1 O Papel da Aerp na Construção da Identidade Nacional: Análise das Propagandas
Políticas Durante o Governo Médici
Laura Maria NAVES1
Universidade de Brasília
O artigo analisa a forma como as propagandas políticas foram construídas pela Aerp – Assessoria Especial de
Relações Públicas, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici; a fim de camuflarem as posições negativas
do governo e exaltarem o nacionalismo junto à população brasileira. Os produtos eram feitos de tal forma que
sentimentos como a solidariedade, o patriotismo e a igualdade social eram enaltecidos. Ainda, a figura
carismática do próprio presidente colaborou para que essas propagandas fossem melhor aceitas pela classe média
que apoiava o regime militar. Aerp também se apoiou no crescimento econômico que o Brasil vivia devido aos
investimentos de capitais estrangeiros no país. Isso contribuiu na utilização de recursos avançados nas
propagandas políticas além da possibilidade do brasileiro conseguir comprar eletrodomésticos a um preço
acessível, o que acarretou na venda de televisões e, consequentemente, o acesso aos produtos midiáticos
desenvolvidos juntamente ao governo militar. Do ponto de vista teórico, a pesquisa se apoiará no conceito de
Opinião Pública defendido por Jürgen Habermas, que reforça o papel do domínio público através dessa
publicidade manipuladora. Dessa forma, não sobrava espaço para uma mídia que contestasse as atitudes
políticas, já que era vista como uma “massa não-pensante” em que o intuito maior era amparar essa parcela da
sociedade com valores simbólicos nacionalistas, com o desvirtuamento da sua atenção aos problemas sociais do
regime; e o resultado era o fortalecimento do regime nos espaços públicos midiáticos, em especial a televisão,
que vivia seu período de ascensão; em que a maior parte da população brasileira tinha acesso. Para a
investigação, foi realizada revisão bibliográfica referente ao assunto. De forma geral, esse entendimento
funciona como um termômetro do processo de redemocratização, ou seja, da compreensão dos fatores
comunicacionais que encaminharam ou desvirtuaram o Brasil à abertura política e suas possíveis consequências
ao campo publicitário atual.
Palavras-Chaves: Aerp; Médici; propaganda política; populismo, ditadura
Um venero apreciador do futebol brasileiro, um rádio de pilha, exaltação popular por
onde passava. Eram essas as principais características que faziam do então presidente militar
Emílio Garrastazu Médici ter o apoio popular nacional, ainda que seu governo tenha sido um
dos mais linha duras do período, sendo superado apenas por seu sucessor, Ernesto Geisel. Por
trás dessa imagem positiva existia uma comunicação manipulada pela Aerp - Assessoria
Especial de Relações Públicas; e pela sua Secretaria de Imprensa, esta com uma influência
fragilizada pelas restrições que sofria dentro do Governo e pela própria Aerp2.
O I Seminário de Relações Públicas do Executivo realizado entre os dias 30 de
setembro e 5 de outubro de 1968 tinha como objetivo regularizar e implementar a Assessoria
1 Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Católica de Brasília; estudante de Mestrado do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília na linha de pesquisa Jornalismo e Sociedade. E-mail:
[email protected] 2 Em entrevista a Jorge Duarte para a construção do livro No Planalto, com Imprensa; Carlos Fehlberg, secretário de Imprensa do presidente
Médici, afirma que muitas vezes era visto como um jornalista do que parte integrante do Governo. As restrições ao seu trabalho o impediam
de exercer um papel de assessor como um todo. Ressalta ainda que a relação da sua Secretaria de Imprensa com a Aerp não era boa pelas
inúmeras tentativas de interferências em sua área.
2 Especial de Relações Públicas da Presidência da República - Aerp. Em seus objetivos, o que
merece um maior destaque é o
“Aproveitamento integral da figura do Presidente, no seu aspecto
humano, moderado e compreensivo, para caracterizar toda a campanha
orientada no sentido da valorização do homem, a única susceptível de
criar uma imagem efetiva e imediata do governo”
(CHAPARRO, 2002, 43).
A partir disso, fica clara a real intenção da Aerp ao conduzir a propaganda política. Ela
trabalhava com essa propaganda ideológica para que as pessoas se encontrassem na figura de
seu governante. Apesar de ter sido aprovado durante o mandato de Costa e Silva, o projeto da
Aerp só foi implementado plenamente no governo Médici. Passar os interesses das classes
interessadas de forma sutil e muitas vezes subliminar se tornou quesito ético e moral mediado
pela comunicação. Comandada pelos militares Octávio Costa e Toledo Camargo, a Aerp tinha
como principal foco a despretensão política em suas propagandas. Abusava de
sentimentalismo como o amor e a solidariedade e não fazia referências políticas. Isso para que
a “massa” que os militares consideravam despreparadas para o voto, se contentassem com os
rumos que o país estava tomando. Para eles, não era um povo de vontade coletiva. Essas
propagandas educativas situavam os governantes em uma “autoridade moral”, que era o que
mantinha o seu status quo. A ideia era de uma democracia camuflada pelo “milagre
econômico”, dessa forma, a justificativa seria a de que, para existir um desenvolvimento, se
fazia necessária a presença de um governo forte: o militarismo.
Uma breve análise sobre a personalidade de Médici instiga a percepção de uma pessoa
tranquila, que mais do que tudo, tinha como principal meta o crescimento econômico do
Brasil e o fim do regime militar. Intuito esse abordado em seu discurso de posse. A ideia era
de um governo com boa acolhida à retomada democrática. “Em vez de jogar pedras no
passado, vamos aproveitar todas as pedras disponíveis para construir o futuro”.3 Prometia
restaurar a democracia no país e garantir um Brasil com bases fixas no desenvolvimento
econômico e social. Dentro desse contexto, Médici conseguiu acalmar o fervor inicial de um
novo presidente eleito em meio ao caos que o Brasil ainda carregava pós-Costa e Silva. Mas
depois de um ano, percebeu-se um presidente retraído com os jornalistas e a estagnação de
uma promessa.
3 Trecho do pronunciamento do general Emílio Médici em rede nacional, no dia 7 de outubro de 1969 3 Tanto Médici como os outros militares evitavam responder perguntas referentes à
política do país. O objetivo era de sempre ressaltar os valores simbólicos do país e camuflar o
caos resultante das atitudes ditatoriais.
1. A Aerp e suas estratégias
A popularidade de Médici em nenhum momento foi esperada, já que era um
personagem ainda desconhecido da população. Devido ao momento ainda difícil que o país
enfrentava depois do Golpe de 64, os primeiros sinais de repressão e o surgimento do AI-5; a
recepção positiva com o então presidente, aclamado em estádios de futebol e admirado por
muitos; deu-se essencialmente pelas frases nacionalistas elaboradas pela Aerp, o milagre
econômico que o Brasil vivia, que possibilitava a aquisição de eletrodomésticos e outros
utensílios pelos brasileiros; e à simplicidade de Médici. (FICO, 2008, 203)
A comunicação institucional, desde a primeira reunião de pauta até sua divulgação,
não segue um padrão simples ou linear, ela é essencialmente estratégica. A Aerp trabalhava
com a ideia populista, em que os presidentes apareciam como “gente da gente”. Para isso,
criaram slogans e campanhas vangloriando o imenso potencial e poderio brasileiro com o
intuito de promover o patriotismo. Porém, esses apelos eram limitados. A intenção não era
mobilizar as massas com um partido populista e, sim, hibernar o sentimento de revolta da
sociedade com padrões culturais simbólicos. E é impossível pensar na história separando a
técnica da política.
Um dos principais objetivos de uma assessoria de comunicação é obter um consenso
sobre um sistema de valores. Se não o há, os resultados podem ser anomalísticos e
desintegrados (REGO, 1986). Nesse contexto, se faz necessário um uso adequado da
comunicação em prol da ordem e do consenso. Quando o indivíduo é fragilizado e impotente
perante os laços que o une à sociedade, decorrentes da falência das instituições ou de fatos
que forjem e sociabilizem os indivíduos nessa união, os meios de comunicação surgem para,
ao seu modo, reinseri-los. Se por um lado o indivíduo está isolado e aculturado, do outro a
psicologia o explica como um resultado progressivo aos estímulos.
Harold D. Lasswell afirma que o governo deve conhecer o limite entre o que deve ser
publicado e o que deve ser escondido da população. Para ele, um certo prestígio é perdido
quando existe o sigilo já que a vitória fala por si e a derrota necessita justificativas. Assim, a
melhor maneira de confirmar as conquistas é insistindo no sucesso da causa. A Aerp exaltava
esse conceito quando enaltecia o desenvolvimento sócio-econômico do Brasil ao veicular
propagandas com valores fundamentados em um país de raízes culturais. Enquanto isso, a
4 esquerda buscava divulgar o que era camuflado pela Aerp e Secretaria de Imprensa. A
informação se torna uma prática de guerra, um instrumento para estar sempre à frente nesse
âmbito de disputa da comunicação.
Ainda, as guerrilhas que se formavam na luta contra a Ditadura influenciaram o
populismo do governo ao serem desaprovadas pela classe média. Os constantes sequestros de
embaixadores e cônsules de acordo com o grau de investimento dos seus países no Brasil,
exerciam um efeito reverso na mente dessa parte da população brasileira. Era um simbolismo
tão sutil que suas reais intenções passavam despercebidas a essa classe. (SKIDMORE, 2000,
234)
Sabendo disso, a Aerp trabalhou de forma a estimular ainda mais essa desaprovação
da classe média com a esquerda liberal. Para isso, usava personagens em que essa parte da
população se identificasse, como o rural, a família, as crianças e idosos. Esse tom íntimo e
familiar exercia esse poder centrífugo sobre essa parcela da sociedade. Para Sodré, “A astúcia
semiótica do vídeo consiste em adaptar o mundo à ótica familiar.” (SODRÉ, 2010, 59)
Um exemplo clássico da despretensão da Aerp foi um filme institucional em que
aparece um casal e uma criança em uma carroça e se deparam com uma ponte quebrada. Dois
homens surgem em cavalos e, enquanto um sai para buscar ajuda, o outro fica para auxiliar na
reconstrução. Serrotes, martelos aparecem freneticamente nas imagens. A mulher, que em
nada pode auxiliar, serve café em um velho bule aos trabalhadores. Com a ponte restaurada,
todos se despedem felizes. Com uma voz tenra, o locutor emocionalmente diz a frase da
campanha: Este é um país que vai pra frente. Era a ideia do brasileiro solidário, unidos em
torno de objetivos comuns. Além disso, essas campanhas ainda envolviam a pluralidade social
e a igualdade racial para que o povo pensasse em união e ignorasse os abusos políticos e
sequestros que o país enfrentava.
“O regime militar brasileiro criou uma propaganda política singular,
que, para alcançar grau ótimo de propagação, se travestia despolitizada,
calcando-se em valores fundados, num imaginário forjado por vasto
material histórico. O que se quer é revelar o que tais valores possuem de
dissimulador de nossa realidade tão conflitiva e, nesse sentido, pouco
solidária.”
(FICO, 1997, 129)
5 Entre 1970 e 1973, 396 campanhas publicitárias foram produzidas e veiculadas. Essas
propagandas camuflavam a atuação autoritária do governo com a falsa ideia de participação
popular, ou seja, o principal personagem do governo era a sociedade. Elas mostravam um país
em construção em que a simples adesão do cidadão já era suficiente. 4 Agassiz Almeida cita
as principais características do militarismo: o autoritarismo, o pessimismo a respeito da
natureza humana, o alarmismo, ou seja, o forjamento da existência de uma ameaça à
sociedade, no caso do Brasil, de uma esquerda liderada pelo comunismo; e o conservadorismo
político. Todas essas peculiaridades muito bem abordadas pela Aerp.
A televisão foi o principal meio de veiculação escolhido para a veiculação dessas
propagandas. Sabe-se que o período de maior avanço tecnológico no Brasil foi durante o
regime militar devido à crescente economia que o país vivia e aos investimentos de capitais
estrangeiros. Em 1960, no governo de Jânio Quadros, o Brasil possuía menos de 600 mil
aparelhos televisivos. Um ano após o fim da Ditadura, este número havia subido para 26,5
milhões, um aumento de mais de quarenta vezes o valor de 26 anos atrás. O mesmo com as
estações: em 1964, haviam apenas 14; em 1985, mais de 150.
“Além disso, uma rede de microondas construída pelo governo ajudou a
criar um sistema de dimensão nacional, o que significava que o governo
federal, por meio de seu licenciamento, podia moldar (e moldou) a
propriedade da mídia da qual a maioria dos brasileiros obtinham suas
notícias e entretenimento.”
(SKIDMORE, 2000, 240)
A TV Globo foi uma das principais beneficiadas. Seus equipamentos de tecnologia
avançada e sua localização foram facilitados pelos militares para que em troca a emissora não
veiculasse nenhum produto que denegrisse a imagem do regime. Com uma audiência de 80%
durante o principal jornal do dia, o governo tinha a certeza que suas propagandas alcançariam
a população da maneira como almejavam, exaltando o simbolismo cultural, o patriotismo e os
valores morais.
Para Sodré, a função fática da televisão é o apoio à estrutura familiar. E não apenas em
um membro, como a mãe; mas na família como um todo com seu caráter de instituição, a
4 MATOS, Heloiza. Das Relações públicas ao Marketing Público: (Des)Caminhos da Comunicação Governamental. Tese apresentada junto
ao Departamento de Comunicações e Artes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.
6 moralidade que seu conceito agrega e o contato pessoal entre cada indivíduo da casa. A
recepção da mensagem é determinada por esse espaço familiar. (SODRÉ, 2000, 57)
Outra propaganda produzida pela Aerp que resgata essa abordagem familiar é um
filme em que uma família se prepara para ser fotografada. Os personagens são o avô, dois
casais (com uma das esposas grávida) e uma criança. Com todos se posicionando, o fotógrafo
arruma a gravata do avô. A avó chega para o momento e ao se deparar com a família se
emociona. Relembra, com efeitos de flashback, passagens da vida familiar como casamentos e
batizados. A propaganda finaliza com a foto congelada e a locução: “A paz se faz com quem
ama o mesmo chão”. (FICO, 1997, 132)
Fica evidente a intenção da valorização da base familiar por meio do patriotismo que a
Aerp tanto exaltava. Sua intenção, percebida pela imagem estagnada, é também mostrar qual
o modelo exemplar de família. Isso partia do princípio que os militares consideravam correto,
que as lições cívicas deveriam ser ensinadas dentro dos lares, pelos pais. Eram os valores
morais como o respeito, a lealdade, honestidade e o sentimento de dever. Ao final, a proposta
era sempre a mesma: exaltar o otimismo de um país melhor. Para Médici, parte dessa tarefa
de educar era fazer com que o povo brasileiro “saiba confiar”. 5
Outros exemplos da Aerp é um vídeo em que uma criança encontra-se perdida no meio
da multidão. A voz anuncia: “Ele pode estar assim em sua casa. Seu filho precisa de você.”
Outro é a de um senhor de idade com bengala observando jovens correndo. Ao chegar em
casa, seu filho que o estava observando, lhe dá toda a atenção especial que necessitava. “Ame
seus velhos. Você vai precisar desse amor.” Velhos e crianças eram os principais personagens
pelo apelo emocional que tinham. Para os militares, os dois eram quem mais precisavam de
amparo social. E isso deveria ser doutrinado à população. A Aerp partia do princípio de que a
população não possuía nenhum preparo e que se fazia necessário ensiná-los certos hábitos e
comportamentos. “A televisão, ao contrário, vive da substituição da visão onírica pela
imediatez cotidiana e familiar das imagens. Seu projeto é incorporar totalmente o espectador
em seu espaço.” (SODRÉ, 2010, 63)
Dentro desse perfil, se insere a Opinião Pública. Ela quer racionalizar a política em
nome da moral (HABERMAS, 2003). Em outras palavras, essa ausência de racionalidade, em
que o indivíduo absorve sempre uma opinião vertical, ou seja, de cima para baixo; é
representada pela falta de domínio público social durante o regime militar e a aceitação da
massa não-pensante das ideologias militaristas. Essa necessidade do poder político pelo
7 controle do pensamento é o que assegura o domínio do governo pela opinião pública. É a
vontade política através de uma publicidade manipuladora. Para Habermas, é preciso
compreender o abismo que uma publicidade controladora gera entre o Direito Público e a
dissolução desse conceito na sua esfera sócio-psicológica. Esse entendimento funciona como
um termômetro do processo de democratização. Dessa forma, a opinião pública poderá ser
percebida a partir de dados empíricos conforme o seu grau de publicidade, em que a
quantidade constituirá uma opinião não-pública e a opinião pública em sua individualidade
será uma ficção.
“[…], é preciso fixar-se no conceito de opinião pública num sentido
comparativo, pois a realidade constitucional da social democracia
precisa ser entendida como um processo em cujo transcurso uma esfera
pública politicamente ativa passar a ser tornada real, ou seja, passa a ser
efetivamente subordinada ao mandamento democrático de ser público
todo o exercício de poder social e de dominação política.”
(HABERMAS, 2003, 283-284)
Existem as opiniões informais, pessoais e não públicas; e as opiniões formais,
institucionalmente autorizadas. Dentro deste primeiro contexto, Habermas caracteriza as
informais em três níveis. No primeiro, estão aquelas que são óbvias e indiscutíveis, que são
caracterizadas dentro de um processo de aculturação resultante de uma ausência de
racionalidade, ou seja, as questões não são colocadas em reflexão. Em um segundo momento,
elas cabem em um meio mais difícil, resultado de um choque de socialização, quando a
discussão requer um maior grau de esclarecimento. No último nível, encontram-se aquelas
que surgiram a partir de uma obviedade da indústria cultural. Em outras palavras, aquelas em
que são reflexos de uma publicidade articulada ao meio cultural. Essas opiniões aparecem
dentro de um meio grupal, em que há uma troca de conhecimento de gostos e preferências. Da
mesma forma, a Aerp se utilizava desse preceito na veiculação de campanhas voltadas
essencialmente às famílias, a um meio moral já formalizado. Retratava essencialmente o valor
cultural e a importância de uma união. Isso porque, com essa agrupação, a opinião tinha um
valor único, ocorria a propagação da mesma ideia dentro de grupos distintos.
E os militares partiam do pressuposto que a “massa” não tinha valor pensante, estava
5 O Globo. Médici ao povo: revolução fez o Brasil nascer de novo, 1-4, 1970. Primeiro Caderno, p.7. IN: FICO, Carlos. Reinventando o
Otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil (1969 – 1977). São Paulo : FFLCH/USP, 1996. 8 despreparada da “vontade coletiva”. Ou seja, o intuito principal era gerar esse movimento de
aprovação do regime, “ [...] de contentamento com os rumos que se iam traçando – que os
militares iam traçando.” (FICO, 1997, 130) Essa necessidade de educação partia do princípio
de integrar essa parcela da sociedade, ou seja, ampará-la nos moldes cívicos que os militares
almejavam. Era a “vontade coletiva” articulada a partir dos valores morais para, dessa forma,
fortalecer a ideia de identidade nacional.
“Não importava, assim, que a ‘vontade coletiva’ estivesse sendo
mobilizada em torno de coisa nenhuma; desde que isso ocorresse numa
atmosfera de exaltação de presumidos valores brasileiros, estar-se-ia
investindo na legitimação das próprias instituições militares.”
(FICO, 1997, 130-131)
Nesta questão, aparece a liberdade como o uso público da razão. Conceito este ausente
durante o austero período militar no Brasil. Com a crença de um público não pensante, o
esclarecimento só era vigente em uma minoria partidária que, a partir de conflitos ou
organizações secretas, possuía acesso às informações. O esclarecimento é a possibilidade de
pensar por conta própria. Kant inaugura esse pensamento quando propõe a liberdade pensada
no âmbito da moral. “Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou
da opressão ávida de lucros e domínios, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo
de pensar.” (KANT, 1985). Enquanto alguns faziam uso privado da razão, ou seja, um uso
doméstico da forma de pensar; outros enalteciam o conhecimento público e a liberdade
ilimitada que resultava dessa forma popular do pensamento. Em paralelo à realidade vivida
pelo Brasil com a Ditadura Militar e o modelo monárquico apresentado por Kant em seu
texto, um governo que permita a liberdade de pensamento e o consequente esclarecimento que
essa atitude carrega, dá aos homens uma própria razão nas questões da consciência moral. 6
Para Foucault, há no texto de Kant uma ruptura social e a inauguração de um
pensamento. É preciso uma situação de conflito, uma constituição que separa a vontade
política da dos homens, para que o esclarecimento apareça em sua forma singular. É a
transição do indivíduo de sua menoridade, ou seja, a incapacidade de pensar por conta
própria; para a maioridade. Essa dependência por um tutor racional funciona como uma
substituição de sua consciência moral. A saída dessa menoridade que o esclarecimento
carrega é conceituada pelo uso que se faz da razão a partir da direção do outro. Foucault
6 In PASCAL, Georges; VIER, Raimundo (Trad.). O pensamento de Kant. Petrópolis: Vozes, 1983, 195 p. 9 explica que esse estado funciona em dois níveis, sendo o primeiro o par de obediência e a
ausência de raciocínio; e o segundo, a confusão na distinção entre o privado e o público. Para
ele, só há a possibilidade de obediência quando não existe o raciocínio. Já na maioridade essas
duas vertentes se desconectam: o uso privado faz uso da obediência enquanto no público
passa a valer a liberdade de raciocínio em sua totalidade.7
Em contrapartida, Lazarsfeld e Merton afirmam que quanto mais o uso de técnicas
persuasivas, menos a necessidade da força física: a propaganda institucional substitui a
intimidade e coerção. 8 Era o ajuste da massa à situação social e econômica do país.
Neste contexto sócio-cultural, o futebol é um dos melhores exemplos para se perceber
a influência de uma propaganda manipulativa e a construção de uma figura populista de
Médici, um torcedor de futebol que exerceu sua influência política na Copa do Mundo de
1970 ao fazer com que o então treinador da seleção do Brasil, João Saldanha, fosse destituído
de seu cargo por não ter convocado o jogador Dario.9 Toda essa representação de um
presidente com os mesmo gostos populares de sua nação o transformavam em uma figura
cativante, diferentemente daquela a quem os veículos alternativos que detinham acesso a uma
parte da informação possuíam. Era o governante moldado por um ideal, o que abriria as
possibilidades de uma ascensão econômica do país. No entanto, seu governo marcou a metade
do regime sem perspectivas de uma abertura política.
7 FOUCAULT, Michael, Aula de 5 de janeiro de 1983. In: O governo de si e dos outros . São Paulo: Martins Fontes, 2010, p.33. 8 LAZARSFELD, Paul F., MERTON, Robert K., Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada. In: COHN, Gabriel.
Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo, T.A. Queiroz, 1987, p.232 9 Em entrevista publicada na revista IstoÉ do dia 19 de março de 1997, Daria José dos Santos, o Dadá, confirma que a saída de João
Saldanha da seleção foi por sua causa: “De fato, eu fui o responsável por sua saída. [...] Naquela época, Saldanha disse que existiam pelo
menos cinco atacantes melhores que eu, um perna de pau, e que não havia vaga para mim na equipe dele. Respondi: ‘Manda esse Saldanha
pra p.q.p...’ A imprensa cobrou, mas Saldanha não cedeu. O Médici disse: ‘Esse negão (Dadá) não pode ficar de fora.’ Aí o Saldanha disse
aquela frase: ‘Ele escala o ministério e eu, o time.’ O presidente, magoado, criou uma situação para que o técnico fosse substituído, mesmo
porque Saldanha era um cara de esquerda.” In SINGER, André (Coord.). No Planalto, com a Imprensa: entrevistas de secretários de imprensa
e porta-­‐vozes: de JK a Lula. Brasília, DF: Secretaria de Imprensa da Presidência da República, 201, p.118. 10 2. Considerações Finais
Essa “tirania da informação” influenciada pela Aerp e aplicada pelos militares,
10
perdurou ainda mesmo nesse processo de abertura política e a imprensa brasileira ainda
carrega posições obscuras e controladoras. Porém, sua atuação visionária ainda exerce
influências na esfera da comunicação contemporânea. Mesmo em meio a repressões públicas,
um governo autoritário e uma parcela insatisfeita da sociedade, a Aerp conseguiu popularizar
um regime ditatorial marcado pelo controle social por meio de conotações teóricas ao
enaltecer a figura do presidente, manipular o raciocínio dos indivíduos e recorrer a uma
simbologia sócio-cultural resultando em uma parcela convencida da certeza do Governo e
alienada a uma realidade caótica.
É essa onipresença dos meios de comunicação que levam a uma crença do poder que
podem alcançar no controle social. A partir de estímulos que recebiam, os grupos políticos
passaram a investir em propagandas partidárias. E com a Aerp e a Secretaria de Imprensa, isso
não foi diferente. A economia do país facilitou o investimento na comunicação, por isso, as
propagandas contavam com uma tecnologia até então desconhecida no Brasil. A equipe
também possuía psicólogos, sociólogos e outros profissionais voltados diretamente à análise
da massa para, assim, desenvolver produtos em que os indivíduos pudessem se reconhecer.
Era a coerção da massa.
A produção de uma aceitação do público por meio da comunicação expressivo
emocional deve ser o objetivo principal de um assessor (REGO, 1986). A tarefa é dificultada
quando se está por trás de interesses camuflados e obscuros como durante um período
repressivo que aconteceu no Brasil de 1964 a 1985. Explicar os fatos e não mostrá-los,
gerenciar a comunicação em tempos de crise, representar o interesse maior desqualificando a
compreensão moral e social talvez fossem as principais obrigações de quem representou o
país no âmbito comunicacional durante a Ditadura. Tarefa essa que ainda possui seus
resquícios institucionais na comunicação atual. Entender suas raízes a partir da compreensão
científica é a possibilidade da decodificação de manobras de gerenciamento de crises ainda
presentes na comunicação brasileira do século XXI.
10 Milton Santos relaciona a posição capitalista no controle da informação. É sabido que os militares controlavam a publicidade na imprensa
por meio de patrocínios. Isso exercia grande influência no que era divulgado por esses veículos. Sem o dinheiro que recebiam, as redações
corriam o risco de fecharem. 11 3. Bibliografia
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2. AUGUSTO, Agnaldo Del Nero. Médici: A verdadeira história. 2. ed. Belo Horizonte:
Artes Gráficas Formato Ltda, 2011. 195p.
3. CHAPARRO, Manuel C. A Notícia (Bem) Tratada na fonte: novo conceito para
uma nova prática de assessoria de imprensa. Dissertação (Mestrado em Comunicação
Social) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo,
1987.
4. COHN, Gabriel. Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo: T.A. Queiroz, 1987.
5. FICO, Carlos. Reinventando o Otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social
no Brasil (1969 – 1977). São Paulo : FFLCH/USP, 1996.
6. ___________. O Grande Irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo. O
governo dos Estados Unidos e a ditadura militar brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2008.
7. FOUCAULT, Michael. O governo de si e dos outros: Curso no Collège de France.
São Paulo: Martins Fontes, 2010.
8. HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: Investigações quanto
a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003. 397
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9. HOHLFELDT. A. MARTINO, L.C.; FRANÇA, Vera V (org). Teorias da
comunicação: conceitos escolas e tendências.Vozes. Petrópolis, 2001.
10. LASSWELL, Harold. Propaganda techniques in World War I. Massachussets: MIT
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11. MATOS, Heloiza. Das Relações públicas ao Marketing Público: (Des)Caminhos da
Comunicação Governamental. Tese apresentada junto ao Departamento de
Comunicações e Artes da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo, São Paulo, 1989.
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Garrastazu.
O
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Disponível
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http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/emilio-medici/discursos1/1969/01.pdf/view> Acesso em: 06 set. 2012.
13. PASCAL, Georges; VIER, Raimundo (Trad.). O pensamento de Kant. Petrópolis:
Vozes, 1983, 195 p.
12 14. REGO, Francisco Gaudêncio Torquato do. Comunicação empresarial, comunicação
institucional: conceitos, estratégias, sistemas, estrutura, planejamento e técnicas. 5.
ed. São Paulo, SP: Summus Editorial, 1986. 179 p.
15. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência
universal. 15. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2008. 174 p.
16. SINGER, André (Coord.). No Planalto, com a imprensa: entrevistas de secretários
de imprensa e porta-vozes: de JK a Lula. Brasília, DF: Secretaria de Imprensa da
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17. SKIDMORE, Thomas E. Uma História do Brasil. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra,
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18. SMITH, Anne-Marie. Um acordo forçado: O consentimento da imprensa à censura
no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas - RJ, 2000. 262p.
19. SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em
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20. _____________. O monopólio da fala: Função e linguagem da televisão no Brasil. 7.
ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2001. 156 p.
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