LEITURA NA ESCOLA: PERCEPÇÃO DE PROFESSORES E ALUNOS DE
4ª E 8ª SÉRIES
GROXKO, Crislaine Maria – PUCPR
[email protected]
Área Temática: Profissionalização Docente e Formação.
Agência Financiadora: Não contou com financiamento.
Resumo
Este trabalho sobre “Leitura na Escola: Percepção de Professores e alunos de 4ª e 8ª séries”
tem como objetivos investigar o grau de importância que os professores e alunos atribuem à
leitura como instrumento de aprendizagem, verificar os hábitos de leitura de professores e
alunos e relatar as formas de encaminhamento e atividades de leituras pelo professor.
Pretende-se investigar se os professores consideram e utilizam a leitura como instrumento de
aprendizagem e como os alunos percebem a leitura no espaço da escola. Para a pesquisa,
utilizou-se a abordagem qualitativa, tendo como instrumento de coleta de dados o
questionário. Foram aplicados dois tipos de questionários, um para o professor de 4.ª série e
para o professor de 8ª série e o outro para dezesseis alunos de 4.ª série e vinte alunos de
8ªsérie. Para a análise dos dados, após a leitura dos dados, foram organizadas as seguintes
categorias: Importância da Leitura, Como criar o hábito da Leitura, Atividades Anteriores e
Posteriores à Leitura, Leitura como Instrumento de Aprendizagem. Os dados foram
analisados com base em autores, como Silva (1983), Zilberman (1991), Smith (1999), Aguiar
(2001) e Bamberger (1991). Os resultados apontam que os professores consideram a leitura
uma grande aliada da aprendizagem, mas informaram que não lêem muito, já seus alunos
informam que lêem mais e nem todos consideram a leitura muito importante. O professor da
8ª série não utiliza muitos recursos anteriores e posteriores à leitura, ao contrário do professor
da 4ª série.
Palavras-chave: Leitura; Aprendizagem; Alunos; Professores.
Introdução
A leitura é imprescindível ao processo de decodificação das informações. Entretanto,
percebe-se que grande parte da população não desenvolveu habilidades necessárias para uma
leitura crítica e reflexiva, não havendo o interesse, o gosto pela leitura, o qual deve ser um
“exercício” a ser praticado constantemente, pois é indispensável manter-se informado.
Principalmente para os professores que devem “dominar as técnicas de uma boa leitura”, para
estimular seus alunos, desde cedo, a tornarem-se leitores. Para o processo de aprendizagem,
na escola, a leitura é essencial.
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Na sociedade atual, chamada de sociedade do conhecimento, da informação, todos
são atingidos diariamente por uma “onda” de notícias. Estas vêm de todos os lados e por meio
de diversas formas, seja por meio do jornal, televisão, rádio, outdoors, imagens, símbolos...
Percebe-se, no entanto, que a sociedade em geral não considera, não reconhece a
leitura como sendo primordial para as relações humanas, pois é ela que viabiliza a
comunicação, a “compreensão de mundo”, o resgate da história, das memórias. Ela fornece
subsídios para intervir na realidade, lidar com as informações escritas. Ler é mais que apenas
decifrar símbolos.
O governo federal, no ano de 2006, lançou programas de incentivo à leitura, como o
Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), que foi lançado durante a Bienal Internacional do
Livro, em São Paulo. O objetivo é aumentar o índice de leitura do brasileiro em 50%, de 1,8
para 2,7 livros por habitante ao ano.
O Ministério da Educação, desde 1997, vem incentivando o hábito da leitura e o
acesso à cultura junto aos alunos, aos professores e à comunidade em geral mediante a
execução do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). O programa consiste na
aquisição e na distribuição de obras de literatura brasileira e estrangeira, infanto-juvenis, de
pesquisa, de referência, além de outros materiais de apoio a professores e alunos, como atlas,
globos e mapas.
Essa defasagem pode ser considerada como “atraso cultural” (em relação ao hábito
de leitura), a dificuldade que as pessoas se deparam ao serem instigadas a interpretar algum
texto, ou até mesmo alguma informação, a “falta desse gosto” tão importante no nosso
cotidiano.
Diante desse quadro, questiona-se: Se os professores não foram estimulados a serem
leitores, como podem eles estimular seus alunos a ler? Os professores compreendem o sentido
da leitura para a aprendizagem? Sabem como transformá-la em instrumento de aprendizagem?
Reconhecem a importância desse ato para a vida social?
Para tal prática, faz-se necessário que, primeiramente, o professor conheça a real
importância da leitura e como utilizá-la na prática pedagógica. Diante disso, questiona-se:
como transformar a leitura em instrumento da prática pedagógica?
Com base nas questões levantadas, pergunta-se: “Como professores e alunos de uma
turma de 8.ª e 4ª séries do Ensino Fundamental percebem o uso da leitura no espaço da
escola?
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Na medida em que a sociedade depara-se com significativas transformações no
contexto social e tecnológico, surge a necessidade de inovação na área educacional, pois a
demanda de informações cresce diariamente. Devido a essa situação, os professores são
convocados a inovar sua prática, criando projetos para a construção do conhecimento. Dessa
maneira, torna-se imprescindível uma sólida formação dos novos profissionais para atuarem
de maneira crítica no mundo que os cerca.
Na educação, a literatura oferece grande contribuição para a aquisição e
aperfeiçoamento da linguagem escrita (são dois âmbitos intimamente ligados), pois para
escrever, deve-se ter algo a dizer, deve-se “saber” como dizer, conhecer os diversos tipos de
textos, ser informado e ter condições para atribuir significados ao que se lê.
A leitura geralmente viabiliza a aprendizagem, pois somos o que lemos. Quem nunca
lê ou quem lê muito pouco, não conhece nem o mundo em que vive nem os mundos que
podemos “conhecer”.
Além de todos esses fatores, a leitura é, também, um elemento “desalienante”, que
torna o ser capaz de reivindicar seus direitos e interferir na vida social de maneira crítica. A
leitura é libertadora.
Abordar-se-á uma visão mais social, política da problemática da leitura,
fundamentada em autores como Silva (1983), Foucambert (1994), Smith (1999), Zilberman
(1991), Aguiar (2001).
Questão de Leitura
Percebe-se que numa cultura onde não há tradição da leitura, incentivos, acesso e até
mesmo grande parte da população é analfabeta, torna-se uma prática possível apenas a uma
pequena parte da população. Esses aspectos são corroborados por Silva (1997, p. 30) ao dizer:
“[...] a leitura é um processo individual, inaugurado a partir da alfabetização, o acesso a esta
última depende da organização da sociedade e do Estado que ajuda a mantê-la e a reproduzila”. Na mesma obra, o autor ainda descreve a situação da “lei-dura” ao apontar quatro
aspectos, onde se desvelam os motivos que “impedem”, “bloqueiam” e “favorecem” a
sociedade quanto ao hábito de ler. São eles:
- Quando os cidadãos tornam-se leitores, conseqüentemente, seu poder de
contestação e crítica aumenta, pois deixam de ser alienados, podendo, então, inserir
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suas opiniões na política, portanto, quanto mais distante a possibilidade de ler,
melhor.
- Os programas de pesquisa são mínimos, tendo incentivos mínimos.
- O gosto pela leitura é pouco incentivado, tanto nos alunos, quanto nos professores,
estes não recebem estímulo algum, pois seus salários impedem a aquisição de um
acervo e as horas excessivas de trabalho impossibilitam um momento para tal
prática.
- Os especialistas que fazem parte da ciência na área de leitura, trabalham de forma
não integrada, dificultando a profunda análise do problema.
Em pesquisa realizada no Rio de Janeiro, por Medina e Almeida (apud SILVA, 2000,
p. 40), “Hábitos de Leitura: uma abordagem sociológica” constata-se que a classe C da
população não lê, a classe B prioriza a televisão e somente a classe A lê. A leitura torna o ser
mais crítico e reflexivo, pois conforme afirma Foucambert (1994, p. 5), “Ler significa ser
questionado pelo mundo e por si mesmo [...] significa construir uma resposta que integra
parte das novas informações ao que já se é [...]”.
A não-leitura é um problema relacionado aos vários segmentos da sociedade, tanto
cultural, quanto econômico. A classe desprivilegiada é a mais atingida, pois “não há tempo”
para tal atividade, inclusive existem muitos pseudo-alfabetizados que apenas sabem assinar
seus nomes e há ainda aqueles que decifram os códigos da palavra escrita, mas não
compreendem o que lêem, os denominados analfabetos funcionais.
Esta classe, na maioria das vezes, não tem acesso ao livro e, também não possui
possibilidade de adquiri-lo.
A leitura permite ao homem transformar a sociedade, pois por meio dela, adquire-se
conhecimento, toma-se partido de suas próprias idéias, deixa-se de ser alienado. Porém, faz-se
necessário que haja condições para o exercício em questão, como: ter acervos
disponibilizados, tomar a leitura como um exercício diário, existir estímulos no âmbito
social...
Para um sujeito que não possui o hábito da leitura, torna-se muito complicado, por
exemplo, ler uma obra de duas centenas de páginas, o que um leitor o faria em questão de
horas. A tendência é que as pessoas que lêem lerão cada vez mais e as pessoas que não lêem
lerão cada vez menos.
Na sociedade atual, está-se permanentemente rodeado por diferentes meios de
comunicação, principalmente a televisão, sempre tão arrojada e “convidativa”. Pergunta-se,
então, para que ler? Em seu livro, Silva (2000, p. 39) defende algumas questões sobre a
importância da leitura, apoiado em Lisboa.
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O fato é que os chamados audiovisuais comunicam num tempo limitado, enquanto a
letra impressa está sempre disponível. Além disso, esta dispõe de uma credibilidade
de documento, podendo ser consultada, exibida e guardada. Depois, o escrito é
procurado pelos que o consomem, enquanto a comunicação audiovisual nos chega
como uma visita. Isto implica numa participação maior no processo da comunicação
[...]; engenhosas telas e aparelhos eletrônicos [...] mais parecem pensar por nós do
que transmitirem mensagens e informações.
Os meios eletrônicos de comunicação são os que mais restringem as escolhas, pois a
única escolha que se tem é um determinado programa que será transmitido naquele horário.
O indivíduo não pode filtrar ou escolher um assunto de seu interesse, mas sim depende da
escolha das próprias emissoras, que, muitas vezes, utilizam-se da “ignorância” de seus
telespectadores para defender seus interesses políticos e sociais, mostrando apenas a sua visão
de cada assunto, deixando o receptor sem poder optar pelo seu ponto de vista, pois conhece
apenas a “versão” que lhe foi passada, propositalmente, impedindo-o de tomar uma posição
crítica.
Na leitura impressa, quem escolhe o autor, o assunto, é o leitor. Ele pode conhecer
diversas visões do mesmo assunto, tendo “autonomia” para analisar minuciosa e criticamente
o que lhe é passado. Enquanto nos eletrônicos, não se há tempo para tal reflexão.
A tradição da escrita é milenar, portanto ela proporciona, ao leitor, o conhecimento
da história de seu povo, de seu passado, de sua cultura. Há muito mais registros escritos que
eletrônicos.
Lendo, o sujeito entra em contato com a linguagem escrita, o que lhe favorece o
“poder” de argumentação e da boa escrita, possibilitando o sucesso em sua vida acadêmica e
social. Para Zilberman (1986, p. 7)
... a leitura, se é estimulada e exercida com maior atenção pelos professores de
língua e literatura, intervém em todos os setores intelectuais que dependem, para sua
difusão, do livro, repercutindo especialmente na manifestação escrita e oral do
estudante, isto é, na organização formal de seu raciocínio e manifestação.
Pode-se dizer que o livro geralmente abre muitas portas. Abre as portas para o
“mundo das idéias”. O homem que lê entra em contato com a sua própria realidade.
Segundo Smith (1999), não há um momento exato para aprender-se a ler, a gostar de
ler e reconhecer sua importância na formação do homem. Considera que se inicia a
aprendizagem da leitura desde a primeira vez que se tem uma idéia de escrita. Defende a idéia
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de existir dois insights fundamentais para que a criança inicie seu processo de leitura:
linguagem escrita faz sentido; linguagem escrita é diferente da falada.
A leitura era, antigamente, tida apenas como um meio de receber mensagens,
informações, comunicação. Porém, estudos revelam que o ato de ler é um processo mental, o
qual requer vários níveis e contribui altamente para o desenvolvimento do intelecto, conforme
afirma Bamberger (1991, p. 10) “A leitura é uma forma exemplar de aprendizagem”.
A leitura desenvolve a escrita, o poder de argumentação, auxilia na formulação de
perguntas e respostas correspondentes, promove o desenvolvimento do ser humano e a
liberdade; prepara para a vida profissional, adquire-se conhecimento e informação, enfim,
proporciona a capacitação plena do indivíduo. Conforme afirma Freire (apud BERBEL, 1999,
p. 19), “Quanto mais conscientizados nos tornamos, mais capacitados estamos”.
O professor desempenha um papel fundamental na aprendizagem quanto à
estimulação para o gosto e hábito da leitura. Cabe a ele estar atento ao tipo de leitura a ser
encaminhada aos seus alunos, pois de acordo com Bamberger (1991, p. 33), as leituras devem
estar de acordo com as idades. Para o autor, apoiado em Schliebe-Lippert e Beinlich, existem
cinco fases de leitura:
A) Idade dos livros de gravuras e dos versos infantis (de 2 a 5 ou 6 anos), ou fase
egocêntrica.
B) Idade do conto de fadas (de 5 a 8 ou 9 anos), que segundo Beinlich, é a “Idade de
leitura de realismo mágico”.
C) Idade das “histórias ambientais” ou da leitura “factual” (de 9 a 12 anos). Conforme
Beinlich: “Construção de uma fachada prática, realista, ordenada racionalmente,
diante de um plano de fundo mágico-aventuresco pseudo-realisticamente mascarado”.
D) Idade da história de aventuras: realismo aventuroso ou a “fase de leitura nãopsicológica orientada para o sensacionalismo” (de 12 a 14 ou 15 anos).
E) Os anos de maturidade ou o “desenvolvimento da esfera estético-literária da leitura
(de 14 a 17 anos).
Diante das fases da leitura citados, pode-se perceber que o professor poderá ser um
grande motivador ou “destruidor” do gosto de seu aluno pela leitura. Porém, os professores
precisam estar capacitados para enfrentar estes novos desafios, por meio de uma formação
permanente, contínua, estar adquirindo e aprimorando suas competências para a ação no
espaço escolar.
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Metodologia da Pesquisa
Este trabalho caracteriza-se como estudo exploratório numa abordagem qualitativa.
A pesquisa foi realizada em uma instituição de ensino da Rede Particular, localizada
na região metropolitana de Curitiba. A escola funciona em dois períodos: no período da
manhã, atende de 5.ª a 8.ª séries e integral, e à tarde educação infantil e ensino fundamental de
1.ª a 4.ª séries.
Os dados foram coletados por meio de questionário com dois professores do ensino
fundamental e seus respectivos alunos, sendo um professor de 8.ª série e vinte alunos e outro
professor de 4ªsérie e dezesseis alunos.
Percepção de alunos sobre a leitura
Os dados coletados foram lidos e organizados. Deles, emergiram as seguintes
categorias: Importância da leitura; hábito da leitura; atividades anteriores e posteriores à
leitura, leitura como instrumento de aprendizagem.
Importância da Leitura
Sobre a importância da leitura, 81% dos alunos de 8.ª série consideram-na importante
e 18% consideram-na parcialmente importante. Diferentemente da turma da 4ª série, onde
100% consideram o ato de ler importante. Vê-se que ao passar das séries o estímulo vai
diminuindo, perdendo-se, pelos alunos a visão da importância da mesma.
A maioria dos alunos da 8ª série demonstrou gostar de mais de um gênero de leitura.
Cerca de 66% preferem as leituras informativas e revistas, 81% preferem científicas e jornais
e apenas 27% têm preferência pelo gibi. Como mostra Aguiar (2001), esta é a fase da Leitura
crítica, que vai dos treze aos quinze anos, adolescência, fase da descoberta. O interesse voltase para os conflitos psicológicos e sociais, temas relativos à profissão, histórias, biografias,
ficção científica, conto, crônica, romance. Já na turma da 4ª série apenas um aluno tem
preferência por leituras informativas, 10% preferem curiosidades, 21% preferem leituras
científicas e revistas. Tendo a maioria dos votos os gibis, 63%. Os gibis são mais atrativos
para esta fase, pois como afirma Aguiar (2001), nesta faixa etária que vai dos 8 aos 11 anos,
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os alunos estão na fase da leitura interpretativa, mostrando preferências por livros de textos
curtos com algumas ilustrações, além de histórias que desenvolvam seu espírito de
observação, crítica e busca de novas soluções. Afirma Bamberger (1991, p.33) “As leituras
devem estar de acordo com as idades”.
Apesar de 81% da turma da 8ª série considerar a leitura importante, apenas 66% dos
alunos leram mais de 9 livros desde o início do ano e apenas 9% leram entre 1 a 3, 3 a 9 e 6 a
9 livros. Verificou-se que na turma da 4ª série o número de obras lidas foi mais significativo,
73 % leu mais de 9 livros, 5% de 1 a 3 livros e 6 a 9 livros e 10% tem apenas 2 livros lidos.
A escola, em relação aos alunos de 4ª série, parece ser uma grande “parceira” da leitura, pois
constantemente investe em livros, além do horário de cada turma possuírem 2 aulas semanais
na biblioteca para empréstimo e troca de livros.
Sobre se gostariam de ler mais, 100% de ambas as turmas responderam que sim,
alegando que a leitura torna os seres mais cultos, inteligentes e críticos, aprimora a escrita,
interpretação e vocabulário, conforme afirma Zilberman (1986, p.7):
Com efeito, a leitura, se é estimulada e exercida com maior atenção pelos professores
de língua e literatura, intervém em todos os setores intelectuais que dependem, para
sua difusão, do livro, repercutindo especialmente na manifestação escrita e oral do
estudante, isto é, na organização formal de seu raciocínio e manifestação.
Descreve uma aluna da 8ª série, “a leitura de hoje aborda temas mais interessantes
para os adolescentes, torna a leitura menos maçante”. Silva (1983) explica que: “Quando os
cidadãos tornam-se leitores, conseqüentemente, seu poder de contestação e crítica aumenta,
pois deixam de ser alienados, podendo, então, inserir suas opiniões na política”.
Constata-se que existe certa contradição neste aspecto, pois apesar de nem todos os
alunos considerarem a leitura importante, todos gostariam de ler mais. Certamente todos
sentem a necessidade da leitura.
Como criar o hábito da leitura
Os alunos da 8ª série defenderam que para incentivar o hábito da leitura, faz-se
necessário, principalmente, que os estímulos venham de casa, dos pais, dos professores e do
governo, como afirma um aluno ao ser questionado: “Baixar o valor do livro e haver mais
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incentivos por parte dos pais, governo e escola”. Segundo Silva (1997, p. 30) “... a leitura é
um processo individual, inaugurado a partir da alfabetização, o acesso a esta última depende
da organização da sociedade e do Estado que ajuda a mantê-la e a reproduzi-la”. Fica evidente
que a falta de estímulos do governo é, também, um dos fatores que bloqueiam o acesso à
leitura, pois há interesses políticos, uma sociedade “alienada” não tem o poder de contestar o
governo.
Na opinião dos alunos de 8ª série, para se desenvolver o hábito da leitura, é
fundamental a leitura de revistas e informativos, buscar leituras de seu interesse, começar
lendo pequenos livros. Sobre esse aspecto, assim um aluno se posicionou: “Com o incentivo
da escola e dos pais que podem estimular, contando histórias desde pequenas para as crianças
se acostumarem com esse hábito”. A criança desde pequena está em contato com a leitura,
pois aprende a ler desde muito pequena, pois também se lê o mundo, as coisas, as situações
que a rodeiam. A leitura está presente em todos os momentos da vida, pois se fazem leituras
de símbolos, como letras, e até mesmo desenhos, sinais.
Na turma da 4ª série, verificou-se que os alunos consideram que para criar o hábito
da leitura é necessário ler nas horas vagas, ler gibis, procurar por livros de seu interesse, fazer
teatros da história e deixar um horário certo para a leitura. Sabe –se que desde a idade préescolar, a criança é incentivada a emprestar livros na biblioteca, o professor que faz leituras
em voz alta, discussões, dramatizações, enfim, usa todos os “recursos” para variar as
atividades de leitura, conseqüentemente contribuirá para despertar em seu aluno a curiosidade,
o interesse por tal atividade, pois os estímulos que o professor realiza são fundamentais, mas
o professor precisa contar com estímulo da família. Sobre isso, temos claro, que nas escolas
públicas, muitas vezes é uma ação difícil, pois os pais, muitas vezes não conhecem os códigos
da leitura. O hábito de adquirir alguma atitude ou comportamento diferenciado caracteriza-se
pela repetição até que se torne “parte da pessoa”.
Atividades anteriores e posteriores à leitura
Em relação às atividades relacionadas à leitura, 45% dos alunos da 8ª alegaram que o
professor apresenta o livro ou a revista e diz por que devem lê-lo, contra 26 % dos alunos da
4ª série. 45% dizem que ele discute as idéias, os personagens e cenários antes da leitura,
semelhante ao dado da 4ª série, 47%. Parte dos alunos da 8ª série, 36% disseram que o
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professor apenas diz que os alunos devem ler o livro. Já com relação aos alunos da 4ª série, as
atividades acerca da leitura parecem ser mais variadas, tornando-a mais interessante, pois
apenas 5% afirmaram que o professor apenas diz que devem ler, contra 36% da turma da 8ª
série. Nessa série, a 8ª, o estímulo torna-se escasso, levando os alunos a lerem menos e a não
considerarem a leitura tão importante. Ainda na turma da 4ª série, 36% dos alunos
assinalaram que é feita outra atividade como teatro, resumo, interpretação, propaganda do
livro e produção textual.
Os alunos da 8ª série relataram que discutindo sobre os personagens e cenários, é
possível imaginar a história a ser lida.
Quanto às atividades a serem realizadas depois da leitura, a 8ª série indicou:
discussão sobre os diferentes pontos de vista, perguntas, resumo, resenha, debates com
críticas sobre o livro e preenchimento da ficha do livro. Para isso, disseram os alunos, pode-se
promover “Concursos de leitura”, “livro do mês”, discussões acerca de um mesmo título,
tomar quinze minutos em sala para leitura, mostras de livros, livros como prêmios, festivais
de leitura, dramatizações, passaporte de leitor, folhas de descrição do leitor, diário de leitura.
Indicaram que a escola poderia promover, também, encontros com os escritores, completar a
história, enfim, várias atividades que despertem os alunos para esse gosto. Na turma da 4ª
série os alunos relataram que são realizadas atividades como: resumo, teatro, interpretação,
propaganda e ilustrações.
Com base nas indicações dos alunos podemos dizer que cabe aos professores usar de
todos os recursos para tornar a leitura atrativa, prazerosa. A aula que o professor realiza, seja
qual for a área do conhecimento precisa ser planejada, atendendo as características da turma e
para isso recorrer a atividades diversas para enriquecer o trabalho com a leitura, despertando,
desta maneira, o leitor.
Já, as atividades anteriores à leitura caracteriza-se pelo aspecto exploratório dos
conhecimentos dos alunos, de suas experiências, como também são atividades motivadoras,
mobilizadoras.
As atividades posteriores à leitura
caracteriza-se pela demonstração da
aprendizagem dos alunos. É o momento de síntese, oportuno à integração dos conteúdos ou
demais aprendizagens.
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Leitura como instrumento de aprendizagem
Em relação à leitura como instrumento de aprendizagem, na 8ª série percebeu-se que
63% têm consciência da importância da leitura. Relataram que, por meio da leitura, é possível
absorver detalhes da matéria em questão, conforme afirma uma aluna: “Com a leitura,
passamos a ter conhecimento sem barreiras, abre as portas para a imaginação e, com o hábito,
ganhamos cultura e conhecimentos gerais”. Uma segunda aluna diz: “Pois sempre que os
professores abordam um tema diferente na sala de aula, procuro pesquisar isso em livros,
revistas, Internet, etc. e acabo me informando mais e até mesmo quando não entendo a
matéria, recorro aos livros e consigo aprender mais rápido que na sala de aula”.
Entretanto, 45% consideram parcialmente e alegaram que: “Alguns livros são difíceis
de serem compreendidos, mas com uma explicação do assunto fica mais fácil”. “Não é tudo
que lemos que vai ajudar a aprender melhor as coisas, algumas coisas que lemos sim ajudam
bastante”.
Comparando os dados percebe-se que a turma ficou mais dividida em relação a
leitura como instrumento de aprendizagem. Já na 4ª série, a grande maioria vê a leitura uma
ótima “metodologia”, 83% da turma considera que a leitura ajuda a aprender melhor o que o
professor ensina e afirmaram que a leitura ajuda a aprender as palavras, manter-se informado,
melhora a leitura e que, principalmente, ela reafirma a explicação do professor.
Apenas 16% considera que a leitura ajuda um pouco, um dos alunos relatou: “A
leitura só deixa nós imaginando, deixa nós um pouco inteligentes, mas o professor ensina
melhor”.
Grande parte dos alunos percebem a leitura como um instrumento facilitador da
aprendizagem, pois como constatou-se seu professor realiza diversas atividades com a leitura,
assim o gosto e o hábito estão sendo constantemente estimulados. A leitura é um instrumento
que atende ao ritmo do aluno e permite a contribuição de representações próprias.
A forma que o professor utiliza a leitura faz grande diferença na concepção que os
alunos têm sobre esse ato.
Quanto mais estímulos se têm, tanto na família, quanto na escola, mais importante os
alunos vão considerar a leitura, lerão mais e serão leitores praticantes e mais conscientes.
A forma que o professor utiliza a leitura faz grande diferença na concepção que os
alunos têm sobre esse ato.
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Quanto mais estímulos os alunos têm, tanto na família, quanto na escola, mais
importante vão considerar a leitura, lerão mais e serão leitores praticantes e mais conscientes.
Em relação ao universo docente
Comparando os questionários aplicados às professoras da 4ª e 8ª séries, percebeu-se
que ambas consideram a leitura importante. A professora da 8ª série tem preferência por
revistas e a da 4ª prefere leituras informativas, jornais e também revistas.
A professora da 8ª série lê mais, pois citou 5 obras lidas desde o início do ano,
enquanto a da 4ª série apenas 3. As duas gostariam de ler mais. A primeira não lê por falta de
tempo e a segunda gosta de “viajar” com as leituras.
A professora da 8ª série considera que a leitura deve ser incentivada desde os
primeiros anos de vida e a escola deve auxiliar, na criação de hábitos de leitura. A professora
da 4ª série acredita que para criar o hábito da leitura é necessário conversar com pessoas que
têm esse gosto e assistir boas palestras em que o palestrante induza seus expectadores a
conhecer melhor suas propostas. Deve-se levar em consideração, também, o estímulo que
vem de casa.
Em relação às atividades realizadas anterior a leitura a professora da 8ª série
apresenta a obra e diz porquê devem lê-la. Após a leitura faz a ficha técnica do livro,
resenhas, resumos e debates que resgatem o sentido ético e moral nas obras. Já a professora da
4ª série relata que apresenta o livro ou a revista e diz porque devem lê-lo e discute com os
alunos idéias, personagens e cenários antes da leitura e relata que deixa seus alunos livres para
descobrirem suas preferências. Após a leitura, realiza resumos, teatro, propaganda do livro,
pintura e colagens representativas.
Ambas consideram que a leitura auxilia na aprendizagem, pois relataram que seus
alunos tornam-se mais críticos, argutos, participativos e criativos.
Percebe-se que professores e alunos julgam a leitura uma atividade indispensável no
processo ensino-aprendizagem.
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Considerações finais
Ao iniciar este trabalho, fizemos uma pergunta de pesquisa para norteá-lo.
Buscávamos compreender se os professores e alunos consideram a leitura como instrumento
da aprendizagem.
Estudando a problemática da leitura, percebe-se que a escassez de recursos
financeiros para adquirir um livro é um grande obstáculo para o acesso à cultura. A falta de
incentivos por parte do governo também dificulta. Esta questão reforça o aspecto político e
cultural da sociedade. É de interesse político que as pessoas se mantenham afastadas da
leitura, da informação, pois este ato transforma a pessoa em um ser crítico e reflexivo,
permitindo-o, assim, intervir na administração do governo.
Na escola estudada, constatou-se que os alunos lêem bastante, porém o professor
pesquisado não lê muito, alega falta de tempo para tal atividade.
O professor considera a leitura um instrumento bastante rico, que auxilia na
aprendizagem, em contrapartida nem todos os alunos consideram esse exercício importante. O
docente utiliza diversas maneiras de encaminhar a leitura, tais como: discussão sobre os
diferentes pontos de vista, perguntas, resumo, resenha, debates com críticas sobre o livro e
preenchimento da ficha do livro.
Para o desenvolvimento do hábito da leitura, faz-se necessário que os pais e
professores se unam, buscando maneiras de integrar a todos, indiferentemente da classe
social, conscientizando sobre a importância desse hábito que hoje é substituído pela mídia,
principalmente pela televisão.
É possível dizer que ao se perceber a distinção entre um recurso escrito (leitura) e um
recurso visual (TV), principalmente, percebe-se a qualidade da leitura. Esse processo poderá
contribuir para transformar a sociedade, proporcionando a todos uma qualidade de vida mais
elevada, pois deixaremos de viver em uma sociedade alienada. A leitura proporciona um
tempo de reflexão, de elaboração mental maior, enquanto os recursos audiovisuais são
rápidos, não permitindo que se filtre o conteúdo a ser passado. Esses aspectos são
corroborados por Lisboa (apud SILVA, 2000, p. 39) ao dizer:
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O fato é que os chamados audiovisuais comunicam num tempo limitado, enquanto a
letra impressa está sempre disponível. Além disso, esta dispõe de uma credibilidade
de documento, podendo ser consultada, exibida e guardada. Depois, o escrito é
procurado pelos que o consomem, enquanto a comunicação audiovisual nos chega
como uma visita. Isto implica numa participação maior no processo da comunicação
[...]; engenhosas telas e aparelhos eletrônicos [...] mais parecem pensar por nós do
que transmitirem mensagens e informações.
Além disso, a leitura torna a pessoa mais crítica, reflexiva, estimula a concentração,
exercita a memória, favorece a linguagem escrita e falada, enfim, a leitura é imprescindível
em nossas vidas, pois sem ela não é possível a comunicação.
Embora professores e alunos apresentem posições favoráveis em relação à leitura,
percebemos que, ao longo da vida escolar, o aluno lê cada vez menos. Quais seriam os
motivos? Não foram criados hábitos suficientes de leitura? Seria a metodologia de ensino
utilizada a partir da 5.ª série que, na maioria das vezes, prima por uma concepção
mecanicista? Voltamos a perguntar: Qual o motivo dessa situação? É uma cultura própria de
nossos alunos? Inclusive universitários? Ou até de professores?
REFERÊNCIAS
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura & realidade brasileira. Porto Alegre: Mercado
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SILVA, Ezequiel Theodoro da. Professor de 1º grau. Campinas: Papirus, 2000.
ZILBERMAN, Regina. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 10. ed. rev.
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AGUIAR, Vera Teixeira de. Era uma vez na escola: formando educadores para formar
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BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito da leitura. 5. ed. São Paulo: Ática,
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FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
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LEITURA NA ESCOLA: PERCEPÇÃO DE