FORMAÇÃO DO HOMEM EM PAULO FREIRE – DIÁLOGOS
COM A PEDAGOGIA DA AUTONOMIA
Adriano José da Silva, Patrícia Hetti – Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia – Licenciatura em geografia – [email protected].
Palavras-chave: Paulo Freire, existencialismo, Sartre, pedagogia, inacabamento, homem.
Keywords: Paulo Freire, existentialism, Sartre, pedagogy, man.
O objetivo dessa pesquisa é perscrutar o conceito de homem na produção
amadurecida de Paulo Freire, dialogando com sua obra Pedagogia da Autonomia
numa perspectiva do existencialismo e entender a relação das propostas
pedagógicas desse autor com o conceito de homem por ele formulado.
No livro escolhido, o autor discute algumas teses, ou pontos de vista, que
visam o aprimoramento da formação docente. Uma delas, no capitulo 2.1, aborda a
questão de que “ensinar exige consciência do inacabamento” (p.50). Este seria,
segundo o próprio autor, ponto crucial de toda a sua pedagogia, afirmando que “aqui
chegamos ao elemento de que talvez devêssemos ter partido. O do inacabamento
do ser humano” (FREIRE, 2010, p. 50).
Para Freire, “onde há vida, há inacabamento”, mas só o ser humano tem
consciência dessa condição.
O Dicionário Paulo Freire, no verbete “Inacabamento” nos diz o seguinte:
A concepção antropológica de Freire é marcada pela idéia de que o ser
humano é um ser inacabado; não é uma realidade pronta, estática, fechada.
Somos um ser por fazer-se; um ser no mundo e com os outros envolvidos
num processo continuo de desenvolvimento intelectual, moral, afetivo.
Somos seres insatisfeitos com o que já conquistamos (TROMBETA, Sérgio
e Luiz Carlos, in REDIN e ZITKOSK, 2008, p. 228).
Assim, compreende-se que o ser humano é um devir, buscando sempre e, ao
mesmo tempo, sempre insatisfeito. Essa concepção de homem como um ser que
está sempre se construindo, ou no dizer mesmo de Paulo Freire, “uma busca por ser
mais”, é um pensamento de oposição às convenções neoliberais, cuja valorização
do consumo como ideal de vida e a desumana busca pelos próprios objetos de
consumo resultam na idéia do “ter mais”.
Tal
concepção
de
inacabamento
tem
forte
influência
da
doutrina
existencialista, cuja principal referência para este trabalho é o filósofo Jean-Paul
Sartre. Segundo o filósofo francês, existem duas espécies de existencialistas, mas o
que devemos enfatizar é “o que eles têm em comum (que) é simplesmente o fato de
considerarem que a existência precede a essência ou, se preferirem, que é preciso
partir da subjetividade”. (SARTRE, 2010, p. 23).
É pensando nessa subjetividade que Freire expõe a primazia do ser humano
sobre os demais seres vivos, pois essa subjetividade é responsável por inventar a
existência e por “promover o suporte em que os outros animais continuam, em
mundo” (FREIRE, 2010, p. 50).
“O suporte é o espaço, restrito ou alongado, a que o animal se prende
„afetivamente‟ tanto quanto para resistir; é o espaço necessário a seu
crescimento e que delimita seu domínio. É o espaço em que treinado,
adestrado, „aprende‟ a sobreviver, a caçar, a atacar, a defender-se num
tempo de dependência dos adultos imensamente menor do que é
necessário ao ser humano para as mesmas coisas” (FREIRE, 2010, p. 50,
51).
Falta aos animais que vivem no suporte o que Freire chama de “espanto
diante da vida”, seus comportamentos encerram-se na espécie à qual fazem parte,
nunca em si mesmos, enquanto que o homem, a partir da consciência, tem a
liberdade de opção, e a capacidade de “ser mais”. Sartre, na sua defesa do
existencialismo – O existencialismo é um humanismo, expõe da seguinte forma essa
liberdade humana:
“O homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em
seguida. Se o homem, na concepção do existencialismo, não é definível, é
porque ele não é, inicialmente, nada. Ele apenas será alguma coisa
posteriormente, e será aquilo que ele se tornar. Assim, não há natureza
humana, pois não há um Deus para concebê-la. O homem é, não apenas
como é concebido, mas como ele se quer, e como se concebe a partir da
existência, como se quer a partir desse elã de existir, o homem nada é além
do que ele se faz” (SARTRE, 2010, p.25).
A partir dessa concepção de homem, o seu principal fundamento seria a
liberdade de opção, de escolha, e uma educação que correspondesse com essa
liberdade humana só poderia visar a sua autonomia, e a responsabilidade
concentrada em si mesmo de suas escolhas e de suas ações. Em Sartre, essa
liberdade corresponde não só ao individuo, mas a todos os homens, pois o homem
se escolhe escolhendo todos os homens. “Assim, sou responsável por mim e por
todos e crio uma determinada imagem do homem que escolho ser; ao escolher a
mim, estou escolhendo o homem” (SARTRE, 2010, p. 28).
A pesquisadora Odete Maria de Oliveira bem sintetizou este pensamento de
Sartre:
“A liberdade humana, desse modo, tornou-se condição necessária para a
obra sartreana, na qual o seu existencialismo se opõe ferrenhamente a
certo tipo de moralismo secular. Pregando certos valores existenciais,
sustenta o autor que a ética não se origina de princípios teológicos, porque
todo homem cria seus próprios valores morais” (OLIVEIRA, 2006 p. 268).
A escolha feita por si mesmo não necessariamente universaliza o tipo de
homem que pretendo ser para todos os homens, e sim a própria ação de escolher e
de se fazer, o que culmina no ideal de liberdade. Ao me escolher, escolho a
liberdade de fazer-me, e esta imagem que crio corresponde à escolha livre pelo
homem.
Embora exista sim, uma forte ligação de Paulo Freire com Sartre, um
parênteses deve ser feito, pois Freire corresponde mais a uma linha do
existencialismo cristão, enquanto Sartre tem um pensamento voltado para o
ateísmo. Em Freire nota-se claramente a crença numa “natureza humana”, e que na
opção de uma liberdade voltada para um posicionamento mal, ou antiético, o homem
deve se responsabilizar por tal escolha, e se assumir como “transgressor da
natureza humana” (FREIRE, 2010, p. 60). Para Sartre, “não há natureza humana,
pois não há um Deus para concebê-la”. Ele se apropria do conceito de Heidegger ao
definir o Homem como “realidade humana”, que efetivamente traz a definição de
homem do existencialismo – um ser cuja existência precede a essência.
Aqui podemos então discutir a visão freiriana de ética. Em Freire, a ética
humana jaz muito próxima do que ele considera natureza humana, pois como ele
nos diz, “o inacabamento de que nos tornamos conscientes nos fez seres éticos” (p.
59). A ética então seria a medida das ações humanas, para julgar se são ações
boas ou ações más. Justamente por ser o único dotado de ética, o homem pode
também transgredi-la, mas essa possibilidade não deve gerar uma coerção social,
política ou mesmo religiosa para que tal não aconteça, pois faz parte também de um
imperativo ético a autonomia do ser, ainda que haja a possibilidade de transgressão
dessa natureza ética.
O existir coloca a condição de agir no mundo, mas num mundo onde outros
também existem, e a construção de “minha presença no mundo” não se faz
independente de forças sociais, como seres culturais e histórico que somos.
Muitas reflexões apontam para o homem como um animal de relações – e
de crises. Relações que não se excluem e têm na pessoa humana o seu
ponto de convergência. Político, religioso, social, lúdico, racional, individual
etc., o ser humano é tudo isto, mas não é nada disto isoladamente. E,
embora mantenha uma relação consigo mesmo, é no limiar do encontro
com o outro que constrói sua identidade (MATOS, in GERALDI,
FIORENTINI e PEREIRA, 2001, p. 282).
É nesse contexto que o existencialismo de Freire ganha contornos mais
cristãos, e ele pensa o homem como esperançoso por necessidade ontológica,
como diz acerca de si mesmo: “Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por
exigência ontológica” (FREIRE, 2010, p. 58).
O homem então teria natureza ética e esperançosa, que o lançaria à sua
vocação, também ontológica, de intervir no mundo. Assim é que Paulo Freire relata
a beleza de ser gente:
Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais,
econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas em que nos achamos
geram quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de
nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos
não se eternizam (FREIRE 2010, p. 54).
O entendimento de tal natureza, por parte do educador, possibilita a
construção do conhecimento livre, permanente, e que corresponda a esta natureza.
As experiências acontecidas em sala de aula não necessariamente se repetem,
fazendo-se sempre novas e, ao mesmo tempo, diferentes. É neste sentido que
Freire diz que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades
para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 2010, p. 47). O
educador que se sabe inacabado, sabe da possibilidade de aprender e ensinar, visa
a autonomia dos educandos que, no ato de aprender e ensinar, estão também
fazendo-se no mundo, não de forma passiva, mas intervindo no mundo através da
produção mútua do conhecimento.
Nesta perspectiva é que Paulo Freire julga não mais ser possível existir no
mundo sem nele estar inserido, ou, no dizer do próprio Freire,
Quer dizer, já não foi possível existir sem assumir o direito e o dever de
optar, de decidir, de lutar, de fazer política. E tudo isso nos traz de novo a
imperiosidade da prática formadora, de natureza eminentemente ética. E
tudo isso nos traz de novo à radicalidade da esperança. Sei que as coisas
podem até piorar, mas sei também que é possível intervir para melhorá-las
(FREIRE, 2010, p. 52).
À guisa de conclusão, obtém-se que o homem inconcluso, tal qual pensado
por Paulo Freire, conquista a sua liberdade através de uma educação que melhor
corresponda a sua formação ética e vocação ontológica, ou seja, a de participar e
intervir no mundo, ter esperança, e “ser mais”.
Referencias Bibliográficas
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática
educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
GERALDI, Corinta Maria Grisolia; FIORENTINI, Dario; PEREIRA, Elizabete Monteiro
de A. (Orgs.), Cartografias do trabalho docente: professor(a)-pesquisador(a).
Campinas, São Paulo: Mercado de letras, 2001.
OLIVEIRA, Odete Maria de. Conceito de Homem: mais humanista, mais
transpessoal. Ijuí, RS: Editora Unijuí, 2006.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis, RJ: Editora
Vozes, 2010.
STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSK, Jaime José (Orgs.). Dicionário
Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.
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