Universidade Federal da Paraíba
Centro de Ciências Humanas Letras e Artes
Departamento de Letras Estrangeiras Modernas
Licenciatura Plena em Letras – Habilitação em Língua Inglesa
SUICÍDIO EM AS HORAS:
Um mergulho e um voo libertário, através de Bachelard.
Rhilbert Oliveira de Souza
Orientadora: Profª. Drª. Ana Adelaide Peixoto Tavares
João Pessoa – PB
Março de 2014
RHILBERT OLIVEIRA DE SOUZA
SUICÍDIO EM AS HORAS:
Um mergulho e um voo libertário, através de Bachelard.
Trabalho apresentado ao Curso de Graduação de
Licenciatura em Letras – Inglês, do Centro de Ciências
Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da
Paraíba/ UFPB, como requesito final para obtenção do
grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua
Inglesa.
Orientadora: Profª. Drª. Ana Adelaide Peixoto Tavares
João Pessoa – PB
Março de 2014
2
S729s
Souza, Rhilbert Oliveira de.
Suicídio em As Horas: um mergulho e um voo libertário,
através de Bachelard / Rhilbert Oliveira de Souza.-- João
Pessoa, 2014.
36f.
Orientadora: Ana Adelaide Peixoto Tavares
Trabalho de Conclusão de Curso - TCC (Graduação) –
UFPB/CCHL
1. Daldry, Stephen, 1960- (As Horas) - crítica e
interpretação. 2. Literatura e cinema. 3. Adaptação fílmica.
4.Tragédia e drama. 5. Suicídio. 6. Libertário.
UFPB/BC
CDU: 82:791.43(043.2)
UFPB/BC
CDU: 82:791.43(043.2)
3
RHILBERT OLIVEIRA DE SOUZA
SUICÍDIO EM AS HORAS:
Um mergulho e um voo libertário, através de Bachelard.
Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da
Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em
Língua Inglesa.
Data de aprovação: _11_/_03_/_2014_
Banca examinadora
4
“Dearest... Sinto com certeza que voltarei a enlouquecer.
Sinto que não poderemos passar por mais momentos
difíceis. (...) Você tem sido tão paciente comigo... e
incrivelmente bom. (...) Não creio que duas pessoas
poderiam ser mais felizes do que fomos.”
(Virginia Woolf, As Horas)
“Mrs. Dalloway, é você. Eu fiquei vivo por você. Mas
agora você deve deixar que eu vá. (...) Você tem sido tão
boa comigo, Clarissa. I love you. Não creio que duas
pessoas poderiam ser mais felizes do que fomos.”
(Richard, As Horas)
5
AGRADECIMENTOS:
Olá todos vocês! É um prazer enorme estar aqui hoje! São muitas as pessoas para
agradecer e eu espero conseguir fazê-lo antes que as luzes se acendam; a musiquinha
comece a tocar; os créditos comecem a subir e as pessoas se levantem de suas poltronas!
Todo agradecido sou e estou aos cúmplices desse caminho que desembocou na feitura
deste trabalho. Quero, portanto, agradecer a todos que participaram durante todo meu
percurso até aqui, com suas variadas formas, principalmente aqueles que pude
compartilhar algumas emoções. Singelo ou não, o ato de agradecer, faz a gente
alvorecer!
Motivos da gratidão...
A minha professora e orientadora Ana Adelaide Peixoto, por acreditar na minha leitura
de As Horas e que com a liberdade sincera de sua sensibilidade lapidada, moldou
comigo os rumos internos deste trabalho. Ana, você é singular e arrebatadora!
A minha professora Maria Luiza Teixeira, por ter me apresentado o célebre escritor
americano Edgar Allan Poe, que se tornou meu escritor favorito.
A minha família, em especial a minha mãe, que apesar de sempre escutá-la dizendo:
“mas meu filho, escolheu ser professor...” se orgulha de mim por tudo que sou e faço.
As minhas amigas, Amanda Nascimento, Dayanna Lins, Nádia Vicente e Maria Ellem
por todo aquele turbilhão de emoção vivido até hoje; por todos os brindes que até hoje
não lembramos ao certo o que foram, e por toda força que não me deixou desistir dos
meus sonhos.
A minha amiga Thalita Rodrigues por partilhar não só da mesma orientadora, mas os
momentos de alegria e desespero durante os encontros de orientação; e meu amigo
Jefferson Batista, pelo carinho e paciência durante as várias leituras deste trabalho.
A todos os meus amigos do curso de Letras; aos meus amigos de trabalho da Codisma e
aos meus alunos. Sou grato a todos vocês por transformarem meus dias, cada um com
seu jeitinho. A vocês, um grande Abreijo!
A cumplicidade de Michael Cunninghan e Stephen Daldry que resultou nessa magnífica
obra, o objeto de estudo deste trabalho.
6
RESUMO
O filme As Horas (Stephen Daldry), baseado no romance de mesmo titulo, de Michael
Cunningham, mostra uma adaptação moderna de criação artística em que, além da
fidelidade texto-imagem, o diretor transpõe uma linguagem diferente àquele efeito. O
objetivo dessa pesquisa é analisar o filme As Horas, tendo como foco os suicídios dos
personagens Virginia Woolf e Richard; suicídios esses que possibilitam uma leitura
poética. Como parte desse processo de leitura poética, foi preciso traçar os motivos que
levam os personagens a tirarem suas próprias vidas: inadequação, melancolia, doença e
sentimentos de incompletude. Assim, o presente trabalho propõe-se a ler o suicido não
apenas como um ato trágico, mas sim como um escape de uma vida angustiada através
de um mergulho ou voo libertário.
Palavras chaves: As Horas, Virginia, Richard, suicídio, libertário.
7
ABSTRACT
The film The Hours (Stephen Daldry), based on the novel of the same title by Michael
Cunningham, shows a modern adaptation of artistic creation in which, besides the textimage fidelity, the director implements a different language to that effect. The aim of
this research is to analyze the movie The Hours, focused on the characters' suicides
Virginia Woolf and Richard; these suicides that enable a poetic reading. As part of this
poetic reading process, it was necessary to outline the reasons why the characters put an
end
in
their
own
lives:
inadequacy,
sadness,
sickness
and
feelings
of
unaccomplishments. Thus, the present work proposes to read the suicide not just as a
tragic act, but as an escape from a tormented life through a libertarian plunge or flight.
Key words: The Hours, Mrs. Dalloway, Virginia, Richard, suicide, plunge, flying.
8
Sumário
INTRODUÇÃO .......................................................................................... 10
CAPÍTULO 1 – UM DIÁLOGO DE INTERDEPENDÊNCIA EM AS
HORAS. ....................................................................................................... 12
1.1 - AS HORAS: Uma vida inteira em um único dia... ............................. 12
1.2 – MRS. DALLOWAY: A PALAVRA NÃO CURA... REATIVA A
FERIDA! ..................................................................................................... 15
1.3 – “VIDAS COLADAS”: Mr e Mrs Woolf – Clarissa e Richard. ......... 17
CAPÍTULO 2 – SUICÍDIO: “...The most poetical topic in the World”..... 20
2.1 – SUICÍDIO: Conceitos. ....................................................................... 20
2.2 – BACHELARD E A POÉTICA DAS ÁGUAS: Peixe – Mergulho –
Woolf. .......................................................................................................... 24
2.3 – BACHELARD E A POÉTICA DO AR: Pássaro – voo – Richard ... 28
CAPÍTULO 3 – ALQUÉM TEM QUE VIVER: Outra perspectiva da
morte. ........................................................................................................... 31
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................... 34
REFERÊNCIAS .......................................................................................... 36
9
INTRODUÇÃO
“Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final,
no meio você coloca ideias.”
(Pablo Neruda)
Este trabalho teve início de forma um pouco inconsciente. Quando ainda estava
cursando a disciplina Teoria Literária, com a professora Maria Luiza, eu conheci o
famoso escritor americano Edgar Allan Poe, que se tornou meu escritor favorito.
Comecei lendo O gato preto, depois li quase todos os contos de Poe. Todo aquele
universo do horror me fascinava; a forma como ele narrava a morte, com todos aqueles
detalhes arrepiantes e como trazia o lado poético da morte na literatura. Então, eu
comecei a enxergar, a morte como um ato poético e não mais como algo “estranho”,
“horroroso”, ou “repugnante”.
Na sequência, eu comecei meus estudos na Literatura Inglesa. No início da
minha graduação, e junto com minha professora e orientadora Ana Adelaide Peixoto,
tive a oportunidade de assistir ao filme de Stephen Daldry, baseado no romance As
Horas de Michael Cunningham. Encantei-me por esse filme; suas cenas entrelaçadas; a
belíssima trilha sonora de Philip Glass estabelecendo um diálogo entre piano e
melancolia; a maneira como acontecem cenas de suicídio e todo o universo da escritora
Virginia Woolf e as duplicações de sua escrita, seus temas e sua vida.
Mais tarde, nos meus estudos acadêmicos e nas minhas leituras antes de dormir,
deparei-me com uma frase de Poe (foi a lâmpada acesa em cima da minha cabeça, como
num cartoon), que dizia: “The death is, unquestionably, the most poetical topic in the
World.” (A morte é, inquestionavelmente, o tópico mais poético do mundo – tradução
livre). Então articulei a teoria de Poe com a grandiosa obra de Cunningham, adaptada
para o cinema por Stephen Daldry, com o título As Horas. Procurei decifrar os motivos
que levam os personagens a cometerem suicídio e mostrar a possibilidade da leitura
poética desse último ato da vida.
De fato, o suicídio é um tema bastante delicado e complexo, onde se transita a
questão da “banalização da morte” e da “glamorização” do mesmo. Em se tratando de
um tema tão recorrente na literatura, se faz necessário perder o pudor e estudá-lo mais
aprofundadamente. E, apesar do suicídio tema ter uma repercussão negativa em todos os
10
âmbitos da sociedade, eu me senti instigado a tentar fazer uma leitura poética do ato de
um ser/personagem, que opta por tirar sua própria vida.
Em As Horas, Stephen Daldry traçou um dia na vida de três mulheres distintas,
em três épocas diferentes: Virginia Woolf, Laura Brown e Clarissa Vaughn – três
mulheres ligadas ao livro Mrs. Dalloway: a primeira escreve, a segunda lê, e a terceira junto com o personagem Richard - dá vida ao livro. Na trama, todos os personagens
vivem em espaços “deslocados”, seja do seu próprio tempo, seja do seu próprio corpo.
Sendo assim, utilizarei para a construção e fundamentação teórica desse trabalho
escritores como Durkheim e Poe e autores psicanalíticos que estudaram o suicídio, dos
quais destaco Kohut; Farei referncia também as professoras Ana Adelaide Peixoto e
Genilda Azeredo e seus estudos sobre o livro/filme As Horas, finalizando com o
filósofo Gaston Bachelard e sua poética dos elementos da natureza, que possibilitará
fazer essa leitura poética do suicídio.
Esse trabalho, portanto, será divido em três capítulos. No primeiro, abordaremos
a contextualização do filme As Horas; ficha técnica do mesmo, enredo, caracterização
dos personagens principais, bem como a relação dos personagens com o romance Mrs.
Dalloway e a questão da dependência entre os dois casais: Mr. e Mrs. Woolf, e Clarissa
e Richard. No segundo capítulo, serão apresentados conceitos históricos e psicanalíticos
sobre o suicídio e a análise poética do suicídio dos personagens, Mrs. Woolf e Richard,
comparando os mesmos, simbolicamente, com os animais peixe e pássaro,
respectivamente. Por fim, no terceiro capítulo, faremos uma análise da leitura poética
desse último ato da vida, levando em consideração outras perspectivas da morte: o ato
libertário e o início de vida, ou parafraseando Guimarães Rosa, Alongo-me: “A morte é
vida.”.
11
CAPÍTULO 1 – UM DIÁLOGO DE INTERDEPENDÊNCIA EM AS
HORAS.
1.1 - AS HORAS: Uma vida inteira em um único dia...
“Cinema é teatro romanceado ou romance teatralizado.”
(Paulo Emílio Sales Gomes)
Um dia, o passar das horas, as escolhas, as decisões tomadas, as vidas
inadequadas, a morte; temas que são trazidos na adaptação cinematográfica do livro
homônimo do escritor americano Michael Cunningham, As Horas. Esse filme tem como
foco principal debruçar-se sobre um mito da literatura inglesa: a emblemática escritora
inglesa Virginia Woolf. O livro foi escolhido como o melhor de 1998 por quase toda
grande imprensa dos EUA (The New York Times, Los Angeles Times, Chicago Tribune)
e ganhou o prêmio Pulitzer de literatura em 1999. A adaptação teve direção de Stephen
Daldry e roteiro do dramaturgo e roteirista inglês David Hare, que conseguiu adaptar as
três histórias (que no livro são contadas em capítulos aparentemente independentes),
intercalando cenas sem necessariamente seguir um tempo linear; cenas costuradas por
rimas visuais, acentuando marcas temáticas mais do que qualquer vinco temporal.
O filme As Horas possui uma característica importante, que é a junção de vários
textos: o texto de Cunningham, o texto Mrs. Dalloway, e a escrita de Virginia Woolf,
como exemplifica Genilda Azeredo em seu texto Quando as horas (não) passam: o
perigo da vida em um dia:
A construção do filme As Horas, a meu ver, problematiza ainda mais
tais relações, já que o filme constitui uma adaptação do romance de
Michael Cunningham (1998), que por sua vez alude a material não só
do romance Mrs. Dalloway (1925), mas também faz uso de informações
biográficas sobre a escritora Woolf. (2003, p. 185).
O filme narra a vida de três mulheres em três épocas distintas, porém
interligadas pelo romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf. A primeira personagem é
Virginia Woolf, (interpretada pela atriz Nicole Kidman) autora do livro e que enfrenta
uma crise de ideias e sentimentos e uma doença mental em 1923. Em Los Angeles, na
década de 50 vive a segunda personagem, Laura Brown, interpretada por Julianne
Moore, uma dona de casa grávida do segundo filho e que lê este romance de Virginia.
Nos tempos atuais, Meryl Streep interpreta a terceira personagem, Clarissa Vaughn,
12
uma editora de livros, que vive em Nova York e prepara uma festa para seu amigo
escritor Richard, interpretado por Ed Harris, que fora seu amor juvenil em tempos
passados e que está em fase terminal da AIDS. É Clarissa, que dá vida à personagem de
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway.
Assistimos dessa forma a um dia na vida de três mulheres. São três histórias em
três diferentes espaços temporais, mas entrelaçadas na narrativa. Virginia Woolf é
aconselhada pelo seu médico a viver com seu marido, afastada da agita Londres, no
subúrbio de Richmond. É perceptível, a cada momento, a infelicidade e a amargura da
personagem, quando não tem vontade de se alimentar, ou quando percebemos seu olhar
melancólico observando tudo ao seu redor. A vida de Virginia é narrada ao mesmo
tempo em que ela escreve o romance Mrs. Dalloway, portanto, os conflitos internos da
personagem são passados para a obra, inclusive o suicídio. Em Laura – uma dona de
casa, esposa e mãe – vemos a angústia de uma mulher presa a um casamento onde são
percebidos sentimentos contraditórios, diante do ambiente em que vive; ambiente esse
que é aparentemente tranquilo e feliz. Laura está lendo o romance de Virginia e cogita a
morte, para escapar de uma realidade, que para ela, é uma realidade medíocre, uma vez
que espera da vida algo mais substantivo diante da domesticidade de sua vida.
Clarissa Vaughn é uma mulher cosmopolita do século XXI. Nessa narrativa
percebemos uma mulher bem sucedida profissionalmente, que vive uma relação homo
afetiva de longa data e, paradoxalmente chamada por Richard de Mrs Dalloway1. O
único objetivo de Clarissa é que a festa, que ela está preparando para a premiação do
seu grande amigo e ex-amante, se concretize. Mas, em meio aos preparativos, ela sente
um vazio e o peso das horas, já que continua ainda presa a esse passado.
Richard, por conta de sua doença, vive preso em seu apartamento frio e sujo e
não vê sentido na festa e nem em ser homenageado. Richard é um personagem
profundamente amargurado e será um dos focos desse trabalho.
O filme As Horas trabalha com temas universais, como: a solidão, a infelicidade,
a doença, a identidade, a sexualidade e, principalmente a morte. Mas não apenas os
temas universais... A ação de preparar um bolo, escolher o cardápio do jantar, sair para
comprar flores pela manhã; todos esses aspectos do cotidiano fazem dessas três
1
Mrs. Dalloway nesse caso é o personagem do romance Mrs. Dalloway de Virginia Woolf, que ao
contrário de Clarissa Vaughn opta por uma relação convencional com um jovem chamado Peter.
13
mulheres personagens humanizados e transferem ao telespectador um sentimento de
questionamento de suas próprias existências.
14
1.2 – MRS. DALLOWAY: A PALAVRA NÃO CURA... REATIVA A
FERIDA!
“A arte existe porque a vida não basta.”
(Ferreira Gullar)
O romance Mrs Dalloway funciona como um link entre as histórias dos
personagens do filme As Horas. Porém, esse texto é mais do que um link, é um fio
condutor narrativo e uma espécie de refúgio na vida de cada personagem. Em todas as
histórias, é através do texto de Mrs. Dalloway que os personagens tentam minimizar
suas vidas insatisfeitas, inadequadas e incompletas. Mas, o refúgio à palavra, nem
sempre terá a função de minimizar a dor, mas, sim, o oposto; “renovar
interminavelmente a dor”, como diz Ana Cecília Carvalho em seu livro A poética do
suicído em Silva Plath:
Suspeitando que o “dilúvio” não poderia ser inteiramente contido pelo
“polegar” da palavra, Plath ousou, no entanto, aproximar-se dele. Mas
do que isso, procurou fazer com que o fluxo da palavra jorrasse com a
mesma intensidade da hemorragia interna. Nesse empreendimento, a
palavra não é busca para curar (grifo meu). Colocada à altura – ou nas
profundezas (full fathom five) – da dor, a palavra só pode reativar a
ferida (grifo meu). Desdobrando-se em uma poética de suicídio, sua
poética autobiográfica buscou traduzir, da única maneira que lhe foi
possível a dolorosa língua da melancolia: “O jato de sangue é poesia,/
Não há nada que o detenha.” (2003, p. 245).
Assim como diz Carvalho: “a palavra não cura, a palavra reativa a ferida” É o
que acontece com todos os personagens do filme. Todos ligados ao texto Mrs Dalloway,
com um propósito de, ora se manifestar, ora fugir de uma realidade, mas que no fim
todos buscam minimizar algum sofrimento. Podemos assim dizer que, o que eles
procuram em comum é a “cura” para a insatisfação; uma adequação às suas vidas, livres
das angústias subjetivas tão presente nas vidas desses personagens.
Todos os personagens têm em comum esse vazio físico e existencial, começando
com a personagem de Virginia Woolf, que vive confinada no subúrbio de Londres, na
sua própria casa e no seu próprio corpo. Em seguida, temos Laura Brown que vive no
subúrbio de Los Angeles paralisada no “sonho americano”; viver feliz sendo uma dona
de casa, mãe e esposa. Por último temos, simultaneamente, dois personagens: Clarissa
Vaughn e Richard. Clarissa está de alguma forma presa à vida de seu amigo Richard,
que por sua vez está moribundo em seu apartamento devido a sua doença, a AIDS.
15
Para fugir desses confinamentos e “curar” as insatisfações, os personagens se
conectam através do romance Mrs Dalloway escrito pela personagem Virginia Woolf,
onde ela própria pensa encontrar na escrita e na palavra, a “cura” e a liberdade para a
personagem e, talvez, para si mesma.
No filme As Horas, a personagem Virginia escreve em seu romance (que
inicialmente também teria o título “As Horas”) sobre um dia na vida de uma mulher; e
através desse dia, vemos claramente as horas, um dia, na vida da própria escritora
Virginia Woolf. Essa escrita, esse refúgio nas palavras, mais tarde se tornará o fim na
vida da própria personagem, ou seja, algo que foi criado como refúgio, acabou
reativando a ferida, quando a mesma fracassa do propósito de viver e comete suicídio.
Laura Brown encontra no romance Mrs Dalloway algo que preenche o seu
sentimento de vazio e incompletude; um escape da sua vida angustiada. Quando lê o
romance, esquece por instantes da sua vida banal, mas é nessa mesma leitura que
encontra a própria ferida de inadequação e parte para uma morte simbólica: abandona
sua vida, seu marido e seus filhos e vai à busca de uma nova possibilidade no Canadá.
Mais uma vez uma busca de “cura” através de um texto literário, mas que, no fim, se
torna inoperante. As palavras só reacendem a ferida de Laura.
Por fim, chegamos ao casal Clarissa e Richard, que têm suas vidas entrelaçadas
entre si e ao romance em questão2. Clarissa está presa ao passado e ao amor vivido na
adolescência com Richard. Essa ligação com o passado se transveste no presente em
cuidados com Richard, que está morrendo de AIDS. Richard, por sua vez, prende
Clarissa ao nome “Mrs Dalloway” 3, pois a todo instante a chama por esse nome e
compara suas ações (o ato de fazer festas, que ele dizia serem para “calar o silêncio” –
As Horas) às ações da personagem do romance Mrs Dalloway.
O fato de o filme As Horas fazer essa homenagem explícita e entrelaçada à
escritora Virginia Woolf, ao seu romance mais famoso e à personagem Mrs Dalloway,
só acentua/ressalta esse tema tão caro à sociedade em geral e às artes em particular, que
é a ligação intrínseca do homem com a arte. Enéias Tavares exemplifica essa relação em
seu texto A TRÁGEDIA REVIVE NO TEMPO:
2
Clarissa é chamada por Richard pelo apelido de Mrs. Dalloway, e Richard está ligado ao romance uma
vez que sua mãe Laura Brown tem o mesmo como livro de cabeceira.
3
Numa homenagem explicita à personagem emblemática de Virginia Woolf.
16
É a arte que permite a Virginia expressar sua dor e sua angústia. É a arte
que liberta Laura Brown de sua vida detestavelmente perfeita. É a arte
que aprisiona Clarissa dentro de um mundo de aparências, onde ela
“interpreta” um personagem da literatura: “Oh Clarissa, sempre dando
festas para encobrir o silêncio”, diz Richard. E é ele, enfim, quem vive
sua arte até o último suspiro. (eneiastavares@yahoo.com.br)
Nesse sentido, podemos concluir que o filme mostra que as vidas dos
personagens se encontram intrinsecamente ligadas à Arte, especificamente “à palavra”
(ao texto Mrs Dalloway), assim como a arte está ligada à vida dos personagens e toda
sua concretude. E, assim sendo, questões inconclusivas continuam a permear os estudos,
as angústias, os questionamentos inerentes à vida humana. O que a arte nos
proporciona? Ou o que nós proporcionamos para arte? Viver para o outro ou morrer
para que o outro possa viver? Lutar até a morte ou abandonar a luta e morrer? São
questões que até hoje perduram seja na vida ou na arte.
1.3 – “VIDAS COLADAS”: Mr e Mrs Woolf – Clarissa e Richard.
As cenas do filme As Horas são construídas de forma fragmentada e são ligadas
tanto através da forma (trilha sonora, gestos, falas – Mrs Dalloway disse que ela mesma
compraria as flores), como através dos temas: inadequação, escolhas, silêncio, festas e
suicídios. As vidas dos personagens têm esta mesma dinâmica narrativa; não por ser a
característica central da trama, mas porque assim como os seres humanos, os
personagens não são seres isolados. Nossas vidas se misturam, individual e
coletivamente. O psiquiatra e psicanalista Heinz Kohut (1981) comenta que: “o ser
humano precisa dos outros desde que nasce (física e psiquicamente incompleto) até a
hora que, ao morrer, precisa segurar a mão de alguém.”; e ainda “O homem nasce
quebrado; ele
vive com remendos; a graça de Deus é a cola4.” (Kohut apud
GALLEGO, 2003, p. 175-176)
Certamente os comentários de Kohut são baseados em estudos psicanalíticos do
ser humano, mas com a sensibilidade de Cunningham e Daldry de compor frases e
imagens que conseguem transmitir os estados psíquicos de seus personagens de ficção
com uma verossimilhança tal que permite ao leitor do livro e telespectador do filme se
4
Grifo meu.
17
identificar com muitas daquelas vivências afetivas ou, pelo menos, reconhecer vivências
que já pôde apreender em situações do mundo real (GALLEGO. 2003 p. 173). Podemos
levar em consideração os conceitos de Kohut, tais como: a solidão e a cola, para analisar
a vida dos personagens de Cunninghan em As Horas.
Essa “cola” muitas vezes é encontrada no ser humano, quando se aproximam uns
dos outros devido a alguma afinidade ou em algo que completa suas vidas. E é por essa
linha de raciocínio que eu denomino as vidas dos casais Mr/Mrs Woolf e Clarissa e
Richard, como “vidas coladas”, pois encontramos nessas histórias uma forte
dependência um do outro.
Ambos os casais têm como sentimento de ligação o amor, pois mesmo um dos
casais (Clarissa e Richard), sendo identificados como “amigos”, tiveram um caso
amoroso na juventude e foi esse caso que fez com que eles ficassem juntos por muitos
anos, até que a morte os separasse! Assim como já mencionado, esses casais vivem com
uma forte dependência de vida, onde um encontra no outro um complemento para se
sentir vivo.
A escritora Virginia Woolf sofria de um transtorno mental e não tinha
capacidade de viver sozinha. Seu marido, Leonardo Woolf, estava sempre a tentar
encontrar meios para que Virginia tivesse uma vida plena e duradoura. Ele se mudou
para Richmond, um bairro calmo, longe da agitada Londres e criou a Hogarth Press5,
uma editora de livros para a própria Virginia. Leonardo Woolf foi um marido
cuidadoso, atencioso, e até controlador (devido às tentativas de suicídios de Virginia),
mas fez de tudo para obter o bem estar de Virginia. Ela por alguns instantes reconhecia
essa atenção e cuidados do marido, porém em sua mente nada durava muito tempo; a
doença consumia sua sanidade o que gerava muita turbulência na vida do casal. E
mesmo com todo esse turbilhão de sentimentos e acontecimentos, o marido, de certa
forma, se sentia útil em poder cuidar de sua amada e fazia tudo para minimizar os
efeitos da depressão; pois cuidar lhe dava uma sensação de felicidade, quando sua
amada o compreendia e o escutava. Mas também possuía um sentimento de impotência
quando tinha que correr atrás de Virginia para que não acontecesse uma tragédia já
anunciada anteriormente.
5
Hogarth Press foi uma editora que lançou os livros de Katharine Mansfield e o livro Interpretação dos
sonhos, de Freud.
18
Já o segundo casal, Clarissa e Richard outrora viveram um amor de verão, que
teve fim pelo fato de Richard deixá-la por um homem, Louis Waters, que por sua vez,
após algum tempo de relacionamento, deixa-o por motivos não claros no filme, mas que
em uma conversa com Clarissa dez anos depois, ele comenta que quando deixou
Richard e partiu para uma viagem à Europa, foi a primeira vez que se sentiu livre. Mas
essa não foi a primeira vez em que Richard foi abandonado; quando criança, sua mãe
Laura Brown o abandona e também foi por esses abandonos que, Clarissa, além do
sentimento de nostalgia do passado (ela quer prender o instante de felicidade que teve
no passado, como se isso fosse possível), se sente incapaz de abandoná-lo e vive de
cuidados para com o amigo, que também podem ser vistos como um toque maternal já
que a personagem leva comida, pergunta sobre os remédios, faz faxina e lhe leva flores
para minimizar seu sofrimento e alegrar/embelezar seu apartamento.
Outro ponto de ligação entre esses dois casais, no que se refere à dependência
subjetiva, é a questão da doença. Ambos os casais vivenciam uma doença e necessitam
de cuidados, mas esses cuidados vão muito mais além do que curar uma doença, de
salvar uma vida. Um sente a incompletude da vida do outro e, gradativamente, se coloca
como complemento para a vida do outro. Julianne Viana Guerra6 traz em seu artigo
Análise do filme As Horas uma explicação para essa dependência dos casais:
É uma estratégia de sobrevivência válida [de ambos os lados]7, porém
igualmente disfuncional, isto é, acaba gerando com o tempo mais dor e
menos saídas, é inútil tentarmos controlar os fatos, o destino e nossas
reações buscando evitar a dor, pois a vida não pode ser controlada e
quando nos deparamos com esta realidade nos desesperamos (grifo
meu). (2014)
Esse trecho une os dois pensamentos de Kohut e traduz as ações de
dependências desses casais. Essa dependência, essa “cola” que os casais procuram nada
mais é do que uma tentativa de “controlar os fatos” e “evitar a dor”, estabelecendo
assim uma relação de complementaridade. Analisando a parte grifada na citação, vemos
os destinos dessas ações: o desespero que leva um dos lados a querer se libertar dos seus
sofrimentos e, consequentemente se libertar do seu parceiro. E é esse desejo de
libertação que leva dois desses personagens a cometerem suicido - tema que será
desenvolvido mais adiante, mostrando que esse ato final da vida é muito mais do que
um desespero; simbolicamente, poderia ser lido como um voo e um mergulho libertário.
6
7
Estudante da Universidade Severino Sombra.
Acréscimo meu.
19
CAPÍTULO 2 – SUICÍDIO: “...The most poetical topic in the World”8
2.1 – SUICÍDIO: Conceitos.
“O suicida invisível
se mata na nossa cara
e, como não se nota,
não se pede explicação.
Aperta o botão da morte,
encerra sua condição,
sai antes do fim do filme,
antes de acabar a sessão.”
(Elisa Lucinda)
Como este trabalho tem por objetivo analisar dois dos três suicídios presentes no
filme As Horas, de Stephen Daldry, faz-se indispensável buscar, inicialmente um
entendimento do que seja o suicídio.
Ao longo dos séculos, o suicídio tem sido visto através de diferentes concepções.
O filosofo Sartre (1980) considerava o suicídio como “uma fuga ou um fracasso”. O
também filósofo Nietzsche (1900) dizia que o suicídio era “admitir a morte no tempo
certo e com liberdade”. Já Schopenhauer (1860) classificava o ato como “a positivação
da vontade humana”. Enquanto Kant (1804) dizia ser “a destruição arbitrária e
premeditada que o homem faz da sua natureza animal.”. (Wikiquote)
A palavra suicídio é composta de dois termos derivados do latim: sui = si
mesmo e caedes = ação de matar; Portanto significa matar-se a si mesmo. O Sociólogo
Émile Durkheim, em seu livro O Suicídio, define suicídio como “todo caso de morte
que resulta direto ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, realizado pela
própria vítima e que ela sabia que produziria esse resultado” (2000, p. 14). Mas, por
mais sistemática que seja essa definição, sabemos que a discussão para esse tema, no
que se refere a conceituar o suicídio, é bem mais complexa.
Utilizaremos a definição de Durkheim como base para a fundamentação teórica
desta pesquisa, pois não há como falar dos estudos sobre suicídios e não consultar as
8
Frase do grande escritor E. A. Poe, The Philosophy of Composition: “The death is, unquestionably, the
most poetical topic in the World.” – tradução livre: “A morte é, inquestionavelmente, o tópico mais
poético no mundo.”.
20
pesquisas desse grande sociólogo, haja vista ser ele um grande colaborador aos estudos
no que diz respeito às causas e atos suicidas.
A partir dessa definição de Durkheim, entendemos primeiramente que, o
suicídio é a ação em que o indivíduo põe fim à sua própria vida e, consequentemente, o
fim de sua existência. Utilizaremos como exemplo para entender essa afirmação aqueles
indivíduos que não estão devidamente integrados à sociedade e geralmente se
encontram isolados dos grupos sociais; ou até mesmo o indivíduo que dá cabo à sua
vida para parar de sofrer, como por exemplo, o fim do relacionamento com outro
individuo, uma doença grave, ou por qualquer outro sofrimento insuportável.
Apesar de todos os conceitos e exemplos, o tema suicídio ainda é um tabu nos
dias atuais. Não apenas no âmbito religioso, mas também na sociedade como um todo e
até mesmo no meio acadêmico, visto que tem poucos trabalhos no que se refere à
análise literária desse ato.
Matar-se é um tema presente na vida do ser humano, assim como também é
tema da literatura; então, se faz necessário estudá-lo. Pois é na arte, mais precisamente
na arte da palavra, que se expressa os sentimentos dos seres humanos. O suicídio e a
palavra andam juntos, tanto como um desabafo, quanto como uma reflexão. O
mestrando em letras Cassionei Niches Petry (Unisc) comenta em seu artigo O suicídio
na literatura, a relação entre o suicídio e a palavra:
Não é à toa que os suicidas quase sempre deixam algo escrito, seja um
bilhete, uma carta, uma página de diário ou recados em sites de
relacionamento na internet, explicando seus motivos ou pedindo perdão
aos que ficam. Muitos escritores, inclusive, optaram por esse ato
extremo (2012, p. 255).
O senso comum, como já mencionado anteriormente nesse trabalho, diz que o
suicídio é considerado uma atitude de quem está desesperado ou até mesmo, um ato de
covardia. Há, no entanto outras explicações de analises filosóficas. O filosofo Albert
Camus citado em Petry, diz que: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o
suicídio. Julgar se a vida vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da
filosofia.” 9 (2012, p. 255).
9
A pergunta fundamental da filosofia é “qual o sentido da vida?”.
21
Seria o suicídio a resposta para a grande pergunta da filosofia? Talvez, não
buscar o entendimento sobre o suicídio seria a resposta? Bem, nós nunca teremos uma
resposta concreta para esse assunto. Tampouco as obras literárias. Mas pesquisar,
estudar, analisar esse último ato da vida se faz necessário, já que é um tema recorrente
na literatura.
Assim como a sociedade, a literatura está repleta de obras em que personagens
cometem suicídios, das mais variadas formas. São inúmeros os casos, citarei aqui
algumas das obras mais conhecidas: Romeu e Julieta (1595) e Hamlet (1601), de
Shakespeare; Os sofrimentos do jovem Werther (1774), de Goethe; Madame Bovary
(1857), de Gustave Flaubert; Anne Karenina (1877), de Tolstói; O Despertar (1899),
de Kate Chopin; São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos; Os Suicidas (1969), de
Antonio Di Benedetto; As Jovens Suicidas (1999), de Sofia Coppola; As Horas (1998),
de Michael Cunningham, dentre tantas outras obras brilhantes.
A dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de se chegar a uma leitura mais
“concreta” do suicídio levou alguns a considerar o suicídio como um fenômeno
aleatório que pode acontecer numa infinita variedade de motivações humanas. As
próprias formas de suicídios podem ser tomadas como chave para o motivo. Magaret
Higonnet10 em seu artigo SPEAKING SILENCES: WOMEN’S SUICIDE, traz uma
diferenciação entre a leitura do suicídio de uma mulher e de um homem:
Women’s voluntary deaths are even more difficult to read than men’s because
women’s very autonomy is in question and their intentions are therefore
opaque. The way in which women choose to die differ from those chosen by
men. Men jump, and shoot themselves. Today, women more often take sleeping
pills, drink household poisons, or turn on the kitchen stove. The cynical view is
that women deliberately employ ineffective methods. 11 (1986, p. 68-69).
O trecho de Higonnet comprova que a busca pelo entendimento do que seja o
suicídio é bem complexa, pois além dos conceitos filosóficos, sociológicos e, até
mesmo, do senso comum, a questão de gênero também é levada em consideração para
tentar se aproximar do conceito do assunto em foco. O maior desafio aqui é trabalhar
10
Professora de Inglês e Literatura Comparada da Universidade de Connecticut.
Tradução livre: As Mortes voluntárias das mulheres são ainda mais difíceis de ler do que as dos
homens, porque a autonomia de muitas mulheres está em questão e as suas intenções são, portanto,
opacas. A maneira pela qual as mulheres escolhem morrer diferem daquelas escolhidas pelos homens.
Homens saltam e atiram neles mesmos. Hoje, as mulheres, frequentemente, tomam pílulas para dormir,
bebem venenos domésticos ou ligam o gas da cozinha. A perpectiva cínica é que as mulheres
deliberadamente empregam métodos ineficazes.
11
22
com a brecha entre o que nós entendemos sobre o suicídio e o que realmente esse ato
significa.
Analisando os suicídios dos personagens de As Horas, Virginia e Richard,
tentaremos traduzir o que esse ato final de vida dos personagens tem a nos mostrar;
levando em consideração alguns dos conceitos, como também e principalmente, a
junção dos elementos poéticos, pois a forma como esses atos acontecem no filme As
Horas podem ser vistos também como atos simbólicos e poéticos.
A leitura do suicídio desses personagens terá também como suporte teórico o
filósofo francês Gaston Bachelard, pois nos suicídios em questão estão presentes dois
elementos da natureza: a água (o rio) e o ar (a janela).
Virginia encontra nas águas o caminho para fugir de sua vida, se lançando ao rio
próximo à sua casa e morrendo afogada. Richard encontra esse escape da vida na
abertura da janela de seu apartamento, onde passou muito tempo confinado, sem se quer
abrir uma cortina. Trazendo para a dimensão poética, lemos esses atos como um
mergulho nas profundezas das águas caudalosas do rio Ouse e um voo libertário de
Richard através da janela. Além desses elementos, levamos em consideração outros dois
símbolos, “o peixe” e “o pássaro”, sendo os mesmos atribuídos simbolicamente aos
personagens em questão.
23
2.2 – BACHELARD E A POÉTICA DAS ÁGUAS: Peixe – Mergulho –
Woolf.
“O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida
a face
ida.
O rio sempre renasce.
A morte é vida.”
(Guimarães Rosa)
Surge o barulho da correnteza das águas escuras do rio Sussex... Aos poucos o
brilho da luz do sol vai aparecendo refletido no rio... Virginia anda pelo jardim, com seu
andar curvado, com pressa, nervosa, determinada... Aparecem as mãos delicadas e
trêmulas de Virginia a escrever um bilhete: Dearest... Seu último escrito. Assim começa
a narração da melancólica cena do suicídio de Virginia Woolf - a abertura do filme As
Horas.
Uma voz suave e melancólica prende a atenção do telespectador à sequencia das
cenas a seguir. Virginia está escrevendo um bilhete para seu marido, um bilhete de
despedida. Nesse mesmo tempo é mostrada a cena de seu marido, Mr. Woolf, lendo este
bilhete e Mrs. Woolf indo ao encontro do o seu fim. A voz de Virginia é a linha que
costura as palavras escritas no bilhete às cenas que se seguem. Sua voz em off
paralelamente com a imagem vão compondo o que seria a moldura de abertura e de
desfecho do filme.
Virginia entra no rio. Pouco a pouco seu corpo vai desaparecendo à medida que
frases de seu bilhete vão sendo narradas. Virginia fica com seu corpo submerso, apenas
com a cabeça para fora das águas e nesse instante ela fala como foi feliz ao lado de
Leonard, do seu amor e dos cuidados para com ela, e de como duas pessoas não
poderiam ter sido mais felizes. Talvez essa cena da cabeça de Virginia fora do rio (como
se a água fosse uma corda em seu pescoço) funcione como uma metáfora para o sufoco
de sua vida; o limite que ela conseguiu suportar sua doença, do “sei que atrapalho sua
vida”, indicando sentimentos paradoxais de felicidade e sentimento de culpa, como
analisa Ana Adelaide Tavares em sua tese de doutorado. (TAVARES, 2008, p. 161).
24
A seguir, a mão delicada e trêmula de Virginia se acalma em cima do bilhete,
após a assinatura com apenas a letra inicial do seu nome: V. Talvez, essa assinatura seja
a representação da dualidade entre duas palavras vivenciadas na vida de Virginia: Vida
e Vazio Existencial. Talvez essa assinatura seja a afirmação do sentimento de
incompletude que ela sentia. O momento da assinatura é o momento em que Virginia
mergulha e, nesse instante, surge imperiosa a trilha sonora do filme, assinada por Phillip
Glass, com acordes que mostram sua profunda tristeza, “talvez a tristeza da
irreversibilidade da morte” (TAVARES, 2008, p. 161), compondo um dialogo em
sintonia entre trilha e imagem.
É importante também considerar o conceito de suicídio permanente encontrado
na leitura de Bachelard sobre as poesias do escritor americano Edgar Allan Poe. Esse
conceito fala da morte cotidiana; morte essa onde nós colocamos diariamente tudo que
morre em nós num túmulo, o que Bachelard chamou de “definhamento melancólico”.
Esse túmulo pode ser qualquer lugar; pode ser um poema escrito em uma folha de papel
e, após isso, ser queimado, rasgado ou, até mesmo, jogado num rio, em águas que vão e
levam toda nossa tristeza.
Virginia escolheu dar fim à sua vida como escape de uma vida sofrida. A morte,
nem de longe, é aceita como solução de problema. Mas no caso de Virginia temos uma
doença que a atormenta insuportavelmente; desgastando toda sua sanidade e sugando
toda sua vontade de viver. Obviamente a doença fora um dos motivos que levou Mrs.
Woolf a cometer suicídio. Mas, essa morte não foi causada apenas por causa de sua
doença, pelo fato dessa morte não se constituir num ponto final na vida da personagem o parar das horas da vida de Virginia. A morte de Virginia “é uma longa e dolorosa
história; é uma espécie de definhamento melancólico” (BACHELARD, 2002, p. 57),
que se instaurou desde a morte de sua mãe quando ela tinha apenas 13 anos, passando
pelo abuso sexual dos irmãos e, mais tarde, a perda de sua irmã mais velha, Stella.
Perder a mãe tão cedo vai ser assim o desencadeador, o estopim da fragmentação da
sanidade de Virginia Woolf.
A escolha da morte de Virginia pode ter sido também baseada nessa concepção
de suicídio permanente. Ela encontrou na água, o túmulo que procurava para depositar
suas angústias, seus sentimentos de inadequação e sua doença mental. Virginia se mata
afogada no rio próximo à casa onde morava e esse rio talvez não tenha sido escolha da
25
própria Virginia. Talvez o rio viesse como um convite à Virginia à sepultar sua própria
vida. Pois “a água é um convite à morte”, assim como explica Gaston Bachelard em seu
livro A Água e os sonhos:
O destino das imagens da água segue com muita exatidão o destino do devaneio
principal que é o devaneio da morte. A água é um convite à morte. Toda água
viva é uma água que está a ponto de morrer. Contemplar a água é escoar-se, é
dissolver-se, é morrer (2002, p. 48-49).
Virginia morre nas águas talvez como um resgate ao útero materno, numa
tentativa inconsciente do reencontro com essa ausência da mãe, pois a morte na água é
explicada por Bachelard como um retorno ao inconsciente do útero; mas onde também
se encontra um sentimento de liberdade. E, assim como um peixe num aquário, Virginia
se sentia presa, limitada a viver em um espaço que, para ela era torturante, e isso era
visível, quando em alguns momentos do filme ela quer voltar a Londres, cidade onde
ela pensava ser o seu lugar.
Quando Bachelard diz que “a água é um convite à morte”, ele faz referência ao
fato de que assim como depositamos toda tristeza no cair da noite, a água exerce essa
função. Quando choramos derramamos água e essa água é a composição da água do rio
que convida a morte. “Cada hora que meditada é uma lágrima viva que vai unir-se à
água dos lamentos; o tempo cai gota a gota dos relógios naturais; o mundo a que o
tempo dá vida é uma melancolia que chora” (BACHELARD, 2002, p. 58).
Levando em consideração o elemento da água, podemos assim fazer uma
analogia simbólica da personagem de Virginia Woolf a um peixe. Aqui num analogia de
cunho mais pessoal do que conceitos de origens orientais, ocidentais, religiosos, etc.,
poderíamos dizer que Virginia assim como um peixe no aquário, também viveu
confinada à supervisão doméstica de seu marido, dos médicos e, até mesmo, de suas
serviçais. Vivendo em um lugar onde ela não conseguia viver apaziguada consigo
mesma.
A morte de Virginia pode ser vista como uma fuga, um escape, um ato fatal que
trará para ela um alívio de toda dor que sentia; seja fisicamente como as dores de cabeça
ou emocionalmente, quando se sentia incapaz até mesmo de escolher o cardápio do
jantar. Talvez a morte não seja uma dor para quem comete suicídio. O suicídio pode ser
visto como um alívio e, simbolicamente, pode ser a busca de um renascimento. Assim
como diz a epigrafe desse capítulo: “o rio sempre renasce. A morte é vida”. Virginia
26
quando morre, mergulha num mundo desconhecido, o mundo dos mortos. Seria possível
Virginia está em busca dessa “nova vida”, assim como fez a personagem de Laura
Brown?
Contudo, o suicídio de Virginia mostra que, uma vida insatisfeita pode levar a
ações extremas. Julgar essa escolha de fim da vida como uma covardia ou expressão de
coragem é muito controverso e simplista. A morte de Virginia foi uma escolha pessoal,
pois não podemos esquecer que ela sofria o extremo de uma doença sufocante. Por
outro lado, se olharmos seu suicídio com um olhar poético, teremos um novo ângulo ou
leitura de possibilidades em relação à morte; “uma vida especial atraída por uma morte
especial” (BACHELARD, 2002, p. 50). O suicídio de Virginia pode ser lido também
como um mergulho libertário em busca tanto do alívio concreto quanto subjetivo das
dores de sua doença, da liberdade de vida, da fuga de um mundo que para ela só era
sofrimento. De qualquer forma, a mensagem deixada por ela denota toda a ambiguidade
dos seus sentimentos de culpa e desespero, geralmente subtendido no suicídio, que
implica numa autoagressão.
Portanto, podemos entender que, na filosofia de Bachelard, a melancolia, a perda
do objeto, se reveste de um caráter ideal. O sujeito não sabe o que se perde na decepção
amorosa; agora podemos dizer que o que se perde é o amor por si mesmo; e o suicídio
pode ser a saída para recuperar o amor narcísico, o amor primário, o amor da mãe que o
tornaria o Eu ideal.
27
2.3 – BACHELARD E A POÉTICA DO AR: Pássaro – voo – Richard
“Nunca se pode concordar em rastejar, quando se sente ímpeto de voar.”
(Hellen Keler)
A cena do suicídio do personagem de Richard é precedida de uma cena onde
Richard está olhando um retrado de sua mãe vestida de noiva. Ele começa a recordar
experiências significativas que aconteceram na sua infância. Nesse momento, nós
espectadores vamos nos surpreender com a verdade descoberta de que Richard é o
pequeno angustiado Richie, filho de Laura Brown. Na sequencia, Clarissa chega ao
apartamento de Richard a fim de buscá-lo para levar a festa na qual ele receberia um
importante premio de literatura. Mas, ao entrar no apartamento, ela se depara com o
lugar todo desorganizado e Richard extremamente agitado. A (des)arrumação do espaço
em comunhão perfeita com a (des)arrumação mental do personagem.
Agressivamente, ele inicia um discurso onde é percebido nitidamente sua
loucura, (causada pelo excesso de remédios, a doença e a solidão): “Cheguei a uma
fantástica conclusão. Combinei minha loucura e minha magia para resolver a
questão...”. A partir daí, o seu discurso denota perda total de interesse pela vida. Ele
acusa Clarissa de sua morte tardia: “Eu ainda estou vivo por sua causa. Mas agora você
deve me deixar ir”. Dito isso, Richard começa a se aproximar da janela onde acabara de
arrancar um papel que impedia a luz do sol de entrar. Clarissa tenta falar, mas Richard a
interrompe pedindo que ela conte uma história. Ela começa a contar como foi seu dia...
Um dia muito parecido com o dia da personagem de Mrs. Dalloway. O cotidiano sendo
narrado como bálsamo, como um elo importante entre o passado e o presente; um som
conhecido para ninar os últimos momentos de alguém. O conhecido trilhando caminhos
para o desconhecido. Clarissa comenta do clima, diz que a manhã estava fresh
(agradável) e, nesse instante, Richard abre a janela, repetindo a mesma palavra. Ao abrir
a janela, lá fora alguns pássaros passam voando. Esses pássaros, possivelmente, seriam
a representação simbólica da vida de Richard: preso em apartamento, como se fosse
uma espécie de gaiola, onde recebia cuidados diariamente de sua amiga Clarissa. Mas,
agora esse pássaro está prestes a sair em seu voo libertário.
Na sequencia dos fatos, Richard recorda da bela manhã que teve com Clarissa;
da época em que eles viveram um grande amor de verão. Ele então começa a fazer
declarações, reconhece o quanto ela foi boa para ele, admite seu amor por ela e, por fim,
repete a mesma frase da carta da personagem Virginia, refazendo um eco de ligação
28
entre os dois personagens, os dois suicídios e as duas mortes: “Não creio que duas
pessoas poderiam ser mais felizes do que fomos”. Imediatamente, após isso, atira-se
pela janela, suicidando-se e o grito aterrorizante de Clarissa finaliza a cena.
Analisando esta cena, é possível perceber que a impulsividade requerida para
este ato foi despertada em Richard devido ao elevado desgaste de seu quadro físico e
mental; e também pela ingestão proposital de vários tipos de medicamentos. Também é
possível deduzir que, considerando a maneira escolhida para o ato, o significado
inconsciente deste suicídio foi o de exercer uma agressão indireta, pois Richard usou
essa morte para afetar Louis (seu ex-namorado), a própria Clarissa e sua mãe Laura
Brown, que o abandonou quando ele ainda era criança. Já na imaginação dinâmica, esse
ato se torna direto, como diz Bachelard:
A imaginação dinâmica, na verdade, propõe apenas imagens de impulsão, de
ímpeto, de voo - em suma, imagens em que o movimento produzido tem o
sentido da força imaginada ativamente. A imaginação dinâmica é imprópria
para dar-nos imagens de resistência. Para imaginar verdadeiramente, é preciso
sempre agir, sempre atacar. (2002, p. 94).
O que eu propus mostrar com esse trecho é a dualidade do ato cometido por
Richard: tanto o aspecto direto como o indireto do suicídio, ressaltando a dificuldade de
se traduzir concretamente o suicídio. Além disso, quando Richard culpa Clarissa por ele
ainda existir, é importante fazer referencia ao trecho de Hendin citado na revista de
psiquiatria do Rio Grande do Sul, com relação ao ato de culpa como “uma das
características mais letais do paciente suicida a tendência para atribuir aos outros a
responsabilidade por permanecer vivo.”.
Contudo, vale mencionar ainda que, o suicídio de Richard representa uma
atitude extrema, resultado de uma doença terminal e de um abandono igualmente
irrecuperável, o que Bachelard chamou de definhamento melancólico. Esse
definhamento é visto nas cenas da história de Richard, em fatos como: a insegurança de
sua mãe; o próprio abandono da mãe; a relação de abandono do ex-companheiro; a
doença AIDS, ou seja, a presença de comportamentos considerados de risco, que levou
o personagem a ter uma vida angustiada e nutrir um sentimento de angústia e
deslocamento.
29
Portanto, podemos relacionar a morte de Richard igualmente ao caso da morte
de Virginia que, será também na melancolia, na perda pelo amor por si próprio que
Richard busca recuperar o tal amor narcísico e o amor de Laura Brown, sua mãe.
30
CAPÍTULO 3 – ALQUÉM TEM QUE VIVER: Outra perspectiva da
morte.
“Someone has to die in order that the rest of us should value life more.”12
(As Horas)
Para alguns a morte pode ser uma libertação, um escape da vida insatisfeita e
depressiva; para outros, uma incógnita e, para muitos, a morte é um destino cruel que
deve ser evitado a todo custo. Mas, o que interessa nessas mortes do filme As Horas, em
especial a de Virginia e a de Richard, é que, de alguma forma, esses atos de escape ou
de desespero aconteceram para que outras pessoas pudessem seguir em frente. Esses
dois suicídios vão muito mais além do que o fim de duas vidas, eles transcendem o ato
da morte, de alguma forma, eles podem ser lidos como atos libertários e, sobretudo,
gestos de trágicas grandezas, assim como dão vida às vidas que jamais foram vividas,
no caso à vida de Leonardo e Clarissa, respectivamente.
Ambos os personagens, Virginia e Richard, convivem com pessoas que estão
ligados a eles de forma profunda. Virginia tem ao seu lado seu marido Leonardo, que
reformula sua vida em prol da saúde e segurança de sua amada. Ele se muda para um
bairro mais calmo, Richmond, e vive de cuidados para com sua esposa; tudo para
garantir ou, pelo menos, tentar dar uma vida plena à Virginia. No caso de Richard,
temos a personagem Clarissa, que apesar de ter conquistado uma vida de sucesso, vive
na nostalgia do passado, pois nutri o amor que teve na juventude com seu amigo
Richard, como se fosse possível apreender o instante. Richard é soro positivo e precisa
de cuidados, tanto cuidados médicos como cuidados afetivos.
No filme, o tema da morte é antecipado na cena em que Virginia se depara com
um pássaro que está morrendo no quintal. A morte do pássaro remete à possibilidade da
morte da personagem do seu romance, Clarissa Dalloway. Virginia tem a certeza de que
alguém tem que morrer, assim como diz Lajosy Silva13 em seu artigo O elogio ao
isolamento em As horas, romance de Michael Cunningham e filme de Stephen Daldry:
[Virginia] reconhece que alguém tem que morrer para que os sobreviventes
possam ter uma compreensão da vida acima do pensamento comum e mediano.
12
Tradução livre: “alguém deve morrer para que outros valorizem mais a vida”
Mestre em Estudos Literários pela UNESP; Professor de Inglês da Faculdade do Guarujá; Professor de
Literatura Norte-Americana na Faculdade São Bernardo.
13
31
Mas ainda, precisa utilizar a morte para glorificar a vida, à medida que a Morte
dignifica o homem na arte como nas tragédias gregas. (2004)
Podemos então fazer, a partir desse trecho de Lajosy, uma analogia da morte não
mais apenas como escape de uma vida frustrada, mas também como uma possibilidade
de que a morte pode dar vida a outras vidas. No caso do filme As Horas, as mortes
aconteceram como consequências das doenças (depressão e AIDS), incapacidade de
viver com suas limitações, a tristeza profunda, acessos a outros níveis de realidade, e
também, simbolicamente, para que seus parceiros pudessem seguir em frente - viver.
Virginia se sentia um peso na vida de Leonard e Richard desejava libertar Clarissa do
nome Mrs. Dalloway, do seu passado e do seu ato de cuidar.
Quando Virginia e Richard escolhem o destino final de suas vidas, ambos
deixam mensagens para seus companheiros, dizendo que eles estão indo embora para
que a vida dos seus amados possa seguir em frente. Eles se sentem como um peso na
vida de seus companheiros e têm a “consciência” (coloco consciência entre aspas
porque os dois personagens sofrem de transtorno mental) de que seus companheiros se
esforçam para lidar com as dificuldades da vida de cada um. E, nos discursos antes de
morrer, percebemos que os personagens passam uma mensagem de libertação, tanto
deles mesmos com suas vidas sofridas, quanto do peso que são na vida de seus
companheiros.
No ciclo da vida, a morte é certamente uma incógnita. Ambas fazem parte de um
mesmo processo: Morte e Vida, Vida e Morte. Em As Horas, esse binômio também se
faz presente através das trajetórias dos casais em pauta: Virginia e Leonard; Richard e
Clarissa. As trajetórias de Virginia e Richard afetam diretamente às vidas de seus
parceiros. O sofrimento, a doença, a melancolia, a preocupação, a vida em estado de
alerta, tudo isso desestabilizava a vida de todos ao redor.
A morte não será nunca uma solução. Mas, quando ela acontece, a vida é
soberana. Basta ver o caso da personagem Mrs. Brown, que mesmo “morrendo”
simbolicamente, escolhe a vida. E quando a morte se dá de sua forma mais trágica,
como no suicídio, sentimentos ambíguos podem surgir, como: revolta, culpa, alívio,
compaixão, dentre outros. No caso do filme, os que ficam demonstram tais reações
distintas. Mr. Woolf se desespera ao perder Virginia. Mas no filme, não sabemos o que
lhe aconteceu. Já a personagem Clarissa, ao se deparar com a morte de Richard, se
desliga deliberadamente do seu passado e isto pode ser uma forma de libertação. Entre a
32
perda, a tristeza e a dor de presenciar o último voo de Richard, Clarissa tem a calma de
jogar a festa no lixo, soltar o cabelo, dar um beijo em sua companheira e enfrentar “as
horas” – a vida – sem ter que se suicidar como Mrs. Woolf ou partir como Mrs. Brown.
O ato de resistência de Clarissa põe fim à uma tradição de opressão feminina, de escape,
de submissão pela loucura ou suicídio.
Em um momento do filme, Mrs. Woolf conversa com seu marido sobre o destino
final da personagem Mrs. Dalloway do seu romance. Ela afirma que alguém tem que
morrer para que outros possam viver. Como se fosse a ordem natural da vida, assim
como os dois exemplos analisados no filme As Horas, Virginia e Richard morreram
para que Leonardo e Clarissa seguissem a vida, talvez numa referência a esses
pensamentos da escritora enquanto elaborava sua estória, seus personagens e seus
desfechos.
O mesmo acontece no suicídio de Richard. Ele no seu discurso antes de morrer
diz que Clarissa precisa deixá-lo ir, e que ele só estava vivo para satisfazê-la. Ela
precisa deixá-lo morrer para que ela siga em frente com sua vida, sua companheira, sua
filha e seu trabalho, se libertando da vida ancorada na “nostalgia for the past.” 14.
Como já foi dito anteriormente, a escritora Virginia explica que alguém tem que
morrer. Porém, não é a personagem Mrs. Dalloway que morre; mas sim a autora, assim
também como o poeta, o visionário, dando continuidade à complexidade da vida e ao
enigma da morte.
14
Tradução livre: Nostalgia do passado.
33
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“Nenhum homem que tenha vivido conhece mais sobre a vida após a morte...
que eu ou você.”
(Edgar Allan Poe)
Quando desejei estudar o tema da morte, mas especificamente o suicídio, um dos
primeiros questionamentos que escutei foi: Por que estudar um ato tão triste e trágico?
Não podemos discordar que esse último ato de vida é sim algo muito triste e trágico;
mas, foi através das palavras de Edgar Allan Poe, que diz que a morte é
inquestionavelmente o tópico mais poético do mundo, que fiquei instigado a analisar os
motivos e escolhas de se tirar a própria vida. E quando um ser humano tira sua própria
vida, ele se torna um símbolo, uma incógnita; mas não devemos esquecer que o suicídio
pode ser o escape de um insuportável sofrimento psíquico. Sofrimento que se manifesta
através de palavras e ações. Contudo, como negar a importância de analisar os mistérios
conscientes ou não da dor de existir? Um ato que para uns é uma covardia, é para
outros, um manifesto libertário. Mas o fim é o único meio que os suicidas encontram
como uma possibilidade outra que o viver.
Neste estudo, vislumbrei como visão poética desses atos tidos por muitos como
trágicos, as escolhas que os personagens optaram por entregar suas vidas e o espaço
onde seus problemas e sofrimentos iriam ter fim, ressaltando a ideia de que a morte
transcende o fim da vida e pode ser um ato libertário. E, foi através das palavras do
Filósofo Gaston Bachelard e seus estudos sobre os elementos da natureza que, pude
analisar o afogamento de Virginia e o salto de Richard como um tópico poético, assim
como disse E. A. Poe. Sendo assim, compreendo que o estudo da teoria do
definhamento melancólico me permitiu um entendimento de que os fatores emocionais
de incompletude, inadequação ou insatisfação corroboraram para referendar a falta de
vontade de viver e que esses podem levar ao suicídio.
No processo de construção deste trabalho, pude identificar, na análise dos
personagens Virginia Woolf e Richard, que, as características do processo melancólico
se unem com a tentativa de controlar os fatos. A dependência da vida desses
personagens em relação aos seus parceiros, Leonardo Woolf e Clarissa Vaughn, fez
crescer o poder de controlar a vida; porém um poder inútil, pois como já dito: “a vida
34
não pode ser controlada e quando nos deparamos com esta realidade nos
desesperamos”. (Guerra, 2014).
Desejei, também, trazer à tona uma reflexão sobre a importância do estudo do
suicídio, visto como algo difícil de ser conceituado. Mostrei que no estudo do suicídio
não se pode pensar em uma única relação de causa e efeito; o suicídio transcende
qualquer entendimento racional da nossa realidade objetiva. Assim como explica Maria
Cristina Ferreira em sua dissertação de mestrado, SUICÍDIO, da identificação com a
mãe morta ao resgate narcísico: Um estudo psicanalítico do personagem Richard
Brown do filme As Horas, falando sobre o suicídio no âmbito psicanalítico:
Na atualidade, a relação entre depressão e suicídio se faz constante, isto pode
nos levar a falsa ideia de que esta pode ser a única psicopatologia responsável
para o ato de o sujeito tirar a própria vida. Mesmo que a depressão ou a
melancolia possam ser as psicopatologias presentes no suicídio, se faz
importante buscar a singularidade dos conflitos psíquicos implicados na dor de
existir (2007, p. 156).
Tais conceitos psicanalíticos sobre depressão e melancolia foram de grande valia
para análise dos atos suicidas do filme As Horas, pois não é mera coincidência a
semelhança entre vida de personagem do filme As Horas e a vida real; um está baseado
no outro. Em razão disso e para concluir esse trabalho, cito a frase excepcional do
filosofo Freud: “A morte é companheira do amor. (...) No começo a psicanálise supôs
que o Amor tinha toda importância. Agora sabemos que a morte é igualmente
importante.” (FREUD, apud FERREIRA, p. 157). E me permito dizer que apesar do
amor ser o tema mais falado no mundo, a morte compartilha do mesmo peso de
sensibilidade emocional e poética, sendo, portanto, o tópico mais poético no mundo
também.
35
REFERÊNCIAS
AS HORAS (The Hours).
Direção:
Stephen Daldry.
Produção:
Scott Rudin
e Robert Fox. Interpretes: Nicole Kidman, Juliane Moore, Meryl Streep, Ed Harris, Toni
Collette, Claire Danes, Jeff Daniels, John C.
Reilly, Miranda Richardson.
Roteiro:
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Suicídio em As Horas. - CCHLA - Universidade Federal da Paraíba