BRINQUEDOTECA: UMA ESTRATÉGIA DE HUMANIZAÇÃO PARA
ATENÇÃO BÁSICA
Pinto, RayssaNaftaly Muniz1;
Brito, Jéssica Ladyanne Oliveira P.2;
Souza, Priscilla Tereza Lopes2;
Alves, Thaysmara Martins2;
Morais, Gilvânia Smith da Nóbrega3.
RESUMO
A humanização suscita modificações nos modelos de atenção e gerenciamento em todos
os níveis de atenção a saúde, indicando a necessidade de inovação das relações entre
usuários e profissionais e destes entre si. Dentro da Estratégia Saúde da Família (ESF) tal
necessidade abrange ações singulares, tendo em vista que cada comunidade tem suas
particularidades no âmbito social, econômico, educativo e cultural. Além disso, no que
tange ao ser criança, a ESF não favorece a dinamicidade de ações que podem tornar esse
ambiente mais prazeroso, tendo em vista que essa faixa etária necessita de uma atenção
mais centrada na subjetividade. Para isso, faz-se necessário a criação de espaços
recreativos como as brinquedotecas que possibilitem a implantação de atividades lúdicas
que permitam uma maior socialização e expressão de sentimentos, por vezes
despercebidos. Deste modo, o trabalho em questão, de natureza bibliográfica, objetiva
abordar a importância da brinquedoteca como uma estratégia de humanização na atenção
básica. A brinquedoteca pode ser entendida como um espaço de socialização infantil que
utiliza características imaginativas para produzir o significado da vida, favorecendo um
ambiente educacional para a criança e possibilitando que esta represente o discurso
externo e o interiorize, passando assim a construir traços de sua personalidade. Na
Estratégia de Saúde da Família, a brinquedoteca se apresenta como um espaço receptivo
onde o infante encontrar algo que se aproxima de seu imaginário, haja vista que o
ambiente da brinquedoteca proporciona um local onde os profissionais podem realizar
1
Relatora. Discente do Curso de Graduação em Enfermagem da UFCG –Campus Cuité-PB. E-mail:
[email protected]
2
Discente do Curso de Graduação em Enfermagem da UFCG –Campus Cuité-PB
3
Enfermeira. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da UFCG- Campus Cuité-PB. Email:[email protected]
3
atividades lúdicas diversificadas, voluntárias e onde a criança expressa desejos, emoções
e sentimentos. Vale ressaltar que este espaço deve possuir cores, formas, cheiros,
texturas, jogos, iluminação, fantasias e música agradáveis criando assim um ambiente
mais receptivo e humanizado. A brincadeira deve ser vista e tratada com seriedade e
responsabilidade, visto que é a partir dela que a criança utiliza sua criatividade para
elaborar suas ações, regras de convivência interpessoal e raciocínio. Destarte, a
brinquedoteca, no serviço de atenção básica, propicia um local de participação e interação
entre as crianças, seus cuidadores e a comunidade, sendo, pois, notório seus benefícios
para as crianças assistidas.
DESCRITORES: Criança. Humanização da Assistência. Atenção Primária à Saúde.
I. INTRODUÇÃO
A humanização suscita modificações nos modelos de atenção e gerenciamento em
todos os níveis de atenção a saúde, indicando a necessidade de inovação das relações
entre usuários e profissionais e destes entre si. Em outros termos, humanização surge
atrelada a incorporação de práticas concretas voltadas para a produção de saúde da
população melhorando as condições de trabalho e concomitante a isso inovando o vínculo
profissional/usuário dentro do serviço de saúde(1).
A humanização do ambiente de trabalho é um subproduto da necessidade de
incorporar o amor nas relações profissionais e interpessoais; é a administração
dos ressentimentos. Entendida, ainda, como a capacidade de se colocar no
lugar do outro, a equipe passa a cuidar o cliente com respeito e dignidade. (...)
(2)
.
Por outro lado, o Sistema Único de Saúde (SUS) ao defender a universalidade,
equidade e integralidade da assistência em saúde apresenta as nuances para uma prática
humanizada bem como retira o “caráter de mendicância” e transforma a “saúde em
direito”(3).
Alguns aspectos elaborados pelo SUS são relevantes para promover uma
assistência humanizada, como “ambiência” que são modificações no espaço físico no que
se refere à morfologia, iluminação, cheiro, cor, sinestesia, arte e som(4) e também a
inserção da “clínica ampliada” que inclui outros métodos de tratamentos do paciente,
onde não só ver o lado biológico em si, mas o contexto social em que este se encontra(5).
Contudo, o cuidado humanizado vem sendo amplamente difundido no âmbito
hospitalar a partir de as ações que contemplam desde o espaço físico, estendendo-se para
o cuidar em sua essência. Em contrapartida pouca atenção é dada à humanização no
ambiente de atenção básica, como nas Unidades Básicas de Saúde em que o cliente,
muitas vezes, não está enfermo, mas que busca atendimento otimizado e de qualidade.
Assim, é necessária a elaboração de uma forma de atenção humanizada
consubstanciada tanto no indivíduo como na comunidade, além disso, é essencial
otimizar formas de amparo e inserção da clientela, fortalecendo o vínculo entre as
equipes de saúde e os usuários.
É oportuno destacar, que o profissional de saúde inserido no ambiente da atenção
primária é privilegiado por julgar o convívio social da sua comunidade favorecendo uma
melhor forma de relação com os usuários e a elaboração de projetos voltados para
necessidades do indivíduo e da comunidade(3).
A diversidade de situações vivenciadas na atenção básica requer, ainda, a
atuação articulada com os movimentos sociais e outras políticas públicas,
potencializando a capacidade de respostas para além das práticas usualmente
desenvolvidas pelos serviços de saúde(6).
Os espaços da atenção básica favorecem encontros que podem ser produtivos
entre os profissionais de saúde e entre estes e a população usuária do SUS(7). Contudo,
esses espaços não favorecem a dinamicidade de ações que podem tornar esse ambiente
mais prazeroso para as crianças, tendo em vista que essa faixa etária necessita de uma
atenção mais centrada na subjetividade. Para isso, faz-se necessário a criação de espaços
recreativos que possibilitem a implantação de atividades lúdicas que permite uma maior
socialização e expressão de sentimentos que por vezes são repreendidos.
Ultimamente, vivemos um momento onde as crianças na atenção primária a saúde
não dispõem de espaços significativos para brincar, se socializar com outras crianças,
perder seus medos, criar suas próprias brincadeiras e aumentar sua percepção cognitiva,
sendo vítimas de pequenos espaços tumultuados de brinquedos eletrônicos que pouco
possibilita o acesso a criação ou brinquedos que não são adequados para sua idade ou
para a condição que se encontra. Com isso, existe a necessidade de um espaço criativo e
seguro onde a criança possa se desenvolver, e a brinquedoteca tem como função principal
oferecer esse espaço e resgatar um direito que vem sendo negado às crianças, o de ser
criança(6).
Deste modo, o trabalho em questão objetiva abordar a brinquedoteca como uma
estratégia de humanização na atenção básica.
II. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
O estudo trata-se de uma pesquisa bibliográfica que segundo Marconi e Lakatos
pode ser considerada como um estudo formal que utiliza pensamentos reflexivos sobre a
temática abordada em textos adquiridos através de livros e artigos, e solicita uma análise
científica, constituindo tanto em um caminho para se conhecer a realidade, como na
busca por respostas para as questões propostas(7).
Para a operacionalização deste estudo as pesquisadoras levaram em consideração
as seguintes etapas: levantamento bibliográfico, análise e interpretação de material
bibliográfico, seleção de material bibliográfico, construção preliminar do estudo e
redação final do trabalho.
Primeiramente foi realizado um levantamento bibliográfico acerca da temática,
para tanto as autoras levaram em consideração o seu próprio acervo pessoal bem como
artigos disponíveis na base de dados da Scielo (ScientificElectronic Library Online), uma
biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos
brasileiros e manuais do Ministério da Saúde acerca do assunto abordado.
Posteriormente foi realizada uma análise e interpretação do material bibliográfico
compilado de modo a selecionar os textos relacionados ao objetivo proposto para este
estudo. Após seleção da bibliografia relevante para o trabalho procedeu-se a construção
de um esboço preliminar do trabalho no intuito de facilitar a construção da pesquisa
permitindo subsequentemente a redação final desta pesquisa.
Vale ressaltar que as pesquisadoras levaram em consideração as diretrizes éticas
dispostas na resolução 311/2007 do Conselho Federal de Enfermagem a qual regulamenta
o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem em especial no que se refere aos
capítulos III - Do ensino da pesquisa da produção técnico – Científica; e IV – Da
publicidade(8).
III. ARGUMENTAÇÃO TEÓRICA
Conforme dispõe o estatuto da Criança e do Adolescente, toda criança possui o
direito de brincar, independente de sua idade, raça ou condição socioeconômica, sendo
necessário que a população faça cumprir esse direito e que ele seja respeitado. Assim,
compreendemos que o brincar é antes de tudo uma atividade fundamental para o
individuo, pois possui uma singular importância no seu processo de desenvolvimento
físico, emocional e intelectual(9).
A brincadeira possui caráter voluntário, consciente e configura um espaço de
socialização infantil que utiliza características imaginativas para produzir o significado da
vida, favorecendo um espaço educacional excepcional para a criança e possibilitando que
esta represente o discurso externo e o interiorize, passando assim a construir traços de sua
personalidade(10).
Conforme Vygotsky (1982, 1988) o brincar é o momento de maior relevância para
o ser infantil, propiciando a criação da situação imaginária, da representação e da
personalidade da criança. Para Bateson (1977) o brincar possui o poder de estabelecer
comunicações, visto que somente realizam essas atividades aqueles que se comunicam e
que partilham as mesmas vivências(11).
Portanto o brincar serve de veículo de expressão de sentimentos, e ainda revela
um meio de integração entre o indivíduo e o ambiente que o cerca. As atividades lúdicas
são essenciais e autênticas para crianças contendo um significado que vincula um meio de
expressão e de comunicação, que possibilita a exposição de ações espontâneas que
revelam seus sentimentos. Através destas ações, a mesma passa a adquirir valores,
comportamentos, que possibilitam o desenvolvimento de seu conhecimento, onde permite
aguçar suas habilidades motoras e físicas(12).
A brinquedoteca proporciona um espaço organizado, onde as crianças passam ser
observadas holisticamente. É nesse espaço, que se avaliam comportamentos simples e
fáceis, dando oportunidade a criança de conhecer e analisar o brinquedo, antes de
escolhê-lo. O infante tem condições de testar os brinquedos e verificar se a imagem que
tinha deles, por meio da propaganda, era verdadeira. É por meio da atividade lúdica que a
criança volta para si os valores éticos da sociedade a qual pertence(13).
Na atenção primária à saúde, a brinquedoteca tem a finalidade de propiciar um
espaço de participação e de interação entre as crianças e os seus cuidadores, contudo a
relação com a comunidade não é algo tão secundário quanto possa parecer(14). Para a
implantação da brinquedoteca faz-se necessário levar em consideração aspectos
peculiares de cada lugar, adequando o espaço de acordo com a necessidade de cada
comunidade.
Neste espaço devem ser adotadas medidas de ambiência, propostas e defendidas
pelo Ministério de Saúde a partir da Política Nacional de Humanização, pois a
brinquedoteca deve ser um ambiente confortável na qual o meio infantil esteja em
evidência, para que possa ocorrer uma singular identificação. Portanto, este deve
apresentar cores quentes ou frias (que podem acelerar o metabolismo ou até mesmo
acalmar), tons, formas, cheiros, texturas, jogos, iluminação, fantasias e música agradáveis
criando assim um ambiente mais receptivo e humanizado(15).
A brinquedoteca na Estratégia de Saúde da Família (PSF) deve incluir um espaço
de acolhimento que se aproxime do imaginário do infante, pois muitas vezes este associa
à visita a unidade básica a um processo doloroso, interiorizando e criando uma grande
resistência aos procedimentos de saúde realizados. Contudo,
O acolhimento não é um espaço ou um local, mas uma postura ética; é um
compartilhamento de saberes, angústias e invenções onde os profissionais
devem ter o compromisso de adequar de forma dinâmica, métodos de amparo
para proporcionar as crianças segurança e confiança através de uma escuta
qualificada e recepção que proporcione a interação do usuário e profissional(15).
Assim, a brinquedoteca proporciona um ambiente para que as atividades lúdicas
sejam diversificadas, voluntárias, e onde a criança expresse desejos, emoções e
sentimentos. A brincadeira deve ser vista e tratada com seriedade e responsabilidade,
visto que é a partir dela que a criança utiliza sua criatividade para elaborar suas ações,
regras de convivência interpessoal e raciocínio(10).
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A brinquedoteca na atenção básica configura-se em uma estratégia de
humanização haja vista que além de se constituir em um ambiente que permite à criança
se expressar e se relacionar, auxilia na minimização do sofrimento desta diante de
procedimentos dolorosos que podem ser realizados na Estratégia Saúde da Família, a
exemplo da vacinação.
Espaços como a brinquedoteca promovem a socialização e integração das crianças
umas com as outras e com o ambiente externo. Permitindo assim, que o infante amenize
seus sentimentos de angústias, tensões e ansiedades através de dramatizações, desenhos,
modelagens, maneiras que aguce sua imaginação, trazendo a desmistificação de fantasias
e permitindo uma maior liberdade de expressão.
Destarte, é importante que os profissionais de saúde saibam utilizar esse recurso
de humanização com sabedoria para que a criança possa ser assistida de forma integral,
possibilitando assim, uma melhor avaliação do imaginário infantil e o estabelecimento de
vínculos entre o profissional e a criança. Portanto, o Enfermeiro precisa estar atento as
expressões desta frente aos recursos lúdicos empregados na ESF e as modificações de
comportamento do infante.
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