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As diferentes tomadas do conceito de memória em Paul Ricoeur
X Salão de
Iniciação Científica
PUCRS
Bolsista apresentador: Leonardo Marques Kussler (UNIBIC), Prof. Dr. Luiz Rohden (orientador)
Faculdade de Filosofia,UNISINOS.
Resumo
As leituras de Ricoeur frente aos filósofos precedentes tentam mostrar a capacidade da
memória como algo que não é significado de imaginação — no sentido de fictício, falacioso,
fantasioso, irreal — tão somente, mas como capacidade de poder ser remetido ou “se fazer
remeter” ao passado, por determinados dados que estão “arquivados”, de certa forma, na
mente humana. O trabalho mostra a importância desta análise da ars memoriae (arte
memorial, ou da memória) como referente a algum dado passado. A difícil e contraditória —
por certos entendimentos — representação presente de um dado passado e ausente no presente
é tomada por uma análise filosófica e, de certa forma, psicológica, tratando do sujeito que faz
uso da memória, que se lembra, que busca retomar algo por intermédio da memória. A
pesquisa tenta mostrar a importância desses dados que são guardados na memória e que
podem ser buscados e, rapidamente, trazidos a sua representação, frente ao constante entrave
com o esquecimento. A análise de Paul Ricoeur parte de matizes do pensamento da filosofia
antiga, onde já encontramos discussões sobre a temática memorial, passando pelo pensamento
moderno, tal como o de Husserl, seguindo então para a vertente contemporânea, onde lemos
Bergson, por exemplo. Nas palavras do autor, “... não temos nada melhor que a memória para
significar que algo aconteceu, ocorreu, se passou antes que declarássemos nos lembrar dela”
(RICOEUR, 2007, p. 40). A memória pode ser encarada não somente como uma ferramenta
de guardar dados mnemônicos, mas, sobretudo, como uma capacidade de (re)significação das
coisas e de si mesmo; trata-se de uma representação das coisas já apresentadas anteriormente
para si, uma possível reconfiguração de tais dados guardados na memória que são despertados
pela rememoração. Tal relembrança exige um esforço — ars memoriae diz o autor — que faz
com que busquemos tal conhecimento obtido anteriormente que está agora guardado na
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memória. O ato de memorizar algo é a economia de um reaprender tal coisa novamente, mas
também exige do autor um trabalho penoso, a fim de que treinando sua memorização, não
caia em esquecimento. Vale ressaltar que a temática da memória é abordada por inúmeras
linhas de pensamento — da sociologia, da psicologia, da história, do direito, etc. —, o que
mostra sua importância e validade atual na pesquisa de âmbito acadêmico.
Introdução
O presente trabalho visa mostrar a análise feita por Paul Ricoeur acerca da temática memorial
em filósofos do período antigo tais como Platão e Aristóteles, bem como em filósofos
modernos como Husserl e da contemporaneidade, como Henri Bergson. Vinculado à
pesquisa, de âmbito maior “A Metafísica na Hermenêutica Filosófica de Hans-Georg
Gadamer”, dirigida pelo prof. Dr. Luiz Rohden, a pesquisa busca desenvolver as noções de
memória juntamente com a metodologia de leitura, análise e comparação entre os referenciais
teóricos de Paul Ricoeur.
Metodologia
A metodologia utilizada para a realização da pesquisa foi de análise das reflexões de
Ricoeur em suas obras (descritas na referência) e comparação entre as obras do autor na busca
da explicitação conceito de memória nos filósofos antigos, modernos e contemporâneos.
Resultados (ou Resultados e Discussão)
A pesquisa, apesar de basear-se apenas em bibliografia, pôde expandir a visão que
comumente se tem da memória e da “arte memorial”. A explicação de tal fenômeno, o
funcionamento de tal mecanismo, a discussão e, em certa medida, as contradições dos
diversos autores quanto as suas concepções, foram constatados ao longo do trabalho. Entender
a memória não somente como um “reservatório de lembranças” pode trazer um entendimento
de experiência do sujeito que (re)significa as coisas, (re)apresenta a realidade para si e para os
outros. A memória possibilita trazer os dados mnemônicos, ausentes no presente, novamente
à tona, trazer o ato de refletir, de se repensar em algo.
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Conclusão
Provisoriamente, o estudo sistemático do autor pode mostrar que a memória não pode
ser entendida somente como uma busca de uma imagem que, no mais das vezes é fantasiosa,
mas que pode ser entendida como busca de algum dado que, efetivamente estava guardado e
somente estou trazendo sua representação à tona, não imaginando algo sempre irreal. A
importância desta pesquisa vai de encontro com o entendimento de que a memória não
somente se liga à imaginação enquanto fantasia, mas enquanto representação de coisas reais
que, de fato estão aí. A memória também pode ser encarada como a defesa do esquecimento,
sendo desenvolvida ao ponto de assegurar os dados na memória com os exercícios de
memória – assegurar que acontecimentos ruins do passado não ocorram novamente, como no
caso do holocausto, tão citado por Ricoeur. O lembrar-se é uma experiência de
(re)significação, (re)conhecimento, (re)criação das coisas e de si.
Referências
RICOEUR, Paul. O percurso do reconhecimento. Tradução Nicolás Nyimi Campanário. SP: Loyola, 2006.
____________. A memória, a história, o esquecimento. Tradução: Alain François. Campinas, SP: Editora da
UNICAMP, 2007.
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