UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY COORDENAÇÃO GERAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA CURSO DE MESTRADO EM ENFERMAGEM CUIDADOS HABITUAIS MODIFICADOS NO COTIDIANO DOS CUIDADORES DE CRIANÇAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS DE SAÚDE INTERFACES COM O SABER DE ENFERMAGEM Joelma Maria da Silva Pinto Rio de Janeiro. RJ Novembro, 2011. ii Cuidados habituais modificados no cotidiano dos cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde interfaces com o saber de enfermagem Joelma Maria da Silva Pinto Dissertação de mestrado apresentada a banca examinadora da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como etapa necessária à obtenção do título de mestre em enfermagem. Linha de pesquisa: Enfermagem em Saúde da Criança no Núcleo de Pesquisa de Enfermagem em Saúde da Criança (NUPESC) Orientadora: Profª. Drª.Ivone Evangelista Cabral Rio de Janeiro. RJ Novembro, 2011 iii Cuidados habituais modificados no cotidiano dos cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde interfaces com o saber de enfermagem Joelma Maria da Silva Pinto Bolsista de mestrado de demanda social da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Reconhecimento ao CNPQ, pois a dissertação de mestrado vinculou-se ao projeto de pesquisa financiado pelo edital universal do CNPQ: Crianças com necessidades especiais de saúde: configuração do universo temático dos familiares cuidadores, coordenado pela pesquisadora Ivone Evangelista Cabral. Rio de Janeiro. RJ Novembro, 2011 iv FICHA CATALOGRÁFICA P659c PINTO, Joelma Maria da Silva. Cuidados habituais modificados no cotidiano dos cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde: interfaces com o saber de enfermagem./Joelma Maria da Silva Pinto.--2013 14 xiv, 112f Orientadora: Profª. Drª. Ivone Evangelista Cabral. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro.Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery. 1. Enfermagem pediátrica 2.CRIANES 3.Cuidadores 4.Enfretamento CDD:610.73 v Cuidados habituais modificados no cotidiano dos cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde interfaces com o saber de enfermagem Autora: Joelma Maria da Silva Pinto Orientadora: Drª Ivone Evangelista Cabral Mestrado submetida ao Programa de Pós- Graduação do Curso de Mestrado em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, na linha de pesquisa de Enfermagem em Saúde da Criança do Núcleo de Pesquisa de Enfermagem em Saúde da Criança (NUPESC), como parte dos requisitos necessários à obtenção do titulo de Mestre em Enfermagem. Aprovada por: __________________________________________________ Profª Drª Ivone Evangelista Cabral (Presidente) Doutora em Enfermagem Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ – RJ __________________________________________________ Profª Drª Regina Aparecida Garcia de Lima (1ª Examinadora) Doutora em Enfermagem. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo __________________________________________________ Profª Drª Neide Aparecida Titonelli Alvim (2ª Examinadora) Doutora em Enfermagem Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ - RJ _________________________________________________ Prof. Dr. Antonio Marcos Tosoli Gomes (1º Suplente) Doutor em Enfermagem Professor da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ – RJ. __________________________________________________ Prof. Dr.Roberto José Leal (2º Suplente) Doutor em Enfermagem Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ - RJ Rio de Janeiro. RJ Novembro, 2011 vi DEDICATÓRIA Aos cuidadores das crianças com necessidades especiais (e as próprias CRIANES) por permitirem a minha invasão nesse mundo tão lindo e intrigante que é o de cuidar de crianças mais do que especiais. Por abrirem as portas das suas casas, das suas vidas, e por compartilharem comigo todas as experiências e dificuldades. E por mostrarem que a caminhada é muito difícil, cheia de desafios, porém, não podemos perder a alegria e a vontade de viver. Esses guerreiros merecem toda a minha admiração e respeito. vii AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus, por todas as oportunidades da minha vida, onde pude crescer como pessoa e profissional. Por me dar forças nos momentos mais decisivos e conforto nos de dor. Agradeço aos meus pais, João e Natalia, por me incentivarem e que mesmo sem entenderem ao certo, me apoiaram de forma incondicional. Independente da distância física demonstraram seu amor e seu orgulho pelas minhas vitórias. Amo vocês. Agradeço a minha família, Jaqueline (irmã), Lucas (sobrinho), André (cunhado), Roberta (cunhada), Rafaela (sobrinha), por simplesmente existirem na minha vida. Como diz a música: “Essa família é muito unida e também muito ouriçada”. Não posso deixar de agradecer as minhas famílias estendidas, os Stirling e os Pontual, por abrirem uma vaga extra e por me acolherem com tanto carinho nos seus núcleos familiais. Agradeço ao meu irmão, John, ou melhor, meu limão gatão, como sempre falamos nossos laços vão além dos laços sanguíneos, somos amigos, somos irmãos. Obrigada por sempre estar ao meu lado, me convencendo que sou capaz de buscar meus sonhos. Por ser meu porto seguro nos momentos mais turbulentos e por dar todo o sentido da palavra irmão. Cara, eu te amo demais! Agradeço as minhas amigas, Vivien Brum e Adriana Assumpção, por toda a amizade, por entenderem minhas ausências. Amigos são irmãos que escolhemos e eu escolhi vocês para a minha vida. Agradeço à Enfª Bianca Leal Reis, minha gerente de Enfermagem, por facilitar ao máximo todo esse processo, me concedendo privilégios e por muitas vezes me ajudando de imediato sem questionar. E as técnicas de enfermagem, minhas meninas da CPI, todas vocês possuem um lugar muito especial no meu coração. Agradeço as minhas amigas Gabriela Ávila e Vanessa Moitinho, minhas médicas pediatras mestrandas favoritas, pelos momentos de tietagem, e por estarem presentes nos momentos mais cruciais nesse período, às vezes com um abraço ou uma palavra amiga. Adoro vocês, unha e cutícula. viii Agradeço a minha professora orientadora, Ivone Evangelista Cabral, por tentar entender meus habituais um tanto quanto modificados e por me ajudar a superar as minhas dificuldades. Por me conduzir nesse meio tão empolgante e encantador da pesquisa científica. Por ser esse exemplo incrível de profissional, fica a minha eterna admiração. Agradeço as “CRIANETES”, Eneida, Juliana Moraes, Sandra Pacheco, Mariana Kelly, Angélica Corte, Goreth Ferreira, Daniele Santos, Fernanda Bezerra, Liliane Farias, Patrícia Simas, esse grupo de pesquisa único e singular. Obrigada pela convivência maravilhosa, pelo companheirismo. Adoro vocês. Agradeço a Amanda Santos, agora mestre, que esteve presente ao meu lado em todas as etapas dessa jornada, sendo muito mais do que uma colega de turma, uma amiga. Sendo a agitação no meio da minha calmaria. Agradeço a Profª Maristela Serbeto pela ajuda e pela disposição, suas contribuições foram de extrema importância. Agradeço a doutoranda, Rosane Burla, que esteve presente comigo durante todos esses anos no grupo de pesquisa. Tivemos momentos incríveis e marcantes, dos verões na UR aos passeios pelo Rio de Janeiro, das conversas científicas às compras no centro da cidade, das gargalhadas ao choro, e até pela alvejada por lápis. Ao final dessa jornada restou uma amizade para o resto da vida, e muito obrigada por sempre estar disposta a me ajudar e ouvir. Agradeço aos membros do NUPESC, em especial as professoras Tania Vignuda, Elisa da Conceição, Isabel Cristina, por suas contribuições para a construção deste trabalho e o carinho sempre acolhedor. Agradeço aos secretários da pós-graduação da EEAN, Sônia e Jorge Anselmo, e a coordenadora Profª Marlea Chagas, pela ajuda nas resoluções das questões cotidianas. ix RESUMO CUIDADOS HABITUAIS MODIFICADOS NO COTIDIANO DOS CUIDADORES DE CRIANÇAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS DE SAÚDE INTERFACES COM O SABER DE ENFERMAGEM Joelma Maria da Silva Pinto Orientadora: Profª. Drª Ivone Evangelista Cabral Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós- Graduação do Curso de Mestrado em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do titulo de Mestre em Enfermagem. Investigou-se o enfrentamento dos familiares cuidadores, para realizar cuidados cotidianos de crianças com necessidades especiais de saúde, em atendimento de reabilitação no município do Rio de Janeiro. Questões norteadoras: Quais são os desafios emergentes da experiência de cuidados às CRIANES no domicilio? De que forma eles superaram os desafios emergentes dos cuidados cotidianos daquelas crianças? Quais são as implicações dos saberes de enfermagem na superação dos desafios dos familiares cuidadores no cotidiano de cuidados? Objetivos: delimitar as experiências de familiares cuidadores na realização dos cuidados cotidianos de crianças com necessidades especiais de saúde, no ambiente domiciliar; descrever os desafios para cuidar de CRIANES, pelos familiares cuidadores, e seus modos de superação no enfrentamento das demandas de cuidados modificados; e analisar as interfaces das demandas de cuidados modificados, pelos familiares cuidadores, com os saberes de Enfermagem, quando a CRIANES está no domicilio. Utilizou-se o método criativo e sensível de investigação qualitativa com cinco grupos familiares no domicílio. Os materiais produzidos com as dinâmicas Corpo Saber foram analisados na perspectiva das idéias força e da dialógica freiriana, empregando-se as ferramentas da análise de discurso. Os resultados apontaram que desafios dos familiares cuidadores emergiram das viveram de experiências impregnadas de conteúdo vivencial, desde o nascimento da criança até os dias atuais. Na medida em que atingiam a normalização desses cuidados no cotidiano de vida, ocorria a superação de suas dualidades: cuidado igual e diferente, fácil e difícil, automático e singular. Os cuidados habituais foram modificados devido as mudanças no crescimento e desenvolvimento da criança e a complexidade das demandas de cuidados. O aprendizado foi construído com base em tentativas acertoerro, com familiares ou profissionais de saúde. Concluiu-se que as famílias normalizam os cuidados na vida da criança quando os transforma em habituais modificados e os incorpora no seu fazer cotidiano. Palavras-chaves: Enfermagem pediátrica. CRIANES. Cuidadores. Enfrentamento Rio de Janeiro Novembro de 2011. x ABSTRACT CAREGIVERS MODIFIED CARE FOR CHILDREN WITH SPECIAL HEALTH CARE NEEDS INTERFACES WITH THE KNOWLEDGE OF NURSING Joelma Maria da Silva Pinto Advisory Professor: Profª. Drª Ivone Evangelista Cabral Abstract os Master degree dissertation submitted to post-graduation Program in Nursing Anna Nery Nursing School, from Federal University of Rio de Janeiro, encompasses the necessary requisites in earning tha Marster‟s title in Nursing. The coping of family caregivers was investigated as performers of the daily care of children with special health care needs in rehabilitation care in the city of Rio de Janeiro. Questions: What are the challenges emerging from the experience of caring for children with special health care needs (CSHCN) at home? How do they overcome the daily challenges emerging from the care of those children? What are the implications of the knowledge of Nursing in meeting the challenges of family caregivers in daily care? Objectives: To define the experience of family caregivers in achieving the daily care of children with special health care needs in the home environment; describe the challenges of caring for CSHCN by family caregivers, and their ways of overcoming the demands for modified care; and discuss the interfaces of these demands modified by family caregivers with the knowledge of Nursing, when CSHCN are at home. We used the creative and sensitive method (DCS) for qualitative research with five family groups at home. The materials produced with dynamic Body-Knowledge method were analyzed from the strength perspective of Freirean dialogical, using the tools of discourse analysis. The results showed that the challenges faced by family caregivers emerged from the lived experiences steeped in experiential content, since the child's birth until the present day. As they struck standardization of care in everyday life, dualities were overcome: equal and different, difficult and easy, automatic and natural care. Habitual care was modified due to changes in the growth and development of children and the complexity of care demands. The learning was built based on error-hit attempts, with relatives or health professionals. Concluding, families normalize life in the care of the child when the care is turned into modified habits and incorporated in their daily tasks. Keywords: Pediatric nursing. Child. Caregivers. coping Rio de Janeiro. RJ November, 2011. xi LISTA DE QUADROS Quadro 1.1. Momentos do Método Criativo e Sensível .......................................... 18 Quadro 1.2. A operacionalização da dinâmica de criatividade e sensibilidade Corpo Saber com cinco grupos de famílias de CRIANES. Rio de Janeiro. 2010-2011 ...... 23 Quadro 1.3. Fragmento do quadro analítico 1A - A codificação das situações desafios a partir das enunciações dos familiares cuidadores com suas raízes espaços-temporais. A formação discursiva .............................................................. 27 Quadro 1.4. Fragmento do quadro analítico 2.A - As aproximações das situações desafios enunciadas pelos familiares cuidadores de D. Setembro, 2010 – Dinâmica Corpo Saber com a família de D. 2010 .................................................................... 28 Quadro 1.5. Fragmento do quadro analítico 3A - A codificação dos temas a partir das situações desafios dos familiares cuidadores de D. Setembro, 2010 – Dinâmica Corpo Saber com a família de D. 2010 ..................................................... 30 Quadro 2.1. Distribuição dos familiares das CRIANES segundo sua renda e renda familiar, renda per capitã e a classificação econômica do IBGE. Rio de Janeiro, 2011 ............................................................................................................. 46 xii LISTA DE FIGURAS Figura 1.1. Produção artística da dinâmica Corpo Saber Família de D .................. 23 Figura 1.2. Esquema ilustrativo sobre Análise de Discurso segundo Orlandi (2005). ...................................................................................................................... 25 Figura 2.1. Produção e fragmento da produção artística da família de M ............... 36 Figura 2.2. Diagrama ilustrativo da locomoção de D., segundo os familiares cuidadores ................................................................................................................ 51 Figura 2.3.. Diagrama ilustrativo da locomoção de M., segundo os familiares cuidadores ................................................................................................................. 51 Figura 2.4.. Diagrama ilustrativo da locomoção de L., segundo os familiares cuidadores ................................................................................................................. 52 Figura 2.5.. Diagrama ilustrativo da locomoção de JP., segundo os familiares cuidadores ................................................................................................................. 53 Figura 2.6.. Diagrama ilustrativo da locomoção de KV., segundo os familiares cuidadores ................................................................................................................. 53 Figura 2.7. Foto do carrinho intitulado como “carrinho verde” utilizado pelos familiares para transportar a criança KV .................................................................. 58 Figura 3.1. Produção artística e o destaque do fragmento cuidado “vestir” da família de M .............................................................................................................. 70 Figura 3.2. Fragmento da produção artística da família de D. com destaque para o cuidado “troca da fralda”. .......................................................................................... 72 Figura 3.3. Cadeira/banheira adaptada utilizada pelos familiares cuidadores no banho da criança ....................................................................................................... 77 xiii SIGLAS BCP – Benefício de prestação continuada CEP – Comitê de Ética em Pesquisa CRIANES – Crianças com necessidades especiais de saúde DVP - Válvula de derivação peritoneal ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente EEAN – Escola de Enfermagem Anna Nery LAPTESC - Laboratório de Pesquisa e Tecnologia Educacional em Saúde da Criança NUPESCP - Núcleo de Pesquisa de Enfermagem em Saúde da Criança PCI – Programa curricular interdepartamental UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro UTI – Unidade de terapia intensiva xiv ANEXOS Anexo A – Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa ............................ 102 Anexo B – Carta de Aprovação de inclusão de cenário de pesquisa ........................ 103 Anexo C – Ata de aprovação de Defesa de Dissertação de Mestrado ...................... 104 APÊNDICES Apêndice A – Termo de Consentimento Livre e esclarecido ................................... 105 xv SUMÁRIO CAPÍTULO I .......................................................................................................... 01 Aproximação com a temática e inquietação .............................................................. 02 1.1. Introdução ......................................................................................................... 02 1.1.1. A Delimitação da problemática e do objeto de estudo .................................... 04 Objeto de estudo ............................................................................................. 08 1.1.2. As questões norteadoras e os objetivos do estudo ........................................... 08 1.1.3. Justificativa e Relevância do estudo ................................................................ 09 1.1.4. A contextualização de Criança com Necessidades Especiais de Saúde (CRIANES) .............................................................................................................. 11 1.2. Referencial Teórico........................................................................................... 13 1.3. Referencial Metodológico................................................................................. 16 Os sujeitos – critérios de seleção para inclusão na pesquisa ............................. 19 Os espaços para a produção dos dados .............................................................. 21 A produção de dados: a aplicação da dinâmica de criatividade e sensibilidade Corpo Saber .............................................................................................................. 22 Planejamento para a etapa de campo, procedimentos adotados ........................ 23 A interrupção do trabalho de campo - A saturação dos dados .......................... 24 Procedimentos de análise dos dados .................................................................. 25 CAPÍTULO II ......................................................................................................... 33 2. As condições de produção do discurso dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde ...................................................... 34 2.1. As raízes espaço temporais da necessidade especial de saúde na vida da criança ....................................................................................................................... 34 2.2. Os cuidadores e a sua experiência no cuidar ..................................................... 43 2.3. As condições socioeconômicas das famílias ...................................................... 46 2.4. A situação desafio do deslocamento da criança pelo familiar cuidador: O cuidado especial e integrador ................................................................................ 49 CAPÍTULO III ....................................................................................................... 60 3. Os desafios dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde na realização cuidados nos habituais modificados................ 61 3.1. A dualidade de sentido para cuidado normal ............................................... 61 xvi 3.1.1. O cuidado normal, igual e diferente ............................................................... 61 3.1.2. O cuidado normal, fácil e difícil ..................................................................... 76 3.1.3. O cuidado normal, automático e particular .................................................... 78 3.2. O movimento de incorporação do saber, aprendido com o profissional, no cuidado cotidiano ............................................................................................... 81 CAPÍTULO IV......................................................................................................... 87 4. As interfaces das demandas de cuidados habituais modificados de CRIANES com os saberes de Enfermagem ............................................................................. 88 Referências Bibliográficas ......................................................................................... 93 CAPÍTULO I 2 1.1. Introdução Aproximação com a temática Nessa dissertação, investiguei as demandas de cuidados de crianças com necessidades especiais de saúde, em atendimento em um serviço de reabilitação de uma instituição pública do Município do Rio de Janeiro. Minha aproximação com a temática iniciou-se no curso de graduação em Enfermagem e Obstetrícia da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando me inseri nas atividades de iniciação científica e de estágio curricular, a partir do ano de 2004. Posteriormente, já desenvolvendo minhas funções profissionais, como enfermeira, deparei-me, novamente, com uma multiplicidade de demandas de cuidados, muito próprias desse grupo de crianças, as quais implicavam na necessidade de negociar saberes de enfermagem para que as famílias realizassem os cuidados requeridos por essas crianças, com melhores condições de segurança no domicílio. Na graduação No curso de graduação em Enfermagem, no ano de 2004, realizei estágio de iniciação científica, integrando a equipe do projeto CRIANES 1, no Laboratório de Pesquisa e Tecnologia Educacional em Saúde da Criança (LAPTESC), do Núcleo de Pesquisa de Enfermagem em Saúde da Criança (NUPESC), da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN)/ Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ). O trabalho de campo do subprojeto “Perfil de crianças com necessidades especiais de saúde atendidas em uma unidade de reabilitação”2 ocorreu em um serviço, cujas crianças eram acompanhadas pela fisioterapia, fonoaudiologia, pediatria, terapia ocupacional. Para o delineamento do perfil, aplicávamos, no espaço da consulta de enfermagem, um instrumento de coleta de dados contendo variáveis relacionadas às condições sociodemográficas, história de adoecimento, de internação hospitalar, e à trajetória da necessidade especial de saúde na vida da criança, buscando seus fatores determinantes e causais indicativos da necessidade de reabilitação. Durante esse período, observei uma realidade peculiar inerente às diversas maneiras que a família cuidava de sua criança no domicílio, as adaptações dos cuidados 1 Projeto “Crianças com necessidades especiais de saúde: configuração do universo temático das famílias no educar dialógico da Enfermagem”, coordenado pela Professora Ivone Evangelista Cabral, desde 1998. 2 PINTO, J.M.S. O perfil de crianças com necessidades especiais de saúde atendidas em uma unidade de reabilitação. 2005. Monografia (Graduação em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 3 na tentativa de garantir a melhor qualidade de vida possível para seus filhos, a despeito dos recursos instrumentais e/ou financeiros limitados. Essas adaptações variavam de acordo com as necessidades apresentadas por cada criança. Entre as histórias que acompanhei, destaca-se a de uma criança, com idade de dois anos e seis meses, com o diagnóstico médico de hidrocefalia, atraso no desenvolvimento psiconeuromotor, em uso de traqueostomia e válvula de derivação peritoneal (DVP). O risco de aumento do perímetro cefálico por retenção de líquido cérebro-espinhal resultante de obstrução da DVP; o risco de obstrução das vias aéreas pela presença de secreção na cânula de traqueostomia; o risco de infecção no estoma da traqueostomia; o risco de broncoaspiração de alimentos, líquidos e secreções devido a não sustentação da cabeça, entre outras necessidades da criança, implicava na necessidade de o familiar cuidador dominar um conjunto de saberes e práticas inerentes ao campo dos cuidados de enfermagem. A simplicidade de se alimentar a maioria das crianças representava, para aquela criança em particular, uma tarefa demasiadamente complexa para seu familiar cuidador. Como modo de superação desse obstáculo no processo de cuidar da criança, sua cuidadora optou pela liquidificação dos alimentos, uma vez que não recebera, até o momento orientações na consulta de enfermagem. Intervimos com a orientação sobre o posicionamento em semi-Fowler, uso de um apoio acolchoado para sua cabeça e oferta de alimentos picados em pequenos pedaços, bem cozidos e na forma pastosa, uma vez que não havia sinais e nem histórico de disfagia ou deformações estrutural ou funcional na cavidade oral. A presença da traqueostomia trazia outros desafios para o desenvolvimento dos cuidados habituais da criança para além daquelas próprias à maioria das crianças, tais como o banho, o sentar no carrinho, a limpeza do estoma, a troca da fralda, a lavagem dos cabelos e do couro cabeludo, o pentear/escovar os cabelos, escovar os dentes etc. No 7º período do curso, na etapa do estágio curricular do Programa Curricular Interdepartamental XI (PCI XI) – Cuidado de Enfermagem às Pessoas em Processo de Reabilitação II, nós, estudantes, implementávamos junto aos cuidadores familiares orientações relacionadas às intervenções de enfermagem com ênfase sobre o cuidado promotor do desenvolvimento de crianças com paralisia cerebral e redutor de agravos à sua saúde. Nessa fase curricular, foi possível integrar os conhecimentos teóricos com a prática vivenciada na pesquisa, entender a importância da enfermagem, integrando as intervenções educativas e cuidativas ao atendimento de reabilitação, para promover o bem-estar físico, mental e social de crianças com necessidades de reabilitação. 4 Na prática profissional Posteriormente, como professora substituta, do Departamento de Enfermagem Materno Infantil da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), tive a oportunidade de atuar como preceptora das alunas do curso de especialização em enfermagem pediátrica, da Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ, no campo de estágio de reabilitação, desenvolvendo a consulta de enfermagem às crianças e seus familiares. Acompanhamos um caso que despertou minha atenção: um familiar cuidador mantinha a criança como dependente total de seus cuidados, realizando por ela, a maioria das atividades de vida diária (a vestia, a alimentava, realiza os cuidados de higiene) sem estimular sua autonomia no cuidado de si. Por menor que fosse o potencial de desenvolvimento daquela criança, não havia um direcionamento para que explorasse sua potencialidade. Essa criança poderia ser treinada para se vestir, o que contribuiria para o refinamento de sua coordenação motora, seus movimentos e estimularia a sua independência. Entretanto, a ausência de uma intervenção sistemática e regular de cuidados de enfermagem para familiares com crianças, cujas necessidades implicavam em uma demanda de cuidados habituais modificados me causaram inquietação. Como essa família realiza os cuidados da sua criança no domicílio? Como lida com as dificuldades? Que cuidados precisam ser modificados para atender as necessidades da criança? E quando modificados, com quem o cuidador aprende a realizar esses cuidados? Diante de tantas perguntas surgiu a motivação deste estudo. 1.1.1. Delimitação da problemática e do objeto de estudo O desenvolvimento tecnológico contribuiu para um aumento da sobrevivência infantil, graças à sofisticação e incremento dos recursos medicamentosos e terapêuticos. Em contrapartida, criou a possibilidade de os sobreviventes apresentarem demandas diferenciadas e complexas de cuidados de saúde, algumas vezes, resultantes dos longos períodos de permanência na terapia intensiva neonatal e a exposição a procedimentos invasivos e risco de infecção. Esse novo grupo, após a alta hospitalar, requer da sua família, cuidados que não são próprios do seu cotidiano de cuidar, surgindo os desafios relacionados às condições dos sobreviventes e sua qualidade de vida quando retorna ao contexto do domicílio e da comunidade (CABRAL et al., 2004). Cabral (1999a) designou estas crianças como Crianças com Necessidades Especiais de Saúde (CRIANES), ou seja, aquelas que apresentam disfunções ou limitações no seu estilo de vida e nas suas funções normais para a idade, exigindo 5 severas mudanças, acompanhamento especializado e contínuo pelos serviços de saúde, além de cuidados especiais por parte de seus familiares, acompanhando a definição de McPherson et al. (1998). Esse aumento no número de crianças que sobrevivem a doenças complexas ou a lesões traumáticas e com demandas de cuidados especiais também vem sendo anunciada pela literatura internacional como Children with special healthcare needs (CSHCN) por Fleming et al. (1994); McPherson et al. (1998), O‟Brien (2001), Guillet (2002), Mentro (2003), Carnevale et al. (2006), Hockenberry e Winkelstein (2006) entre outros, que abordam a problemática de crianças com necessidades especiais de saúde, suas demandas de cuidados e sua relação com a família e os serviços de saúde. Esta denominação foi atribuída pela National Center on Financing for CSHCN (2004) para designar aquelas crianças que têm ou estão com risco aumentado para uma condição física, de desenvolvimento, de comportamento, ou emocional crônica e que necessitam de serviços de saúde relacionados a um tipo e ou uma quantidade de atendimento além daquela requerida geralmente por outras crianças. Essas necessidades especiais de sobrevivência são geradoras de inúmeras demandas de cuidados de saúde diferenciadas da maioria das crianças em geral. Trata-se de “um conjunto de exigências de cuidados apresentadas pela criança como herança do processo terapêutico reparador de sua condição de saúde-doença, que se somou a sua vida cotidiana, após a alta hospitalar” (Cabral et al., 2000). Portanto, as famílias se defrontam com cuidados especiais, relacionados ao manejo de tecnologia corporal, uso contínuo de medicamentos de sobrevivência, adaptação nos cuidados diários e ações promotoras do desenvolvimento, apresentados por estas crianças. Segundo Balling e McCubbin (2001), os pais de crianças com essa problemática decorrente de doenças crônicas possuem um forte desejo de participar dos cuidados de seus filhos. Eles desenvolvem competência e se tornam mais experientes no cuidado às crianças, esperam ser incluídos no planejamento dos cuidados e desejam participar da tomada de decisões relativas ao cuidado de seus filhos. Em um contexto de confiança, enfermeiras e pais precisam negociar o valor e o tipo de participação desse desejo dos cuidadores. Os cuidadores passam por tortuosos caminhos na busca do melhor cuidado aos seus filhos, seguem as orientações adaptando os cuidados que julgam necessários e de acordo com as condições da criança. Eles vivem situações no cotidiano de cuidar baseado, muitas vezes, na tentativa acerto-erro (AGUIAR, 2005). 6 As CRIANES foram incluídas em quatro grupos, de acordo com suas demandas de cuidados: de desenvolvimento, tecnológicos, medicamentosos e habituais modificados, e independente do grupo em que esteja inserida precisa ser considerada como uma nova clientela que exige cuidados diferenciados da equipe de enfermagem em todos os níveis de atenção em saúde, passando a exigir um acompanhamento de reabilitação em longo prazo de todos os profissionais, bem como cuidados especiais para inseri-los no contexto social (CABRAL et al., 2004). No primeiro grupo, incluem as crianças com demandas de cuidado de desenvolvimento, entendendo-se o crescimento e desenvolvimento como processos globais, dinâmicos e contínuos que ocorrem em um indivíduo. O acompanhamento e a avaliação contínua do crescimento e desenvolvimento da criança põe em evidência, precocemente, os transtornos que afetem a sua saúde e, fundamentalmente sua nutrição, sua capacidade mental e social. Desse modo, é possível visualizar a criança no contexto onde vive, de forma individualizada com seus antecedentes, necessidade e demandas. No segundo, incluem aquelas crianças com demandas de cuidados tecnológicos, com alguma tecnologia implantada no seu corpo e cuja sobrevivência é assegurada pelo uso de equipamentos especializados e sofisticados com a finalidade de lhes prolongar a vida (CUNHA, CABRAL, 2001; O‟BRIEN, 2001; MONTAGNINO, MAURÍCIO, 2004). Enquadram-se nesse grupo aquelas com doenças crônicas; portadoras de ostomias, como traqueostomias e gastrostomias; e artefatos tecnológicos indispensáveis à sobrevivência, como a válvula de derivação ventrículo-peritoneal (DVP), uso frequente de aspiradores, respiradores, BIPAP. Esses dispositivos transformam os cuidados habituais e simples do dia-a-dia da criança em cuidados habituais modificados e complexos no cotidiano de prestação de cuidados dos familiares cuidadores. No terceiro, estão as crianças com demandas de cuidados medicamentosos regulares e contínuos, cuja administração implica na aplicação de conhecimentos do campo dos cuidados de enfermagem fundamentais, dos princípios da matemática e da farmacologia (GOMES, CABRAL, 2009a). A terapia medicamentosa de longo prazo exige um elevado grau de engajamento do familiar cuidador para assegurar a adesão terapêutica e o cumprimento do esquema prescrito. A dificuldade de compreensão ou mesmo a incompreensão da prescrição pediátrica seja, pelo baixo nível socioeconômico e de escolaridade do responsável, seja pela simbologia e/ou abreviatura utilizada, ou pela letra ilegível e orientações fornecidas 7 apenas verbalmente pelo médico, todos são fatores que também influenciam a precária da adesão (AGUIAR, 2005). O que dificulta ainda mais a situação para os familiares cuidadores é a complexidade dos cuidados com a administração destes medicamentos e a sua pouca preparação para implementá-los no domicílio. Além disso, os familiares ainda necessitam lidar com os efeitos adversos que interferem na implementação do cuidado e no oferecimento do medicamento para a instituição da terapêutica farmacológica (GOMES, CABRAL, 2009b). No último grupo, incluem-se as crianças com demandas de cuidados habituais modificados, foco desse estudo, envolvendo um conjunto de cuidados próprios do cotidiano de vida, tais como o posicionamento para alimentar-se, o banho, as medidas anti-refluxo, dormir, transportar etc. Destacam-se ainda a higiene pessoal, arrumação, vestir-se, prevenção de infecções e cuidados com cateteres implantados e semiimplantados (CABRAL et al, 2004). Os cuidados habituais modificados dizem respeito a um conjunto de práticas que se associam ao processo de cuidar inerente as atividades de vida diária da criança. Esses cuidados implicam em uma modificação e/ou adaptação dos cuidados realizados com uma criança (banho, alimentação, transporte, entre outros) que não possuí necessidade especial de saúde (CABRAL et al, 2004). Entre esses cuidados, as autoras destacam a higiene pessoal (o banho), que necessita ser realizado por partes e/ou tamponamento das ostomias; a escovação dos dentes e higiene oral; a prevenção de infecções e os cuidados com a pele ferida no entorno da implantação de cateteres para diálise; o posicionamento em Semi-Fowler como medida anti-refluxo para alimentar-se, para dormir; a troca de roupa, que pode ser mais complicada naquela criança que não possui sustentação de cabeça e pescoço, ou controle do seu corpo; na alimentação, cujas práticas deverão ser compatíveis com o quadro clínico da criança. Há ainda, o risco para broncoaspiração, durante a alimentação ou durante o banho; o manejo da tecnologia implantada no corpo da criança, com a válvula (DVP) ou outro dispositivo tecnológico; a monitorização contínua dos episódios convulsivos; e o auxílio na realização de ações como levantar-se ou sentar-se na cadeira ou cama, movimentar-se no ambiente. (CABRAL et al., 2004; NEVES, CABRAL, 2008). No caso da diálise peritoneal, a família deve estar atenta a sinais de hipertensão arterial, edema ou disfunção neurológica, e atuar na prevenção de infecções. Na 8 gastrostomia e nos cateteres implantáveis, manter a área circunjacente limpa e seca para a prevenção de escoriações e infecções. Na insulinoterapia, a família e a criança devem aprender a técnica de aplicação da insulina e adotar o sistema de rodízio nas áreas de aplicação, além disso, deve ser realizado o teste de glicemia antes das refeições, o que também demanda cuidados com a técnica empregada (CABRAL et al., 2004). Em 2006, investigamos no banco de dados do projeto CRIANES as necessidades de saúde que requeriam acompanhamento de reabilitação e as demandas de cuidados. Entre as múltiplas necessidades especiais de saúde, havia predominância de atraso no desenvolvimento neuromotor, geralmente associada a demandas de cuidados habituais modificados, em função de suas necessidades de saúde especiais, quando comparado com as demais crianças. Essas crianças com necessidades especiais de saúde e demandas complexas de cuidados na reabilitação apresentam aos seus cuidadores familiares uma nova realidade de cuidados, e a necessidade de incorporar novos saberes e práticas para atender as suas demandas. Assim, nos remete para a necessidade de investigar como objeto de estudo, o enfrentamento de familiares cuidadores ao realizar cuidados cotidianos, às crianças com necessidades especiais de saúde, na interface com os saberes de enfermagem. 1.1.2. As questões norteadoras e os objetivos do estudo Quais são os desafios dos familiares cuidadores ao realizar cuidados às CRIANES no domicilio? De que forma os familiares cuidadores superaram os desafios dos cuidados cotidianos às CRIANES? Quais são as implicações dos saberes de enfermagem na superação dos desafios dos familiares cuidadores no cotidiano de cuidados as CRIANES? Para responder as questões, definimos os seguintes objetivos: a) delimitar as experiências de familiares cuidadores na realização dos cuidados cotidianos de crianças com necessidades especiais de saúde, no ambiente domiciliar; b) identificar os desafios para cuidar de CRIANES, pelos familiares cuidadores, e seus modos de superação no enfrentamento das demandas de cuidados modificados; c) discutir as interfaces das demandas de cuidados modificados, pelos familiares cuidadores, com os saberes de Enfermagem, quando a CRIANES está no domicilio. 9 1.1.3. Justificativa e relevância do estudo A relevância do estudo pode ser analisada sob a perspectiva epidemiológica da magnitude das causas das internações e reinternações de CRIANES. Segundo Neves e Cabral (2008), a principal causa de retorno dessas crianças ao hospital foram às infecções respiratórias, muitas delas por pneumonia por estase, devido a sua restrição ao leito ou pouca mobilidade, ou ainda por broncoaspiração. Além dessas complicações podemos citar as infecções no trato urinário de repetição, as úlceras por pressão em áreas de proeminências ósseas, as atelectasias, todas evitáveis. Porém a prevenção e/ou redução de agravos está intimamente ligada aos cuidados cotidianos de mobilização, higiene, entre outros realizados pelos familiares, no domicílio. As orientações de enfermagem, em geral, são feitas no hospital no momento da alta, havendo uma solução de continuidade no processo de intermediação dos saberes de enfermagem. Quando as crianças recebem alta hospitalar, somente interagem com os profissionais do ambulatório de especialidade e do serviço de reabilitação. No entanto, na maioria das vezes, esses cenários não têm um enfermeiro realizando consulta de Enfermagem e nem atividade de educação em saúde para os cuidadores, o que resulta em descontinuidade do processo de reabilitação no cuidado cotidiano. Muitas vezes, nem há contato do enfermeiro com os familiares cuidadores, devido a inexistência desse profissional em exercício no serviço de reabilitação, já que o modelo assistencial privilegia mais a recuperação motora e funcional. As necessidades sociais em saúde das crianças acompanhadas nos serviços de reabilitação não restringem-se a recuperação funcional. Segundo Cecílio (2001), as necessidades de saúde de qualquer indivíduo formam um conjunto organizado por quatro grandes elementos. O primeiro envolve as “boas condições de vida”, em seu sentido mais funcionalista, enfatiza os fatores do “ambiente”, “externos” como determinantes do processo saúde-doença. O segundo refere-se a “ter acesso e se poder consumir toda a tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida”. Um terceiro diz respeito à “insubstituível criação de vínculos (a)efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou profissional”, trata da relação de confiança, como algo que é contínuo, pessoal e intransferível. O último elemento do conjunto diz respeito à necessidade “de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de comandar a vida”. Aqui tratamos da educação em saúde e da informação como parte do processo de construção da autonomia de cada pessoa no 10 cuidado de si, particularmente quando se exige modificação para integrar esse cuidado ao cotidiano da criança na vida da família. As necessidades de saúde são reconhecidas pela população em três pilares: necessidade de presença do Estado, que garante a disponibilidade dos serviços que promovem o bem-estar social; necessidades de reprodução social, que coloca o Estado como responsável pelos serviços necessários para a reprodução social, a começar pelo saneamento básico, e necessidade de participação política, como a implementação de conselhos para garantir a defesa dos direitos dessa população (CAMPOS, MISHIMA, 2005). Os cuidados que as crianças com necessidades especiais de saúde demandam fundamentam a criação e manutenção de políticas públicas de saúde socialmente inclusivas. A Constituição Federal (de 1988) e as Leis 8.069/90 (do Estatuto da Criança e do Adolescente/ECA) e 8.080/90 (do Sistema Único de Saúde/SUS) asseguram o direito de TODAS AS CRIANÇAS serem assistidas pelo SUS, em caráter integral, de modo continuado e independente do cenário onde ela se encontra (BRASIL, 1988; BRASIL, 1990; BRASIL, 1990). Particularmente, no artigo 11 do ECA destaca que é dever do Poder Público fornecer gratuitamente àqueles que necessitarem de medicamentos, próteses e outros recursos relativos ao tratamento, habilitação ou reabilitação. A produção de conhecimentos sobre crianças com necessidades especiais de saúde é muito ampla e bem difundida, particularmente na literatura internacional, entretanto há pouca abordagem para os cuidados de enfermagem na esfera do serviço de reabilitação. Em um estudo de revisão sistemática nas bases de dados – Minerva, Lilacs, Medline, Adolec, BDENF, Cuiden, Cinahl, Pudmed, Scopus, Social science, Web of science, ScienceDirect; utilizamos como palavras: “criança” ou “children”, “criança com necessidades especiais” ou “children with special healthcare needs” e “reabilitação” ou “rehabilitation” – a partir da pergunta norteadora: “Qual a tendência dos estudos sobre crianças com necessidades especiais de saúde na reabilitação?”.Dos 15 artigos encontrados, a maioria era de natureza clínico-epidemiológica, sócio-cultural e dois estudos eram de natureza existencial e política. Os estudos direcionam-se para duas vertentes, a questão da família e a questão do profissional; sobre a família estudouse a percepção dos pais sobre o acesso aos serviços de reabilitação (O‟NEIL et al., 2009), o acesso às políticas públicas de saúde (LEAL 2007).Já na questão do profissional, abordou-se a compreensão do vivencial de uma equipe, a atuação do 11 profissional em um hospital especializado, as necessidades para a formação da equipe interdisciplinar na reabilitação da criança (SPIRI, 2001; SINGER, DROTAR, 1989; DE MOOR et al., 1999). Desses estudos, destacamos os de enfermagem para delimitar a tendência dentro da área e entre os encontrados nenhum tratava do cuidado de enfermagem de reabilitação às crianças com necessidades especiais de saúde, cujo cenário de pesquisa ou de prática é a reabilitação. Os cuidados habituais modificados ainda encontram-se integrados às demais demandas de necessidades especiais de saúde que são focadas nos estudos, geralmente esses cuidados estão agregados aos demais cuidados e pouco são explorados na literatura. Segundo Neves e Cabral (2008), essa demanda estava associada, geralmente, a demanda de desenvolvimento, e/ ou a dependência de tecnologia. Leite e Cunha (2007) complementam que além de lidar com a questão da tecnologia, a família precisa se adaptar à essa nova forma de realizar seus cuidados rotineiros, como banho, alimentação, entre outros. Esses cuidados habituais modificados ainda foram citados no estudo de Cabral e Rodrigues (2006), como a demanda de cuidado apresentada por ¼ das crianças egressas do método mãe canguru, e foram compreendidos como medida anti-refluxo, reorganização postural, as práticas alimentares e aleitamento materno. Ainda podemos citar, o risco para broncoaspiração, a necessidade de monitorização dos episódios convulsivos, cuidados com a válvula (DVP), curativo na lesão do teratoma e a utilização de oxigenioterapia contínuo (NEVES, CABRAL, 2008). Entretanto, esses cuidados não estão apenas restritos a essas atividades, e não eram o foco principal dos estudos acima, evidenciando assim uma necessidade de aprofundamento nesse campo do conhecimento. 1.1.4. A contextualização de Criança com Necessidades Especiais de Saúde (CRIANES) Em 1987, um grupo do Office of Technology Assessment definiu um grupo de crianças com necessidades especiais de saúde, as crianças dependentes de tecnologia, como as que necessitam de um dispositivo tecnológico para substituir uma função vital do corpo, assim como cuidados de enfermagem para afastar a morte ou futura incapacidade. O documento elaborado pelo grupo teve como objetivo definir esta nova população e para facilitar a divisão dos encargos financeiros pelas esferas responsáveis, 12 família, privada e pública (OFFICE OF TECNOLOGY ASSESSMENT, 1987). Desta forma, alguns modelos de atendimento foram idealizados, na tentativa de gerenciar e proporcionar a saída dessas crianças do hospital para casa com um custo mais acessível para as suas famílias e para os financiadores (KAUFMAN, 1992). O impacto da inserção dessa criança com necessidade especial de saúde e que necessita de cuidados complexos sobre a família foi mensurado, e a aliança entre os familiares e as enfermeiras seria a base para o suporte e auxílio na realização dos cuidados com a criança (FLEMING, 1994). A filosofia do cuidado centrado na família, que reconhece os pais como iguais em parcerias com os profissionais, é uma saída pelo qual a enfermeira assumiria a responsabilidade conjunta com a família na execução do plano de cuidados, e promoveria o princípio da normalização e da utilização de opções informal sempre que possível (BOND, 1994). Os avanços tecnológicos do cuidado de saúde, tratamento médico, mudanças na assistência prestada e melhorias na vida da criança sobrevivente têm resultado em um maior número de crianças com doenças crônicas recebendo cuidados diferenciados no domicílio. A expectativa de vida dessas crianças tem aumentado, requerendo que os pais tornem-se experientes cuidadores (BALLING e MCCUBBIN, 2001; ELSEN, 1994; JERRET, 1994; RAY e RITCHIE, 1993). A doença crônica leva as crianças a sofrerem mudanças no seu ritmo de vida, muitas vezes com limitações, principalmente físicas, devido aos sinais e sintomas da doença e podem ser frequentemente submetidas a hospitalizações para exames, tratamentos à medida que a doença progride, distanciamento do ambiente escolar, desta maneira tendo suas vidas regidas pela doença (VIEIRA, 2002). A experiência da doença crônica envolve a convivência com uma ou mais disfunções por longo tempo as quais podem ser incuráveis ou temporárias. Esta condição impõe limitações sobre o indivíduo e requer adaptações especiais. Com a presença constante da disfunção na vida da criança, se antes as prioridades eram brincar, pular e jogar futebol, a necessidade especial impõem restrições. (CHARROMPROCHOWNIK, 2002). As crianças com necessidades especiais de saúde são aquelas que possuem ou estão em risco aumentado para uma condição crônica, de desenvolvimento, estado comportamental e emocional, e que, também, requerem dos serviços de saúde 13 um tipo de atendimento específico ou em quantidade além dos exigidos pelas crianças em geral (MCPHERSON et al, 1998). Existem crianças que apresentam limitações no seu estilo de vida e nas funções normais, e que requerem cuidados médicos contínuos para manter seu estado de saúde, de modo permanente ou temporário. Entre as demandas de caráter permanente estão aquelas que implicam na sua sobrevivência, como exemplo, podemos citar as crianças com insuficiência renal crônica, HIV/AIDS, que apresentam a necessidade de utilização de terapia medicamentosa por toda a vida. Já as necessidades especiais temporárias são aquelas as quais as crianças convivem por um tempo determinado, como por exemplo, as crianças traqueostomizadas, com colostomia ou em uso de respiradores mecânicos com prognóstico de utilização por curto prazo. As CRIANES podem apresentar uma disfunção de origem congênita, por exemplo, crianças que apresentam meningomielocele, fibrose cística; ou adquirida, devido a insuficiência renal crônica, paralisia cerebral, entre outras. Além destas, inserem-se nesse grupo as que nasceram prematuras, com baixo peso, com alguma insuficiência orgânica, com malformação, com alguma deficiência ou com síndrome genética. Ainda há aquelas que se tornaram CRIANES com idade mais avançada, o que resulta em um aspecto de maior dificuldade para criança e família se adaptarem a nova situação, já que experimentaram outro tipo de vida anteriormente (HOCKENBERRY, 2006). Esse grupo de crianças apresenta fragilidade clínica que as tornam vulneráveis aos agravos ambientais sobre sua saúde, exigindo dos profissionais que as acompanham uma intervenção eficaz e efetiva para manter o seu estado de saúde. Como, por exemplo, o desenvolvimento de práticas de saúde especializadas, implementação de ações educativas junto às famílias, que assumem o papel de cuidadores, mediante a essas novas demandas de cuidados. 1.2. Referencial teórico As ideias forças do pensamento filosófico freiriano e sua concepção de educação dialógica foram adotadas para a leitura do material empírico gerado no trabalho de campo da pesquisa. Sobre o papel do educando como co-participe do processo de educação (alfabetização) de adultos, Freire (1980) desenvolveu com base em uma filosofia critico-humanística, uma pedagogia dialógica. 14 Na primeira ideia força, o autor (op cit) considera que a educação para ser válida deve partir do ser humano imerso em sua realidade concreta, considerando-o como sujeito, pois esta é sua vocação ontológica. Diz, ainda, que o ser humano é um ser com raízes espaço-temporais, não existindo fora da sua realidade concreta. Dessa forma, a educação libertadora não pode reduzi-lo a um objeto, mas sim considerar o contexto (meio social) e a cultura em que ele está imerso. A segunda ideia força afirma que o homem chega a ser sujeito por uma reflexão sobre sua situação, sobre seu ambiente concreto. Para Freire (1980, p.35) quanto mais o homem reflete sobre a realidade, sua situação concreta, mais emerge, plenamente consciente, comprometido, pronto a intervir na realidade para mudá-la. Ou seja, o familiar cria maneiras de cuidar de uma criança com necessidades especiais de saúde com demanda de cuidados habituais modificados, superando os desafios de cuidar dessa nova criança no domicílio, minimizando os riscos e agravos de saúde, buscando assim, respostas aos seus desafios e construindo conhecimento. A terceira ideia força refere-se ao ser humano que ao integrar-se em seu contexto, reflete sobre ele e se compromete. Sua reflexão sobre a realidade o faz descobrir que não está somente na realidade, mas com ela, numa relação de temporalidade. Esta terceira ideia exprime a tomada de consciência do ser humano quanto a sua temporalidade e historicidade. É também por esse motivo capaz de entrar em relação com outros seres e com a realidade. Por ser o homem histórico, relacional com os outros seres e capaz de tornar-se consciente de sua realidade que consegue desempenhar os cuidados às CRIANES, e encontra dentro das relações com os profissionais de saúde uma possibilidade de vencer seus desafios e tentar modificar sua realidade concreta. Creio como Freire (1980) que por meio das relações e interações sociais que o ser humano chega a ser sujeito, colocando em prática sua capacidade de discernir, e ao fazê-lo, descobre-se frente a uma realidade que não é somente exterior, mas que o desafio, o provoca. A quarta ideia força exprime o pensamento de que pela integração com o contexto de vida, o homem reflete sobre ele, dá respostas aos desafios por meio da ação e, assim, está criando cultura. Cultura, para Freire (1980), é resultado de toda atividade humana através do esforço criador e re-criador do homem sobre a natureza. Acerca do pensamento de Freire, Padilha e Antunes (2004) afirmam que o que diferencia o ser humano dos outros seres é sua capacidade de dar resposta aos diversos 15 desafios que a realidade impõe. Mas essa apreensão da realidade e esse agir no mundo não se dão de maneira isolada. É na relação entre homens e mulheres, e destes e destas com o mundo que uma nova realidade se constrói e novos homens e mulheres se fazem, conferindo, portanto poder. Na quinta ideia o homem é criador de cultura e fazedor de história, a sua própria história e a do seu povo. O homem faz história na medida em que, captando os temas próprios de sua época, pode cumprir tarefas concretas que supõe a realização destes temas, e sugere reformulação, mudança, na capacidade de atuar, nas atitudes e comportamentos. A sexta e última ideia força é de comprometimento da educação com a mobilização dos sujeitos-educandos do estado do desconhecimento para o conhecimento, para que ela seja autêntica. Ou seja, para que ela, alcançando as forças anteriores, promova a libertação dos homens e não a adaptação, a domesticação, a subjugação. Ela deve possibilitar que o ser humano chegue a ser sujeito, constitua-se como pessoa e seja capaz de transformar a sua realidade, estabelecendo relações de reciprocidade com outros homens, fazendo cultura e história. Em síntese, Freire com suas ideias forças parte de um homem com raízes espaço temporais, com vocação para ser sujeito e não mero expectador no mundo, através da reflexão de sua situação e ambiente concreto, toma consciência de sua historicidade e temporalidade, reflete sobre seu contexto de vida, leva resposta aos seus desafios fazendo cultura e história, até ocorrer a libertação de sua condição de oprimido, através de uma atitude crítica, de reflexão, de tomada de consciência, modificação da realidade, que possibilitam a construção da sua autonomia. Entendendo que o sujeito se constitui em sua subjetividade pela consciência do mundo, o autor salienta a importância dos temas geradores: "Procurar o tema gerador é procurar o pensamento do homem sobre a realidade e a sua ação sobre esta realidade que está em sua práxis" (FREIRE, 1980, p. 32). O educador precisa possuir uma atitude ativa de procurar o tema gerador, isso possibilitará ao educando uma tomada de consciência da sua própria realidade. Essa tomada de consciência permitirá a decisão, a escolha, a liberdade, a conquista do poder de ser autônomo. Uma educação desconectada da realidade, não fará mais que domesticar, adequar, moldar. Freire propõe uma educação problematizadora, dialógica, oposta à “educação bancária”, por isso não trata os alunos como meros depósitos de conteúdos e entende que os sujeitos possuem conhecimento construído através da sua realidade, e busca 16 promover caminhos para que o próprio educando seja sujeito agente e construa sua autonomia. Dessa forma, a relação educador-educando, em que o professor era quem possuía o conhecimento e o aluno um sujeito passivo, não se aplica. "Já agora ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo" (FREIRE, 1983, p. 79). Essa proposta dialógica de Freire é constituída pelo diálogo através da ação e reflexão e assim, o diálogo implica na transformação do mundo. 1.3. Referencial metodológico Trata-se de uma pesquisa qualitativa, pois nela é possível combinar as naturezas científica e artística da enfermagem, para aumentar a compreensão da experiência de saúde humana (WOOD, 2001). Entendemos que a abordagem de pesquisa qualitativa apresenta-se como a mais adequada para a realização deste estudo, pois segundo Minayo (1993, p.102) há uma preocupação menor com a generalização e maior com "o aprofundamento e a abrangência de compreensão, seja de um grupo social, de uma organização, de uma instituição e de uma política ou de uma representação”. Como método, utilizamos o criativo e sensível, desenvolvido por Cabral (1999b) e aplicado em diversas pesquisas, Dentre elas, destacam-se na área de enfermagem os de Aguiar (2005), Alvim (1999), Aranda (2003), Bergold e Alvim (2009), Cabral (1999a), Cunha (2001), Fontes e Alvim (2008), Gabatz et al. (2010), Gomes (2005), Lira (2005), Medeiros (2001), Moraes (2003), Pacheco e Cabral (2011), Resta e Motta (2007), Rodrigues (2000), e Santos (2002). Cabral (2004, p.128) afirma que: O método criativo-sensível de investigação qualitativa tem nas dinâmicas de criatividade e sensibilidade o seu dispositivo central de produção de dados para a pesquisa científica, porque, além de combinarem as discussões de grupo com a produção artística, nelas ocorre a observação participante e a entrevista coletiva. A escolha pelo método justifica-se pelo fato de os participantes do estudo apresentarem baixo de grau escolaridade, porém uma riqueza e diversidade de experiências de cuidar adquirida na historicidade e na temporalidade do fazer. O Capítulo 2 descreve as condições de produção do discurso, confirmando a propriedade da escolha, uma vez, que os enunciadores (familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde) foram espontâneos, autênticos, criativos e sensíveis. 17 Para Cabral (1999b), a combinação entre ciência e arte, espontaneidade e introspecção, criatividade e sensibilidade, realidade concreta e expressão criativa, torna o método criativo e sensível algo diferenciado quando comparado aos métodos estabelecidos e consolidados. A autora ressalta que o método a) conjuga técnicas consolidadas de coleta de dados (entrevista coletiva semiestruturada, discussão de grupo e observação participante) com as dinâmicas de criatividade e sensibilidade; b) apropria-se dos mais diversificados instrumentos e procedimentos da pesquisa qualitativa (roteiros de entrevista, planejamento do trabalho de grupo, gravação de áudio e vídeo, e fotografias), acrescentando os dispositivos próprios das dinâmicas de criatividade e sensibilidade, como as produções artísticas, leitura e interpretação das produções; c) tem no processo de criação e no empenho da sensibilidade a força produtora de dados para a pesquisa; d) é possível desenvolver a pedagogia críticoreflexiva, numa perspectiva dialógico-dialética, quando os integrantes coletivizam suas produções artísticas e constroem o significado do que foi produzido, gerando temas a serem debatidos no processo coletivo e e) facilita a organização dos dados para a análise. O método utilizado na pesquisa com a família tem o cuidar, como razão de ser da enfermagem, tem na família a raiz de sua existência e o espaço onde são desenvolvidas as primeiras experiências de cuidar do outro. A criação artística, um dos recursos das dinâmicas de criatividade e sensibilidade, evoca no participante do grupo os elementos sígnicos e simbólicos, os quais são significados no espaço de interação e a discussão grupal, resultando na geração de dados. A relação dialógica que se estabelece entre os sujeitos da pesquisa e o pesquisador é o aspecto central, tanto das discussões, quanto das dinâmicas interativas. A dinâmica sensível estimula a pessoa a sair de sua egocentricidade, criando nos participantes outros sentimentos, como afeto e emoção, quando tratam de temas cujos interesses são comuns (SOUZA, 2006). Cabral (1999b) recomenda que a dinâmica de criatividade e sensibilidade seja desenvolvida em duas fases (fase preliminar e fase operacional) e em cinco momentos distintos da fase operacional (apresentação e interação grupal, trabalho individual ou coletivo, apresentação dos textos gerados, análise coletiva, síntese e validação), como exemplificado e descrito no quadro 1.1. a seguir: 18 Quadro 1.1. Momentos do Método Criativo e Sensível Dinâmica Data: Dinâmica selecionada: Duração: 1h Fase Preliminar Logística: Organização do ambiente para o desenvolvimen to da dinâmica de criatividade e sensiblidade (DCS). Preparação das pessoas responsáveis pela implementação da DCS – auxiliar de pesquisa, pesquisador; Seleção e disposição do material no ambiente 1° momento Apresentação e interação grupal Apresentação dos participantes; o Relaxamento; Apresentação da DCS; explicação sobre a atividade e enunciação da questão geradora de debate 2° momento Trabalho individual ou coletivo Tempo reservado para a produção artística individual ou coletiva Fase Operacional 3° momento Apresentação dos textos gerados Apresentação individual das produções artísticas 4° momento Análise coletiva Eleição dos temas geradores de debate e discussão coletiva 5° momento Síntese e validação Recodificação e síntese No momento prévio organiza-se o material e o ambiente para receber os participantes, oferecendo um local confortável, agradável e silencioso. Recomenda que a disposição espacial do grupo na sala deve favorecer que todos participantes se vejam. No primeiro momento, cada participante do grupo se apresenta, sendo assegurando, pelo pesquisador, que suas identidades são mantidas em anonimato. Do mesmo modo, esclarece que as informações ali compartilhadas serão de uso restrito à pesquisa. O grupo pode optar por pseudônimos escritos em um crachá para facilitar a comunicação grupal e para o pesquisador situar as falas dos sujeitos na coletivização das experiências e na organização dos dados. Procedemos conforme recomendado pelo método, iniciando com a explicação da dinâmica e seus objetivos. Naquele momento disponibilizamos os materiais para a elaboração da produção artística e apresentamos a questão geradora de debate. No segundo momento destina-se um tempo aos participantes para que elaborem a produção artística grupal ou individual. No caso da pesquisa em tela, os grupos familiares concentraram-se em produções grupais. No terceiro momento, cada participante apresenta ao grupo o material produzido no trabalho individual e explica, coloca assim no plano coletivo a sua experiência individual. 19 No quarto momento, o da discussão, os sujeitos participantes dialogam entre si e consigo mesmo (codificação/decodificação); o papel do pesquisador é muito importante na intermediação das discussões, animando o grupo a desenvolver os temas codificados. No quinto momento, correspondente a análise coletiva e validação dos dados produzidos (recodificação), a experiência individual de cada membro produz um conhecimento único na totalidade do grupo. Simultaneamente, acontece a análise preliminar dos dados, com a síntese do que foi construído de forma espacial criativa e sensível. Os participantes – critérios de seleção para inclusão na pesquisa Os participantes da pesquisa foram os familiares cuidadores de CRIANES, que atenderam os seguintes critérios de inclusão: familiares de crianças na faixa etária de pré-escolar e escolar; que compareciam regularmente as sessões de fisioterapia; que possuíam experiências de cuidados no banho, na alimentação, no transporte, entre outros. Foram excluídos os familiares que, no momento da pesquisa, suas crianças estavam hospitalizadas. A captação dos familiares cuidadores ocorreu na primeira etapa do trabalho de campo, quando realizei um levantamento sobre as condições de vida das crianças, seus cuidadores e demais familiares, orientado por um instrumento de caracterização dos sujeitos, contendo perguntas abertas e fechadas com variáveis relacionadas à criança e sua família. As informações foram obtidas do banco de dados do PROJETO CRIANES/CNPq, do prontuário da criança e da entrevista com os potenciais participantes da pesquisa, que aceitaram ser voluntários. Para selecionar os potenciais sujeitos da pesquisa, aplicou-se os critérios de inclusão e exclusão no banco de dados. Das 50 crianças cadastradas, apenas nove apresentavam demandas de cuidados cotidianos modificados em virtude de necessidades especiais de saúde; portanto seus familiares cuidadores atendiam aos critérios. Após o procedimento de seleção dos possíveis sujeitos da pesquisa, abordamos os familiares na sala de espera da unidade de reabilitação, enquanto estes aguardavam suas crianças em atendimento. Aqueles familiares que aceitaram escutar sobre a pesquisa foram entrevistados para completar os dados do instrumento e convidados a 20 participar como voluntários. Assim, agendamos o encontro na residência de cada família. O grupo familiar se constituiu de dois a três participantes, totalizando 12 pessoas. O grupo da primeira incluiu duas pessoas: o pai e a mãe. O segundo grupo familiar composto por três pessoas, sendo o pai, a mãe e a avó paterna. O terceiro grupo familiar contou com dois participantes: a mãe e a avó paterna. O quarto grupo de familiares que integrou o estudo contou três pessoas: mãe, pai, tia paterna. O último grupo familiar envolveu duas pessoas, a mãe e o pai. A eles foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, o qual atendeu ao previsto pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 1996) sobre pesquisa envolvendo seres humanos e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Seu conteúdo encerrava aspectos sobre: • A aprovação do Projeto de Pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa, e nele consta a justificativa, os objetivos e os procedimentos utilizados na pesquisa (Apêndice A). • Prover os recursos humanos e materiais para garantir o bem-estar dos sujeitos, participantes da pesquisa. • Previsão procedimentos que assegurem a confidencialidade e a privacidade, a proteção da imagem e a não estigmatização, garantindo a não utilização das informações em prejuízo das pessoas, inclusive em termos de autoestima, de prestigio e/ou econômico- financeiro. Os sujeitos que não aceitarem participar ou desejarem retirar-se em qualquer momento da pesquisa não sofreram qualquer tipo de prejuízo. • Clareza de que os dados gerados seriam apresentados e discutidos nas reuniões cientificas do grupo de Pesquisa de Enfermagem em Saúde da Criança (NUPESC), da Escola de Enfermagem Anna Nery, o qual o projeto está vinculado, assegurando a responsabilidade e o respeito entre pesquisadores e sujeitos. Toda a relação da pesquisadora com os familiares dessas crianças foi desenvolvida seguindo quatro referências básicas da bioética: autonomia, não maleficência, beneficência e justiça, visando assegurar os direitos e deveres da comunidade científica, dos sujeitos da pesquisa e do Estado. 21 Os espaços para a produção dos dados O agendamento das dinâmicas ocorreu durante a entrevista de captação dos voluntários, quando estavam na sala de espera do atendimento de reabilitação de sua criança. Decidiu-se naquela ocasião que os encontros ocorreriam na própria instituição onde a criança realiza a reabilitação. Seguindo o programado, no dia e hora previsto e confirmado por contato telefônico no dia anterior a dinâmica, as salas foram preparadas para receber as crianças e seus familiares. Porém, no dia agendado nenhum dos convidados compareceu, porque o horário do agendamento coincidia apenas com o atendimento na reabilitação de uma parte do grupo. O insucesso da primeira tentativa, nos levou a um novo contato com os familiares para reprogramarmos uma nova data e horário mais adequados para todos. Na segunda tentativa, mais um insucesso, pois houve um grande temporal na cidade e a estrutura física do serviço de reabilitação foi danificada, o que provocou mudança na agenda de atendimento, alterando o ritmo de hora, dia e local que a família estava habituada. O grupo faltou também ao atendimento de reabilitação. Diante disso, houve a necessidade de rever o cenário da pesquisa, mudando do hospital para a residência das famílias, com o objetivo de proporcionar mais tranquilidade aos participantes. Posterior a autorização do CEP EEAN/HESFA (onde o projeto foi aprovado) solicitando a substituição do novo cenário (Anexo B), entrei em contato para o agendamento dos encontros no domicilio. Parte dos familiares foi abordada na sala de espera da unidade de reabilitação do HESFA e parte por telefone. As dinâmicas foram agendadas e realizadas com os familiares no seu domicílio, e ainda contamos com a presença das crianças. A mudança de estratégia trouxe tranquilidade aos participantes para falarem sobre a sua criança e permitiu à pesquisadora conhecer a realidade do cuidar dessas famílias no seu próprio ambiente. Solicitei autorização para entrar nas residências das famílias com câmeras filmadoras para os registros de áudio e visuais (como as reações não-verbais) e uma auxiliar de pesquisa. Para preservar a imagem, a identidade e o anonimato dos participantes, acordamos com eles de que a câmera de filmagem ficaria disposta em um ângulo que não permitisse a visualização do rosto de cada um, ou de aspectos que pudesse identificar a localização das casas na comunidade. A produção de imagem e o registro de sons e vozes contribuíram para que tornasse a tarefa de transcrição do material gravado o mais próximo do momento em que o evento da pesquisa aconteceu. Todos concordaram com o seu uso. 22 A produção de dados: a aplicação da dinâmica de criatividade e sensibilidade Corpo Saber Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Escola de Enfermagem Anna Nery/Hospital Escola São Francisco de Assis da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ (protocolo 034/2010. Anexo A) e a obtenção de permissão da instituição e das famílias, iniciou-se a etapa do trabalho de campo. A produção de dados consistiu na aplicação de uma dinâmica de criatividade e sensibilidade com cada grupo de familiar. A dinâmica do corpo saber foi repetida cinco vezes, sendo uma em cada domicilio, respeitando-se os momentos previstos pelo método criativo sensível. A escolha pela dinâmica corpo saber se justifica porque ela consiste em despertar nos familiares cuidadores a representação, no corpo desenhado, dos cuidados que realizam com suas crianças com necessidades especiais de saúde (GOMES, 2005). Assim, atende os objetivos da pesquisa que trata dos cuidados de crianças com necessidades especiais de saúde e seus desafios para os familiares cuidadores. Essa dinâmica foi sistematizada por Alvim (1999) e validada, posteriormente, por Medeiros (2001), tendo como eixo principal a relação entre o corpo e o cuidado prestado a uma parte específica do corpo, mostrando de que forma esse cuidado é ressignificado pelo cuidador. A questão geradora de debate incluiu palavras-chaves, previamente escolhidas pela pesquisadora (dispostas separadamente em pedaços de papel), que foram afixadas pelos cuidadores em uma folha (cartolina tipo papel 40kg) com a silhueta de um corpo desenhado (Figura 1.1 - Produção artística da dinâmica Corpo Saber Família de D.) para evocar memórias latentes do cuidador na relação com a criança, e a natureza ativa e passiva desse processo de cuidar. A questão enunciada foi: Entre esses cuidados aqui apresentados (vestir, vacina, cuidados com os ouvidos, cuidados com o nariz, cuidados com a pele, massagear o corpo, carinho, limpeza depois do xixi, banho, cuidados com a boca e os dentes, brincar, cuidados com as unhas, cuidados para locomover, conversar), quais vocês precisaram fazer de um modo diferente para vencer as dificuldades no cuidado de seu filho (neto, sobrinho)? 23 Figura 1.1 – Produção artística da dinâmica Corpo Saber Família de D. Com essa dinâmica, nos aproximamos das experiências dos cuidadores, seus desafios, seus saberes e práticas de cuidado no cotidiano de vida da criança. Os momentos sequenciais de desenvolvimento da DCS corpo saber são apresentados no quadro 1. Quadro 1.2. A operacionalização da dinâmica de criatividade e sensibilidade Corpo Saber com cinco grupos de famílias de CRIANES. Rio de Janeiro. 2010-2011. Família 1. Família de D. Participantes: pai e mãe. 2. Família de L. Participantes: mãe, pai e avó paterna. 3. Família de M. Participantes: mãe e avó paterna Dinâmica do Corpo saber Data: 07/09/2010 Dinâmica selecionada: Corpo Saber Duração: 1h 13min Data: 10/09/2010 Dinâmica selecionada: Corpo Saber Duração: 34min 11seg Data: 22/10/2010 Dinâmica selecionada: Corpo Saber 1° momento Apresentação e interação grupal Participantes se apresentam. Pesquisador explica a DCS, expõem o material a ser usado e enuncia a questão geradora de debate Fase Operacional 3° momento Apresentação da produção artística Tempo Apresentação da reservado para produção a produção artística artística coletiva 2° momento Trabalho coletivo 4° momento Análise coletiva 5° momento Síntese e validação Eleição dos temas geradores de debate e discussão coletiva Recodificação e síntese Tempo reservado para a produção artística coletiva Apresentação da produção artística Não houve Não houve Tempo reservado para a produção artística coletiva Apresentação da produção artística Eleição dos temas geradores de debate e discussão Síntese 24 4. Família de JP. Participantes: mãe, pai e tia paterna 5. Família de KV. Participantes: ãe e pai. Duração: 57min Data: 22/03/2011 Dinâmica selecionada: Corpo Saber Duração: 58min 52seg Data: 26/03/2011 Dinâmica selecionada: Corpo Saber Duração: 39min 57seg coletiva Tempo reservado para a produção artística coletiva Apresentação da produção artística Eleição dos temas geradores de debate e discussão coletiva Síntese Tempo reservado para a produção artística coletiva Apresentação da produção artística Eleição dos temas geradores de debate e discussão coletiva Síntese Quando estávamos na casa da família, cada participante apresentou-se (primeiro momento), iniciando-se pela pesquisadora, seguido pela auxiliar de pesquisa e pelos componentes do grupo familiar. Para que as pessoas se sentissem esclarecidas sobre o trabalho coletivo, e a interação grupal ocorresse satisfatoriamente, a pesquisadora expôs a dinâmica e enunciou a questão geradora de debate. Em seguida, reapresentou o termo de consentimento livre e esclarecido (Apêndice A), o qual foi assinado por todos os participantes do grupo, explicou a dinâmica de criatividade e sensibilidade em si. Solicitou-se autorização para que, além do uso da câmera de filmagem previamente acordada, dispuséssemos aparelhos de MP4 para a gravação das vozes dos participantes e assim não houvesse risco de perda de material para o caso de falha tecnológica. O terceiro momento consistiu na elaboração da produção artística grupal, uma vez que todos os familiares debruçaram-se sobre a mesma questão geradora de debate. O quarto e quinto momento aconteceram simultaneamente, pois na medida em que apresentaram o material produzido, problematizaram as situações, refletiram sobre elas, tematizando-as e discutindo-as. A interrupção do trabalho de campo - a saturação dos dados Em revisão de literatura, identificamos que o número de participantes em pesquisas que adotaram o método criativo sensível variou entre dois e dez integrantes, pois se considera a qualidade das vozes dos sujeitos e sua intertextualidade (MOTTA, 2004; RESTA, MOTTA, 2007; AMARAL, POMATTI, FONTES, 2007; FONTES, ALVIM, 2008). Entre os investigadores que utilizaram a mesma dinâmica variou entre dois e 14 sujeitos (ALVIM, CABRAL, 2004; BERGOLD, ALVIM, CABRAL, 2006; VERNIER, 2007, NEVES, CABRAL, 2008a; BERGOLD, ALVIM, 2009; GABATZ et al., 2010 e 25 PACHECO, CABRAL,2011), Portanto, os quantitativos de participantes das dinâmicas variaram nessa dimensão. Foram realizadas cinco dinâmicas, o total de 12 familiares cuidadores participantes, sendo cinco mães, quatro pais, duas avós paternas e uma tia paterna. O processo de coleta de dados foi interrompido no momento em que se observou repetições e redundância dos dados captados durante as dinâmicas. Procedimentos de análise dos dados Para análise dos dados, optamos pelo método de Análise de Discurso (AD). Segundo Orlandi (2005), a análise na AD não trata da língua ou da gramática (embora estas estejam envolvidas), ela trata o discurso como objeto de análise e como ele funciona para produzir sentidos. O discurso é compreendido como a palavra em movimento, a prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando. Assim, procuramos entender a língua fazendo sentido; enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social, constitutivo do homem e da sua história (ORLANDI, 2005). Segundo autora: A Análise de Discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa mediação, que é o discurso, torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. (p.21) A Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com a fala dos homens e a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas, seja como sujeitos ou como membros de uma determinada sociedade (ORLANDI, 2005). Figura 1.2 – Esquema ilustrativo sobre Análise de Discurso (OLANDI, 2005). 26 Figura 12. O esquema ilustrativo de Análise de Discurso conjuga três áreas de conhecimento: a psicanálise, Lingüística, Marxismo (noção de discurso). Segundo a autora, o discurso não é produzido isoladamente, existem condições que compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação da enunciação, chamadas de condições de produção do discurso. Consideramos as condições de produção em sentido estrito e temos as circunstâncias da enunciação, que é o contexto imediato. Em um sentido mais amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, ideológico. O método da análise de discurso segundo a Orlandi (2005) possui três etapas: a) da materialidade linguística a formação discursiva; b) da formação discursiva ao objeto discursivo; e c) do objeto discursivo a formação ideológica. Nesse estudo, a análise alcançará até o objeto discursivo com análise dos temas emergentes dos discursos dos sujeitos, não avançando para as etapas de análise da formação ideológica. Para analisar os dados, iniciamos o movimento de construção da materialidade linguística, para tal utilizamos a convenção sugerida por Gomes (2005). Para essa construção, os seguintes símbolos foram usados como convenção: 1. (itálico) Comentários do pesquisador esclarecendo o contexto da enunciação, como movimentação do sujeito, a quem ou a que se referem, motivações que levaram os participantes a falarem, entre outras coisas. 2. [frase] explicação dos fatos exteriores, normalmente sociais ou culturais, que possuem relação com o dito dos sujeitos. 3. ... Incompletude do Pensamento 4. > Interrupção da fala de um sujeito por um outro sujeito 5. < Interrupção da fala de um sujeito pelo pesquisador 6. (-) Interrupção da fala do pesquisador 7. (INAUDÍVEL) A fala não pode ser transcrita, pois é inaudível 8. Sublinhado Quando ocorrem falas simultâneas 9. / Pausa breve da fala do sujeito 10. // Pausa longa da fala do sujeito 11. ! Ênfase na frase 12. _ Início de enunciação 13. \ Incompletude do dizer 14. * Inconclusão do dizer 27 A partir do discurso desuperficializado, realizamos a leitura do material, codificamos as situações desafios trazidas pelas famílias em quadros analíticos 1.A família de D. (subdivididos em quadros 1.A.1 a 1.A.30); 1B – família de M. (subdivididos em quadros 1.B.1 a 1.B. 19); 1C – família de L. (subdivididos em quadros 1.C.1 a 1.C.8); 1D – família de JP. (Subdivididos em quadros 1.D.1 a 1.D.18) e 1E – família de KV. (Subdivididos em quadros 1.E.1 a 1.E.12) A título de ilustração, para demonstrar o modo operandis do processo de análise, exemplificamos com o quadro 1.3, abaixo. Quadro 1.3. Fragmento do quadro analítico 1A - codificação das situações desafios de familiares cuidadores com suas raízes espaços-temporais. A formação discursiva. D. e suas necessidades especiais D. é uma criança em idade escolar, porém, ainda necessita usar fraldas para fazer as suas necessidades fisiológicas. Produção artística (PA) Fragmento discursivo na PA orientadora da situação existencial Situação existencial Comentário analítico PRIMEIRA SITUAÇÃO> HIGIENIZAÇÃO ÍNTIMA DE UM ESCOLAR Pai de D. (TECDa001): Na verdade a limpeza depois do xixi é trocar a fralda. A gente sempre usa as coisas normais, de... lenço (umidecido) e pomada Pai sugere a troca do nome dado ao cuidado de “limpeza depois do xixi” para “trocar a fralda”. Mãe de D. (TECDb001): sempre. Pai de D. (TECDa003): Sempre lenço e pomada. O... /O D., ele não usa qualquer fralda (referindo-se a marca da fralda), por causa de alergia Fala sobre os materiais utilizados para realizar a troca de fralda da criança A família na produção artística localizou o cuidado na parte interna do desenho. Dos cuidados utilizados, este foi o único a ganhar esta posição. A análise de discurso de quatro grupos familiares resultou em 81 situações desafios. O movimento de aproximações e distanciamentos das 81 situações de todas as famílias deram origem aos quadros 2.A, 2.B, 2.D e 2.E, excluindo-se aquelas situações referentes ao quadro 1C da família de L., que não foram submetidos a essa etapa do movimento de análise, conforme demonstraremos no capítulo 2 do presente estudo. O quadro 2.A agregou 15 situações; o quadro 2.B, 8 situações; o quadro 2.D, 7 e o 2.E, 6 situações, resultando na delimitação de 36 situações desafios, com as quais as famílias cuidadoras se defrontaram no cuidado cotidiano de crianças com necessidades especiais de saúde. O quadro 1.4 abaixo é ilustrativo do quadro analítico 2.A. 28 Quadro 1.4. Fragmento do quadro analítico 2.A - aproximações das situações desafios de familiares cuidadores da criança D. Dinâmica Corpo Saber. Rio de Janeiro. 2010. Situações desafios enunciadas pelo familiar cuidador de D., relacionadas com a LOCOMOÇÃO da criança. Setembro, 2010. – Dinâmica Corpo Saber com a família de D. 2010. D. e suas Produção artística Fragmento discursivo Situações desafios Situação Comentários necessidades (PA) na PA orientadora da apresentadas sobre existencial especiais situação existencial locomoção LOCOMOÇÃO D. é um SITUAÇÃO 17. AS O meio de escolar com LOCOMOÇÃO E DIFICULDADES locomoção da atraso no MUDANÇA DO NO USO DA criança desenvolviTEMPO CADEIRA DE modifica-se de mento RODAS – acordo com a Pai de D. neuromotor, Integrando a mudança do (TECDa119): A criança espasticidade às tempo. cadeira só serve para atividades muscular. A quando o tempo está cotidianas: O família usa a firme (ensolarado)! cadeira de locomoção para a deslocamento para os roda para Mãe de D. escola, lazer, o ambientes locomovê-lo. cumprimento da (TECDb122): ... eu a de externos corro o risco de pegar agenda casa, tais uma enchente e não atendimento como poder sair de uma multiprofissional. shopping, padaria com ele, ficar Mudanças do escola, na padaria com ele, tempo Aí, eu serviços de ai, meu Deus. É! corro o risco de saúde, Agora ele (a criança) pegar uma acontece na no colo, não. Aí, enchente e não cadeira de minha filha (falando poder sair de uma roda, no colo e para a padaria com ele, no carrinho. pesquisadora)... ficar na padaria realmente, é difícil! família com ele, ai, meu A utiliza os deus. É! Agora ele Pai de D. transportes (TECDa120): Não (a criança) no públicos para nãoAí, pode! Cadeira só colo, filha locomoção da com o tempo minha (falando para a criança. Para quente!(cont.). tal faz pesquisadora)... é planejamentos SITUAÇÃO 18. A realmente, quanto ao LOCOMOÇÃO difícil! (cont.) horários das RELACIONADA À Horários Pai de atividades que ACESSIBILIDADE D. (TECDa121): a criança E INFRAESTRUTURA Cadeira só em precisa tempo quente, fora realizar. Mãe de D. dos horários de (TECDb125): Por rush (horário onde Na hora da do maior escolha exemplo, no existe as shopping, eu sei que concentração de lazer lá vou chegar e ter pessoas nos condições de acessibilidade um carrinho. Lá eles transportes são têm um carrinho, que públicos, te emprestam. geralmente no prioridade. Pai de D. (TECDa122): A gente tem prioridade nesse tipo de coisa. Pai de D. (TECDa128): Se a gente vai sair, dependendo do caso, estar com dinheiro ou não, mas a gente prioriza os lugares perto. Não que a gente não vá para lugares longe, mas, a início do dia e no final). A cadeira só é usada fora do horário de rush nos transportes públicos, porque, é impossível de entrar, impossível de locomover com ele em cadeira no horário de rush. Mãe de D. (TECDb130): Pra 29 gente vai priorizar sempre os lugares perto de casa. (cont.) SITUAÇÃO 19. CUIDADOS NA LOCOMOÇÃO (RELACIONADA AOS HORÁRIOS – HORÁRIO DE RUSH) Pai de D. (TECDa125) interrompe: A cadeira só é usada fora do horário de rush nos transportes públicos, porque, é impossível de entrar, impossível de locomover com ele em cadeira no horário de rush. Mãe de D. (TECDb132): Aí, se eu for de cadeira em me atraso. Vai chegar uma época que eu (mãe) não vou conseguir carregar ele (a criança) mais no colo. Enquanto eu posso, vou carregando. Enquanto eu estou agüentando. escola, ele vai na cadeira. Na fisio (sessão de fisioterapia na unidade de reabilitação), ele só vai no colo. A fisio (profissional de fisioterapia, a fisioterapeuta) vive me cobrando, cadê a cadeira? Mãe de D. (TECDb132): Aí, se eu for de cadeira em me atraso. Vai chegar uma época que eu (mãe) não vou conseguir carregar ele (a criança) mais no colo. Enquanto eu posso, vou carregando. Enquanto eu estou agüentando LOCOMOÇÃO: LAZER Mãe de D. (TECDb125): Por exemplo, no shopping, eu sei que lá vou chegar e ter um carrinho. Lá eles têm um carrinho, que te emprestam. Ainda pode ficar no carinho, ele fica preso. ESTRATÉGIA ENCONTRADA Mãe de D. (TECDb124): Esse lance da locomoção é na cadeira ou no colo. Na escola, o que eu faço. Às vezes, eu saio de casa e não está chovendo, eu saio levo ele pra escola. Aí, vamos supor que chova, eu trago ele no colo e deixo a cadeira lá (na escola). O que eu faço? Eu pego um taxi e subo a rua e a cadeira fica (na escola). Quando for o outro dia, eu levo ele no colo, e a cadeira já está lá (na escola). E ela (a cadeira) só vai vim (para a casa da família) quando o tempo ficar firme. Aí, eu sento ele (na cadeira) e Planejamento na locomoção, proximidade e facilidade. Diante das dificuldades, imprevistos – as estratégias 30 trago ela (a cadeira de rodas) embora. Após a descrição das situações desafios com a materialidade linguística necessária, codificou-se os temas, constantes nos quadros analíticos 3.A, 3.B, 3.D e 3.E, que, na análise de discurso, corresponde aos objetos discursivos, como exemplificado no quadro 1.5. Quadro 1.5. Fragmento do quadro analítico 3A - codificação dos objetos discursivos dos familiares cuidadores da criança D. Dinâmica Corpo Saber. Rio de Janeiro. 2010 Situações desafios enunciadas pelo familiar cuidador de D., com o tema “CUIDADO NORMAL: SENTIDO DE IGUAL E DIFERENTE”. Setembro, 2010. – Dinâmica Corpo Saber com a família de D. 2010. D. e suas Produção artística (PA) Fragmento Situação existencial Comentário analítico Tema necessidades discursivo na PA gerador especiais orientadora da situação existencial D. é uma PRIMEIRA Ao discorrer sobre os Cuidado criança em SITUAÇÃO> materiais utilizados normal: idade HIGIENIZAÇÃO para realizar a troca de sentido ??escolar, ÍNTIMA DE UM fralda da criança, o de igual porém, ainda ESCOLAR cuidador atribui e necessita Pai de D. (TECDa001) : significado a normal diferente usar fraldas Na verdade a limpeza como igual; ou seja, os para fazer as depois do xixi é trocar a mesmos materiais suas fralda. A gente sempre usados para a necessidades usa as coisas normais higienização de fisiológicas. (=iguais), de... lenço qualquer criança: Não tem (umidecido) e pomada lenço umedecido, controle de pomada e fralda. Mãe de D. (TECDb001): esfíncteres. sempre. Dentro da concepção de normal equivalente Pai de D. (TECDa003): a igual, há o diferente Sempre lenço e pomada. como contrastante ao O... /O D., ele não usa igual. A alergia a cor qualquer fralda contida em algumas (referindo-se a marca da fraldas, torna sua fralda) , por causa de criança diferente da alergia maioria. Prosseguindo com o processo de análise, utilizamos os dispositivos analíticos propostos por Orlandi (2005): a paráfrase, a polissemia, o interdiscurso, e a metáfora, o não-dito, pressuposto e subentendido, para apreender o efeito de sentido. Segundo Pêcheux, a produção do sentido é indissociável da relação de paráfrase e que a família parafrástica de um determinado texto constitui o que poderíamos chamar de matriz do sentido. Assim, Orlandi (2005) salienta que: Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é o dizível, a memória”. A paráfrase representa assim o retorno aos mesmos espaços do dizer. Produzem diferentes formulações do mesmo dizer sedimentado. A paráfrase está do lado da estabilização. (p.36) 31 O dispositivo da paráfrase, segundo Gomes (2006), apresenta-se como indispensável para realizar a análise de discurso, pois todo o dizer enunciado se estrutura a partir das famílias parafrásticas, que tem continuidade espaço-temporais ao sentido que foi constituído em algum momento da história do indivíduo. Na polissemia, o que temos é o deslocamento, ruptura de processos de significação, rompe com a repetição (Orlandi, 2005). Segundo a mesma autora, as duas forças, paráfrase e polissemia, trabalham continuamente o dizer, de modo que todo o discurso se faz nessa tensão: entre o mesmo (paráfrase) e o diferente (polissemia). E é nesse jogo, nessa tensão entre os dois dispositivos, entre o mesmo e o diferente, que os sentidos do discurso se movimentam, fazem seus percursos, (se) significam. Ainda cabe acrescentar que: Se o real da língua não fosse sujeito a falha e o real da história não fosse passível de ruptura não haveria transformação, não haveria movimento possível, nem dos sujeitos nem dos sentidos. É porque a língua é sujeita ao equívoco e a ideologia é um ritual com falhas que o sujeito, as significar, se significa. Por isso, dizemos que a incompletude é a condição da linguagem: nem os sujeitos, nem os sentidos, logo, nem o discurso, já estão prontos e acabados. (Orlandi, 2005, p. 37) A tensão existente entre os processos parafrásticos e polissêmicos permite a continuidade e a ruptura como acontecimentos correlacionados na discursividade dos sujeitos, de modo que não só a repetição ou só a transformação, isoladas, sejam as responsáveis pela enunciação (GOMES, 2006). Existe uma complementaridade entre elas, pois todo dizer se mantém, e ao mesmo tempo, se direciona para novos sentidos antes não pensados ou visualizados (ORLANDI, 2005). A paráfrase apresenta como matriz do sentido, sentido esse que se faz especialmente quando se forma um jogo, uma tensão com a polissemia. Nesse jogo discursivo, ainda existe um outro processo que é constituído como a memória do dizer, o interdiscurso. Assim, ressaltamos: A memória por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo o dizer que retorna sob a forma de preconstruído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra. O interdiscurso disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada (Orlandi, 2005, p.31. Segundo a mesma autora, o interdiscurso é um conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Para que as palavras tenham sentido dentro do meu discurso é preciso que elas já façam sentido. É necessário que o que foi 32 dito por um sujeito específico, em um momento particular se apague na memória para que passando para o “anonimato” possa fazer sentido em “minhas” palavras. Gomes (2006) ressalta que o pesquisador deve estar atento para não confundir a interdiscursividade com a repetição do dito, com a paráfrase. A paráfrase não implica em esquecimento, fato essencial para que o interdiscurso se apresente como acontecimento discursivo. Quanto ao efeito metafórico, para Orlandi (2005), é o lugar da interpretação, da ideologia e da historicidade, assim, é imprescindível para esse tipo de análise, sendo constitutivo do processo mesmo de produção do sentido e da constituição dos sujeitos. O processo de produção de sentidos está necessariamente sujeito ao deslize, havendo sempre um “outro” possível que o constitui. A metáfora não é vista como um desvio, mas como transferência, deslize. A análise de discurso indica que existe uma relação entre o dizer com o não dizer. Distinguindo-se como diferentes formas de não dizer (implícito), o pressuposto e o subentendido, o primeiro deriva propriamente da instância da linguagem, e o subentendido, se dá em contexto (ORLANDI,2005). Os efeitos de sentidos dos discursos dos familiares cuidadores resultaram nos seguintes temas apresentados nesta dissertação. No capítulo II: as condições de produção do discurso e cuidado especial e integrador. No capítulo III, a dualidade de sentido para cuidado normal, o qual foi descodificado em três subtemas: cuidado normal igual e diferente, cuidado normal fácil e difícil, cuidado normal automático e singular; movimento de incorporação do saber aprendido com o profissional no cuidado cotidiano. 33 CAPÍTULO II 34 2. As condições de produção do discurso dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde As condições de produção do discurso são constituídas pelo contexto imediato da família e o social onde a família e a criança vivem e convivem. Elas são responsáveis pelo estabelecimento das relações de força que se travam no interior do discurso e mantêm na linguagem uma relação comunicacional necessária, constituindo assim o sentido do dito. As condições de produção fazem parte da exterioridade linguística e podem ser agrupadas em sentido estrito (circunstâncias de enunciação) e em sentido amplo (contexto sócio-histórico-ideológico) (ORLANDI, 2005). Os sujeitos falam de seu lugar social, nesse caso, de suas experiências, seus saberes e práticas ou seja, o lugar de familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde, quando no domicílio, defrontam-se com inúmeras situações desafios, por sua natureza existencial, limítrofe e de superação. E nesse lugar, o discurso das famílias assumiu um dado efeito de sentido. Se for pronunciado em outra situação que remeta a outras condições de produção, seu sentido, consequentemente, poderá ser outro ou não. Para contextualizar as condições de produção de discurso desses cuidadores delimitou-se os desafios dos familiares cuidadores no enfrentamento dos cuidados cotidianos de crianças com necessidades especiais de saúde, quando ambos encontramse no ambiente domiciliar. Daí a necessidade de tomar a trajetória das necessidades especiais de saúde na vida da criança, como parte das raízes espaço temporais na determinação das situações desafios experimentadas por seus familiares cuidadores. E partindo-se também de quem são os cuidadores, qual tipo de cuidado é prestado por eles, quanto tempo passam realizando-os na interação com a criança. 2.1. As raízes espaço temporais da necessidade especial de saúde na vida da criança Os filhos e as filhas das oito mulheres cuidadoras e quatro homens cuidadores participantes das dinâmicas de criatividade e sensibilidade corresponderam a cinco crianças com necessidades especiais. Em relação à origem das necessidades especiais das crianças, existe uma estreita relação entre as condições de gestação, parto e nascimento (causas perinatais congênitas ou adquiridas) e a história da necessidade especial da criança. Os dados de cada criança, obtidos durante a entrevista que compôs o banco de dados, foram detalhados em 35 separado para melhor entendimento das situações desafios enunciadas pelos familiares cuidadores, por crianças D., M., L., JP. e KV. D. é um menino de sete anos de idade no momento da pesquisa. Sua mãe tinha 27 anos no período da gestação, possuía histórico de aborto espontâneo em gestação anterior; apresentou candidíase vaginal no período gestacional, e fez nove consultas prénatal em uma maternidade pública do Rio de Janeiro. Porém, por opção da família, acabou nascendo em um hospital da rede privada localizado na Baixada Fluminense (Estado do Rio de Janeiro). D. nasceu a termo com 39 semanas de gestação por parto normal, peso de 2.700 gramas, comprimento de 49 cm. Durante o parto, aspirou mecônio e como consequência evoluiu para uma parada cardiorrespiratória (apgar 0 e 1, respectivamente no primeiro e quinto minutos de vida). Durante o período que aguardava a transferência, permaneceu em oxigenioterapia por oxyhood, pois a instituição hospitalar não possuía recursos necessários ao seu atendimento. Após 12 horas de nascido foi transferido para um hospital público do Município do Rio de Janeiro, permanecendo internado por um período de 45 dias, dos quais 35 somente na terapia intensiva neonatal. O processo terapêutico envolveu diversos procedimentos invasivos, como a intubação orotraqueal (TOT) por 20 dias. O foco do discurso dos cuidadores centrou-se nas situações desafios experimentados por eles, quando do retorno de D para casa, após a alta da terapia intensiva neonatal. A criança apresenta paralisia cerebral e tem episódios de crises convulsivas, não tem sustentação do corpo, tronco, cabeça e pescoço. Realiza movimentos descoordenados e espásticos. Não possui controle de esfíncteres uretral e anal. É dependente total dos cuidados realizados pelos seus familiares cuidadores. Sobre as múltiplas necessidades especiais de saúde, a criança possui atraso no desenvolvimento psicomotor e necessita que os seus cuidados cotidianos sejam modificados associado a demanda de cuidado medicamentoso (uso continuo de anticonvulsivante). A família de D. excluiu o cuidado “vacina” no momento do registro das palavras chaves na produção artística; diferentemente dos demais cuidadores que o incluíram em suas respectivas produções. Todos apresentaram esquema vacinal completo e compatível com a idade de cada criança, não requerendo qualquer aprofundamento da discussão por não constituir-se em desafio. Tá. Risos. A vacina que é o principal (Não entende porque a vacina seria o principal) (Familiar cuidadora, mãe de M.) 36 Figura 2.1. Produção e fragmento da produção artística da família de M. M. tem seis anos de idade. Sua mãe aos 24 anos engravidou de sua segunda gestação e sem história anterior de aborto. Fez a acompanhamento pré-natal em uma maternidade pública do Rio de Janeiro. O nascimento ocorreu em uma maternidade pública. A criança permaneceu internada em terapia intensiva neonatal devido ao diagnóstico de hidrocefalia. Durante os três meses de internação, a criança passou por procedimentos cirúrgicos tais como: colocação de válvula de derivação ventrículoperitoneal, colocação de traqueostomia e gastrostomia (retirada no ano anterior ao trabalho de campo da pesquisa). Quando questionada sobre a alimentação da criança, a cuidadora de M. a destaca como um desafio já a partir da internação da criança no hospital. A primeira vez foi o negócio de alimentação. Lá no hospital, ele já não (compreendi o pensamento, ela já não se alimentava?) ... quem dava a (a alimentação) ... dele\ (pensamento incompleto). (Pesquisadora pergunta se foi diferente em casa) _Esse aqui, em casa tava dando (mostra a produção artística, onde está escrito sobre a alimentação, e o uso da mamadeira), mas no hospital tava usando a sonda. Olha, gente. Lá no hospital, batiam no liquidificador, traziam, e eu botava na seringa e dava de mama pra ele. (Mãe fala sobre como era alimentar a criança no hospital). E, lá no hospital, eu não dava banho nele. Eles (quem? Os profissionais do hospital?) lá que davam banho nele. E pediam até pra mim dar, mas eu não...não...não funciona... eu não conseguia dar (Familiar cuidadora, mãe de M.). O discurso é marcado por ideias incompletas e confusas denotando o medo da familiar cuidadora em manipular não somente a tecnologia acoplada ao corpo da criança, mas o próprio corpo dela. A incompletude do dito mostra o desafio em 37 aceitar/afirmar que a criança fosse incapaz de comer pela boca e o uso de sonda de gastrostomia para alimentá-la. A primeira grande mudança é caracterizada pelo caos que se instala na família no momento em que se depara com a situação do seu filho, como por exemplo, quando passa a depender de uma tecnologia implantada no corpo para sobreviver. É uma mudança comparável a desordem que acontece numa suposta ordem estabelecida (LEITE, CUNHA, 2007). O medo de tocar na criança no período de internação na UTI neonatal também foi uma situação aprofundada pela pesquisadora. Sobre o carinho a cuidadora de M. falou. _O carinho, assim, no começo (risos), eu não pegava ele no colo.// Quando ele estava no hospital, porque, sei lá... Fiquei, sabe? Só depois de uma semana, que eu fui e peguei ele. _Olha, eu não pegava ele no colo logo quando ele nasceu. Não pegava. As meninas (que meninas? Seria a equipe de enfermagem?) lá do Hospital que cuidava dele. Aí, eu e o M (pai da criança) ia lá ver ele. Aí, quando podia pegar ele no colo (mãe muda o tom da voz, para um tom mais baixo) eu não pegava...// _Não pegava...//Eu queria, mas logo quando ele nasceu...// (Mãe fala da vontade de pegar o seu filho no colo ao nascer, mas não explica o porquê não fez) _Porque ele ficou quase três meses no hospital, internado, sabe? Mas, quando chegou em casa, eu que tive que fazer, sabe? (Familiar cuidadora, mãe de M.) Mesmo ciente do diagnóstico de hidrocefalia durante o pré-natal, o medo dessa criança nova e diferente impediu a mãe de se aproximar do filho no seu primeiro contato na UTI neonatal. A imagem do filho esperado choca-se com a imagem real da criança com má formação congênita a sua frente. As cobranças sociais, baseadas na figura da boa mãe, repercutem no aumento da insegurança materna quando comparado àquela insegurança típica das mães de primeira viagem de crianças em geral. Entre as mães de crianças malformadas, com necessidades especiais de saúde, exacerbam-se os sentimentos de incapacidade. Os acontecimentos que envolvem o nascimento de um bebê com necessidades especiais, levam as mães a manifestarem sentimentos e ações perante esta situação, que muitas vezes não são compreendidas pelos profissionais envolvidos (SANTOS, DIAS, 2005). Os cuidados eram realizados pela equipe do hospital, e mesmo quando existia a possibilidade de oferecer carinho ao seu filho, a mãe não estava preparada para tal. A 38 mudança no seu tom de voz, o falar pausado desvela que o seu desejo de tocar, pegar, acarinhar o filho conflita-se com o sentimento de culpa por não tê-lo feito. O ter se esquivado a faz sentir-se como alguém que não cumpriu com o papel de boa mãe. O mito da boa mãe é o desejo que todas almejam ser boas mães. De certa forma, isso contribui para o seu bem-estar, pois aumenta a autoestima e lhes proporcionam uma pseudosegurança para cuidar do filho, reforçando o empoderamento individual (NEVES, CABRAL, 2008b). Dentro da instituição hospitalar foi possível esquivar-se desses momentos de toque, porém, ao chegar à casa, a demanda de cuidado impõem o toque mandatório, pois ela tem que fazer. Nesse sentido, a realidade do cuidado a uma criança com má formação congênita foi um desafio a ser superado na interação, mãe cuidadora com seu filho, mediada pelo toque. Com o passar do tempo, o familiar cuidador experimenta novas situações desafiadoras na sua trajetória de cuidar de uma criança com gastrostomia. Por causa da sonda (gastrostomia), que soltou lá no hospital, eu fiquei desesperada. Eu tive que botar... agora que ele já estava botando a mão isso, aquilo. Ele soltou. Então a gente foi lá no hospital. Logo quando a gente veio pra casa, ele soltou. Não sei o que aconteceu que soltou. Aí, eu fui chamei logo a enfermeira, chamei o doutor lá, sabe? Eu fiquei com maior medo, porque podia fechar o buraquinho. O buraquinho fecha. Aí, “Calma, mãe! Calma!” (Fala da Enfermeira). Eu falei: Não! E ela (Enfermeira): “Calma, mãe! Que eu vou cuidar dele!”. Aí, foi e botaram a sonda, né? Ele ficou bem. Aí, quando veio pra casa... Soltou de novo! Que eu... lá no hospital, logo na primeira vez soltou. Aí, ficou um tempinho. Porque já estava com o botton. Ele tava no carrinho. Quando eu fui resolver um negócio que tavam lá me chamando, eu deixei ele no carrinho. Minha filha! ... soltou. (“bloft” Fez um som com se estivesse saindo o botton do estômago da criança). Ah, minha filha! Saí desesperada gritando:” me ajuda, me ajuda”. Porque soltou o botton! Eu tive que colocar em um saquinho, lavar com soro e tal. E levar pro... Hospital em Marechal Hermes. Quando eu cheguei lá, o neurocirurgião disse: “Eu não sei botar!” (Fala do cirurgião). Como é que é? (Ela representa com voz enfática!): Você não sabe botar? Então deixa... Aí, eu ensinei pra ele, aí que ele botou. Mas foi difícil. Mas, graças a Deus, quando soltou aqui, eu fui, aí, coloquei o botton. Aí, botei a gaze em volta, pra não ficar assado nada. E botava outra gaze, aqui assim, pra ele não soltar (Familiar cuidadora, mãe de M.). A experiência de cuidar dessa criança levou o familiar cuidador a incorporar o conhecimento científico que não circulava no cotidiano de sua vida. Do desespero ao pavor, traduzido na transposição de uma situação desafio do tempo passado para o tempo presente da enunciação. No limite da situação desvelada pela falta de apoio do profissional que pressupunha ser dotado de mais conhecimento para assisti-la constrói- 39 se na experiência feita um aprendizado e uma expertise. A aquisição de conhecimentos centrada na experiência do fazer a leva a acalmar-se e tomar uma atitude nos momentos de intercorrências. O conhecimento da familiar cuidadora foi constitutivo e constituidor de sua experiência conferindo autoridade para transferi-lo para outros. A ida para casa implica para o familiar cuidador em assumir a responsabilidade de executar cuidados complexos, compatíveis com uma qualificação profissional que ela não possui. A realização desses cuidados nem sempre é fácil para a família, que se percebe muitas vezes como que exercendo um duplo papel, o de especialista e o de familiar. Esses cuidados especializados e em tempo integral são realizados, normalmente, pela mãe, que além dos cuidados com a criança, ainda continua assumindo demais atribuições dentro da família (LEITE, CUNHA, 2007). O terceiro grupo familiar, a família de L., foi composto por três pessoas, sendo o pai, a mãe e a avó paterna. Os enunciados da família de L. não projetaram situações desafios no período de gestação, parto e nascimento, entretanto a história de L. é importante para o entendimento das condições de produção dos discursos dos seus familiares. L. era uma menina de quatro anos de idade no momento da pesquisa. Aos 27 anos sua mãe engravidou de L., sem histórico de gestação anterior ou aborto, apresentou quadro hipertensivo a partir do 7 mês de gestação. Fez acompanhamento pré-natal em uma instituição particular no Rio de Janeiro, entretanto não se recorda de quantas consultas, mas, foram inúmeras. No dia do parto, a mãe chegou ao hospital onde fez acompanhamento pré-natal; o trabalho de parto evoluiu durante cerca de 5 horas, segundo a mãe a criança já estava posicionada, mas mesmo assim, o médico optou pelo parto cesáreo. A criança nasceu a termo com 38 semanas, peso de 2700 gramas, estatura de 52,5 cm, desacordada e necessitou de ressuscitação. O apgar foi 6 (não sabia informar se foi no primeiro ou no quinto minuto), por esse motivo, ficou internada durante 30 dias em uma unidade de terapia intensiva neonatal. A criança apresenta paralisia cerebral e encontra-se em reabilitação funcional na fisioterapia desde junho de 2007. Sobre as demandas de cuidados, L. possui atraso no desenvolvimento psicomotor, demandas de cuidados habituais modificados. Sua mãe é sua cuidadora principal e possui ensino superior completo, e não trabalha fora. Seu pai possui ensino superior completo, trabalha como assistente de departamento pessoal. A renda familiar e composta com recursos oriundos do trabalho do pai e dos trabalhos extra feitos pela mãe. Essa renda é destinada ao sustento da 40 família de cinco pessoas (sendo quatro adultos e uma criança) e incluem as despesas de tratamento de L. A criança possui passe livre de ônibus, no entanto, a família também recebe o benefício da prestação continuada da seguridade social. Para efetivamente aplicar o método, exige-se do pesquisador muita atenção e flexibilidade. Porém, existem situações em que o pesquisador, por mais experiente que seja não consegue formar a unidade grupal, como o ocorrido na segunda dinâmica, com a família de L. O grupo não se formou, pois a única voz era a da mãe, não dando espaço para o pai e a avó paterna apresentarem sua visão de mundo, seus desafios e suas experiências. Portanto, diante desse fato, descartamos a segunda dinâmica para análise como grupo, entretanto, a riqueza dos dados gerados proporcionou uma análise sob a ótica do cuidado centrado na figura materna, que não é objeto do presente estudo. Para ilustrar a não formação grupal, usamos como base o tempo de enunciação dos cuidadores, que foi contabilizado e distribuído na seguinte forma pelos participantes da pesquisa: o pai somou 34 enunciações, a avó paterna apresentou 44 enunciações e a mãe cuidadora, 143 vezes durante a dinâmica de criatividade e sensibilidade com duração de 34 minutos e 11 segundos. Na questão temporal, somente os enunciados da mãe correspondeu a 53% do tempo total da dinâmica. JP, no momento da pesquisa era um menino com quatro anos de idade. Sua mãe engravidou aos 35 anos, apresentando durante esse período um quadro hipertensivo que culminou em uma eclampsia. Fez acompanhamento pré-natal, com 13 consultas em um hospital público do Rio de Janeiro. JP nasceu no mesmo hospital onde realizou o prénatal, com 36 semanas de idade gestacional por parto cesárea de emergência devido a eclampsia e descolamento de placenta. Apresentou apgar 0, 2 e 5, no primeiro, quinto e décimo minuto respectivamente; seu peso ao nascer foi 3.050g, com uma estatura de 50 cm. Necessitou de internação na terapia intensiva neonatal por 32 dias, permanecendo seis dias com intubação orotraqueal, além de muitos outros procedimentos invasivos. Antes de receber alta hospitalar, ficou mais seis dias na unidade intermediaria da maternidade. A complexidade diagnóstica da criança está no diagnóstico de microcefalia e paralisia cerebral, e ainda refluxo gastroesofásico. Dessa forma, a criança apresenta demanda mista de cuidados, como atraso no desenvolvimento neuromotor, dependências de medicamentos, de tecnologia e habituais modificados. 41 O momento do parto de JP foi marcante devido ao quadro de urgência da mãe, gerando tensões para além do esperado para esse período, apesar dela ter vivido uma gestação de alto risco. Porque eu fiquei apavorada quando eu tive o JP. O médico vinha perto de mim para falar: “você tem que agradecer a Deus, hein? Nossa, Deus gosta muito de você. Seu bebê nasceu com apgar zero, (é) uma criança com PC (paralisia cerebral) e está viva”. E eu ficava, ué? O que ele está falando? E tinha uma enfermeira, ela olhava pra mim e falava assim: “O doutor toda hora vem aqui falar pra você, nossa você tá isso.Porque você teve um filho que é PC. Você tem noção do é uma criança com paralisia cerebral? Isso ele não te fala, né?” ... (Eu acho que), eu peguei (fazendo referência ao pensamento do profissional de saúde) uma criança igual ao JP. A mãe dele teve descolamento de placenta, o bebê nasceu com apgar zero, e é uma criança especial. É um exemplo, é claro que de imediato (os pais vão precisar) ter uma ajuda psicológica ou que venha realmente (essa ajuda) (Familiar cuidadora, mãe de JP). O interdiscurso dos profissionais de saúde, médico e enfermeira, na voz da mãe denota diferentes desafios carregados de conteúdo vivencial, como o enfrentamento do desconhecido, a insensibilidade dos profissionais de saúde, incluindo aí, a enfermeira, a expectativa de sobrevivência da criança que nasceu com apgar zero. O momento desse diálogo mostrou-se tão equivocado que a mãe JP não apreendeu as informações e após tomar consciência da gravidade do quadro do seu filho, refletiu sobre a atuação insensível dos profissionais de saúde. O estudo de Brunhara e Petean (1999) tratou dos sentimentos das mães com filhos com demandas especiais de saúde, com destaque para a pluralidade de sentimentos e sensações vividas por essas mulheres. O choque e o pavor que a revelação do diagnóstico da criança traz para a família geram impacto não só aquele momento, mas também marca a formação discursiva dos seus enunciadores para sempre. Assim, os cuidadores de JP enunciam as repercussões do diagnóstico: É a mesma coisa quando fala assim, microcefalia. Pra mim, na hora, isso não (quis) dizer nada. Microcefalia, eu não entendia, agora eu estou entendendo. Até a paralisia cerebral (eu entendo agora). Mas, escuta assim, o pediatra (fala) olha (o seu filho) tem microcefalia. Agora essa porrada que dói. Mas, também tenho fé em Deus ... (Familiar cuidador, pai de JP). Microcefalia, eu não falo (quando as pessoas perguntam o que a criança tem). Porque quando eu penso que ele tem, não dá vontade de falar porcaria nenhuma. Quando eu falo o que ele tem, eu estou sacramentando e acabo chorando. Eu não gosto de dizer o que ele tem ... (Familiar cuidadora, mãe de JP). As mesmas autoras supracitadas, afirmam que as reações manifestadas frente a uma situação não esperada sobre a qual os familiares não possuem o controle podem variar entre revolta, indignação, tristeza, repulsa e aversão a criança, à Deus, aos 42 profissionais, funcionando como uma válvula de escape para o sentimento de injustiça frente ao problema dos seus filhos. Os familiares cuidadores de JP apresentaram sentimentos distintos, a tristeza e a negação. Essas fases enfrentadas pela família, também foram descritas no estudo de Furtado e Lima (2003) como as reações iniciais dos pais (choque, incredulidade, confusão, medo, raiva, conflito, tensão), complementando afirmando que a duração dessas reações é variável. As diversas reinternações hospitalares da criança também foram assunto enunciado no discurso da mãe cuidadora de JP. A maior de todas (as dificuldades) foram as internações! Eu falo que o Hospital para o JP é tipo uma escolinha, (porque) toda vez que o JP se interna, ele saí fazendo alguma coisa diferente. O JP saiu da gastro (internação que colocou a sonda de gastrostomia), saiu de lá rindo. Antigamente, a C. (tia da criança) chamava ele dali (janela da casa em cima, onde a tia mora) e nada (a criança não respondia). Hoje, ela (tia) chama, ele já procura de onde está vindo a voz da tia. Hoje, você chama o JP, não é aquilo automático, ele já interage com você, hoje (ele) é outra criança (Familiar cuidadora, mãe de JP). A realidade concreta de ser mãe de uma criança especial introduziu locais sociais onde a familiar não transitava. O acentuado número de reinternações e as internações prolongadas estão associadas ao agravamento/cronificação do quadro da criança. Neves e Cabral (2008a) argumentam que na alta hospitalar, existe uma ausência de conhecimento sobre as dimensões objetivas das demandas de cuidados que fundamentam as ações de cuidar das famílias no domicílio e, ainda, da enfermagem no seguimento (ambulatorial e domiciliar). Com isso, a enfermagem se depara com demandas de cuidados fundamentais que exigem a preparação dos familiares cuidadores para realizá-los quando no domicílio, não só durante a internação hospitalar; mas também, na consulta ambulatorial e na visita domiciliar. KV. era uma menina de quatro anos de idade no período da pesquisa. Sua mãe tinha 23 anos quando engravidou, não possuía histórico de aborto espontâneo em gestação anterior e não apresentou intercorrências durante o período gestacional. Não recordava quantas consultas, entretanto realizou o pré-natal em uma maternidade pública do Rio de Janeiro. A criança nasceu nessa mesma maternidade, aonde a mãe deu entrada em trabalho de parto, com bolsa rota o parto foi prolongado e difícil e a criança nasceu a termo com 38 semanas por parto normal, peso de 2.245gramas, comprimento de 47 cm. Durante o parto, a criança sofreu hipóxia e como consequência levou-o a uma parada cardiorrespiratória (apgar 0 e 2, respectivamente no primeiro e quinto minutos de vida). Após foi transferida para a unidade de terapia neonatal, onde permaneceu 43 internada por um período de 90 dias, destes, 60 necessitou de onde de TOT (intubação orotraqueal) e passou por diversos procedimentos, incluindo a colocação de uma sonda de gastrostomia. Após a alta hospitalar, a criança apresentou diversos episódios de pneumonia por broncoaspiração, e juntamente com o diagnóstico médico de refluxo gastroesofágico, justificou mais uma internação de 150 dias e desta vez foi necessária a implantação de mais um artefato tecnológico no corpo da criança, a traqueostomia. Sobre isso os familiares cuidadores, pai e mãe de KV apresentam seus enunciados: No começo foi (difícil) ela ter colocado isso aqui (traqueostomia), a gente ficou meio enrolado no dia, a gente ficou meio triste. Ela (mãe) ficou mais ainda, sentiu muito (Familiar cuidador, pai de KV). Ela tinha que botar isso (traqueostomia), não é? Porque já tinha a sonda (de gastrostomia), e mais coisa para colocar na (criança) (Familiar cuidadora, mãe de KV). A implantação de uma tecnologia no corpo da criança causa impacto nos familiares cuidadores, principalmente no primeiro contato que tiveram com a situação das suas crianças, devendo, portanto, ser tratado por nós da equipe de saúde com igual importância e respeito (LEITE, CUNHA, 2007). As mesmas autoras ainda relatam, uma grande variedade de emoções experimentadas por famílias de crianças dependentes de tecnologia como: ansiedade, irritação, culpa e frustração. Sobre as demandas de necessidades especiais, KV. possuí múltiplas demandas como atraso no desenvolvimento neuro-motor, é dependente de medicamentos, dependente de tecnologia (traqueostomia e gastrostomia) e necessita que os seus cuidados habituais sejam modificados para atender as suas necessidades. 2.2. Os cuidadores e a sua experiência no cuidar Aliado a isso, e sempre partindo dos enunciados dos sujeitos, destacam-se como parte de suas experiências, as condições econômicas (renda familiar e os custos da criança) e de deslocamento (locomoção, mobilidade e acessibilidade da criança nos diversos lugares). A ligação dos cuidadores com as crianças não se dava apenas por afinidade, mas pelo grau de parentesco, pois a maioria era mãe (cinco), quatro pais, duas avós paternas e uma tia paterna e estavam envolvidos diretamente nos cuidados das cinco crianças. Nenhuma das famílias contava com cuidadores externos ao âmbito familiar, como amigos e vizinhos. A figura feminina mostrou-se muito presente no cuidado dessas crianças, oito cuidadoras do sexo feminino, e quatro dos cuidadores do sexo masculino, destacamos que as responsabilidades e desafios para cuidar da criança com necessidades especiais de saúde acarretam sobrecarga física e emocional para a mãe (LEITE, 44 CUNHA, 2007). As enunciações dos pais foram de extrema importância, em quantidade e em qualidade, demonstrando o seu envolvimento pleno no cuidado dos seus filhos, indo além do papel de provedor de recursos financeiros adotado pela maioria dos pais. A experiência e a vivência no cuidar de uma criança foram singulares para cada sujeito. A familiar cuidadora R. viveu concretamente a experiência de cuidar de uma criança sem necessidade especial de saúde - o seu primeiro filho. Quando do enfrentamento do cuidado da criança M., a mãe experimentou outras dificuldades, de natureza mais complexas, para a realização desse cuidado, particularmente na situação desafio do banho, ela destaca. É que primeiro já nasceu o G. (filho mais velho de R., o irmão de M.), então, já estava “ligadaça”, sabe? Agora a única dificuldade foi com a cabecinha dele. E pra dar banho nele (Familiar cuidadora, mãe de M.). O sentido implícito na expressão “ligadaça” denota um certo saber adquirido com a prática de cuidado no banho de uma criança sem necessidade especial de saúde. O enfrentamento do cuidado como é o banho de uma criança com limitação funcional decorrente de uma hidrocefalia mobilizou a cuidadora para rever sua prática de cuidado, mais alinhada com a complexidade da situação desafio. A familiar cuidadora C. viveu concretamente a experiência de ter um filho prematuro – a sua primeira filha. A mãe de JP. tem histórico de eclampsia em gestação anterior, com parto prematuro com cerca de 5 meses e relata: Aí, minha filha é de 5 meses, foi prematura, ficou internada, entubada, na incubadora pra pegar peso. Então, eu achava que o JP. ele nasceu de 8 meses e ela de 5 e é esse mulherão, ele que nasceu com paralisia não ia ser nada. ... (Familiar cuidadora, mãe de JP). A trajetória de vida da mãe cuidadora de JP. foi vivenciada de forma singular pois a experiência de ter um filho prematuro proporcionou certa tranquilidade quanto à vinda do novo filho. Freire (1980), considera que para a educação ser válida deve partir do ser humano imerso em sua realidade concreta, e ainda que o ser humano é um ser com raízes espaço-temporais e com experiências acumuladas ao longo da sua vida. Assim a mãe cuidadora de JP. trouxe a sua experiência, que relacionava a prematuridade com o potencial de uma criança possuir alguma necessidade especial de saúde, não atentando para o significado do diagnóstico. A formação familiar é bastante semelhante nos grupos. Cinco famílias nucleares sendo formadas pelos pais (pai e mãe) e a criança, em três casos, e pelos pais, criança e um irmão mais velho, dois grupos. O que difere as famílias é a experiência de cuidar de uma criança sem e com necessidade especial de saúde. 45 Dos familiares cuidadores, as mães são as cuidadoras em tempo integral, ou seja, a cuidadora principal, é a que passa mais tempo com a criança e realiza todos os cuidados. A respeito disso, o pai cuidador de D. destaca: Essa parte (do cuidado do dia-a-dia) geralmente é com a mãe. Isso é mais com a J. (mãe da criança). Agora que eu estou mais em casa, mas antigamente, eu saía muito cedo para trabalhar e voltava muito tarde, depois da faculdade. Então, eu pegava o D. assim, quase quando ele estava dormindo (Familiar cuidador, pai de D.). O pai era um cuidador secundário, passava muito tempo fora de casa, e se envolvia no cuidado da criança no período da noite e nos finais de semana. A responsabilidade de prover os recursos financeiros da família e garantir seu sustento era a função desse cuidador. A busca por sua qualificação também o mantinha afastado do cuidado cotidiano e direto do seu filho, assim esse cuidado era parte das funções exclusivamente materna. Assumindo esse papel, a mãe cuidadora por muitas vezes abria mão dos seus planos como pessoa, deixando seu lado feminino aparte, pois passa a ser a mãe em tempo integral. Tal fato foi constatado na fala da mãe de D., que deixou explícito o seu desejo de continuar os seus estudos fazer faculdade, mas, não dispunha de alguém que pudesse lhe ajudar ou deixar o seu filho D.”. Sobre a escolaridade, dos familiares cuidadores: uma era analfabeta, duas possuíam o ensino fundamental incompleto, seis possuíam o ensino médio completo e ainda, dois, o ensino superior incompleto. O maior grau de escolaridade é do pai, um cuidador secundário e de uma mãe, cuidadora primária. Durante a explicação da dinâmica para as familiares cuidadores de M. foi necessário negociar quem escreveria na produção artística, pois essa dificuldade associou-se à própria escolaridade, quando decido que elas desenhariam na produção e eu (pesquisadora) escreveria o que elas solicitassem: Mas, eu tenho que escrever? Ai, eu vou falar! (A mãe prefere falar a escrever) (Familiar cuidadora, mãe de M.). A avó pode escrever (Pesquisadora fala). Mas, ela não...Ela não sabe, não (A avó não sabe escrever) (Famliar cuidadora, mãe de M.). Não (balança a cabeça discordando, a familiar cuidadora, avó de M.). ...Não, não, não. Eu não vou escrever...Eu sou péssimaaaaaaaaaaa. (Risos) (Familiar cuidadora, mãe de M.). A baixa escolaridade das mulheres cuidadoras foi visto como um dos fatores dificultadores da apreensão de conhecimentos científicos que sustentem a realização de cuidados complexos as CRIANES no domicílio. Sabe-se que há uma estreita relação 46 entre escolaridade materna e saúde infantil que se agrava quando associada à presença de condições especiais de saúde da criança (VERNIER, 2007). 2.3. As condições socioeconômicas das famílias Todas as famílias residem no estado do Rio de Janeiro em diferentes bairros da capital, na zona sul e zona norte. As condições de habitação variam, entre residência alugada e própria e todas residem em construções de alvenaria, tem acesso a rede de abastecimentos de água, esgoto e a coleta domiciliar de lixo. O quadro 2.1 apresenta as famílias de acordo com a renda, por familiar, familiar e per capita. Quadro 2.1. Distribuição dos familiares das CRIANES segundo sua renda e renda familiar, renda per capita e a classificação econômica do IBGE. Rio de Janeiro, 2011. Família Membros Pai Família de D. Mãe CRIANE Avó paterna Pai Família de M. Mãe Irmão criança CRIANE Avó Pai Mãe Família de L. CRIANE Tio Avó paterna Pai Família de JP. 3 4 Mãe Irmã CRIANE da Renda por familiar Dois salários mínimos nacionais3 Um salário mínimo nacional Dois salários mínimos nacionais3 Um salário mínimo nacional3 Um salário mínimo nacional3 Variável - Um salário mínimo nacional4 Um salário mínimo nacional4 Dois salários mínimos nacionais3 Um salário Valor R$540,00 (moeda brasileira) Benefício de prestação continuada. Renda familiar Renda per capita Classificação IBGE Três salários mínimos nacional R$ 405,00 /pessoa Classe D Dois salários mínimos nacional R$ 270,00 /pessoa Classe E Um salário mínimo nacional R$ 540,00 /pessoa Classe D Três salários mínimos nacional R$ 324,00 /pessoa Classe E Três salários mínimos nacional R$ 405,00 /pessoa Classe D 47 Tia paterna Pai Família de KV. Mãe CRIANE mínimo nacional3 Um salário mínimo nacional3 Um salário mínimo nacional3 - Um salário mínimo nacional R$ 540,00 /pessoa Classe D Um salário mínimo nacional R$ 180,00 /pessoa Classe E Além da baixa escolaridade, anteriormente analisada, o quadro 2.1 aponta para uma classificação das famílias, conforme a renda percapita, em classes D e E variando de R$180,00 a R$ 405,00. Nesta forma, essas famílias vivem com dois a três salários mínimos nacionais, em condições de pobreza e extrema pobreza (IBGE, 2010). Todas as crianças possuem o passe livre e duas possuem o benefício de prestação continuada (BPC)como vínculo a programas sociais. Os encargos financeiros de possuir uma criança com necessidades especiais de saúde na família podem ocasionar instabilidade financeira e consequente estresse. A ocorrência de estresse familiar relacionado ao cuidado da criança com necessidade especial de saúde no domicílio tem sido observada, nos casos de crianças dependentes de tecnologia. Este estresse também é motivado pela sobrecarga financeira imposta à família, em que se nota um aumento de sintomas depressivos nas famílias com baixo nível socioeconômico que cuidam dessas crianças (LEITE, CUNHA, 2007). Sobre as questões de trabalho, o pai cuidador se pronuncia de forma peculiar quanto a sua opinião sobre o trabalho e a mãe cuidadora de JP: Uma coisa que não podemos deixar passar. É a seguinte, a C. (mãe), como o JP. é especial, que ela acha que não poderia trabalhar pra cuidar dele. Mas, ela não pode ter essa coisa de ficar amargurada dentro de casa, por que sempre trabalhou e gostava, e quer as coisas e tem que me pedir. Se ela pode trabalhar, eu acho legal, e deixar o JP. com alguém tomando conta. Se ficasse com a minha irmã seria maravilhoso, eu pago ela, e ela toma conta a vida inteira se precisar, tranquilo... (Familiar cuidador, pai de JP). Em geral, as famílias se deparam com a falta de profissionais e de locais especializados e disponíveis para a criança ficar para que seus familiares possam trabalhar, ou mesmo descansar um pouco e assim retomar algumas atividades pessoais. Para superar esse desafio, as famílias se reorganizam internamente, como é a situação da família de JP. que conta com o auxílio da tia paterna, para possibilitar que a mãe cuidadora dê continuidade aos seus projetos como mulher e pessoa. Entretanto, mesmo com o estímulo do pai da criança, a mãe se sente na obrigação de ser a cuidadora para se sentir uma boa mãe. Neves e Cabral (2008b), 48 afirmam que nessa busca de ser uma boa mãe, as familiares cuidadores utilizam os moderadores externos da cultura e de gênero em que quanto mais “boa mãe” ela for, mais ela será reconhecida pela sociedade. Assim, a cuidadora é valorizada em sua condição materna e não na feminina. Leite e Cunha (2007) constataram uma mudança expressiva na vida profissional das mães, que preferiram deixar de trabalhar ou reduziram sua carga horária para cuidar da sua criança com necessidade especial de saúde. No momento em que a família aumenta sua despesa com gastos extras para atender as necessidades da sua criança, é exatamente quando a receita familiar diminui devido a saída da mãe do trabalho. Dessa forma, a família fica à mercê dos programas de assistência social do governo, como o Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social (Decreto nº 6.564, de 12 de setembro de 2008) e o Passe Livre. As crianças possuem o Passe Livre, um benefício do governo, garantido pela Lei Orgânica do Estado do Rio de Janeiro número 3167/00, em seu artigo 12, que trata da gratuidade nos transportes públicos para os portadores de deficiência física, mental, auditiva ou visual, que sejam comprovadamente carentes. Para adquirir o passe livre, além da documentação básica, precisa-se de um laudo da equipe multiprofissional do Sistema Único de Saúde (SUS), comprovando a deficiência ou incapacidade do interessado, e, ainda, uma declaração comprobatória de renda familiar mensal percapita igual ou inferior a um salário mínimo nacional. O custo de uma criança com necessidade especial de saúde para uma família é elevado, pois envolve gastos com locomoção, medicações de uso contínuo e os custos diários com a compra de fraldas, pomadas, lenços umedecidos, sondas de aspiração, seringas, soro fisiológico, entre outros. Algumas medicações, utilizadas para nebulização, podem ser compradas no programa Farmácia Popular, que oferece às medicações de uso contínuo por um preço mais acessível. Quando questionados pela pesquisadora sobre a higienização perineal das crianças, após as eliminações e evacuações, os cuidadores de D. e M. ressaltam que a situação desafio na troca da fralda. Suas demandas econômicas se acentuam pelo fato de ser de uso contínuo, agravado pela situação do processo alérgico, cujo preço da fralda é mais elevado: Graças a Deus, ele já está grande. Banho ... É.... quando faz xixi, sou eu e ela que troca. Ele tá usando fralda ainda (Familiar cuidadora, mãe de M.). Na verdade a limpeza depois do xixi é trocar a fralda. A gente sempre usa as coisas normais (para todo mundo), de... lenço (umedecido) e pomada. 49 Sempre lenço e pomada. O... /O D., ele não usa qualquer fralda (referindo-se a marca da fralda) por causa de alergia (Familiar cuidador, pai de D.). O custo de fraldas descartáveis gira em torno de R$ 180,00 /mês quando contabilizado o uso de seis unidades/dia. Em média as famílias gastam entre R$250,00 a R$350,00 com a criança, incluindo medicações e materiais de uso diário. 2.4. A situação desafio do deslocamento da criança pelo familiar cuidador: o cuidado especial e integrador As situações desafios no deslocamento da criança, vividas pelo seu familiar cuidador estão pautadas em três pilares: a mobilidade física prejudicada da criança, isto é, o estado em que o indivíduo apresenta, ou está em risco de apresentar, limitação do movimento físico, mas não está imóvel (NANDA, 1994); a locomoção, que diz respeito ao ato de se transportar de um ponto ao outro e a acessibilidade, que envolve as condições para a utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por uma pessoa portadora de deficiência ou com mobilidade reduzida (BRASIL, 2004). Entendemos a mobilidade física como a capacidade de controlar e relaxar grupos musculares que permitam ao indivíduo mover-se propositalmente em seu ambiente (ATKINSON, 1989). Quando existe algum comprometimento que limite essa mobilidade, aplica-se o diagnóstico de enfermagem Mobilidade Física Prejudicada, "Uma limitação no movimento físico independente voluntário do corpo ou de uma ou mais extremidades" (NANDA, 2000, p. 87). As crianças com necessidades especiais de saúde podem apresentar limitações na sua mobilidade, em maiores ou menores proporções, dependendo do seu quadro clínico. O atraso no desenvolvimento neuromotor dessas crianças é oriundo tanto de causas congênitas (como a hidrocefalia apresentada por M., microcefalia de JP.), como por causas adquiridas (por exemplo, a hipóxia sofrida durante os partos de D., Le KV.) Quando questionados pela pesquisadora, os cuidadores relatam seu desafio na mobilidade de M. e JP.: Era difícil de levar ele (levar a criança onde?) ... de pegar o ônibus. Tinha medo de deixar ele cair. Ele ficava meio molezinho. Agora não. Ele já sustenta. Porque eu vou subir com ele no ônibus, no colo. Falo, moço (quem?) me ajuda aí! Às vezes eu consigo subir (no ônibus com a criança no colo), mas... depende do degrau e tudo mais. Era mais no começo a dificuldade com ele, porque agora? Eu só não saio com ele ainda... porque é muito cansativo. De sair, de pegar ônibus. (Familiar cuidadora, mãe de M.). 50 Eu tinha medo dele quebrar. Eu tinha medo... (silêncio). Tipo assim, o jeito de pegar. Antes ele não ficava durinho com o tronco. O JP. sempre a cabeça dele batia aqui. Hoje ele sustenta, não... (respira profundamente) normalmente, mas ele tem a postura já. Hoje, a gente pode pegar as perninhas dele e prender aqui e botar ele aqui que ele vai ficar. Antes a gente não tinha posição. Antes era posição de bebê. (Familiar cuidadora, mãe de JP.). No início, o desafio estava na utilização do ônibus como meio de transporte, pois havia o medo de deixar a criança cair, já que ela não sustentava o corpo e nem possuía coordenação motora (meio molezinho, não ficava durinho com o tronco). Na medida em que a criança melhorou a sustentação do corpo, a tarefa da mobilidade ficou menos desafiadora, mas não completamente superada. A familiar cuidadora ainda necessita da ajuda de terceiros para subir no transporte público, o que traz cansaço e limita as saídas da criança para ambientes distantes da casa. As famílias residem no município do Rio de Janeiro e necessitam se deslocar por diversos bairros para atender as necessidades de locomoção da criança em ambientes externos as suas casas tais como shopping, escolas, serviços de saúde. Muitas vezes, essa locomoção se dá em cadeira de roda, no colo e no carrinho. As famílias utilizam basicamente os transportes públicos, como ônibus e metrô e enfrentam situações desafio para lidar com o horário dos agendamentos, a previsão do tempo, estrutura física dos ambientes que frequentam e a acessibilidade. As crianças encontram-se em reabilitação funcional na fisioterapia e na fonoaudiologia, duas vezes por semana. D., desde outubro de 2003; M., desde novembro de 2006; L., desde junho de 2007; JP., desde julho de 2007 e KV., desde de outubro de 2008. D. encontra-se vinculado à três tipos de serviços de saúde diferentes para suprir os seus atendimentos neurológico, fisioterápico, fonoaudiológico e pediátrico, sendo os três primeiros (neurológico, fisioterápico e fonoaudiológico) em duas instituições públicas distintas e o último (atendimento pediátrico) vinculado a um plano de saúde privado, acompanhamento ambulatorial no consultório. Na Figura 2.2. observamos um diagrama ilustrativo do deslocamento da criança e sua família nos diversos serviços distribuídos nas áreas programáticas do estado do Rio de Janeiro. 51 Figura 2.2. Diagrama ilustrativo da locomoção de D., segundo os familiares cuidadores. Já M. encontra-se vinculado à dois serviços de saúde para atendimento fisioterápico, fonoaudiológico e neurológico, pediátrico, sendo em duas diferentes instituições públicas (Figura 2.3). Figura 2.3. Diagrama ilustrativo da locomoção de M., segundo os familiares cuidadores. L. encontra-se vinculada à dois serviços de saúde para atendimento neurológico e pediátrico, em um hospital público; fisioterápico, na unidade de reabilitação e fonoaudilógico e de comunicação alternativa, em uma instituição municipal do Rio de Janeiro. (Figura 2.4). 52 Figura 2.4. Diagrama ilustrativo da locomoção de L., segundo os familiares cuidadores. A questão do lazer não foi enfocada no discurso dos familiares cuidadores de L. O aspecto social do lazer pode sofrer impacto e mudança quando se tem uma criança com necessidade especial de saúde na família, a mesma tende ao isolamento social, com redução nas atividades sociais, em virtude das impossibilidades impostas pelo cuidado, levando a esta família a uma espécie de confinamento domiciliar (LEITE E CUNHA, 2007). Este isolamento social ocorre devido à natureza complexa do cuidado que a criança necessita, ou ainda pelo quadro clínico estereotipado apresentado pela criança, que pode causar transtornos físicos, devido à necessidade de transportar equipamentos e materiais, quanto psicológicos, devido ao sentimento de enfrentamento dessas famílias diante da doença do seu filho. JP. encontra-se vinculado à dois serviços de saúde para atendimento fisioterápico, fonoaudiológico e neurológico, pediátrico, sendo em duas diferentes instituições diferente, uma pública e a outra privada. Na unidade de reabilitação (instituição pública) possui atendimento de fisioterapia e fonoaudiologia, já os atendimentos de pediatria e neuropediatria são em unidades privadas distintas, consultórios ligados a rede credenciada do seu plano de saúde, ilustrado através de diagrama na Figura 2.5. 53 Figura 2.5. Diagrama ilustrativo da locomoção de JP., segundo os familiares cuidadores. Já KV. encontra-se vinculada à dois serviços de saúde para atendimento fisioterápico, fonoaudiológico, neurológico e pediátrico, sendo em duas diferentes instituições públicas (Figura 2.6). Figura 2.6. Diagrama ilustrativo da locomoção de KV., segundo os familiares cuidadores. 54 As atividades de vida diária das crianças não se circunscrevem apenas ao círculo das instituições de saúde e casa, eles frequentam regularmente a escola e possuem atividades de lazer fora desses ambientes. Geralmente, a escola é próxima a residência das famílias, sendo possível fazer o trajeto a pé. Apenas do caso de JP., não existe vínculo com nenhuma instituição de estudo. As vidas sociais dessas crianças e seus cuidadores giram em torno do atendimento fisioterápico integrados às suas atividades diárias; conseqüentemente, criança e familiar cuidador vivem em função da disponibilidade da agenda dos serviços e dos profissionais de saúde (PINTO, 2005; NEVES; CABRAL, 2008) Segundo Faro (2006), a reabilitação pode ser, também, uma estratégia de assistir em enfermagem, de caráter processual voltada à prevenção de complicações oriundas de doenças que podem gerar incapacidades, bem como implementando intervenções cujos resultados promovem a melhor independência possível. Deve ser inclusiva e participativa abrangendo o cuidador familiar e/ou a família. E, desta maneira, é possível assistir todo e qualquer paciente independente da doença e/ou incapacidades que possa apresentar. O enfermeiro tem o seu papel na equipe de saúde de reabilitação, desenvolvendo uma assistência holística e compartilhada, clínica e acadêmica. Suas intervenções são empreendidas para somar esforços, compartilhar responsabilidades e conhecimento, reconhecer os limites e enfatizar as potencialidades e habilidades do binômio família-paciente. Os cuidados podem ser mediados pelos profissionais de saúde nesse espaço favorável para a negociação e integração da família nessa nova realidade, e esse espaço é a reabilitação. Que pode ser classificada em três categorias distintas: a primeira delas compreende o reintegrar à vida diária, chamando a atenção para as atividades do cotidiano fora da instituição, como fazer compras, realizar tarefas domésticas, o autocuidado (banho, higiene oral, vestuário e outros); a segunda refere-se ao ajudar a conviver socialmente, enfatizando o relacionamento interpessoal e consigo mesmo e a terceira e última categoria se refere a ajudar no convívio mutuo da família, permitindo ao indivíduo viver com o mínimo de dependência, um ser humano capaz e produtivo (PITANGA, SIMÃO, 2001). O sucesso da reabilitação dependerá de comprometimento de todos envolvidos no cuidado, ao lado de uma equipe multidisciplinar, o envolvimento da família e da sociedade nesse longo processo. Como consequência dessa aliança estão o desenvolvimento de habilidades do cuidador, da melhora funcional da criança, da 55 satisfação na trajetória cotidiana, da reintegração familiar e social, do exercício da cidadania e maior autonomia (SOUZA et al., 2001). É preciso reconhecer a magnitude do que concerne à abrangência da reabilitação, ou seja, é essencialmente dinâmica, multi e interdisciplinar, fazendo interface com várias ciências, como, a Enfermagem, a Medicina Pediátrica, a Fisioterapia, a Educação Física e o Esporte, a Terapia Ocupacional, a Psicologia, entre outras. Estas ciências se compõem para o desenvolvimento e implementação da reabilitação física e psicossocial, envolvendo uma abordagem holística do indivíduo com deficiências, doenças crônicas e degenerativas e incapacidades (FARO, 2006). Ainda segundo Leite e Faro (2005), a assistência de Enfermagem na reabilitação tem como principais objetivos auxiliar o paciente a se tornar independente o máximo que puder dentro de suas condições, promover e incentivar o autocuidado através de orientações e treinamento de situações, preparar a pessoa com incapacidade para uma vida social e familiar da melhor maneira possível e com qualidade. Para as autoras, o autocuidado é a prática de atividades, iniciadas e executadas pelos indivíduos, em seu próprio benefício, para a manutenção da vida, da saúde e do bem-estar. As capacidades do indivíduo para engajar-se no autocuidado estão condicionadas à idade, estado de desenvolvimento, experiência de vida, orientação sociocultural, saúde e recursos disponíveis. Em pessoas adultas, normalmente, existe uma busca voluntária quando tratamos do cuidado de si5. Quando falamos em crianças com necessidades especiais de saúde, essas requerem total assistência ou prestação de cuidados, com atividades de autocuidado (GEORGE, 1993). Assim, podemos destacar a importância do enfermeiro de reabilitação nas atividades junto às crianças com necessidades especiais de saúde e suas famílias, especificamente as que possuem demandas de cuidados de habituais modificados. As CRIANES são acompanhadas pelos seus responsáveis na sua agenda de atendimentos, e possuindo o benefício social do Passe Livre, o familiar cuidador onera mais um gasto com a locomoção, pois segundo as leis Lei nº 3167/2000 e decretos nº 19936/2001 e 28673/2007, a gratuidade no transportes é garantida e este direito se estende aos seus acompanhantes, quando necessário. 5 Adotamos a expressão “cuidado de si” no sentido apontado por Paula (2008) em sua tese de doutorado intitulada “Ser-adolescendo que tem aids: cotidiano e possibilidades de cuidado de si. Contribuições da Enfermagem no cuidar em saúde”. [Tese de doutorado]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2008. 56 A localização da residência da família de D. e de L. é privilegiada em termos de acessos aos transportes públicos, o que facilita sua locomoção para os serviços de saúde, escola e lazer. A família de M., ao contrário, precisa percorrer uma grande distância de ônibus até a região central do município para garantir o atendimento de saúde da sua criança, seja na pediatria ou na reabilitação. No caso de JP., existe um grande deslocamento para a unidade de reabilitação e as outras especialidades médicas são em instituições privadas, através do plano de saúde, e estas são próximas à sua residência. Assim, a cuidadora de KV relatou à pesquisadora quanto aos lugares frequentados: A gente está levando ela na escolinha, agora ela vai no coleginho ali. Ela vai naquele colégio, faz fisioterapia, faz fono (Familiar cuidadora, mãe d e KV.). Para os familiares de KV., é necessário percorrer maiores distâncias para garantir o atendimento especializado que a criança necessita, fisioterapia e fonoaudiologia, neuropediatra e cardiopediatra; o lazer, a escola (coleginho ali ) e os serviços primários de saúde encontram-se próximos a sua residência. A busca por atendimentos especializados para atender as necessidades de saúde da sua criança levam as famílias a enfrentarem situações desafiantes, como percorrer grandes distâncias, utilizar os transportes públicos mais de uma vez por semana. Entretanto, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro vem organizando a sua rede de atendimentos de reabilitação, de forma a oferecer serviços que atendam às necessidades de cada área programática da cidade. Mesmo existindo serviços de referência na sua área programática, algumas famílias mantêm o vínculo das suas crianças com serviços de outras áreas, às vezes por falta de vagas na sua proximidade, ou pelos laços construídos com os profissionais de saúde. A questão geográfica é apenas um dos desafios a serem superados, a locomoção da criança pelo familiar cuidador é planejada, contudo existem condições que não dependem do familiar, como a previsão do tempo. Dessa maneira, a instabilidade meteorológica anuncia uma nova situação desafio, e quando questionada pela pesquisadora sobre os desafios na locomoção da criança, a cuidadora de D. apresenta as suas estratégias de superação: Na escola, o que eu faço. Às vezes, eu saio de casa e não está chovendo. Eu saio, levo ele pra escola. Aí, quando, vamos supor que chova, eu trago ele no colo e deixo a cadeira lá (Mãe fala da estratégia quando chove no momento de buscar a criança na escola). Aí, eu pego um taxi e subo a rua e a cadeira fica (na escola). Aí, quando for o outro dia, eu levo ele no colo e a cadeira já está lá. E ela (a cadeira) só vai vim (retornar para a casa da família) quando 57 o tempo ficar firme. Aí, eu sento ele (criança) e trago ela (a cadeira de rodas) embora. Mãe de D. (Familiar cuidadora, mãe de D.). O meio de locomoção de D. modifica-se de acordo com a mudança do tempo, como podemos ver no sentido da metáfora no discurso dos familiares “esse lance da locomoção é na cadeira ou no colo”.“A cadeira só quando o tempo está firme!” Dependendo das condições climáticas a cuidadora decide como locomover a sua criança, quando o “tempo tava meio escuro”, é melhor “levar no colo. Porque, se a chuva me pega no caminho com ele de cadeira, entendeu?” O cuidado para integrar essa criança ultrapassa as dificuldades com as intempéries do tempo. A cuidadora necessita de estratégias de superação para garantir os direitos fundamentais da criança, do convívio social na escola, da saúde e do lazer. O instrumento que deveria facilitar a integração da criança na comunidade tornase algo que dificulta em dias chuvosos. Desse modo, os familiares cuidadores planejam as saídas da criança. O planejamento para o lazer começa na escolha do lugar, o meio de transporte para chegar e a infraestrutura oferecida pelo local escolhido, assim as condições de acessibilidade são prioridade para a família. Já no planejamento do cumprimento da agenda de atendimentos é influenciado pelos horários e o meio de transporte escolhido. O efeito de sentido no discurso dos cuidadores denota o desafio do cuidado da criança com necessidade especial de saúde em relação a mobilidade, a locomoção e a acessibilidade. A família de D. inicia seu discurso afirmando que prefere os lugares perto de casa; entretanto, as condições de acessibilidade influenciam na decisão da família mais do que a distância, como podemos observar no fragmento do discurso do cuidador: “Apesar de ter o Shopping [shopping da região, mais próximo] que é do lado, mas é ruim, é contramão. O outro shopping pega (o metrô) aqui e salta na estação de lá. Porque o metrô deixa dentro de lá (Familiar cuidadora de D.). Na verdade, a escolha por um local de lazer (shopping) em outra o localidade não baseou-se na distância que seria percorrida, e sim nas condições de acesso e o meio de transporte público facilitador do deslocamento da criança. A infraestrutura também é um fator importante na escolha dos lugares frequentados pela criança e sua família. Como podemos ver no discurso do familiar cuidador de D: “Por exemplo, no shopping, eu sei que lá vou chegar e ter um carrinho. Lá eles têm um carrinho, que te emprestam”. Ratificando o cuidado em integrar a criança na comunidade e garantir o direito ao lazer. 58 Quando questionados pela pesquisadora sobre as estratégias de locomover a sua criança, os cuidadores de KV. relatam: Ela tem um carrinho verde. Ela está grande, está pesada, né? Ela tem um carrinho dela, que é para criança que é especial. No ônibus, a gente tinha que entrar pela porta da frente. Porque era aquele (ônibus) que não tinha elevador e tinha que passar pela porta da frente. E não é difícil levar ela nesse carrinho (Familiar cuidadora, mãe de KV.). Figura 2.7. Foto do carrinho intitulado como “carrinho verde” utilizado pelos familiares para transportar a criança KV. A acessibilidade, ou a falta dela, nos transportes públicos fizeram emergir situações desafiadoras aos familiares, mesmo aqueles que possuíam meios que facilitem o transporte da sua criança, como no caso, carrinho verde para criança que é especial. Os horários para o lazer da criança e da sua família são flexíveis, diferentemente, dos horários dos atendimentos de saúde e da escola. Quando indagados quanto aos horários de utilização dos transportes públicos, os familiares cuidadores de D. relatam seus desafios: Cadeira só em tempo quente, fora dos horários de rush (horário onde existe maior concentração de pessoas nos transportes públicos, geralmente no início do dia e no final). A cadeira só é usada fora do horário de rush nos transportes públicos, porque, é impossível de entrar, impossível de locomover com ele em cadeira no horário de rush (Familiar cuidador, pai de D.). 59 Pra escola, ele vai na cadeira. Na fisio (sessão de fisioterapia na unidade de reabilitação), ele só vai no colo. A fisio (profissional de fisioterapia, a fisioterapeuta) vive me cobrando, cadê a cadeira? Aí, se eu for de cadeira me atraso. Vai chegar uma época que eu (mãe) não vou conseguir carregar ele (a criança) mais no colo. Enquanto eu posso, vou carregando. Enquanto eu estou aguentando (Familiar cuidadora, mãe de D.). O planejamento também inclui o horário e como levar a criança, a situação limite fica bem caracterizada no discurso do cuidador, “... porque, é impossível de entrar, impossível de locomover com ele em cadeira no horário de rush”. A impossibilidade de cumprir a agenda de atendimento levou a estratégia de nesses momentos que é levar a criança “só vai no colo. Aí, se eu for de cadeira me atraso na fisio (sessão de fisioterapia na unidade de reabilitação”). No interdiscurso, a cuidadora traz a voz da fisioterapeuta para mostrar a cobrança sobre o uso da cadeira de rodas e a experiência da mãe com o seu uso pela criança. A fisioterapeuta vive me cobrando: cadê a cadeira? O efeito metafórico no discurso da mãe é uma reflexão sobre o futuro, vai chegar uma época que mãe não vai conseguir carregar a criança mais no colo. Enquanto ela pode, vai carregando. Enquanto ela está aguentando. Essa reflexão crítica sobre sua realidade concreta, a cuidadora familiar prevê uma nova situação problema onde terá que abrir mão de estratégias para continuar garantindo o cuidado integrador da criança. 60 CAPÍTULO III 61 3. Os desafios dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde na realização de cuidados habituais modificados Os quatro grupos de familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde (“D.”, “M”, “JP” e “KV”) problematizaram o enfrentamento de diferentes desafios na realização dos cuidados, no cotidiano de suas vidas. Dialeticamente, no interior da própria família, ora os desafios assumem um caráter individual e singular e ora coletivo e plural. No conjunto das quatro famílias, alguns deles se aproximaram e outros se distanciaram. Além do tema cuidado especial e integrador, apresentado no capítulo II, o processo de codificação das situações desafios apontou para a emergência de mais dois temas geradores: a) a dualidade de sentido para cuidado normal; b) movimento de incorporação do saber aprendido com o profissional no cuidado cotidiano. O primeiro tema foi descodificado em três subtemas: cuidado normal igual e diferente; cuidado normal fácil e difícil e cuidado normal automático e singular. 3.1. A dualidade de sentido para cuidado normal As situações desafios neste subtema envolveram cuidados na alimentação, cuidados afetivos, cuidados na arrumação, cuidados na higiene íntima e no banho. O efeito de sentido de dualidade sinaliza o caráter paradoxal da vida dessas crianças, as transformações que se operam no percurso da infância, seu crescimento e desenvolvimento, bem como as transformações que se impõem sobre o modo de as famílias cuidarem. A normalização possui um duplo sentido: o de ser normal porque é comum as crianças em geral, de qualquer idade e o de ser diferente devido a necessidade especial que essa criança possui. Quanto mais se aproxima das crianças em geral, mais fácil é realizar esses cuidados; por sua vez, ao distanciar-se das características gerais, o cuidado assume uma natureza mais complexa. Do mesmo modo, na medida em que a família se ajusta ao cuidado tornando-os automatizados, novas singularidades se interpõem na trajetória do crescimento e desenvolvimento da criança. 3.1.1. Cuidado normal, igual e diferente Em relação aos cuidados com a alimentação, os enunciados dos cuidadores transitam sobre o tipo de alimentação; a forma de preparo dos alimentos; como ofertálo, se por via oral ou sonda de gastrostomia; as mudanças na alimentação no período agudo da doença e o posicionamento da criança. 62 Quanto ao tipo de alimentação da criança, as famílias expressaram a mesma preocupação: o tipo e a maneira de oferecer os alimentos, como apresentado pelo familiar de D.: Os outros falam: “Mas como é que é a comida dele? “A comida do D. é nutritiva, saudável. Ele já comeu em pedaço. Agora, ele ... pegou o ritmo da comida amassadinha de novo... tudo amassado. Eu tenho medo dele engasgar ... Agora, ele voltou para o amassado. Pedacinho, não. Se eu der um biscoito ao D., ele até vai arrancar um pedacinho, mas eu acabo tirando. A comida é amassadinha (Familiar cuidador, mãe de D.). O efeito de sentido do discurso do familiar cuidador desvela que é desafiador alimentar uma criança com necessidade especial de saúde, em virtude de suas dificuldades na mastigação/deglutição e o risco de sufocação (medo de engasgar). Assim, o modo habitual de preparo e oferta dos alimentos exige as mesmas modificações que para as crianças em geral, com as mesmas necessidades de ajustes esperadas no curso do crescimento e desenvolvimento. Até um dado momento da vida tudo é igual. Os familiares de D. e M. prosseguem problematizando seus desafios com a alimentação da criança: D. não tem problema (para aceitar a) comida, não (Familiar cuidador, pai de D.) Ele come de tudo, ... espinafre... Eu dou fígado a ele, mas ele não gosta muito não. Ele come, mas, tipo assim (imitando a careta que a criança faz quando come fígado e diz:) Argh! Hoje é dia de fígado! ... Ele come rã. Dizem que é bom pra bronquite, né (Familiar cuidadora, mãe de D.). Ele gosta de comer rã, angu (Familiar cuidador, pai de D.). Arroz com feijão, mas, sem os caroços, ele come o caldinho do feijão (Familiar cuidadora, mãe de D.). De manhã, acorda seis e meia, mais ou menos, eu dou mamazinho pra ele... Que é leite e m.(farináceo). (Ele) vai pra escola (e) mama no lanche. Depois, eu dou iogurte (D) pra ele. Ele come de tudo, arroz, feijão... é... macarrão. Eu só não dou... eu ponho a carne (vermelha), aquele franguinho... a dele (criança) tem que ser desfiado, bem fininha.//Depois que veio pra casa, também estava com a sonda (de gastrostomia), dava batatinha, inhame. É... macarrão com caldinho, depois batia no liquidificador, e podia dar água ( Familiar cuidadora, mãe de M.). Na trajetória de vida de toda criança, seja aquela com necessidade especial de saúde ou não, faz-se necessário ajustar a consistência do alimento para melhorar a aceitação e evitar os riscos e danos à vida. No início, o alimento é ofertado na forma líquida (mamadeira de leite e M., iogurte); depois modifica-se para amassado, em pedaços e desfiada (carne) fininha. 63 O Guia de Alimentação para crianças menores de dois anos, uma publicação do Mistério da Saúde (BRASIL, 2002), recomenda que os profissionais de saúde orientem os familiares para oferecer alimento semissólido/pastoso para suas crianças a partir dos seis meses de idade. Na primeira fase da vida, a consistência do alimento pode aumentar o risco de asfixia para todas as crianças. Desta forma, orienta-se que a consistência vai se modificando gradualmente ao longo do tempo até atingir a consistência sólida. O aspecto normalizador da alimentação depara-se com a situação desafio do risco de engasgo para a sobrevivência da criança, independente da condição orgânica, se devido à imaturidade neurológica ou incapacidade funcional. No entanto, entre as crianças com necessidades especiais de saúde decorrente de disfunção motora oral ele se prolonga em todas as etapas da infância. Entre as crianças com dificuldade de mastigação e disfagia, principalmente aquelas com incapacidade motora oral, Vivone et al. (2007) argumentam que a consistência da alimentação pastosa é a mais indicada, pela facilidade de manipulação, na aceitação do alimento e assegura a nutrição da criança, além de reduzir o risco de broncoaspiração. O uso do alimento sólido deve ser associado ao de consistência pastosa, pois favorece a estimulação motora oral. Concordando com esse dado, o estudo de Aurélio et al. (2002) investigou as consistências de alimentos oferecidas às crianças com paralisia cerebral, concluindo que alimentos pastosos apresentaram um tempo menor de deglutição. O desafio da família para que a criança aceite os alimentos é o mesmo que das crianças, em geral devido à mudança de paladar, de lácteo para salgado, portanto não se diferencia daquela que possui necessidade especial de saúde, exceto as que apresentam anosmia6. Em geral, elas não gostam de alguns alimentos, mas tem de comer por serem saudáveis, nutritivos e benéficos para a saúde ou simplesmente aceitam bem porque o paladar lhes apetece. O arroz, feijão, carne (frango, vermelha, fígado, rã), leite com farináceos, iogurte, folhas (espinafre) foram os alimentos nominados pelos familiares para compor o cardápio da criança. Os desafios dos familiares de crianças que se alimentam por sonda de gastrostomia são diferentes daqueles enunciados pelas famílias cujas crianças se alimentam por via oral: 6 A anosmia é o termo técnico para a perda total do sentido do olfato. Quando essa perda é apenas parcial (situação mais frequente), dá-se o nome de hiposmia. . 64 Ele come de tudo. Eu fazia o almoço pra ele, mas (a comida) tinha que ser separada. Eu dava só batida no liquidificador, bem fininho. Porque a sonda era bem fininha. O mama (mingau) da manhã, o almoço... batido. Olha (a) gente não podia dar nada! Não podia dar nada! Porque, ele não se alimentava pela boca, porque a traqueia era muito fechada. Entendeu? Tinha maior dificuldades ... mas agora... (Familiar cuidadora, mãe de M.). ...Aquela sonda tinha que ter um cuidado para não soltar. E ainda entupia, quando dava a alimentação e sujava toda. Nossa, eu ficava nervosa, desesperada, quase chorando. O leite não descia de jeito nenhum (Familiar cuidadora, mãe de KV.). O horário das refeições de JP espaçou mais (aumentou o intervalo entre as refeições), por causa do refluxo. Então a gente ia testar. Vamos supor a C. (tia de JP.) ia dar o almoço ... Então deu o almoço espaçadinho. Ele comeu tudo ... e a gente ficou na maior felicidade, né? (Familiar cuidadora, mãe de JP.). O comer de tudo aproxima uma criança com necessidade especial de saúde, que se alimenta por sonda, das crianças que se alimentam por via oral. Desse modo, desvela o sentido de um cuidado alimentar igual as demais crianças. No entanto, a consistência líquida do alimento e sua administração por sonda são os desafios com os quais os cuidadores enfrentam para realizar o cuidado às crianças com necessidades especiais dependentes de alimentação por sonda de gastrostomia. Cuidar dessa criança representa um desafio para as famílias, pois, elas necessitam de inúmeros saberes e práticas incomuns para o cuidado cotidiano das crianças em geral. A família precisa se instrumentalizar no manejo das tecnologias implantadas no corpo da criança (como traqueostomia, gastrostomia, DVP, entre outras); administrar medicamentos com rigor de dosagem, horário e monitorização de efeitos adversos; adaptar as maneiras de cuidar (para medidas anti-re fluxo) entre outras necessidades que exigem da enfermagem intervenções educativas e cuidativas em um serviço de reabilitação. Algumas ou todas as atividades de vida diária das crianças com necessidade especial são dependentes de alguma outra pessoa (SIKLOS, KERNS, 2006). Normalizar a alimentação de uma criança com sonda de gastrostomia, no ambiente domiciliar, implica em modificar esse hábito de vida no cotidiano da família. Nesse sentido, as famílias tentam ativamente normalizar suas vidas como as de outras famílias de crianças que não vivem com uma necessidade especial de saúde em caráter permanente; buscam minimizar as diferenças que a condição da CRIANES impõe às suas próprias vidas e as dos outros membros da família (REHM; BRADLEY, 2005). O discurso marcado pela temporalidade desvelou um efeito de sentido de que os familiares cuidadores viveram situações limites até alcançarem a normalização 65 modificando gradualmente um cuidado habitual de sobrevivência, como é o caso da alimentação. Se no passado, o desafio se materializa no encontrar a consistência ideal do alimento, para passá-lo por uma sonda fina, e a superação das intercorrências que podem comprometer a qualidade de vida da criança ou lhes impor risco de vida. A obstrução da sonda, o risco de asfixia pelo fato de a traqueia da criança ser muito fechada, foram algumas das dificuldades, as quais exigiram maiores cuidados no preparo do alimento para evitar intercorrências durante sua administração. No passado, a criança tinha maior dificuldade para alimentar-se, na medida em que o enfrentamento, marcado pelo nervosismo, choro, medo, os desafios vão sendo superados. No tempo presente do agora, os cuidados habituais modificados estão normalizados. Segundo Fracolli e Angelo (2006), todos os cuidados a essa criança no domicílio envolvem a aquisição de habilidades para julgamentos complexos relativos a monitorização da condição da criança e para a tomada de decisões sobre intervenções, adequação de medicamentos e busca de auxílio profissional. As mesmas autoras concordam que a família sabe que os procedimentos não são isentos de risco, afinal trata-se do manejo de um dispositivo tecnológico para promover a alimentação da criança. Os familiares cuidadores enfrentam uma nova realidade em suas vidas, ou seja, a de ter uma criança que usará um dispositivo tecnológico para manter-se viva. Na concretude do cuidado cotidiano, eles refletem sobre os desafios e cada vez mais se comprometem com a sua mudança. Assim, as situações desafios nos cuidados impulsionam os cuidadores das crianças com necessidades especiais de saúde e com demandas de cuidados habituais modificados na alimentação por sonda de gastrostomia, a adquirirem conhecimentos que não pertencem ao cotidiano de cuidar da maioria das crianças (CABRAL et al., 2004). O posicionamento das crianças durante a alimentação foi outro desafio que problematizou a dualidade do cuidado normal como igual e diferente: ... Na escola ele tem dificuldade de comer. E já na escola... (A educadora infantil) dá (a comida) com ele sentado na cadeira (de refeição). Eu nunca dei comida a ele sentado na cadeira (de refeição). Eu costumo dar comida pra ele sentado, com ele sentadinho, no meu colo... (Familiar cuidadora, mãe de D.). Outra familiar cuidadora (tia paterna de JP), do mesmo modo que a mãe de D, também alimenta sua criança com ela sentada no colo, ao invés de na cadeira de refeição infantil. 66 Porque ele tem refluxo, não é? E a C. (tia de JP) ia dar o almoço, sentadinho (Familiar cuidadora, mãe de JP.). Os efeitos metafóricos dos discursos das familiares cuidadoras e a intertextualidade do discurso da educadora infantil convergiram e denotaram o aspecto igual do cuidado ao posicionamento da criança para alimentar-se. O posicionamento com o tronco ereto, em posição Fowler ou semi Fowler é adotado na intenção de prevenir a broncoaspiração, particularmente nas crianças que apresentam refluxo gastroesofágico. Concordando com o estudo de Cabral et al. (2004), o enunciado das cuidadoras confirmam a utilização dessas medidas anti-refluxo como modificação nos cuidados habituais para atender as necessidades especiais de saúde das crianças na alimentação. A apetência e o gostar de um dado alimento em detrimento de outros influenciam na aceitação do alimento pela criança, entretanto, no objeto discurso emerge o cuidado modificado quando a aceitação do alimento está relacionada aos laços afetivos que a criança possui com o cuidador. Assim, a aceitação do alimento pela criança é melhor quando oferecido pelas pessoas com quem ela mantém laços afetivos mais profundos, como é o caso da mãe e da tia. A educadora infantil é uma cuidadora eventual e rotativa, não permitindo a construção de vínculos afetivos mais sólidos, e dificultando a aceitação da alimentação pela criança. O vínculo se forma de maneira mais intensa e permanente com quem convive mais tempo e cotidianamente com a criança, desde o início da sua vida. Schermann e Brum (2004), tomando como referência os estudos de Schaffer de 1996, afirmam que uma criança com quatro semanas já se comporta diferentemente com sua mãe, seu pai e com estranhos; acrescentando que as expressões emocionais, os movimentos bruscos, a responsividade, as tensões e brincadeiras são mais alguns atributos que diferenciam as pessoas e ajudam a produzir estilos distintos de interações. O dito cuidado trabalhoso é resignificado para os períodos de adoecimento da criança, assim a cuidadora (mãe de D.) relata o cotidiano da alimentação de uma CRIANES quando adoece: O D. não dá muito trabalho, por incrível que pareça. Só quando está doente, (porque), além da dificuldade normal dele... fica mais difícil de engolir, de mastigar. Uma vez, ele ficou doente da gastroenterite. Então, ele acabou indo para a comida batida... só batida no liquidificador. Ele comia na colher porque senão ele acaba sem comer... aí ele engole, só comigo. 67 Aí (ele se recuperou), eu estava com mais dificuldade de fazer ele voltar a comer comida amassada mesmo! Ele deu uma regredida por causa de quando ficou doente entendeu? Aí, tem que começar o processo todo de novo ... até chegar de novo no amassado. De batida para arroz e feijão amassadinho, .../. (Familiar cuidadora, mãe de D.). A alimentação de qualquer criança quando adoece por gastroenterite é um desafio para o familiar cuidador, independente de ela apresentar necessidade especial de saúde associada ou não, tratando-se de um desafio normal e igual ao conjunto das crianças em geral. O diferente está no retorno ao ritmo alimentar que é mais complexo para aquelas que possuem dificuldade para mastigar e deglutir. O adoecimento da criança não só modifica o padrão alimentar, mas também provoca comportamento regressivo, o que implica na necessidade de recomeçar todo o processo de transição do alimento, da consistência liquidificada para amassada. O estar doente dá mais trabalho, um aspecto incrivelmente pontual e descontínuo na vida da criança Essas situações envolvendo a questão da alimentação tiveram como desdobramento no pensamento, a reflexão do pai cuidador de D.: O D. também só fica doente quando ele tem que ficar. Porque o D. está sempre sendo assistido pelo médico e tal. Ele está sempre no pediatra, a gente liga e tal. Sempre, sempre, sempre. Ele sempre teve esse tipo de coisa, entendeu? Porque ele, de resto, não é nada diferente (Familiar cuidadora, mãe de D.). O efeito de sentido do discurso do familiar cuidador desvela a intensa relação da criança com o serviço de saúde, particularmente as constantes idas à consulta de seguimento com o médico, seja de forma presencial ou por contato telefônico, sendo ressignificada pelo cuidador como termômetro para se dimensionar a frequência de adoecimento da criança. Como a criança sempre está sendo assistida pelo médico, é tomada como efeito de sentido para significar que ela só fica doente quando ele tem que ficar. O sentido do não dito desse discurso denota a ideia do familiar de que sua criança é igual as demais, considerando que de resto, ele não é nada diferente; entretanto, quando se trata da assistência médica, a frequência com que sua criança está no serviço de saúde configura o cuidado diferente. O efeito de sentido desvelado pela família corrobora para o lugar social das crianças cuidadas pelas famílias participantes do estudo entre aquelas com necessidades de saúde, já que elas necessitam de serviços de saúde relacionados a um tipo e ou uma quantidade de atendimento além daquela requerida geralmente por outras crianças. 68 Outra questão abordada nesse subtema foi o carinho. Assim, quando questionados sobre o carinho, os familiares cuidadores D., JP. e de KV relatam as especificidades da sua criança: Na escola, a brincadeira dele é ... ele gosta muito de ver as crianças brincando, ele adora ver as crianças brincar, ele se diverte, ... fica agitado. Ele não gosta muito que as crianças vão brincar com ele no sentido de pegar nele, (ele) não gosta que peguem nele (Familiar cuidador, pai de D.). Não gosta! Os próprios médicos e terapeutas dizem que elas (aquelas com necessidades especiais) são hipersensíveis, não gostam muito de ser tocadas. Ah! Às vezes, ele até gosta de carinho no cabelo, mas... O D. ele gosta do carinho mais falado. Eu falo: “quem é o neném da mamãe?” Ele sabe que é ele... ele já sabe! Sabe que é com ele e ri, super convencido. É engraçado isso! Eu acho isso tão bonitinho! O D. é lindo, ele se acha, se sente a última bolacha do pacote. Ele se acha! (Familiar cuidadora, mãe de D.). Ele não gosta que toque. A fisioterapeuta falou que ele não está legal, ele começou a dar, tipo assim, resistência de fazer. Daqui a pouco,quando foi para a fono, que ela começou a fazer coisinha no dente dele, ela já ficou bem. Ela (fonoaudióloga) disse: Você não queria, né JP. Tipo, mexer muito com ele, corpo, assim ele também não gosta (Familiar cuidadora, mãe de JP.). A gente faz carinho no rosto... durante o banho, passa flanela no corpo, ou a fralda para ela sentir o contato com as coisas. E agora ela deixa a gente beijar o rosto dela, agarrar ela, porque antes ela também não gostava, não é? Antes, ela não gostava. A gente não podia fazer nada... Nem beijar (Familiar cuidadora, mãe de KV.). O brincar é uma atividade prazerosa para todas as crianças, é quando ocorre a interação dos pares, a convivência social, as trocas de vivências, além de estimular o desenvolvimento e o aprendizado. O efeito de sentido do discurso dos familiares denotou o sentido de igual, quando relata o gosto das crianças pela brincadeira, ele gosta muito de ver as crianças brincando. As relações sociais da criança mediadas pelo toque pele a pele, seja com seus pares na escola, na brincadeira; com os profissionais de saúde, no cuidar terapêutico; com seus familiares, na relação de carinho; indicaram o sentido do cuidado diferente, pois o toque é irritativo, uma estimulação negativa. Assim a brincadeira, a terapia e o carinho necessitaram de modificação para garantir a diversão, o cuidado profissional e o cuidado afetivo. O toque expressado pelo carinho foi um cuidado habitual modificado pela família, como uma estratégia para evitar a hipersensibilidade, e irritabilidade por ele provocada. A interdiscursividade dos médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e dos terapeutas adquire sonoridade nas enunciações dos familiares, dizendo que elas não gostam muito de ser tocadas e preferem o carinho falado. 69 No estudo de Leite e Prado (2004), que trata dos aspectos fisioterápicos e clínicos de crianças com paralisia cerebral, as autoras apontam quatro categorias de intervenção na reabilitação, dentre elas, a de enfoque sensorial para promover experiências apropriadas e variadas para as crianças com espasticidade facilitando assim uma aferência motora apropriada: tátil, proprioceptiva, cinestésica, visual, auditiva, gustativa etc. Independente da forma que seja realizado esse carinho, nas enunciações os familiares de D., M. e KV. concordam que é algo natural e abundante: Acho que o carinho surgiu naturalmente (Familiar cuidador, pai de D.). Deixa eu ver (olha para sua produção artística) .... Pentear o cabelo... É só dar banho nele que... (Risos). Carinho? Carinho, eu dou muito pra ele. (Risos). Agora, eu dou muito carinho, mas quando ele nasceu tinha medo de tocar nele (Risos). O pai, agora, dá carinho até dizer chega. Quando ele está aqui, ele já corre logo... (Risos). Com o irmão, também é carinho até dizer chega (Familiar cuidadora, mãe de M.). A gente dá carinho como se dá para as outras crianças, a gente dá amor (Familiar cuidadora, mãe de KV.). O medo de tocar a criança durante o período de internação na terapia intensiva neonatal adiou a criação de vínculos afetivos entre a mãe cuidadora e sua criança. O carinho foi tratado de forma natural e igual às outras crianças em geral, esse cuidado envolveu todos os membros da família. Segundo Schermann e Brum (2004), a necessidade de envolvimento dos pais com seus filhos no período de internação na UTI neonatal, torna-se, muitas vezes, um fator complicador, pois os pais, diante dessa nova criança prematura, são abduzidos de todas as expectativas e sentimentos da espera do seu bebê e mergulham em um ambiente de preocupação e agitação. Sentem-se desorganizados, desnorteados, ansiosos, com medo dessa realidade não esperada, deixando-os incapazes de compreender o que está acontecendo e de responder adequadamente, até para criar vínculos com o seu próprio filho. As autoras, apoiando-se em uma publicação de Brazelton de 1988, observam que o luto dos pais, depois do nascimento de um bebê prematuro é inevitável. Numa situação de risco, é muito difícil para os pais manterem seu vínculo com o bebê, o que se espera como algo normal para o caso. Ainda sobre a manipulação do corpo da criança, outro cuidado desafiador implicou na necessidade de superação foi o vestir e o arrumar. Assim quando questionadas pela pesquisadora, as familiares cuidadoras de M. e de JP. relatam os seus desafios: 70 A única dificuldade pra vestir, foi logo no começo.... Logo que veio pra casa, por causa da cabecinha dele (com a hidrocefalia). Pra vestir ele, colocar a roupinha era uma dificuldade. Colocar com o maior cuidado ou então não passava na cabeça dele. Aí, tinha que vestir a outra peça de roupa... era a maior dificuldade. Olha, pra vestir o M. era muita dificuldade. Então, eu não botava blusa fechada Eu botava só uma de botãozinho. Tinha que botar um botãozinho. Quando eu compro... Tinha que ver qual era a camisa. Porque era muito bonitinha, mas não passava na cabeça dele. Então, era sempre assim (camisa) com o botãozinho... entendeu? Aí, sempre macacãozinho... meio aberto (Familiar cuidadora, mãe de M.). Pergunto se a diferença da roupa devia-se ao tamanho da cabeça da criança e a familiar cuidadora responde prontamente a mim: Era ... E isso aqui (apontando para a parte da cabeça na produção artística) era mole. Agora que já está fechando, a cabeça dele, agora não tem nada (Familiar cuidadora, mãe de M.). Figura 3.1. Produção artística e o destaque do fragmento cuidado “vestir” da família de M. No banho, vestir... (silêncio). No vestir é porque ele era molinho. Também no vestir muito... (Familiar cuidador, pai de JP.). Os desafios enunciados relacionam-se ao quadro neurológico de hipotonia que a criança apresenta devido à má formação (hidrocefalia) e o resultado dela, ou seja a falta de sustentação da cabeça e pescoço. A escolha de roupas era adequada à condição da criança, que facilitasse o movimento de vestir, sem danificar o funcionamento de válvula de derivação peritoneal (DVP). O cuidado na arrumação e no vestir a criança foi modificado e normalizado pela familiar cuidadora, na medida em que se elevava ou diminuía o perímetro cefálico da criança, até que deixou de ser um desafio. Esse movimento familiar corrobora com o desenvolvimento de esquemas de tratamento compatíveis com a normalidade, um dos atributos sintetizados no estudo de revisão de Rehm e Bradley (2005). 71 Nesse objeto discursivo, o familiar imerso na realidade concreta de ser um cuidador de uma criança com necessidades especiais de saúde, assume uma posição de ser responsivo que reflete sobre a sua realidade peculiar e dá respostas aos desafios por meio da ação e, assim, está criando cultura. A imersão crítica e reflexiva na realidade concreta leva o educando a mudança de atitude e a criação de cultura, duas das seis ideias forças de Freire, em que se encontravam os cuidadores. A superação dessa situação desafiadora fica evidente no desdobramento do discurso das familiares, mãe e avó de M. quando destaca o tempo do hoje. Pra vestir, até que ele já está (se) vestindo. É só colocar a roupinha nele e “filho, me dá um braço, aí”, ele já... ele ajuda. Agora, ele tira a calça. (Risos). (Às vezes), quando eu saio do banho e falo: “Você está pelado, M. (a criança)?”. Aí, ele tirou a calça e veste de novo (Familiar cuidadora, mãe de M.). Ele tira a calça, ele tira a meia. Ele tira e bota (Familiar cuidadora, avó paterna de M.). O discurso enunciado denota a superação dos desafios vividos e a forma que esse cuidado foi normalizado, ao ponto de estimular a autonomia da criança. O estímulo à participação da criança no vestir e despir-se contribuem para o aprendizado da mesma, a tornar-se mais independente no cuidado de si; a identificar o momento que é preciso retirar a roupa associando esse ato ao momento de tomar banho. A cuidadora, por vezes, se surpreende quando encontra a criança despida. A autonomia é um dos quatro elementos do conjunto estruturante das necessidades de saúde (CECÍLIO, 2001), portanto, vemos na educação em saúde, a possibilidade de se mediar informação capaz de fomentar a construção da autonomia de cada pessoa no cuidado de si. Na medida em que o cuidador mais domina as situações desafiadoras impostas pelo cuidado cotidiano de uma criança com necessidade especial de saúde, mais adquire graus crescentes de autonomia no modo de dirigir sua vida. Aqui, estamos tratando do cuidado com crianças que possuem dependência, total ou parcial, dos seus familiares cuidadores para atendê-las, logo o cuidador primário e os demais membros da família com quem a criança interage devem ser incluídos nesse processo de construção da autonomia. Quanto à higiene após a micção, mais um cuidado incluído na produção artística, a família de D. o ressignificou como troca de fralda, posicionando-o na parte interna do corpo desenhado (figura 3.2). 72 Figura 3.2 Fragmento da produção artística da família de D. com destaque para o cuidado “troca da fralda”. Essa situação desafio foi marcante para os familiares, pois foi a primeira enunciada no momento da apresentação da produção: De diferente... alergia à cor! Ele usa duas (tipos de) fraldas, uma que tem um pigmento azul atrás e tem a normal, básica (referindo a marca de fralda descartável), que é aquela (fralda da embalagem) verde (Familiar cuidadora, mãe de D.). Se eu não me engano, é aquele corante verde (que ele tem alergia). Aquelas (as fraldas descartáveis) que são esverdeadas ele não usa, não pode usar. É, ele usa a verde (fralda descartável). (O diferente) foi trocar a fralda (referindo-se a troca de marca da fralda) ... (Familiar cuidador, pai de D.). ... Nós tivemos um cuidado nisso (Referindo ao cuidado com a escolha da marca da fralda descartável). Engraçado, ele foi adquirindo isso (alergia aos corantes verdes das fraldas descartáveis) com o tempo (ele desenvolveu alergia...), ele não tinha (antes). (Familiar cuidadora, mãe de D.). A troca de fraldas é ao mesmo tempo igual as demais, e diferente para a criança que apresenta uma necessidade especial de saúde, devido a alergia. A alergia a cor contida em algumas fraldas descartáveis, envolveu a escolha por uma marca comercial que não comprometesse a integridade da pele da criança. Desse modo, ratifica o sentido dual de cuidado diferente e cuidado igual (normal) prestado a qualquer criança que faça uso da fralda e que tenha alergia. A testagem da fralda com diferentes pigmentos e a observação da reação da criança a cada produto testado, levou os cuidadores a optarem por uma marca comercial que trouxesse mais segurança do que risco de danos. Delineia-se uma aprendizagem mediada pela observação, pela experiência e pelas tentativas de erro e acerto (AGUIAR, 2005). A aprendizagem resultou em um saber adquirido na experiência feita, ou seja a criança pode utilizar a fralda de coloração azul ou as fraldas do pacote verde, correspondente a uma marca comercial específica. O fato de uma criança em idade escolar (sete anos), utilizar fraldas descartáveis e não possuir controle de esfíncteres uretral e anal não foi observado com estranhamento e nem problematizado pela família. A criança é vista como um bebê. Essa visão aponta para o fato de que a família adotou uma lente de normalidade e 73 modificou não apenas o seu comportamento, mas a maneira de tratar o seu filho (REHM; BRADLEY,2005). Hockenberry (2006), baseado nos estudo de Morse, Wilson e Penrod (2000), acrescentam que as famílias, geralmente, redefinem o que consideram como “normal” baseados nas suas experiências, necessidades e circunstâncias particulares. Ainda no conjunto dos cuidados cotidianos destacados pelas famílias, outra situação desafio foi o banho de uma criança com necessidades especiais de saúde. No começo (nos primeiros meses), ele tomava banho legal, na banheira (de bebê), como um bebê normal (igual a outros bebês). Só que aí, ele foi crescendo, até ...um ano atrás (pergunta ao pai)? (Familiar cuidadora, mãe de D.). No início, quando ele (a criança) era muito rígido (facilitava o controle), na verdade era muito rígido e era pequeno. Era mais fácil. Na verdade o D. nunca foi pequeno, sempre foi meio esticadinho (sempre foi um bebê grande em comparação com outros bebes), né? (Familiar cuidador, pai de D.). Primeiro dava banho na banheira, não é? (Familiar cuidador, pai de KV.) . É, na banheira. Quando, ela veio lá do hospital. (Mãe me interrompe quando pergunto como era antes). Não, ela sempre foi grandona! (Familiar cuidadora, mãe de KV.). A dimensão do corpo de um bebê com necessidade especial de saúde em virtude de um distúrbio neurológico propiciava ao cuidador um maior controle sobre os movimentos corporais. Independentemente da idade cronológica, o parâmetro de referência para a família normalizar a experiência do banho foi o fato de a criança possuir um corpo pequeno e rígido. Assim, a mãe cuidadora descreve o banho em uma banheira de bebê: Oh, Joelma. Há mais ou menos um ano atrás, ele (a criança) só tomava banho na banheira de neném (até seis anos de idade). Eu segurava ele pelo braço assim (demonstra como fazia, modificando a posição da criança na banheira, colocava em decúbito dorsal, ele ficava de joelhos), e eu dava banho. E eu dava (o banho) assim, como se dá banho em neném mesmo, isso até um ano atrás (quando a criança tinha seis anos de idade). (Familiar cuidadora, mãe de D.). No curso do tempo, o bebê cresce, adquire movimentos incompatíveis com a condição de bebê com necessidade especial de saúde, o que torna o banho um cuidado cotidiano que traz riscos à segurança da criança. O banho se complexifica e os riscos são cada vez maiores, o que impõem a necessidade de se desenvolver estratégias para superar o desafio e normalizar essa atividade como parte do cotidiano da vida da criança em família. Os familiares cuidadores problematizam a complexidade do banho de uma criança com distúrbio neurológico em franco crescimento e diante dessa dificuldade, quando a criança ficou grande demais para a “banheirinha”, os cuidadores aprendem estratégias de superação. 74 Foi crescendo, na verdade, foi crescendo e se soltando. O que foi feito quando a criança ficou grande demais para a banheirinha? (Pesquisadora) Chuveiro! Chuveiro. Eu tomo banho e dou banho nele, normal. O D. também não ajuda no colo (Familiar cuidador, pai de D.) . Eu acho que (antes), ele deixava fazer as coisas com ele (passivo), hoje em dia não mais (ativo) (Familiar cuidadora, mãe de D.). Hoje em dia não mais. Então o que acontece? Pra gente colocar ele (como bebê) na banheira era mais fácil. Aí passou um tempo ele (a criança) começou a gostar (a ter prazer) da coisa de tomar banho, a brincar e tal. Aí, ficou muito mais complicado. (Familiar cuidador, pai de D.). O banho de uma criança com necessidade especial de saúde por distúrbio neurológico representa uma tarefa demasiadamente complexa para o cuidador. Na medida em que a criança cresce e se solta, o banho na banheira vai sofrendo modificações. Pois as peculiaridades da criança, a rigidez corporal e a passividade (ele deixava fazer as coisas com ele), denotavam a facilidade antes quando o bebê era pequeno, no agora, implicou em dificuldades e complicações, porque ele se tornou ativo e agitado. O banho para a criança, que não é mais um bebê, passou a ser fonte de prazer, momento de brincadeira, de descontração, complexificando o procedimento banho em um recurso – banheira – incompatível com o tamanho dela. A criança passou a ser grande demais para a banheirinha. Essa situação desafio apresentou desdobramentos, indo além da maneira de realizar o cuidado banho, como enunciado pelos cuidadores de D. e de KV: Porque ele passou a ser grande demais para a banheirinha (banheira de bebê). (Familiar cuidador, pai de D.). É! É! Aí, ela foi crescendo, né? Risos. O tamanho dela, aí, ela ficava assim (pai demonstra como a criança ficava posicionada dentro da banheira), aí, (ela) não dava (na banheira), porque para o tamanho dela a banheira era pequena. Porque na banheira, ela não dá mais (Familiar cuidador, pai de KV.). Porque ela já é grandona, né? A banheira não dá mais (Familiar cuidadora, mãe de KV.). Eu tinha medo dele cair. > (Medo da criança cair da banheira comum, pequena para o tamanho da criança) Ele (a criança) era muito agitado na hora do banho, porque ele quer brincar. Eu falava com ele: “_ D., você vai cair (da banheira). Vai abrir a cabeça e vai lá pro Hospital privado, costurar a cabeça” (Familiar cuidadora, mãe de D.). A preocupação do cuidador com o risco de queda, de acidente e de derrubar a banheira, implicou na necessidade de buscar estratégias para modificar a tarefa do banho, superando o impasse que a situação limite apresentou. Na trajetória do banho de 75 banheira de bebê, para o banho de chuveiro no colo do cuidador, para o banho com chuveirinho para o banho na banheira adaptada. Na testagem de diferentes estratégias de superação dos impasses e a observação dos resultados, os familiares cuidadores acumularam experiências e a sua aprendizagem foram mediadas pelas tentativas de acerto e erro. Ainda como desdobramentos das situações anteriormente apresentadas, familiares cuidadores apontam para o gosto da criança e a expressão das suas vontades. Ele chora, porque não quer sair do banho! (Familiar cuidadora, mãe de D.). É. Chora, de chorar mesmo, de magoar (explicando o tipo de choroda criança) (Familiar cuidador, pai de D.). A expressão da vontade e a utilização da comunicação não verbal da criança para demonstrar o gosto, o prazer e a insatisfação emergiram do discurso dos familiares cuidadores como uma situação existencial que não se tornou um desafio a ser superado. As situações desafios que envolviam as dificuldades devido ao crescimento e o tamanho da criança, também foram destacadas em outros discursos dos familiares cuidadores de D. Ele caiu sozinho, sem a ajuda de ninguém. Ele quebrou o berço por baixo. Ele deu uma porrada no berço e aquela grade assim soltou e ele caiu por baixo. Aí, ele caiu por baixo, eu cheguei, ele estava assim ô (mãe imita a cara de espanto que a criança estava quando ela a encontrou caída no chão, após a queda do berço). Tipo assim, eu tentei me segurar pra não rir, mas, não deu. (Mãe ri lembrando da cena) (Familiar cuidadora, mãe de D.). Porque como ele é grande no berço, ele fez assim. E ficou de lado, ele conseguiu dar uma porrada com a perna (chutar). O berço o que acontece... saiu. Saiu o negócio (que negócio?) (Familiar cuidador, pai de D.). Os bebês em geral dormem um berço comum, assim a lente de normalidade adotada pelos familiares cuidadores é ressignificado no campo discursivo do não dito, já que não houve estranhamento para o fato de um escolar, com atraso de desenvolvimento neuromotor, permanecer dormindo em um berço de bebê, a despeito do tamanho do corpo desproporcional ao móvel. Os familiares cuidadores tomaram consciência da realidade concreta, que o seu filho é grande demais para um bebê. Freire (1980) nos leva a pensar sobre o movimento reflexivo após a tomada de consciência, que possibilita a crítica sobre a sua realidade concreta, nesse caso os familiares ainda não refletiram, nem criticizaram, e por fim não a modificaram. Desta forma, o escolar permanece dormindo em um berço, por possivelmente oferecer mais segurança. 76 3.1.2. O cuidado normal, fácil e difícil O cuidado normal, no sentido de fácil e difícil relaciona-se às situações desafios enunciadas pelos familiares cuidadores, nas quais o sentido de normal foi resignificado como fácil e envolveram os cuidados com a higiene corporal e com os cabelos. As situações desafios que circundavam as questões do banho foram demasiadamente complexas e emergiam vários sentidos à normalidade, associados à temporalidade e ao crescimento da criança. Assim, as estratégias para realizar o banho nos dias atuais são apresentadas pelos familiares cuidadores de D., M. e KV. Antes, eu não dava (banho), não. Agora eu dou (banho), assim: daqui pra cá (Mostra do pescoço pra baixo) (Familiar cuidadora, avó paterna de M.). Mas, agora... Dou banho nele na cadeira, no tanque. Agora ele já segura, já sustenta (o corpo) (Familiar cuidadora, mãe de M.). É porque ele tem a banheira (adaptada) que fica sob (vai embaixo do) o chuveiro. Hoje, ficou muito melhor dar banho nele. Eu só tenho medo dele cair. Eu não posso virar o olhar de onde ele está. Eu boto água na banheira e boto o avental (de plástico) (Familiar cuidadora, mãe de D.). Ele joga água para todo lado. É. (Risos). Na verdade, na verdade ficou mais fácil. Com relação a banheira ficou. Ficou, porque você não tem que segurar ele no colo para banhá-lo: o peso dele (Familiar cuidador, pai de D.). Dar banho nela não foi difícil, não. Foi fácil dar banho. Ela tem uma bacia de alumínio para tomar banho. (Interrompe a pesquisadora) Quando ela veio para casa, ela tomava banho na banheira. Aí, depois, ela foi crescendo e minha cunhada arrumou uma bacia. Para dar banho nela na bacia. Mas, mesmo assim, a bacia está ficando pequena para ela. Não tem uma bacia para (dar banho em) criança especial, né? Porque, tem só o carrinho (para criança especial) que não senta, porque é de adulto. Não é? Eu penso assim, podia ter só uma banheira para colocar dentro do chuveiro para eu poder dar banho nela, não é? (Familiar cuidadora, mãe de KV.). A sustentação do corpo e crescimento da criança propiciaram situações desafiadoras para os familiares cuidadores. Em seu discurso apontam as estratégias de superação ao modificar os instrumentos e locais para realizar o banho. A divergência do tratar a criança como um bebê e o seu real tamanho, inviabilizou a continuidade do uso da banheira de bebê, necessitando assim a inclusão da cadeira ou da banheira adaptada e da bacia de alumínio, para facilitar a realização do banho no cotidiano do cuidado. A incorporação de novos instrumentos facilitadores do cuidado incluíram o avental de plástico, a bacia de alumínio, a cadeira/banheira adaptada (ilustrado na figura apresentada no figura 3.3) (pela família de KV.) devido ao não conhecimento ou a falta de orientação sobre meios facilitadores desse cuidado no cotidiano. 77 Figura 3.3. Cadeira/banheira adaptada para utilização no banho da criança. Na recodificação temática, a mãe cuidadora de D. sintetiza os temas. Tem o lance do chuveirinho... Mas esse chuveirinho é assim: sai água do chuveiro e saí água dos dois juntos Entendeu? Aí, eu também ponho o avental para não me molhar tanto. Senão, você toma banho junto com ele, ele molha tudo. Eu consigo sobreviver ... (Risos) (Familiar cuidadora, mãe de D.). Os familiares superaram tantas situações desafios com o cuidado do banho da criança ao longo do tempo, que no seu discurso, quando recodificou os temas, sintetiza na expressão impregnada de conteúdo vivencial - consigo sobreviver - uma reflexão crítica sobre sua realidade. Penso freirianamente que quanto mais os familiares cuidadores vivem e refletem sobre a sua situação concreta, mais emergem, plenamente consciente, comprometido, pronto a intervir na realidade para mudá-la. Lavar (o cabelo), melhor é na banheira. Por que, quando o banho é no chuveiro, não. Tem que ser rápido, porque, você não tem como fazer. Você segura com uma mão e esfrega com a outra. Aí, depois, você tira, enxágua, tira ele (da água), pra depois fazer de novo com o condicionador e também escovar os dentes. Tudo com uma mão só, e a outra tem que segurar ele. O D. é um problema sério! Ele não gosta de pentear cabelo, não gosta de cortar (Familiar cuidador, pai de D.). Para lavar o cabelo dele, é tudo muito rápido, né? Joga o shampoo, esfrega, e tchu tchu tchu . Joga água, aí, o que eu faço? Quando boto (coloca) o condicionar (na cabeça dele), eu aproveito para ir limpando os dentes, aí já vai dando uma amaciada, aquela hidratação (no cabelo). Ele não gosta de pentear o cabelo! Pentear é (difícil), porque, ele não deixa (pentear o cabelo). Aí, eu acabo penteando com escova, porque o pente, penteia o cabelo dele, e fica tudo por alto ainda, né? A escova não, ela dá aquela amassada! (Risos) (Familiar cuidadora, mãe de D.). Os cuidados na lavagem dos cabelos implicam em uma série de movimentos rápidos que não traz prazer para a criança. O desprazer que a criança sente com a lavagem dos cabelos foi um desafio ao cuidado cotidiano, para superá-lo a cuidadora busca, sem sucesso, diferentes lugares para realizá-lo na banheira ou no chuveiro, até concluir de que não tem como fazer diferente. A solução final foi tornar o momento da lavagem dos cabelos uma tarefa rápida para si e desprazerosa para a criança. 78 Prosseguindo com a problematização do enfrentamento dos familiares com o cuidado cotidiano de crianças com necessidades especiais de saúde, destaca-se a dificuldade com o corte dos cabelos. Eu faço assim para cortar o cabelo dele. Chego lá no salão, eu sento (na cadeira), ele (criança) senta no meu colo, coloco aquele negócio nele (a capa) e seguro. Porque ele fica querendo olhar a tesoura. Então como o rapaz (cabeleireiro), já cortou (o cabelo) outras vezes, ele já acostumou a cortar o cabelo dele porque ele já picou a orelha (da criança). É cortar cabelo, realmente, é muito difícil! (Fala reflexiva da mãe). (Tenho que) segurar muito, porque senão, qualquer dia ele fica sem orelha! Por isso que ele (a criança) vive com um cabelão, aí, meu deus! Tem que cortar o cabelo do D.! (Familiar cuidadora, mãe de D.). A parte de cortar o cabelo é difícil! É difícil, porque ele não pára! (Familiar cuidador, pai de D.). O desafio é cortar o cabelo, porque a criança não para de movimentar-se e há risco de cortar a orelha. Nesse sentido, o enfrentamento está em manter a criança parada para que o corte dos cabelos seja realizado em condições mais segura e com menor risco de acidentes por queda da cadeira ou de lesão da orelha. A estratégia de superação foi sentá-la no colo da cuidadora e segurá-la firmemente entre seus braços para restringir seus movimentos e desviar seu olhar da tesoura. 3.1.3. O cuidado normal, automático e singular Os familiares cuidadores de D. relatam as situações desafios que também são experimentadas pelos cuidadores externos ao círculo familiar. A (educadora infantil) do D. me chamou atenção pra uma coisa que a gente não liga muito. Por exemplo: o D. quando faz cocô a gente (pais cuidadores) sabe... A gente já sabe (pais cuidadores sabem quando a criança defeca). Então o que acontece na escola (O que acontece quando a criança defeca no período que está na escola)? Ele também não avisa a professora (A criança não avisa a professora na escola que defecou). (Familiar cuidadora, mãe de D.). Familiar cuidador, pai de D. concorda: A gente sabe que ele está fazendo (defecando). A gente sabe (quando a criança está defecando)! Ele se estica todo (mãe imita o movimento feito pela criança quando defeca) Automaticamente, eu sei que tenho que trocar ele (sei que a criança defecou e precisa trocar a fralda)! Então, ele (a criança) criou o hábito de não avisar que está cagado. Aí, ela (educadora infantil falando com a mãe): você tem que criar o hábito de perguntar a ele... (Fala que a mãe trouxe da professora da escola, que solicita à mãe que crie o hábito na criança). D. você fez cocô? Quando você quer fazer cocô? Você morde. Porque aí, a gente (profissionais da escola) não sabe. ... Mas como eu (mãe) faço isso automático não vejo necessidade dele aprender a falar, entendeu? Eu achei interessante, ela (a educadora infantil) (Familiar cuidadora, mãe de D.). 79 O interdiscurso manifesto pela exteriorização da voz da professora, no enunciado dos familiares de D., demonstra a reflexão sobre a quão automática é a percepção deles sobre as necessidades fisiológicas da criança. Esse mecanismo automático foi construído na relação de aprendizagem mediada pelo saber da experiência feita da necessidade e das circunstâncias em que o cuidado se manifestou. Nos diferentes momentos de cuidado interacional com a criança, os cuidadores observaram suas reações comportamentais, traduzida por se esticar todo, criar o hábito de não avisar que está evacuado, por exemplo. No entanto, entendem que a professora deve aprender sobre as reações da criança e então identificar se ele evacuou ou não. Entretanto, o saber do familiar cuidador pauta-se na experiência do cuidado da criança, diferente da professora que até então não havia experenciado a situação. A relação entre aprendizagem (sabe), hábito (recorrência das mesmas manifestações) e automatismo (na leitura das reações) levou a cuidadora a concluir que não vê necessidade de a criança aprender a falar para se fazer entendido, mediado por um processo de reflexão crítica. Da mesma forma, a automaticidade é relatada pela cuidadora de JP. quando relacionado ao seu estado clínico: A C. (tia da criança) sabe quando ele estiver bem e quando ele não está. Eu pergunto para a C. (tia da criança) como ele está, e ela fala que ele está com disposição. (Familiar cuidadora, mãe de JP). Essa automaticidade é entendida por Shermann e Brum (2004) baseado no estudo de Ainsworth et al. (1978), como sensitividade materna, que seria a habilidade de a mãe (ou cuidador) em perceber, interpretar e responder de forma adequada e contingente aos sinais da criança. Assim, os familiares cuidadores sensitivos são bastante atentos aos sinais apresentados pela criança e respondem a eles prontamente e apropriadamente. O enfrentamento do cuidado medicamentoso foi destacado pelos familiares cuidadores de D. e KV. como parte do cotidiano do cuidado, por ser desafiador e complexo: O D. toma basicamente três remédios todos os dias... Gardenal, Depakene e o Urbanil. Ele prefere os amargos. O Valproato é um tipo xarope. Ele tem mais facilidade em tomar o valproato do que o Gardenal. O Gardenal, ele toma tranqüilo. Ele toma tranqüilo. (Familiar cuidadora, mãe de D.) Ela toma Gardenal, Clobazam. Tem que dar a quantidade certinha. Em um hospital (os médicos) me falaram para eu dar 25 gotas, e no outro (hospital) o (médico) mandou dar 20 gotas, e falou que 25 gotas era muito pra ela. Porque apagava ela direto. ... E ela toma a Hidroclorotiazida, é um de coração. Ela também toma Ranitidina, que é pro estômago ...Mas, quando eu for lá no 80 médico levar ela, eu vou ver se ela para de tomar algum remédio, ela toma muito remédio. Vou ver se ela faz o exame do coração pra ver se tira esse remédio dela (Familiar cuidadora, mãe de KV). A politerapia, envolvendo o uso de Gardenal ou Vaproato, o Depakene e o Urbanil, no controle das crises convulsivas é uma abordagem terapêutica comum para crianças com necessidades especiais de saúde devido a disfunção neurológica. Entre as crianças que apresentam outras disfunções associadas, como a cardiopatia, por exemplo, além da politerapia anticonvulsivante, o familiar cuidador busca normalizar o medicamento cardiotônico no conjunto dos medicamentos que precisa administrar a criança no seu cotidiano de vida. Desse modo, elabora-se uma agenda no curso de 24 horas para administrar o Gardenal e Clobazan, para as crises; Hidroclorotiazida para o coração e Ranitidina para o estômago. Por sua vez, ainda convive com o desencontro de opiniões dos profissionais, que em um lugar prescreve uma dosagem, em outro, uma outra dosagem. As reações da criança ao remédio não correspondem ao esperado pelo tratamento de suspensão de crises; o efeito sedativo em medicamentos anticonvulsivantes é um efeito adverso (ASPERHEIM, 2010). O modo de cuidar dessas CRIANES envolve cuidados singulares de natureza complexa, contínua e intensa. As cuidadoras familiares fazem um esforço sobre humano, como testar diversas formas de administração de medicamentos, para suprir as demandas das crianças e garantir sua sobrevivência. Esses cuidados envolvem conhecimentos de enfermagem que precisam ser mediados na interação dos profissionais de enfermagem com as cuidadoras familiares, em diferentes cenários de prática (NEVES; CABRAL, 2008), incluindo aí a reabilitação. Essa reflexão crítica não ficou evidente no discurso dos familiares quando questionados pela pesquisadora sobre a administração de medicamentos de uso contínuo. Ao invés de dar direto na boca, a gente pinga (o gadernal) na tampinha. Na tampa! Aí, o que eu faço, sempre coloco uma a mais, porque acaba se perdendo na hora de dar. Ele toma 25 (gotas), eu coloco 26 (gotas), porque vai ficar uma lá no fundo (da tampa utilizada para administrar a medicação). Aí, eu dou na boca dele. Pronto, tomou. Aí, eu falo com ele. Porque não se dá um remédio um atrás do outro, tem que dar um tempinho entre um e outro. O Depakene eu já dou na seringa, encho e vou dando aos poucos. Ele gosta. Na tampinha, seringa e colher. Eu dou um, depois da novela, meia hora, uma hora, eu dou do depakene e depois eu dou... Ele quase dormindo, eu dou o Urbanil. (O Urbanil) é comprimido. Eu coloco um cadinho de água na colher e jogo ele. Ele se dissolve. Se eu fizer todos (os remédios) na colher, não vai dar certo. Ou todos na seringa, ou todas na tampinha. Não vai dar certo. Por 81 exemplo, eu acho que na seringa pra tomar o depakene acaba sentindo menos o gosto, porque acaba espirrando. Se eu dou na colher, ele vai espalhar na boca e vai acabar segurando (Familiar cuidadora, mãe de D.). ...O Clobazam tem que diluir na água com 1,5 com a seringa, eu boto no copinho e puxo e dou para ela (Familiar cuidadora, mãe de KV). Ele trava. A língua, ele segura a língua, não engole. Como eu dou na seringa, ele acaba engolindo (Familiar cuidador, pai de D.). Eu fui aprendendo com o tempo, engraçado. Foi muito automático, eu fui aprendendo. Eu não fui estabelecendo um plano. Eu pensei como vou dar (como administrar os remédios)? Porque a minha avó... a minha avó... Eu tenho um tio que ele teve problema. Então eu via o jeito que ela fazia. Minha avó, ele colocava o gadernal do meu tio na comida. Ela fazia e colocava no prato. Então ele já comia a comida, então ela misturava um comprimidinho ali no meio. Ele não tomava! Ele deixava em baixo da língua. Aí, na hora de comer, ele acabava tomando o remédio. Quando ele sentia, ele falava “vô, você colocou o remédio aqui dentro, né?”, “Não coloquei não”. Tinha colocado. Entendeu? Eu via também esse lance da colher. Minha avó fazia isso com ele, direto. Os remédios dele eram socados dentro da água, no copo, tudo pra ele não perceber. No suco, no suco de laranja que disfarça mais o gosto. Entendeu? (Familiar cuidadora, mãe de D.). As ações realizadas com recorrência se tornam hábito e recebem o tom de facilidade, de normalidade. O saber se constrói baseado nas experiências de cuidado direto com a criança que o incorpora no espaço social da família. Com o passar do tempo, a experiência do cuidador supera as tentativas de acerto-erro e automatiza-se porque vai aprendendo com o tempo. De modo muito automático, vai-se aprendendo sem o estabelecimento de um plano”. Na cultura familiar, resgatando no interdiscurso, a voz da avó da criança, a memória de um saber adquirido com a avó sobre a administração de medicamentos anticonvulsivantes para o tio. Este saber foi passado de geração para geração, e atualmente, a mãe cuidadora o utiliza com a sua própria criança, ou seja, colocar o Gardenal na comida para facilitar a aceitação e não haver perdas do remédio. O poder do discurso de familiares pertencentes a diferentes gerações foram decisivos nesse processo de mudança de atitude, quanto ao cuidado medicamentoso, concordando com os achados de Pacheco e Cabral (2011) sobre o cuidado da família na alimentação de bebês de baixo peso. 3.2. O movimento de incorporação do saber, aprendido com o profissional, no cuidado cotidiano Os desafios relacionam-se às situações em que o conhecimento do profissional de saúde foi transferido para que os familiares cuidadores realizassem as atividades de 82 vida diária da criança, com mais facilidade, menos risco de danos, modificando o seu modo habitual de cuidar. As modificações sugeridas envolvem a utilização de materiais, mobiliário e o cuidado direto com o corpo da criança. Destacam-se os cuidados com a boca e os dentes, o brincar, o cuidado com a pele e os exercícios de amplitude de movimentos. Os profissionais que se destacam nos enunciados dos cuidadores são o dentista, a fisioterapeuta e o médico, procedentes de diferentes cenários externos ao ambiente hospitalar. O enfermeiro ou outro membro da equipe de enfermagem não é indicado no interdiscurso desses familiares. A primeira situação existencial apresentada nesse tema surgiu quando os familiares cuidadores foram questionados sobre a higiene oral, sobre o cuidado com a boca e os dentes: De diferente? O cuidado com a boca e os dentes! O D. quando vai escovar os dentes (durante o banho) quem deu essa dica foi a dentista. A gente tem uma rolha... de vinho. Coloca a rolha pra não deixar que ele tranque os dentes. É uma rolha firme..., é de... Qualidade. Aí, ele não fecha a boca. Aí, dá pra passear (movimentar a escova de dente na boca) com a escova (Familiar cuidador, pai de D.). (A rolha) é de plástico. É daquelas que se esfarela, não. Provavelmente se fosse uma rolha que se desmancha. Ele fica mordendo (a rolha que fica na boca). Senão ele fica mastigando a escova. É porque, pra ela (a dentista) limpar os dentes dele (da criança), ele trancava a boca. Ela (a dentista) já tem assim, uma bolsa cheia de rolha. Ela (a dentista) me deu uma rolha. Aí, ela (dentista) falou: quando você for escovar o outro lado, aí, você....>( Familiar cuidadora, mãe de D.). A ferramenta do interdiscurso da voz da dentista no enunciado dos familiares cuidadores aponta para a utilização de uma rolha de vinho de plástico, um objeto rígido e ao mesmo tempo macio, para ajudar no processo de escovação dos dentes da criança. Essa experiência de cuidado com os dentes emergiu do aprendizado com o dentista. O uso da rolha como recurso na prática clínica da dentista foi observada pelos cuidadores no atendimento, pois no consultório havia “uma bolsa cheia de rolha” que era usada pela profissional para realizar o tratamento dentário. Na intertextualidade, traz a voz da dentista na forma de citação direta, demonstrando o uso da rolha como um recurso auxiliar para manter a abertura mandibular, o que foi útil para manter a boca da criança aberta para a escovação dos dentes. Nesse processo, os cuidadores aprenderam com uma profissional sobre como realizar esse cuidado, incorporando-o ao cuidado da criança de forma funcional e eficaz, minimizando as “testagens”, as tentativas acerto-erro como nas outras situações apresentadas anteriormente. 83 Os cuidadores passam por tortuosos caminhos na busca do melhor cuidado aos seus filhos e seguem as orientações adaptando os cuidados que julgam necessários e de acordo com as condições da criança. Eles vivem situações no cotidiano de cuidar baseado, muitas vezes, na tentativa acerto-erro (AGUIAR, 2005). A questão do brincar passou por diversas modificações ao longo do tempo, com o crescimento da criança. Quando a pesquisadora questiona o cuidado do brincar com a criança, os familiares cuidadores de D. relatam as suas dificuldades: Agora o que a gente faz com ele, ele brinca mais em cima da cama, no berço dele. Lembra aquela cadeira (adaptada) que a S. (fisioterapeuta que atende a criança na unidade de reabilitação) me deu? Ai, a gente, eu arrumei uns brinquedos assim, sabe aqueles que desenha e apaga, ele adora brincar com aquilo. Aqueles que escreve assim, ele vai e apaga, o negócio dele é aquilo (brinquedo). Se eu tirar aquilo (brinquedo) de perto dele, nossa! Aí, ele brinca assim (Familiar cuidadora, mãe de D.). Ou então quando a gente coloca essa cadeira na cama, essa cadeira ali (aponta para a cadeira de madeira). Naquelas cadeiras adaptadas lá. Coloca os bichos (brinquedos) dele e tal, ou então, ele brinca muito no berço dele. No berço dele, ele se diverte (Familiar cuidador, pai de D._). O crescimento da criança significou uma dificuldade para o brincar livremente e implicou em modificação no modo de promover a brincadeira, em relação ao local, ao mobiliário e aos brinquedos. O espaço, onde as brincadeiras aconteciam era a sala de estar, pois sua dimensão espacial permitia uma maior liberdade para a criança brincar. Na medida em que a criança cresce e o seu quadro disfuncional complexifica, restringem-se os espaços para brincar dentro da residência: em cima da cama, no berço dele. Essas modificações/limitações espaciais são oriundas da preocupação dos pais, pois os mesmos creem ser preciso redobrar os cuidados para que a criança não sofra quedas e não se machuque, o que pode provocar uma exacerbação dos sinais e sintomas e piorar o quadro disfuncional. A prioridade, agora, para essas crianças e suas famílias é adaptar-se às suas limitações físicas, alimentares e seguir o curso de sua socialização. (CHARROM PROCHOWNIK, 2002). A contribuição da fisioterapeuta é destacada no interdiscurso da cuidadora, quando enuncia sobre aquela cadeira que a fisioterapeuta deu, e sua contribuição para modificar o cuidado habitual no banho, anteriormente discutida. A fisioterapeuta influenciou ainda no brincar e na brincadeira em família, pois para poder brincar com a criança, a cuidadora coloca os brinquedos dele no berço, observa as suas preferências, seu gosto pela brincadeira, pelo lúdico e interage com o meio e diverte-se. 84 As contribuições dos profissionais de saúde não se limitaram apenas as modificações com o material utilizado ou com o mobiliário: Ele teve uma alergiazinha a própria baba dele. Era uma alergia a própria baba dele. Ele (a criança) estava cheio de bolinha devido a brotoeja. Ficava tudo empolado, cheio de bolinha, eu perguntei pro médico. Nossa, eu procurei médico, pra descobrir o que era isso. Ele falava que isso era uma alergia da própria baba dele. A baba ainda continua, mas, não tanto. Ele (criança) mesmo levanta a cabeça. Ele segura lá na cadeira e puxa a cabeça quando está pendurada (mãe explicando como a criança faz). É por causa da baba dele! Ainda a pomada que o médico passou. Era uma pomada rosa. Ela (médica) até falou que ele ia ficar mais pro lado da lesão. (A criança posicionaria mais para o lado onde ocorreu a lesão cerebral devido a hipóxia no parto) (Familiar cuidadora, mãe de D.). Ele (a criança) só melhorou mesmo (do processo alérgico), depois do remédio. Mas depois que começou a sustentar mais o pescoço dele. Devido à ele estar muito parado numa posição. Aí, cair só naquilo! A gente teve que manter sempre a cabeça dele mais erguida, tirar ele dessa posição. Sempre teve que trabalhar isso. (Ele, a criança) tava ainda muito molinho, ainda.> (Pai fala que a criança ainda não tinha sustentação de cabeça e pescoço) (Familiar, cuidador, pai de D.). A sialorréia intensa, a falta de sustentação da cabeça e do pescoço acarretaram lesões de pele na criança; uma situação limite que mobilizou a família para buscar ajuda médica e incorporar o cuidado de manter sempre a cabeça mais erguida, tirar ele dessa posição queixo-tórax. A prescrição médica juntamente com a sustentação do pescoço levou a melhora desse quadro da criança porque ela possuía conteúdo vivencial e atendia uma demanda motivada pela cuidadora. A situação de massagem do corpo foi um dos cuidados incluídos pelos familiares na produção artística. Massagear o corpo dele. A doutora (médica que acompanha a criança) mandou só eu massagear ... nas dobras (articulações). Ela disse que quando abre as dobras (articulações) ajuda ele não ter câimbra. Eu preciso fazer, mas às vezes eu esqueço... não dá tempo! É muito difícil eu tá fazendo isso, porque deve doer ...é pros tendões dele alongar, esticar... Na hora de massagear, ele deixa, mas depois tem que esticar. Na verdade, tem que esticar e empurrar como se tivesse encaixando alguma coisa. Não sei por que, mas ela manda massagear os tendões. É isso? Igual quando você acorda assim, e vai se espreguiçar? Ele não deixava, ele sentia muito. Tá meio travado e dói.../ Pra fisioterapia, ou de qualquer outra atividade (Familiar cuidadora, mãe de D.). A ferramenta do interdiscurso na voz da médica mostra o processo de orientação do familiar cuidador para massagear os tendões da criança. Existiu uma orientação vertical marcada no enunciado a doutora mandou que conflita com o fato de ser muito difícil para ela (a cuidadora) fazem. A ausência de conteúdo vivencial foi ressignificado como ordem. Por outro lado, a inexistência de um processo dialógico não favoreceu a 85 incorporação de uma prática de cuidado tão importante para promover a amplitude de movimento articular e prevenir o enrijecimento articular. Assim a familiar cuidadora não realiza o cuidado prescrito pela médica, pois não compreende a sua real necessidade e utilidade na vida da criança. A profissional não reconheceu a realidade concreta da família, ao orientar sobre o cuidado sem o entendimento dos limites e possibilidades da família seguir as orientações. Os familiares cuidadores dessas crianças esperam uma relação com o profissional de saúde baseada na negociação e na confiança mútua, essa aliança estabelecida entre familiares e profissional auxilia a família nos cuidados novos e complexos demandados por uma criança com necessidade especial de saúde no domicílio (THORNE, ROBINSON, 1989). A familiar cuidadora sabe como fazer e para que servem as massagens, mas não incorporou o aprendizado, porque não entendeu a importância de realizá-las: não sei por que, mas ela (a médica) manda. O processo dialógico é importante na mediação dos saberes entre os profissionais e os familiares cuidadores; quando existe falha, a família não incorpora os conhecimentos e busca novas alternativas para cuidar das suas crianças. Assim, a cuidadora de JP. relata sua experiência quando questionada pela pesquisadora: Nossa! Ela reproduz um diálogo que teve com uma profissional de saúde: „Quem ensinou você dar banho nele?‟. Digo: „Ninguém. Você não teve essa aula? Respondi: Não. E quem te ensinou a vestir ele? Eu falei: Ninguém. Ué!? Mas, não. Ninguém nunca me ensinou que tinha que dar banho nele diferente. Ninguém nunca me falou que eu tinha que mudar a roupa dele, tirar a roupa dele de modo diferente. (Interdiscurso da mãe de JP, resgatando o diálogo com uma profissional de saúde) (Familiar cuidadora, mãe de JP). As ausências de orientações profissionais e de acompanhamento ficam evidentes no discurso da cuidadora de JP. que resgata o diálogo com um profissional de saúde quando conversaram sobre os cuidados como o banho e o vestir. A ausência da enfermagem seja nas ações educativas ou cuidativas tem reflexo direto na participação do familiar no cuidado prestado a essa CRIANES no domicílio. E foi comprovada no estudo de Pinto (2005) que 7,8% das famílias recebiam seguimento de enfermagem para cuidar de suas crianças em casa, denotando uma aparente 86 inexpressividade da enfermagem na rede social de atendimento à criança em reabilitação. Essa inexpressividade também fica evidente no estudo de Gavazza et al. (2008), completando que a maior procura de atendimentos para suprir as demandas dessas CRIANES no serviço de reabilitação ainda voltam-se para a recuperação funcional. No tratamento de reabilitação, o profissional mais utilizado no acompanhamento é o fisioterapeuta e a assistência de enfermagem regular encontra-se em uma pequena parcela. 87 CAPÍTULO IV 88 4. As interfaces das demandas de cuidados habituais modificados de CRIANES com os saberes de Enfermagem Os desafios emergentes das experiências dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde foram o ponto inicial do desvelamento de diversos desafios e modos de superação para se realizar os cuidados no domicílio. Assim, compreendemos, a partir das vozes dos familiares cuidadores que muitas situações conflitantes são enfrentadas por eles e suas crianças, com a intenção de garantir a sobrevivência. Existe uma busca incessante por formas de superação das dificuldades, e esta busca é um caminho tortuoso experienciado pelos familiares cuidadores, e muitas vezes invisível aos olhos dos profissionais de saúde ao desenvolver a educação em saúde ou prepará-los para a alta domiciliar. O enfrentamento de familiares cuidadores ao realizar cuidados cotidianos foi marcado por inúmeras situações desafiantes, limítrofes e registrada na temporalidade do curso da necessidade especial de saúde na vida da criança. As dificuldades não tinham um aspecto pontual, era um processo que se iniciou com o nascimento da criança. O impacto da materialização de um filho tão esperado ser uma criança especial marcou a trajetória da mãe cuidadora, causando choque e medo para tocar naquele pequeno corpo tão diferente do desejado. Ao contextualizar as condições de produção dos discursos dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde, compreendemos que a formação discursiva é fortemente marcada pelo seu lugar social, contemplando a trajetória das necessidades especiais de saúde, entendendo quem são esses cuidadores, quais os tipos de cuidados que realizam e quanto tempo permanecem nessa atividade de interação com a criança. A figura feminina vinculada ao cuidado dessas crianças destaca-se no conjunto de todos os cuidadores. A presença das mães, tias e avós soma-se a do pai, se envolvendo diretamente com o cuidado com seu filho, indo muito além do papel de provedor financeiro, e por vezes estimulando a mãe cuidadora a reassumir seu lugar de mulher. A natureza das necessidades especiais de saúde dessas crianças está intimamente ligada às condições de gestação, parto e nascimento, por causas perinatais congênitas ou adquiridas. Microcefalia, hidrocefalia, hipóxia, anóxia, sofrimento fetal estão entre os 89 motivos que levaram a criança a permanecer internada um uma unidade de terapia intensiva neonatal em média por 57 dias. A unidade de terapia intensiva é um ambiente novo e pouco acolhedor para o familiar cuidador, que inserido nesse meio se depara com a complexidade dos cuidados que sua criança necessita. Essa criança tão desconhecida até então, causa choque e um sentimento de incapacidade que podem levar a dificuldade da mãe em aproximar-se dela, tocá-la e criar vínculos afetivos. Diante dessa apatia, a mulher se cobra como mãe, por não conseguir cumprir o papel de “boa mãe”. Superado o primeiro impacto da UTI, os desafios agora estavam relacionados ao manejo da tecnologia incorporada no corpo da criança, a sonda de gastrostomia e a traqueostomia, e superar a falta de habilidade para manipular aqueles dispositivos. O corpo da criança modificado não assustou tanto quanto a grande quantidade de informações e conhecimentos necessários para lidar com a tecnologia fundamental para a manutenção da vida da criança. A alta hospitalar da criança trouxe sentimentos conflitantes, a felicidade de retornar ao lar e o medo de ser responsável pelo cuidado daquela criança. A alimentação da criança era diferente. A escolha dos alimentos, sua forma de preparo e como administrá-los pela boca e pela sonda impuseram desafios iguais e diferentes. A experiência e segurança no manejo incorreram em inúmeras situações desafios que chegaram a uma situação limite para a mãe, que se tornou tão experiente que foi capaz de transmitir o conhecimento para outro profissional sem experiência de interagir com crianças parecidas com uma criança com necessidade especial de saúde. A baixa escolaridade e a baixa renda também foram características da população estudada. Considerando o elevado custo para se manter uma criança com necessidades especiais de saúde, essas famílias fazem milagres com o seu orçamento doméstico. O vínculo aos programas sociais, basicamente restringe-se ao Passe livre e ao benefício da prestação continuada da seguridade social (para uma criança) que facilita o deslocamento da criança no cumprimento da sua agenda de atendimentos de saúde. O desafio do deslocamento da criança pelo seu familiar cuidador, apresentou três tipos de situação: a situação existencial, com a questão da mobilidade física prejudicada da criança; a situação limite, tratando da locomoção e a situação superação, envolvendo as questões de acessibilidade. Para superar as questões de mobilidade física prejudicada a cuidadora necessitava de ajuda e por muitas vezes limitava as saídas com a criança, isolando-se 90 em seu mundo familiar e privando a criança das relações com o meio social. A locomoção envolveu instrumentos, como cadeiras de rodas, carrinhos e a dificuldade em utilizar os meios de transportes públicos. A acessibilidade foi relatada como a facilidade com que se pode atingir um determinado local a partir de outro, incluindo as questões de estrutura física e organizacional. O acesso facilitado era primordial para as famílias, mesmo que isso significasse percorrer uma distância maior. O cuidado normal apresentou um sentido duplo e contraditório no discurso dos familiares cuidadores, demonstrando assim o caráter conflitante peculiar das experiências de cuidado na vida dessas crianças e suas famílias. As transformações que ocorrem durante a infância, seu crescimento e desenvolvimento, bem como as transformações que se impõem sobre o modo de as famílias cuidarem. O sentido de ser normal é comum às crianças em geral, de qualquer idade, o de ser igual a qualquer criança, durante a fase de bebê; o de ser diferente é devido à necessidade especial que essa criança possui, na medida em que cresce. Assim, as famílias agregam ao seu modo de cuidar conhecimentos que não são do senso comum, a complexidade da criança exige um aprimoramento na forma de cuidá-la, dessa forma o cuidado diferente surge e é superado. A normalidade também recebeu o sentido de facilidade, quando o cuidado se aproxima ao das crianças em geral, tem caráter mais fácil na sua realização; por sua vez, o distanciamento das características de crianças sem necessidades especiais de saúde, o cuidado assume uma natureza mais complexa, caracterizando mais um sentido dual da normalização. Para alcançar a facilidade e a normalização dos cuidados, os familiares cuidadores implementam um processo de testagem de diferentes formas para resolver os impasses surgidos na trajetória do cuidar da sua criança, aplicando o cuidado de forma empírica e observando os resultados. Todo esse processo é repetido inúmeras vezes até que atinja um resultado satisfatório e atenda a necessidade da criança, fazendo com que os cuidadores acumulassem experiências e aprendizagem mediadas pelas tentativas acerto-erro. A experiência construída ao longo do tempo como cuidador e cuidadora de uma criança com necessidades especiais, por vezes é tão automática e ao menos tempo tão particular. O familiar cuidador está tão imerso, integrado, que para refletir sobre a sua própria realidade precisa se deparar com situações desafiantes, mesmo que estas não tenham origem em si próprio, mas estejam relacionadas a sua criança. Dessa forma, na 91 medida em que a família modifica os cuidados, tornando-os automatizados, novas singularidades se interpõem na trajetória do crescimento e desenvolvimento da criança. No movimento de incorporação do saber aprendido com o profissional no cuidado cotidiano, os familiares cuidadores interagem com os profissionais de saúde. Nessa interação entre o conhecimento científico ou a prática clínica e a necessidade emergente de formas de cuidar dos familiares, a existência do diálogo é determinante para sua aceitação, incorporação e utilização desse conhecimento científico no cuidado cotidiano pelos familiares. Quando o profissional partia da ideia de que o seu conhecimento científico era soberano e certo, se estabeleceu uma relação vertical, caracterizada pela imposição das “orientações”. Assim, o familiar relata que existe o cuidado diferente, entretanto não aplicou e não incorporou no cotidiano, pois ele não entende a sua utilidade. Uma relação dialógica desses profissionais de saúde e os familiares cuidadores minimiza consideravelmente as situações desafios no cuidado enfrentadas ao longo do tempo, e principalmente, elimina também as tentativas de erro e acerto. Cada profissional de saúde envolvido contribuiu com seu conhecimento para cada cuidado específico, como a utilização de rolha de vinho para auxiliar a higiene oral orientado pela dentista, a utilização de uma cadeira adaptada para manter a criança posicionada durante a brincadeira, orientado pela fisioterapeuta. A ausência da enfermagem no discurso dos familiares, das orientações de enfermagem na reabilitação se reflete nas situações desafios vividas por esses familiares e suas crianças nos cuidados do cotidiano, que se encontram fundamentados no saber científico. O discurso dos familiares cuidadores caracterizou a demanda de cuidados habituais modificados, achado significativo nesse estudo, da maneira mais cruel, diante da necessidade iminente de atender os cuidados cotidianos dos seus filhos, passando por experiências tortuosas e tornando-se expertises no cuidado. Entretanto, não podemos ignorar como essas familiares normalizam as suas vidas com as suas crianças, encontrando modos e formas de ajustamento da vida às demandas da condição crônica ou minimizar as diferenças entre suas próprias vidas e as dos outros. E mesmo com todas as dificuldades e desafios a serem superados não deixam de enfatizar os aspectos particulares da vida familiar, como o lazer, os momentos em família, entre outros. Essas famílias não negam a condição de suas crianças, mas tentam adotar uma lente específica para a sua realidade, com esquemas, tratamentos, planejamentos, comportamentos, modelos explicativos e rotinas 92 desenvolvidos de forma a serem compatíveis com a normalidade e alicerçados no saber da experiência feita e no encontro com o saber dos profissionais. Os limites do estudo encontram-se na dificuldade de realizar as dinâmicas com todos os familiares cuidadores envolvidos nos cuidados de crianças com necessidades especiais que participaram das dinâmicas, uma vez que muitos encontravam-se trabalhando no horário possível para o desenvolvimento das dinâmicas. Além de não ter sido possível desenvolver dinâmicas com os cuidadores que não pertenciam ao âmbito familiar, como a educadora infantil, vizinhos e amigos. Como implicações do estudo comprovam a grande lacuna existente no campo da Enfermagem, a enfermagem de reabilitação infantil. A família e as crianças necessitam de um acompanhamento contínuo na intenção de minimizar as complicações surgidas em cada período da vida da criança. O cuidado prestado pelo enfermeiro na reabilitação é de extrema importância, nas orientações dos cuidados realizados no domicílio, na negociação dos saberes de enfermagem e os saberes advindos da prática do cuidador; na prevenção de agravamento do quadro clínico, evitando o processo de tentativas de erro e acerto; no apoio às famílias que se encontram sem referências de cuidado. Diante das experiências dos familiares cuidadores de crianças com necessidades especiais de saúde, a implementação de um atendimento de enfermagem de reabilitação deve partir da realidade da família cuidadora, incluindo a trajetória da necessidade especial de saúde dessa criança, da bagagem de conhecimentos acumulados dos familiares cuidadores e da real demanda que eles exigem, em um processo dialógico indo além do espaço físico do ambulatório. 93 REFERÊNCIAS 1. AGUIAR, R.C.B. Saberes e práticas de familiares cuidadores no cuidado à criança em terapia anticonvulsivante: o processo de produção do almanaque. [Dissertação]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2005. 2. ALVIM, N. A. T. Práticas e saberes sobre o uso das plantas medicinais na vida das enfermeiras: uma construção em espiral. 1999. 164f. Tese (Doutorado em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999. 3. ALVIM, N. A. T; CABRAL, I.E. Saberes e práticas de enfermeiras sobre plantas medicinais: um exercício de análise com categorias bakhtianas. Acta Paul. Enf. Vol. 17, n.1, jan/mar.2004 4. AMARAL, P.N.; POMATTI, D.M.; FORTES, V.L.F.F. Atividades físicas no envelhecimento humano: uma leitura sensível criativa. RBCEH, Passo Fundo. Vol. 4, n. 1, p. 18-27, jan./jun. 2007. 5. ARANDA,D.L. As dimensões do cuidado a criança: um diálogo entre famílias e equipe de saúde na comunidade.2003. 136p.Tese (Doutorado em Enfermagem), Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. 6. ASPERHEIM, M.K. Farmacologia para Enfermagem. 11a ed., Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. 7. ATKINSON, L.D.; MURRAY, M.E. & Cols. Fundamentos de Enfermagem. Rio de Janeiro. Editora Guanabara Koogam S.A. 1989. 8. AURÉLIO, S.R.; GENARO, K.F.; MACEDO FILHO, E.D. Análise comparativa dos padrões de deglutição de crianças com paralisia cerebral e crianças normais. Ver Bras Otorrinoloringol. Vol.68, n.2, 167-73, mar./abr.2002. 9. BALLING, K.; MCCUBBIN, M. Hospitalized children with chronic illness: parental caregiving needs and valuing parental expertise. Journal of Pediatric Nursing. Vol.16, n.02, apr, p.110-119, 2001. 10. BERGOLD, L.B.; ALVIM, N.A.T. A música terapêutica como uma tecnologia aplicada ao Cuidado e ao ensino de enfermagem. Esc Anna Nery Rev Enferm.Vol.13, n. 03, jul-set, p. 537-42. 2009 11. BERGOLD, L.B.; ALVIM, N.A.T.; CABRAL, I.E. O lugar da música no espaço do cuidado terapêutico: sensibilizando enfermeiros com a dinâmica 94 musical. Texto Contexto Enferm, Florianópolis. Vol.15, n.2., Abr-Jun, p.2629.2006. 12. BOND, P.R. Family centered care at home for families with children who are technology dependent. Pediatric Nursing. vol.20, p.389-398, 1994. 13. BRASIL. Constituição Federal de 1988. Presidência da República. Disponível: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao . Último acesso em: 02 de dezembro de 2005. 14. _______. Lei nº 8069/90 Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069 de 13 de julho de 1990. Disponível: www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis . Último acesso em 02 de dezembro de 2005. 15. _______. Lei 8080/90 SUS. Minstério da saúde. Lei 8.080 de 19 de setembro de 1990. Disponível: www.cff.org.br/Legislação . Último acesso em 02 de dezembro de 2005. 16. ________. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde.Comissão Nacional de ética em Pesquisa. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa em seres humanos. Resolução Nº 196, de 10 de outubro de 1996. 2. ed. Ampl. Brasília, Ministério da Saúde, 1996. 64p. 17. _______, Ministério da Previdência e Assistência Social (Passe Livre). Lei nº 3167 de 2000. Lei Orgânica do Estado do Rio de Janeiro. 18. _______, Ministério da Saúde. Dez passos para uma alimentação saudável. Guia alimentar para crianças menores de 2 anos. Albúm seriado. Série A. Normas e manuais técnicos. Brasília, Ministério da Saúde, 2002. 23p. 19. _______, Decreto nº5296 de 2 de dezembro de 2004. Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20042006/2004/decreto/d5296.htm 20. BRUNHARA, F.; PETEAN, E.B.L. Mães e filhos especiais: reações, sentimentos e explicações à deficiência. Paidécia, FFCLRP-USP, Rib. Preto. P.31-40. Junho.1999. 21. CABRAL, I. E. Aliança de saberes no cuidado e estimulação da criançabebê: concepções de estudantes e mães no espaço acadêmico de enfermagem. Rio de Janeiro: Editora da Escola de Enfermagem Anna Nery, 1999a. 298 p. 22. ______________. O método criativo e sensível: alternativa de pesquisa na enfermagem. In: GAUTHIER, J.H.M.; CABRAL, I.E.; SANTOS, I.; TAVARES, C.M.M. (orgs). Pesquisa em enfermagem novas metodologias aplicadas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan,1999b . 95 23. ______________. Uma abordagem criativo-sensível de pesquisar a família. In: ALTHOFF, C.R.; ELSEN, I.; NITSCHKE, R.G. (orgs). Pesquisando a Família: olhares contemporâneos. Florianópolis (SC): Editora Papa-livros, 2004. 24. CABRAL, I. E.; CUNHA, S. R.; RODRIGUES, E. C. A enfermeira educadora e a aliança de saberes no cuidado a criança egressa da terapia intensiva. Relatório de Pesquisa CNPq. Rio de Janeiro. 2000. 78p. Disponível em http://www.eean.ufrj/nupesc. 25. CABRAL, I. E. et al. A criança egressa da terapia intensiva na luta pela sobrevida. Rev. Bras Enferm, Brasília (DF), v. 57, n. 1, p. 35-9, Jan/Fev, 2004. 26. CABRAL, I.E.; RODRIGUES, E.C. O método mãe canguru em uma maternidade do rio de janeiro 2000-2002: necessidades da criança e demanda de educação em saúde para os pais. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, Out-Dez, v. 15, n.4, p. 629-36, 2006. 27. CAMPOS, C.M.S.; MISHIMA, S.M. Necessidades de saúde pela voz da sociedade civil e do Estado. Caderno de saúde pública, v.21, n.4, p. 1260-1268, jul-ago, 2005. 28. CARNEVALE, F.A.; ALEXANDER, E.; DAVIS, M.; RENNICK, J.; TROINI, R. Daily living with distress and enrichment: the moral experience of families with ventilator- assisted children at home. Pediatrics, v. 117, n. 1, p 48-60. January, 2006. 29. CECÍLIO, L.C.C. As necessidades de saúde como conceito estruturante na luta pela integralidade e equidade na atenção em saúde. In: PINHEIRO, R. & MATOS, R.A. (orgs). Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS/UERJ – ABRASCO, 2001, p.113-126. 30. CHARROM-PROCHOWNIK, D. Special needs of the chronically III child during middle childhood: aplication of a stress-coping paradigm. Journal of Pediatric Nursing. Vol.17, n.6, december, p. 407-413, 2002. 31. CUNHA, S. R. A enfermeira educadora, as Marias e o José: tecendo a rede de saberes e práticas sobre o cuidado à criança dependente de tecnologia na comunidade. 2001. 152f. Tese (Doutorado em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. 32. CUNHA, S. R.; CABRAL, I. E. A enfermagem e as condições de vida da criança dependente de tecnologia: um desafio para o ato educativo problematizador. Revista da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras. São Paulo, v. 1, n. 1, dez., p. 71-79, 2001. 33. DE MOOR, J.; DIDDE, R.; NUIS, M., VAN DE VEN, G. Assessing needs for interdisciplinary team training in children's rehabilitation: a pilot study. Int J Rehabil Res, Jun, vol. 22, n. 2, p. 93-100, 1999. 96 34. DEATRICK, J. A.; KNAFL, K. A.; MURPHY-MOORE, C. Clarifying the concept of normalization. Journal of Nursing Scholarship, n.31, p. 209-214, 1999. 35. ELSEN, I. (Org). Marcos para a prática de enfermagem com famílias. Florianópolis: UFSC, 1994. 36. FARO, A.C.M. Enfermagem em Reabilitação: ampliando os horizontes, legitimando o saber. Rev Esc Enferm USP, vol. 40, n.1, p. 128 – 33, 2006. Disponível em www.eeusp.br/reeusp. 37. FLEMING, J. et al. Impact on the family of children who are tecnology dependent and cared for in the home. Pediatric Nursing. vol. 20, n. 4, July/Aug, p.379-388, 1994. 38. FONTES, C.A.S.; ALVIM, A.T. A relação humana no cuidado de enfermagem junto ao cliente com câncer submetido à terapêutica antineoplásica. Acta Paul Enferm. Vol. 21, n.1, p. 77-83. 2008 39. FRACOLLI, R.A.; ANGELO, M. A experiência da família que possui uma criança dependente de tecnologia. REME – Rev. Min. Enf. Vol.10, n.2, abr./jun, p.125-131, 2006. 40. FREIRE, P.Conscientização: Teoria Paulo:Moraes, 1980.102p. e pratica da Libertação. São 41. _____. Pedagogia do oprimido. 12ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. 42. FURTADO, M.C.C.;LIMA, R.A.G. O cotidiano da família com filhos portadores de fibrose cística: subsídios para a enfermagem pediátrica. Rev Latino-am Enfermagem. Vol. 11, n.1, janeiro-fevereiro, p.66-73, 2003. Disponível em www.eerp.usp.br/rlaenf. 43. GABATZ, R.I.B.; NEVES, E.T.; BEUTER, M.; PADOIN, S.M.M. O significado de cuidado para crianças vítimas de violência intrafamiliar. Esc Anna Nery Rev Enferm. Vol.14, n.01, jan-mar, p.135-42, 2010. 44. GAVAZZA, C.Z.; FONSECA, V.M.; SILVA, K.S.; CUNHA, S.R. Utilização de serviços de reabilitação pelas crianças e adolescentes dependentes de tecnologias de um hospital materno-infantil no Rio de Janeiro, Brasil. Caderno de Saúde Pública. Rio de Janeiro. v.24, n.5, mai, p.1103-1111,2008. 45. GEORGE, J.B. Teorias de enfermagem: fundamentos para a prática profissional. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. 46. GOMES, A.M.T. Silêncio, silenciamento e ocultamento na terapia antiretroviral: desvelando o discurso de cuidadores de crianças. 2005. 204f. Tese (Doutorado em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, 97 Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005. 47. GOMES, A.M.T. O desafio da análise de discurso: os dispositivos analíticos na construção de estudos qualitativos. R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, out/dez, v.14, n.4, p.620-6, 2006. 48. GOMES, A.M.T.; CABRAL, I.E. Entre a dose e volume: o princípio da matemática no cuidado medicamentoso à criança HIV positiva. Rev. Enferm. UERJ, jul/set, v.17, n.3, p. 332-7, 2009a. 49. GOMES, A.M.T.; CABRAL, I.E. O cuidado medicamentoso à criança com HIV HIV: desafios e dilemas de familiares cuidadores. Rev Bras Enferm, Brasília mar/abril; 62(2): 252-7, 2009b . 50. GUILLET, S.E. Preparing student nurses to provide home care for children with disabilities: a strengths-based approach. Home health care management & practice. December 2002, p. 47-58. Disponível: www.portalcapes.gov.br/medline. Acessado em 21 de janeiro de 2003. 51. HOCKENBERRY, M.J.; WLISON, D.; WINKELSTEIN, M.L. Wong Fundamentos de Enfermagem Pediátrica. 7ªed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2006. 52. JERRETT, M. Parents’ experience of coming to know the care of chronically ill child. Journal of Advanced Nursing,vol.19, p. 1050-1056, 1994. 53. KAUFMAN, J. Case management services for children with special health care needs. A family-centered approach. Journal Case Manag. vol.1, n.2, summer, p.53-56, 1992. 54. LEAL, R. J. Os (des)caminhos dos cuidados às crianças com necessidades especiais de saúde no discurso das famílias: subsídios para uma política de seguimento. [Tese de doutorado]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2007. 55. LEITE, V.B.E.; FARO, A.C.M. O cuidar do enfermeiro especialista em reabilitação físico-motora. Rev Esc Enferm USP 2005; 39(1):92-6. 56. LEITE, N.S.L.; CUNHA, S.R. A família da criança dependente de tecnologia: aspectos fundamentais para a prática de enfermagem no ambiente hospitalar. Esc Anna Nery R Enferm, mar; v. 11, n. 1, p. 92 – 7, 2007. 57. LEITE, J.M.R.S.; PRADO, G.F. Paralisia cerebral aspectos fisioterapêuticos e clínicos. Revista Neurociências. Vol.12, no 1, 2004. 58. LIRA, B.Brava gente da Mangueira: a enfermagem desvendando o discurso de jovens sobre o cuidar de bebê prematuro na adolescência. 2005. 124f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, 98 Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005 59. McPHERSON, M.; ARANGO,P.; FOX, H.; LAUVER, C.; McMANUS, M.; NEWACHECK, P.W.; PERRIN, J.M.; SHONKOFF, J.P.; STRICKLAND, B. A new definition of children with special health care needs. Pediatrics. vol 102, n. 01, July, p.137-140,1998. 60. MEDEIROS, Liz C. M. As plantas medicinais e a enfermagem: a arte de assistir, de curar, de cuidar e de transformar os saberes. 2001. 165f. Tese (Doutorado em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. 61. MENTRO, A.M. Health care policy for medically fragile children. Journal of Pediatric Nursing. vol.18, n.04, August, p.225-232, 2003. 62. MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento. 2 ed. São Paulo- Rio de Janeiro: HUCITEC- ABRASCO, 1993. 296p. 63. MONTAGNINO, B.A; MAURÍCIO, R.V. The child with a tracheostomy and gastrostomy: parentela stress and coping in the home- A pilot study. Pediatric Nursing Setembro; vol.30, n. 5, 2004. 64. MORAES, J. R. M. M O diálogo da enfermagem com as famílias de crianças egressas da terapia intensiva neonatal: desvendando o universo temático. 2003.178p. Dissertação (Mestrado em Enfermagem), Escola de Enfermagem Anna Nery, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. 65. MOTTA, M.G. Cuidado humanizado no ensino de enfermagem. Rev Bras Enferm, Brasília (DF). Vol 57, n. 6, nov/dez, p.758-60. 2004. 66. NATIONAL CENTER ON FINANCING FOR CHILDREN WITH SPECIAL HEALTH CARE NEEDS, Chart Book: CSHCN in Medicaid, SCHIP, and Title V, p.7, 2004. 67. NEVES, E.T.; CABRAL, I.E. A fragilidade clínica e a vulnerabilidade social das crianças com necessidades especiais de saúde. Rev Gaúcha Enferm., Porto Alegre (RS) jun; v.29, n.2, p.182-90, 2008a. 68. NEVES, E.T.; CABRAL, I.E. Empoderamento da mulhae cuidadora de crianças com necessidades especiais de saúde. Texto Contexto Enferm, Florianópolis. Vol. 17, n.3,. jul-set, p. 552-60. 2008b. 69. NORTH AMERICAN NURSING DIAGNOSIS ASSOCIATION. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA. Definições e classificação 1999-2000. (Trad. Jeanne Liliane M. Michel). Porto Alegre: ARTMED, 2000. 99 70. NORTH AMERICAN NURSING DIAGNOSIS ASSOCIATION. Nursing diagnosis: definitions & classification 1995-1996. Philadelphia, NANDA, 1994. 71. OTA/USA (Office of Technology Assessment/United States of America), 1987. Neonatal Intensive Care for Low Birthweight Infants Costs and Effectiveness. Washinghton, D.C.: Government Printing Office 72. O‟BRIEN, M.E. Living in a house of cards: family experiences with longterm childhood technology dependence. Journal of Pediatric Nursing, vol. 16, n. 01, february, p. 13-22, 2001. 73. O'NEIL, M.E.; COSTIGAN, T.E.; GRACELY, E.J.; WELLS, N. Parents' perspectives on access to rehabilitation services for their children with special healthcare needs. Pediatr Phys Ther, vol. 21, n. 3, p. 254-60, 2009. 74. ORLANDI, E. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas (SP): Pontes; 2005. 75. PACHECO, S.T.A.; CABRAL, I.E. A alimentação do bebê de baixo peso no domicílio: Enfrentamentos da família e desafios para a Enfermagem. Esc Anna Nery. Vol.15, n. 02, abr –jun, p. 314-322. 2011. 76. PADILHA,P.P., ANTUNES, A. O eu e o outro compartilhando diferenças, construindo identidades. Disponível em: http://www.futuroeducacao.org.br/biblio/o_eu_e_o_outro.pdf Último acesso em 03 de março de 2010. 77. PINTO, J.M.S. Crianças com necessidades especiais de saúde de um serviço de reabilitação: configuração da rede social em saúde e a demanda de cuidados. 69p. 2005. Monografia (Graduação em Enfermagem). Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 78. PITANGA, F.S.M.; SIMÃO, R.C.A. Compreendendo a reabilitação: visão de uma equipe interdisciplinar. O Mundo da Saúde, vol. 25, n. 4 , p. 355-7, 2001. 79. RAY, L.D; RITCHIE, J.A. Caring for chronically ill children at home: Factors that influence parebts’ coping. Journal of Pediatric Nursing, vol.8, p. 217-225, 1993. 80. REHM, R. S.; BRADLEY, J. F. Normalization in families raising a child who is medically fragile/technology dependent and developmentally delayed. Qualitative health research, vol. 15, No. 6, p. 807-820, July 2005. 100 81. RESTA, D.G.; MOTTA, M.G.C. Compreendendo o adolescer empregando o Método Criativo e Sensível: uma possibilidade de pesquisar em enfermagem. Revista Gaúcha de Enfermagem, vol. 28.No.2, p.283-90.2007. 82. RODRIGUES, E. S. Conhecer para cuidar: o desafio dos pais do bebê prematuro na educação dialógica intermediada pela enfermeira. 2000. 166p. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro. 83. SANTOS, A C. O cateter epicutâneo no cotidiano do cuidado de Enfermagem à criança crítica: Limites e desafios para a pratica autônoma.2002, p.160 Dissertação (Mestrado em Enfermagem)Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002. 84. SANTOS, R.S.; DIAS, I.M.V. Refletindo sobre a malformação congênita. Rev Bras Enferm. Vol. 58, n. 5, set-out, p.592-6.2005. 85. SCHERMANN, L.; BRUM, E.H.M. Vínculos iniciais e desenvolvimento infantil e: abordagem teórica em situação de nascimento de risco. Ciência & Saúde Coletiva, Vol. 9, n.2, p.457-467, 2004. 86. SIKLOS, S.; KERNS, K. A. Assessing the diagnostic experiences of a small sample of parents of children with autism spectrum disorders. Developmental Disabilities Research in, v.28, n.1, p. 9–22, 2006. 87. SINGER, L.; DROTAR, D. Psychological practice in a pediatric rehabilitation hospital. J Pediatr Psychol, Dec, vol. 14., n. 4, p. 479-89, 1989. 88. SPIRI, W. C. Trabalho em equipe: o vivencial da equipe de reabilitação na fissura lábio-palatal [Tese de doutorado]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo; 2001. 89. SOUZA, R.; DIAS, A.; SCATENA, M.C.M. Reabilitação: uma análise do conceito. Nursing, vol.4, n.34, p. 26-30, 2001. (Edição brasileira). 90. SOUZA, M. H. do N.A mulher que amamenta e suas relações sociais: uma perspectiva compreensiva de promoção e apoio. 2006,156p. [Tese de doutorado]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. 91. VERNIER, E.T.N. O empoderamento de cuidadoras de crianças com necessidades especiais de saúde: interfaces com o cuidado de enfermagem. 2007, 173p.[Tese de doutorado]. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro,Rio de Janeiro, 2007. 92. VIEIRA, M.A; LIMA, R.A.G. Crianças e Adolescentes com Doença Crônica: convivendo com mudanças. Revista Latino-Americana, vol. 10, n.4, p. 552560; 2002. 101 93. VIVONE, G.P.; TAVARES, M.M.M.; BARTOLOMEU, R.S.; NEMR, K.; CHIAPPETTA, A.L.M.L. Análise da consistência alimentar e tempo de deglutição em crianças com paralisia cerebral tetraplégica espástica. Rev CEFAC, São Paulo. Vol.9, n.4, p. 504-511, out-dez, 2007. 94. THORNE, S.; ROBINSON, C. Guarded alliance: Health-care relationships in chronic illenss. Journal of Nursing Schoolarship, n. 21, p. 153-7, 1989. 95. TRIVIÑOS, A.N.S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas; 1987, 1987.174p. 96. WOOD, G.L.B.; HABER, J. Pesquisa em Enfermagem. Métodos, avaliação crítica e utilização. 4ªed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001. 102 ANEXO A – Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa 103 ANEXO B – Carta de Aprovação de inclusão de cenário de pesquisa 104 ANEXO C – Ata de Aprovação da Defesa de Dissertação de Mestrado 105 APÊNCIDE A UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ESCOLA DE ENFERMAGEM ANNA NERY PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ENFERMAGEM NÚCLEO DE PESQUISA EM ENFERMAGEM EM SAÚDE DA CRIANÇA PROJETO CRIANES 2 - “Crianças com Necessidades Especiais de Saúde configuração do universo temático na educação dialógica da Enfermagem” TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PESQUISADORA: Enfermeira Joelma Maria da Silva Pinto ORIENTADORA: Dra Ivone Evangelista Cabral PESQUISA: “As experiências dos familiares cuidadores na realização dos cuidados de crianças com necessidades especiais de saúde em processo de reabilitação”. Eu, Joelma Maria da Silva Pinto, mestranda em enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, estou desenvolvendo a pesquisa “Os cuidados habituais modificados de crianças com necessidades especiais de saúde e possibilidades de educação dialógica da enfermagem” com objetivos: a) Delimitar as situações demarcadoras das experiências dos familiares cuidadores na realização dos cuidados de crianças com necessidades especiais de saúde em processo de reabilitação. b) Contextualizar os saberes e as práticas aplicados e gerados a partir da experiência de cuidado dos familiares, quando no ambiente do domicílio. c) Analisar as experiências e suas implicações na constituição de um corpus tipificador dos cuidados habituais modificados para crianças com necessidades especiais de saúde em processo de reabilitação. Acerca dos encontros Gostaria de ter a oportunidade de me encontrar com você, junto com outros familiares de crianças que também frequentam o ambulatório. Realizaremos encontros onde acontecerão as Oficinas de Cuidados todos acontecerão em dias distintos. Eles acontecerão na sua residência, pois é silenciosa, aconchegante e privativa. Este encontro será marcado no dia de sua preferência, assim não atrapalhando a sua rotina. Em cada encontro você terá oportunidade de dividir suas vivências e experiências no cuidar de seu filho com outros familiares que estão vivendo situação semelhante a sua. Acerca das oficinas de cuidado As Oficinas ocorrerão em grupo, com debates e atividades conduzidas por músicas, filmes, recorte e colagem, desenho e teatro acerca das estratégias que você usa para cuidar do seu filho em casa. Durante o seu desenrolar você terá uma participação ativa, de modo a não ficar cansativo. O que nós queremos é promover um debate sobre o cuidado a criança no dia-a-dia. Da participação na Pesquisa Sua participação na pesquisa é voluntária. Você pode optar em não participar ou pode decidir que não quer mais continuar participando, em qualquer momento, sem nenhum prejuízo para você ou para seu filho. É importante lembrar que não haverá nenhuma dificuldade na continuidade do atendimento prestado a você ou ao seu filho. Ou seja, caso não deseje participar da pesquisa ou desista de sua participação em algum momento, é assegurado à continuidade do atendimento de seu filho. Acerca das informações fornecidas As informações fornecidas, por você sob a forma de filmagens, gravação em aparelho MP4, desenhos, fotografias e falas (conversas) serão usadas para fins desta pesquisa e da pesquisa do projeto CRIANES com o propósito de levantar informações que respondam as perguntas anteriormente explicadas. Elas não serão utilizadas para fins 106 comerciais ou uso inadequado de sua imagem e voz. Seu nome e/ou de seu filho não será identificado, entretanto, você poderá indicar um apelido/ pseudônimo/ nome de fantasia que me permita separar o seu depoimento do depoimento de outras pessoas. Somente manteremos na pesquisa os saberes que você concordar que permaneça. Essas informações ficaram guardadas durante 5 anos. Acerca dos Benefícios A sua participação e contribuição poderão trazer ou não benefícios diretos para a sua criança, já que se tratam de encontros grupais com troca de conhecimentos, vivências e experiências. Acerca do contato com o pesquisador No caso seja necessário falar comigo, você poderá fazer uma ligação a cobrar, e estarei disponível para atendê-lo pelos telefones: (21) 78326739 e (21) 31730480. Joelma Maria da Silva Pinto Mestranda em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ Eu, ___________________________________, responsável legal pela criança ______________________________________________, após receber explicações da pesquisadora Joelma Maria da Silva Pinto autorizo o registro e utilização das nossas conversas, gravações, fotografias e desenhos para fins desta pesquisa, de forma que garanta o anonimato. Esses encontros acontecerão na minha residência. Caso eu não concorde em participar da pesquisa, não haverá nenhum prejuízo na assistência prestada à mim ou ao(a)meu(minha) filho(a) no ambulatório. Os resultados desta pesquisa serão utilizados apenas com finalidade científica. Rio de Janeiro/RJ ___, __________________ de 2011. Assinatura do responsável: ______________________________________ Assinatura da pesquisadora: _____________________________________ *Uma cópia deste documento será guardada pela pesquisadora e a outra ficará com o responsável que autorizou a participação na pesquisa. Foi desenvolvido respeitando a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. 107 108