Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.316.921 - RJ (2011/0307909-6)
RECORRENTE
ADVOGADO
RECORRIDO
ADVOGADO
:
:
:
:
GOOGLE BRASIL INTERNET LTDA
RICARDO BARRETTO FERREIRA DA SILVA E OUTRO(S)
MARIA DA GRAÇA XUXA MENEGHEL
MAURICIO LOPES DE OLIVEIRA E OUTRO(S)
RELATÓRIO
A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):
Cuida-se de recurso especial interposto por GOOGLE BRASIL
INTERNET LTDA., com fulcro no art. 105, III, “a” e “c”, da CF, contra acórdão
proferido pelo TJ/RJ.
Ação: ordinária inominada, ajuizada por MARIA DA GRAÇA XUXA
MENEGHEL em desfavor da recorrente, objetivando compelir esta última a remover do
seu site de pesquisas via Internet denominado GOOGLE SEARCH os resultados
relativos à busca pela “expressão 'xuxa pedófila' ou, ainda, qualquer outra que associe o
nome da autora, escrito parcial ou integralmente, e independentemente de grafia, se
correta ou equivocada, a uma prática criminosa qualquer” (fls. 54/55, e-STJ).
Decisão interlocutória: o Juiz de primeiro grau de jurisdição deferiu o
pedido de tutela antecipada, determinando que a recorrente “se abstenha de disponibilizar
aos seus usuários, no site de buscas GOOGLE, quaisquer resultados/links na hipótese de
utilização dos critérios de busca 'Xuxa', 'pedófila', 'Xuxa Meneghel', ou qualquer grafia
que se assemelhe a estas, isoladamente ou conjuntamente, com ou sem aspas, no prazo de
48 horas, a contar desta intimação, pena de multa cominatória de R$20.000,00 por cada
resultado positivo disponibilizado ao usuário” (fls 71/72, e-STJ).
A decisão foi impugnada pela GOOGLE via agravo de instrumento.
Acórdão: o TJ/RJ deu parcial provimento ao agravo, restringindo a liminar
“apenas às imagens expressamente referidas pela parte agravada”, ainda assim sem
“exclusão dos links na apresentação dos resultados de pesquisas” (fls. 310/316, e-STJ).
Embargos de declaração: interpostos por ambas as partes, foram
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rejeitados pelo TJ/RJ (fls. 346/348 e 350/352, e-STJ).
Recurso especial da GOOGLE: alega violação dos arts. 461, §§ 4º e 6º do
CPC; e 248 do CC/02, bem como dissídio jurisprudencial (fls. 379/411, e-STJ).
Prévio juízo de admissibilidade: o TJ/RJ negou seguimento ao especial
(fls. 553/563, e-STJ), dando azo à interposição do AREsp 103.125/RJ, conhecido para
determinar o julgamento do recurso principal (fl. 612, e-STJ).
É o relatório.
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RECURSO ESPECIAL Nº 1.316.921 - RJ (2011/0307909-6)
RELATORA
RECORRENTE
ADVOGADO
RECORRIDO
ADVOGADO
:
:
:
:
:
MINISTRA NANCY ANDRIGHI
GOOGLE BRASIL INTERNET LTDA
RICARDO BARRETTO FERREIRA DA SILVA E OUTRO(S)
MARIA DA GRAÇA XUXA MENEGHEL
MAURICIO LOPES DE OLIVEIRA E OUTRO(S)
VOTO
A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):
Cinge-se a lide a determinar os limites da responsabilidade de site de
pesquisa via Internet pelo conteúdo dos respectivos resultados.
I. Do recurso especial interposto pela recorrida.
Preliminarmente, saliento que a recorrida não se insurgiu contra a decisão
do TJ/RJ (fls. 553/563, e-STJ) que negou seguimento ao seu recurso especial, o que
inviabiliza o seu conhecimento pelo STJ.
Sendo assim, o presente julgamento aprecia unicamente o recurso especial
da GOOGLE.
II. Da responsabilidade da GOOGLE.
Na ótica do TJ/RJ, “ainda que a agravante possa não ser juridicamente
responsável pela veiculação dessas imagens na rede de computadores, pode ela ser o
destinatário da determinação judicial, em caráter cautelar, de sua cessação – considerando
a quase inviabilidade fática de, para tal condão, demandar contra cada um dos uploaders
isolados de imagens eróticas da agravada” (fl. 315, e-STJ).
A GOOGLE se opõe a essa assertiva, afirmando que o TJ/RJ “ignorou por
completo o fato de que não pode ser atribuída à recorrente a obrigação de impossível
cumprimento considerando o estado da técnica atual”, ressalvando que “não é possível
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exigir que a GOOGLE realize o monitoramento de todo o conteúdo indicado como
resultado em sua ferramenta de buscas a fim de verificar se as imagens ali indicadas são
ou não referentes e ofensivas à recorrida”. Diante disso, conclui que o Tribunal Estadual
“deveria ter revogado a obrigação de fazer imposta à recorrente, que além de impossível,
leva à censura prévia de conteúdo, antes mesmo de qualquer apreciação judicial” (fls.
397/398, e-STJ).
A questão é atual e de extrema relevância, dada a indiscutível importância
assumida pelos sites de pesquisa virtual, tendo em vista, de um lado, o estágio de
dependência da sociedade contemporânea frente à Internet e, de outro, a impossibilidade
de se conhecer todo o diversificado conteúdo das incontáveis páginas que formam a web.
De fato, o cotidiano de milhares de pessoas hoje depende de informações
que estão na Internet, mas que, por desconhecimento da página específica onde estão
inseridas, dificilmente seriam encontradas sem a utilização das ferramentas de pesquisa
oferecidas pelos sites de busca.
Em contrapartida, esses mesmos mecanismos de busca podem ser usados
para a localização de páginas com conteúdo ilícito, cada vez mais comuns diante do
anonimato que o ambiente virtual propicia.
Nesse contexto, a definição dos limites da responsabilidade desses sites de
pesquisa se torna fundamental.
(i) A sujeição dos serviços de Internet ao CDC.
Parece inegável que a exploração comercial da Internet sujeita as relações
jurídicas de consumo daí advindas à Lei nº 8.078/90. Newton De Lucca aponta o
surgimento de “uma nova espécie de consumidor (...) – a do consumidor internauta – e,
com ela, a necessidade de proteção normativa, já tão evidente no plano da economia
tradicional” (Direito e Internet: aspectos jurídicos relevantes. Vol. II. São Paulo:
Quartier Latin, 2008, p. 27).
Com efeito, as peculiaridades inerentes a essa relação virtual não afastam as
bases caracterizadoras de um negócio jurídico clássico: (i) legítima manifestação de
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vontade das partes; (ii) objeto lícito, possível e determinado ou determinável; (iii) e
forma prescrita ou não defesa em lei.
Fernando Antônio de Vasconcelos observa que “o serviço preconizado na
Lei 8.078/90 é o mesmo prestado pelas várias empresas que operam no setor [rede
virtual]. Fica, pois, difícil dissociar o prestador [provedor] de serviços da Internet do
fornecedor de serviços definido no Código de Defesa do Consumidor” (Internet.
Responsabilidade do provedor pelos danos praticados. Curitiba: Juruá, 2004, p. 116).
Vale notar, por oportuno, que o fato de o serviço prestado pelo provedor ser
gratuito não desvirtua a relação de consumo, pois o termo “mediante remuneração”,
contido no art. 3º, § 2º, do CDC, deve ser interpretado de forma ampla, de modo a incluir
o ganho indireto do fornecedor.
Na lição de Cláudia Lima Marques, “a expressão 'remuneração' permite
incluir todos aqueles contratos em que for possível identificar, no sinalagma escondido
(contraprestação escondida), uma remuneração indireta do serviço” (Comentários ao
código de defesa do consumidor: arts. 1º ao 74. São Paulo: RT, 2003, p. 94).
No caso da GOOGLE, é clara a existência do chamado cross marketing –
ação promocional entre produtos ou serviços em que um deles, embora não rentável em
si, proporciona ganhos decorrentes da venda de outros. Apesar das pesquisas realizadas
via GOOGLE SEARCH serem gratuitas, a empresa vende espaços publicitários no site
bem como preferências na ordem de listagem dos resultados das buscas.
Retomando os ensinamentos de Cláudia Lima Marques, a autora anota que
“estas atividades dos fornecedores visam lucro, são parte de seu marketing e de seu preço
total, pois são remunerados na manutenção do negócio principal”, concluindo que “no
mercado de consumo, em quase todos os casos, há remuneração do fornecedor, direta ou
indireta, como um exemplo do 'enriquecimento' dos fornecedores pelos serviços ditos
'gratuitos' pode comprovar” (op. cit., p. 95).
Há, portanto, inegável relação de consumo nos serviços de Internet, ainda
que prestados gratuitamente.
(ii) A natureza jurídica do serviço de pesquisa via Internet.
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Inicialmente, é preciso determinar a natureza jurídica dos provedores de
serviços de Internet, em especial do sites de busca, pois somente assim será possível
definir os limites de sua responsabilidade.
A world wide web (www) é uma rede mundial composta pelo somatório de
todos os servidores a ela conectados. Esses servidores são bancos de dados que
concentram toda a informação disponível na Internet, divulgadas por intermédio das
incontáveis páginas de acesso (webpages ).
Os provedores de serviços de Internet são aqueles que fornecem serviços
ligados ao funcionamento dessa rede mundial de computadores, ou por meio dela.
Trata-se de gênero do qual são espécies as demais categorias, como: (i) provedores de
backbone (espinha dorsal), que detêm estrutura de rede capaz de processar grandes
volumes de informação. São os responsáveis pela conectividade da Internet, oferecendo
sua infraestrutura a terceiros, que repassam aos usuários finais acesso à rede; (ii)
provedores de acesso, que adquirem a infraestrutura dos provedores backbone e
revendem aos usuários finais, possibilitando a estes conexão com a Internet; (iii)
provedores de hospedagem, que armazenam dados de terceiros, conferindo-lhes acesso
remoto; (iv) provedores de informação, que produzem as informações divulgadas na
Internet; e (v) provedores de conteúdo, que disponibilizam na rede os dados criados ou
desenvolvidos pelos provedores de informação ou pelos próprios usuários da web.
É frequente que provedores ofereçam mais de uma modalidade de serviço
de Internet; daí a confusão entre essas diversas modalidades. Entretanto, a diferença
conceitual subsiste e é indispensável à correta imputação da responsabilidade inerente a
cada serviço prestado.
Na hipótese específica dos sites de busca, verifica-se a disponibilização de
ferramentas para que o usuário realize pesquisas acerca de qualquer assunto ou conteúdo
existente na web, mediante fornecimento de critérios ligados ao resultado desejado,
obtendo os respectivos links das páginas onde a informação pode ser localizada.
Essa provedoria de pesquisa constitui uma espécie do gênero provedor de
conteúdo, pois esses sites não incluem, hospedam, organizam ou de qualquer outra forma
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gerenciam as páginas virtuais indicadas nos resultados disponibilizados, se limitando a
indicar links onde podem ser encontrados os termos ou expressões de busca fornecidos
pelo próprio usuário.
(iii) Os limites da responsabilidade dos provedores de pesquisa.
Não obstante a indiscutível existência de relação de consumo no serviço
prestado pelos sites de busca via Internet, a sua responsabilidade deve ficar restrita à
natureza da atividade por eles desenvolvida que, como visto linhas acima, corresponde à
típica provedoria de pesquisa, facilitando a localização de informações na web.
Assim, os provedores de pesquisa devem garantir o sigilo, a segurança e a
inviolabilidade dos dados cadastrais de seus usuários e das buscas por eles realizadas,
bem como o bom funcionamento e manutenção do sistema.
No que tange à filtragem do conteúdo das pesquisas feitas por cada usuário,
não se trata de atividade intrínseca ao serviço prestado, de modo que não se pode reputar
defeituoso, nos termos do art. 14 do CDC, o site que não exerce esse controle sobre os
resultados das buscas.
Conforme anota Rui Stocco, quando o provedor de Internet age “como
mero fornecedor de meios físicos, que serve apenas de intermediário, repassando
mensagens e imagens transmitidas por outras pessoas e, portanto, não as produziu nem
sobre elas exerceu fiscalização ou juízo de valor, não pode ser responsabilizado por
eventuais excessos e ofensas à moral, à intimidade e à honra de outros” (Tratado de
responsabilidade civil. 6ª ed. São Paulo: RT, 2004, p. 901).
Por outro lado, há de se considerar a inviabilidade de se definirem critérios
que autorizariam o veto ou o descarte de determinada página. Ante à subjetividade que
cerca o dano psicológico e/ou à imagem, seria impossível delimitar parâmetros de que
pudessem se valer os provedores para definir se um conteúdo é potencialmente ofensivo.
Por outro lado, seria temerário delegar esse juízo de discricionariedade aos provedores.
Tampouco se pode falar em risco da atividade como meio transverso para a
responsabilização do provedor de pesquisa por danos decorrentes do conteúdo das buscas
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realizadas por usuários. Há de se ter cautela na interpretação do art. 927, parágrafo único,
do CC/02.
No julgamento do REsp 1.067.738/GO, 3ª Turma, Rel. Min. Sidnei Beneti,
minha relatoria p/ acórdão, DJe de 25.06.2009, tive a oportunidade de enfrentar o tema,
tendo me manifestado no sentido de que “a natureza da atividade é que irá determinar sua
maior propensão à ocorrência de acidentes. O risco que dá margem à responsabilidade
objetiva não é aquele habitual, inerente a qualquer atividade. Exige-se a exposição a um
risco excepcional, próprio de atividades com elevado potencial ofensivo”.
Roger Silva Aguiar bem observa que o princípio geral firmado no art. 927,
parágrafo único, do CC/02 “inicia-se com a conjunção quando, denotando que o
legislador acolheu o entendimento de que nem toda atividade humana importa em 'perigo'
para terceiros com o caráter que lhe foi dado na terceira parte do parágrafo”
(Responsabilidade civil objetiva: do risco à solidariedade. São Paulo: Atlas, 2007, p.
50).
Com base nesse entendimento, a I Jornada de Direito Civil, promovida pelo
Centro de Estudos Judiciários do CJF, aprovou o Enunciado 38, que aponta interessante
critério para definição dos riscos que dariam margem à responsabilidade objetiva,
afirmando que esta fica configurada “quando a atividade normalmente desenvolvida pelo
autor do dano causar a pessoa determinada um ônus maior do que aos demais membros
da coletividade”.
Transpondo a regra para o universo virtual, não se pode considerar o dano
moral um risco inerente à atividade dos provedores de pesquisa. A esse respeito Erica
Brandini Barbagalo anota que as atividades desenvolvidas pelos provedores de serviços
na Internet não são “de risco por sua própria natureza, não implicam riscos para direitos
de terceiros maior que os riscos de qualquer atividade comercial” (Aspectos da
responsabilidade civil dos provedores de serviços da Internet. In Ronaldo Lemos e Ivo
Waisberg, Conflitos sobre nomes de domínio. São Paulo: RT, 2003, p. 361).
Conclui-se, portanto, ser ilegítima a responsabilização dos provedores de
pesquisa pelo conteúdo do resultado das buscas realizadas por seus usuários.
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O TJ/RJ, contudo, vai além no raciocínio e afirma: “ainda que a agravante
possa não ser juridicamente responsável pela veiculação dessas imagens na rede de
computadores, pode ela ser o destinatário da determinação judicial, em caráter cautelar,
de sua cessação – considerando a quase inviabilidade fática de, para tal condão,
demandar contra cada um dos uploaders isolados de imagens eróticas da agravada” (fl.
315, e-STJ).
Em relação a esse argumento, há de se considerar que os provedores de
pesquisa realizam suas buscas dentro de um universo virtual, cujo acesso é público e
irrestrito, ou seja, seu papel se restringe à identificação de páginas na web onde
determinado dado ou informação, ainda que ilícito, estão sendo livremente veiculados.
Dessa forma, ainda que seus mecanismos de busca facilitem o acesso e a
consequente divulgação de páginas cujo conteúdo seja potencialmente ilegal, fato é que
essas páginas são públicas e compõem a rede mundial de computadores e, por isso,
aparecem no resultado dos sites de pesquisa.
Ora, se a página possui conteúdo ilícito, cabe ao ofendido adotar medidas
tendentes à sua própria supressão, com o que estarão, automaticamente, excluídas dos
resultados de busca virtual dos sites de pesquisa.
Não se ignora a evidente dificuldade de assim proceder, diante da
existência de inúmeras páginas destinadas à exploração de conteúdo ilícito – sobretudo
imagens íntimas, sensuais e/ou pornográficas, como é o caso dos autos – mas isso não
justifica a transferência, para mero provedor de serviço de pesquisa, da responsabilidade
pela identificação desses sites, especialmente porque teria as mesmas dificuldades
encontradas por cada interessado individualmente considerado.
Com efeito, é notório que nosso atual estágio de avanço tecnológico na área
da ciência da computação, notadamente no ramo da inteligência artificial, não permite
que computadores detenham a capacidade de raciocínio e pensamento equivalente à do
ser humano. Vale dizer, ainda não é possível que computadores reproduzam de forma
efetiva faculdades humanas como a criatividade e a emoção. Em síntese, os
computadores não conseguem desenvolver raciocínios subjetivos, próprios do ser
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pensante e a seu íntimo.
Sendo assim, não há como delegar a máquinas a incumbência de dizer se
um determinado site possui ou não conteúdo ilícito, muito menos se esse conteúdo é
ofensivo a determinada pessoa.
Diante disso, por mais que os provedores de informação possuam sistemas
e equipamentos altamente modernos, capazes de processar enorme volume de dados em
pouquíssimo tempo, essas ferramentas serão incapazes de identificar conteúdos reputados
ilegais.
Não bastasse isso, a verificação antecipada, pelo provedor de pesquisa, do
conteúdo de cada página a compor a sua base de dados de busca eliminaria – ou pelo
menos alijaria – um dos maiores atrativos da Internet, que é a disponibilização de dados
em tempo real.
Como bem descreve a recorrente na inicial do agravo de instrumento, o
mecanismo de busca dos provedores de pesquisa trabalha em 03 etapas: (i) uma espécie
de robô navega pela web identificando páginas; (ii) uma vez identificada, a página passa
por uma indexação, que cataloga e mapeia cada palavra existente, compondo a base de
dados para as pesquisas; e (iii) realizada uma busca pelo usuário, um processador
compara os critérios da pesquisa com as informações indexadas e inseridas na base de
dados do provedor, determinando quais páginas são relevantes e apresentando o
resultado.
Evidentemente, esse mecanismo funciona ininterruptamente, tendo em vista
que, além de inúmeras páginas serem criadas a cada dia, a maioria das milhões de
páginas existentes na web sofrem atualização regularmente, por vezes em intervalos
inferiores a uma hora, sendo que em qualquer desses momentos pode haver a inserção de
informação com conteúdo ilícito.
Essa circunstância, aliada ao fato de que a identificação de conteúdos
ilícitos ou ofensivos não pode ser automatizada, torna impraticável o controle prévio por
parte dos provedores de pesquisa da cada página nova ou alterada, sob pena, inclusive, de
seus resultados serem totalmente desatualizados.
Portanto, inexiste a suposta facilidade dos provedores de informação de
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individualizar as páginas na Internet com conteúdo ofensivo, de sorte que o argumento
não serve de justificativa para lhes impor esse ônus.
Devemos, pois, partir da realidade concreta, qual seja, a de que os sistemas
dos provedores de pesquisa responderão a comandos objetivos, como aqueles impostos
na decisão de primeiro grau de jurisdição, no sentido de que a recorrente “se abstenha de
disponibilizar aos seus usuários, no site de buscas GOOGLE, quaisquer resultados/links
na hipótese de utilização dos critérios de busca 'Xuxa', 'pedófila', 'Xuxa Meneghel'” (fl.
71, e-STJ).
A partir daí, deve-se questionar a razoabilidade de se impor esse tipo de
restrição aos provedores de pesquisa.
Nesse aspecto, destaco em primeiro lugar a pouca efetividade de se impor
critérios objetivos de limitação às pesquisas. Diferentemente das máquinas, o ser humano
é criativo e sagaz, e em pouco tempo encontraria meios de burlar as restrições de busca,
por intermédio da utilização de termos ou expressões semelhantes ou equivalentes que,
repise-se, não serão filtradas pela limitada capacidade de raciocínio dos computadores.
Aliás, a medida até certo ponto produz um efeito negativo.
É sabido que boa parte dos usuários de computador se motiva pelo desafio
de superar os obstáculos criados pelo sistema. São os chamados hackers – técnicos em
informática que se dedicam a conhecer e modificar dispositivos, programas e redes de
computadores, buscando resultados que extrapolam o padrão de funcionamento dos
sistemas – que invariavelmente conseguem contornar as barreiras que gerenciam o acesso
a dados e informações.
Dessa maneira, a imposição de obstáculos que se limitam a dificultar o
acesso a determinado conteúdo, sem que a própria página que o hospeda seja suprimida,
findaria por incentivar a ação de hackers no sentido de facilitar a disseminação das
informações cuja divulgação se pretende restringir.
A medida também se torna inócua pelo fato de que eventual restrição não
alcançaria os provedores de pesquisa localizados em outros países, através dos quais
também é possível realizar as mesmas buscas, obtendo resultados semelhantes.
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Em segundo lugar, há de se considerar que essa forma de censura dificulta
sobremaneira a localização de qualquer página com a palavra ou expressão proibida,
independentemente do seu conteúdo ser ou não ilegal, tolhendo o direito à informação.
Na hipótese específica dos autos, por exemplo, a proibição de que o serviço
da recorrente aponte resultados na pesquisa da palavra “pedofilia” impediria os usuários
de localizarem reportagens, notícias, denúncias e uma infinidade de outras informações
sobre o tema, muitas delas de interesse público. A vedação restringiria, inclusive, a
difusão de entrevista concedida recentemente pela própria recorrida, abordando a
pedofilia e que serve de alerta para toda a sociedade. Curiosamente, a vedação
dificultaria até mesmo a divulgação do próprio resultado do presente julgamento!
Os exemplos acima ilustram a importância dos sites de pesquisa e o quão
perniciosa pode ser a imposição de restrições ao seu funcionamento.
A verdade é que não se pode, sob o pretexto de dificultar a propagação de
conteúdo ilícito ou ofensivo na web, reprimir o direito da coletividade à informação.
Sopesados os direitos envolvidos e o risco potencial de violação de cada um
deles, o fiel da balança deve pender para a garantia da liberdade de informação
assegurada pelo art. 220, § 1º, da CF/88, sobretudo considerando que a Internet
representa, hoje, importante veículo de comunicação social de massa.
Embora seja possível identificar a existência de páginas ofensivas à pessoa
da recorrida, seriam imensuráveis os danos derivados das restrições por ela pretendidas
para impedir a facilitação no acesso aos respectivos sites, prejuízos esses que atingiriam
até mesmo a própria recorrida na divulgação do seu trabalho e construção da sua imagem.
O próprio acórdão recorrido frisa que os documentos acostados aos autos
evidenciam que “a grande maioria dos resultados é de links inofensivos, e até laudatórios
a respeito da agravada” (fl. 316, e-STJ).
Nesse contexto, não se mostra aceitável nem mesmo a exigência de que a
pesquisa exclua a reprodução de imagens encontradas nas páginas apontadas no resultado
respectivo. Persistiria a impossibilidade técnica supra mencionada – de se identificar
quais imagens teriam conteúdo ofensivo ou ilícito – sendo que a retirada indiscriminada
de todas as imagens implicaria mais uma vez na violação do direito à informação.
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Assim, conclui-se que os provedores de pesquisa não podem ser obrigados
a eliminar do seu sistema os resultados derivados da busca de determinado termo ou
expressão.
Finalmente, cumpre apreciar a viabilidade da solução final adotada pelo
TJ/RJ, de a restrição dirigir-se especificamente a determinado conteúdo, previamente
indicado pela vítima.
Em primeiro lugar, noto que essa forma de restrição, se cabível, haverá de
emanar sempre de ordem judicial, mostrando-se inviável a simples notificação
extrajudicial, diante da impossibilidade de se delegar o juízo acerca do potencial ofensivo
de determinado texto ou imagem à discricionariedade da vítima ou do provedor.
Não me escapa o fato de, em precedentes desta Corte envolvendo casos
análogos – responsabilidade do provedor de conteúdo por mensagens ofensivas em site
de relacionamento social – ter se decidido, de forma genérica, que “ao ser comunicado de
que determinado texto ou imagem possui conteúdo ilícito, deve o provedor agir de forma
enérgica, retirando o material do ar imediatamente, sob pena de responder solidariamente
com o autor direto do dano, em virtude da omissão praticada” (REsp 1.186.616/MG, 3ª
Turma, minha relatoria, DJe de 31.08.2011. No mesmo sentido: REsp 1.193.764/SP, 3ª
Turma, minha relatoria, DJe de 08.08.2011).
Ocorre que, no caso específico dos sites de rede social, o próprio provedor
disponibiliza um serviço de denúncia contra conteúdo ilícito ou ofensivo, rogando-se, nos
termos de uso a que adere cada usuário, o direito de suprimir a respectiva página. Há,
portanto, um acordo particular que autoriza o provedor a exercer esse juízo
discricionário, circunstância ausente nos sites de pesquisa, cuja utilização sequer exige o
cadastramento do usuário.
Indispensável, pois, que o pedido de exclusão dos resultados de pesquisa de
um texto ou imagem específica seja formulado judicialmente.
A despeito disso, a recorrente suscitou ressalvas em relação a essa prática,
mesmo mediante ordem judicial, aduzindo ser indispensável que o conteúdo a ser
excluído venha acompanhado da indicação do respectivo URL (sigla que corresponde à
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expressão Universal Resource Locator , que em português significa localizador universal
de recursos. Trata-se de um endereço virtual, isto é, diretrizes que indicam o caminho até
determinado site ou página).
De acordo com a recorrente, a falta de indicação do URL torna a
“obrigação de impossível cumprimento considerando o estado da técnica atual, a qual
consubstancia em varredura e monitoramento de seus sistemas” (fl. 397, e-STJ).
O TJ/RJ, porém, superou a questão, consignando que “a restrição da liminar
apenas às duas URL's citadas pelo embargante reduziria, sobremodo, o seu alcance a
ponto da quase ineficácia” (fl. 352, e-STJ).
Como visto linhas acima, as inumeráveis páginas que compõem a web são
regularmente atualizadas, muitas delas em intervalo inferior a uma hora. Além disso, a
rede recebe diariamente uma infinidade de páginas novas.
Acrescente-se a isso o fato de que os textos ou imagens podem sofrer
pequenas alterações, impedindo sua identificação pelo sistema que, repise-se, possui
limitada capacidade de raciocínio e processamento de informações subjetivas.
A esse respeito, basta ver que, entre as imagens que o TJ/RJ determinou
fossem excluídas, há alusão a foto truncada da recorrida. Por meio dessa mesma técnica
de montagem, poder-se-ia modificar a imagem sem, contudo, lhe retirar a essência, com o
que não seria excluída das pesquisas realizadas.
Essas circunstâncias evidenciam que, sem os URL's, o provedor de
pesquisa não consegue controlar com eficiência a omissão de uma determinada imagem
ou texto dos resultados da busca virtual, impedindo-o, por conseguinte, de dar pleno
cumprimento à ordem judicial.
Diante disso, sem a indicação específica do URL das páginas a serem
suprimidas, não há como assegurar a eficácia da medida ao longo do tempo, sujeitando o
destinatário do comando judicial às penas cominatórias impostas por descumprimento.
Outrossim, conhecendo os URL's das páginas reputadas ofensivas, a vítima
terá como identificar o próprio responsável pela inclusão do conteúdo ilegal, ou pelo
menos o provedor utilizado para hospedagem do respectivo site que, por sua vez, poderá
indicar o IP (sigla que corresponde à expressão Internet Protocol , um número único,
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exclusivo, que individualiza cada computador na rede e por meio do qual cada máquina
se identifica e se comunica) do autor do ilícito.
Diante disso, até para assegurar o direito ao devido processo legal e à ampla
defesa daquele a quem se imputa a autoria do fato ilícito, caberá ao interessado agir
diretamente contra essas pessoas, o que torna absolutamente dispensável a imposição de
qualquer obrigação ao provedor de busca, pois, uma vez obtida a supressão da página de
conteúdo ofensivo, ela será automaticamente excluída dos resultados de pesquisa.
Em outras palavras, se a vítima identificou o autor do ato ilícito não tem
motivo para demandar contra aquele que apenas facilita o acesso a esse ato que, vale
repisar, até então se encontra publicamente disponível na rede para divulgação.
Conclui-se, portanto, que preenchidos os requisitos indispensáveis à
exclusão, da web, de uma determinada página virtual, sob a alegação de veicular
conteúdo ilícito ou ofensivo – notadamente a identificação do URL dessa página – a
vítima carecerá de interesse de agir contra o provedor de pesquisa, por absoluta falta de
utilidade da jurisdição.
Como bem anota José Carlos Barbosa Moreira, somente haverá interesse
processual quando a providencia jurisdicional, “por sua natureza, verdadeiramente se
revele – sempre em tese – apta a tutelar, de maneira tão completa quanto possível, a
situação jurídica do requerente” (Ação declaratória e interesse. Rio de Janeiro: Borsoi,
1971, p. 17).
No particular, não haverá nenhum interesse em demandar contra o provedor
de pesquisa, pois, munida do URL da página onde inserido o conteúdo dito ofensivo
(indispensável para o exercício da ação), poderá a vítima acionar diretamente o autor do
ato ilícito, com o que, julgado procedente o pedido e retirada da Internet a página, o
respectivo conteúdo será automaticamente excluído do resultado das buscas realizadas
junto a qualquer provedor de pesquisa.
Dessa forma, verifica-se ser incabível impor aos provedores de pesquisa a
obrigação de eliminar do seu sistema os resultados que apontem para uma foto ou texto
específico, independentemente da indicação do URL da página onde este estiver inserido.
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Em suma, pois, tem-se que os provedores de pesquisa: (i) não respondem
pelo conteúdo do resultado das buscas realizadas por seus usuários; (ii) não podem ser
obrigados a exercer um controle prévio do conteúdo dos resultados das buscas feitas por
cada usuário; e (iii) não podem ser obrigados a eliminar do seu sistema os resultados
derivados da busca de determinado termo ou expressão, tampouco os resultados que
apontem para uma foto ou texto específico, independentemente da indicação do URL da
página onde este estiver inserido.
Ainda que não ideais, certamente incapazes de conter por completo a
utilização da rede para fins nocivos, a solução ora proposta se afigura como a que melhor
equaciona os direitos e deveres dos diversos players do mundo virtual.
Na análise de Newton De Lucca “a implementação de medidas drásticas de
controle de conteúdos na Internet deve ser reservada para casos extremos, quando estiver
presente manifesto interesse público e desde que ponderado o potencial prejuízo causado
a terceiros, não havendo de ser adotada nas demais hipóteses, principalmente quando se
tratar de interesse individual, salvo em situações absolutamente excepcionais, que
representarão exceções raríssimas” (op. cit., p. 400).
As adversidades indissociáveis da tutela das inovações criadas pela era
digital dão origem a situações cuja solução pode causar certa perplexidade. Há de se ter
em mente, no entanto, que a Internet é reflexo da sociedade e de seus constantes avanços.
Se, ainda hoje, não conseguimos tutelar com total equidade direitos seculares e
consagrados, seria tolice contar com resultados mais eficientes nos conflitos relativos à
rede mundial de computadores.
(iv) A hipótese dos autos.
No particular, o TJ/RJ impôs à GOOGLE a obrigação de excluir dos
resultados de pesquisa do seu site de busca determinadas imagens, dispensada a
indicação dos URL's das páginas onde essas imagens estariam inseridas.
A determinação, como visto, é tecnicamente impossível de ser cumprida,
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daí derivando a incompatibilidade da multa cominatória fixada, com clara violação do
art. 461, § 4º, do CPC.
Por outro lado, mesmo que se quisesse adequar os termos da mencionada
decisão, objetivando a sua exequibilidade – exigindo da vítima a indicação dos URL's –
isso implicaria ausência de interesse de agir da recorrida.
Não bastasse isso, verificou-se neste julgado, de uma forma mais ampla, o
descabimento de se impor aos provedores de pesquisa qualquer restrição nos resultados
das buscas realizadas por seus sistemas, sob pena de afronta ao direito constitucional de
informação.
Forte nessas razões, DOU PROVIMENTO ao recurso especial, para cassar
a decisão que antecipou os efeitos da tutela.
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