PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL Centro de Análises Econômicas e Sociais (caes-PUCRS) Relatório de Pesquisa INFÂNCIA E VIOLÊNCIA: Cotidiano de crianças pequenas em favelas do Rio de Janeiro Morro dos Macacos COORDENAÇÃO Prof. Dr. Hermílio Santos Financiado por Fundação Bernard van Leer Parceria com Núcleo de Estudos e Projetos da Cidade (Central/PUC-Rio) Porto Alegre, Julho de 2013 2 Equipe de Pesquisa Coordenação: Prof. Dr. Hermílio Santos (caes-PUCRS) Pesquisadores: Prof. Dr. Adelar Fochezatto Prof. Dr. Paulo Jacinto Dra. Patrícia Oliveira M.Sc. Celina de Pinho Barroso M.A. Marcos Quadros Psic. Priscila Queirolo Susin Assistentes: caes-PUCRS Luana Barbosa Anne Briscke Anna Veiga Central/PUC-Rio Francicleo Castro Ramos (Coordenação de Campo) Laura Braga Rossi Tatiana dos Santos Araújo Mariana Lopes Heleno Yara Henriques de Azevedo Pereira Fernanda Antunes Lopes Tadeu Nascimento Pedro Gabriel Holliver Souza Costa Leonardo dos Santos Marinho Rhayane Rodrigues Consultoras Externas Profa. Dra. Gabriele Rosenthal (Universität Göttingen) Profa. Dra. Bettina Völter (Alice-Salomon Hochschule Berlin) Profa. Dra. Michaela Köttig (Fachhochschule Frankfurt am Main) M.A. Rosa-Maria Brandhorst (Universität Göttingen) 3 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................7 2 APRESENTAÇÃO DA COMUNIDADE MORRO DOS MACACOS ....................................10 2.1. UM POUCO DE HISTÓRIA ..............................................................................................................12 2.2. SAÚDE NA COMUNIDADE .........................................................................................................13 2.3. EDUCAÇÃO NA COMUNIDADE ..................................................................................................14 2.4. SEGURANÇA NA COMUNIDADE ....................................................................................................14 3 PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS DA COMUNIDADE E REPRESENTANTES DE INSTITUIÇÕES ATUANTES NO MORRO DOS MACACOS ......................................................19 3.1. SÍNTESE DOS ARGUMENTOS DE LIDERANÇAS DE INSTITUIÇÕES QUE ATUAM NA COMUNIDADE (STAKEHOLDERS): ..............................................................................................................................19 3.1.1. Análise dos argumentos das lideranças das organizações que atuam na comunidade (stakeholders) .................................................................................................................................28 3.2. SÍNTESE DOS ARGUMENTOS DOS MORADORES ............................................................................30 3.2.1. Análise dos argumentos dos moradores...............................................................................39 4 VIOLÊNCIA E COTIDIANO NA PERCEPÇÃO DE ADULTOS E CRIANÇAS .................42 4.1. PERCEPÇÃO DOS ADULTOS ..........................................................................................................42 4.1.1. Violência em casa ...............................................................................................................43 4.1.1.1. Violência psicológica ...................................................................................................44 4.1.1.1.1. Gritar .....................................................................................................................44 4.1.1.1.1.1 Grupos de adulto ............................................................................................44 4.1.1.1.1.2. Idade da criança e frequência com que a mãe “grita” ...................................45 4.1.1.1.2. Colocar de castigo ................................................................................................46 4.1.1.1.2.1. Grupos de adulto............................................................................................46 4.1.1.1.2.2. Idade da criança que é colocada de castigo pela mãe ....................................47 4.1.1.1.2.3. Tipos de castigo praticado contra a criança ...................................................48 4.1.1.2. Violência física: bater ...................................................................................................51 4.1.1.2.1. Grupos de adultos ..................................................................................................51 4.1.1.2.1.1. Fatores relacionados com a frequência com que a mãe bate .........................52 4.1.1.2.1.1.1. Quantidade de crianças na casa ..............................................................52 4.1.1.2.1.1.2. Idade da criança ......................................................................................54 4.1.1.2.1.1.3. Sexo da criança .......................................................................................55 4.1.1.2.1.1.4. Criança que divide a cama com pai e mãe para dormir ..........................56 4.1.1.2.1.1.5. Idade das mães ........................................................................................58 4.1.1.2.1.1.6. Grau de escolaridade da mãe ..................................................................59 4.1.1.2.1.1.7. Consumo de bebida alcoólica pela mãe ..................................................61 4.1.1.2.1.1.8. Renda mensal da mãe .............................................................................62 4.1.1.2.1.1.9. Discriminando a bolsa família na renda mensal da mãe ........................64 4.1.1.2.1.1.10. Quantidade de cômodos na casa ...........................................................65 4.1.1.2.1.1.11. Quantidade de dormitórios na casa .......................................................67 4.1.1.2.1.1.12. Quantidade de banheiros na casa ..........................................................68 4.1.1.2.1.1.13. Tipo de rua ............................................................................................69 4.1.1.2.1.1.14. Existência de iluminação ......................................................................71 4.1.1.2.1.1.15. Grau de satisfação com a iluminação ...................................................73 4.1.1.2.1.2. Fatores relacionados com a frequência com que o pai bate na criança .........75 4.1.1.2.1.2.1. Frequência com que o pai dá banho e veste a criança ............................75 4.1.1.2.1.2.2. Grau de escolaridade do pai ....................................................................76 4.1.1.2.1.2.3. Consumo de bebida alcoólica pelo pai ...................................................77 4.1.1.2.1.3. Tipos de violência e atitude aceitas ...............................................................78 4.1.1.2.1.3.1. Gritar .......................................................................................................78 4.1.1.2.1.3.2. Colocar de castigo ...................................................................................80 4 4.1.1.2.1.3.3. Bater ........................................................................................................80 4.1.1.2.1.3.4. Conversar ................................................................................................81 4.1.1.2.1.4. Atitudes que caracterizam “mau-comportamento” da criança ......................82 4.1.1.2.1.4.1. Características .........................................................................................82 4.1.1.2.1.4.2. Percepção da mãe....................................................................................83 4.1.1.2.1.4.3. Frequência com que a criança se comporta mal .....................................84 4.1.1.3. Violência testemunhada pela criança em casa na percepção do adulto.......................85 4.1.1.3.1. Adulto grita com adulto na frente da criança ........................................................85 4.1.1.3.2. Adulto bate em adulto na frente da criança ..........................................................86 4.1.1.3.3 Armas de fogo na frente da criança ......................................................................86 4.1.2. Violência na comunidade.....................................................................................................87 4.1.2.1. Segurança para andar à noite ........................................................................................87 4.1.2.2. Segurança para a criança brincar fora de casa .............................................................88 4.1.2.3. Frequência com que sua casa já foi assaltada .............................................................90 4.1.2.4. Violência que o adulto fica sabendo ...........................................................................90 4.1.2.4.1. Fica sabendo de pessoas que são assaltadas .........................................................90 4.1.2.4.2. Fica sabendo de casas que são assaltadas ............................................................91 4.1.2.4.3. Fica sabendo de assaltos no comércio ..................................................................92 4.1.2.4.4. Fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade ............................92 4.1.2.5. Violência testemunhada pelo adulto ...........................................................................93 4.1.2.5.1. Ouve tiros de armas de fogo ...............................................................................93 4.1.2.5.2. Vê policial apontando uma arma ........................................................................94 4.1.2.5.3. Vê outras pessoas apontando uma arma ..............................................................94 4.1.2.5.4. Vê alguém sendo ferido por tiro, facada ou socos .............................................95 4.1.2.5.7. Vê alguém sendo preso .......................................................................................95 4.1.2.5.8. Vê gente vendendo drogas ..................................................................................96 4.1.3. Percepção sobre os serviços públicos ..................................................................................96 4.1.3.1. Iluminação ....................................................................................................................97 4.1.3.1.1. Iluminação em frente ou próxima da moradia ......................................................97 4.1.3.1.2. Iluminação das praças...........................................................................................98 4.1.3.2. Saúde ............................................................................................................................98 4.1.3.2.1. Frequência de agentes de saúde visitam as famílias .............................................98 4.1.3.2.2. Quantidade de médicos no Posto de Saúde ..........................................................99 4.1.3.2.3. Quantidade de pediatras no Posto de Saúde .........................................................99 4.1.3.2.4. Tempo de espera por uma consulta no Posto de Saúde ......................................100 4.1.3.3. Creches .......................................................................................................................101 4.1.3.3.1. Motivos para os graus de satisfação com a creche .............................................102 4.1.3.4. Escolas ........................................................................................................................103 4.1.3.4.1. Motivos para o grau de satisfação com a escola.................................................104 4.1.3.5. Serviços de Transporte ...............................................................................................106 4.1.3.5.1. Motivos para os graus de satisfação com o transporte .......................................106 4.1.4. O que falta na comunidade ................................................................................................107 4.1.5. Balanço sobre a percepção do adulto .................................................................................109 4.1.5.1. Violência em casa .......................................................................................................109 4.1.5.1.1 Fatores relacionados à violência psicológica de gritar com a criança .................109 4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência psicológica de colocar de castigo ..................110 4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência física de bater .................................................110 4.1.5.2. Violência na comunidade ...........................................................................................114 4.1.5.3. Percepção sobre os serviços da comunidade ..............................................................115 4.1.5.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade: ...................116 4.2. ANÁLISE DE REGRESSÃO ...........................................................................................................116 4.2.1. Violência física: bater ........................................................................................................119 4.2.2. Violência psicológica: colocar de castigo ..........................................................................123 4.2.3. Violência psicológica: gritar ..............................................................................................124 4.3. PERCEPÇÃO DA CRIANÇA ..................................................................................................127 5 4.3.1. Violência em casa ..............................................................................................................127 4.3.1.1. Violência sofrida pela criança ....................................................................................127 4.3.1.1.1. Bater ....................................................................................................................128 4.3.1.1.2. Colocar de castigo ...............................................................................................128 4.3.1.1.3. Gritar ...................................................................................................................129 4.3.1.2. Violência testemunhada pela criança .........................................................................129 4.3.1.2.1. Adulto batendo em criança .................................................................................130 4.3.1.2.2. Adulto gritando com criança ...............................................................................130 4.3.1.2.3. Adulto gritando com adulto ................................................................................130 4.3.1.2.4. Adulto batendo com adulto .................................................................................130 4.3.2. Violência na escola ............................................................................................................131 4.3.2.1. Violência sofrida pela criança ....................................................................................131 4.3.2.1.1. Colocar de castigo ...............................................................................................131 4.3.2.1.2. Gritar ...................................................................................................................132 4.3.2.1.3. Bater ....................................................................................................................132 4.3.2.2. Violência testemunhada pela criança .........................................................................133 4.3.2.2.1. Criança batendo em criança ................................................................................133 4.3.2.2.1.1. Frequência por sexo da criança ...................................................................134 4.3.2.2.2. Adulto gritando com criança ...............................................................................135 4.3.2.2.3. Adulto batendo em criança .................................................................................135 4.3.3. Violência na comunidade...................................................................................................135 4.3.3.1. Gente sendo levada pela polícia .................................................................................136 4.3.3.2. Adulto batendo em crianças .......................................................................................136 4.3.3.3. Adulto batendo em adulto ..........................................................................................137 4.3.3.4. Venda de drogas .........................................................................................................137 4.3.3.5. Adulto atirando com arma de fogo .............................................................................137 4.3.3.5.1. Idade da criança com a frequência com que ela vê adulto atirando com arma de fogo ........................................................................................................................138 4.3.4. Do que a criança mais gosta de brincar ..........................................................................139 4.3.5. O que falta na comunidade para as crianças ...................................................................141 4.3.6. Balanço sobre a percepção da criança ...............................................................................142 4.3.6.1. Violência em casa .......................................................................................................142 4.3.6.2. Violência na escola .....................................................................................................142 4.3.6.3. Violência na comunidade ...........................................................................................143 4.3.6.4. Brincadeiras mais frequentes ......................................................................................143 4.3.6.5. Percepção sobre o que falta na comunidade: ..............................................................144 4.4. CONCLUSÃO DAS PERCEPÇÕES DE ADULTOS E CRIANÇAS ........................................................144 4.4.1. Percepção do adulto ...........................................................................................................144 4.4.1.1. Violência em casa .......................................................................................................144 4.4.1.1.1 Tipos de violência e atitude aceitas pelos adultos ................................................147 4.4.1.1.2. Percepção do adulto sobre o mau comportamento da criança ............................147 4.4.1.1.3 Violência praticada na frente da criança pelo adulto ..........................................147 4.4.1.2. Violência na comunidade ..........................................................................................148 4.4.1.2.1. Violência testemunhada .....................................................................................148 4.4.1.2.2. Violência que ficou sabendo ..............................................................................149 4.4.1.2.3. Graus de satisfação com a segurança, transporte, saúde, iluminação e educação ........................................................................................................149 4.4.1.2.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade ...........150 4.4.2 Percepção da criança de 6 a 8 anos ....................................................................................150 4.4.2.1 Violência em casa .......................................................................................................150 4.4.2.1.1 Violência sofrida ..................................................................................................150 4.4.2.1.2 Violência testemunhada .......................................................................................151 4.4.2.2 Violência na escola .....................................................................................................151 4.4.2.2.1 Violência sofrida .................................................................................................151 4.4.2.2.2 Violência testemunhada ......................................................................................151 6 4.4.2.2.3. Violência na comunidade ...................................................................................152 4.4.2.3 Brincadeiras mais frequentes ......................................................................................152 4.4.2.4 Percepção sobre o que falta na comunidade ...............................................................152 5 ANÁLISE DOS GRUPOS DE DISCUSSÃO COM ADOLESCENTES NO MORRO DOS MACACOS ...............................................................................................................154 5.1. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO ..............................................................................................154 5.2. PASSOS DA ANÁLISE ..................................................................................................................155 5.3. GRUPO DE DISCUSSÃO MASCULINO NO MORRO DOS MACACOS ...............................................156 5.3.1. Interpretação formulada .....................................................................................................156 5.3.2. Interpretação reflexiva .......................................................................................................165 5.3.2.1. Violência banalizada e desamparo institucional.........................................................165 5.3.2.2. Os conflitos familiares são muito presentes na vida dos jovens e envolvem violência, negligência e sentimentos de abandono. ................................................169 5.3.3. Considerações finais ..........................................................................................................171 5.4. GRUPO DE DISCUSSÃO FEMININO NO MORRO DOS MACACOS ..................................................172 5.4.1. Interpretação formulada .....................................................................................................172 5.4.2. Interpretação reflexiva ......................................................................................................179 5.4.2.1. Vida na comunidade sob a sombra do abuso institucional e violência de homens ....179 5.4.2.2. Vida familiar e carga mais pesada das mulheres ........................................................184 5.4.3. Considerações finais ..........................................................................................................190 6 ANÁLISE DA DINÂMICA COM GRUPO DE CRIANÇAS NO MORRO DOS MACACOS ...............................................................................................................192 6.1. REFERENCIAL METODOLÓGICO .................................................................................................192 6.2. ANÁLISE RECONSTRUTIVA DO DISCURSO ..................................................................................193 6.3. GRUPO DE CRIANÇAS DO MORRO DOS MACACOS .....................................................................194 6.3.1. Apresentação dos desenhos temáticos ...............................................................................195 6.3.2. Breve descrição da dinâmica .............................................................................................199 6.3.3. Análise de trechos escolhidos ............................................................................................201 6.3.3.1. Resumo do trecho 1 ....................................................................................................201 6.3.3.1.1. A recomposição familiar é uma temática muito presente no discurso e no cotidiano das crianças. ........................................................................................................202 6.3.3.2. Resumo do trecho 2 ....................................................................................................202 6.3.3.2.1. Existe familiaridade das crianças com as regras de convivência ditadas pelo tráfico no morro. .................................................................................................................204 6.3.3.2.2. O “caveirão” é visto pelas crianças como fonte de grande violência na comunidade. ........................................................................................................................204 6.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................................205 7 CONCLUSÃO ..............................................................................................................................206 7.1. A VISÃO DE LIDERANÇAS LOCAIS E DE DIRIGENTES DE ORGANIZAÇÕES QUE ATUAM NA COMUNIDADE ................................................................................................................................... 206 7.2. A PERCEPÇÃO DE ADULTOS E CRIANÇAS SOBRE A VIOLÊNCIA NA COMUNIDADE .....................208 7.2.1. Percepção de adultos ..........................................................................................................208 7.2.1.1. Chance da criança sofrer violência (análise de regressão) .........................................210 7.2.2. Percepção das crianças (6 a 8 anos de idade) ....................................................................211 7.3. A PERCEPÇÃO DE ADOLESCENTES (MENINAS E MENINOS).....................................................211 7.4. DISCUSSÃO COM CRIANÇAS .......................................................................................................212 7.5. SUGESTÕES ................................................................................................................................213 8 REFERÊNCIAS ...........................................................................................................................215 1 7 Introdução Apresentamos aqui o relatório da pesquisa realizada pelo caes-PUCRS (Centro de Análises Econômicas e Sociais da PUCRS), com apoio da Central/PUC-Rio (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Cidade da PUC-Rio) para a coleta dos dados, com financiamento da Fundação Bernard van Leer. A Fundação Bernard van Leer, sediada em Haia (Holanda), dedica-se a apoiar iniciativas capazes de reduzir a violência contra crianças pequenas, ou seja, de 0 a 8 anos de idade, como estratégia de permitir que o desenvolvimento das crianças de dê sem os constrangimentos e impactos da violência em suas mais diversas manifestações. A presente pesquisa foi realizada em cinco favelas do Rio de Janeiro (Morro da Formiga, Morro dos Macacos, Parque Maré, Vila Cruzeiro e Minha Deusa) e em uma favela de Duque de Caxias (Mangueirinha), envolvendo a participação de uma equipe multidisciplinar das áreas de sociologia, economia, psicologia, ciência política e urbanismo, com o objetivo de compreender os mais diversos aspectos do cotidiano das crianças vivendo em favelas, principalmente sua relação com os diferentes tipos de violência. Neste volume, apresentamos a análise dos dados coletados no Morro dos Macacos, situada no bairro Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro, cujos dados foram coletados ao longo do mês de outubro de 2012. Buscamos, aqui, obter um diagnóstico detalhado sobre a vida das crianças de 0 a 8 anos de idade no Morro dos Macacos, explorando em especial suas experiências de violência em casa, nas ruas da comunidade e na escola, partindo da percepção de diversos atores, como lideranças da comunidade, representantes de organismos que prestam serviços na comunidade, adolescentes, pais e familiares de crianças pequenas, além das próprias crianças. Para que fosse possível dar conta do objetivo principal da pesquisa, foram utilizados diversos instrumentos, qualitativos e quantitativos, levantando as seguintes questões: Ø O perfil socioeconômico da comunidade, considerando o número de habitantes por domicílio, tipo de domicílio, estrutura etária, emprego, renda e nível educacional, entre outros. Ø A estrutura urbana da comunidade, considerando a caracterização das ruas, quadras, provisão de serviços de água, transporte, iluminação e saneamento. Ø A estrutura de serviços públicos ou privados de cuidados para crianças. Ø A estrutura dos serviços públicos de segurança, educação, saúde e assistência. 8 Ø Comportamento familiar de apoio às crianças (por exemplo, percentual de famílias que praticam reorientação disciplinar de comportamentos indesejáveis sem o uso de punição física ou psicológica). Ø O uso de redes sociais e infraestrutura de saúde, educação e lazer. Ø O tipo de organização civil na comunidade. Ø A frequência, tipo e autores de abuso contra crianças. Ø Os tipos de violência que são aceitos e rejeitados na comunidade, especialmente entre os pais de crianças pequenas. Ø Os modelos de papéis sociais entre meninas e meninos adolescentes que vivem na comunidade. Ø As características dos lugares preferidos pelas crianças na comunidade e os lugares que eles preferem evitar. Em primeiro lugar, o relatório traz uma breve apresentação do Morro dos Macacos para, em seguida, resumir as opiniões manifestadas por lideranças locais e por dirigentes ou trabalhadores de organizações que atuam na comunidade, obtidas em entrevistas semiestruturadas. Em seguida, apresentamos a análise dos questionários aplicados a pais ou cuidadores de crianças pequenas e às próprias crianças de 6 a 8 anos residentes na comunidade. A partir destes dados foi realizada análise de regressão, com vistas a oferecer uma análise adicional acerca da probabilidade de crianças pequenas do Morro dos Macacos serem alvos de violência, física ou psicológica. O presente relatório traz ainda a análise de grupos de discussão realizados com adolescentes, meninos e meninas em grupos separados, para discutir sua experiência cotidiana de quando eram crianças e de sua experiência atual na comunidade. Apresentamos também a análise da discussão realizada com um pequeno número de crianças, que, a partir de desenhos realizados por elas mesmas, falaram livremente sobre aspectos da vida na comunidade. Além disso, serão apresentadas narrativas biográficas com o objetivo de analisar como diferentes gerações de uma mesma família lidam com a violência, em casa e na comunidade.1 O relatório traz ao final uma breve conclusão de toda a pesquisa, assim como algumas sugestões de estratégias para futuras intervenções que, potencialmente, podem fazer com que a infância seja vivenciada sem a presença de qualquer tipo de violência na comunidade analisada. Estas sugestões serão ainda apresentadas e discutidas com representantes da própria 1 A análise de narrativas biográficas será publicada em separado, no Volume Síntese, que trará as conclusões. 9 comunidade, com dirigentes de organizações civis atuantes na região e com pesquisadores acadêmicos da área. 2 10 Apresentação da comunidade Morro dos Macacos A favela do Morro dos Macacos está localizada na região norte da cidade do Rio de Janeiro, fazendo parte do famoso bairro de Vila Isabel2. A localidade está assentada em uma fração muito visada da cidade, uma vez que o estádio do Maracanã, importante símbolo brasileiro, fica próximo aos limites do bairro. Figura 1: Vista aérea do Morro dos Macacos Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u639560.shtml De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a favela possui uma população de 5.069 habitantes. Destes, 848 (ou 16,9%) estão incluídos na faixa etária de até 8 anos de idade. A comunidade é composta por 1.383 domicílios oficialmente contabilizados3. A média de moradores por unidade domiciliar é de 3,67, ao passo que, no bairro de Vila Isabel, é de 2,70 e, na totalidade do município, alcança a casa dos 2 O bairro é conhecido nacionalmente devido à escola tradicional de Samba Unidos de Vila Isabel, que, entretanto, não está localizada no Morro dos Macacos. O perfil social dos moradores aproxima-se dos padrões da classe média brasileira, ficando os pobres concentrados nos morros que compõem o bairro. 3 No entanto, a existência de mais residências não seria surpresa, uma vez que as construções são irregulares e seguem padrões de progressão difíceis de serem mensurados. 11 2,93. A distribuição das residências ocorre em um terreno bastante íngreme, característica comum entre as favelas cariocas. Figura 2: Vista parcial das habitações do Morro dos Macacos Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/favelas-do-rio-terao-novo-periodo-de-reurbanizacao-com-morar-carioca-2721246 Em torno de 49% das famílias no Morro dos Macacos possuem mais de três membros, e os indicadores de renda são claramente insatisfatórios: 33% das famílias possuem renda per capita de até metade de um salário mínimo (R$ 311 ou cerca de US$ 150) e 47% obtêm renda per capita de até um salário mínimo (R$ 622 ou cerca de US$ 3004). Ainda no que diz respeito a esse indicador, apenas 3% das famílias da comunidade recebem dois ou mais salários mínimos per capita (se considerarmos a totalidade da cidade do Rio de Janeiro, o que inclui outras favelas, esse índice chega a 38%, sendo que 63% dos domicílios do bairro de Vila Isabel estão incluídos nessa faixa de renda). Com efeito, a pobreza e os sinais que lhe acompanham – como a precariedade da infraestrutura – ficam evidentes na figura abaixo, que flagra um aspecto interno da favela. 4 Em janeiro de 2013 o valor do salário mínimo foi alterado pelo governo federal, passando a somar R$ 678 (cerca de US$ 330). Os índices de renda aqui apresentados são anteriores a essa mudança. 12 Figura 3: Aspecto interno da favela, com destaque para a improvisação das instalações elétricas. Fonte: http://www.pop.com.br/popnews/noticias/brasil/443314Rio_de_Janeiro_instala_sistema_de_alerta_sobre_riscos_de_deslizamento_no_Morro_dos_Macacos.html 2.1. Um pouco de história Conforme relatos dos moradores mais antigos, a comunidade teve origem quando alguns guardas do antigo parque jardim zoológico que havia nas proximidades decidiram construir casas de zinco no morro, a fim de impedir sua ocupação irregular. Com o tempo, porém, estes funcionários passaram eles próprios a fixar residência com suas famílias no morro, inaugurando a ocupação irregular que a priori deveriam combater. Por conta do citado parque zoológico, o morro ficou conhecido inicialmente como Parque Vila Isabel, passando a chamar-se Morro dos Macacos devido ao grande número de primatas que viviam no local. Assim, ainda que o “Complexo dos Macacos” abrigue duas outras favelas, foi a localidade pesquisada que recebeu o batismo de Morro dos Macacos. O depoimento de uma moradora antiga, entrevistada por Picollo (2009) sintetiza a história da formação da favela: Quando eu cheguei aqui tinha algumas pessoas que moravam, a maioria eram funcionários do Parque, eram os guardas florestais, para não deixarem ocupar o morro mesmo. As pessoas que vinham de fora, como eu que cheguei, comprei de um funcionário, que tinha um 13 barraquinho aqui. Aí ele vendeu uma parte dele pra mim, arranjou uma briga, precisou fugir. E os outros eram guardas, trabalhavam no Parque e moravam aqui próximo mesmo, como quem tomasse conta, mas eles mesmos ajudaram a encher o morro (PICOLLO, 2009, p. 92). Para além da gênese da favela, nas linhas seguintes procuraremos mapear alguns dos temas importantes para os moradores na atualidade. 2.2. Saúde na comunidade O primeiro elemento que influencia as condições de saúde dos moradores do Morro dos Macacos é o acúmulo de lixo nas ruas da favela, fato que facilita a proliferação de animais transmissores de doenças, o mau cheiro e a contaminação do solo. Este aspecto, que, como veremos, foi alvo de reclamações por parte dos moradores e dos stakeholders entrevistados, vem merecendo atenção por parte do poder público. Nesse sentido, em maio de 2012 a prefeitura do município materializou o programa “Vamos combinar uma comunidade mais limpa”, cujas medidas englobam a coleta diária do lixo através de 132 contêineres distribuídos pelo morro. Ainda que o problema tenha sido detectado, a efetividade da iniciativa é coloca em xeque por alguns atores entrevistados nesta pesquisa. No que diz respeito aos aparatos de saúde, a comunidade dispõe de apenas um posto de saúde, o Posto de Saúde Parque Vila Isabel, o que parece insuficiente para uma população que supera o número de cinco mil pessoas. Tal situação é parcialmente amenizada à medida que os governos atuam através do Programa de Saúde da Família (PSF), no qual equipes de profissionais de saúde visitam regularmente os domicílios da favela para prevenir quadros de enfermidade grave, monitorando pacientes e orientando moradores sadios acerca de noções básicas de higiene, vacinação, nutrição e hábitos de vida5. 5 Um interessante relato das ações desenvolvidas pelo PSF no Morro dos Macacos pode ser visto na dissertação de mestrado de Oliveira (2008), que acompanhou esse trabalho durante seis meses. 2.3. 14 Educação na comunidade A comunidade do Morro dos Macacos dispõe de três unidades escolares: a Escola Municipal Jornalista Assis Chateaubriand, o CIEP Salvador Allende e a Escola Municipal Mário de Andrade. Embora apenas as duas primeiras escolas citadas fiquem localizadas de fato no interior da comunidade (ambas têm sede na rua Armando de Albuquerque), poderia se supor que, somadas, as três instituições atendam razoavelmente a demanda de educação formal suscitada pela comunidade. Ademais, merece atenção o fato de que o CIEP, fundado em 1986, é projetado para oferecer educação em tempo integral6, atendendo atualmente a 240 alunos. Se considerarmos que a instituição possui turmas até a quinta série do ensino fundamental, fica claro que boa parte das crianças pequenas da comunidade teriam condições de desfrutarem do espaço. Contudo, a exemplo do que ocorre em outras comunidades cariocas, importa ressaltar que as três escolas do morro disponibilizam apenas o acesso à educação infantil e ao ensino fundamental. Logo, os jovens moradores que almejam progredir na trajetória escolar através do ingresso no ensino médio necessariamente terão que procurar escolas localizadas fora da comunidade. Já para a educação extraescolar das crianças, o morro possui entidades como creches e o Centro Cultural da Criança. Dentre as creches, merece destaque a Patinho Feliz, que atende a 170 crianças de até quatro anos de idade em horário integral, oferecendo cinco refeições. O Centro Cultural da Criança, por sua vez, destina-se sobretudo ao desenvolvimento de atividades lúdicas e de interação para crianças entre 4 e 10 anos. O Centro possui espaços como biblioteca e brinquedoteca, e seus profissionais ministram vários cursos para as crianças contempladas (inglês, expressão corporal, música, etc.). 2.4. Segurança na comunidade A vida cotidiana dos moradores do Morro dos Macacos sofre influxo considerável da violência e do tráfico de drogas, conforme percebemos através dos dados colhidos junto à comunidade. A atuação do crime organizado e as mazelas daí decorrentes são problemas que 6 O projeto dos CIEP´s foi idealizado pelo ex-governador Leonel Brizola, que pretendia manter as crianças na escola durante todo o dia, incrementando o currículo com atividades recreativas, esportivas e cursos diversificados. 15 apenas começam a ser enfrentados seriamente com a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no morro. A instalação da UPP ocorreu em 30 de novembro de 2010, contando hoje com um efetivo de 222 policiais. Figura 4: Sede da UPP instalada no Morro dos Macacos Fonte: http://extra.globo.com/casos-de-policia/trafico-obriga-comerciantes-fornecer-carteiras-de-trabalho-para-criminosos-6132916.html No quadro a seguir, pode-se vislumbrar que os crimes violentos diminuíram sensivelmente na região após a instalação da UPP: Tabela 1: Vítimas de Morte Violenta no entorno de Macacos de acordo com o raio em volta da comunidade, antes e depois da instalação da UPP UPP 250 500 1000 1500 Cidade do Macacos metros metros metros metros Rio de Janeiro Pré-UPP 4 5 13 23 1.671 Pós-UPP 1 2 6 16 1.237 DIF. -3 -3 -7 -7 -434 Fonte: Instituto de Segurança Pública (ISP) Nota: Período de Análise: Pré-UPP – Novembro/2009 a Junho/2010; Pós-UPP – Novembro/2010 a Junho/2011. 16 Porém, ao contrário do que ocorre com as mortes violentas, as incidências de casos de violência doméstica apresentaram crescimento desde a inauguração da UPP nos Macacos. Figura 5: Vítimas de Violência Doméstica e Familiar no entorno de Macacos de acordo com o raio em volta da comunidade, antes e depois da instalação da UPP Fonte: Instituto de Segurança Pública (ISP) Nota: Período de Análise: Pré-UPP – Novembro/2009 a Junho/2010; Pós-UPP – Novembro/2010 a Junho/2011. Do exame destes dois indicadores emerge a seguinte questão: por que a presença da UPP na comunidade provoca um resultado dúbio, diminuindo os índices de morte violenta e simultaneamente elevando os casos de violência doméstica? A resposta parece residir em dois vetores. De um lado, a queda dos homicídios e demais crimes contra a vida pode ter sido desencadeada pela relativa expulsão do crime organizado. Ainda que a atuação do tráfico persista em alguma medida, o efetivo controle territorial passou às mãos da polícia, que substituiu a “ordem” imposta pelos traficantes. Desprovidos dos instrumentos que lhes asseguravam um domínio social sobre a comunidade, os traficantes ficaram impedidos de realizar os “acertos de conta” junto aos seus inimigos e de promover os julgamentos sumários daqueles que infligiam suas determinações, julgamentos estes que geralmente se consumavam com a execução do “transgressor”. Por outro lado, o aumento dos casos de violência doméstica pode espelhar um acréscimo dos registros destes casos nas delegacias e não o aumento dos crimes em si. Em 17 estudo desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, consta um diagnóstico bastante similar. Conforme o texto, “o efeito pode ser devido a dois elementos: a) uma diminuição do sub-registro devido à presença da polícia e ao menor medo a denunciar; b) a ausência do controle social autoritário dos grupos criminosos pode se traduzir num aumento real dos crimes não armados e daqueles decorrentes dos conflitos do cotidiano” (FÓRUM..., 2012, p. 105). Com efeito, a percepção de insegurança na comunidade parece ter diminuído consideravelmente. Segundo uma moradora entrevistada pelos pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: Então, também você não vê mais mortes, né? Porque uns três anos atrás o lado que eu morava era um lado, assim, que cheirava a sangue, sabe? Que você sentia aquela comunidade obscura, sentia cheiro de sangue na comunidade. Mesmo que não tivesse você sentiria assim que a qualquer momento aconteceria alguma coisa. Nossa! Morreram muitos jovens, muito. E muitas marcas de tiro! (...) Então morriam muitos meninos, de você escutar gritar ― não me mata! (FÓRUM..., 2012, p. 113) O depoimento de outro morador explica como a percepção de segurança altera diretamente a vida cotidiana: Hoje a gente vê que algumas coisas, mudando né, até mesmo a liberdade, entendeu? Agora a gente tem mais liberdade de transitar, entendeu, nos lugares. Em certos lugares, como aqui (Idem, p. 113). Esta alteração – que, de acordo com o morador citado, produz efeitos reais para a comunidade – foi referida também por pessoas com as quais mantivemos contato, o que nos permite inferir que as ações de combate à criminalidade vem obtendo suporte por parte da população. Contudo, a ausência do crime organizado provoca outros problemas: Todo dia eu desço e eu olho aqui pra ver se está tudo no lugar. Eu durmo, e de manhã cedo ―ai, meu Deus, será que alguém invadiu (a loja que tem dentro da favela)?ǁ‖ [Entrevistador: Você tem medo?] Sério, tenho. Essa semana já entraram no bar do senhor ali da frente, já levaram as coisas dele. Ele deixa sempre um trocado para o sobrinho dele abrir de manhã. E depois que vieram pra cá, a Unidade de Polícia Pacificadora, o que mais acontece é isso, assalto nas casas, nos comércios. O que mais tá tendo é isso (ibidem, p. 115). 18 Em decorrência disso, é plausível argumentar que as ações sociais que ordinariamente acompanham as UPP’s precisam ser intensificadas na favela, a fim de que a eventual atração do crime organizado sobre parcelas da comunidade seja permanentemente eliminado. 3 19 Percepção de lideranças da comunidade e representantes de instituições atuantes no Morro dos Macacos Após termos realizado um breve mapeamento da favela e dos temas relevantes para a comunidade, identificaremos a seguir as percepções dos próprios moradores, bem como dos principais atores sociais (stakeholders) com interesses diretos ou indiretos nas áreas de infância e violência. Com base nos depoimentos dos moradores, procurou-se compreender sua visão sobre o lugar que habitam e as práticas ali efetivadas, e através das entrevistas com os stakeholders (instituições que atuam na comunidade), buscou-se obter a percepção daqueles que trabalham diariamente em contato direto com a realidade local. Como complemento à abordagem acerca dos problemas gerais enfrentados pela favela, enfatizou-se a díade infância/violência. Para evitar eventuais constrangimentos para os entrevistados, optou-se por substituir os nomes verdadeiros por nomes fictícios. Todas as entrevistas foram gravadas com a anuência dos entrevistados, sendo conduzidas com base no seguinte roteiro: ⇒ Histórico do envolvimento do entrevistado com a comunidade e, no caso dos stakeholders, natureza do trabalho que realizam; ⇒ Percepção a respeito daqueles que considera os principais problemas enfrentados pelos moradores e pelas crianças na favela; ⇒ Percepção acerca das características dos arranjos comunitários e das instituições (governamentais e da sociedade civil) que atuam na favela; ⇒ Percepção a respeito das incidências de violência na comunidade, enfatizando as crianças; ⇒ Propostas para melhorias no futuro. 3.1. Síntese dos argumentos de lideranças de instituições que atuam na comunidade (stakeholders): Foram realizadas as seguintes entrevistas: 20 01 – Ângela, dirigente de ONG 02 – Suzana, coordenadora de escola; 03 - Nilza, funcionária da área de saúde; 04 – José, policial militar, atua na UPP; 05 – Danilo, membro de ONG; 06 - Renata, atua em projeto ambiental. Ângela, dirigente de ONG. Argumentos: Relata que sua interação com a comunidade começou desde que foi morar no Morro. Conta que a situação de vida era muito complicada, o que levou os vizinhos a criarem uma Associação de Moradores. Acredita que a educação é o principal problema da comunidade atualmente. Relata que as lideranças não são muito respeitadas, principalmente desde que a violência começou a imperar (informa que, a partir de então, a própria eleição para a Associação de Moradores passou a perder um pouco a credibilidade). Afirma que as pessoas ligadas às escolas e aos postos de saúde têm um papel importante e são respeitadas na comunidade. Critica o projeto Dom Pixote por não oferecer espaço para uma creche. Cita Célia Fernandes como uma pessoa que realiza um trabalho muito responsável. Relata que as organizações da comunidade têm convênios com alguns órgãos governamentais. Afirma que sempre houve violência e que continua havendo, e acredita que, atualmente, a situação esteja ainda pior. Conta que as pessoas não sabem se ficam do lado dos policiais ou dos moradores “transviados”, fora da lei. Diz que procura ficar isenta ao máximo em relação a escolher um destes lados e que não tem como lutar contra a violência. Acredita que essas pessoas talvez não tivessem oportunidades quando eram crianças, pois o morro era muito abandonado. Relata ainda haver muita fome na comunidade. Conta que conseguiu criar seus filhos na comunidade longe dos crimes e que muitas outras pessoas também conseguiram. Diz ficar angustiada quando vê turmas de crianças e adolescentes fora da escola, mas que é complicado ajudar estes jovens. Acredita não haver vinculações partidárias nas organizações da comunidade, mas diz existir um vínculo com a Igreja Católica, apesar de ser sutil. Diz que a falta de estrutura das famílias é um dos principais problemas para as crianças. Relata haver muita necessidade e violência familiar, como o abandono. Conta que as mães saem para trabalhar e os filhos ficam sozinhos. Sente que as crianças ficam felizes quando as mães participam de eventos realizados pelo Centro Comunitário. Acredita que iniciativas como o Bolsa Família estão ajudando a melhorar esta situação, mas também vê o programa como algo 21 que acomoda as pessoas. Conta que os moradores da comunidade não reagem em relação à violência entre homem e mulher. Conta que, com a UPP, os casos de violência contra crianças passaram a ser mais conhecidos. Muitos casos de abuso sexual começaram a aparecer. Diz que encaminha casos de violência infantil ao Conselho Tutelar, que procura ajudar as vítimas. Relata perceber na creche muito descaso das mães com as crianças. Acredita que ainda é preciso fazer muito trabalho com as crianças e que deveria haver outros métodos e projetos. Confia que a conscientização é a maneira mais efetiva de se conseguir o envolvimento da população na solução destes problemas. Suzana, coordenadora da escola. Argumentos: Trabalha há cinco anos em escola localizada na comunidade. Conta que os conflitos com a comunidade rival de São João e destas duas comunidades com a Polícia chamaram a sua atenção quando começou a trabalhar na escola. Relata que, naquele período, era muito arriscado conduzir as aulas. Atualmente, acredita que o principal problema é o baixo acesso à cultura e à educação. Relata que apenas a escola é respeitada dentro da comunidade, ao contrário da UPP, das ONG’s e do hospital. Diz não compreender o vínculo entre as organizações da comunidade e os órgãos governamentais, mas afirma ser uma relação explícita. Nas organizações da comunidade, acredita que existe uma preocupação em trabalhar na recuperação de crianças, mas que não vê uma melhora nos alunos por fazerem parte destes projetos. Diz não ver mais casos de violência que a UPP se propôs a combater, mas que as pessoas ainda ouvem relatos de alguns fatos que acontecem. Conta que violência entre “pares”, como pais, irmãos, colegas, ainda é algo aflitivo, mas enxerga isso como a maneira pela qual a comunidade se relaciona culturalmente. Relata não perceber vinculações partidárias ou religiosas nas principais ONG’s da comunidade. Acredita que a falta de cultura dos pais, a pobreza e a falta de saneamento são fatores que interferem negativamente no dia a dia das crianças. Enxerga a agressão como o principal tipo de violência doméstica. Relata que os moradores reagem com conformidade a casos de violência, pois isso está inserido em sua cultura. Diz não conhecer casos de violência contra idosos. Conta que, como profissional, faz a abordagem e o encaminhamento de crianças que sofrem violência, além de conversar com os pais quando não se tratam de casos extremos, com necessidade de intervenção do Conselho Tutelar. Acredita que os pais precisam entender o sentido de participar da vida das crianças. Exemplifica que poucos pais comparecem às reuniões na escola. Opina que as crianças deveriam ficar mais tempo na escola sem precisar ir para a casa entre um turno e outro. 22 Nilza, funcionária municipal da área da saúde. Argumentos: Conta que sua relação com a comunidade teve início durante sua graduação, quando fez um estágio no Morro dos Macacos. Relata ter muita afinidade com a comunidade e entender que o trabalho a ser realizado não pode ser imediato. Acredita haver a necessidade de outros profissionais especializados, como nutricionista, devido aos problemas nutricionais de pessoas da comunidade, e sociólogos, que poderiam proporcionar outras opções aos moradores. Identifica a questão do lixo – “humano e social” – como o principal problema da comunidade. Acredita que as pessoas não têm consciência do lixo que produzem e que isso desencadeia problemas de saúde. Afirma haver muita violência infantil, mas acredita que a Vila Olímpica consegue fazer com que muitas crianças e jovens se mantenham ocupados e tenham mais oportunidades. Acredita que esta violência vem do âmbito familiar. Relata que a comunidade não está acostumada com regras e tem dificuldade com hora marcada. Relata que as pessoas estão passando por um momento de conflito social muito grande, mas que prefere não falar sobre o assunto, por tentar se manter sempre neutra. Destaca a fundadora do CEACA, Dona Ana, como uma das pessoas mais respeitadas e admiradas pela comunidade, além da assistente social Ângela. Quanto a entidades, acredita que o CEACA seja bastante respeitado. Comenta também sobre o Dom Pixote, que também conseguiu o respeito da comunidade. Não vê problema na relação entre as organizações da comunidade e as organizações do governo, pois os trabalhos realizados se completam. Afirma que, quando uma criança cresce feliz, torna-se um adulto saudável. Conta um pouco de sua história, destacando que, mesmo tendo sido abandonada pelos pais, e que sua família adotiva não tivesse muitas condições financeiras, conseguiu fazer faculdade, pós-graduação e mestrado. Acredita que os pais da comunidade não têm a preocupação de incentivar as crianças a estudar. Relata que muitas adolescentes engravidam porque isso garante “regalias” dentro da escola, como a possibilidade de não realizar provas. Acredita que as pessoas da comunidade não pensam no futuro, que as crianças “não têm perspectivas”, e isso a preocupa. Acha que as organizações não têm tempo para pensar a respeito disso, devido à demanda que têm. Diz não existir vinculação partidária ou religiosa com as ONG’s da comunidade. Acredita que uma escola onde as crianças pudessem ficar o dia inteiro, realizando diferentes atividades, poderia auxiliar a reduzir os problemas que as crianças enfrentam no cotidiano e possibilitaria que as mães trabalhassem. Identifica a violência doméstica – física e, principalmente, moral – como a que as crianças mais sofrem. Diz que é comum uma mãe chamar seus filhos por palavrões. Relata que a comunidade reage com mais indignação nos casos de violência contra crianças e 23 adolescentes; contra idosos e entre homem e mulher, é algo considerado comum. Afirma que, se soubesse de algum caso de violência, iria fazer algo a respeito. Acredita que os líderes comunitários são capazes de mobilizar as pessoas. Diz que já existem vários grupos na unidade, como de idosos, hipertensos e adolescentes, mas que estes grupos deveriam ser ainda maiores. Também acha que os profissionais precisam ser mais comprometidos e que a estrutura da unidade precisa ser melhorada. José, policial militar, atua na UPP. Argumentos: Trabalha há dois anos na comunidade, na área de saúde, e diz ser muito envolvido com os projetos sociais da UPP. Relata que a parte social tem crescido muito na comunidade, tanto em relação a atividades – como esportes, ginástica, artes marciais e música – quanto em relação a eventos – como casamentos e festas de 15 anos. Afirma que o que mais lhe chamou a atenção quando começou a trabalhar na comunidade foi a rejeição da população, que não aceitava a presença de policiais. Atualmente, considera a situação um pouco melhor. Identifica a falta de saneamento como o principal problema do local. Acredita que os policiais são respeitados pela comunidade, além dos comerciantes, dos professores e dos profissionais da saúde. Relata que são feitas reuniões entre organizações da comunidade e órgãos governamentais para a solicitação de materiais e de melhorias. Afirma que as crianças são o foco das organizações, destacando o trabalho realizado pela Vila Olímpica. Explica que o trabalho da UPP não é imediato, que não há como quebrar uma cultura em tão pouco tempo. Em relação à violência, destaca agressões sofridas por mulheres e afirma que, atualmente, parte das vítimas já consegue denunciar os agressores. Não sabe dizer se há vinculações partidárias ou religiosas nas organizações da comunidade. Acredita que o excesso de liberdade e a falta de limites são os principais problemas que interferem na vida cotidiana das crianças da comunidade. Identifica a violência entre homem e mulher como a mais frequente na comunidade, inclusive sendo considerada normal pelos moradores. Relata não lembrar de casos graves de violência contra crianças e adolescentes, nem contra idosos. Acredita que tentar levar os moradores para o lado da UPP é a melhor maneira de obter o envolvimento da comunidade na solução de problemas, mostrando que a polícia está mudando e que tem como objetivo auxiliar. Relata que já há vários projetos sendo realizados com as crianças, mas que poderia haver mais atividades voltadas para as meninas, como dança. 24 Danilo, integrante do projeto cultural Argumentos: Conheceu a comunidade através do projeto, que descobriu pela internet. Conta que o projeto do qual participa tem a proposta de ajudar os alunos a se manter nas escolas e que trabalha a educação através de danças, brincadeiras, jogos, etc. Exemplifica com o “sistema das mandalas”, onde são trabalhados os saberes escolares e comunitários. Relata que a vontade dos pais de que os filhos “tomem algum caminho e tenham mais possibilidades”, foi o que mais lhe chamou a atenção quando começou a se envolver com a comunidade. Explica que, dentro da comunidade, existe uma diferença social: “a comunidade é quase uma outra cidade. Quem mora do lado de cá tem uma dificuldade financeira maior, quem mora pra cá já é mais tranquilo...”. Não sabe dizer qual o principal problema da comunidade atualmente e acredita que, com a UPP, os moradores estão mais satisfeitos, mas que ainda existe medo e “uma violência que é abafada, mas há pouco tempo a gente teve relatos de mortes acontecendo na comunidade”. Relata que a comunidade é diversificada no sentido financeiro, mas que tem uma identidade. No projeto em que atua, diz que percebe crianças com “carência de algum tipo de coisa e que isso se reflete no comportamento delas”. Conta que há crianças que vivem em áreas extremamente violentas, algumas que “acordam às 5h para chegar aqui às 8h, que passam por meio de lixo para chegar em casa, e isso influencia totalmente. A gente sabe que essas crianças que passam por locais mais complexos são crianças que dão mais trabalho e necessitam muito mais de atenção”. Cita Dona Ana como uma das pessoas mais respeitadas na comunidade. Entre as organizações, destaca a Vila Olímpica. Acredita que pessoas envolvidas em projetos são mais respeitadas. Não sabe responder se há envolvimento entre as organizações da comunidade e os órgãos governamentais, mas relata não saber de nenhum vínculo da Casa das Artes com o governo. Acredita que as questões da infância são importantes para as organizações da comunidade, “até porque o trabalho geralmente é com criança. Acho que existe uma aposta na educação mesmo, e nisso como mudança, apesar de isso ser bem complicado hoje em dia”. Acredita que essa aposta na educação é de “tentar tirar a criança e o adolescente desse meio violento, de dar a eles uma outra possibilidade”. Conta que, na comunidade, as coisas tendem a ser resolvidas através da violência, tanto física quanto verbal. Relata que o projeto não tem nenhuma vinculação partidária nem religiosa, mas diz que existe “uma outra casa que eu acho que tem a ver com religião”. Destaca a violência, a distância e a estrutura familiar como os principais problemas que interferem no cotidiano das crianças, além da falta de saneamento básico. Relata que a agressão por parte dos pais e o desrespeito são as principais formas de violência que acontecem dentro das casas da comunidade, e conta que percebe isso através de depoimentos das crianças e do medo que 25 demonstram. Explica que, em alguns casos, existe um trabalho de terapia feito com as famílias, através de parceiros. Não sabe dizer se a comunidade reage com mais indignação ou conformidade a casos de violência entre homem e mulher, por nunca ter presenciado nada, mas acha que “pelo que eu vejo também entre as crianças, não é algo aceito de forma tranquila. Mas eu acho que, ao mesmo tempo, não se desfaz essa lógica social de que o homem é quem estabelece as regras. Acho que tem uma indignação, mas ainda não tem uma clareza de que eu, como mulher, posso exigir que isso não aconteça”. Acredita que os casos de violência contra crianças e adolescentes são vistos com mais conformidade, “porque eu acho que os pais entendem que, na educação, eles precisam bater nos filhos”. Diz não ter conhecimento de casos de violência contra idosos. Conta que toma conhecimento de casos de violência infantil através do que as crianças do projeto e seus pais contam. “Eu nunca vi aqui. Dentro da Casa nenhum pai bateu em nenhum filho. A gente vê agressão verbal, e a gente também tem que ter cuidado na hora de interferir, para não tirar a autoridade do pai”. Conclui que, nessas comunidades que têm problemas de estrutura, qualquer projeto que tente dar conta dessas necessidades é muito bem aceito, pois muitos pais trabalham e não querem deixar os filhos em casa. Acredita que o diálogo é a melhor maneira de envolver a população na solução dos problemas da comunidade. Relata que há participação no projeto, mas que não é “totalmente ativa”. Exemplifica contando que o projeto atende a cerca de 170 crianças e que, nas reuniões, muitas vezes nem a metade dos pais comparece. “A gente gostaria que o envolvimento deles fosse maior, para que eles entendessem o nosso cotidiano. Por exemplo, a gente tem o apoio da cesta básica. Então muitas vezes os pais aparecem na hora da cesta, mas, na hora da reunião, não aparecem”. Acredita que o número de funcionários do projeto poderia ser aumentado, e que o espaço para brincadeiras deveria ser maior. “Mas acho que a gente tá sempre numa busca e talvez a questão maior agora seja entender como atrair também os adolescentes, acho que a gente precisaria de um atendimento específico pra eles”. Renata, atuante em projeto ambiental. Argumentos: trabalha na comunidade há 20 anos. Explica que os moradores trocam o lixo seco por alimentos no projeto em que atua e que, quem acumula 20 pontos, tem direito a uma cesta básica. Conta que os materiais que recebem são reaproveitados, transformados em peças de artesanato. Dez adolescentes frequentam o projeto. Relata que, quando começou a trabalhar na comunidade, em uma creche, as crianças lhe chamaram muito a atenção. “As crianças precisam muito de pessoas que deem amor. Muitas vezes as mães têm que sair pra 26 trabalhar e não têm com quem deixar seus filhos, tem que ter a creche. E a creche é o melhor lugar”. Diz amar muito as crianças da comunidade. Destaca o lixo como o principal problema atual da comunidade. Relata que, quando o projeto teve início, há cerca de quatro anos, a comunidade era muito suja. Destaca a ONG CEACA Vila como a organização mais respeitada na comunidade. “Essa ONG tem trinta anos e trabalha várias questões”, atendendo a crianças e adolescentes. Diz não ter muito o que falar sobre o tipo de relação que existe entre as organizações da comunidade com órgãos governamentais. “Por exemplo, aqui a gente começou na raça e na força mesmo, não tivemos ajuda de ninguém”. Diz que o CEACA, o Coletivo Coca-Cola e o Instituto Oi Futuro ajudaram a dar continuidade ao trabalho, além da Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana). Acredita que, como os pais precisam trabalhar e têm de deixar as crianças em algum lugar, existe a necessidade de haver mais creches. Relata não ver muita violência na comunidade. “É claro que briga de casal tem, né. Todo mundo briga, todo casal briga”. Diz não haver vinculação partidária nem religiosa nas organizações da comunidade. “A gente aqui não tem esse negócio de religião. Cada um respeita suas religiões”. Não sabe responder quais problemas interferem no cotidiano das crianças da comunidade, pois trabalha mais com adolescentes e idosos. Quanto aos adolescentes, relata que o fato de eles desejarem trabalhar interfere: “Eles precisam de emprego. A maioria dos adolescentes que vem aqui ao projeto procurar um curso quer trabalhar, porque os pais precisam que eles se ocupem, porque é bom. É importante o adolescente ter essa iniciativa de procurar alguma coisa pra fazer”. Cita a Dona Ana como a “avó da comunidade”. Elogia a Vila Olímpica, que tem muitas atividades. Não sabe dizer quais as formas mais comuns de violência dentro das casas: “Isso só os pais podem falar, só as crianças”. Também não sabe responder se a comunidade reage com mais indignação ou conformidade nos casos de violência entre homem e mulher. Diz não saber de casos de violência contra crianças e adolescentes, nem contra idosos, dentro da comunidade. Relata que as crianças com as quais trabalhava na creche eram muito amorosas. Exemplifica contando que, quando perdeu seu marido, as crianças da creche lhe ajudaram muito e eram muito carinhosas. “Graças a Deus eu nunca vi crianças com violência”. Acredita que ir pessoalmente nas casas e conversar com as pessoas é uma maneira eficaz de se conseguir o envolvimento da população na solução dos problemas da comunidade. “Isso vai trabalhando a pessoa e, quando você vê, ela tá fazendo as coisas certas, ajudando”. Na área da reciclagem, acredita que a comunidade precisa de mais ecopontos para conscientizar as pessoas. 27 Quadro 1: Matriz de Atores Externos – stakeholders Ator Ângela, dirigente de ONG Suzana, coordenadora de escola Nilza, funcionária municipal na área da saúde José, policial militar, atua na UPP Características Moradora antiga, conhece o cotidiano da favela e é muito crítica. Atua há cinco anos na comunidade e se preocupa com o tema da infância. Posicionamento diante do tema infância e violência Considera que a violência contra crianças ocorre na comunidade, e que os casos estariam mais aparentes após a instalação da UPP. Cita casos, inclusive de abuso sexual. Conta que violência entre “pares”, como pais, irmãos e colegas, é algo “aflitivo”, mas enxerga isso como a maneira que a comunidade se relaciona culturalmente. Enumera casos de violência contra as crianças e acredita que a falta de cultura dos pais, a pobreza e a falta de saneamento facilitam essas práticas. Interesses, medos e expectativas Impacto potencial Questiona o bolsa família, que disseminaria acomodação. Preocupa-se com a miséria na comunidade e com a divisão entre a influência dos criminosos e da polícia. Lamenta a negligência dos pais em relação aos filhos. Propõe projetos de conscientização para melhorar a educação infantil. Alto. Se envolve com o tema da infância e atua em entidade relevante. O principal problema da comunidade é o baixo acesso à cultura e à educação. Relata o baixo prestígio das ONG’s e da UPP. Crianças inseridas nos atuais projetos sociais não apresentariam melhoras nas escolas. Propõe escolas de tempo integral como forma de melhorar o cotidiano das crianças. Alto. Atua em coordenação de escola localizada na comunidade. Trata com crianças e menciona ter mediado casos de violência em conjunto com outras instituições. Possui formação acadêmica e é muito envolvida afetivamente com a comunidade. Identifica a violência doméstica – física e, principalmente, “moral” – como a que as crianças mais sofrem. As crianças do morro “não têm perspectivas” para o futuro. Preocupa-se com o excesso de lixo na comunidade. Lamenta a desvalorização da educação entre os moradores. Propõe escola de turno integral e a inserção de profissionais como nutricionistas e sociólogos na favela como forma de promover melhoras da qualidade de vida. Atua há dois anos no Morro e trabalha com projetos sociais da UPP. Violência é comum e seria naturalizada pela comunidade, especialmente a agressão contra mulheres. Não identifica incidências graves Falta de saneamento é o principal problema. Entende que a UPP e os muitos projetos sociais existentes trazem boas perspectivas para o futuro dos moradores. Excesso de liberdade e falta de limites são os principais problemas que Médio. Gerencia instituição ligada exclusivamente à saúde e não tem envolvimento direto com o tema da infância/violên cia. Pode assumir papel mais relevante em ações de redução de violência. Médio. Embora pertença à UPP e participe de projetos com crianças, o posto ocupado na hierarquia da PM 28 de violência contra crianças. Danilo, membro de ONG Renata, atua em projeto ambiental Ativo na entidade, direciona esforços especialmente para a área da infância. Visualiza na violência um instrumento utilizado diariamente pelos moradores para a resolução de conflitos. Cita casos de violência contra crianças e relata o “medo” que elas costumam sentir. Está há vinte anos na comunidade, coordenando projetos importantes para a qualidade de vida da população. Minimiza a violência na comunidade de um modo geral. No que se refere às crianças, considera que não apresentam comportamento influenciado pela violência: elas são “amorosas”. interferem na vida cotidiana das crianças no local. Propõe mais projetos específicos para meninas. Considera que a UPP melhorou a situação da violência, que apesar disso, ainda ocorre na comunidade. Assinala as diferenças socioeconômicas entre os próprios moradores. O excesso de lixo é preocupante para as crianças. Além da violência, a estrutura familiar e a falta de saneamento são os principais problemas que interferem no cotidiano das crianças. Propõe mais projetos para que os pais participem ativamente da educação dos filhos. Principal problema da comunidade é o acúmulo de lixo. Propõe criação de creches como forma de melhorar o cotidiano das crianças. Valoriza ONG’s e instituições locais, mas propõe a criação de mais creches. Acredita que o diálogo e a participação dos moradores podem proporcionar mudanças positivas. provavelmente dificulte sua capacidade de influenciar essa e outras instituições. Médio. Atua diretamente com crianças carentes e preocupa-se com a formação/educ ação destas crianças. Poder de influenciar outras entidades ou pessoas parece ser apenas moderado. Alto. Está há vinte anos na comunidade e trabalha em um campo extremamente sensível para os moradores. Visita residências e conhece a realidade local. 3.1.1. Análise dos argumentos das lideranças das organizações que atuam na comunidade (stakeholders) Os stakeholders entrevistados atuam nas mais variadas áreas: coleta e reciclagem de lixo, educação artística, segurança, saúde e educação. Para além dessa diversidade, são pessoas bastante envolvidas com a região e que dedicam seu tempo para servir à comunidade, o que nos permite supor que os dados oferecem subsídios importantes para a pesquisa. Para alguns entrevistados, o acúmulo de lixo surge como um dos problemas que mais castigam a favela. Este aspecto – que, como veremos adiante, foi bastante explorado também pelos moradores do morro – denuncia carências estruturais elementares, assim como a 29 ineficiência do Estado e o desleixo de parte da própria comunidade. O excesso de dejetos produziria efeitos nocivos à saúde e à autoestima dos moradores, incluindo as crianças. Nesse sentido, entrevistados lamentam que as crianças tenham que “passar no meio do lixo” para chegarem a seus lares. Além disso, a educação emerge dos depoimentos como uma demanda relevante. Ainda que alguns entrevistados tenham valorizado o trabalho de governos e ONG’s, percebe-se que há espaço para a introdução de mais projetos voltados à educação. Nesse sentido, entrevistados propõem ações que tenham como alvo a conscientização dos pais, ao passo que outros propõem a criação de escolas em tempo integral como forma de robustecer a educação e manter as crianças ocupadas no período em que seus responsáveis estejam ausentes. Com efeito, encontramos referência à escassez de espaços projetados especialmente para as crianças, sendo que alguns deles defendem um projeto específico para as meninas da favela. Logo, embora a região disponha de um leque de ONG’s, é plausível supor que iniciativas moldadas para educar as crianças seriam recepcionadas com júbilo, recebendo apoio por parte dos atores que trabalham na localidade. O tema da violência é abordado por vários entrevistados. Alguns consideram que a criminalidade sofreu duros reveses a partir da instalação da UPP, ainda que alguns dos entrevistados prefiram sublinhar que a polícia ainda não conta com a confiança da comunidade. De fato, os dados colhidos nas entrevistas e nos outros instrumentos de pesquisa nos permitem atestar que a política das UPP’s tende a ser bem recebida pela maior parte da comunidade, embora não haja unanimidade. A violência contra crianças é considerada um problema que atinge a favela por quase todos os entrevistados7. Alguns depoimentos relatam que a prática é corriqueira e guarda relação intrínseca com a própria “cultura” dos moradores. Neste raciocínio, agredir é encarado como um ato necessário e aceitável para promover a educação infantil. Para os stakeholders consultados, a violência contra crianças do morro assume múltiplas facetas. Uma entrevistada, por exemplo, menciona o “medo” que as crianças sentem quando instadas a falar no assunto. Um entrevistado menciona que as agressões contra mulheres são graves, enquanto a violência contra crianças, embora existente, não atinge os mesmos patamares. Por outro lado, uma entrevistada prefere acentuar o problema da “agressão moral” sofrida pelas crianças (sobretudo tratamento pejorativo pelos pais, que se valem de palavras de baixo calão). Um entrevistado, por sua vez, destaca a violência entre as 7 A exceção coube a um entrevistado, para quem as crianças da região não sofrem violências graves e possuem um temperamento “amoroso”, livre de traumas ou influxos agressivos. 30 próprias crianças e adolescentes como particularmente inquietante e outra entrevistada sustenta que mesmo casos de violência sexual são verificados na favela. Diante disso, conclui-se que os stakeholders enxergam práticas de violência infantil na comunidade, manifestando interesse em contribuir para ações voltadas ao seu combate. Reforça essa premissa o fato de que alguns entrevistados, apesar de reconhecerem o bom trabalho realizado por instituições ligadas à infância, lamentam que as crianças que participam dos projetos sociais não apresentam melhor rendimento na escola, por exemplo. Esse dado, levantado por uma entrevistada, sugere que as iniciativas existentes possuem eficácia apenas relativa (o depoimento de outra entrevistada é ainda mais sintomático: as crianças do morro “não têm perspectivas”, mesmo sendo alvo de tantas intervenções sociais). 3.2. Síntese dos argumentos dos moradores Foram realizadas as seguintes entrevistas com lideranças da comunidade: 01 –Jair, residente há 50 anos no morro dos Macacos; 02 – Ticiane, residente no Morro dos Macacos desde que nasceu; 03 – Carla, moradora e dirigente de ONG; 04 – Luis, residente há trinta e três anos no Morro dos Macacos; 05 - Francisco, residente há cinquenta anos no Morro dos Macacos; 06 - Irina, residente há quarenta e um anos no Morro dos Macacos; 07 - Laura, residente do Morro dos Macacos desde que nasceu; 08 – Justino, residente há 45 anos no Morro dos Macacos; 09 – Mário, residente há 39 anos no Morro dos Macacos. Jair, residente há 50 anos no morro dos Macacos; Argumentos: Opina que o que mais chama atenção na comunidade é o descaso do poder público. Acredita que um dos problemas que afeta a comunidade seja a questão do saneamento básico. Afirma que o país perdeu o hábito de se organizar e se mobilizar e que Macacos está dentro desse contexto. Acredita que a organização mais valorizada da comunidade é o CEACA. Cita Mário Lima, presidente da Associação, como uma influência da comunidade e reforça o passado de luta do presidente. Não consegue citar quais órgãos do governo a comunidade mais confia. Brinca com a desconfiança dos moradores 31 exemplificando que o morador desconfia até da própria sombra. Acredita que o principal problema para as crianças na comunidade é a questão da saúde. Afirma que, em relação aos cursos e ao lazer, as crianças e os jovens estão bem servidos. Ticiane, residente no Morro dos Macacos desde que nasceu; Argumentos: Relata que a questão da segurança sempre lhe chamou a atenção. Opina que a situação melhorou um pouco com a UPP, mas que os moradores ainda estão vulneráveis e não conseguem expor sua opinião por completo. Informa que o problema do lixo é o que mais atinge os moradores atualmente. Ressalta que o problema não é somente da COLURB, mas também dos moradores. Relata que muitas pessoas ainda jogam o lixo nas valas e que falta conscientização. Acredita que as ONGs não têm vínculo político ou religioso. Não consegue opinar em quais órgãos do governo a comunidade mais confia. Destaca que, no momento, a polícia é respeitada, mas que a relação entre policiais e moradores é distante (por isso, não há confiança). Confirma que ainda exista o poder paralelo e que os moradores não têm muita liberdade. Informa que existem instituições voltadas para as crianças e que ela inclusive trabalha em uma delas. Relata não haver nenhuma organização no local que trabalhe a questão da violência contra crianças, mas destaca que o CRAS (Centro Regional de Atendimento Social), que fica fora da comunidade, realiza esse trabalho. Acredita que as pessoas que mais influenciam os moradores são aquelas que trabalham nos projetos da comunidade, como o Dom Pixote, e destaca também a Dona Ana, do CEACA, que está há muitos anos na comunidade. Acredita que estes projetos incentivam as pessoas a se capacitarem a fim de buscar uma realidade melhor do que esta em que vivem. Conta que chegou a fazer um curso no CEACA porque queria crescer profissionalmente. Acredita que os principais problemas para as crianças da comunidade são a falta de uma boa estrutura familiar e a pobreza. Não consegue comentar sobre a violência doméstica, mas diz que já tomou conhecimento de alguns casos. Acredita que a agressão é o principal tipo de violência doméstica. Relata não saber de casos de violência entre homem e mulher. Diz nunca ter visto violência entre adolescentes, mas já ouviu relatos de que eles brigam. Conta não saber de casos de violência contra idosos. Acredita que já está havendo uma melhora na estrutura para atender as crianças e adolescentes da comunidade, e relata que o que está faltando é que eles percebam essa mudança e deixem que ela aconteça. Destaca que falta ainda um trabalho mais intensivo, através de parcerias, que auxiliem as crianças a compreender isso. 32 Carla, moradora e dirigente de ONG; Argumentos: Relata que o problema que mais lhe chama a atenção é o descaso do poder público com a comunidade. Afirma que os principais problemas que atingem os moradores são a acessibilidade e a questão do lixo. Cita que a questão do lixo é uma grande preocupação porque causa diversas doenças. Informa que os moradores criaram um grupo de apoio no qual se reúnem com o presidente da Associação dos Moradores para discutir os problemas da região. Cita a Igreja Católica, a Associação dos moradores, o CEACA e as escolas municipais como instituições respeitadas pela comunidade. Acredita que o CEACA tem uma influência política, mas que a instituição não revela qual partido por ética. Afirma que é difícil dizer em qual órgão do governo a comunidade mais confia, mas acredita que seja na Prefeitura devido ao resultado da última eleição. Acredita que não exista nenhuma instituição na qual os moradores menos confiam e que a questão de desconfiança é uma questão pessoal. Relata que a figura de um político gera desconfiança da comunidade. Cita Dona Ana, Mário Lima, presidente da associação dos moradores, Lins e até ela própria como pessoas que influenciam a comunidade. Informa que existem muitas instituições voltadas para crianças e cita diversas, entre elas a Vila Olímpica. Informa que essas instituições conseguem encaminhar algumas denúncias de agressão infantil para o Conselho Tutelar. Afirma que o principal problema para as crianças é a desestruturação familiar. Acredita que essa desestruturação familiar acarreta diversos problemas para as crianças na escola, no desenvolvimento e no aprendizado, “não tem alimentação, não tem carinho”. Confirma que existem casos de violência entre homem e mulher. Acredita que faltam projetos governamentais dentro da comunidade voltados para crianças dentro da realidade delas. Luis, residente há trinta e três anos no Morro dos Macacos; Argumentos: Afirma que o problema que mais chama a atenção na comunidade é a violência, seja ela física ou psicológica. Acredita que os problemas que mais atingem os moradores são as questões da luz, água, esgoto a céu aberto (define todos esses problemas como “falta de estrutura”). Relata que o CEACA e o Dom Pixote são instituições muito respeitadas na comunidade e elogia o trabalho realizado pelo CEACA. Acredita que as pessoas influentes na comunidade são aquelas que têm uma grande vivência no Macacos e cita Lins como um dos líderes. Não sabe afirmar em qual instituição do governo a comunidade mais confia. Relata insatisfação dos moradores com o sistema de saúde e questões de energia e de água. Critica o sistema de saúde, explicando que o posto não atende a toda a demanda e que os moradores 33 são obrigados a usar o único posto. Cita diversas organizações voltadas para a criança como o CEACA e a Casa Délia. Relata que enviava relatos de algum acontecimento de violência contra crianças para o Conselho Tutelar e não recebia uma resposta. Relata que atende a crianças agredidas (inicia com a percepção da marca da agressão, tira fotografia da palmada que a criança tomou e realiza processo burocrático). Critica que, até o processo resultar em uma atitude mais enérgica, pode ter acontecido muito mais para a criança dentro de casa. Informa que existem muitos casos de violência entre homem e mulher e cita uma história que está no judiciário. Informa que os principais problemas para as crianças são a questão da saúde, com a exposição das crianças a esgotos e à violência. Considera também um problema que muitas crianças cuidam de outras crianças enquanto os pais vão trabalhar (não culpa os pais por essa realidade). Relata que elas enfrentam riscos em casa como, por exemplo, uma “panela quente virar ”. Opina que as crianças estão bem servidas com áreas de lazer e escolas e acredita que falta para as crianças mais proteção dos seus direitos. Francisco, residente há cinquenta anos no Morro dos Macacos; Argumentos: Afirma que o que mais lhe chama a atenção é a questão do jovem não ter muitas opções profissionais. Relata que poucos jovens conseguem se formar em uma universidade. Acredita que o problema que mais atinge os moradores é a falta de liberdade de expressão. Acredita que os moradores são escravos do dinheiro e do poder. Opina que, no dia em que o povo tiver liberdade de falar e de ir e vir, as coisas vão começar a funcionar. Relata que não adianta a polícia chegar e tratar com ignorância. Relata que os moradores não estão fazendo nada para melhorar a situação. Acredita que deveriam existir mais ONG’s na comunidade. Nega que exista influência política ou religiosa nas ONG’s. Cita a escola e o posto de saúde como os órgãos do governo nos quais os moradores confiam. Não consegue afirmar em quais órgãos do governo os moradores menos confiam. Informa que existem muitas organizações voltadas para a criança na comunidade. Acredita que o principal problema para crianças do Morro dos Macacos é a questão do lazer. Relata que existe muita violência doméstica na comunidade e reforça que os pais espancam muito as crianças e, às vezes, não alimentam os filhos. Cita o uso de drogas, o desemprego e a falta de cultura como fatores que influenciam a agressão doméstica. Irina, residente há quarenta e um anos no Morro dos Macacos; Argumentos: Opina que o problema que mais chama a atenção na comunidade é a acessibilidade e ressalta que o local não possui ruas e que essa estrutura prejudica muito o 34 desenvolvimento da comunidade. Acredita que as questões do saneamento e do lixo são os temas que mais atingem os moradores. Informa que os moradores estão se mobilizando para “cobrar” das instituições e que, atualmente, eles sabem para qual instituição devem reclamar. Informa que o CEACA é ligado ao DEM, partido político, que administra a Vila Olímpica e ressalta que a instituição trabalha totalmente de acordo com o partido dividindo até os seus lucros. Cita a Liga de Futsal de Macacos como uma grande influência para os jovens. Cita o corpo de bombeiros como um órgão do governo no qual a comunidade mais confia e destaca, em segundo lugar, a COMLURB. Informa que o Conselho Tutelar é muito atuante na comunidade. Acredita que deveria existir mais atividades e mais atenção para as crianças. Elogia o sistema de ensino de período integral e relata que é um problema muito grande na comunidade a situação das mães que precisam pagar para alguém ficar com a criança. Opina que faltam espaços de lazer e de conhecimento para as crianças. Defende a ideia de levar as crianças para museus e relata que sua vivência em museus na infância despertou o gosto pela história. Não comenta a questão da violência contra crianças. Laura, residente do Morro dos Macacos desde o nascimento; Argumentos: Relata que a violência era o problema que mais chamava a atenção na comunidade, mas ressalta que agora está melhorando. Informa que as crianças sentiram a diferença do antes e depois da pacificação e cita um relato de uma criança que contou que agora ela pode andar de bicicleta livremente. Opina que os principais problemas da comunidade, como a questão do lixo, estão sendo resolvidos. Relata que há conflitos com as UPPs e os jovens, mas que agora os adolescentes estão conseguindo falar sobre isso. Comenta que o governo só está entrando na comunidade agora, devido à UPP. Elogia o CEACA, que diz ser a instituição onde todos trabalham, e no qual agora atua. Acredita que os jovens têm o que fazer e que as crianças têm onde ficar na comunidade, o que a diferencia das outras. Nega a existência de influência política ou religiosa nas ONG’s. Conta que já houve caso de apoiarem candidatos políticos que se elegeram e não realizaram as melhorias prometidas. Como influências na comunidade, destaca a fundadora e presidente do CEACA, Dona Ana, e as voluntárias que lutam pela comunidade. Não sabe dizer quais são os órgãos do governo nos quais os moradores confiam mais ou menos. Afirma haver organizações voltadas para as crianças, como o Centro Cultural da Criança e a creche Patinho Feliz, todas ramificações do CEACA. Relata que, dentro da creche e do Centro Cultural, há o Núcleo de Família, composto por pedagogos e psicólogos que atendem às crianças no caso de violência 35 doméstica. Relata que os principais problemas para as crianças têm diminuído com projetos como o da Vila Olímpica. Acredita que se as crianças não realizam atividades na comunidade é porque os pais não deixam. Relata que há violência doméstica, mas que não sabe dizer se são muitos casos, pois os professores não têm acesso a essas informações. Em um dos casos de que tem conhecimento, uma criança levou dois tiros do próprio pai. Conta que violência entre homem e mulher sempre existe. Relata que existe violência entre crianças e adolescentes dentro da escola e diz não saber quais providências são tomadas. Não sabe falar se há violência contra idosos na comunidade. Acredita que o que falta para as crianças da comunidade é o amor da família. Justino, residente há 45 anos no Morro dos Macacos; Argumentos: Relata que as condições de vida sempre foram muito difíceis e, os serviços básicos, muito precários. O problema que mais chama a atenção é a violência, que acredita ser uma questão que não pode ser superada sem que haja um trauma. Conta que pessoas que se mudaram da comunidade afirmam que nunca mais voltariam. Considera que, atualmente, tem sido complicado para os moradores conviverem com a pacificação e saber tirar proveito dela. Acredita que os moradores, as instituições e o Estado não estão sabendo conduzir este período de paz. Relata que “as coisas acabam se perdendo em vaidade”. Afirma que as pessoas da comunidade ainda estão em fase de adaptação, aprendendo a viver com a tranquilidade. Acredita que este período de adaptação vá ser demorado. Opina que as instituições mais valorizadas pela comunidade são o espaço cultural Dom Pixote, a Casa das Artes, a Vila Olímpica e as escolas – que, aparentemente, estão conseguindo fazer um trabalho melhor. Relata que o vínculo entre ONG’s e partidos políticos tende a existir na medida em que têm algum convênio com a Prefeitura. Conta que, após a pacificação, surgiram muitas pessoas que antes não podiam mostrar seu potencial antes. Relata ver a juventude muito mais ativa atualmente, buscando outros investimentos, principalmente na área da educação e da profissionalização. Acredita que, com essas novas ideias, os jovens são capazes de fazer uma “revolução”. Questionado sobre quais os órgãos públicos em que a comunidade mais confia, relata que a educação melhorou bastante em relação à estrutura e a novos projetos. Considera positiva a intervenção preventiva realizada pela Saúde da Família. Opina que a área do trabalho ainda precisa de mais investimento, pois há muitas pessoas desempregadas. Acredita que poderiam ser feitas mais coisas em relação à cultura. Relata que existem muitos talentos desconhecidos na comunidade, em diferentes áreas culturais. Afirma ainda haver problemas 36 relacionados à Polícia. Relata que os policiais precisam ser vistos como prestadores de serviço comuns e não mais como opressores, e que estes precisam ver a comunidade como uma extensão da cidade. Afirma que a comunidade está bem assistida de organizações voltadas para as crianças e exemplifica com instituições como o CEACA e a Casa das Artes. Acredita que a questão da violência infantil precisa ser melhorada. Relata que grande parte das pessoas não sabe o que é o Estatuto da Criança e do Adolescente. Acredita que o Conselho Tutelar não pode ser visto como opressor. Relata que os principais problemas para as crianças da comunidade estão relacionados à questão familiar. Conta que há muitas crianças nascendo sem pai ou sendo criadas pelas avós e crescendo muito “soltas”, sem referência ou com referências que “não ajudam muito”. Não sabe se este problema tem reparação. Acredita que a violência doméstica é bastante frequente na comunidade. Relata que abandono e maus tratos são os problemas mais notáveis. Conta que já soube de vários casos de violência entre homem e mulher. Relata que os casais são muito jovens e isso acaba desencadeando uma série de conflitos. Apesar disso, acredita que esse tipo de violência tem diminuído. Exemplifica casos de violência contra crianças com base na vivência que teve como conselheiro tutelar. Relata que há um trabalho importante de atendimento ao idoso na comunidade. Relata que, quando a pessoa não envelhece de maneira saudável, acaba ficando refém da solidão. Acredita que crianças de 7 a 12 anos precisam de uma maior cobertura, de projetos maiores. Mário, residente há 39 anos no Morro dos Macacos; Argumentos: Nascido e criado na comunidade, relata que há vários problemas que lhe chamam a atenção, mas destaca a falta de cultura, apesar de algumas pessoas tentarem fazer algo para reverter a situação. Comenta que a falta de iluminação pública também é algo que atinge os moradores. Conta que as pessoas colocam uma lâmpada na frente de casa, para “pelo menos tentar iluminar a entrada”. Cita a Associação de Moradores e “algumas ONG’s” como as organizações mais respeitadas pela comunidade. Acredita que as principais ONG’s não são vinculadas a partidos políticos e diz que a ONG Adélia Fernandes, coordenada pela Célia Regina, é ligada à Igreja. Destaca que as pessoas ligadas a projetos são as que mais influenciam a comunidade. Cita as atividades na área de esporte realizadas pelo governo como as que os moradores mais confiam. Comenta sobre a Vila Olímpica, que era “um sonho para a comunidade, e que está sendo um diferencial”. Relata que a saúde também melhorou bastante. Acredita que os moradores não confiam na Polícia estadual. “É complicado. O trabalho deles dentro da comunidade depende de muita coisa”. Exemplifica dizendo que a 37 cultura da comunidade está “esquecida devido às nossas origens”. Diz que a parte de eventos está precária dentro da comunidade: “Não tem mais roda de samba, não tem mais baile funk... A Polícia faz um papel bom, mas não deixa ramificações para que esse tipo de coisa aconteça”. Comenta que nem tudo que é ruim hoje foi ruim no passado, e que algumas pessoas têm dificuldade em entender isso. Cita o Centro Comunitário, o Dom Pixote e a Adélia Fernandes como as instituições voltadas para as crianças da comunidade. Relata que, dentro do Centro Comunitário, havia um programa chamado Violência Doméstica, mas que não ouve falar sobre isso há tempo. Diz não ver muitos problemas para as crianças na comunidade, “tem bastante escola... Um dos problemas é a própria família, que não te dá a oportunidade de se estruturar anteriormente... Estão se estruturando agora, depois desses programas do governo”. Acredita que não haja muita violência doméstica na comunidade. “Até porque todo mundo se conhece, o meu problema também é do meu vizinho...”. Conta que há muitos casos de brigas de marido e mulher. “Ainda mais com a chegada da UPP. As denúncias aumentaram bastante. Não é que a gente ache normal, mas, em comunidade, essas coisas acontecem sempre... Até pelas dificuldades que as pessoas encontram”. Acredita que não pode haver brigas dentro de uma comunidade. Relata haver alguns problemas pequenos, mas que não há casos graves de violência contra crianças e adolescentes. Conta que não há casos de violência contra idosos e diz que sua geração aprendeu que os idosos precisam ser respeitados. Diz que, atualmente, os conflitos são resolvidos com diálogo. Considera o Morro dos Macacos diferente dos outros. Diz que quem mora lá, nunca sairia para morar em outra comunidade. Acredita que falta cultura para as crianças. Pensa que deveria haver um lugar onde as crianças pudessem assistir a filmes. Quadro 2: Matriz de Atores Internos – moradores Ator Jair, residente há 50 anos Características Pessoa bastante crítica. Morador antigo e respeitado. Posicionamento diante do tema infância e violência Não se posiciona diante do tema da violência contra crianças. Interesses, medos e expectativas Impacto potencial Critica o Estado (que estaria ausente na favela) e a própria comunidade (que teria ficado conformada, sem capacidade de ação). Os principais problemas para as crianças estariam relacionados à saúde. Médio. Embora sua antiguidade na favela provavelmente lhe renda prestígio, não se posiciona diante de temas centrais à pesquisa. Ticiane, residente desde que nasceu; Carla, moradora e dirigente de ONG; Luis, residente há trinta e três anos; Francisco, residente há cinquenta anos; 38 Nascida e criada na comunidade. Crítica em relação à ação dos governos. A violência ocorre na comunidade, e embora a UPP tenha melhorado a situação, o “poder paralelo” do tráfico continua. Diz existir violência contra crianças, mas não se sente capacitada para discorrer sobre o assunto. Moradora do morro e muito ativa socialmente. Relata casos de violência contra crianças, entendendo que essa prática ocorre com frequência (o mesmo ocorreria em relação às mulheres). Morador antigo, conhece a realidade local. Especialmente interessado pela problemática das crianças. A violência contra crianças e mulheres seria frequente. Acredita que a burocracia e o Conselho Tutelar dificultem ações mais efetivas de combate à violência doméstica. Respeitado pela antiguidade, conhece o local. A violência contra crianças é frequente. Cita também casos de negligência dos pais. O uso de drogas, o desemprego e a falta de cultura são fatores que geram a agressão doméstica. Preocupa-se com o medo que leva os moradores ao silêncio diante dos casos de violência. Embora a UPP realize um bom trabalho, a relação da Polícia com a população deixa a desejar. O principal problema para os moradores é o acúmulo de lixo. Para as crianças, o grande problema seria a estrutura familiar deficiente. Propõe mais ações do governo para as crianças. Os principais problemas que atingem os moradores são a falta de acessibilidade e a questão do lixo, que traria muitas doenças. A desestruturação familiar seria o principal problema para as crianças. Propõe projetos voltados à criança do morro, desde que adequados às suas particularidades. Entende que os moradores carecem de serviços básicos, como água e esgoto. A saúde também seria um problema grave. Preocupa-se com o fato de as próprias crianças terem que cuidar de outras crianças enquanto os pais trabalham. Propõe instrumentos que transformem em realidade os direitos das crianças. Preocupa-se com a falta de emprego e de escolaridade dos jovens. Clama para que a comunidade se expresse livremente e se organize, o que não ocorreria atualmente. O principal problema para as crianças seria a ausência de áreas de lazer. Irina, residente há quarenta e um anos; Antiga no morro, entende as carências da comunidade. Não comenta a questão da violência contra crianças. Acessibilidade e lixo são os principais problemas para os moradores. A criação de espaços destinados ao acolhimento das crianças no horário de trabalho dos pais é vista como essencial. Escolas de tempo integral e projetos culturais são boas opções para formar as crianças. Laura, residente Nascida e criada na comunidade. Após a UPP, o problema da Relata que os principais problemas para as crianças Baixo. Não parece possuir poder de mediação nem exerce liderança de destaque. Alto. Mora nos Macacos e preside entidade reconhecida. Alto. Morador local e atuante no tema da violência infantil, interage com outras instituições e com os membros da comunidade. Médio. Possui longa vivência com a comunidade, que o respeita. Contudo, não parece ser uma liderança destacada. Médio. Moradora antiga, demonstra conhecer os arranjos sociais do Morro. Porém, não comenta a violência contra crianças. Médio. Compreende os 39 desde o nascimento; Justino, residente há 45 anos; Mário, residente há 39 anos. Professora. Morador antigo, retrata com muita propriedade a realidade local. Bastante propositivo. Nascido e criado na comunidade. violência teria sido minimizado bastante, e a mudança teria se refletido na qualidade de vida das crianças. Apesar disso, cita casos de violência contra crianças, mulheres e adolescentes. Embora considere que muitas instituições atuem a favor das crianças no morro, a violência é um problema. Cita ocorrências e aponta para o problema do abandono de crianças, da precocidade dos pais, da ausência de regramentos e da agressão contra mulheres. têm diminuído com projetos como o da Vila Olímpica. Considera que existem espaços destinados às crianças, que muitas vezes não usufruem de tais ambientes porque os pais não permitem. Crê que falta “mais amor” dos pais para com os seus filhos. problemas da região e das crianças em particular. Não parece ser capaz de influenciar instituições ou uma gama maior de pessoas. Considera que a pacificação é um processo lento, e que a comunidade está apenas começando a apreender a conviver com a situação. É otimista em relação ao futuro, já que os jovens estariam investindo mais em educação e na busca de empregos. Propõe mais projetos culturais a fim de revelar os talentos da comunidade. Alto. Além de morador antigo, foi conselheiro tutelar. Conhece as instituições e sabe como articular/mediar interesses e projetos. Entende que não há violência grave contra crianças, mas admite que entre os casais a situação merece maior atenção. Reclama de problemas de infraestrutura, como falta de luz. Valoriza o trabalho das ONG’s, mas propõe projetos culturais voltados às crianças, enfatizando o acesso ao cinema. Baixo. Embora seja antigo na comunidade, não possui interlocução com lideranças ou entidades representativas. 3.2.1. Análise dos argumentos dos moradores Os entrevistados residem há anos no Morro dos Macacos, construindo suas trajetórias de vida e muitas vezes desempenhando atividades profissionais ou sociais na própria comunidade. Em virtude disso, os depoimentos são merecedores de crédito e espelham a opinião de pessoas representativas, capazes de perceber integralmente a realidade da favela. Já à primeira vista, evidencia-se que a infraestrutura oferecida pela favela está longe de satisfazer os moradores. Com efeito, a exemplo das afirmações colhidas entre os stakeholders, os moradores manifestaram algum desconforto em relação às condições urbanas do Morro, merecendo destaque o problema do acúmulo de lixo pelas ruas e as condições insatisfatórias de acessibilidade. 40 Quanto ao primeiro ponto, verifica-se que os moradores se sentem incomodados e constrangidos com o excesso de dejetos espalhados nas vias. Para além do fato de que o lixo representa um potencial propagador de doenças (inclusive entre as crianças), há o agravante de que a situação propicie a sensação de abandono por parte do Estado. Contudo, cumpre ressaltar que o problema pode estar relacionado sobretudo ao comportamento da própria comunidade, que desconsidera o processo correto de descarte dos dejetos. Já a acessibilidade é um tema bastante relevante para o Morro dos Macacos e para a maioria das outras favelas cariocas. Ordinariamente situadas em terrenos elevados e irregulares, as favelas possuem ruelas estreitas e íngremes que constituem um espaço de difícil acesso, especialmente para pessoas idosas ou com mobilidade reduzida. Este quadro suscita preocupações, mas parece ter recebido pouca (ou nenhuma) atenção por parte do poder público e de ativistas sociais. Outro elemento curioso que emerge dos depoimentos diz respeito à capacidade de organização dos moradores. Embora o Morro possua uma gama considerável de ONG’s e instituições diversas, um entrevistado lamentou o “conformismo” da comunidade, que estaria resignada com as atuais condições, ao passo que outro entrevistado considera que a comunidade dispõe de múltiplos espaços destinados às crianças, que não os aproveitariam apenas porque os pais não permitem. Se a desmobilização e a falta de consciência são percebidos e explicitados mesmo internamente, parece claro que se trata de um aspecto para o qual é possível dirigir intervenções. Quanto ao campo da infância, boa parte dos entrevistados sustenta que as famílias da favela carecem de formação sólida, capaz de oferecer o amparo necessário à educação sadia das crianças. Nesse sentido, alguns entrevistados falam em “desestruturação” familiar de um modo geral, enquanto um dos entrevistados se preocupa com a precocidade dos pais. É sintomático que o depoimento de um entrevistado insista no argumento de que “falta amor” dos pais em relação aos filhos, o que denuncia uma carência afetiva importante. Por fim, um entrevistado detalha o problema alegando que o consumo de drogas, o desemprego e o acesso escasso à cultura contribuem inclusive para a incidência de violência contra crianças. O tema da violência recebeu diferentes interpretações. Neste particular, alguns entrevistados demonstram um certo otimismo, considerando que o clima de violência foi relativamente contido após a instalação da UPP. Embora compartilhe dessa análise, uma entrevistada pondera que o “poder paralelo” exercido pelos traficantes ainda está presente. É interessante sublinhar que a violência poucas vezes foi apontada como o principal problema 41 da comunidade. Portanto, o estancamento do acúmulo de lixo pode representar mais urgência para os moradores do que o combate violência. Diante do tema da violência infantil, vários dos entrevistados se posicionaram da mesma forma: os casos de agressão seriam frequentes na favela. Entre os fatores de risco informados, podemos citar o abandono afetivo, o descaso com a alimentação, bem como conflitos entre as próprias crianças e jovens. Outro entrevistado considera que a ausência de disciplina leva as crianças a adquirirem um comportamento nocivo: ficando demasiado “soltas”, elas não aprenderiam a respeitar as outras pessoas e se tornariam violentas. Segundo alguns entrevistados, o quadro poderia ser melhorado a partir de ações específicas, como a criação de espaços destinados ao cuidado das crianças no período em que os pais estão trabalhando, projetos culturais e escolas de tempo integral. As demandas não são diferentes daquelas que surgem em outras comunidades, revelando que a materialização de estruturas capazes de abrigar e fornecer educação às crianças seria uma medida bem recepcionada também entre os moradores do Morro dos Macacos. 42 4 Violência e cotidiano na percepção de adultos e crianças Serão apresentados a seguir os resultados da análise de dados quantitativos sobre a violência contra crianças de até 8 anos em casa, na escola e na comunidade, obtidos através de questionários aplicados a adultos e crianças do Morro dos Macacos. A amostra de adultos é constituída de 158 questionários, dos quais 108 são mães, 18 pais, 13 avós e 19 “outros” (5 tias, 4 irmãs, 3 avôs, 2 irmãos, 1 tio, 1 bisavô, 1 prima). Para a construção desta amostra, considerou-se que, de acordo com o Censo 2010 do IBGE, o Morro dos macacos conta com 848 crianças de 0 a 8 anos de idade, de um total de 5.066 moradores em 1.383 domicílios, sendo, portanto, 3,66 moradores por domicílio. Esta amostra foi calculada sobre o número de domicílios com crianças de 0 a 8 anos. Considerou-se que os domicílios possuem em média 1,2 crianças nesta faixa etária, ou seja, a cada cinco domicílios com crianças nesta faixa de idade, uma delas possui duas crianças e quatro apenas uma criança. Neste sentido, o erro amostral da amostra aplicada a pais ou responsáveis por crianças pequenas é de 7,5%. O questionário para crianças foi aplicado somente a crianças de 6 a 8 anos de idade, e foi respondido por 32 crianças, dos quais 17 meninos e 15 meninas. Inicialmente, será apresentada a análise dos dados obtidos da percepção dos adultos sobre a violência praticada em casa e na comunidade contra crianças de até 8 anos de idade. Além da violência, os dados revelam também percepção dos adultos sobre os serviços na comunidade de saúde, educação, segurança, transporte e iluminação. Em seguida esses mesmos dados são analisados com o modelo econométrico de regressão com o objetivo de testar hipóteses explicativas da violência física e psicológica sofrida pelas crianças pequenas. Posteriormente, será apresentada a análise dos dados obtidos da percepção de crianças de 6 a 8 anos sobre a violência sofrida e testemunhada por elas em casa, na escola e na comunidade. Além da violência, os dados revelam também a percepção dessas crianças sobre tipos de brincadeiras mais frequentes entre elas e o que falta para elas na comunidade. 4.1. Percepção dos Adultos Neste item serão analisados os dados da violência contra a criança, obtidos através de questionários aplicados aos adultos. Os respondentes foram mães, pais, avós e “outros”. Inicialmente, será analisada a violência praticada por esses adultos em casa, contra crianças de 43 até 8 anos de idade, tanto física (bater), quanto psicológica (colocar de castigo e gritar). Posteriormente, será analisada a violência testemunhada por esses adultos na comunidade e, por último, as suas percepções sobre os serviços da comunidade: iluminação, educação, saúde, transporte, segurança e do que falta para as crianças na comunidade. 4.1.1. Violência em casa Quando perguntados sobre a frequência com que aplicam algumas atitudes quando a criança mais velha (até 8 anos de idade) se comporta mal, os adultos indicaram os seguintes tipos (Figura 6): a) “Colocar de castigo” e gritar (violência psicológica); b) Bater (violência física)8. Figura 6: Tipos e frequência de violência (física e psicológica) aplicada pelos adulto contra a criança em casa 8 Nesta pesquisa, optou-se por separar a violência física em duas: dar uns tapas e bater durante a abordagem ao respondente, uma vez que alguns adultos poderiam responder que não batem nunca na criança, mesmo dando uns tapas, entendendo que “dar uns tapas” não seria “bater”. Entretanto, para a análise, juntou-se as duas formas, optando pela atitude mais frequente e classificando-a como “bater”. 44 4.1.1.1. Violência psicológica 4.1.1.1.1. Gritar A violência mais praticada contra a criança em casa é a violência psicológica de “gritar”. Apenas 30% dos adultos nunca gritaram com a criança, sendo que 32% deles grita “sempre” (Figura 6, no item 4.1.1.). 4.1.1.1.1.1 Grupos de adulto A mãe é quem mais grita com a criança e o pai é quem menos grita (Figura 7). Essa diferença é estatisticamente significativa (K-W, chi²=23,036, Sig=0,000). A grande maioria das mães grita com a criança, sendo que 39% grita sempre. Apenas 20% das mães nunca gritou com a criança, enquanto a maioria dos pais (67%) nunca gritou com a criança e nenhum pai (0%) grita sempre (Figura 7). Figura 7: Frequência com que cada grupo de adultos grita com a criança em casa Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de adultos, que permite identificar, neste caso, qual adulto mais grita com a criança. Os valores mais baixos indicam adultos que mais gritam com a criança e os valores mais altos indicam os adultos que menos gritam com a criança. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 45 O segundo grupo que mais grita com a criança, depois das mães, é o grupo dos outros, sendo que 26% desse grupo grita “sempre” e 32% grita “às vezes” (Figura 7). O grupo dos “outros” é formado por tia, irmã, avô, irmão, primo, etc. 4.1.1.1.1.2. Idade da criança e frequência com que a mãe “grita” Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas entre a frequência com que a mãe grita e a idade da criança (K-W, chi²=15,743, Sig=0,028). As mães gritam mais com a criança de 2 anos e menos com a criança de 1 ano de idade (Figura 8). Todas as mães, cujas crianças mais velhas têm 2 anos de idade, gritam com a criança, sendo que 67% delas grita sempre (que a criança se comporta mal) e 33% grita às vezes. Logo em seguida estão as mães cujas crianças têm 5 anos de idade. Apenas 6% delas nunca gritou com a criança, sendo 63% grita sempre (Figura 8). Relação entre a frequência com que a mãe grita, com a idade da criança Sempre Quase sempre Às vezes Raramente Nunca Morro dos Macacos - Rio de Janeiro/2012 67% 63% 57% 47% !"#$ "%#$ ""#$ 40% 36% "&#$ )&#$ 25% 25% 19% 12% 0% 0% 0% 0% 1 ano (m.o.=80,71) 2 anos (35,33) 0% 0% 3 anos (52,56) '(#$ )*#$ 20%)*#$ 13% 13% 13% 9% 6% 13% 7% 7% 6% 6% 30% 25% 5% 0% 4 anos (52,09) 5 anos (38,72) 6 anos (50,47) 7 anos (47,70) 8 anos (59,13) Figura 8: Frequência com que a mãe grita por idade da criança Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de idades, que permite identificar, neste caso, em qual idade a criança é mais submetida ao gritos da mãe. Os valores mais baixos indicam idade das crianças que mais recebem gritos da mãe e os valores mais altos indicam as idades das crianças que menos recebem os gritos da mãe. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 46 Mães cuja criança mais velha tem 1 ano de idade gritam mais com a criança do que as demais, cujas crianças têm 2 anos ou mais. Ainda assim, 43% dessas mães, cujas crianças mais velhas têm 1 ano, gritam às vezes (Figura 8). Não obstante, em todas as idades (com exceção das crianças de 1 ano) a grande maioria das mães (mais de 80%) grita com a criança mais velha. Essa informação pode ser confirmada observando os índices das mães que “nunca” gritam, que nunca passa de 19%, com exceção da criança de 1 ano de idade (Figura 8). 4.1.1.1.2. Colocar de castigo A violência psicológica de “colocar de castigo” é menos aplicada do que a violência psicológica de gritar. Quase a metade dos adultos nunca colocou a criança de castigo (42%). Não obstante, a maioria deles coloca a criança de castigo, sendo que uma parcela significativa (28%) coloca a criança de castigo sempre, 8% coloca quase sempre, 13% às vezes e 9% raramente (Figura 6, item 4.1.1.). 4.1.1.1.2.1. Grupos de adulto A mãe e o pai são os adultos que mais colocam a criança de castigo e a avó é quem menos coloca de castigo. Essa diferença entre os grupos não é confirmada estatisticamente, no entanto, pode ser observada através do cruzamento desses dados (Figura 9). Figura 9: Frequência com que cada grupo de adulto “coloca a criança de castigo” 47 A maioria das mães coloca a criança de castigo, sendo que 29% coloca sempre, 6% quase sempre, 18% às vezes e 10% raramente. Não obstante, uma boa parcela das mães (37%) nunca colocou a criança de castigo (Figura 9). Embora o pai coloque a criança de castigo menos do que a mãe, considerando a soma de todas as frequências (sempre, quase sempre, às vezes e raramente), o mesmo não é verdade, se for considerado apenas o grau máximo com que cada grupo coloca a criança de castigo, ou seja: “sempre”. Considerando os que colocam a criança de castigo “sempre”, o pai supera todos os grupos, uma vez que, 33% de pais coloca a criança de castigo sempre, enquanto que 29% das mães coloca sempre, 23% das avós e 22% de outros (Figura 9). A avó é quem menos coloca de castigo, uma vez que 62% delas nunca colocou. Ainda assim, 23% das avós coloca a criança de castigo sempre e 15% coloca quase sempre (Figura 9). Portanto, embora seja a mãe quem mais coloque a criança de castigo, essa é uma atitude praticada pela maioria dos grupos de pais e “outros”, assim como parcela significativa das avós, embora não seja maioria, o que indica que o castigo é uma prática frequente em todos os grupos de adultos. 4.1.1.1.2.2. Idade da criança que é colocada de castigo pela mãe Os resultados revelam diferenças entre as idades das crianças e a frequência com que a mãe as “coloca de castigo” (Figura 10). Essa diferença pode ser confirmada estatisticamente (K-W, chi²=13,904, Sig=0,053) e revela que: Ø As mães, cujas crianças mais velhas têm 2 e 5 anos de idade, são as que mais colocam a criança de castigo; Ø Destaque à frequência com que essas crianças são colocadas de castigo pela mãe: 56% das mães, cujas crianças têm 2 anos, assim como 50% das mães, cujas crianças mais velhas têm 5 anos, colocam a criança de castigo sempre (Figura 10); Ø As crianças de 8 anos são as que menos são colocadas de castigo. No entanto, 70% das mães cujas crianças mais velhas têm 8 anos, colocam a criança de castigo; Ø Nenhuma criança de 1 ano é colocada de castigo pela mãe. 48 Figura 10: Idade da criança e a frequência com que é colocada de castigo pela mãe Embora as crianças de 5 e 2 anos se destaquem, a maioria das mães, com crianças nas outras idades, coloca a criança de castigo (com exceção das crianças de 1 ano de idade) (Figura 10). 4.1.1.1.2.3. Tipos de castigo praticado contra a criança Os castigos mais aplicados pelos adultos são (Figura 11): a) deixar a criança sem o que ela gosta (55% dos adultos); b) deixar a criança sentada (15% dos adultos). Outros tipos de castigo, embora menos frequentes, se destacam pela violência, como deixar a criança com “a cara” para a parede e colocar a criança ajoelhada perto do sofá (Figura 11). 49 Figura 11: Frequência e tipos de castigo aplicados pelo adulto contra à criança Observa-se que alguns tipos de castigos são praticados mais contra as meninas do que contra as meninos (Figura 12). A exceção é “deixar a criança sem o que ela gosta”, que é aplicado tanto para meninos quanto meninas (51% das crianças que são deixadas sem o que elas gostam são meninos e 49% são meninas). Figura 12: Frequência e tipos de castigo aplicados pelo adulto por sexo da criança Os resultados revelam que os tipos de castigos que envolvem a contenção física são aplicados mais contra as meninas do que contra os meninos, como: Ø deixar a criança sentada; Ø deixá-la em um canto; 50 Ø deixá-la com a cara para a parede; Ø colocá-la ajoelhada perto do sofá. Enquanto contra os meninos são praticados os castigos que privam-no de alguma atividade, como: Ø deixar a criança sem sair de casa; Ø deixar a criança sem ver TV (Figura 12). Os castigos mais praticados pela mãe são os mesmos que são mais praticados pelos adultos em geral (Figura 13): a) deixar a criança sem o que ela gosta (38% das mães praticam esse castigo); b) deixar a criança sentada (12% das mães praticam esse castigo). Aqueles castigos menos frequentes, mas que se destacam pela violência são praticados pela mãe, a saber: Ø deixar a criança com “a cara” para a parede; Ø colocar a criança ajoelhada perto do sofá são (Figura 13). Figura 13: Frequência e tipos de castigo praticados pela mãe contra a criança 51 4.1.1.2. Violência física: bater Investigou-se a frequência da violência física considerando que “bater” é o mesmo que “dar uns tapas”9. Os resultados revelam que a maioria dos adultos bate na criança, sendo que 7% e 5% batem sempre e quase sempre, respectivamente, 32% batem às vezes e 17% raramente (Figura 6, item 4.1.1.). O que pode ser observado é que no Morro dos Macacos “bater” é uma violência aplicada mais do que “colocar de castigo”, uma vez que, enquanto 42% dos adultos nunca colocou de castigo, 39% dos adultos nunca bateram na criança (Figura 6, item 4.1.1.). 4.1.1.2.1. Grupos de adultos A mãe se destaca dos demais grupos de adultos como a que mais bate na criança, enquanto o pai se destaca como o adulto que menos bate. Essa diferença é confirmada estatisticamente (K-W, chi²=19,895, Sig=0,000). A grande maioria das mães (73%) bate na criança com alguma frequência, sendo que 41% bate às vezes, 8% bate sempre e 5% bate quase sempre. Apenas 27% das mães nunca bateu na criança (Figura 14). Figura 14: Frequência com que cada grupo (mãe, pai e avó) bate na criança Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo adultos, que permite identificar neste caso, qual grupo mais bate na criança. Os valores mais baixos indicam os grupos que mais batem e os valores mais altos indicam os grupos que menos batem. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 9 No questionário, a violência física foi abordada de duas formas: o quanto o adulto bate e o quanto o adulto “dá uns tapas”. Partiu-se da hipótese de que alguns adultos entendem que “bater” é diferente de “dar uns tapas” e, dessa forma, se fosse perguntado apenas “bater”, aqueles adultos que “dão uns tapas” não seria contemplados. Para a tabulação dos dados, essas duas variáveis foram fundidas na variável “bater”. 52 Os pais são os que menos batem na criança, sendo que a grande maioria (83%) nunca bateu (Figura 14). Na pesquisa foram ouvidas 108 mães, que representam 68% da amostra (Figura 14). Devido à diferença entre a frequência com que a mãe bate na criança (Figura 14), bem como o tamanho que esse grupo representa na amostra da pesquisa (Figura 15), serão descritos, a seguir, alguns fatores que podem estar relacionados com a frequência com que a mãe bate na criança. Figura 15: Representação dos grupos de respondentes na amostra 4.1.1.2.1.1. Fatores relacionados com a frequência com que a mãe bate Alguns fatores foram relacionados com a frequência com que a mãe bate na criança, com o objetivo de identificar quais deles mais influenciam esse tipo da violência, conforme segue. 4.1.1.2.1.1.1. Quantidade de crianças na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a quantidade de crianças na casa, será apresentada a frequência da quantidade de crianças por casa. Predominam as moradias com apenas uma criança, o que representa 55% da amostra. As moradias com 2 crianças representam 30% da amostra, com três crianças representam 13% e com quatro crianças representam 2% da amostra (Figura 16). 53 Figura 16: Quantidade de crianças por casa Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa (K-W, chi²=3,003, sig=0,223) entre a frequência com que a mãe bate na criança e a quantidade de crianças na casa, indicando que a incidência da violência física aplicada pela mãe é menor em casas com 1 criança (Figura 17). Figura 17: Frequência com que a mãe bate e quantidade de crianças na casa Nota: m.o.=média dos valores ordinais por quantidade de crianças na casa, que permite identificar neste caso, em qual casa é maior o índice de violência física praticada pela mãe. Os valores mais baixos indicam as casas onde a violência é maior e os valores mais altos indicam as casas onde a violência física praticada pela mãe é menor. Foram obtidos através do teste nãoparamétrico Kruskal Wallis. 54 Enquanto em casas com apenas uma criança 7% e 0% das mães bate sempre/quase sempre, nas casas com duas crianças, 10% e 13% das mães bate sempre/quase sempre e nas casas com três crianças 14% e 7% das mães bate sempre/quase sempre. Não obstante, mesmo com a mãe batendo menos em casas onde mora apenas uma criança, é alta a incidência da violência nesses tipos de composição familiar, uma vez que 69% das mães batem na criança, considerando as que batem sempre/quase sempre/às vezes e raramente (Figura 17). 4.1.1.2.1.1.2. Idade da criança Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a idade da criança, será apresentada a frequência da idade da criança, cujas mães são respondentes. As mães, assim como todos os respondentes desta pesquisa, respondem pela criança mais velha da casa. Sendo assim, 7% das mães respondem por criança de 0 a 11 meses, outros 7% por criança de 1 ano, 8% das mães responde por criança de 2 anos, outros 8% por criança de 3 anos, 11% das mães respondem por criança de 4 anos, 15% por criança de 5 anos, 14% por criança de 6 anos, outros 14% por criança de 7 anos e 18% das mães responde por criança de 8 anos (Figura 18). Figura 18: Frequência da idade de crianças mais velhas, cujas mães são respondentes Em todos os grupos de idades, com exceção das crianças de 0 a 11 meses, há uma grande incidência de violência física praticada pela mãe, sendo que a incidência é maior em 55 crianças de 2 anos e menor em crianças de 1 e 4 anos (Figura 19). Essa diferença é confirmada estatisticamente (K-W, chi²=15,013, Sig=0,036). Todas as mães da amostra, cujas crianças mais velhas têm 2 anos, batem na criança (Figura 19), sendo que 33% delas bate sempre e 67% bate às vezes. Depois das crianças de 2 anos, a maior incidência é em crianças de 5 e 7 anos de idade. Nas crianças de 5 anos, apenas 12% das mães nunca bateu, 19% delas bate sempre e 44% bate às vezes. Nas crianças de 7 anos, apenas 7% nunca bateu e 64% bate às vezes. São índices bastante elevados de violência física praticada pela mãe contra a criança. Mesmo mães cujas crianças têm 1 ano, 29% das mães bate às vezes (Figura 19). Figura 19: Relação da frequência com que a mãe bate, por idade da criança Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de idade das crianças, que permite identificar, neste caso, em quais as idades a criança é mais vítima da violência física aplicada pela mãe. Os valores mais baixos indicam idades em que as crianças mais apanham da mãe e os valores mais altos indicam as idades em que as crianças menos apanham da mãe. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. Portanto, embora a maioria das crianças, de todas as idades, sejam vítimas da violência física da mãe, a criança de 2 anos se destaca, uma vez que, todas as mães que respondem por criança desta idade bate na criança “sempre” ou “às vezes”. 4.1.1.2.1.1.3. Sexo da criança Os resultados mostram que não há diferença significativa entre meninas e meninos quanto à frequência com que as mães batem. No entanto, a mãe bate com uma frequência um 56 pouco maior nas meninas do que nos meninos. Somando as frequências mais altas (sempre e quase sempre), 15% das mães de meninas batem nelas, enquanto 11% das mães de meninos batem sempre/quase sempre (Figura 20). Figura 20: Relação da frequência com que a mãe bate com o sexo da criança Não obstante, a maioria das meninas (71%), assim como a maioria dos meninos (74%), são vítimas da violência física da mãe com graus semelhantes. 4.1.1.2.1.1.4. Criança que divide a cama com pai e mãe para dormir Os resultados não revelam correlação entre a frequência com que a criança divide a cama com pai e mãe com a frequência com que a mãe bate nela, indicando que a frequência com que a criança dorme com pai e mãe parece que não interfere na frequência com que a mãe bate. De fato, o cruzamento desses dados permite observar que a incidência de violência física por parte da mãe é alta tanto contra crianças que dividem sempre a cama com os pais, quanto contra crianças que nunca dividem a cama com os pais (Figura 21). 57 Figura 21: Relação da frequência com que a mãe bate com a frequência com que criança divide a cama com pai e mãe No entanto, a criança que mais divide a cama com pai e mãe é a criança de 2 anos (Figura 22), vítima mais frequente da violência física praticada pelas mães, como visto anteriormente. Figura 22: Frequência com que a criança divide a cama com pai e mãe, por idade da criança 58 Quanto à relação da frequência com que a mãe bate na criança com a frequência com que a criança divide a cama somente com a mãe ou com a frequência com que a criança dorme sozinha, os resultados não revelam correlação, indicando que, a frequência com que a criança divide a cama somente com a mãe ou a frequência com que a criança dorme sozinha parece não influenciar na frequência com que a mãe bate. 4.1.1.2.1.1.5. Idade das mães Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a idade da mãe, será apresentado a frequência da idade da mãe respondente. A amostra é composta de mães com idade entre 17 e 54 anos. No entanto, a maioria delas tem entre 20 e 34 anos, sendo que 25% tem idade entre 25-29 anos, 20% tem idade entre 20-24 anos e 19% tem idade entre 30-34 anos (Figura 23). Figura 23: Frequência da idade da mãe na amostra de mães respondentes Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade da mãe com a frequência com que ela bate na criança. No entanto, o cruzamento desses dados permite algumas observações importantes (Figura 24). 59 Figura 24: Faixa etária das mães e a frequência com que batem na criança A partir dos 20 anos de idade, a maioria das mães bate na criança, enquanto entre os 17 e 19 anos a maioria das mães nunca bateu (Figura 24). A maior incidência acontece entre as mães nas faixas dos 35-39 anos de idade. Nessa faixa etária, apenas 8% das mães nunca bateu na criança, sendo que 15% batem sempre e 46% batem às vezes. A segunda faixa etária, cujas mães mais praticam a violência física contra a criança, é a de 20-24 anos. Apenas 19% das mães nessa faixa etária nunca bateu na criança, sendo que 14% delas bate sempre, 5% quase sempre e 38% às vezes. No entanto, as mães que menos batem (na faixa dos 17-19 anos), o fazem com frequência mais elevada, 17% a 20% delas bate sempre (Figura 24). 4.1.1.2.1.1.6. Grau de escolaridade da mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a escolaridade da mãe, será apresentada a frequência da escolaridade da mãe respondente. Predomina a mãe que tem até o 1° grau incompleto (60% delas). As mães com 1° completo representam 15% das mães respondentes, 14% tem até o 2° grau incompleto e 12% tem o 2° completo. Apenas 2% das mães respondentes têm curso superior (Figura 25). Não existe na amostra mães “sem alfabetização”. 60 Figura 25: Frequência da escolaridade da mãe Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a escolaridade da mãe e a frequência com que bate na criança. No entanto, o cruzamento desses dados (Figura 26) permite algumas observações, conforme segue: Figura 26: Relação da frequência com que a mãe bate com o seu grau de escolaridade Ø A maioria das mães, em todos os níveis de escolaridade, bate na criança; Ø As mães com 1° grau completo são as que mais batem na criança, sendo que apenas 13% delas nunca bateu na criança, 60% bate às vezes e 13% e 7% bate quase sempre e sempre; 61 Ø As mães que menos batem são as mães com 2° grau completo, ainda assim, 46% bate às vezes e 23% raramente. No entanto, nenhuma delas bate sempre ou quase sempre; Ø As mães com curso superior (2 mães entrevistadas) batem às vezes (100%). 4.1.1.2.1.1.7. Consumo de bebida alcoólica pela mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com seu consumo de bebida alcoólica, será apresentado a frequência com que ela consome bebida alcoólica na frente da criança. A maioria das mães entrevistadas (69%) não bebe na frente da criança, portanto, 31% das mães bebem, sendo que 4% das mães bebe sempre, 3% bebe quase sempre e 13% bebe às vezes (Figura 27). Figura 27: Frequência do consumo de bebida alcoólica da mãe na frente da criança Os resultados não revelam existência de correlação entre a frequência do consumo de bebida alcoólica da mãe com a frequência com que bate na criança. No entanto, o cruzamento desses dados (Figura 28) permite algumas observações: Ø A maioria das mães que bebe sempre, assim como a maioria das que nunca bebe, bate na criança; Ø Todas as mães que bebem quase sempre batem na criança às vezes; Ø 75% das mães que bebem “sempre”, batem na criança, sendo que 25% delas batem quase sempre; 62 Ø 83% das mães que bebem raramente e 68% das mães que nunca bebem, batem na criança (Figura 28). Figura 28: Frequência entre o consumo de bebida alcoólica da mãe e o quanto ela bate na criança Portanto, os resultados indicam que não há uma relação entre o consumo de bebida alcoólica da mãe com a frequência com que bate na criança, o que sugere que o consumo de bebida alcoólica, pelo menos nessa amostra do Morro dos Macacos, não é uma das variáveis que explicam a frequência com que as mães praticam a violência física contra as crianças. 4.1.1.2.1.1.8. Renda mensal da mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a sua renda mensal, será apresentado a frequência da sua renda mensal na amostra de respondentes. Os resultados revelam que o grupo de pai tem renda mensal mais elevada do que o grupo das mães. Enquanto a maioria de pais (56%) recebe entre 1 e 2 salários mínimos, a maior parte do grupo das mães (47%) recebe menos que 1 salário mínimo. Enquanto todos os pais da amostra tem alguma renda, 29% das mães não tem renda (Figura 29). 63 Figura 29: Renda mensal por grupos de adultos (mãe e pai) Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas (K-W, chi²=4,313, sig=0,116) entre a renda da mãe e a frequência com que a mãe bate na criança. As mães que recebem menos que 1 salário mínimo batem na criança mais do que as mães que recebem entre 1 e 2 mínimos. A diferença ainda é maior quando comparada com as mães que não têm renda, uma vez que estas se destacam das demais como as que menos batem na criança (Figura 30). Figura 30: Frequência da violência física (bater) por renda mensal da mãe Nota: m.o.=média dos valores ordinais por renda da mãe, que permite identificar, neste caso, em qual faixa de renda estão as mães que mais batem na criança. Os valores mais baixos indicam as rendas das mães que mais batem e os valores mais altos estão as mães que menos batem. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 64 A maioria das mães, com ou sem renda, bate na criança. No entanto, as que não têm renda se destacam por serem as que menos batem. Enquanto 57% dessas mães batem na criança, o índice de mães que batem na criança e recebem entre 1 e 2 mínimos ou menos que 1 mínimo é maior, 79% e 80%, respectivamente (Figura 30). 4.1.1.2.1.1.9. Discriminando a bolsa família na renda mensal da mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a sua renda mensal com a Bolsa Família, será apresentada a frequência da sua renda mensal discriminando a bolsa família. Observa-se que 28% das mães recebem apenas a Bolsa Família e têm, portanto, renda mensal menor que o salário mínimo, 19% das mães trabalham, não recebem bolsa e têm renda menor que o mínimo, 13% das mães trabalham e recebem Bolsa Família, acumulando uma renda entre 1 e 2 mínimos, 10% das mães trabalham, não recebem bolsa e recebem entre 1 e 2 mínimos (Figura 31). Figura 31: Renda mensal da mãe descriminando a bolsa família Os resultados não revelam diferenças estatisticamente significativas entre a renda, discriminando a Bolsa Família com a frequência com que as mães batem na criança. No entanto, o cruzamento dos dados permite observar que o maior índice da violência física praticada pela mãe contra a criança está entre as mães que não trabalham e tem como única fonte de renda a Bolsa Família (Figura 32). 65 Figura 32: Renda mensal das mães (com bolsa família e trabalho) e a frequência com que bate na criança A maioria das mães em todas as faixas de renda bate na criança, no entanto, as mães que recebem apenas a Bolsa Família batem mais na criança do que as demais. A grande maioria delas (86%) bate na criança, sendo que 14% bate sempre e 55% bate às vezes. O segundo grupo de mães que mais bate na criança é a que recebe Bolsa Família, mas trabalha e tem renda entre 1 e 2 salários mínimos. A grande maioria dessas mães (85%) bate na criança, sendo que 15% delas bate sempre e 39% bate às vezes (Figura 32). As mães que menos batem são as mães que não têm renda. Entretanto, a maioria delas bate (57%), sendo que 3% bate sempre, 10% quase sempre e 27% às vezes. 4.1.1.2.1.1.10. Quantidade de cômodos na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a quantidade de cômodos da casa onde mora, será apresentada a frequência da quantidade de cômodos nas casas dos respondentes. A maioria (55%) mora em casas com 5 ou mais cômodos (Figura 32). A minoria (4% e 4%) mora em casas com 1 ou 2 cômodos. Em casas com 4 cômodos mora 25% dos respondentes e os 12% restantes mora em casas com 3 cômodos (Figura 33). 66 Figura 33: Frequência da quantidade de cômodos da casa das mães entrevistadas Embora não haja diferença estatisticamente significativa entre a quantidade de cômodos da casa e a frequência com que a mãe bate na criança, o cruzamento desses dados permite observar que o índice maior de violência física praticada pela mãe acontece entre as mães que moram em casas com 1 ou 2 cômodos (Figura 34). Todas as mães que moram em casas com 1 ou 2 cômodos batem na criança. Em casas com 1 cômodo todas as mães batem às vezes e em casas com 2 cômodos 25% das mães bate sempre, 25% bate às vezes e 50% bate raramente (Figura 34). Figura 34: Relação da quantidade de cômodos da casa com a frequência com que a mãe bate na criança As mães que moram em casas com 4 cômodos são as que menos batem na criança, ainda assim, as que batem são maioria. 67 4.1.1.2.1.1.11. Quantidade de dormitórios na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a quantidade de dormitórios nas casas das mães entrevistadas, será apresentada a frequência da quantidade de dormitórios das casas dos respondentes. A grande maioria dos respondentes mora em casas com 1 dormitório (32%) ou 2 dormitórios (53%) e o restante (11%) praticamente todos moram em casas com 3 dormitórios. Respondentes que moram em casa com 4 ou 5 dormitórios representam 1% e 3% da amostra (Figura 35). Figura 35: Frequência da quantidade de dormitórios na casa Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre o número de dormitórios na casa e a frequência com que a mãe bate na criança. O cruzamento dos dados, no entanto, permite algumas observações (Figura 36). Figura 36: Relação do número de dormitórios da casa e a frequência com que a mãe bate na criança 68 As mães que moram em casas com 3 dormitórios batem mais do que mães que moram em casas com 1 ou 2 dormitórios. Apenas 8% das mães que moram em casas com 3 dormitórios nunca bateu na criança, enquanto 27% e 31% das mães que moram em casas com 1 e 2 dormitórios nunca bateu (Figura 36). No entanto, a maioria das mães, em todos os tipos de casa, com 1 a 3 dormitórios, bate na criança. 4.1.1.2.1.1.12. Quantidade de banheiros na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a quantidade de banheiros nas casas das mães entrevistadas, será apresentada a frequência da quantidade de banheiros da amostra: a grande maioria dos entrevistados (89%) mora em casas com 1 banheiro com chuveiro, 6% mora em casas com 2 banheiros com chuveiro, 4% das mães não têm banheiro com chuveiro dentro de casa e 2% moram em casas com 3 ou mais banheiros (Figura 37). Figura 37: Frequência da quantidade de banheiros (com chuveiro) dentro de casa Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a frequência da violência física aplicada pela mãe e a quantidade de banheiros na casa (com chuveiro). 69 Figura 38: Relação da quantidade de banheiros com chuveiro na casa com frequência com que mãe bate na criança O que podemos observar com o cruzamento dos dados é que 100% das mães que moram em casas com 2 banheiros com chuveiros batem na criança, 83% das mães que moram em casas sem chuveiro e 71% das mães que moram em casas com 1 banheiro com chuveiro também batem na criança (Figura 38). 4.1.1.2.1.1.13. Tipo de rua Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com o tipo de rua onde reside, será apresentada a frequência do tipo de rua na amostra: a grande maioria dos respondentes mora em casas cujas “ruas” são escadarias (42%) ou vielas onde só passam pedestres (36%). Em terceiro lugar estão as mães que moram em rua onde passam carros (18%) (Figura 39). 70 Figura 39: Frequência do tipo de rua Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a frequência com que a mãe bate na criança e o tipo de rua onde se localiza sua moradia. No entanto, o cruzamento desses dados (Figura 40) permite algumas observações: Em todos os tipos de rua há incidência de violência física aplicada pela mãe à criança, o que indica que o tipo de rua não influencia na frequência com que a mãe bate na criança. No entanto, em algumas ruas a incidência é maior, como nas escadarias e em ruas onde passam carros. As ruas com menor incidência de violência física praticada pela mãe são as vielas onde só passam motos e vielas onde só passam pedestres (Figura 40). Figura 40: Relação do tipo de rua onde localiza-se a moradia da mãe, com a frequência com que bate na criança 71 4.1.1.2.1.1.14. Existência de iluminação Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a existência ou não de iluminação em frente ou próxima à sua casa, serão apresentados os índices de iluminação existente: boa parte das ruas onde estão localizadas as moradias não têm iluminação (37%) (Figura 41). Figura 41: Existência de iluminação em frente ou próximo à moradia Os resultados revelam uma pequena diferença entre a existência de iluminação em frente à casa onde mora a mãe entrevistada e a frequência com que bate na criança. Embora essa diferença não possa ser confirmada estatisticamente, o cruzamento desses dados revela que a incidência da violência física aplicada pela mãe à criança é um pouco maior onde não existe iluminação em frente ou próxima à casa (Figura 42). 72 Figura 42: Relação da violência física aplicada pela mãe com a existência de iluminação em frente ou próximo à casa Enquanto 82% das mães, cujas ruas não têm iluminação, já bateram na criança, 65% das mães, cujas ruas têm iluminação, já bateram na criança (Figura 42). Quanto à luz elétrica em casa será analisada a relação entre as mães cujas moradias possuem ou não o registro da LIGHT: a grande maioria dos respondentes tem luz elétrica em casa (98%), sendo que 51% do total possui registro da LIGHT e 47% não possui registro (Figura 43). Figura 43: Existência de luz elétrica nas casas Os resultados não revelam diferença entre a existência ou não de luz elétrica com a frequência com que a mãe bate na criança (Figura 44). 73 Figura 44: Relação da violência física aplicada pela mãe com a existência ou não de luz elétrica em casa com ou sem registro da LIGHT. Tanto em casas com registro da LIGHT quanto em casas sem registro da LIGHT, aproximadamente 75% das mães batem na criança (Figura 44). 4.1.1.2.1.1.15. Grau de satisfação com a iluminação Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com o grau de satisfação com a iluminação em frente ou próximo à sua casa, serão apresentados os graus de satisfação dos respondentes: a parcela de respondentes satisfeitos (41%) com a iluminação das ruas é um pouco maior do que a parcela dos insatisfeitos (38%) (Figura 45). 74 Figura 45: Grau de satisfação com a iluminação da rua Quanto à relação entre o grau de satisfação com a frequência com que a mãe bate, os resultados revelam uma correlação negativa (spearmam, c = -0,243, sig = 0,013), indicando que as mães satisfeitas com a iluminação em frente à moradia batem menos na criança (Figura 46). De fato, o cruzamento dos dados permite observar que a mãe que percebe a iluminação da rua como boa, nunca bate ou bate raramente na criança. As mães que mais batem são as que julgam a iluminação ruim ou que acham a iluminação nem boa/nem ruim (Figura 46). Figura 46: Relação entre o grau de satisfação da mãe com a iluminação, com a frequência com que ela bate na criança 75 4.1.1.2.1.2. Fatores relacionados com a frequência com que o pai bate na criança Serão analisados fatores que relacionados com a frequência com que o pai bate na criança, podem influenciar esse tipo de violência física praticada contra a criança, conforme segue. 4.1.1.2.1.2.1. Frequência com que o pai dá banho e veste a criança A grande maioria de pais (85%) não bate na criança. Para os que batem (15%), os resultados não revelam correlação entre a frequência com que ele dá banho e veste a criança com a frequência com que bate na criança. Não obstante, o cruzamento dos dados permitem observar que os poucos pais que batem na criança são os que dão banho às vezes (Figura 47). Figura 47: Relação da frequência com que o pai bate com a frequência com que cuida da criança Os pais que nunca dão banho, nunca batem, mas também os pais que dão banho sempre/quase sempre ou raramente nunca batem. 76 4.1.1.2.1.2.2. Grau de escolaridade do pai Antes de analisar a relação da frequência com que o pai bate na criança com o grau de escolaridade serão apresentados os índices de escolaridade dos pais respondentes: a maior parcela de pais (47%) tem formação de 1° grau incompleto. Em seguida estão os pais com 2° grau completo (26%) e por último os pais com 1°grau completo (16%). Apenas 1 pai, que representa 5% da amostra de pais respondentes, tem curso superior (Figura 48). Figura 48: Frequência da formação escolar do pai Embora os resultados não revelem diferença estatisticamente significativa entre o grau de escolaridade do pai e a frequência com que ele bate na criança, o cruzamento dos dados demonstra que o pai que bate tem pouca formação escolar (Figura 49). Figura 49: Relação da escolaridade do pai com a frequência com que bate na criança 77 Enquanto 22% dos pais com 1°grau incompleto batem na criança, nenhum pai com 1°grau completo, médio incompleto ou médio completo bate na criança. Sendo que 11% dos pais com 1°grau incompleto batem sempre (Figura 49). 4.1.1.2.1.2.3. Consumo de bebida alcoólica pelo pai Os resultados não revelam correlação entre a frequência do consumo de bebida alcoólica do pai com a frequência com que bate na criança. O cruzamento dos dados da mostra permite observar que os pais que batem são os que nunca bebem, no entanto, a maioria dos pais (72%) nunca bebe (Figura 50). Figura 50: Frequência do consumo de bebida alcoólica do pai em frente à criança Os pais que batem na criança nunca beberam na frente da criança (Figura 51). Nenhum pai bebe “sempre” na frente da criança e os que bebem quase sempre/às vezes e raramente nunca bateram na criança. Dos pais que nunca bebem, 8% batem sempre na criança e 8% batem raramente, enquanto 84% nunca batem. 78 Figura 51: Relação entre o consumo de álcool do pai com a frequência com que bate na criança Ou seja, todos os pais que batem na criança, nunca beberam, enquanto que os pais que bebem na frente da criança nunca bateram (Figura 51). 4.1.1.2.1.3. Tipos de violência e atitude aceitas Sobre as atitudes que podem dar limite à criança, a maioria dos adultos mencionou a conversa. No entanto, a segunda atitude mais aceita pelos adultos para dar limite à criança é a violência psicológica de “colocar de castigo”. Em seguida, as atitudes mais aceitas pelo adulto para dar limite à criança são: dizer “não” e “dar uns tapas”, sendo que “bater” foi mencionado bem menos que “dar uns tapas”, confirmando a hipótese de que os adultos entendem “dar uns tapas” como sendo diferente de “bater”. 4.1.1.2.1.3.1. Gritar “Gritar” é uma atitude pouco aceita pelos adultos como forma de dar limite, apenas 12% acredita que “gritar” é uma forma de dar limite à criança (Figura 52). Embora seja a 79 segunda atitude mais aplicada por eles contra a criança, conforme visto anteriormente (Figura 6, item 3.1.1.). Essa diferença entre a frequência com que adultos gritam (70%) e o quanto eles aceitam (12%) essa atitude como forma de dar limite à criança pode significar, pelo menos, duas hipóteses: Ø Hipótese 1: para os adultos, “gritar” é uma atitude inaceitável, mas, na prática, eles não conseguem se conter emocionalmente e gritam com frequência; Ø Hipótese 2: para os adultos, “gritar” com a criança é aceitável como forma de dar limite, mas na prática eles percebem que é uma atitude que não impõe limite, por isso não a indicam como uma atitude que possa dar limite à criança. Figura 52: Atitudes que dão limite à criança, na percepção do adulto A percepção da mãe não difere muito da percepção dos demais adultos. A pequena diferença está no percentual menor de mães que indicam a conversa como forma de dar limite (77%) e um percentual maior de mães que indicam colocar de castigo como forma de dar limite e todas as outras atitudes de violência, como gritar e bater (Figura 53). 80 !"#"$%&'()$&(%*+(,#-#"&((.(/0#1231(( 21(4&0/&43*+(%1(-*&( )*++*$,*-$)././*-$0$12*$,3$4.532+*6"7'"$ !"#$ %"#$ &%#$ "&#$ '(#$ Conversar Colocar de Dizer "não" castigo Dar uns tapas Gritar %#$ Bater Figura 53: Atitudes que dão limite à criança na percepção da mãe No entanto, permanece a mesma diferença dos demais adultos entre a pouca aceitação de gritar e a elevada frequência dessa atitude, na prática. As hipóteses para a mãe são as mesmas para os demais adultos, ou seja, a de que ela não aceita a atitude de gritar como forma de dar limite, mas, na prática, não se controla emocionalmente ou de que ela aceita, mas na prática já percebeu que essa é uma atitude que não impõe limite à criança e por isso não a indica como atitude para dar limite. 4.1.1.2.1.3.2. Colocar de castigo A violência psicológica mais aceita pelos adultos como forma de dar limite à criança é “colocar de castigo”, além de ser a mais aplicada por eles, como visto anteriormente. A maioria deles (60%) acredita que “colocar de castigo” é uma atitude que impõe limite à criança (Figura 51). Na percepção da mãe, o índice é quase o mesmo, 62% delas acredita que “colocar de castigo” dá limite à criança (Figura 53). 4.1.1.2.1.3.3. Bater Bater é o tipo de violência física que parece ser aceito pelos adultos tanto quanto é praticado. Um percentual considerável deles (25%) acredita que “dar uns tapas” é uma atitude que “dá limite” à criança (Figura 52). Como “dar uns tapas” foi considerado nesta pesquisa como forma de obter do respondente uma variação do bater, os resultados revelam índices relevantes de aceitação de bater como forma de “dar limite” à criança, tanto na percepção do 81 adulto (20% “dar uns tapas”/6% bater) (Figura 52), quanto na percepção da mãe (Figura 53), cujo índice é um pouco maior (25% “dar uns tapas”/6% bater). 4.1.1.2.1.3.4. Conversar Não obstante, o que os adultos mais acreditam que dá limite à criança é a conversa (Figura 52). A grande maioria dos adultos (83%) acredita que é através da conversa que se dá limite à criança. O pai é quem mais acredita nessa atitude (84%), seguido da mãe (82%) e, por último, da avó (71%) (Figura 54). Figura 54: Frequência com que a conversa dá limite à criança, por grupo de adultos A atitude de “conversar” é aceita como a melhor maneira para dar limite e também a mais frequente entre as atitudes adotadas quando a criança se comporta mal, na percepção dos adultos. Quase a metade (49%) dos adultos disse sempre adotar a prática de explicar para as crianças quando ela se comporta mal (Figura 55). 82 Figura 55: Frequência com que o adulto explica para a criança quando esta se comporta mal 4.1.1.2.1.4. Atitudes que caracterizam “mau-comportamento” da criança A pesquisa investigou as atitudes da criança que, na percepção do adulto, caracterizam um mau comportamento e em que frequência elas ocorrem. 4.1.1.2.1.4.1. Características Para os pais, mães e avós, a criança se comporta mal quando: a) faz pirraça, chora ou faz manha; b) desobedece, fica teimosa; c) mexe no que não pode; d) agride os outros; e) se comporta mal na escola; f) quebra ou chuta objetos; g) grita. Para 33% dos adultos a criança se comporta mal quando “faz pirraça, manha, se irrita, chora, alguns se jogam no chão”. O segundo comportamento mais frequente é “criança agride os outros, morde, bate ou quer bater ” (15%) e o terceiro é “criança grita” (11%) (Figura 56). 83 Figura 56: Frequência das atitudes que mais caracterizam o mal comportamento da criança, na percepção do adulto 4.1.1.2.1.4.2. Percepção da mãe Para a mãe, o que mais caracteriza o mau comportamento da criança é a pirraça, 35% das mães acham que a criança se comporta mal quando ela faz pirraça. A segunda atitude que mais caracteriza o mau comportamento da criança para a mãe é a agressão, morder, bater ou querer bater nos outros, 14% delas indicam essa característica. A terceira característica mais mencionada pela mãe como mal comportamento da criança é a criança implicar e brigar com os irmãos, 13% delas indicam essa atitude (Figura 57). 84 Figura 57: Atitudes que caracterizam o mal comportamento da criança na percepção da mãe 4.1.1.2.1.4.3. Frequência com que a criança se comporta mal Apenas 4% dos adultos acreditam que a criança nunca se comportou mal. A grande maioria dos adultos acha que a criança já se comportou mal (96%), sendo que 26% acha que a criança se comporta mal sempre, 13% quase sempre, 42% às vezes e 14% raramente (Figura 58). Figura 58: Frequência com que a criança se comporta mal na percepção dos adultos e das mães 85 Na percepção da mãe, a frequência com que a criança se comporta mal é um pouco maior que os demais adultos, uma vez que 32% e 11% delas acha que a criança se comporta mal sempre e quase sempre, respectivamente (Figura 58). 4.1.1.3. Violência testemunhada pela criança em casa na percepção do adulto Neste item, será analisada a violência testemunhada pela criança em casa, na percepção do adulto. Investigou-se o quanto a criança testemunha adultos gritando com adultos, assim como adultos batendo em adultos, e o quanto as armas de fogo ficam expostas em casa. 4.1.1.3.1. Adulto grita com adulto na frente da criança Para a maioria dos adultos (66%) “adulto grita com adulto na frente da criança”, sendo que 8% e 6% testemunham sempre e quase sempre e 15% às vezes e 27% raramente (Figura 59). Figura 59: Frequência com que adulto grita e bate em outro adulto na frente da criança 86 4.1.1.3.2. Adulto bate em adulto na frente da criança Para a grande maioria dos adultos (89%), “adulto nunca bate em adulto” na frente da criança. No entanto, para 11% (o restante) essa é uma atitude que acontece raramente (5%), às vezes (4%) e sempre/quase sempre (2%) (Figura 59). Os resultados indicam que toda a violência física aplicada em adulto por outro adulto se refere à homem batendo em mulher, uma vez que 12% responderam que homens batem em mulheres em casa, na frente da criança (Figura 60). Figura 59: Frequência com que homem bate em mulher na frente da criança Se 11% responderam que adulto bate em adulto e 12% responderam que homens batem em mulher, tudo indica que todos os adultos que batem em adultos são homens batendo em mulheres. 4.1.1.3.3 Armas de fogo na frente da criança Praticamente 100% dos adultos responderam que armas de fogo nunca ficam na frente da criança. Apenas um respondente disse que raramente a criança vê arma de fogo dentro de casa. 87 4.1.2. Violência na comunidade Investigou-se a percepção do adulto sobre a segurança na comunidade e frequência com que testemunham ou ficam sabendo de alguns tipos de violência na comunidade. 4.1.2.1. Segurança para andar à noite A percepção dos adultos quanto à segurança para andar à noite na comunidade se divide em se sentir seguro ou inseguro. Parcelas significativas dos respondentes percebem a comunidade como segura (32%) e uma parcela um pouco maior (39%) percebe como insegura (Figura 61). Figura 61: Grau de satisfação com a segurança na comunidade para andar à noite Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos (KW, chi²=6,601, sig=0,086). A avó é quem percebe a comunidade como mais segura para andar à noite e a mãe é quem percebe a comunidade como menos segura (Figura 62). 88 Figura 62: Percepção da segurança na comunidade para andar à noite por grupos de adulto Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de adultos, que permite identificar, neste caso, qual grupo mais percebe a comunidade como segura ou insegura. Os valores mais baixos indicam os grupos que mais percebem a comunidade como mais segura e os valores mais altos indicam os grupos que percebem a comunidade como menos segura. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. Enquanto apenas 27% das mães acha a comunidade segura para andar à noite, a maioria das avós (59%) acha a comunidade segura para andar à noite (Figura 62). Apenas 8% das avós percebe a comunidade como insegura para andar à noite, enquanto quase a metade das mães (43%) acham a comunidade insegura para andar à noite. Portanto, os dados revelam que a comunidade para as avós é segura, mas, para as mães, a comunidade é mais insegura do que segura. A opinião dos pais é bem dividida, encontra-se o mesmo número de pais que acham a comunidade segura (33%) e insegura (33%). 4.1.2.2. Segurança para a criança brincar fora de casa A comunidade é percebida por 49% dos adultos como insegura e segura por 32%, para as crianças brincarem fora de casa (Figura 63). Portanto é mais vista como insegura do que como segura. 89 Figura 63: Grau de satisfação com a segurança na comunidade para a criança brincar fora de casa Embora os resultados não revelem diferença estatisticamente significativa entre os grupos de adultos quanto à percepção de segurança da comunidade para que as crianças brinquem fora de casa, o cruzamento dos dados permite algumas observações. Figura 64: Segurança na comunidade para a criança brincar fora de casa, por grupo de adultos A avó é quem mais percebe a comunidade como segura para a criança brincar fora de casa e a percepção da mãe e do pai é praticamente a mesma. Em ambos os grupos, mãe e pai, 50% deles percebe a comunidade como insegura para as crianças brincarem fora de casa e 32% e 31%, respectivamente, acha que é segura (Figura 64). 90 4.1.2.3. Frequência com que sua casa já foi assaltada A grande maioria (94%) das casas nunca foi assaltada, apenas 6% dos respondentes já teve sua casa assaltada (Figura 65). Figura 65: Frequência com que sua casa já foi assaltada Embora a casa do respondente não tenha sido assaltada, a maioria deles fica sabendo de assaltos noutras casas, conforme será visto adiante. 4.1.2.4. Violência que o adulto fica sabendo Verificou-se qual a frequência com que os adultos ficam sabendo de pessoas que são assaltadas, de casas que são assaltadas, de assaltos no comércio. 4.1.2.4.1. Fica sabendo de pessoas que são assaltadas A maioria (63%) dos respondentes já ficou sabendo de pessoas que foram assaltadas nas “ruas” da comunidade, sendo que 18% deles fica sabendo sempre ou quase sempre e apenas 37% nunca ficou sabendo (Figura 66). 91 Figura 66: Frequência com que fica sabendo que pessoas foram assaltadas na comunidade Ou seja, a cada 10 pessoas, 6 ficam sabendo de assaltados na comunidade. É, portanto, uma taxa alta de assaltos nas ruas da comunidade. 4.1.2.4.2. Fica sabendo de casas que são assaltadas A maioria dos respondentes (57%) já ficou sabendo de casas que são assaltadas na comunidade, ou seja, de 10 pessoas, praticamente 6 pessoas já ficaram sabendo de casas que foram assaltadas (Figura 67). No entanto, os assaltos em casas não são frequentes, uma vez que a grande maioria dos respondentes nunca teve a sua casa assaltada, como visto anteriormente. Figura 67: Frequência com que fica sabendo de casas que foram assaltadas na comunidade 92 Se a maioria dos respondentes fica sabendo de assaltos em casas, mas a grande maioria deles nunca teve sua casa assaltada, isso pode significar que poucos assaltos acontecem, mas muita gente fica sabendo dos mesmos eventos. O que pode indicar que, pelo menos quanto a assaltos nas casas, a comunidade é segura. 4.1.2.4.3. Fica sabendo de assaltos no comércio A maioria dos respondentes (64%) nunca ficou sabendo de assaltos no comércio da comunidade. Apenas 10% respondeu que fica sabendo sempre ou quase sempre (Figura 68). Figura 68: Frequência com que fica sabendo de assaltos no comércio da comunidade Os dados indicam, portanto, que pelo menos quanto à ocorrência de assaltos no comércio, a comunidade tem um índice elevado de segurança. 4.1.2.4.4. Fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade Quando perguntados se já ficaram sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade, 37% dos adultos já ficaram sabendo. Ou seja, a cada 10 adultos, cerca de quatro já ficaram sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade, sendo que 22% fica sabendo raramente, mas 4% fica sabendo sempre ou quase sempre e 11% fica sabendo às vezes (Figura 69). 93 Frequência com que o adulto fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade Morro dos Macacos - Rio de janeiro/2012 63% 22% 2% Sempre 2% 11% Quase sempre Às vezes Raramente Nunca Figura 69: Frequência com que fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade 4.1.2.5. Violência testemunhada pelo adulto 4.1.2.5.1. Ouve tiros de armas de fogo A maioria dos adultos (69%) já ouviu tiros de armas de fogo na comunidade, apenas 31% nunca ouviu (Figura 70), sendo que 9% ouve sempre ou quase sempre e 27% ouve às vezes. Figura 70: Frequência com que ouve tiros de armas de fogo nas ruas da comunidade 94 4.1.2.5.2. Vê policial apontando uma arma A maioria dos adultos (55%) já viu policial apontando uma arma de fogo nas ruas da comunidade (Figura 71), sendo que 27% veem sempre, o que significa que 3 a cada 10 adultos sempre vê um policial apontando uma arma de fogo e 6 a cada 10 pessoas já viu pelo menos uma vez (raramente). Figura 71: Frequência com que vê policial apontando uma arma de fogo nas ruas da comunidade 4.1.2.5.3. Vê outras pessoas apontando uma arma A grande maioria dos respondentes (90%) nunca viu outras pessoas, que não seja policial, apontando uma arma de fogo (Figura 72), o que significa que apenas 1 pessoa a cada 10 já viu alguma vez pessoas que não sejam policiais apontando arma de fogo. A frequência é baixa, uma vez que de cada 40 pessoas, 2 veem raramente, uma vê às vezes e uma vê sempre (Figura 72). Frequência com que o adulto vê outras pessoas 90% apontando uma arma nas ruas da comunidade Morro dos Macacos - Rio de janeiro/2012 3% Vê sempre 0% Vê quase sempre 2% 5% Vê Vê às v ezes raramente Nunca v ê Figura 72: Frequência com que vê outras pessoas que não seja policial apontando uma arma de fogo 95 4.1.2.5.4. Vê alguém sendo ferido por tiro, facada ou socos A grande maioria dos adultos nunca viu pessoas sendo feridas por tiro ou facadas na comunidade. No entanto, 49% dos adultos já viram adultos sendo feridos por socos, ou seja, praticamente 5 a cada 10 pessoas já viram, sendo que 19% sempre veem adultos sendo feridos por socos (Figura 73). Figura 73: Frequência com que o adulto vê algum adulto sendo ferido por tiro, facada e soco 4.1.2.5.7. Vê alguém sendo preso A maioria dos adultos (62%) já viu alguém sendo preso na comunidade (Figura 74), sendo que 26% vê sempre ou quase sempre. 96 Figura 74: Frequência com que o adulto vê alguém sendo preso O que significa uma alta incidência de pessoas sendo presas na comunidade, uma vez que, de cada 10 pessoas, 6 já viram alguém sendo preso e de cada 10 pessoas, 3 veem sempre. 4.1.2.5.8. Vê gente vendendo drogas A grande maioria dos respondentes (78%) nunca viu gente vendendo drogas na comunidade (Figura 75). Ou seja, apenas 22% já viu. No entanto, 10% vê sempre ou quase sempre, o que significa que, de cada 10 pessoas, 1 sempre vê gente vendendo drogas. Frequência com que o adulto vê alguém vendendo drogas Morro dos Macacos - Rio de janeiro/2012 78% 8% 2% 4% 8% Sempre Qu ase sempre Às vezes Raramente Nunca Figura 75: Frequência com que o adulto vê alguém vendendo drogas 4.1.3. Percepção sobre os serviços públicos Verificou-se o grau de satisfação sobre os seguintes serviços na comunidade: Ø Iluminação a) Em frente ou próxima da moradia; 97 b) Iluminação das praças. Ø Serviços de Saúde a) Quantidade de médicos; b) Tempo de espera no posto de saúde; c) Quantidade de pediatras no posto de saúde; d) Frequência de agentes de Saúde da família. Ø Serviços de creches Ø Serviços da escola Ø Serviços de transporte 4.1.3.1. Iluminação 4.1.3.1.1. Iluminação em frente ou próxima da moradia Boa parte dos respondentes (37%) não tem iluminação em casa e, provavelmente, são esses os insatisfeitos em relação à iluminação, uma vez que a mesma parcela (37%) respondeu que a iluminação em frente à casa é ruim (Figura 76), o que indica que a insatisfação é pela falta de iluminação e não pela qualidade da mesma. A maioria dos que têm iluminação estão satisfeitos, que representa 41% do total de respondentes. (a) (b) Figura 76: Iluminação da rua em frente ou próxima à moradia: (a) existência ou não da iluminação (b) grau de satisfação do adulto com a iluminação em frente o próxima à casa 98 4.1.3.1.2. Iluminação das praças A grande maioria dos respondentes (75%) está satisfeita com a iluminação nas praças, sendo que apenas 14% acha a iluminação ruim (Figura 77). Figura 77: Nível de satisfação com a iluminação das praças 4.1.3.2. Saúde O grau de satisfação em relação aos serviços de saúde da comunidade foi resultado da avaliação de quatro fatores: a quantidade de médicos no posto de saúde, o tempo de espera do usuário, a quantidade de pediatras e a frequência com que os agentes de saúde visitam as famílias. 4.1.3.2.1. Frequência de agentes de saúde visitam as famílias Esse é o serviço de saúde com o maior grau de satisfação entre os adultos, a maioria deles (69%) acha que a frequência de agentes de saúde nas famílias é “boa” (Figura 78). Apenas 16% estão insatisfeitos. 99 Figura 78: Graus de satisfação com a frequência de agentes de saúde nas famílias 4.1.3.2.2. Quantidade de médicos no posto de saúde A quantidade de médicos no posto de saúde é o segundo serviço com o qual os adultos estão mais satisfeitos, embora a parcela que acha ruim (39%) seja maior que a parcela de adultos que acham a quantidade de médicos “boa” (35%) (Figura 79). Para 26% de adultos, a quantidade de médicos não é boa/nem ruim. Figura 79: Graus de satisfação com a quantidade de médicos no Posto de Saúde 4.1.3.2.3. Quantidade de pediatras no posto de saúde A parcela de adultos insatisfeitos (41%) com a quantidade de pediatras no posto de saúde é maior do que a parcela de adultos satisfeitos (33%) (Figura 80). 100 Figura 80: Graus de satisfação com a quantidade de pediatras no Posto de Saúde Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre os grupos de adultos. Os graus de satisfação entre mãe, pai, avó e outros são semelhantes ao resultado geral. 4.1.3.2.4. Tempo de espera por uma consulta no Posto de Saúde A maior insatisfação dos adultos em relação aos serviços de saúde é com o tempo de espera para uma consulta no posto de saúde. A maioria dos adultos (56%) está insatisfeita com o tempo de espera nos postos de saúde, enquanto apenas 22% está satisfeita (Figura 81). Figura 81: Satisfação com o tempo de espera no Posto de Saúde 101 Os resultados revelam diferença estatisticamente significativa entre os grupos (K-W, chi²=9,267, sig=0,026). As avós são as mais satisfeitas com o tempo de espera pela consulta no posto de saúde. A maioria delas (64%) acha bom o tempo de espera no posto de saúde e apenas 18% acha ruim (Figura 82). Justifica o fato da avó, provavelmente, ter preferência nos atendimentos pela condição de “idosa”. Satisfação com o tempo de espera no posto de saúde, por grupo de adultos Bom Nem bom/nem ruim Ruim Mangueirinha - Rio de janeiro/2012 64% 62% 58% 47% 33% 20% 18% 32% 20% 18% 18% 11% Mãe (m.o.=79,21) Pai (m.o.=70,30) Avó (m.o.=39,45) Outros (m.o.=79,95) Figura 82: Satisfação com o tempo de espera no Posto de Saúde, por grupo de adultos As mães são as mais insatisfeitas com o tempo de espera no posto de saúde. A maioria delas (62%) acha o tempo de espera ruim, 20% acha bom. 4.1.3.3. Creches A maioria (79%) dos adultos está satisfeito com os serviços de creche na comunidade, apenas 8% acha os serviços de creche ruim (Figura 83). 102 Figura 83: Graus de satisfação com os serviços das creches Os resultados não revelam diferença entre os grupos, o que significa que mãe, pai e avó percebem os serviços de creche com a mesma satisfação. 4.1.3.3.1. Motivos para os graus de satisfação com a creche O principal motivo de satisfação do adulto com a creche, apontado por boa parte dos adultos (35%) é que a creche possui bons professores, que tratam bem as crianças (Figura 84). Figura 84: Motivos para a satisfação com a creche 103 Outros motivos mencionados para a satisfação são: “não tem reclamação porque nunca deram motivo” (12%); as crianças gostam da creche (4%); não sabem o motivo (4%), as mães podem trabalhar (3%), tem boa estrutura (3%) e outros motivos mencionados por 1 ou 2% dos respondentes estão listados abaixo: Ø Alguém da família estudou lá; Ø Professores não faltam; Ø A creche se comunica com a família; Ø As pessoas nunca comentaram mal; Ø A criança nunca voltou machucada; Ø Tem enfermeiras; Ø Não precisa pagar; Ø Fácil conseguir vaga; Ø Oferece tudo de bom: alimentação, material. Os motivos para a insatisfação são: crianças são maltratadas pelos professores, funcionários ou colegas (5%), difícil conseguir vaga (3%) (Figura 84). Outros motivos são mencionados por 1 ou 2% dos respondentes: Ø Apenas as creches pagas ou de ONG’s são boas, as públicas são ruins; Ø Falta material (sabonete, fralda, etc.); Ø As crianças voltam para casa com fome; Ø Tinha que ter câmera; Ø A estrutura não é boa; Ø Tem sala do “bobo” onde uma senhora coloca limite nas crianças. 4.1.3.4. Escolas A maioria dos adultos revela satisfação com a escola da comunidade (70%), enquanto apenas 9% se mostram insatisfeitos (Figura 85). 104 Figura 85: Graus de satisfação com os serviços das escolas Os resultados revelam diferença estatisticamente significativa entre os grupos (K-W, chi²=7,465, sig=0,058). A avó é a mais satisfeita (m.o.=55,71), enquanto o pai é o mais insatisfeito (m.o.=90,64). 4.1.3.4.1. Motivos para o grau de satisfação com a escola O principal motivo para a satisfação dos adultos com a escola, apontado por 28% dos adultos, é o fato de a escola ter “bons professores, que ensinam bem, dão atenção para a criança”. Em seguida, os motivos mais citados são: “por ouvir dizer que é boa” (9%), “bom desenvolvimento da criança” (7%), “boa qualidade do espaço (7%) (Figura 86). Vários outros motivos foram citados para a satisfação, por 1 a 3% dos adultos, a saber: Ø Professora passa trabalhos; Ø A escola é boa, se as crianças não aprendem é por falta de interesse, depende do aluno; Ø Horário facilita as mães, tem horário integral; Ø Escola atende demanda da comunidade; Ø Tem atividades fora da sala de aula, como: passeios, xadrez, reforço escolar, inglês, futebol, flauta e capoeira; Ø É difícil a escola ficar sem aula, tem aula todos os dias; Ø Crianças não são reprovadas; 105 Ø Espaço com boa qualidade, limpo, bonito, boa iluminação; Ø Boa alimentação; Ø Escola segura; Ø Professores conversam com os pais ou mandam bilhetes. Figura 86: Motivos mais citados pelos adultos para o grau de satisfação com a escola Os motivos mais citados para a insatisfação com a escola são: desenvolvimento ruim da criança (5%) e professores ruins (5%). Outros motivos para a insatisfação foram citados por 1 a 3% dos adultos, como: Ø Tem muita bagunça na escola, há muita indisciplina, briga entre crianças; Ø Professores trabalham com medo dos alunos, não têm controle da bagunça que eles fazem; Ø Só tem uma escola boa, a escola Noel Rosa; Ø Criança volta suja, arranhada; Ø Falta professor; Ø Falta motivação aos professores (financeira, respeito dos alunos, falta de estrutura da escola, etc.); Ø Falta escola no alto do morro, só tem na rua de baixo; Ø As crianças reclamam da professora; 106 Ø Todos reclamam do ensino; Ø Crianças demoram a ser liberadas. 4.1.3.5. Serviços de Transporte A maioria dos adultos (63%) está satisfeita com os serviços de transporte da comunidade. No entanto, 18% acha que o transporte é ruim (Figura 87). Figura 87: Graus de satisfação com os serviços de transporte da comunidade Os resultados não revelam diferença entre os grupos, indicando que mães, pais e avós percebem o transporte da comunidade com o mesmo grau de satisfação. 4.1.3.5.1. Motivos para os graus de satisfação com o transporte Os motivos para a satisfação com o transporte na comunidade são: opção de transporte para vários locais da comunidade, citados por 30% dos respondentes; atende a demanda, não passam cheios e passa toda hora (11%); é bom e barato (4%); facilita descer e subir para a comunidade. Outro motivo foi mencionado por 2% dos respondentes: boa qualidade dos veículos, ônibus com ar-condicionado (Figura 88). 107 Figura 88: Motivos mais citados pelos adultos para o grau de satisfação com o transporte Os motivos para a insatisfação com o transporte na comunidade são: falta ônibus, Kombi, a espera é longa (15%); falta opção de transporte para mais locais da comunidade (6%); só tem alternativo: Kombi e moto (5%) (Figura 88). Outros motivos para a insatisfação foram citados por 1 ou 2% dos respondentes: Ø O serviço de transporte não é 24 horas, nada entra na comunidade depois de certa hora e falta transporte no final de semana; Ø Tem assalto nos ônibus; Ø O serviço dos cobradores e motoristas é ruim, muitas vezes não param. 4.1.4. O que falta na comunidade Para uma grande parcela dos respondentes (30%), faltam na comunidade espaços para o lazer das crianças (praças, parquinhos, local para jogar bola). Outros motivos citados foram: mais projetos sociais e cursos voltados para as crianças, como oficina de arte e leitura (11%), mais creches, escolas e hospitais (10%), mais médicos nos postos de saúde e melhora no atendimento (9%), segurança e liberdade para as crianças andarem à vontade pela comunidade (6%), centro esportivo, piscina e campo de futebol (6%) (Figura 89). 108 Figura 89: O que falta na comunidade para as crianças, na percepção do adulto Outros fatores que faltam na comunidade foram citados por 1 ou 2% dos respondentes: Ø Orientação quanto às drogas; Ø Transporte escolar; Ø Reforma na educação escolar; Ø Material para as crianças fazerem as atividades; Ø Clínica da família UPA, agentes de saúde para atenderem em casa; Ø Atividades culturais, principalmente nos finais de semana; Ø Manutenção das praças e fiscalização contra a depredação; Ø Melhorar as moradias; Ø Teleférico; Ø Mais cursos de informática; Ø Saneamento básico; Ø Atividades esportivas acompanhadas por profissionais; Ø Limpeza nas ruas da comunidade, cortar o mato; Ø Pracinhas e escolas no alto do morro; Ø União e solidariedade entre os moradores; Ø Projetos com música; Ø Escolas e músicas para as crianças com deficiência; Ø Mais vagas para as crianças nos projetos existentes; Ø Coisas para as crianças aprenderem a ser cidadã, pessoa de bem. 109 4.1.5. Balanço sobre a percepção do adulto 4.1.5.1. Violência em casa 70% dos adultos gritam com a criança; 61% dos adultos batem na criança; 58% dos adultos coloca a criança de castigo. 4.1.5.1.1 Fatores relacionados à violência psicológica de gritar com a criança Ø Grupo de adultos (K-W, chi²=23,036, Sig=0,000); 80% das mães grita (m.o.=69,42)10; 54% das avós grita (m.o.= 95,38); 33% dos pais grita (m.o.= 119,67). Ø Idade da criança (K-W, chi²=15,743, Sig=0,028): 2 anos: 67% das mães sempre grita, 33% às vezes (m.o.= 35,33); 5 anos: 63% das mães sempre grita, 6% quase sempre (m.o.= 38,72); 7 anos: 47% das mães sempre grita, 7% quase sempre (m.o.= 47,70); 6 anos: 40% das mães sempre grita, 13% quase sempre (m.o.= 50,47); 4 anos: 36% das mães sempre grita, 9% quase sempre (m.o.= 52,09); 3 anos: 25% das mães sempre grita, 25% quase sempre (m.o.= 52,56); 8 anos: 25% das mães sempre grita, 20% quase sempre (m.o.= 59,13); 1 ano: 43% das mães às vezes grita (m.o.=80,71). 10 Nota: m.o.=média dos valores ordinais (sempre, quase sempre, às vezes, raramente). Permite a clara identificação de qual grupo mais pratica a violência. Nesta pesquisa, na percepção do adulto, os valores mais baixos das médias ordinais indicam os índices mais altos de violência e os valores mais altos das médias ordinais indicam os menores índices de violência. Ou seja, quanto maior a média ordinal, menor os percentuais de violência. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 110 4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência psicológica de colocar de castigo Ø Grupo de adultos (não confirmada estatisticamente): 63% das mães coloca a criança de castigo; 50% de pais coloca a criança de castigo; 38% de avós coloca a criança de castigo. Ø Idade da criança (K-W, chi²=13,904, Sig=0,053): 5 anos: 50% das mães colocam sempre e 19% às vezes (m.o.= 41,31); 2 anos: 56% das mães colocam sempre a criança e castigo (m.o.= 44,61); 7 anos: 40% das mães colocam sempre (m.o.= 45,50); 6 anos: 27% das mães colocam sempre e 13% quase sempre (m.o.= 46,67); 4 anos: 36% das mães colocam sempre (m.o.=50,14) 3 anos: 14% das mães colocam sempre e 29% quase sempre (m.o.=50,86) 8 anos: 25% das mães colocam sempre e 10% quase sempre (m.o.=55,30) 0% das mães de crianças de 1 ano coloca de castigo (m.o.= 80,50). 4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência física de bater Ø Grupo de adultos (K-W, chi²=19,895, Sig=0,000); 73% das mães bate (m.o.= 70,13); 54% das avós bate (m.o.= 86,50); 17% de pais bate (m.o.= 115,81). Ø Idade da criança (K-W, chi²=15,013, Sig=0,036). 2 anos: 33% das mães bate sempre, 67% às vezes (m.o.= 26,00); 5 anos: 19% das mães bate sempre, 44% às vezes (m.o.= 45,28); 7 anos: 67% das mães bate às vezes (m.o.= 48,60); 6 anos: 13% das mães bate sempre, 40% às vezes (m.o.= 49,20); 3 anos: 13% das mães bate quase sempre, 37% às vezes (m.o.= 54,81); 8 anos: 5% das mães bate sempre, 15% quase sempre (m.o.= 55,30); 4 anos: 46% das mães bate às vezes, 15%, quase sempre (m.o.= 59,82). Ø Quantidade de criança na casa (K-W, chi²=3,003, sig=0,223): 111 77% das mães em casas com 2 crianças, bate na criança (m.o.= 46,07); 71% das mães em casas com 3 crianças, bate na criança (m.o.= 47,14); 69% das mães em casas com 1 criança, bate na criança (m.o.= 56,17). Ø Sexo da criança (diferença não confirmada estatisticamente): 74% das mães batem nos meninos; 71% das mães batem nas meninas. Ø Frequência com que a criança dorme com pai e mãe (sem correlação)* 70% das mães cuja criança sempre dorme com pai e mãe, bate na criança; 100% das mães cuja criança quase sempre dorme com pai e mãe, bate; 83% das mães cuja criança às vezes dorme com pai e mãe, bate; 67% da mães cuja criança raramente dorme com pai e mãe, bate; 72% das mães cuja criança nunca dorme com pai e mãe, bate na criança. *Embora não haja correlação, a criança de 2 anos, maior vítima da violência física da mãe, é a que mais dorme com pai e mãe. Ø Escolaridade da mãe entrevistada (diferença não confirmada estatisticamente): 100% das mães com curso superior, bate; 81% das mães com 1° grau completo, bate na criança; 70% das mães com 1° grau incompleto, bate na criança; 69% das mães com 2° grau completo, bate na criança; 67% das mães com 2° grau incompleto, bate na criança. Ø Consumo de bebida alcoólica pela mãe (sem correlação)*: 100% das mães que bebem quase sempre, bate na criança; 83% das mães que bebem raramente, bate na criança; 79% das mães que bebem às vezes, bate na criança; 75% das mães que bebem sempre, bate na criança; 68% das mães que nunca bebe, bate na criança. Ø Renda mensal das mães (K-W, chi²=4,313, sig=0,116): 80% das mães com renda < que o salário mínimo, bate (m.o. = 47,66); 112 79% das mães com renda entre 1 e 2 salários mínimos, bate (m.o. = 51,52); 57% das mães sem renda, bate na criança (m.o. = 61,35). Ø Renda mensal das mães (bolsa família descriminada) (diferença não confirmada estatisticamente): 86% das mães com renda menor que o mínimo (bolsa), bate na criança; 85% das mães com renda entre 1 e 2 mínimos (bolsa + trabalho), bate; 80% das mães com renda entre 1 e 2 mínimos (trabalho), bate; 68% das mães com renda menor que o mínimo (trabalho), bate; 57% das mães sem renda, bate. Ø Idade das mães (diferença não confirmada estatisticamente) 92% das mães de 35-39 anos, bate na criança; 81% das mães de 20-24 anos, bate na criança; 75% das mães de 30-34 anos, bate na criança; 71% das mães com 40-44 anos, bate na criança; 70% das mães de 25-29 anos, bate na criança; 40% das mães de 18-19 anos, bate na criança; 33% das mães de 17 anos ou menos, bate na criança. Ø Quantidade de cômodos da casa (sem diferença estatisticamente significativa): 100% das mães cujas casas têm 1 cômodo, bate na criança; 100% das mães cujas casas têm 2 cômodos, bate na criança; 73% das mães cujas casas têm 3 cômodos, bate na criança; 73% das mães cujas casas têm 5 cômodos, bate na criança; 63% das mães cujas casas têm 4 cômodos, bate na criança. Ø Quantidade de dormitórios (sem diferença estatisticamente significativa) 73% das mães cujas casas têm 1 dormitório, bate na criança; 69% das mães cujas casas têm 2 dormitórios, bate na criança; Ø Quantidade de banheiros (com chuveiro) na casa* (sem diferença estatística) 100% das mães cujas casas têm 2 banhos, bate na criança; 113 83% das mães cujas casas não têm banhos, bate na criança; 71% das mães cujas casas têm 1 banho, bate na criança. *A grande maioria das mães (89%) mora em casa com 1 banheiro com chuveiro. Ø Tipo da rua (sem diferença estatisticamente significativa) 79% das mães cujas ruas são escadarias, bate na criança; 70% das mães cujas ruas são vielas onde só passam pedestres, bate; 67% das mães cujas ruas passam carros, bate na criança; 50% das mães cujas ruas são vielas onde só passam motos, bate na criança. Ø Existência de iluminação na rua (sem diferença estatisticamente significativa): 82% das mães cujas ruas não tem iluminação, bate na criança; 65% das mães cujas ruas tem iluminação, bate na criança. Ø Grau de satisfação com a iluminação da rua (spearmam, c = -0,243, sig = 0,013)* 64% das mães que acham a iluminação boa, batem na criança; 74% das mães que acham a iluminação ruim, batem na criança. *Correlação negativa, indica que o índice de violência física praticada pela mãe é maior entre as mães insatisfeitas com a iluminação da rua. Ø Violências e atitudes que dão limite para a criança na percepção da mãe: Para 82% “conversa”; Para 62% “colocar de castigo”; Para 56% “dizer não”; Para 25% “dar uns tapas”; Para 14% “gritar”; Para 6% “bater”. Ø Mau comportamento da criança na percepção da mãe Para 35% a criança faz pirraça, faz manha, chora e fica irritada; Para 14% a criança agride, morde, bate ou quer bater; 114 Para 13% a criança implica e briga com os irmãos; Para 9% a criança desobedece, fica teimosa; Para 8% a criança responde mal ou ofende os outros. Ø Frequência com que a criança se comporta mal na percepção da mãe Para 96% a criança se comporta mal. Ø Frequência com que a criança testemunha violência entre adultos, em casa: Para 36% “adulto grita com outro adulto”; Para 11% “adulto bate em outro adulto”; Para 12% “adulto bate em mulher”. Ø Frequência com que armas de fogo ficam expostas à criança, em casa Para 100% as armas de fogo nunca ficam na frente da criança. 4.1.5.2. Violência na comunidade Ø Assaltos na comunidade: 6% dos adultos da amostra tiveram suas casas assaltadas; 57% ficaram sabendo de casas que foram assaltadas; 63% ficaram sabendo de pessoas assaltadas nas ruas da comunidade; 36% ficaram sabendo de assaltos no comércio da comunidade. Ø Abuso sexual contra crianças: 37% dos adultos já ficou sabendo. Ø Violência testemunhada pelo adulto: 69% ouve tiros de armas de fogo; 62% vê alguém sendo preso; 55% vê policial apontando uma arma de fogo; 49% vê adulto sendo ferido por socos; 115 22% vê adulto sendo ferido por tiro de arma de fogo; 22% vê gente vendendo drogas; 19% vê adulto sendo ferido por facada; 10% vê outras pessoas apontando uma arma. 4.1.5.3. Percepção sobre os serviços da comunidade Ø Índices de insatisfação dos adultos: 56% com o tempo de espera de uma consulta no posto de saúde; 49% acha inseguro para a criança brincar fora de casa; 42% com a iluminação das praças; 41% com a quantidade de pediatras no posto de saúde; 39% com a quantidade de médicos no posto de saúde; 39% acha inseguro para andar à noite na comunidade; 37% com a iluminação em frente ou próxima à casa; 18% com o transporte; 16% com os agentes de Saúde da Família; 14% com a iluminação das praças; 9% com as escolas; 8% com as creches. Ø Índices de satisfação dos adultos: 79% com as creches; 75% com a iluminação das praças; 70% com a escola; 69% com os agentes de Saúde da Família; 63% com o transporte; 41% com a iluminação em frente ou próxima à moradia; 35% quantidade de médicos no posto de saúde; 33% com a quantidade de pediatras no posto de saúde; 32% acha seguro para a criança brincar fora de casa; 32% acha seguro para andar à noite; 22% com o tempo e espera no posto de saúde. 116 4.1.5.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade: Para 30% faltam praças e outros espaços de lazer; Para 11% oficinas e projetos para as criança; Para 10% creches, escolas, hospitais; Para 9% médicos nos postos de saúde. 4.2. Análise de regressão A avaliação que segue é realizada a partir das informações descritas na seção 4.1., empregadas numa análise de regressão. O objetivo, na maior parte das aplicações com microdados em análise de regressão, visa investigar a relação entre uma variável dependente (Yi, em nosso caso: bater, gritar ou colocar de castigo) e um vetor de variáveis explicativas ( xi' , aqui: idade, escolaridade etc.). Embora existam inúmeros modelos que possam ser utilizados nessa análise, a preferência pelo uso de um Modelo de Escolha Discreta se deve em grande parte às características observadas na amostra dos dados em que a opção por bater, gritar ou colocar de castigo pode ser entendida como sendo resultado da escolha feita pelos adultos (pai, mãe e avó) dentre outras alternativas, como a de não cometer violência física ou psicológica. O modelo procura identificar as principais características associadas aos indivíduos (adultos) que estão diretamente e indiretamente envolvidos na possibilidade de exercer a violência. Em linhas gerais, o modelo de escolha discreta pode ser visto como um modelo em que a variável dependente é binária e que a realização dessa variável pode ser interpretada como sendo o resultado de uma escolha individual entre duas alternativas: cometer ou não a violência. Os modelos de escolha discreta têm sido desenvolvidos para gerar modelos de probabilidades discretas baseadas na maximização da utilidade. Aqui, utilidade pode ser entendida como uma satisfação obtida ao optar por uma escolha, gerando o maior nível de satisfação para o indivíduo que faz a escolha. Com o auxílio desse modelo é possível estimar parâmetros de uma função de utilidade observando escolhas feitas por diferentes indivíduos. No caso da escolha ser binária é comum a estimação de um modelo Probit ou um modelo Logit. A diferença desses modelos está no termo de distúrbio aleatório que pode assumir uma 117 distribuição de probabilidade normal ou logística. No presente estudo, a estimação será realizada considerando os modelos Logit. Considerando que o termo de distúrbio, εi, tem uma distribuição logística, então a função de probabilidade condicional do modelo Logit é dada por: Pr( y i = 1 | xi' ) = G ( xi' ) = exp( xi' β ) (1) 1 + exp( xi' β ) Em que G( . ) é a função densidade acumulada de uma distribuição logística. yi assume valor de 1 se bater (no caso de violência física) e 0 caso contrário; xi' é um vector de variáveis explicativas relacionadas ao indivíduo, a demografia, o status socioeconômico e local de residência. Antes de apresentar os resultados gerados para o modelo de escolha discreta para a variável violência física (na sequência para a violência psicológica) é importante fazer algumas considerações acerca de como foi construída a variável dependente, Yi. O Quadro 3 abaixo mostra que as informações sobre bater compreendem a cinco alternativas: “sempre”, “quase sempre”, “às vezes”, “raramente” e “nunca”. Como as quatro primeiras opções implicam em bater, mesmo que seja raramente, optou-se por construir a variável bater como sendo a soma das quatro primeiras opções: “sempre”, “quase sempre”, “às vezes”, “raramente”, ao passo que não bater seria a opção “nunca”. Proceder dessa forma nos permite tornar binária a variável bater. Assim, nossa variável dependente, Yi, assume o valor um se a escolha observada corresponde a uma dessas alternativas (“sempre”, “quase sempre”, “às vezes”, “raramente”) e zero caso contrário. O Quadro 4 faz uma descrição da variável dependente a ser utilizada na análise de regressão. Quadro 3: Frequência com que a mãe, pai e avó bate na criança - violência física Opções Sempre Quase sempre Às vezes Raramente Nunca Frequência 11 8 50 27 62 Percentual 6,96 5,06 31,65 17,09 39,24 Acumulado 6,96 12,03 43,67 60,76 100.00 118 Quadro 4: Frequência com que a mãe, pai e avó bate na criança - violência física Opções Bater: Yi = 1 Não bater: Yi = 0 Frequência 96 62 Percentual 60,76 39,24 Acumulado 60,76 100.00 O mesmo procedimento foi empregado para realizar a análise da violência psicológica, ou seja, para gritar e para colocar de castigo. Os quadros 5 e 6 a seguir descrevem a variável dependente a ser utilizada na análise de regressão para violência psicológica. Quadro 5: Frequência com que a mãe coloca de castigo – violência psicológica Opções Colocar de castigo: Yi = 1 Não Colocar de castigo: Yi = 0 Frequência 90 68 Percentual 56,96 43,04 Acumulado 56,96 100.00 Quadro 6: Frequência com que a mãe grita com a criança - violência psicológica Opções Gritar: Yi = 1 Não gritar: Yi = 0 Frequência 110 48 Percentual 69,62 30,38 Acumulado 69,62 100.00 Feitas as considerações acerca da variável dependente, vale mencionar qual o procedimento adotado na seleção das variáveis explicativas que iriam compor o modelo final a ser apresentado. O procedimento é padrão em análise de regressão, ou seja, faz-se o uso de teste de hipótese e análise da significância estatística, e critérios de informação. Serão apresentados os resultados a partir das razões de chances, definida aqui como sendo a probabilidade da ocorrência de um evento (bater) dividida pela probabilidade de não ocorrência do mesmo evento (não bater). A razão de chances é uma forma simples de interpretar os resultados gerados a partir do modelo de escolha discreta e útil para “explicar” o comportamento da violência física ou psicológica. Como as razões de chances são construídas a partir das probabilidades, o seu sinal será sempre positivo. Por isso, é importante olhar para o sinal da estatística Z que permite saber a direção da relação entre as variáveis. 119 4.2.1. Violência física: bater O Quadro 7 faz uma descrição das variáveis utilizadas na análise de regressão quando se trata da violência física. As variáveis foram agrupadas segundo o comportamento da criança, as características da mãe, as características do domicílio e a violência na comunidade. Quadro 7: Descrição das variáveis utilizadas na análise de regressão para violência física Variável Criança agride os outros Dormir só Mãe Mãe ter idade 35 a 39 Mãe bebe na presença da criança Número de crianças Número de crianças: mais de duas crianças no domicílio Renda do pai sustenta lar Beneficiário de bolsa família Almoçar com a criança Adulto grita com adulto na frente da criança Iluminação na rua Ver alguém sendo preso Descrição da variável Comportamento da criança Binária: assume valor um se a criança se comporta mal “agredindo os outros” e zero caso contrário Binária: assume valor um se a criança dorme sozinha e zero caso contrário Características da mãe Binária: assume valor um se a pessoa é mãe e zero caso contrário Binária: assume valor um se a pessoa é mãe tem idade de 35 a 39 e zero caso contrário Binária: assume valor um se a pessoa é mãe bebe na presença da criança e zero caso contrário Domicílio Número de crianças no domicílio Binária: assume valor um se há mais de 2 crianças no domicílio é e zero caso contrário Binária: assume valor um se a renda do pai é que sustenta o lar e zero caso contrário Binária: assume valor um se o domicílio recebe o benefício de bolsa família e zero caso contrário Binária: assume valor um se os pais almoçam com a criança e zero caso contrário Binária: assume valor um se o adulto grita com adulto na presença de criança e zero caso contrário Binária: assume valor um se há iluminação em frente ou próximo da casa e zero caso contrário Violência na comunidade Binária: assume valor um se vê alguém sendo preso nas ruas da comunidade e zero caso contrário O Quadro 8 apresenta os resultados encontrados na análise de regressão. A análise que segue toma como base o sinal do coeficiente estimado, a significância estatística (Estatística Z) e a razão de chance. Em virtude do reduzido tamanho da amostra utilizada na análise de regressão, o nível de significância considerado na análise será de 15%. No grupo relacionado ao comportamento da criança pode ser observado que o coeficiente estimado para a variável “agride os outros” apresenta um sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a probabilidade de sofrer violência física aumenta se a criança agride os outros. A razão de chance calculada para essa variável indica um aumento de 93% na chance de uma criança sofrer violência física na medida em que a criança se comportar mal ao agredir os outros. 120 Quadro 8: Razão de chances para variável dependente bater – Morro dos Macacos Variável Agride os outros Dormir só Razão e chance Estatística Z Comportamento da criança 1,938 1,47 4,298 2,65 Mãe Ter idade 35 a 39 Mãe bebe na presença da criança Criança almoça com os pais Número de crianças Numero de crianças: mais de 2 crianças Renda do pai sustenta lar Renda complementada com bolsa família Adulto grita com adulto na frente de criança Iluminação na rua Vendo alguém ser preso na comunidade (frequência) Características da mãe 3,295 31,086 4,607 166,642 Domicílio 1,938 P-value 0,143 0,008 1,84 1,75 2,23 2,22 0,065 0,081 0,026 0,026 1,47 0,143 0,114 0,160 -1,98 -3,35 0,048 0,001 4,651 2,35 0,019 1,77 -1,68 0,077 0,093 -2,03 0,042 2,447 0,437 Violência na comunidade 0,376 A variável “dormir só” é binária e assume valor um se a criança dorme sozinha e zero caso contrário. O coeficiente estimado para essa variável é comparado com uma categoria de base que é “não dormir sozinha”. O resultado mostra que o coeficiente estimado apresenta um sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a probabilidade de sofrer violência física aumenta se a criança dorme sozinha. A razão de chance mostra a chance de uma criança sofrer violência física é 4 vezes maior se ela dorme sozinha. No grupo com as características da mãe, a variável “mãe” é binária e a categoria de base para fins de comparação é não ser mãe (podendo ser pai ou avó). O resultado mostra que o coeficiente estimado apresenta um sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), o que também sugere que a relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência física é positiva. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência física é 3 vezes maior quando comparado com o fato de ser pai ou avó. A variável “ter idade” é binária e assume valor um se a mãe se encontra no intervalo indicado e zero caso contrário. É importante observar que os coeficientes estimados para essa variável são comparados com uma categoria de base que é a de ter idade entre 17 e 19 anos. Verifica-se que apenas o coeficiente da variável ter idade 35 a 39 anos apresentou significância estatística. Observa-se que o sinal da estatística Z para a variável ter idade 35 a 121 39 é positivo, indicando que ter a idade nesse intervalo aumenta a probabilidade de ocorrer a violência física em relação a categoria de base, ter idade 17 a 19. A razão de chance para essa variável sugere que a chance de a criança sofrer violência física é 31 vezes maior se a mãe tem idade entre 35 e 39 anos. A variável “mãe bebe na presença da criança” é binária e assume valor um se a mãe bebe e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente apresenta sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a medida que a mãe beber na presença da criança, aumenta a probabilidade de haver violência física. A razão de chance calculada mostra que a chance de a criança sofrer violência física aumenta cerca de quase 5 vezes se a mãe beber bebidas alcoólicas na presença de crianças. A variável “Almoçar com os pais” é uma variável binária que assume o valor 1 se os pais almoçam com a criança e zero caso contrário. A categoria base para fins de comparação é não almoçar. O coeficiente apresenta sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que almoçar com os pais aumenta a probabilidade de que a criança venha sofrer violência física. Observa-se pela razão de chance que a chance de uma criança sofrer violência física é quase 166 vezes maior em relação a não sofrer se a criança almoça com os pais. No grupo das características do domicílio, a variável “número de crianças” apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência física é positiva. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência física aumenta 93% em relação a não sofrer violência na medida em que aumenta o número de filhos. Com intuito de verificar se a partir de um determinando número de crianças há a possibilidade de reduzir a violência física, criou-se a variável “número de crianças: mais de 2 crianças” que assume valor um se no domicílio há mais de duas crianças e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente apresenta sinal negativo e possui significância estatística (Estatística Z), indicando que à medida que o número de crianças dentro do lar é superior a duas crianças, diminui a probabilidade de ocorrer a violência física. A razão de chances calculada para essa variável mostra uma redução na chance de uma criança sofrer violência física na medida em que o número de crianças no domicílio for superior a duas crianças. A variável “renda do pai sustenta o lar” é binária e assume valor um se a renda do pai sustenta o lar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente é negativo e possui significância estatística (estatística Z), indicando que os lares em que a renda do pai é 122 principal fonte de renda a probabilidade de ocorrer violência física é menor. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência física em relação a não ocorrência diminui na medida em que o pai sustenta o lar. A variável ser beneficiário de “Bolsa Família” assume valor um se o domicílio recebe Bolsa Família e zero caso contrário. Pelo resultado, nota-se que o sinal do coeficiente estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), mostrando que crianças em domicílios beneficiados com a Bolsa Família têm maior probabilidade de sofrer violência física. A chance de uma criança sofrer a violência nesse caso é cerca de 4 vezes maior em relação a um domicílio que não recebe o benefício. A variável “adulto gritar com um adulto na presença de crianças” é binária e assume um valor um se o adulto gritar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que aumenta a probabilidade de a criança sofrer violência em domicílios em que adulto grita com adulto. Observa-se que a chance de a criança ser vitima de violência física é duas vezes maior quando no domicílio há adulto que grita com adulto. A variável ter “iluminação em frente ou próximo da casa” é binária e assume valor um se há iluminação e zero caso contrário, tendo como categoria de base para fins de comparação não ter iluminação. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e possui sinal esperado (estatística Z), indicando que a existência de iluminação pública em frente ou próximo da casa reduz a probabilidade de ocorrência de violência física. A razão de chance mostra que a chance de ocorrer violência física em relação a não ocorrência diminui na medida em que aumenta a iluminação pública. No grupo de violência na comunidade testou-se a variável “presenciar alguém sendo preso na comunidade”, em que assume o valor igual a um se presenciar alguém sendo preso e zero caso contrário. O coeficiente dessa variável apresentou significância estatística e um sinal negativo (estatística Z), sugerindo que a relação dela com a variável violência física é negativa. A razão de chances mostra que reduz a chance de uma criança sofrer violência física em 37% em relação a uma criança não sofrer violência quando se presencia pessoas sendo presas na comunidade. Em geral, pela análise realizada, constata-se que aumenta a chance de a criança sofrer violência física quando: 1- Almoçar com os pais; 2- Mãe ter idade 35 a 39 anos; 3- Ser beneficiário de bolsa família; 123 4- Mãe beber na presença da criança; 5- Criança dormir sozinha; 6- Ser mãe; 7- Ambiente em que adulto grita com adulto na presença da criança; 8- Número de crianças for maior; 9- A criança se comportar mal: agredir os outros. Por sua vez, há uma redução na chance de a criança sofrer violência física quando 1- Houver iluminação na frente ou próxima de casa; 2- Presenciar alguém sendo preso; 3- Se o pai sustenta o lar; 4- Número de crianças: mais do que duas crianças no domicílio. 4.2.2. Violência psicológica: colocar de castigo O Quadro 9 apresenta os resultados obtidos para a análise de regressão quando consideramos violência psicológica, particularmente a ação de colocar a criança de castigo. Diferentemente da violência física (bater), em que foi possível identificar vários fatores associados à ocorrência daquele tipo de violência, aqui apenas três fatores se mostraram com significância estatística. No grupo relacionado ao comportamento da criança pode se observar que o resultado para a variável “agride os outros” apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente significativa (estatística Z), sugerindo que a relação entre essa variável e a probabilidade da ocorrência de violência psicológica é positiva. A razão de chance calculada para essa variável mostra que a chance de uma criança ser colocada de castigo é cerca de 5 vezes maior quando a criança apresenta um comportamento de agredir os outros. Quadro 9: Razão de chances para variável dependente colocar de castigo – Morro dos Macacos Variável Razão e chance Estatística Z P-value Comportamento da criança Agride os outros 5,549 2,810 0,005 Dormir só 2,014 1,750 0,081 Características da mãe 2,869 1,960 0,050 Mãe bebe na presença da criança 124 Ainda dentro do grupo de comportamento da criança, outra variável que se relaciona com a violência psicológica é “dormir só”. O resultado mostra que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e apresenta um sinal positivo (estatística Z), indicando que a probabilidade de sofrer violência psicológica aumenta quando a criança dorme sozinha. A razão de chance indica que a chance de a criança sofrer castigo é 2 vezes maior quando ela dorme sozinha. Com relação ao grupo de características da mãe, a única variável que se mostrou importante para explicar a violência psicológica castigo foi “mãe bebe na presença da criança” que assume valor um se a mãe bebe e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente é estatisticamente significativo e apresenta sinal positivo (estatística Z), sugerindo que, à medida que a mãe passa a beber na presença da criança, aumenta a probabilidade desse tipo de violência. A razão de chance mostra que a chance da criança sofrer esse tipo de violência é quase 3 vezes em relação à não ocorrência de violência se a mãe beber bebidas alcoólicas na presença de crianças. Em geral, pela análise realizada constata-se que aumenta a chance de a criança sofrer a violência psicológica “colocar de castigo“ quando: 1- A criança comporta mal: agride os outros; 2- A mãe bebe na presença da criança; 3- A criança dorme sozinha. 4.2.3. Violência psicológica: gritar O Quadro 10 mostra os resultados obtidos para a análise de regressão quando consideramos violência psicológica “gritar” com a criança. No geral, foi possível identificar vários fatores associados à ocorrência daquele tipo de violência associados ao comportamento da criança, as características da mãe e do domicílio. Verifica-se no grupo relacionado ao comportamento da criança o resultado para a variável “agride os outros”. O coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a relação entre essa variável e a probabilidade da ocorrência de violência psicológica é positiva. A razão de chance calculada mostra que a chance de uma criança ser colocada de castigo é cerca de 37 vezes maior quando a criança apresenta o comportamento de agredir os outros. 125 Quadro 10: Razão de chances para variável dependente gritar – Morro dos Macacos Variável Agride os outros Mãe Mãe bebe na presença da criança Razão e chance Estatística Z Comportamento da criança 37,888 3,02 Características da mãe 2,859 1,89 Benefício de bolsa família Domicílio com dois dormitórios Domicílio com três dormitórios Adulto grita com adulto na frente de criança Iluminação na rua P-value 0,003 0,059 6,463 Domicílio 2,586 2,712 23,390 2,36 0,018 1,54 1,92 2,72 0,124 0,055 0,007 3,268 0,402 2,42 -1,79 0,015 0,073 Para o grupo com as características da mãe, o resultado para a variável “mãe” mostra que o coeficiente estimado apresenta um sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), o que também sugere que a relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer a violência psicológica é positiva. Pela razão de chance, observa-se que a chance de uma criança sofrer violência física é quase 3 vezes maior em relação a não sofrer essa violência, se comparado com o fato de ser pai ou avó. O resultado para a variável “mãe bebe na presença da criança” mostra que o coeficiente apresenta sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que, à medida que a mãe passa a beber na presença da criança, aumenta a probabilidade de ocorrer violência psicológica. A razão de chance calculada mostra que a chance de a criança sofrer violência psicológica é 6 vezes maior em relação à não ocorrência de violência se a mãe beber bebidas alcoólicas na presença de crianças. Pelo resultado da variável ser beneficiário de “Bolsa Família”, nota-se que o sinal do coeficiente estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), mostrando que crianças em domicílios beneficiados com a Bolsa Família têm maior probabilidade de sofrer violência psicológica. A chance de uma criança sofrer a violência nesse caso é quase 2 vezes maior em relação a um domicílio que não recebe o benefício. A variável ter “domicílio com dois dormitórios” é binária e assume valor um se há 2 dormitórios e zero caso contrário, tendo como categoria de base para fins de comparação ter apenas um dormitório. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e possui sinal esperado (estatística Z), indicando que se o domicílio possuir três dormitórios 126 contribui para a probabilidade de ocorrência de violência psicológica (gritar). A razão de chance indica que a chance é de 3 vezes mais de ocorrer a violência na medida em que aumenta o número de dormitório na residência. A variável ter “domicílio com três dormitórios” também é binária, tendo como categoria de base para fins de comparação ter apenas um dormitório. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e possui sinal esperado (estatística Z), indicando que se o domicílio possuir três dormitórios contribui para a probabilidade de ocorrência de violência psicológica. A razão de chance mostra que a chance de ocorrer violência psicológica em relação à não ocorrência é 23 vezes maior na medida em que aumenta o número de dormitórios na residência. A variável “adulto gritar com um adulto na presença de crianças” é binária e assume o valor um se o adulto gritar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que aumenta a probabilidade de a criança sofrer violência em domicílios em que adulto grita com adulto. Observa-se que a chance de a criança ser vítima de violência física é três vezes maior quando no domicílio há adulto que grita com adulto. A variável ter “iluminação em frente ou próximo da casa” assume valor um se há iluminação e zero caso contrário, tendo como categoria de base para fins de comparação não ter iluminação. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e possui sinal esperado (estatística Z), indicando que a existência de iluminação pública em frente ou próximo da casa contribui para reduzir a probabilidade da ocorrência de violência psicológica. A razão de chance mostra que a chance de ocorrer violência psicológica em relação a não ocorrência diminui na medida em que há iluminação pública. Constata-se que aumenta a chance da criança sofrer a violência psicológica “gritar“ quando: 1- A criança comporta mal: agride os outros; 2- Domicílio com três dormitórios; 3- A mãe bebe na presença da criança; 4- Adulto grita com adulto na presença de criança; 5- Ser mãe; 6- Domicílio com dois dormitórios; 7- Benefício de bolsa família. 127 Verifica-se uma redução na chance de a criança sofrer violência psicológica apenas quando há iluminação na rua. 4.3. PERCEPÇÃO DA CRIANÇA Neste item, será analisada a violência sofrida e testemunhada pela criança em casa, na escola e na comunidade, com dados obtidos pelo ponto de vista de crianças de 6 a 8 anos. 4.3.1. Violência em casa Primeiramente, serão analisados três tipos de violência sofrida pela criança em casa, aplicada pelo adulto, a saber: Ø Colocar de castigo; Ø Gritar; Ø Bater. Posteriormente, serão analisados tipos de violência testemunhada pela criança em casa: Ø Adulto gritando com outro adulto; Ø Adulto batendo em outro adulto; Ø Adulto batendo em criança; Ø Adulto gritando com criança. 4.3.1.1. Violência sofrida pela criança Três tipos de violência foram sugeridos à criança para que ela indicasse o quanto já aconteceu com ela: colocar de castigo, gritar e bater. Os resultados revelam que, em casa, bater é a violência mais sofrida pela criança no Morro dos Macacos (Figura 90). 128 Figura 90: Violência sofrida pela criança em casa 4.3.1.1.1. Bater A violência mais sofrida em casa pela criança de 6 a 8 anos, do ponto de vista da criança, é a violência física: bater, mais do que gritar e colocar de castigo. Apenas 16% das crianças nunca foram vítimas desse tipo de violência aplicada pelos adultos, ou seja, 84% das crianças já apanharam dos adultos em casa, sendo que 31% delas apanham muitas vezes e 50% já apanharam algumas vezes (Figura 90). 4.3.1.1.2. Colocar de castigo A segunda violência mais sofrida em casa pela criança de 6 a 8 anos, do ponto de vista da criança, é ser colocada de castigo. A grande maioria (78%) das crianças de 6 a 8 anos já foi colocada de castigo, sendo que 31% das crianças entrevistadas já foi colocada de castigo muitas vezes (Figura 90). 129 4.3.1.1.3. Gritar A terceira violência mais sofrida pela criança em casa é receber gritos de adultos. A maioria das crianças de 6 a 8 anos (78%) já recebeu gritos dos adultos em casa, sendo que 25% das crianças entrevistadas já recebeu gritos dos adultos muitas vezes (Figura 90). 4.3.1.2. Violência testemunhada pela criança Quatro tipos de violência foram sugeridos às crianças para que elas indicassem quantas vezes testemunharam cada uma delas em casa. Os resultados revelam que a violência que as crianças mais veem em casa é “adulto batendo em criança” (Figura 91). Figura 91: Frequência com que a criança testemunha atitudes violentas em casa 130 4.3.1.2.1. Adulto batendo em criança A grande maioria das crianças de 6 a 8 anos entrevistadas (78%) já testemunharam adulto batendo em criança em casa, sendo que 37% já viram “muitas vezes” e 41% já viram algumas vezes (Figura 91). Essa é a violência mais testemunhada pela criança em casa. 4.3.1.2.2. Adulto gritando com criança A segunda violência mais testemunhada pela criança em casa é “adulto gritando com criança”. A maioria das crianças (69%) já viu adulto gritando com criança em casa, sendo que 28% delas já viram muitas vezes e 38% já viram algumas vezes (Figura 91). 4.3.1.2.3. Adulto gritando com adulto A maioria das crianças de 6 a 8 anos (59%) nunca viu adulto gritando com adulto dentro de casa, no entanto, um número significativo (41%) já viu muitas ou algumas vezes (Figura 91). Ou seja, a cada 10 crianças, 4 já viram adulto gritando com outro adulto dentro de casa. 4.3.1.2.4. Adulto batendo com adulto A maioria das crianças de 6 a 8 anos nunca viu adulto batendo em adulto dentro de casa. No entanto, 40% já viu pelo menos uma vez, sendo que 16% já viu muita vezes e 12% já viu algumas vezes (Figura 91). O que significa que, a cada 10 crianças, 4 já viram adultos batendo em outro adulto dentro de casa e 2 já viram muita vezes. 131 4.3.2. Violência na escola Primeiramente, serão analisados tipos de violência sofrida pela criança na escola, a saber, o quanto o adulto: Ø Coloca a criança de castigo; Ø Grita com a criança; Ø Bate na criança. Posteriormente, serão analisados tipos de violência testemunhados pela criança na escola, a saber: Ø Criança batendo em criança; Ø Adulto batendo em criança; Ø Adulto gritando com criança. 4.3.2.1. Violência sofrida pela criança Foram sugeridos três tipos de violência na escola para que a criança de 6 a 8 anos indicasse o quanto são praticadas contra ela pelo adulto, a saber: colocar de castigo, gritar e bater. 4.3.2.1.1. Colocar de castigo Dos três tipos de violência sofridos na escola pela criança de 6 a 8 anos, a mais frequente é “adulto colocar a criança de castigo”, mais do que gritar e bater (Figura 92). 132 Figura 92: Frequência com que a criança sofre determinados tipos de violência NA ESCOLA A maioria das crianças entrevistadas (60%) já ficou de castigo na escola pelo menos uma vez, sendo que 13% já ficou muitas vezes e 38% já ficou algumas vezes (Figura 92). 4.3.2.1.2. Gritar A maioria das crianças (69%) revelou que adultos nunca gritaram com ela. A parcela de crianças que disse que adulto grita com ela sempre é pequena (9%)(Figura 92). 4.3.2.1.3. Bater A grande maioria (88%) das crianças revela que adultos nunca bateram nela na escola. Ainda assim, algumas crianças (12%) revelaram ter apanhado de adultos pelo menos uma vez, o que significa 1 a cada 10 crianças (Figura 92). 133 4.3.2.2. Violência testemunhada pela criança Através da percepção da criança, a pesquisa investigou também tipos de violência que são testemunhadas na escola. Foram abordados três tipos de violência: adulto batendo em criança, adulto gritando com criança e criança batendo em criança. Os resultados revelam que as crianças testemunham mais as cenas de violência de “criança batendo em criança”, assim como “adulto gritando com criança” do que adultos batendo em crianças (Figura 93). Figura 93: Frequência com que a criança testemunha a violência na escola. 4.3.2.2.1. Criança batendo em criança A cena de violência que as crianças mais veem na escola é “criança batendo em criança”. A grande maioria (84%) já viu pelo menos uma vez. A maioria (56%) já viu muitas vezes e 25% já viu uma ou algumas vezes. O que significa que, na escola, 8 a cada 10 crianças já viu pelo menos uma vez criança batendo em criança, sendo que 6 a cada 10 já viu muitas vezes (Figura 93). Os resultados não revelam diferenças entre a idade da criança com a frequência com que testemunha (na escola) “criança batendo em criança”, o que significa que crianças com 6, 134 7 e 8 anos testemunham de forma semelhante. No entanto, foi encontrada uma diferença estatisticamente significativa quanto ao sexo da criança. 4.3.2.2.1.1. Frequência por sexo da criança As meninas veem mais “criança batendo em criança” do que os meninos (Figura 94). Essa diferença tem uma significância estatística com 76% de confiabilidade, ou seja, com 24% de chance de não se repetir caso seja realizado com outras amostras na comunidade (KW, chi²=1,337, Sig=0,248). Figura 94: Frequência com que meninas e meninos veem criança batendo em criança, na escola. Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham criança batendo em criança na escola, meninos ou meninas? Os valores mais altos indicam o sexo que mais testemunha criança batendo em criança na escola e os valores mais baixos indicam o sexo que menos testemunha criança batendo em criança na escola. Foram obtidos através do teste nãoparamétrico Kruskal Wallis. A maioria das meninas (69%) vê muitas vezes criança batendo em criança na escola, enquanto 44% dos meninos veem muitas vezes. Embora tenha diferença na frequência com que veem, a grande maioria das meninas (88%), quanto dos meninos (82%), testemunham esse tipo de violência na escola (Figura 94). 135 4.3.2.2.2. Adulto gritando com criança Adulto gritando com criança é uma violência tão recorrente na escola quanto criança batendo em criança. A maioria das crianças respondentes (81%) já viram adulto gritando com criança pelo menos uma vez, sendo que 47% já viram muitas vezes (Figura 93). O que significa que 8 a cada 10 crianças já viram adulto gritando com adulto na escola, sendo que 5 a cada 10 crianças já viram muitas vezes. 4.3.2.2.3. Adulto batendo em criança Não é frequente adulto batendo em criança na escola, a maioria das crianças (75%) nunca viu. No entanto, 25% delas já viu pelo menos uma vez adulto batendo em criança na escola, sendo que 13% já viu muitas vezes (Figura 93). O que significa que praticamente 3 a cada 10 crianças já viram adulto batendo em criança na escola, sendo que 1 a cada 10 já viu muitas vezes. 4.3.3. Violência na comunidade Na comunidade, avaliou-se apenas a violência testemunhada pela criança (Figura 95). Nesse sentido, cinco tipos de violência foram sugeridos às crianças para que elas indicassem o quanto já testemunharam nas ruas, becos ou vielas da comunidade, a saber: Ø Adulto batendo em criança; Ø Adulto batendo em adulto; Ø Adulto dando tiro com arma de fogo; Ø Gente sendo levada pela polícia; Ø Gente vendendo drogas. 136 Figura 95: Violência testemunhada pelas crianças na comunidade 4.3.3.1. Gente sendo levada pela polícia Essa é a violência mais testemunhada pela criança na comunidade. Apenas 31% delas nunca viram pessoas sendo levadas pela polícia, sendo que 19% já viu muitas vezes, 16% já viram algumas vezes e 34% já viram pelo menos 1 vez, o que significa que 7 em cada 10 crianças (70%) já viram pessoas sendo levadas pela polícia (Figura 95). Os resultados não revelam diferenças quanto à idade e o sexo da criança que mais testemunha pessoas sendo levadas pela polícia, ou seja, meninos e meninas com 6, 7 e 8 anos testemunham esse tipo de violência com a mesma frequência. 4.3.3.2. Adulto batendo em crianças Essa é a segunda violência mais testemunhada pela criança na comunidade. Metade das crianças entrevistadas, o que significa 5 em cada 10 já viram adultos batendo em crianças nas “ruas” da comunidade, sendo que 22% das crianças já viu muitas vezes (Figura 95). Os resultados não revelam diferença entre a idade e o sexo da criança com a frequência com que testemunha adulto batendo em criança, ou seja, meninos e meninas com 6, 7 e 8 anos testemunham o mesmo tanto. 137 4.3.3.3. Adulto batendo em adulto A terceira violência mais vista na comunidade pelas crianças é “adulto batendo em adulto”. Pouco mais de 1/3 das crianças (35%) já viu esse tipo de violência na comunidade, sendo que 19% já viu muitas vezes. Ou seja, a cada 10 crianças, 4 já viram adulto batendo em adulto na comunidade (Figura 95). Os resultados não revelam diferenças quanto à idade e o sexo da criança que mais testemunha adulto batendo em adulto, ou seja, meninos e meninas, com 6, 7 e 8 anos testemunham esse tipo de violência com a mesma frequência. 4.3.3.4. Venda de drogas A grande maioria das crianças (81%) nunca viu gente vendendo drogas na comunidade do Morro dos Macacos. A parcela de criança que já viu corresponde a 19%, sendo que 16% das crianças já viu muitas vezes (Figura 95). Os resultados não revelam diferenças entre a idade e o sexo da criança com a frequência com que testemunha venda de drogas na comunidade, ou seja, crianças com 6, 7 e 8 anos, tanto meninas quanto meninos, testemunham esse tipo de violência com frequências similares. 4.3.3.5. Adulto atirando com arma de fogo A grande maioria das crianças (85%) nunca viu adulto dando tiro com arma de fogo na comunidade, no entanto, 10% delas já viu muitas vezes e 6% já viu uma vez. Isso significa que 2 em cada 10 crianças já viram adulto dando tiro com arma de fogo (Figura 95). Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas entre a idade e o sexo da criança com a frequência com que testemunha adulto atirando com arma de fogo na comunidade, conforme segue. 138 4.3.3.5.1. Idade da criança com a frequência com que ela vê adulto atirando com arma de fogo Os resultados confirmam uma diferença estatisticamente significativa (K-W, chi²=3,925, sig=0,141), entre a idade da criança e a frequência com que vê adulto atirando com arma de fogo. As crianças de 6 anos são as que mais viram adulto atirando com arma de fogo e as crianças de 7 anos são as que menos viram (Figura 96). Figura 96: Idade da criança com a frequência com que já viu adulto atirando com arma de fogo Nota: m.o.=média dos valores ordinais por idade da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham adulto atirando com arma de fogo. Os valores mais altos indicam a idade que mais testemunha e os valores mais baixos indicam a idade que menos testemunha. Os valores foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. Enquanto nenhuma criança de 7 anos já viu adulto atirando com arma de fogo, 22% das crianças de 6 anos já viram muitas vezes. O que significa que a cada 10 crianças, 2 já viram muitas vezes adulto dando tiro com arma de fogo. A maioria das crianças de 8 anos (85%), assim como as de 7, também nunca viu adulto atirando com arma de fogo (Figura 96). Os resultados revelaram diferenças também quanto ao sexo (K-W, chi²=1,885, sig=0,170). Meninos já viram mais do que as meninas adulto atirando com arma de fogo (Figura 97). 139 Figura 97: Frequência com que meninas e meninos já viu adulto atirando com arma de fogo. Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham adulto atirando com arma de fogo. Os valores mais altos indicam o sexo que mais testemunha e os valores mais baixos indicam o sexo que menos testemunha. Os valores foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. Enquanto 94% das meninas nunca viram adulto atirando com arma de fogo, apenas 6% já viu muitas vezes. Entre os meninos, 75% deles nunca viram, 13% já viu muitas vezes e 12% já viu pelo menos uma vez (Figura 97). 4.3.4. Do que a criança mais gosta de brincar No Morro dos Macacos, entre as brincadeiras preferidas por meninos e meninas (Figura 98), destacam-se, entre os meninos: Ø Futebol (50% dos meninos); Ø Vídeo-game, mini-game (25%); Ø Carrinho (19%); Ø Pique-esconde (19%); Ø Soltar pipa (19%). Além dessas brincadeiras mais frequentes, ainda foram mencionados por 6% dos meninos (corresponde a 1 menino): jogar totó, queimada (jogo de bola), andar de skate. Para as meninas, as brincadeiras preferidas são: Ø Brincar de boneca (75% das meninas); 140 Ø Casinha (mãe e filha, panelinha)(44%); Ø Pique-esconde (33%); Ø Bicicleta (13%); Ø Estudar, ler, escolinha (13%). Além dessas brincadeiras mais frequentes, ainda foram mencionadas por 6% das meninas (corresponde a 1 menina): cantar e dançar, jogar basquete, jogar dominó, andar de patins, pentear cabelo. Chama a atenção o fato de que algumas brincadeiras preferidas por meninos (futebol, pique-esconde, soltar pipa) e pelas meninas (pique-esconde e bicicleta) são praticadas, geralmente, fora do espaço da casa. Isso sugere que as ruas da comunidade sem violência constituem um ambiente mais propício para as brincadeiras mais preferidas tanto para meninos quanto para meninas. Figura 98: Brincadeiras preferidas por meninos e meninas 141 4.3.5. O que falta na comunidade para as crianças Para 6% das crianças (de 6 a 8 anos) não falta nada na comunidade e 13% delas não sabem responder o que falta (Figura 99). No entanto, para a grande maioria das crianças (81%), faltam várias coisas na comunidade, a saber: Ø Local para brincar (praça, parques e parquinhos com balanço, gangorras, pulapula): para 25% das crianças; Ø Brinquedos, como boneca, bicicleta (para 22% das crianças); Ø Estudo, para ler e escrever (9%); Ø Casa boa (6%); Ø Piscina (6%); Ø Respeito e amizade (6%). Figura 99: O que falta para a criança na comunidade, na percepção da criança Vários outros itens foram apontados por 3% das crianças (corresponde a 1 criança), sobre o que falta na comunidade, a saber: Ø “comida”; Ø “um quarto só para mim”; 142 Ø Lutas; Ø Sorteio de presentes; Ø Colocar relógio da LIGHT. 4.3.6. Balanço sobre a percepção da criança 4.3.6.1. Violência em casa Ø Violência sofrida pela criança: 84% das crianças são vítimas da violência física (bater) dos adultos; 78% das crianças são colocadas de castigo pelos adultos; 78% das crianças são vítimas dos adultos. Ø Violência testemunhada pela criança: 78% das crianças já viram adulto batendo em criança; 69% das crianças já viram adulto gritando com criança; 41% das crianças já viram adulto gritando com adulto; 40% das crianças já viram adulto batendo em adulto. 4.3.6.2. Violência na escola Ø Violência sofrida 60% é colocada de castigo pelo adulto; 31% é vítima de grito do adulto; 12% é vítima da violência física (bater) do adulto. Ø Violência testemunhada 84% já viram criança batendo em criança; • Diferença por sexo da criança (K-W, chi²=1,337, Sig=0,248) 69% das meninas veem sempre (m.o .= 18,22)11; 44% dos meninos veem sempre (m.o. = 14,78); 11 Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunha criança batendo em criança na escola. Os valores mais altos indicam o sexo da criança que mais testemunha e os valores mais baixos indicam o sexo da criança que menos testemunha. Os valores foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 143 81% já viram adulto gritando com criança; 25% já viram adulto batendo em criança. 4.3.6.3. Violência na comunidade Ø Violência testemunhada 69% das crianças já viram pessoas sendo levada pela polícia; 50% já viram adulto batendo em criança; 35% delas já viram adulto batendo em adulto; 19% já viram gente vendendo drogas; 16% já viram adulto atirando com arma de fogo:; • Diferença quanto à idade da criança (K-W, chi²=3,925, sig=0,141): 33% das crianças de 6 anos já viram (m.o.=19,39)12; 15% das crianças de 8 anos já viram (m.o.= 16,42); 0% das crianças de 7 anos (m.o.= 14,00). • Diferença quanto ao sexo da criança (K-W, chi²=1,885, sig=0,170): 25% dos meninos já viram adulto atirando (m.o.=17,94)13; 6% das meninas já viram adulto atirando (m.o.= 15,06). 4.3.6.4. Brincadeiras mais frequentes Ø Meninos: 50% dos meninos jogam futebol; 25% deles jogam vídeo-game, mini-game; 19% brincam de carrinho; 12 Nota: m.o.=média dos valores ordinais por idade da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham adulto atirando com arma de fogo. Os valores mais altos indicam a idade que mais testemunha e os valores mais baixos indicam a idade que menos testemunha. Os valores foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis. 13 Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham adulto atirando com arma de fogo. Os valores mais altos indicam o sexo que mais testemunha e os valores mais baixos indicam o sexo que menos testemunha. Os valores foram obtidos através do teste nãoparamétrico Kruskal Wallis. 144 19% brincam de pique esconde; 19% soltam pipa. Ø Meninas: 75% brincam de boneca; 44% casinha (panelinha, mãe e filha...); 33% brincam de pique-esconde; 13% bicicleta; 13% Estudo, ler e escrever. 4.3.6.5. Percepção sobre o que falta na comunidade: 25% acham que falta local para brincar, como parques e playgrounds; 22% acha que falta brinquedos, boneca, bicicleta; 13% acha que não falta nada; 9% acha que falta estudo para ler e escrever; 6% acha “casa boa”; 6% acha que “não sabe”; 6% acha que falta piscina 6% respeito e amizade. 4.4. Conclusão das percepções de adultos e crianças 4.4.1. Percepção do adulto 4.4.1.1. Violência em casa Ø A violência mais praticada em casa contra a criança: Bater é a violência física mais praticada pelos adultos em casa contra a criança. Mais do que gritar e colocar de castigo. Ø Grupo de adulto: A mãe é o adulto que mais pratica a violência contra a criança: 145 bater, colocar de castigo e gritar é mais praticada pela mãe do que pela avó, pai e “outros”. Ø Idade da criança: O índice de violência doméstica praticada pela mãe é maior em crianças de 2, 5 e 7 anos de idade. Ø Quantidade de crianças na casa: A incidência de violência física (bater) praticada pela mãe é maior em casas com mais de 1 criança. Ø Sexo da criança: Os resultados não revelam diferença quanto ao sexo da criança. Ø Criança que divide a cama com os pais: Embora a maioria das crianças divida a cama com os pais, não há correlação entre a incidência da violência física praticada pela mãe com a frequência com que ela divide a cama com os pais. Não obstante, a criança de 2 anos, maior vítima da violência física praticada pela mãe, é a que mais divide a cama com os pais. Ø Idade da mãe: O maior índice de mães que batem na criança está na faixa dos 3539 anos, seguido das mães com 20-24 e 30-34. O menor índice de mães que batem está na faixa dos 17 - 19 anos. Ø Escolaridade da mãe: O maior índice de mães que batem na criança é das que tem curso superior. Embora seja apenas 3% das mães, todas elas batem na criança. O segundo maior índice é das que tem 1° grau completo (mais de 80% delas), seguido das mães com até o 1° grau incompleto. No entanto, mesmo a maioria das mães com 2° grau completo e incompleto batem na criança, aproximadamente 70%. Ø Consumo de bebida alcoólica pela mãe: Os resultados não revelam correlação entre o consumo de bebida alcoólica com a frequência com que a mãe bate, uma vez que a grande maioria das mães que bebem batem, no entanto, a maioria das que nunca bebem também batem. Ø Renda mensal da mãe: Com uma diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que batem é maior entre aquelas com renda menor que um salário mínimo, enquanto o menor índice de violência está entre as mães que não têm renda. Descriminando a Bolsa Família na renda mensal, a diferença não é confirmada estatisticamente, mas os resultados revelam que as mães com renda menor que o mínimo cuja fonte é apenas a bolsa família são as que mais batem e as mães sem renda são as que menos batem. 146 Ø Quantidade de cômodos na casa: Sem diferença estatisticamente significativa, o índice das mães que batem na criança é maior em casas com 1 e 2 cômodos do que em casas com 4 cômodos ou mais. Ø Quantidade de dormitórios na casa: Sem diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que batem é maior em casas com 3 dormitórios do que em casas com 1 dormitório, no entanto, o índice menor de violência é do grupo de mães que mora em casas com 2 dormitórios. Ø Quantidade de banheiros na casa: A grande maioria das mães participantes da amostra mora em casas com 1 banheiro com chuveiro e a maioria delas bate na criança. Ø Tipo de rua: Sem diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que batem na criança é maior nas moradias localizadas em escadarias, do que em casas localizadas em ruas onde passam carros. No entanto, o índice menor de violência praticada pelas mães contra a criança está em casas localizadas em vielas onde só passam motos. Ø Iluminação da rua: Sem diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que batem na criança é maior nas casas cujas ruas não têm iluminação do que em ruas onde há iluminação. Ø Grau de satisfação com a iluminação: Com correlação negativa confirmada estatisticamente, os resultados mostram que, quanto maior a insatisfação com a iluminação da rua, maior o índice de mães que batem na criança. Ø Frequência com que o pai dá banho e veste a criança: Sem correlação com a frequência com que o pai bate na criança, no entanto, os pais que dão banho batem e os que nunca dão banho nunca batem. Ø Escolaridade do pai: Sem diferença estatisticamente significativa, os pais que batem tem pouca formação escolar (até 1°grau incompleto) enquanto todos os outros, com 1° grau completo e médio completo e incompleto nunca batem. Ø Consumo de bebida alcoólica pelo pai: Sem correlação com a frequência com que o pai bate na criança. Os poucos pais que batem nunca bebem. 147 4.4.1.1.1 Tipos de violência e atitude aceitas pelos adultos Ø Gritar: Atitude pouco aceita pelos adultos, assim como pelas mães, apenas uma pequena minoria que não chega a 15% indica essa atitude como a ideal para dar limite à criança. Ø Colocar de castigo: É uma atitude aceita pela maioria dos adultos, assim como pela maioria do grupo das mães. Ø Bater: Bater é mais aceito pelos grupos de adultos do que gritar, se “dar uns tapas” for considerado bater, sendo que 25% das mães indicam “dar uns tapas” como forma ideal para dar limite à criança. Ø Conversa: Atitude mais percebida pelos adultos como o que dá limite à criança, indicada pela grande maioria, tanto considerando a amostra total, quanto considerando apenas o grupo das mães. 4.4.1.1.2. Percepção do adulto sobre o mau comportamento da criança Ø Frequência: Quase todos os adultos (mães ou não) acreditam que a criança se comporta mal. Ø Características: As atitudes mais frequentes de mau comportamento da criança, na percepção da mãe, são: 1. “pirraça, manha, irritação, choro”; 2. “morder, bater ou querer bater”, 3. “implicância com os irmãos”. 4.4.1.1.3 Violência praticada na frente da criança pelo adulto Ø Adulto grita com adulto: Essa é a violência que a maioria dos adultos percebe que a criança testemunha dentro de casa. Ø Adulto bate em adulto: 12% dos adultos percebe que a criança testemunha adulto batendo em adulto dentro de casa. Ø Homem batendo em mulher: 12% dos adultos percebe que a criança testemunha homem batendo em mulher, logo, todos os adultos que batem em adultos são homens batendo em mulher. 148 Ø Arma de fogo na frente da criança: Apenas 1 adulto disse que a criança vê arma de fogo dentro de casa, ou seja, praticamente 100% dos adultos responderam que arma de fogo nunca fica na frente da criança. 4.4.1.2. Violência na comunidade Investigou-se a percepção do adulto sobre determinados tipos de violência que ele testemunha na comunidade e as que ele fica sabendo, assim como, graus de satisfação com segurança, serviços de saúde, transporte e educação e, por último, suas observações sobre o que falta na comunidade para a criança. 4.4.1.2.1. Violência testemunhada Ø Tiro com arma de fogo: É a violência mais testemunhada pelo adulto na comunidade, a maioria já viu ou ouviu. Ø Alguém sendo preso: É a segunda violência mais testemunhada pelo adulto na comunidade, a maioria já viu. Ø Policial apontando uma arma de fogo: É a terceira violência mais vista pelo adulto, também visto pela maioria. Ø Adulto sendo ferido por arma de fogo: Pouco menos que a metade dos respondentes já viu. Ø Adulto sendo ferido por tiro: Pouco mais de 1/5 dos respondentes já viu, o que significa 2 a cada 10 adultos. Ø Adulto vendendo drogas: Pouco mais de 1/5 dos respondentes já viu, 2 a cada 10 adultos. Ø Adulto sendo ferido por facada: Pouco menos que 1/5 dos respondentes já viu, 2 a cada 10 adultos. Ø Adulto apontando uma arma: 1/10 já viu, o que significa 1 a cada 10 respondentes. Ou seja, os adultos veem mais gente sendo ferida por tiro do que gente apontando arma de fogo. 149 Ø Suas casas assaltadas: Apenas 6% dos respondentes já tiveram suas casas assaltadas, o que significa 1 a cada 12 adultos. 4.4.1.2.2. Violência que ficou sabendo Ø Pessoas assaltadas nas ruas da comunidade: Essa é a ocorrência de assalto que as pessoas mais ficam sabendo na comunidade, sendo que a maioria já ficou sabendo de pessoas que foram assaltadas na comunidade. Ø Casas que foram assaltadas: A segunda ocorrência de assalto que as pessoas mais ficam sabendo, sendo que a maioria já ficou sabendo de casas que foram assaltadas; Ø Abuso sexual contra crianças: Quase 40% dos adultos já ficaram sabendo de abuso sexual contra criança na comunidade, o que significa 4 a cada 10 pessoas. Ø Assaltos no comércio da comunidade: Pouco mais que 1/3 dos adultos já ficou sabendo de assalto no comércio da comunidade, o que significa que de 3 a 4 pessoas a cada 10 ficam sabendo. As pessoas ficam sabendo mais de abuso sexual contra criança do que de assalto ao comércio da comunidade. 4.4.1.2.3. Graus de satisfação com a segurança, transporte, saúde, iluminação e educação Ø Os maiores índices de satisfação: 1) Creche: Grande maioria dos adultos, quase 8 em cada 10, estão satisfeitos; 2) Iluminação das praças: Maioria dos adultos, 7 em cada 10, estão satisfeitos. 3) Escola: Grande maioria dos adultos, 7 em cada 10, estão satisfeitos; 4) Agentes de saúde da família: Quase 7 em cada 10 adultos estão satisfeitos; 5) Transporte: 6 em cada 10 adultos estão satisfeitos; 6) Iluminação em frente ou próximo á moradia: 4 em cada 10 estão satisfeitos; 7) Médicos no posto de saúde: 3 em cada 10 adultos estão satisfeitos; 8) Pediatras no posto de saúde: 3 em cada 10 adultos estão satisfeitos; 9) Segurança para andar à noite: 3 em cada 10 adultos estão satisfeitos; 10) Segurança para a criança brincar fora de casa: 3 a cada 10 estão satisfeitos; 11) Tempo de espera no posto de saúde: 2 em cada 10 adultos estão satisfeitos. 150 Ø Os maiores índices de insatisfação: 1) Tempo de espera no PS: maioria dos adultos, quase 6 a cada 10, insatisfeitos; 2) Segurança para a criança brincar fora de casa: 5 a cada 10, insatisfeitos; 3) Iluminação das praças: 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos; 4) Pediatras no PS: 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos; 5) Segurança par andar à noite: quase 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos; 6) Médicos no PS: quase 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos; 7) Iluminação em frente ou próximo de casa: quase 4 em cada 10, insatisfeitos; 8) Transporte: 2 em cada 10 adultos estão insatisfeitos; 9) Agentes de saúde da família: 2 em cada 10 adultos estão insatisfeitos; 10) Iluminação da praças: 1 a cada 10 adultos estão insatisfeitos; 11) Escolas e creches: quase 1 a cada 10 adultos estão insatisfeitos. 4.4.1.2.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade 1) Praças e outros espaços de lazer: 3 em cada 10 adultos acham que falta; 2) Oficinas e projetos para as crianças: 1 em cada 10 acha que falta; 3) Creches, escolas, hospitais: 1 em cada 10 adultos acha que falta; 4) Médicos nos PSs: 1 em cada 10 adultos acha que falta. 4.4.2 Percepção da criança de 6 a 8 anos 4.4.2.1 Violência em casa 4.4.2.1.1 Violência sofrida Ø Bater: É a violência mais sofrida pela criança em casa, a grande maioria delas (mais de 80%), já sofreu essa violência física praticada pelo adulto em casa. Ø Castigo: Quase 80% das crianças já foram colocadas de castigo pelo adulto em casa; Ø Grito: O mesmo índice do castigo, quase 80% das crianças já receberam grito dos adultos em casa. 151 4.4.2.1.2 Violência testemunhada Ø Adulto batendo em criança: É a violência mais testemunhada pela criança em casa, a grande maioria das crianças, quase 80%, já testemunharam. Ø Adulto gritando com criança: É a segunda violência mais testemunhada pela criança, quase 70% delas já testemunharam. Ø Adulto gritando com adulto: É a terceira violência mais vista pela criança, quase a metade delas já viu. Ø Adulto batendo em adulto: É a violência menos testemunhada pela criança em casa. Ainda assim, é vista por 40% delas. 4.4.2.2 Violência na escola 4.4.2.2.1 Violência sofrida Ø Castigo: É a violência mais sofrida pela criança na escola, a maioria já foi colocada de castigo pelo adulto. Ø Gritos: É a segunda violência mais sofrida pela criança na escola, aproximadamente 1/3 das crianças já recebeu gritos de adultos. Ø Bater: É a violência menos sofrida pela criança na escola, pouco mais que 10% das crianças revelaram que adultos bateram nelas. 4.4.2.2.2 Violência testemunhada Ø Criança batendo em criança: É a violência mais testemunhada pela criança na escola, a grande maioria das crianças de 6 a 8 anos, mais do que 80%, já viu “criança batendo em criança” na escola. Ø Adulto gritando com criança: Mais de 80% já viram. Ø Adulto batendo em criança: É a violência menos testemunhada na escola, aproximadamente 25% das crianças já viram. 152 4.4.2.2.3. Violência na comunidade Ø Pessoas sendo levadas pela polícia: É a violência mais testemunhada pela criança na comunidade, a maioria delas, quase 70%, já viu. Ø Adulto batendo em criança: A segunda violência mais vista, a metade das crianças já viu. Ø Adulto batendo em adulto: A terceira violência mais vista, quase 40% já viu. Ø Gente vendendo drogas e adulto atirando com arma de fogo: São as violências menos testemunhadas pelas crianças, menos de 20% delas já viu. 4.4.2.3 Brincadeiras mais frequentes Ø Boneca: É a brincadeira preferida das meninas, com maior índice de citação entre as crianças, quase 80% das meninas gostam de brincar de boneca. Ø Futebol: Brincadeira preferida dos meninos, é a segunda mais citada pelas crianças. Metade dos meninos apontam o futebol como uma das brincadeiras mais frequentes. Ø Casinha: É a segunda brincadeira mais citada pelas crianças, exclusivamente pelas meninas, quase 50% das meninas mencionou que gosta de brincar de casinha. Ø Vídeo-game e mini-game: Aproximadamente ¼ dos meninos gosta de jogar vídeo-game. Ø Pique-esconde: 1/3 das meninas gosta de brincar de pique-esconde e 1/5 dos meninos. Ø Brincar de carrinho e soltar pipa: Preferidas por aproximadamente 20% dos meninos. Ø Andar de bicicleta e estudar (ler e escrever): Preferidas por pouco mais que 10% das meninas. 4.4.2.4 Percepção sobre o que falta na comunidade Ø Espaço de lazer: Para as crianças de 6 a 8 anos o que mais falta na comunidade é espaço de lazer, ¼ delas acha que falta local para brincar, como parques e playgrounds. 153 Ø Brinquedos (bonecas, bicicleta, etc.): Pouco mais que 20% das crianças acha que falta brinquedos na comunidade. Ø Outros: Indicados por menos que 10% das crianças: • Estudo para ensinar as crianças a ler e escrever; • Casa boa; • Piscina; • Respeito e amizade. 5 154 Análise dos grupos de discussão com adolescentes no Morro dos Macacos 5.1. Procedimento metodológico Para compreender a perspectiva de jovens nas favelas pesquisadas, foram conduzidos grupos de discussão sobre os temas infância, violência e vivência na comunidade. A análise desse material qualitativo, para além de identificar os temas tratados e as diferentes posições dentro do grupo, busca compreender “os centros de experiência dos membros do grupo, espaços sociais de experiências conjuntivas. Seguindo Karl Mannheim, nós chamamos isto de ‘espaço conjuntivo de experiência’. Aqueles que têm experiências biográficas em comum, assim como suas histórias de socialização e, portanto, têm um espaço de experiência em comum ou coletivo, entendem-se mutuamente imediatamente na medida em que essas experiências biográficas em comum se tornam relevantes em interação e discurso” (Bohnsack, 2010, p. 105). Segundo esse autor, tal método de análise de grupos de discussão oferece “um acesso ao conhecimento pré-reflexivo ou tácito, que está implícito na prática da ação”, composto de dois níveis: “o significado imanente abrange o estoque de conhecimento que pode ser explicitado pelos participantes mesmos. Desse se distingue o conhecimento experimental, que é tido como algo tão natural que nem se presta atenção, algo que os participantes de um grupo de discussão não precisam e frequentemente não conseguem explicitar por si mesmos. Os participantes se entendem mutuamente porque possuem conhecimento em comum sem nenhuma necessidade de explicitá-lo uns para os outros” (Bohnsack, 2010, p. 103). Tal conhecimento experimental é vinculado por Bohnsack (2010) ao significado documentário que tais saberes locais têm em relação à prática cotidiana dos atores sociais, a maneira como eles se orientam em suas ações. Identificar esse segundo nível de conhecimento, que, em um grupo de discussão, perpassa a maneira como diversos temas são tratados, tornaria claro o enquadramento coletivo de orientação. Os passos da análise necessários para identificar esses diferentes níveis de conhecimento passam por pontos culminantes na dramaturgia do discurso, chamados de metáforas de enfoque, pelo processo do discurso, significando a organização de contribuições, concordâncias e discordâncias entre os participantes e, finalmente, por como os temas se sucedem uns aos outros, seja por desenvolvimentos realizados dentro das discussões entre os participantes ou por sugestão do pesquisador. Além da consideração desses aspectos, o nível 155 de conhecimento experimental, aquele compartilhado pré-reflexivamente por participantes de um mesmo meio social, está encerrado nos tipos textuais narrações ou descrições. Segundo Wivian Weller, “a transcrição completa de um grupo de discussão deixa de ser necessária. De acordo com esse método, a análise principia-se com a passagem inicial, seguida da análise das passagens de foco e das que discutem questões relacionadas ao tema da pesquisa. Esse processo compreende dois momentos: interpretação formulada e interpretação refletida. Durante a interpretação formulada, busca-se compreender o sentido imanente das discussões e decodificar o vocabulário coloquial. Em outras palavras, o pesquisador reescreve o que foi dito pelos informantes, trazendo o conteúdo dessas falas para uma linguagem que também poderá ser compreendida por aqueles que não pertencem ao meio social pesquisado. Nessa etapa de análise, ele não traça comparações e tampouco utiliza o conhecimento que possui sobre o grupo ou meio pesquisado. Já a interpretação refletida implica uma observação de segunda ordem, na qual o pesquisador realiza suas interpretações, podendo recorrer ao conhecimento teórico e empírico adquirido sobre o meio pesquisado” (Weller, 2006, p. 251). 5.2. Passos da análise Na presente pesquisa, esses passos de análise foram adaptados para atender fins específicos. Com um foco muito claro no conhecimento compartilhado, as dinâmicas entre participantes receberam mais atenção, dentro dos passos de análise, do que o que os indivíduos participantes contribuíram para a discussão em diferentes momentos da mesma, razão pela qual não recebem nome na seguinte análise. Também adaptamos o passo de interpretação formulada, na qual uma divisão temática da gravação é realizada, antes de selecionar passagens a serem enfocadas. O método de Bohnsack (2010) sugere que, a partir dos temas principais identificados na gravação, efetue-se, já nesse passo, a escolha de alguns para serem descritos e formulados nas palavras do pesquisador. No entanto, na presente análise, essa etapa de parafrasear com comentários se estende para todo o transcorrer da discussão. Dessa forma, o pesquisador se apóia na gravação para que, diretamente dessa, seja formulada a descrição de como a discussão transcorreu, tanto no que se refere aos temas abordados quanto ao modo que esses foram tratados. De maneira semelhante ao que sugere Weller (2006), durante esse passo são selecionadas passagens que serão enfocadas em uma análise mais profunda dentro da 156 interpretação reflexiva. Apresentaremos aqui os resultados dessa análise, e não a totalidade de reflexões sobre cada contribuição individual no contexto desses trechos. Essas passagens são transcritas e analisadas cuidadosamente, apoiando-se em uma divisão cuidadosa dos temas e subtemas englobados. Listar a estrutura temática dessas passagens (em nível de tema, subtema e subsubtema) é um passo sugerido por Bohnsack (2010) como detalhamento da interpretação formulada, que se sucede a uma comparação metódica dentro do mesmo caso e com casos diferentes, a fim de relacionar o tema em questão com o tratamento que outros temas tiveram dentro do(s) grupo(s) de discussão. Assim, é possível isolar o enquadramento conjuntivo de orientação do grupo em questão. 5.3. Grupo de discussão masculino no Morro dos Macacos Realizado no início de uma tarde em outubro de 2012 em uma ONG localizada na parte inicial da comunidade, em uma primeira rua subindo da via de acesso principal ao morro, o grupo de discussão contou com a participação de com 5 jovens. O grupo de discussão durou aproximadamente 47 minutos. 5.3.1. Interpretação formulada Os temas discutidos entre os participantes, sugeridos por perguntas dos pesquisadores ou introduzidos pelos próprios participantes, estão listados a seguir em sua ordem cronológica, bem como com a informação do momento inicial de seu surgimento no grupo de discussão, em minutos e segundos. 1. 0:56 TP (Tema principal): Como apresentariam a comunidade 2. 2:15 TP: Lembranças de quando eram crianças 3. 3:08 TP: Torneios de futebol na comunidade (iniciado por participantes) 4. 4:00 TP: Piores lembranças da infância 5. 5:35 TP: Problemas da comunidade 6. 7:40 TP: O que os moradores podem fazer para resolver esses problemas 7. 8:50 TP: Opções de lazer 8. 10:22 TP: Opções de lazer que faltam na comunidade 157 9. 11:50 TP: Insatisfação com Vila Olímpica (iniciado por participantes) 10. 12:50 TP: Lugares onde não se sentem seguros 11. 14:50 TP: UPP/ Insegurança perto da UPP (iniciado por participantes) 12. 17:20 TP: O que os moradores podem fazer para melhorar 13. 19:15 TP: Opções de lazer seguro 14. 19:55 TP: Brigas dentro das casas 15. 25:05 TP: O que fariam diferente quando constituírem família 16. 27:10 TP: Bebida e perda de respeito de familiares 17. 28:13 TP: Mulheres que fazem mais sucesso na comunidade 18. 29:09 TP: Chegada de Cilas e explicação da pesquisa 19. 30:20 TP: Meninas que fazem mais sucesso 20. 30:53 TP: Homens que fazem mais sucesso 21. 31:00 TP: Mulheres que fazem mais sucesso 22. 32:12 TP: Homens que fazem mais sucesso 23. 33:23 TP: Contribuição dos adolescentes nas tarefas domésticas 24. 36:05 TP: Presença de irmãos em casa 25. 36:12 TP: Papel do homem nas tarefas domésticas 26. 38:40 TP: Pessoas mais admiradas pelos participantes 27. 39:12 TP: Perfil do homem que eles querem ser 28. 41:00 TP: Pessoas admiradas na comunidade 29. 44:00 TP: O que fariam diferente quando tiverem uma família A seguir, será apresentada uma breve formulação desses temas. 1. P1 pergunta como apresentariam a comunidade à outra pessoa. Um participante diz que, se fosse para uma pessoa que melhorasse a comunidade, mostraria as coisas ruins do local; se fosse para uma pessoa que estivesse apenas visitando, levaria “só para curtir”, aos pontos que acha legal, como a Vila Olímpica, as partes altas do morro onde há uma vista bonita e aos bares. Outro participante também fala que mostraria a Vila Olímpica e os bares. 2. P1 pergunta sobre as melhores lembranças da infância. Um participante comenta sobre os torneios de futebol, outro sobre soltar pipa. P2 pergunta se hoje algum deles ainda solta pipa e todos respondem que não. P1 pergunta se pararam porque não veem mais graça e eles confirmam. Um dos participantes comenta que um tio foi correr atrás de pipa e caiu de uma laje, e que teve um menino que até morreu, então ele parou. 158 3. P1 pergunta como eram os torneios de futebol. Um dos participantes responde que envolvia a comunidade inteira. P1 pergunta como eram organizados os times e um dos participantes responde, dizendo que era por rua. P1 e P2 perguntam se eles lembram algum acontecimento marcante ou alguma história que tenha acontecido durante os torneios. Os participantes dizem não lembrar. 4. P1 pergunta sobre as piores coisas quando eles eram crianças morando na comunidade. Um participante diz que era a violência. P1 interage, perguntando se houve algum episódio que marcou, e outro participante comenta sobre a fuga do presídio, que foi “um desespero”. Outro participante comenta sobre um dia em que o caveirão estava parado e ele começou a ouvir tiros. Outro fala ainda sobre uma vizinha que levou um tiro na janela, em um dia que o caveirão estava na comunidade, e que foi difícil tirá-la da casa dela e passar pelo tiroteio. 5. P1 pergunta quais os principais problemas da comunidade. Um participante relata que não é só a violência, mas também problemas como esgoto aberto, falta de água e a demora do atendimento da Light quando falta luz. Outro participante comenta que agora a Light está tirando as energias velhas e colocando as novas, e que falta luz quase todo dia. P1 pergunta se os outros participantes concordam, e um diz que sim, relatando que, no dia anterior, havia faltado luz em sua casa durante toda a noite. P1 pergunta se eles enxergam outro problema, além dos já citados. Os participantes comentam que também falta muita água. P1 pergunta se esse problema é pior nas partes mais altas do morro e um participante explica que há vários pontos de água no morro, e que acredita que onde mais falta é o da associação. 6. P1 pergunta o que os participantes acham que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação. Um participante diz que acha que os moradores já fazem a parte deles, porque sabem que, se gastarem muito, pode faltar amanhã. P1 repete a pergunta a outros participantes, e um responde que também acha que os moradores já fazem sua parte, mas que não adianta nada eles fazerem a parte deles se os problemas persistem. Outro participante comenta sobre o governo, que não resolve os problemas. 7. P1 pergunta sobre opções de lazer. Um participante comenta que a Vila Olímpica tem poucas opções de lazer, que deveria haver mais. P2 pergunta se os outros participantes concordam, e eles respondem positivamente. Um participante fala que eles mesmos criam opções de lazer. 159 8. Instigados por P1, os participantes começam a falar sobre como faltam opções de lazer. Segundo um desses, a Vila Olímpica “só foi mais uma ajuda”, mas que não supre o morro inteiro. Ele ainda diz que há outras ONG’s, mas que não dão conta. P1 pergunta se os participantes consideram a falta de opções de lazer um problema e eles respondem que sim. P2 pergunta que outras opções eles sentem falta e que, se existisse, eles fariam. Um participante diz que poderia haver uma biblioteca, que não disponibilizasse apenas livros, mas também oferecesse acesso a computadores. 9. Um participante comenta que a Vila Olímpica é enorme, mas que grande parte é “mato” e não é aproveitada. Diz que também poderia haver um circuito para corrida e espaços para outros esportes, como arco e flecha e tiro ao alvo. P1 pergunta o que um participante acha disso, e ele responde dizendo que, quando falaram que haveria a Vila Olímpica, pensaram que haveria várias atividades. Comenta que demorou anos para o projeto ficar pronto e que, quando chegou, não tinha muitos esportes. P1 pergunta se eles esperavam mais da Vila Olímpica, e eles dizem que sim. P1 pergunta se eles acompanharam o processo de construção e eles falam que sim, ansiosos. P1 pergunta quanto tempo demorou a construção e um participante diz que era para a Vila Olímpica estar pronta em 2007, mas que só foi concluída há pouco tempo. 10. P1 pergunta se há algum lugar ou alguma situação na qual eles não se sentem seguros. Um participante diz que acha que não se sente literalmente seguro em nenhum lugar. Relata que, na escola, ele sabe que está seguro, mas pode entrar alguém e fazer uma besteira. O mesmo acontece na comunidade; está seguro porque está na frente da UPP, mas “vá que aconteça alguma coisa”. P1 pergunta o que os outros participantes acham dessa questão e um deles responde que as pessoas nunca estão seguras, nem mesmo dentro de casa. P1 questiona outro participante sobre o assunto, que diz que só se sente seguro quando está na cama dormindo. Outro participante diz que o morro é enorme, e que algumas vezes está acontecendo tiroteio em um local e as pessoas que moram mais distante, como não sabem, correm o risco de chegar lá e se deparar com um tiroteio. 11. P1 repete a pergunta para outro participante, que diz não se sentir seguro perto da UPP, porque, quando falta luz, há tiros ali. P1 pergunta se eles poderiam falar mais sobre isso, se acontece frequentemente. Os participantes ficam quietos por um momento, como se tivessem medo de falar sobre o assunto. Em seguida, um diz que acontece às vezes, quando falta luz. Um participante diz que é por isso que não eles não se sentem seguros. Outro diz que não é a 160 favor de ninguém, mas que, pela abordagem dos policiais, eles não estão preparados para “serem policiais que tomam conta de várias pessoas”, porque eles abordam de maneira errada. P1 questiona se os outros participantes concordam com essa opinião e eles respondem que sim. Um participante conta um caso de abordagem agressiva por parte dos policiais com um taxista. P1 pergunta se eles acham que a polícia também é um motivo de insegurança e eles dizem que sim, “bastante”. P2 pergunta aos participantes se eles lembram alguma história semelhante de abordagem policial. Um dos participantes diz que não se recorda. 12. P1 pergunta como eles acham que os moradores da comunidade poderiam ajudar a resolver essa situação. Um participante diz que acha difícil melhorar, mas não impossível. Diz que, para melhorar, as pessoas iriam pedir que a polícia saísse. Acredita que deveria haver um acordo para a polícia sair, mas com a garantia de que não voltaria. P1 repete a pergunta para outro entrevistado, que fica em silêncio. 13. P1 pergunta qual sugestão segura de lazer ele teria, e ele responde que não tem. P1 repete a pergunta para os outros participantes, mas nenhum responde. 14. P2 questiona os principais motivos das brigas que acontecem dentro das casas. Um participante diz que acha que as brigas só acontecem por falta de diálogo, pois isso gera desconfiança. Outro participante diz que as pessoas falam alto e não respeitam os outros que estão falando. P2 pergunta se eles veem muitas brigas nas casas. Um dos participantes diz que vê bastante. P2 questiona sobre os principais motivos e um deles fala que é a bebida, que as pessoas chegam alcoolizadas em casa de madrugada e acabam brigando. P2 pergunta se há mais brigas de madrugada e ele diz que não só de madrugada, e comenta que, se um homem trabalha o dia inteiro e quando chega em casa a “patroa” ainda pede para fazer alguma coisa, ele fica bravo, e aí começa a discussão. P1 pergunta se eles acreditam que o alcoolismo é um motivo para brigas e um participante diz que “ajuda”. Outro diz que as pessoas perdem a noção e acabam brigando. P2 pergunta se eles já presenciaram alguma briga dessas em casa ou na rua e eles dizem que, na rua, sim. Um participante comenta sobre uma briga que viu de dois idosos. P2 pergunta qual tipo de briga é mais comum, entre homem e mulher ou adulto e criança e quais as agressões que eles veem. Um deles diz que tem vários tipos e que não vê muito, mas, quando vê, é homem batendo em mulher ou mulher discutindo com homem, em tom de voz bem elevado (risos). P1 pergunta se essas brigas são comuns e eles dizem que sim. 15. P1 pergunta o que os participantes querem fazer de diferente quando constituírem uma família. Um participante diz que quer trabalhar, ganhar bem, pôr os filhos na escola, saber a 161 hora de falar. Ele comenta que outro dia um garoto pisou no pé de um primo seu e ele “mandou tomar em tudo que é lugar”, e que o menino ficou com a boca toda arrebentada. P2 repete a pergunta para os outros participantes. Um deles diz que não sabe, que acha que só vai saber na hora. P1 repete a pergunta para outro participante, que diz que quer que exista muito respeito. 16. P2 questiona se o participante acha que a questão da cerveja interfere nisso e ele diz que acha que esse fator ajuda a “sair do respeito”, pois alguém pode chegar em casa de madrugada e ouvir som alto, sendo que o vizinho precisa acordar cedo no outro dia para trabalhar, o que dá início a uma discussão. P2 questiona se isso acontece muito na comunidade e um participante diz que, onde morava, havia um homem que passava o fim de semana ouvindo som muito alto. 17. P1 pergunta que tipo de mulher faz mais sucesso na comunidade. Um participante não entende a pergunta. P1 pergunta que perfil de mulher faz mais sucesso. Um participante diz que acha que a mulher que faz mais sucesso é a mais diferente de todas. P1 pergunta diferente como, e ele responde dizendo que, se olhar 10 garotas, a maioria vai estar de shortinho, blusinha pra cima do umbigo. Outro participante acrescenta “de sainha”, e ele concorda, completando que, para ele, a melhor mulher, a mais diferente desse padrão, é a que se destaca. 18. Um novo participante chega. Os pesquisadores se identificam e perguntam o seu nome. Ele se identifica como Cilas. P1 explica a conversa, dizendo que ele não é obrigado a responder nada e falando que a pesquisa é sobre crianças e adolescentes no Morro dos Macacos, para saber como eles vivem. P1 diz que o foco da pesquisa é analisar a relação entre violência e infância. P1 explica que agora fica um pouco complicado voltar, mas que ele pode responder as perguntas com o que ele pensa. 19. P2 retoma a conversa, repetindo a pergunta sobre as meninas e mulheres que fazem mais sucesso. O participante que estava falando diz que, aquelas que saem do padrão que descreveu, para ele, são as que fazem sucesso. 20. P2 pergunta quais os homens que fazem mais sucesso com as mulheres. Um participante responde que são os que têm mais dinheiro, causando risos. 21. P1 pergunta novamente quais as mulheres que fazem mais sucesso. Um participante responde que, para ele, quase todas. Outro participante diz que, para ele, é “tudo a mesma coisa”. Um participante diz que concorda com o colega quando diz que são aquelas que 162 fogem do padrão. P1 pergunta se eles acham que esse padrão faz sucesso, mas não com eles. Um participante diz que chega a chamar a atenção. P1 pergunta se elas chamam a atenção, mas não fazem sucesso. Ele responde dizendo que elas não fazem sucesso, que acham que estão fazendo sucesso, e os outros riem. 22. P1 pergunta qual o tipo de homem eles acham que faz mais sucesso, se é o cara que tem dinheiro mesmo. Os participantes não respondem e P2 pergunta qual o estilo desses homens. Um participante responde que são os que andam bem arrumados, de cabelo cortado e com dinheiro no bolso. Os participantes riem e um diz que é dinheiro no bolso, carro e moto. Um participante diz que, fora isso, tem que ter muito papo. P1 inicia um pergunta, dizendo que se o cara que for bom de conversa e tiver um papo legal, e é interrompido por um participante que brinca: “Tipo que nem eu”, causando risos. P2 comenta que não precisa ter dinheiro se tiver um papo bom e um dos participantes diz que o papo compensa. P1 pergunta se o papo compensa dinheiro, e ele diz que um pouco. P2 pergunta se os outros participantes concordam e eles dizem que sim, rindo. P2 pergunta se é preciso ter dinheiro para conquistar as meninas na comunidade. Um deles diz que, a maioria, sim. 23. P1 pergunta, em relação a tarefas domésticas, como arrumar a casa, lavar um prato, ajudar a cuidar de um irmão menor, como os adolescentes ajudam. P2 pergunta o que eles fazem para ajudar. Um dos participantes diz que ajuda, mas é “chato pra caramba” (risos). Diz que tira o lixo, enche a caixa, lava a louça. Outros participantes comentam o assunto entre si. O participante continua falando, dizendo que acorda e arruma a cama e, depois que fica muito tempo no computador, a mãe pede para ele jogar o lixo, lavar o prato... P2 comenta que um participante disse que não ajuda em casa e ele confirma. P1 pergunta se ele não ajuda em nada mesmo, e ele diz que não. P2 pergunta se a mãe dele pede para ele fazer e ele não faz e ele diz que quem faz as coisas é o irmão. P1 pergunta se o irmão é mais velho ou mais novo, e ele diz que é um ano mais novo. P1 pergunta se ele “deixa esse abacaxi na mão dele” e o participante responde que sim, todo o dia (risos). P1 comenta que um participante disse que ajuda a mãe, e ele confirma, dizendo que ajuda a limpar. P1 pergunta se ele tem irmão, e ele confirma. P1 pergunta se ele ajuda a cuidar, e ele responde “mais ou menos” (risos). P1 repete a pergunta para outro participante, que conta que tem duas irmãs e que ele tem que realizar as tarefas da laje, da caixa d’água, da área e do cachorro, além do seu quarto, e que as irmãs cuidam da casa. Um participante comenta brincando que ele tem duas irmãs que fazem tudo para ele, e eles riem. 163 24. P2 pergunta se mais alguém tem irmão pequeno. Um comenta que tem um irmão da mesma idade, e outro que tem uma irmã da mesma idade. 25. P1 comenta que um participante disse que o outro tem duas irmãs em casa e ainda ajuda (o menino interrompe dizendo que “tem que ajudar, pô”) e pergunta como eles veem o papel do homem dentro de casa, se ajuda ou não. Um participante diz que sabe que ele não faz, mas que cada um tem um tipo de vida, de ajuda. Outro diz que, para ele, cada um tem que fazer a sua parte na casa. P2 pergunta se eles acham que é papel do homem ajudar em casa. Um participante diz que acha que tem que ajudar, tanto financeiramente quanto na prática. P1 questiona outro entrevistado, que ri e diz que concorda. P2 pergunta, pelo que os participantes veem, se, em geral, os moradores da comunidade ajudam em casa. Um diz que só os responsáveis, mas os outros não. Faz uma brincadeira com o menino que diz que não ajuda em casa, e eles riem. P1 pergunta se eles acham que os homens que ajudam em casa são admirados pelas mulheres e um participante diz que a maioria não é. Os participantes debatem o assunto e riem. 26. P1 pergunta quais as pessoas que eles mais admiram. Os participantes pensam um pouco, riem. P1 pergunta qual o perfil de homem que eles querem ser. Um dos participantes diz que quer ser engenheiro. P2 pergunta ao participante se tem alguma pessoa na qual ele se espelhe para isso e ele diz que não. P2 pergunta o que o levou a tomar essa decisão de ser engenheiro e ele diz que é porque um engenheiro pode fazer um prédio como quiser e dizer que é uma ideia dele. Outro participante diz que queria ser marinheiro desde que fez um curso no qual a professora passou um filme mostrando o que as pessoas que querem entrar na Marinha precisam fazer. Diz que acha que, para passar por aquela prova, tem que ser homem mesmo, e que o resto é “praticamente moleza”. P2 repete a pergunta aos outros participantes. Um deles responde que não tem o que ele queira ser. 27. P2 pergunta se há alguma pessoa que ele admira, que ele queira ser igual quando crescer, quando tiver filho. Ele diz que não. P1 pergunta se não há ninguém nem na comunidade em quem eles se espelham. Um participante diz que tem o pai dele, que, apesar de não concordar com tudo que ele faz, admira, pois ele cuida de uma casa de 5 pessoas. P1 pergunta para outro participante, que diz que quer ser da aeronáutica. P1 questiona se ele conhece alguém da aeronáutica, e ele diz que conhece um cabo. P1 pergunta se ele é um exemplo, e ele diz que sim. P1 pergunta por quê, e ele responde dizendo que ninguém dava nada por ele, o criticavam, e hoje ele é cabo da aeronáutica. P1 pergunta por que ele virou um exemplo, se ele 164 ganhou respeito por ter se tornado alguém na vida, e o participante concorda. P1 pergunta o que mudou depois que ele se tornou cabo da aeronáutica, e ele responde que, antes, as pessoas diziam que ele era “nego burro”, e que agora ele é tratado com mais respeito e ninguém fala nada. P2 pergunta se ele tem essa pessoa como exemplo de vida e ele concorda. 28. P1 questiona se eles têm mais alguém da comunidade para citar como exemplo de vida. Ninguém responde. P2 comenta que pode ser homem, mulher, idoso. P1 diz que pode ser da própria família. Os meninos permanecem em silêncio. P1 pergunta “ninguém?”, e um dos participantes responde que há o Trambique, mas não sabe se ele ainda mora na comunidade, que dava aula de percussão. Diz que ele já tocou com Mart’nália, várias pessoas importantes. Conta que ele começou a dar aula com latas. P2 pergunta se há mais alguém que eles considerem exemplo de vida. Um participante diz que, para ele, não. Os outros ficam em silêncio. P1 questiona mais uma vez. P2 cita “o pai, a mãe...”. Ninguém responde. 29. P1 pergunta, se eles não consideram as pessoas mais próximas, como as da família, como exemplos, o que eles gostariam de fazer diferente quando tiverem a própria família. Um dos participantes diz que, por ele, é passar o máximo de tempo com a família, com os filhos, porque o seu pai é um perdido da vida. Diz que o pai se separou da mãe dele e que nem a família sabe onde ele está. Diz que ele não dá notícia e que não se sabe nem se ele ainda está vivo. Conta que, quando se mudou para a comunidade, nunca mais viu o pai. Repete que gostaria de passar o máximo de tempo com a família, marcar sempre um dia para saírem todos juntos. P1 repete a pergunta para outro participante, que diz que vai querer dar mais atenção aos filhos, sair todos os fins de semana. Outro participante diz que também seria um pai presente. Conta que a mãe também é separada e ele e a irmã ficam sozinhos. Diz que agora ele tem um padrasto, que considera pai. Conta que os pais se separaram quando a mãe tinha 16 anos e ele estava em sua barriga. Conta que o pai nunca o procurou nem deu nada, mas que o padrasto dá tudo o que ele quer, dá carinho, brinca. P1 pergunta se os participantes têm mais alguma coisa para colocar. Eles não respondem. P2 pergunta se eles dariam mais atenção, se eles acham que falta atenção dos pais deles. Um participante diz que seria mais presente. Outro diz que sua mãe é presente, “mas às vezes fica muito nesse negócio, procurando emprego”, mas que sai com os filhos sempre que pode, brinca. Os pesquisadores agradecem os participantes e encerram a entrevista. 165 5.3.2. Interpretação reflexiva Condizente com o interesse da pesquisa, os trechos selecionados para uma análise mais aprofundada são aqueles em que o grande interesse dos participantes se reflete na intensidade da discussão. Esses trechos dizem respeito ao ambiente inseguro da comunidade, destacando as deficiências da infraestrutura local e as poucas opções de lazer. Em um segundo momento, será aprofundado o discurso sobre as relações familiares. 5.3.2.1. Violência banalizada e desamparo institucional Um primeiro tema que os participantes tratam em mais detalhes se refere a lembranças ruins na infância, discutido com os seguintes subtemas: 4. 4:00 Piores lembranças da infância 4.1. Violência; 4.2. Episódios inesperados de violência na comunidade: tiroteio, fuga dos presidiários, ataques repentinos com “caveirão”; 4.3. Explosão do “caveirão” e vizinha atingida por balas por sair na janela. Perguntados pelo pesquisador, um participante rapidamente responde que a pior coisa da sua infância foi a violência. Depois dele, outro conta a história de quando estava jogando bola com outros meninos quando houve uma fuga de uma cadeia nas proximidades da favela, comentando que “foi o maior desespero”, que “ficou com medo deles pegarem um refém”. Continuando em histórias de alto teor emocional, outro participante relata “o pior”, quando estava na rua, perto de um veículo do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), apelidado de Caveirão, que estava parado, quando de lá começaram sair tiros: “o Caveirão tava mandando tiro e eles só devolvendo e da árvore só caia plantas em cima da gente”. Nessa fala, “eles” se refere, provavelmente, aos traficantes. Esses relatos espontâneos sobre situações de grande violência na favela mostra a proeminência do aspecto de convivência com a criminalidade e risco de vida para os participantes. É um dado que eles introduzem no começo da entrevista e, claramente, se trata de um consenso entre os participantes. No entanto, ao longo da entrevista, essa posição de moradores vitimizados ou, ao menos, ameaçados pela constante possibilidade de violência 166 será relativizada, de uma forma que indica que os participantes da discussão em grupo negam que essa característica seja a máxima definição de suas experiências na comunidade. O próximo tema já traz uma interessante relativização, como veremos a seguir. No que se refere aos temas 5 e 6, argumentos interligados são apresentados, com a seguinte estrutura temática: 5. 5:35 Problemas da comunidade 5.1. Proposição de P1: violência como principal problema da comunidade; 5.2. Contra-proposição de participante: infraestrutura deficiente tão problemática como violência; 5.3. Detalhamento de problemas com energia elétrica, falta de água, esgoto a céu aberto; 6. 7:40 O que os moradores podem fazer para resolver esses problemas 6.1. Moradores já fazem o que podem, economizam água e energia elétrica, têm consciência de que a provisão dos serviços è irregular e sabem lidar com faltas; 6.2. Moradores não podem fazer nada se o governo não cumpre com sua função. Após o tema das piores lembranças da infância, o pesquisador indaga os participantes se a violência relatada seria o principal problema da comunidade. Os participantes contradizem essa proposição veementemente: a falta de infraestrutura, apesar de menos dramática, seria o que mais prejudica suas rotinas na comunidade, e não os ocasionais rompantes de violência. Os participantes parecem concordar entre si e se revezam em relatar as dificuldades causadas pela falta de luz, água e esgoto encanado. A mudança trazida pela introdução da provisão regulada (e paga) de energia elétrica pela companhia Light é detalhada, por exemplo, por um participante: “agora que a Light tá trocando tirando a energia velha e colocando as novas ai falta direto - nessa parte aqui mesmo tá quase todo dia desligando queimando os aparelhos” e ainda acrescenta as demoras quando a manutenção dessa empresa é solicitada. Após vários relatos, os participantes são perguntados se há algo que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação, a que respondem que eles já fazem sua parte: não confiar que a provisão desses serviços seja algo constante, economizando os recursos. Completam que essa provisão de serviços é obrigação do governo, que é negligente em fornecer condições adequadas de infraestrutura para a comunidade. Dessa maneira, os participantes destacam a dificuldade diária associada à vida em uma favela. Nesse discurso, essas limitações os impedem de grandes mudanças em suas vidas, enquanto a 167 violência seria um problema menos estrutural, eventos esporádicos, mesmo que possivelmente fatais. Outro tema que pode ser compreendido em maior detalhe através de uma passagem especialmente animada do grupo de discussão é o trecho que se refere à ausência de opções de recreação na comunidade: 8. 10:22 TP: Opções de lazer que faltam na comunidade 8.1. Moradores da comunidade se adaptam a falta de opções de lazer, mas ONGs e Vila Olímpica não suprem necessidades; 8.2. Falta de uma biblioteca com computadores e oportunidade para praticar mais esportes na Vila Olímpica. 9. 11:50 Insatisfação com Vila Olímpica 9.1. Expectativa de que a Vila Olímpica teria grande variedade de opções de esporte; 9.2. Informações inexatas sobre a construção da Vila Olímpica; 9.3. Demora de anos para finalização do espaço. Continuando no tema das deficiências de infraestrutura locais, os participantes detalham a frustração com as opções de lazer, especialmente com a Vila Olímpica, local que foi alvo de grande expectativa para os jovens locais. Segundo os participantes, “apenas 30% é aproveitado” de uma área enorme, onde apenas poucas atividades são oferecidas. Uma maior variedade de modalidades esportivas era a expectativa: “Quanto eles falaram, vão fazer a Vila Olímpica, a gente pensou, vai ter vários esportes, ai demorou anos e quando veio tem futebol”. Para um participante, a construção demorou demasiado: segundo ele, a data de término da construção estava prevista para 2007, mas apenas teria ocorrido recentemente. Nessa passagem do discurso, mais uma vez se torna claro que os participantes se veem como alvo de descaso institucional, sem boas condições institucionais para seu desenvolvimento pessoal. A figura de jovens marginalizados e excluídos vai, dessa maneira, se delineando aos poucos em seu discurso, tendo como base uma frustração recorrente com a provisão de serviços e oportunidades, que perpassa vários temas. Esse tema se estende e modifica ao passarem para o âmbito da segurança na comunidade, que combina mais uma vez a perspectiva de carência institucional com uma caracterização quase fatalista da violência na comunidade: 168 10. 12:50 Lugares onde não se sentem seguros 10.1. Sensação constante de insegurança, mesmo na escola, que objetivamente é um lugar seguro, mas onde já houve casos de violência; 10.2. Importância de estar sempre alerta na comunidade, observando o entorno e não confiar demais de que se esteja seguro; 10.3. Segurança apenas dentro de casa, dormindo na cama, mas mesmo assim possibilidade constante de tiroteios; 10.4. Imprevisibilidade de tiroteios e riscos de se deparar com um em diferentes partes do morro quando se anda por lá. 11. 14:50 UPP/ Insegurança perto da UPP 11.1. Tiros são dados perto da UPP quando acaba a luz; 11.2. Taxista abordado muito duramente por policiais, injustamente já que estava voltando do trabalho, sem que isso o tenha intimidado; 11.3. Despreparo dos policiais para lidar com comunidade e retaliações/ataques contra UPP em outras comunidades. Um tema que gera várias participações e grande concordância entre os participantes se refere ao seu sentimento de segurança ou insegurança na comunidade. Uma primeira contribuição destaca que “em todo lugar eu não me sinto literalmente seguro. Pra mim confiar que um lugar é seguro num lugar eu tenho que estar lá frequentemente, que nem a escola na escola eu sei que estou seguro mas pode entrar alguém lá e fazer alguma besteira”. Esse participante continua com o exemplo de alguém que pensaria estar seguro por estar ”frente à UPP, vai que acontece alguma coisa ai então eu nunca posso me sentir seguro, sempre tem que tá alerta se acontecer alguma coisa estranha assim, já sair de perto, aqui tem que estar sempre vigiando aqui”. Outros participantes reforçam essa posição, confirmando que eles devem ficar alerta, pois “a gente nunca tá seguro, até porque pode estar dentro de casa e não estar bem seguro”. A seguir, o tema passa para a atuação da UPP na comunidade, trazido por um participante que aponta o local onde se instalaram como um de insegurança na comunidade, dizendo que eles dão tiro lá quando falta luz de noite. Mesmo inibidos para falar sobre o tema, alguns relatos confirmam que a UPP, como outros serviços estatais, não supre as necessidades de segurança e, por vezes, comete agressões injustificadas aos moradores por “abordar de modo errado”, o que seria causado pelos policiais “não estarem preparados” para atuar numa comunidade. 169 5.3.2.2. Os conflitos familiares são muito presentes na vida dos jovens e envolvem violência, negligência e sentimentos de abandono. Dois últimos trechos do grupo de discussão podem ser destacados como fundamentais para a compreensão do enquadramento conjuntivo de orientação. Entrando no tema das relações familiares, o tema 14 enfoca conflitos entre familiares, seguindo a estrutura temática a seguir: 14. 19:55 Brigas dentro das casas 14.1. Brigas por falta de conversa, o que gera desconfiança e conflito; 14.2. Brigas causadas por maneira errada de conversar: falar alto, não respeitar a hora de outro falar; 14.3. Violência em brigas entre casais; 14.4. Contribuição do álcool para problemas domésticos; 14.5. Cobranças das mulheres aos maridos trabalhadores e consequentes brigas; 14.6. Discussões mais acaloradas por causa do álcool; 14.7. Frequência de brigas nas ruas, principalmente entre homem e mulher. O pesquisador questiona os participantes a respeito dos principais motivos das brigas que acontecem dentro das casas e a primeira opinião é a de que as brigas só acontecem por falta de diálogo, pois isso gera desconfiança entre as pessoas. Outro participante diz que as pessoas falam alto e não respeitam os outros que estão falando. Um dos participantes diz que vê muitas brigas nas casas e o pesquisador questiona sobre os principais motivos para que isto acorra. A resposta de um deles é de que a bebida seria grande responsável, já que as pessoas chegariam alcoolizadas em casa de madrugada, ocasionando brigas. Diz ainda que isso não ocorreria só de madrugada, e comenta que, se um homem trabalha o dia inteiro e quando chega em casa a “patroa” ainda pede para fazer alguma coisa, ele fica bravo, e aí começa a discussão. O pesquisador pergunta se eles acreditam que o alcoolismo é um motivo para brigas e um participante diz que “ajuda”. Outro diz que as pessoas perdem a noção e acabam brigando. Algumas passagens referentes a este subtema são: “Começa a beber, não fala nada, ai quando tá doidão fala várias coisas, tudo que eles acham, ai o outro tá na mesma coisa, ai caem na porrada”, e “Quando um tá bebendo e o outro não tá, e o que tá bebendo xinga ele, ai o outro vai lá e parte pra agressão”. Em uma primeira leitura superficial deste trecho, somos levados a pensar que existe nele um apanhado de relatos externos as experiências dos 170 participantes, porém, após uma análise mais atenciosa às formas de discurso e grau de detalhamento deste, percebemos uma maior densidade e conexão emocional/experiencial entre o conteúdo e os narradores. É destaque a questão do alcoolismo, cujo grau de detalhamento alcança um grau inegável, levando-nos a acreditar que seja um relato de experiência própria do narrador. Ainda que os questionamentos seguintes do pesquisador tenham direcionado a discussão a um imediato distanciamento destes relatos mais densos, a hipótese que mais parece evidente é a de que os meninos chegariam a uma narrativa em primeira pessoa e a relatos de situações com pessoas de seu núcleo familiar ou muito próximas a eles. O tema 29 vem a complementar a ideia de que esta apresentação aconteceu como forma dos participantes manterem-se anônimos, mas ainda assim expressarem sua experiência com a violência e situações de conflito doméstico: 29. 44:00 O que fariam diferente quando tiverem uma família 29.1. Ausência do pai da vida de filhos e da vida da família de origem, abandono na infância, intenção de não repetir esse comportamento; 29.2. Vontade de ser um pai que passa tempo, passeia com os filhos; 29.3. Peso da criação dos filhos desproporcionalmente com as mães, ajuda de padrasto; 29.4. Esforço das mães em serem participantes das vidas dos filhos e suas restrições de tempo/paciência. Mais uma vez o tema das relações familiares é introduzido e os participantes respondem a ele com um grau significativo de detalhamento e conexão emocional e experiencial ao conteúdo apresentado. Quando o pesquisador pergunta aos participantes o que eles gostariam de fazer diferente quando tiverem sua própria família, um deles diz que, por ele, é passar o máximo de tempo com a família, com os filhos, porque o seu pai é um perdido da vida. Diz que o pai se separou da mãe dele e que nem a família sabe onde ele está. Diz que ele não dá notícia e que não se sabe nem se ele ainda está vivo. Conta que, quando se mudou para a comunidade, nunca mais viu o pai. Repete que gostaria de passar o máximo de tempo com a família, marcar sempre um dia para saírem todos juntos. O pesquisador repete a pergunta para outro participante, que diz que vai querer dar mais atenção aos filhos, sair todos os fins de semana. Outro participante diz que também seria um pai presente. Conta que a mãe também é separada e ele e a irmã ficam sozinhos. Diz que agora ele tem um padrasto, que 171 considera pai. Conta que os pais se separaram quando a mãe tinha 16 anos e ele estava em sua barriga. Conta que o pai nunca o procurou nem deu nada, mas que o padrasto dá tudo o que ele quer, dá carinho, brinca. O pesquisador pergunta se os participantes têm mais alguma coisa para colocar. Eles não respondem e o pesquisador pergunta se eles dariam mais atenção, se eles acham que falta atenção dos pais deles. Um participante diz que seria mais presente. Outro diz que sua mãe é presente, “mas às vezes fica muito nesse negócio, procurando emprego”, mas que sai com os filhos sempre que pode, brinca. 5.3.3. Considerações finais Dois campos temáticos principais parecem ficar mais evidenciados à medida que buscamos uma análise mais profunda dos temas desenvolvidos no grupo de discussão. O primeiro campo temático diz respeito à violência na comunidade, seja oriunda do tráfico ou da polícia, e do sentimento de desamparo e descaso nas instâncias institucionais que deveriam fornecer melhores condições estruturais e, consequentemente, melhor qualidade de vida às pessoas na comunidade. O segundo campo temático tem relação com a violência doméstica e os conflitos familiares presenciados e vividos pelos jovens. Ainda que, em um primeiro momento, estes dois campos pareçam não possuir ligação para o enquadramento conjuntivo de orientação, um olhar atento nos revela que existe, imanente aos temas apresentados, um pano de fundo similar. Se no primeiro campo as argumentações revelam uma insatisfação dos participantes com a infraestrutura precária como parte integrante de sua rotina, a violência é apresentada neste mesmo trecho como momentos isolados, que não perturbariam de forma constante a organização cotidiana da comunidade. Ou seja, a violência é colocada como segundo plano e tem sua possível fatalidade diminuída e afastada de um discurso mais conectado a experiências de importância emocional para os meninos. Para eles, a violência não é algo que possa ser totalmente contornado ou evitado e, portanto, o incômodo que ela causa deve ser deslocado para instâncias estruturais, que deveriam dar suporte e serem confiáveis, mas não o são. O mesmo tipo de mecanismo parece acontecer quando os participantes são convidados a falar sobre as situações de violência doméstica, já que parecem fazer relatos descolados de sua experiência como forma de, mais uma vez, não precisarem admitir que sofrem e vivenciam isso. Esta hipótese se mostra plausível quando os participantes são chamados a falar sobre o que gostariam que fosse diferente quando tiverem suas próprias famílias, trazendo a tona um conteúdo mais pessoal e emocional, onde 172 demonstram que as relações familiares são permeadas de sentimentos de insegurança. Por fim, vale destacar que parece existir certa forma de banalização das situações de violência tanto familiares quanto na comunidade como forma de racionalização dos sentimentos de fragilidade e impotência diante destes fatos. A negligência de instituições pode ser contornada e traz problemas pragmáticos, a violência na comunidade e na família têm conteúdo e consequência emocional intensos, difíceis de serem modificados. 5.4. Grupo de discussão feminino no Morro dos Macacos Realizado no início de tarde de outubro de 2012 em uma ONG localizada na parte inicial da comunidade, em uma primeira rua subindo a via de acesso principal ao morro, o grupo de discussão contou com participação de 6 jovens, uma delas chegada no meio da discussão. Duas delas tinham 12 anos, outras duas 14, uma 16 e outra 17 anos. O grupo de discussão durou uma hora e foi marcado pelas participações frequentes de todas as meninas, mesmo que um pouco menos da participante chegada após o inicio da discussão. Além de contribuírem com muitas narrações sobre os temas sugeridos, as meninas também conversavam entre si, principalmente sobre temas referentes ao que estava sendo discutido em grupo e sobre conhecimentos mútuos, o que dificultou o entendimento da gravação. 5.4.1. Interpretação formulada Os temas discutidos entre as participantes foram os seguintes: 1. 1:54 TP: Como apresentariam a comunidade 2. 3:51 TP: Onde as participantes moram e onde se conheceram 3. 5:45 TP: Piores lembranças de quando eram crianças e onde moravam 4. 6:45 TP: Lembranças da infância 5. 8:03 TP: Piores lembranças da infância e experiências negativas na comunidade 6. 14:03 TP: O que elas gostam de fazer, brincar na comunidade 7. 15:57 TP: Conhecidos mútuos entre as meninas, de onde elas se conhecem e em que escola estudam (iniciado por participantes) 8. 17:47 TP: Lugares na comunidade onde não gostam de ir, que são perigosos 173 9. 19:22 TP: O que poderia ser melhorado na comunidade 10. 20:08 TP: Problemas que meninos enfrentam com a polícia na comunidade (iniciado por participantes) 11. 21:20 TP: Invasões de casas por policiais e ladrões, acontecimentos quando o BOPE entrou no ao morro (iniciado por participantes) 12. 25:38 TP: O que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação 13. 27:20 TP: Abordagens por policiais (iniciado por participantes) 14. 28:19 TP: Com quem moram em casa, se têm irmãos 15. 31:05 TP: Chegada da participante Alexia, pergunta com quem moram em casa, se tem crianças pequenas nas famílias e sobre o que aprendem no Dom Pixote e na Casa das Artes 16. 35:00 TP: Se ajudam no serviço de casa 17. 36:20 TP: Se pais e irmãos ajudam com o serviço de casa 18. 37:52 TP: Se as mães trabalham fora 19. 39:46 TP: Brigas em casa e restrições da família para sair de casa 20. 43:21 TP: Brigas nas famílias na comunidade 21. 43:58 TP: O que fariam diferente quando tiverem família 22. 44:50 TP: Restrições das mães sobre saídas e namoros (iniciado por participantes) 23. 49:25 TP: Onde vão quando saem, se tem festas na comunidade, bailes na comunidade e na “favela” 24. 52:06 TP: Tipos de homens que fazem mais sucesso com as mulheres na comunidade 25. 55:33 TP: Exemplos de vida na comunidade A seguir, uma breve formulação desses temas será apresentada. 1. P1 se identifica e pede para que as meninas se apresentem e explica que estão fazendo uma pesquisa na comunidade sobre família e infância. P2 também se apresenta às participantes. Depois que as meninas se apresentam, P1 pergunta como elas apresentariam a comunidade para alguém de fora. Uma participante diz que no momento a comunidade é boa. Uma das participantes diz que mostraria tudo. Outra diz que levaria essa pessoa ao Cruzeiro e ao parque. Elas mencionam que o parque, ou Vila Olímpica, é grande e tem várias atividades, como natação. P2 pergunta o que é o Cruzeiro e uma menina responde que é a maior parte do morro, a mais alta, onde tem uma cruz. P1 repete a pergunta. Uma participante diz que falaria dos pontos turísticos. P2 pergunta quais são os pontos turísticos e ela responde citando o 174 Corcovado, o Cristo Redentor e as praias de Copacabana e Ipanema. P2 pergunta o que elas diriam se alguém perguntasse como é o local onde moram, e nenhuma menina responde. 2. P2 pergunta onde elas moram, se moram perto, e as meninas contam em que parte do morro elas moram. As meninas explicam que tem vários pedaços da comunidade com nomes diferentes, como Ladeira, Pedreira, e que o morro é muito grande. P1 pergunta como as meninas se conheceram, se foi na Casa da Arte, e elas confirmam. P1 pergunta se todas se conhecem, e uma das meninas mostra quais ela já conhecia. 3. P1 pergunta quais as piores lembranças que as participantes têm de quando eram crianças na comunidade. Algumas meninas dizem que não morava na comunidade quando criança. P1 pergunta onde elas moravam e elas respondem. P2 pergunta há quanto tempo elas moram ali perto. Uma participante diz que mora há um ano, outra diz que sempre morou ali. 4. P2 pergunta, independentemente de onde elas moravam, quais lembranças elas têm da infância. Uma menina diz que a comunidade está melhorando, desde que era criança, antes eles tinham que fazer “gato” para ter eletricidade, agora estão botando luz. P1 pergunta do que elas gostavam de brincar quando eram crianças. Uma participante diz que gostava de brincar de tudo. P2 pergunta se o lugar onde as meninas moravam era tranquilo e elas podiam brincar na rua. Uma participante responde que não, pois havia muitos bandidos. Outra participante diz que tinha tiro toda hora. 5. Perguntadas sobre as piores lembranças da infância, as participantes contam sobre acidentes que se deram, provavelmente, devido à infraestrutura deficiente da comunidade e de outras comunidades onde moravam, como incêndios. Quanto à violência, as meninas contam sobre os avisos dados pelos traficantes quando haveria alguma ação e sobre casos em que a comunidade se vingou coletivamente de criminosos que abusavam de crianças. Nesses relatos, parece haver previsibilidade da violência. A menina que conta umas das histórias sobre a punição de homem que abusava de crianças traz detalhes da história e diz ter estado presente com sua família, já que a menina abusada era sua prima. 6. P1 pergunta o que as meninas gostam de fazer na comunidade, do que gostam de brincar, e comenta que algumas não brincam mais. Uma menina diz que não brinca mais. Elas comentam que gostam de ir ao “shoppinho”. P2 pergunta para uma menina que sempre morou no morro o que ela faz com os amigos e ela diz que não gosta de ficar no morro. P2 pergunta para onde ela vai e ela responde que vai para uma localidade onde os amigos moram, em 175 festas. P2 pergunta se a mãe dela deixa e ela diz que sim, porque a mãe confia nela. P2 questiona se ela vai sozinha e ela diz que não, que vai com os amigos, às vezes com os primos. P2 pergunta de quais lugares as meninas gostam na comunidade. Uma menina diz que sai na comunidade com os amigos e comenta sobre eles, dizendo que também são da comunidade. 7. As meninas comentam sobre os amigos e conhecidos, e se dão conta que tem amigos em comum, o que não sabiam, pois estudam em escolas diferentes. 8. P2 pergunta se há algum lugar na comunidade no qual as meninas não se sentem seguras. Um participante fala que não gosta de ir no Cruzeiro, pois é muito difícil de chegar, pois é a parte mais alta do morro. Uma menina diz que vai em qualquer lugar. P2 pergunta se não há nenhum lugar no qual elas têm medo de andar. Duas meninas dizem ter medo de andar no Lote e P1 pergunta onde fica esse lugar. As meninas falam que é lá atrás, perto do morro. 9. P2 pergunta se as participantes acham que há alguma coisa que poderia ser melhorada na comunidade. Uma menina responde que, para ela, não precisa melhorar nada. P2 repete a pergunta para as outras participantes e comenta que uma delas havia falado que a questão da eletricidade já melhorou bastante. A menina comenta que agora é preciso pagar a luz. P2 pergunta novamente se há mais coisas que poderiam ser melhoradas. Uma participante fala de que garotos quando ficam na rua até tarde até apanham. 10. Uma menina comenta que, às vezes, os meninos da comunidade apanham. Outra participante comenta, rindo, que um amigo dela apanhou quando estava voltando pra casa de madrugada, o Ronildo, e a outra comenta que ele é seu cunhado. A menina continua contando a história, dizendo que ela estava jogando Play II à 1h da manhã e estava voltando da casa da namorada dele e “os caras pararam ele”. Ela conta que ele começou a discutir e apanhou. A outra menina diz que o Ronildo é namorado de sua irmã, que também está participando da entrevista. As meninas começam a conversar sobre o tema. 11. As participantes relatam com detalhes a fase em que o BOPE estava na comunidade à procura de bandidos. Uma participante conta que sua casa foi invadida cinco vezes, já que havia suspeita quanto a seus irmãos, e que na realidade havia bandidos na casa vizinha, que acabou sendo sitiada pelo BOPE. Outros relatos se referem ao caveirão e a abusos verbais dos policiais. 176 12. Perguntadas sobre o que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação, as participantes ressaltam a falta de possibilidades para protestar. Voltando a falar sobre os abusos de policiais, as participantes tematizam as revistas de moradores feitas por policiais da UPP, a que também estão sujeitas. A injustiça de algumas práticas, como policiais homens tentarem revistar meninas e tratarem meninos como bandidos, mesmo que claramente não o sejam, é ressaltada. 13. Uma menina comenta que o seu irmão está no quartel agora e que os policiais não o revistam porque ele mostra a carteirinha. Outra participante diz que seu irmão recebeu da UPP a ordem de deitar no chão, ele deitou e começaram a assustá-lo. 14. P2 pergunta às participantes como é dentro da casa das participantes, com quem elas moram. Uma menina diz que mora com o pai, a mãe, a irmã e o irmão, e depois corrige, dizendo que o irmão agora mora com a mulher dele, que está grávida. Ela ainda destaca: “14 anos e grávida”. P1 faz uma pergunta a ela e ela diz que o primeiro filho é da sua irmã, uma mulher solteira, que mora em frente à casa dela. Repete que seu irmão vai ser pai e que agora vive na casa da mulher. P2 pergunta se ela tem mais irmãos e ela diz que sim e cita os nomes. P2 repete a pergunta para as outras participantes. P1 pergunta para uma menina se ela tem irmãos e ela diz que tem irmã e irmão. P2 pergunta se são mais velhos ou mais novos, e ela diz que, “de pai”, é a filha do meio. Conta que tem duas irmãs, que já têm filhos, por parte de mãe. P2 pergunta com quem a menina vive e ela diz ser com a mãe e as duas irmãs. P2 pergunta para outra participante se ela tem irmão e ela responde que tem três irmãos e três irmãs. P2 pergunta se ela é a mais velha, e ela diz que não, mas que é a mais velha das meninas. P2 pergunta se mora todo mundo junto e ela diz que apenas uma irmã, de 14 anos, que não vive com elas. P2 pergunta se ela não está mais com elas, e a menina diz que ela foi morar com o namorado. P2 pergunta se os irmãos moram todos e em seguida comenta que um está no quartel, conforme a participante já havia comentado. A menina comenta que outro também vai embora para morar com a mulher. P2 pergunta se ela está grávida também, e a menina diz que não, que “já ganhou”. 15. Uma nova participante chega e é apresentada às meninas. P2 se apresenta, diz que elas estavam falando sobre a comunidade e pede para as outras participantes falarem seus nomes. P2 pergunta e as meninas respondem sobre com quem moram em casa, se tem crianças pequenas nas famílias. P2 e as meninas conversam sobre o que aprendem no Dom Pixote e na 177 Casa das Artes, e o que as meninas mais gostam das atividades que fazem lá, ao que uma menina responde dança. 16. Uma pergunta que traz muitas participações se refere às tarefas que as participantes assumem nas casas onde moram. Segundo as participantes, elas assumiriam a maioria das tarefas domésticas, especialmente no caso das mães trabalharem fora. Algumas ressaltam que, apesar disso, recebem críticas das mães quanto à arrumação que dão às casas e a comida que preparam. 17. Em continuação ao tema anterior, as participantes são instigadas a contar se os seus pais ou irmãos contribuem para as tarefas domésticas. Muitos relatos afloram sobre a pouca participação dos irmãos nesses afazeres, enquanto os pais parecem estar no geral ausentes ou não serem alvo das críticas das meninas. Algumas relatam como crianças menores são mais inclinadas a ajudarem em casa, mas não depois que crescem. 18. Em relação ao tema anterior, as participantes são perguntadas se suas mães trabalham fora, a que várias respondem com relatos das rotinas cansativas das mães. Mais uma vez o tema da ajuda recebida das mães e dos irmãos nos afazeres de casa é abordado, com conteúdo semelhante ao discutido anteriormente. 19. P2 pergunta se há muitas brigas em casa, com os pais e os irmãos e as participantes respondem que brigam com os irmãos às vezes. Algumas participantes contam como seria impossível para elas brigarem com suas mães, além de relatarem as causas mais comuns de brigas com seus irmãos. 20. P1 pergunta se há muitas brigas nas famílias da comunidade, se elas ouvem falar. Uma menina diz que não há muitas brigas. Ela continua falando de sua família, falando que gosta de todo mundo menos de sua irmã e P2 pergunta para uma participante se a mãe dela é tranquila, e ela diz que sim. 21. P1 pergunta para as participantes o que elas gostariam de fazer diferente das suas casas quando tiverem constituírem família. Uma menina diz que vai fazer totalmente diferente que sua mãe e sua família. Outra diz que acha que vai mudar tudo. As meninas ficam em silêncio e P1 pergunta se elas já pensam sobre isso ou ainda não. Uma menina diz que não pensa. Uma diz que já pensa e que não vai fazer como sua mãe não. Uma outra diz que também já conversa sobre isso com sua mãe e diz que faria diferente dela. P2 pergunta se vão deixar “soltos” (os filhos) e algumas participantes dizem que “não, solto também não”, entre risos. 178 22. A idade para namorar é um tema trazido pelas participantes no tema sobre repetirem ou modificarem o estilo de criação que receberam quando forem mães. A maioria comenta que suas mães impõem restrições sobre quando as meninas poderiam começar a namorar, em geral em torno dos 13 ou 14 anos, mas que seriam flexíveis e mudariam de opinião. Algumas deixam entender que burlam as restrições colocadas pelas mães ou as cumprem pela metade. Algumas mães são retratadas como não razoáveis ao proibirem demais, o que as meninas arrazoam que seria pior, pois causaria que as filhas se rebelassem. Uma participante traz o exemplo da mudança de atitude de sua mãe, que ficou mais flexível depois que ela própria começou a namorar. 23. P2 pergunta se, quando as meninas saem, ficam na comunidade ou vão a outros lugares. Uma menina comenta que todo sábado tem festa. Outra participante comenta que há matinês. As meninas conversam entre si sobre os bailes que acontecem nas favelas. As meninas comentam sobre o baile funk, que vai voltar, P1 pergunta se foi proibido. As meninas comentam que teve na “favela”, que é um espaço vazio dentro do morro. Uma menina comenta que vai para a Lapa. P2 comenta com a participante que ela “anda mesmo”, e ela confirma, dizendo que sai mais com seu primo. 24. Sobre os homens que fazem mais sucesso na comunidade, as participantes interagem vivamente e discutem os atributos de garotos famosos na comunidade por sua beleza e atitude. Esses garotos, segundo elas, se destacam por serem bonitos e sociáveis, irem a todas as festas. Ao mesmo tempo, algumas expressam que os meninos populares seriam promíscuos e que muitos homens na comunidade seriam agressivos. Algumas participantes relatam como algumas mulheres continuam em relacionamentos com homens que as agridem. 25. Quando perguntadas sobre exemplos de vida na comunidade ou em suas famílias, as participantes se manifestam vivamente e ao mesmo tempo, a maioria delas citando suas mães. Uma menina cita pai e mãe como exemplos de vida e pessoas por quem morreria, enquanto as outras replicam que seus pais não servem de exemplo. Histórias de adversidade enfrentadas pelas mães são apresentadas para justificar que sejam exemplo, mesmo que transpareça que as participantes não necessariamente tenham um bom relacionamento com as mães. A polarização entre algumas participantes e aquela que defende o exemplo de seu pai, um homem que tentaria, sem sucesso, agradar sua mãe, continua, com a maioria das meninas dizendo que seus pais não lhes dão nada. Algumas relativizam que o relacionamento com os 179 pais piorou ao deixarem a infância. Mais exemplos de mãe e parentes próximos, como avós, são mencionados. 5.4.2. Interpretação reflexiva 5.4.2.1. Vida na comunidade sob a sombra do abuso institucional e violência de homens O primeiro trecho referente a esse tema, de número 5, se encontra no começo do grupo de discussão, referente a pergunta trazida pelas pesquisadoras: 5. 8:03 Piores lembranças da infância e experiências negativas na comunidade 5.1. Incêndios em casa; 5.2. Avisos de traficantes e possibilidade de se proteger de violência relativa ao tráfico; 5.3. Linchamentos na comunidade; 5.4. Violência cometida por policiais; 5.5. Situação atual da comunidade melhor; 5.6. Represália de moradores contra casos de abuso de crianças; P2 pergunta qual a pior lembrança da infância, uma menina conta de um incêndio que houve quando a sua avó estava cozinhando. Outra conta o caso de uma casa que pegou fogo quando não havia ninguém no local. P2 pergunta o que aconteceu e ela diz que a casa ficou toda preta, que queimou tudo. P2 pergunta se havia problemas nas ruas dos locais onde moravam, se era perigoso. Uma participante diz que, no local onde ela morava, os traficantes avisavam quando ia ter alguma ação, soltando fogos, e os moradores ficavam dentro de casa. Uma menina diz que uma vez mataram um homem perto da casa onde morava. P2 pergunta se a menina viu isso e ela conta que viu o homem. Outra menina interrompe dizendo que ela já viu um homem apanhando de policiais, que botaram um saco na cabeça dele. P2 pergunta se elas já viram alguma coisa na comunidade, ou se onde elas vivem agora é mais tranquilo. Uma menina diz que agora está mais tranquilo, “porque antigamente...”. P2 pergunta se ela conheceu a comunidade antigamente e ela conta que morou aqui quando criança, foi embora e, depois, voltou. P2 pergunta se o que ela contou anteriormente (do homem que mataram) foi ali ou em outro lugar, e ela diz ter sido ali. P1 pergunta quando isso aconteceu, ela responde 180 que o homem morreu há anos e que ela tinha entre 7 e 8 anos. Outra participante também conta que havia um homem que abusava de crianças. P2 pergunta como descobriram, se ela sabe de alguma história de alguém que foi pego. Ela conta de um show, no qual um homem abusou de uma menina, que inclusive é sua prima e tem 19 anos, e que o pegaram. Ela comenta que a prima lembra até hoje. P2 pergunta o que foi feito e ela conta que atearam fogo no homem e ele morreu. P2 pergunta se ela viu, e ela diz que sim, que viu tudo e que sua avó até desmaiou. P2 comenta que deve ter sido uma imagem marcante, e a menina confirma e diz: “Mas na hora da raiva, né...”. P2 pergunta onde foi isso e ela diz que foi onde ela morava antes. Uma menina conta porque se mudou para a comunidade, porque “tinha uns caras que tavam tramando fazer maldade comigo”. Nesse trecho, fica claro que a convivência com violência extrema, mesmo que seguindo regras claras, era parte da vida cotidiana na comunidade e no entorno. Mesmo um linchamento de abusador de menores é assistido, segundo a participante, em família, já que eram parentes da vítima de abuso e era a “hora da raiva”. As participantes ressaltam que agora o cotidiano na comunidade está mais tranquilo, significando que não são mais expostas a eventos de extrema violência. No entanto, como veremos a seguir, outro tipo de violência se instaurou na comunidade, com características bastante distintas. Outro trecho relevante surge no tema 9 e se prolonga até o tema 13, com a contribuição espontânea das participantes em seus relatos sobre o que caracterizam como um dos pontos negativos da comunidade onde vivem, que seria a abordagem policial da UPP e, antes dessa, do BOPE: 9. 19:22 O que poderia ser melhorado na comunidade 9. 1. Melhorias relativas ao fornecimento de energia elétrica; 9.2. Atitude de policiais com meninos da comunidade ainda ruim. 10. 20:08 Problemas que meninos enfrentam com a polícia na comunidade 10.1. Questionamento de meninos da comunidade por policiais sem razão aparente 11. 21:20 Invasões de casas por policiais e ladrões, acontecimentos quando o BOPE entrou no ao morro 11.1. Invasões repetidas do BOPE a casa de participante; 11.2. Práticas do BOPE para encontrar criminosos, muitas vezes inexatas e com violência injustificada; 11.3. Táticas de intimidação do BOPE, ofensas contra moradoras. 12. 25:38 O que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação 181 12.1. Impossibilidade dos moradores protestarem contra essa situação; 12.2. Abusos cometidos pelos policiais da UPP nas práticas de revista de moradores, mesmo de meninas. 13. 27:20 Abordagens por policiais 13.1. Abordagem dos policiais da UPP variável de acordo com preconceitos dos policiais, que se surpreendem quando suspeitos na verdade são policiais ou militares. P2 pergunta se as participantes acham que há alguma coisa que poderia ser melhorada na comunidade. Uma menina responde que, para ela, não precisa melhorar nada. P2 repete a pergunta para as outras participantes e comenta que uma delas havia falado que a questão da eletricidade já melhorou bastante. A menina comenta que agora é preciso pagar a luz. P2 pergunta novamente se há mais coisas que poderiam ser melhoradas. Uma participante fala de que garotos quando ficam na rua até tarde até apanham. Uma menina comenta que, às vezes, os meninos da comunidade apanham. Outra participante comenta, rindo, que um amigo dela apanhou quando estava voltando pra casa de madrugada, o Ronildo, e a outra comenta que ele é seu cunhado. A menina continua contando a história, dizendo que ela estava jogando Play II à 1h da manhã e estava voltando da casa da namorada dele e “os caras pararam ele”. Ela conta que ele começou a discutir e apanhou. A outra menina diz que o Ronildo é namorado de sua irmã, que também está participando da entrevista. As meninas começam a conversar sobre o tema. Uma menina conta que os policiais do BOPE entraram em sua casa cinco vezes. Ela explica porque acharam que tinha bandido lá. Ela diz que estava com os irmãos em casa e que os policiais sempre batiam no irmão, mas uma vez só estava ela e a irmã em casa e eles entraram do mesmo jeito, depois pegaram um vizinho, botaram um saco na cabeça dele. Ela conta que eles deram um tiro e atiraram uma bomba em direção a uma casa do lado da dela. Outra menina conta de uma ocasião em que o caveirão entrou na comunidade e falaram pra não correr, mas um menino levantou e bateram nele. Ela diz que invadiram a casa dela e xingaram a mãe e os irmãos, bateram em um irmão. Outra participante retoma a história de quando o BOPE invadia a sua casa várias vezes, contando que eles colocavam ela, suas irmãs e mãe num quarto e os dois irmãos na sala, que xingavam a mãe e os irmãos, chamavam a mãe dela de macaca. Sua irmã diz que eles foram à sua casa cinco vezes, pois achavam que havia um bandido morando lá, mas era na casa ao lado. P1 pergunta se depois o bandido foi pego e a menina conta que os policiais foram até lá, atiraram, mas o tiro não acertou ninguém porque havia um porão para que os bandidos se escondessem, e depois jogaram uma bomba. 182 P2 pergunta se aquilo acabou com a casa e a participante responde que não, porque eles jogaram do lado de fora e então entraram na casa. Ela conta que havia 8 ou 9 policiais lá. P2 pergunta se isso faz tempo e a menina responde que foi quando a UPP chegou à comunidade. Ela explica que, antes da UPP, era o BOPE que entrava na comunidade. P1 pergunta o que as participantes acham que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação. Uma menina diz que, “se protestar, apanha”, pois já tentaram fazer rebelião na comunidade e muitas pessoas apanharam. Conta que uma prima sua apanhou dos policiais. A menina ainda diz que já foi parada para ser revistada cinco vezes, e que ela disse que só iria ser revistada por mulher. Tentaram revistar ela a força e ela saiu correndo. Ela conta que no outro dia sua mãe desceu com ela e as duas não foram paradas. A menina conta o fato de um primo, que já morou na comunidade e é “grandão”, que os policiais queriam revistar e só depois perceberam que ele é militar e outra participante pergunta quem é o primo dela. Elas conversam sobre conhecidos em comum, uma menina começa a contar quando queriam revistar ela e sua irmã, mas é interrompida por outra participante. Uma menina comenta que o seu irmão está no quartel agora e que os policiais não o revistam porque ele mostra a carteirinha. Outra participante diz que seu irmão ia servir, mas acabou não servindo ao quartel. Ela diz que mandaram seu irmão deitar no chão, ele deitou e começaram a assustálo. P2 pergunta para a menina qual a idade do seu irmão, e ela diz que ele tem 21 anos. Outra menina diz que o irmão dela tem 19 e as duas comentam entre si sobre os irmãos. Nesse trecho, episódios de claro abuso por parte dos policiais do BOPE e UPP são tematizados com alta dramaticidade. As participantes são unívocas nas caracterizações de parcialidade dos policias, que tratariam todos como bandidos e agrediriam mulheres e crianças gratuitamente. Pode-se perceber que o momento da entrada do BOPE na comunidade foi de ápice da violência, que depois passa a ser parte da rotina no tratamento discriminante recebido da UPP. Dessa maneira, uma violência rotinizada, como era a do tráfico, é substituída por um pico de agressões e vitimizações aos moradores, para depois voltar a uma rotina de convivência com a violência, que, no entanto, agora se dirige a um público diferente: moradores, em especial os jovens, da comunidade. Anteriormente, os critérios para ser alvo de violência pareciam estar mais claros (conflitos com as facções regentes, abuso de crianças). Um último trecho na qual pode ser encontrada temática semelhante é o penúltimo da discussão: 183 24. 52:06 Tipos de homens que fazem mais sucesso com as mulheres na comunidade 24.1. Homens da comunidade não prestam, os que têm namorada chamam mais atenção; 24.2. Garotos mais conhecidos por sua beleza na comunidade; 24.3. Garotos bonitos são “galinha”; 24.4. Atitude diferente e extrovertida de garotos populares; 24.5. Dificuldades com garotos que usam drogas; 24.6. Homens na comunidade frequentemente agressivos, parceiras agredidas não se separam. P1 pergunta sobre os homens que mais fazem sucesso com as mulheres na comunidade e as participantes debatem o assunto. Uma delas diz “os que têm namorada” e outra diz que “não tem nenhum homem que presta”. Algumas meninas comentam que tem homem que presta mas tem que dar valor. P1 repete a pergunta, querendo saber quais homens chamam mais a atenção. Uma participante diz que, para ela, é um “garoto muito lindo, o Gordo”. Outra menina comenta que ele é ex-cunhado dela. P1 pergunta como ele é e a outra participante diz que “o Gordo é tudo e mais um pouco, ele é tudo de bom”. P1 questiona se ele é gordo e as meninas respondem que não, que ele é magrinho. Uma delas comenta que ele tem um corpão. A outra participante diz que ele “é cheio de quadradinhos e tem o maior bundão. Ele é muito lindo, só faltou o olho verde”. As meninas conversam entre si e falam o nome de outros meninos. P1 pergunta se todas elas conhecem os rapazes e uma responde que eles são muito famosos. P1 pergunta por quê, e ela diz que eles são muito lindos. Uma participante comenta que a maioria dos bonitinhos do morro “são todos galinhas”, e as outras meninas concordam. Elas conversam entre si sobre o assunto e falam sobre um menino. P1 pergunta se eles são conhecidos, e uma menina confirma. P2 pergunta se é só porque eles são bonitos ou se tem outro motivo. Uma participante diz que é porque eles vão de penetras em todas as festa. P1 pergunta se eles têm a idade das participantes e elas dizem que não, que eles têm de 16 anos para cima. P2 pergunta quem mais as participantes acham que têm um estilo diferente e que fazem sucesso na comunidade. Uma participante responde que são os homens que têm bunda, barriga de tanquinho, “mas tanquinho, não tancão”. Ela comenta que o homem pode até ser feio de rosto, mas “tendo bunda e barriga tanquinho, faz sucesso”. P1 pergunta se não importa o que ele faz, e uma menina diz que se o menino se drogar, ele é perda de tempo. P1 pergunta se esses não fazem sucesso e a menina continua falando que até 184 fazem sucesso, que alguns mesmo batem nas namoradas, que algumas meninas apanham e voltam com esses namorados. As meninas dizem que tem muito “homem agressivo aqui no morro”. Uma participante diz que tem menina que apanham repetidas vezes e mesmo assim ainda brigam por causa desse parceiro. As meninas discutem agressão entre homem e mulher. Mais um âmbito de violência na comunidade é apresentado nesse trecho, dessa vez referente à violência entre homens e mulheres. As relações entre parceiros são definidas de maneira ambígua, já que na primeira contribuição ao tema uma participante se posiciona criticamente em relação às mulheres da comunidade, alegando que os homens que fazem mais sucesso são os comprometidos. No decorrer do discurso, padrões de relacionamento em que ambas as partes apresentam atitudes questionáveis são discutidos: os meninos que fazem mais sucesso são os “galinhas”, o que indica que eles enganariam ou não tratariam bem as parceiras. Ao mesmo tempo, isso seria um fato conhecido de todas, o que não impediria a repetição desse quadro. Outro quadro de relacionamento destrutivo que permanece estável seria o das mulheres agredidas que não pensam em deixar seus parceiros. Dessa maneira, emerge uma caracterização em que homens e mulheres estariam envolvidos em padrões de relacionamento insatisfatórios ou mesmo violentos, com grande dificuldade para romper com os mesmos e possível normatização dessas situações. 5.4.2.2. Vida familiar e carga mais pesada das mulheres Em um segundo campo temático, são relevantes os trechos onde as participantes contam com detalhes sobre sua vida familiar, começando pelos trechos de 16 a 19: 16. 35:00 Se ajudam no serviço de casa 16.1. Participantes fazem a maior parte do serviço doméstico; 16.2. Mães não ajudam muito, trabalham fora, criticam. 17. 36:20 Se pais e irmãos ajudam com o serviço de casa 17.1. Pouca participação dos irmãos nos serviços domésticos; 17.1. Pouca ajuda por parte de irmãos menores, que querem brincar o tempo todo; 17.2. Alguns irmãos menores gostam das tarefas domésticas (como brincadeira). 18. 37:52 Se as mães trabalham fora 18.1. Dificuldades das mães em empregos estressantes. 185 19. 39:46 Brigas em casa e restrições da família para sair de casa 19.1. Brigas com os irmãos e não com as mães; 19.2. Impossibilidade das participantes ficarem sem falar com suas mães por tempo considerável; 19.3. Apego às mães apesar de suas atitudes nem sempre consideradas justas. P1 pergunta como é dentro de casa, se as meninas ajudam, se fazem alguma coisa. As meninas começam a enumerar atividades e uma conclui que faz quase tudo. Uma menina responde “eu faço tudo, minha mãe só come”, e outra replica que sua mãe só trabalha (fora) e come. As meninas comentam algumas coisas que fazem e uma delas diz que faz tudo e brinca, dizendo que, se faz errado, a mãe ainda reclama, e as meninas riem e debatem o assunto entre si. P1 pergunta se ela cozinha bem, e ela diz que depende. Uma menina comenta com outra que suas mães são iguais. Outra participante comenta que se a mãe vê alguma coisa no chão já diz “essa casa está uma bagunça”, e as participantes riem. P2 pergunta como as meninas aprenderam a cozinhar. Uma menina diz que aprendeu vendo, e outra que aprendeu com o pai, outra fala que aprendeu com a mãe, quando ela está de bom humor. Outra participante diz que sua mãe vai cozinhar hoje, pois é aniversário dela. P2 pergunta se os pais e irmãos homens ajudam em casa. Várias participantes dizem que não, uma ressalta que o seu irmão só lava a louça. P2 pergunta novamente. Uma participante diz que seu irmão apenas contribui trabalhando fora, outra menina diz que o irmão também não ajuda em nada. Uma participante comenta que o irmão não arruma nem a cama. Outra menina brinca que o irmão só ajuda a comer, entre risadas. P2 pergunta “e vocês” (provavelmente para as irmãs), e uma delas diz que arruma a casa. P2 pergunta se elas dividem as tarefas e elas dizem que sim, que uma arruma a sala, a outra o quarto. P1 pergunta para outra participante, que diz que ela é quem faz tudo. P2 pergunta sobre suas irmãs, e ela comenta que tem uma irmã de 9 anos e uma de 11, e que elas chegam da escola e vão direto brincar na rua. Outra participante comenta que, apesar de não ser, até parece que ela é a irmã mais velha, porque é quem faz tudo em casa. Ela diz que a irmã mais velha não faz nada e trabalha de vez em quando. Outra participante diz que a irmã mais velha vai para a escola, chega em casa, toma banho, vai para o trabalho, chega às duas horas da manhã e não faz nada, já que trabalha em um shopping. P2 pergunta se as mães das meninas trabalham fora. Uma participante diz que não, que a mãe trabalhava, mas a clínica fechou e agora ela não trabalha mais. Ela comenta que a mãe já estava quase ficando maluca na clínica. P1 pergunta sobre a clínica e a menina diz que era uma clínica de idosos e repete que a mãe estava “quase ficando 186 maluca, coitada”. Outra participante diz que a mãe trabalha em dois empregos e chega de madrugada. Outra menina diz que sua mãe trabalha em casa, tem um salão de cabeleireira. P2 pergunta se são as mulheres que se envolvem mais nas tarefas de casa e as meninas dizem que sim. Questionadas se os irmãos ajudam em casa, uma participante diz que apenas seu irmão menor ajuda, se receber alguma coisa em troca. P2 pergunta a uma das meninas quantos anos tem o irmão, e ela diz que tem 9. Outra participante comenta sobre sua irmã, de 7 anos que ajuda. P2 comenta “coitadinha”, e a participante diz que ela pede pra ajudar, que adora lavar a louça, outra participante comenta que quando crescem os irmãos não querem ajudar mais. A próxima pergunta se refere a conflitos e brigas dentro de casa. Perguntadas se brigam com as mães, uma participante responde que a mãe não conta, que não tem como ficar sem falar com sua mãe, que ela sempre compra alguma coisa pra ela. Outra acrescenta que ela só consegue ficar alguns minutos sem falar com sua mãe, “daqui a pouco ela vem e pede um favor”. Uma participante comenta que não fala com seu irmão, que ele joga tudo pra cima dela quando está frustrado, que “fica tentando me controlar, é muito chato, eu parei de falar com ele”, fala que tem outro irmão que é muito legal, que ela ama ele. Outra participante conta que às vezes brigam por besteiras, está tudo bem, estão todos vendo televisão, e, quando alguém troca de canal, começa a briga. A menina diz que “aí começa a quebrar tudo, jogar copo no chão...”. Outra participante conta que seu irmão é muito bom, mas que a irmã mais velha é ciumenta e implica com ela, o que outra participante confirma. Outra menina conta que em sua casa os irmãos brigam por causa de computador todo dia. Uma participante comenta que as discussões acontecem mais por causa da televisão e do computador e uma menina comenta que, na casa dela, ninguém briga por causa da televisão. P2 pergunta porquê, se ninguém gosta, e ela diz que não, que é porque não tem quase ninguém em casa. Ela comenta que quem mais assiste é ela e as irmãs. Os irmãos, segundo ela, saem de casa cedo e voltam só à noite ou só pra comer e tomar banho. P2 pergunta como é para as meninas saírem de casa. Uma menina diz que sua mãe tem medo que ela saia, critica a roupa que ela veste para sair. Um dos temas que provoca as reações mais animadas das participantes é o das tarefas domésticas. Todas afirmam veementemente que contribuem com o serviço doméstico, a maioria dizendo que arca com a maior parte desse. As mães são criticadas abertamente por, segundo as participantes, contribuírem muito pouco e criticarem o que as meninas fazem. Por outro lado, a situação das mães que trabalham fora de casa é ressaltada, como uma participante afirma, pois seus empregos seriam extremamente desgastantes, ou elas trabalhariam em dois empregos, como relata outra. Os irmãos, por outro lado, também se 187 encaixam nessa definição de não contribuírem para as tarefas domésticas, já que eles teriam a incumbência de trabalhar fora de casa, o que muitos deles não fariam. Dessa maneira, um quadro de orientação em que mães e irmãos em torno da maioridade e, em alguns casos, irmãs mais velhas, trabalhariam fora de casa e seriam isentos dos afazeres domésticos parece se delinear. Essa configuração básica não é questionada, mas algumas distorções ou dificuldades inerentes da mesma sim: as mães ou irmãos que não trabalham ou desempregados fora seriam injustamente isentos de contribuírem e, adicionalmente, mães e irmãos se tornariam por demais exigentes com as meninas responsáveis pelo serviço doméstico. Os pais, por outro lado, não são mencionados, por estarem em grande parte ausentes dos núcleos domésticos e por não terem seu papel na divisão de trabalho questionado, provavelmente: esses seriam primariamente identificados com a função de trabalhar fora e trazer recursos para o núcleo doméstico, efetivamente excluídos de contribuições adicionais. Outro trecho sobre o assunto vem logo a seguir, no tema 22: 22. 44:50 Restrições das mães sobre saídas e namoros 22.1. Mães que impõem muitas restrições a namorar e sair de casa; 22.2. Como as meninas burlam as restrições das mães; 22.3. Mudança de atitude de uma mãe depois de começar a namorar; 22.4. Idade para começar a namorar geralmente 13 ou 14 anos; 22.5. Dificuldade de cumprir com imposições das mães; 22.6. Ineficiência de uma rigidez exagerada com as filhas; 22.7. Flexibilidade da mãe a despeito de suas próprias regras; 22.8. Mãe que incentiva a sair e confia na filha, que nunca lhe mentiu. Uma participante comenta sobre idade para namorar, contando que ela diz para sua mãe que aos 12 anos ela entende que ainda não tenha permissão para namorar, mas que com 13 ou 14 já deveria poder. P2 pergunta se a mãe a prende em casa. Ela responde que antes prendia mais. Outra menina diz que sua mãe não permite nada, outra participante comenta que “a mãe dela é chata mesmo”. A menina diz que sua mãe é muito rígida, que tudo que ela pede recebe não como resposta, que ela sempre deixa de castigo, que ficou um ano sem poder sair. P2 pergunta para a menina o que ela apronta. Ela ri e responde: “nada”. P1 pergunta o que a mãe acha que ela apronta. Ela diz que a mãe acha que ela fica namorando, mas que ela não namora, o que provoca muitas risadas. Outra participante comenta que a mãe dela a conhece bem, P2 pergunta para uma menina que está namorando como a mãe dela lida com isso; a participante responde que antes a mãe dela prendia mais, que antes ela falava “mãe, vou ali e 188 ela dava hora pra voltar, e que agora não mais”. P2 pergunta se isso tem a ver com que a participante esteja namorando e ela responde que antes dela namorar a mãe dela já tinha mudado muito, e ela acha que é porque a mãe começou a namorar. Uma participante comenta que sua mãe não a deixa namorar e outra concorda que sua mãe também não deixa, pois ela tem 12 anos e só com 13 ou 14 ela poderia. Outra participante diz que a mãe acha que ela não namora, mas que ela namora “à beça”. P2 pergunta se ela tem 13 anos, e ela diz que completa em um mês mas que não conseguiria esperar. Outra participante diz que completará 13 no começo do ano, que sua mãe falava que com 13 poderia namorar e que agora fala que só aos 14, mas que ela acredita que com 13 poderá, pois a mãe deixou sua irmã namorar com 13. Outra menina comenta que ficava com meninos, mas que namorar, só a partir dos 15 anos. Uma participante diz que a mãe disse que poderia namorar entre 13 e 14 anos. P2 pergunta para outra menina se a mãe a prende muito, e ela diz que não. Ela comenta que se for ficar prendendo, “quando solta...”. Outra menina diz que, quando isso acontece, é pior. Uma participante diz que ela é santa. P2 pergunta sobre a mãe de outra menina, que diz que ela é “tranquila”. P2 pergunta se é assim mesmo quando ela sai tarde e ela responde que sim, que a mãe diz que no outro fim de semana ela vai ficar em casa, mas ela acaba saindo de novo. Uma menina comenta que sua mãe faz o contrário: quer que ela saia, mas ela não quer sair, enquanto sua irmã dois anos mais velha adora sair e ficar na rua. P2 pergunta para uma participante se ela quiser sair a mãe deixa. Ela responde que sim, pois nunca mentiu para a mãe, que confia muito nela. Nesse trecho, uma característica atribuída pelas participantes a suas mães mais uma vez é reforçada: a atitude, entendida pelas meninas, como em grande parte arbitrária e mal fundamentada que essas empregam nas decisões de restringirem ou não suas atividades sociais. Mesmo concordando unanimemente com que as mães devam colocar restrições à liberdade das filhas, as participantes apontam inconsistências nas regras colocadas pelas mães, que tentam ser bastante severas quanto aos relacionamentos românticos das filhas mas, com frequência, suavizam as regras iniciais por vários motivos. Por outro lado, a importância de um relacionamento baseado na confiança e entendimento mútuo entre mãe e filha é ressaltada, compondo um ideal em que as regras seriam negociadas mutuamente e não impostas pelas mães e evadidas pelas filhas, como parece ocorrer com frequência. O tema 25 retoma vários aspectos sobre o relacionamento com as famílias trazidos até então: 189 25. 55:33 Exemplos de vida na comunidade 25.1. Pais são exemplos de vida; 25.2. Mães são exemplo de vida, pais só contribuem para fazer filho; 25.3. Pais não dão nada para as filhas; 25.4. Mães passaram por grandes dificuldades para cuidar dos filhos e, mesmo não acertando sempre, mãe é mãe; 25.5. Pai que sofre abuso da mãe e que é legal com a filha; 25.6. Pais que deixaram de dar a atenção e carinho que davam a suas filhas quando criança. P2 pergunta se há alguém na comunidade que seja um exemplo, uma pessoa conhecida. Uma menina diz que o exemplo de vida dela são seus pais. Uma menina diz que seu exemplo é só sua mãe, outra conta que para ela são sua mãe e seu pai. P2 pergunta se eles são exemplo, e ela diz que são tudo pra ela, que morreria por eles. Outra participante diz que morreria só pela mãe e uma menina diz que morre pelo pai, porque “se meu pai não tivesse bulinado minha mãe, eu não teria nascido”. Uma menina replica que o pai só contribuiu para fazer o filho, outras meninas falam que é verdade. Muitas participações de meninas se sobrepõem, e as participantes parecem concordar que filho quem cria é a mãe, com a menina que falou que morreria por pai e mãe acrescentando que se não fosse o pai ela não existiria. Várias meninas dizem ao mesmo tempo “meu pai não me dá nada” Uma participante comenta que sua mãe saiu de casa com 14 anos e foi morar com uma irmã e que ela passou por muita coisa, morou na rua, com parentes. P2 questiona se ela é um exemplo para a menina e ela diz que não mora mais com ela, agora mora coma a avó, mas que “mãe é mãe”. P2 pergunta sobre o pai das meninas, se eles servem de exemplo. Uma participante diz o pai dela não serve de exemplo não, enquanto a participante que anteriormente tinha dito que morreria por pai e mãe diz que o dela serve e conta que a mãe “é uma chaminé”, porque fuma toda hora, e que o pai compra cigarro para ela, e ela ainda reclama. Ela diz que, se ele falar alguma coisa, apanha, porque ele “serve de saco de pancadas” para a mãe. Ela conta que o pai é “gordinho” e não consegue nem se movimentar direito. P2 pergunta se, para ela, ele é legal, e ela diz que sim. Outra menina comenta que o pai era muito legal, fazia tudo que eu queria, me dava atenção, mas que agora teria mudado, o que outra menina reforça, citando mudança no comportamento dos pais. P2 pergunta se elas têm mais alguém que possa ser citado como exemplo, algumas meninas falam um pouco mais sobre pai e mãe, uma menina cita a avó. Perguntadas de novo 190 se há mais alguém, uma menina cita uma personagem de ficção, as outras não falam sobre mais ninguém. Nesse trecho, as participantes se expressam com bastante clareza e consistência sobre relacionamentos com mães e pais, negociando entre si suas posições em busca de um consenso. Como destacado anteriormente, o relacionamento com as mães compõe a principal fonte de orientação das participantes, mas ao mesmo tempo é caracterizado como frequentemente insatisfatório. Esse elemento se encontra nas falas de participantes que relatam o comportamento agressivo das mães, nesse trecho em especial se referindo ao relato da mãe, fumante, que não sabe agradecer as supostas tentativas de ajuda do companheiro e o agrediria, bem como a informação de outra participante de que sua mãe não poderia cuidar dela, mandando-a para viver com a avó (mesmo que essa acrescente que “mãe é mãe”). Assim como trazido em outros trechos, as participantes explicam o comportamento das mães pelas dificuldades de suas trajetórias, o que as tornaria exemplos de vida por terem vencido muitas dificuldades. Mostra-se, portanto, ambígua a admiração das participantes por suas mães, já que ao mesmo tempo transparece a insatisfação com as limitações trazidas pelas histórias de sofrimento e luta de suas mães. A figura paterna, por outro lado, parece menos ambígua: para a maioria das participantes, o pai é ausente e descomprometido com a criação dos filhos. Mesmo os que parecem ocupar um lugar mais proeminente na vida das filhas são acusados de afastar-se delas após o fim da infância: várias participantes destacam que seus pais antes eram atenciosos, mas teriam mudado e se tornado mais ausentes para com suas filhas agora adolescentes. 5.4.3. Considerações finais Alguns pontos em comum podem ser encontrados nas orientações subjacentes a narrativas das participantes agrupadas ambas ao redor dos temas violência ou de família. Que pese as diferentes nuances conferidas aos tipos distintos de violência na comunidade, uma constante nesse primeiro campo temático, que perpassa vários relatos de abuso e violência, é a associação de figuras masculinas com comportamento abusivo, sejam elas policiais, criminosos, homens da comunidade ou familiares. Algumas figuras masculinas são apresentadas como vítimas, mas quase sempre de outros homens, como nos casos de irmãos 191 agredidos por policiais. Em uma instância, o pai é abusado pela mãe, mas essa passagem parece fornecer a exceção ou horizonte de comparação contrário. A figura paterna, ademais, se apresenta como distante ou ausente, como fica claro nas narrativas que expressam a frustração das adolescentes com seus pais. Essa configuração de gênero parece se dever a aspectos inerentes da vida comunitária bem como a uma experiência de aumento rápido e dramático nas vitimizações de moradores da comunidade por parte de agentes policiais. Podese concluir que essa geração de jovens mulheres do Morro dos Macacos teve não apenas sua percepção das instituições de segurança pública marcada por essa experiência, mas também, talvez, sua percepção dos papéis de gênero. Para além da identificação de figuras masculinas (e, possivelmente, também as institucionais) com situações de abuso, as mães representam forte fonte de orientação para as participantes. Como explicado anteriormente, longos e intensos trechos da discussão mostram a dependência mútua e forte ligação entre mães e filhas. Essa ligação convive com um senso de que suas mães, em grande parte devido a circunstâncias desfavoráveis, não podem sempre lhe oferecer o apoio desejado. Em conexão com o tema anterior, as figuras femininas parecem estar mais frequentemente associadas com situações de vitimização e carência, apesar de que esse quadro é ricamente diferenciado com exemplos contrários de mulheres que não o são e que, outras vezes, são coniventes com a perpetuação de sua posição de vítima. 6 192 Análise da dinâmica com grupo de crianças no Morro dos Macacos 6.1. Referencial metodológico Para compreender a perspectiva de crianças sobre os temas família, moradia, comunidade e situações de violência, foi conduzido um grupo de discussão em cada favela pesquisada com 3 a 6 crianças de idades entre 6 e 9 anos. Tomamos como pressuposto que a coleta de material qualitativo com crianças possui significativas diferenças daquelas conduzidas com adultos e, portanto, mostrou-se central desenvolver um instrumento adequado para o interesse desta pesquisa e para a faixa etária da amostra. Para a condução da dinâmica utilizamos uma forma adaptada do método de entrevista episódica, tal como formulada por Uwe Flick. De acordo com Flick (2000), a entrevista episódica está baseada em diversos conceitos subjacentes, cujo ponto em comum reside na utilização de narrativas enquanto uma criação cognitiva que privilegia a realidade do que é experienciado pelos contadores do episódio, possibilitando o acesso as interpretações particulares do entrevistado em relação ao mundo (Jovchelovitch e Bauer, 2000). O método de entrevista episódica supõe um trabalho individual de obtenção de narrativas, portanto a questão de como funcionalizar este método para uma dinâmica em grupo com crianças foi colocada para os pesquisadores. Para tanto, os pesquisadores desenvolveram uma estratégia fundamentada nos princípios básicos da entrevista episódica, como apontados a seguir: a) combinar convites para os participantes narrarem acontecimentos concretos (relevantes ao interesse da pesquisa) com perguntas que buscam respostas mais amplas (definições, argumentações, etc.) de relevância pontual; b) mencionar situações concretas em que se pode pressupor que os entrevistados possuem determinadas experiências; c) formular perguntas suficientemente abertas para permitir que os participantes selecionem um episódio ou situação que queiram contar e a forma de apresentação, sendo respeitada a relevância subjetiva da situação para o entrevistado (Flick, 2000). Além disso, foi necessário encontrar uma maneira que respeitasse as formas de acesso ao conhecimento episódico próprios da criança, ou seja, que pudesse fornecer vias de acesso mental coerentes com o estado emocional, social e cognitivo típicos desta etapa do desenvolvimento. Tal como adaptado por Peter Kuhn (2003), o método de entrevista episódica para crianças foi precedido de uma atividade de desenhos temáticos, tomados como ponto de partida para a produção de narrativas e discussão em grupo. 193 A seguir, apresentamos um roteiro adaptado para a condução da dinâmica: I. Abordagem inicial (Rapport) II. Desenho temático a) Família b) Lugar onde mora III. Descrição do desenho a) Descrição livre b) Exploração guiada pelo pesquisador IV. Narrativas principais Introdução para narrativas • O que mais gosta / O que menos gosta: a) Na família – obtenção de EPISÓDIOS NARRATIVOS b) No lugar onde mora – obtenção de EPISÓDIOS NARRATIVOS V. Narrativas subjacentes • O que gostaria que fosse diferente a) Na família b) No lugar onde mora VI. Temática positiva para encerramento Obtenção de narrativas subjacentes Sugestões: • O que quer ser quando crescer? • De que mais gosta de brincar? VII. Feedback do grupo sobre atividade 6.2. Análise reconstrutiva do discurso Para a análise do material qualitativo utilizamos uma adaptação do método de análise reconstrutiva do discurso, como proposto por Rosenthal e Völter (2008). Este tipo de análise tem como princípios a abertura, a sequencialidade e a reconstrução, e através dele buscamos a 194 reconstrução narrativa de experiências relevantes - positivas e negativas - das crianças, trazendo a tona formas de conhecimento, vivências e interpretações individuais e socialmente compartilhadas sobre a família, a moradia, a comunidade, situações de violência, etc. A adaptação dos passos analíticos segue as seguintes etapas: a) Seleção dos trechos para análise, seguindo critérios de tipo textual (ênfase em trechos narrativos e/ou diálogos densos), temas (relevantes para a pesquisa) e dados objetivos; b) Sequenciamento (diferenciação de passagens com categorias de tipo textual e mudança de falante) e análise do campo temático (levantamento de hipóteses para trechos fora do contexto do discurso de referência) de cada fragmento. Esta etapa da análise tem por objetivo reconstruir os padrões de argumentação e significação, bem como as narrativas e seu significado para o discurso em sua lógica interna e em seu enquadramento contextual e temático; identificar a quantidade, a forma e os temas de discursos possivelmente paralelos/intercruzados presentes no documento; e desvendar os meios retóricos e linguísticos (metáforas, formas de falar, composições e estrutura temática) do fragmento, a fim de compreender como vai se construindo o discurso. c) Descrição global dos trechos, onde os fragmentos são novamente contextualizados e é apresentado o produto final de análise do discurso e de seus processos sociais relevantes. 6.3. Grupo de crianças do Morro dos Macacos A dinâmica em grupo com crianças no Morro dos Macacos foi realizada no mês de outubro de 2012, em uma instituição chamada CEACA (Centro Educacional da Criança e do Adolescente Lídia dos Santos), com quatro meninos, um com 4 anos de idade, um com 7, um com 8 e um com 9 anos. Algumas adversidades significativas foram enfrentadas pelos pesquisadores para a realização da dinâmica. Tais adversidades comprometeram a possibilidade de alguns dos participantes se expressarem mais livremente. Estas circunstâncias devem ser atribuídas a pouca idade de um dos meninos (4 anos de idade), cuja participação não foi impedida, mas que não seria ideal para a tarefa. Além disso, outro participante mostrou-se contagiado pela dificuldade do colega, instaurando um ambiente de gritos e agitação corporal entre os dois. Apesar disso, foi minimamente possível ater-se as narrativas e debates mais densos dos outros dois meninos e fazer circular as temáticas mesmo entre aqueles com dificuldades em participar verbalmente da discussão. 195 6.3.1. Apresentação dos desenhos temáticos Natan - 4 anos Figura 100: Lugar onde mora – por Natan Figura 101: A família – Por Natan 196 Arthur - 9 anos Figura 102: Lugar onde mora – Por Arthur Figura 103: A família – Por Arthur – Por Arthur 197 Cláudio - 8 anos Figura 104: Lugar onde mora – Por Clúudio Figura 105: A família – Por Cláudio 198 Bruno - 7 anos Figura 106: Lugar onde mora – Por Bruno Figura 107: A família – Por Bruno 199 6.3.2. Breve descrição da dinâmica Os coordenadores e as crianças sentam em roda em uma mesa e se apresentam, dizendo o nome e a idade, mas é difícil compreender, já que diversas conversas paralelas acontecem simultaneamente. O participante mais novo fica muito inquieto, falando muito e saindo de sua cadeira a todo o momento para mexer nos computadores ao fundo da sala. A pesquisadora busca chamar-lhe a atenção, porém, os outros participantes começam a ficar incomodados e inquietos. A pesquisadora pergunta aos participantes se eles sabem o por que de terem sido chamados a participar daquela atividade. Alguns respondem que estão ali para gravar entrevista aos jornalistas. Um participante responde com a palavra “pesquisa” e a pesquisadora pergunta se alguém saberia dizer o que isso significa. Surgem diversas respostas e, por fim, a pesquisadora explica que está interessada em conhecer a comunidade onde eles vivem e a opinião das crianças que ali moram acerca de diversos assuntos. A pesquisadora explica a atividade. O participante mais novo segue muito agitado e já não consegue mais permanecer sentado, atirando-se sobre a mesa, empurrando a cadeira, pulando no pescoço da pesquisadora e gritando bastante. Após explicar a atividade, a pesquisadora pede que as crianças se apresentem novamente. Um dos participantes, antes de iniciarem o primeiro desenho, pede a vez para falar e comenta que tem dois pais. Vários participantes afirmam terem dois pais também, até que um diz ter um pai e um padrasto. Um dos meninos diz que tem um pai que não quer saber dele e outro que quer; o pai verdadeiro é aquele que não gostava dele quando ele nasceu. O menino fala sobre a separação dos pais e um pouco de sua história depois disso. Outro participante fala sobre a separação dos pais e sobre como cada um tem um novo companheiro agora. O participante mais novo não consegue mais escutar as intervenções da pesquisadora e é perceptível sua dificuldade em permanecer sentado. Outro participante começa a mexer no gravador colocado no centro da mesa, gritando perto do microfone. Iniciam o primeiro desenho. Discutem pelo material e brigam muito, mas conseguem terminar e entregar o desenho do lugar onde moram. A pesquisadora explica a temática do segundo desenho. A dificuldade para desenhar está muito elevada e dois meninos já não conseguem parar de gritar e jogar material no chão, brigando entre si. Por fim, entregam o segundo desenho. 200 A pesquisadora, após pedir que cada participante descreva o que desenhou, pergunta quais são os lugares que as crianças mais gostam de brincar na comunidade. Dois participantes dão respostas aleatórias à pergunta; outros citam a Vila Olímpica, o Brizolão, a praça sete e a própria casa. Falam das brincadeiras preferidas. A pesquisadora questiona se existe algum lugar na comunidade que eles tenham medo de ir. Um participante responde que sim, contando uma história sobre um home que maltrata crianças e que fica perto da casa de seu amigo, no alto do morro. Uma discussão acerca do homem, que parece ser do conhecimento de todos, orienta a conversa para a temática “bandidos”. Um participante afirma que a polícia já prendeu todos os bandidos do Morro. A pesquisadora pergunta se eles lembram como era antes da polícia prender os bandidos. Os participantes falam da abordagem do “Caveirão”, que, para eles, rouba as pessoas. A pesquisadora pergunta se os participantes gostariam de contar uma história, boa ou ruim, sobre sua família. Um participante tenta começar uma narrativa, mas outro menino interrompe, querendo ainda falar sobre a pergunta anterior, a respeito de como era antes da polícia prender os “bandidos”. O participante fala que antes o “Caveirão” passava noite e dia pela comunidade, mas que a UPP os tirou de lá. Outro menino diz que viu a UPP iniciando tiroteio no lote onde morava. Este mesmo menino pergunta se a UPP é polícia. Segue contando que viu os bandidos fugindo da UPP. Os participantes descrevem como é a fuga dos bandidos quando os policiais estão atrás deles; além disso, explicam sobre a regra de não poderem ‘entregar’ onde estão os bandidos, já que estes matam quem os delatou quando saem da prisão. Um dos meninos diz que o pai de seu irmão era dono do Morro, mandando no lugar todo, mas que morreu devido a uma bala perdida. Outros participantes contam de pessoas próximas que já foram presas ou levaram tiros, relatando com alto grau de detalhamento. Para encerrar o encontro, a pesquisadora pede que cada um diga algo que gostaria que existisse ou que fosse diferente na comunidade. As respostas variam entre mais brinquedos, mais educação, menos bandidos e a ausência do “Caveirão”. 201 6.3.3. Análise de trechos escolhidos 6.3.3.1. Resumo do trecho 1 Um dos participantes, antes de iniciarem o primeiro desenho, pede a vez para falar. As outras crianças estão fazendo muito barulho e, por isso, o interrompem antes que ele inicie sua fala. Ele tenta falar: “Minha mãe diz que eu sou...”, mas é interrompido novamente. Em seguida diz que esqueceu o que ia dizer, mas retoma: “Ah, lembrei! Eu tenho dois pais.” As crianças começam a falar todas ao mesmo tempo, a partir da constatação do menino. Alguns comentários são identificados: “Tia, eu também tenho dois pais.”; “Eu também.”; “Não, eu tenho um pai e um padrasto.” O participante mais novo começa a se atirar da cadeira e a se pendurar no pescoço da pesquisadora, além de gritar muito. Depois de algum tempo, a pesquisadora consegue perguntar ao primeiro participante o que ele quis dizer sobre ter dois pais. Ele responde: “Um pai que não quer saber de mim e outro que quer. Quando eu nasci meu pai verdadeiro não gostava de mim.”. A pesquisadora pergunta como ficou sabendo disso e ele responde que foi através de sua mãe e que, por isso, sua mãe se separou de seu pai. As crianças, novamente, falam todas ao mesmo tempo. O menino segue depois de algum tempo comentando que depois da separação de seus pais ele passou a morar com sua avó; sua mãe encontrou um novo namorado com quem está até hoje. Os meninos voltam a falar ao mesmo tempo, desta vez fazendo comentários acerca do assunto, mas que mal podem ser identificados. Um dos participantes começa a mexer no gravador e isso faz com que o grupo se disperse, até que o mais novo conta a seguinte história: “Tia, amanhã quando eu nasci eu era um bebê, e ele, o meu pai, era bebê, e a minha mãe, aí eu fiquei homem, aí eu fui na piscina eles me procuraram e eles viveram felizes para sempre.”. Por incentivo da pesquisadora, outro participante se pronuncia e conta que a mãe se separou de seus ‘dois pais’ e que agora cada um vive em sua casa com outra mulher. Outro segue dizendo o nome da namorada de seu pai. O participante mais novo não consegue mais escutar as intervenções da pesquisadora e é perceptível sua grande dificuldade em permanecer sentado. Outro participante começa a mexer no gravador colocado no centro da mesa, gritando perto do microfone. 202 6.3.3.1.1. A recomposição familiar é uma temática muito presente no discurso e no cotidiano das crianças. Este trecho foi escolhido para uma análise mais profunda, primeiramente, por ter sido espontaneamente introduzido por uma das crianças através da frase “tenho dois pais”, antes mesmo que fossem anunciadas as temáticas dos desenhos. Tal espontaneidade parece mostrar a centralidade do tema tanto para este menino quanto para as outras crianças, que em seguida demonstram identificação com o assunto e compartilham de sua própria experiência. A frase introdutória marca o que se desenvolverá em uma série de relatos e descrições do que podemos chamar de constelação familiar recomposta (Ferreira, 2011), envolvendo principalmente discursos acerca da compreensão das crianças sobre a figura paterna. O movimento de saída do pai biológico da esfera doméstica, ou apenas de ruptura conjugal, vem com freqüência acompanhada pelo movimento de entrada de um ou vários pais sociais (padrastos) (Ferreira, 2011) ao longo do tempo. O sentimento de ruptura das relações com figuras supostamente paternais é salientado pelas crianças, que demonstram dificuldade em nomear quem, enfim, pode ou não ocupar este papel em sua vida. Existe, portanto, a partir das reconstruções familiares, uma complexificação do fenômeno da parentalidade, muitas vezes acompanhada de certa confusão relacionada à compreensão das crianças do significado e das funções dos diversos papéis na instituição familiar. Esta confusão parece estar muito ligada a um processo de amadurecimento natural das crianças em relação a estas mudanças familiares e suas implicações para a vida emocional e concreta. 6.3.3.2. Resumo do trecho 2 A pesquisadora pergunta aos participantes se existe algum lugar na comunidade que eles tenham medo de ir. Um responde que não. Outro responde que sim, e explica que é quando sobe o Morro para ir brincar com um amigo seu, já que lá tem um homem que ‘maltrata as crianças’. Outro concorda dizendo que o homem é doido. Outro complementa dizendo que aquele homem estupra as crianças. Outro menino fala de um homem que fica perto do parque, um bêbado. Todos começam a imitar a forma como o homem fala quando está bêbado, rindo bastante: “Eu sou bandido! Eu sou bandido, pô!”, eles imitam a voz. A pesquisadora pergunta ao grupo se existem bandidos na comunidade. Um participante responde que sim, mas que a polícia já prendeu todos. A pesquisadora pergunta a eles como 203 era antes da polícia prender os bandidos. Um menino conta de uma situação em que estava com sua irmã e seu primo brincando de polícia e ladrão, quando chegou o Caveirão e eles se esconderam, pois eles estavam mirando armas. Outro menino diz que o Caveirão não trabalha, apenas procura dinheiro e assalta pessoas, comparando ao carro do jogo do bicho, que também só quer ganhar dinheiro e jóias. A pesquisadora pergunta se eles já viram alguém roubar. Um menino diz que já viu uma criança pegar um brinquedo e dá a entender que foi na escola, mas não consegue ir adiante porque é interrompido por gritos. Outro participante diz que já viu muitas pessoas com armas. Um menino conta uma história bastante confusa sobre um menino que mora perto dele, introduzindo outra figura que não deixa claro quem é, mas que fica atrás da criança enquanto ela pede para entrar na própria casa; em seguida diz que essa pessoa a amarra os pais da criança e rouba brinquedos. Conclui: “Ainda bem que só roubou meu robô”. Mais uma vez o grupo está disperso. A pesquisadora pergunta se alguém gostaria de contar alguma coisa, boa ou ruim, que aconteceu com alguém da família ou com eles enquanto estavam junto à família. Um menino prontamente responde que quer ‘ser do exército’ ou da marinha. Outro concorda. A pesquisadora pergunta aos meninos o que o exército faz, ao que um deles responde que ele faz guerras e que ele gostaria de participar de uma guerra. Outro menino diz que está com fome. (...) Um menino começa sua fala com “Minha família...”, mas é interrompido por outro: “Pera aí, tua, deixa eu falar! Quando os polícia entram aqui, ah esqueci quem mandou a polícia entrar aqui.. a UPP!.. o Caveirão ralou peito. Sabe porque? O Caveirão, ele ficava passando toda hora por aqui, de madrugada. Aí depois mandaram a polícia, a UPP entrou aqui...”. Outro menino conta que quando morava em um lote, experienciou um tiroteio da UPP, além de uma fuga de bandidos que “começaram a subir escada”. Outro menino diz ao anterior: “Ah, você fofocou, depois ele vai sair de lá, ele vai sair da prisão e você vai ver. Vai te dar tiro no peito.” A pesquisadora incentiva que o grupo siga falando. Um menino diz que os bandidos correm e se escondem em algum buraco, tapando-o com um pedaço de madeira, mas que os “cana” sobe o Morro e “aí cerca geral”. Outro complementa dizendo que se alguém “fofoca do bandido”, acaba morrendo. Outro concorda, e diz que o bandido sai da prisão, coloca uma roupa, “se finge que é o moço” e aperta a campainha, em seguida dá os tiros. A pesquisadora pergunta se eles conhecem alguém que já levou tiros ou foi preso. Um menino responde que o pai de seu irmão era o “dono desse Morro”, mandando em tudo. Outro interrompe e diz que quando a polícia aparece, os bandidos se escondem no mato. A pesquisadora incentiva que o outro menino siga contando sua história. Ele diz que o pai de seu irmão já morreu devido a uma bala perdida; conta em detalhes. 204 6.3.3.2.1. Existe familiaridade das crianças com as regras de convivência ditadas pelo tráfico no morro. Um ponto crucial abordado pelas crianças quando estas falam sobre a presença de bandidos e situações em que presenciaram a fuga destes de policiais no morro, é o de que existem regras de convivência entre traficantes e a comunidade, e de que estas regras precisam ser internalizadas e seguidas para que se possa assegurar a segurança dos moradores. As crianças parecem familiarizadas com estas regras, já que contam a este respeito em um grau de detalhamento significativo e advertem umas as outras, de forma a mostrar para os pesquisadores, que da obediência destas regras depende a sobrevivência do indivíduo subjugado a elas na comunidade. Tais regras têm relação com o sigilo dos moradores a respeito das ações do crime organizado/tráfico de drogas, coibindo os delatores através de penas de morte e da ameaça à segurança do sujeito que as presenciou. 6.3.3.2.2. O “caveirão” é visto pelas crianças como fonte de grande violência na comunidade. Ainda que esta temática acerca da abordagem policial do Caveirão venha fragmentada ao longo de um trecho mais longo, chama atenção a forma como aparece espontaneamente no discurso das crianças após serem questionadas não a respeito de abordagens da policia, mas sim sobre a presença de bandidos na comunidade antes da entrada da UPP no Morro dos Macacos. Ao contarem a respeito de suas experiências antes da entrada da UPP, as crianças deixam evidenciados sentimentos de insegurança e medo enquanto consequência da abordagem do Caveirão, e não necessariamente de bandidos. Percebemos que brincadeiras e rotinas cotidianas vêm associadas a situações em que abordagens armadas da polícia traziam medo e necessidade de que as crianças se escondessem, equiparando, de certa forma, o Caveirão aos bandidos. Tal equiparação entre estas duas instâncias seguirá acontecendo no decorrer do discurso, onde os meninos traçam um paralelo entre a descrição do que é papel de bandidos e o que efetivamente acontece na ação dos policiais: “O Caveirão procura só dinheiro. Ele assalta várias pessoas, ele passa assim...”; “O Caveirão não trabalha, só quer roubar dinheiro; o carro do bicho só quer ganhar dinheiro, jóias, várias coisas.”. Estas percepções são confirmadas com maior segurança quando uma das crianças cita a entrada da UPP como responsável pela saída do Caveirão e de suas abordagens invasivas e desrespeitosas do Morro, e não somente pela saída do tráfico. A UPP, de certa forma, também 205 não escapa a uma interpretação de tom violento, bem como todas as empreitadas armadas da polícia. Um número significativo de cenas descritas pelas crianças como negativas ou que causaram medo têm relação justamente com momentos em que presenciaram policiais armados fazendo busca por traficantes, fugas, operações de busca em residências, entre outros. Em todas as cenas, ainda que um dos personagens fosse um bandido, o principal “agressor” era a figura do policial. Mesmo a entrada da UPP é vista, ao menos por dois dos participantes, como um momento de violência em que se vê exposto a armas e tiroteios. Aqui podemos levantar algumas hipóteses concernentes à abordagem policial interpretada como uma forma de violência menos tolerada pelas crianças, seja porque seu papel de proteção não é cumprido, seja porque conviveram por mais tempo com a presença do tráfico e, portanto, estão mais habituadas com este. 6.4. Considerações finais Em relação à interpretação do primeiro trecho, consideramos que as relações estabelecidas entre crianças e seus genitores, bem como as inter-relações com os demais subsistemas da família e sistemas sociais, trazem implicações relevantes para o desenvolvimento individual da criança. Além disso, as recomposições familiares devem ser compreendidas como fator de mudança da percepção que a criança tem das funções e dos papéis desempenhados por diferentes atores da rede familiar, principalmente os papéis maternos e paternos (Ramos, 2008). Em relação às duas interpretações destacadas do segundo trecho, um ponto comum deve ser traçado. Se para as crianças a abordagem da polícia é interpretada como uma espécie de invasão violenta no cotidiano das pessoas na comunidade, a abordagem dos bandidos retrata algo que é também muito violento, porém mais naturalizado e integrado às práticas cotidianas. Tais regras de convivência estabelecidas pelo tráfico são, antes de tudo, integradas desde cedo ao dia-a-dia da comunidade e, portanto, suas intervenções parecem representar uma ameaça menor à tranquilidade das crianças. A abordagem policial, pelo contrário, não é uma prática integrada às práticas cotidianas, e parece representar uma ameaça ainda maior à estabilidade, pois vem de fora e não respeita ou apresenta regras que possam trazer segurança à população e, principalmente, às crianças. Neste sentido, enquanto a imprevisibilidade da intervenção policial para estas crianças está, frequentemente, associada a sentimentos de invasão e desrespeito, a abordagem do tráfico, mesmo causando medo, vem acompanhada de certa previsibilidade em suas intervenções. 7 206 Conclusão A presente pesquisa buscou obter um conhecimento abrangente e aprofundado sobre o cotidiano de crianças pequenas na comunidade do Morro dos Macacos, com ênfase sobre as condições em que se dá a socialização dessas crianças na família, nas ruas da comunidade e na escola. Foram adotados diversos instrumentos de pesquisa com públicos distintos. Neste capítulo, serão sintetizadas as principais conclusões obtidas da análise dos dados coletados e, com base nessas conclusões serão sugeridas, ao final, algumas estratégias de ação para enfrentar os principais problemas identificados para as crianças pequenas na comunidade do Morro dos Macacos. 7.1. A visão de lideranças locais e de dirigentes de organizações que atuam na comunidade Um dos primeiros passos da pesquisa foi obter, de lideranças locais e de dirigentes e/ou funcionários de organizações que prestam serviços no Morro dos Macacos, uma visão sobre a realidade da comunidade em geral e mais especificamente sobre o cotidiano de crianças pequenas. Neste sentido, foram entrevistadas pessoas reconhecidas como lideranças locais, ainda que não sejam dirigentes de uma entidade ou movimento, de um lado, e, de outro lado, dirigentes ou funcionários de entidades ou órgãos que prestam seus serviços diretamente na comunidade. Evidencia-se a insatisfação das lideranças locais no Morro dos Macacos com a infraestrutura e serviços urbanos, em especial em relação à limpeza urbana e às condições de acessibilidade. Outro aspecto apontado nas entrevistas com lideranças locais diz respeito à baixa capacidade de iniciativa ou “conformismo” da comunidade, a despeito da existência de diversas organizações não-governamentais no Morro dos Macacos. Ao mesmo tempo, a existência de espaços destinados às crianças na comunidade não são adequadamente e intensamente utilizados pelas crianças pelo fato de os pais não permitirem, de acordo com alguns entrevistados. A estrutura familiar no Morro dos Macacos é destacada por alguns entrevistados como um problema para a infância na comunidade, caracterizada, por exemplo, pelo fato de muitos pais serem muito jovens e pelas crianças serem criadas em domicílio sem a presença de 207 ambos os pais. Outros problemas são mencionados pelos entrevistados como tendo graves consequências para a vida cotidiana das crianças no Morro dos Macacos, como o consumo de drogas, o desemprego e o acesso à cultura. O tema da violência da comunidade não é destacado como um dos principais problemas na comunidade, havendo um certo otimismo em relação à UPP que atua no Morro dos Macacos, tendo em vista que a presença policial teria contido a violência. Contudo, para alguns entrevistados o “poder paralelo” exercido pelos traficantes está presente. Diversos entrevistados afirmaram que a violência doméstica contra crianças é frequente, motivada pelo abandono afetivo, o descaso com a alimentação, assim como conflitos entre as próprias crianças e jovens. Segundo lideranças locais, a situação da infância poderia ser melhorada a partir de ações específicas, como a criação de espaços destinados ao cuidado das crianças no período em que os pais estão trabalhando, projetos culturais e escolas de tempo integral. As demandas não são diferentes daquelas que surgem em outras comunidades, revelando que a materialização de estruturas capazes de abrigar e fornecer educação às crianças seria uma medida bem recepcionada também entre os moradores do Morro dos Macacos. Foram entrevistadas pessoas que trabalham ou dirigem organizações que prestam serviços e atuam no Morro dos Macacos nas mais variadas áreas, como coleta e reciclagem de lixo, educação artística, segurança pública, saúde e educação. Assim como as lideranças locais, também esses entrevistados apontaram a limpeza urbana como um problema grave na comunidade. O excesso de dejetos produziria efeitos nocivos à saúde e à autoestima dos moradores, incluindo as crianças. Nesse sentido, entrevistados lamentam que as crianças tenham que “passar no meio do lixo” para chegarem a seus lares. Em relação à vida das crianças no Morro dos Macacos, destaca-se a posição de que haveria a necessidade de projetos voltados especialmente à educação infantil, mas também para os pais, com vistas a oferecer às crianças oportunidades para seu desenvolvimento, sobretudo nos períodos de ausência dos pais. Há, ainda, sugestões para que se crie iniciativas específicas para as meninas da favela. Nesse sentido, ainda que já existam, no Morro dos Macacos, ONG’s atuantes, haveria grande demanda por ampliação das iniciativas permanentes para as crianças. É quase unânime entre os entrevistados que atuam no Morro dos Macacos a posição de que a violência contra crianças é um problema generalizado na comunidade, não apenas violência física, mas também psicológica, em que os pais dispensariam aos seus próprios filhos um tratamento pejorativo. Além disso, esse grupo de entrevistados menciona casos de 208 abuso sexual contra crianças na comunidade. Por outro lado, alguns entrevistados mencionam que, embora este tipo de violência seja, de fato, bastante recorrente, ainda mais frequente é a violência contra a mulher. Diante disso, conclui-se que os stakeholders enxergam práticas de violência infantil na comunidade, manifestando interesse em contribuir para ações voltadas ao seu combate. Reforça essa premissa o fato de que alguns entrevistados, apesar de reconhecerem o bom trabalho realizado por instituições ligadas à infância, lamentam que as crianças que participam dos projetos sociais não apresentam melhor rendimento na escola, por exemplo. Essa percepção sugere que as iniciativas existentes possuem eficácia apenas relativa, já que as crianças do morro “não têm perspectivas”, mesmo sendo alvo de tantas intervenções sociais. 7.2. A percepção de adultos e crianças sobre a violência na comunidade A fim de se conhecer o cotidiano de crianças pequenas (de 0 a 8 anos) no Morro dos Macacos a partir da percepção de pais/responsáveis por crianças pequenas, assim como das próprias crianças (de 6 a 8 anos), aplicou-se 158 questionários com 60 questões a pais e/ou responsáveis por crianças pequenas. Outro questionário com 20 questões foi aplicado a 32 crianças de 6 a 8 anos de idade, ou seja, em idade escolar. Destacam-se, a seguir, as principais conclusões na perspectiva de adultos e crianças sobre a vida de crianças na comunidade no Morro dos Macacos. 7.2.1. Percepção de adultos No Morro dos Macacos, a violência física (bater) é a mais praticada em casa contra crianças, sendo que a mãe é a que mais pratica a violência contra crianças. O índice de violência doméstica praticada pela mãe é maior em crianças de 2, 5 e 7 anos de idade, cuja incidência é maior em domicílios com mais de uma criança. Ainda que não haja correlação entre a incidência da violência física praticada pela mãe com a frequência com que ela divide a cama com os pais, a criança de 2 anos, maior vítima da violência física praticada pela mãe, é a que mais divide a cama com os pais. O maior índice de mães que batem na criança está na faixa dos 35-39 anos, seguido das mães com 20-24 e 30-34. O menor índice de mães que batem está na faixa dos 17-19 anos. Independente do nível de escolaridade das mães, é alto 209 (acima de 70%) o índice de mães que batem nas crianças. No Morro dos Macacos não há diferença entre o consumo de bebida alcoólica e o não consumo pela mãe, uma vez que a maioria das mães que bebe bate, assim como a maioria das que nunca bebem também bate. Com uma diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que batem é maior entre aquelas com renda menor que um salário mínimo, enquanto o menor índice de violência está entre as mães que não têm renda. Discriminando a Bolsa Família na renda mensal, a diferença não é confirmada estatisticamente, mas os resultados revelam que as mães com renda menor que o mínimo cuja fonte é apenas a Bolsa Família são as que mais batem e as mães sem renda são as que menos batem. Ainda que não haja diferença estatisticamente significativa, os resultados obtidos apontam que algumas características físicas do domicílio interferem no nível de violência contra a criança em casa. Nesse sentido, obteve-se que o índice das mães que batem na criança é maior em casas com 1 e 2 cômodos do que em casas com 4 cômodos ou mais. Por outro lado, o índice de mães que batem é maior em casas com 3 dormitórios do que em casas com 1 dormitório, no entanto, o índice menor de violência é do grupo de mães que mora em casas com 2 dormitórios. O tipo de rua em que está localizada a residência e a ausência de iluminação interferem na ocorrência de violência contra crianças. Assim, ainda que a diferença não seja estatisticamente significativa, o índice de mães que batem na criança é maior nas moradias localizadas em escadarias, do que em casas localizadas em ruas onde passam carros. No entanto, o índice menor de violência praticada pelas mães contra a criança está em casas localizadas em vielas onde só passam motos. Por sua vez, o índice de mães que batem na criança é maior nas casas cujas ruas não têm iluminação do que em ruas onde há iluminação. Porém, obteve-se uma correlação negativa confirmada estatisticamente, que aponta que quanto maior a insatisfação com a iluminação da rua, maior o índice de mães que batem na criança. Investigou-se também a percepção do adulto sobre determinados tipos de violência que ele testemunha na comunidade e os que ele fica sabendo, assim como graus de satisfação com segurança, serviços de saúde, transporte e educação e, por último, suas observações sobre o que falta na comunidade para a criança. Os resultados indicam que os adultos são testemunhas de um cenário bastante violento na comunidade. A maioria dos adultos já presenciou tiro com arma de fogo, alguém sendo preso e um policial apontando uma arma de fogo nas ruas da comunidade. Pelo menos dois 210 em casa dez moradores do Morro dos Macacos já presenciaram adulto sendo ferido por tiro de arma de fogo, adulto vendendo droga e adulto sendo ferido por facada. Dentre os casos de violência que os adultos mais tomam conhecimento, pessoas sendo assaltadas é a mais frequente, seguido de casas que foram assaltadas. Em relação à violência contra crianças, de cada 10 pessoas 4 já ficaram sabendo de abuso sexual contra criança no Morro dos Macacos. Em relação à satisfação com serviços prestados na comunidade, aqueles mais bem avaliados são as creches, escola, iluminação das praças e agentes de saúde da família, em que sete a cada dez moradores se dizem satisfeitos. Por outro lado, os serviços com os quais os moradores mais se mostram insatisfeitos são: o tempo de espera no posto de saúde e segurança para a criança brincar fora de casa. Perguntados sobre o que faltaria no Morro dos Macacos, os adultos identificaram praças e outros espaços de lazer, oficinas e projetos para as crianças, além de creches, escolas, hospitais e médicos no Posto de Saúde. 7.2.1.1. Chance da criança sofrer violência (análise de regressão) Os dados coletados com os questionários aplicados a pais e/ou responsáveis por crianças pequenas foram submetidos à análise de regressão com o objetivo de verificar o que faz com que, no Morro dos Macacos, aumente a chance de crianças sofrerem violência. A seguir, destaca-se apenas a análise referente à chance das crianças sofrerem violência física. Se comparado com outros responsáveis, como pai e avó, o fato de o convívio da criança se dar com a mãe aumenta a chance de uma criança sofrer violência física em três vezes. Observa-se um aumento de 31 vezes a chance de a criança sofrer violência física caso a mãe tenha idade entre 35 e 39 anos, se comparado com as mães com idade entre 17 e 19 anos. À medida que a mãe consome bebida alcoólica na frente da criança aumenta em cinco vezes a chance de a criança sofrer violência física. Da mesma forma, o fato de almoçar com os pais provoca um aumento da chance de a criança sofrer violência física em 166 vezes. É alarmante esse dado, pois chama a atenção para o fato de que esse momento de convivência da criança com seus pais é marcado por grande possibilidade de sofrer violência. O fato de que o adulto grita com a criança aumenta em duas vezes a chance da criança sofrer violência física. Por outro lado, a presença de iluminação em frente ou próximo de casa provoca a redução da 211 chance de a criança sofrer violência física. Da mesma forma, presenciar alguém sendo preso reduz em 35% a probabilidade da criança sofrer violência física em casa. 7.2.2. Percepção das crianças (6 a 8 anos de idade) Em casa, violência física (bater) contra crianças é o tipo de violência mais frequente, seguido de violências psicológicas (castigo e gritar) em níveis igualmente elevados, ou seja, mais de 80% e cerca de 80% das crianças, respectivamente, admitem já ter sido vítima com alguma frequência de um desses tipos de violência. Da mesma maneira, 80% das crianças já testemunharam adulto batendo em criança em suas casas, ao passo que de cada 10 crianças, 4 já presenciaram um adulto batendo em outro adulto dentro de casa. No Morro dos Macacos, o ambiente escolar é menos violento para as crianças, porém, a maioria delas já ficou de castigo, aproximadamente 1/3 delas já recebeu gritos de adultos e cerca de 10% das crianças revelaram que adultos já teriam batido nelas. As ruas da comunidade são ambientes nos quais as crianças testemunham violência com alguma frequência, sendo que os tipos de violência mais presenciados são: pessoas sendo levadas pela polícia, adulto batendo em criança, adulto batendo em adulto, gente vendendo drogas e adulto atirando com arma de fogo. Para as crianças de 6 a 8 anos de idade, o que mais falta para elas no Morro dos Macacos é espaço de lazer, brinquedos e pelo menos 10% delas apontaram que faltaria um dos itens seguintes: estudo para ensinar as crianças a ler e escrever; casa boa; piscina e respeito e amizade. 7.3. A percepção de adolescentes (meninas e meninos) Com o objetivo de se obter a percepção de adolescentes sobre a vida no Morro dos Macacos, foram realizados dois grupos de discussão, um reunindo um grupo de meninas e outro que reuniu um pequeno grupo de meninos. Ainda que a discussão tenha sido conduzida com um roteiro previamente definido, o mais importante foi permitir que os próprios participantes identificassem livremente os temas que mais mobilizavam sua atenção, cuja ênfase se deu sobre a passagem da infância para a vida de adolescente, os conflitos daí decorrentes e a relação entre a vida familiar e o ambiente da vida comunitária. 212 Dois campos destacam-se na discussão com os adolescentes: a violência na comunidade, praticada pela polícia e pelo tráfico, e a violência doméstica e conflitos familiares. Parece existir certa banalização das situações de violência tanto familiares quanto na comunidade como forma de racionalização dos sentimentos de fragilidade e impotência diante destes fatos. Para as adolescentes, a vida no Morro dos Macacos é igualmente marcada pela violência, tanto na comunidade quanto em casa, em que figuras masculinas são constantemente associadas ao comportamento abusivo, sejam elas policiais, criminosos, homens da comunidade ou familiares. Essa configuração de gênero parece se dever a aspectos inerentes da vida comunitária bem como a uma experiência de aumento rápido e dramático nas vitimizações de moradores da comunidade por parte de agentes policiais. A figura paterna, por seu lado, se apresenta como distante ou ausente, como fica claro nas narrativas que expressam a frustração das adolescentes com seus pais. Por outro lado, as mães representam forte fonte de orientação para as participantes. Essa ligação convive com um senso de que suas mães, em grande parte devido a circunstâncias desfavoráveis, não podem sempre lhe oferecer o apoio desejado. As figuras femininas, por sua vez, parecem estar mais frequentemente associadas a situações de vitimização e carência. 7.4. Discussão com crianças O interesse da pesquisa foi conhecer de maneira a mais detida possível o cotidiano de crianças de 0 a 8 anos de idade no Morro dos Macacos. Com objetivo de captar a percepção das próprias crianças, foram adotados dois instrumentos diferentes: a) um questionário (mencionado no item 7.2.2.) e b) dinâmica com discussão com crianças. Na discussão com as crianças, a abordagem da polícia é interpretada como uma espécie de invasão violenta no cotidiano da comunidade. Já a abordagem daqueles envolvidos com tráfico retrata algo que é também muito violento, porém mais naturalizado e integrado às práticas cotidianas. Tais regras de convivência estabelecidas pelo tráfico são, antes de tudo, integradas desde cedo ao dia-a-dia da comunidade e, portanto, suas intervenções parecem representar uma ameaça menor à tranquilidade das crianças. A abordagem policial, pelo contrário, não é uma prática integrada às práticas cotidianas, e parece representar uma ameaça ainda maior à estabilidade, pois vem de fora e não respeita ou apresenta regras que possam trazer segurança à população e, principalmente, às crianças. 213 7.5. Sugestões A partir dos resultados obtidos da análise dos dados coletados no Morro dos Macacos, serão sugeridas algumas estratégias para se buscar superar parte dos problemas identificados, em especial quanto à tentativa de redução ou eliminação da violência do cotidiano das crianças. Contudo, as linhas gerais para a elaboração de uma estratégia será buscada a partir da exposição desses resultados a um conjunto de atores interessados, em primeiro lugar a partir da colaboração da própria comunidade, como também de organizações civis que atuam no Morro dos Macacos, assim como por especialistas que tomarão contato com esses resultados nos próximos meses. Ainda assim, já é possível identificar, a partir dos resultados obtidos, os parâmetros que deverão balizar essa discussão. Nesse sentido, propõe-se que a elaboração de uma estratégia que vise criar melhores condições de vida para a infância no Morro dos Macacos, considere o que segue: Ø A mulher ocupa um lugar central na reprodução da violência na comunidade e nas famílias do Morro dos Macacos. Nesse sentido, estratégias devem incorporar tanto quanto possível a criação de melhores condições de vida para a mulher, com vistas a aumentar sua escolaridade, sua capacidade de geração de renda. Nos casos de gestação é indispensável que o acompanhamento pré-natal do serviço de saúde na comunidade se dê também de maneira deliberada considerando atitudes não-violentas das mães em relação aos recém-nascidos e filhos pequenos, tendo em vista que as maiores vítimas da violência física são meninos e meninas de dois anos de idade. Ø Como se observou um aumento da chance de a criança sofrer violência física quando almoça com os pais, sugere-se que os pais sejam abordados para, explicitamente, se falar sobre a necessidade de estabelecer momentos de convivência que sejam mais prazerosos para as crianças e os pais. Ø A ampliação do número de cômodos e dormitórios das casas deverá reduzir a possibilidade de a criança ser alvo de violência física dentro de casa. Nesse sentido, intervenções nas condições de habitação devem ser igualmente priorizadas. Ø É indispensável que o Morro dos Macacos receba mais iluminação pública, pois reduziria a possibilidade de a criança sofrer violência física. Da mesma forma, adultos e crianças ressentem de espaços de lazer acessíveis a crianças de regiões da comunidade que, hoje, não contam com tais espaços. 214 Ø Diversificação de oferta de atividades culturais, esportivas e recreativas em distintos locais da comunidade a fim de tornar mais acessível a participação de crianças e adolescentes. 8 215 Referências BOHNSACK, Ralf. Documentary method and group discussion. In: Bohnsack, Ralf; Pfaff, Nicole; Weller, Wivian (eds.), Qualitative Analysis and Documentary Method in International Educational Research. Opladen: Barbara Budrich Verlag, 2010. FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Os donos do morro. Uma avaliação exploratória do impacto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP´s) no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 2012. OLIVEIRA, Rebecca Guimarães. Adesão ao método autocoleta para rastreio de lesões precursoras do colo do útero (Dissertação de Mestrado). Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2008, 87 fls. PICCOLO, Fernanda Delvalhas. 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