A TARTARUGA E A LEBRE
Luiz Paulo Serôa1
“O que é a linguagem Logo? Para que utilizá-la? Não seria um exagero querer que
meu filho(a) saiba programar computadores?” Creio serem estas algumas das dúvidas
dos pais que acompanham o nosso trabalho em sala de aula.
Na verdade, o projeto Logo da escola não propõe o trabalho com a linguagem
Logo como um fim em si mesmo. A nossa proposta é utilizar essa poderosa ferramenta
(Computador + Logo) para estimular o aluno a aprender a aprender, aprender a buscar a
solução de problemas lógicos e dessa forma a se expressar de forma lógica precisa e
inequívoca através de comandos. Paralelamente com esse objetivo fundamental tratamos
de apresentar e trabalhar com os alunos os conceitos geométricos, matemáticos e até
discutir com eles o significado expresso em cada comando da linguagem.
A Tartaruga, o que é?
A tartaruga é o símbolo da linguagem Logo. Ela personifica o cursor e é quem
executa as ordens transmitidas pelo programador através dos comandos.
O logo foi pensado para ser aprendido por pessoas (principalmente crianças) em
seu primeiro contato com a programação. Seus comandos são extremamente simples e
claros. A linguagem foi desenvolvida no Massachusstes Institute of Technology (MIT),
Boston/EUA pelo professor Seymour Papert. Papert trabalhou alguns anos com Piaget,
durante as suas pesquisas em busca do que seria mais tarde chamada de Linguagem Logo.
Segundo suas próprias palavras:
Em muitas escolas, atualmente a frase “instrução ajudada pelo computador”
(computer aided instruction) significa fazer com que o computador ensine a
criança. Pode-se dizer que o computador está sendo usado para “programar”
a criança. Na minha perspectiva, é a criança que deve programar o
computador e, ao fazê-lo ele adquire um sentimento de domínio sobre um
dos mais poderosos e modernos equipamentos tecnológicos e estabelece
contato íntimo com algumas das idéias mais profundas da ciência, da
matemática e da arte de construir modelos intelectuais”
Seymour Papert - “Logo: Computadores e Educação“
A versão do Logo que utilizamos em nossa escola é o SuperLogo para Windows
95, uma versão implementação desenvolvida pela Universidade de Berkley e “traduzida”
pelo Núcleo de Informática Aplicada a Educação da Unicamp (NIED). Ela está disponível
gratuitamente para ser “baixada” em http://www.unicamp.br/NIED
A idéia utilizada por Papert foi a de criar uma linguagem de comunicação
(programação) homem-computador que fosse muito próxima da “linguagem natural”.
1
Professor de Informática da 1ª à 4ª série.
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Qualquer pessoa (inclusive uma criança de primeira série) consegue começar a trabalhar
com o Logo após alguns minutos de contato com a linguagem. Sua parte gráfica permite
transmitir ordens à tartaruga na forma de ordens diretas. Para Frente, Para Trás, Para
Direita, Para Esquerda, Use Lápis, Use Borracha são alguns dos comandos mais simples
que até mesmo, sem explicação nesse texto, permitem que o leitor que nunca tenha tido
contato com a linguagem já tenha quase uma compreensão completa de seu objetivo.
Através desses comandos simples a criança consegue comandar a tartaruga e programála a traçar retas e arcos, colorir, apagar, aparecer e desaparecer da tela.
Como estamos trabalhando ?
Antes da apresentação do programa às crianças, nas primeiras aulas, propomos a
elas uma brincadeira fora de sala de aula na qual um deles seria um animal (a tartaruga)
e os outros comandariam as suas ações. A tartaruga vai na quadra andar, girar para os
lados indicados pelos “programadores”, riscar e não riscar o chão com o giz. Nesse
momento já começamos a introduzir os nomes de comandos e como, só através desses,
de forma até restritiva, as crianças que comandam podem passar as ordens à tartaruga.
Não vale comandos do tipo: “vai mais um pouquinho” ou “roda para cá”.
Na seqüência foi apresentado o programa e desafiamos a criança a fazer agora,
através do computador, o mesmo que ela estava fazendo na quadra de esportes. Ela
passa a dar ordens à tartaruga e a perceber que a tartaruga não entende quando ela
digita errado um comando, não obedece à sintaxe incorreta de comandos ou “cria” um
comando. Na linguagem logo o mouse só é utilizado para trocar de janela e iniciar uma
edição. O que importa é o que é digitado.
Num primeiro momento sugerimos ao aluno trabalhar com os comandos
livremente, adaptando-se ao ambiente Logo e aprendendo as sintaxes dos diversos
comandos. É muito importante que ele se sinta confortável e se familiarize com essa
nova maneira de trabalhar. Nesse momento orientamos o seu trabalho na exploração da
tela através dos movimentos da tartaruga.
A partir de um ponto de domínio relativo do ambiente, sugerimos que a criança
(na verdade duplas de crianças) faça um projeto. Apresentamos o editor de texto que
está dentro do programa e sugerimos que as duplas pensem em executar uma tarefa
definida por eles próprios. Fazer o projeto significa executar no papel um desenho que
deverá ser reproduzido na tela através dos comandos.
E a Lebre ?
A analogia do título com a famosa fábula me veio à cabeça quando eu escrevia
esse texto. Se podemos pensar no ensino como uma corrida, precisamos saber que estilo
adotar. A lebre ou a tartaruga ?
Pra mim, a lebre representa os métodos educacionais que se propõem a eliminar
o esforço individual do aluno através de métodos mirabolantes e tecnologizados de
educação. Megabytes de informação por segundo devem ser absorvidos pelo aluno à
frente da telinha sem que o mesmo intervenha no processo, a não ser para seguir
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hiperlinks ou dizer sim ou não às perguntas feitas pelos programadores dos “softwares”.
Enciclopédias de muitos CD-ROMs são considerados a última palavra em método
educativos sem modificar a relação do aprendiz com o objeto a ser conhecido. Utiliza-se
métodos modernos com finalidades super-arcaicas: pensar o aluno como um depósito de
conteúdo.
A tartaruga é o Logo, é o trabalho. É o método interativo por excelência que
exige que as crianças pensem, analisem o que estão fazendo e com as correções
necessárias cheguem ao seu intento. A tartaruga representa o método da interatividade
e da aprendizagem através da depuração de suas ações. Não é assim que fazemos em
qualquer atividade de nossas vidas?
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A Informática ou a Tartaruga e a Lebre