XXXI ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO
Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de Produção na Consolidação do Brasil no
Cenário Econômico Mundial
Belo Horizonte, MG, Brasil, 04 a 07 de outubro de 2011.
A INCORPORAÇÃO DA GESTÃO
AMBIENTAL NA FUNÇÃO PRODUÇÃO
DAS ORGANIZAÇÕES ATUAIS
Nivea Marcela Marques Nascimento de Macedo (UNIPÊ)
[email protected]
Maria Albenisa Gadelha (FUNCEME)
[email protected]
Jaqueline Guimaraes Santos (UFPE)
[email protected]
Nos últimos anos, tem-se observado a crescente preocupação por parte
das empresas de estarem adequadas aos requisitos de atuação
ambiental, principalmente no que concerne à utilização de menos
recursos para produção ou pela fabricação de prrodutos que poluam
menos. A partir daí verifica-se que a função produção possui
relevância significativa para a eficiência da empresa, principalmente
no que concerne à sua atuação ambiental. Nesse sentido o presente
estudo tem o objetivo de discorrer sobre a incorporação da gestão
ambiental às atividades e rotinas que compõem a função produção nas
organizações atuais. Essa reflexão envolve algumas opiniões de
autores relacionados ao tema, que observam principalmente que há
uma estreita relação entre os dois construtos. A análise do desempenho
ambiental de uma organização envolve a consideração de alguns
indicadores relacionados aos processos produtivos das empresas.
Assim, o papel da função produção concen¬tra-se em participar do
processo de tomada de decisão explorando suas competências no
desenvolvimento de processos. É no âmbito da empresa que devem
acontecer as novas idéias, as modificações propriamente ditas e o
compromisso com as soluções para os problemas ambientais que se
delineiam, já que é na corporação onde se processam as
transformações dos recursos naturais que caracterizam o consumo
cada vez maior da nova sociedade industrial.
Palavras-chaves: Função produção; gestão ambiental; incorporação
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1. Introdução
As funções relacionadas à produção ou mais propriamente ao processo produtivo das
empresas são consideradas como o meio pelo qual as organizações concretizam seus objetivos
principais. É de vital importância seu adequado planejamento e acompanhamento, uma vez
que a partir daí é possível economizar recursos e diminuir custos. Como também é relevante
verificar os aspectos da transformação do produto e como essa transformação pode afetar o
ambiente organizacional interno e externo.
Ao longo do tempo, dada a evolução da tomada de consciência ecológica e suas
conseqüências, observa-se que além de cumprir com obrigações legais, as corporações
começam a colaborar para maior qualidade de vida da sociedade. Elas voltam-se cada vez
mais para questões que ultrapassam os limites da cadeia de negócios, como o respeito à
diversidade e a preservação do meio ambiente. Muitas vezes essas iniciativas são respostas às
pressões de autoridades ambientais, outras vezes derivam da necessidade ou objetivo das
empresas de assumir sua responsabilidade quanto aos riscos por sua produção causados no
meio ambiente. É neste cenário que a função produção possui papel relevante, uma vez que as
organizações são as responsáveis por grande parte das transformações que prejudicam a
efetiva sustentabilidade dos recursos. Os processos produtivos das empresas podem ser
refeitos ou planejados no intuito de aprimorar o uso de insumos no seu processo de
transformação. Atualmente, existe grande preocupação de organizações dos mais diversos
setores para com este tema, a inserção e participação na gestão do meio ambiente no ato de
produção.
Os stakeholders, elementos importantes, causas e conseqüências da atividade produtiva, são
partes “afetadas” tanto pela produção em si como pelo resultado dela. Resultado este que pode
ser modificado em detrimento de melhores condições e procedimentos para produção, os
quais estão sendo cada vez mais considerados pelos gerentes de produção e por aqueles
responsáveis pela função de produzir bens e serviços.
Para Corazza (2003), desde meados dos anos 70 ocorre a introdução progressiva de um novo
cargo ou de uma nova função na estrutura das organizações: o "responsável pelo meio
ambiente" ou o "serviço ambiental".
Observa-se então que as empresas, movidas pelo desejo de fazer parte da nova conjuntura de
consideração ambiental e por sofrer as pressões de alguns grupos de stakeholders que em
algumas ocasiões discutem sobre seu papel e obrigação como fonte de uso de recursos, tratam
de adequar-se à estas novas condições, principalmente através de sua função produção, pois
ela está intimamente relacionada e possibilita os meios para tal fim.
Corrobora-se que o desenvolvimento dos processos produtivos das empresas está relacionado
à crescente consideração da necessidade do gerenciamento ambiental por parte delas.
Nesse sentido, o objetivo deste estudo é o de discorrer sobre a incorporação da gestão
ambiental às atividades e rotinas que compõem a função produção nas organizações atuais.
Para isso se fez necessário um levantamento na literatura relacionada sobre os principais
conceitos e características que envolvem o tema, para que fosse possível evidenciar além de
uma contextualização, a real situação da incorporação da gestão ambiental nas organizações
no que se refere à sua função produção. Assim, o presente estudo caracteriza-se como um
levantamento bibliográfico sobre o tema em questão.
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Na consecução deste objetivo, realizou-se preliminarmente uma discussão acerca da função
produção no contexto atual, bem como da gestão ambiental nas empresas, posteriormente
discute-se a inserção de iniciativas de cunho ambiental nos processos produtivos das empresas
em geral. Por fim são apresentadas as considerações finais sobre o estudo realizado e as
referências utilizadas para tal.
2. Função produção
Todas as empresas de fabricação de bens, produtos diversos, possuem a tarefa ou função
denominada produção. Aquela relacionada ao ato próprio de produzir. Segundo Corazza
(2003), a função produção pode ser definida como o conjunto de recursos manejados na tarefa
manufatureira propriamente dita, podendo referir-se tanto aos equipamentos e instalações
como aos métodos de organização da produção e de controle da qualidade.
Para melhor visualização, destaca-se que ele envolve o recebimento dos inputs a serem
utilizados no processo, como matéria prima e/ou energia; sua transformação em bens de
produção, aqueles que serão comercializados pelas fábricas e/ou empresas; e os outputs que
são propriamente os bens fabricados. Todo este processo envolve uma gama de ferramentas,
máquinas, utensílios, mão de obra, tecnologia, conhecimento e recursos, estes últimos quase
sempre naturais como água, vegetais, terra, entre outros. Ou seja, muitos dos insumos da
produção fazem parte do meio ambiente.
Assim, a função produção é aquela que proporciona grande quantidade de transformações no
meio ambiente, uma vez que faz uso de um número de recursos considerável para produzir,
por isso, é uma área que possui grande envolvimento com a gestão ambiental, pois na
produção ela está mais explícita. Donaire (1999) afirma que os inputs do sistema produtivo
estão diretamente relacionados, na maior parte dos casos, a um conjunto de recursos naturais
explorados e os outputs relacionados à geração de impactos ambientais, que afetam a capacidade de suporte do planeta.
As empresas, com seus outputs, estão gerando cada vez mais elementos resultantes da
fabricação dos produtos, objetos que causam diversos impactos tanto pela sua inutilidade em
algumas ocasiões como pela utilização de muitos recursos que resultam em sua existência.
De um modo geral, o meio ambiente tem sido um bem econômico gratuito que a empresa
utiliza sem considerar ou influenciar no preço do produto ou serviço e sem considerar,
principalmente a finitude dos recursos naturais (KARKOTLI, 2004, p. 95).
Dessa forma, muitas discussões tem ocorrido nos últimos anos com a intenção de diminuir o
uso de recursos e a geração de elementos finais da produção, os quais poluem o meio
ambiente.
Segundo Rothenberg, Pill e Maxwell (2001), as decisões concernentes à gerência de sistemas
produtivos possuem implicações sobre a relação entre empresa e meio ambiente natural, uma
vez que é plausível assumir que as eventuais ineficiências de um dado sistema produtivo
tendem a coincidir com os altos níveis de poluição registrados pela empresa.
A partir daí, um grande número de organizações procura de alguma maneira introduzir
técnicas e iniciativas que garantam uma eficiente gestão ambiental, com processos de
produção mais limpa ou design para o meio ambiente. O item a seguir procura explanar de
que forma se dá a estratégia de gestão ambiental nas organizações.
3. Gestão ambiental nas organizações
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Atualmente, a sociedade está passando por um momento de transição entre padrões antes
pensados sobre como uma organização deve produzir seus produtos e agora novas maneiras
alternativas de produção.
Muitas organizações se voltaram para os objetivos no longo prazo e passaram a perceber que
qualidade, preço competitivo e bons serviços não representam mais os únicos diferenciais no
mercado (FERNANDES, 2001, p. 12). Elas procuram adequar-se aos novos requisitos desse
mercado relacionados à maior relevância social e ambiental. As formas alternativas de
produção dizem respeito à procura pela minimização dos impactos provocados pela retirada
de insumos do ambiente e conseqüente processo produtivo.
Isto porque, deve-se verificar que os recursos são esgotáveis e que há a necessidade, em
conseqüência, da manutenção de processos de extração de recursos e produção de insumos de
um modo responsável. Nesse sentido, algumas posturas empresariais pró-ativas exigem o
estabelecimento do que Boiral (2006) conceitua como Inteligência Ambiental (IA).
Outras empresas, segundo Karkotli (2004), investem na gestão ambiental com adequação de
programas como a ISO ou em responsabilidade social como forma de instrumentos gerenciais
para a capacitação e criação de condições para maior competitividade, qualquer que seja o seu
segmento econômico.
Na esfera produtiva, a gestão ambiental intervém, por um lado, no controle do respeito às
regulamentações públicas pelas diferentes divisões operacionais e, por outro, na elaboração e
na implantação de ações ambientais. Estas ações dizem respeito à manutenção, à
conformidade ambiental dos fornecedores, dos sítios de produção, etc.
No estágio ótimo de introdução da dimensão ambiental nas atividades de produção, as
questões ambientais passam a permear e determinar diversas decisões da manufatura
(JABBOUR; SANTOS, 2009). As empresas optam por implantar processos de produção mais
limpa (PML), a qual visa diminuir o uso de recursos na produção, ou design para o meio
ambiente, o qual está relacionado com a modificação da estrutura dos produtos também para
utilizar menos insumos na produção.
O gerenciamento ambiental nas empresas está quase sempre relacionado ao seu planejamento
estratégico, e este procura agir no sentido de modificar estruturas e processos, e estes últimos
são os responsáveis pela modificação do ambiente e também os que mais podem contribuir no
sentido de dar resultados positivos à sua correta consideração.
Os gerentes de produção não podem evitar a responsabilidade pelo desempenho de sua
organização em face ao meio ambiente. São geralmente falhas operacionais as raízes de
desastres ecológicos e as decisões de produção (como projetos de produto) podem causar
impacto em questões ambientais de longo prazo (SLACK, et al, 2002).
Assim, existem algumas maneiras pelas quais as empresas podem inserir ações de cunho
ambiental em seus processos de produção, conforme pode ser observado no item a seguir.
4. Inserção de atividades de cunho ambiental nas operações produtivas
É importante ressaltar que empresas das mais diversas tipologias podem modificar seus
processos de produção para maior eficiência no trato com questões ambientais; e muitas
oportunidades de negócio podem ser originadas desta incorporação. Isto porque são produtos
diferenciados, que estão se constituindo nos itens de maior preferência dos consumidores nos
últimos anos.
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Primeiramente, é importante destacar que a incorporação matricial da gestão ambiental
envolve a mudança de atividades e de rotinas preexistentes. Conforme já discutido no item
anterior, algumas técnicas como PML e design para o meio ambiente se tornam importantes
subsídios na mudança dos processos produtivos, e alguns estudos como em Macêdo, et al
(2009) e Macêdo, Gadelha e Santos (2010) apresentam resultados positivos da implantação de
tais ferramentas.
Mas algumas modificações podem ser realizadas sem o auxílio prévio de uma ferramenta
específica. Nas atividades de compra, DONAIRE (1999) reputa como indispensável o
acompanhamento dos fornecedores, a fim de assegurar a melhoria do desempenho ambiental
dos insumos.
Outra maneira é a avaliação contínua de equipamentos da fábrica, como forma de evitar
gastos desnecessários com energia, ou propriamente as instalações hidráulicas, que garantem
o eficiente uso da água utilizada. Mas a maioria das modificações encontra-se nos métodos de
organização da produção e controle de qualidade.
Corazza (2003) aponta que, em relação aos métodos de produção, a inovação é o maior
contribuinte à inserção da consideração ambiental nas atividades produtivas. Para a autora, é
possível inovar no produto, o que chama de product offsets, que é a melhoria do desempenho
ambiental do produto através de melhorias em critérios como: desempenho técnico, qualidade,
segurança, redução de custos (pela substituição de materiais ou pelo uso de menos
embalagens, por exemplo), preço de revenda ou maior possibilidade de reaproveitamento
(devido a facilidades de reciclagem ou de desmanche, por exemplo) e redução de custos para
sua disposição final.
Muitas empresas estão engajadas em atividades como reaproveitamento de insumos da
produção, como é o caso de indústrias de cachaça (reaproveitamento do bagaço e do vinhoto)
ou de sapatos (pelos restos da produção para reciclagem em papel). Inovações no produto
estão relacionadas à produção, uma vez que quase sempre é necessário modificar estruturas
produtivas para dar tal suporte à tais inovações.
Ou ainda conforme Corazza (2003) é possível inovar no processo, o que é chamado de
process offsets, que é quando, ao lado da redução da poluição, o novo processo leva a: melhor
produtividade dos recursos; menor downtime (seja devido ao melhor controle seja à
manutenção mais cuidadosa); economia de materiais (devido à redução, substituição,
reutilização ou reciclagem de insumos); melhor utilização de subprodutos; menor consumo de
energia durante a produção; redução de estoques de materiais (e dos custos associados);
conversão de resíduos em subprodutos com valor agregado; redução de custos com disposição
de resíduos e maior segurança no ambiente de trabalho.
Estas iniciativas constituem-se em oportunidades organizacionais, que emergem como
estratégias às empresas, às quais têm como vantagens maior eficiência organizacional com a
diminuição de custos, maior integração dos funcionários às atividades, uma vez que estes
sentem-se como participantes de processos mais elaborados e organizados, ou ainda,
processos mais responsáveis. Algumas iniciativas podem estar vinculadas à procura pela
geração de menos gases, resíduos da produção, tóxicos líquidos ou sólidos, dentre outros.
Algumas estratégias para a mitigação da mudança climática, por exemplo, podem ser
evidenciadas no estudo de Hoffman (2005). Este autor sistematizou sete categorias que podem
gerar vantagens competitivas para as empresas que formulam tais iniciativas, e que podem
explicar acordos voluntários, individuais ou setoriais para a redução de emissões de gás.
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No entanto, Jabbour e Santos (2009) evidenciam que controlar as emissões de gás não é
questão, apenas, de monitorar o volume lançado e estabelecer metas conducentes à sua
redução.
Um número considerável de empresas pretende utilizar as perspectivas da mudança climática
para fins de controle interno: empresas manufatureiras vêm inserindo aspectos ambientais em
seu processo de inovação (KUEHR, 2007); instituições bancárias vêm incluindo indicadores
de emissão de gás em seus processos de tomada de decisão sobre investimentos
(DLUGOLECKI; LAFELD, 2005); um grande número de empresas vem surgindo para
explorar, exclusivamente, o mercado de tecnologias limpas, com ênfase na mitigação das
emissões de gás (SMITH, 2001) (JABBOUR; SANTOS, 2003).
As tecnologias limpas visam, sobretudo, não tanto a diminuição da geração de resíduos, mas a
diminuição do uso de recursos e em conseqüência dos impactos ambientais.
Embora os possíveis impactos ambientais variem segundo o setor industrial ao qual pertence a
organização, há um conjunto de indicadores ambientais que são suficientemente gerais para
que sejam considerados como ponto de partida para uma análise do desempenho ambiental da
produção. Esses indicadores dizem respeito à qualidade do ar e da água, à quantidade de
energia e de água consumidas, à geração e à disposição de resíduos (inclusive a possibilidade
de reciclagem) e, ainda, à segurança no trabalho (condições de iluminação, ventilação,
barulho, poeira, calor, vibração, temperatura, odores, substâncias tóxicas etc.) (CORAZZA,
2003).
A partir destas especificações, observa-se que a questão ambiental passa a ser um novo
objetivo de desempenho às organizações, ao lado, para Jabbour e Santos (2009) de prioridades
clássicas como custo, flexibilidade, qualidade e velocidade das entregas. A figura 1 a seguir
explana o entendimento de Angell e Klassen (1999) apud Jabbour e Santos (2009) de que as
questões ambientais afetam as decisões da função produção em suas várias facetas.
Figura 1 – Integrando a questão ambiental nas decisões e relações da função produção
Os autores consideram, a partir da leitura desta figura, que a dimensão ambiental, enquanto
novo objetivo de desempenho da produção, fomenta suas congêneres competitivas:
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a) O objetivo de desempenho de custo é potencializado pelas ações de gestão ambiental, que
tendem a diminuir os desperdícios, estimular a descoberta de novas matérias-primas,
induzindo a reutilização e reciclagem de materiais. Essas medidas ambientais tendem a
reduzir o custo por unidade produzida em uma dada empresa;
b) A gestão ambiental pró-ativa possui como conseqüência a mitigação dos impactos
ambientais e da eclosão de acidentes ambientais, contribuindo para que os prazos
agendados para as entregas de produtos aos consumidores sejam cumpridos;
c) A consideração da dimensão ambiental no desenvolvimento de produtos leva a empresa à
prospecção de inovações ambientalmente adequadas, o que potencializa a flexibilidade da
produção de uma dada empresa;
d) A gestão ambiental pró-ativa incrementa os objetivos da gestão da qualidade, que deve
atender aos almejos dos consumidores ambientalmente responsáveis.
O papel da função produção concentra-se em participar do processo de tomada de decisão
explorando suas competências no desenvolvimento de processos. Justifica-se aqui o fato de a
função produção ser uma das principais contribuintes ao adequado gerenciamento ambiental.
É possível destacar ainda, algumas iniciativas de cunho geral, que podem ser praticadas pelas
empresas que ainda não podem aplicar práticas tão abrangentes:
a) Incentivar a reciclagem de resíduos ou a reutilização de produtos. Muitas empresas fazem
uso de um serviço de refil onde as embalagens plásticas vazias dos produtos podem ser
reenchidas com redução no preço de compra e fabricação;
b) Enfocar o retorno ao meio ambiente dos recursos utilizados. Este retorno pode envolver
desde políticas de reflorestamento até estudos para mitigação de impactos ambientais no
meio específico. Por exemplo, empresas de cerâmica podem procurar reutilizar a água
usada na produção, desenvolvendo mecanismo para que ela seja introduzida novamente
no processo produtivo;
c) Comprometer-se com a redução do desperdício e de poluentes, conservando recursos e
reciclando materiais em todos os estágios do ciclo de vida do produto;
d) Utilização de recursos renováveis de energia como energia solar, bioenergia e/ou matérias
primas. Ou ainda é possível aperfeiçoar seu uso por meio de modificações no horário de
trabalho;
e) Realizar compras socialmente responsáveis. Contatar possíveis fornecedores que
desempenhem papel sustentável.
f) Avaliar o impacto do processo de transformação dos produtos e a realização dos serviços
no meio ambiente e nas comunidades nas quais vivem e trabalham os funcionários com o
objetivo de contínuo aperfeiçoamento.
Todas estas “tarefas” geralmente são realizadas por empresas que estão começando a ter o
efetivo compromisso ambiental. A partir daqui, é possível o estabelecimento de cálculos para
verificação da viabilidade de mudança dos processos produtivos. Posteriormente, depois de
algum tempo, as empresas geralmente recebem reconhecimentos ou ainda certificações por
suas atitudes em benefício ambiental.
Foi demonstrado no estudo de Jabbour e Santos (2009) que quando a função ambiental se
torna estratégica para a empresa, o desempenho da função produção é também considerado
estratégico. O Corolário dessa interface, segundo os autores, é que as estratégias de produção
e gestão ambiental devem estar fortemente alinhadas, a fim de se desenvolver processos mais
limpos e produtos adequados ao crescente mercado de consumidores verdes.
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É esse mercado que está sendo um dos responsáveis pela modificação das estruturas das
empresas no que concerne à fabricação dos produtos.
Corazza (2003) discute em seu estudo dois exemplos da integração da gestão ambiental na
produção, os quais foram encontrados em FAUCHEUX et all (1997). No primeiro, uma
empresa alemã de calçados Ganther Schuhfabrik GmbH reduziu a utilização de energia por
meio de uma série de medidas. O ar, aquecido no processo de produção, é utilizado para
aquecer as instalações de produção. Esta medida, associada a um melhor isolamento térmico
das instalações, permitiu 30% de redução dos custos de aquecimento. No segundo exemplo, a
cervejaria alemã Holsten Brauerei AG reduziu, em 10 anos, a utilização de água em 52%, pela
adaptação de novos processos de produção e pela reutilização das águas residuais.
FAUCHEUX et all (1997) alertam que a simples criação do cargo e/ou departamento de
gestão ambiental – sem a incorporação geral da dimensão ambiental pelas demais atividades
da organização – pode ser tão pouco efetiva para o desempenho ambiental como a introdução
de tecnologias de final de circuito.
É importante destacar que medidas para introdução de técnicas de gestão ambiental
apresentam-se como necessárias e relevantes, dado o contexto atual, mas é imprescindível que
as empresas primeiramente tenham conhecimento de como estas iniciativas podem ser dar,
quais suas conseqüências e o que requerem para ser implantadas. A partir daí será feito o
planejamento responsável pelas modificações.
Com isso, justifica-se a realização de estudos de cunho informador, que integram e reúnem
informações, conforme condiz com o objetivo da presente pesquisa.
5. Considerações Finais
O presente estudo apresenta algumas oportunidades e desafios para as empresas que procuram
inserir iniciativas de cunho ambiental em seus processos produtivos. Como também discute a
importância e relevância que este tema tem adquirido no contexto atual de negócios. Foi
abordado que existe uma necessidade ou interesse das organizações em terem seus negócios
sustentáveis. Para a adoção de tal posicionamento, é exigido um papel intensivo da função
produção.
Esta reflexão é necessária, uma vez que as empresas precisam dispor de conhecimento
suficiente ao se adaptarem e implantarem tais iniciativas. O trabalho desenvolve uma
perspectiva sobre a importância dos processos produtivos das empresas, no que concerne
tanto a imagem interna quanto externa. São os processos de produção que são modificados em
detrimento da conservação ambiental, e são eles que levam toda a estrutura empresarial,
incluindo pessoas, também a se modificar.
As crescentes restrições dos mercados exigentes e as aparentes ameaças da legislação
ambiental podem ser fonte de grande competitividade, inovação e de implantação de novas
técnicas de gestão, melhoria de processos e conseqüentes produtos e serviços. No entanto, as
empresas devem verificar que só o conhecimento real sobre técnicas e metodologias eficientes
de produção é que podem garantir a eficiência dos processos.
O presente estudo constitui-se numa pequena reunião acerca de pesquisas e opiniões de alguns
estudiosos sobre o tema em relação às potencialidades que devem ser buscadas e
desenvolvidas. São essas oportunidades as mais requisitadas pelos stakeholders. É possível
evidenciar que fábricas de diferentes produtos podem inserir técnicas distintas de relevância
ambiental.
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E os empreendedores, empresários e gestores precisam conhecer como se dá a inserção da
gestão ambiental em sua empresa, independente de sua tipologia ou missão. Por que a partir
daí é possível a reflexão sobre seu papel, sua importância e principalmente sobre sua
contribuição às gerações presentes e futuras.
Observa-se que é importante conhecer as principais características e oportunidades a serem
trabalhadas, de acordo com cada tipo e natureza de indústria. Também, a função produção tem
se modificado na medida em que se introduzem nos planejamentos estratégicos
organizacionais a intenção de gerenciar ambientalmente. Deve-se conhecer como as empresas
estão mudando e quais suas principais escolhas nesse sentido, evidenciando as
vulnerabilidades e oportunidades deste processo. Estudos mais amplos sobre a interligação
destas áreas podem ser desenvolvidos para melhores e necessárias especificações sobre o
tema na literatura relacionada.
É no âmbito da empresa que devem acontecer as novas idéias, as modificações propriamente
ditas e o compromisso com as soluções para os problemas ambientais que se delineiam, já que
é na corporação onde se processam as transformações dos recursos naturais que caracterizam
o consumo cada vez maior da nova sociedade industrial.
Referências
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