O DESAFIO DA HOSPITALIDADE
“A hospitalidade é um sinal de nostalgia e uma
nova moda intelectual”. Alain Montandon
O termo hospitalidade é pleno de ambigüidades. A busca de um entendimento
unívoco do termo, comum às diferentes acepções em que é tomado e que permita o
enunciado de um conceito é, assim, cheia de armadilhas. A epígrafe acima é a
primeira.
Hospitalidade evoca a idéia de algo desejável, mas um tanto fora de moda:
algo como uma atitude positiva em qualquer código ético, mas que, nas prateleiras
do nosso imaginário, parece estar relegada ao lado dos antigos livros de boas
maneiras. Há, assim, sempre um tom nostálgico que perpassa a compreensão do
termo, mas essa nostalgia apenas nos desvela o sentimento de pesar por sua perda.
Assim, mais do que uma realidade observável, hospitalidade soa como algo que se
perdeu. Serve às gerações mais antigas como um signo da decadência das novas
ou do esgarçamento do vínculo social nas grandes cidades, em expressões como,
“hoje os jovens nem sabem conversar” ou “a gente nem mais conhece os vizinhos”.
A HOSPITALIDADE PERDIDA
Essas expressões, já banalizadas, são, no entanto, portadoras de sentido.
Não há como deixar de notar que a sociedade secularizada pós-revolução industrial
não sabe o que fazer com os rituais herdados do passado, em especial com os
rituais da hospitalidade. O que as pessoas talvez não saibam, contudo, é que esse é
um discurso que se repete de geração em geração. Quando Ulisses, em sua penosa
odisséia achegava-se a um novo porto, perguntando se iria ser objeto de
hospitalidade ou de hostilidade, ou quando os anjos bíblicos recompensaram
generosamente Abraão pelo banquete que lhes foi oferecido com a gravidez tardia
de sua mulher Sara, estavam implicitamente afirmando que a hospitalidade já não
era a regra do convívio humano.
Como explicar essa nostalgia? Em algum momento da aventura humana no
planeta, a hospitalidade foi regra?
Se os estudos de paleoetnologia1 permitem alguma ilação, é de se supor que
ao final do paleolítico superior (antes, pois, de 8.000 A.C.) a então reduzida
população da terra, não superior ao milhão de pessoas, já espalhada em pequenos
grupos por todo o espaço do planeta hoje habitado, era marcada pela intensa
expectativa de encontrar, receber e conhecer outros seres humanos, que, ao deixar
de povoar o pequeno universo sociológico então existente, passou a se chamar
hospitalidade.
Que fatos tão importantes teriam acontecido em seguida e promovido tal
desarranjo da percepção que os seres humanos tinham de si mesmos, a ponto de a
palavra hospitalidade ter aparecido simultaneamente, com o seu verso, de mesma
origem etimológica, a hostilidade ?
A explicação mais conhecida é a que permeia a quase totalidade da obra
marxiana: a assertiva do determinismo do meio de produção sobre o modelo de
sociedade e sobre a cultura. Sem dúvida, tal assertiva tem aqui a sua evidência
plena: a passagem do sistema coleta/caça do paleolítico para o sistema
agricultura/pecuária do neolítico traz consigo a divisão social perversa do trabalho, a
exploração do homem pelo homem e o conflito/luta de classes (MARX, 1981).
Os estudos do historiador Leroi-Gourhan (1964-65) e do etologista Konrad
Lorenz (1991) trazem uma reflexão complementar de grande valia para a
compreensão
do
componente
nostálgico
implícito
na
noção
corrente
de
hospitalidade: as necessidades da agricultura e da pecuária durante o neolítico
(entre 8.000 e 3.500 A.C.) multiplicaram 8 vezes a população do planeta; os
pequenos grupos crescendo e transformando-se em cidades, determinando o início
da história da civilização2 nada mais é que a exacerbação desse movimento 3. Tal
como também acontece entre os animais gregários, a disputa pelo território
determina o início da agressão intra-específica, entre seres de uma mesma espécie.
Territorium est terra plus terror, como bem nos lembra Montandon4. Com silos de
cereais e rebanhos a defender, o homem passou a ser lobo do homem.
1
Aqui entendida como o estudo de populações pré-históricas ou mesmo de povos atuais que, no
início do século XX ainda se mantinham no estágio de coleta e caça.
2
Não custa lembrar que civilização vem do latim civis (cidade).
3
É nesse sentido que se deve entender o quase desabafo de Konrad Lorenz: é possível ser hospitaleiro com onze
pessoas; difícil é sê-lo para com 6 bilhões (1991, p. ).
4
Tal como a epígrafe deste artigo, esta lembrança de Montandon está em artigo (Hospitalidade: ontem e hoje) a
ser publicado em nova coletânea organizada pelos docentes do Programa de Mestrado em Hospitalidade da
Universidade Anhembi Morumbi, a ser publicada pela Ed. Pioneira-Thonson.
Nunca saberemos ao certo se as comunidades coletoras e caçadoras foram
efetivamente a representação desse paraíso que se perdeu. Leroi-Gourhan é
incisivo neste ponto de sua reflexão:
De qualquer forma, a nostalgia da solidariedade que se imaginava ter existido
em uma época na qual ninguém acumulava mais do que os seus poucos pertences,
deve ter adoçado as lembranças e fermentado os relatos orais que chegaram aos
primeiros escritores do século VII e VI A.C. (data dos escritos de Homero e Hesíodo
na Grécia e dos primeiros escritos bíblicos). Esses textos falam de uma humanidade
arrogante e insensata que trocou a felicidade (o paraíso) pelo roubo dos segredos
dos deuses (o fogo por Prometeu e do fruto da arvore do conhecimento por Adão) e
que por isso foi castigada com a perda do paraíso5.
A nostalgia da hospitalidade é, pois, também, a nostalgia de uma inocência
perdida6 e, não por acaso, o uso da expressão hospitalidade soa, para muitos, como
algo infantil, próprio de povos e de seres que ainda não contam com a autoconfiança
necessária para enfrentar um mundo doravante hostil. Aqui, também, a ontogênese
repete a filogênese. Da mesma forma, como o mundo foi se tornando desconfiado e
cruel e os povos inventaram instituições e práticas para conviver nesse meio, a
história da vida do indivíduo também é o progressivo abandono da ingenuidade que
em tudo acredita em favor de uma atitude desconfiada e tensa diante do estranho.
(RE)NASCE O TEMA DA HOSPITALIDADE
Por que, então, um termo tão marcado ao longo da história pelo estigma da
nostalgia e da ingenuidade transforma-se hoje em tema de ponta na discussão
filosófica e científica? A resposta parece ser simples, já que nos coloca frente a um
tema intensamente discutido nos dias atuais: as mazelas da globalização.
Em primeiro lugar, as migrações humanas continuam até nossos dias a ser a
única alternativa de populações que enfrentam seja a violência de tribos e vizinhos
mais fortes, como ocorre na África, ou que enfrentam o caos econômico e a miséria,
como é o caso de todas as sociedades atuais que não se enquadram no figurino de
sociedade desenvolvida ou que conhecem regressão econômica acentuada e que
5
A “experiência total” que os resorts hoje buscam oferecer não seria também uma expressão dessa nostalgia?
E impossível de ser recuperada, se examinarmos a situação das nossas tribos indígenas, após o contato com a
civilização.
6
emigram, internamente para províncias mais ricas, ou externamente para países
mais ricos. Para citar apenas exemplos de vizinhos, a população paraguaia em
diáspora é superior à população autóctone; e, na Argentina já do início da década de
80, quando a crise econômica atual apenas se desenhava, a terceira província mais
populosa do país era a população em diáspora. A mídia, uma das pontas de lança
da globalização, acentua o fenômeno nos dias atuais.
Mesmo o Brasil, que ao longo do século XX, teve seu crescimento
populacional intensificado por emigrações de países europeus e asiáticos hoje
conhece o estranho fenômeno do regresso (ou ao menos da conquista da dupla
nacionalidade) por descendentes desses emigrantes. O passaporte dos países de
origem dos avós, hoje desenvolvidos, representa a perspectiva de uma vida melhor
ou, ao menos, um seguro de vida contra os percalços de um futuro que assoma tão
instável.
Em segundo lugar, a preocupação com a progressiva homogeneização de
hábitos e costumes, com o conseqüente esvaziamento dos rituais que regem o
vínculo social e marcam a identidade dos povos. Diga-se que a mídia desempenha
um papel bastante relevante neste processo e no processo envolvido no movimento
contrário de reação. Assim, temas como a hospitalidade, a conversação (BURKE,
1995; MILLON, 1999; ZELDIN, 2001) e a comunicação interpessoal, a identidade
cultural, a tradição e os rituais (HOBSBAUN & RANGER, 1984) ganham nova
atualidade e interesse.
Neste caso, a hospitalidade transforma-se em tema da filosofia (a ética da
hospitalidade incondicional dos filósofos franceses Emmanuel Levinas e seu
discípulo Jacques Derrida), da sociologia (Anne Gotman [2001]), da Ecole de Hautes
Etudes em Sciences Sociales de Paris) ou de estudos de semiologia e análise
literária (equipe de Alain Montandon, em Clermond-Ferrand). A hospitalidade é
também o mote da revisão e da recuperação da importância dos estudos de Marcel
Mauss (Revue du Mauss, dirigida por Alain Caillé), em especial do seu clássico
Ensaio sobre a dádiva e dom (1974), que, de uma forma quase unânime, constitui o
texto fundador da teoria da hospitalidade, como será explicitado adiante.
Uma outra vertente do interesse moderno pelo estudo da hospitalidade, de
natureza completamente diferente da anterior, é a das migrações turísticas,
fenômeno que vem se intensificando desde meados do século XIX, e que, com o
desenvolvimento dos transportes, são vistas atualmente, de forma triunfalista, como
a indústria do século XXI, das populações que viajam por prazer.
Pessoas
que
viajam
necessitam
de
acolhimento,
envolvimento
e
a
hospitalidade torna-se um tema caro à economia moderna, na proporção direta do
que as pessoas consomem e gastam nessas migrações lúdicas. Não é, por acaso,
assim,
que
nos
EUA,
por
exemplo, o termo hospitalidade hoje remeta
exclusivamente a instituições, empresas e pessoas envolvidas na emissão e
recepção dessas migrações.
ESCOLAS DE PESQUISA DA HOSPITALIDADE
Com isso, temos desenhadas duas escolas de estudo da hospitalidade:
•
a francesa, que se interessa apenas pela hospitalidade doméstica e pela
hospitalidade pública e que têm na matriz maussiana do dar-receber-retribuir a
sua base, ignorando a hospitalidade comercial;
•
e a americana, que passa ao largo dessa matriz e para a qual tudo se passa
como se da antiga hospitalidade restasse apenas a sua atual versão comercial,
baseada no contrato e na troca estabelecidos por agências operadoras,
transportadoras e de viagens e por hotéis e restaurantes7.
Seria o caso de aceitar esse conflito teórico como natural e comodamente
isolar o estudo da hospitalidade moderna da contribuição maussiana, como fazem os
americanos, ou, inversamente, sob a perspectiva francesa, simplesmente deixar de
considerar hotéis e restaurantes como espaços de hospitalidade ? Devemos aceitar
que a pesquisa sobre hotelaria, turismo, gastronomia, eventos, etc, limite-se aos
meros procedimentos e rotinas administrativas e continue ausente de uma
perspectiva mais crítica ? Será que não seria mais rico para hotéis e restaurantes
passarem a pensar suas práticas como portadoras da mais nobre das missões, de
espaço privilegiado para a prática das tradições da hospitalidade, e tentar ir além
desse impasse teórico?
Para tentar superar esse impasse, surgiram duas iniciativas quase
simultâneas: de um lado, o conjunto de autores ingleses reunidos na publicação de
7
O livro de Chon & Sparrowe (Hospitalidade: conceitos e aplicações, Thomson, 2003) é exemplar
desta escola.
Lashley & Morrison (2.000)8; de outro, o Programa de Mestrado em Hospitalidade
criado pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo 9. Ambas as iniciativas,
ainda que motivadas pelas temáticas do turismo e da hotelaria, tentam integrá-las
dentro da matriz maussiana.
ESTABELECENDO PONTES
Por que franceses e americanos colocam-se em oposições tão opostas? A
razão estaria no mesmo mundo dos negócios que tanto atrai os americanos e
repugna aos franceses? Será que os franceses, dentro da sua tradição de pesquisa
fortemente marcada pelos mesmos ideais da sua Revolução, experimentam algum
constrangimento diante da idéia de considerar que os pobres emigrantes fazem
parte de uma problemática semelhante à dos ricos turistas? Será que os
americanos, dentro do seu pragmatismo, simplesmente relegaram ao esquecimento
a hospitalidade não monetizável das casas, das cidades e países?
É, então, necessário estabelecer pontes. Mas seria isso possível? O espectro
da discussão ideológica faz-se aqui presente e é capaz de minar qualquer esforço.
Mais do que nunca deve-se observar que negar as pontes é tão revelador de uma
postura ideológica – ao menos antes de um observação sistemática de fatos –
quanto tentar artificialmente criá-las.
As hipóteses subjacentes às mencionadas iniciativas inglesa e brasileira
tentam dar conta deste desafio e podem ser assim formuladas:
•
tanto a hospitalidade comercial como a hospitalidade pública nutrem-se da
mesma matriz, a hospitalidade doméstica;
•
a inospitalidade tão característica da sociedade moderna e que vitima tanto os
migrantes pode ser lida como uma falta de “hospitabilidade”10, de capacidade de
hospitalidade tanto de anfitriões como de hóspedes;
•
o comércio moderno da hospitalidade humana efetivamente abole o sacrifício
implícito na dádiva, ao trocar serviços por dinheiro, mas a hospitalidade sempre
foi atributo de pessoas e de espaços, e não, de empresas; a observação deve,
8
Esta obra já foi traduzida para o nosso idioma e está no prelo da Ed. Manole, devendo ser publicada
ainda em 2.003.
9
Já existe uma coletânea publicada de artigos dos docentes do programa (Dias, 2002).
pois, dirigir-se para o que acontece além da troca combinada, além do valor
monetizável de um serviço prestado, para o que as pessoas e os espaços
proporcionam além do contrato estabelecido. Nesse campo, permanecem vivas a
hospitalidade (e, por que não lembrar também?) a hostilidade humanas.
A TEORIA DA HOSPITALIDADE
Dar, receber e retribuir. Esse tríplice dever que Mauss descobriu no seio da
socialidade (do núcleo central do social) nas sociedades arcaicas responde a uma
dupla questão:
a) qual é a regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo atrasado ou
arcaico, faz com que o presente seja obrigatoriamente retribuído?
b) que força há na coisa dada que faz com que o donatário a retribua?
Dos próprios fatos observados por Mauss, ressalta uma noção de
hospitalidade que começa como uma dádiva e que não se limita à dinâmica das
sociedades arcaicas. Ao contrário, essas leis não escritas da hospitalidade
continuam a se exprimir com toda a sua força na hospitalidade doméstica atual:
convidar alguém para ir à sua casa, oferecer abrigo e comida a alguém em
necessidade. No caso, a dádiva sempre desencadeia o processo de hospitalidade,
seja ou não precedida de um pedido de ajuda.
O que é dádiva? Comecemos com a definição sociológica de dádiva proposta
por Caillé (2002, p.142): “toda prestação de serviços ou de bens efetuada sem
garantia de retribuição, com o intuito de criar, manter ou reconstituir o vínculo social”.
Como diretor da Revue du Mauss, Caillé avança, com sua definição, um elemento
essencial da noção de dádiva (e de hospitalidade): mais do que portadora de signo,
a dádiva é um signo. Mais do que o dom, a dádiva, o que importa é o vínculo social
(a ser) criado. Dar é sacrificar algo que se tem em nome de algo, notadamente no
plano ético. O sacrifício é, pois, um componente essencial da hospitalidade. Mas
isso não é tão fácil de entender. A dádiva acontece por princípios “nobres” como a
ajuda ao próximo em necessidade, um sentimento religioso ou simplesmente
filantrópico. Mas, mesmo nesses casos, essa ação de dar é plena de ambigüidades
10
Termo cunhado por Lashey & Morrison (2000, cap.3), estabelecendo uma distinção entre o indivíduo
hospitaleiro (que gosta de receber, mas não tem essa “hospitabilidade”, essa qualidade da hospitalidade) e o
anfitrião, dotado dessa hospitabilidade.
ao longo de diferentes eixos: utilidade-gratuidade, interesse-desinteresse, saberdesconhecer as leis subseqüentes de receber e retribuir. Quem dá algo sempre tem
algum interesse. É a “finalidade sem fim” de que fala Kant (1994) ou o “altruísmo
interessado” de que fala Caillé (Ibidem, cap. IV), para quem o grande equívoco das
religiões e desespero de teólogos é buscar a dádiva sem interesse.
Essa lei-não-escrita da dádiva não abole o interesse, apenas exige que ele
não se instrumentalize sob a forma de um negócio que se quer fechar, ou
simplesmente a troca do que se oferece por um outro bem, principalmente o
dinheiro. Não abole igualmente a perspectiva de uma retribuição futura, apenas
exige que se aja como se a retribuição não fosse necessária. “Que gentil de ter
lembrado!”. Quem não recorda esse dito tão pleno de sentido de uma dona-de-casa
que nos convida ao receber as flores com que a regalamos?
O dom deve ser recebido, aceito. Recusar um presente, uma honraria, uma
lembrança é algo que ainda soa insultuoso mesmo em nossos dias. E esse ato de
receber não é tão simples. Porém, receber algo de presente resulta na consciência
de uma situação clara de desvantagem. Quem recebe a dádiva deve manifestar
alegria mesmo sentindo que assume um débito para com aquele que doou. O
donatário fica à mercê do doador. A única forma de livrar-se desse débito é...
retribuir.
Retribuir é reinstaurar o dom, a dávida. É re-instaurar o sacrifício, criar uma
nova dádiva e colocar em marcha esse processo sem fim que alimenta o vínculo
humano. Nesse sentido, a hospitalidade assume sua face mais nobre na moral
humana, a de costurar, sedimentar e vivificar o tecido social.
NA HOSPITALIDADE DOMÉSTICA
Essa
dinâmica
acontece
na
hospitalidade
doméstica,
marcada
pela
socialidade primária, feita de intimidade, de aconchego (ao menos se já não
abolimos, em nossas vidas, esse cuidado ancestral de reservar a intimidade do lar
às pessoas com quem também desfrutamos de intimidade). Pode-se mesmo dizer
que a hospitalidade doméstica é a matriz e o espaço de preservação dos rituais
legados pela tradição, tanto na forma de recepcionar, como de hospedar, de
alimentar e de entreter.
E o que acontece nas situações regidas por todo tipo de socialidade
secundária, baseada em crachás (você é o prestador do serviço, eu sou cliente),
seja ou não esse vínculo permeado por uma retribuição financeira?
NA HOSPITALIDADE COMERCIAL
Quando alguém compra um pacote de viagem, efetua uma reserva num hotel,
quando o aluno procura o setor de atendimento de sua escola, ele entende que tudo
está pago com seu dinheiro, com seu cartão de crédito ou com seus impostos (no
caso de serviços públicos). Receber um serviço condizente com o preço pago é
condição de cliente e não de hóspede. A sua relação é vigiada pelo Código de
Defesa do Consumidor e não pela lei-não-escrita da dádiva.
Retribuir, no caso, precede o receber e interrompe o vínculo. Um contrato se
finda, se extingue simplesmente, e todos os contratos esmeram-se em deixar claro
esse momento. Não há sacrifício. Há troca, simplesmente. Não tenho porque
agradecer o belo quarto de hotel, a piscina, a sauna, a boa refeição se todos esses
itens já constituíam a minha expectativa de consumidor que já pagou o que já estava
dentro da expectativa ou vai pagar adicionalmente algo pelo que acontece a mais.
Isto significa que não existe hospitalidade nem sacrifício se existe o contrato?
Então, por que, assim mesmo, tantas vezes fazemos questão de agradecer ao
recepcionista, ao guia, às vezes até mesmo com lágrimas? Por que escrevemos
cartas de agradecimento, elogiamos funcionários para suas chefias? Se tudo se
resume a um contrato, por que pessoas mundanas (e, também, registre-se, pessoas
não-mundanas) fazem questão de um relacionamento pessoal com o “maitre” (até
mesmo, qual é o significado sociológico da metria?), com o “chef” de uma cozinha?
Por que, ao final de uma refeição, fazemos questão de convidar esse “chef” à nossa
mesa para agradecer a excelência dos pratos, mesmo sabendo que esse “chef” não
sabia que os estava preparando para nós?
Se não se acredita na hospitalidade comercial ou se não a consideramos
hospitalidade (já que abole o sacrifício), devemos utilizar outras reflexões e fatos
obscuros e que parece se querer deixarem na obscuridade
como pontos de
questionamento. É o momento de recolocar nosso ponto de vista inicial e que
permanece como hipótese, não obstante tenhamos certeza que estudos empíricos
encontrem à farta evidências do fato: na hospitalidade comercial, a hospitalidade
propriamente dita acontece após o contrato, sendo que esse após deve ser
entendido como “para além do” ou “tudo que se faz além do...” contrato.
Recoloquemos o problema na forma da hipótese enunciada por Caillé
(ibidem, p.148): “(a tríplice obrigação) continua agindo vigorosamente até no seio da
socialidade
secundária.
Nenhuma
empresa,
privada
ou
pública,
nenhum
emprendimento científico poderia funcionar se não mobilizasse em benefício próprio
as redes de primariedade cimentadas pela lei do dom”.
Dessa forma, explica-se por que não podemos deixar de agradecer a dádiva
de uma camareira que cuida ela própria de uma peça de nosso vestuário, além do
horário de recepção dessas peças, ou que “sacrifica” uma parte de seu tempo de
lazer em hora-extra que não será remunerada pelo seu contrato pessoal com o
empregador e nem sabe se será retribuída por nós. Como deixar de emocionar-se
com o recepcionista que ao saber de um acidente com um membro de nossa
comitiva, ao invés de burocraticamente nos dar o número de telefone e da polícia,
mostra-se humanamente solidário conosco, deixando suas tarefas rotineiras para
fazer ou para conseguir alguém que nos auxilie? Como deixar de reconhecer que,
nunca somos tão frágeis como quando em território estranho, e que essa “compaixão” para conosco é a marca da solidariedade humana e não pode ser prevista
em nenhum contrato? É tão estranho, assim, ao menos imaginar que aquela refeição
estava tão ansiosamente aguardada, que o resultado final somente pode ser
resultado do fato de o “chef” ter adivinhado a nossa presença e a nossa expectativa?
Será estranho agradecer a um “maitre” que percebe a nossa enrascada ao saber
que não existe mesa e que esse fato pode abortar o nosso sonhado e planejado
encontro romântico?
A resposta parece ser óbvia. Esses gestos trazem o reconhecimento à
hospitalidade, à dádiva de que recebemos, mesmo sabendo que essas pessoas,
dentro da boa norma do “dar”, subentendem a expectativa da retribuição da dádiva
aceita, seja sob a forma de um cumprimento, de um elogio ao chefe, do registro
enfático da dádiva “desinteressada” recebida na ficha de avaliação que tantas vezes
preenchemos no momento do “check-out”.
Quando
há
dinheiro
ou
objeto
material
envolvido
no
processo,
o
constrangimento do pesquisador é grande. Mas, no caso, uma reflexão sobre o
gesto pode ser esclarecedora. Analisemos o caso da gorjeta ou ao menos de
algumas gorjetas (naturalmente devemos retirar, para efeito da discussão, o gesto
tragicômico do empregado que estende a mão como que afirmando que quer a
retribuição em dinheiro). Recebemos o serviço, gratificamos (não faríamos o mesmo
se a dádiva tivesse partido do proprietário ou da proprietária do hotel ou
restaurante), mas o processo de dar-receber-retribuir continua em marcha. Essa
dádiva/retribuição torna o receptor que a aceitou imediatamente disponível para
retribuir.
NA HOSPITALIDADE PÚBLICA
Quando recebemos em nossas casas ou quando, como funcionários de um
hotel, efetuamos o “check-in” de um hóspede, nem sempre temos consciência de
que o espaço real da hospitalidade não é a nossa casa ou o hotel e sim a cidade.
Por melhor que seja a nossa hospitalidade doméstica ou os cuidados com que um
hotel cerca o hóspede, seu interesse está na cidade que recebe. Se o visitante não
apreciar a cidade, ele não voltará nem para nossa casa nem para nosso hotel.
Dessa forma, a hospitalidade doméstica e a hospitalidade comercial são espaços
preliminares ao verdadeiro espaço da hospitalidade, que é a cidade.
Se os nossos hoteleiros são hoje os maiores incentivadores das políticas de
eventos e se um evento é uma justificativa adequada para o convite a que um amigo
nos venha visitar é porque ao menos implicitamente aceitamos tal assertiva.
É no espaço público que a hospitalidade assume sua dimensão política, com
imensos
desafios,
sobretudo
os
relativos
aos movimentos migratórios. A
hospitalidade pública mediada pelo interesse econômico causa aqui os maiores
estragos. Habitualmente, cidades e países admitem e incentivam a visita de pessoas
capazes de gastar ou de produzir riquezas. E quando assume claramente o intuito
de selecionar públicos de seu interesse econômico, mostra a sua face mais
perversa. Neste domínio, a crítica inflamada e contundente de Derrida (1999) e seu
brado por uma hospitalidade incondicional assumem toda a sua atualidade e
importância.
É importante acrescentar, contudo, que, mesmo no domínio econômico, tal
lógica é estúpida. Um jovem mochileiro que se contenta com o banco de uma
estação rodoviária para dormir, no futuro certamente efetuará um balanço de suas
experiências de hospitalidade antes de decidir o destino no qual gastará o dinheiro
que já possui. E os próprios EUA são o exemplo de um país que se construiu com os
braços de migrantes que chegaram carregados com os poucos e únicos pertences
de que dispunham e que aos poucos construíram a sua vida e do país que os
acolheu.
E,
em
qualquer
circunstância,
pesará
fortemente
o
balanço
hospitalidade/hostilidade.
A HOSTILIDADE
A hostilidade é a outra face da hospitalidade. Afinal, lembra Caillé, ir ao
encontro de alguém era uma expressão contida no termo latino “ad-gredior” da qual
resultou o nosso termo agressão. Mas o ritual da hospitalidade já é, em si, um
antídoto contra a hostilidade, o que se pode traduzir singelamente no sorriso de
acolhimento com o qual desarmamos alguém com semblante pouco amigo a quem
nos dirigimos.
O sentido antropológico da etiqueta enquanto ritual de minimização da
agressividade humana pode ser aqui sentido em toda a extensão. Estar à altura
dessas situações exige o domínio do ritual social. A boa etiqueta (retiremos destas
reflexões a noção de etiqueta enquanto fórmula de alpinismo social ou de denotar
uma condição social superior, presente em tantos manuais) proporciona às pessoas
hospitaleiras e dotadas de “hospitabilidade”, a capacidade de manter o vínculo
social. Mas, pode-se dizer também que, no plano doméstico, a hospitalidade é mais
fator de cimento do que de esgarçamento do tecido social.
Já na sociabilidade secundária da hospitalidade comercial as coisas se
passam de forma bem diferente. As situações de hostilidade e agressão se
multiplicam. Nenhum indivíduo está tão à beira de um colapso nervoso e de
descarga agressiva de sentimentos como o hóspede que chega de uma longa
viagem e não encontra o receptivo de sua operadora ou que chega com as malas à
recepção de um hotel e percebe o embaraço do recepcionista a procurar onde está
a sua reserva.
Mas as situações de hostilidade não se resumem a esse plano de contatos
individuais. Hoje, habitantes de cidades e estações de veraneio mais procuradas
não escondem sua aversão por esse turista que engarrafa o trânsito, consome à
exaustão reservas precárias de infra-estrutura de água, energia, tratamento de lixo e
esgoto, causa congestionamentos monstruosos de trânsito, provoca aumentos nos
preços de bens e serviços.
Existe hábito tão detestável do ponto de vista da hospitalidade ou tão hostil
como aquele, presente em locais de grande demanda turística, de segregar e
carregar de preconceitos os lugares “feitos para turistas”, nos quais tudo o que se vê
é “fake” e custa o dobro do preço ? Quando, em país estranho, conseguimos superar
as barreiras ou lacunas da hospitalidade comercial e conseguimos adentrar a
hospitalidade doméstica de alguns desses lugares e ouvimos o famoso “vamos leválo a um endereço que não é divulgado para turistas, onde se come bem e se paga o
preço adequado” sentimos o carinho do gesto, mas ao mesmo tempo não
deveríamos perguntar-nos o que acontece, aconteceu e acontecerá conosco nos
lugares nos quais não temos acesso à instância doméstica da hospitalidade ?
O que se quer demonstrar aqui é que tanto o não-cumprimento das cláusulas
de um contrato, como a falta de previsão da carga turística suportável desconhecem
e violam as leis-não-escritas da hospitalidade, mais do que as leis escritas de defesa
do consumidor. Em outras palavras: qualquer quebra de contrato é fonte de
agressividade, mas a quebra de um contrato em situação de hospitalidade parece
agredir-nos mais ainda. Da mesma forma que a hospitalidade começa após
cumprido o contrato comercial, a quebra desse contrato fere-nos ainda mais. Uma
das hipóteses é que (isso certamente seria comprovado em estudos empíricos),
nunca somos tão frágeis como em terra estranha. Se somos mais ricos, em situação
turística, do que no habitual do nosso cotidiano, é porque em terras estranhas,
somente o dinheiro pode nos salvar em emergências. Dito de outra forma:
confiamos/desconfiando do contrato comercial, mas nada nos leva acreditar na
hospitalidade. Além do mais, como está fartamente estudado em pesquisas
realizadas, não se vende uma viagem, vende-se um sonho. Uma quebra de contrato
pode ser contornada. Mas um sonho quebrado parece perdido para sempre.
PARA PENSAR
Estas reflexões projetam muitos desafios. Em primeiro lugar, a lembrança
basilar: hospitalidade é interação entre seres humanos com seres humanos em
tempos e espaços planejados para essa interação. Tudo se passa, como se a
mesma camareira mencionada anteriormente nos dissesse o seguinte: “a sua roupa
não pode ser levada, limpa e passada, porque o contrato que você assinou com
minha empresa prevê que essa roupa seja entregue até um prazo que já se esgotou;
mas, como pessoa humana, entendo a sua necessidade e vou, pessoalmente e por
minha conta, oferecer esse gesto de hospitalidade”.
Daí decorre que a preparação de pessoas para a hospitalidade é o primeiro
desafio. O atual planejamento turístico, que, na realidade, é um planejamento da
hospitalidade, deve estar atento a muitas rubricas desse desafio: cursos variados
para profissionais do setor, para motoristas de táxi, montagem de estandes de
orientação e mesmo de polícia turística, conscientização nas escolas, formação de
gerentes, de profissionais de hospedagem e restauração.
Mas há ainda um longo caminho até que esses currículos sejam menos
carregados de procedimentos e mais de conscientização sobre a “hospitabilidade”.
Se aceitas as reflexões acima, o passo seguinte será certamente o repensar dos
nossos programas de formação, nos diversos níveis, de profissionais do turismo, da
hotelaria, de eventos, de lazer, de gastronomia, incluindo não apenas aulas como
oficinas de vivência nos diferentes domínios, tanto os espaços (doméstico, público,
comercial e virtual), como os tempos (receber, hospedar, alimentar e entreter) da
hospitalidade.
Hoje, nuvens negras rondam o universo do turismo. Companhias aéreas
bradam por uma reengenharia do setor, hotéis e restaurantes antes lotados têm
altas margens de ociosidade. Os motivos arrolados são os epidérmicos: terrorismo,
guerra, violência, epidemias, falta de confiança na tecnologia de transportes (como
já perguntou alguém, como ter segurança em aviões construídos com peças sempre
compradas pelo menor preço ?). Esses problemas existem e fazem parte do que se
chama de forte sensibilidade do fluxo turístico.
Não é desses problemas que se quer falar aqui. Essas conjunturas vêm e
vão. De qualquer forma mostram como são inoportunas as reflexões triunfalistas
sobre o turismo (“a indústria que mais cresce no mundo”, “a indústria do novo
milênio”) até que se ataque a verdadeira doença do turismo que é a inospitalidade,
na raiz de todas as manifestações que vimos acima sobre hostilidade. Como você
será recebido? É uma pergunta que hoje o turista se faz com muito mais ênfase do
que fazia há 30 anos atrás. Essa consciência sutil hoje se instaura nas mentes, com
visibilidade cada vez maior do que a qualidade final da viagem. É mais importante do
que o simples registro mundano da viagem para amigos e parentes.
Outra questão: até quando vamos pensar apenas nos que viajam sem pensar
também sobre os que recebem? É justo colocar todo o ônus do crescimento
econômico advindo do turismo nas costas da população residente? Quando vamos
pensar
nas
patologias
de
cidades
e
condomínios
de
veraneio
que
esquizofrenicamente se agitam em algumas datas para se transformarem em locais
fantasmas na maior parte do ano ? Quando a sociedade, finalmente confrontada à
escassez, vai se insurgir contra tal dilapidação de recursos ? Como valorizar a
identidade local, se os moradores se sentem às vezes agredidos pelo
comportamento de visitantes que não foram convidados ? Como despejar numa
localidade uma horda turística em número já registrado até dez vezes superior ao da
população residente ?
O estudo moderno da hospitalidade não pode, pois, ignorar esse campo do
comércio da hospitalidade. E, reciprocamente, talvez esteja aí o segredo desse abrete-sésamo tão buscado pelo turismo moderno – a tão decantada qualidade ou
diferencial de serviços, a responsabilidade social ou qualquer outro termo que a
moda mercadológica invente para incentivar a melhoria dos serviços comerciais de
hospitalidade. O próprio deslizamento do termo hospitalidade ao longo deste
parágrafo já mostra o nosso ponto de vista central: existe, sim, o exercício e o
estudo da hospitalidade em serviços do turismo receptivo comercial.
Os estudos da hospitalidade querem e precisam resgatar, sobretudo dentro
da hospitalidade comercial, as verdadeiras virtudes da hospitalidade, com todos os
desafios que esta diretriz implica, quais sejam: repensar as cargas turísticas,
repensar os receptivos locais, repensar a formação do pessoal envolvido e,
resumidamente, auxiliar as comunidades a pensar um estilo de hospitalidade e
educar os turistas para a “hospitabilidade”.
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MONTANDON, Alain. Hospitalidade: ontem e hoje. Conferência realizada na
Univ.Anhembi Morumbi, São Paulo, em nov/2002, que deve constar de coletânea de
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