Pela América do Sul
( Viagem 2003 )
Partimos de São Paulo rumo a Campo Grande, Cuiabá e Cáceres. Nossa
"aventura" começaria no momento em que cruzássemos a fronteira boliviana
em San Mathías. E assim foi, entramos na Bolívia após apresentarmos
nossas carteiras de vacinação contra febre amarela1 e carimbarmos os
passaportes. Acontece que somente no dia seguinte conseguiríamos a
autorização para viajarmos no país com nossas motocicletas, já que a
Aduana estava fechada naquele horário. Aproveitamos para conhecer um
pouco a cidade, a primeira no novo país, e caminharmos um pouco.
No dia seguinte, após visitarmos o mercado local, seguimos à Aduana,
regularizamos as motos e partimos ao interior do pantanal boliviano. A
estrada é belíssima, cheia de surpresas e encantos como, por exemplo,
tuiuiús (pássaro símbolo do pantanal), garças e jacarés. Em determinado
momento tivemos que reduzir a velocidade para a passagem de quase mil
cabeças de gado.
Naqueles arenais intensos e escaldantes seguimos, agora rumo à San Ignácio
de Velasco e, depois, Concepción, cidade que abriga a Igreja da Imaculada
Concepción. Considerada a "Jóia da Região", esta igreja foi fundada em
1753, época em que as missões jesuíticas estiveram por ali, com o objetivo
de catequizar os índios locais.
Mais 65 Km e estávamos em San Javier, cidade que tivemos a sorte de
chegar bem na hora quando as pessoas estavam se preparando para a festa de
San Pedro. Trata-se de uma cerimônia religiosa promovida pelos nativos que
se inicia com o canto evocativo feito pelo homem mais importante da
comunidade e que chama os participantes para a oração inicial. Todos ficam
de frente para uma parede, cantando, para, depois, saírem dançando no pátio
ao som dos tambores. Depois é a hora da Chincha, espécie de cachaça feita
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A Vacina contra a Febre Amarela é conseguida nos aeroportos, gratuitamente.
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de milho, ser distribuída. Como nós estávamos fotografando e filmando toda
a cerimônia, fomos convidados a saborear, com os índios locais, aquela
especiaria. Tomamos, tomamos e tomamos... O jeito foi dormirmos naquela
cidade mesmo.
No dia seguinte, mal o dia amanheceu, continuamos a seguir em direção à
Cordilheira dos Andes, minha eterna paixão, depois nossa viagem foi
subindo, subindo e subindo. Apesar da condição ruim das estradas,
estávamos preparados e com motos ideais para todo o terreno. Passamos por
Cochabamba e continuamos a subida. Quando mais subíamos, mais a
temperatura baixava e, apesar do dia estar lindo, ensolarado e limpo, o frio
começou a nos castigar, e muito. Chegamos ao ponto mais alto da estrada,
La Cumbre (a 4496 metros de altitude), aonde paramos para fotografarmos e
filmarmos um pouco. Um garoto de origem Aimará se aproximou, curioso, e
começou a puxar papo com a gente. Pena ele não falasse o espanhol, mas
somente seu idioma nativo, mas conseguimos bater um papinho, porém ele
não permitiu que o fotografássemos. Acontece que os povos das montanhas
acreditam que, se tiramos sua fotografia, estaremos levando suas almas
conosco. Naquela noite dormimos em Caracollo, aliás no mesmo lugar que
eu havia estado quando voltava do Alasca em outra viagem (esta relatada no
livro "Uma Aventura às Três Américas"). Perguntei se havia lugar para
tomarmos banho e a garota me respondeu que sim, porém que não havia
água quente. Como a temperatura baixou até os 10º C negativos, percebi
que, em minhas lembranças, não havia escutado história de alguém que
tivesse morrido de sujeira, mas de frio...
Na manhã seguinte, após uma tremenda ginástica para descongelar as motos
que amanheceram cobertas de gelo, pilotamos até La Paz através do
altiplano andino que, a meu ver, é o máximo que um motociclista pode
conseguir em sensação de liberdade plena. La Paz é a capital mais alta do
mundo, estando a 3700 metros sobre o nível do mar, e está cercada por picos
nevados, cujo principal é o Ilimani, com 6402 metros de altitude.
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De La Paz fomos a Tiawanaku e apreciamos as ruínas pré-hispânicas de um
povo que, segundo a lenda do deus Viracocha (que é o mesmo deus Inty do
Equador2), deu origem a todo povo andino. Retornamos à La Paz aonde
pernoitaríamos e aproveitamos para ligar para casa e matar um pouco a
saudade.
Na manhã seguinte continuamos nossa viagem, agora rumo a Copacabana,
às margens do lago Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, a 3800
metros de altura. Disseram que suas águas são salgadas e não resistimos,
fomos até suas margens geladas para experimentar as águas, porém não
havia nada de salgado ali. O local era tão agradável que decidimos ficar
passeando ali todo aquele dia e, na manhã seguinte, visitaríamos a Ilha do
Sol. Assim foi.
Vale aqui uma lembrança de duas aguardentes locais, uma de nome Singani
e outra San Pedro que devem ser degustadas com refrigerante de limão. São
simplesmente fantásticas! Saborosas, leves e deliciosas. Lembre-se, quando
estiver passando por aquelas paragens, experimente, vale a pena.
Naquela mesma tarde cruzamos a fronteira Bolívia-Peru, levando belas
recordações do primeiro país. Entramos no Peru e seguimos, ainda no
altiplano andino, até Cuzco, cidade núcleo do império Inca. Ali visitamos,
durante os quatro dias que ficamos, o Vale Sagrado inteiro e tivemos
oportunidade de conhecermos um pouco mais sobre aquela cultura
encantadora. Aliás o povo peruano merece que tiremos o chapéu pra eles,
devido à hospitalidade e ao carinho que demonstram para com nós,
brasileiros.
De Cuzco, partimos para a etapa mais arriscada de nosso roteiro. Retornando
a Urcos, começamos a subida da cordilheira através de uma estrada íngreme,
estreita, cheia de curvas e armadilhas. Seguindo o conselho de uma senhora
aonde paramos para abastecer as motos, dormimos aos pés do monte
Ocongate, em um povoado de nome Tinki. Apesar do horário, pouco mais de
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Vide livro "Uma Aventura às Três Américas" p. 223
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15:30hs local, ela nos disse que não havia tempo para atravessarmos o pico e
que, caso a noite nos pegasse nas alturas, estaríamos encrencados de
verdade. No dia seguinte entendemos o que ela havia dito. De fato foram
mais de duas horas de pilotagem muito tensa até Huallahualla, a 5500 metros
sobre o nível do mar e mais outro tanto para descer. O vento era forte e
cortante, a temperatura fazia com que nossas mãos e pés ficassem dormentes
a maior parte do tempo. Isso sem falar de nossos lábios rachados e nossos
rostos queimados pelo frio. Não havia nada que pudéssemos fazer, só rezar.
Além disso, quando entrávamos em uma curva e olhávamos para o
precipício, que muitas vezes mostrava-nos uma altura de 800 ou 1000
metros de queda caso errássemos alguma coisa, nosso coração chegava a
diminuir o ritmo de suas batidas. Qualquer vacilo e tchau, adeus, a
cordilheira não daria chances, como de fato não as dá, para quem erra.
A descida nos colocou em pleno coração da floresta amazônica peruana.
Houve trechos que tivemos que atravessar leitos de rios onde as águas
chegavam quase na altura de nossas cinturas. Fora isso, a umidade fez, por
algumas vezes, a estrada desbarrancar e tínhamos que esperar que alguma
coisa fosse feita para conseguirmos atravessar.
Depois, já de volta ao Brasil, Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO), de onde
partimos para Manaus (AM) de barco. No barco, enquanto subíamos o rio
Madeira, passamos quatro dias avistando botos cor-de-rosa, muitas aves, a
imensidão amazônica e as belezas mais encantadoras do planeta. Isso em um
clima regado a muita cerveja e churrasco, sobretudo de peixe, o dia inteiro.
Aquilo era como um prêmio pelo que já havíamos passado até aquele
momento.
De Manaus partimos para Boa Vista cruzando a reserva Waimiri Atroari. Ali
(na reserva) é proibido fotografar, mas demos um jeitinho de registrar a
placa de boas vindas ao estado de Roraima. Aliás não poderíamos perder
esta foto não é mesmo? Depois Santa Elena, na Venezuela, onde a gasolina é
forte e barata.
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No retorno, decidimos continuar viagem até as 3:00hs da manhã para
aproveitarmos aquela lua cheia que iluminava a estrada. Sabíamos dos riscos
de animais silvestres cruzando a rodovia, então combinamos seguir em
velocidade moderada e com muita cautela. Acabamos parando a poucos
quilômetros da reserva indígena, pois não poderíamos cruza-la a noite, é
proibido. Ficamos em um ponto de apoio de ônibus e os motoristas locais
acabaram arranjando um quarto para nós. Nada de conforto, nada de cama,
só um colchão velho e sujo no chão, mas com o cansaço, aquela hora,
parecia que estávamos no melhor hotel de nossas vidas. Nem me lembro de
termos comentado nada naquela noite. Tenho a impressão de que
desmaiamos de vez. Uma beleza de noite bem dormida.
Logo as 6:20hs da manhã acordamos e partimos rumo a Manaus, de onde
embarcamos as motos para Belém. Três dias depois voamos ao encontro das
nossas "meninas" e ficamos na casa de um outro amigo meu, o Boni (lembra
dos amigos que encontrei lá no Peru, que cito no meu livro?), na cidade de
Castanhal.
Ficamos quatro dias lá e partimos pela Belém-Brasília em uma madrugada,
antes do sol aparecer no horizonte, para as incríveis retas daquela estrada. O
que quebrava a monotonia eram os buracos (muitos) que faziam com que os
caminhões andassem em zigue-zagues constantes.
Após os 3000 Km, chegamos a São Paulo sob uma chuva daquelas bem
paulistanas. Na chegada, uma placa de boas vindas e nossos familiares todos
reunidos a nossa espera fecharam com chave de ouro e muita emoção esta
viagem. Agora sim, estávamos em casa para passarmos o Dia dos Pais com
nossos pais. No meu caso, no dia seguinte, 11 de agosto, também passaria o
aniversário de meu irmão Wilsinho, que, como nossos pais, estava torcendo
e rezando para que tudo desse certo em nossa aventura.
No total percorremos cerca de 14 mil quilômetros e, para falar bem a
verdade, valeu a pena a escolha, tanto de estar de moto quanto do roteiro
cheio de surpresas belas e emoções maravilhosas. A vida é assim, quanto
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mais a vivemos, mais descobrimos seus milagres e sua magia. Viver vale a
pena!
Deus nos abençoe a todos.
Valeu!!!
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De Moto pelas Américas