratamento: “[...] anemia como se pega e o que fazer para não
pegar?” (S5) e “[...] o que fazer pra melhorar a anemia?” (S4). A anemia por deficiência de
ferro pode ser causada por inúmeros fatores: 1) Ingestão dietética inadequada; 2) Absorção
inadequada de ferro resultante de diarréia, doença intestinal, gastrite atrófica, interações
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medicamentosas; 3) Aumento das necessidades de ferro durante a lactância, adolescência,
gravidez e lactação; 4) Hemorragia por lesão (TRACY et al 2005).
4) Saúde da Mulher
A partir da necessidade da inserção da mulher, cada vez mais, no mercado de trabalho,
observa-se que um dos maiores obstáculos para as mães de baixa renda é conciliar a profissão, o
trabalho doméstico e o cuidado aos filhos, observada pelos relatos a seguir: “[...] trabalhar se
trabalha, se sustenta... não tem muito tempo para os filhos... falta tempo para observar,
conhecer melhor os filhos. Chega cansada, estressada[...]” (S27) e “Trabalho, chego cansada,
não tem como conversar.” (S19)
Conclusão
A busca ativa das dúvidas que a comunidade tem para ações de saúde é fundamental para
que se possam desenvolver estratégias efetivas de esclarecimento da população. É importante
que o profissional da saúde não fique restrito a seus conhecimentos acadêmicos, pois ações de
educação envolvem a troca de saber científico com o saber popular. A eficácia dos cuidados em
saúde depende, dentre outras etapas, do diagnóstico da população, que envolve o conhecimento
dos indivíduos, considerando a família e o contexto em que insere.
Referências
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crianças residentes em uma área de prevalência elevada de insegurança alimentar. Rev. Bras.
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Revista da Graduação PUCRS. V.1,n.1. 2008
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