A água e seus significados
Vinte e três mil dólares por uma garrafa de água. Esse foi o preço pe-lo qual foi
leiloada em Dubai uma única unidade da edição especial da água Bling H2O, cuja
embalagem é inteiramente cravejada de cristais. Naturalmente, uma garrafa da sua
edição comercial sai bem mais em conta: 50 dólares, já que apenas a marca está
impressa com cristais Swarovski.
A Bling está hoje no topo da tendência mundial de glamourização da água
envasada, onde reinam também marcas assinadas por grandes nomes da moda, como
Jean Paul Gaultier e Christian Lacroix, ou em embalagens tão sofisticadas que se
aproximam daquelas utilizadas em perfumes, a exemplo da marca Voss, da Noruega.
Destinada ao mercado de superluxo, a Bling foi criada por Kevin Boyd, produtor
e roteirista de Hollywood, sob o argumento de que muito da personalidade de uma
pessoa se manifesta por meio da marca de água que ela consome.
Talvez por esse motivo a marca mais famosa hoje nos Estados Unidos,
especialmente entre personalidades do cinema e das artes, seja a Fiji, que divulga sua
origem como provinda de "um dos últimos ecossistemas preservados na Terra".
A verdade é que, além desse mercado de luxo, degustar e consumir águas de
origem e composição diferenciadas, embaladas em garrafas de design cada vez mais
sofisticado, vem se tornando uma atitude de prazer e bem-estar. O glamour está em
explorar águas originárias de regiões longínquas, de montanhas, de geleiras, de
desertos, de florestas tropicais e de solos vulcânicos. Ou simplesmente experimentar
marcas consagradas internacionalmente.
Em Paris, a loja de vanguarda Colette, localizada em Saint Honoré, abriga um
dos bares de água mais famosos da Europa. Ali, consumidores reúnem-se para apreciar
marcas de todas as partes do mundo e, ao final da degustação, levam para casa as
embalagens vazias como lembrança da realização de um sonho de consumo. "Não se
trata de tomar água para satisfazer a sede, mas de apreciá-la como uma atitude de
prazer", constata um filósofo francês.
Em vários países europeus, bons restaurantes já oferecem cartas de águas,
incluindo um ritual próprio de serviço, o que demonstra que o produto vem
conquistando níveis de sofisticação semelhantes aos do vinho, posicionado como
ingrediente gastronômico indispensável em uma boa mesa. A valorização da água
manifesta-se também na culinária, como demonstram publicações patrocinadas pela
Academia Espanhola de Gastronomia sob o título "A Água na Cozinha do Futuro".
Observa uma dessas publicações que "apreciar os sabores de um copo de água e seu
significado é uma arte tão ou mais refinada que aquela atribuída à degustação de
vinhos".
Na base dessa tendência está o fato de que não existe uma única água igual a
outra. Isso porque, ao longo do caminho que percorre por dezenas, centenas ou
milhares de anos no interior da Terra, a água vai absorvendo minerais e traços de
elementos geológicos que lhe conferem identidade única. Ou seja, cada marca de água
mineral tem seu próprio “DNA”, diferenciando-se de todas as demais em variedade e
quantidade de sais.
Mas o fator determinante para a expansão de consumo do produto está na
crescente preocupação global com a obesidade. A busca do consumidor moderno por
produtos naturais e saudáveis elevou a água envasada, especialmente na última
década, à condição de bebida de mais rápido crescimento e maior consumo em âmbito
mundial. Em 2007, pela primeira vez, o consumo do segmento de águas superou
mundialmente o de refrigerantes e, em 2008, fechou o ano com um volume superior a
210 bilhões de litros, correspondente em valor a mais de US$ 100 bilhões.
A razão desse fenômeno repousa no fato de que a água passou a ser
considerada a bebida em maior sintonia com valores de consumo deste século. Beber
água, especialmente água mineral natural, tornou-se um hábito consciente, não
apenas pela contribuição dos minerais à nutrição e à saúde, mas também pela imagem
de pureza, juventude e bom gosto que se atribui a quem a consome.
Fonte: Suplemento Boletim do Investidor, do Banco do Brasil.
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