Sua Saúde
15 de maio a 15 de junho ❖ Ano 2 ❖ Nº 14 ❖ Página 30
A fome e a evolução da espécie
É mais fácil suportar dores crônicas do
que a fome. Trinta e cinco anos de clínica
me ensinaram que geralmente somos patifes para dores agudas de forte intensidade;
vi doentes rolarem no chão e suplicarem
a Deus que se lembrasse deles no auge de
uma cólica renal, de uma crise de vesícula
ou de uma cefaléia excruciante. Em compensação, muita gente convive com dores
crônicas na coluna, cólicas abdominais,
episódios repetitivos de enxaquecas, estoicamente, sem lamentar a sorte. A persistência do quadro doloroso mobiliza reações
incríveis nos organismos que sofrem dele.
Já com a fome não é assim. Quando ela
aperta, o prazer de estar vivo desaparece.
A paisagem mais encantadora, a mulher
amada, o prêmio da loteria, nada traz ao
faminto alegria que se compare a um prato
de comida.
A baixa resistência à fome quando comparada à capacidade de enfrentar a dor
tem raízes evolucionistas. Traumatismos,
doenças infecciosas e parasitárias são flagelos que afligiram nossos antepassados
desde as cavernas. Num mundo sem analgésicos, a dor era parte inerente das preocupações diárias.
Como conseqüência dos quadros dolorosos repetitivos, levaram vantagem na
seleção natural aqueles que desenvolveram sistemas nervosos com a habilidade
de produzir mediadores químicos, capazes de bloquear pelo menos parcialmente
a condução de estímulos dolorosos mais
duradouros. Somos descendentes de mulheres e homens que aprenderam a produzir endorfinas e outros mediadores em
resposta à dor e ao cansaço extremo com a
finalidade de reduzir-lhes a intensidade e
assegurar a sobrevivência.
Em relação à fome, os mecanismos
adaptativos tiveram impacto mais sutil,
porque a falta prolongada de alimentos
provoca fraqueza, redução da massa muscular e incapacidade de responder adequadamente às situações de perigo. No melhor
estilo darwiniano, num mundo de predadores, quem não consegue caçar é predado precocemente e tem menos chance de
deixar descendentes.
Como a história da humanidade é uma
longa sucessão de epidemias de fome, nossos ancestrais acabaram desenvolvendo
alguns recursos para fazer frente às épocas
das vacas magras. Dois desses mecanismos
de adaptação constituem o grande suplício
dos que pretendem perder peso num mundo com oferta abundante de alimentos.
O primeiro é o retardo da ativação dos
circuitos de neurônios que convergem
para uma área cerebral considerada o centro da saciedade. Para manter peso, o ideal
seria que esse centro fosse acionado ao ingerirmos a última caloria necessária para
cobrir as necessidades energéticas diárias
do organismo e o apetite desaparecesse
imediatamente até o dia seguinte. Mas, se
a saciedade tivesse essas características,
nossos antepassados não teriam sobrevivido. Para eles, comida farta era ocasião
de festa. Quando conseguiam encontrar
frutas, caça ou carcaças, que disputavam a
unhas e dentes com outros carnívoros, não
podiam se dar ao luxo de fazer cerimônia:
ingeriam a maior quantidade que agüentavam. O excesso de calorias absorvidas era
armazenado em depósitos de gordura sob
a pele, providência fundamental para sobreviver às fases de jejum prolongado que
certamente viriam.
Levaram vantagem na competição
pelos recursos naturais disponíveis os
portadores de centros de saciedade que
demoravam mais
para serem ativados,
mecanismo
que lhes possibilitava a ingestão de
muitas calorias em
excesso. Isso explica
o arrependimento
manifestado tantas
vezes ao levantarmos da mesa com a
sensação de quem
comeu um boi: “Por
que não parei antes?”. Explica também por que a vontade de continuar
comendo às vezes
desaparece quando
interrompemos o
final de uma refeição para atender ao telefone. No final da refeição, o centro da saciedade exige um intervalo de tempo para
ser ativado pelos mediadores liberados no
aparelho digestivo. Por isso, os médicos recomendam comer devagar aos que pretendem perder peso.
A segunda armadilha que a evolução
armou para o futuro alimentar da espécie
humana diz respeito à energia que o organismo consome em repouso. Da mesma forma que um carro funcionando em
ponto morto, o corpo gasta energia mesmo
parado para manter o coração batendo, os
pulmões sendo ventilados, os movimentos
das alças intestinais, os estímulos correndo pelos neurônios e todas as reações metabólicas.
A quantidade de energia gasta em repouso varia de um corpo para outro, de
acordo com fatores genéticos: há pessoas
que consomem muita energia em repouso;
outras gastam pouco. As primeiras, por esbanjarem calorias, terão mais dificuldade
de engordar; as outras, por serem econômicas no consumo, ganharão peso com
mais facilidade. Além de maldizermos
nossos pais pelo legado que nos deixaram,
aparentemente nada pode ser feito para
modificar essa característica do equilíbrio
energético individual.
Quando o organismo é privado do nú-
mero mínimo
de
calorias
necessárias
para manter
todas as células vivas, o cérebro põe em
prática dois
mecanismos Elaine Peleje Vac
compensató- (Médica no Brasil) - Não tome
rios: o centro nenhuma medicamento sem
de saciedade prescrição médica.
Consulte sempre o seu médico.
se torna mais
refratário
à [email protected]
ativação e a
energia gasta em repouso diminui. Como
conseqüência, a saciedade tarda mais para
se fazer sentir (a fome aumenta desproporcionalmente), e o corpo reduz o consumo
energético para funcionar em ponto morto,
a fim de aproveitar com mais sabedoria as
parcas calorias disponíveis. Por essa razão,
os regimes de emagrecimento vão bem nas
primeiras semanas, mas perdem eficácia à
medida que o tempo passa.
Para quem tem acesso ao disque-pizza
e à geladeira cheia, o martírio de conviver
com a fome permanente é uma afronta aos
princípios básicos da evolução de nossa
espécie.
Drauzio Varella, é um médico oncologista e escritor brasileiro, conhecido por popularizar a medicina
em seu país, através de programas de rádio e TV. Foi
também um dos fundadores da Universidade Paulista e da Rede Objetivo, onde lecionou química durante
muitos anos.
Em 1986, sob orientação do radialista Fernando
Vieira de Mello, iniciou campanhas na rádios com o intuito de esclarecer a população sobre aAIDS e métodos
de prevenção. Com esse projeto, Varella trabalhou na
Jovem Pan e depois na 89 FM de São Paulo.
Na televisão, seu trabalho mais conhecido é o na
Rede Globo, onde apresenta diversos quadros na área
de saúde no programa Fantástico, falando sobre o corpo humano, o tabagismo, primeiros socorros, gravidez
e obesidade. Além da Rede Globo, ele trabalha ainda
em outras emissoras como o Canal Universitário e a
TV Senado, nos quais entrevista especialistas e discute
assuntos de saúde em diversas áreas.
Além das campanhas de prevenção, Drauzio Varella também é um premiado escritor, tanto de ficção
para adultos quanto para crianças. Lançado em 1999,
o livro Estação Carandiru, que conta sobre seu trabalho com os presidiários do Carandiru, virou best-seller
e recebeu o Prêmio Jabuti na categoria “não-ficção”.
Em 2003, a obra ganhou as telas do cinema num filme
do diretor Hector Babenco.
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