PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
Centro de Análises Econômicas e Sociais (caes-PUCRS)
Relatório de Pesquisa
INFÂNCIA E VIOLÊNCIA:
Cotidiano de crianças pequenas em favelas do Rio de Janeiro
Morro dos Macacos
COORDENAÇÃO
Prof. Dr. Hermílio Santos
Financiado por
Fundação Bernard van Leer
Parceria com
Núcleo de Estudos e Projetos da Cidade (Central/PUC-Rio)
Porto Alegre, Julho de 2013
2 Equipe de Pesquisa
Coordenação:
Prof. Dr. Hermílio Santos
(caes-PUCRS)
Pesquisadores:
Prof. Dr. Adelar Fochezatto
Prof. Dr. Paulo Jacinto
Dra. Patrícia Oliveira
M.Sc. Celina de Pinho Barroso
M.A. Marcos Quadros
Psic. Priscila Queirolo Susin
Assistentes:
caes-PUCRS
Luana Barbosa
Anne Briscke
Anna Veiga
Central/PUC-Rio
Francicleo Castro Ramos (Coordenação de Campo)
Laura Braga Rossi
Tatiana dos Santos Araújo
Mariana Lopes Heleno
Yara Henriques de Azevedo Pereira
Fernanda Antunes Lopes
Tadeu Nascimento Pedro
Gabriel Holliver Souza Costa
Leonardo dos Santos Marinho
Rhayane Rodrigues
Consultoras Externas
Profa. Dra. Gabriele Rosenthal (Universität Göttingen)
Profa. Dra. Bettina Völter (Alice-Salomon Hochschule Berlin)
Profa. Dra. Michaela Köttig (Fachhochschule Frankfurt am Main)
M.A. Rosa-Maria Brandhorst (Universität Göttingen)
3 SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO ................................................................................................................................7
2
APRESENTAÇÃO DA COMUNIDADE MORRO DOS MACACOS ....................................10
2.1. UM POUCO DE HISTÓRIA ..............................................................................................................12
2.2. SAÚDE NA COMUNIDADE .........................................................................................................13
2.3. EDUCAÇÃO NA COMUNIDADE ..................................................................................................14
2.4. SEGURANÇA NA COMUNIDADE ....................................................................................................14
3 PERCEPÇÃO DE LIDERANÇAS DA COMUNIDADE E REPRESENTANTES DE
INSTITUIÇÕES ATUANTES NO MORRO DOS MACACOS ......................................................19
3.1. SÍNTESE DOS ARGUMENTOS DE LIDERANÇAS DE INSTITUIÇÕES QUE ATUAM NA COMUNIDADE
(STAKEHOLDERS): ..............................................................................................................................19
3.1.1. Análise dos argumentos das lideranças das organizações que atuam na comunidade
(stakeholders) .................................................................................................................................28
3.2. SÍNTESE DOS ARGUMENTOS DOS MORADORES ............................................................................30
3.2.1. Análise dos argumentos dos moradores...............................................................................39
4
VIOLÊNCIA E COTIDIANO NA PERCEPÇÃO DE ADULTOS E CRIANÇAS .................42
4.1. PERCEPÇÃO DOS ADULTOS ..........................................................................................................42
4.1.1. Violência em casa ...............................................................................................................43
4.1.1.1. Violência psicológica ...................................................................................................44
4.1.1.1.1. Gritar .....................................................................................................................44
4.1.1.1.1.1 Grupos de adulto ............................................................................................44
4.1.1.1.1.2. Idade da criança e frequência com que a mãe “grita” ...................................45
4.1.1.1.2. Colocar de castigo ................................................................................................46
4.1.1.1.2.1. Grupos de adulto............................................................................................46
4.1.1.1.2.2. Idade da criança que é colocada de castigo pela mãe ....................................47
4.1.1.1.2.3. Tipos de castigo praticado contra a criança ...................................................48
4.1.1.2. Violência física: bater ...................................................................................................51
4.1.1.2.1. Grupos de adultos ..................................................................................................51
4.1.1.2.1.1. Fatores relacionados com a frequência com que a mãe bate .........................52
4.1.1.2.1.1.1. Quantidade de crianças na casa ..............................................................52
4.1.1.2.1.1.2. Idade da criança ......................................................................................54
4.1.1.2.1.1.3. Sexo da criança .......................................................................................55
4.1.1.2.1.1.4. Criança que divide a cama com pai e mãe para dormir ..........................56
4.1.1.2.1.1.5. Idade das mães ........................................................................................58
4.1.1.2.1.1.6. Grau de escolaridade da mãe ..................................................................59
4.1.1.2.1.1.7. Consumo de bebida alcoólica pela mãe ..................................................61
4.1.1.2.1.1.8. Renda mensal da mãe .............................................................................62
4.1.1.2.1.1.9. Discriminando a bolsa família na renda mensal da mãe ........................64
4.1.1.2.1.1.10. Quantidade de cômodos na casa ...........................................................65
4.1.1.2.1.1.11. Quantidade de dormitórios na casa .......................................................67
4.1.1.2.1.1.12. Quantidade de banheiros na casa ..........................................................68
4.1.1.2.1.1.13. Tipo de rua ............................................................................................69
4.1.1.2.1.1.14. Existência de iluminação ......................................................................71
4.1.1.2.1.1.15. Grau de satisfação com a iluminação ...................................................73
4.1.1.2.1.2. Fatores relacionados com a frequência com que o pai bate na criança .........75
4.1.1.2.1.2.1. Frequência com que o pai dá banho e veste a criança ............................75
4.1.1.2.1.2.2. Grau de escolaridade do pai ....................................................................76
4.1.1.2.1.2.3. Consumo de bebida alcoólica pelo pai ...................................................77
4.1.1.2.1.3. Tipos de violência e atitude aceitas ...............................................................78
4.1.1.2.1.3.1. Gritar .......................................................................................................78
4.1.1.2.1.3.2. Colocar de castigo ...................................................................................80
4 4.1.1.2.1.3.3. Bater ........................................................................................................80
4.1.1.2.1.3.4. Conversar ................................................................................................81
4.1.1.2.1.4. Atitudes que caracterizam “mau-comportamento” da criança ......................82
4.1.1.2.1.4.1. Características .........................................................................................82
4.1.1.2.1.4.2. Percepção da mãe....................................................................................83
4.1.1.2.1.4.3. Frequência com que a criança se comporta mal .....................................84
4.1.1.3. Violência testemunhada pela criança em casa na percepção do adulto.......................85
4.1.1.3.1. Adulto grita com adulto na frente da criança ........................................................85
4.1.1.3.2. Adulto bate em adulto na frente da criança ..........................................................86
4.1.1.3.3 Armas de fogo na frente da criança ......................................................................86
4.1.2. Violência na comunidade.....................................................................................................87
4.1.2.1. Segurança para andar à noite ........................................................................................87
4.1.2.2. Segurança para a criança brincar fora de casa .............................................................88
4.1.2.3. Frequência com que sua casa já foi assaltada .............................................................90
4.1.2.4. Violência que o adulto fica sabendo ...........................................................................90
4.1.2.4.1. Fica sabendo de pessoas que são assaltadas .........................................................90
4.1.2.4.2. Fica sabendo de casas que são assaltadas ............................................................91
4.1.2.4.3. Fica sabendo de assaltos no comércio ..................................................................92
4.1.2.4.4. Fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade ............................92
4.1.2.5. Violência testemunhada pelo adulto ...........................................................................93
4.1.2.5.1. Ouve tiros de armas de fogo ...............................................................................93
4.1.2.5.2. Vê policial apontando uma arma ........................................................................94
4.1.2.5.3. Vê outras pessoas apontando uma arma ..............................................................94
4.1.2.5.4. Vê alguém sendo ferido por tiro, facada ou socos .............................................95
4.1.2.5.7. Vê alguém sendo preso .......................................................................................95
4.1.2.5.8. Vê gente vendendo drogas ..................................................................................96
4.1.3. Percepção sobre os serviços públicos ..................................................................................96
4.1.3.1. Iluminação ....................................................................................................................97
4.1.3.1.1. Iluminação em frente ou próxima da moradia ......................................................97
4.1.3.1.2. Iluminação das praças...........................................................................................98
4.1.3.2. Saúde ............................................................................................................................98
4.1.3.2.1. Frequência de agentes de saúde visitam as famílias .............................................98
4.1.3.2.2. Quantidade de médicos no Posto de Saúde ..........................................................99
4.1.3.2.3. Quantidade de pediatras no Posto de Saúde .........................................................99
4.1.3.2.4. Tempo de espera por uma consulta no Posto de Saúde ......................................100
4.1.3.3. Creches .......................................................................................................................101
4.1.3.3.1. Motivos para os graus de satisfação com a creche .............................................102
4.1.3.4. Escolas ........................................................................................................................103
4.1.3.4.1. Motivos para o grau de satisfação com a escola.................................................104
4.1.3.5. Serviços de Transporte ...............................................................................................106
4.1.3.5.1. Motivos para os graus de satisfação com o transporte .......................................106
4.1.4. O que falta na comunidade ................................................................................................107
4.1.5. Balanço sobre a percepção do adulto .................................................................................109
4.1.5.1. Violência em casa .......................................................................................................109
4.1.5.1.1 Fatores relacionados à violência psicológica de gritar com a criança .................109
4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência psicológica de colocar de castigo ..................110
4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência física de bater .................................................110
4.1.5.2. Violência na comunidade ...........................................................................................114
4.1.5.3. Percepção sobre os serviços da comunidade ..............................................................115
4.1.5.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade: ...................116
4.2. ANÁLISE DE REGRESSÃO ...........................................................................................................116
4.2.1. Violência física: bater ........................................................................................................119
4.2.2. Violência psicológica: colocar de castigo ..........................................................................123
4.2.3. Violência psicológica: gritar ..............................................................................................124
4.3. PERCEPÇÃO DA CRIANÇA ..................................................................................................127
5 4.3.1. Violência em casa ..............................................................................................................127
4.3.1.1. Violência sofrida pela criança ....................................................................................127
4.3.1.1.1. Bater ....................................................................................................................128
4.3.1.1.2. Colocar de castigo ...............................................................................................128
4.3.1.1.3. Gritar ...................................................................................................................129
4.3.1.2. Violência testemunhada pela criança .........................................................................129
4.3.1.2.1. Adulto batendo em criança .................................................................................130
4.3.1.2.2. Adulto gritando com criança ...............................................................................130
4.3.1.2.3. Adulto gritando com adulto ................................................................................130
4.3.1.2.4. Adulto batendo com adulto .................................................................................130
4.3.2. Violência na escola ............................................................................................................131
4.3.2.1. Violência sofrida pela criança ....................................................................................131
4.3.2.1.1. Colocar de castigo ...............................................................................................131
4.3.2.1.2. Gritar ...................................................................................................................132
4.3.2.1.3. Bater ....................................................................................................................132
4.3.2.2. Violência testemunhada pela criança .........................................................................133
4.3.2.2.1. Criança batendo em criança ................................................................................133
4.3.2.2.1.1. Frequência por sexo da criança ...................................................................134
4.3.2.2.2. Adulto gritando com criança ...............................................................................135
4.3.2.2.3. Adulto batendo em criança .................................................................................135
4.3.3. Violência na comunidade...................................................................................................135
4.3.3.1. Gente sendo levada pela polícia .................................................................................136
4.3.3.2. Adulto batendo em crianças .......................................................................................136
4.3.3.3. Adulto batendo em adulto ..........................................................................................137
4.3.3.4. Venda de drogas .........................................................................................................137
4.3.3.5. Adulto atirando com arma de fogo .............................................................................137
4.3.3.5.1. Idade da criança com a frequência com que ela vê adulto atirando com
arma de fogo ........................................................................................................................138
4.3.4. Do que a criança mais gosta de brincar ..........................................................................139
4.3.5. O que falta na comunidade para as crianças ...................................................................141
4.3.6. Balanço sobre a percepção da criança ...............................................................................142
4.3.6.1. Violência em casa .......................................................................................................142
4.3.6.2. Violência na escola .....................................................................................................142
4.3.6.3. Violência na comunidade ...........................................................................................143
4.3.6.4. Brincadeiras mais frequentes ......................................................................................143
4.3.6.5. Percepção sobre o que falta na comunidade: ..............................................................144
4.4. CONCLUSÃO DAS PERCEPÇÕES DE ADULTOS E CRIANÇAS ........................................................144
4.4.1. Percepção do adulto ...........................................................................................................144
4.4.1.1. Violência em casa .......................................................................................................144
4.4.1.1.1 Tipos de violência e atitude aceitas pelos adultos ................................................147
4.4.1.1.2. Percepção do adulto sobre o mau comportamento da criança ............................147
4.4.1.1.3 Violência praticada na frente da criança pelo adulto ..........................................147
4.4.1.2. Violência na comunidade ..........................................................................................148
4.4.1.2.1. Violência testemunhada .....................................................................................148
4.4.1.2.2. Violência que ficou sabendo ..............................................................................149
4.4.1.2.3. Graus de satisfação com a segurança, transporte, saúde,
iluminação e educação ........................................................................................................149
4.4.1.2.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade ...........150
4.4.2 Percepção da criança de 6 a 8 anos ....................................................................................150
4.4.2.1 Violência em casa .......................................................................................................150
4.4.2.1.1 Violência sofrida ..................................................................................................150
4.4.2.1.2 Violência testemunhada .......................................................................................151
4.4.2.2 Violência na escola .....................................................................................................151
4.4.2.2.1 Violência sofrida .................................................................................................151
4.4.2.2.2 Violência testemunhada ......................................................................................151
6 4.4.2.2.3. Violência na comunidade ...................................................................................152
4.4.2.3 Brincadeiras mais frequentes ......................................................................................152
4.4.2.4 Percepção sobre o que falta na comunidade ...............................................................152
5
ANÁLISE DOS GRUPOS DE DISCUSSÃO COM ADOLESCENTES NO
MORRO DOS MACACOS ...............................................................................................................154
5.1. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO ..............................................................................................154
5.2. PASSOS DA ANÁLISE ..................................................................................................................155
5.3. GRUPO DE DISCUSSÃO MASCULINO NO MORRO DOS MACACOS ...............................................156
5.3.1. Interpretação formulada .....................................................................................................156
5.3.2. Interpretação reflexiva .......................................................................................................165
5.3.2.1. Violência banalizada e desamparo institucional.........................................................165
5.3.2.2. Os conflitos familiares são muito presentes na vida dos jovens e
envolvem violência, negligência e sentimentos de abandono. ................................................169
5.3.3. Considerações finais ..........................................................................................................171
5.4. GRUPO DE DISCUSSÃO FEMININO NO MORRO DOS MACACOS ..................................................172
5.4.1. Interpretação formulada .....................................................................................................172
5.4.2. Interpretação reflexiva ......................................................................................................179
5.4.2.1. Vida na comunidade sob a sombra do abuso institucional e violência de homens ....179
5.4.2.2. Vida familiar e carga mais pesada das mulheres ........................................................184
5.4.3. Considerações finais ..........................................................................................................190
6
ANÁLISE DA DINÂMICA COM GRUPO DE CRIANÇAS NO
MORRO DOS MACACOS ...............................................................................................................192
6.1. REFERENCIAL METODOLÓGICO .................................................................................................192
6.2. ANÁLISE RECONSTRUTIVA DO DISCURSO ..................................................................................193
6.3. GRUPO DE CRIANÇAS DO MORRO DOS MACACOS .....................................................................194
6.3.1. Apresentação dos desenhos temáticos ...............................................................................195
6.3.2. Breve descrição da dinâmica .............................................................................................199
6.3.3. Análise de trechos escolhidos ............................................................................................201
6.3.3.1. Resumo do trecho 1 ....................................................................................................201
6.3.3.1.1. A recomposição familiar é uma temática muito presente no discurso e no
cotidiano das crianças. ........................................................................................................202
6.3.3.2. Resumo do trecho 2 ....................................................................................................202
6.3.3.2.1. Existe familiaridade das crianças com as regras de convivência ditadas pelo
tráfico no morro. .................................................................................................................204
6.3.3.2.2. O “caveirão” é visto pelas crianças como fonte de grande violência na
comunidade. ........................................................................................................................204
6.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................................205
7
CONCLUSÃO ..............................................................................................................................206
7.1. A VISÃO DE LIDERANÇAS LOCAIS E DE DIRIGENTES DE ORGANIZAÇÕES QUE ATUAM NA
COMUNIDADE ................................................................................................................................... 206
7.2. A PERCEPÇÃO DE ADULTOS E CRIANÇAS SOBRE A VIOLÊNCIA NA COMUNIDADE .....................208
7.2.1. Percepção de adultos ..........................................................................................................208
7.2.1.1. Chance da criança sofrer violência (análise de regressão) .........................................210
7.2.2. Percepção das crianças (6 a 8 anos de idade) ....................................................................211
7.3. A PERCEPÇÃO DE ADOLESCENTES (MENINAS E MENINOS).....................................................211
7.4. DISCUSSÃO COM CRIANÇAS .......................................................................................................212
7.5. SUGESTÕES ................................................................................................................................213
8
REFERÊNCIAS ...........................................................................................................................215
1
7 Introdução
Apresentamos aqui o relatório da pesquisa realizada pelo caes-PUCRS (Centro de
Análises Econômicas e Sociais da PUCRS), com apoio da Central/PUC-Rio (Núcleo de
Estudos e Pesquisas da Cidade da PUC-Rio) para a coleta dos dados, com financiamento da
Fundação Bernard van Leer. A Fundação Bernard van Leer, sediada em Haia (Holanda),
dedica-se a apoiar iniciativas capazes de reduzir a violência contra crianças pequenas, ou seja,
de 0 a 8 anos de idade, como estratégia de permitir que o desenvolvimento das crianças de dê
sem os constrangimentos e impactos da violência em suas mais diversas manifestações.
A presente pesquisa foi realizada em cinco favelas do Rio de Janeiro (Morro da
Formiga, Morro dos Macacos, Parque Maré, Vila Cruzeiro e Minha Deusa) e em uma favela
de Duque de Caxias (Mangueirinha), envolvendo a participação de uma equipe
multidisciplinar das áreas de sociologia, economia, psicologia, ciência política e urbanismo,
com o objetivo de compreender os mais diversos aspectos do cotidiano das crianças vivendo
em favelas, principalmente sua relação com os diferentes tipos de violência. Neste volume,
apresentamos a análise dos dados coletados no Morro dos Macacos, situada no bairro Vila
Isabel, na cidade do Rio de Janeiro, cujos dados foram coletados ao longo do mês de outubro
de 2012.
Buscamos, aqui, obter um diagnóstico detalhado sobre a vida das crianças de 0 a 8
anos de idade no Morro dos Macacos, explorando em especial suas experiências de violência
em casa, nas ruas da comunidade e na escola, partindo da percepção de diversos atores, como
lideranças da comunidade, representantes de organismos que prestam serviços na
comunidade, adolescentes, pais e familiares de crianças pequenas, além das próprias crianças.
Para que fosse possível dar conta do objetivo principal da pesquisa, foram utilizados diversos
instrumentos, qualitativos e quantitativos, levantando as seguintes questões:
Ø O perfil socioeconômico da comunidade, considerando o número de habitantes
por domicílio, tipo de domicílio, estrutura etária, emprego, renda e nível
educacional, entre outros.
Ø A estrutura urbana da comunidade, considerando a caracterização das ruas,
quadras, provisão de serviços de água, transporte, iluminação e saneamento.
Ø A estrutura de serviços públicos ou privados de cuidados para crianças.
Ø A estrutura dos serviços públicos de segurança, educação, saúde e assistência.
8 Ø Comportamento familiar de apoio às crianças (por exemplo, percentual de
famílias que praticam reorientação disciplinar de comportamentos indesejáveis
sem o uso de punição física ou psicológica).
Ø O uso de redes sociais e infraestrutura de saúde, educação e lazer.
Ø O tipo de organização civil na comunidade.
Ø A frequência, tipo e autores de abuso contra crianças.
Ø Os tipos de violência que são aceitos e rejeitados na comunidade,
especialmente entre os pais de crianças pequenas.
Ø Os modelos de papéis sociais entre meninas e meninos adolescentes que vivem
na comunidade.
Ø As características dos lugares preferidos pelas crianças na comunidade e os
lugares que eles preferem evitar.
Em primeiro lugar, o relatório traz uma breve apresentação do Morro dos Macacos
para, em seguida, resumir as opiniões manifestadas por lideranças locais e por dirigentes ou
trabalhadores de organizações que atuam na comunidade, obtidas em entrevistas
semiestruturadas. Em seguida, apresentamos a análise dos questionários aplicados a pais ou
cuidadores de crianças pequenas e às próprias crianças de 6 a 8 anos residentes na
comunidade. A partir destes dados foi realizada análise de regressão, com vistas a oferecer
uma análise adicional acerca da probabilidade de crianças pequenas do Morro dos Macacos
serem alvos de violência, física ou psicológica.
O presente relatório traz ainda a análise de grupos de discussão realizados com
adolescentes, meninos e meninas em grupos separados, para discutir sua experiência cotidiana
de quando eram crianças e de sua experiência atual na comunidade. Apresentamos também a
análise da discussão realizada com um pequeno número de crianças, que, a partir de desenhos
realizados por elas mesmas, falaram livremente sobre aspectos da vida na comunidade. Além
disso, serão apresentadas narrativas biográficas com o objetivo de analisar como diferentes
gerações de uma mesma família lidam com a violência, em casa e na comunidade.1
O relatório traz ao final uma breve conclusão de toda a pesquisa, assim como algumas
sugestões de estratégias para futuras intervenções que, potencialmente, podem fazer com que
a infância seja vivenciada sem a presença de qualquer tipo de violência na comunidade
analisada. Estas sugestões serão ainda apresentadas e discutidas com representantes da própria
1
A análise de narrativas biográficas será publicada em separado, no Volume Síntese, que trará as conclusões.
9 comunidade, com dirigentes de organizações civis atuantes na região e com pesquisadores
acadêmicos da área.
2
10 Apresentação da comunidade Morro dos Macacos
A favela do Morro dos Macacos está localizada na região norte da cidade do Rio de
Janeiro, fazendo parte do famoso bairro de Vila Isabel2. A localidade está assentada em uma
fração muito visada da cidade, uma vez que o estádio do Maracanã, importante símbolo
brasileiro, fica próximo aos limites do bairro.
Figura 1: Vista aérea do Morro dos Macacos
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u639560.shtml
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a
favela possui uma população de 5.069 habitantes. Destes, 848 (ou 16,9%) estão incluídos na
faixa etária de até 8 anos de idade. A comunidade é composta por 1.383 domicílios
oficialmente contabilizados3. A média de moradores por unidade domiciliar é de 3,67, ao
passo que, no bairro de Vila Isabel, é de 2,70 e, na totalidade do município, alcança a casa dos
2
O bairro é conhecido nacionalmente devido à escola tradicional de Samba Unidos de Vila Isabel, que,
entretanto, não está localizada no Morro dos Macacos. O perfil social dos moradores aproxima-se dos padrões da
classe média brasileira, ficando os pobres concentrados nos morros que compõem o bairro.
3
No entanto, a existência de mais residências não seria surpresa, uma vez que as construções são irregulares e
seguem padrões de progressão difíceis de serem mensurados.
11 2,93. A distribuição das residências ocorre em um terreno bastante íngreme, característica
comum entre as favelas cariocas.
Figura 2: Vista parcial das habitações do Morro dos Macacos
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/favelas-do-rio-terao-novo-periodo-de-reurbanizacao-com-morar-carioca-2721246
Em torno de 49% das famílias no Morro dos Macacos possuem mais de três membros,
e os indicadores de renda são claramente insatisfatórios: 33% das famílias possuem renda per
capita de até metade de um salário mínimo (R$ 311 ou cerca de US$ 150) e 47% obtêm renda
per capita de até um salário mínimo (R$ 622 ou cerca de US$ 3004). Ainda no que diz
respeito a esse indicador, apenas 3% das famílias da comunidade recebem dois ou mais
salários mínimos per capita (se considerarmos a totalidade da cidade do Rio de Janeiro, o que
inclui outras favelas, esse índice chega a 38%, sendo que 63% dos domicílios do bairro de
Vila Isabel estão incluídos nessa faixa de renda).
Com efeito, a pobreza e os sinais que lhe acompanham – como a precariedade da
infraestrutura – ficam evidentes na figura abaixo, que flagra um aspecto interno da favela.
4
Em janeiro de 2013 o valor do salário mínimo foi alterado pelo governo federal, passando a somar R$ 678
(cerca de US$ 330). Os índices de renda aqui apresentados são anteriores a essa mudança.
12 Figura 3: Aspecto interno da favela, com destaque para a improvisação das instalações elétricas.
Fonte: http://www.pop.com.br/popnews/noticias/brasil/443314Rio_de_Janeiro_instala_sistema_de_alerta_sobre_riscos_de_deslizamento_no_Morro_dos_Macacos.html
2.1. Um pouco de história
Conforme relatos dos moradores mais antigos, a comunidade teve origem quando
alguns guardas do antigo parque jardim zoológico que havia nas proximidades decidiram
construir casas de zinco no morro, a fim de impedir sua ocupação irregular. Com o tempo,
porém, estes funcionários passaram eles próprios a fixar residência com suas famílias no
morro, inaugurando a ocupação irregular que a priori deveriam combater.
Por conta do citado parque zoológico, o morro ficou conhecido inicialmente como
Parque Vila Isabel, passando a chamar-se Morro dos Macacos devido ao grande número de
primatas que viviam no local. Assim, ainda que o “Complexo dos Macacos” abrigue duas
outras favelas, foi a localidade pesquisada que recebeu o batismo de Morro dos Macacos.
O depoimento de uma moradora antiga, entrevistada por Picollo (2009) sintetiza a
história da formação da favela:
Quando eu cheguei aqui tinha algumas pessoas que moravam, a
maioria eram funcionários do Parque, eram os guardas florestais, para
não deixarem ocupar o morro mesmo. As pessoas que vinham de fora,
como eu que cheguei, comprei de um funcionário, que tinha um
13 barraquinho aqui. Aí ele vendeu uma parte dele pra mim, arranjou
uma briga, precisou fugir. E os outros eram guardas, trabalhavam no
Parque e moravam aqui próximo mesmo, como quem tomasse conta,
mas eles mesmos ajudaram a encher o morro (PICOLLO, 2009, p.
92).
Para além da gênese da favela, nas linhas seguintes procuraremos mapear alguns dos
temas importantes para os moradores na atualidade.
2.2.
Saúde na comunidade
O primeiro elemento que influencia as condições de saúde dos moradores do Morro
dos Macacos é o acúmulo de lixo nas ruas da favela, fato que facilita a proliferação de
animais transmissores de doenças, o mau cheiro e a contaminação do solo. Este aspecto, que,
como veremos, foi alvo de reclamações por parte dos moradores e dos stakeholders
entrevistados, vem merecendo atenção por parte do poder público.
Nesse sentido, em maio de 2012 a prefeitura do município materializou o programa
“Vamos combinar uma comunidade mais limpa”, cujas medidas englobam a coleta diária do
lixo através de 132 contêineres distribuídos pelo morro. Ainda que o problema tenha sido
detectado, a efetividade da iniciativa é coloca em xeque por alguns atores entrevistados nesta
pesquisa.
No que diz respeito aos aparatos de saúde, a comunidade dispõe de apenas um posto
de saúde, o Posto de Saúde Parque Vila Isabel, o que parece insuficiente para uma população
que supera o número de cinco mil pessoas. Tal situação é parcialmente amenizada à medida
que os governos atuam através do Programa de Saúde da Família (PSF), no qual equipes de
profissionais de saúde visitam regularmente os domicílios da favela para prevenir quadros de
enfermidade grave, monitorando pacientes e orientando moradores sadios acerca de noções
básicas de higiene, vacinação, nutrição e hábitos de vida5.
5
Um interessante relato das ações desenvolvidas pelo PSF no Morro dos Macacos pode ser visto na dissertação
de mestrado de Oliveira (2008), que acompanhou esse trabalho durante seis meses.
2.3.
14 Educação na comunidade
A comunidade do Morro dos Macacos dispõe de três unidades escolares: a Escola
Municipal Jornalista Assis Chateaubriand, o CIEP Salvador Allende e a Escola Municipal
Mário de Andrade. Embora apenas as duas primeiras escolas citadas fiquem localizadas de
fato no interior da comunidade (ambas têm sede na rua Armando de Albuquerque), poderia se
supor que, somadas, as três instituições atendam razoavelmente a demanda de educação
formal suscitada pela comunidade.
Ademais, merece atenção o fato de que o CIEP, fundado em 1986, é projetado para
oferecer educação em tempo integral6, atendendo atualmente a 240 alunos. Se considerarmos
que a instituição possui turmas até a quinta série do ensino fundamental, fica claro que boa
parte das crianças pequenas da comunidade teriam condições de desfrutarem do espaço.
Contudo, a exemplo do que ocorre em outras comunidades cariocas, importa ressaltar
que as três escolas do morro disponibilizam apenas o acesso à educação infantil e ao ensino
fundamental. Logo, os jovens moradores que almejam progredir na trajetória escolar através
do ingresso no ensino médio necessariamente terão que procurar escolas localizadas fora da
comunidade.
Já para a educação extraescolar das crianças, o morro possui entidades como creches e
o Centro Cultural da Criança. Dentre as creches, merece destaque a Patinho Feliz, que atende
a 170 crianças de até quatro anos de idade em horário integral, oferecendo cinco refeições. O
Centro Cultural da Criança, por sua vez, destina-se sobretudo ao desenvolvimento de
atividades lúdicas e de interação para crianças entre 4 e 10 anos. O Centro possui espaços
como biblioteca e brinquedoteca, e seus profissionais ministram vários cursos para as crianças
contempladas (inglês, expressão corporal, música, etc.).
2.4. Segurança na comunidade
A vida cotidiana dos moradores do Morro dos Macacos sofre influxo considerável da
violência e do tráfico de drogas, conforme percebemos através dos dados colhidos junto à
comunidade. A atuação do crime organizado e as mazelas daí decorrentes são problemas que
6
O projeto dos CIEP´s foi idealizado pelo ex-governador Leonel Brizola, que pretendia manter as crianças na
escola durante todo o dia, incrementando o currículo com atividades recreativas, esportivas e cursos
diversificados.
15 apenas começam a ser enfrentados seriamente com a implantação de uma Unidade de Polícia
Pacificadora (UPP) no morro.
A instalação da UPP ocorreu em 30 de novembro de 2010, contando hoje com um
efetivo de 222 policiais.
Figura 4: Sede da UPP instalada no Morro dos Macacos
Fonte: http://extra.globo.com/casos-de-policia/trafico-obriga-comerciantes-fornecer-carteiras-de-trabalho-para-criminosos-6132916.html
No quadro a seguir, pode-se vislumbrar que os crimes violentos diminuíram
sensivelmente na região após a instalação da UPP:
Tabela 1: Vítimas de Morte Violenta no entorno de Macacos de acordo com o raio em volta
da comunidade, antes e depois da instalação da UPP
UPP
250
500
1000
1500
Cidade do
Macacos
metros
metros
metros
metros
Rio de
Janeiro
Pré-UPP
4
5
13
23
1.671
Pós-UPP
1
2
6
16
1.237
DIF.
-3
-3
-7
-7
-434
Fonte: Instituto de Segurança Pública (ISP)
Nota: Período de Análise: Pré-UPP – Novembro/2009 a Junho/2010; Pós-UPP – Novembro/2010 a Junho/2011.
16 Porém, ao contrário do que ocorre com as mortes violentas, as incidências de casos de
violência doméstica apresentaram crescimento desde a inauguração da UPP nos Macacos.
Figura 5: Vítimas de Violência Doméstica e Familiar no entorno de Macacos de acordo com o raio em volta da
comunidade, antes e depois da instalação da UPP
Fonte: Instituto de Segurança Pública (ISP) Nota: Período de Análise: Pré-UPP – Novembro/2009 a Junho/2010; Pós-UPP – Novembro/2010
a Junho/2011.
Do exame destes dois indicadores emerge a seguinte questão: por que a presença da
UPP na comunidade provoca um resultado dúbio, diminuindo os índices de morte violenta e
simultaneamente elevando os casos de violência doméstica? A resposta parece residir em dois
vetores.
De um lado, a queda dos homicídios e demais crimes contra a vida pode ter sido
desencadeada pela relativa expulsão do crime organizado. Ainda que a atuação do tráfico
persista em alguma medida, o efetivo controle territorial passou às mãos da polícia, que
substituiu a “ordem” imposta pelos traficantes. Desprovidos dos instrumentos que lhes
asseguravam um domínio social sobre a comunidade, os traficantes ficaram impedidos de
realizar os “acertos de conta” junto aos seus inimigos e de promover os julgamentos sumários
daqueles que infligiam suas determinações, julgamentos estes que geralmente se consumavam
com a execução do “transgressor”.
Por outro lado, o aumento dos casos de violência doméstica pode espelhar um
acréscimo dos registros destes casos nas delegacias e não o aumento dos crimes em si. Em
17 estudo desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, consta um diagnóstico
bastante similar. Conforme o texto, “o efeito pode ser devido a dois elementos: a) uma
diminuição do sub-registro devido à presença da polícia e ao menor medo a denunciar; b) a
ausência do controle social autoritário dos grupos criminosos pode se traduzir num aumento
real dos crimes não armados e daqueles decorrentes dos conflitos do cotidiano” (FÓRUM...,
2012, p. 105).
Com efeito, a percepção de insegurança na comunidade parece ter diminuído
consideravelmente. Segundo uma moradora entrevistada pelos pesquisadores do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública:
Então, também você não vê mais mortes, né? Porque uns três anos
atrás o lado que eu morava era um lado, assim, que cheirava a sangue,
sabe? Que você sentia aquela comunidade obscura, sentia cheiro de
sangue na comunidade. Mesmo que não tivesse você sentiria assim
que a qualquer momento aconteceria alguma coisa. Nossa! Morreram
muitos jovens, muito. E muitas marcas de tiro! (...) Então morriam
muitos meninos, de você escutar gritar ― não me mata! (FÓRUM...,
2012, p. 113)
O depoimento de outro morador explica como a percepção de segurança altera
diretamente a vida cotidiana:
Hoje a gente vê que algumas coisas, mudando né, até mesmo a
liberdade, entendeu? Agora a gente tem mais liberdade de transitar,
entendeu, nos lugares. Em certos lugares, como aqui (Idem, p. 113).
Esta alteração – que, de acordo com o morador citado, produz efeitos reais para a
comunidade – foi referida também por pessoas com as quais mantivemos contato, o que nos
permite inferir que as ações de combate à criminalidade vem obtendo suporte por parte da
população.
Contudo, a ausência do crime organizado provoca outros problemas:
Todo dia eu desço e eu olho aqui pra ver se está tudo no lugar. Eu
durmo, e de manhã cedo ―ai, meu Deus, será que alguém invadiu (a
loja que tem dentro da favela)?ǁ‖ [Entrevistador: Você tem medo?]
Sério, tenho. Essa semana já entraram no bar do senhor ali da frente,
já levaram as coisas dele. Ele deixa sempre um trocado para o
sobrinho dele abrir de manhã. E depois que vieram pra cá, a Unidade
de Polícia Pacificadora, o que mais acontece é isso, assalto nas casas,
nos comércios. O que mais tá tendo é isso (ibidem, p. 115).
18 Em decorrência disso, é plausível argumentar que as ações sociais que ordinariamente
acompanham as UPP’s precisam ser intensificadas na favela, a fim de que a eventual atração
do crime organizado sobre parcelas da comunidade seja permanentemente eliminado.
3
19 Percepção de lideranças da comunidade e representantes de instituições atuantes no
Morro dos Macacos
Após termos realizado um breve mapeamento da favela e dos temas relevantes para a
comunidade, identificaremos a seguir as percepções dos próprios moradores, bem como dos
principais atores sociais (stakeholders) com interesses diretos ou indiretos nas áreas de
infância e violência.
Com base nos depoimentos dos moradores, procurou-se compreender sua visão sobre
o lugar que habitam e as práticas ali efetivadas, e através das entrevistas com os stakeholders
(instituições que atuam na comunidade), buscou-se obter a percepção daqueles que trabalham
diariamente em contato direto com a realidade local. Como complemento à abordagem acerca
dos problemas gerais enfrentados pela favela, enfatizou-se a díade infância/violência. Para
evitar eventuais constrangimentos para os entrevistados, optou-se por substituir os nomes
verdadeiros por nomes fictícios.
Todas as entrevistas foram gravadas com a anuência dos entrevistados, sendo
conduzidas com base no seguinte roteiro:
⇒ Histórico do envolvimento do entrevistado com a comunidade e, no caso dos
stakeholders, natureza do trabalho que realizam;
⇒ Percepção a respeito daqueles que considera os principais problemas enfrentados pelos
moradores e pelas crianças na favela;
⇒ Percepção acerca das características dos arranjos comunitários e das instituições
(governamentais e da sociedade civil) que atuam na favela;
⇒ Percepção a respeito das incidências de violência na comunidade, enfatizando as
crianças;
⇒ Propostas para melhorias no futuro.
3.1. Síntese dos argumentos de lideranças de instituições que atuam na comunidade
(stakeholders):
Foram realizadas as seguintes entrevistas:
20 01 – Ângela, dirigente de ONG
02 – Suzana, coordenadora de escola;
03 - Nilza, funcionária da área de saúde;
04 – José, policial militar, atua na UPP;
05 – Danilo, membro de ONG;
06 - Renata, atua em projeto ambiental.
Ângela, dirigente de ONG.
Argumentos: Relata que sua interação com a comunidade começou desde que foi morar no
Morro. Conta que a situação de vida era muito complicada, o que levou os vizinhos a criarem
uma Associação de Moradores. Acredita que a educação é o principal problema da
comunidade atualmente. Relata que as lideranças não são muito respeitadas, principalmente
desde que a violência começou a imperar (informa que, a partir de então, a própria eleição
para a Associação de Moradores passou a perder um pouco a credibilidade). Afirma que as
pessoas ligadas às escolas e aos postos de saúde têm um papel importante e são respeitadas na
comunidade. Critica o projeto Dom Pixote por não oferecer espaço para uma creche. Cita
Célia Fernandes como uma pessoa que realiza um trabalho muito responsável. Relata que as
organizações da comunidade têm convênios com alguns órgãos governamentais. Afirma que
sempre houve violência e que continua havendo, e acredita que, atualmente, a situação esteja
ainda pior. Conta que as pessoas não sabem se ficam do lado dos policiais ou dos moradores
“transviados”, fora da lei. Diz que procura ficar isenta ao máximo em relação a escolher um
destes lados e que não tem como lutar contra a violência. Acredita que essas pessoas talvez
não tivessem oportunidades quando eram crianças, pois o morro era muito abandonado.
Relata ainda haver muita fome na comunidade. Conta que conseguiu criar seus filhos na
comunidade longe dos crimes e que muitas outras pessoas também conseguiram. Diz ficar
angustiada quando vê turmas de crianças e adolescentes fora da escola, mas que é complicado
ajudar estes jovens. Acredita não haver vinculações partidárias nas organizações da
comunidade, mas diz existir um vínculo com a Igreja Católica, apesar de ser sutil. Diz que a
falta de estrutura das famílias é um dos principais problemas para as crianças. Relata haver
muita necessidade e violência familiar, como o abandono. Conta que as mães saem para
trabalhar e os filhos ficam sozinhos. Sente que as crianças ficam felizes quando as mães
participam de eventos realizados pelo Centro Comunitário. Acredita que iniciativas como o
Bolsa Família estão ajudando a melhorar esta situação, mas também vê o programa como algo
21 que acomoda as pessoas. Conta que os moradores da comunidade não reagem em relação à
violência entre homem e mulher. Conta que, com a UPP, os casos de violência contra crianças
passaram a ser mais conhecidos. Muitos casos de abuso sexual começaram a aparecer. Diz
que encaminha casos de violência infantil ao Conselho Tutelar, que procura ajudar as vítimas.
Relata perceber na creche muito descaso das mães com as crianças. Acredita que ainda é
preciso fazer muito trabalho com as crianças e que deveria haver outros métodos e projetos.
Confia que a conscientização é a maneira mais efetiva de se conseguir o envolvimento da
população na solução destes problemas.
Suzana, coordenadora da escola.
Argumentos: Trabalha há cinco anos em escola localizada na comunidade. Conta que os
conflitos com a comunidade rival de São João e destas duas comunidades com a Polícia
chamaram a sua atenção quando começou a trabalhar na escola. Relata que, naquele período,
era muito arriscado conduzir as aulas. Atualmente, acredita que o principal problema é o
baixo acesso à cultura e à educação. Relata que apenas a escola é respeitada dentro da
comunidade, ao contrário da UPP, das ONG’s e do hospital. Diz não compreender o vínculo
entre as organizações da comunidade e os órgãos governamentais, mas afirma ser uma relação
explícita. Nas organizações da comunidade, acredita que existe uma preocupação em trabalhar
na recuperação de crianças, mas que não vê uma melhora nos alunos por fazerem parte destes
projetos. Diz não ver mais casos de violência que a UPP se propôs a combater, mas que as
pessoas ainda ouvem relatos de alguns fatos que acontecem. Conta que violência entre
“pares”, como pais, irmãos, colegas, ainda é algo aflitivo, mas enxerga isso como a maneira
pela qual a comunidade se relaciona culturalmente. Relata não perceber vinculações
partidárias ou religiosas nas principais ONG’s da comunidade. Acredita que a falta de cultura
dos pais, a pobreza e a falta de saneamento são fatores que interferem negativamente no dia a
dia das crianças. Enxerga a agressão como o principal tipo de violência doméstica. Relata que
os moradores reagem com conformidade a casos de violência, pois isso está inserido em sua
cultura. Diz não conhecer casos de violência contra idosos. Conta que, como profissional, faz
a abordagem e o encaminhamento de crianças que sofrem violência, além de conversar com
os pais quando não se tratam de casos extremos, com necessidade de intervenção do Conselho
Tutelar. Acredita que os pais precisam entender o sentido de participar da vida das crianças.
Exemplifica que poucos pais comparecem às reuniões na escola. Opina que as crianças
deveriam ficar mais tempo na escola sem precisar ir para a casa entre um turno e outro.
22 Nilza, funcionária municipal da área da saúde.
Argumentos: Conta que sua relação com a comunidade teve início durante sua graduação,
quando fez um estágio no Morro dos Macacos. Relata ter muita afinidade com a comunidade
e entender que o trabalho a ser realizado não pode ser imediato. Acredita haver a necessidade
de outros profissionais especializados, como nutricionista, devido aos problemas nutricionais
de pessoas da comunidade, e sociólogos, que poderiam proporcionar outras opções aos
moradores. Identifica a questão do lixo – “humano e social” – como o principal problema da
comunidade. Acredita que as pessoas não têm consciência do lixo que produzem e que isso
desencadeia problemas de saúde. Afirma haver muita violência infantil, mas acredita que a
Vila Olímpica consegue fazer com que muitas crianças e jovens se mantenham ocupados e
tenham mais oportunidades. Acredita que esta violência vem do âmbito familiar. Relata que a
comunidade não está acostumada com regras e tem dificuldade com hora marcada. Relata que
as pessoas estão passando por um momento de conflito social muito grande, mas que prefere
não falar sobre o assunto, por tentar se manter sempre neutra. Destaca a fundadora do
CEACA, Dona Ana, como uma das pessoas mais respeitadas e admiradas pela comunidade,
além da assistente social Ângela. Quanto a entidades, acredita que o CEACA seja bastante
respeitado. Comenta também sobre o Dom Pixote, que também conseguiu o respeito da
comunidade. Não vê problema na relação entre as organizações da comunidade e as
organizações do governo, pois os trabalhos realizados se completam. Afirma que, quando uma
criança cresce feliz, torna-se um adulto saudável. Conta um pouco de sua história, destacando
que, mesmo tendo sido abandonada pelos pais, e que sua família adotiva não tivesse muitas
condições financeiras, conseguiu fazer faculdade, pós-graduação e mestrado. Acredita que os
pais da comunidade não têm a preocupação de incentivar as crianças a estudar. Relata que
muitas adolescentes engravidam porque isso garante “regalias” dentro da escola, como a
possibilidade de não realizar provas. Acredita que as pessoas da comunidade não pensam no
futuro, que as crianças “não têm perspectivas”, e isso a preocupa. Acha que as organizações
não têm tempo para pensar a respeito disso, devido à demanda que têm. Diz não existir
vinculação partidária ou religiosa com as ONG’s da comunidade. Acredita que uma escola
onde as crianças pudessem ficar o dia inteiro, realizando diferentes atividades, poderia
auxiliar a reduzir os problemas que as crianças enfrentam no cotidiano e possibilitaria que as
mães trabalhassem. Identifica a violência doméstica – física e, principalmente, moral – como
a que as crianças mais sofrem. Diz que é comum uma mãe chamar seus filhos por palavrões.
Relata que a comunidade reage com mais indignação nos casos de violência contra crianças e
23 adolescentes; contra idosos e entre homem e mulher, é algo considerado comum. Afirma que,
se soubesse de algum caso de violência, iria fazer algo a respeito. Acredita que os líderes
comunitários são capazes de mobilizar as pessoas. Diz que já existem vários grupos na
unidade, como de idosos, hipertensos e adolescentes, mas que estes grupos deveriam ser ainda
maiores. Também acha que os profissionais precisam ser mais comprometidos e que a
estrutura da unidade precisa ser melhorada.
José, policial militar, atua na UPP.
Argumentos: Trabalha há dois anos na comunidade, na área de saúde, e diz ser muito
envolvido com os projetos sociais da UPP. Relata que a parte social tem crescido muito na
comunidade, tanto em relação a atividades – como esportes, ginástica, artes marciais e música
– quanto em relação a eventos – como casamentos e festas de 15 anos. Afirma que o que mais
lhe chamou a atenção quando começou a trabalhar na comunidade foi a rejeição da população,
que não aceitava a presença de policiais. Atualmente, considera a situação um pouco melhor.
Identifica a falta de saneamento como o principal problema do local. Acredita que os policiais
são respeitados pela comunidade, além dos comerciantes, dos professores e dos profissionais
da saúde. Relata que são feitas reuniões entre organizações da comunidade e órgãos
governamentais para a solicitação de materiais e de melhorias. Afirma que as crianças são o
foco das organizações, destacando o trabalho realizado pela Vila Olímpica. Explica que o
trabalho da UPP não é imediato, que não há como quebrar uma cultura em tão pouco tempo.
Em relação à violência, destaca agressões sofridas por mulheres e afirma que, atualmente,
parte das vítimas já consegue denunciar os agressores. Não sabe dizer se há vinculações
partidárias ou religiosas nas organizações da comunidade. Acredita que o excesso de
liberdade e a falta de limites são os principais problemas que interferem na vida cotidiana das
crianças da comunidade. Identifica a violência entre homem e mulher como a mais frequente
na comunidade, inclusive sendo considerada normal pelos moradores. Relata não lembrar de
casos graves de violência contra crianças e adolescentes, nem contra idosos. Acredita que
tentar levar os moradores para o lado da UPP é a melhor maneira de obter o envolvimento da
comunidade na solução de problemas, mostrando que a polícia está mudando e que tem como
objetivo auxiliar. Relata que já há vários projetos sendo realizados com as crianças, mas que
poderia haver mais atividades voltadas para as meninas, como dança.
24 Danilo, integrante do projeto cultural
Argumentos: Conheceu a comunidade através do projeto, que descobriu pela internet. Conta
que o projeto do qual participa tem a proposta de ajudar os alunos a se manter nas escolas e
que trabalha a educação através de danças, brincadeiras, jogos, etc. Exemplifica com o
“sistema das mandalas”, onde são trabalhados os saberes escolares e comunitários. Relata que
a vontade dos pais de que os filhos “tomem algum caminho e tenham mais possibilidades”,
foi o que mais lhe chamou a atenção quando começou a se envolver com a comunidade.
Explica que, dentro da comunidade, existe uma diferença social: “a comunidade é quase uma
outra cidade. Quem mora do lado de cá tem uma dificuldade financeira maior, quem mora pra
cá já é mais tranquilo...”. Não sabe dizer qual o principal problema da comunidade atualmente
e acredita que, com a UPP, os moradores estão mais satisfeitos, mas que ainda existe medo e
“uma violência que é abafada, mas há pouco tempo a gente teve relatos de mortes
acontecendo na comunidade”. Relata que a comunidade é diversificada no sentido financeiro,
mas que tem uma identidade. No projeto em que atua, diz que percebe crianças com “carência
de algum tipo de coisa e que isso se reflete no comportamento delas”. Conta que há crianças
que vivem em áreas extremamente violentas, algumas que “acordam às 5h para chegar aqui às
8h, que passam por meio de lixo para chegar em casa, e isso influencia totalmente. A gente
sabe que essas crianças que passam por locais mais complexos são crianças que dão mais
trabalho e necessitam muito mais de atenção”. Cita Dona Ana como uma das pessoas mais
respeitadas na comunidade. Entre as organizações, destaca a Vila Olímpica. Acredita que
pessoas envolvidas em projetos são mais respeitadas. Não sabe responder se há envolvimento
entre as organizações da comunidade e os órgãos governamentais, mas relata não saber de
nenhum vínculo da Casa das Artes com o governo. Acredita que as questões da infância são
importantes para as organizações da comunidade, “até porque o trabalho geralmente é com
criança. Acho que existe uma aposta na educação mesmo, e nisso como mudança, apesar de
isso ser bem complicado hoje em dia”. Acredita que essa aposta na educação é de “tentar tirar
a criança e o adolescente desse meio violento, de dar a eles uma outra possibilidade”. Conta
que, na comunidade, as coisas tendem a ser resolvidas através da violência, tanto física quanto
verbal. Relata que o projeto não tem nenhuma vinculação partidária nem religiosa, mas diz
que existe “uma outra casa que eu acho que tem a ver com religião”. Destaca a violência, a
distância e a estrutura familiar como os principais problemas que interferem no cotidiano das
crianças, além da falta de saneamento básico. Relata que a agressão por parte dos pais e o
desrespeito são as principais formas de violência que acontecem dentro das casas da
comunidade, e conta que percebe isso através de depoimentos das crianças e do medo que
25 demonstram. Explica que, em alguns casos, existe um trabalho de terapia feito com as
famílias, através de parceiros. Não sabe dizer se a comunidade reage com mais indignação ou
conformidade a casos de violência entre homem e mulher, por nunca ter presenciado nada,
mas acha que “pelo que eu vejo também entre as crianças, não é algo aceito de forma
tranquila. Mas eu acho que, ao mesmo tempo, não se desfaz essa lógica social de que o
homem é quem estabelece as regras. Acho que tem uma indignação, mas ainda não tem uma
clareza de que eu, como mulher, posso exigir que isso não aconteça”. Acredita que os casos
de violência contra crianças e adolescentes são vistos com mais conformidade, “porque eu
acho que os pais entendem que, na educação, eles precisam bater nos filhos”. Diz não ter
conhecimento de casos de violência contra idosos. Conta que toma conhecimento de casos de
violência infantil através do que as crianças do projeto e seus pais contam. “Eu nunca vi aqui.
Dentro da Casa nenhum pai bateu em nenhum filho. A gente vê agressão verbal, e a gente
também tem que ter cuidado na hora de interferir, para não tirar a autoridade do pai”. Conclui
que, nessas comunidades que têm problemas de estrutura, qualquer projeto que tente dar conta
dessas necessidades é muito bem aceito, pois muitos pais trabalham e não querem deixar os
filhos em casa. Acredita que o diálogo é a melhor maneira de envolver a população na solução
dos problemas da comunidade. Relata que há participação no projeto, mas que não é
“totalmente ativa”. Exemplifica contando que o projeto atende a cerca de 170 crianças e que,
nas reuniões, muitas vezes nem a metade dos pais comparece. “A gente gostaria que o
envolvimento deles fosse maior, para que eles entendessem o nosso cotidiano. Por exemplo, a
gente tem o apoio da cesta básica. Então muitas vezes os pais aparecem na hora da cesta, mas,
na hora da reunião, não aparecem”. Acredita que o número de funcionários do projeto poderia
ser aumentado, e que o espaço para brincadeiras deveria ser maior. “Mas acho que a gente tá
sempre numa busca e talvez a questão maior agora seja entender como atrair também os
adolescentes, acho que a gente precisaria de um atendimento específico pra eles”.
Renata, atuante em projeto ambiental.
Argumentos: trabalha na comunidade há 20 anos. Explica que os moradores trocam o lixo
seco por alimentos no projeto em que atua e que, quem acumula 20 pontos, tem direito a uma
cesta básica. Conta que os materiais que recebem são reaproveitados, transformados em peças
de artesanato. Dez adolescentes frequentam o projeto. Relata que, quando começou a
trabalhar na comunidade, em uma creche, as crianças lhe chamaram muito a atenção. “As
crianças precisam muito de pessoas que deem amor. Muitas vezes as mães têm que sair pra
26 trabalhar e não têm com quem deixar seus filhos, tem que ter a creche. E a creche é o melhor
lugar”. Diz amar muito as crianças da comunidade. Destaca o lixo como o principal problema
atual da comunidade. Relata que, quando o projeto teve início, há cerca de quatro anos, a
comunidade era muito suja. Destaca a ONG CEACA Vila como a organização mais
respeitada na comunidade. “Essa ONG tem trinta anos e trabalha várias questões”, atendendo
a crianças e adolescentes. Diz não ter muito o que falar sobre o tipo de relação que existe
entre as organizações da comunidade com órgãos governamentais. “Por exemplo, aqui a gente
começou na raça e na força mesmo, não tivemos ajuda de ninguém”. Diz que o CEACA, o
Coletivo Coca-Cola e o Instituto Oi Futuro ajudaram a dar continuidade ao trabalho, além da
Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana). Acredita que, como os pais precisam
trabalhar e têm de deixar as crianças em algum lugar, existe a necessidade de haver mais
creches. Relata não ver muita violência na comunidade. “É claro que briga de casal tem, né.
Todo mundo briga, todo casal briga”. Diz não haver vinculação partidária nem religiosa nas
organizações da comunidade. “A gente aqui não tem esse negócio de religião. Cada um
respeita suas religiões”. Não sabe responder quais problemas interferem no cotidiano das
crianças da comunidade, pois trabalha mais com adolescentes e idosos. Quanto aos
adolescentes, relata que o fato de eles desejarem trabalhar interfere: “Eles precisam de
emprego. A maioria dos adolescentes que vem aqui ao projeto procurar um curso quer
trabalhar, porque os pais precisam que eles se ocupem, porque é bom. É importante o
adolescente ter essa iniciativa de procurar alguma coisa pra fazer”. Cita a Dona Ana como a
“avó da comunidade”. Elogia a Vila Olímpica, que tem muitas atividades. Não sabe dizer
quais as formas mais comuns de violência dentro das casas: “Isso só os pais podem falar, só
as crianças”. Também não sabe responder se a comunidade reage com mais indignação ou
conformidade nos casos de violência entre homem e mulher. Diz não saber de casos de
violência contra crianças e adolescentes, nem contra idosos, dentro da comunidade. Relata
que as crianças com as quais trabalhava na creche eram muito amorosas. Exemplifica
contando que, quando perdeu seu marido, as crianças da creche lhe ajudaram muito e eram
muito carinhosas. “Graças a Deus eu nunca vi crianças com violência”. Acredita que ir
pessoalmente nas casas e conversar com as pessoas é uma maneira eficaz de se conseguir o
envolvimento da população na solução dos problemas da comunidade. “Isso vai trabalhando a
pessoa e, quando você vê, ela tá fazendo as coisas certas, ajudando”. Na área da reciclagem,
acredita que a comunidade precisa de mais ecopontos para conscientizar as pessoas.
27 Quadro 1: Matriz de Atores Externos – stakeholders
Ator
Ângela,
dirigente de
ONG
Suzana,
coordenadora
de escola
Nilza,
funcionária
municipal na
área da saúde
José, policial
militar, atua
na UPP
Características
Moradora
antiga, conhece
o cotidiano da
favela e é muito
crítica.
Atua há cinco
anos na
comunidade e se
preocupa com o
tema da
infância.
Posicionamento
diante do tema
infância e
violência
Considera que a
violência contra
crianças ocorre na
comunidade, e que
os casos estariam
mais aparentes após
a instalação da
UPP. Cita casos,
inclusive de abuso
sexual.
Conta que violência
entre “pares”, como
pais, irmãos e
colegas, é algo
“aflitivo”, mas
enxerga isso como
a maneira que a
comunidade se
relaciona
culturalmente.
Enumera casos de
violência contra as
crianças e acredita
que a falta de
cultura dos pais, a
pobreza e a falta de
saneamento
facilitam essas
práticas.
Interesses, medos e
expectativas
Impacto
potencial
Questiona o bolsa família, que
disseminaria acomodação.
Preocupa-se com a miséria na
comunidade e com a divisão
entre a influência dos
criminosos e da polícia.
Lamenta a negligência dos pais
em relação aos filhos. Propõe
projetos de conscientização para
melhorar a educação infantil.
Alto. Se
envolve com o
tema da
infância e atua
em entidade
relevante.
O principal problema da
comunidade é o baixo acesso à
cultura e à educação. Relata o
baixo prestígio das ONG’s e da
UPP. Crianças inseridas nos
atuais projetos sociais não
apresentariam melhoras nas
escolas. Propõe escolas de
tempo integral como forma de
melhorar o cotidiano das
crianças.
Alto. Atua em
coordenação de
escola
localizada na
comunidade.
Trata com
crianças e
menciona ter
mediado casos
de violência em
conjunto com
outras
instituições.
Possui formação
acadêmica e é
muito envolvida
afetivamente
com a
comunidade.
Identifica a
violência doméstica
– física e,
principalmente,
“moral” – como a
que as crianças
mais sofrem. As
crianças do morro
“não têm
perspectivas” para o
futuro.
Preocupa-se com o excesso de
lixo na comunidade. Lamenta a
desvalorização da educação
entre os moradores. Propõe
escola de turno integral e a
inserção de profissionais como
nutricionistas e sociólogos na
favela como forma de promover
melhoras da qualidade de vida.
Atua há dois
anos no Morro e
trabalha com
projetos sociais
da UPP.
Violência é comum
e seria naturalizada
pela comunidade,
especialmente a
agressão contra
mulheres. Não
identifica
incidências graves
Falta de saneamento é o
principal problema. Entende que
a UPP e os muitos projetos
sociais existentes trazem boas
perspectivas para o futuro dos
moradores. Excesso de
liberdade e falta de limites são
os principais problemas que
Médio.
Gerencia
instituição
ligada
exclusivamente
à saúde e não
tem
envolvimento
direto com o
tema da
infância/violên
cia. Pode
assumir papel
mais relevante
em ações de
redução de
violência.
Médio. Embora
pertença à UPP
e participe de
projetos com
crianças, o
posto ocupado
na hierarquia
da PM
28 de violência contra
crianças.
Danilo,
membro de
ONG
Renata, atua
em
projeto
ambiental
Ativo na
entidade,
direciona
esforços
especialmente
para a área da
infância.
Visualiza na
violência um
instrumento
utilizado
diariamente pelos
moradores para a
resolução de
conflitos. Cita
casos de violência
contra crianças e
relata o “medo” que
elas costumam
sentir.
Está há vinte
anos na
comunidade,
coordenando
projetos
importantes para
a qualidade de
vida da
população.
Minimiza a
violência na
comunidade de um
modo geral. No que
se refere às
crianças, considera
que não apresentam
comportamento
influenciado pela
violência: elas são
“amorosas”.
interferem na vida cotidiana das
crianças no local. Propõe mais
projetos específicos para
meninas.
Considera que a UPP melhorou
a situação da violência, que
apesar disso, ainda ocorre na
comunidade. Assinala as
diferenças socioeconômicas
entre os próprios moradores. O
excesso de lixo é preocupante
para as crianças. Além da
violência, a estrutura familiar e
a falta de saneamento são os
principais problemas que
interferem no cotidiano das
crianças. Propõe mais projetos
para que os pais participem
ativamente da educação dos
filhos.
Principal problema da
comunidade é o acúmulo de
lixo. Propõe criação de creches
como forma de melhorar o
cotidiano das crianças. Valoriza
ONG’s e instituições locais, mas
propõe a criação de mais
creches. Acredita que o diálogo
e a participação dos moradores
podem proporcionar mudanças
positivas.
provavelmente
dificulte sua
capacidade de
influenciar essa
e outras
instituições.
Médio. Atua
diretamente
com crianças
carentes e
preocupa-se
com a
formação/educ
ação destas
crianças. Poder
de influenciar
outras
entidades ou
pessoas parece
ser apenas
moderado.
Alto. Está há
vinte anos na
comunidade e
trabalha em um
campo
extremamente
sensível para os
moradores.
Visita
residências e
conhece a
realidade local.
3.1.1. Análise dos argumentos das lideranças das organizações que atuam na
comunidade (stakeholders)
Os stakeholders entrevistados atuam nas mais variadas áreas: coleta e reciclagem de
lixo, educação artística, segurança, saúde e educação. Para além dessa diversidade, são
pessoas bastante envolvidas com a região e que dedicam seu tempo para servir à comunidade,
o que nos permite supor que os dados oferecem subsídios importantes para a pesquisa.
Para alguns entrevistados, o acúmulo de lixo surge como um dos problemas que mais
castigam a favela. Este aspecto – que, como veremos adiante, foi bastante explorado também
pelos moradores do morro – denuncia carências estruturais elementares, assim como a
29 ineficiência do Estado e o desleixo de parte da própria comunidade. O excesso de dejetos
produziria efeitos nocivos à saúde e à autoestima dos moradores, incluindo as crianças. Nesse
sentido, entrevistados lamentam que as crianças tenham que “passar no meio do lixo” para
chegarem a seus lares.
Além disso, a educação emerge dos depoimentos como uma demanda relevante. Ainda
que alguns entrevistados tenham valorizado o trabalho de governos e ONG’s, percebe-se que
há espaço para a
introdução de mais projetos voltados à educação. Nesse sentido,
entrevistados propõem ações que tenham como alvo a conscientização dos pais, ao passo que
outros propõem a criação de escolas em tempo integral como forma de robustecer a educação
e manter as crianças ocupadas no período em que seus responsáveis estejam ausentes.
Com efeito, encontramos referência à escassez de espaços projetados especialmente
para as crianças, sendo que alguns deles defendem um projeto específico para as meninas da
favela. Logo, embora a região disponha de um leque de ONG’s, é plausível supor que
iniciativas moldadas para educar as crianças seriam recepcionadas com júbilo, recebendo
apoio por parte dos atores que trabalham na localidade.
O tema da violência é abordado por vários entrevistados. Alguns consideram que a
criminalidade sofreu duros reveses a partir da instalação da UPP, ainda que alguns dos
entrevistados prefiram sublinhar que a polícia ainda não conta com a confiança da
comunidade. De fato, os dados colhidos nas entrevistas e nos outros instrumentos de pesquisa
nos permitem atestar que a política das UPP’s tende a ser bem recebida pela maior parte da
comunidade, embora não haja unanimidade.
A violência contra crianças é considerada um problema que atinge a favela por quase
todos os entrevistados7. Alguns depoimentos relatam que a prática é corriqueira e guarda
relação intrínseca com a própria “cultura” dos moradores. Neste raciocínio, agredir é encarado
como um ato necessário e aceitável para promover a educação infantil.
Para os stakeholders consultados, a violência contra crianças do morro assume
múltiplas facetas. Uma entrevistada, por exemplo, menciona o “medo” que as crianças sentem
quando instadas a falar no assunto. Um entrevistado menciona que as agressões contra
mulheres são graves, enquanto a violência contra crianças, embora existente, não atinge os
mesmos patamares. Por outro lado, uma entrevistada prefere acentuar o problema da
“agressão moral” sofrida pelas crianças (sobretudo tratamento pejorativo pelos pais, que se
valem de palavras de baixo calão). Um entrevistado, por sua vez, destaca a violência entre as
7
A exceção coube a um entrevistado, para quem as crianças da região não sofrem violências graves e possuem
um temperamento “amoroso”, livre de traumas ou influxos agressivos.
30 próprias crianças e adolescentes como particularmente inquietante e outra entrevistada
sustenta que mesmo casos de violência sexual são verificados na favela.
Diante disso, conclui-se que os stakeholders enxergam práticas de violência infantil na
comunidade, manifestando interesse em contribuir para ações voltadas ao seu combate.
Reforça essa premissa o fato de que alguns entrevistados, apesar de reconhecerem o bom
trabalho realizado por instituições ligadas à infância, lamentam que as crianças que participam
dos projetos sociais não apresentam melhor rendimento na escola, por exemplo. Esse dado,
levantado por uma entrevistada, sugere que as iniciativas existentes possuem eficácia apenas
relativa (o depoimento de outra entrevistada é ainda mais sintomático: as crianças do morro
“não têm perspectivas”, mesmo sendo alvo de tantas intervenções sociais).
3.2. Síntese dos argumentos dos moradores
Foram realizadas as seguintes entrevistas com lideranças da comunidade:
01 –Jair, residente há 50 anos no morro dos Macacos;
02 – Ticiane, residente no Morro dos Macacos desde que nasceu;
03 – Carla, moradora e dirigente de ONG;
04 – Luis, residente há trinta e três anos no Morro dos Macacos;
05 - Francisco, residente há cinquenta anos no Morro dos Macacos;
06 - Irina, residente há quarenta e um anos no Morro dos Macacos;
07 - Laura, residente do Morro dos Macacos desde que nasceu;
08 – Justino, residente há 45 anos no Morro dos Macacos;
09 – Mário, residente há 39 anos no Morro dos Macacos.
Jair, residente há 50 anos no morro dos Macacos;
Argumentos: Opina que o que mais chama atenção na comunidade é o descaso do poder
público. Acredita que um dos problemas que afeta a comunidade seja a questão do
saneamento básico. Afirma que o país perdeu o hábito de se organizar e se mobilizar e que
Macacos está dentro desse contexto. Acredita que a organização mais valorizada da
comunidade é o CEACA. Cita Mário Lima, presidente da Associação, como uma influência
da comunidade e reforça o passado de luta do presidente. Não consegue citar quais órgãos do
governo a comunidade mais confia. Brinca com a desconfiança dos moradores
31 exemplificando que o morador desconfia até da própria sombra. Acredita que o principal
problema para as crianças na comunidade é a questão da saúde. Afirma que, em relação aos
cursos e ao lazer, as crianças e os jovens estão bem servidos.
Ticiane, residente no Morro dos Macacos desde que nasceu;
Argumentos: Relata que a questão da segurança sempre lhe chamou a atenção. Opina que a
situação melhorou um pouco com a UPP, mas que os moradores ainda estão vulneráveis e não
conseguem expor sua opinião por completo. Informa que o problema do lixo é o que mais
atinge os moradores atualmente. Ressalta que o problema não é somente da COLURB, mas
também dos moradores. Relata que muitas pessoas ainda jogam o lixo nas valas e que falta
conscientização. Acredita que as ONGs não têm vínculo político ou religioso. Não consegue
opinar em quais órgãos do governo a comunidade mais confia. Destaca que, no momento, a
polícia é respeitada, mas que a relação entre policiais e moradores é distante (por isso, não há
confiança). Confirma que ainda exista o poder paralelo e que os moradores não têm muita
liberdade. Informa que existem instituições voltadas para as crianças e que ela inclusive
trabalha em uma delas. Relata não haver nenhuma organização no local que trabalhe a questão
da violência contra crianças, mas destaca que o CRAS (Centro Regional de Atendimento
Social), que fica fora da comunidade, realiza esse trabalho. Acredita que as pessoas que mais
influenciam os moradores são aquelas que trabalham nos projetos da comunidade, como o
Dom Pixote, e destaca também a Dona Ana, do CEACA, que está há muitos anos na
comunidade. Acredita que estes projetos incentivam as pessoas a se capacitarem a fim de
buscar uma realidade melhor do que esta em que vivem. Conta que chegou a fazer um curso
no CEACA porque queria crescer profissionalmente. Acredita que os principais problemas
para as crianças da comunidade são a falta de uma boa estrutura familiar e a pobreza. Não
consegue comentar sobre a violência doméstica, mas diz que já tomou conhecimento de
alguns casos. Acredita que a agressão é o principal tipo de violência doméstica. Relata não
saber de casos de violência entre homem e mulher. Diz nunca ter visto violência entre
adolescentes, mas já ouviu relatos de que eles brigam. Conta não saber de casos de violência
contra idosos. Acredita que já está havendo uma melhora na estrutura para atender as crianças
e adolescentes da comunidade, e relata que o que está faltando é que eles percebam essa
mudança e deixem que ela aconteça. Destaca que falta ainda um trabalho mais intensivo,
através de parcerias, que auxiliem as crianças a compreender isso.
32 Carla, moradora e dirigente de ONG;
Argumentos: Relata que o problema que mais lhe chama a atenção é o descaso do poder
público com a comunidade. Afirma que os principais problemas que atingem os moradores
são a acessibilidade e a questão do lixo. Cita que a questão do lixo é uma grande preocupação
porque causa diversas doenças. Informa que os moradores criaram um grupo de apoio no qual
se reúnem com o presidente da Associação dos Moradores para discutir os problemas da
região. Cita a Igreja Católica, a Associação dos moradores, o CEACA e as escolas municipais
como instituições respeitadas pela comunidade. Acredita que o CEACA tem uma influência
política, mas que a instituição não revela qual partido por ética. Afirma que é difícil dizer em
qual órgão do governo a comunidade mais confia, mas acredita que seja na Prefeitura devido
ao resultado da última eleição. Acredita que não exista nenhuma instituição na qual os
moradores menos confiam e que a questão de desconfiança é uma questão pessoal. Relata que
a figura de um político gera desconfiança da comunidade. Cita Dona Ana, Mário Lima,
presidente da associação dos moradores, Lins e até ela própria como pessoas que influenciam
a comunidade. Informa que existem muitas instituições voltadas para crianças e cita diversas,
entre elas a Vila Olímpica. Informa que essas instituições conseguem encaminhar algumas
denúncias de agressão infantil para o Conselho Tutelar. Afirma que o principal problema para
as crianças é a desestruturação familiar. Acredita que essa desestruturação familiar acarreta
diversos problemas para as crianças na escola, no desenvolvimento e no aprendizado, “não
tem alimentação, não tem carinho”. Confirma que existem casos de violência entre homem e
mulher. Acredita que faltam projetos governamentais dentro da comunidade voltados para
crianças dentro da realidade delas.
Luis, residente há trinta e três anos no Morro dos Macacos;
Argumentos: Afirma que o problema que mais chama a atenção na comunidade é a violência,
seja ela física ou psicológica. Acredita que os problemas que mais atingem os moradores são
as questões da luz, água, esgoto a céu aberto (define todos esses problemas como “falta de
estrutura”). Relata que o CEACA e o Dom Pixote são instituições muito respeitadas na
comunidade e elogia o trabalho realizado pelo CEACA. Acredita que as pessoas influentes na
comunidade são aquelas que têm uma grande vivência no Macacos e cita Lins como um dos
líderes. Não sabe afirmar em qual instituição do governo a comunidade mais confia. Relata
insatisfação dos moradores com o sistema de saúde e questões de energia e de água. Critica o
sistema de saúde, explicando que o posto não atende a toda a demanda e que os moradores
33 são obrigados a usar o único posto. Cita diversas organizações voltadas para a criança como o
CEACA e a Casa Délia. Relata que enviava relatos de algum acontecimento de violência
contra crianças para o Conselho Tutelar e não recebia uma resposta. Relata que atende a
crianças agredidas (inicia com a percepção da marca da agressão, tira fotografia da palmada
que a criança tomou e realiza processo burocrático). Critica que, até o processo resultar em
uma atitude mais enérgica, pode ter acontecido muito mais para a criança dentro de casa.
Informa que existem muitos casos de violência entre homem e mulher e cita uma história que
está no judiciário. Informa que os principais problemas para as crianças são a questão da
saúde, com a exposição das crianças a esgotos e à violência. Considera também um problema
que muitas crianças cuidam de outras crianças enquanto os pais vão trabalhar (não culpa os
pais por essa realidade). Relata que elas enfrentam riscos em casa como, por exemplo, uma
“panela quente virar ”. Opina que as crianças estão bem servidas com áreas de lazer e escolas
e acredita que falta para as crianças mais proteção dos seus direitos.
Francisco, residente há cinquenta anos no Morro dos Macacos;
Argumentos: Afirma que o que mais lhe chama a atenção é a questão do jovem não ter muitas
opções profissionais. Relata que poucos jovens conseguem se formar em uma universidade.
Acredita que o problema que mais atinge os moradores é a falta de liberdade de expressão.
Acredita que os moradores são escravos do dinheiro e do poder. Opina que, no dia em que o
povo tiver liberdade de falar e de ir e vir, as coisas vão começar a funcionar. Relata que não
adianta a polícia chegar e tratar com ignorância. Relata que os moradores não estão fazendo
nada para melhorar a situação. Acredita que deveriam existir mais ONG’s na comunidade.
Nega que exista influência política ou religiosa nas ONG’s. Cita a escola e o posto de saúde
como os órgãos do governo nos quais os moradores confiam. Não consegue afirmar em quais
órgãos do governo os moradores menos confiam. Informa que existem muitas organizações
voltadas para a criança na comunidade. Acredita que o principal problema para crianças do
Morro dos Macacos é a questão do lazer. Relata que existe muita violência doméstica na
comunidade e reforça que os pais espancam muito as crianças e, às vezes, não alimentam os
filhos. Cita o uso de drogas, o desemprego e a falta de cultura como fatores que influenciam a
agressão doméstica.
Irina, residente há quarenta e um anos no Morro dos Macacos;
Argumentos: Opina que o problema que mais chama a atenção na comunidade é a
acessibilidade e ressalta que o local não possui ruas e que essa estrutura prejudica muito o
34 desenvolvimento da comunidade. Acredita que as questões do saneamento e do lixo são os
temas que mais atingem os moradores. Informa que os moradores estão se mobilizando para
“cobrar” das instituições e que, atualmente, eles sabem para qual instituição devem reclamar.
Informa que o CEACA é ligado ao DEM, partido político, que administra a Vila Olímpica e
ressalta que a instituição trabalha totalmente de acordo com o partido dividindo até os seus
lucros. Cita a Liga de Futsal de Macacos como uma grande influência para os jovens. Cita o
corpo de bombeiros como um órgão do governo no qual a comunidade mais confia e destaca,
em segundo lugar, a COMLURB. Informa que o Conselho Tutelar é muito atuante na
comunidade. Acredita que deveria existir mais atividades e mais atenção para as crianças.
Elogia o sistema de ensino de período integral e relata que é um problema muito grande na
comunidade a situação das mães que precisam pagar para alguém ficar com a criança. Opina
que faltam espaços de lazer e de conhecimento para as crianças. Defende a ideia de levar as
crianças para museus e relata que sua vivência em museus na infância despertou o gosto pela
história. Não comenta a questão da violência contra crianças.
Laura, residente do Morro dos Macacos desde o nascimento;
Argumentos: Relata que a violência era o problema que mais chamava a atenção na
comunidade, mas ressalta que agora está melhorando. Informa que as crianças sentiram a
diferença do antes e depois da pacificação e cita um relato de uma criança que contou que
agora ela pode andar de bicicleta livremente. Opina que os principais problemas da
comunidade, como a questão do lixo, estão sendo resolvidos. Relata que há conflitos com as
UPPs e os jovens, mas que agora os adolescentes estão conseguindo falar sobre isso. Comenta
que o governo só está entrando na comunidade agora, devido à UPP. Elogia o CEACA, que
diz ser a instituição onde todos trabalham, e no qual agora atua. Acredita que os jovens têm o
que fazer e que as crianças têm onde ficar na comunidade, o que a diferencia das outras. Nega
a existência de influência política ou religiosa nas ONG’s. Conta que já houve caso de
apoiarem candidatos políticos que se elegeram e não realizaram as melhorias prometidas.
Como influências na comunidade, destaca a fundadora e presidente do CEACA, Dona Ana, e
as voluntárias que lutam pela comunidade. Não sabe dizer quais são os órgãos do governo nos
quais os moradores confiam mais ou menos. Afirma haver organizações voltadas para as
crianças, como o Centro Cultural da Criança e a creche Patinho Feliz, todas ramificações do
CEACA. Relata que, dentro da creche e do Centro Cultural, há o Núcleo de Família,
composto por pedagogos e psicólogos que atendem às crianças no caso de violência
35 doméstica. Relata que os principais problemas para as crianças têm diminuído com projetos
como o da Vila Olímpica. Acredita que se as crianças não realizam atividades na comunidade
é porque os pais não deixam. Relata que há violência doméstica, mas que não sabe dizer se
são muitos casos, pois os professores não têm acesso a essas informações. Em um dos casos
de que tem conhecimento, uma criança levou dois tiros do próprio pai. Conta que violência
entre homem e mulher sempre existe. Relata que existe violência entre crianças e adolescentes
dentro da escola e diz não saber quais providências são tomadas. Não sabe falar se há
violência contra idosos na comunidade. Acredita que o que falta para as crianças da
comunidade é o amor da família.
Justino, residente há 45 anos no Morro dos Macacos;
Argumentos: Relata que as condições de vida sempre foram muito difíceis e, os serviços
básicos, muito precários. O problema que mais chama a atenção é a violência, que acredita ser
uma questão que não pode ser superada sem que haja um trauma. Conta que pessoas que se
mudaram da comunidade afirmam que nunca mais voltariam. Considera que, atualmente, tem
sido complicado para os moradores conviverem com a pacificação e saber tirar proveito dela.
Acredita que os moradores, as instituições e o Estado não estão sabendo conduzir este período
de paz. Relata que “as coisas acabam se perdendo em vaidade”. Afirma que as pessoas da
comunidade ainda estão em fase de adaptação, aprendendo a viver com a tranquilidade.
Acredita que este período de adaptação vá ser demorado. Opina que as instituições mais
valorizadas pela comunidade são o espaço cultural Dom Pixote, a Casa das Artes, a Vila
Olímpica e as escolas – que, aparentemente, estão conseguindo fazer um trabalho melhor.
Relata que o vínculo entre ONG’s e partidos políticos tende a existir na medida em que têm
algum convênio com a Prefeitura. Conta que, após a pacificação, surgiram muitas pessoas que
antes não podiam mostrar seu potencial antes. Relata ver a juventude muito mais ativa
atualmente, buscando outros investimentos, principalmente na área da educação e da
profissionalização. Acredita que, com essas novas ideias, os jovens são capazes de fazer uma
“revolução”. Questionado sobre quais os órgãos públicos em que a comunidade mais confia,
relata que a educação melhorou bastante em relação à estrutura e a novos projetos. Considera
positiva a intervenção preventiva realizada pela Saúde da Família. Opina que a área do
trabalho ainda precisa de mais investimento, pois há muitas pessoas desempregadas. Acredita
que poderiam ser feitas mais coisas em relação à cultura. Relata que existem muitos talentos
desconhecidos na comunidade, em diferentes áreas culturais. Afirma ainda haver problemas
36 relacionados à Polícia. Relata que os policiais precisam ser vistos como prestadores de serviço
comuns e não mais como opressores, e que estes precisam ver a comunidade como uma
extensão da cidade. Afirma que a comunidade está bem assistida de organizações voltadas
para as crianças e exemplifica com instituições como o CEACA e a Casa das Artes. Acredita
que a questão da violência infantil precisa ser melhorada. Relata que grande parte das pessoas
não sabe o que é o Estatuto da Criança e do Adolescente. Acredita que o Conselho Tutelar
não pode ser visto como opressor. Relata que os principais problemas para as crianças da
comunidade estão relacionados à questão familiar. Conta que há muitas crianças nascendo
sem pai ou sendo criadas pelas avós e crescendo muito “soltas”, sem referência ou com
referências que “não ajudam muito”. Não sabe se este problema tem reparação. Acredita que a
violência doméstica é bastante frequente na comunidade. Relata que abandono e maus tratos
são os problemas mais notáveis. Conta que já soube de vários casos de violência entre homem
e mulher. Relata que os casais são muito jovens e isso acaba desencadeando uma série de
conflitos. Apesar disso, acredita que esse tipo de violência tem diminuído. Exemplifica casos
de violência contra crianças com base na vivência que teve como conselheiro tutelar. Relata
que há um trabalho importante de atendimento ao idoso na comunidade. Relata que, quando a
pessoa não envelhece de maneira saudável, acaba ficando refém da solidão. Acredita que
crianças de 7 a 12 anos precisam de uma maior cobertura, de projetos maiores.
Mário, residente há 39 anos no Morro dos Macacos;
Argumentos: Nascido e criado na comunidade, relata que há vários problemas que lhe
chamam a atenção, mas destaca a falta de cultura, apesar de algumas pessoas tentarem fazer
algo para reverter a situação. Comenta que a falta de iluminação pública também é algo que
atinge os moradores. Conta que as pessoas colocam uma lâmpada na frente de casa, para
“pelo menos tentar iluminar a entrada”. Cita a Associação de Moradores e “algumas ONG’s”
como as organizações mais respeitadas pela comunidade. Acredita que as principais ONG’s
não são vinculadas a partidos políticos e diz que a ONG Adélia Fernandes, coordenada pela
Célia Regina, é ligada à Igreja. Destaca que as pessoas ligadas a projetos são as que mais
influenciam a comunidade. Cita as atividades na área de esporte realizadas pelo governo
como as que os moradores mais confiam. Comenta sobre a Vila Olímpica, que era “um sonho
para a comunidade, e que está sendo um diferencial”. Relata que a saúde também melhorou
bastante. Acredita que os moradores não confiam na Polícia estadual. “É complicado. O
trabalho deles dentro da comunidade depende de muita coisa”. Exemplifica dizendo que a
37 cultura da comunidade está “esquecida devido às nossas origens”. Diz que a parte de eventos
está precária dentro da comunidade: “Não tem mais roda de samba, não tem mais baile funk...
A Polícia faz um papel bom, mas não deixa ramificações para que esse tipo de coisa
aconteça”. Comenta que nem tudo que é ruim hoje foi ruim no passado, e que algumas
pessoas têm dificuldade em entender isso. Cita o Centro Comunitário, o Dom Pixote e a
Adélia Fernandes como as instituições voltadas para as crianças da comunidade. Relata que,
dentro do Centro Comunitário, havia um programa chamado Violência Doméstica, mas que
não ouve falar sobre isso há tempo. Diz não ver muitos problemas para as crianças na
comunidade, “tem bastante escola... Um dos problemas é a própria família, que não te dá a
oportunidade de se estruturar anteriormente... Estão se estruturando agora, depois desses
programas do governo”. Acredita que não haja muita violência doméstica na comunidade.
“Até porque todo mundo se conhece, o meu problema também é do meu vizinho...”. Conta
que há muitos casos de brigas de marido e mulher. “Ainda mais com a chegada da UPP. As
denúncias aumentaram bastante. Não é que a gente ache normal, mas, em comunidade, essas
coisas acontecem sempre... Até pelas dificuldades que as pessoas encontram”. Acredita que
não pode haver brigas dentro de uma comunidade. Relata haver alguns problemas pequenos,
mas que não há casos graves de violência contra crianças e adolescentes. Conta que não há
casos de violência contra idosos e diz que sua geração aprendeu que os idosos precisam ser
respeitados. Diz que, atualmente, os conflitos são resolvidos com diálogo. Considera o Morro
dos Macacos diferente dos outros. Diz que quem mora lá, nunca sairia para morar em outra
comunidade. Acredita que falta cultura para as crianças. Pensa que deveria haver um lugar
onde as crianças pudessem assistir a filmes.
Quadro 2: Matriz de Atores Internos – moradores
Ator
Jair,
residente há
50 anos
Características
Pessoa bastante
crítica. Morador
antigo e
respeitado.
Posicionamento
diante do tema
infância e
violência
Não se posiciona
diante do tema da
violência contra
crianças.
Interesses, medos e
expectativas
Impacto
potencial
Critica o Estado (que estaria
ausente na favela) e a própria
comunidade (que teria ficado
conformada, sem capacidade
de ação). Os principais
problemas para as crianças
estariam relacionados à saúde.
Médio. Embora
sua antiguidade
na favela
provavelmente
lhe renda
prestígio, não se
posiciona diante
de temas centrais
à pesquisa.
Ticiane,
residente
desde que
nasceu;
Carla,
moradora e
dirigente de
ONG;
Luis,
residente há
trinta e três
anos;
Francisco,
residente há
cinquenta
anos;
38 Nascida e criada
na comunidade.
Crítica em relação
à ação dos
governos.
A violência ocorre
na comunidade, e
embora a UPP
tenha melhorado a
situação, o “poder
paralelo” do tráfico
continua. Diz
existir violência
contra crianças, mas
não se sente
capacitada para
discorrer sobre o
assunto.
Moradora do
morro e muito
ativa socialmente.
Relata casos de
violência contra
crianças,
entendendo que
essa prática ocorre
com frequência (o
mesmo ocorreria
em relação às
mulheres).
Morador antigo,
conhece a
realidade local.
Especialmente
interessado pela
problemática das
crianças.
A violência contra
crianças e mulheres
seria frequente.
Acredita que a
burocracia e o
Conselho Tutelar
dificultem ações
mais efetivas de
combate à violência
doméstica.
Respeitado pela
antiguidade,
conhece o local.
A violência contra
crianças é
frequente. Cita
também casos de
negligência dos
pais. O uso de
drogas, o
desemprego e a
falta de cultura são
fatores que geram a
agressão doméstica.
Preocupa-se com o medo que
leva os moradores ao silêncio
diante dos casos de violência.
Embora a UPP realize um
bom trabalho, a relação da
Polícia com a população deixa
a desejar. O principal
problema para os moradores é
o acúmulo de lixo. Para as
crianças, o grande problema
seria a estrutura familiar
deficiente. Propõe mais ações
do governo para as crianças.
Os principais problemas que
atingem os moradores são a
falta de acessibilidade e a
questão do lixo, que traria
muitas doenças. A
desestruturação familiar seria
o principal problema para as
crianças. Propõe projetos
voltados à criança do morro,
desde que adequados às suas
particularidades.
Entende que os moradores
carecem de serviços básicos,
como água e esgoto. A saúde
também seria um problema
grave. Preocupa-se com o fato
de as próprias crianças terem
que cuidar de outras crianças
enquanto os pais trabalham.
Propõe instrumentos que
transformem em realidade os
direitos das crianças.
Preocupa-se com a falta de
emprego e de escolaridade dos
jovens. Clama para que a
comunidade se expresse
livremente e se organize, o
que não ocorreria atualmente.
O principal problema para as
crianças seria a ausência de
áreas de lazer.
Irina,
residente há
quarenta e
um anos;
Antiga no morro,
entende as
carências da
comunidade.
Não comenta a
questão da
violência contra
crianças.
Acessibilidade e lixo são os
principais problemas para os
moradores. A criação de
espaços destinados ao
acolhimento das crianças no
horário de trabalho dos pais é
vista como essencial. Escolas
de tempo integral e projetos
culturais são boas opções para
formar as crianças.
Laura,
residente
Nascida e criada
na comunidade.
Após a UPP, o
problema da
Relata que os principais
problemas para as crianças
Baixo. Não
parece possuir
poder de
mediação nem
exerce liderança
de destaque.
Alto. Mora nos
Macacos e
preside entidade
reconhecida.
Alto. Morador
local e atuante no
tema da
violência
infantil, interage
com outras
instituições e
com os membros
da comunidade.
Médio. Possui
longa vivência
com a
comunidade, que
o respeita.
Contudo, não
parece ser uma
liderança
destacada.
Médio.
Moradora
antiga,
demonstra
conhecer os
arranjos sociais
do Morro.
Porém, não
comenta a
violência contra
crianças.
Médio.
Compreende os
39 desde o
nascimento;
Justino,
residente há
45 anos;
Mário,
residente há
39 anos.
Professora.
Morador antigo,
retrata com muita
propriedade a
realidade local.
Bastante
propositivo.
Nascido e criado
na comunidade.
violência teria sido
minimizado
bastante, e a
mudança teria se
refletido na
qualidade de vida
das crianças.
Apesar disso, cita
casos de violência
contra crianças,
mulheres e
adolescentes.
Embora considere
que muitas
instituições atuem a
favor das crianças
no morro, a
violência é um
problema. Cita
ocorrências e
aponta para o
problema do
abandono de
crianças, da
precocidade dos
pais, da ausência de
regramentos e da
agressão contra
mulheres.
têm diminuído com projetos
como o da Vila Olímpica.
Considera que existem
espaços destinados às
crianças, que muitas vezes não
usufruem de tais ambientes
porque os pais não permitem.
Crê que falta “mais amor” dos
pais para com os seus filhos.
problemas da
região e das
crianças em
particular. Não
parece ser capaz
de influenciar
instituições ou
uma gama maior
de pessoas.
Considera que a pacificação é
um processo lento, e que a
comunidade está apenas
começando a apreender a
conviver com a situação. É
otimista em relação ao futuro,
já que os jovens estariam
investindo mais em educação
e na busca de empregos.
Propõe mais projetos culturais
a fim de revelar os talentos da
comunidade.
Alto. Além de
morador antigo,
foi conselheiro
tutelar. Conhece
as instituições e
sabe como
articular/mediar
interesses e
projetos.
Entende que não há
violência grave
contra crianças, mas
admite que entre os
casais a situação
merece maior
atenção.
Reclama de problemas de
infraestrutura, como falta de
luz. Valoriza o trabalho das
ONG’s, mas propõe projetos
culturais voltados às crianças,
enfatizando o acesso ao
cinema.
Baixo. Embora
seja antigo na
comunidade, não
possui
interlocução com
lideranças ou
entidades
representativas.
3.2.1. Análise dos argumentos dos moradores
Os entrevistados residem há anos no Morro dos Macacos, construindo suas trajetórias
de vida e muitas vezes desempenhando atividades profissionais ou sociais na própria
comunidade. Em virtude disso, os depoimentos são merecedores de crédito e espelham a
opinião de pessoas representativas, capazes de perceber integralmente a realidade da favela.
Já à primeira vista, evidencia-se que a infraestrutura oferecida pela favela está longe
de satisfazer os moradores. Com efeito, a exemplo das afirmações colhidas entre os
stakeholders, os moradores manifestaram algum desconforto em relação às condições urbanas
do Morro, merecendo destaque o problema do acúmulo de lixo pelas ruas e as condições
insatisfatórias de acessibilidade.
40 Quanto ao primeiro ponto, verifica-se que os moradores se sentem incomodados e
constrangidos com o excesso de dejetos espalhados nas vias. Para além do fato de que o lixo
representa um potencial propagador de doenças (inclusive entre as crianças), há o agravante
de que a situação propicie a sensação de abandono por parte do Estado. Contudo, cumpre
ressaltar que o problema pode estar relacionado sobretudo ao comportamento da própria
comunidade, que desconsidera o processo correto de descarte dos dejetos.
Já a acessibilidade é um tema bastante relevante para o Morro dos Macacos e para a
maioria das outras favelas cariocas. Ordinariamente situadas em terrenos elevados e
irregulares, as favelas possuem ruelas estreitas e íngremes que constituem um espaço de
difícil acesso, especialmente para pessoas idosas ou com mobilidade reduzida. Este quadro
suscita preocupações, mas parece ter recebido pouca (ou nenhuma) atenção por parte do poder
público e de ativistas sociais.
Outro elemento curioso que emerge dos depoimentos diz respeito à capacidade de
organização dos moradores. Embora o Morro possua uma gama considerável de ONG’s e
instituições diversas, um entrevistado lamentou o “conformismo” da comunidade, que estaria
resignada com as atuais condições, ao passo que outro entrevistado considera que a
comunidade dispõe de múltiplos espaços destinados às crianças, que não os aproveitariam
apenas porque os pais não permitem. Se a desmobilização e a falta de consciência são
percebidos e explicitados mesmo internamente, parece claro que se trata de um aspecto para o
qual é possível dirigir intervenções.
Quanto ao campo da infância, boa parte dos entrevistados sustenta que as famílias da
favela carecem de formação sólida, capaz de oferecer o amparo necessário à educação sadia
das crianças. Nesse sentido, alguns entrevistados falam em “desestruturação” familiar de um
modo geral, enquanto um dos entrevistados se preocupa com a precocidade dos pais. É
sintomático que o depoimento de um entrevistado insista no argumento de que “falta amor”
dos pais em relação aos filhos, o que denuncia uma carência afetiva importante. Por fim, um
entrevistado detalha o problema alegando que o consumo de drogas, o desemprego e o acesso
escasso à cultura contribuem inclusive para a incidência de violência contra crianças.
O tema da violência recebeu diferentes interpretações. Neste particular, alguns
entrevistados demonstram um certo otimismo, considerando que o clima de violência foi
relativamente contido após a instalação da UPP. Embora compartilhe dessa análise, uma
entrevistada pondera que o “poder paralelo” exercido pelos traficantes ainda está presente. É
interessante sublinhar que a violência poucas vezes foi apontada como o principal problema
41 da comunidade. Portanto, o estancamento do acúmulo de lixo pode representar mais urgência
para os moradores do que o combate violência.
Diante do tema da violência infantil, vários dos entrevistados se posicionaram da
mesma forma: os casos de agressão seriam frequentes na favela. Entre os fatores de risco
informados, podemos citar o abandono afetivo, o descaso com a alimentação, bem como
conflitos entre as próprias crianças e jovens. Outro entrevistado considera que a ausência de
disciplina leva as crianças a adquirirem um comportamento nocivo: ficando demasiado
“soltas”, elas não aprenderiam a respeitar as outras pessoas e se tornariam violentas.
Segundo alguns entrevistados, o quadro poderia ser melhorado a partir de ações
específicas, como a criação de espaços destinados ao cuidado das crianças no período em que
os pais estão trabalhando, projetos culturais e escolas de tempo integral. As demandas não são
diferentes daquelas que surgem em outras comunidades, revelando que a materialização de
estruturas capazes de abrigar e fornecer educação às crianças seria uma medida bem
recepcionada também entre os moradores do Morro dos Macacos.
42 4
Violência e cotidiano na percepção de adultos e crianças
Serão apresentados a seguir os resultados da análise de dados quantitativos sobre a
violência contra crianças de até 8 anos em casa, na escola e na comunidade, obtidos através de
questionários aplicados a adultos e crianças do Morro dos Macacos.
A amostra de adultos é constituída de 158 questionários, dos quais 108 são mães, 18
pais, 13 avós e 19 “outros” (5 tias, 4 irmãs, 3 avôs, 2 irmãos, 1 tio, 1 bisavô, 1 prima). Para a
construção desta amostra, considerou-se que, de acordo com o Censo 2010 do IBGE, o Morro
dos macacos conta com 848 crianças de 0 a 8 anos de idade, de um total de 5.066 moradores
em 1.383 domicílios, sendo, portanto, 3,66 moradores por domicílio. Esta amostra foi
calculada sobre o número de domicílios com crianças de 0 a 8 anos. Considerou-se que os
domicílios possuem em média 1,2 crianças nesta faixa etária, ou seja, a cada cinco domicílios
com crianças nesta faixa de idade, uma delas possui duas crianças e quatro apenas uma
criança. Neste sentido, o erro amostral da amostra aplicada a pais ou responsáveis por
crianças pequenas é de 7,5%. O questionário para crianças foi aplicado somente a crianças de
6 a 8 anos de idade, e foi respondido por 32 crianças, dos quais 17 meninos e 15 meninas.
Inicialmente, será apresentada a análise dos dados obtidos da percepção dos adultos
sobre a violência praticada em casa e na comunidade contra crianças de até 8 anos de idade.
Além da violência, os dados revelam também percepção dos adultos sobre os serviços na
comunidade de saúde, educação, segurança, transporte e iluminação. Em seguida esses
mesmos dados são analisados com o modelo econométrico de regressão com o objetivo de
testar hipóteses explicativas da violência física e psicológica sofrida pelas crianças pequenas.
Posteriormente, será apresentada a análise dos dados obtidos da percepção de crianças
de 6 a 8 anos sobre a violência sofrida e testemunhada por elas em casa, na escola e na
comunidade. Além da violência, os dados revelam também a percepção dessas crianças sobre
tipos de brincadeiras mais frequentes entre elas e o que falta para elas na comunidade.
4.1. Percepção dos Adultos
Neste item serão analisados os dados da violência contra a criança, obtidos através de
questionários aplicados aos adultos. Os respondentes foram mães, pais, avós e “outros”.
Inicialmente, será analisada a violência praticada por esses adultos em casa, contra crianças de
43 até 8 anos de idade, tanto física (bater), quanto psicológica (colocar de castigo e gritar).
Posteriormente, será analisada a violência testemunhada por esses adultos na comunidade e,
por último, as suas percepções sobre os serviços da comunidade: iluminação, educação,
saúde, transporte, segurança e do que falta para as crianças na comunidade.
4.1.1. Violência em casa
Quando perguntados sobre a frequência com que aplicam algumas atitudes quando a
criança mais velha (até 8 anos de idade) se comporta mal, os adultos indicaram os seguintes
tipos (Figura 6):
a) “Colocar de castigo” e gritar (violência psicológica);
b) Bater (violência física)8.
Figura 6: Tipos e frequência de violência (física e psicológica) aplicada pelos adulto contra a criança em
casa
8
Nesta pesquisa, optou-se por separar a violência física em duas: dar uns tapas e bater durante a abordagem ao
respondente, uma vez que alguns adultos poderiam responder que não batem nunca na criança, mesmo dando
uns tapas, entendendo que “dar uns tapas” não seria “bater”. Entretanto, para a análise, juntou-se as duas formas,
optando pela atitude mais frequente e classificando-a como “bater”.
44 4.1.1.1. Violência psicológica
4.1.1.1.1. Gritar
A violência mais praticada contra a criança em casa é a violência psicológica de
“gritar”. Apenas 30% dos adultos nunca gritaram com a criança, sendo que 32% deles grita
“sempre” (Figura 6, no item 4.1.1.).
4.1.1.1.1.1
Grupos de adulto A mãe é quem mais grita com a criança e o pai é quem menos grita (Figura 7). Essa
diferença é estatisticamente significativa (K-W, chi²=23,036, Sig=0,000). A grande maioria
das mães grita com a criança, sendo que 39% grita sempre. Apenas 20% das mães nunca
gritou com a criança, enquanto a maioria dos pais (67%) nunca gritou com a criança e
nenhum pai (0%) grita sempre (Figura 7).
Figura 7: Frequência com que cada grupo de adultos grita com a criança em casa
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de adultos, que permite identificar, neste caso, qual adulto mais grita com a
criança. Os valores mais baixos indicam adultos que mais gritam com a criança e os valores mais altos indicam os adultos que
menos gritam com a criança. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
45 O segundo grupo que mais grita com a criança, depois das mães, é o grupo dos outros,
sendo que 26% desse grupo grita “sempre” e 32% grita “às vezes” (Figura 7). O grupo dos
“outros” é formado por tia, irmã, avô, irmão, primo, etc.
4.1.1.1.1.2. Idade da criança e frequência com que a mãe “grita” Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas entre a frequência
com que a mãe grita e a idade da criança (K-W, chi²=15,743, Sig=0,028). As mães gritam
mais com a criança de 2 anos e menos com a criança de 1 ano de idade (Figura 8).
Todas as mães, cujas crianças mais velhas têm 2 anos de idade, gritam com a criança,
sendo que 67% delas grita sempre (que a criança se comporta mal) e 33% grita às vezes.
Logo em seguida estão as mães cujas crianças têm 5 anos de idade. Apenas 6% delas nunca
gritou com a criança, sendo 63% grita sempre (Figura 8).
Relação entre a frequência com que a mãe grita, com a idade da criança
Sempre
Quase sempre
Às vezes
Raramente
Nunca
Morro dos Macacos - Rio de Janeiro/2012
67%
63%
57%
47%
!"#$
"%#$
""#$
40%
36% "&#$
)&#$
25% 25%
19%
12%
0% 0%
0% 0%
1 ano
(m.o.=80,71)
2 anos
(35,33)
0%
0%
3 anos
(52,56)
'(#$
)*#$
20%)*#$
13% 13%
13%
9%
6%
13%
7% 7%
6% 6%
30%
25%
5%
0%
4 anos
(52,09)
5 anos
(38,72)
6 anos
(50,47)
7 anos
(47,70)
8 anos
(59,13)
Figura 8: Frequência com que a mãe grita por idade da criança Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de idades, que permite identificar, neste caso, em qual idade a criança é mais submetida ao
gritos da mãe. Os valores mais baixos indicam idade das crianças que mais recebem gritos da mãe e os valores mais altos indicam as idades
das crianças que menos recebem os gritos da mãe. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
46 Mães cuja criança mais velha tem 1 ano de idade gritam mais com a criança do que as
demais, cujas crianças têm 2 anos ou mais. Ainda assim, 43% dessas mães, cujas crianças
mais velhas têm 1 ano, gritam às vezes (Figura 8).
Não obstante, em todas as idades (com exceção das crianças de 1 ano) a grande
maioria das mães (mais de 80%) grita com a criança mais velha. Essa informação pode ser
confirmada observando os índices das mães que “nunca” gritam, que nunca passa de 19%,
com exceção da criança de 1 ano de idade (Figura 8).
4.1.1.1.2. Colocar de castigo
A violência psicológica de “colocar de castigo” é menos aplicada do que a violência
psicológica de gritar. Quase a metade dos adultos nunca colocou a criança de castigo (42%).
Não obstante, a maioria deles coloca a criança de castigo, sendo que uma parcela significativa
(28%) coloca a criança de castigo sempre, 8% coloca quase sempre, 13% às vezes e 9%
raramente (Figura 6, item 4.1.1.).
4.1.1.1.2.1. Grupos de adulto A mãe e o pai são os adultos que mais colocam a criança de castigo e a avó é quem
menos coloca de castigo. Essa diferença entre os grupos não é confirmada estatisticamente, no
entanto, pode ser observada através do cruzamento desses dados (Figura 9).
Figura 9: Frequência com que cada grupo de adulto “coloca a criança de castigo”
47 A maioria das mães coloca a criança de castigo, sendo que 29% coloca sempre, 6%
quase sempre, 18% às vezes e 10% raramente. Não obstante, uma boa parcela das mães (37%)
nunca colocou a criança de castigo (Figura 9).
Embora o pai coloque a criança de castigo menos do que a mãe, considerando a soma
de todas as frequências (sempre, quase sempre, às vezes e raramente), o mesmo não é
verdade, se for considerado apenas o grau máximo com que cada grupo coloca a criança de
castigo, ou seja: “sempre”. Considerando os que colocam a criança de castigo “sempre”, o
pai supera todos os grupos, uma vez que, 33% de pais coloca a criança de castigo sempre,
enquanto que 29% das mães coloca sempre, 23% das avós e 22% de outros (Figura 9).
A avó é quem menos coloca de castigo, uma vez que 62% delas nunca colocou. Ainda
assim, 23% das avós coloca a criança de castigo sempre e 15% coloca quase sempre (Figura
9).
Portanto, embora seja a mãe quem mais coloque a criança de castigo, essa é uma
atitude praticada pela maioria dos grupos de pais e “outros”, assim como parcela significativa
das avós, embora não seja maioria, o que indica que o castigo é uma prática frequente em
todos os grupos de adultos.
4.1.1.1.2.2. Idade da criança que é colocada de castigo pela mãe Os resultados revelam diferenças entre as idades das crianças e a frequência com que a
mãe as “coloca de castigo” (Figura 10). Essa diferença pode ser confirmada estatisticamente
(K-W, chi²=13,904, Sig=0,053) e revela que:
Ø As mães, cujas crianças mais velhas têm 2 e 5 anos de idade, são as que mais colocam
a criança de castigo;
Ø Destaque à frequência com que essas crianças são colocadas de castigo pela mãe: 56%
das mães, cujas crianças têm 2 anos, assim como 50% das mães, cujas crianças mais
velhas têm 5 anos, colocam a criança de castigo sempre (Figura 10);
Ø As crianças de 8 anos são as que menos são colocadas de castigo. No entanto, 70% das
mães cujas crianças mais velhas têm 8 anos, colocam a criança de castigo;
Ø Nenhuma criança de 1 ano é colocada de castigo pela mãe.
48 Figura 10: Idade da criança e a frequência com que é colocada de castigo pela mãe Embora as crianças de 5 e 2 anos se destaquem, a maioria das mães, com crianças nas
outras idades, coloca a criança de castigo (com exceção das crianças de 1 ano de idade)
(Figura 10).
4.1.1.1.2.3.
Tipos de castigo praticado contra a criança
Os castigos mais aplicados pelos adultos são (Figura 11):
a) deixar a criança sem o que ela gosta (55% dos adultos);
b) deixar a criança sentada (15% dos adultos).
Outros tipos de castigo, embora menos frequentes, se destacam pela violência, como
deixar a criança com “a cara” para a parede e colocar a criança ajoelhada perto do sofá
(Figura 11).
49 Figura 11: Frequência e tipos de castigo aplicados pelo adulto contra à criança
Observa-se que alguns tipos de castigos são praticados mais contra as meninas do que
contra as meninos (Figura 12). A exceção é “deixar a criança sem o que ela gosta”, que é
aplicado tanto para meninos quanto meninas (51% das crianças que são deixadas sem o que
elas gostam são meninos e 49% são meninas).
Figura 12: Frequência e tipos de castigo aplicados pelo adulto por sexo da criança
Os resultados revelam que os tipos de castigos que envolvem a contenção física são
aplicados mais contra as meninas do que contra os meninos, como:
Ø deixar a criança sentada;
Ø deixá-la em um canto;
50 Ø deixá-la com a cara para a parede;
Ø colocá-la ajoelhada perto do sofá.
Enquanto contra os meninos são praticados os castigos que privam-no de alguma
atividade, como:
Ø deixar a criança sem sair de casa;
Ø deixar a criança sem ver TV (Figura 12).
Os castigos mais praticados pela mãe são os mesmos que são mais praticados pelos
adultos em geral (Figura 13):
a) deixar a criança sem o que ela gosta (38% das mães praticam esse castigo);
b) deixar a criança sentada (12% das mães praticam esse castigo).
Aqueles castigos menos frequentes, mas que se destacam pela violência são praticados
pela mãe, a saber:
Ø deixar a criança com “a cara” para a parede;
Ø colocar a criança ajoelhada perto do sofá são (Figura 13).
Figura 13: Frequência e tipos de castigo praticados pela mãe contra a criança
51 4.1.1.2. Violência física: bater
Investigou-se a frequência da violência física considerando que “bater” é o mesmo que
“dar uns tapas”9. Os resultados revelam que a maioria dos adultos bate na criança, sendo que
7% e 5% batem sempre e quase sempre, respectivamente, 32% batem às vezes e 17%
raramente (Figura 6, item 4.1.1.).
O que pode ser observado é que no Morro dos Macacos “bater” é uma violência
aplicada mais do que “colocar de castigo”, uma vez que, enquanto 42% dos adultos nunca
colocou de castigo, 39% dos adultos nunca bateram na criança (Figura 6, item 4.1.1.).
4.1.1.2.1. Grupos de adultos
A mãe se destaca dos demais grupos de adultos como a que mais bate na criança,
enquanto o pai se destaca como o adulto que menos bate. Essa diferença é confirmada
estatisticamente (K-W, chi²=19,895, Sig=0,000).
A grande maioria das mães (73%) bate na criança com alguma frequência, sendo que
41% bate às vezes, 8% bate sempre e 5% bate quase sempre. Apenas 27% das mães nunca
bateu na criança (Figura 14).
Figura 14: Frequência com que cada grupo (mãe, pai e avó) bate na criança
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo adultos, que permite identificar neste caso, qual grupo mais bate na criança. Os valores
mais baixos indicam os grupos que mais batem e os valores mais altos indicam os grupos que menos batem. Foram obtidos através do teste
não-paramétrico Kruskal Wallis.
9
No questionário, a violência física foi abordada de duas formas: o quanto o adulto bate e o quanto o adulto “dá
uns tapas”. Partiu-se da hipótese de que alguns adultos entendem que “bater” é diferente de “dar uns tapas” e,
dessa forma, se fosse perguntado apenas “bater”, aqueles adultos que “dão uns tapas” não seria contemplados.
Para a tabulação dos dados, essas duas variáveis foram fundidas na variável “bater”.
52 Os pais são os que menos batem na criança, sendo que a grande maioria (83%) nunca
bateu (Figura 14).
Na pesquisa foram ouvidas 108 mães, que representam 68% da amostra (Figura 14).
Devido à diferença entre a frequência com que a mãe bate na criança (Figura 14), bem como o
tamanho que esse grupo representa na amostra da pesquisa (Figura 15), serão descritos, a
seguir, alguns fatores que podem estar relacionados com a frequência com que a mãe bate na
criança.
Figura 15: Representação dos grupos de respondentes na amostra
4.1.1.2.1.1. Fatores relacionados com a frequência com que a mãe bate Alguns fatores foram relacionados com a frequência com que a mãe bate na criança,
com o objetivo de identificar quais deles mais influenciam esse tipo da violência, conforme
segue.
4.1.1.2.1.1.1.
Quantidade de crianças na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a
quantidade de crianças na casa, será apresentada a frequência da quantidade de crianças por
casa. Predominam as moradias com apenas uma criança, o que representa 55% da amostra. As
moradias com 2 crianças representam 30% da amostra, com três crianças representam 13% e
com quatro crianças representam 2% da amostra (Figura 16).
53 Figura 16: Quantidade de crianças por casa
Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa (K-W, chi²=3,003,
sig=0,223) entre a frequência com que a mãe bate na criança e a quantidade de crianças na
casa, indicando que a incidência da violência física aplicada pela mãe é menor em casas com
1 criança (Figura 17).
Figura 17: Frequência com que a mãe bate e quantidade de crianças na casa
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por quantidade de crianças na casa, que permite identificar neste caso, em qual casa é
maior o índice de violência física praticada pela mãe. Os valores mais baixos indicam as casas onde a violência é maior e
os valores mais altos indicam as casas onde a violência física praticada pela mãe é menor. Foram obtidos através do teste nãoparamétrico Kruskal Wallis.
54 Enquanto em casas com apenas uma criança 7% e 0% das mães bate sempre/quase
sempre, nas casas com duas crianças, 10% e 13% das mães bate sempre/quase sempre e nas
casas com três crianças 14% e 7% das mães bate sempre/quase sempre.
Não obstante, mesmo com a mãe batendo menos em casas onde mora apenas uma
criança, é alta a incidência da violência nesses tipos de composição familiar, uma vez que
69% das mães batem na criança, considerando as que batem sempre/quase sempre/às vezes e
raramente (Figura 17).
4.1.1.2.1.1.2. Idade da criança Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a idade
da criança, será apresentada a frequência da idade da criança, cujas mães são respondentes. As
mães, assim como todos os respondentes desta pesquisa, respondem pela criança mais velha
da casa. Sendo assim, 7% das mães respondem por criança de 0 a 11 meses, outros 7% por
criança de 1 ano, 8% das mães responde por criança de 2 anos, outros 8% por criança de 3
anos, 11% das mães respondem por criança de 4 anos, 15% por criança de 5 anos, 14% por
criança de 6 anos, outros 14% por criança de 7 anos e 18% das mães responde por criança de
8 anos (Figura 18).
Figura 18: Frequência da idade de crianças mais velhas, cujas mães são respondentes
Em todos os grupos de idades, com exceção das crianças de 0 a 11 meses, há uma
grande incidência de violência física praticada pela mãe, sendo que a incidência é maior em
55 crianças de 2 anos e menor em crianças de 1 e 4 anos (Figura 19). Essa diferença é
confirmada estatisticamente (K-W, chi²=15,013, Sig=0,036).
Todas as mães da amostra, cujas crianças mais velhas têm 2 anos, batem na criança
(Figura 19), sendo que 33% delas bate sempre e 67% bate às vezes. Depois das crianças de 2
anos, a maior incidência é em crianças de 5 e 7 anos de idade. Nas crianças de 5 anos, apenas
12% das mães nunca bateu, 19% delas bate sempre e 44% bate às vezes. Nas crianças de 7
anos, apenas 7% nunca bateu e 64% bate às vezes.
São índices bastante elevados de violência física praticada pela mãe contra a criança.
Mesmo mães cujas crianças têm 1 ano, 29% das mães bate às vezes (Figura 19).
Figura 19: Relação da frequência com que a mãe bate, por idade da criança
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de idade das crianças, que permite identificar, neste caso, em quais as idades a criança é
mais vítima da violência física aplicada pela mãe. Os valores mais baixos indicam idades em que as crianças mais apanham da mãe e os
valores mais altos indicam as idades em que as crianças menos apanham da mãe. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal
Wallis.
Portanto, embora a maioria das crianças, de todas as idades, sejam vítimas da violência
física da mãe, a criança de 2 anos se destaca, uma vez que, todas as mães que respondem por
criança desta idade bate na criança “sempre” ou “às vezes”.
4.1.1.2.1.1.3.
Sexo da criança Os resultados mostram que não há diferença significativa entre meninas e meninos
quanto à frequência com que as mães batem. No entanto, a mãe bate com uma frequência um
56 pouco maior nas meninas do que nos meninos. Somando as frequências mais altas (sempre e
quase sempre), 15% das mães de meninas batem nelas, enquanto 11% das mães de meninos
batem sempre/quase sempre (Figura 20).
Figura 20: Relação da frequência com que a mãe bate com o sexo da criança
Não obstante, a maioria das meninas (71%), assim como a maioria dos meninos
(74%), são vítimas da violência física da mãe com graus semelhantes.
4.1.1.2.1.1.4.
Criança que divide a cama com pai e mãe para dormir Os resultados não revelam correlação entre a frequência com que a criança divide a
cama com pai e mãe com a frequência com que a mãe bate nela, indicando que a frequência
com que a criança dorme com pai e mãe parece que não interfere na frequência com que a
mãe bate. De fato, o cruzamento desses dados permite observar que a incidência de violência
física por parte da mãe é alta tanto contra crianças que dividem sempre a cama com os pais,
quanto contra crianças que nunca dividem a cama com os pais (Figura 21).
57 Figura 21: Relação da frequência com que a mãe bate com a frequência com que criança divide a cama com pai
e mãe
No entanto, a criança que mais divide a cama com pai e mãe é a criança de 2 anos
(Figura 22), vítima mais frequente da violência física praticada pelas mães, como visto
anteriormente.
Figura 22: Frequência com que a criança divide a cama com pai e mãe, por idade da criança
58 Quanto à relação da frequência com que a mãe bate na criança com a frequência com
que a criança divide a cama somente com a mãe ou com a frequência com que a criança
dorme sozinha, os resultados não revelam correlação, indicando que, a frequência com que a
criança divide a cama somente com a mãe ou a frequência com que a criança dorme sozinha
parece não influenciar na frequência com que a mãe bate.
4.1.1.2.1.1.5.
Idade das mães Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a idade
da mãe, será apresentado a frequência da idade da mãe respondente. A amostra é composta de
mães com idade entre 17 e 54 anos. No entanto, a maioria delas tem entre 20 e 34 anos, sendo
que 25% tem idade entre 25-29 anos, 20% tem idade entre 20-24 anos e 19% tem idade entre
30-34 anos (Figura 23).
Figura 23: Frequência da idade da mãe na amostra de mães respondentes Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade da
mãe com a frequência com que ela bate na criança. No entanto, o cruzamento desses dados
permite algumas observações importantes (Figura 24).
59 Figura 24: Faixa etária das mães e a frequência com que batem na criança A partir dos 20 anos de idade, a maioria das mães bate na criança, enquanto entre os
17 e 19 anos a maioria das mães nunca bateu (Figura 24). A maior incidência acontece entre
as mães nas faixas dos 35-39 anos de idade. Nessa faixa etária, apenas 8% das mães nunca
bateu na criança, sendo que 15% batem sempre e 46% batem às vezes.
A segunda faixa etária, cujas mães mais praticam a violência física contra a criança, é
a de 20-24 anos. Apenas 19% das mães nessa faixa etária nunca bateu na criança, sendo que
14% delas bate sempre, 5% quase sempre e 38% às vezes.
No entanto, as mães que menos batem (na faixa dos 17-19 anos), o fazem com
frequência mais elevada, 17% a 20% delas bate sempre (Figura 24).
4.1.1.2.1.1.6.
Grau de escolaridade da mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a
escolaridade da mãe, será apresentada a frequência da escolaridade da mãe respondente.
Predomina a mãe que tem até o 1° grau incompleto (60% delas). As mães com 1° completo
representam 15% das mães respondentes, 14% tem até o 2° grau incompleto e 12% tem o 2°
completo. Apenas 2% das mães respondentes têm curso superior (Figura 25). Não existe na
amostra mães “sem alfabetização”.
60 Figura 25: Frequência da escolaridade da mãe
Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a escolaridade
da mãe e a frequência com que bate na criança. No entanto, o cruzamento desses dados
(Figura 26) permite algumas observações, conforme segue:
Figura 26: Relação da frequência com que a mãe bate com o seu grau de escolaridade
Ø A maioria das mães, em todos os níveis de escolaridade, bate na criança;
Ø As mães com 1° grau completo são as que mais batem na criança, sendo que
apenas 13% delas nunca bateu na criança, 60% bate às vezes e 13% e 7% bate
quase sempre e sempre;
61 Ø As mães que menos batem são as mães com 2° grau completo, ainda assim,
46% bate às vezes e 23% raramente. No entanto, nenhuma delas bate sempre
ou quase sempre;
Ø As mães com curso superior (2 mães entrevistadas) batem às vezes (100%).
4.1.1.2.1.1.7.
Consumo de bebida alcoólica pela mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com seu
consumo de bebida alcoólica, será apresentado a frequência com que ela consome bebida
alcoólica na frente da criança. A maioria das mães entrevistadas (69%) não bebe na frente da
criança, portanto, 31% das mães bebem, sendo que 4% das mães bebe sempre, 3% bebe quase
sempre e 13% bebe às vezes (Figura 27).
Figura 27: Frequência do consumo de bebida alcoólica da mãe na frente da criança
Os resultados não revelam existência de correlação entre a frequência do consumo de
bebida alcoólica da mãe com a frequência com que bate na criança. No entanto, o cruzamento
desses dados (Figura 28) permite algumas observações:
Ø A maioria das mães que bebe sempre, assim como a maioria das que nunca
bebe, bate na criança;
Ø Todas as mães que bebem quase sempre batem na criança às vezes;
Ø 75% das mães que bebem “sempre”, batem na criança, sendo que 25% delas
batem quase sempre;
62 Ø 83% das mães que bebem raramente e 68% das mães que nunca bebem, batem
na criança (Figura 28).
Figura 28: Frequência entre o consumo de bebida alcoólica da mãe e o quanto ela bate na criança
Portanto, os resultados indicam que não há uma relação entre o consumo de bebida
alcoólica da mãe com a frequência com que bate na criança, o que sugere que o consumo de
bebida alcoólica, pelo menos nessa amostra do Morro dos Macacos, não é uma das variáveis
que explicam a frequência com que as mães praticam a violência física contra as crianças.
4.1.1.2.1.1.8.
Renda mensal da mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a sua
renda mensal, será apresentado a frequência da sua renda mensal na amostra de respondentes.
Os resultados revelam que o grupo de pai tem renda mensal mais elevada do que o grupo das
mães. Enquanto a maioria de pais (56%) recebe entre 1 e 2 salários mínimos, a maior parte do
grupo das mães (47%) recebe menos que 1 salário mínimo. Enquanto todos os pais da amostra
tem alguma renda, 29% das mães não tem renda (Figura 29).
63 Figura 29: Renda mensal por grupos de adultos (mãe e pai)
Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas (K-W, chi²=4,313,
sig=0,116) entre a renda da mãe e a frequência com que a mãe bate na criança. As mães que
recebem menos que 1 salário mínimo batem na criança mais do que as mães que recebem
entre 1 e 2 mínimos. A diferença ainda é maior quando comparada com as mães que não têm
renda, uma vez que estas se destacam das demais como as que menos batem na criança
(Figura 30).
Figura 30: Frequência da violência física (bater) por renda mensal da mãe
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por renda da mãe, que permite identificar, neste caso, em qual faixa de renda estão as mães que mais
batem na criança. Os valores mais baixos indicam as rendas das mães que mais batem e os valores mais altos estão as mães que menos
batem. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
64 A maioria das mães, com ou sem renda, bate na criança. No entanto, as que não têm
renda se destacam por serem as que menos batem. Enquanto 57% dessas mães batem na
criança, o índice de mães que batem na criança e recebem entre 1 e 2 mínimos ou menos que
1 mínimo é maior, 79% e 80%, respectivamente (Figura 30).
4.1.1.2.1.1.9.
Discriminando a bolsa família na renda mensal da mãe Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a sua
renda mensal com a Bolsa Família, será apresentada a frequência da sua renda mensal
discriminando a bolsa família. Observa-se que 28% das mães recebem apenas a Bolsa Família
e têm, portanto, renda mensal menor que o salário mínimo, 19% das mães trabalham, não
recebem bolsa e têm renda menor que o mínimo, 13% das mães trabalham e recebem Bolsa
Família, acumulando uma renda entre 1 e 2 mínimos, 10% das mães trabalham, não recebem
bolsa e recebem entre 1 e 2 mínimos (Figura 31).
Figura 31: Renda mensal da mãe descriminando a bolsa família
Os resultados não revelam diferenças estatisticamente significativas entre a renda,
discriminando a Bolsa Família com a frequência com que as mães batem na criança. No
entanto, o cruzamento dos dados permite observar que o maior índice da violência física
praticada pela mãe contra a criança está entre as mães que não trabalham e tem como única
fonte de renda a Bolsa Família (Figura 32). 65 Figura 32: Renda mensal das mães (com bolsa família e trabalho) e a frequência com que bate na criança
A maioria das mães em todas as faixas de renda bate na criança, no entanto, as mães
que recebem apenas a Bolsa Família batem mais na criança do que as demais. A grande
maioria delas (86%) bate na criança, sendo que 14% bate sempre e 55% bate às vezes. O
segundo grupo de mães que mais bate na criança é a que recebe Bolsa Família, mas trabalha e
tem renda entre 1 e 2 salários mínimos. A grande maioria dessas mães (85%) bate na criança,
sendo que 15% delas bate sempre e 39% bate às vezes (Figura 32).
As mães que menos batem são as mães que não têm renda. Entretanto, a maioria delas
bate (57%), sendo que 3% bate sempre, 10% quase sempre e 27% às vezes.
4.1.1.2.1.1.10. Quantidade de cômodos na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a
quantidade de cômodos da casa onde mora, será apresentada a frequência da quantidade de
cômodos nas casas dos respondentes. A maioria (55%) mora em casas com 5 ou mais
cômodos (Figura 32). A minoria (4% e 4%) mora em casas com 1 ou 2 cômodos. Em casas
com 4 cômodos mora 25% dos respondentes e os 12% restantes mora em casas com 3
cômodos (Figura 33).
66 Figura 33: Frequência da quantidade de cômodos da casa das mães entrevistadas
Embora não haja diferença estatisticamente significativa entre a quantidade de
cômodos da casa e a frequência com que a mãe bate na criança, o cruzamento desses dados
permite observar que o índice maior de violência física praticada pela mãe acontece entre as
mães que moram em casas com 1 ou 2 cômodos (Figura 34).
Todas as mães que moram em casas com 1 ou 2 cômodos batem na criança. Em casas
com 1 cômodo todas as mães batem às vezes e em casas com 2 cômodos 25% das mães bate
sempre, 25% bate às vezes e 50% bate raramente (Figura 34).
Figura 34: Relação da quantidade de cômodos da casa com a frequência com que a mãe bate na criança
As mães que moram em casas com 4 cômodos são as que menos batem na criança,
ainda assim, as que batem são maioria.
67 4.1.1.2.1.1.11. Quantidade de dormitórios na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a
quantidade de dormitórios nas casas das mães entrevistadas, será apresentada a frequência da
quantidade de dormitórios das casas dos respondentes. A grande maioria dos respondentes
mora em casas com 1 dormitório (32%) ou 2 dormitórios (53%) e o restante (11%)
praticamente todos moram em casas com 3 dormitórios. Respondentes que moram em casa
com 4 ou 5 dormitórios representam 1% e 3% da amostra (Figura 35).
Figura 35: Frequência da quantidade de dormitórios na casa
Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre o número de
dormitórios na casa e a frequência com que a mãe bate na criança. O cruzamento dos dados,
no entanto, permite algumas observações (Figura 36).
Figura 36: Relação do número de dormitórios da casa e a frequência com que a mãe bate na criança
68 As mães que moram em casas com 3 dormitórios batem mais do que mães que moram
em casas com 1 ou 2 dormitórios. Apenas 8% das mães que moram em casas com 3
dormitórios nunca bateu na criança, enquanto 27% e 31% das mães que moram em casas com
1 e 2 dormitórios nunca bateu (Figura 36). No entanto, a maioria das mães, em todos os tipos
de casa, com 1 a 3 dormitórios, bate na criança.
4.1.1.2.1.1.12. Quantidade de banheiros na casa Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a
quantidade de banheiros nas casas das mães entrevistadas, será apresentada a frequência da
quantidade de banheiros da amostra: a grande maioria dos entrevistados (89%) mora em
casas com 1 banheiro com chuveiro, 6% mora em casas com 2 banheiros com chuveiro, 4%
das mães não têm banheiro com chuveiro dentro de casa e 2% moram em casas com 3 ou
mais banheiros (Figura 37).
Figura 37: Frequência da quantidade de banheiros (com chuveiro) dentro de casa
Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a frequência
da violência física aplicada pela mãe e a quantidade de banheiros na casa (com chuveiro).
69 Figura 38: Relação da quantidade de banheiros com chuveiro na casa com frequência com que mãe bate na
criança
O que podemos observar com o cruzamento dos dados é que 100% das mães que
moram em casas com 2 banheiros com chuveiros batem na criança, 83% das mães que moram
em casas sem chuveiro e 71% das mães que moram em casas com 1 banheiro com chuveiro
também batem na criança (Figura 38).
4.1.1.2.1.1.13. Tipo de rua Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com o tipo de
rua onde reside, será apresentada a frequência do tipo de rua na amostra: a grande maioria dos
respondentes mora em casas cujas “ruas” são escadarias (42%) ou vielas onde só passam
pedestres (36%). Em terceiro lugar estão as mães que moram em rua onde passam carros
(18%) (Figura 39).
70 Figura 39: Frequência do tipo de rua
Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a frequência
com que a mãe bate na criança e o tipo de rua onde se localiza sua moradia. No entanto, o
cruzamento desses dados (Figura 40) permite algumas observações:
Em todos os tipos de rua há incidência de violência física aplicada pela mãe à criança,
o que indica que o tipo de rua não influencia na frequência com que a mãe bate na criança. No
entanto, em algumas ruas a incidência é maior, como nas escadarias e em ruas onde passam
carros. As ruas com menor incidência de violência física praticada pela mãe são as vielas
onde só passam motos e vielas onde só passam pedestres (Figura 40).
Figura 40: Relação do tipo de rua onde localiza-se a moradia da mãe, com a frequência com que bate na
criança
71 4.1.1.2.1.1.14. Existência de iluminação Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com a
existência ou não de iluminação em frente ou próxima à sua casa, serão apresentados os
índices de iluminação existente: boa parte das ruas onde estão localizadas as moradias não
têm iluminação (37%) (Figura 41).
Figura 41: Existência de iluminação em frente ou próximo à moradia
Os resultados revelam uma pequena diferença entre a existência de iluminação em
frente à casa onde mora a mãe entrevistada e a frequência com que bate na criança. Embora
essa diferença não possa ser confirmada estatisticamente, o cruzamento desses dados revela
que a incidência da violência física aplicada pela mãe à criança é um pouco maior onde não
existe iluminação em frente ou próxima à casa (Figura 42).
72 Figura 42: Relação da violência física aplicada pela mãe com a existência de iluminação em frente ou
próximo à casa
Enquanto 82% das mães, cujas ruas não têm iluminação, já bateram na criança, 65%
das mães, cujas ruas têm iluminação, já bateram na criança (Figura 42).
Quanto à luz elétrica em casa será analisada a relação entre as mães cujas moradias
possuem ou não o registro da LIGHT: a grande maioria dos respondentes tem luz elétrica em
casa (98%), sendo que 51% do total possui registro da LIGHT e 47% não possui registro
(Figura 43).
Figura 43: Existência de luz elétrica nas casas
Os resultados não revelam diferença entre a existência ou não de luz elétrica com a
frequência com que a mãe bate na criança (Figura 44).
73 Figura 44: Relação da violência física aplicada pela mãe com a existência ou não de luz elétrica em casa
com ou sem registro da LIGHT.
Tanto em casas com registro da LIGHT quanto em casas sem registro da LIGHT,
aproximadamente 75% das mães batem na criança (Figura 44).
4.1.1.2.1.1.15. Grau de satisfação com a iluminação Antes de analisar a relação da frequência com que a mãe bate na criança com o grau
de satisfação com a iluminação em frente ou próximo à sua casa, serão apresentados os graus
de satisfação dos respondentes: a parcela de respondentes satisfeitos (41%) com a iluminação
das ruas é um pouco maior do que a parcela dos insatisfeitos (38%) (Figura 45).
74 Figura 45: Grau de satisfação com a iluminação da rua
Quanto à relação entre o grau de satisfação com a frequência com que a mãe bate, os
resultados revelam uma correlação negativa (spearmam, c = -0,243, sig = 0,013), indicando
que as mães satisfeitas com a iluminação em frente à moradia batem menos na criança (Figura
46).
De fato, o cruzamento dos dados permite observar que a mãe que percebe a
iluminação da rua como boa, nunca bate ou bate raramente na criança. As mães que mais
batem são as que julgam a iluminação ruim ou que acham a iluminação nem boa/nem ruim
(Figura 46).
Figura 46: Relação entre o grau de satisfação da mãe com a iluminação, com a frequência com que ela bate
na criança
75 4.1.1.2.1.2. Fatores relacionados com a frequência com que o pai bate na criança
Serão analisados fatores que relacionados com a frequência com que o pai bate na
criança, podem influenciar esse tipo de violência física praticada contra a criança, conforme
segue.
4.1.1.2.1.2.1. Frequência com que o pai dá banho e veste a criança
A grande maioria de pais (85%) não bate na criança. Para os que batem (15%), os
resultados não revelam correlação entre a frequência com que ele dá banho e veste a criança
com a frequência com que bate na criança. Não obstante, o cruzamento dos dados permitem
observar que os poucos pais que batem na criança são os que dão banho às vezes (Figura 47).
Figura 47: Relação da frequência com que o pai bate com a frequência com que cuida da criança
Os pais que nunca dão banho, nunca batem, mas também os pais que dão banho
sempre/quase sempre ou raramente nunca batem.
76 4.1.1.2.1.2.2. Grau de escolaridade do pai
Antes de analisar a relação da frequência com que o pai bate na criança com o grau de
escolaridade serão apresentados os índices de escolaridade dos pais respondentes: a maior
parcela de pais (47%) tem formação de 1° grau incompleto. Em seguida estão os pais com 2°
grau completo (26%) e por último os pais com 1°grau completo (16%). Apenas 1 pai, que
representa 5% da amostra de pais respondentes, tem curso superior (Figura 48).
Figura 48: Frequência da formação escolar do pai
Embora os resultados não revelem diferença estatisticamente significativa entre o grau
de escolaridade do pai e a frequência com que ele bate na criança, o cruzamento dos dados
demonstra que o pai que bate tem pouca formação escolar (Figura 49).
Figura 49: Relação da escolaridade do pai com a frequência com que bate na criança
77 Enquanto 22% dos pais com 1°grau incompleto batem na criança, nenhum pai com
1°grau completo, médio incompleto ou médio completo bate na criança. Sendo que 11% dos
pais com 1°grau incompleto batem sempre (Figura 49).
4.1.1.2.1.2.3. Consumo de bebida alcoólica pelo pai
Os resultados não revelam correlação entre a frequência do consumo de bebida
alcoólica do pai com a frequência com que bate na criança. O cruzamento dos dados da
mostra permite observar que os pais que batem são os que nunca bebem, no entanto, a maioria
dos pais (72%) nunca bebe (Figura 50).
Figura 50: Frequência do consumo de bebida alcoólica do pai em frente à criança
Os pais que batem na criança nunca beberam na frente da criança (Figura 51).
Nenhum pai bebe “sempre” na frente da criança e os que bebem quase sempre/às vezes e
raramente nunca bateram na criança. Dos pais que nunca bebem, 8% batem sempre na criança
e 8% batem raramente, enquanto 84% nunca batem.
78 Figura 51: Relação entre o consumo de álcool do pai com a frequência com que bate na criança
Ou seja, todos os pais que batem na criança, nunca beberam, enquanto que os pais que
bebem na frente da criança nunca bateram (Figura 51).
4.1.1.2.1.3. Tipos de violência e atitude aceitas
Sobre as atitudes que podem dar limite à criança, a maioria dos adultos mencionou a
conversa. No entanto, a segunda atitude mais aceita pelos adultos para dar limite à criança é a
violência psicológica de “colocar de castigo”. Em seguida, as atitudes mais aceitas pelo adulto
para dar limite à criança são: dizer “não” e “dar uns tapas”, sendo que “bater” foi mencionado
bem menos que “dar uns tapas”, confirmando a hipótese de que os adultos entendem “dar uns
tapas” como sendo diferente de “bater”.
4.1.1.2.1.3.1. Gritar
“Gritar” é uma atitude pouco aceita pelos adultos como forma de dar limite, apenas
12% acredita que “gritar” é uma forma de dar limite à criança (Figura 52). Embora seja a
79 segunda atitude mais aplicada por eles contra a criança, conforme visto anteriormente (Figura
6, item 3.1.1.). Essa diferença entre a frequência com que adultos gritam (70%) e o quanto
eles aceitam (12%) essa atitude como forma de dar limite à criança pode significar, pelo
menos, duas hipóteses:
Ø Hipótese 1: para os adultos, “gritar” é uma atitude inaceitável, mas, na prática,
eles não conseguem se conter emocionalmente e gritam com frequência;
Ø Hipótese 2: para os adultos, “gritar” com a criança é aceitável como forma de
dar limite, mas na prática eles percebem que é uma atitude que não impõe
limite, por isso não a indicam como uma atitude que possa dar limite à criança.
Figura 52: Atitudes que dão limite à criança, na percepção do adulto
A percepção da mãe não difere muito da percepção dos demais adultos. A pequena
diferença está no percentual menor de mães que indicam a conversa como forma de dar limite
(77%) e um percentual maior de mães que indicam colocar de castigo como forma de dar
limite e todas as outras atitudes de violência, como gritar e bater (Figura 53).
80 !"#"$%&'()$&(%*+(,#-#"&((.(/0#1231((
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Conversar
Colocar de Dizer "não"
castigo
Dar uns
tapas
Gritar
%#$
Bater
Figura 53: Atitudes que dão limite à criança na percepção da mãe
No entanto, permanece a mesma diferença dos demais adultos entre a pouca aceitação
de gritar e a elevada frequência dessa atitude, na prática. As hipóteses para a mãe são as
mesmas para os demais adultos, ou seja, a de que ela não aceita a atitude de gritar como forma
de dar limite, mas, na prática, não se controla emocionalmente ou de que ela aceita, mas na
prática já percebeu que essa é uma atitude que não impõe limite à criança e por isso não a
indica como atitude para dar limite.
4.1.1.2.1.3.2. Colocar de castigo
A violência psicológica mais aceita pelos adultos como forma de dar limite à criança é
“colocar de castigo”, além de ser a mais aplicada por eles, como visto anteriormente. A
maioria deles (60%) acredita que “colocar de castigo” é uma atitude que impõe limite à
criança (Figura 51). Na percepção da mãe, o índice é quase o mesmo, 62% delas acredita que
“colocar de castigo” dá limite à criança (Figura 53).
4.1.1.2.1.3.3. Bater
Bater é o tipo de violência física que parece ser aceito pelos adultos tanto quanto é
praticado. Um percentual considerável deles (25%) acredita que “dar uns tapas” é uma atitude
que “dá limite” à criança (Figura 52). Como “dar uns tapas” foi considerado nesta pesquisa
como forma de obter do respondente uma variação do bater, os resultados revelam índices
relevantes de aceitação de bater como forma de “dar limite” à criança, tanto na percepção do
81 adulto (20% “dar uns tapas”/6% bater) (Figura 52), quanto na percepção da mãe (Figura 53),
cujo índice é um pouco maior (25% “dar uns tapas”/6% bater).
4.1.1.2.1.3.4. Conversar
Não obstante, o que os adultos mais acreditam que dá limite à criança é a conversa
(Figura 52). A grande maioria dos adultos (83%) acredita que é através da conversa que se dá
limite à criança. O pai é quem mais acredita nessa atitude (84%), seguido da mãe (82%) e, por
último, da avó (71%) (Figura 54).
Figura 54: Frequência com que a conversa dá limite à criança, por grupo de adultos
A atitude de “conversar” é aceita como a melhor maneira para dar limite e também a
mais frequente entre as atitudes adotadas quando a criança se comporta mal, na percepção dos
adultos. Quase a metade (49%) dos adultos disse sempre adotar a prática de explicar para as
crianças quando ela se comporta mal (Figura 55).
82 Figura 55: Frequência com que o adulto explica para a criança quando esta se comporta mal
4.1.1.2.1.4. Atitudes que caracterizam “mau-comportamento” da criança
A pesquisa investigou as atitudes da criança que, na percepção do adulto, caracterizam
um mau comportamento e em que frequência elas ocorrem.
4.1.1.2.1.4.1. Características
Para os pais, mães e avós, a criança se comporta mal quando:
a) faz pirraça, chora ou faz manha;
b) desobedece, fica teimosa;
c) mexe no que não pode;
d) agride os outros;
e) se comporta mal na escola;
f) quebra ou chuta objetos;
g) grita.
Para 33% dos adultos a criança se comporta mal quando “faz pirraça, manha, se irrita,
chora, alguns se jogam no chão”. O segundo comportamento mais frequente é “criança agride
os outros, morde, bate ou quer bater ” (15%) e o terceiro é “criança grita” (11%) (Figura 56).
83 Figura 56: Frequência das atitudes que mais caracterizam o mal comportamento da criança, na percepção do
adulto
4.1.1.2.1.4.2. Percepção da mãe
Para a mãe, o que mais caracteriza o mau comportamento da criança é a pirraça, 35%
das mães acham que a criança se comporta mal quando ela faz pirraça. A segunda atitude que
mais caracteriza o mau comportamento da criança para a mãe é a agressão, morder, bater ou
querer bater nos outros, 14% delas indicam essa característica. A terceira característica mais
mencionada pela mãe como mal comportamento da criança é a criança implicar e brigar com
os irmãos, 13% delas indicam essa atitude (Figura 57).
84 Figura 57: Atitudes que caracterizam o mal comportamento da criança na percepção da mãe
4.1.1.2.1.4.3.
Frequência com que a criança se comporta mal Apenas 4% dos adultos acreditam que a criança nunca se comportou mal. A grande
maioria dos adultos acha que a criança já se comportou mal (96%), sendo que 26% acha que a
criança se comporta mal sempre, 13% quase sempre, 42% às vezes e 14% raramente (Figura
58).
Figura 58: Frequência com que a criança se comporta mal na percepção dos adultos e das mães
85 Na percepção da mãe, a frequência com que a criança se comporta mal é um pouco
maior que os demais adultos, uma vez que 32% e 11% delas acha que a criança se comporta
mal sempre e quase sempre, respectivamente (Figura 58).
4.1.1.3. Violência testemunhada pela criança em casa na percepção do adulto
Neste item, será analisada a violência testemunhada pela criança em casa, na
percepção do adulto. Investigou-se o quanto a criança testemunha adultos gritando com
adultos, assim como adultos batendo em adultos, e o quanto as armas de fogo ficam expostas
em casa.
4.1.1.3.1. Adulto grita com adulto na frente da criança
Para a maioria dos adultos (66%) “adulto grita com adulto na frente da criança”, sendo
que 8% e 6% testemunham sempre e quase sempre e 15% às vezes e 27% raramente (Figura
59).
Figura 59: Frequência com que adulto grita e bate em outro adulto na frente da criança
86 4.1.1.3.2. Adulto bate em adulto na frente da criança
Para a grande maioria dos adultos (89%), “adulto nunca bate em adulto” na frente da
criança. No entanto, para 11% (o restante) essa é uma atitude que acontece raramente (5%), às
vezes (4%) e sempre/quase sempre (2%) (Figura 59).
Os resultados indicam que toda a violência física aplicada em adulto por outro adulto
se refere à homem batendo em mulher, uma vez que 12% responderam que homens batem em
mulheres em casa, na frente da criança (Figura 60).
Figura 59: Frequência com que homem bate em mulher na frente da criança
Se 11% responderam que adulto bate em adulto e 12% responderam que homens
batem em mulher, tudo indica que todos os adultos que batem em adultos são homens batendo
em mulheres.
4.1.1.3.3 Armas de fogo na frente da criança
Praticamente 100% dos adultos responderam que armas de fogo nunca ficam na frente
da criança. Apenas um respondente disse que raramente a criança vê arma de fogo dentro de
casa.
87 4.1.2. Violência na comunidade
Investigou-se a percepção do adulto sobre a segurança na comunidade e frequência
com que testemunham ou ficam sabendo de alguns tipos de violência na comunidade.
4.1.2.1. Segurança para andar à noite
A percepção dos adultos quanto à segurança para andar à noite na comunidade se
divide em se sentir seguro ou inseguro. Parcelas significativas dos respondentes percebem a
comunidade como segura (32%) e uma parcela um pouco maior (39%) percebe como insegura
(Figura 61).
Figura 61: Grau de satisfação com a segurança na comunidade para andar à noite
Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos (KW, chi²=6,601, sig=0,086). A avó é quem percebe a comunidade como mais segura para andar
à noite e a mãe é quem percebe a comunidade como menos segura (Figura 62).
88 Figura 62: Percepção da segurança na comunidade para andar à noite por grupos de adulto
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por grupo de adultos, que permite identificar, neste caso, qual grupo mais percebe a comunidade
como segura ou insegura. Os valores mais baixos indicam os grupos que mais percebem a comunidade como mais segura e os valores mais
altos indicam os grupos que percebem a comunidade como menos segura. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
Enquanto apenas 27% das mães acha a comunidade segura para andar à noite, a
maioria das avós (59%) acha a comunidade segura para andar à noite (Figura 62). Apenas 8%
das avós percebe a comunidade como insegura para andar à noite, enquanto quase a metade
das mães (43%) acham a comunidade insegura para andar à noite.
Portanto, os dados revelam que a comunidade para as avós é segura, mas, para as
mães, a comunidade é mais insegura do que segura. A opinião dos pais é bem dividida,
encontra-se o mesmo número de pais que acham a comunidade segura (33%) e insegura
(33%).
4.1.2.2. Segurança para a criança brincar fora de casa
A comunidade é percebida por 49% dos adultos como insegura e segura por 32%, para
as crianças brincarem fora de casa (Figura 63). Portanto é mais vista como insegura do que
como segura.
89 Figura 63: Grau de satisfação com a segurança na comunidade para a criança brincar fora de casa
Embora os resultados não revelem diferença estatisticamente significativa entre os
grupos de adultos quanto à percepção de segurança da comunidade para que as crianças
brinquem fora de casa, o cruzamento dos dados permite algumas observações.
Figura 64: Segurança na comunidade para a criança brincar fora de casa, por grupo de adultos
A avó é quem mais percebe a comunidade como segura para a criança brincar fora de
casa e a percepção da mãe e do pai é praticamente a mesma. Em ambos os grupos, mãe e pai,
50% deles percebe a comunidade como insegura para as crianças brincarem fora de casa e
32% e 31%, respectivamente, acha que é segura (Figura 64).
90 4.1.2.3. Frequência com que sua casa já foi assaltada
A grande maioria (94%) das casas nunca foi assaltada, apenas 6% dos respondentes já
teve sua casa assaltada (Figura 65).
Figura 65: Frequência com que sua casa já foi assaltada
Embora a casa do respondente não tenha sido assaltada, a maioria deles fica sabendo
de assaltos noutras casas, conforme será visto adiante.
4.1.2.4. Violência que o adulto fica sabendo
Verificou-se qual a frequência com que os adultos ficam sabendo de pessoas que são
assaltadas, de casas que são assaltadas, de assaltos no comércio.
4.1.2.4.1. Fica sabendo de pessoas que são assaltadas
A maioria (63%) dos respondentes já ficou sabendo de pessoas que foram assaltadas
nas “ruas” da comunidade, sendo que 18% deles fica sabendo sempre ou quase sempre e
apenas 37% nunca ficou sabendo (Figura 66).
91 Figura 66: Frequência com que fica sabendo que pessoas foram assaltadas na comunidade
Ou seja, a cada 10 pessoas, 6 ficam sabendo de assaltados na comunidade. É, portanto,
uma taxa alta de assaltos nas ruas da comunidade.
4.1.2.4.2. Fica sabendo de casas que são assaltadas A maioria dos respondentes (57%) já ficou sabendo de casas que são assaltadas na
comunidade, ou seja, de 10 pessoas, praticamente 6 pessoas já ficaram sabendo de casas que
foram assaltadas (Figura 67). No entanto, os assaltos em casas não são frequentes, uma vez
que a grande maioria dos respondentes nunca teve a sua casa assaltada, como visto
anteriormente.
Figura 67: Frequência com que fica sabendo de casas que foram assaltadas na comunidade
92 Se a maioria dos respondentes fica sabendo de assaltos em casas, mas a grande
maioria deles nunca teve sua casa assaltada, isso pode significar que poucos assaltos
acontecem, mas muita gente fica sabendo dos mesmos eventos. O que pode indicar que, pelo
menos quanto a assaltos nas casas, a comunidade é segura.
4.1.2.4.3. Fica sabendo de assaltos no comércio
A maioria dos respondentes (64%) nunca ficou sabendo de assaltos no comércio da
comunidade. Apenas 10% respondeu que fica sabendo sempre ou quase sempre (Figura 68).
Figura 68: Frequência com que fica sabendo de assaltos no comércio da comunidade
Os dados indicam, portanto, que pelo menos quanto à ocorrência de assaltos no
comércio, a comunidade tem um índice elevado de segurança.
4.1.2.4.4. Fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade
Quando perguntados se já ficaram sabendo de abuso sexual contra crianças na
comunidade, 37% dos adultos já ficaram sabendo. Ou seja, a cada 10 adultos, cerca de quatro
já ficaram sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade, sendo que 22% fica
sabendo raramente, mas 4% fica sabendo sempre ou quase sempre e 11% fica sabendo às
vezes (Figura 69).
93 Frequência com que o adulto fica sabendo de
abuso sexual contra crianças na comunidade
Morro dos Macacos - Rio de janeiro/2012
63%
22%
2%
Sempre
2%
11%
Quase sempre Às vezes
Raramente
Nunca
Figura 69: Frequência com que fica sabendo de abuso sexual contra crianças na comunidade
4.1.2.5. Violência testemunhada pelo adulto
4.1.2.5.1. Ouve tiros de armas de fogo
A maioria dos adultos (69%) já ouviu tiros de armas de fogo na comunidade, apenas
31% nunca ouviu (Figura 70), sendo que 9% ouve sempre ou quase sempre e 27% ouve às
vezes.
Figura 70: Frequência com que ouve tiros de armas de fogo nas ruas da comunidade
94 4.1.2.5.2. Vê policial apontando uma arma
A maioria dos adultos (55%) já viu policial apontando uma arma de fogo nas ruas da
comunidade (Figura 71), sendo que 27% veem sempre, o que significa que 3 a cada 10
adultos sempre vê um policial apontando uma arma de fogo e 6 a cada 10 pessoas já viu pelo
menos uma vez (raramente).
Figura 71: Frequência com que vê policial apontando uma arma de fogo nas ruas da comunidade
4.1.2.5.3. Vê outras pessoas apontando uma arma
A grande maioria dos respondentes (90%) nunca viu outras pessoas, que não seja
policial, apontando uma arma de fogo (Figura 72), o que significa que apenas 1 pessoa a cada
10 já viu alguma vez pessoas que não sejam policiais apontando arma de fogo. A frequência é
baixa, uma vez que de cada 40 pessoas, 2 veem raramente, uma vê às vezes e uma vê sempre
(Figura 72).
Frequência com que o adulto vê outras pessoas
90%
apontando uma arma nas ruas da comunidade
Morro dos Macacos - Rio de janeiro/2012
3%
Vê sempre
0%
Vê quase sempre
2%
5%
Vê Vê às v ezes
raramente
Nunca v ê
Figura 72: Frequência com que vê outras pessoas que não seja policial apontando uma arma de fogo
95 4.1.2.5.4. Vê alguém sendo ferido por tiro, facada ou socos
A grande maioria dos adultos nunca viu pessoas sendo feridas por tiro ou facadas na
comunidade. No entanto, 49% dos adultos já viram adultos sendo feridos por socos, ou seja,
praticamente 5 a cada 10 pessoas já viram, sendo que 19% sempre veem adultos sendo feridos
por socos (Figura 73).
Figura 73: Frequência com que o adulto vê algum adulto sendo ferido por tiro, facada e soco
4.1.2.5.7. Vê alguém sendo preso
A maioria dos adultos (62%) já viu alguém sendo preso na comunidade (Figura 74),
sendo que 26% vê sempre ou quase sempre.
96 Figura 74: Frequência com que o adulto vê alguém sendo preso
O que significa uma alta incidência de pessoas sendo presas na comunidade, uma vez
que, de cada 10 pessoas, 6 já viram alguém sendo preso e de cada 10 pessoas, 3 veem sempre.
4.1.2.5.8. Vê gente vendendo drogas
A grande maioria dos respondentes (78%) nunca viu gente vendendo drogas na
comunidade (Figura 75). Ou seja, apenas 22% já viu. No entanto, 10% vê sempre ou quase
sempre, o que significa que, de cada 10 pessoas, 1 sempre vê gente vendendo drogas.
Frequência com que o adulto vê alguém
vendendo drogas
Morro dos Macacos - Rio de janeiro/2012
78%
8%
2%
4%
8%
Sempre Qu ase sempre Às vezes Raramente
Nunca
Figura 75: Frequência com que o adulto vê alguém vendendo drogas
4.1.3.
Percepção sobre os serviços públicos
Verificou-se o grau de satisfação sobre os seguintes serviços na comunidade:
Ø Iluminação
a) Em frente ou próxima da moradia;
97 b) Iluminação das praças.
Ø Serviços de Saúde
a) Quantidade de médicos;
b) Tempo de espera no posto de saúde;
c) Quantidade de pediatras no posto de saúde;
d) Frequência de agentes de Saúde da família.
Ø Serviços de creches
Ø Serviços da escola
Ø Serviços de transporte
4.1.3.1. Iluminação
4.1.3.1.1. Iluminação em frente ou próxima da moradia
Boa parte dos respondentes (37%) não tem iluminação em casa e, provavelmente, são
esses os insatisfeitos em relação à iluminação, uma vez que a mesma parcela (37%) respondeu
que a iluminação em frente à casa é ruim (Figura 76), o que indica que a insatisfação é pela
falta de iluminação e não pela qualidade da mesma. A maioria dos que têm iluminação estão
satisfeitos, que representa 41% do total de respondentes.
(a) (b) Figura 76: Iluminação da rua em frente ou próxima à moradia: (a) existência ou não da iluminação
(b) grau de satisfação do adulto com a iluminação em frente o próxima à casa
98 4.1.3.1.2. Iluminação das praças
A grande maioria dos respondentes (75%) está satisfeita com a iluminação nas praças,
sendo que apenas 14% acha a iluminação ruim (Figura 77).
Figura 77: Nível de satisfação com a iluminação das praças
4.1.3.2. Saúde
O grau de satisfação em relação aos serviços de saúde da comunidade foi resultado da
avaliação de quatro fatores: a quantidade de médicos no posto de saúde, o tempo de espera do
usuário, a quantidade de pediatras e a frequência com que os agentes de saúde visitam as
famílias.
4.1.3.2.1. Frequência de agentes de saúde visitam as famílias
Esse é o serviço de saúde com o maior grau de satisfação entre os adultos, a maioria
deles (69%) acha que a frequência de agentes de saúde nas famílias é “boa” (Figura 78).
Apenas 16% estão insatisfeitos.
99 Figura 78: Graus de satisfação com a frequência de agentes de saúde nas famílias
4.1.3.2.2. Quantidade de médicos no posto de saúde
A quantidade de médicos no posto de saúde é o segundo serviço com o qual os adultos
estão mais satisfeitos, embora a parcela que acha ruim (39%) seja maior que a parcela de
adultos que acham a quantidade de médicos “boa” (35%) (Figura 79). Para 26% de adultos, a
quantidade de médicos não é boa/nem ruim.
Figura 79: Graus de satisfação com a quantidade de médicos no Posto de Saúde
4.1.3.2.3. Quantidade de pediatras no posto de saúde
A parcela de adultos insatisfeitos (41%) com a quantidade de pediatras no posto de
saúde é maior do que a parcela de adultos satisfeitos (33%) (Figura 80).
100 Figura 80: Graus de satisfação com a quantidade de pediatras no Posto de Saúde
Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre os grupos de
adultos. Os graus de satisfação entre mãe, pai, avó e outros são semelhantes ao resultado
geral.
4.1.3.2.4. Tempo de espera por uma consulta no Posto de Saúde
A maior insatisfação dos adultos em relação aos serviços de saúde é com o tempo de
espera para uma consulta no posto de saúde. A maioria dos adultos (56%) está insatisfeita
com o tempo de espera nos postos de saúde, enquanto apenas 22% está satisfeita (Figura 81).
Figura 81: Satisfação com o tempo de espera no Posto de Saúde
101 Os resultados revelam diferença estatisticamente significativa entre os grupos (K-W,
chi²=9,267, sig=0,026). As avós são as mais satisfeitas com o tempo de espera pela consulta
no posto de saúde. A maioria delas (64%) acha bom o tempo de espera no posto de saúde e
apenas 18% acha ruim (Figura 82). Justifica o fato da avó, provavelmente, ter preferência nos
atendimentos pela condição de “idosa”.
Satisfação com o tempo de espera
no posto de saúde, por grupo de adultos
Bom
Nem bom/nem ruim
Ruim
Mangueirinha - Rio de janeiro/2012
64%
62%
58%
47%
33%
20% 18%
32%
20%
18% 18%
11%
Mãe
(m.o.=79,21)
Pai
(m.o.=70,30)
Avó
(m.o.=39,45)
Outros
(m.o.=79,95)
Figura 82: Satisfação com o tempo de espera no Posto de Saúde, por grupo de adultos
As mães são as mais insatisfeitas com o tempo de espera no posto de saúde. A maioria
delas (62%) acha o tempo de espera ruim, 20% acha bom.
4.1.3.3. Creches
A maioria (79%) dos adultos está satisfeito com os serviços de creche na comunidade,
apenas 8% acha os serviços de creche ruim (Figura 83).
102 Figura 83: Graus de satisfação com os serviços das creches
Os resultados não revelam diferença entre os grupos, o que significa que mãe, pai e
avó percebem os serviços de creche com a mesma satisfação.
4.1.3.3.1. Motivos para os graus de satisfação com a creche
O principal motivo de satisfação do adulto com a creche, apontado por boa parte dos
adultos (35%) é que a creche possui bons professores, que tratam bem as crianças (Figura 84).
Figura 84: Motivos para a satisfação com a creche
103 Outros motivos mencionados para a satisfação são: “não tem reclamação porque nunca
deram motivo” (12%); as crianças gostam da creche (4%); não sabem o motivo (4%), as mães
podem trabalhar (3%), tem boa estrutura (3%) e outros motivos mencionados por 1 ou 2% dos
respondentes estão listados abaixo:
Ø Alguém da família estudou lá;
Ø Professores não faltam;
Ø A creche se comunica com a família;
Ø As pessoas nunca comentaram mal;
Ø A criança nunca voltou machucada;
Ø Tem enfermeiras;
Ø Não precisa pagar;
Ø Fácil conseguir vaga;
Ø Oferece tudo de bom: alimentação, material.
Os motivos para a insatisfação são: crianças são maltratadas pelos professores,
funcionários ou colegas (5%), difícil conseguir vaga (3%) (Figura 84). Outros motivos são
mencionados por 1 ou 2% dos respondentes:
Ø Apenas as creches pagas ou de ONG’s são boas, as públicas são ruins;
Ø Falta material (sabonete, fralda, etc.);
Ø As crianças voltam para casa com fome;
Ø Tinha que ter câmera;
Ø A estrutura não é boa;
Ø Tem sala do “bobo” onde uma senhora coloca limite nas crianças.
4.1.3.4. Escolas
A maioria dos adultos revela satisfação com a escola da comunidade (70%), enquanto
apenas 9% se mostram insatisfeitos (Figura 85).
104 Figura 85: Graus de satisfação com os serviços das escolas
Os resultados revelam diferença estatisticamente significativa entre os grupos (K-W,
chi²=7,465, sig=0,058). A avó é a mais satisfeita (m.o.=55,71), enquanto o pai é o mais
insatisfeito (m.o.=90,64).
4.1.3.4.1. Motivos para o grau de satisfação com a escola
O principal motivo para a satisfação dos adultos com a escola, apontado por 28% dos
adultos, é o fato de a escola ter “bons professores, que ensinam bem, dão atenção para a
criança”. Em seguida, os motivos mais citados são: “por ouvir dizer que é boa” (9%), “bom
desenvolvimento da criança” (7%), “boa qualidade do espaço (7%) (Figura 86). Vários outros
motivos foram citados para a satisfação, por 1 a 3% dos adultos, a saber:
Ø Professora passa trabalhos;
Ø A escola é boa, se as crianças não aprendem é por falta de interesse, depende
do aluno;
Ø Horário facilita as mães, tem horário integral;
Ø Escola atende demanda da comunidade;
Ø Tem atividades fora da sala de aula, como: passeios, xadrez, reforço escolar,
inglês, futebol, flauta e capoeira;
Ø É difícil a escola ficar sem aula, tem aula todos os dias;
Ø Crianças não são reprovadas;
105 Ø Espaço com boa qualidade, limpo, bonito, boa iluminação;
Ø Boa alimentação;
Ø Escola segura;
Ø Professores conversam com os pais ou mandam bilhetes.
Figura 86: Motivos mais citados pelos adultos para o grau de satisfação com a escola
Os motivos mais citados para a insatisfação com a escola são: desenvolvimento ruim
da criança (5%) e professores ruins (5%). Outros motivos para a insatisfação foram citados
por 1 a 3% dos adultos, como:
Ø Tem muita bagunça na escola, há muita indisciplina, briga entre crianças;
Ø Professores trabalham com medo dos alunos, não têm controle da bagunça que
eles fazem;
Ø Só tem uma escola boa, a escola Noel Rosa;
Ø Criança volta suja, arranhada;
Ø Falta professor;
Ø Falta motivação aos professores (financeira, respeito dos alunos, falta de
estrutura da escola, etc.);
Ø Falta escola no alto do morro, só tem na rua de baixo;
Ø As crianças reclamam da professora;
106 Ø Todos reclamam do ensino;
Ø Crianças demoram a ser liberadas.
4.1.3.5. Serviços de Transporte
A maioria dos adultos (63%) está satisfeita com os serviços de transporte da
comunidade. No entanto, 18% acha que o transporte é ruim (Figura 87).
Figura 87: Graus de satisfação com os serviços de transporte da comunidade
Os resultados não revelam diferença entre os grupos, indicando que mães, pais e avós
percebem o transporte da comunidade com o mesmo grau de satisfação.
4.1.3.5.1. Motivos para os graus de satisfação com o transporte
Os motivos para a satisfação com o transporte na comunidade são: opção de transporte
para vários locais da comunidade, citados por 30% dos respondentes; atende a demanda, não
passam cheios e passa toda hora (11%); é bom e barato (4%); facilita descer e subir para a
comunidade. Outro motivo foi mencionado por 2% dos respondentes: boa qualidade dos
veículos, ônibus com ar-condicionado (Figura 88).
107 Figura 88: Motivos mais citados pelos adultos para o grau de satisfação com o transporte
Os motivos para a insatisfação com o transporte na comunidade são: falta ônibus,
Kombi, a espera é longa (15%); falta opção de transporte para mais locais da comunidade
(6%); só tem alternativo: Kombi e moto (5%) (Figura 88).
Outros motivos para a insatisfação foram citados por 1 ou 2% dos respondentes:
Ø O serviço de transporte não é 24 horas, nada entra na comunidade depois de certa hora
e falta transporte no final de semana;
Ø Tem assalto nos ônibus;
Ø O serviço dos cobradores e motoristas é ruim, muitas vezes não param.
4.1.4. O que falta na comunidade
Para uma grande parcela dos respondentes (30%), faltam na comunidade espaços para
o lazer das crianças (praças, parquinhos, local para jogar bola). Outros motivos citados foram:
mais projetos sociais e cursos voltados para as crianças, como oficina de arte e leitura (11%),
mais creches, escolas e hospitais (10%), mais médicos nos postos de saúde e melhora no
atendimento (9%), segurança e liberdade para as crianças andarem à vontade pela comunidade
(6%), centro esportivo, piscina e campo de futebol (6%) (Figura 89).
108 Figura 89: O que falta na comunidade para as crianças, na percepção do adulto
Outros fatores que faltam na comunidade foram citados por 1 ou 2% dos respondentes:
Ø Orientação quanto às drogas;
Ø Transporte escolar;
Ø Reforma na educação escolar;
Ø Material para as crianças fazerem as atividades;
Ø Clínica da família UPA, agentes de saúde para atenderem em casa;
Ø Atividades culturais, principalmente nos finais de semana;
Ø Manutenção das praças e fiscalização contra a depredação;
Ø Melhorar as moradias;
Ø Teleférico;
Ø Mais cursos de informática;
Ø Saneamento básico;
Ø Atividades esportivas acompanhadas por profissionais;
Ø Limpeza nas ruas da comunidade, cortar o mato;
Ø Pracinhas e escolas no alto do morro;
Ø União e solidariedade entre os moradores;
Ø Projetos com música;
Ø Escolas e músicas para as crianças com deficiência;
Ø Mais vagas para as crianças nos projetos existentes;
Ø Coisas para as crianças aprenderem a ser cidadã, pessoa de bem.
109 4.1.5. Balanço sobre a percepção do adulto
4.1.5.1. Violência em casa
70% dos adultos gritam com a criança;
61% dos adultos batem na criança;
58% dos adultos coloca a criança de castigo.
4.1.5.1.1 Fatores relacionados à violência psicológica de gritar com a criança
Ø Grupo de adultos (K-W, chi²=23,036, Sig=0,000);
80% das mães grita (m.o.=69,42)10;
54% das avós grita (m.o.= 95,38);
33% dos pais grita (m.o.= 119,67).
Ø Idade da criança (K-W, chi²=15,743, Sig=0,028):
2 anos: 67% das mães sempre grita, 33% às vezes (m.o.= 35,33);
5 anos: 63% das mães sempre grita, 6% quase sempre (m.o.= 38,72);
7 anos: 47% das mães sempre grita, 7% quase sempre (m.o.= 47,70);
6 anos: 40% das mães sempre grita, 13% quase sempre (m.o.= 50,47);
4 anos: 36% das mães sempre grita, 9% quase sempre (m.o.= 52,09);
3 anos: 25% das mães sempre grita, 25% quase sempre (m.o.= 52,56);
8 anos: 25% das mães sempre grita, 20% quase sempre (m.o.= 59,13);
1 ano: 43% das mães às vezes grita (m.o.=80,71).
10
Nota: m.o.=média dos valores ordinais (sempre, quase sempre, às vezes, raramente). Permite a clara
identificação de qual grupo mais pratica a violência. Nesta pesquisa, na percepção do adulto, os valores mais
baixos das médias ordinais indicam os índices mais altos de violência e os valores mais altos das médias
ordinais indicam os menores índices de violência. Ou seja, quanto maior a média ordinal, menor os percentuais
de violência. Foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
110 4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência psicológica de colocar de castigo
Ø Grupo de adultos (não confirmada estatisticamente):
63% das mães coloca a criança de castigo;
50% de pais coloca a criança de castigo;
38% de avós coloca a criança de castigo.
Ø Idade da criança (K-W, chi²=13,904, Sig=0,053):
5 anos: 50% das mães colocam sempre e 19% às vezes (m.o.= 41,31);
2 anos: 56% das mães colocam sempre a criança e castigo (m.o.= 44,61);
7 anos: 40% das mães colocam sempre (m.o.= 45,50);
6 anos: 27% das mães colocam sempre e 13% quase sempre (m.o.= 46,67);
4 anos: 36% das mães colocam sempre (m.o.=50,14)
3 anos: 14% das mães colocam sempre e 29% quase sempre (m.o.=50,86)
8 anos: 25% das mães colocam sempre e 10% quase sempre (m.o.=55,30)
0% das mães de crianças de 1 ano coloca de castigo (m.o.= 80,50).
4.1.5.1.2. Fatores relacionados à violência física de bater
Ø Grupo de adultos (K-W, chi²=19,895, Sig=0,000);
73% das mães bate (m.o.= 70,13);
54% das avós bate (m.o.= 86,50);
17% de pais bate (m.o.= 115,81).
Ø Idade da criança (K-W, chi²=15,013, Sig=0,036).
2 anos: 33% das mães bate sempre, 67% às vezes (m.o.= 26,00);
5 anos: 19% das mães bate sempre, 44% às vezes (m.o.= 45,28);
7 anos: 67% das mães bate às vezes (m.o.= 48,60);
6 anos: 13% das mães bate sempre, 40% às vezes (m.o.= 49,20);
3 anos: 13% das mães bate quase sempre, 37% às vezes (m.o.= 54,81);
8 anos: 5% das mães bate sempre, 15% quase sempre (m.o.= 55,30);
4 anos: 46% das mães bate às vezes, 15%, quase sempre (m.o.= 59,82).
Ø Quantidade de criança na casa (K-W, chi²=3,003, sig=0,223):
111 77% das mães em casas com 2 crianças, bate na criança (m.o.= 46,07);
71% das mães em casas com 3 crianças, bate na criança (m.o.= 47,14);
69% das mães em casas com 1 criança, bate na criança (m.o.= 56,17).
Ø Sexo da criança (diferença não confirmada estatisticamente):
74% das mães batem nos meninos;
71% das mães batem nas meninas.
Ø Frequência com que a criança dorme com pai e mãe (sem correlação)*
70% das mães cuja criança sempre dorme com pai e mãe, bate na criança;
100% das mães cuja criança quase sempre dorme com pai e mãe, bate;
83% das mães cuja criança às vezes dorme com pai e mãe, bate;
67% da mães cuja criança raramente dorme com pai e mãe, bate;
72% das mães cuja criança nunca dorme com pai e mãe, bate na criança.
*Embora não haja correlação, a criança de 2 anos, maior vítima da violência física da mãe, é a
que mais dorme com pai e mãe.
Ø Escolaridade da mãe entrevistada (diferença não confirmada estatisticamente):
100% das mães com curso superior, bate;
81% das mães com 1° grau completo, bate na criança;
70% das mães com 1° grau incompleto, bate na criança;
69% das mães com 2° grau completo, bate na criança;
67% das mães com 2° grau incompleto, bate na criança.
Ø Consumo de bebida alcoólica pela mãe (sem correlação)*:
100% das mães que bebem quase sempre, bate na criança;
83% das mães que bebem raramente, bate na criança;
79% das mães que bebem às vezes, bate na criança;
75% das mães que bebem sempre, bate na criança;
68% das mães que nunca bebe, bate na criança.
Ø Renda mensal das mães (K-W, chi²=4,313, sig=0,116):
80% das mães com renda < que o salário mínimo, bate (m.o. = 47,66);
112 79% das mães com renda entre 1 e 2 salários mínimos, bate (m.o. = 51,52);
57% das mães sem renda, bate na criança (m.o. = 61,35).
Ø Renda mensal das mães (bolsa família descriminada)
(diferença não confirmada estatisticamente):
86% das mães com renda menor que o mínimo (bolsa), bate na criança;
85% das mães com renda entre 1 e 2 mínimos (bolsa + trabalho), bate;
80% das mães com renda entre 1 e 2 mínimos (trabalho), bate;
68% das mães com renda menor que o mínimo (trabalho), bate;
57% das mães sem renda, bate.
Ø Idade das mães (diferença não confirmada estatisticamente)
92% das mães de 35-39 anos, bate na criança;
81% das mães de 20-24 anos, bate na criança;
75% das mães de 30-34 anos, bate na criança;
71% das mães com 40-44 anos, bate na criança;
70% das mães de 25-29 anos, bate na criança;
40% das mães de 18-19 anos, bate na criança;
33% das mães de 17 anos ou menos, bate na criança.
Ø Quantidade de cômodos da casa (sem diferença estatisticamente significativa):
100% das mães cujas casas têm 1 cômodo, bate na criança;
100% das mães cujas casas têm 2 cômodos, bate na criança;
73% das mães cujas casas têm 3 cômodos, bate na criança;
73% das mães cujas casas têm 5 cômodos, bate na criança;
63% das mães cujas casas têm 4 cômodos, bate na criança.
Ø Quantidade de dormitórios (sem diferença estatisticamente significativa)
73% das mães cujas casas têm 1 dormitório, bate na criança;
69% das mães cujas casas têm 2 dormitórios, bate na criança;
Ø Quantidade de banheiros (com chuveiro) na casa* (sem diferença estatística)
100% das mães cujas casas têm 2 banhos, bate na criança;
113 83% das mães cujas casas não têm banhos, bate na criança;
71% das mães cujas casas têm 1 banho, bate na criança.
*A grande maioria das mães (89%) mora em casa com 1 banheiro com
chuveiro.
Ø Tipo da rua (sem diferença estatisticamente significativa)
79% das mães cujas ruas são escadarias, bate na criança;
70% das mães cujas ruas são vielas onde só passam pedestres, bate;
67% das mães cujas ruas passam carros, bate na criança;
50% das mães cujas ruas são vielas onde só passam motos, bate na criança.
Ø Existência de iluminação na rua (sem diferença estatisticamente significativa):
82% das mães cujas ruas não tem iluminação, bate na criança;
65% das mães cujas ruas tem iluminação, bate na criança.
Ø Grau de satisfação com a iluminação da rua (spearmam, c = -0,243, sig =
0,013)*
64% das mães que acham a iluminação boa, batem na criança;
74% das mães que acham a iluminação ruim, batem na criança.
*Correlação negativa, indica que o índice de violência física praticada pela mãe
é maior entre as mães insatisfeitas com a iluminação da rua.
Ø Violências e atitudes que dão limite para a criança na percepção da mãe:
Para 82% “conversa”;
Para 62% “colocar de castigo”;
Para 56% “dizer não”;
Para 25% “dar uns tapas”;
Para 14% “gritar”;
Para 6% “bater”.
Ø Mau comportamento da criança na percepção da mãe
Para 35% a criança faz pirraça, faz manha, chora e fica irritada;
Para 14% a criança agride, morde, bate ou quer bater;
114 Para 13% a criança implica e briga com os irmãos;
Para 9% a criança desobedece, fica teimosa;
Para 8% a criança responde mal ou ofende os outros.
Ø Frequência com que a criança se comporta mal na percepção da mãe
Para 96% a criança se comporta mal.
Ø Frequência com que a criança testemunha violência entre adultos, em casa:
Para 36% “adulto grita com outro adulto”;
Para 11% “adulto bate em outro adulto”;
Para 12% “adulto bate em mulher”.
Ø Frequência com que armas de fogo ficam expostas à criança, em casa
Para 100% as armas de fogo nunca ficam na frente da criança.
4.1.5.2. Violência na comunidade
Ø Assaltos na comunidade:
6% dos adultos da amostra tiveram suas casas assaltadas;
57% ficaram sabendo de casas que foram assaltadas;
63% ficaram sabendo de pessoas assaltadas nas ruas da comunidade;
36% ficaram sabendo de assaltos no comércio da comunidade.
Ø Abuso sexual contra crianças:
37% dos adultos já ficou sabendo.
Ø Violência testemunhada pelo adulto:
69% ouve tiros de armas de fogo;
62% vê alguém sendo preso;
55% vê policial apontando uma arma de fogo;
49% vê adulto sendo ferido por socos;
115 22% vê adulto sendo ferido por tiro de arma de fogo;
22% vê gente vendendo drogas;
19% vê adulto sendo ferido por facada;
10% vê outras pessoas apontando uma arma.
4.1.5.3. Percepção sobre os serviços da comunidade
Ø Índices de insatisfação dos adultos:
56% com o tempo de espera de uma consulta no posto de saúde;
49% acha inseguro para a criança brincar fora de casa;
42% com a iluminação das praças;
41% com a quantidade de pediatras no posto de saúde;
39% com a quantidade de médicos no posto de saúde;
39% acha inseguro para andar à noite na comunidade;
37% com a iluminação em frente ou próxima à casa;
18% com o transporte;
16% com os agentes de Saúde da Família;
14% com a iluminação das praças;
9% com as escolas;
8% com as creches.
Ø Índices de satisfação dos adultos:
79% com as creches;
75% com a iluminação das praças;
70% com a escola;
69% com os agentes de Saúde da Família;
63% com o transporte;
41% com a iluminação em frente ou próxima à moradia;
35% quantidade de médicos no posto de saúde;
33% com a quantidade de pediatras no posto de saúde;
32% acha seguro para a criança brincar fora de casa;
32% acha seguro para andar à noite;
22% com o tempo e espera no posto de saúde.
116 4.1.5.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade:
Para 30% faltam praças e outros espaços de lazer;
Para 11% oficinas e projetos para as criança;
Para 10% creches, escolas, hospitais;
Para 9% médicos nos postos de saúde.
4.2. Análise de regressão
A avaliação que segue é realizada a partir das informações descritas na seção 4.1.,
empregadas numa análise de regressão. O objetivo, na maior parte das aplicações com
microdados em análise de regressão, visa investigar a relação entre uma variável dependente
(Yi, em nosso caso: bater, gritar ou colocar de castigo) e um vetor de variáveis explicativas
( xi' , aqui: idade, escolaridade etc.). Embora existam inúmeros modelos que possam ser
utilizados nessa análise, a preferência pelo uso de um Modelo de Escolha Discreta se deve em
grande parte às características observadas na amostra dos dados em que a opção por bater,
gritar ou colocar de castigo pode ser entendida como sendo resultado da escolha feita pelos
adultos (pai, mãe e avó) dentre outras alternativas, como a de não cometer violência física ou
psicológica. O modelo procura identificar as principais características associadas aos
indivíduos (adultos) que estão diretamente e indiretamente envolvidos na possibilidade de
exercer a violência.
Em linhas gerais, o modelo de escolha discreta pode ser visto como um modelo em
que a variável dependente é binária e que a realização dessa variável pode ser interpretada
como sendo o resultado de uma escolha individual entre duas alternativas: cometer ou não a
violência.
Os modelos de escolha discreta têm sido desenvolvidos para gerar modelos de
probabilidades discretas baseadas na maximização da utilidade. Aqui, utilidade pode ser
entendida como uma satisfação obtida ao optar por uma escolha, gerando o maior nível de
satisfação para o indivíduo que faz a escolha. Com o auxílio desse modelo é possível estimar
parâmetros de uma função de utilidade observando escolhas feitas por diferentes indivíduos.
No caso da escolha ser binária é comum a estimação de um modelo Probit ou um modelo
Logit. A diferença desses modelos está no termo de distúrbio aleatório que pode assumir uma
117 distribuição de probabilidade normal ou logística. No presente estudo, a estimação será
realizada considerando os modelos Logit.
Considerando que o termo de distúrbio, εi, tem uma distribuição logística, então a
função de probabilidade condicional do modelo Logit é dada por:
Pr( y i = 1 | xi' ) = G ( xi' ) =
exp( xi' β )
(1)
1 + exp( xi' β )
Em que G( . ) é a função densidade acumulada de uma distribuição logística. yi assume valor
de 1 se bater (no caso de violência física) e 0 caso contrário; xi' é um vector de variáveis
explicativas relacionadas ao indivíduo, a demografia, o status socioeconômico e local de
residência.
Antes de apresentar os resultados gerados para o modelo de escolha discreta para a
variável violência física (na sequência para a violência psicológica) é importante fazer
algumas considerações acerca de como foi construída a variável dependente, Yi. O Quadro 3
abaixo mostra que as informações sobre bater compreendem a cinco alternativas: “sempre”,
“quase sempre”, “às vezes”, “raramente” e “nunca”. Como as quatro primeiras opções
implicam em bater, mesmo que seja raramente, optou-se por construir a variável bater como
sendo a soma das quatro primeiras opções: “sempre”, “quase sempre”, “às vezes”,
“raramente”, ao passo que não bater seria a opção “nunca”. Proceder dessa forma nos permite
tornar binária a variável bater. Assim, nossa variável dependente, Yi, assume o valor um se a
escolha observada corresponde a uma dessas alternativas (“sempre”, “quase sempre”, “às
vezes”, “raramente”) e zero caso contrário. O Quadro 4 faz uma descrição da variável
dependente a ser utilizada na análise de regressão.
Quadro 3: Frequência com que a mãe, pai e avó bate na criança - violência física
Opções
Sempre
Quase sempre
Às vezes
Raramente
Nunca
Frequência
11
8
50
27
62
Percentual
6,96
5,06
31,65
17,09
39,24
Acumulado
6,96
12,03
43,67
60,76
100.00
118 Quadro 4: Frequência com que a mãe, pai e avó bate na criança - violência física
Opções
Bater:
Yi = 1
Não bater: Yi = 0
Frequência
96
62
Percentual
60,76
39,24
Acumulado
60,76
100.00
O mesmo procedimento foi empregado para realizar a análise da violência psicológica,
ou seja, para gritar e para colocar de castigo. Os quadros 5 e 6 a seguir descrevem a variável
dependente a ser utilizada na análise de regressão para violência psicológica.
Quadro 5: Frequência com que a mãe coloca de castigo – violência psicológica
Opções
Colocar de castigo: Yi = 1
Não Colocar de castigo: Yi = 0
Frequência
90
68
Percentual
56,96
43,04
Acumulado
56,96
100.00
Quadro 6: Frequência com que a mãe grita com a criança - violência psicológica
Opções
Gritar:
Yi = 1
Não gritar: Yi = 0
Frequência
110
48
Percentual
69,62
30,38
Acumulado
69,62
100.00
Feitas as considerações acerca da variável dependente, vale mencionar qual o
procedimento adotado na seleção das variáveis explicativas que iriam compor o modelo final
a ser apresentado. O procedimento é padrão em análise de regressão, ou seja, faz-se o uso de
teste de hipótese e análise da significância estatística, e critérios de informação. Serão
apresentados os resultados a partir das razões de chances, definida aqui como sendo a
probabilidade da ocorrência de um evento (bater) dividida pela probabilidade de não
ocorrência do mesmo evento (não bater). A razão de chances é uma forma simples de
interpretar os resultados gerados a partir do modelo de escolha discreta e útil para “explicar” o
comportamento da violência física ou psicológica. Como as razões de chances são construídas
a partir das probabilidades, o seu sinal será sempre positivo. Por isso, é importante olhar para
o sinal da estatística Z que permite saber a direção da relação entre as variáveis.
119 4.2.1. Violência física: bater
O Quadro 7 faz uma descrição das variáveis utilizadas na análise de regressão quando
se trata da violência física. As variáveis foram agrupadas segundo o comportamento da
criança, as características da mãe, as características do domicílio e a violência na comunidade.
Quadro 7: Descrição das variáveis utilizadas na análise de regressão para violência física
Variável
Criança agride os outros
Dormir só
Mãe
Mãe ter idade 35 a 39
Mãe bebe na presença da criança
Número de crianças
Número de crianças: mais de
duas crianças no domicílio
Renda do pai sustenta lar
Beneficiário de bolsa família
Almoçar com a criança
Adulto grita com adulto na frente
da criança
Iluminação na rua
Ver alguém sendo preso
Descrição da variável
Comportamento da criança
Binária: assume valor um se a criança se comporta mal “agredindo
os outros” e zero caso contrário
Binária: assume valor um se a criança dorme sozinha e zero caso
contrário
Características da mãe
Binária: assume valor um se a pessoa é mãe e zero caso contrário
Binária: assume valor um se a pessoa é mãe tem idade de 35 a 39 e
zero caso contrário
Binária: assume valor um se a pessoa é mãe bebe na presença da
criança e zero caso contrário
Domicílio
Número de crianças no domicílio
Binária: assume valor um se há mais de 2 crianças no domicílio é e
zero caso contrário
Binária: assume valor um se a renda do pai é que sustenta o lar e
zero caso contrário
Binária: assume valor um se o domicílio recebe o benefício de
bolsa família e zero caso contrário
Binária: assume valor um se os pais almoçam com a criança e zero
caso contrário
Binária: assume valor um se o adulto grita com adulto na presença
de criança e zero caso contrário
Binária: assume valor um se há iluminação em frente ou próximo
da casa e zero caso contrário
Violência na comunidade
Binária: assume valor um se vê alguém sendo preso nas ruas da
comunidade e zero caso contrário
O Quadro 8 apresenta os resultados encontrados na análise de regressão. A análise que
segue toma como base o sinal do coeficiente estimado, a significância estatística (Estatística
Z) e a razão de chance. Em virtude do reduzido tamanho da amostra utilizada na análise de
regressão, o nível de significância considerado na análise será de 15%.
No grupo relacionado ao comportamento da criança pode ser observado que o
coeficiente estimado para a variável “agride os outros” apresenta um sinal positivo e é
estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a probabilidade de sofrer violência
física aumenta se a criança agride os outros. A razão de chance calculada para essa variável
indica um aumento de 93% na chance de uma criança sofrer violência física na medida em
que a criança se comportar mal ao agredir os outros.
120 Quadro 8: Razão de chances para variável dependente bater – Morro dos Macacos
Variável
Agride os outros
Dormir só
Razão e
chance
Estatística Z
Comportamento da criança
1,938
1,47
4,298
2,65
Mãe
Ter idade 35 a 39
Mãe bebe na presença da criança
Criança almoça com os pais
Número de crianças
Numero de crianças: mais de 2
crianças
Renda do pai sustenta lar
Renda complementada com bolsa
família
Adulto grita com adulto na frente de
criança
Iluminação na rua
Vendo alguém ser preso na
comunidade (frequência)
Características da mãe
3,295
31,086
4,607
166,642
Domicílio
1,938
P-value
0,143
0,008
1,84
1,75
2,23
2,22
0,065
0,081
0,026
0,026
1,47
0,143
0,114
0,160
-1,98
-3,35
0,048
0,001
4,651
2,35
0,019
1,77
-1,68
0,077
0,093
-2,03
0,042
2,447
0,437
Violência na comunidade
0,376
A variável “dormir só” é binária e assume valor um se a criança dorme sozinha e zero
caso contrário. O coeficiente estimado para essa variável é comparado com uma categoria de
base que é “não dormir sozinha”. O resultado mostra que o coeficiente estimado apresenta um
sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a probabilidade
de sofrer violência física aumenta se a criança dorme sozinha. A razão de chance mostra a
chance de uma criança sofrer violência física é 4 vezes maior se ela dorme sozinha.
No grupo com as características da mãe, a variável “mãe” é binária e a categoria de
base para fins de comparação é não ser mãe (podendo ser pai ou avó). O resultado mostra que
o coeficiente estimado apresenta um sinal positivo e é estatisticamente significativo
(estatística Z), o que também sugere que a relação entre essa variável e a probabilidade de
ocorrer violência física é positiva. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma
criança sofrer violência física é 3 vezes maior quando comparado com o fato de ser pai ou
avó.
A variável “ter idade” é binária e assume valor um se a mãe se encontra no intervalo
indicado e zero caso contrário. É importante observar que os coeficientes estimados para essa
variável são comparados com uma categoria de base que é a de ter idade entre 17 e 19 anos.
Verifica-se que apenas o coeficiente da variável ter idade 35 a 39 anos apresentou
significância estatística. Observa-se que o sinal da estatística Z para a variável ter idade 35 a
121 39 é positivo, indicando que ter a idade nesse intervalo aumenta a probabilidade de ocorrer a
violência física em relação a categoria de base, ter idade 17 a 19. A razão de chance para essa
variável sugere que a chance de a criança sofrer violência física é 31 vezes maior se a mãe
tem idade entre 35 e 39 anos.
A variável “mãe bebe na presença da criança” é binária e assume valor um se a mãe
bebe e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente apresenta sinal positivo e é
estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a medida que a mãe beber na
presença da criança, aumenta a probabilidade de haver violência física. A razão de chance
calculada mostra que a chance de a criança sofrer violência física aumenta cerca de quase 5
vezes se a mãe beber bebidas alcoólicas na presença de crianças.
A variável “Almoçar com os pais” é uma variável binária que assume o valor 1 se os
pais almoçam com a criança e zero caso contrário. A categoria base para fins de comparação é
não almoçar. O coeficiente apresenta sinal positivo e é estatisticamente significativo
(estatística Z), sugerindo que almoçar com os pais aumenta a probabilidade de que a criança
venha sofrer violência física. Observa-se pela razão de chance que a chance de uma criança
sofrer violência física é quase 166 vezes maior em relação a não sofrer se a criança almoça
com os pais.
No grupo das características do domicílio, a variável “número de crianças” apresenta
um coeficiente positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a
relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência física é positiva. A razão de
chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência física
aumenta 93% em relação a não sofrer violência na medida em que aumenta o número de
filhos.
Com intuito de verificar se a partir de um determinando número de crianças há a
possibilidade de reduzir a violência física, criou-se a variável “número de crianças: mais de 2
crianças” que assume valor um se no domicílio há mais de duas crianças e zero caso contrário.
O resultado mostra que o coeficiente apresenta sinal negativo e possui significância estatística
(Estatística Z), indicando que à medida que o número de crianças dentro do lar é superior a
duas crianças, diminui a probabilidade de ocorrer a violência física. A razão de chances
calculada para essa variável mostra uma redução na chance de uma criança sofrer violência
física na medida em que o número de crianças no domicílio for superior a duas crianças.
A variável “renda do pai sustenta o lar” é binária e assume valor um se a renda do pai
sustenta o lar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente é negativo e possui
significância estatística (estatística Z), indicando que os lares em que a renda do pai é
122 principal fonte de renda a probabilidade de ocorrer violência física é menor. A razão de
chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência física em relação a não
ocorrência diminui na medida em que o pai sustenta o lar.
A variável ser beneficiário de “Bolsa Família” assume valor um se o domicílio recebe
Bolsa Família e zero caso contrário. Pelo resultado, nota-se que o sinal do coeficiente
estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), mostrando que crianças em
domicílios beneficiados com a Bolsa Família têm maior probabilidade de sofrer violência
física. A chance de uma criança sofrer a violência nesse caso é cerca de 4 vezes maior em
relação a um domicílio que não recebe o benefício.
A variável “adulto gritar com um adulto na presença de crianças” é binária e assume
um valor um se o adulto gritar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente
estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que aumenta a
probabilidade de a criança sofrer violência em domicílios em que adulto grita com adulto.
Observa-se que a chance de a criança ser vitima de violência física é duas vezes maior quando
no domicílio há adulto que grita com adulto.
A variável ter “iluminação em frente ou próximo da casa” é binária e assume valor um
se há iluminação e zero caso contrário, tendo como categoria de base para fins de comparação
não ter iluminação. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e
possui sinal esperado (estatística Z), indicando que a existência de iluminação pública em
frente ou próximo da casa reduz a probabilidade de ocorrência de violência física. A razão de
chance mostra que a chance de ocorrer violência física em relação a não ocorrência diminui
na medida em que aumenta a iluminação pública.
No grupo de violência na comunidade testou-se a variável “presenciar alguém sendo
preso na comunidade”, em que assume o valor igual a um se presenciar alguém sendo preso e
zero caso contrário. O coeficiente dessa variável apresentou significância estatística e um
sinal negativo (estatística Z), sugerindo que a relação dela com a variável violência física é
negativa. A razão de chances mostra que reduz a chance de uma criança sofrer violência física
em 37% em relação a uma criança não sofrer violência quando se presencia pessoas sendo
presas na comunidade.
Em geral, pela análise realizada, constata-se que aumenta a chance de a criança sofrer
violência física quando:
1- Almoçar com os pais;
2- Mãe ter idade 35 a 39 anos;
3- Ser beneficiário de bolsa família;
123 4- Mãe beber na presença da criança;
5- Criança dormir sozinha;
6- Ser mãe;
7- Ambiente em que adulto grita com adulto na presença da criança;
8- Número de crianças for maior;
9- A criança se comportar mal: agredir os outros.
Por sua vez, há uma redução na chance de a criança sofrer violência física quando
1- Houver iluminação na frente ou próxima de casa;
2- Presenciar alguém sendo preso;
3- Se o pai sustenta o lar;
4- Número de crianças: mais do que duas crianças no domicílio.
4.2.2. Violência psicológica: colocar de castigo
O Quadro 9 apresenta os resultados obtidos para a análise de regressão quando
consideramos violência psicológica, particularmente a ação de colocar a criança de castigo.
Diferentemente da violência física (bater), em que foi possível identificar vários fatores
associados à ocorrência daquele tipo de violência, aqui apenas três fatores se mostraram com
significância estatística.
No grupo relacionado ao comportamento da criança pode se observar que o resultado
para a variável “agride os outros” apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente
significativa (estatística Z), sugerindo que a relação entre essa variável e a probabilidade da
ocorrência de violência psicológica é positiva. A razão de chance calculada para essa variável
mostra que a chance de uma criança ser colocada de castigo é cerca de 5 vezes maior quando
a criança apresenta um comportamento de agredir os outros.
Quadro 9: Razão de chances para variável dependente colocar de castigo –
Morro dos Macacos
Variável
Razão e chance
Estatística Z
P-value
Comportamento da criança
Agride os outros
5,549
2,810
0,005
Dormir só
2,014
1,750
0,081
Características da mãe
2,869
1,960
0,050
Mãe bebe na presença da criança
124 Ainda dentro do grupo de comportamento da criança, outra variável que se relaciona
com a violência psicológica é “dormir só”. O resultado mostra que o coeficiente estimado é
estatisticamente significativo e apresenta um sinal positivo (estatística Z), indicando que a
probabilidade de sofrer violência psicológica aumenta quando a criança dorme sozinha. A
razão de chance indica que a chance de a criança sofrer castigo é 2 vezes maior quando ela
dorme sozinha.
Com relação ao grupo de características da mãe, a única variável que se mostrou
importante para explicar a violência psicológica castigo foi “mãe bebe na presença da
criança” que assume valor um se a mãe bebe e zero caso contrário. O resultado mostra que o
coeficiente é estatisticamente significativo e apresenta sinal positivo (estatística Z), sugerindo
que, à medida que a mãe passa a beber na presença da criança, aumenta a probabilidade desse
tipo de violência. A razão de chance mostra que a chance da criança sofrer esse tipo de
violência é quase 3 vezes em relação à não ocorrência de violência se a mãe beber bebidas
alcoólicas na presença de crianças.
Em geral, pela análise realizada constata-se que aumenta a chance de a criança sofrer a
violência psicológica “colocar de castigo“ quando:
1- A criança comporta mal: agride os outros;
2- A mãe bebe na presença da criança;
3- A criança dorme sozinha.
4.2.3. Violência psicológica: gritar
O Quadro 10 mostra os resultados obtidos para a análise de regressão quando
consideramos violência psicológica “gritar” com a criança. No geral, foi possível identificar
vários fatores associados à ocorrência daquele tipo de violência associados ao comportamento
da criança, as características da mãe e do domicílio.
Verifica-se no grupo relacionado ao comportamento da criança o resultado para a
variável “agride os outros”. O coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente
significativo (estatística Z), indicando que a relação entre essa variável e a probabilidade da
ocorrência de violência psicológica é positiva. A razão de chance calculada mostra que a
chance de uma criança ser colocada de castigo é cerca de 37 vezes maior quando a criança
apresenta o comportamento de agredir os outros.
125 Quadro 10: Razão de chances para variável dependente gritar – Morro dos Macacos
Variável
Agride os outros
Mãe
Mãe bebe na presença da
criança
Razão e
chance
Estatística Z
Comportamento da criança
37,888
3,02
Características da mãe
2,859
1,89
Benefício de bolsa família
Domicílio com dois dormitórios
Domicílio com três dormitórios
Adulto grita com adulto na
frente de criança
Iluminação na rua
P-value
0,003
0,059
6,463
Domicílio
2,586
2,712
23,390
2,36
0,018
1,54
1,92
2,72
0,124
0,055
0,007
3,268
0,402
2,42
-1,79
0,015
0,073
Para o grupo com as características da mãe, o resultado para a variável “mãe” mostra
que o coeficiente estimado apresenta um sinal positivo e é estatisticamente significativo
(estatística Z), o que também sugere que a relação entre essa variável e a probabilidade de
ocorrer a violência psicológica é positiva. Pela razão de chance, observa-se que a chance de
uma criança sofrer violência física é quase 3 vezes maior em relação a não sofrer essa
violência, se comparado com o fato de ser pai ou avó.
O resultado para a variável “mãe bebe na presença da criança” mostra que o
coeficiente apresenta sinal positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando
que, à medida que a mãe passa a beber na presença da criança, aumenta a probabilidade de
ocorrer violência psicológica. A razão de chance calculada mostra que a chance de a criança
sofrer violência psicológica é 6 vezes maior em relação à não ocorrência de violência se a
mãe beber bebidas alcoólicas na presença de crianças.
Pelo resultado da variável ser beneficiário de “Bolsa Família”, nota-se que o sinal do
coeficiente estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), mostrando que
crianças em domicílios beneficiados com a Bolsa Família têm maior probabilidade de sofrer
violência psicológica. A chance de uma criança sofrer a violência nesse caso é quase 2 vezes
maior em relação a um domicílio que não recebe o benefício.
A variável ter “domicílio com dois dormitórios” é binária e assume valor um se há 2
dormitórios e zero caso contrário, tendo como categoria de base para fins de comparação ter
apenas um dormitório. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo
e possui sinal esperado (estatística Z), indicando que se o domicílio possuir três dormitórios
126 contribui para a probabilidade de ocorrência de violência psicológica (gritar). A razão de
chance indica que a chance é de 3 vezes mais de ocorrer a violência na medida em que
aumenta o número de dormitório na residência.
A variável ter “domicílio com três dormitórios” também é binária, tendo como
categoria de base para fins de comparação ter apenas um dormitório. Observa-se que o
coeficiente estimado é estatisticamente significativo e possui sinal esperado (estatística Z),
indicando que se o domicílio possuir três dormitórios contribui para a probabilidade de
ocorrência de violência psicológica. A razão de chance mostra que a chance de ocorrer
violência psicológica em relação à não ocorrência é 23 vezes maior na medida em que
aumenta o número de dormitórios na residência.
A variável “adulto gritar com um adulto na presença de crianças” é binária e assume o
valor um se o adulto gritar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente
estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que aumenta a
probabilidade de a criança sofrer violência em domicílios em que adulto grita com adulto.
Observa-se que a chance de a criança ser vítima de violência física é três vezes maior quando
no domicílio há adulto que grita com adulto.
A variável ter “iluminação em frente ou próximo da casa” assume valor um se há
iluminação e zero caso contrário, tendo como categoria de base para fins de comparação não
ter iluminação. Observa-se que o coeficiente estimado é estatisticamente significativo e possui
sinal esperado (estatística Z), indicando que a existência de iluminação pública em frente ou
próximo da casa contribui para reduzir a probabilidade da ocorrência de violência psicológica.
A razão de chance mostra que a chance de ocorrer violência psicológica em relação a não
ocorrência diminui na medida em que há iluminação pública.
Constata-se que aumenta a chance da criança sofrer a violência psicológica “gritar“
quando:
1- A criança comporta mal: agride os outros;
2- Domicílio com três dormitórios;
3- A mãe bebe na presença da criança;
4- Adulto grita com adulto na presença de criança;
5- Ser mãe;
6- Domicílio com dois dormitórios;
7- Benefício de bolsa família.
127 Verifica-se uma redução na chance de a criança sofrer violência psicológica apenas
quando há iluminação na rua.
4.3. PERCEPÇÃO DA CRIANÇA
Neste item, será analisada a violência sofrida e testemunhada pela criança em casa, na
escola e na comunidade, com dados obtidos pelo ponto de vista de crianças de 6 a 8 anos.
4.3.1. Violência em casa
Primeiramente, serão analisados três tipos de violência sofrida pela criança em casa,
aplicada pelo adulto, a saber:
Ø Colocar de castigo;
Ø Gritar;
Ø Bater.
Posteriormente, serão analisados tipos de violência testemunhada pela criança em
casa:
Ø Adulto gritando com outro adulto;
Ø Adulto batendo em outro adulto;
Ø Adulto batendo em criança;
Ø Adulto gritando com criança.
4.3.1.1. Violência sofrida pela criança
Três tipos de violência foram sugeridos à criança para que ela indicasse o quanto já
aconteceu com ela: colocar de castigo, gritar e bater. Os resultados revelam que, em casa,
bater é a violência mais sofrida pela criança no Morro dos Macacos (Figura 90).
128 Figura 90: Violência sofrida pela criança em casa
4.3.1.1.1. Bater
A violência mais sofrida em casa pela criança de 6 a 8 anos, do ponto de vista da
criança, é a violência física: bater, mais do que gritar e colocar de castigo. Apenas 16% das
crianças nunca foram vítimas desse tipo de violência aplicada pelos adultos, ou seja, 84% das
crianças já apanharam dos adultos em casa, sendo que 31% delas apanham muitas vezes e
50% já apanharam algumas vezes (Figura 90).
4.3.1.1.2. Colocar de castigo
A segunda violência mais sofrida em casa pela criança de 6 a 8 anos, do ponto de vista
da criança, é ser colocada de castigo. A grande maioria (78%) das crianças de 6 a 8 anos já foi
colocada de castigo, sendo que 31% das crianças entrevistadas já foi colocada de castigo
muitas vezes (Figura 90).
129 4.3.1.1.3. Gritar
A terceira violência mais sofrida pela criança em casa é receber gritos de adultos. A
maioria das crianças de 6 a 8 anos (78%) já recebeu gritos dos adultos em casa, sendo que
25% das crianças entrevistadas já recebeu gritos dos adultos muitas vezes (Figura 90).
4.3.1.2. Violência testemunhada pela criança
Quatro tipos de violência foram sugeridos às crianças para que elas indicassem
quantas vezes testemunharam cada uma delas em casa. Os resultados revelam que a violência
que as crianças mais veem em casa é “adulto batendo em criança” (Figura 91).
Figura 91: Frequência com que a criança testemunha atitudes violentas em casa
130 4.3.1.2.1. Adulto batendo em criança
A grande maioria das crianças de 6 a 8 anos entrevistadas (78%) já testemunharam
adulto batendo em criança em casa, sendo que 37% já viram “muitas vezes” e 41% já viram
algumas vezes (Figura 91). Essa é a violência mais testemunhada pela criança em casa.
4.3.1.2.2. Adulto gritando com criança
A segunda violência mais testemunhada pela criança em casa é “adulto gritando com
criança”. A maioria das crianças (69%) já viu adulto gritando com criança em casa, sendo que
28% delas já viram muitas vezes e 38% já viram algumas vezes (Figura 91).
4.3.1.2.3. Adulto gritando com adulto
A maioria das crianças de 6 a 8 anos (59%) nunca viu adulto gritando com adulto
dentro de casa, no entanto, um número significativo (41%) já viu muitas ou algumas vezes
(Figura 91). Ou seja, a cada 10 crianças, 4 já viram adulto gritando com outro adulto dentro
de casa.
4.3.1.2.4. Adulto batendo com adulto
A maioria das crianças de 6 a 8 anos nunca viu adulto batendo em adulto dentro de
casa. No entanto, 40% já viu pelo menos uma vez, sendo que 16% já viu muita vezes e 12% já
viu algumas vezes (Figura 91). O que significa que, a cada 10 crianças, 4 já viram adultos
batendo em outro adulto dentro de casa e 2 já viram muita vezes.
131 4.3.2. Violência na escola
Primeiramente, serão analisados tipos de violência sofrida pela criança na escola, a
saber, o quanto o adulto:
Ø Coloca a criança de castigo;
Ø Grita com a criança;
Ø Bate na criança.
Posteriormente, serão analisados tipos de violência testemunhados pela criança na
escola, a saber:
Ø Criança batendo em criança;
Ø Adulto batendo em criança;
Ø Adulto gritando com criança.
4.3.2.1. Violência sofrida pela criança
Foram sugeridos três tipos de violência na escola para que a criança de 6 a 8 anos
indicasse o quanto são praticadas contra ela pelo adulto, a saber: colocar de castigo, gritar e
bater.
4.3.2.1.1. Colocar de castigo
Dos três tipos de violência sofridos na escola pela criança de 6 a 8 anos, a mais
frequente é “adulto colocar a criança de castigo”, mais do que gritar e bater (Figura 92).
132 Figura 92: Frequência com que a criança sofre determinados tipos de violência NA ESCOLA
A maioria das crianças entrevistadas (60%) já ficou de castigo na escola pelo menos
uma vez, sendo que 13% já ficou muitas vezes e 38% já ficou algumas vezes (Figura 92).
4.3.2.1.2. Gritar
A maioria das crianças (69%) revelou que adultos nunca gritaram com ela. A parcela
de crianças que disse que adulto grita com ela sempre é pequena (9%)(Figura 92).
4.3.2.1.3. Bater
A grande maioria (88%) das crianças revela que adultos nunca bateram nela na escola.
Ainda assim, algumas crianças (12%) revelaram ter apanhado de adultos pelo menos uma vez,
o que significa 1 a cada 10 crianças (Figura 92).
133 4.3.2.2. Violência testemunhada pela criança
Através da percepção da criança, a pesquisa investigou também tipos de violência que
são testemunhadas na escola. Foram abordados três tipos de violência: adulto batendo em
criança, adulto gritando com criança e criança batendo em criança. Os resultados revelam que
as crianças testemunham mais as cenas de violência de “criança batendo em criança”, assim
como “adulto gritando com criança” do que adultos batendo em crianças (Figura 93).
Figura 93: Frequência com que a criança testemunha a violência na escola.
4.3.2.2.1. Criança batendo em criança
A cena de violência que as crianças mais veem na escola é “criança batendo em
criança”. A grande maioria (84%) já viu pelo menos uma vez. A maioria (56%) já viu muitas
vezes e 25% já viu uma ou algumas vezes. O que significa que, na escola, 8 a cada 10
crianças já viu pelo menos uma vez criança batendo em criança, sendo que 6 a cada 10 já viu
muitas vezes (Figura 93).
Os resultados não revelam diferenças entre a idade da criança com a frequência com
que testemunha (na escola) “criança batendo em criança”, o que significa que crianças com 6,
134 7 e 8 anos testemunham de forma semelhante. No entanto, foi encontrada uma diferença
estatisticamente significativa quanto ao sexo da criança.
4.3.2.2.1.1. Frequência por sexo da criança As meninas veem mais “criança batendo em criança” do que os meninos (Figura 94).
Essa diferença tem uma significância estatística com 76% de confiabilidade, ou seja, com
24% de chance de não se repetir caso seja realizado com outras amostras na comunidade (KW, chi²=1,337, Sig=0,248).
Figura 94: Frequência com que meninas e meninos veem criança batendo em criança, na escola.
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham criança batendo
em criança na escola, meninos ou meninas? Os valores mais altos indicam o sexo que mais testemunha criança batendo em criança na escola
e os valores mais baixos indicam o sexo que menos testemunha criança batendo em criança na escola. Foram obtidos através do teste nãoparamétrico Kruskal Wallis.
A maioria das meninas (69%) vê muitas vezes criança batendo em criança na escola,
enquanto 44% dos meninos veem muitas vezes. Embora tenha diferença na frequência com
que veem, a grande maioria das meninas (88%), quanto dos meninos (82%), testemunham
esse tipo de violência na escola (Figura 94).
135 4.3.2.2.2. Adulto gritando com criança
Adulto gritando com criança é uma violência tão recorrente na escola quanto criança
batendo em criança. A maioria das crianças respondentes (81%) já viram adulto gritando com
criança pelo menos uma vez, sendo que 47% já viram muitas vezes (Figura 93). O que
significa que 8 a cada 10 crianças já viram adulto gritando com adulto na escola, sendo que 5
a cada 10 crianças já viram muitas vezes.
4.3.2.2.3. Adulto batendo em criança
Não é frequente adulto batendo em criança na escola, a maioria das crianças (75%)
nunca viu. No entanto, 25% delas já viu pelo menos uma vez adulto batendo em criança na
escola, sendo que 13% já viu muitas vezes (Figura 93). O que significa que praticamente 3 a
cada 10 crianças já viram adulto batendo em criança na escola, sendo que 1 a cada 10 já viu
muitas vezes.
4.3.3. Violência na comunidade
Na comunidade, avaliou-se apenas a violência testemunhada pela criança (Figura 95).
Nesse sentido, cinco tipos de violência foram sugeridos às crianças para que elas indicassem o
quanto já testemunharam nas ruas, becos ou vielas da comunidade, a saber:
Ø Adulto batendo em criança;
Ø Adulto batendo em adulto;
Ø Adulto dando tiro com arma de fogo;
Ø Gente sendo levada pela polícia;
Ø Gente vendendo drogas.
136 Figura 95: Violência testemunhada pelas crianças na comunidade
4.3.3.1. Gente sendo levada pela polícia
Essa é a violência mais testemunhada pela criança na comunidade. Apenas 31% delas
nunca viram pessoas sendo levadas pela polícia, sendo que 19% já viu muitas vezes, 16% já
viram algumas vezes e 34% já viram pelo menos 1 vez, o que significa que 7 em cada 10
crianças (70%) já viram pessoas sendo levadas pela polícia (Figura 95).
Os resultados não revelam diferenças quanto à idade e o sexo da criança que mais
testemunha pessoas sendo levadas pela polícia, ou seja, meninos e meninas com 6, 7 e 8 anos
testemunham esse tipo de violência com a mesma frequência.
4.3.3.2. Adulto batendo em crianças
Essa é a segunda violência mais testemunhada pela criança na comunidade. Metade
das crianças entrevistadas, o que significa 5 em cada 10 já viram adultos batendo em crianças
nas “ruas” da comunidade, sendo que 22% das crianças já viu muitas vezes (Figura 95).
Os resultados não revelam diferença entre a idade e o sexo da criança com a
frequência com que testemunha adulto batendo em criança, ou seja, meninos e meninas com
6, 7 e 8 anos testemunham o mesmo tanto.
137 4.3.3.3. Adulto batendo em adulto
A terceira violência mais vista na comunidade pelas crianças é “adulto batendo em
adulto”. Pouco mais de 1/3 das crianças (35%) já viu esse tipo de violência na comunidade,
sendo que 19% já viu muitas vezes. Ou seja, a cada 10 crianças, 4 já viram adulto batendo em
adulto na comunidade (Figura 95).
Os resultados não revelam diferenças quanto à idade e o sexo da criança que mais
testemunha adulto batendo em adulto, ou seja, meninos e meninas, com 6, 7 e 8 anos
testemunham esse tipo de violência com a mesma frequência.
4.3.3.4. Venda de drogas
A grande maioria das crianças (81%) nunca viu gente vendendo drogas na comunidade
do Morro dos Macacos. A parcela de criança que já viu corresponde a 19%, sendo que 16%
das crianças já viu muitas vezes (Figura 95).
Os resultados não revelam diferenças entre a idade e o sexo da criança com a
frequência com que testemunha venda de drogas na comunidade, ou seja, crianças com 6, 7 e
8 anos, tanto meninas quanto meninos, testemunham esse tipo de violência com frequências
similares.
4.3.3.5. Adulto atirando com arma de fogo
A grande maioria das crianças (85%) nunca viu adulto dando tiro com arma de fogo na
comunidade, no entanto, 10% delas já viu muitas vezes e 6% já viu uma vez. Isso significa
que 2 em cada 10 crianças já viram adulto dando tiro com arma de fogo (Figura 95).
Os resultados revelam diferenças estatisticamente significativas entre a idade e o sexo
da criança com a frequência com que testemunha adulto atirando com arma de fogo na
comunidade, conforme segue.
138 4.3.3.5.1. Idade da criança com a frequência com que ela vê adulto atirando com arma de
fogo
Os resultados confirmam uma diferença estatisticamente significativa (K-W,
chi²=3,925, sig=0,141), entre a idade da criança e a frequência com que vê adulto atirando
com arma de fogo. As crianças de 6 anos são as que mais viram adulto atirando com arma de
fogo e as crianças de 7 anos são as que menos viram (Figura 96).
Figura 96: Idade da criança com a frequência com que já viu adulto atirando com arma de fogo
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por idade da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham adulto atirando
com arma de fogo. Os valores mais altos indicam a idade que mais testemunha e os valores mais baixos indicam a idade que menos
testemunha. Os valores foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
Enquanto nenhuma criança de 7 anos já viu adulto atirando com arma de fogo, 22%
das crianças de 6 anos já viram muitas vezes. O que significa que a cada 10 crianças, 2 já
viram muitas vezes adulto dando tiro com arma de fogo. A maioria das crianças de 8 anos
(85%), assim como as de 7, também nunca viu adulto atirando com arma de fogo (Figura 96).
Os resultados revelaram diferenças também quanto ao sexo (K-W, chi²=1,885,
sig=0,170). Meninos já viram mais do que as meninas adulto atirando com arma de fogo
(Figura 97).
139 Figura 97: Frequência com que meninas e meninos já viu adulto atirando com arma de fogo.
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais testemunham adulto atirando
com arma de fogo. Os valores mais altos indicam o sexo que mais testemunha e os valores mais baixos indicam o sexo que menos
testemunha. Os valores foram obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
Enquanto 94% das meninas nunca viram adulto atirando com arma de fogo, apenas
6% já viu muitas vezes. Entre os meninos, 75% deles nunca viram, 13% já viu muitas vezes e
12% já viu pelo menos uma vez (Figura 97).
4.3.4. Do que a criança mais gosta de brincar
No Morro dos Macacos, entre as brincadeiras preferidas por meninos e meninas
(Figura 98), destacam-se, entre os meninos:
Ø Futebol (50% dos meninos);
Ø Vídeo-game, mini-game (25%);
Ø Carrinho (19%);
Ø Pique-esconde (19%);
Ø Soltar pipa (19%).
Além dessas brincadeiras mais frequentes, ainda foram mencionados por 6% dos
meninos (corresponde a 1 menino): jogar totó, queimada (jogo de bola), andar de skate.
Para as meninas, as brincadeiras preferidas são:
Ø Brincar de boneca (75% das meninas);
140 Ø Casinha (mãe e filha, panelinha)(44%);
Ø Pique-esconde (33%);
Ø Bicicleta (13%);
Ø Estudar, ler, escolinha (13%).
Além dessas brincadeiras mais frequentes, ainda foram mencionadas por 6% das
meninas (corresponde a 1 menina): cantar e dançar, jogar basquete, jogar dominó, andar de
patins, pentear cabelo.
Chama a atenção o fato de que algumas brincadeiras preferidas por meninos (futebol,
pique-esconde, soltar pipa) e pelas meninas (pique-esconde e bicicleta) são praticadas,
geralmente, fora do espaço da casa. Isso sugere que as ruas da comunidade sem violência
constituem um ambiente mais propício para as brincadeiras mais preferidas tanto para
meninos quanto para meninas.
Figura 98: Brincadeiras preferidas por meninos e meninas
141 4.3.5. O que falta na comunidade para as crianças
Para 6% das crianças (de 6 a 8 anos) não falta nada na comunidade e 13% delas não
sabem responder o que falta (Figura 99). No entanto, para a grande maioria das crianças
(81%), faltam várias coisas na comunidade, a saber:
Ø Local para brincar (praça, parques e parquinhos com balanço, gangorras, pulapula): para 25% das crianças;
Ø Brinquedos, como boneca, bicicleta (para 22% das crianças);
Ø Estudo, para ler e escrever (9%);
Ø Casa boa (6%);
Ø Piscina (6%);
Ø Respeito e amizade (6%).
Figura 99: O que falta para a criança na comunidade, na percepção da criança
Vários outros itens foram apontados por 3% das crianças (corresponde a 1 criança),
sobre o que falta na comunidade, a saber:
Ø “comida”;
Ø “um quarto só para mim”;
142 Ø Lutas;
Ø Sorteio de presentes;
Ø Colocar relógio da LIGHT.
4.3.6. Balanço sobre a percepção da criança
4.3.6.1. Violência em casa
Ø Violência sofrida pela criança:
84% das crianças são vítimas da violência física (bater) dos adultos;
78% das crianças são colocadas de castigo pelos adultos;
78% das crianças são vítimas dos adultos.
Ø Violência testemunhada pela criança:
78% das crianças já viram adulto batendo em criança;
69% das crianças já viram adulto gritando com criança;
41% das crianças já viram adulto gritando com adulto;
40% das crianças já viram adulto batendo em adulto.
4.3.6.2. Violência na escola
Ø Violência sofrida
60% é colocada de castigo pelo adulto;
31% é vítima de grito do adulto;
12% é vítima da violência física (bater) do adulto.
Ø Violência testemunhada
84% já viram criança batendo em criança;
• Diferença por sexo da criança (K-W, chi²=1,337, Sig=0,248)
69% das meninas veem sempre (m.o .= 18,22)11;
44% dos meninos veem sempre (m.o. = 14,78);
11
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais
testemunha criança batendo em criança na escola. Os valores mais altos indicam o sexo da criança que mais
testemunha e os valores mais baixos indicam o sexo da criança que menos testemunha. Os valores foram
obtidos através do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
143 81% já viram adulto gritando com criança;
25% já viram adulto batendo em criança.
4.3.6.3. Violência na comunidade
Ø Violência testemunhada
69% das crianças já viram pessoas sendo levada pela polícia;
50% já viram adulto batendo em criança;
35% delas já viram adulto batendo em adulto;
19% já viram gente vendendo drogas;
16% já viram adulto atirando com arma de fogo:;
• Diferença quanto à idade da criança (K-W, chi²=3,925,
sig=0,141):
33% das crianças de 6 anos já viram (m.o.=19,39)12;
15% das crianças de 8 anos já viram (m.o.= 16,42);
0% das crianças de 7 anos (m.o.= 14,00).
• Diferença quanto ao sexo da criança (K-W, chi²=1,885,
sig=0,170):
25% dos meninos já viram adulto atirando (m.o.=17,94)13;
6% das meninas já viram adulto atirando (m.o.= 15,06).
4.3.6.4. Brincadeiras mais frequentes
Ø Meninos:
50% dos meninos jogam futebol;
25% deles jogam vídeo-game, mini-game;
19% brincam de carrinho;
12
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por idade da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas
mais testemunham adulto atirando com arma de fogo. Os valores mais altos indicam a idade que mais
testemunha e os valores mais baixos indicam a idade que menos testemunha. Os valores foram obtidos através
do teste não-paramétrico Kruskal Wallis.
13
Nota: m.o.=média dos valores ordinais por sexo da criança, que permite identificar, neste caso, qual delas mais
testemunham adulto atirando com arma de fogo. Os valores mais altos indicam o sexo que mais testemunha e os
valores mais baixos indicam o sexo que menos testemunha. Os valores foram obtidos através do teste nãoparamétrico Kruskal Wallis.
144 19% brincam de pique esconde;
19% soltam pipa.
Ø Meninas:
75% brincam de boneca;
44% casinha (panelinha, mãe e filha...);
33% brincam de pique-esconde;
13% bicicleta;
13% Estudo, ler e escrever.
4.3.6.5. Percepção sobre o que falta na comunidade:
25% acham que falta local para brincar, como parques e playgrounds;
22% acha que falta brinquedos, boneca, bicicleta;
13% acha que não falta nada;
9% acha que falta estudo para ler e escrever;
6% acha “casa boa”;
6% acha que “não sabe”;
6% acha que falta piscina
6% respeito e amizade.
4.4. Conclusão das percepções de adultos e crianças
4.4.1. Percepção do adulto
4.4.1.1. Violência em casa
Ø A violência mais praticada em casa contra a criança: Bater é a violência física
mais praticada pelos adultos em casa contra a criança. Mais do que gritar e colocar
de castigo.
Ø Grupo de adulto: A mãe é o adulto que mais pratica a violência contra a criança:
145 bater, colocar de castigo e gritar é mais praticada pela mãe do que pela avó, pai e
“outros”.
Ø Idade da criança: O índice de violência doméstica praticada pela mãe é maior em
crianças de 2, 5 e 7 anos de idade.
Ø Quantidade de crianças na casa: A incidência de violência física (bater)
praticada pela mãe é maior em casas com mais de 1 criança.
Ø Sexo da criança: Os resultados não revelam diferença quanto ao sexo da criança.
Ø Criança que divide a cama com os pais: Embora a maioria das crianças divida a
cama com os pais, não há correlação entre a incidência da violência física
praticada pela mãe com a frequência com que ela divide a cama com os pais. Não
obstante, a criança de 2 anos, maior vítima da violência física praticada pela mãe,
é a que mais divide a cama com os pais.
Ø Idade da mãe: O maior índice de mães que batem na criança está na faixa dos 3539 anos, seguido das mães com 20-24 e 30-34. O menor índice de mães que batem
está na faixa dos 17 - 19 anos.
Ø Escolaridade da mãe: O maior índice de mães que batem na criança é das que
tem curso superior. Embora seja apenas 3% das mães, todas elas batem na criança.
O segundo maior índice é das que tem 1° grau completo (mais de 80% delas),
seguido das mães com até o 1° grau incompleto. No entanto, mesmo a maioria das
mães com 2° grau completo e incompleto batem na criança, aproximadamente
70%.
Ø Consumo de bebida alcoólica pela mãe: Os resultados não revelam correlação
entre o consumo de bebida alcoólica com a frequência com que a mãe bate, uma
vez que a grande maioria das mães que bebem batem, no entanto, a maioria das
que nunca bebem também batem.
Ø Renda mensal da mãe: Com uma diferença estatisticamente significativa, o
índice de mães que batem é maior entre aquelas com renda menor que um salário
mínimo, enquanto o menor índice de violência está entre as mães que não têm
renda.
Descriminando a Bolsa Família na renda mensal, a diferença não é confirmada
estatisticamente, mas os resultados revelam que as mães com renda menor que o
mínimo cuja fonte é apenas a bolsa família são as que mais batem e as mães sem
renda são as que menos batem.
146 Ø Quantidade de cômodos na casa: Sem diferença estatisticamente significativa, o
índice das mães que batem na criança é maior em casas com 1 e 2 cômodos do que
em casas com 4 cômodos ou mais.
Ø Quantidade
de
dormitórios
na
casa:
Sem
diferença
estatisticamente
significativa, o índice de mães que batem é maior em casas com 3 dormitórios do
que em casas com 1 dormitório, no entanto, o índice menor de violência é do
grupo de mães que mora em casas com 2 dormitórios.
Ø Quantidade de banheiros na casa: A grande maioria das mães participantes da
amostra mora em casas com 1 banheiro com chuveiro e a maioria delas bate na
criança.
Ø Tipo de rua: Sem diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que
batem na criança é maior nas moradias localizadas em escadarias, do que em casas
localizadas em ruas onde passam carros. No entanto, o índice menor de violência
praticada pelas mães contra a criança está em casas localizadas em vielas onde só
passam motos.
Ø Iluminação da rua: Sem diferença estatisticamente significativa, o índice de
mães que batem na criança é maior nas casas cujas ruas não têm iluminação do que
em ruas onde há iluminação.
Ø Grau de satisfação com a iluminação: Com correlação negativa confirmada
estatisticamente, os resultados mostram que, quanto maior a insatisfação com a
iluminação da rua, maior o índice de mães que batem na criança.
Ø Frequência com que o pai dá banho e veste a criança: Sem correlação com a
frequência com que o pai bate na criança, no entanto, os pais que dão banho batem
e os que nunca dão banho nunca batem.
Ø Escolaridade do pai: Sem diferença estatisticamente significativa, os pais que
batem tem pouca formação escolar (até 1°grau incompleto) enquanto todos os
outros, com 1° grau completo e médio completo e incompleto nunca batem.
Ø Consumo de bebida alcoólica pelo pai: Sem correlação com a frequência com
que o pai bate na criança. Os poucos pais que batem nunca bebem.
147 4.4.1.1.1 Tipos de violência e atitude aceitas pelos adultos
Ø Gritar: Atitude pouco aceita pelos adultos, assim como pelas mães, apenas uma
pequena minoria que não chega a 15% indica essa atitude como a ideal para dar
limite à criança.
Ø Colocar de castigo: É uma atitude aceita pela maioria dos adultos, assim como
pela maioria do grupo das mães.
Ø Bater: Bater é mais aceito pelos grupos de adultos do que gritar, se “dar uns
tapas” for considerado bater, sendo que 25% das mães indicam “dar uns tapas”
como forma ideal para dar limite à criança.
Ø Conversa: Atitude mais percebida pelos adultos como o que dá limite à criança,
indicada pela grande maioria, tanto considerando a amostra total, quanto
considerando apenas o grupo das mães.
4.4.1.1.2. Percepção do adulto sobre o mau comportamento da criança
Ø Frequência: Quase todos os adultos (mães ou não) acreditam que a criança se
comporta mal.
Ø Características: As atitudes mais frequentes de mau comportamento da criança,
na percepção da mãe, são:
1. “pirraça, manha, irritação, choro”;
2.
“morder, bater ou querer bater”,
3. “implicância com os irmãos”.
4.4.1.1.3 Violência praticada na frente da criança pelo adulto
Ø Adulto grita com adulto: Essa é a violência que a maioria dos adultos percebe
que a criança testemunha dentro de casa.
Ø Adulto bate em adulto: 12% dos adultos percebe que a criança testemunha adulto
batendo em adulto dentro de casa.
Ø Homem batendo em mulher: 12% dos adultos percebe que a criança testemunha
homem batendo em mulher, logo, todos os adultos que batem em adultos são
homens batendo em mulher.
148 Ø Arma de fogo na frente da criança: Apenas 1 adulto disse que a criança vê arma
de fogo dentro de casa, ou seja, praticamente 100% dos adultos responderam que
arma de fogo nunca fica na frente da criança.
4.4.1.2. Violência na comunidade
Investigou-se a percepção do adulto sobre determinados tipos de violência que ele
testemunha na comunidade e as que ele fica sabendo, assim como, graus de satisfação com
segurança, serviços de saúde, transporte e educação e, por último, suas observações sobre o
que falta na comunidade para a criança.
4.4.1.2.1. Violência testemunhada
Ø Tiro com arma de fogo: É a violência mais testemunhada pelo adulto na
comunidade, a maioria já viu ou ouviu.
Ø Alguém sendo preso: É a segunda violência mais testemunhada pelo adulto na
comunidade, a maioria já viu.
Ø Policial apontando uma arma de fogo: É a terceira violência mais vista pelo
adulto, também visto pela maioria.
Ø Adulto sendo ferido por arma de fogo: Pouco menos que a metade dos
respondentes já viu.
Ø Adulto sendo ferido por tiro: Pouco mais de 1/5 dos respondentes já viu, o que
significa 2 a cada 10 adultos.
Ø Adulto vendendo drogas: Pouco mais de 1/5 dos respondentes já viu, 2 a cada 10
adultos.
Ø Adulto sendo ferido por facada: Pouco menos que 1/5 dos respondentes já viu, 2
a cada 10 adultos.
Ø Adulto apontando uma arma: 1/10 já viu, o que significa 1 a cada 10
respondentes. Ou seja, os adultos veem mais gente sendo ferida por tiro do que
gente apontando arma de fogo.
149 Ø Suas casas assaltadas: Apenas 6% dos respondentes já tiveram suas casas
assaltadas, o que significa 1 a cada 12 adultos.
4.4.1.2.2. Violência que ficou sabendo
Ø Pessoas assaltadas nas ruas da comunidade: Essa é a ocorrência de assalto que
as pessoas mais ficam sabendo na comunidade, sendo que a maioria já ficou
sabendo de pessoas que foram assaltadas na comunidade.
Ø Casas que foram assaltadas: A segunda ocorrência de assalto que as pessoas
mais ficam sabendo, sendo que a maioria já ficou sabendo de casas que foram
assaltadas;
Ø Abuso sexual contra crianças: Quase 40% dos adultos já ficaram sabendo de
abuso sexual contra criança na comunidade, o que significa 4 a cada 10 pessoas.
Ø Assaltos no comércio da comunidade: Pouco mais que 1/3 dos adultos já ficou
sabendo de assalto no comércio da comunidade, o que significa que de 3 a 4
pessoas a cada 10 ficam sabendo. As pessoas ficam sabendo mais de abuso sexual
contra criança do que de assalto ao comércio da comunidade.
4.4.1.2.3. Graus de satisfação com a segurança, transporte, saúde, iluminação e educação
Ø Os maiores índices de satisfação:
1) Creche: Grande maioria dos adultos, quase 8 em cada 10, estão satisfeitos;
2) Iluminação das praças: Maioria dos adultos, 7 em cada 10, estão satisfeitos.
3) Escola: Grande maioria dos adultos, 7 em cada 10, estão satisfeitos;
4) Agentes de saúde da família: Quase 7 em cada 10 adultos estão satisfeitos;
5) Transporte: 6 em cada 10 adultos estão satisfeitos;
6) Iluminação em frente ou próximo á moradia: 4 em cada 10 estão satisfeitos;
7) Médicos no posto de saúde: 3 em cada 10 adultos estão satisfeitos;
8) Pediatras no posto de saúde: 3 em cada 10 adultos estão satisfeitos;
9) Segurança para andar à noite: 3 em cada 10 adultos estão satisfeitos;
10) Segurança para a criança brincar fora de casa: 3 a cada 10 estão satisfeitos;
11) Tempo de espera no posto de saúde: 2 em cada 10 adultos estão satisfeitos.
150 Ø Os maiores índices de insatisfação:
1) Tempo de espera no PS: maioria dos adultos, quase 6 a cada 10, insatisfeitos;
2) Segurança para a criança brincar fora de casa: 5 a cada 10, insatisfeitos;
3) Iluminação das praças: 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos;
4) Pediatras no PS: 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos;
5) Segurança par andar à noite: quase 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos;
6) Médicos no PS: quase 4 em cada 10 adultos estão insatisfeitos;
7) Iluminação em frente ou próximo de casa: quase 4 em cada 10, insatisfeitos;
8) Transporte: 2 em cada 10 adultos estão insatisfeitos;
9) Agentes de saúde da família: 2 em cada 10 adultos estão insatisfeitos;
10) Iluminação da praças: 1 a cada 10 adultos estão insatisfeitos;
11) Escolas e creches: quase 1 a cada 10 adultos estão insatisfeitos.
4.4.1.2.4. Percepção dos adultos sobre o que falta para a criança na comunidade
1) Praças e outros espaços de lazer: 3 em cada 10 adultos acham que falta;
2) Oficinas e projetos para as crianças: 1 em cada 10 acha que falta;
3) Creches, escolas, hospitais: 1 em cada 10 adultos acha que falta;
4) Médicos nos PSs: 1 em cada 10 adultos acha que falta.
4.4.2 Percepção da criança de 6 a 8 anos
4.4.2.1 Violência em casa
4.4.2.1.1 Violência sofrida
Ø Bater: É a violência mais sofrida pela criança em casa, a grande maioria delas
(mais de 80%), já sofreu essa violência física praticada pelo adulto em casa.
Ø Castigo: Quase 80% das crianças já foram colocadas de castigo pelo adulto em
casa;
Ø Grito: O mesmo índice do castigo, quase 80% das crianças já receberam grito dos
adultos em casa.
151 4.4.2.1.2 Violência testemunhada
Ø Adulto batendo em criança: É a violência mais testemunhada pela criança em
casa, a grande maioria das crianças, quase 80%, já testemunharam.
Ø Adulto gritando com criança: É a segunda violência mais testemunhada pela
criança, quase 70% delas já testemunharam.
Ø Adulto gritando com adulto: É a terceira violência mais vista pela criança, quase
a metade delas já viu.
Ø Adulto batendo em adulto: É a violência menos testemunhada pela criança em
casa. Ainda assim, é vista por 40% delas.
4.4.2.2 Violência na escola
4.4.2.2.1 Violência sofrida
Ø Castigo: É a violência mais sofrida pela criança na escola, a maioria já foi colocada
de castigo pelo adulto.
Ø Gritos: É a segunda violência mais sofrida pela criança na escola,
aproximadamente 1/3 das crianças já recebeu gritos de adultos.
Ø Bater: É a violência menos sofrida pela criança na escola, pouco mais que 10%
das crianças revelaram que adultos bateram nelas.
4.4.2.2.2 Violência testemunhada
Ø Criança batendo em criança: É a violência mais testemunhada pela criança na
escola, a grande maioria das crianças de 6 a 8 anos, mais do que 80%, já viu
“criança batendo em criança” na escola.
Ø Adulto gritando com criança: Mais de 80% já viram.
Ø Adulto batendo em criança: É a violência menos testemunhada na escola,
aproximadamente 25% das crianças já viram.
152 4.4.2.2.3. Violência na comunidade
Ø Pessoas sendo levadas pela polícia: É a violência mais testemunhada pela criança
na comunidade, a maioria delas, quase 70%, já viu.
Ø Adulto batendo em criança: A segunda violência mais vista, a metade das
crianças já viu.
Ø Adulto batendo em adulto: A terceira violência mais vista, quase 40% já viu.
Ø Gente vendendo drogas e adulto atirando com arma de fogo: São as violências
menos testemunhadas pelas crianças, menos de 20% delas já viu.
4.4.2.3 Brincadeiras mais frequentes
Ø Boneca: É a brincadeira preferida das meninas, com maior índice de citação entre
as crianças, quase 80% das meninas gostam de brincar de boneca.
Ø Futebol: Brincadeira preferida dos meninos, é a segunda mais citada pelas
crianças. Metade dos meninos apontam o futebol como uma das brincadeiras mais
frequentes.
Ø Casinha: É a segunda brincadeira mais citada pelas crianças, exclusivamente pelas
meninas, quase 50% das meninas mencionou que gosta de brincar de casinha.
Ø Vídeo-game e mini-game: Aproximadamente ¼ dos meninos gosta de jogar
vídeo-game.
Ø Pique-esconde: 1/3 das meninas gosta de brincar de pique-esconde e 1/5 dos
meninos.
Ø Brincar de carrinho e soltar pipa: Preferidas por aproximadamente 20% dos
meninos.
Ø Andar de bicicleta e estudar (ler e escrever): Preferidas por pouco mais que 10%
das meninas.
4.4.2.4 Percepção sobre o que falta na comunidade
Ø Espaço de lazer: Para as crianças de 6 a 8 anos o que mais falta na comunidade é
espaço de lazer, ¼ delas acha que falta local para brincar, como parques e
playgrounds.
153 Ø Brinquedos (bonecas, bicicleta, etc.): Pouco mais que 20% das crianças acha que
falta brinquedos na comunidade.
Ø Outros: Indicados por menos que 10% das crianças:
•
Estudo para ensinar as crianças a ler e escrever;
•
Casa boa;
•
Piscina;
•
Respeito e amizade.
5
154 Análise dos grupos de discussão com adolescentes no Morro dos Macacos
5.1. Procedimento metodológico
Para compreender a perspectiva de jovens nas favelas pesquisadas, foram conduzidos
grupos de discussão sobre os temas infância, violência e vivência na comunidade. A análise
desse material qualitativo, para além de identificar os temas tratados e as diferentes posições
dentro do grupo, busca compreender “os centros de experiência dos membros do grupo,
espaços sociais de experiências conjuntivas. Seguindo Karl Mannheim, nós chamamos isto de
‘espaço conjuntivo de experiência’. Aqueles que têm experiências biográficas em comum,
assim como suas histórias de socialização e, portanto, têm um espaço de experiência em
comum ou coletivo, entendem-se mutuamente imediatamente na medida em que essas
experiências biográficas em comum se tornam relevantes em interação e discurso” (Bohnsack,
2010, p. 105).
Segundo esse autor, tal método de análise de grupos de discussão oferece “um acesso
ao conhecimento pré-reflexivo ou tácito, que está implícito na prática da ação”, composto de
dois níveis: “o significado imanente abrange o estoque de conhecimento que pode ser
explicitado pelos participantes mesmos. Desse se distingue o conhecimento experimental, que
é tido como algo tão natural que nem se presta atenção, algo que os participantes de um grupo
de discussão não precisam e frequentemente não conseguem explicitar por si mesmos. Os
participantes se entendem mutuamente porque possuem conhecimento em comum sem
nenhuma necessidade de explicitá-lo uns para os outros” (Bohnsack, 2010, p. 103). Tal
conhecimento experimental é vinculado por Bohnsack (2010) ao significado documentário
que tais saberes locais têm em relação à prática cotidiana dos atores sociais, a maneira como
eles se orientam em suas ações. Identificar esse segundo nível de conhecimento, que, em um
grupo de discussão, perpassa a maneira como diversos temas são tratados, tornaria claro o
enquadramento coletivo de orientação.
Os passos da análise necessários para identificar esses diferentes níveis de
conhecimento passam por pontos culminantes na dramaturgia do discurso, chamados de
metáforas de enfoque, pelo processo do discurso, significando a organização de contribuições,
concordâncias e discordâncias entre os participantes e, finalmente, por como os temas se
sucedem uns aos outros, seja por desenvolvimentos realizados dentro das discussões entre os
participantes ou por sugestão do pesquisador. Além da consideração desses aspectos, o nível
155 de conhecimento experimental, aquele compartilhado pré-reflexivamente por participantes de
um mesmo meio social, está encerrado nos tipos textuais narrações ou descrições. Segundo
Wivian Weller, “a transcrição completa de um grupo de discussão deixa de ser necessária. De
acordo com esse método, a análise principia-se com a passagem inicial, seguida da análise das
passagens de foco e das que discutem questões relacionadas ao tema da pesquisa. Esse
processo compreende dois momentos: interpretação formulada e interpretação refletida.
Durante a interpretação formulada, busca-se compreender o sentido imanente das discussões e
decodificar o vocabulário coloquial. Em outras palavras, o pesquisador reescreve o que foi
dito pelos informantes, trazendo o conteúdo dessas falas para uma linguagem que também
poderá ser compreendida por aqueles que não pertencem ao meio social pesquisado. Nessa
etapa de análise, ele não traça comparações e tampouco utiliza o conhecimento que possui
sobre o grupo ou meio pesquisado. Já a interpretação refletida implica uma observação de
segunda ordem, na qual o pesquisador realiza suas interpretações, podendo recorrer ao
conhecimento teórico e empírico adquirido sobre o meio pesquisado” (Weller, 2006, p. 251).
5.2. Passos da análise
Na presente pesquisa, esses passos de análise foram adaptados para atender fins
específicos. Com um foco muito claro no conhecimento compartilhado, as dinâmicas entre
participantes receberam mais atenção, dentro dos passos de análise, do que o que os
indivíduos participantes contribuíram para a discussão em diferentes momentos da mesma,
razão pela qual não recebem nome na seguinte análise. Também adaptamos o passo de
interpretação formulada, na qual uma divisão temática da gravação é realizada, antes de
selecionar passagens a serem enfocadas. O método de Bohnsack (2010) sugere que, a partir
dos temas principais identificados na gravação, efetue-se, já nesse passo, a escolha de alguns
para serem descritos e formulados nas palavras do pesquisador. No entanto, na presente
análise, essa etapa de parafrasear com comentários se estende para todo o transcorrer da
discussão. Dessa forma, o pesquisador se apóia na gravação para que, diretamente dessa, seja
formulada a descrição de como a discussão transcorreu, tanto no que se refere aos temas
abordados quanto ao modo que esses foram tratados.
De maneira semelhante ao que sugere Weller (2006), durante esse passo são
selecionadas passagens que serão enfocadas em uma análise mais profunda dentro da
156 interpretação reflexiva. Apresentaremos aqui os resultados dessa análise, e não a totalidade de
reflexões sobre cada contribuição individual no contexto desses trechos. Essas passagens são
transcritas e analisadas cuidadosamente, apoiando-se em uma divisão cuidadosa dos temas e
subtemas englobados. Listar a estrutura temática dessas passagens (em nível de tema, subtema
e subsubtema) é um passo sugerido por Bohnsack (2010) como detalhamento da interpretação
formulada, que se sucede a uma comparação metódica dentro do mesmo caso e com casos
diferentes, a fim de relacionar o tema em questão com o tratamento que outros temas tiveram
dentro do(s) grupo(s) de discussão. Assim, é possível isolar o enquadramento conjuntivo de
orientação do grupo em questão.
5.3. Grupo de discussão masculino no Morro dos Macacos
Realizado no início de uma tarde em outubro de 2012 em uma ONG localizada na
parte inicial da comunidade, em uma primeira rua subindo da via de acesso principal ao
morro, o grupo de discussão contou com a participação de com 5 jovens. O grupo de
discussão durou aproximadamente 47 minutos.
5.3.1. Interpretação formulada
Os temas discutidos entre os participantes, sugeridos por perguntas dos pesquisadores
ou introduzidos pelos próprios participantes, estão listados a seguir em sua ordem
cronológica, bem como com a informação do momento inicial de seu surgimento no grupo de
discussão, em minutos e segundos.
1. 0:56 TP (Tema principal): Como apresentariam a comunidade
2. 2:15 TP: Lembranças de quando eram crianças
3. 3:08 TP: Torneios de futebol na comunidade (iniciado por participantes)
4. 4:00 TP: Piores lembranças da infância
5. 5:35 TP: Problemas da comunidade
6. 7:40 TP: O que os moradores podem fazer para resolver esses problemas
7. 8:50 TP: Opções de lazer
8. 10:22 TP: Opções de lazer que faltam na comunidade
157 9. 11:50 TP: Insatisfação com Vila Olímpica (iniciado por participantes)
10. 12:50 TP: Lugares onde não se sentem seguros
11. 14:50 TP: UPP/ Insegurança perto da UPP (iniciado por participantes)
12. 17:20 TP: O que os moradores podem fazer para melhorar
13. 19:15 TP: Opções de lazer seguro
14. 19:55 TP: Brigas dentro das casas
15. 25:05 TP: O que fariam diferente quando constituírem família
16. 27:10 TP: Bebida e perda de respeito de familiares
17. 28:13 TP: Mulheres que fazem mais sucesso na comunidade
18. 29:09 TP: Chegada de Cilas e explicação da pesquisa
19. 30:20 TP: Meninas que fazem mais sucesso
20. 30:53 TP: Homens que fazem mais sucesso
21. 31:00 TP: Mulheres que fazem mais sucesso
22. 32:12 TP: Homens que fazem mais sucesso
23. 33:23 TP: Contribuição dos adolescentes nas tarefas domésticas
24. 36:05 TP: Presença de irmãos em casa
25. 36:12 TP: Papel do homem nas tarefas domésticas
26. 38:40 TP: Pessoas mais admiradas pelos participantes
27. 39:12 TP: Perfil do homem que eles querem ser
28. 41:00 TP: Pessoas admiradas na comunidade
29. 44:00 TP: O que fariam diferente quando tiverem uma família
A seguir, será apresentada uma breve formulação desses temas.
1. P1 pergunta como apresentariam a comunidade à outra pessoa. Um participante diz que, se
fosse para uma pessoa que melhorasse a comunidade, mostraria as coisas ruins do local; se
fosse para uma pessoa que estivesse apenas visitando, levaria “só para curtir”, aos pontos que
acha legal, como a Vila Olímpica, as partes altas do morro onde há uma vista bonita e aos
bares. Outro participante também fala que mostraria a Vila Olímpica e os bares.
2. P1 pergunta sobre as melhores lembranças da infância. Um participante comenta sobre os
torneios de futebol, outro sobre soltar pipa. P2 pergunta se hoje algum deles ainda solta pipa e
todos respondem que não. P1 pergunta se pararam porque não veem mais graça e eles
confirmam. Um dos participantes comenta que um tio foi correr atrás de pipa e caiu de uma
laje, e que teve um menino que até morreu, então ele parou.
158 3. P1 pergunta como eram os torneios de futebol. Um dos participantes responde que envolvia
a comunidade inteira. P1 pergunta como eram organizados os times e um dos participantes
responde, dizendo que era por rua. P1 e P2 perguntam se eles lembram algum acontecimento
marcante ou alguma história que tenha acontecido durante os torneios. Os participantes dizem
não lembrar.
4. P1 pergunta sobre as piores coisas quando eles eram crianças morando na comunidade. Um
participante diz que era a violência. P1 interage, perguntando se houve algum episódio que
marcou, e outro participante comenta sobre a fuga do presídio, que foi “um desespero”. Outro
participante comenta sobre um dia em que o caveirão estava parado e ele começou a ouvir
tiros. Outro fala ainda sobre uma vizinha que levou um tiro na janela, em um dia que o
caveirão estava na comunidade, e que foi difícil tirá-la da casa dela e passar pelo tiroteio.
5. P1 pergunta quais os principais problemas da comunidade. Um participante relata que não é
só a violência, mas também problemas como esgoto aberto, falta de água e a demora do
atendimento da Light quando falta luz. Outro participante comenta que agora a Light está
tirando as energias velhas e colocando as novas, e que falta luz quase todo dia. P1 pergunta se
os outros participantes concordam, e um diz que sim, relatando que, no dia anterior, havia
faltado luz em sua casa durante toda a noite. P1 pergunta se eles enxergam outro problema,
além dos já citados. Os participantes comentam que também falta muita água. P1 pergunta se
esse problema é pior nas partes mais altas do morro e um participante explica que há vários
pontos de água no morro, e que acredita que onde mais falta é o da associação.
6. P1 pergunta o que os participantes acham que os moradores poderiam fazer para melhorar
essa situação. Um participante diz que acha que os moradores já fazem a parte deles, porque
sabem que, se gastarem muito, pode faltar amanhã. P1 repete a pergunta a outros
participantes, e um responde que também acha que os moradores já fazem sua parte, mas que
não adianta nada eles fazerem a parte deles se os problemas persistem. Outro participante
comenta sobre o governo, que não resolve os problemas.
7. P1 pergunta sobre opções de lazer. Um participante comenta que a Vila Olímpica tem
poucas opções de lazer, que deveria haver mais. P2 pergunta se os outros participantes
concordam, e eles respondem positivamente. Um participante fala que eles mesmos criam
opções de lazer.
159 8. Instigados por P1, os participantes começam a falar sobre como faltam opções de lazer.
Segundo um desses, a Vila Olímpica “só foi mais uma ajuda”, mas que não supre o morro
inteiro. Ele ainda diz que há outras ONG’s, mas que não dão conta. P1 pergunta se os
participantes consideram a falta de opções de lazer um problema e eles respondem que sim.
P2 pergunta que outras opções eles sentem falta e que, se existisse, eles fariam. Um
participante diz que poderia haver uma biblioteca, que não disponibilizasse apenas livros, mas
também oferecesse acesso a computadores.
9. Um participante comenta que a Vila Olímpica é enorme, mas que grande parte é “mato” e
não é aproveitada. Diz que também poderia haver um circuito para corrida e espaços para
outros esportes, como arco e flecha e tiro ao alvo. P1 pergunta o que um participante acha
disso, e ele responde dizendo que, quando falaram que haveria a Vila Olímpica, pensaram que
haveria várias atividades. Comenta que demorou anos para o projeto ficar pronto e que,
quando chegou, não tinha muitos esportes. P1 pergunta se eles esperavam mais da Vila
Olímpica, e eles dizem que sim. P1 pergunta se eles acompanharam o processo de construção
e eles falam que sim, ansiosos. P1 pergunta quanto tempo demorou a construção e um
participante diz que era para a Vila Olímpica estar pronta em 2007, mas que só foi concluída
há pouco tempo.
10. P1 pergunta se há algum lugar ou alguma situação na qual eles não se sentem seguros. Um
participante diz que acha que não se sente literalmente seguro em nenhum lugar. Relata que,
na escola, ele sabe que está seguro, mas pode entrar alguém e fazer uma besteira. O mesmo
acontece na comunidade; está seguro porque está na frente da UPP, mas “vá que aconteça
alguma coisa”. P1 pergunta o que os outros participantes acham dessa questão e um deles
responde que as pessoas nunca estão seguras, nem mesmo dentro de casa. P1 questiona outro
participante sobre o assunto, que diz que só se sente seguro quando está na cama dormindo.
Outro participante diz que o morro é enorme, e que algumas vezes está acontecendo tiroteio
em um local e as pessoas que moram mais distante, como não sabem, correm o risco de
chegar lá e se deparar com um tiroteio.
11. P1 repete a pergunta para outro participante, que diz não se sentir seguro perto da UPP,
porque, quando falta luz, há tiros ali. P1 pergunta se eles poderiam falar mais sobre isso, se
acontece frequentemente. Os participantes ficam quietos por um momento, como se tivessem
medo de falar sobre o assunto. Em seguida, um diz que acontece às vezes, quando falta luz.
Um participante diz que é por isso que não eles não se sentem seguros. Outro diz que não é a
160 favor de ninguém, mas que, pela abordagem dos policiais, eles não estão preparados para
“serem policiais que tomam conta de várias pessoas”, porque eles abordam de maneira errada.
P1 questiona se os outros participantes concordam com essa opinião e eles respondem que
sim. Um participante conta um caso de abordagem agressiva por parte dos policiais com um
taxista. P1 pergunta se eles acham que a polícia também é um motivo de insegurança e eles
dizem que sim, “bastante”. P2 pergunta aos participantes se eles lembram alguma história
semelhante de abordagem policial. Um dos participantes diz que não se recorda.
12. P1 pergunta como eles acham que os moradores da comunidade poderiam ajudar a
resolver essa situação. Um participante diz que acha difícil melhorar, mas não impossível. Diz
que, para melhorar, as pessoas iriam pedir que a polícia saísse. Acredita que deveria haver um
acordo para a polícia sair, mas com a garantia de que não voltaria. P1 repete a pergunta para
outro entrevistado, que fica em silêncio.
13. P1 pergunta qual sugestão segura de lazer ele teria, e ele responde que não tem. P1 repete
a pergunta para os outros participantes, mas nenhum responde.
14. P2 questiona os principais motivos das brigas que acontecem dentro das casas. Um
participante diz que acha que as brigas só acontecem por falta de diálogo, pois isso gera
desconfiança. Outro participante diz que as pessoas falam alto e não respeitam os outros que
estão falando. P2 pergunta se eles veem muitas brigas nas casas. Um dos participantes diz que
vê bastante. P2 questiona sobre os principais motivos e um deles fala que é a bebida, que as
pessoas chegam alcoolizadas em casa de madrugada e acabam brigando. P2 pergunta se há
mais brigas de madrugada e ele diz que não só de madrugada, e comenta que, se um homem
trabalha o dia inteiro e quando chega em casa a “patroa” ainda pede para fazer alguma coisa,
ele fica bravo, e aí começa a discussão. P1 pergunta se eles acreditam que o alcoolismo é um
motivo para brigas e um participante diz que “ajuda”. Outro diz que as pessoas perdem a
noção e acabam brigando. P2 pergunta se eles já presenciaram alguma briga dessas em casa
ou na rua e eles dizem que, na rua, sim. Um participante comenta sobre uma briga que viu de
dois idosos. P2 pergunta qual tipo de briga é mais comum, entre homem e mulher ou adulto e
criança e quais as agressões que eles veem. Um deles diz que tem vários tipos e que não vê
muito, mas, quando vê, é homem batendo em mulher ou mulher discutindo com homem, em
tom de voz bem elevado (risos). P1 pergunta se essas brigas são comuns e eles dizem que sim.
15. P1 pergunta o que os participantes querem fazer de diferente quando constituírem uma
família. Um participante diz que quer trabalhar, ganhar bem, pôr os filhos na escola, saber a
161 hora de falar. Ele comenta que outro dia um garoto pisou no pé de um primo seu e ele
“mandou tomar em tudo que é lugar”, e que o menino ficou com a boca toda arrebentada. P2
repete a pergunta para os outros participantes. Um deles diz que não sabe, que acha que só vai
saber na hora. P1 repete a pergunta para outro participante, que diz que quer que exista muito
respeito.
16. P2 questiona se o participante acha que a questão da cerveja interfere nisso e ele diz que
acha que esse fator ajuda a “sair do respeito”, pois alguém pode chegar em casa de madrugada
e ouvir som alto, sendo que o vizinho precisa acordar cedo no outro dia para trabalhar, o que
dá início a uma discussão. P2 questiona se isso acontece muito na comunidade e um
participante diz que, onde morava, havia um homem que passava o fim de semana ouvindo
som muito alto.
17. P1 pergunta que tipo de mulher faz mais sucesso na comunidade. Um participante não
entende a pergunta. P1 pergunta que perfil de mulher faz mais sucesso. Um participante diz
que acha que a mulher que faz mais sucesso é a mais diferente de todas. P1 pergunta diferente
como, e ele responde dizendo que, se olhar 10 garotas, a maioria vai estar de shortinho,
blusinha pra cima do umbigo. Outro participante acrescenta “de sainha”, e ele concorda,
completando que, para ele, a melhor mulher, a mais diferente desse padrão, é a que se destaca.
18. Um novo participante chega. Os pesquisadores se identificam e perguntam o seu nome.
Ele se identifica como Cilas. P1 explica a conversa, dizendo que ele não é obrigado a
responder nada e falando que a pesquisa é sobre crianças e adolescentes no Morro dos
Macacos, para saber como eles vivem. P1 diz que o foco da pesquisa é analisar a relação entre
violência e infância. P1 explica que agora fica um pouco complicado voltar, mas que ele pode
responder as perguntas com o que ele pensa.
19. P2 retoma a conversa, repetindo a pergunta sobre as meninas e mulheres que fazem mais
sucesso. O participante que estava falando diz que, aquelas que saem do padrão que
descreveu, para ele, são as que fazem sucesso.
20. P2 pergunta quais os homens que fazem mais sucesso com as mulheres. Um participante
responde que são os que têm mais dinheiro, causando risos.
21. P1 pergunta novamente quais as mulheres que fazem mais sucesso. Um participante
responde que, para ele, quase todas. Outro participante diz que, para ele, é “tudo a mesma
coisa”. Um participante diz que concorda com o colega quando diz que são aquelas que
162 fogem do padrão. P1 pergunta se eles acham que esse padrão faz sucesso, mas não com eles.
Um participante diz que chega a chamar a atenção. P1 pergunta se elas chamam a atenção,
mas não fazem sucesso. Ele responde dizendo que elas não fazem sucesso, que acham que
estão fazendo sucesso, e os outros riem.
22. P1 pergunta qual o tipo de homem eles acham que faz mais sucesso, se é o cara que tem
dinheiro mesmo. Os participantes não respondem e P2 pergunta qual o estilo desses homens.
Um participante responde que são os que andam bem arrumados, de cabelo cortado e com
dinheiro no bolso. Os participantes riem e um diz que é dinheiro no bolso, carro e moto. Um
participante diz que, fora isso, tem que ter muito papo. P1 inicia um pergunta, dizendo que se
o cara que for bom de conversa e tiver um papo legal, e é interrompido por um participante
que brinca: “Tipo que nem eu”, causando risos. P2 comenta que não precisa ter dinheiro se
tiver um papo bom e um dos participantes diz que o papo compensa. P1 pergunta se o papo
compensa dinheiro, e ele diz que um pouco. P2 pergunta se os outros participantes concordam
e eles dizem que sim, rindo. P2 pergunta se é preciso ter dinheiro para conquistar as meninas
na comunidade. Um deles diz que, a maioria, sim.
23. P1 pergunta, em relação a tarefas domésticas, como arrumar a casa, lavar um prato, ajudar
a cuidar de um irmão menor, como os adolescentes ajudam. P2 pergunta o que eles fazem
para ajudar. Um dos participantes diz que ajuda, mas é “chato pra caramba” (risos). Diz que
tira o lixo, enche a caixa, lava a louça. Outros participantes comentam o assunto entre si. O
participante continua falando, dizendo que acorda e arruma a cama e, depois que fica muito
tempo no computador, a mãe pede para ele jogar o lixo, lavar o prato... P2 comenta que um
participante disse que não ajuda em casa e ele confirma. P1 pergunta se ele não ajuda em nada
mesmo, e ele diz que não. P2 pergunta se a mãe dele pede para ele fazer e ele não faz e ele diz
que quem faz as coisas é o irmão. P1 pergunta se o irmão é mais velho ou mais novo, e ele diz
que é um ano mais novo. P1 pergunta se ele “deixa esse abacaxi na mão dele” e o participante
responde que sim, todo o dia (risos). P1 comenta que um participante disse que ajuda a mãe, e
ele confirma, dizendo que ajuda a limpar. P1 pergunta se ele tem irmão, e ele confirma. P1
pergunta se ele ajuda a cuidar, e ele responde “mais ou menos” (risos). P1 repete a pergunta
para outro participante, que conta que tem duas irmãs e que ele tem que realizar as tarefas da
laje, da caixa d’água, da área e do cachorro, além do seu quarto, e que as irmãs cuidam da
casa. Um participante comenta brincando que ele tem duas irmãs que fazem tudo para ele, e
eles riem.
163 24. P2 pergunta se mais alguém tem irmão pequeno. Um comenta que tem um irmão da
mesma idade, e outro que tem uma irmã da mesma idade.
25. P1 comenta que um participante disse que o outro tem duas irmãs em casa e ainda ajuda (o
menino interrompe dizendo que “tem que ajudar, pô”) e pergunta como eles veem o papel do
homem dentro de casa, se ajuda ou não. Um participante diz que sabe que ele não faz, mas
que cada um tem um tipo de vida, de ajuda. Outro diz que, para ele, cada um tem que fazer a
sua parte na casa. P2 pergunta se eles acham que é papel do homem ajudar em casa. Um
participante diz que acha que tem que ajudar, tanto financeiramente quanto na prática. P1
questiona outro entrevistado, que ri e diz que concorda. P2 pergunta, pelo que os participantes
veem, se, em geral, os moradores da comunidade ajudam em casa. Um diz que só os
responsáveis, mas os outros não. Faz uma brincadeira com o menino que diz que não ajuda
em casa, e eles riem. P1 pergunta se eles acham que os homens que ajudam em casa são
admirados pelas mulheres e um participante diz que a maioria não é. Os participantes debatem
o assunto e riem.
26. P1 pergunta quais as pessoas que eles mais admiram. Os participantes pensam um pouco,
riem. P1 pergunta qual o perfil de homem que eles querem ser. Um dos participantes diz que
quer ser engenheiro. P2 pergunta ao participante se tem alguma pessoa na qual ele se espelhe
para isso e ele diz que não. P2 pergunta o que o levou a tomar essa decisão de ser engenheiro
e ele diz que é porque um engenheiro pode fazer um prédio como quiser e dizer que é uma
ideia dele. Outro participante diz que queria ser marinheiro desde que fez um curso no qual a
professora passou um filme mostrando o que as pessoas que querem entrar na Marinha
precisam fazer. Diz que acha que, para passar por aquela prova, tem que ser homem mesmo, e
que o resto é “praticamente moleza”. P2 repete a pergunta aos outros participantes. Um deles
responde que não tem o que ele queira ser.
27. P2 pergunta se há alguma pessoa que ele admira, que ele queira ser igual quando crescer,
quando tiver filho. Ele diz que não. P1 pergunta se não há ninguém nem na comunidade em
quem eles se espelham. Um participante diz que tem o pai dele, que, apesar de não concordar
com tudo que ele faz, admira, pois ele cuida de uma casa de 5 pessoas. P1 pergunta para outro
participante, que diz que quer ser da aeronáutica. P1 questiona se ele conhece alguém da
aeronáutica, e ele diz que conhece um cabo. P1 pergunta se ele é um exemplo, e ele diz que
sim. P1 pergunta por quê, e ele responde dizendo que ninguém dava nada por ele, o
criticavam, e hoje ele é cabo da aeronáutica. P1 pergunta por que ele virou um exemplo, se ele
164 ganhou respeito por ter se tornado alguém na vida, e o participante concorda. P1 pergunta o
que mudou depois que ele se tornou cabo da aeronáutica, e ele responde que, antes, as pessoas
diziam que ele era “nego burro”, e que agora ele é tratado com mais respeito e ninguém fala
nada. P2 pergunta se ele tem essa pessoa como exemplo de vida e ele concorda.
28. P1 questiona se eles têm mais alguém da comunidade para citar como exemplo de vida.
Ninguém responde. P2 comenta que pode ser homem, mulher, idoso. P1 diz que pode ser da
própria família. Os meninos permanecem em silêncio. P1 pergunta “ninguém?”, e um dos
participantes responde que há o Trambique, mas não sabe se ele ainda mora na comunidade,
que dava aula de percussão. Diz que ele já tocou com Mart’nália, várias pessoas importantes.
Conta que ele começou a dar aula com latas. P2 pergunta se há mais alguém que eles
considerem exemplo de vida. Um participante diz que, para ele, não. Os outros ficam em
silêncio. P1 questiona mais uma vez. P2 cita “o pai, a mãe...”. Ninguém responde.
29. P1 pergunta, se eles não consideram as pessoas mais próximas, como as da família, como
exemplos, o que eles gostariam de fazer diferente quando tiverem a própria família. Um dos
participantes diz que, por ele, é passar o máximo de tempo com a família, com os filhos,
porque o seu pai é um perdido da vida. Diz que o pai se separou da mãe dele e que nem a
família sabe onde ele está. Diz que ele não dá notícia e que não se sabe nem se ele ainda está
vivo. Conta que, quando se mudou para a comunidade, nunca mais viu o pai. Repete que
gostaria de passar o máximo de tempo com a família, marcar sempre um dia para saírem todos
juntos. P1 repete a pergunta para outro participante, que diz que vai querer dar mais atenção
aos filhos, sair todos os fins de semana. Outro participante diz que também seria um pai
presente. Conta que a mãe também é separada e ele e a irmã ficam sozinhos. Diz que agora
ele tem um padrasto, que considera pai. Conta que os pais se separaram quando a mãe tinha
16 anos e ele estava em sua barriga. Conta que o pai nunca o procurou nem deu nada, mas que
o padrasto dá tudo o que ele quer, dá carinho, brinca. P1 pergunta se os participantes têm mais
alguma coisa para colocar. Eles não respondem. P2 pergunta se eles dariam mais atenção, se
eles acham que falta atenção dos pais deles. Um participante diz que seria mais presente.
Outro diz que sua mãe é presente, “mas às vezes fica muito nesse negócio, procurando
emprego”, mas que sai com os filhos sempre que pode, brinca. Os pesquisadores agradecem
os participantes e encerram a entrevista.
165 5.3.2. Interpretação reflexiva
Condizente com o interesse da pesquisa, os trechos selecionados para uma análise
mais aprofundada são aqueles em que o grande interesse dos participantes se reflete na
intensidade da discussão. Esses trechos dizem respeito ao ambiente inseguro da comunidade,
destacando as deficiências da infraestrutura local e as poucas opções de lazer. Em um segundo
momento, será aprofundado o discurso sobre as relações familiares.
5.3.2.1. Violência banalizada e desamparo institucional
Um primeiro tema que os participantes tratam em mais detalhes se refere a lembranças
ruins na infância, discutido com os seguintes subtemas:
4. 4:00 Piores lembranças da infância
4.1. Violência;
4.2. Episódios inesperados de violência na comunidade: tiroteio, fuga dos
presidiários, ataques repentinos com “caveirão”;
4.3. Explosão do “caveirão” e vizinha atingida por balas por sair na janela.
Perguntados pelo pesquisador, um participante rapidamente responde que a pior coisa
da sua infância foi a violência. Depois dele, outro conta a história de quando estava jogando
bola com outros meninos quando houve uma fuga de uma cadeia nas proximidades da favela,
comentando que “foi o maior desespero”, que “ficou com medo deles pegarem um refém”.
Continuando em histórias de alto teor emocional, outro participante relata “o pior”, quando
estava na rua, perto de um veículo do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), apelidado de
Caveirão, que estava parado, quando de lá começaram sair tiros: “o Caveirão tava mandando
tiro e eles só devolvendo e da árvore só caia plantas em cima da gente”. Nessa fala, “eles” se
refere, provavelmente, aos traficantes.
Esses relatos espontâneos sobre situações de grande violência na favela mostra a
proeminência do aspecto de convivência com a criminalidade e risco de vida para os
participantes. É um dado que eles introduzem no começo da entrevista e, claramente, se trata
de um consenso entre os participantes. No entanto, ao longo da entrevista, essa posição de
moradores vitimizados ou, ao menos, ameaçados pela constante possibilidade de violência
166 será relativizada, de uma forma que indica que os participantes da discussão em grupo negam
que essa característica seja a máxima definição de suas experiências na comunidade. O
próximo tema já traz uma interessante relativização, como veremos a seguir.
No que se refere aos temas 5 e 6, argumentos interligados são apresentados, com a
seguinte estrutura temática:
5. 5:35 Problemas da comunidade
5.1. Proposição de P1: violência como principal problema da comunidade;
5.2. Contra-proposição de participante: infraestrutura deficiente tão problemática
como violência;
5.3. Detalhamento de problemas com energia elétrica, falta de água, esgoto a céu
aberto;
6. 7:40 O que os moradores podem fazer para resolver esses problemas
6.1. Moradores já fazem o que podem, economizam água e energia elétrica, têm
consciência de que a provisão dos serviços è irregular e sabem lidar com faltas;
6.2. Moradores não podem fazer nada se o governo não cumpre com sua função.
Após o tema das piores lembranças da infância, o pesquisador indaga os participantes
se a violência relatada seria o principal problema da comunidade. Os participantes
contradizem essa proposição veementemente: a falta de infraestrutura, apesar de menos
dramática, seria o que mais prejudica suas rotinas na comunidade, e não os ocasionais
rompantes de violência. Os participantes parecem concordar entre si e se revezam em relatar
as dificuldades causadas pela falta de luz, água e esgoto encanado. A mudança trazida pela
introdução da provisão regulada (e paga) de energia elétrica pela companhia Light é
detalhada, por exemplo, por um participante: “agora que a Light tá trocando tirando a energia
velha e colocando as novas ai falta direto - nessa parte aqui mesmo tá quase todo dia
desligando queimando os aparelhos” e ainda acrescenta as demoras quando a manutenção
dessa empresa é solicitada. Após vários relatos, os participantes são perguntados se há algo
que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação, a que respondem que eles já
fazem sua parte: não confiar que a provisão desses serviços seja algo constante,
economizando os recursos. Completam que essa provisão de serviços é obrigação do governo,
que é negligente em fornecer condições adequadas de infraestrutura para a comunidade. Dessa
maneira, os participantes destacam a dificuldade diária associada à vida em uma favela. Nesse
discurso, essas limitações os impedem de grandes mudanças em suas vidas, enquanto a
167 violência seria um problema menos estrutural, eventos esporádicos, mesmo que
possivelmente fatais.
Outro tema que pode ser compreendido em maior detalhe através de uma passagem
especialmente animada do grupo de discussão é o trecho que se refere à ausência de opções de
recreação na comunidade:
8. 10:22 TP: Opções de lazer que faltam na comunidade
8.1. Moradores da comunidade se adaptam a falta de opções de lazer, mas ONGs e
Vila Olímpica não suprem necessidades;
8.2. Falta de uma biblioteca com computadores e oportunidade para praticar mais
esportes na Vila Olímpica.
9. 11:50 Insatisfação com Vila Olímpica
9.1. Expectativa de que a Vila Olímpica teria grande variedade de opções de esporte;
9.2. Informações inexatas sobre a construção da Vila Olímpica;
9.3. Demora de anos para finalização do espaço.
Continuando no tema das deficiências de infraestrutura locais, os participantes
detalham a frustração com as opções de lazer, especialmente com a Vila Olímpica, local que
foi alvo de grande expectativa para os jovens locais. Segundo os participantes, “apenas 30% é
aproveitado” de uma área enorme, onde apenas poucas atividades são oferecidas. Uma maior
variedade de modalidades esportivas era a expectativa: “Quanto eles falaram, vão fazer a Vila
Olímpica, a gente pensou, vai ter vários esportes, ai demorou anos e quando veio tem
futebol”. Para um participante, a construção demorou demasiado: segundo ele, a data de
término da construção estava prevista para 2007, mas apenas teria ocorrido recentemente.
Nessa passagem do discurso, mais uma vez se torna claro que os participantes se veem como
alvo de descaso institucional, sem boas condições institucionais para seu desenvolvimento
pessoal. A figura de jovens marginalizados e excluídos vai, dessa maneira, se delineando aos
poucos em seu discurso, tendo como base uma frustração recorrente com a provisão de
serviços e oportunidades, que perpassa vários temas.
Esse tema se estende e modifica ao passarem para o âmbito da segurança na
comunidade, que combina mais uma vez a perspectiva de carência institucional com uma
caracterização quase fatalista da violência na comunidade:
168 10. 12:50 Lugares onde não se sentem seguros
10.1. Sensação constante de insegurança, mesmo na escola, que objetivamente é um
lugar seguro, mas onde já houve casos de violência;
10.2. Importância de estar sempre alerta na comunidade, observando o entorno e não
confiar demais de que se esteja seguro;
10.3. Segurança apenas dentro de casa, dormindo na cama, mas mesmo assim
possibilidade constante de tiroteios;
10.4. Imprevisibilidade de tiroteios e riscos de se deparar com um em diferentes
partes do morro quando se anda por lá.
11. 14:50 UPP/ Insegurança perto da UPP
11.1. Tiros são dados perto da UPP quando acaba a luz;
11.2. Taxista abordado muito duramente por policiais, injustamente já que estava
voltando do trabalho, sem que isso o tenha intimidado;
11.3. Despreparo dos policiais para lidar com comunidade e retaliações/ataques
contra UPP em outras comunidades.
Um tema que gera várias participações e grande concordância entre os participantes se
refere ao seu sentimento de segurança ou insegurança na comunidade. Uma primeira
contribuição destaca que “em todo lugar eu não me sinto literalmente seguro. Pra mim confiar
que um lugar é seguro num lugar eu tenho que estar lá frequentemente, que nem a escola na
escola eu sei que estou seguro mas pode entrar alguém lá e fazer alguma besteira”. Esse
participante continua com o exemplo de alguém que pensaria estar seguro por estar ”frente à
UPP, vai que acontece alguma coisa ai então eu nunca posso me sentir seguro, sempre tem
que tá alerta se acontecer alguma coisa estranha assim, já sair de perto, aqui tem que estar
sempre vigiando aqui”. Outros participantes reforçam essa posição, confirmando que eles
devem ficar alerta, pois “a gente nunca tá seguro, até porque pode estar dentro de casa e não
estar bem seguro”. A seguir, o tema passa para a atuação da UPP na comunidade, trazido por
um participante que aponta o local onde se instalaram como um de insegurança na
comunidade, dizendo que eles dão tiro lá quando falta luz de noite. Mesmo inibidos para falar
sobre o tema, alguns relatos confirmam que a UPP, como outros serviços estatais, não supre
as necessidades de segurança e, por vezes, comete agressões injustificadas aos moradores por
“abordar de modo errado”, o que seria causado pelos policiais “não estarem preparados” para
atuar numa comunidade.
169 5.3.2.2. Os conflitos familiares são muito presentes na vida dos jovens e envolvem violência,
negligência e sentimentos de abandono.
Dois últimos trechos do grupo de discussão podem ser destacados como fundamentais
para a compreensão do enquadramento conjuntivo de orientação. Entrando no tema das
relações familiares, o tema 14 enfoca conflitos entre familiares, seguindo a estrutura temática
a seguir:
14. 19:55 Brigas dentro das casas
14.1. Brigas por falta de conversa, o que gera desconfiança e conflito;
14.2. Brigas causadas por maneira errada de conversar: falar alto, não respeitar a
hora de outro falar;
14.3. Violência em brigas entre casais;
14.4. Contribuição do álcool para problemas domésticos;
14.5. Cobranças das mulheres aos maridos trabalhadores e consequentes brigas;
14.6. Discussões mais acaloradas por causa do álcool;
14.7. Frequência de brigas nas ruas, principalmente entre homem e mulher.
O pesquisador questiona os participantes a respeito dos principais motivos das brigas
que acontecem dentro das casas e a primeira opinião é a de que as brigas só acontecem por
falta de diálogo, pois isso gera desconfiança entre as pessoas. Outro participante diz que as
pessoas falam alto e não respeitam os outros que estão falando. Um dos participantes diz que
vê muitas brigas nas casas e o pesquisador questiona sobre os principais motivos para que isto
acorra. A resposta de um deles é de que a bebida seria grande responsável, já que as pessoas
chegariam alcoolizadas em casa de madrugada, ocasionando brigas. Diz ainda que isso não
ocorreria só de madrugada, e comenta que, se um homem trabalha o dia inteiro e quando
chega em casa a “patroa” ainda pede para fazer alguma coisa, ele fica bravo, e aí começa a
discussão. O pesquisador pergunta se eles acreditam que o alcoolismo é um motivo para
brigas e um participante diz que “ajuda”. Outro diz que as pessoas perdem a noção e acabam
brigando. Algumas passagens referentes a este subtema são: “Começa a beber, não fala nada,
ai quando tá doidão fala várias coisas, tudo que eles acham, ai o outro tá na mesma coisa, ai
caem na porrada”, e “Quando um tá bebendo e o outro não tá, e o que tá bebendo xinga ele, ai
o outro vai lá e parte pra agressão”. Em uma primeira leitura superficial deste trecho, somos
levados a pensar que existe nele um apanhado de relatos externos as experiências dos
170 participantes, porém, após uma análise mais atenciosa às formas de discurso e grau de
detalhamento deste, percebemos uma maior densidade e conexão emocional/experiencial
entre o conteúdo e os narradores. É destaque a questão do alcoolismo, cujo grau de
detalhamento alcança um grau inegável, levando-nos a acreditar que seja um relato de
experiência própria do narrador. Ainda que os questionamentos seguintes do pesquisador
tenham direcionado a discussão a um imediato distanciamento destes relatos mais densos, a
hipótese que mais parece evidente é a de que os meninos chegariam a uma narrativa em
primeira pessoa e a relatos de situações com pessoas de seu núcleo familiar ou muito
próximas a eles.
O tema 29 vem a complementar a ideia de que esta apresentação aconteceu como
forma dos participantes manterem-se anônimos, mas ainda assim expressarem sua experiência
com a violência e situações de conflito doméstico:
29. 44:00 O que fariam diferente quando tiverem uma família
29.1. Ausência do pai da vida de filhos e da vida da família de origem, abandono na
infância, intenção de não repetir esse comportamento;
29.2. Vontade de ser um pai que passa tempo, passeia com os filhos;
29.3. Peso da criação dos filhos desproporcionalmente com as mães, ajuda de
padrasto;
29.4. Esforço das mães em serem participantes das vidas dos filhos e suas restrições
de tempo/paciência.
Mais uma vez o tema das relações familiares é introduzido e os participantes
respondem a ele com um grau significativo de detalhamento e conexão emocional e
experiencial ao conteúdo apresentado. Quando o pesquisador pergunta aos participantes o que
eles gostariam de fazer diferente quando tiverem sua própria família, um deles diz que, por
ele, é passar o máximo de tempo com a família, com os filhos, porque o seu pai é um perdido
da vida. Diz que o pai se separou da mãe dele e que nem a família sabe onde ele está. Diz que
ele não dá notícia e que não se sabe nem se ele ainda está vivo. Conta que, quando se mudou
para a comunidade, nunca mais viu o pai. Repete que gostaria de passar o máximo de tempo
com a família, marcar sempre um dia para saírem todos juntos. O pesquisador repete a
pergunta para outro participante, que diz que vai querer dar mais atenção aos filhos, sair todos
os fins de semana. Outro participante diz que também seria um pai presente. Conta que a mãe
também é separada e ele e a irmã ficam sozinhos. Diz que agora ele tem um padrasto, que
171 considera pai. Conta que os pais se separaram quando a mãe tinha 16 anos e ele estava em sua
barriga. Conta que o pai nunca o procurou nem deu nada, mas que o padrasto dá tudo o que
ele quer, dá carinho, brinca. O pesquisador pergunta se os participantes têm mais alguma
coisa para colocar. Eles não respondem e o pesquisador pergunta se eles dariam mais atenção,
se eles acham que falta atenção dos pais deles. Um participante diz que seria mais presente.
Outro diz que sua mãe é presente, “mas às vezes fica muito nesse negócio, procurando
emprego”, mas que sai com os filhos sempre que pode, brinca.
5.3.3. Considerações finais
Dois campos temáticos principais parecem ficar mais evidenciados à medida que
buscamos uma análise mais profunda dos temas desenvolvidos no grupo de discussão. O
primeiro campo temático diz respeito à violência na comunidade, seja oriunda do tráfico ou da
polícia, e do sentimento de desamparo e descaso nas instâncias institucionais que deveriam
fornecer melhores condições estruturais e, consequentemente, melhor qualidade de vida às
pessoas na comunidade. O segundo campo temático tem relação com a violência doméstica e
os conflitos familiares presenciados e vividos pelos jovens. Ainda que, em um primeiro
momento, estes dois campos pareçam não possuir ligação para o enquadramento conjuntivo
de orientação, um olhar atento nos revela que existe, imanente aos temas apresentados, um
pano de fundo similar. Se no primeiro campo as argumentações revelam uma insatisfação dos
participantes com a infraestrutura precária como parte integrante de sua rotina, a violência é
apresentada neste mesmo trecho como momentos isolados, que não perturbariam de forma
constante a organização cotidiana da comunidade. Ou seja, a violência é colocada como
segundo plano e tem sua possível fatalidade diminuída e afastada de um discurso mais
conectado a experiências de importância emocional para os meninos. Para eles, a violência
não é algo que possa ser totalmente contornado ou evitado e, portanto, o incômodo que ela
causa deve ser deslocado para instâncias estruturais, que deveriam dar suporte e serem
confiáveis, mas não o são. O mesmo tipo de mecanismo parece acontecer quando os
participantes são convidados a falar sobre as situações de violência doméstica, já que parecem
fazer relatos descolados de sua experiência como forma de, mais uma vez, não precisarem
admitir que sofrem e vivenciam isso. Esta hipótese se mostra plausível quando os
participantes são chamados a falar sobre o que gostariam que fosse diferente quando tiverem
suas próprias famílias, trazendo a tona um conteúdo mais pessoal e emocional, onde
172 demonstram que as relações familiares são permeadas de sentimentos de insegurança. Por
fim, vale destacar que parece existir certa forma de banalização das situações de violência
tanto familiares quanto na comunidade como forma de racionalização dos sentimentos de
fragilidade e impotência diante destes fatos. A negligência de instituições pode ser contornada
e traz problemas pragmáticos, a violência na comunidade e na família têm conteúdo e
consequência emocional intensos, difíceis de serem modificados.
5.4. Grupo de discussão feminino no Morro dos Macacos
Realizado no início de tarde de outubro de 2012 em uma ONG localizada na parte
inicial da comunidade, em uma primeira rua subindo a via de acesso principal ao morro, o
grupo de discussão contou com participação de 6 jovens, uma delas chegada no meio da
discussão. Duas delas tinham 12 anos, outras duas 14, uma 16 e outra 17 anos. O grupo de
discussão durou uma hora e foi marcado pelas participações frequentes de todas as meninas,
mesmo que um pouco menos da participante chegada após o inicio da discussão. Além de
contribuírem com muitas narrações sobre os temas sugeridos, as meninas também
conversavam entre si, principalmente sobre temas referentes ao que estava sendo discutido em
grupo e sobre conhecimentos mútuos, o que dificultou o entendimento da gravação.
5.4.1. Interpretação formulada
Os temas discutidos entre as participantes foram os seguintes:
1. 1:54 TP: Como apresentariam a comunidade
2. 3:51 TP: Onde as participantes moram e onde se conheceram
3. 5:45 TP: Piores lembranças de quando eram crianças e onde moravam
4. 6:45 TP: Lembranças da infância
5. 8:03 TP: Piores lembranças da infância e experiências negativas na comunidade
6. 14:03 TP: O que elas gostam de fazer, brincar na comunidade
7. 15:57 TP: Conhecidos mútuos entre as meninas, de onde elas se conhecem e em que
escola estudam (iniciado por participantes)
8. 17:47 TP: Lugares na comunidade onde não gostam de ir, que são perigosos
173 9. 19:22 TP: O que poderia ser melhorado na comunidade
10. 20:08 TP: Problemas que meninos enfrentam com a polícia na comunidade (iniciado
por participantes)
11. 21:20 TP: Invasões de casas por policiais e ladrões, acontecimentos quando o BOPE
entrou no ao morro (iniciado por participantes)
12. 25:38 TP: O que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação
13. 27:20 TP: Abordagens por policiais (iniciado por participantes)
14. 28:19 TP: Com quem moram em casa, se têm irmãos
15. 31:05 TP: Chegada da participante Alexia, pergunta com quem moram em casa, se
tem crianças pequenas nas famílias e sobre o que aprendem no Dom Pixote e na Casa
das Artes
16. 35:00 TP: Se ajudam no serviço de casa
17. 36:20 TP: Se pais e irmãos ajudam com o serviço de casa
18. 37:52 TP: Se as mães trabalham fora
19. 39:46 TP: Brigas em casa e restrições da família para sair de casa
20. 43:21 TP: Brigas nas famílias na comunidade
21. 43:58 TP: O que fariam diferente quando tiverem família
22. 44:50 TP: Restrições das mães sobre saídas e namoros (iniciado por participantes)
23. 49:25 TP: Onde vão quando saem, se tem festas na comunidade, bailes na comunidade
e na “favela”
24. 52:06 TP: Tipos de homens que fazem mais sucesso com as mulheres na comunidade
25. 55:33 TP: Exemplos de vida na comunidade
A seguir, uma breve formulação desses temas será apresentada.
1. P1 se identifica e pede para que as meninas se apresentem e explica que estão fazendo uma
pesquisa na comunidade sobre família e infância. P2 também se apresenta às participantes.
Depois que as meninas se apresentam, P1 pergunta como elas apresentariam a comunidade
para alguém de fora. Uma participante diz que no momento a comunidade é boa. Uma das
participantes diz que mostraria tudo. Outra diz que levaria essa pessoa ao Cruzeiro e ao
parque. Elas mencionam que o parque, ou Vila Olímpica, é grande e tem várias atividades,
como natação. P2 pergunta o que é o Cruzeiro e uma menina responde que é a maior parte do
morro, a mais alta, onde tem uma cruz. P1 repete a pergunta. Uma participante diz que falaria
dos pontos turísticos. P2 pergunta quais são os pontos turísticos e ela responde citando o
174 Corcovado, o Cristo Redentor e as praias de Copacabana e Ipanema. P2 pergunta o que elas
diriam se alguém perguntasse como é o local onde moram, e nenhuma menina responde.
2. P2 pergunta onde elas moram, se moram perto, e as meninas contam em que parte do morro
elas moram. As meninas explicam que tem vários pedaços da comunidade com nomes
diferentes, como Ladeira, Pedreira, e que o morro é muito grande. P1 pergunta como as
meninas se conheceram, se foi na Casa da Arte, e elas confirmam. P1 pergunta se todas se
conhecem, e uma das meninas mostra quais ela já conhecia.
3. P1 pergunta quais as piores lembranças que as participantes têm de quando eram crianças
na comunidade. Algumas meninas dizem que não morava na comunidade quando criança. P1
pergunta onde elas moravam e elas respondem. P2 pergunta há quanto tempo elas moram ali
perto. Uma participante diz que mora há um ano, outra diz que sempre morou ali.
4. P2 pergunta, independentemente de onde elas moravam, quais lembranças elas têm da
infância. Uma menina diz que a comunidade está melhorando, desde que era criança, antes
eles tinham que fazer “gato” para ter eletricidade, agora estão botando luz. P1 pergunta do que
elas gostavam de brincar quando eram crianças. Uma participante diz que gostava de brincar
de tudo. P2 pergunta se o lugar onde as meninas moravam era tranquilo e elas podiam brincar
na rua. Uma participante responde que não, pois havia muitos bandidos. Outra participante diz
que tinha tiro toda hora.
5. Perguntadas sobre as piores lembranças da infância, as participantes contam sobre
acidentes que se deram, provavelmente, devido à infraestrutura deficiente da comunidade e de
outras comunidades onde moravam, como incêndios. Quanto à violência, as meninas contam
sobre os avisos dados pelos traficantes quando haveria alguma ação e sobre casos em que a
comunidade se vingou coletivamente de criminosos que abusavam de crianças. Nesses relatos,
parece haver previsibilidade da violência. A menina que conta umas das histórias sobre a
punição de homem que abusava de crianças traz detalhes da história e diz ter estado presente
com sua família, já que a menina abusada era sua prima.
6. P1 pergunta o que as meninas gostam de fazer na comunidade, do que gostam de brincar, e
comenta que algumas não brincam mais. Uma menina diz que não brinca mais. Elas
comentam que gostam de ir ao “shoppinho”. P2 pergunta para uma menina que sempre morou
no morro o que ela faz com os amigos e ela diz que não gosta de ficar no morro. P2 pergunta
para onde ela vai e ela responde que vai para uma localidade onde os amigos moram, em
175 festas. P2 pergunta se a mãe dela deixa e ela diz que sim, porque a mãe confia nela. P2
questiona se ela vai sozinha e ela diz que não, que vai com os amigos, às vezes com os
primos. P2 pergunta de quais lugares as meninas gostam na comunidade. Uma menina diz que
sai na comunidade com os amigos e comenta sobre eles, dizendo que também são da
comunidade.
7. As meninas comentam sobre os amigos e conhecidos, e se dão conta que tem amigos em
comum, o que não sabiam, pois estudam em escolas diferentes.
8. P2 pergunta se há algum lugar na comunidade no qual as meninas não se sentem seguras.
Um participante fala que não gosta de ir no Cruzeiro, pois é muito difícil de chegar, pois é a
parte mais alta do morro. Uma menina diz que vai em qualquer lugar. P2 pergunta se não há
nenhum lugar no qual elas têm medo de andar. Duas meninas dizem ter medo de andar no
Lote e P1 pergunta onde fica esse lugar. As meninas falam que é lá atrás, perto do morro.
9. P2 pergunta se as participantes acham que há alguma coisa que poderia ser melhorada na
comunidade. Uma menina responde que, para ela, não precisa melhorar nada. P2 repete a
pergunta para as outras participantes e comenta que uma delas havia falado que a questão da
eletricidade já melhorou bastante. A menina comenta que agora é preciso pagar a luz. P2
pergunta novamente se há mais coisas que poderiam ser melhoradas. Uma participante fala de
que garotos quando ficam na rua até tarde até apanham.
10. Uma menina comenta que, às vezes, os meninos da comunidade apanham. Outra
participante comenta, rindo, que um amigo dela apanhou quando estava voltando pra casa de
madrugada, o Ronildo, e a outra comenta que ele é seu cunhado. A menina continua contando
a história, dizendo que ela estava jogando Play II à 1h da manhã e estava voltando da casa da
namorada dele e “os caras pararam ele”. Ela conta que ele começou a discutir e apanhou. A
outra menina diz que o Ronildo é namorado de sua irmã, que também está participando da
entrevista. As meninas começam a conversar sobre o tema.
11. As participantes relatam com detalhes a fase em que o BOPE estava na comunidade à
procura de bandidos. Uma participante conta que sua casa foi invadida cinco vezes, já que
havia suspeita quanto a seus irmãos, e que na realidade havia bandidos na casa vizinha, que
acabou sendo sitiada pelo BOPE. Outros relatos se referem ao caveirão e a abusos verbais dos
policiais.
176 12. Perguntadas sobre o que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação, as
participantes ressaltam a falta de possibilidades para protestar. Voltando a falar sobre os
abusos de policiais, as participantes tematizam as revistas de moradores feitas por policiais da
UPP, a que também estão sujeitas. A injustiça de algumas práticas, como policiais homens
tentarem revistar meninas e tratarem meninos como bandidos, mesmo que claramente não o
sejam, é ressaltada.
13. Uma menina comenta que o seu irmão está no quartel agora e que os policiais não o
revistam porque ele mostra a carteirinha. Outra participante diz que seu irmão recebeu da UPP
a ordem de deitar no chão, ele deitou e começaram a assustá-lo.
14. P2 pergunta às participantes como é dentro da casa das participantes, com quem elas
moram. Uma menina diz que mora com o pai, a mãe, a irmã e o irmão, e depois corrige,
dizendo que o irmão agora mora com a mulher dele, que está grávida. Ela ainda destaca: “14
anos e grávida”. P1 faz uma pergunta a ela e ela diz que o primeiro filho é da sua irmã, uma
mulher solteira, que mora em frente à casa dela. Repete que seu irmão vai ser pai e que agora
vive na casa da mulher. P2 pergunta se ela tem mais irmãos e ela diz que sim e cita os nomes.
P2 repete a pergunta para as outras participantes. P1 pergunta para uma menina se ela tem
irmãos e ela diz que tem irmã e irmão. P2 pergunta se são mais velhos ou mais novos, e ela
diz que, “de pai”, é a filha do meio. Conta que tem duas irmãs, que já têm filhos, por parte de
mãe. P2 pergunta com quem a menina vive e ela diz ser com a mãe e as duas irmãs. P2
pergunta para outra participante se ela tem irmão e ela responde que tem três irmãos e três
irmãs. P2 pergunta se ela é a mais velha, e ela diz que não, mas que é a mais velha das
meninas. P2 pergunta se mora todo mundo junto e ela diz que apenas uma irmã, de 14 anos,
que não vive com elas. P2 pergunta se ela não está mais com elas, e a menina diz que ela foi
morar com o namorado. P2 pergunta se os irmãos moram todos e em seguida comenta que um
está no quartel, conforme a participante já havia comentado. A menina comenta que outro
também vai embora para morar com a mulher. P2 pergunta se ela está grávida também, e a
menina diz que não, que “já ganhou”.
15. Uma nova participante chega e é apresentada às meninas. P2 se apresenta, diz que elas
estavam falando sobre a comunidade e pede para as outras participantes falarem seus nomes.
P2 pergunta e as meninas respondem sobre com quem moram em casa, se tem crianças
pequenas nas famílias. P2 e as meninas conversam sobre o que aprendem no Dom Pixote e na
177 Casa das Artes, e o que as meninas mais gostam das atividades que fazem lá, ao que uma
menina responde dança.
16. Uma pergunta que traz muitas participações se refere às tarefas que as participantes
assumem nas casas onde moram. Segundo as participantes, elas assumiriam a maioria das
tarefas domésticas, especialmente no caso das mães trabalharem fora. Algumas ressaltam que,
apesar disso, recebem críticas das mães quanto à arrumação que dão às casas e a comida que
preparam.
17. Em continuação ao tema anterior, as participantes são instigadas a contar se os seus pais
ou irmãos contribuem para as tarefas domésticas. Muitos relatos afloram sobre a pouca
participação dos irmãos nesses afazeres, enquanto os pais parecem estar no geral ausentes ou
não serem alvo das críticas das meninas. Algumas relatam como crianças menores são mais
inclinadas a ajudarem em casa, mas não depois que crescem.
18. Em relação ao tema anterior, as participantes são perguntadas se suas mães trabalham
fora, a que várias respondem com relatos das rotinas cansativas das mães. Mais uma vez o
tema da ajuda recebida das mães e dos irmãos nos afazeres de casa é abordado, com conteúdo
semelhante ao discutido anteriormente.
19. P2 pergunta se há muitas brigas em casa, com os pais e os irmãos e as participantes
respondem que brigam com os irmãos às vezes. Algumas participantes contam como seria
impossível para elas brigarem com suas mães, além de relatarem as causas mais comuns de
brigas com seus irmãos.
20. P1 pergunta se há muitas brigas nas famílias da comunidade, se elas ouvem falar. Uma
menina diz que não há muitas brigas. Ela continua falando de sua família, falando que gosta
de todo mundo menos de sua irmã e P2 pergunta para uma participante se a mãe dela é
tranquila, e ela diz que sim.
21. P1 pergunta para as participantes o que elas gostariam de fazer diferente das suas casas
quando tiverem constituírem família. Uma menina diz que vai fazer totalmente diferente que
sua mãe e sua família. Outra diz que acha que vai mudar tudo. As meninas ficam em silêncio
e P1 pergunta se elas já pensam sobre isso ou ainda não. Uma menina diz que não pensa. Uma
diz que já pensa e que não vai fazer como sua mãe não. Uma outra diz que também já
conversa sobre isso com sua mãe e diz que faria diferente dela. P2 pergunta se vão deixar
“soltos” (os filhos) e algumas participantes dizem que “não, solto também não”, entre risos.
178 22. A idade para namorar é um tema trazido pelas participantes no tema sobre repetirem ou
modificarem o estilo de criação que receberam quando forem mães. A maioria comenta que
suas mães impõem restrições sobre quando as meninas poderiam começar a namorar, em
geral em torno dos 13 ou 14 anos, mas que seriam flexíveis e mudariam de opinião. Algumas
deixam entender que burlam as restrições colocadas pelas mães ou as cumprem pela metade.
Algumas mães são retratadas como não razoáveis ao proibirem demais, o que as meninas
arrazoam que seria pior, pois causaria que as filhas se rebelassem. Uma participante traz o
exemplo da mudança de atitude de sua mãe, que ficou mais flexível depois que ela própria
começou a namorar.
23. P2 pergunta se, quando as meninas saem, ficam na comunidade ou vão a outros lugares.
Uma menina comenta que todo sábado tem festa. Outra participante comenta que há matinês.
As meninas conversam entre si sobre os bailes que acontecem nas favelas. As meninas
comentam sobre o baile funk, que vai voltar, P1 pergunta se foi proibido. As meninas
comentam que teve na “favela”, que é um espaço vazio dentro do morro. Uma menina
comenta que vai para a Lapa. P2 comenta com a participante que ela “anda mesmo”, e ela
confirma, dizendo que sai mais com seu primo.
24. Sobre os homens que fazem mais sucesso na comunidade, as participantes interagem
vivamente e discutem os atributos de garotos famosos na comunidade por sua beleza e atitude.
Esses garotos, segundo elas, se destacam por serem bonitos e sociáveis, irem a todas as festas.
Ao mesmo tempo, algumas expressam que os meninos populares seriam promíscuos e que
muitos homens na comunidade seriam agressivos. Algumas participantes relatam como
algumas mulheres continuam em relacionamentos com homens que as agridem.
25. Quando perguntadas sobre exemplos de vida na comunidade ou em suas famílias, as
participantes se manifestam vivamente e ao mesmo tempo, a maioria delas citando suas mães.
Uma menina cita pai e mãe como exemplos de vida e pessoas por quem morreria, enquanto as
outras replicam que seus pais não servem de exemplo. Histórias de adversidade enfrentadas
pelas mães são apresentadas para justificar que sejam exemplo, mesmo que transpareça que as
participantes não necessariamente tenham um bom relacionamento com as mães. A
polarização entre algumas participantes e aquela que defende o exemplo de seu pai, um
homem que tentaria, sem sucesso, agradar sua mãe, continua, com a maioria das meninas
dizendo que seus pais não lhes dão nada. Algumas relativizam que o relacionamento com os
179 pais piorou ao deixarem a infância. Mais exemplos de mãe e parentes próximos, como avós,
são mencionados.
5.4.2. Interpretação reflexiva
5.4.2.1. Vida na comunidade sob a sombra do abuso institucional e violência de homens
O primeiro trecho referente a esse tema, de número 5, se encontra no começo do grupo
de discussão, referente a pergunta trazida pelas pesquisadoras:
5. 8:03 Piores lembranças da infância e experiências negativas na comunidade
5.1. Incêndios em casa;
5.2. Avisos de traficantes e possibilidade de se proteger de violência relativa ao
tráfico;
5.3. Linchamentos na comunidade;
5.4. Violência cometida por policiais;
5.5. Situação atual da comunidade melhor;
5.6. Represália de moradores contra casos de abuso de crianças;
P2 pergunta qual a pior lembrança da infância, uma menina conta de um incêndio que
houve quando a sua avó estava cozinhando. Outra conta o caso de uma casa que pegou fogo
quando não havia ninguém no local. P2 pergunta o que aconteceu e ela diz que a casa ficou
toda preta, que queimou tudo. P2 pergunta se havia problemas nas ruas dos locais onde
moravam, se era perigoso. Uma participante diz que, no local onde ela morava, os traficantes
avisavam quando ia ter alguma ação, soltando fogos, e os moradores ficavam dentro de casa.
Uma menina diz que uma vez mataram um homem perto da casa onde morava. P2 pergunta se
a menina viu isso e ela conta que viu o homem. Outra menina interrompe dizendo que ela já
viu um homem apanhando de policiais, que botaram um saco na cabeça dele. P2 pergunta se
elas já viram alguma coisa na comunidade, ou se onde elas vivem agora é mais tranquilo.
Uma menina diz que agora está mais tranquilo, “porque antigamente...”. P2 pergunta se ela
conheceu a comunidade antigamente e ela conta que morou aqui quando criança, foi embora
e, depois, voltou. P2 pergunta se o que ela contou anteriormente (do homem que mataram) foi
ali ou em outro lugar, e ela diz ter sido ali. P1 pergunta quando isso aconteceu, ela responde
180 que o homem morreu há anos e que ela tinha entre 7 e 8 anos. Outra participante também
conta que havia um homem que abusava de crianças. P2 pergunta como descobriram, se ela
sabe de alguma história de alguém que foi pego. Ela conta de um show, no qual um homem
abusou de uma menina, que inclusive é sua prima e tem 19 anos, e que o pegaram. Ela
comenta que a prima lembra até hoje. P2 pergunta o que foi feito e ela conta que atearam fogo
no homem e ele morreu. P2 pergunta se ela viu, e ela diz que sim, que viu tudo e que sua avó
até desmaiou. P2 comenta que deve ter sido uma imagem marcante, e a menina confirma e
diz: “Mas na hora da raiva, né...”. P2 pergunta onde foi isso e ela diz que foi onde ela morava
antes. Uma menina conta porque se mudou para a comunidade, porque “tinha uns caras que
tavam tramando fazer maldade comigo”.
Nesse trecho, fica claro que a convivência com violência extrema, mesmo que
seguindo regras claras, era parte da vida cotidiana na comunidade e no entorno. Mesmo um
linchamento de abusador de menores é assistido, segundo a participante, em família, já que
eram parentes da vítima de abuso e era a “hora da raiva”. As participantes ressaltam que agora
o cotidiano na comunidade está mais tranquilo, significando que não são mais expostas a
eventos de extrema violência. No entanto, como veremos a seguir, outro tipo de violência se
instaurou na comunidade, com características bastante distintas.
Outro trecho relevante surge no tema 9 e se prolonga até o tema 13, com a
contribuição espontânea das participantes em seus relatos sobre o que caracterizam como um
dos pontos negativos da comunidade onde vivem, que seria a abordagem policial da UPP e,
antes dessa, do BOPE:
9. 19:22 O que poderia ser melhorado na comunidade
9. 1. Melhorias relativas ao fornecimento de energia elétrica;
9.2. Atitude de policiais com meninos da comunidade ainda ruim.
10. 20:08 Problemas que meninos enfrentam com a polícia na comunidade
10.1. Questionamento de meninos da comunidade por policiais sem razão aparente
11. 21:20 Invasões de casas por policiais e ladrões, acontecimentos quando o BOPE
entrou no ao morro
11.1. Invasões repetidas do BOPE a casa de participante;
11.2. Práticas do BOPE para encontrar criminosos, muitas vezes inexatas e com
violência injustificada;
11.3. Táticas de intimidação do BOPE, ofensas contra moradoras.
12. 25:38 O que os moradores poderiam fazer para melhorar essa situação
181 12.1. Impossibilidade dos moradores protestarem contra essa situação;
12.2. Abusos cometidos pelos policiais da UPP nas práticas de revista de moradores,
mesmo de meninas.
13. 27:20 Abordagens por policiais
13.1. Abordagem dos policiais da UPP variável de acordo com preconceitos dos
policiais, que se surpreendem quando suspeitos na verdade são policiais ou militares.
P2 pergunta se as participantes acham que há alguma coisa que poderia ser melhorada
na comunidade. Uma menina responde que, para ela, não precisa melhorar nada. P2 repete a
pergunta para as outras participantes e comenta que uma delas havia falado que a questão da
eletricidade já melhorou bastante. A menina comenta que agora é preciso pagar a luz. P2
pergunta novamente se há mais coisas que poderiam ser melhoradas. Uma participante fala de
que garotos quando ficam na rua até tarde até apanham. Uma menina comenta que, às vezes,
os meninos da comunidade apanham. Outra participante comenta, rindo, que um amigo dela
apanhou quando estava voltando pra casa de madrugada, o Ronildo, e a outra comenta que ele
é seu cunhado. A menina continua contando a história, dizendo que ela estava jogando Play II
à 1h da manhã e estava voltando da casa da namorada dele e “os caras pararam ele”. Ela conta
que ele começou a discutir e apanhou. A outra menina diz que o Ronildo é namorado de sua
irmã, que também está participando da entrevista. As meninas começam a conversar sobre o
tema.
Uma menina conta que os policiais do BOPE entraram em sua casa cinco vezes. Ela
explica porque acharam que tinha bandido lá. Ela diz que estava com os irmãos em casa e que
os policiais sempre batiam no irmão, mas uma vez só estava ela e a irmã em casa e eles
entraram do mesmo jeito, depois pegaram um vizinho, botaram um saco na cabeça dele. Ela
conta que eles deram um tiro e atiraram uma bomba em direção a uma casa do lado da dela.
Outra menina conta de uma ocasião em que o caveirão entrou na comunidade e falaram pra
não correr, mas um menino levantou e bateram nele. Ela diz que invadiram a casa dela e
xingaram a mãe e os irmãos, bateram em um irmão. Outra participante retoma a história de
quando o BOPE invadia a sua casa várias vezes, contando que eles colocavam ela, suas irmãs
e mãe num quarto e os dois irmãos na sala, que xingavam a mãe e os irmãos, chamavam a
mãe dela de macaca. Sua irmã diz que eles foram à sua casa cinco vezes, pois achavam que
havia um bandido morando lá, mas era na casa ao lado. P1 pergunta se depois o bandido foi
pego e a menina conta que os policiais foram até lá, atiraram, mas o tiro não acertou ninguém
porque havia um porão para que os bandidos se escondessem, e depois jogaram uma bomba.
182 P2 pergunta se aquilo acabou com a casa e a participante responde que não, porque eles
jogaram do lado de fora e então entraram na casa. Ela conta que havia 8 ou 9 policiais lá. P2
pergunta se isso faz tempo e a menina responde que foi quando a UPP chegou à comunidade.
Ela explica que, antes da UPP, era o BOPE que entrava na comunidade.
P1 pergunta o que as participantes acham que os moradores poderiam fazer para
melhorar essa situação. Uma menina diz que, “se protestar, apanha”, pois já tentaram fazer
rebelião na comunidade e muitas pessoas apanharam. Conta que uma prima sua apanhou dos
policiais. A menina ainda diz que já foi parada para ser revistada cinco vezes, e que ela disse
que só iria ser revistada por mulher. Tentaram revistar ela a força e ela saiu correndo. Ela
conta que no outro dia sua mãe desceu com ela e as duas não foram paradas. A menina conta
o fato de um primo, que já morou na comunidade e é “grandão”, que os policiais queriam
revistar e só depois perceberam que ele é militar e outra participante pergunta quem é o primo
dela. Elas conversam sobre conhecidos em comum, uma menina começa a contar quando
queriam revistar ela e sua irmã, mas é interrompida por outra participante. Uma menina
comenta que o seu irmão está no quartel agora e que os policiais não o revistam porque ele
mostra a carteirinha. Outra participante diz que seu irmão ia servir, mas acabou não servindo
ao quartel. Ela diz que mandaram seu irmão deitar no chão, ele deitou e começaram a assustálo. P2 pergunta para a menina qual a idade do seu irmão, e ela diz que ele tem 21 anos. Outra
menina diz que o irmão dela tem 19 e as duas comentam entre si sobre os irmãos.
Nesse trecho, episódios de claro abuso por parte dos policiais do BOPE e UPP são
tematizados com alta dramaticidade. As participantes são unívocas nas caracterizações de
parcialidade dos policias, que tratariam todos como bandidos e agrediriam mulheres e
crianças gratuitamente. Pode-se perceber que o momento da entrada do BOPE na comunidade
foi de ápice da violência, que depois passa a ser parte da rotina no tratamento discriminante
recebido da UPP. Dessa maneira, uma violência rotinizada, como era a do tráfico, é
substituída por um pico de agressões e vitimizações aos moradores, para depois voltar a uma
rotina de convivência com a violência, que, no entanto, agora se dirige a um público diferente:
moradores, em especial os jovens, da comunidade. Anteriormente, os critérios para ser alvo de
violência pareciam estar mais claros (conflitos com as facções regentes, abuso de crianças).
Um último trecho na qual pode ser encontrada temática semelhante é o penúltimo da
discussão:
183 24. 52:06 Tipos de homens que fazem mais sucesso com as mulheres na
comunidade
24.1. Homens da comunidade não prestam, os que têm namorada chamam mais
atenção;
24.2. Garotos mais conhecidos por sua beleza na comunidade;
24.3. Garotos bonitos são “galinha”;
24.4. Atitude diferente e extrovertida de garotos populares;
24.5. Dificuldades com garotos que usam drogas;
24.6. Homens na comunidade frequentemente agressivos, parceiras agredidas não
se separam.
P1 pergunta sobre os homens que mais fazem sucesso com as mulheres na
comunidade e as participantes debatem o assunto. Uma delas diz “os que têm namorada” e
outra diz que “não tem nenhum homem que presta”. Algumas meninas comentam que tem
homem que presta mas tem que dar valor. P1 repete a pergunta, querendo saber quais homens
chamam mais a atenção. Uma participante diz que, para ela, é um “garoto muito lindo, o
Gordo”. Outra menina comenta que ele é ex-cunhado dela. P1 pergunta como ele é e a outra
participante diz que “o Gordo é tudo e mais um pouco, ele é tudo de bom”. P1 questiona se
ele é gordo e as meninas respondem que não, que ele é magrinho. Uma delas comenta que ele
tem um corpão. A outra participante diz que ele “é cheio de quadradinhos e tem o maior
bundão. Ele é muito lindo, só faltou o olho verde”. As meninas conversam entre si e falam o
nome de outros meninos. P1 pergunta se todas elas conhecem os rapazes e uma responde que
eles são muito famosos. P1 pergunta por quê, e ela diz que eles são muito lindos. Uma
participante comenta que a maioria dos bonitinhos do morro “são todos galinhas”, e as outras
meninas concordam. Elas conversam entre si sobre o assunto e falam sobre um menino. P1
pergunta se eles são conhecidos, e uma menina confirma. P2 pergunta se é só porque eles são
bonitos ou se tem outro motivo. Uma participante diz que é porque eles vão de penetras em
todas as festa. P1 pergunta se eles têm a idade das participantes e elas dizem que não, que eles
têm de 16 anos para cima. P2 pergunta quem mais as participantes acham que têm um estilo
diferente e que fazem sucesso na comunidade. Uma participante responde que são os homens
que têm bunda, barriga de tanquinho, “mas tanquinho, não tancão”. Ela comenta que o
homem pode até ser feio de rosto, mas “tendo bunda e barriga tanquinho, faz sucesso”. P1
pergunta se não importa o que ele faz, e uma menina diz que se o menino se drogar, ele é
perda de tempo. P1 pergunta se esses não fazem sucesso e a menina continua falando que até
184 fazem sucesso, que alguns mesmo batem nas namoradas, que algumas meninas apanham e
voltam com esses namorados. As meninas dizem que tem muito “homem agressivo aqui no
morro”. Uma participante diz que tem menina que apanham repetidas vezes e mesmo assim
ainda brigam por causa desse parceiro. As meninas discutem agressão entre homem e mulher.
Mais um âmbito de violência na comunidade é apresentado nesse trecho, dessa vez
referente à violência entre homens e mulheres. As relações entre parceiros são definidas de
maneira ambígua, já que na primeira contribuição ao tema uma participante se posiciona
criticamente em relação às mulheres da comunidade, alegando que os homens que fazem mais
sucesso são os comprometidos. No decorrer do discurso, padrões de relacionamento em que
ambas as partes apresentam atitudes questionáveis são discutidos: os meninos que fazem mais
sucesso são os “galinhas”, o que indica que eles enganariam ou não tratariam bem as
parceiras. Ao mesmo tempo, isso seria um fato conhecido de todas, o que não impediria a
repetição desse quadro. Outro quadro de relacionamento destrutivo que permanece estável
seria o das mulheres agredidas que não pensam em deixar seus parceiros. Dessa maneira,
emerge uma caracterização em que homens e mulheres estariam envolvidos em padrões de
relacionamento insatisfatórios ou mesmo violentos, com grande dificuldade para romper com
os mesmos e possível normatização dessas situações.
5.4.2.2. Vida familiar e carga mais pesada das mulheres
Em um segundo campo temático, são relevantes os trechos onde as participantes
contam com detalhes sobre sua vida familiar, começando pelos trechos de 16 a 19:
16. 35:00 Se ajudam no serviço de casa
16.1. Participantes fazem a maior parte do serviço doméstico;
16.2. Mães não ajudam muito, trabalham fora, criticam.
17. 36:20 Se pais e irmãos ajudam com o serviço de casa
17.1. Pouca participação dos irmãos nos serviços domésticos;
17.1. Pouca ajuda por parte de irmãos menores, que querem brincar o tempo
todo;
17.2. Alguns irmãos menores gostam das tarefas domésticas (como brincadeira).
18. 37:52 Se as mães trabalham fora
18.1. Dificuldades das mães em empregos estressantes.
185 19. 39:46 Brigas em casa e restrições da família para sair de casa
19.1. Brigas com os irmãos e não com as mães;
19.2. Impossibilidade das participantes ficarem sem falar com suas mães por
tempo considerável;
19.3. Apego às mães apesar de suas atitudes nem sempre consideradas justas.
P1 pergunta como é dentro de casa, se as meninas ajudam, se fazem alguma coisa. As
meninas começam a enumerar atividades e uma conclui que faz quase tudo. Uma menina
responde “eu faço tudo, minha mãe só come”, e outra replica que sua mãe só trabalha (fora) e
come. As meninas comentam algumas coisas que fazem e uma delas diz que faz tudo e brinca,
dizendo que, se faz errado, a mãe ainda reclama, e as meninas riem e debatem o assunto entre
si. P1 pergunta se ela cozinha bem, e ela diz que depende. Uma menina comenta com outra
que suas mães são iguais. Outra participante comenta que se a mãe vê alguma coisa no chão já
diz “essa casa está uma bagunça”, e as participantes riem. P2 pergunta como as meninas
aprenderam a cozinhar. Uma menina diz que aprendeu vendo, e outra que aprendeu com o
pai, outra fala que aprendeu com a mãe, quando ela está de bom humor. Outra participante diz
que sua mãe vai cozinhar hoje, pois é aniversário dela.
P2 pergunta se os pais e irmãos homens ajudam em casa. Várias participantes dizem
que não, uma ressalta que o seu irmão só lava a louça. P2 pergunta novamente. Uma
participante diz que seu irmão apenas contribui trabalhando fora, outra menina diz que o
irmão também não ajuda em nada. Uma participante comenta que o irmão não arruma nem a
cama. Outra menina brinca que o irmão só ajuda a comer, entre risadas. P2 pergunta “e vocês”
(provavelmente para as irmãs), e uma delas diz que arruma a casa. P2 pergunta se elas
dividem as tarefas e elas dizem que sim, que uma arruma a sala, a outra o quarto. P1 pergunta
para outra participante, que diz que ela é quem faz tudo. P2 pergunta sobre suas irmãs, e ela
comenta que tem uma irmã de 9 anos e uma de 11, e que elas chegam da escola e vão direto
brincar na rua. Outra participante comenta que, apesar de não ser, até parece que ela é a irmã
mais velha, porque é quem faz tudo em casa. Ela diz que a irmã mais velha não faz nada e
trabalha de vez em quando. Outra participante diz que a irmã mais velha vai para a escola,
chega em casa, toma banho, vai para o trabalho, chega às duas horas da manhã e não faz nada,
já que trabalha em um shopping. P2 pergunta se as mães das meninas trabalham fora. Uma
participante diz que não, que a mãe trabalhava, mas a clínica fechou e agora ela não trabalha
mais. Ela comenta que a mãe já estava quase ficando maluca na clínica. P1 pergunta sobre a
clínica e a menina diz que era uma clínica de idosos e repete que a mãe estava “quase ficando
186 maluca, coitada”. Outra participante diz que a mãe trabalha em dois empregos e chega de
madrugada. Outra menina diz que sua mãe trabalha em casa, tem um salão de cabeleireira. P2
pergunta se são as mulheres que se envolvem mais nas tarefas de casa e as meninas dizem que
sim. Questionadas se os irmãos ajudam em casa, uma participante diz que apenas seu irmão
menor ajuda, se receber alguma coisa em troca. P2 pergunta a uma das meninas quantos anos
tem o irmão, e ela diz que tem 9. Outra participante comenta sobre sua irmã, de 7 anos que
ajuda. P2 comenta “coitadinha”, e a participante diz que ela pede pra ajudar, que adora lavar a
louça, outra participante comenta que quando crescem os irmãos não querem ajudar mais.
A próxima pergunta se refere a conflitos e brigas dentro de casa. Perguntadas se
brigam com as mães, uma participante responde que a mãe não conta, que não tem como ficar
sem falar com sua mãe, que ela sempre compra alguma coisa pra ela. Outra acrescenta que ela
só consegue ficar alguns minutos sem falar com sua mãe, “daqui a pouco ela vem e pede um
favor”. Uma participante comenta que não fala com seu irmão, que ele joga tudo pra cima
dela quando está frustrado, que “fica tentando me controlar, é muito chato, eu parei de falar
com ele”, fala que tem outro irmão que é muito legal, que ela ama ele. Outra participante
conta que às vezes brigam por besteiras, está tudo bem, estão todos vendo televisão, e, quando
alguém troca de canal, começa a briga. A menina diz que “aí começa a quebrar tudo, jogar
copo no chão...”. Outra participante conta que seu irmão é muito bom, mas que a irmã mais
velha é ciumenta e implica com ela, o que outra participante confirma. Outra menina conta
que em sua casa os irmãos brigam por causa de computador todo dia. Uma participante
comenta que as discussões acontecem mais por causa da televisão e do computador e uma
menina comenta que, na casa dela, ninguém briga por causa da televisão. P2 pergunta porquê,
se ninguém gosta, e ela diz que não, que é porque não tem quase ninguém em casa. Ela
comenta que quem mais assiste é ela e as irmãs. Os irmãos, segundo ela, saem de casa cedo e
voltam só à noite ou só pra comer e tomar banho. P2 pergunta como é para as meninas saírem
de casa. Uma menina diz que sua mãe tem medo que ela saia, critica a roupa que ela veste
para sair.
Um dos temas que provoca as reações mais animadas das participantes é o das tarefas
domésticas. Todas afirmam veementemente que contribuem com o serviço doméstico, a
maioria dizendo que arca com a maior parte desse. As mães são criticadas abertamente por,
segundo as participantes, contribuírem muito pouco e criticarem o que as meninas fazem. Por
outro lado, a situação das mães que trabalham fora de casa é ressaltada, como uma
participante afirma, pois seus empregos seriam extremamente desgastantes, ou elas
trabalhariam em dois empregos, como relata outra. Os irmãos, por outro lado, também se
187 encaixam nessa definição de não contribuírem para as tarefas domésticas, já que eles teriam a
incumbência de trabalhar fora de casa, o que muitos deles não fariam. Dessa maneira, um
quadro de orientação em que mães e irmãos em torno da maioridade e, em alguns casos, irmãs
mais velhas, trabalhariam fora de casa e seriam isentos dos afazeres domésticos parece se
delinear. Essa configuração básica não é questionada, mas algumas distorções ou dificuldades
inerentes da mesma sim: as mães ou irmãos que não trabalham ou desempregados fora seriam
injustamente isentos de contribuírem e, adicionalmente, mães e irmãos se tornariam por
demais exigentes com as meninas responsáveis pelo serviço doméstico. Os pais, por outro
lado, não são mencionados, por estarem em grande parte ausentes dos núcleos domésticos e
por não terem seu papel na divisão de trabalho questionado, provavelmente: esses seriam
primariamente identificados com a função de trabalhar fora e trazer recursos para o núcleo
doméstico, efetivamente excluídos de contribuições adicionais.
Outro trecho sobre o assunto vem logo a seguir, no tema 22:
22. 44:50 Restrições das mães sobre saídas e namoros
22.1. Mães que impõem muitas restrições a namorar e sair de casa;
22.2. Como as meninas burlam as restrições das mães;
22.3. Mudança de atitude de uma mãe depois de começar a namorar;
22.4. Idade para começar a namorar geralmente 13 ou 14 anos;
22.5. Dificuldade de cumprir com imposições das mães;
22.6. Ineficiência de uma rigidez exagerada com as filhas;
22.7. Flexibilidade da mãe a despeito de suas próprias regras;
22.8. Mãe que incentiva a sair e confia na filha, que nunca lhe mentiu.
Uma participante comenta sobre idade para namorar, contando que ela diz para sua
mãe que aos 12 anos ela entende que ainda não tenha permissão para namorar, mas que com
13 ou 14 já deveria poder. P2 pergunta se a mãe a prende em casa. Ela responde que antes
prendia mais. Outra menina diz que sua mãe não permite nada, outra participante comenta que
“a mãe dela é chata mesmo”. A menina diz que sua mãe é muito rígida, que tudo que ela pede
recebe não como resposta, que ela sempre deixa de castigo, que ficou um ano sem poder sair.
P2 pergunta para a menina o que ela apronta. Ela ri e responde: “nada”. P1 pergunta o que a
mãe acha que ela apronta. Ela diz que a mãe acha que ela fica namorando, mas que ela não
namora, o que provoca muitas risadas. Outra participante comenta que a mãe dela a conhece
bem, P2 pergunta para uma menina que está namorando como a mãe dela lida com isso; a
participante responde que antes a mãe dela prendia mais, que antes ela falava “mãe, vou ali e
188 ela dava hora pra voltar, e que agora não mais”. P2 pergunta se isso tem a ver com que a
participante esteja namorando e ela responde que antes dela namorar a mãe dela já tinha
mudado muito, e ela acha que é porque a mãe começou a namorar. Uma participante comenta
que sua mãe não a deixa namorar e outra concorda que sua mãe também não deixa, pois ela
tem 12 anos e só com 13 ou 14 ela poderia. Outra participante diz que a mãe acha que ela não
namora, mas que ela namora “à beça”. P2 pergunta se ela tem 13 anos, e ela diz que completa
em um mês mas que não conseguiria esperar. Outra participante diz que completará 13 no
começo do ano, que sua mãe falava que com 13 poderia namorar e que agora fala que só aos
14, mas que ela acredita que com 13 poderá, pois a mãe deixou sua irmã namorar com 13.
Outra menina comenta que ficava com meninos, mas que namorar, só a partir dos 15 anos.
Uma participante diz que a mãe disse que poderia namorar entre 13 e 14 anos. P2 pergunta
para outra menina se a mãe a prende muito, e ela diz que não. Ela comenta que se for ficar
prendendo, “quando solta...”. Outra menina diz que, quando isso acontece, é pior. Uma
participante diz que ela é santa. P2 pergunta sobre a mãe de outra menina, que diz que ela é
“tranquila”. P2 pergunta se é assim mesmo quando ela sai tarde e ela responde que sim, que a
mãe diz que no outro fim de semana ela vai ficar em casa, mas ela acaba saindo de novo. Uma
menina comenta que sua mãe faz o contrário: quer que ela saia, mas ela não quer sair,
enquanto sua irmã dois anos mais velha adora sair e ficar na rua. P2 pergunta para uma
participante se ela quiser sair a mãe deixa. Ela responde que sim, pois nunca mentiu para a
mãe, que confia muito nela.
Nesse trecho, uma característica atribuída pelas participantes a suas mães mais uma
vez é reforçada: a atitude, entendida pelas meninas, como em grande parte arbitrária e mal
fundamentada que essas empregam nas decisões de restringirem ou não suas atividades
sociais. Mesmo concordando unanimemente com que as mães devam colocar restrições à
liberdade das filhas, as participantes apontam inconsistências nas regras colocadas pelas mães,
que tentam ser bastante severas quanto aos relacionamentos românticos das filhas mas, com
frequência, suavizam as regras iniciais por vários motivos. Por outro lado, a importância de
um relacionamento baseado na confiança e entendimento mútuo entre mãe e filha é ressaltada,
compondo um ideal em que as regras seriam negociadas mutuamente e não impostas pelas
mães e evadidas pelas filhas, como parece ocorrer com frequência.
O tema 25 retoma vários aspectos sobre o relacionamento com as famílias trazidos até
então:
189 25. 55:33 Exemplos de vida na comunidade
25.1. Pais são exemplos de vida;
25.2. Mães são exemplo de vida, pais só contribuem para fazer filho;
25.3. Pais não dão nada para as filhas;
25.4. Mães passaram por grandes dificuldades para cuidar dos filhos e, mesmo
não acertando sempre, mãe é mãe;
25.5. Pai que sofre abuso da mãe e que é legal com a filha;
25.6. Pais que deixaram de dar a atenção e carinho que davam a suas filhas
quando criança.
P2 pergunta se há alguém na comunidade que seja um exemplo, uma pessoa
conhecida. Uma menina diz que o exemplo de vida dela são seus pais. Uma menina diz que
seu exemplo é só sua mãe, outra conta que para ela são sua mãe e seu pai. P2 pergunta se eles
são exemplo, e ela diz que são tudo pra ela, que morreria por eles. Outra participante diz que
morreria só pela mãe e uma menina diz que morre pelo pai, porque “se meu pai não tivesse
bulinado minha mãe, eu não teria nascido”. Uma menina replica que o pai só contribuiu para
fazer o filho, outras meninas falam que é verdade. Muitas participações de meninas se
sobrepõem, e as participantes parecem concordar que filho quem cria é a mãe, com a menina
que falou que morreria por pai e mãe acrescentando que se não fosse o pai ela não existiria.
Várias meninas dizem ao mesmo tempo “meu pai não me dá nada” Uma participante comenta
que sua mãe saiu de casa com 14 anos e foi morar com uma irmã e que ela passou por muita
coisa, morou na rua, com parentes. P2 questiona se ela é um exemplo para a menina e ela diz
que não mora mais com ela, agora mora coma a avó, mas que “mãe é mãe”. P2 pergunta sobre
o pai das meninas, se eles servem de exemplo. Uma participante diz o pai dela não serve de
exemplo não, enquanto a participante que anteriormente tinha dito que morreria por pai e mãe
diz que o dela serve e conta que a mãe “é uma chaminé”, porque fuma toda hora, e que o pai
compra cigarro para ela, e ela ainda reclama. Ela diz que, se ele falar alguma coisa, apanha,
porque ele “serve de saco de pancadas” para a mãe. Ela conta que o pai é “gordinho” e não
consegue nem se movimentar direito. P2 pergunta se, para ela, ele é legal, e ela diz que sim.
Outra menina comenta que o pai era muito legal, fazia tudo que eu queria, me dava atenção,
mas que agora teria mudado, o que outra menina reforça, citando mudança no comportamento
dos pais. P2 pergunta se elas têm mais alguém que possa ser citado como exemplo, algumas
meninas falam um pouco mais sobre pai e mãe, uma menina cita a avó. Perguntadas de novo
190 se há mais alguém, uma menina cita uma personagem de ficção, as outras não falam sobre
mais ninguém.
Nesse trecho, as participantes se expressam com bastante clareza e consistência sobre
relacionamentos com mães e pais, negociando entre si suas posições em busca de um
consenso. Como destacado anteriormente, o relacionamento com as mães compõe a principal
fonte de orientação das participantes, mas ao mesmo tempo é caracterizado como
frequentemente insatisfatório. Esse elemento se encontra nas falas de participantes que
relatam o comportamento agressivo das mães, nesse trecho em especial se referindo ao relato
da mãe, fumante, que não sabe agradecer as supostas tentativas de ajuda do companheiro e o
agrediria, bem como a informação de outra participante de que sua mãe não poderia cuidar
dela, mandando-a para viver com a avó (mesmo que essa acrescente que “mãe é mãe”).
Assim como trazido em outros trechos, as participantes explicam o comportamento das mães
pelas dificuldades de suas trajetórias, o que as tornaria exemplos de vida por terem vencido
muitas dificuldades. Mostra-se, portanto, ambígua a admiração das participantes por suas
mães, já que ao mesmo tempo transparece a insatisfação com as limitações trazidas pelas
histórias de sofrimento e luta de suas mães.
A figura paterna, por outro lado, parece menos ambígua: para a maioria das
participantes, o pai é ausente e descomprometido com a criação dos filhos. Mesmo os que
parecem ocupar um lugar mais proeminente na vida das filhas são acusados de afastar-se
delas após o fim da infância: várias participantes destacam que seus pais antes eram
atenciosos, mas teriam mudado e se tornado mais ausentes para com suas filhas agora
adolescentes.
5.4.3. Considerações finais
Alguns pontos em comum podem ser encontrados nas orientações subjacentes a
narrativas das participantes agrupadas ambas ao redor dos temas violência ou de família. Que
pese as diferentes nuances conferidas aos tipos distintos de violência na comunidade, uma
constante nesse primeiro campo temático, que perpassa vários relatos de abuso e violência, é a
associação de figuras masculinas com comportamento abusivo, sejam elas policiais,
criminosos, homens da comunidade ou familiares. Algumas figuras masculinas são
apresentadas como vítimas, mas quase sempre de outros homens, como nos casos de irmãos
191 agredidos por policiais. Em uma instância, o pai é abusado pela mãe, mas essa passagem
parece fornecer a exceção ou horizonte de comparação contrário. A figura paterna, ademais,
se apresenta como distante ou ausente, como fica claro nas narrativas que expressam a
frustração das adolescentes com seus pais. Essa configuração de gênero parece se dever a
aspectos inerentes da vida comunitária bem como a uma experiência de aumento rápido e
dramático nas vitimizações de moradores da comunidade por parte de agentes policiais. Podese concluir que essa geração de jovens mulheres do Morro dos Macacos teve não apenas sua
percepção das instituições de segurança pública marcada por essa experiência, mas também,
talvez, sua percepção dos papéis de gênero.
Para além da identificação de figuras masculinas (e, possivelmente, também as
institucionais) com situações de abuso, as mães representam forte fonte de orientação para as
participantes. Como explicado anteriormente, longos e intensos trechos da discussão mostram
a dependência mútua e forte ligação entre mães e filhas. Essa ligação convive com um senso
de que suas mães, em grande parte devido a circunstâncias desfavoráveis, não podem sempre
lhe oferecer o apoio desejado. Em conexão com o tema anterior, as figuras femininas parecem
estar mais frequentemente associadas com situações de vitimização e carência, apesar de que
esse quadro é ricamente diferenciado com exemplos contrários de mulheres que não o são e
que, outras vezes, são coniventes com a perpetuação de sua posição de vítima.
6
192 Análise da dinâmica com grupo de crianças no Morro dos Macacos
6.1. Referencial metodológico
Para compreender a perspectiva de crianças sobre os temas família, moradia,
comunidade e situações de violência, foi conduzido um grupo de discussão em cada favela
pesquisada com 3 a 6 crianças de idades entre 6 e 9 anos. Tomamos como pressuposto que a
coleta de material qualitativo com crianças possui significativas diferenças daquelas
conduzidas com adultos e, portanto, mostrou-se central desenvolver um instrumento adequado
para o interesse desta pesquisa e para a faixa etária da amostra.
Para a condução da dinâmica utilizamos uma forma adaptada do método de entrevista
episódica, tal como formulada por Uwe Flick. De acordo com Flick (2000), a entrevista
episódica está baseada em diversos conceitos subjacentes, cujo ponto em comum reside na
utilização de narrativas enquanto uma criação cognitiva que privilegia a realidade do que é
experienciado pelos contadores do episódio, possibilitando o acesso as interpretações
particulares do entrevistado em relação ao mundo (Jovchelovitch e Bauer, 2000). O método
de entrevista episódica supõe um trabalho individual de obtenção de narrativas, portanto a
questão de como funcionalizar este método para uma dinâmica em grupo com crianças foi
colocada para os pesquisadores. Para tanto, os pesquisadores desenvolveram uma estratégia
fundamentada nos princípios básicos da entrevista episódica, como apontados a seguir: a)
combinar convites para os participantes narrarem acontecimentos concretos (relevantes ao
interesse da pesquisa) com perguntas que buscam respostas mais amplas (definições,
argumentações, etc.) de relevância pontual; b) mencionar situações concretas em que se pode
pressupor que os entrevistados possuem determinadas experiências; c) formular perguntas
suficientemente abertas para permitir que os participantes selecionem um episódio ou situação
que queiram contar e a forma de apresentação, sendo respeitada a relevância subjetiva da
situação para o entrevistado (Flick, 2000).
Além disso, foi necessário encontrar uma maneira que respeitasse as formas de acesso
ao conhecimento episódico próprios da criança, ou seja, que pudesse fornecer vias de acesso
mental coerentes com o estado emocional, social e cognitivo típicos desta etapa do
desenvolvimento. Tal como adaptado por Peter Kuhn (2003), o método de entrevista
episódica para crianças foi precedido de uma atividade de desenhos temáticos, tomados como
ponto de partida para a produção de narrativas e discussão em grupo.
193 A seguir, apresentamos um roteiro adaptado para a condução da dinâmica:
I. Abordagem inicial (Rapport)
II. Desenho temático
a) Família
b) Lugar onde mora
III. Descrição do desenho
a) Descrição livre
b) Exploração guiada pelo
pesquisador
IV. Narrativas principais
Introdução para narrativas
• O que mais gosta / O que menos gosta:
a) Na família – obtenção de EPISÓDIOS NARRATIVOS
b) No lugar onde mora – obtenção de EPISÓDIOS
NARRATIVOS
V. Narrativas subjacentes
• O que gostaria que fosse diferente
a) Na família
b) No lugar onde mora
VI. Temática positiva para encerramento
Obtenção de narrativas
subjacentes
Sugestões:
• O que quer ser quando crescer?
• De que mais gosta de brincar?
VII.
Feedback do grupo sobre atividade
6.2. Análise reconstrutiva do discurso
Para a análise do material qualitativo utilizamos uma adaptação do método de análise
reconstrutiva do discurso, como proposto por Rosenthal e Völter (2008). Este tipo de análise
tem como princípios a abertura, a sequencialidade e a reconstrução, e através dele buscamos a
194 reconstrução narrativa de experiências relevantes - positivas e negativas - das crianças,
trazendo a tona formas de conhecimento, vivências e interpretações individuais e socialmente
compartilhadas sobre a família, a moradia, a comunidade, situações de violência, etc.
A adaptação dos passos analíticos segue as seguintes etapas: a) Seleção dos trechos
para análise, seguindo critérios de tipo textual (ênfase em trechos narrativos e/ou diálogos
densos), temas (relevantes para a pesquisa) e dados objetivos; b) Sequenciamento
(diferenciação de passagens com categorias de tipo textual e mudança de falante) e análise do
campo temático (levantamento de hipóteses para trechos fora do contexto do discurso de
referência) de cada fragmento. Esta etapa da análise tem por objetivo reconstruir os padrões
de argumentação e significação, bem como as narrativas e seu significado para o discurso em
sua lógica interna e em seu enquadramento contextual e temático; identificar a quantidade, a
forma e os temas de discursos possivelmente paralelos/intercruzados presentes no documento;
e desvendar os meios retóricos e linguísticos (metáforas, formas de falar, composições e
estrutura temática) do fragmento, a fim de compreender como vai se construindo o discurso.
c) Descrição global dos trechos, onde os fragmentos são novamente contextualizados e é
apresentado o produto final de análise do discurso e de seus processos sociais relevantes.
6.3. Grupo de crianças do Morro dos Macacos
A dinâmica em grupo com crianças no Morro dos Macacos foi realizada no mês de
outubro de 2012, em uma instituição chamada CEACA (Centro Educacional da Criança e do
Adolescente Lídia dos Santos), com quatro meninos, um com 4 anos de idade, um com 7, um
com 8 e um com 9 anos. Algumas adversidades significativas foram enfrentadas pelos
pesquisadores para a realização da dinâmica. Tais adversidades comprometeram a
possibilidade de alguns dos participantes se expressarem mais livremente. Estas
circunstâncias devem ser atribuídas a pouca idade de um dos meninos (4 anos de idade), cuja
participação não foi impedida, mas que não seria ideal para a tarefa. Além disso, outro
participante mostrou-se contagiado pela dificuldade do colega, instaurando um ambiente de
gritos e agitação corporal entre os dois. Apesar disso, foi minimamente possível ater-se as
narrativas e debates mais densos dos outros dois meninos e fazer circular as temáticas mesmo
entre aqueles com dificuldades em participar verbalmente da discussão.
195 6.3.1. Apresentação dos desenhos temáticos
Natan - 4 anos
Figura 100: Lugar onde mora – por Natan
Figura 101: A família – Por Natan
196 Arthur - 9 anos
Figura 102: Lugar onde mora – Por Arthur
Figura 103: A família – Por Arthur – Por Arthur
197 Cláudio - 8 anos
Figura 104: Lugar onde mora – Por Clúudio
Figura 105: A família – Por Cláudio
198 Bruno - 7 anos
Figura 106: Lugar onde mora – Por Bruno
Figura 107: A família – Por Bruno
199 6.3.2. Breve descrição da dinâmica
Os coordenadores e as crianças sentam em roda em uma mesa e se apresentam,
dizendo o nome e a idade, mas é difícil compreender, já que diversas conversas paralelas
acontecem simultaneamente. O participante mais novo fica muito inquieto, falando muito e
saindo de sua cadeira a todo o momento para mexer nos computadores ao fundo da sala. A
pesquisadora busca chamar-lhe a atenção, porém, os outros participantes começam a ficar
incomodados e inquietos.
A pesquisadora pergunta aos participantes se eles sabem o por
que de terem sido
chamados a participar daquela atividade. Alguns respondem que estão ali para gravar
entrevista aos jornalistas. Um participante responde com a palavra “pesquisa” e a
pesquisadora pergunta se alguém saberia dizer o que isso significa. Surgem diversas respostas
e, por fim, a pesquisadora explica que está interessada em conhecer a comunidade onde eles
vivem e a opinião das crianças que ali moram acerca de diversos assuntos.
A pesquisadora explica a atividade. O participante mais novo segue muito agitado e já
não consegue mais permanecer sentado, atirando-se sobre a mesa, empurrando a cadeira,
pulando no pescoço da pesquisadora e gritando bastante. Após explicar a atividade, a
pesquisadora pede que as crianças se apresentem novamente.
Um dos participantes, antes de iniciarem o primeiro desenho, pede a vez para falar e
comenta que tem dois pais. Vários participantes afirmam terem dois pais também, até que um
diz ter um pai e um padrasto. Um dos meninos diz que tem um pai que não quer saber dele e
outro que quer; o pai verdadeiro é aquele que não gostava dele quando ele nasceu. O menino
fala sobre a separação dos pais e um pouco de sua história depois disso. Outro participante
fala sobre a separação dos pais e sobre como cada um tem um novo companheiro agora. O
participante mais novo não consegue mais escutar as intervenções da pesquisadora e é
perceptível sua dificuldade em permanecer sentado. Outro participante começa a mexer no
gravador colocado no centro da mesa, gritando perto do microfone.
Iniciam o primeiro desenho. Discutem pelo material e brigam muito, mas conseguem
terminar e entregar o desenho do lugar onde moram. A pesquisadora explica a temática do
segundo desenho. A dificuldade para desenhar está muito elevada e dois meninos já não
conseguem parar de gritar e jogar material no chão, brigando entre si. Por fim, entregam o
segundo desenho.
200 A pesquisadora, após pedir que cada participante descreva o que desenhou, pergunta
quais são os lugares que as crianças mais gostam de brincar na comunidade. Dois
participantes dão respostas aleatórias à pergunta; outros citam a Vila Olímpica, o Brizolão, a
praça sete e a própria casa. Falam das brincadeiras preferidas.
A pesquisadora questiona se existe algum lugar na comunidade que eles tenham medo
de ir. Um participante responde que sim, contando uma história sobre um home que maltrata
crianças e que fica perto da casa de seu amigo, no alto do morro. Uma discussão acerca do
homem, que parece ser do conhecimento de todos, orienta a conversa para a temática
“bandidos”. Um participante afirma que a polícia já prendeu todos os bandidos do Morro. A
pesquisadora pergunta se eles lembram como era antes da polícia prender os bandidos. Os
participantes falam da abordagem do “Caveirão”, que, para eles, rouba as pessoas.
A pesquisadora pergunta se os participantes gostariam de contar uma história, boa ou
ruim, sobre sua família. Um participante tenta começar uma narrativa, mas outro menino
interrompe, querendo ainda falar sobre a pergunta anterior, a respeito de como era antes da
polícia prender os “bandidos”. O participante fala que antes o “Caveirão” passava noite e dia
pela comunidade, mas que a UPP os tirou de lá. Outro menino diz que viu a UPP iniciando
tiroteio no lote onde morava. Este mesmo menino pergunta se a UPP é polícia. Segue
contando que viu os bandidos fugindo da UPP. Os participantes descrevem como é a fuga dos
bandidos quando os policiais estão atrás deles; além disso, explicam sobre a regra de não
poderem ‘entregar’ onde estão os bandidos, já que estes matam quem os delatou quando saem
da prisão. Um dos meninos diz que o pai de seu irmão era dono do Morro, mandando no lugar
todo, mas que morreu devido a uma bala perdida. Outros participantes contam de pessoas
próximas que já foram presas ou levaram tiros, relatando com alto grau de detalhamento. Para
encerrar o encontro, a pesquisadora pede que cada um diga algo que gostaria que existisse ou
que fosse diferente na comunidade. As respostas variam entre mais brinquedos, mais
educação, menos bandidos e a ausência do “Caveirão”.
201 6.3.3. Análise de trechos escolhidos
6.3.3.1. Resumo do trecho 1
Um dos participantes, antes de iniciarem o primeiro desenho, pede a vez para falar. As
outras crianças estão fazendo muito barulho e, por isso, o interrompem antes que ele inicie sua
fala. Ele tenta falar: “Minha mãe diz que eu sou...”, mas é interrompido novamente. Em
seguida diz que esqueceu o que ia dizer, mas retoma: “Ah, lembrei! Eu tenho dois pais.” As
crianças começam a falar todas ao mesmo tempo, a partir da constatação do menino. Alguns
comentários são identificados: “Tia, eu também tenho dois pais.”; “Eu também.”; “Não, eu
tenho um pai e um padrasto.” O participante mais novo começa a se atirar da cadeira e a se
pendurar no pescoço da pesquisadora, além de gritar muito. Depois de algum tempo, a
pesquisadora consegue perguntar ao primeiro participante o que ele quis dizer sobre ter dois
pais. Ele responde: “Um pai que não quer saber de mim e outro que quer. Quando eu nasci
meu pai verdadeiro não gostava de mim.”. A pesquisadora pergunta como ficou sabendo disso
e ele responde que foi através de sua mãe e que, por isso, sua mãe se separou de seu pai. As
crianças, novamente, falam todas ao mesmo tempo. O menino segue depois de algum tempo
comentando que depois da separação de seus pais ele passou a morar com sua avó; sua mãe
encontrou um novo namorado com quem está até hoje. Os meninos voltam a falar ao mesmo
tempo, desta vez fazendo comentários acerca do assunto, mas que mal podem ser
identificados. Um dos participantes começa a mexer no gravador e isso faz com que o grupo
se disperse, até que o mais novo conta a seguinte história: “Tia, amanhã quando eu nasci eu
era um bebê, e ele, o meu pai, era bebê, e a minha mãe, aí eu fiquei homem, aí eu fui na
piscina eles me procuraram e eles viveram felizes para sempre.”. Por incentivo da
pesquisadora, outro participante se pronuncia e conta que a mãe se separou de seus ‘dois pais’
e que agora cada um vive em sua casa com outra mulher. Outro segue dizendo o nome da
namorada de seu pai. O participante mais novo não consegue mais escutar as intervenções da
pesquisadora e é perceptível sua grande dificuldade em permanecer sentado. Outro
participante começa a mexer no gravador colocado no centro da mesa, gritando perto do
microfone.
202 6.3.3.1.1. A recomposição familiar é uma temática muito presente no discurso e no cotidiano
das crianças.
Este trecho foi escolhido para uma análise mais profunda, primeiramente, por ter sido
espontaneamente introduzido por uma das crianças através da frase “tenho dois pais”, antes
mesmo que fossem anunciadas as temáticas dos desenhos. Tal espontaneidade parece mostrar
a centralidade do tema tanto para este menino quanto para as outras crianças, que em seguida
demonstram identificação com o assunto e compartilham de sua própria experiência. A frase
introdutória marca o que se desenvolverá em uma série de relatos e descrições do que
podemos chamar de constelação familiar recomposta (Ferreira, 2011), envolvendo
principalmente discursos acerca da compreensão das crianças sobre a figura paterna. O
movimento de saída do pai biológico da esfera doméstica, ou apenas de ruptura conjugal, vem
com freqüência acompanhada pelo movimento de entrada de um ou vários pais sociais
(padrastos) (Ferreira, 2011) ao longo do tempo. O sentimento de ruptura das relações com
figuras supostamente paternais é salientado pelas crianças, que demonstram dificuldade em
nomear quem, enfim, pode ou não ocupar este papel em sua vida. Existe, portanto, a partir das
reconstruções familiares, uma complexificação do fenômeno da parentalidade, muitas vezes
acompanhada de certa confusão relacionada à compreensão das crianças do significado e das
funções dos diversos papéis na instituição familiar. Esta confusão parece estar muito ligada a
um processo de amadurecimento natural das crianças em relação a estas mudanças familiares
e suas implicações para a vida emocional e concreta.
6.3.3.2. Resumo do trecho 2
A pesquisadora pergunta aos participantes se existe algum lugar na comunidade que
eles tenham medo de ir. Um responde que não. Outro responde que sim, e explica que é
quando sobe o Morro para ir brincar com um amigo seu, já que lá tem um homem que
‘maltrata as crianças’. Outro concorda dizendo que o homem é doido. Outro complementa
dizendo que aquele homem estupra as crianças. Outro menino fala de um homem que fica
perto do parque, um bêbado. Todos começam a imitar a forma como o homem fala quando
está bêbado, rindo bastante: “Eu sou bandido! Eu sou bandido, pô!”, eles imitam a voz. A
pesquisadora pergunta ao grupo se existem bandidos na comunidade. Um participante
responde que sim, mas que a polícia já prendeu todos. A pesquisadora pergunta a eles como
203 era antes da polícia prender os bandidos. Um menino conta de uma situação em que estava
com sua irmã e seu primo brincando de polícia e ladrão, quando chegou o Caveirão e eles se
esconderam, pois eles estavam mirando armas. Outro menino diz que o Caveirão não trabalha,
apenas procura dinheiro e assalta pessoas, comparando ao carro do jogo do bicho, que
também só quer ganhar dinheiro e jóias. A pesquisadora pergunta se eles já viram alguém
roubar. Um menino diz que já viu uma criança pegar um brinquedo e dá a entender que foi na
escola, mas não consegue ir adiante porque é interrompido por gritos. Outro participante diz
que já viu muitas pessoas com armas. Um menino conta uma história bastante confusa sobre
um menino que mora perto dele, introduzindo outra figura que não deixa claro quem é, mas
que fica atrás da criança enquanto ela pede para entrar na própria casa; em seguida diz que
essa pessoa a amarra os pais da criança e rouba brinquedos. Conclui: “Ainda bem que só
roubou meu robô”. Mais uma vez o grupo está disperso. A pesquisadora pergunta se alguém
gostaria de contar alguma coisa, boa ou ruim, que aconteceu com alguém da família ou com
eles enquanto estavam junto à família. Um menino prontamente responde que quer ‘ser do
exército’ ou da marinha. Outro concorda. A pesquisadora pergunta aos meninos o que o
exército faz, ao que um deles responde que ele faz guerras e que ele gostaria de participar de
uma guerra. Outro menino diz que está com fome. (...) Um menino começa sua fala com
“Minha família...”, mas é interrompido por outro: “Pera aí, tua, deixa eu falar! Quando os
polícia entram aqui, ah esqueci quem mandou a polícia entrar aqui.. a UPP!.. o Caveirão ralou
peito. Sabe porque? O Caveirão, ele ficava passando toda hora por aqui, de madrugada. Aí
depois mandaram a polícia, a UPP entrou aqui...”. Outro menino conta que quando morava
em um lote, experienciou um tiroteio da UPP, além de uma fuga de bandidos que “começaram
a subir escada”. Outro menino diz ao anterior: “Ah, você fofocou, depois ele vai sair de lá, ele
vai sair da prisão e você vai ver. Vai te dar tiro no peito.” A pesquisadora incentiva que o
grupo siga falando. Um menino diz que os bandidos correm e se escondem em algum buraco,
tapando-o com um pedaço de madeira, mas que os “cana” sobe o Morro e “aí cerca geral”.
Outro complementa dizendo que se alguém “fofoca do bandido”, acaba morrendo. Outro
concorda, e diz que o bandido sai da prisão, coloca uma roupa, “se finge que é o moço” e
aperta a campainha, em seguida dá os tiros. A pesquisadora pergunta se eles conhecem
alguém que já levou tiros ou foi preso. Um menino responde que o pai de seu irmão era o
“dono desse Morro”, mandando em tudo. Outro interrompe e diz que quando a polícia
aparece, os bandidos se escondem no mato. A pesquisadora incentiva que o outro menino siga
contando sua história. Ele diz que o pai de seu irmão já morreu devido a uma bala perdida;
conta em detalhes.
204 6.3.3.2.1. Existe familiaridade das crianças com as regras de convivência ditadas pelo tráfico
no morro.
Um ponto crucial abordado pelas crianças quando estas falam sobre a presença de
bandidos e situações em que presenciaram a fuga destes de policiais no morro, é o de que
existem regras de convivência entre traficantes e a comunidade, e de que estas regras
precisam ser internalizadas e seguidas para que se possa assegurar a segurança dos moradores.
As crianças parecem familiarizadas com estas regras, já que contam a este respeito em um
grau de detalhamento significativo e advertem umas as outras, de forma a mostrar para os
pesquisadores, que da obediência destas regras depende a sobrevivência do indivíduo
subjugado a elas na comunidade. Tais regras têm relação com o sigilo dos moradores a
respeito das ações do crime organizado/tráfico de drogas, coibindo os delatores através de
penas de morte e da ameaça à segurança do sujeito que as presenciou.
6.3.3.2.2. O “caveirão” é visto pelas crianças como fonte de grande violência na
comunidade.
Ainda que esta temática acerca da abordagem policial do Caveirão venha fragmentada
ao longo de um trecho mais longo, chama atenção a forma como aparece espontaneamente no
discurso das crianças após serem questionadas não a respeito de abordagens da policia, mas
sim sobre a presença de bandidos na comunidade antes da entrada da UPP no Morro dos
Macacos. Ao contarem a respeito de suas experiências antes da entrada da UPP, as crianças
deixam evidenciados sentimentos de insegurança e medo enquanto consequência da
abordagem do Caveirão, e não necessariamente de bandidos. Percebemos que brincadeiras e
rotinas cotidianas vêm associadas a situações em que abordagens armadas da polícia traziam
medo e necessidade de que as crianças se escondessem, equiparando, de certa forma, o
Caveirão aos bandidos. Tal equiparação entre estas duas instâncias seguirá acontecendo no
decorrer do discurso, onde os meninos traçam um paralelo entre a descrição do que é papel de
bandidos e o que efetivamente acontece na ação dos policiais: “O Caveirão procura só
dinheiro. Ele assalta várias pessoas, ele passa assim...”; “O Caveirão não trabalha, só quer
roubar dinheiro; o carro do bicho só quer ganhar dinheiro, jóias, várias coisas.”. Estas
percepções são confirmadas com maior segurança quando uma das crianças cita a entrada da
UPP como responsável pela saída do Caveirão e de suas abordagens invasivas e
desrespeitosas do Morro, e não somente pela saída do tráfico. A UPP, de certa forma, também
205 não escapa a uma interpretação de tom violento, bem como todas as empreitadas armadas da
polícia. Um número significativo de cenas descritas pelas crianças como negativas ou que
causaram medo têm relação justamente com momentos em que presenciaram policiais
armados fazendo busca por traficantes, fugas, operações de busca em residências, entre
outros. Em todas as cenas, ainda que um dos personagens fosse um bandido, o principal
“agressor” era a figura do policial. Mesmo a entrada da UPP é vista, ao menos por dois dos
participantes, como um momento de violência em que se vê exposto a armas e tiroteios. Aqui
podemos levantar algumas hipóteses concernentes à abordagem policial interpretada como
uma forma de violência menos tolerada pelas crianças, seja porque seu papel de proteção não
é cumprido, seja porque conviveram por mais tempo com a presença do tráfico e, portanto,
estão mais habituadas com este.
6.4. Considerações finais
Em relação à interpretação do primeiro trecho, consideramos que as relações
estabelecidas entre crianças e seus genitores, bem como as inter-relações com os demais
subsistemas da família e sistemas sociais, trazem implicações relevantes para o
desenvolvimento individual da criança. Além disso, as recomposições familiares devem ser
compreendidas como fator de mudança da percepção que a criança tem das funções e dos
papéis desempenhados por diferentes atores da rede familiar, principalmente os papéis
maternos e paternos (Ramos, 2008). Em relação às duas interpretações destacadas do segundo
trecho, um ponto comum deve ser traçado. Se para as crianças a abordagem da polícia é
interpretada como uma espécie de invasão violenta no cotidiano das pessoas na comunidade, a
abordagem dos bandidos retrata algo que é também muito violento, porém mais naturalizado e
integrado às práticas cotidianas. Tais regras de convivência estabelecidas pelo tráfico são,
antes de tudo, integradas desde cedo ao dia-a-dia da comunidade e, portanto, suas
intervenções parecem representar uma ameaça menor à tranquilidade das crianças. A
abordagem policial, pelo contrário, não é uma prática integrada às práticas cotidianas, e
parece representar uma ameaça ainda maior à estabilidade, pois vem de fora e não respeita ou
apresenta regras que possam trazer segurança à população e, principalmente, às crianças.
Neste sentido, enquanto a imprevisibilidade da intervenção policial para estas crianças está,
frequentemente, associada a sentimentos de invasão e desrespeito, a abordagem do tráfico,
mesmo causando medo, vem acompanhada de certa previsibilidade em suas intervenções.
7
206 Conclusão
A presente pesquisa buscou obter um conhecimento abrangente e aprofundado sobre o
cotidiano de crianças pequenas na comunidade do Morro dos Macacos, com ênfase sobre as
condições em que se dá a socialização dessas crianças na família, nas ruas da comunidade e
na escola. Foram adotados diversos instrumentos de pesquisa com públicos distintos. Neste
capítulo, serão sintetizadas as principais conclusões obtidas da análise dos dados coletados e,
com base nessas conclusões serão sugeridas, ao final, algumas estratégias de ação para
enfrentar os principais problemas identificados para as crianças pequenas na comunidade do
Morro dos Macacos.
7.1. A visão de lideranças locais e de dirigentes de organizações que atuam na
comunidade
Um dos primeiros passos da pesquisa foi obter, de lideranças locais e de dirigentes
e/ou funcionários de organizações que prestam serviços no Morro dos Macacos, uma visão
sobre a realidade da comunidade em geral e mais especificamente sobre o cotidiano de
crianças pequenas. Neste sentido, foram entrevistadas pessoas reconhecidas como lideranças
locais, ainda que não sejam dirigentes de uma entidade ou movimento, de um lado, e, de outro
lado, dirigentes ou funcionários de entidades ou órgãos que prestam seus serviços diretamente
na comunidade.
Evidencia-se a insatisfação das lideranças locais no Morro dos Macacos com a
infraestrutura e serviços urbanos, em especial em relação à limpeza urbana e às condições de
acessibilidade.
Outro aspecto apontado nas entrevistas com lideranças locais diz respeito à baixa
capacidade de iniciativa ou “conformismo” da comunidade, a despeito da existência de
diversas organizações não-governamentais no Morro dos Macacos. Ao mesmo tempo, a
existência de espaços destinados às crianças na comunidade não são adequadamente e
intensamente utilizados pelas crianças pelo fato de os pais não permitirem, de acordo com
alguns entrevistados.
A estrutura familiar no Morro dos Macacos é destacada por alguns entrevistados como
um problema para a infância na comunidade, caracterizada, por exemplo, pelo fato de muitos
pais serem muito jovens e pelas crianças serem criadas em domicílio sem a presença de
207 ambos os pais. Outros problemas são mencionados pelos entrevistados como tendo graves
consequências para a vida cotidiana das crianças no Morro dos Macacos, como o consumo de
drogas, o desemprego e o acesso à cultura.
O tema da violência da comunidade não é destacado como um dos principais
problemas na comunidade, havendo um certo otimismo em relação à UPP que atua no Morro
dos Macacos, tendo em vista que a presença policial teria contido a violência. Contudo, para
alguns entrevistados o “poder paralelo” exercido pelos traficantes está presente.
Diversos entrevistados afirmaram que a violência doméstica contra crianças é
frequente, motivada pelo abandono afetivo, o descaso com a alimentação, assim como
conflitos entre as próprias crianças e jovens.
Segundo lideranças locais, a situação da infância poderia ser melhorada a partir de
ações específicas, como a criação de espaços destinados ao cuidado das crianças no período
em que os pais estão trabalhando, projetos culturais e escolas de tempo integral. As demandas
não são diferentes daquelas que surgem em outras comunidades, revelando que a
materialização de estruturas capazes de abrigar e fornecer educação às crianças seria uma
medida bem recepcionada também entre os moradores do Morro dos Macacos.
Foram entrevistadas pessoas que trabalham ou dirigem organizações que prestam
serviços e atuam no Morro dos Macacos nas mais variadas áreas, como coleta e reciclagem de
lixo, educação artística, segurança pública, saúde e educação. Assim como as lideranças
locais, também esses entrevistados apontaram a limpeza urbana como um problema grave na
comunidade. O excesso de dejetos produziria efeitos nocivos à saúde e à autoestima dos
moradores, incluindo as crianças. Nesse sentido, entrevistados lamentam que as crianças
tenham que “passar no meio do lixo” para chegarem a seus lares.
Em relação à vida das crianças no Morro dos Macacos, destaca-se a posição de que
haveria a necessidade de projetos voltados especialmente à educação infantil, mas também
para os pais, com vistas a oferecer às crianças oportunidades para seu desenvolvimento,
sobretudo nos períodos de ausência dos pais. Há, ainda, sugestões para que se crie iniciativas
específicas para as meninas da favela. Nesse sentido, ainda que já existam, no Morro dos
Macacos, ONG’s atuantes, haveria grande demanda por ampliação das iniciativas
permanentes para as crianças.
É quase unânime entre os entrevistados que atuam no Morro dos Macacos a posição de
que a violência contra crianças é um problema generalizado na comunidade, não apenas
violência física, mas também psicológica, em que os pais dispensariam aos seus próprios
filhos um tratamento pejorativo. Além disso, esse grupo de entrevistados menciona casos de
208 abuso sexual contra crianças na comunidade. Por outro lado, alguns entrevistados mencionam
que, embora este tipo de violência seja, de fato, bastante recorrente, ainda mais frequente é a
violência contra a mulher.
Diante disso, conclui-se que os stakeholders enxergam práticas de violência infantil na
comunidade, manifestando interesse em contribuir para ações voltadas ao seu combate.
Reforça essa premissa o fato de que alguns entrevistados, apesar de reconhecerem o bom
trabalho realizado por instituições ligadas à infância, lamentam que as crianças que participam
dos projetos sociais não apresentam melhor rendimento na escola, por exemplo. Essa
percepção sugere que as iniciativas existentes possuem eficácia apenas relativa, já que as
crianças do morro “não têm perspectivas”, mesmo sendo alvo de tantas intervenções sociais.
7.2. A percepção de adultos e crianças sobre a violência na comunidade
A fim de se conhecer o cotidiano de crianças pequenas (de 0 a 8 anos) no Morro dos
Macacos a partir da percepção de pais/responsáveis por crianças pequenas, assim como das
próprias crianças (de 6 a 8 anos), aplicou-se 158 questionários com 60 questões a pais e/ou
responsáveis por crianças pequenas. Outro questionário com 20 questões foi aplicado a 32
crianças de 6 a 8 anos de idade, ou seja, em idade escolar. Destacam-se, a seguir, as principais
conclusões na perspectiva de adultos e crianças sobre a vida de crianças na comunidade no
Morro dos Macacos.
7.2.1. Percepção de adultos
No Morro dos Macacos, a violência física (bater) é a mais praticada em casa contra
crianças, sendo que a mãe é a que mais pratica a violência contra crianças. O índice de
violência doméstica praticada pela mãe é maior em crianças de 2, 5 e 7 anos de idade, cuja
incidência é maior em domicílios com mais de uma criança. Ainda que não haja correlação
entre a incidência da violência física praticada pela mãe com a frequência com que ela divide
a cama com os pais, a criança de 2 anos, maior vítima da violência física praticada pela mãe,
é a que mais divide a cama com os pais. O maior índice de mães que batem na criança está na
faixa dos 35-39 anos, seguido das mães com 20-24 e 30-34. O menor índice de mães que
batem está na faixa dos 17-19 anos. Independente do nível de escolaridade das mães, é alto
209 (acima de 70%) o índice de mães que batem nas crianças. No Morro dos Macacos não há
diferença entre o consumo de bebida alcoólica e o não consumo pela mãe, uma vez que a
maioria das mães que bebe bate, assim como a maioria das que nunca bebem também bate.
Com uma diferença estatisticamente significativa, o índice de mães que batem é maior entre
aquelas com renda menor que um salário mínimo, enquanto o menor índice de violência está
entre as mães que não têm renda. Discriminando a Bolsa Família na renda mensal, a diferença
não é confirmada estatisticamente, mas os resultados revelam que as mães com renda menor
que o mínimo cuja fonte é apenas a Bolsa Família são as que mais batem e as mães sem renda
são as que menos batem.
Ainda que não haja diferença estatisticamente significativa, os resultados obtidos
apontam que algumas características físicas do domicílio interferem no nível de violência
contra a criança em casa. Nesse sentido, obteve-se que o índice das mães que batem na
criança é maior em casas com 1 e 2 cômodos do que em casas com 4 cômodos ou mais. Por
outro lado, o índice de mães que batem é maior em casas com 3 dormitórios do que em casas
com 1 dormitório, no entanto, o índice menor de violência é do grupo de mães que mora em
casas com 2 dormitórios.
O tipo de rua em que está localizada a residência e a ausência de iluminação
interferem na ocorrência de violência contra crianças. Assim, ainda que a diferença não seja
estatisticamente significativa, o índice de mães que batem na criança é maior nas moradias
localizadas em escadarias, do que em casas localizadas em ruas onde passam carros. No
entanto, o índice menor de violência praticada pelas mães contra a criança está em casas
localizadas em vielas onde só passam motos. Por sua vez, o índice de mães que batem na
criança é maior nas casas cujas ruas não têm iluminação do que em ruas onde há iluminação.
Porém, obteve-se uma correlação negativa confirmada estatisticamente, que aponta que
quanto maior a insatisfação com a iluminação da rua, maior o índice de mães que batem na
criança.
Investigou-se também a percepção do adulto sobre determinados tipos de violência
que ele testemunha na comunidade e os que ele fica sabendo, assim como graus de satisfação
com segurança, serviços de saúde, transporte e educação e, por último, suas observações sobre
o que falta na comunidade para a criança.
Os resultados indicam que os adultos são testemunhas de um cenário bastante violento
na comunidade. A maioria dos adultos já presenciou tiro com arma de fogo, alguém sendo
preso e um policial apontando uma arma de fogo nas ruas da comunidade. Pelo menos dois
210 em casa dez moradores do Morro dos Macacos já presenciaram adulto sendo ferido por tiro de
arma de fogo, adulto vendendo droga e adulto sendo ferido por facada.
Dentre os casos de violência que os adultos mais tomam conhecimento, pessoas sendo
assaltadas é a mais frequente, seguido de casas que foram assaltadas. Em relação à violência
contra crianças, de cada 10 pessoas 4 já ficaram sabendo de abuso sexual contra criança no
Morro dos Macacos.
Em relação à satisfação com serviços prestados na comunidade, aqueles mais bem
avaliados são as creches, escola, iluminação das praças e agentes de saúde da família, em que
sete a cada dez moradores se dizem satisfeitos. Por outro lado, os serviços com os quais os
moradores mais se mostram insatisfeitos são: o tempo de espera no posto de saúde e
segurança para a criança brincar fora de casa.
Perguntados sobre o que faltaria no Morro dos Macacos, os adultos identificaram
praças e outros espaços de lazer, oficinas e projetos para as crianças, além de creches, escolas,
hospitais e médicos no Posto de Saúde.
7.2.1.1. Chance da criança sofrer violência (análise de regressão)
Os dados coletados com os questionários aplicados a pais e/ou responsáveis por
crianças pequenas foram submetidos à análise de regressão com o objetivo de verificar o que
faz com que, no Morro dos Macacos, aumente a chance de crianças sofrerem violência. A
seguir, destaca-se apenas a análise referente à chance das crianças sofrerem violência física.
Se comparado com outros responsáveis, como pai e avó, o fato de o convívio da
criança se dar com a mãe aumenta a chance de uma criança sofrer violência física em três
vezes. Observa-se um aumento de 31 vezes a chance de a criança sofrer violência física caso a
mãe tenha idade entre 35 e 39 anos, se comparado com as mães com idade entre 17 e 19 anos.
À medida que a mãe consome bebida alcoólica na frente da criança aumenta em cinco vezes a
chance de a criança sofrer violência física. Da mesma forma, o fato de almoçar com os pais
provoca um aumento da chance de a criança sofrer violência física em 166 vezes. É alarmante
esse dado, pois chama a atenção para o fato de que esse momento de convivência da criança
com seus pais é marcado por grande possibilidade de sofrer violência. O fato de que o adulto
grita com a criança aumenta em duas vezes a chance da criança sofrer violência física. Por
outro lado, a presença de iluminação em frente ou próximo de casa provoca a redução da
211 chance de a criança sofrer violência física. Da mesma forma, presenciar alguém sendo preso
reduz em 35% a probabilidade da criança sofrer violência física em casa.
7.2.2. Percepção das crianças (6 a 8 anos de idade)
Em casa, violência física (bater) contra crianças é o tipo de violência mais frequente,
seguido de violências psicológicas (castigo e gritar) em níveis igualmente elevados, ou seja,
mais de 80% e cerca de 80% das crianças, respectivamente, admitem já ter sido vítima com
alguma frequência de um desses tipos de violência. Da mesma maneira, 80% das crianças já
testemunharam adulto batendo em criança em suas casas, ao passo que de cada 10 crianças, 4
já presenciaram um adulto batendo em outro adulto dentro de casa.
No Morro dos Macacos, o ambiente escolar é menos violento para as crianças, porém,
a maioria delas já ficou de castigo, aproximadamente 1/3 delas já recebeu gritos de adultos e
cerca de 10% das crianças revelaram que adultos já teriam batido nelas.
As ruas da comunidade são ambientes nos quais as crianças testemunham violência
com alguma frequência, sendo que os tipos de violência mais presenciados são: pessoas sendo
levadas pela polícia, adulto batendo em criança, adulto batendo em adulto, gente vendendo
drogas e adulto atirando com arma de fogo.
Para as crianças de 6 a 8 anos de idade, o que mais falta para elas no Morro dos
Macacos é espaço de lazer, brinquedos e pelo menos 10% delas apontaram que faltaria um
dos itens seguintes: estudo para ensinar as crianças a ler e escrever; casa boa; piscina e
respeito e amizade.
7.3. A percepção de adolescentes (meninas e meninos)
Com o objetivo de se obter a percepção de adolescentes sobre a vida no Morro dos
Macacos, foram realizados dois grupos de discussão, um reunindo um grupo de meninas e
outro que reuniu um pequeno grupo de meninos. Ainda que a discussão tenha sido conduzida
com um roteiro previamente definido, o mais importante foi permitir que os próprios
participantes identificassem livremente os temas que mais mobilizavam sua atenção, cuja
ênfase se deu sobre a passagem da infância para a vida de adolescente, os conflitos daí
decorrentes e a relação entre a vida familiar e o ambiente da vida comunitária.
212 Dois campos destacam-se na discussão com os adolescentes: a violência na
comunidade, praticada pela polícia e pelo tráfico, e a violência doméstica e conflitos
familiares. Parece existir certa banalização das situações de violência tanto familiares quanto
na comunidade como forma de racionalização dos sentimentos de fragilidade e impotência
diante destes fatos.
Para as adolescentes, a vida no Morro dos Macacos é igualmente marcada pela
violência, tanto na comunidade quanto em casa, em que figuras masculinas são
constantemente associadas ao comportamento abusivo, sejam elas policiais, criminosos,
homens da comunidade ou familiares. Essa configuração de gênero parece se dever a aspectos
inerentes da vida comunitária bem como a uma experiência de aumento rápido e dramático
nas vitimizações de moradores da comunidade por parte de agentes policiais. A figura
paterna, por seu lado, se apresenta como distante ou ausente, como fica claro nas narrativas
que expressam a frustração das adolescentes com seus pais. Por outro lado, as mães
representam forte fonte de orientação para as participantes. Essa ligação convive com um
senso de que suas mães, em grande parte devido a circunstâncias desfavoráveis, não podem
sempre lhe oferecer o apoio desejado. As figuras femininas, por sua vez, parecem estar mais
frequentemente associadas a situações de vitimização e carência.
7.4. Discussão com crianças
O interesse da pesquisa foi conhecer de maneira a mais detida possível o cotidiano de
crianças de 0 a 8 anos de idade no Morro dos Macacos. Com objetivo de captar a percepção
das próprias crianças, foram adotados dois instrumentos diferentes: a) um questionário
(mencionado no item 7.2.2.) e b) dinâmica com discussão com crianças.
Na discussão com as crianças, a abordagem da polícia é interpretada como uma
espécie de invasão violenta no cotidiano da comunidade. Já a abordagem daqueles envolvidos
com tráfico retrata algo que é também muito violento, porém mais naturalizado e integrado às
práticas cotidianas. Tais regras de convivência estabelecidas pelo tráfico são, antes de tudo,
integradas desde cedo ao dia-a-dia da comunidade e, portanto, suas intervenções parecem
representar uma ameaça menor à tranquilidade das crianças. A abordagem policial, pelo
contrário, não é uma prática integrada às práticas cotidianas, e parece representar uma ameaça
ainda maior à estabilidade, pois vem de fora e não respeita ou apresenta regras que possam
trazer segurança à população e, principalmente, às crianças.
213 7.5. Sugestões
A partir dos resultados obtidos da análise dos dados coletados no Morro dos Macacos,
serão sugeridas algumas estratégias para se buscar superar parte dos problemas identificados,
em especial quanto à tentativa de redução ou eliminação da violência do cotidiano das
crianças. Contudo, as linhas gerais para a elaboração de uma estratégia será buscada a partir
da exposição desses resultados a um conjunto de atores interessados, em primeiro lugar a
partir da colaboração da própria comunidade, como também de organizações civis que atuam
no Morro dos Macacos, assim como por especialistas que tomarão contato com esses
resultados nos próximos meses. Ainda assim, já é possível identificar, a partir dos resultados
obtidos, os parâmetros que deverão balizar essa discussão. Nesse sentido, propõe-se que a
elaboração de uma estratégia que vise criar melhores condições de vida para a infância no
Morro dos Macacos, considere o que segue:
Ø A mulher ocupa um lugar central na reprodução da violência na comunidade e nas
famílias do Morro dos Macacos. Nesse sentido, estratégias devem incorporar tanto
quanto possível a criação de melhores condições de vida para a mulher, com vistas a
aumentar sua escolaridade, sua capacidade de geração de renda. Nos casos de gestação
é indispensável que o acompanhamento pré-natal do serviço de saúde na comunidade
se dê também de maneira deliberada considerando atitudes não-violentas das mães em
relação aos recém-nascidos e filhos pequenos, tendo em vista que as maiores vítimas
da violência física são meninos e meninas de dois anos de idade.
Ø Como se observou um aumento da chance de a criança sofrer violência física quando
almoça com os pais, sugere-se que os pais sejam abordados para, explicitamente, se
falar sobre a necessidade de estabelecer momentos de convivência que sejam mais
prazerosos para as crianças e os pais.
Ø A ampliação do número de cômodos e dormitórios das casas deverá reduzir a
possibilidade de a criança ser alvo de violência física dentro de casa. Nesse sentido,
intervenções nas condições de habitação devem ser igualmente priorizadas.
Ø É indispensável que o Morro dos Macacos receba mais iluminação pública, pois
reduziria a possibilidade de a criança sofrer violência física. Da mesma forma, adultos
e crianças ressentem de espaços de lazer acessíveis a crianças de regiões da
comunidade que, hoje, não contam com tais espaços.
214 Ø Diversificação de oferta de atividades culturais, esportivas e recreativas em distintos
locais da comunidade a fim de tornar mais acessível a participação de crianças e
adolescentes.
8
215 Referências
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