3
Projetos selecionados
3. Projetos selecionados
Partindo de uma visão geral e abrangente de toda a trajetória do Brasil Arquitetura, foram
selecionados quatro projetos para um aprofundamento e melhor desenvolvimento das
questões acerca das intervenções do escritório em edifícios e sítios históricos, onde
decisões sobre o que preservar, o que demolir e o que construir norteiam a concepção de
cada um deles.
Os projetos do Teatro Polytheama (1995, Jundiaí SP), Conjunto KKKK (1996, Registro SP),
Museu Rodin (2002, Salvador BA) e Museu do Pão (2005, Ilópolis RS) têm um caráter mais
maduro e são de maior relevância social. Dentro da temática que envolve o patrimônio
histórico, são projetos que se destacam pela sua qualidade e consistência – todos
demonstram claramente a postura do Brasil Arquitetura na contraposição entre o velho e o
novo. A escolha levou em consideração o fato de serem projetos já construídos – todos eles
mereceram publicações em revistas especializadas176 e foram agraciados com prêmios
nacionais e internacionais177.
176
Cf. referências bibliográficas primárias.
Teatro Polytheama: Prêmio IAB/SP Melhor Projeto Obra Construída – Rino Levi de Arquitetura – 1996;
Representante do Brasil na I Bienal Ibero Americana de Madri – 1998; Grande Prêmio de Reabilitação na IX
Bienal Internacional de Arquitetura de Quito – 1998. Conjunto KKKK: Moção de Reconhecimento pelo trabalho
realizado e autor do projeto para a restauração do conjunto arquitetônico KKKK da Câmara Municipal de
Registro; Prêmio IAB/SP 2002 na Categoria Revitalização de Edifícios – obra Conjunto KKKK – Registro SP.
Museu Rodin Bahia: 1o Prêmio – Projeto Executado – Museu Rodin na 7a Bienal Internacional de Arquitetura de
São Paulo, 2007. Museu do Pão: Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade para ações de preservação do
patrimônio cultural brasileiro – edição 2008, na categoria Preservação de Bens Móveis e Imóveis pela
AAMoinhos, Brasília DF; Prêmio O Melhor da Arquitetura, na categoria Edifícios de Uso Misto, realizado pela
Revista Arquitetura e Construção, 2008.
177
164
A análise de cada um dos projetos permitirá a passagem do geral para o particular,
ressaltando elementos que caracterizam a produção dos arquitetos, independentemente do
programa solicitado e identificando linguagens próprias que são exclusivas em projetos que
envolvem a interação com o patrimônio.
O Teatro Polytheama, realizado em um primeiro momento com a arquiteta Lina Bo Bardi
(1986), nos dá subsídios mais imediatos para entender a influência que da arquiteta na sua
formação. Outros projetos realizados em colaboração com Lina, como a Estação Guanabara
(1990), o Palácio das Indústrias (1991) e o Centro Cultural Vera Cruz (1991), voltaram às
mãos dos arquitetos como novos encomendas, mas só o Polytheama foi concretizado. É um
dos primeiros projetos em que aparece a contraposição do antigo e do novo, com a
incorporação de um anexo nos fundos do terreno. A escolha por demolições e não pela
reconstituição de elementos originais também faz parte das operações realizadas na
recuperação do teatro.
O Conjunto KKKK mostra a vontade dos arquitetos em colocar em prática a intervenção –
foram os próprios Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz que elaboraram o programa, a
estratégia e o estudo arquitetônico e buscaram os meios de viabilizarem a ação. A
intervenção também trabalha com demolições e acréscimos de elementos novos. A
recuperação do antigo KKKK envolve um projeto maior de revitalização das margens do Rio
Ribeira do Iguape e sua relação com a comunidade.
O Museu Rodin Bahia, a princípio uma filial do Museu Rodin Paris, é a consolidação de uma
prática – de intervenção em edifícios históricos. A readequação do palacete residencial para
novo uso e a integração de um elemento novo no terreno, o prédio novo, é a resposta ao
exercício que vem sendo feito pelo escritório – a escolha entre o quê ficará como memória,
o quê será esquecido e o quê/como será acrescido à intervenção.
165
No Rodin, também se materializa uma prática comum em grande parte dos projetos do
Brasil Arquitetura que é a incorporação de elementos tradicionais em consonância com
técnicas atuais, como o uso de muxarabis de madeira. Nota-se, nesse caso, a influência de
Lúcio Costa.
Se o Museu Rodin é a consolidação, o Museu do Pão em Ilópolis é a difusão de uma prática
que permeia toda a obra do escritório Brasil Arquitetura. De um lado, a arquitetura
tradicional do imigrante italiano manifestada no moinho; de outro, a arquitetura racionalista
em concreto aparente aprendida na FAU USP. Visto em conjunto, tudo está perfeitamente
em harmonia – elementos novos tomam emprestados elementos tradicionais da arquitetura
italiana no local, como o uso do concreto ripado que assemelha-se às construções de
madeira; ou a adoção de passadiços como nas antigas casas da região presentes nas
passarelas de ligação entre os prédios.
O elo de ligação, um elementos tão recorrente na produção dos arquitetos, adquire caráter
simbólico nos projetos de intervenção ao proporcionarem a ligação entre edificações de
diferentes idades. E se o elo de ligação existe, do ponto de vista funcional, ele surge devido
à decomposição do programa em volumes, prática bastante desenvolvida ao longo da
carreira do Brasil Arquitetura.
O conhecimento acerca dos quatro projetos selecionados demonstra a manipulação das
tipologias citadas no capítulo 2 e contribuem para exemplificar a interpretação da obra do
escritório Brasil Arquitetura que será tratada no capítulo 4.
166
Figura 182 – Frisas e camarotes do Teatro Polytheama. Foto: Nelson Kon –
Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
167
Teatro Polytheama
Jundiaí SP - 1995
3.1.Teatro Polytheama, Jundiaí SP, 1995
Figura 183 – Fachada do Teatro Polytheama. Foto: Nelson Kon – Fonte: Acervo do escritório Brasil
Arquitetura.
Durante quase um século, o Teatro Polytheama tem passado por transformações,
acompanhando o desenvolvimento da cidade de Jundiaí. Sua história pode ser dividida em
três momentos – a ampliação realizada na década de 1920, que lhe conferiu seu aspecto
atual; o projeto para a sua reforma e revitalização na década de 1980 com Lina Bo Bardi, e
170
a concretização de sua readequação na década de 1990, com o projeto do escritório Brasil
Arquitetura.
As várias tentativas de preocupação com a conservação e manutenção do Teatro
Polytheama em funcionamento revelam a importância do prédio para a cidade onde está
inserido. Depois de anos de abandono, as primeiras investidas para a sua recuperação
começaram com o projeto de Lina Bo Bardi em 1986, mas só se efetivaram e tiveram
sucesso com o projeto do Brasil Arquitetura em 1995:
Desde 1911, o Teatro Polytheama faz parte da cultura dos jundiaienses,
cenário de grandes espetáculos. Até a década de sessenta foi o ponto de
encontro de gerações. Deteriorado pelo uso e falta de manutenção, ficou
até o ano de 1983 esquecido pelas autoridades municipais, permanecendo,
porém como testemunha de uma época de grande desenvolvimento cultural
e de convívio social [...] Além de se resgatar um patrimônio históricocultural, a revitalização do POLYTHEAMA devolve à população a memória
do quotidiano da cidade, pois as velhas paredes permanecem como
testemunhas das grandes produções culturais, dos sonhos e dos
sentimentos de seus freqüentadores178.
Depois de alguns projetos de intervenções em edifícios históricos, como a restauração e
reforma da Escola Prof. Dantés (Igarapava, SP, 1986) e da Casa de Cachoeira (Salvado,
BA, 1989), a intervenção no Polytheama, premiado pelo IAB em 1996 na categoria
Edificações – Obra construída e pela IX Bienal Internacional de Quito em 1998, na categoria
reabilitação, vai inaugurar uma prática constante ao longo das três décadas de produção do
178
MARTINS, Penha Maria Camunhas. Apresentação In: FERRAZ, Marcelo C; FANUCCI, Francisco P. Theatro
Polytheama de Jundiaí. Jundiaí, Prefeitura Municipal de Jundiaí, 1996, não paginado.
171
Brasil Arquitetura, ao colocar o novo e o velho em situações de contraposição e de
convivência.
Histórico179
Inaugurado em 1911, o Teatro Polythema funcionou até a década de 1960. Só veio a ter sua
importância reconhecida, na administração (1983-1988) de André Benassi. Sua história
começa em 1897, quando o Sr. Albano Pereira apresentou-se a Intendência Municipal de
Jundiaí com a intenção de construir um teatro na cidade – um ‘polytheama’. Polytheama
significa – Poly, do latim, “muito”; Theama, do grego, “espetáculo”. Provavelmente, data
dessa época o projeto do teatro, de autor desconhecido. Segundo Denise Alcantara180, o
projeto foi realizado pelo Escritório de Ramos de Azevedo.
De acordo com Alcantara,
Foi uma espécie de moda construir teatros com o nome de Polytheama,
entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX em diversas
cidades brasileiras. A proposta de instalação desse tipo de teatro foi
introduzido, seguramente sob a influência de imigrantes – empresários da
área artística – subvencionados na maior parte das vezes. Se na Europa
este modelo de teatro poderia ter surgido com base em conceitos que
propunham repensar o espaço teatral, contestando a tradicional arquitetura
cênica, no Brasil, sua implantação teve objetivos bem mais práticos [...]
Polytheamas apresentavam o mesmo modelo construtivo variando da forma
circular à retangular mas com as mesmas soluções de disposição interna –
179
180
Informações obtidas em FERRAZ, Marcelo C; FANUCCI, Francisco P., op. cit.
ALCANTARA, Denise. É vivo o Polyhteama. In: FERRAZ, Marcelo C; FANUCCI, Francisco P., op. cit.
172
frisas na primeira altura, arquibancadas e cadeiras soltas na platéia. Eram
extremamente simples, sem nenhum elemento decorativo e, em alguns
casos, piso em terra batida. Cobertura de zinco, com vedação em madeira
ou alvenaria. Geralmente muito grandes, recebiam um grande público181.
Foi inaugurado em 1911 e era usado para diversos tipos de eventos – como salão para a
Partida Dançante do Clube Atlético Internacional; como cinematógrafo (alguns filmes foram
exibidos com acompanhamento da orquestra e coral da capital); apresentações de música
erudita; recitais. Durante o Movimento Revolucionário serviu como abrigo de refugiados.
Em 1920, foi considerado um dos três maiores teatros do Estado de São Paulo: 1º
Polytheama de Jundiaí com 2920 lugares; 2º Rio Branco de Jaú com 1464 lugares e 3º
Polytheama de Ribeirão Preto com 1430 lugares182.
Por volta de 1927, o teatro passou por uma grande reforma, alterando seu aspecto original.
Foi reinaugurado em 25 de janeiro de 1928:
com a reinauguração havida em 1928, os autênticos jundiaienses fizeram
do nosso Polytheama a principal Casa de Diversões, tão intimamente ligada
à própria história social da cidade, assim como a vida cultural em vários
estágios183.
Passaram pelo Teatro Polytheama a Cia. da Opereta de Clara Weiss, Assis Pacheco, John
Neschling, Ítalo Isso, Procópio Ferreira, Paulo Autran, Tônia Carrero, além da programação
local com artistas e grupos teatrais da cidade.
Situado no centro da cidade, o Polytheama ficava próximo do Cassino Jundiaí, Igreja do
Rosário (demolida e reconstruída em 1970), Teatro Rio Branco (demolido na década de
181
ALCANTARA, Denise, op. cit.
FERRAZ, Marcelo C; FANUCCI, Francisco P., op. cit.
183
TOMANIK, Geraldo Barbosa In: FERRAZ, Marcelo C; FANUCCI, Francisco P., op. cit.
182
173
1930), subestação da empresa Luz e Força da Jundiaí (1905) e Igreja da Santa Cruz de Vila
Arens.
Nos anos 1950, iniciou seu processo de declínio; e, nos anos 1970 chegou a ser colocado à
venda devido ao seu estado de abandono. O prédio foi comprado pelo poder público que o
declarou patrimônio municipal.
Para Alcântara, a decadência dos edifícios antigos é influenciada pela deterioração dos
centros antigos e o crescimento das cidades e, pela falta de visão que a reabilitação de um
bem cultural pode trazer como valor à cidade e a população. Porém, essa postura tem se
modificado com a restauração e reutilização de prédios antigos:
Os teatros tem sido os mais beneficiados e compõem o conjunto dos
edifícios mais restaurados e revitalizados do país. A restauração do Teatro
São Pedro de Porto Alegre, significou o ‘start’ desta postura. Foi reaberto ao
público em 1985 e a partir dessa data, dezenas de teatros em todo o país,
devido à iniciativa (agora) do poder público, vêm sendo incorporados
novamente aos hábitos culturais das cidades. Tal como a Europa do século
XIX, as cidades brasileiras orgulham-se em possuir o seu teatro, sobretudo
quando representa a valorização de sua história e consequentemente de
sua cidade184.
Na época em que o Teatro Polyhteama foi recuperado (1995-1996), o Teatro São Pedro, em
São Paulo foi restaurado e voltou a funcionar (1998); em 1999, a Prefeitura de Santo André
teve a iniciativa de revitalizar o Cine-teatro Carlos Gomes (o projeto foi realizado pelo
escritório Brasil Arquitetura); no mesmo ano o escritório Aflalo e Gasperini iniciou o projeto
de recuperação do Teatro Abril, São Paulo.
184
ALCANTARA, Denise, op. cit.
174
Características Arquitetônicas – o prédio histórico
O Polytheama de 1911
O teatro Polytheama foi edificado como um pavilhão para diversos tipos de espetáculos. De
planta retangular, com aproximadamente 50,00 x 25,00 m, era uma construção térrea
dividida em três partes – pequeno foyer, platéia e palco com tela de projeções. Tomanik,
com a ajuda de depoimentos dos moradores e usuários do teatro, descreve o espaço da
seguinte forma:
O acesso para entrada principal fazia-se por três portas de madeira de duas
folhas almofadadas e com bandeiras de ferro em arco, sendo a porta
principal mais larga e mais alta que as demais. Para adentrar ao salão
(platéia), havia um saguão de mais ou menos quatro metros com um
paravento resguardando a entrada. Entrando na platéia, viam-se à direita e
à esquerda as gerais, que situavam-se a 1,20 m do piso, cujo corredor de
acesso aos degraus era em sua extensão guarnecido com guarda-corpo de
madeira torneada, com suas respectivas colunas a cada seção do gradil.
Os degraus das gerais possuíam, no mínimo, 0,46 m de espelho e 0,55 m
de piso. Essas gerais possuíam cinco degraus que, do piso à platéia
perfaziam a altura de 3,50 m até a linha das tesouras de ferro, que se
situavam a 4,85 m do piso da platéia. A cobertura era de folhas de zinco
Figura 184 – Teatro Polytheama na década de
com duas águas de queda; as tesouras metálicas eram aparentes, pois não
1910. Fonte: Acervo do escritório Brasil
havia forro.
Arquitetura.
175
As duas gerais da esquerda e da direita ocupavam as paredes laterais em
sua extensão, de mais ou menos 40,00 m por 3,75 m de largura, totalizando
300,00 m2, e mais a área ocupada pela platéia e as frisas, num total de
922,00 m2. Ainda com os depoimentos colhidos, havia uma característica
sui generis, com a existência de um picadeiro camuflado em parte da
platéia, pois por ocasião de um espetáculo circense, removia-se a tela,
ganhando assim o palco e, removia-se o assoalho que cobria o picadeiro,
na platéia. Portanto, assim era o ‘Pavilhão Polytheama’, lugar de vários
espetáculos, como Teatro, Circo e Cinematógrafo, sendo este, na época
projetado de atrás da tela, havendo com isso a necessidade de se molhar a
Figura 185 – Planta do Teatro Polytheama
tela, para melhorar transparência da imagem e também para se proteger a
na década de 1910. Fonte: Acervo do
vista do espectador contra os raios produzidos pelo arco-voltaico. A tela
escritório Brasil Arquitetura.
tinha dimensionamento de 3,00 x4,00 m. O aparelho de projeção era
movimentado manualmente pelo operador, que pacientemente, sentado do
lado direito do projetor ia movimentando a película através de uma
manivela185.
A reforma do teatro em 1927
A reforma pela qual passou o Teatro Polytheama, em 1927, modificou a configuração
interna e externa da edificação – a platéia foi redesenhada em forma de ferradura e a
Figura 186 – Corte do Teatro Polytheama na
construção passou a ter três pavimentos. O público ficou dividido na platéia (1400 lugares),
década de 1910. Fonte: Acervo do escritório
frisas do pavimento térreo (200 lugares), camarotes (220 lugares) e gerais e balcões.
Brasil Arquitetura.
185
TOMANIK, Geraldo Barbosa, op. cit.
176
A construção está inserida no terreno em declive que permite a comunicação entre as ruas
Barão de Jundiaí (rua principal) e Vig. S.S. Rodrigues. Está implantada alinhada à rua
Barãode Jundiaí e com recuos laterais de 2,50 m e 4,45 m.
A planta retangular com suas medidas aproximadas de 50,00 x 25,00 m, foi mantida, assim
como a construção em alvenarias e tijolos portantes e a presença de madeira como
elemento portante horizontal. A cobertura, em quatro águas, é apoiada em treliça metálica,
com terças e caibros de madeira. O telhado é composto por telhas de barro tipo francesa.
Segundo parecer técnico186 realizado na época do projeto de intervenção de Lina Bo Bardi,
havia um forro na cobertura, que foi retirado.
Não se pode afirmar se foi aproveitada a fachada existente ou se foi erguida uma nova
Figura 187 – Desenho da planta em ferradura
Teatro Polytheama na década de 1920.
Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
fachada. Porém, a composição da fachada nova segue o desenho da fachada anterior,
dividida em três partes no sentido vertical – a porção central delimitada por dois pares de
pilastras em alto relevo que sustentam o frontão principal da fachada, onde se localiza uma
das portas de acesso; e duas porções que ladeiam a parte principal, que terminam em
pilastras idênticas às do centro e que compõem o desenho em baixo relevo em arco na
parte superior da fachada. Outras duas portas completam os acessos principais.
A fachada é ainda composta por aberturas localizadas no primeiro pavimento, com vergas
trabalhadas em arquivoltas e desenhos estilizados. A foto do teatro após a reforma não
apresenta a abertura das bilheterias situadas ao lado da porta de acesso principal que
podem ser vistas na foto da primeira fachada do Polytheama. Nas fachadas laterais existem
Figura 188 –Teatro Polytheama após a
janelas na porção superior, com o mesmo desenho das janelas presentes na fachada
reforma de 1927. Fonte: Acervo do escritório
frontal.
Brasil Arquitetura.
186
Parecer Técnico do escritório Figueiredo Ferraz, dia 10 de outubro de 1985. Fonte: Acervo do escritório Brasil
Arquitetura.
177
Internamente187, um pequeno saguão, ladeado pelas escadas de acesso aos demais
pavimentos, separa a rua da sala da platéia. Na lateral sudoeste, um corredor que ocupa
todo o recuo lateral dá acesso aos sanitários. A platéia é acessada por porta centralizada no
saguão; um corredor que contorna as frisas permite o acesso a cada uma delas – nas
pontas da ferradura, contíguo ao palco, localizam-se os sanitários. Duas escadas de
madeira localizadas nesse corredor permitem a ligação aos camarotes e balcões.
Os camarotes são suspensos por barrotes apoiados sobre vigas em balanço. Durante a vida
Figura 189 – Frisas e camarotes do Teatro
útil do teatro, foi realizado um reforço metálico para a sustentação dos camarotes e
Polytheama na década de 1920. Fonte: Acervo
arquibancada geral.
do escritório Brasil Arquitetura.
O teatro ganhou uma nova cabine de projeção revestida em amianto, mas ainda realizada
atrás da tela. Só a partir de 1929, a cabine passou a ser nos fundos da platéia, ocupando o
lugar de dois camarotes.
Segundo Tomanik,
A decoração do Teatro, a cargo do pintor Camillo Meloni é discreta e
delicada. A iluminação instalada pela General Eletric é composta de 1900
velas e está maravilhosamente distribuída.
Quanto ao mobiliário bastará dizer que é de fabricação de Guido Pellicari &
Cia., já premiada em várias exposições. Essa grande reforma esteve sob a
responsabilidade do engenheiro Emanuel Gianni e do arquiteto Giácomo
Figura 190 – Vista do palco do Teatro
187
Polytheama na década de 1920. Fonte: Acervo
do escritório Brasil Arquitetura.
O projeto original do teatro não foi encontrado. A descrição interna baseia-se na planta de demolição do
projeto executivo de intervenção no Teatro - 1986, de autoria de Lina Bo Bardi e, em plantas arquivadas no
acervo da Prefeitura Municipal de Jundiaí, do arquiteto Sérgio Roberto Orsi, datadas de outubro de 1985. Não há
indicações se essas plantas seriam o levantamento realizado para o projeto de recuperação de Lina Bo Bardi,
em 1986; ou seria uma proposta de intervenção do próprio arquiteto. Na planta de demolição de Lina Bo Bardi há
a indicação da demolição de duas paredes que dividem o foyer, porém nas plantas de Sérgio Orsi, que são
anteriores às de Lina, não há a referência da existência das paredes, o que nos deixa em dúvida para afirmar
qual o caráter do projeto encontrado.
178
Figura 191 (acima) – Pavimento Térreo do teatro – desenho
do arquiteto Sérgio Roberto Orsi. Fonte: Acervo da
Prefeitura Municipal de Jundiaí – Secretaria de obras.
Figura 192 (ao lado) – Fachada do Teatro Polytheama.
Fonte: Acervo da Prefeitura Municipal de Jundiaí –
Secretaria de obras.
179
Figura 193 (acima) – Corte longitudinal do
teatro – desenho do arquiteto Sérgio Roberto
Orsi. Fonte: Acervo da Prefeitura Municipal
de Jundiaí – Secretaria de obras.
Figura 194 (ao lado) – Corte transversal do
teatro – desenho do arquiteto Sérgio Roberto
Orsi. Fonte: Acervo da Prefeitura Municipal
de Jundiaí – Secretaria de obras.
180
Venchiarutti, não podendo esquecer de outros nomes ligados à área de
construção e de arquitetura, como Levada & Mil, afamados na época como
grandes mestres; Domenico Venitucci, Alberto Galeto e outros que
brilharam como mestres frentistas, na obra da fachada e da boca do palco,
pelos belos relevos188.
A intervenção
A luta pela revitalização do Teatro Polytheama se iniciou na administração do Prefeito André
Benassi, na década de 1980, quando foi criada a Comissão Municipal de Defesa do
Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural.
Um ofício no 053/85 da Fundação Nacional pró-Memória (FNPM)189, datado de 05 de
fevereiro de 1985 e assinado pelo diretor da 9ª DR/Sphan/FNPM, Antônio Luiz Dias de
Andrade (Janjão), endereçado ao presidente do IAB–Jundiaí, Sérgio Dias, demonstra a
preocupação dos órgãos públicos de Jundiaí com a preservação do Teatro Polytheama. O
ofício discorre sobre a contemplação com recursos financeiros e apoio técnico, dentro do
Programa de Cidades Históricas, para projeto e obras de conservação e restauração de
bens culturais. Os órgãos públicos haviam pedido a inclusão da restauração do Teatro
Polyhteama nesse programa, segundo dá a entender o ofício (não foi encontrado o
documento a respeito):
o caso do Teatro Polyhteama, cuja restauração foi proposta pela Prefeitura
Municipal de Jundiaí, no âmbito do Programa de Cidades Históricas, caso
tenha aprovado o seu enquadramento no Plano de Obras da Sphan/FNPM,
188
189
TOMANIK, Geraldo Barbosa, op. cit.
Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
181
será exigido, para aprovação [grifo do autor], o respectivo projeto
arquitetônico190.
Foi sugerido pelo arquiteto Araken Martinho que se convidasse a arquiteta Lina Bo Bardi
para a restauração do teatro. Data de 29 de maio de 1985191 a carta-convite da Prefeitura de
Jundiaí para a arquiteta para prestar consultoria para o restauro e revitalização do teatro.
Em carta endereçada ao professor Ariosto Mila, presidente da Comissão de Estudos do
Polytheama, datada de 11 de julho de 1985192, e após visita da arquiteta ao local, ela
responde, expressando sua opinião sobre a recuperação do teatro:
o Politheama está em ótimas condições estruturais, é importantíssima sua
recuperação não somente para a cidade de Jundiaí como para a própria São Paulo.
Estou a disposição para colaborar com a equipe de Jundiaí para a recuperação do
Politheama, para a sua recuperação fiel e ao mesmo tempo nos moldes de um
conjunto cultural moderno.
Em documento datilografado em papel timbrado da Prefeitura Municipal de Judiai –
Assessoria de Imprensa, sem data e sem autor, são expostas as razões pela contratação da
arquiteta Lina Bo Bardi:
A idéia de revitalizar o Polytheama não tem padrinhos. Essa é a opinião do
arquiteto Araken Martinho, diretor de Planejamento de Jundiaí. Para ele,
mais importante do que saber a quem deverá caber o mérito, é ter a
garantia da presença da arquiteta Lina Bo Bardi no projeto de restauração
[...] A escolha da arquiteta Lina Bo Bardi resumia-se em um critério único:
sua absoluta competência. Lina foi responsável pelos projetos de
Figura 195 – Visita da arquiteta Lina Bo Bardi
ao Teatro Polytheama na década de 1980.
Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
190
Ofício no 053/85 da Fundação Nacional pró-Memória - 9ª DR/Sphan/FNPM. Fonte: Acervo do escritório Brasil
Arquitetura.
191
Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
192
Manuscrito de autoria da arquiteta Lina Bo Bardi. Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
182
construção do Masp – Museu de Arte de São Paulo, de restauração do
Sesc Pompéia e do Museu do Unhão, em Salvador193.
Em reunião realizada em setembro de 1985, a arquiteta Lina Bo Bardi propôs levantar a
opinião da população sobre as finalidades dadas ao prédio do teatro194. Na mesma reunião
foi proposta a alteração do plano diretor da cidade para que se controlasse a construção de
prédios altos no entorno do teatro.
Figura 196 (ao lado) – Visita da arquiteta Lina
Bo Bardi e colaboradores ao Teatro
Polytheama na década de 1980. Fonte:
Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
Figura 197 e 198 (acima) – Vistas internas do
teatro durante levantamento das condições da
edificação. Fonte: Acervo do escritório Brasil
Arquitetura.
193
Documento da Prefeitura Municipal de Jundiaí – Assessoria de Imprensa. Fonte: Acervo do escritório Brasil
Arquitetura.
194
Ata de reunião da Comissão de Estudos do Polytheama. Fonte: Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
183
Em outubro de 1985 foi contratada a consultoria do escritório Figueiredo Ferraz, prestada
pelo engenheiro Roberto Carvalho Rochlitz, para a elaboração de um parecer técnico sobre
o estado do Teatro Polytheama, que observou o bom estado das estruturas metálicas, até
mesmo para a possível instalação de cenários móveis; reutilização do madeiramento
estrutural; algumas trincas nas alvenarias estruturais; concluindo que “as estruturas estão
em estado satisfatório, podendo por vezes necessitar de algum reforço e/ou tratamento.
Portanto, o projeto arquitetônico tem total liberdade de manifestar-se, independente dos
Figura 199 – Frisas e camarotes do Teatro
Polytheama antes da intervenção. Fonte:
Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
problemas estruturais195”.
Participaram ainda do projeto de restauração do Teatro Polytheama o engenheiro Hisawo
Nakamura (projeto hidráulico), Plaesa Consultoria (projeto elétrico), Hélio M. A. Peixoto
(projeto do bar e choperia), Silveira Associados (consultoria de fundações), Ualfrido Del
Carlo (tratamento acústico), Fundação Casa da Cultura (cadastro no Ministério da Cultura
para recebimento de benefícios). Foi realizada campanha para arrecadação de verbas junto
às empresas e indústrias de Jundiaí para o restauro.
Em meados de 1986, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico
e Turístico (Condephaat)196 abriu o processo de tombamento de imóveis em Jundiaí, entre
eles, o Polytheama. A contratação da arquiteta se efetivou em 19 de junho de 1986.
Figura 200 – arquibancada geral do Teatro
Polytheama antes da intervenção. Fonte:
Acervo do escritório Brasil Arquitetura.
195
Parecer Técnico do escritório Figueiredo Ferraz, dia 10 de outubro de 1985. Fonte: Acervo do escritório Brasil
Arquitetura.
196
Ofício GP – 251/86, 07 de março de 1986, Secretaria do Estado da Cultura – Condephaat. Fonte: Acervo do
escritório Brasil Arquitetura.
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Patricia Viceconti Nahas4 v1