O QUE A SOCIEDADE ESCONDE?
UMA ANÁLISE ACERCA DA PERCEPÇÃO DO TRABALHO NA SOCIEDADE
CONTEMPORÂNEA
Sandra Regina Martini Vial*
Daiana Brandt**
Eu não refuto os ideais,
eu apenas visto luvas
diante deles... (NIETZSCHE).
RESUMO
A intenção, com o presente artigo, é analisar algumas características da sociedade
contemporânea no sentido de verificar o que pode estar “escondido” nas relações
interpessoais e na sistemática de organização das estruturas sociais, especialmente no que
se refere ao trabalho. Para tanto, serão abordados os conceitos de “sociedade de controle”
(Gilles Deleuze) e “sociedade informacional” (Manuel Castells).
PALAVRAS-CHAVE:
SOCIEDADE
INFORMACIONAL, TRABALHO.
DE
CONTROLE,
SOCIEDADE
ABSTRACT
The intention, with the present article, is to analyze some characteristics of the society
contemporary in the direction to verify what it can be “hidden” in the interpersonal
relations and the systematics of organization of the social structures, especially as for the
work. For in such a way, the concepts of “society of control” (Gilles Deleuze) and
“informacional society” will be boarded (Manuel Castells).
KEYWORDS: SOCIETY OF CONTROL, INFORMACIONAL SOCIETY, WORK.
*
Pós-doutora em Direito pela Universidade Degli Studi di Roma TRE. Professora da Universidade de Santa
Cruz do Sul – UNISC e da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Diretora da Escola Superior
da Saúde.
**
Advogada. Mestranda em Direito na Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Bolsista Capes Tipo 1.
INTRODUÇÃO
A dinâmica de funcionamento da sociedade se dá num processo contínuo. À medida
que surgem alterações nas relações interpessoais, surgem também modificações em âmbito
geral. Nesse sentido, na sociedade contemporânea é possível verificar que, cada vez mais,
essas alterações ocorrem numa velocidade maior e até mesmo assustadora.
As alterações podem ser tanto tecnológicas quanto relacionais, e geralmente elas
andam juntas. Portanto, não há dúvidas de que a sociedade está em constante processo de
modificação. O que se busca analisar aqui é, contudo, o que acontece por detrás delas: o
que a sociedade esconde? Quais as conseqüências que essas alterações provocam? Enfim,
tentar perceber o que, cotidianamente, passa despercebido.
Tal análise será realizada, especialmente no que se refere às relações laborais, no
sentido de verificar quais as mudanças pelas quais a sociedade passa e que projetam
também grandes modificações no ambiente e no que se entende por trabalho. Para realizar
esse estudo serão examinados os conceitos de “sociedade de controle” e “sociedade
informacional”. No sentido de que seja possível perceber as nuanças de tais estruturações
sociais.
1 SOCIEDADE DE CONTROLE E SOCIEDADE INFORMACIONAL
Muito já se estudou, falou, opinou acerca de o homem ser um ser social e da sua
necessidade de viver em sociedade. Os denominados contratualistas (Thomas Hobbes, John
Locke e Jean-Jaques Rousseau)1, por exemplo,
1
formaram diferentes teorias
para
Thomas Hobbes (HOBBES, Thomas. Leviatã. Ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e
Civil. São Paulo: Martin Claret, 2002) acreditava que o homem era mau por natureza, que o homem era o
próprio lobo do homem e que somente seria possível ao homem viver em segurança caso existisse um ser que
controlasse a todos (o Leviatã). Mas, para tanto, seria necessário abdicar da liberdade individual para viver em
harmonia., perfazendo-se o “contrato social”. John Locke (MACPHERSON, C. B. Hobbes: o dever político
do Mercado. In: A teoria política do individualismo possessivo (de Hobbes a Locke). Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1979.), por sua vez, também acreditava que a formação de um estado partia de um consenso comum
entre os cidadãos, o que levava a crer, da mesma forma no “contrato social”. Mas, ao contrário de Hobbes,
comprovar essa necessidade. O que interessa, contudo, aqui é perceber como se dá, sem
pretensões científicas, esse encontro de indivíduos, atualmente.
Para tal mister será estudado o conceito de “sociedade de controle”, com base nas
idéias de Gilles Deleuze, além de trabalhar com o referencial de Manuel Castells no que se
refere à “sociedade informacional”.
1.1 Sociedade: a informação que liberta ou que controla?
Michel Foucault2 trabalhava com o conceito de sociedade disciplinar, no sentido de
que instituições clássicas da sociedade eram as responsáveis pelo exercício de uma
“normalização” do meio social. Cada pessoa podia ser controlada ou pela família, ou pela
escola, ou pela fábrica, ou mesmo pelo Poder Judiciário.
Assim, pode-se concluir que merece acurada análise a questão da disciplina em
fábricas porque lá se realiza o trabalho3 que pode ser entendido como a fonte de fomento do
indivíduo. O trabalho, se realizado numa dessas instituições, por excelência, de difusão da
disciplina e com a pretensão de criar “corpos dóceis”4, deve ser investigado e as sutilezas
por detrás de tais mecanismos devem ser desvelados.
acreditava que a sociedade civil poderia avalizar sua própria racionalidade, participando diretamente do poder
legislativo. Para Hobbes, isso era inconcebível, uma vez que concentrava os poderes, todos, na mão do Senhor
Absoluto. Locke percebe, nitidamente, a possibilidade de reação aos desmandos do Príncipe. O Estado, para
este autor, seria como um “juiz imparcial”, que garantia a vida, a liberdade e o direito à propriedade. Assim,
para Locke, o homem possuía um alto grau de racionalidade e autodeterminação em âmbito de sociedade
civil. Já Jean-Jaques Rousseau (ROUSSEAU, Jean-Jaques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret,
2002.), também um contratualista, entende que o ser humano, no estado de natureza, é bom e afável, sendo
que a sociedade trata de corrompê-lo. O homem, no seu estágio mais primitivo, possui valores naturais que
tendem a preservar e respeitar a individualidade do outro homem. É inerente ao ser-humano valores éticos
mínimos. É com a racionalização das coisas que o homem passa a sofrer uma deturpação desses sentimentos
benéficos. Marca característica na obra de Rousseau, que se destaca dos demais contratualista está no fato de
que ele aceita a consciência coletiva, ou seja, um sentimento comum entre os homens da comunidade,
rompendo com o paradigma individualizante.
2
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 26 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
3
“O trabalho é, conforme a experiência, um valor moral aceito pelas sociedades contemporâneas e possui em
si dupla função: primeiro, é uma das formas de se revelar e se atingir o ideal de dignidade humana, além de
promover a inserção social; segundo, é elemento econômico indispensável, direta ou indiretamente, para que
haja crescimento” (BOCORNY, Leonardo Raupp. A valorização do trabalho humano no Estado Democrático
de Direito. Sérgio Antônio Fabris Editor, 2003, p. 71).
4
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 26 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
Por ocasião do que Foucault5 denominava de sociedade disciplinar, cada pessoa podia
ser identificada por meio de um número e por meio dele era possível controlar o indivíduo.
Contudo, diante da complexidade que a sociedade foi apresentando, Deleuze6 examinou o
conceito trazido por Foucault e passou a defender a existência, na contemporaneidade, não
mais de uma sociedade disciplinar, mas de uma sociedade de controle:
Encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento,
prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um “interior”, em crise como
qualquer outro interior, escolar, profissional, etc. Os ministros competentes não
param de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola,
reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que essas
instituições estão condenadas, num prazo mais ou menos longo. Trata-se apenas
de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se
anunciam. São as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades
disciplinares. “Controle” é o nome que Burroughs propõe para designar o novo
monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo7.
Tal fato, segundo o autor, deve-se à complexidade que a sociedade foi ganhando e
que já não permite mais se pensar na possibilidade de observar cada indivíduo de forma
isolada. Desse modo, a disciplina já não mais pode ser localizada, mas deve ser espalhada e
camuflada. E somente com essa nova característica ela poderá acompanhar a todos8.
De acordo com Deleuze9, nas sociedades disciplinares sempre era tempo de
recomeçar, já nas sociedades de controle não é possível pensar em terminar nada:
Nas sociedades de disciplina não se parava de recomeçar (da escola à caserna, da
caserna à fábrica), enquanto nas sociedades de controle nunca se termina nada, a
empresa, a formação, o serviço sendo os estados metaestáveis e coexistentes de
uma mesma modulação, como que de um deformador universal. Kafka, que já se
instalava no cruzamento dos dois tipos de sociedade, descreveu em O processo as
formas jurídicas mais temíveis: a quitação aparente das sociedades disciplinares
(entre dois confinamentos), a moratória ilimitada das sociedades de controle (em
variação contínua) são dois modos de vida jurídicos muito diferentes, e se nosso
5
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 26 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
7
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
p. 220.
8
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
9
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
6
direito, ele mesmo em crise, hesita entre ambos, é porque saímos de um para
entrar no outro. As sociedades disciplinares têm dois pólos: a assinatura que
indica o indivíduo, e o número de matrícula que indica sua posição numa massa.
É que as disciplinas nunca viram incompatibilidade entre os dois, e é ao mesmo
tempo em que o poder é massificante e individuante, isto é, constitui num corpo
único aqueles sobre os quais se exerce, e molda a individualidade de cada
membro do corpo (Foucault via a origem desse duplo cuidado no poder pastoral
do sacerdote - o rebanho e cada um dos animais - mas o poder civil, por sua vez,
iria converter-se em “pastor” laico por outros meios). Nas sociedades de controle,
ao contrário, o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma
cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas
por palavras de ordem (tanto do ponto de vista da integração quanto da
resistência). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o
acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massaindivíduo. Os indivíduos tornaram-se “dividuais”, divisíveis, e as massas
tornaram-se amostras, dados, mercados ou “bancos”10.
A sociedade de controle apresenta-se, assim, ligada à sociedade informacional no
momento em que se pode concluir, como diz Deleuze11, que a senha que caracteriza a
sociedade de controle permite o acesso à informação: o possuidor de uma senha é também
o possuidor da informação. Nesse sentido, há que se buscar o conceito de sociedade
informacional.
Assim, para Castells12, sociedade informacional e também economia informacional
estão associadas às:
[...] Transformações atuais, além da sensata observação de que a informação e os
conhecimentos são importantes para nossas sociedades. Porém, o conteúdo real
de “sociedade informacional” tem de ser determinado pela observação e análise
[...]. Por exemplo, uma das características principais da sociedade informacional é
a lógica de sua estrutura em redes, o que explica o conceito de “sociedade em
rede” [...]. Contudo outros componentes da “sociedade informacional”, como
movimentos sociais ou o Estado, mostram características que vão além da lógica
dos sistemas em redes, embora sejam muito influenciadas por essa lógica, típica
da nova estrutura social. Dessa forma, “sociedade em rede” não esgota todo o
sentido de “sociedade informacional”.
As tecnologias da informação trazem consigo uma estruturação em rede, as pessoas
todas ligadas umas às outras por meio de um ambiente virtual (embora não se esgote nisso a
10
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
p. 221-222.
11
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
denominação de sociedade informacional, como afirma Castells13) que traz como promessa
a inclusão social. Há que se atentar, contudo que, em que pese essa sociedade trazer em seu
bojo a promessa de inclusão social e de acesso a um maior número de pessoas à
informação, nela existem os fluxos pelos quais circula a informação. Estes podem ser
seletivos e excludentes, inviabilizando a sonhada inclusão social pela informação. De sorte
que somente aqueles que estão ligados/conectados às correntes da informação estão
incluídos nessa sociedade14.
Diante dessa perspectiva é que se questiona a proposta de inclusão homogênea que a
sociedade de informação trouxe como meta, na medida em que o que se verifica, na
verdade, é a mesma exclusão social que sempre marcou a sociedade. Percebe-se tal
situação, possivelmente pelo fato de que a informação tantas e tantas vezes esteve associada
também ao poder econômico, fator, por excelência, de exclusão social15. Nesse sentido:
A economia digital tende a se consolidar, e uma das conseqüências desse novo
paradigma econômico e produtivo baseado na informação são os excluídos
digitais – trabalhadores em ocupações precárias, sub-contratados e
desempregados, sem acesso as tecnologias da informação. O fato é que o avanço
dessas novas tecnologias e da sociedade da informação tem debilitado a aplicação
dos Princípios Fundamentais que caracterizam o Estado Democrático de Direito.
O velho liberalismo despido de ética considera as pessoas como mercadorias. E
tal lógica tem dominado a grande maioria das Nações, provocando desemprego e
aumento da desigualdade social16.
Nesse contexto, essas novas tecnologias associadas à informação, que surgem como
uma forma promissora de desenvolvimento social, geram também desemprego e exclusão
daqueles que não têm acesso a elas. Daí a importância da questão trabalhista e do trabalho
associado à transmissão de informação e ao método que da melhor forma, até o momento,
possibilitou essa transmissão: a Internet. A partir do surgimento dela, sequer leva-se o
12
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. v.1. 6.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002. p. 65.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. v.1. 6.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
14
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. v.1. 6.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
15
VOGT, Carlos. Sociedade da Informação. Inclusão e Exclusão. Disponível em:
<http://www.comciencia.br/reportagens/socinfo/info01.htm>. Acesso em: 15 dez. 2006.
16
PEREIRA, Josecleto Costa de Almeida. O trabalho no mundo plutocrático. In: Seqüência. Revista do Curso
de Pós-Graduação em Direito da UFSC. Ano XXV. Dez-2005. p. 289-290.
13
trabalho para casa, a própria casa é o local do trabalho. E, com a descoberta da telefonia
móvel e da Internet via rádio, pode-se trabalhar durante uma viagem e em qualquer ponto17.
As pessoas perdem horas de um dia inteiro na frente de um computador. Sem perceber,
tornam-se “escravas virtuais”.
Com a possibilidade de trabalhar sem ter horário, apenas por metas ou pela conclusão
de determinado projeto, as pessoas não mais cumprem um horário legal18, trabalhando mais
horas, sem com isso receber horas-extras. É uma nova forma de trabalho que surge e, diante
da qual, depara-se com a falta de regulamentação.
A fábrica deu lugar à empresa. O “cartão-de-ponto”, necessário a um trabalho que
se gere por meio de horários fixos, vem dando lugar ao gerenciamento através de
índices de produtividade e metas de venda. O espaço físico do trabalho tende a se
descaracterizar: humanizam-se os espaços, flexibilizam-se as regras – tudo sob o
imperativo da otimização dos resultados. O desenvolvimento tecnológico, de
telefones celulares e e-mails a videoconferências e cirurgias à distância, permite
que se trabalhe, cada vez mais, “à distância” – do mesmo modo que cresce a
“instrução à distância”. O “mercado global” dos tempos atuais faz com que o
“risco de crise” se desterritorialize, pois não se localiza em lugar algum; o risco
se globalizou: uma crise do outro lado do planeta pode gerar desemprego na sua
esquina. A instabilidade profissional crescente aumenta a compulsão por
produtividade. Trabalha-se em “todo lugar”, a qualquer hora. Surgem variadas
formas de trabalho “em casa”, como, por exemplo, o “teletrabalho” (CASTELLS,
2000). O trabalho não tem fim, deve-se trabalhar a vida toda19 .
O que acontece é a ilusão de que existe uma autonomia diante da liberdade quanto ao
horário de trabalho, mas não se percebe que se perde muito mais tempo trabalhando do que
antes. Tal situação pode desembocar uma postura conformista diante da luta por melhores
condições laborais. Numa sociedade na qual é muito difícil conseguir um emprego, o
17
CASTELLS, Manuel. Internet e sociedade em rede. In: MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra
comunicação. Mídia, mundialização cultural e poder. 2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 255-287.
18
Consta da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, em seu artigo 58 que: “a duração normal do trabalho,
para os empregados em qualquer atividade privada, não excederá de 8 (oito) horas diárias, desde que não seja
fixado expressamente outro limite”. Ainda, acerca do assunto, importante consultar o artigo 7.º, incisos XIII,
XIV, XV e XVI, da CF/88 e também a o Enunciado 85 do TST.
19
CHEVITARESE, L. : “A questão da ‘liberdade’ na sociedade de controle, por uma alegoria de Kafka em O
Processo”. In: Análogos. Anais da IV SAF-PUC. Vol. III, PUC-Rio, 2004. p. 05.
possuidor de um, ainda mais com a ilusão de autonomia, acredita que não existe mais nada
pelo que lutar20.
E é nessa sociedade que surge então um:
[...] Artesão eletrônico [que] tem a impressão de ter maior liberdade para agir. Por
estar conectado a uma imensa rede de pequenas e microempresas espalhadas por
todos os lugares – com a tarefa de fornecer informações necessárias à produção
de mercadorias – o trabalhador começa a sentir-se proprietário, um verdadeiro
comerciante do trabalho. E, num mundo onde todos são produtores de
mercadorias, as organizações de luta dos trabalhadores parecem supérfluas21.
Esse “artesão eletrônico” passa, então, a acreditar na ilusão de que possui autonomia
para definir o seu horário de trabalho e as suas metas laborais. Pode, contudo, estar não só
trabalhando mais, tendo menos horas de lazer, mas também abdicando dos seus direitos
trabalhistas.
Com a Internet a possibilidade de trabalho sem hora e sem local marcados
transformou-se numa prática usual. As pessoas estão “conectadas” – as que possuem acesso
à informação – o tempo inteiro. Nesse sentido, necessário voltar à sociedade de controle de
Deleuze22, pois uma vez conectado o indivíduo também pode ser controlado de uma forma
sem precedentes. O controle, aliás, nem sequer é percebido.
Esse controle pode gerar uma padronização de condutas a serem seguidas, pois com a
Internet, a divulgação de informações ocorre globalmente de forma muito rápida, gerando
também uma uniformização de gostos. A própria sociedade percebe-se conectada.
20
PEREIRA, Josecleto Costa de Almeida. O trabalho no mundo plutocrático. In: Seqüência. Revista do Curso
de Pós-Graduação em Direito da UFSC. Ano XXV. Dez-2005.
21
PEREIRA, Josecleto Costa de Almeida. O trabalho no mundo plutocrático. In: Seqüência. Revista do Curso
de Pós-Graduação em Direito da UFSC. Ano XXV. Dez-2005. p. 298.
22
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
E essa sociedade em rede, que seria uma das formas da sociedade informacional,
caracteriza-se, segundo Castells23, pela intercomunicação entre vários pontos do mundo,
com a configuração de nós (nós de uma rede) nos quais são tomadas as decisões que irão
dinaminizar o fluxo de informações pela rede inteira. Essa sociedade passa a organizar
também a estruturação do trabalho. E, nesse sentido, deve vir associada à questão da
ocupação laboral mais intensa e conectada dioturamente.
A constituição desse cenário, no entanto, não se faz completa sem a análise do apelo
exagerado ao consumo. As pessoas cada vez mais trabalham, mas também cada vez mais
gastam o fruto do trabalho, consumindo. Como afirma Deleuze24:
O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente
dos nossos senhores. O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas
também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração,
infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem
endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema
miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos
demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das
fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas.
No momento em que uma das formas de controle é o convencimento de que o
consumo é necessário e de que andar na moda é mais importante do que tudo, trabalha-se e
vive-se apenas em busca da ilusão de um status social. Tudo sustentado pela aparência de
uma boa vida que, derradeiramente, pode transformar-se em frustração diante dos gastos
exagerados.
O que se verifica é que a globalização pode trazer como um encargo a competição e
um “[...] consumo sem limites, dos comportamentos ditados pela mídia alucinada, [que]
alienam o indivíduo, ligando-o a valores com os quais não mantém qualquer afinidade e
transformando-o num estrangeiro em seu próprio país”25. Além disso, pode-se verificar que
23
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. v.1. 6.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Tradução: de Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
p. 224.
25
PEREIRA, Josecleto Costa de Almeida. O trabalho no mundo plutocrático. In: Seqüência. Revista do Curso
de Pós-Graduação em Direito da UFSC. Ano XXV. Dez-2005. p. 292.
24
existe um grande clico vicioso. Trabalha-se, se gasta. Gasta-se mais do que se pode. Vivese endividado.
São estas as características da sociedade na qual vivemos. Nesta sociedade a questão
do trabalho merece ser reavaliada porque simplesmente não se faz perceptível a grande
desvalorização do ser humano que está acontecendo. Não é visível essa engrenagem social.
Não há o que se possa fazer para sair dessa sociedade que controla. Ou será que há?
2 TRABALHAR POR QUÊ? TRABALHAR PARA O QUÊ?
As pessoas estão cada vez mais atarefadas e, muitas vezes, sequer se dão conta disso.
E acabam trabalhando pelo simples fato de ter o que consumir. Assim, necessidades são
criadas e passe-se a valorizar o Ter em detrimento do Ser. O ser humano passa a ter valor
diante do que possui e não diante do que é26.
Tal situação faz com que não se pare para pensar e contemplar uma idéia, uma
paisagem, uma pessoa. Coisas simples assim, mas que não são consumíveis no sentido
empregado na nossa sociedade, razão pela qual aparecem sem significado. Trabalha-se
apenas, de forma alucinada, para entrar na “onda” da sustentação de aparências.
De acordo com Friedrich Nietzsche27:
A realidade foi despojada de seu valor, de seu sentido, de sua veracidade
justamente no mesmo grau em que foi falsificado um mundo ideal... O “mundo
verdadeiro” e o “mundo aparente” em alemão: o mundo falsificado e a
realidade... A mentira do ideal foi, até agora, a blasfêmia contra a realidade; a
própria humanidade foi enganada por ela e tornou-se falsa até o mais baixo de
seus instintos – a ponto de adorar os valores inversos como se fossem aqueles
com os quais ela poderia garantir para si a propriedade, o futuro, o direito altivo
ao futuro.
26
27
FROMM, Erich. Ter ou ser? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977.
NIETZSCHE. Friedrich. Ecce homo. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2003. p. 16.
Em sua autobiografia Nietzsche28 revela a angústia de verificar que a moral social
pode ser algo que não condiz com o que o homem efetivamente procura. Com o que deve
adotar para ser honrado, para viver de acordo com a sua convicção.
Pode-se concluir, diante da análise da nossa sociedade, que a angústia de Nietzsche
procede e que vivemos uma omissão/falta de concepções, de pensamentos e de idéias
próprias. Nesse sentido, não se pode deixar de mencionar o papel dos meios de
comunicação que se apresentam como difusores e formadores de uma opinião que, num
momento seguinte, afirmam ser “opinião pública”29. Quando, na verdade, essa opinião não
passa de uma construção artificial e interessada de alguns grupos que dominam o espaço
econômico, midiático ou, mesmo, político.
Afirma Ignacio Ramonet30 que:
O primeiro é o poder econômico e financeiro. E o segundo é o poder midiático.
Porque o midiático, da maneira como o defino, é o aparato ideológico da
globalização. É o sistema que, em certa medida, constitui o modo de inscrever, no
disco rígido de nosso cérebro, o programa para que aceitemos a globalização.
Esse sistema ideológico, esse aparato ideológico global, é o aparato midiático em
seu conjunto. Quer dizer, o que a imprensa diz a televisão repete, a rádio repete, e
não apenas nos noticiários, mas também nas ficções, na apresentação de um tipo
de modelo de vida que se deve apresentar.
Na era da informação passa-se a seguir o que está em “alta” na mídia. Age-se, vestese, saboreia-se o que os meios de comunicação atestam como necessário e imprescindível
para as nossas vidas. A ponto compreender como impossível viver sem um telefone celular,
por exemplo, ou sem estar conectado à Internet. Essa necessidade construída está tão
presente que quem não possui esses “aparatos contemporâneos” apresenta-se excluído do
meio social. “Desligado” da sociedade contemporânea.
28
NIETZSCHE. Friedrich. Ecce homo. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2003.
BOURDIEU, Pierre. A opinião pública não Existe. In THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica,
investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis, 1985. p. 137-151.
30
RAMONET, Ignacio. O poder midiático. In: MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação.
Mídia, mundialização cultural e poder. 2. ed. São Paulo: Record, 2004. p. 246.
29
Nesse contexto, tudo acaba tendo valor comercial e interessado31. Assim, faz-se
necessário filtrar as informações e lutar contra uma cultura de trabalho para o consumo que
se instalou. Já que a informação que nos é transmitida pode não representar a veracidade
efetiva dos fatos:
A informação está contaminada essencialmente por uma série de mentiras que
podem ser factualmente demonstradas. É preciso descontaminá-la dessas
mentiras, é preciso descontaminá-la de uma certa ideologia: podem-se defender
idéias, todas as idéias podem ser defendidas: anunciadas, porém como idéias e
não como uma coisa natural. Mas é preciso igualmente descontaminar de
publicidade, do ponto de vista ideológico, o meio que nos cerca. E isso é óbvio32.
É preciso perceber que pode existir uma construção de idéias no meio social que
impulsione, por exemplo, ao consumo. Dessa maneira, o fruto do trabalho acaba sendo
gasto em consumo e, geralmente, numa busca pela homogeneização de gostos e de estilos.
E tal homogeneização sequer é perceptível, pelo fato de existir algo que impulsiona a
adoção de condutas “comuns”. Tudo parece natural. Mas o que existe é uma padronização
de comportamentos.
De acordo com Pierre Bourdieu33 a impossibilidade de visualizar essa padronização
que ocorre com os indivíduos e a exigência de uma marca ou grife para atribuição de valor,
faz com que circunstâncias determinem o valor de uma coisa e não a coisa em si possua
algum valor:
O poder das palavras não reside nas próprias palavras, mas nas condições que dão
poder às palavras cirando a crença coletiva, ou seja, o desconhecimento coletivo
do arbitrário da criação de valor que se consuma através de determinado uso das
palavras. A imposição de valor, simbolizada pela grife, é um caso particular de
todas as operações de transferência de capital simbólico (prefácios escritos por
um autor célebre para o livro de um novato, marca de uma editora de prestígio,
31
“[...] Hoje a informação é considerada essencialmente uma mercadoria. Não é um discurso que tenha a
vocação ética de educar o cidadão ou de informar, no bom sentido da palavra, o cidadão, pois tem
essencialmente e antes de mais nada uma perspectiva comercial. Compra-se e vende-se informação com o
objetivo de obter lucros” (RAMONET, Ignacio. O poder midiático. In: MORAES, Dênis de (org.). Por uma
outra comunicação. Mídia, mundialização cultural e poder. 2. ed. São Paulo: Record, 2004. p. 247).
32
RAMONET, Ignacio. O poder midiático. In: MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação.
Mídia, mundialização cultural e poder. 2. ed. São Paulo: Record, 2004. p. 252.
33
BOURDIEU, Pierre. A produção da crença. Contribuição para uma economia dos bens simbólicos. 2 ed.
São Paulo: Zouk. 2004.
etc.) pelas quais um agente ou, mais exatamente, uma instituição que age por
intermédio de um agente devidamente credenciado atribuem valor a determinado
produto34.
Na sociedade na qual vivemos pode-se assistir ao surgimento de um homem que
abdica do livre pensar, que consome idéias e que não reflete sobre elas. E, numa situação
paradoxal, a era da informação é também a era da alienação e do controle. O homem é:
[...] Homo tecnologicus pelas novas teconologias, num processo caracterizado
pela manipulação das técnicas de informação, que, uma vez apropriadas por
alguns Estados e empresas, aprofundam as desigualdades entre as nações. Os
acontecimentos transcorrem com celeridade e a vida moderna lentamente
transforma o ser humano num verdadeiro robô – automatizado pela mídia,
desnatura-se ao renunciar ao seu livre-arbítrio e a lucidez de pensar e agir com
liberdade35.
A própria estruturação espacial vai se amoldando às exigências e necessidades que o
homem acredita possuir. Ou seja, a visão do espaço é a visão da necessidade que o homem
deposita nele. Assim, as grandes cidades podem estar funcionalmente estruturadas para o
dinamismo do trabalho tecnológico, mas o que se deve perceber também é que existe uma
grande estruturação social por detrás das paredes de concreto erguidas em grandes e
cidades. É preciso perceber que, embora a cidade/o espaço pareçam estar sendo edificados
num processo natural de evolução e progresso, o que pode estar acontecendo é uma
progressão e continuidade da mesma dominação de uma classe ou grupo de indivíduos
sobre outro36.
34
BOURDIEU, Pierre. A produção da crença. Contribuição para uma economia dos bens simbólicos. 2 ed.
São Paulo: Zouk. 2004. p. 161-162.
35
PEREIRA, Josecleto Costa de Almeida. O trabalho no mundo plutocrático. In: Seqüência. Revista do Curso
de Pós-Graduação em Direito da UFSC. Ano XXV. Dez-2005. p. 304.
36
Milton Santos (SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo. Globalização e meio técnico-científico
informacional. São Paulo: Hucitec, 1994, p. 41) descreve a questão do espaço: “Comecemos por fixar
rapidamente os conceitos. Por tempo, vamos entender grosseiramente o transcurso, a sucessão dos eventos e
sua trama. Por espaço vamos entender o meio, o lugar material da possibilidade dos ventos. E por mundo
entendamos, a soma, que é também síntese, de eventos e lugares. A cada momento, mudam juntos o tempo, o
espaço e o mundo. De tal modo, nossa grande tarefa é a de apreender e definir o presente, segundo essa ótica.
[...] O espaço é mídia nos dois sentidos. Ele é linguagem e também é o meio onde a vida é tornada possível. A
percepção pela sociedade e pelo indivíduo que é esse espaço depende da forma de sua historicização e esta
resulta em grande parte dos progressos nos transportes e nas comunicações, na construção do tempo social”.
Necessário, então, perceber o que de fato a sociedade esconde e especialmente no que
consiste a busca obstinada pelo consumo. Trabalha-se sem ter hora e lugar para fazer vezes
às exigências que são impostas pelo sistema estrutural.
Diante dessa perspectiva, Domenico de Masi37 propõe uma alternativa à vida
estruturada no trabalho e para o consumo. Defende a possibilidade de alcançar outros ideais
que não apenas a necessidade de estar o tempo inteiro em atividade. Afirma que o trabalho
pode oferecer “[...] dinheiro, prestígio e poder. [Mas] O tempo livre oferece sobretudo a
possibilidade de introspecção, de jogo, de convívio, de amizade, de amor e de aventura.
Não se entende por que o prazer ligado ao trabalho deveria acabar com a alegria do tempo
livre”38.
Dessa feita, outros ideais devem ser valorizados no sentido de que pode ser “[...]
necessário não apenas ter uma profissão, mas também ter educação para as coisas simples
da vida e que passam despercebidas como poder ter condições e conhecimento para
escolher um bom livro ou para simplesmente admirar as belezas da natureza”39.
As pessoas vivem apressadas. Apenas desempenham os seus papéis na sociedade e
não pensam sobre eles.
De acordo com Masi40 é primordial educar para a possibilidade de não apenas
trabalhar, mas também de refletir e ter outro norte para a vida, assim:
Educar para o ócio significa ensinar a escolher um filme, uma peça de teatro, um
livro. Ensinar como pode estar bem sozinho, consigo mesmo, significa também
levar a pessoas a habituar-se com as atividades domésticas e com a produção
autônomo de muitas coisas que até o momento comprávamos prontas. Ensinar o
gosto e a alegria das coisas belas. Inculcar a alegria41.
37
MASI, Domenico de. O ócio criativo. 7 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
MASI, Domenico de. O ócio criativo. 7 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 319.
39
MASI, Domenico de. O ócio criativo. 7 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
40
MASI, Domenico de. O ócio criativo. 7 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
38
Assim, não apenas a pressa, a vida pelo trabalho, a vida pelo consumo é que norteiam
a existência do homem, também a possibilidade de contemplação, de reflexão é importante
na sociedade atual, especialmente para que se possa compreender qual a realidade que nos
cerca. É preciso desacelerar a vida para perceber de forma mais detalhada o que acontece.
Nesse contexto, somente com a recuperação do conhecimento do homem acerca de si
mesmo é que será possível sair desse processo de padronização e perceber que existem
singularidades, que cada indivíduo é um ser único e que possui vontades próprias. Nessa
direção está orientada a concepção de José Luis Bolzan de Morais42:
A busca do tempo perdido só ocorre a partir do momento em que se consiga
estabelecer uma quebra nesta relação maquínica de reprodução. Uma destruição
das engrenagens de articulação desse processo de esquadrinhamento da vida, a
partir do desmantelamento do processo unívoco de ver e se articular com o
mundo. O destroçar de uma estrutura de homogeneização dos homens e suas
relações.
Um processo de singularização, todavia, requer a reapropriação dessa
subjetividade, mas também, e a partir daí, a recuperação e retomada do controle
da vida pelo homem.
Uma nova estruturação da relação do homem com o seu tempo se institui, assim,
após a retomada de consciência do mundo e para com ele próprio.
De acordo com Morais43, somente por meio conhecimento acerca de si mesmo e
através da possibilidade de entender-se como um ser singular e não como uma massa de
manobra é que será possível ao homem recuperar o controle da sua própria vida. Em outras
palavras, será possível ao homem recuperar a possibilidade de construção de sua própria
história, sem que lhe seja apenas destinado um roteiro e um papel sem alternativa a
escolhas.
41
MASI, Domenico de. O ócio criativo. 7 ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 325.
MORAIS, José Luis Bolzan de. A subjetividade do tempo. Uma perspectiva transdisciplinar do Direito e da
Democracia. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998. p. 84.
42
CONCLUSÃO
A vida na sociedade atual merece ser bem analisada. Compreender o que a sociedade
esconde, especialmente do que se refere à questão laboral, é de importância fundamental.
É necessária a assunção de uma postura de questionamento sempre. Não se pode
aceitar idéias feitas como se próprias fossem. É preciso refletir sobre se a sociedade que
informa, mas que também controla, é apenas o que ela nos mostra. É indispensável pensar
sobre se o trabalho, e o trabalho pelo consumo, é a meta e a parte mais importante de nossas
vidas.
Talvez do que precisemos seja muito pouco e seja algo bem simples e barato. Mas o
grande obstáculo é conseguir sair dessa sociedade que aprisiona por meio de um controle
imperceptível e que nos cerca com necessidades falsas. Porém, até se alcançar a concepção
de que tais necessidades são falsas vai-se um longo caminho. E mesmo quando se possui
essa consciência, outro trajeto deve ser percorrido: aquele que permita que abandonemos
tudo isso. Mas isso já é uma outra história, por enquanto, busquemos apenas compreender
“o que a sociedade esconde”...
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Trabalho. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, DF. 09 ago. 1943.
43
MORAIS, José Luis Bolzan de. A subjetividade do tempo. Uma perspectiva transdisciplinar do Direito e da
Democracia. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998.
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