JOSÉ AUGUSTO DA SILVA NETO
PRÁTICAS DE LEITURA: CULTURAS ESCOLARES DOS GRUPOS PADRE ANCHIETA E OLÍVIO AMORIM (1946 – 1956)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós­Graduação em Educação pela Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Educação.
Linha de Pesquisa: História e Historiografia da Educação.
Orientadora: Profa. Gisela Eggert­
Steindel
FLORIANÓPOLIS
2015
S586p
Silva Neto, José Augusto da
Práticas de leitura: culturas escolares dos grupos Padre Anchieta e Olívio Amorim (1946­1956) / José Augusto da Silva Neto. – 2015.
200 p. : il. ; 21 cm
Orientadora: Gisela Eggert­Steindel
Bibliografia: p. 191­200
Dissertação (mestrado) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências Humanas e da Educação, Mestrado em Educação, Florianópolis, 2015.
1. Bibliotecas escolares. 2. Estudantes do ensino de primeiro grau. 3. Leitura – Estudo e ensino – Santa Catarina. I. Eggert­
Steindel, Gisela. II. Universidade do Estado de Santa Catarina. Mestrado em Educação. III. Título.
CDD: 027.8 – 20.ed.
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UDESC
3
José Augusto da Silva Neto
Práticas de Leitura: culturas escolares dos Grupos Padre Anchieta e Olívio Amorim (1946 – 1956)
Dissertação apresentada ao PPGE­UDESC como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação.
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________
Profa. Dra. Gisela Eggert – Steindel
PPGE­UDESC
___________________________________________
Profa. Dra. Giani Rabelo
PPGE­UNESC
___________________________________________
Profa. Dra. Vera Lucia Gaspar da Silva
PPGE­UDESC
Florianópolis, 2015
5
Aos professores e bibliotecários da Rede Municipal de Educação de Florianópolis pelo trabalho e dedicação à educação pública.
7
AGRADECIMENTOS
Eu agradeço! Durante toda a minha trajetória de vida, deixei dívidas de gratidão certamente a muitas pessoas. Não tenho como não lembrar de todo o percurso educacional que me fez chegar até o mestrado, desde os professores do ensino fundamental, aos professores do supletivo e da graduação. Sem eles, nada disso teria sido possível; portanto, a eles minha gratidão.
Na caminhada do mestrado, apesar de muitas vezes estarmos sozinhos, seja em casa, nos arquivos ou na biblioteca, eu particularmente nunca me senti só nesta empreitada; por isso; quero agradecer a algumas pessoas em especial.
À minha incrível orientadora, Gisela Eggert­Steindel, acima de tudo pela amizade que construímos ao longo desse caminho, por seu trabalho, dedicação, serenidade e sua imensa sensibilidade, junto com seu humanismo. Estas foram as lembranças e características que mais me marcaram ao longo desse tempo [...]
À minha família, que sempre me apoiou em tudo que fiz e me apóia em tudo o que faço: a minha mãe, Eliane Goes; a meu pai, José Augusto da Silva Filho; a meu pequeno e incrível irmão, Gabriel Augusto, e a minha avó, Sinira Torres.
À banca examinadora, pela dedicação e por ter aceitado este convite para me ajudar a melhor compreender e adentrar o universo da educação.
Aos professores do Programa de Pós­Graduação em Educação, a todos sem exceção, mas principalmente àqueles com quem tive mais contato: Celso João Carminati, Cristiane Bereta, Geovana Mendonça Lunardi Mendes, Gisela Eggert­
Steindel, Gladys Mary Ghizoni Teive, Maria Teresa Santos da Cunha, Norberto Dallabrida e Vera Lúcia Gaspar da Silva.
A todos que trabalham em prol do Programa de Pós­
Graduação em Educação da UDESC, em especial à secretária, Gabriela Vieira, sempre muito disposta e atenciosa em qualquer momento.
A todos os funcionários da Biblioteca Central do Campus do Itacorubi da Udesc, sem exceção, desde estagiários, funcionários terceirizados até as bibliotecárias, sempre dispostas a me auxiliar nas pesquisas.
À Capes e à Fapesc, pelo auxílio, fomento e incentivo à pesquisa.
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A todos os funcionários da FAED ­ seguranças, funcionários da limpeza, funcionários da cantina, professores e professoras deste centro ­ pelo muito com que contribuíram para meu crescimento profissional e humano.
A meus irmãos e irmãs do coração: Felipe Goes, José Murilo Salazar Almeida, Thaise Fernandes, Rafaela Fernandes, Cleidson Ferreira, Gabriel Miranda, Julie Godard, Danilo Sakamoto, Jussara Dagostim, Andreia Almeida, Mariane Zepp, Vanessa Araujo, Andrieli Barbosa, Juliano Malinverni, Ana Paula Begrow, Maurício Marques, Alexandre Rocha, Yan Barcellos e Luísa Faganello, pelo apoio incondicional, por me aturarem na alegria e em alguns momentos de tristeza nessa jornada de pesquisa.
A Cecília Meireles, Paulo Freire, Clarice Lispector, Machael Foucault e Roger Chartier, por toda a inspiração.
Enfim, gratidão a todas as pessoas que direta e indiretamente me ajudaram neste processo e fizeram com que este trabalho se concretizasse.
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Mas, é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que me foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. A curiosidade do menino não iria distorcer­se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, em certo momento dessa rica experiência de compreensão do meu mundo imediato, sem que tal compreensão tivesse significado malquerenças ao que ele tinha de encantadoramente misterioso, que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra. A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era algo que se estivesse dando superpostamente a ele. Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro­negro; gravetos, o meu giz. (FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: autores associados, 1989, p. 11).
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LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES
CNE Conselho Nacional de Educação
EAD Educação a Distância
G.E Grupo Escolar
Pd. Padre
PMF Prefeitura Municipal de Florianópolis
SC Santa Catarina
UNESCO Organização das Nações Unidas para Educação, Ciencia e Cultura
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RESUMO
O presente estudo tem como objeto a história dos clubes de leitura e bibliotecas nos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim, no município de Florianópolis – SC (1946­
1956), no processo de regulamentação do ensino primário em Santa Catarina e na implementação das associações auxiliares da escola nos grupos escolares catarinenses através do Decreto nº 3.735 de 1946. A partir da regulamentação destas associações, procurei compreender as práticas de leitura desenvolvidas nos clubes de leitura dos grupos escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim, de modo a perceber as culturas escolares conforme prescrito pelo Decreto nº 3.735. A análise foi feita com base nas atas das associações então criadas. Além delas, analisei os seguintes documentos: Decreto–Lei nº 2.991; Oficio Circular nº 42/44; Decreto­Lei nº 8.529/46; Decreto–Lei nº 298 (1946); Decreto nº 3.732 (1946) e o Decreto nº 3.735/46. A investigação tem suporte na história cultural, tendo Sandra Jatahy Pensavento e Roger Chartier como alguns dos interlocutores na leitura das fontes. A compreensão da hierarquização das diretrizes escolares tem como aporte teórico os escritos de Michael Foucault e nesse sentido a regulamentação das associações auxiliares da escola com base nos princípios da Escola Nova; contudo, pude perceber, através da análise das atas, que as diretrizes e as práticas pedagógicas ainda conservavam os costumes da pedagogia pré­decreto nº 3.735. As análises revelaram contradições sob a perspectiva do que prescreviam as diretrizes dos decretos analisados e o que se vivenciava nas práticas de leitura. Além disso, os resultados apontam para uma cultura escolar de caráter nacionalista, hierárquico e vigilante. Neste sentido, a referida cultura ocorreu em um ambiente de renovação curricular, com a instalação do ensino primário e a tentativa de implementação da Escola Nova, o que resultou em uma mudança de uma cultura escolar constituída de práticas de leitura que envolviam as associações objeto de apreciação do presente trabalho. Palavras­chave: Clube de Leitura. Biblioteca Escolar. Culturas Escolares – Práticas de Leitura. Associações Auxiliares da Escola (SC). 17
ABSTRACT
This studied is about the history of Reading Clubs and Libraries in the School Groups Padre Anchieta and Oliver Amorim in Florianópolis ­ SC (1946­1956) in the regulatory process of primary education in Santa Catarina and implementation of the School Auxiliary Associations in School Catarinenses groups through Decree No. 3,735. From the regulation of these associations, the present study sought to understand the reading practices developed in Reading Clubs of School Groups Padre Anchieta and Oliver Amorim in order to understand the school culture from prescribed by Decree No. 3735 related to reading practices, from 1946 to 1956. The analysis was based on the “atas” of the Reading Club and Library of School Groups focus of this study. In addition to the atas, the following decrees were analyzed: Decree ­ Law nº2.991; Circular Letter # 42/44; Decree­Law nº8.529 / 46; Decree ­ Law 298 (1946); Decree nº3732 (1946) and Decree nº3.735 / 46. The research is supported in cultural history, and Sandra Pensavento as one of the interlocutors. The question of hierarchy of school guidelines will have as theoretical support the writings of Michel Foucault. This regulation intended to install the School Auxiliary Associations based on the principles of the New School, but it was revealed by analyzing the Minutes that the guidelines and pedagogical practices still retained the pre pedagogy of customs Decree No. 3,735. The analysis revealed contradictions from the perspective of what was prescribed by the guidelines of the analyzed decrees and what was experienced in reading practices. In addition, the results point to a school culture of nationalist character, hierarchical and vigilant. In this sense, the school culture of reading practices occurred in a curricular renovation environment, the primary installation and attempt to implement the New School, which resulted in a change of a school culture, this culture of reading practices involving Associations Auxiliary School Reading Club and Library.
Keywords: Reading Club. Library School. School Culture – Reading Practices. School Auxiliary Associations (SC).
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO......................................................................21
1ASSOCIAÇÕES ESCOLARES CONTEXTUALIZAÇÃO ..................................................................................................41
1.1O Início – Lei nº..................................................................46
1.2 O Decreto nº 3.735(1946)..................................................57 1.3 O Decreto Lei nº8.529.......................................................61 1.4 O cargo de Inspetor, A Biblioteca e O Clube de Leitura......................................................................................64
2 O PRESCRITO PARA O CLUBE DE LEITURA E A BIBLIOTECA........................................................................69
2.1 A Biblioteca na Escola a partir do Decreto nº 3.735.........................................................................................72
2.2 Incentivo à Leitura na Cultura Escolar..............................76
2.3 Uma Cultura de Biblioteca.................................................78
2.4 O Clube de Leitura entre a Cultura Escolar e as Práticas de Leitura......................................................................................84
3 GRUPOS ESCOLARES E ASSOCIAÇÕES AUXILIARES........................................................................93
3.1 Os Clubes de Leitura dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim.....................................................................98
3.1.1 O Clube de Leitura e seus sócios..................................114
3.1.2 Conhecendo um pouco da cultura da Biblioteca Dom João Bosco e Tereza Ramos..................................................136
3.2 Os Devotos da Biblioteca Dom João Bosco...................159
CONSIDERAÇÕES FINAIS..............................................171
FONTES CONSULTADAS................................................187
BIBLIOGRAFIA..................................................................191
ANEXO.................................................................................201
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INTRODUÇÃO
Os livros são objetos transcendentes. Mas podemos amá­los do amor táctil Que votamos aos maços de cigarro Domá­los, cultivá­los em aquários, Em estantes, gaiolas, em fogueiras Ou lançá­los pra fora das janelas (Talvez isso nos livre de lançarmo­nos) Ou o que é muito pior, por odiarmo­los
Podemos simplesmente escrever um.
(VELOSO, 1997)
SOBRE O ESTUDO
A leitura na escola, hoje prática recorrente da nossa sociedade e cada vez mais presente no nosso dia a dia, independentemente de seu uso ou finalidade. Roger Chartier (1996, p. 23) afirma que “[...] a leitura é prática criadora, atividade produtora de sentidos singulares, de significações de modo nenhum redutíveis às intenções dos autores de textos ou dos fazedores de livros”. A partir dos nossos conhecimentos e através da leitura, podemos estimular e trabalhar novas informações, transformando­as em novos conhecimentos. Na trilha do objeto­leitura, o texto escrito é um objeto presente em nossa sociedade, podendo assumir diversas formas e significados por parte do leitor, dependendo do contexto/ambiente em que esta prática se insere. Chartier 22
(1996) acredita que o objeto do livro possa ser compreendido de diversas formas, não só como suporte para leitura, mas para diversas funções. Para pesquisadores, por exemplo, pode servir como objeto de consulta para obter informação, conhecimento, dados, ilustrações e outras possibilidades; já um conjunto de livros em uma casa pode exercer uma função ilustrativa, como parte da arquitetura, podendo enfeitar uma “sala de estar”. Das possibilidades a ele relacionadas, há para esse objeto lugares e formas de circulação. Neste sentido, os clubes de leitura são espaços que poderão permitir socialização e aprendizado entre leitores de diversos contextos. Os clubes de leitura são constituídos por grupos de pessoas interessadas em livros e em leitura, que se reúnem em determinado local e horário para discutir acerca do tema, ler, conversar sobre literatura, poesia e até mesmo construir textos acerca do que tenha sido lido. Constitui para os participantes a oportunidade de se socializarem entre si, através da leitura. Os clubes de leitura existentes em bibliotecas, escolas e salas possibilitam o encontro para discutir sobre leitura em geral e leituras particulares. No âmbito escolar brasileiro, estes clubes foram regulamentados por meio das associações auxiliares da escola (MACHADO, 2002).
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Estas, foram introduzidas ou incorporadas em Santa Catarina no sistema de ensino a partir de 1944, através do Decreto Lei 2.991/44, ratificada em 1946 pelo Decreto Lei nº 3.735/46, conhecido como Reforma Elpídio Barbosa (TEIVE e DALLABRIDA, 2013). As associações propostas no Decreto nº 3.735 traziam consigo, pensamentos da corrente pedagógica Escola Nova. Segundo o estudo realizado Teive e Toccheto de Oliveira (2012, p. 4), o ideal dessa escola opunha­se ao da escola tradicional, “[...] na qual o professor era o personagem central, defendendo a atividade da criança no seu processo de aprendizagem e o papel do professor como orientador e estimulador da aprendizagem, de acordo com os interesses e individualidades de seus alunos”. Os Grupos Escolares, segundo o estudo de Gaspar da Silva e Teive (2009, p.32) foram inaugurados em 1911 em Santa Catarina com o objetivo de “integrar, nacionalizar, higienizar, racionalizar o homem e a pólis.
Às associações auxiliares da escola ­ biblioteca1, clube de leitura e pró­língua nacional ­ competia fomentar a leitura nos Grupos Escolares valendo­se das práticas de leitura. 1 Atualmente, o campo da Biblioteconomia conceitua a biblioteca da escola como bibliotecas escolares, as quais, segundo o Dicionário de Biblioteconomia e Arquivologia (2008), são as que se ligam a um estabelecimento de ensino, fundamental ou médio, destinadas a alunos e professores.
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A leitura, por sua vez, faria o papel de mediadora entre a mudança do ensino tradicional para o da escolanovista. Petry (2013) afirma que desde 1941 o Departamento de Educação desejava efetivar a criação das associações auxiliares. Segundo a autora, este período marcou a importância social atribuída às associações por meio de um texto de “meia página publicado na capa do Diário Oficial n. 2.125, de 22 de outubro de 1941, intitulado Associações Escolares” (PETRY, 2013, p. 103).
O objeto do presente estudo consiste em compreender práticas de leitura desenvolvidas no clube de leitura dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim, uma das associações prescritas pelo Decreto nº 3.735. Neste universo, procurei apreender os percursos de suas práticas, entender de cultura escolar, bem como perceber as possíveis apropriações do decreto que regulamentou o ensino primário em Santa Catarina no período entre 1946 e 1956. A opção por esse recorte temporal ­ o ano de 1946 – se deveu ao fato de ter sido este o ano da nova regulamentação do ensino primário e das associações auxiliares da escola em Santa Catarina por meio do Decreto nº 3.735; o ano de 1956, partindo do pressuposto de que após dez anos de implementação do decreto seria possível perceber em que práticas se haviam convertido as propostas 25
oficiais ao instituir os clubes e seu reflexo sobre o movimento das culturas escolares.
A abordagem deste estudo a respeito da história cultural visa a facilitar o entendimento da análise das fontes e das culturas numa perspectiva histórica, registrando a cultura escolar e seus métodos de vigilância através dos documentos oficiais e seus respectivos atores. A fundamentação teórica teve como base os estudos da estudiosa Sandra Pesavento, para quem a cultura representa uma forma de expressão e tradução da realidade, valendo­se, para isso, de símbolos, por si já conhecidos dos atores sociais em questão (PESAVENTO, 2004).
Para a realização desta pesquisa, efetuei um levantamento da produção bibliográfica que aborda a cultura escolar e as práticas de leitura. Com fundamento nesses conceitos, se analisará o Decreto nº 3.735, de 1946, disponível na Biblioteca Pública de Santa Catarina, juntamente com as atas e relatórios dos grupos escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim relativas ao período de 1946 a 1956. Os citados grupos guardam relatórios compostos pelo conjunto de atas de clubes e biblioteca, que também podem ser encontrados no Arquivo Público do Estado de Santa Catarina. Este acervo constituirá a matéria­prima da análise aqui desenvolvida.
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Para o conceito de cultura escolar apoiei­me em Viñao Frago (2002). Segundo este autor, tal conceito permite perceber que cada escola possui práticas próprias; portanto, analisarei as culturas reveladas nos clubes de leitura como o conjunto de ideias e práticas diversas que refletem o ambiente cultural da época nos grupos escolares já citados e ajustados ao Decreto nº 3.735. A análise das culturas destes dois grupos – caracterizada como práticas de leitura – revelou as atividades desenvolvidas nesse ambiente por inspetores, professores e alunos, os tipos de livros usados, e isto permitirá perceber os efeitos do livro impresso nas práticas, a finalidade que se propunham tais ações e de que maneira influíam na formação escolar e civil dos educandos. Os documentos aqui utilizados estão digitalizados; alguns também podem ser localizados online, além de também estarem disponíveis para consulta no Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, local onde foi coletada e analisada a maior parte dos documentos utilizados para o presente estudo. Para a reflexão acerca do documento em si, na perspectiva do campo da história cultural em que este estudo se insere, serão utilizadas como aporte teórico as ideias do historiador francês Jaques Le Goff, que escreve:
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O documento que, para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX, será o fundamento do fato histórico, ainda que resulte da escolha, de uma decisão do historiador, parece apresentar­se por si mesmo como prova histórica. A sua objetividade parece opor­se à intencionalidade do monumento. Além do mais, afirma­se essencialmente como um testemunho escrito. (LE GOFF, 1990, p. 463).
Neste sentido, as fontes foram percebidas como documentos escritos, históricos, que representavam parte de uma cultura escolar da época na qual era necessário, que fossem escritas e oficializadas. Constituem o que atualmente se consideram documentos oficiais, em base aos quais pesquisadores de diversos campos do conhecimento podem consultar para a construção de trabalhos científicos, jornalísticos e demais aspectos. Este trabalho seguirá a perspectiva do estudo de Prates, Teive e Toccheto de Oliveira (2012) acerca das atas, apenas como fontes de usos e costumes, jamais como normas e, através delas, as ideias e a orientação das autoridades educacionais.
Com o intuito de anunciar o contexto do objeto desta investigação, convém lembrar que a década de 1940 foi um período ímpar no que tange à reformulação educacional no estado de Santa Catarina, por se referir à implementação do 28
Decreto Estadual nº 3.735/46, que regulamentava o novo ensino primário. Prates, Teive e Toccheto de Oliveira (2012) consideram que os pensamentos da Escola Nova em 1946 pelo Decreto­Lei nº 298/46, já não representavam novidade no País, pois suas ideias já vinham sendo discutidas desde a década de 1920 pelos educadores norte­americanos John Dewey e William Kilpatrick, com destaque para o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova de 1932.
A partir de 1946, houve um aumento de bibliotecas escolares na rede de ensino. Segundo Machado (2002), a reforma educacional realizada por Elpídio Barbosa trouxe novas concepções e algumas ideias inovadoras que contaram com a circulação de livros, manuais e as associações auxiliares da escola, compostas por “instituições que tinham por fim a prática de atividades e educativas” (DECRETO nº 3.375, p.65), entre elas a Liga Pró­Língua Nacional, a Biblioteca, o Clube Agrícola, o Círculo de Pais e Professores, os museus escolares, os centros de interesse, a Liga da Bondade, o Clube de Leitura e o Pelotão de Saúde. 29
CONHECENDO O OBJETO
A leitura tornou­se objeto de estudo no trabalho de conclusão realizado em 2013 no curso de graduação em Biblioteconomia pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Naquele momento, o estudo estava focado nos Clubes de Leitura na Rede Municipal de Florianópolis, criados a partir de 2009.
A partir do início da trajetória no Programa de Pós­
Graduação em Educação na Universidade do Estado de Santa Catarina, tive contato com textos e conteúdos do campo da História e Historiografia da Educação, que fizeram com que meus estudos se alinhassem com esta temática voltada para os estudos de Clubes de Leitura.
Foi preciso ler outros estudos que também abordavam esta temática. O trabalho de Machado (2002) me levou a conhecer o Decreto nº 3.735 que regulamenta o ensino primário em Santa Catarina e aponta diretrizes para as citadas associações escolares, com indicativos de fontes como os relatórios e atas dos grupos escolares para a realização deste estudo.
Em uma primeira visita de estudo à Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, tive acesso, no setor de obras 30
raras, ao Decreto nº 3.735. Nas suas primeiras páginas, já pude perceber como ele pretendia atuar nas escolas para levar os alunos/as a entenderem de civismo, moral e a iniciação à cultura:
Art. 1º ­ O ensino primário tem as seguintes finalidades:
a) proporcionar a iniciação cultural que a todos conduza ao reconhecimento da vida nacional, e ao exercício das virtudes morais e cívicas que a mantenham e a engrandeçam, dentro de elevado espírito de fraternidade humana (Decreto nº 3.735, p. 1).
Percorrendo de modo sistemático as estantes da Biblioteca Pública do Estado e o Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, e através leitura trabalhos, como “Brasileiros pelas letras: a ação educativa presente nos clubes de leitura e bibliotecas escolares de Santa Catarina. O caso do Grupo Escolar Alberto Torres, Brusque, SC (1938­1950)”, da autoria de Mariane Zen, orientada por Maria Teresa Santos da Cunha, fui impelido a ler o Decreto nº 3.735 e as atas e relatórios das associações auxiliares da escola. A partir dessa leitura, identifiquei os relatórios dos grupos escolares de Santa Catarina, em especial o do Grupo Escolar Padre Anchieta e o do Grupo Escolar Olívio Amorim, assim como as diretrizes do Decreto nº 3.735 para as diversas associações auxiliares da escola.
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A partir das leituras sobre a história da educação no Brasil, as disciplinas de História dos manuais escolares, a cultura escolar e o Seminário de Pesquisa em História e Historiografia da Educação no Programa de Pós Graduação em Educação na UDESC, surgiram algumas inquietações, como: ­ Que tipo de cultura foi produzido pelos grupos escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim? ­ Os grupos escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim são reprodutores de uma cultura escolar? ­ Quais eram as práticas de leitura realizadas, em específico, pelos clubes de leitura nesses dois grupos escolares? ­ Qual a diferença das culturas escolares entre estes dois grupos, sendo um arquidiocesano e outro laico? ­ De que modo as atividades dos clubes de leitura se adequaram ao Decreto nº 3.735?
Realizei um levantamento bibliográfico sobre história da educação do estado de Santa Catarina voltado às práticas de leitura, aos clubes de leitura e às bibliotecas escolares. Os trabalhos acadêmicos pesquisados que mais dialogam com o objeto deste estudo foram os de Beirith (2009), Dallabrida (2003), Eggert­Steindel (2007), Otto (2012), Petry (2013), 32
Prates, Teive e Toccheto de Oliveira (2012), Vidal (1998 e 2005) e Zen (2007).
Entre todos os itens bibliográficos relativos à revisão de literatura, a obra que mais contribuiu para o entendimento das bibliotecas escolares no período entre 1930 a 1940 no estado de Santa Catarina foi a dissertação de Machado (2002), que teve por foco a criação e implantação das bibliotecas escolares em Santa Catarina no referido período.
Os aspectos políticos, históricos e educacionais contribuíram para meu entendimento sobre a história das bibliotecas em Santa Catarina. Neste trabalho, faço menção ao Decreto nº 3.735 e a alguns resquícios de circulares do período da década de 1940 sobre as atas dos grupos escolares que mencionavam as atividades desenvolvidas nos clubes de leitura e bibliotecas escolares.
São poucos os estudos em Santa Catarina acerca dos clubes de leitura do período investigado em Florianópolis. Os grupos escolares estudados ­ o Padre Anchieta e o Olívio Amorim ­ não fogem a esta afirmação. Este fato pode ser entendido como uma das justificativas a presente pesquisa, assim como configura um desafio.
33
Os estudos aqui apresentados poderão contribuir para se conhecer de que forma os educadores do período, o modo como atuaram na ampliação das associações auxiliares da escola nos grupos escolares em Santa Catarina, e quais eram as diretrizes então estabelecidas. A partir deste estudo, os resultados poderão contribuir com avanços na área da educação e da ciência da informação, no sentido da ampliação das discussões pertinentes ao tema.
O CLUBE DE LEITURA
De que modo os Clubes de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta e do Grupo Escolar Olívio Amorim movimentaram uma cultura escolar ou culturas escolares a partir do Decreto nº 3.735?
Com esta questão, tentarei compreender, pela maneira como se desenvolviam as atividades de incentivo à leitura nestes clubes, a cultura escolar da época em seus respectivos contextos. Este estudo tem como objetivo geral compreender as práticas de leitura Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim, de modo a perceber a cultura escolar a partir do 34
prescrito pelo Decreto nº 3.735 referente às práticas de leitura, no período de 1946 a 1956.
Para o desenvolvimento da pesquisa, elegi os seguintes objetivos específicos: ¾ Evidenciar o movimento das associações auxiliares da escola a partir do Decreto nº 3.735;
¾ Observar as apropriações do Decreto nº 3.735 referente às práticas de leitura e ao movimento da cultura escolar nos clubes dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim;
¾ Compreender a expansão dos clubes de leitura a partir da reforma Elpídio Barbosa (1946) no município de Florianópolis;
¾ Identificar os saberes escolares que circulavam nos clubes de leitura dos grupos escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim a partir do referido decreto;
¾ Perceber o uso de livros e manuais didáticos durante as atividades desenvolvidas pelo clube. O clube da leitura é, dentre as associações auxiliares da escola, um organismo com o objetivo de estimular, através de suas práticas, o gosto pela leitura por parte dos alunos, além de integrar o plano de aula do professor, e com ele colaborar, 35
assim como com o planejamento da escola. Estas práticas, segundo Machado (2002), tiveram início nos anos 1930, quando a maioria delas se fazia em salas para leitura.
Em 1932, havia dois estabelecimentos de ensino particular que contavam com esse clube, elevando para seis o número de estabelecimentos municipais no ano de 1935; porém, segundo Machado (2002), somente a partir de 1940 eles de fato começam a ser instalados nas escolas estaduais, o que provocou seu significativo aumento a cada ano.
Consta no Decreto nº 3.735 que o clube de leitura foi criado e regulamentado com o intuito de estimular a criança para o gosto da leitura. Deveria, de fato: Desenvolver o gosto pela boa leitura, e ao mesmo tempo, oferecer às crianças uma poderosa fonte para a sua cultura e desenvolvimento social, determinou o Departamento de Educação fossem criados os Clubes de Leitura nos nossos educandários (DECRETO nº 3.735, p. 100).
A leitura e o estudo das atas dos clubes de leitura dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim não possibilitaram identificar algum critério que orientasse os alunos a distinguir livros de “boa” leitura de outros que não o seriam tanto. No entanto, no Decreto nº 3.735 constam diretrizes, já que este tipo de clube foi criado justamente com a 36
finalidade de estimular os alunos das escolas estaduais a ler. A orientação para a leitura é que o livro contemple o “espírito” do ser humano e vá além do conhecimento técnico, fazendo com que o conhecimento adquirido amplie a imaginação do indivíduo e o leve à sua verdadeira vocação.
O Decreto nº 3.735 afirma também que a vida de “grandes homens” bem­sucedidos, e atividades, são frutos de uma boa formação leitora, que, se bem conduzida, só trará bons resultados na vida do homem. Destaca que na infância a leitura é formadora e prepara as crianças para viver em sociedade. Enfatiza ainda a importância do ambiente no qual as práticas de leitura deveriam ser desenvolvidas. Dispõe o decreto:
Nos educandários onde houver biblioteca, precisa haver Clube de Leitura. Não se compreende o Clube sem a Biblioteca, como não se concebe a Biblioteca sem o Clube. Somente durante a fase de organização é que, ao lado das bibliotecas, podem deixar de aparecer os clubes de leitura.
Se a biblioteca representa parte material, o clube de leitura é por assim dizer a parte espiritual da associação (Decreto nº 3735, p. 101).
A biblioteca tende a desempenhar papel fundamental no ambiente escolar, devendo haver uma em todo educandário em que existir o clube de leitura. A partir disso, a biblioteca, como setor físico, deveria trabalhar em conjunto com as associações 37
de leitura e os professores, de modo a atender aos pedidos de livros que serão trabalhados nas práticas e preparar devidamente o ambiente para as atividades. A Lei no 2.991 (dirigida a inspetores escolares, a auxiliares de inspeção, a diretores e professores dos estabelecimentos de ensino) continha um único assunto: as associações auxiliares.
No que tange à biblioteca o documento previa ser um espaço que deveria se tornar convidativo a partir do momento em que os alunos/crianças pudessem organizar e ter autonomia para gerir este ambiente. Assim estruturada, poderia vir a ser um mecanismo convidativo desde que fosse capaz de promover, de maneira agradável, a leitura e a presença do aluno na biblioteca. Aliás, tanto a biblioteca quanto outras instituições, as quais foram oficializadas decreto como associações, já existiam nos grupos escolares, como exemplo temos o museu, a biblioteca, a caixa escolar e os clubes agrícolas, introduzidos a partir de 1935, de acordo com Fiori (2002 apud PETRY, 2013).
A biblioteca escolar contemporânea enquanto conceito tem como função, na atualidade, disponibilizar um acervo de qualidade, de acordo com projeto proposto pelo corpo pedagógico, oferecendo um espaço para que o aluno tenha 38
acesso à informação através de livros, revistas e de atividades de leitura.
Para que o aluno possa compreender as diversas realidades enquanto criança e os possíveis “desafios” que encontrará no “mundo adulto”, é necessário que o bibliotecário, em conjunto com o professor, exerça o papel fundamental de lhe proporcionar esse tipo de literatura.
Atualmente, percebe­se um avanço em relação a essa realidade. Há quem aproveite o espaço da biblioteca para transformar algumas práticas em oficinas de incentivo e promoção à leitura, o que pode constituir um diferencial na vida do aluno. Algumas escolas têm aproveitado para fazer da biblioteca um espaço sociocultural, em que os alunos possam circular livremente, a fim de conhecer o acervo, os computadores e outras ferramentas da biblioteca.
Com base neste contexto, levando em consideração a história do livro e das bibliotecas, somando minha experiência profissional e as leituras realizadas ao longo deste percurso, esta investigação, convertida em dissertação, tem como estrutura uma introdução, três capítulos e considerações finais. Com a introdução apresentarei o objeto e os aspectos teórico­metodológicos.
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Dos capítulos, no primeiro apresentarei as Associações Escolares de Leitura (ou, mais especificamente, o Clube de Leitura e a Biblioteca), nos termos do Decreto nº 3.735. No segundo, apresento e efetuo uma discussão a respeito do Clube de Leitura e das bibliotecas do Grupo Escolar Padre Anchieta, tendo como foco a cultura escolar nas práticas de leitura, a participação dos professores no desenvolvimento dessas práticas e o modo de socialização nas atividades desenvolvidas nos referidos clubes.
No terceiro, desenvolvo uma análise relativa ao Clube de Leitura e à Biblioteca do Grupo Escolar Olívio bem como os mesmos itens em relação ao Grupo Escolar Padre Anchieta. Por último, as considerações do estudo, percebo de maneira breve permanências e rupturas das culturas escolares da década de 1940­1950 na atual conjuntura da educação brasileira.
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1 ASSOCIAÇÕES ESCOLARES –CONTEXTUALIZAÇÃO
Os anos 1930 produziram importantes marcas no cenário da história da escrita, da leitura e das bibliotecas no Brasil. Nesta direção Pimenta (1997) compartilha da idéia de que até essa data, apenas no então Distrito Federal, no Rio de Janeiro, se encontravam tais marcas, que, dessa época em diante, foram se expandindo para outros estados do Brasil. No entendimento Vidal (1999), estes acontecimentos foram marcados pelas diversas reformas ocorridas nas instituições públicas. Na Região Sudeste, a autora cita:
...em São Paulo, as reformas de Sampaio Dória, 1920, Lourenço Filho, 1930­31, e Fernando de Azevedo, 1933; no Rio, as de Carneiro Leão, 1922­1926, Fernando de Azevedo, 1927­30 e Anísio Teixeira, 1931­35; em Minas, a de Francisco Campos, 1928: todas, apesar das especificidades, preocupando­se com a alfabetização das massas e incorporando princípios da Escola Nova (VIDAL, 1999, p. 78).
No período citado por Vidal (1999), é perceptível os nomes que se firmaram na história da educação e foram estes que viabilizaram a introdução e circulação dos princípios da Escola Nova; entretanto, suas características só poderiam se 42
concretizar no âmbito da educação. As atividades de leitura e escrita foram os mecanismos utilizados para incorporar os princípios que visavam à nacionalização do ensino e da alfabetização de todos.
No estudo comparativo de Vidal (1999) sobre leitura e escrita na América Latina, é possível perceber que questões como “boa linguagem”, fala concreta e veloz, estavam “intimamente” ligadas à “boa escrita”, e isso faria com que as crianças tivessem que aprender, através das práticas de leitura, princípios e técnicas que pudessem ordenar seu pensamento e suas ideias.
Iniciou­se então segundo o estudo de Pimenta (1997) o movimento para a criação de bibliotecas infantis e escolares em todo o Brasil, para que no âmbito da cultura e educação e demais espaços culturais, fossem instaurados os ideais de uma nova pedagogia, com os métodos e atividades de leitura e escrita. A autora também nos conta que biblioteca pioneira no Brasil, gratuita, que atendia a crianças sem diferenciação de idade, foi à biblioteca Pavilhão Mourisco em 1934, idealizada pela poetisa e ativista da educação Cecília Meireles, com o apoio da reforma de Fernando de Azevedo (1927­1930), então à frente do Departamento de Bibliotecas no Rio de Janeiro (DF).
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Neste cenário é necessário lembrar que Cecília Meireles e Fernando de Azevedo desempenharam um papel importantíssimo na história das bibliotecas no Brasil; além dos recursos financeiros conseguidos com muito esforço para a sua criação, Cecília Meireles demonstrou em sua vida total preocupação com a criação de espaços públicos que pudessem atender a crianças e estimular a sua leitura. Ela acreditava que: [...] talvez fosse a da organização mundial de uma Biblioteca Infantil que aparelhasse a infância de todos os países para uma um unificação de cultura, nas bases do que se poderia muito marginalmente chamar "um humanismo infantil". Na esperança de que, se todas as crianças se entendessem, talvez os homens não se hostilizassem. Isto, porém, não passa de uma aspiração, nestas páginas. Fora do outono certo, nem as aspirações amadurecem (MEIRELES, 1984, p.15).
A criação da Biblioteca Pavilhão Mourisco, em 1934, foi um importante passo, além de um marco nas instituições da educação brasileira, por ter inovado na maneira de lidar com o público infantil e por apresentar características da Escola Nova, fazendo com que as crianças passassem a constituir o foco daquele espaço e tivessem liberdade de manusear e escolher o acervo que mais lhes interessasse.
Pimenta compartilha da ideia de que:
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A experiência do Mourisco, apesar de sua breve duração, representou a semente que mais tarde frutificou na criação das seções infantis das bibliotecas públicas e de bibliotecas infantis no Rio de Janeiro, São Paulo e outros municípios brasileiros. O pioneirismo desse empreendimento se resume ao fato dessa biblioteca possuir características antes nunca vistas no Brasil. Na época havia bibliotecas que jamais permitiam a entrada de crianças; outras que somente consentiam o acesso de menores acompanhados dos pais. A biblioteca do Mourisco foi além. Não somente estimulava a freqüência de crianças, como mantinha os livros ao alcance das mesmas, novidade sequer tentada nas bibliotecas freqüentadas por adultos. Outras novidades foram: a inclusão de atividades artísticas e culturais; o empréstimo de livros escolhidos pelos próprios leitores; o fato de ser um espaço público, mantido por verba pública; estar vinculado às atividades escolares, pretendendo ser uma extensão da biblioteca escolar; além de servir de objeto de estudo para professores e pesquisadores da rede municipal e do Departamento de Educação. Certamente, estas foram iniciativas que ajudaram a compor o cenário educacional das próximas décadas. Conhecimento que teve a sua origem esquecida, mas que encontrou nas ações de educadores de várias gerações o seu prosseguimento (PIMENTA, 1997, p. 14).
No Brasil, além das primeiras iniciativas que se traduziram em importantes reformas educacionais, e por terem fomentado a leitura em bibliotecas escolares, devemos atentar, mais uma vez, para a importância da figura de Fernando de 45
Azevedo à frente dessas pautas, que tinham por objetivo nacionalizar o ensino nos grupos escolares brasileiros.
De acordo com Machado (2002), em Santa Catarina começam a se revelar indícios de práticas educacionais de leitura promovidas no ambiente escolar, em sua maioria na biblioteca e nos clubes de leitura, a partir da década de 1930, na condição de instituições auxiliares das escolas estaduais.
Os estudos de Beirith (2009) sobre o ensino da leitura em escolas isoladas em Florianópolis apontam que, é preciso que se reflita sobre a nacionalização do ensino para perceber “possíveis indícios de articulação entre os objetos de nacionalização e o modelo de ensino da leitura prescrito oficialmente”. Segundo a autora: Em janeiro de 1946, foram instituídas as leis orgânicas federais de ensino primário e o ensino normal. Ambas pertencem ao conjunto de leis baixadas de 1942 a 1946, que ficaram conhecidas como reforma Capanema. Com essas reformas, toda a estrutura educacional brasileira for reorganizada na tentativa de estabelecer uma política nacional única para a educação no país (BEIRITH, 2009, 22­23).
Roger Chartier (1996) afirma que “a leitura é prática criadora, atividade produtora de sentidos singulares, de significações de modo nenhum redutíveis às intenções dos 46
autores de textos ou dos fazedores de livros2”; a partir dos nossos conhecimentos e através da leitura, podemos estimular e trabalhar novas informações, transformando­as em novos conhecimentos.
Após este parâmetro geral, podemos pensar em como se expandiram estas ações no campo que me proponho pesquisar com o presente estudo, ou seja, Santa Catarina. Os ideais da Escola Nova também começaram a se expandir na Região Sul. Para que tivessem legitimidade, era preciso que se criassem leis com diretrizes gerais para apontar o rumo que a educação iria tomar.
1.1 O INÍCIO – Lei nº 2.991
O Decreto nº 3.735 tem sua origem na Lei 2.991, de 1944, dirigida a inspetores escolares, auxiliares de inspeção, diretores e professores. A associação auxiliar biblioteca, considerada com mais destaque dentro dessas organizações, apresenta características de uma associação que deveria 2 CHARTIER, Roger. Práticas de leitura. Trad. de Cristiane Nascimento. São Paulo. Estação Liberdade, 1996. 47
caminhar em conjunto com outras associações de leitura, como o Clube de Leitura e a Liga Pró­Língua Nacional.
A Lei nº 2.991, que apresenta os primeiros apontamentos para a inserção das associações auxiliares na escola, é aprimorada em 1946, pelo Decreto nº 3.735, que, além de suas diretrizes, colabora com outras questões, de modo a fazer um movimento de socialização no ambiente escolar.
A cultura, presente na Lei 2.991, e característica da Escola Nova, deveria se orientar pelas seguintes diretrizes:
1º ­ As bibliotecas escolares serão organizadas em todas as escolas, tendo como fim angariar o maior número de livros que possam ser lidos por alunos.
2º ­ Serão seus organizadores seus próprios alunos do estabelecimento, capazes desse trabalho, sendo, por isso, considerados sócios.
3º ­ Por meio de festivais, benefícios ou donativos, a biblioteca poderá aumentar o seu fundo econômico, competindo aos professores e à diretoria provocarem tais meios (LEI 2.991, p. 4, 1944).
Este espaço iria se tornar convidativo desde que os alunos/crianças o pudessem organizar e ter autonomia para gerir. Era concebido como ambiente que deveria ser convidativo, capaz de promover de maneira agradável a leitura e a presença do aluno na biblioteca.
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O acervo das bibliotecas dos grupos escolares tinha como suporte verbas públicas e doações dos sócios, ressaltando­se, a cada momento, nas linhas da Lei 2.991, que seu material deveria ser conservado e, além disso, aumentar, sempre que possível.
De acordo com as diretrizes para a biblioteca na Lei 2.991:
4º ­ As bibliotecas serão constituídas e aumentadas com as contribuições angariadas e com os donativos em espécie e dinheiro feitos por qualquer pessoa ou entidade. [(...]
S 1º ­ Por meio de recortes devidamente colecionados em volumes, as bibliotecas deverão ser enriquecidas sempre. Para a execução desses volumes, haverá uma estreita colaboração entre professor e alunos, desenvolvendo, assim, o gosto pela leitura de jornais e revistas e o aproveitamento da parte sadia das publicações (Lei 2.991 p.5, 1944).
A todo momento o documento ressalta o gosto pela leitura. Apesar de as práticas de leitura ser de responsabilidade do clube de leitura em conjunto com a biblioteca escolar podemos perceber, que através de atividades desenvolvidas por professores e alunos, o que se enfatiza é o gosto pela leitura de jornais e revistas, levando­se em consideração que seriam as partes “sadias” das publicações.
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Deveria ser do interesse de todos os profissionais da educação que houvesse investimento de diversas esferas no desenvolvimento da área. Na composição do acervo de uma biblioteca, a mesma lógica deveria ser seguida. Não só de dinheiro público se pode compor um conjunto de materiais, mas também através de doações de pessoas que queiram se envolver com a iniciativa. O trabalho de Mignot (2010) sobre a vida da educadora Armanda Álvaro Alberto3 ressalta essa importância sobre a fala da protagonista da obra:
4º ­ A Escola Regional de Meriti tem por máxima aspiração ser reproduzida em todo o país. Que os fazendeiros, os industriais, os capitalistas fundem escolas para os filhos dos seus colonos, sitiantes, operários, empregados...Peçam aos poderes públicos ou aos centros de educação, como a Associação Brasileira de Educação, os programas, mesmo as professoras, mediante entendimento com o governo. E aqueles que só dispõem de boa vontade, fundem associações como a nossa – que ocupar­se da criança ainda é a mais humana das funções da nossa espécie (MIGNOT, 2010, p.112).
Não se esquecendo que a partir disso as bibliotecas deveriam ter um caráter social infantil, com a administração 3 Este trabalho apresenta a história de vida e de luta pela educação da professora Armanda Álvaro Alberto, que teve uma importantíssima passagem na história da educação, ao lado de Anísio Teixeira e Cecília Meireles em favor da criação de bibliotecas escolares e do incentivo à leitura.
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sob a responsabilidade dos alunos eleitos de forma democrática e orientados por professores. Neste quadro é possível observar uma permanência a partir do Decreto nº 3.735 com respeito a divisão de tarefas correspondentes à diretoria a qual tem início já com a Lei 2.991, que propunha a seguinte composição: presidente, vice­
presidente, primeiro secretário, segundo secretário, primeiro tesoureiro, segundo tesoureiro, primeiro bibliotecário, segundo bibliotecário (LEI 2.991, 1944, p. 5).
A todos eram delegadas funções, sendo o presidente o que tinha maior responsabilidade e maior número de funções. Vale aqui, neste trabalho, destacar as funções do bibliotecário:
a) ter sob guarda todos os volumes pertencentes à instituição;
b) devidamente escriturados, carimbados, numerados e bem dispostos;
c) zelar pelo bom estado dos moveis e utensílios da biblioteca;
d) catalogar de acordo com a fixa anexa todos os livros;
e) ter em boa ordem o fichário dos volumes;
f) encadernar todos os livros de maneira uniforme;
g) ter separadamente dispostos, em prateleiras, os livros destinados aos professores e aos alunos;
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h) atender as requisições dos diretores do Clube de Leitura, anotando os volumes entregues durante o mês que, serão lidos nas sessões mensais;
i) elaborar o movimento geral do ano para fazer parte do relatório do presidente;
j) revezar com 2º bibliotecário e auxiliar a estadia na biblioteca, a fim de atender a requisições;
l) ter o catálogo à disposição de todos os sócios para guiá­los nas requisições dos livros;
m) cooperar com os demais membros da diretoria para o maior desenvolvimento da biblioteca (Lei 2.991, 1944, p. 6).
O serviço do bibliotecário era dividido entre questões de cunho técnico e questões que envolviam a parte mais humanizada ou sociabilidades da função bibliotecária à época no contexto escolar. Contudo, percebe­se segundo as fontes, que os alunos bibliotecários4 ainda não tinham como função propor ações com o intuito de incentivar à leitura no ambiente escolar. Nota­se que a biblioteca era um espaço para o total desenvolvimento do trabalho técnico da profissão. Questões como encadernar, catalogar e zelar faziam parte da rotina desta 4 Usa­se a expressão “alunos bibliotecários” por serem estes os responsáveis pelas atividades da Biblioteca nos Grupos Escolares, segundo as diretrizes da Lei 2.991.
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associação. Incentivo à leitura, somente em conjunto com o clube de leitura.
Percebemos que, enquanto a autonomia se concentrava no aluno, a figura do professor orientador ainda se mantinha muito dependente dos afazeres técnicos de outros profissionais da educação.
Este movimento de integração entre indivíduos sociais dentro do espaço escolar nos remete à ideia de Pierre Boudieu (1996), o qual afirma que a cultura escolar pode dotar os indivíduos de um corpo comum de pensamentos e cumpre, por isso, uma função de integração moral e social. As categorias representadas pelas associações auxiliares da escola integram o pensamento e o trabalho dos indivíduos para o bem comum ­ a educação – e, ainda, no caso das associações de leitura, o incentivo à leitura.
A cultura escolar, então composta por personagens que a evidenciam, apresentam os sócios das associações auxiliares. Os sócios das bibliotecas escolares, previstos em lei, seriam todos os alunos, sem nenhuma distinção. Cabia­lhes (aos sócios) auxiliar a biblioteca com uma quantia mínima, conseguindo donativos ou contribuições em espécie (LEI 2.991, 1944, p. 6).
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O conjunto de regras era parte integrante da cultura dos grupos escolares, até por disposição legal. Os sócios deviam seguir algumas normas:
12º­ Os sócios poderão levar, por espaço máximo de três dias, livros para casa, desde que assumam o compromisso de zelar por eles.
13º­ Os sócios que danificarem os livros ou revistas da biblioteca ficam privados deste beneficio.
14º­ Todos os sócios que conseguirem qualquer auxílio para a biblioteca deverão tomar parte na primeira reunião mensal a se realizar, para exporem suas conquistas.
15º­ No horário prefixado pela diretoria, os alunos poderão comparecer à biblioteca em caráter de sócio de Clube da Leitura ( Lei 2.991, 1944, p. 7).
Este é o panorama da Associação Auxiliar da Escola Biblioteca. Seu objetivo era incentivar a leitura e criar um espaço em que possíveis sociabilidades se tornariam concretas através das ações em conjunto entre o clube de leitura e a biblioteca.
A Lei nº 2.991 prescreve diretrizes para as associações auxiliares a serem seguidas pelos inspetores escolares, auxiliares de inspeção, diretores e professores dos estabelecimentos de ensino. Este decreto, de 1946, uma das 54
primeiras tentativas dos princípios escolanovísticos. Pode­se considerar que a Escola Nova possuía a cultura de uma educação inovadora, mas, apesar de sua letra corresponder às diretrizes oficiais, muita vezes não estava de acordo com a realidade. A concepção da Escola Nova, é uma reação contra as tendências intelectualistas e elitistas da escola tradicional, “dirigida à satisfação das necessidades do próprio indivíduo” (MANIFESTO dos PIONEIROS, 1932)5.
As diretrizes do Decreto Lei nº 2.991 apontam para uma educação com foco no aluno; a função das associações auxiliares da escola era complementar o conhecimento do aluno com instrumentos do ambiente escolar, com responsabilidade por sua organização: “Serão seus organizadores os próprios alunos do estabelecimento, capazes desse trabalho, sendo, por isso, considerados sócios” (LEI nº 2.991, 1944, p. 4). O que chama a atenção, porém, é que ao mesmo tempo em que a Escola Nova surge como um “método” para uma nova educação, as próprias diretrizes condicionam os alunos e professores a passos não tão progressistas.
5Manifesto escrito no período do governo de Getúlio Vargas tinha como objetivo apontar diretrizes para uma nova corrente pedagógica no Brasil, com o intuito de democratizar e nacionalizar o ensino. Este documento foi redigido por Fernando de Azevedo e contou com a assinatura de importantes intelectuais como: Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Cecília Meireles.
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Entendia­se, por uma análise foucaultiana, que a tentativa de uma nova educação com base em diretrizes de decretos oficiais poderia se utilizar de mecanismos de poder ainda pertencentes à antiga pedagogia, e, mais ainda, das disciplinas escolares como forma de moldar a nova percepção humana e pedagógica deste período.
Foucault (1984) entende que as disciplinas são formas de dominação, no sentido de que “o mesmo mecanismo o torna (o aluno) tão mais obediente quanto é mais útil e inversamente”; além disso, possui a “função de adestrar”. Através dos conteúdos contidos nas disciplinas e diretrizes apontadas em decretos, seria possível uma nova pedagogia nos grupos escolares.
Não é preciso consultar as atas e relatórios dos grupos escolares para percebermos a preocupação com a de uma cultura nacionalista através das associações auxiliares da escola nos grupos escolares. Cada associação auxiliar de biblioteca, por exemplo, devia ter como patrono alguém que tivesse prestado um “real serviço” ao Brasil. Segundo consta no decreto:
Para melhor identificação da biblioteca, terá ela o seu patrono, que será escolhido por eleição dos sócios. A escolha será feita entre nomes de pessoas que tenham prestado reais serviços à 56
nossa Pátria. Não poderão ser escolhidos nomes de pessoas vivas. (Decreto nº 2.991/44, p. 2).
Percebemos que a mesma lógica que Foucault (1984) utiliza para explicar o processo das disciplinas como mecanismo de “obediência” se aplica, neste caso, às associações auxiliares da escola. Não apenas na associação auxiliar biblioteca, mas também nas demais, pois as associações tinham como foco prestar apoio pedagógico aos grupos escolares. As associações auxiliares de leitura (Biblioteca, Clube de Leitura e Liga Pró­Língua Nacional) estavam por sua vez interligadas com o currículo; considera­se, portanto, como parte integrante do currículo escolar as associações auxiliares da escola, pois serviam como mecanismo disciplinador dos alunos, legitimando a cultura nacionalista do Estado.
Partilhando do pensamento de Serra (2003), é necessário contextualizar os estudos de Foucault na realidade brasileira. Segundo os estudos de Carvalho Silva (2011), a relação entre biblioteca e escola no Brasil esteve relacionada com a Igreja até o final do século XVIII; isto mostra o quanto essa instituição, através do Estado, influenciava (influencia) os grupos escolares e bibliotecas. É neste sentido que os estudos 57
sobre poder de Foucault nos ajudam a entender o quanto estas instituições podem influenciar uma cultura escolar.
Portanto, com a Lei nº 2.991, em 1944, que prescreve as associações auxiliares da escola, e o Ofício Circular nº 42 (1944), que fixa os objetivos das associações auxiliares da escola, que consistiam em “práticas educativas entre as famílias dos alunos, pessoas de boa vontade, instituições de caráter assistencial e cultural que entendam sobre o caráter educativo da escola”, fica clara a maneira como se pretendia inovar o processo de educação no País. O decreto insiste em ações coletivas no ambiente escolar, como processo que facilitaria a substituição de uma cultura por outra, deslocando o foco do poder (Estado/professor) para o aluno, transformado de “passivo” de um processo a “agente” e sócio, o que necessariamente resultaria em nova cultura e em novo ambiente escolar. Dois anos após a criação das associações auxiliares, surge o Decreto­Lei nº 8.529/46, de 2 de janeiro de 1946, que prescreve a Lei Orgânica Federal do Ensino Primário.
1.2 O DECRETO nº 3.735 (1946)
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Com esse decreto e a regulamentação do ensino primário no estado de Santa Catarina, foi possível aprimorar, com mais detalhes, o tipo de práticas que se esperavam dos clubes. O decreta enfatizava a ideia de ações integrantes da cultura escolar. Cabe aqui conferir o tipo de cultura escolar praticado nos clubes citados, e sua influência no ambiente escolar. Para isso, o método de análise proposto é estudar o Decreto nº 3.735 e seus referenciais teóricos, verificando sua atuação no campo da cultura escolar.
A partir disso, é compreender o processo então utilizado nas atividades de incentivo à leitura nestes clubes e que tipo de cultura a biblioteca representava nos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim no período de 1946 a 1956.
As associações Clube de Leitura e Biblioteca, em questão, estão sendo analisados, como já foi citado anteriormente, com base nos estudos sobre história de Roger Chartier (2002). É essencial a sua leitura sobre apropriação para entender a relação de cada grupo escolar com cada um de seus alunos, ou seja, para entender como cada aluno se apropria das práticas de leitura propostas pelo clube de leitura, levando em consideração os contextos diferenciados em relação à cultura escolar específica de cada grupo.
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Ainda sobre o uso do livro, Chartier enfatiza que a leitura é uma prática no sentido de que “não é uma invariante histórica – mesmo nas suas modalidades mais físicas ­, mas um gesto, individual ou coletivo, dependente das formas de sociabilidade, das representações do saber ou do lazer, das concepções da individualidade (2003, p. 173).
A partir destes conceitos, podem­se observar características do método utilizado pelo autor em suas pesquisas. Ainda sobre a obra “Leituras e leitores na França no Antigo Regime” vale repetir o que escreveu sobre a história da leitura em meio ao regime aristocrata francês nos séculos XVI e XVIII. Os ensaios, reunidos no livro, buscam observar as divergências culturais do período, também conhecido como Antigo Regime, criando distinções e tensões, oposições e divisões (CHARTIER, 2004, p. 7).
No entendimento de Viñao Frago (2002), não existe apenas uma cultura escolar, mas culturas escolares, produzidas e reproduzidas em ambiente escolar de acordo com as suas práticas. Admitindo­se tal entendimento, pode­se compreender que o período da Escola Nova em Santa Catarina correspondeu a grandes mudanças nas estruturas e culturas dos grupos 60
escolares. Era um período fortemente marcado pela presença da Igreja católica e um acentuado nacionalismo.
A “cultura escolar” abrange diversos aspectos que envolvem o ambiente escolar em questão, mas dentro de uma vasta diversidade, dependendo do objeto que se fixe para análise, pois a cultura pode tratar desde os móveis utilizados pelos alunos (as) e professores (as) até o mais complexo estudo sobre formação de docentes e práticas pedagógicas.
Neste sentido, neste trabalho utilizarei o conceito de cultura proposto por Antônio Viñao Frago (2002):
Um conjunto de teorias, ideas, princípios, normas, pautas, rituales, inércias, hábitos y prácticas (formas e hacer y pensar, mentalidades y comportamientos) sedimentadas a lo largo del tiempo em forma de tradiciones, regularidades y reglas de juego no puestas em entredicho, y compartidas por sus actores, en el seno de las instituciones educativas.
A história das bibliotecas escolares em Santa Catarina reflete o aumento significativo dos espaços que a ela se destinavam no decorrer da década de 1940. Foi quando se criaram, como auxiliares, entre outras associações, os clubes de leitura, com o intuito de promover e disseminar novos hábitos de leitura. Segundo Machado (2002, p. 89), os primeiros 61
indícios de clubes de leitura no estado são de 1932 (dois estabelecimentos de ensino particular) e a elevação de seu número em 1935 (seis; dois dos quais em estabelecimentos municipais). O autor afirma: “Entretanto, a partir do início da década de 1940, começam a ser instalados nas escolas estaduais, aumentando significativamente a cada ano” (MACHADO, 2002, p. 90).
1.3 DECRETO LEI nº 8.529/46
Para uma breve reflexão história acerca do que este decreto representou para a educação brasileira, não há como não reproduzir alguns pensamentos de Foucault na perspectiva disciplinar do poder do que representam decretos e leis no campo da educação, além de algumas leitura de Paulo Freire, que, apesar de ter tido sua obra publicada em outro período da história do Brasil, é igualmente uma referência na cultura e, particularmente, na pedagogia brasileira, pois a visão exposta em seus escritos transcende o tempo e é aplicável, independentemente de sua temporalidade, às mais diversas culturas escolares do País, neste sentido, plural, como é o Brasil.
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Este decreto, de 2 de janeiro de 1946, de esfera federal, regulamenta o ensino primário. Nele constam as diretrizes que este nível deveria seguir para uma educação plena e humanística. Não faz menção às associações auxiliares da escola, mas nele se pode perceber a preocupação que Otto (2012) traz em sua dissertação: “Estas práticas escolares tinham como objetivo fazer com que as crianças vivenciassem situações semelhantes aos acontecimentos cotidianos vividos em sociedade”.
No Capítulo III ­ Da ligação do ensino primário com as outras modalidades do ensino ­, lê­se :
Art. 5º O ensino primário manterá a seguinte forma articulação com as outras modalidades de ensino:
1. O curso primário elementar, com os cursos de artesanato e com os de aprendizagem industrial e agrícola.
2. O curso primário complementar, com os cursos ginasial, industrial, agrícola e de formação de regentes de ensino elementar. 3. O curso supletivo, com os cursos de aprendizagem agrícola e industrial e com os de artesanato, em geral (Decreto Lei. nº 8.529, p. 2).
A relação do ensino primário e das associações auxiliares da escola com os pensamentos educativos 63
escolanovistas se desdobram pelas linhas da lei do ensino primário, que se desenvolvem de acordo com a cultura da Escola Nova: as crianças deveriam participar ativamente das atividades, além de vivenciar as atividades e nelas atuar de modo a aprender com a prática. Seu objetivo era criar um ambiente que simulasse partes da sociedade da qual elas teriam que participar na maior parte do tempo quando adultos (OTTO, 2012).
A cultura da mulher doméstica, “mulher para o lar”, até então muito presente em nossa sociedade contemporânea, possui suas raízes no passado, que, através do Estado, impunha esta cultura através de decretos (como o presente, em análise) direcionados à escola. Tome­se como exemplo o Capítulo III ­ Do Curso Primário Supletivo, segundo o qual a grade curricular deveria compreender:
I. Leitura e linguagem oral e escrita.
II. Aritmética e geometria. III. Geografia e história do Brasil. IV. Ciências naturais e higiene. V. Noções de direito usual (legislação do trabalho, obrigações da vida civil e militar). VI. Desenho.
Parágrafo único. Os alunos do sexo feminino aprenderão, ainda, economia doméstica e puericultura.
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Pode­se apreender que até este momento, na história da educação em Santa Catarina (1946), o Estado, através de lei, toma medidas para nacionalizar o ensino. As associações auxiliares da escola aparecem como grupos de apoio aos grupos escolares. Estes constituíram marcos na história das bibliotecas no estado. A partir dessa conjuntura, pode­se pensar nas demais bibliotecas, que tiveram como exemplo as bibliotecas dos grupos escolares, por serem públicas e utilizarem métodos planejados para agregar sócios no espaço e fomentar a leitura para os alunos. A partir do Decreto­Lei nº 298, de 18 nov. 1946, é decretado a Lei Orgânica do Ensino Primário em Santa Catarina como parte da Reforma Elpídio Barbosa.
1.4 O CARGO DE INSPETOR, A BIBLIOTECA E O CLUBE DE LEITURA
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Após o Decreto Lei nº 2.991, que prescreveu os cargos das associações auxiliares da escola, surgiu da necessidade da criação do cargo de inspetor das associações auxiliares da escola, o que aconteceu pelo Decreto nº 3.733, de 12 dez. 1946. Porém, de acordo com Otto (2012, p. 66), em 21 out. 1942, é emanada uma circular, a de nº 94, direcionada aos inspetores escolares, aos auxiliares de inspeção, aos diretores de estabelecimentos de ensino e aos professores das escolas isoladas. Seu objetivo era levantar dados relacionados às “associações escolares” que identificassem o trabalho das associações e sobre ele dissertassem. O cargo de inspetor escolar, por seu regulamento, compreende uma série de atribuições e obrigações. Cumpria a ele verificar, por meio de cada associação, se os grupos escolares estavam cumprindo com suas tarefas:
1. executar e fazer executar as leis e regulamentos escolares e as determinações do Departamento de Educação;
2. exercer por si e por intermédio de seus imediatos auxiliares, os inspetores escolares, inspetor de Escolas particulares e Nacionalização do Ensino, a inspeção e a fiscalização do ensino;
3. emitir parecer sobre questões e assuntos referentes ao ensino.
(DECRETO nº 3.733, p. 3).
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Sendo assim, é função desta associação inspecionar os livros de escrituração, matrícula e frequência, disciplinas e aproveitamento, recreios, programas de orientação, aulas assistidas, provas mensais, provas gráficas, trabalhos manuais, higiene e conservação do prédio, ordem e gosto artístico, material escolar, observações pessoais, pontos capitais de inspeção e o registro de visitas.
Nesta conjuntura, a função do inspetor escolar estava voltada à vigilância escolar, tanto para com o aluno, como até para com os professores; isto aulas assistidas. Esta cultura de vigilância é perceptível nos ideais da escola nova refletindo­se nas diferentes associações auxiliares, como nas bibliotecas e clubes de leitura. Revelando contradições entre o movimento da escola nova e as prescrições destinadas à escola e observadas para as escolas investigadas.
Para finalizar este capítulo, destaco as principais diretrizes voltadas à associação auxiliar biblioteca e ao clube de leitura, considerando como mecanismo de vigilância a biblioteca:
Segundo o documento, compete ao presidente:
F) ­ fiscalizar os atos dos membros da diretoria e trabalhar, com eles, no desenvolvimento e conservação dos móveis e livros pertencentes à biblioteca. Compete aos sócios:
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Art. 519 – Os sócios poderão levar, por espaço máximo de três dias, livros para casa, desde que assumam o compromisso de zelar por eles;
Art. 520 – os sócios que danifiquem livros e revistas da biblioteca ficam privados desse beneficio (Decreto nº 3.735, 1946, p. 72).
A lógica de vigilância não se aplica somente aos sócios ou alunos, mas também aos próprios membros da presidência, que, por sua vez, teriam que fiscalizar os que, em uma escala hierárquica, estariam subordinados à aplicação das regras previstas no decreto. Esta cultura não é diferente das diretrizes do clube de leitura.
Frases como “é recomendável a obediência das seguintes instruções” ou “são seus deveres” ilustram esta cultura de obediência, hierarquização e vigilância tão presente nas fontes analisadas, na tentativa de uma nova pedagogia nos grupos escolares em Santa Catarina.
A análise destes documentos revela as bibliotecas e os clubes de leitura destes grupos escolares como partes integrantes do ambiente e da cultura escolar de cada grupo, que estabelecia que as associações auxiliares da escola trabalhassem em conjunto seus objetivos, assim como trabalhar na perspectiva cultural, esta, de caráter nacionalista. Sua análise histórica revela seu teor vigilante.
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Podemos pensar em como os decretos oficiais estariam sendo apropriados pelos grupos escolares, pelas associações auxiliares da escola e demais atores. Através de pesquisas empíricas, que revelem os dados do período estudado, poderá ser possível responder a estas indagações, contribuindo, assim, para a construção do conhecimento histórico sobre a educação em Santa Catarina. Nota­se a o movimento da Escola Nova no contexto educacional brasileiro. Este movimento, ou a tentativa de implantação desta cultura, fomentou uma série de iniciativas como as leis analisadas neste estudo, que movimentaram a categoria da cultura escolar em âmbito histórico, político e social. Assim como a notável relevância na ampliação das associações auxiliares da escola, estas são regulamentadas através de decretos.
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2 O PRESCRITO PARA O CLUBE DE LEITURA E A BIBLIOTECA
O clube de leitura, como se pôde observar através do Decreto nº 3.735, é definido como um “espaço que desenvolva na leitura o gosto pela boa leitura” e que seja uma poderosa fonte para o desenvolvimento social e cultural, atuando juntamente com a biblioteca. Esta constituiria então a parte material “e o clube da leitura, a parte espiritual da Associação” (DECRETO nº 3.735, 1946, p. 101). As diretrizes do Decreto nº 3.735 apontam para um clube de leitura que contemple o “espírito” do ser humano e que vá além do conhecimento técnico, fazendo com que o conhecimento adquirido no livro amplie a imaginação do indivíduo e o leve à sua verdadeira vocação.
O Decreto nº 3.735 cita que a vida de “grandes homens” e as atividades bem­sucedidas no futuro são frutos de uma boa formação leitora, que, se bem conduzida, só trará bons resultados na vida do homem. Na infância, a leitura é formadora e prepara as crianças para viver em sociedade.
70
A biblioteca desempenha, neste caso, papel fundamental no ambiente escolar, auxiliada pelo clube de leitura, que deveria ser instalado em todos os Grupos Escolares. A partir disso, a biblioteca, como setor físico, deveria trabalhar em conjunto com as associações de leitura e os professores, de modo a atender aos pedidos de livros a serem trabalhados nas práticas e no preparo de seu ambiente para as atividades. O clube, a partir de suas diretrizes, deve ter como propósito o aperfeiçoamento cultural dos alunos, que, por sua vez, se harmonizará com todo o ambiente escolar, assim como foi citado anteriormente, em trabalho conjugado com o da própria biblioteca escolar, de modo a oferecer ao aluno um ambiente propício ao aprendizado e à prática da leitura.
Os regentes das escolas que já contavam com biblioteca própria, deveriam envidar esforços para a criação de uma instituição de apoio, ou o clube de leitura, a fim de propiciar a circulação dos livros entre os alunos nas atividades escolares. O clube contaria com uma diretoria, escolhido anualmente pela diretoria do educandário, compreendendo: um presidente, um secretário e um suplente. O Decreto nº 3.735 71
aponta para a competência de cada membro. Ao presidente competia:
a) presidir às sessões, no mínimo, uma vez por mês;
b) elaborar um plano de trabalho orientado pelo professor incumbido desse mester;
c) trabalhar em plena comunhão de ideias com a diretoria da biblioteca;
d) assinar a ata da sessão anterior, uma vez aprovada;
e) auxiliar pelo menos ao seu alcance, a aquisição de volumes para a biblioteca;
f) observar qual leitura que mais interessa aos sócios;
g) cooperar com os dirigentes da biblioteca quando da realização das festas em benefício dessa instituição;
h) fazer relatório das atividades do clube, no fim do ano letivo, a fim de que o mesmo faça parte integrante de relatório do estabelecimento;
i) apresentar o clube todas as vezes que se fizer necessário (Decreto nº 3.735, p. 101).
O clube, assim como as demais associações, colaborava para a formação dos alunos dos educandários com base nos ideais escolanovistas, que, muitas vezes não condiziam com a realidade apresentada em suas diretrizes; também colaborava com a formação do aluno leitor e com a organização escolar desde o momento em que várias funções haviam sido designadas pelo Decreto nº 3.735.
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O desafio do clube de leitura ultrapassaria as diretrizes e segmentos previstos no Decreto nº 3.735. As diversas modalidades, desempenhadas em conjunto pela comunidade escolar, se expressariam em associações auxiliares, com as quais se cumpririam os objetivos previstos nas leis, e sobre tudo reforçariam a sua cultura escolar.
Aqui, a análise do clube de leitura instituído pelo Decreto nº 3.735 servirá de parâmetro para a análise dos relatórios das atividades do Grupo Escolar Arquidiocesano Padre Anchieta. Antes, porém, será necessário discutir a função da biblioteca na escola.
2.1
A BIBLIOTECA NA ESCOLA A PARTIR DO DECRETO nº 3.735
Nos dias atuais, a biblioteca escolar, nas palavras de Eggert­Steindel (2006), pautada no Manifesto da Unesco para a biblioteca escolar (1999), tem a missão de disponibilizar serviços de informação e aprendizagem aos membros da comunidade escolar, com o fim de despertar o pensamento crítico no emprego da informação. Desde 1946, à biblioteca, no 73
ambiente escolar, cumpre disponibilizar livros de conteúdo compatível com a cultura escolar da época. É o que pretendo demonstrar. O Decreto nº 3.735 atenta para a histórica das bibliotecas escolares na reorganização do ensino em Santa Catarina, onde sempre ocuparam posição de destaque. No primeiro momento, o decreto chama a atenção para a influência desta associação no espírito das crianças, ou dos educandos (DECRETO nº 3.735, p. 69):
Desde os primórdios da reorganização do ensino em nosso Estado, as bibliotecas ocuparam sempre um lugar de destaque nas organizações escolares. Desenvolvendo­se, em torno da campanha do bom livro, um trabalho de cooperação, não foi difícil a organização de bibliotecas nos estabelecimentos de ensino (Decreto nº 3.735, 1946, p. 69).
A organização das bibliotecas na escola abrange grande número de pessoas. Segundo consta no decreto:
Art.498 ­ As bibliotecas serão organizadas em todas as escolas, tendo como fim angariar o maior número de livros que possam ser lidos pelos alunos.
Art. 499 ­ Serão seus organizadores os próprios alunos do estabelecimento, capazes desse trabalho, sendo, por isso, considerados sócios.
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Parágrafo único – Além desses, a biblioteca poderá ter sócios protetores que poderão ser os pais dos alunos, pessoas ou entidades amidas da Educação.
O acervo nas bibliotecas da escola era dividido em três categóricas: 1) livro de consulta do professor; 2) livro de consulta de alunos; 3) livro recreativo (DECRETO nº 3.735, p. 70). Estas categorias eram divididas da seguinte forma:
1º­ Os livros destinados ao professor serão aqueles que o auxiliam e o instruam ao desempenho de suas funções.
2º ­ Os destinados à consulta dos alunos são os que servem para o auxílio no preparo de suas lições ou desenvolvimento de determinadas tarefas escolares.
3º ­ Os livros de contos, narrativas, romances, poesias, descrições, revistas e jornais, álbuns, etc. são os que devem fazer parte dos destinados à leitura recreativa (DECRETO nº 3.735, p. 70).
Este regulamento organiza, a partir de suas diretrizes e leis, como devem funcionar as bibliotecas dos grupos escolares em Santa Catarina a partir de 1946. Através dessas diretrizes, o professor recebe autonomia para atuar nos trabalhos dos alunos 75
junto à biblioteca e os orientar, de maneira a melhorar o desempenho escolar.
É importante ressaltar que este período histórico do Brasil exigia uma postura do Departamento de Educação em relação à atuação da escola relativamente à formação cívica dos educandos. Deste modo, caberia à biblioteca na escola “adquirir todos os livros de propaganda, de grande utilidade para o desenvolvimento cívico”, solicitando­os ao Instituto Histórico e Geográfico e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas do Rio de Janeiro (DECRETO nº 3.735, p. 73). Este período (década de 1940), segundo Machado (2002, p. 91), possibilitou tais mudanças que, apesar de ser introduzidas mediante o Decreto nº 2991, de 28 abr. 1944, sofreu interferências ideológicas oriundas da Escola Nova6, como o caráter centralizador com que eram conduzidas suas atividades através das associações auxiliares.
6 Influência dos reformadores Luiz Trindade (1935) e Elpídio Barbosa (1945).
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2.2 INCENTIVO À LEITURA NA CULTURA ESCOLAR
A partir do decreto­lei nº 298/46, com características de uma nova pedagogia, pelo princípio de que o professor não era mais o personagem central, mas sim a atividade da criança no processo educacional, restringindo­se a dele à de mediador das ações educativas, foram criadas as associações auxiliares. Segundo o estudo de Machado (2002), com a regulamentação do ensino primário na década de 1940 no estado de Santa Catarina e o Decreto nº 3.735, de 19467, pode­se observar o crescimento dos clubes de leitura no estado através das circulares 1930­19418, com diretrizes e objetivos específicos no sentido de estimular e promover a leitura e sua prática oral, assim como sua organização e gerenciamento.
Para uma análise desses espaços de leitura numa perspectiva histórica, tentando entender a cultura escolar 7 Textos para pesquisas sobre o ensino primário em Santa Catarina. Após o Decreto n. 298, aprovando a lei Orgânica do Ensino Primário do Estado de Santa Catarina, foram elaborados os programas para os estabelecimentos de ensino primário.
8 Referências disponíveis em: MACHADO, Alzemi. A implantação de bibliotecas escolares na rede de ensino de Santa Catarina (30/40). 2002. 132 f. Dissertação (Mestrado) ­ Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Ciências Humanas e da Educação, Mestrado em Educação e Cultura, Florianópolis. 77
presente na época, é necessário compreender o tempo e as questões políticas que prevaleciam naquele instante (década de 1940). Para isso, recorri a quatro dissertações que apresentam como problemática o contexto histórico educacional em Santa Catarina na década de 1940: Bacha Pereira (2004), Beirith (2009), Machado (2002) e Zen (2007).
O clube da leitura integra a cultura escolar no sentido de que as atividades desempenhadas tinham como finalidade a transmissão de conhecimentos através da leitura. Consequentemente, os comportamentos em um cenário político pós Estado Novo permitem identificar de que maneira se faziam as leituras no clube e nos espaços de leitura (apesar de não se encontrar na literatura nenhum documento que aborde como se aplicavam as políticas de seleção dos livros escolhidos para as práticas de leitura). São características do Decreto nº 3.735 o sentido de apropriação, a preocupação com o gosto pela leitura e pela leitura oral, o funcionamento das práticas de leitura e a socialização.
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2.3 UMA CULTURA DE BIBLIOTECA
Desde os primórdios da reorganização do ensino em nosso Estado, as bibliotecas ocuparam sempre lugar de destaque nas organizações escolares
(DECRETO nº 3.735, p. 68)
O conceito de biblioteca, a partir do decreto, pode ser entendido como um espaço inserido no ambiente escolar que dispõe de um vasto acervo de litros e outros materiais a serem consultados por alunos (as) e professores (as) e com mesas, cadeiras, computadores, ou seja, um local propício para que os frequentadores da escola possam realizar suas mais diversas tarefas. Ainda assim, este conceito varia de acordo com cada realidade escolar. Algumas escolas oferecem um acervo grande, aberto tanto a alunos (as) como à comunidade local; outras oferecem apenas mesas e cadeiras, “espaço de leitura” para aluno/as e funcionários/as da escola.
Atualmente, considera­se que a função da biblioteca escolar é servir de “ponte” ou mediadora entre a sua comunidade da escola versus a informação e o conhecimento. Através de serviços desempenhados por seus funcionários/as, seu objetivo é armazenar a informação na escola e fazer com 79
que todos/as tenham acesso, desde o ensino primário até o ensino médio.
Este entendimento, em específico sobre o ensino primário, está presente no objeto de análise em questão, o Decreto nº 3.735. A iniciação cultural da criança, o acesso ao conhecimento, o desenvolvimento da personalidade, a iniciação do trabalho e, principalmente, o nacionalismo, são elementos presentes no capítulo I do documento:
Das finalidades do ensino primário Art. 1º ­ O ensino primário tem as seguintes finalidades:
a) proporcionar a iniciação cultural que a todos conduza ao conhecimento da vida nacional, e ao exercício das virtudes morais e cívicas que a mantenham e a engrandeçam, dentro de elevado espírito de fraternidade humana;
b) oferecer, de modo especial, às crianças de sete a doze anos, as condições de equilibrada formação e desenvolvimento da personalidade;
c) elevar o nível dos conhecimentos úteis à vida na família, à defesa da saúde e à iniciação do trabalho (Decreto nº 3.735, p.3).
As finalidades acima configuram o que Chervel (1990) chama de “finalidades da escola”. O autor considera que esta questão é uma das mais complexas a serem pesquisadas, pois 80
seu estudo depende em parte da história das disciplinas. O estudo em questão não tem como foco este aspecto, mas é importante perceber que os fatores históricos, sociais e econômicos se refletiram e se mostram presentes até hoje nas diretrizes escolares. O autor ainda considera que a escola “é, em cada época, tributária de um complexo de objetivos”, ou seja, o conjunto de finalidades e a cultura escolar apontam caminhos pelos quais devem caminhar as atividades escolares.
A cultura de biblioteca, apresentada no Decreto nº 3.735 acata princípios básicos e costumes que podemos considerar até hoje essenciais a uma biblioteca escolar, tais como: organização do acervo e gestão especializada. É importante atentar para a preocupação do decreto com respeito à leitura infantil, pois, segundo o artigo 5039 (p. 70), “[...] somente possuirão livros de leitura ao alcance da inteligência infantil e que, de qualquer modo, possam contribuir para o seu desenvolvimento cívico, moral e intelectual”. Além do alerta para o conteúdo didático ou literário do livro infantil, mais uma vez se insiste no civismo, muito presente em todo o decreto, não apenas neste artigo. 9 Capítulo II do Decreto n. 375. BIBLIOTECA.
81
Em termos de organização do acervo da biblioteca na escola, dispunha o decreto que os livros fossem divididos de acordo com a seguinte categoria: livro de consulta do professor, livro de consulta dos alunos10 e livro recreativo. Pode­se perceber a participação dos próprios alunos na “gestão”, considerando­os sócios, além de seus pais, pessoas ou entidades ligadas a educação, e de um patrono. A direção da biblioteca deveria estar diretamente na mão dos alunos, orientados por um professor. De acordo com o decreto, seria a seguinte sua composição:
ART. 507º – A DIRETORIA DA BIBLIOTECA SERÁ COMPOSTA DE:
a) presidente;
b) vice–presidente;
c) primeiro secretário;
d) segundo secretario;
e) primeiro tesoureiro;
f) segundo tesoureiro;
g) primeiro bibliotecário;
h) segundo bibliotecário;
i) auxiliar (um por classe que não possuir membro na diretoria). (DECRETO nº 3.735, p.70).
10 A direção da biblioteca, composta pelos alunos, é explicada no decreto pela justificativa de que esse espaço tem finalidade de caráter social­infantil. 82
A questão da presença da família no ambiente escolar e das demais “amigas da educação” na organização da biblioteca revela uma cultura de sociabilidades que para ela se pretendia.
Exemplificando, as bibliotecas, não somente as escolares, mas também as universitárias, as públicas e particulares são entendidas como um espaço de troca de experiência e informação, apesar de todo o conservadorismo que ainda impera em algumas delas. O decreto, desde 1946, considera seu espaço, principalmente em ambiente escolar, como um espaço sociocultural de troca de informações.
A questão financeira é importantíssima para qualquer setor da escola, principalmente a biblioteca da mesma, a qual precisa adquirir livros; além disso, o decreto revela preocupação com a economia, principalmente com modos para conseguir aumentar fundos econômicos necessários para as atividades da biblioteca. Portanto as ações propostas no decreto não se limitam ao objetivo do incentivo e promoção à leitura, mas, realisticamente, se ocupam também com as questões financeiras. Oferece algumas sugestões:
Art. 500 – Por meio de festivais, benefícios ou donativos, a biblioteca poderá aumentar o seu fundo econômico, competindo aos 83
professores e à diretoria provocarem tais meio.
Art.501 – As bibliotecas serão constituídas e aumentadas com as contribuições angariadas e com os donativos em espécie ou dinheiro, feitos por qualquer pessoa ou entidade.
Art. 502­ A biblioteca escolar, principalmente nas zonas rurais, poderá ser franqueada aos pais dos alunos ou outras pessoas que desejarem frequentá­la, favorecendo­se, desse modo, a aproximação entre a escola e o meio.
Parágrafo Único – As bibliotecas deverão ser enriquecidas sempre, por meio de recortes devidamente colecionados em volumes. Para a execução desses volumes, haverá uma estreita colaboração entre professor e alunos, desenvolvendo assim o gosto pela leitura de jornais e revistas e o aproveitamento da parte sadia das publicações. (DECRETO nº 3.735, p. 69).
A importância da biblioteca na escola é histórica. O decreto deixa marcas que demonstram grande capacidade e força como cultura escolar nas escolas do estado. Ainda no capítulo II do decreto, faz­se menção aos clubes de leitura nas bibliotecas, insinuando que serão eles os responsáveis pelo desenvolvimento do gosto pela leitura. Neste sentido, serão analisadas agora suas propostas, de modo a perceber que tipo de clube de leitura existia em 1946.
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2.4 O CLUBE DE LEITURA ENTRE A CULTURA ESCOLAR E AS PRÁTICAS DE LEITURA
O Decreto nº 3.735 contém as diretrizes para a efetivação dos clubes de leitura, suas ações, objetivos e instruções, além de orientações para os coordenadores. Fica claro que as práticas culturais da época e a cultura escolar se refletiam nessas instruções, assim como este documento histórico nos remete à memória e aos cenários culturais da época. Isto, de algum modo, por deslocados no tempo, torna difícil uma análise sem pensar na realidade dos dias atuais. Bereta (2013) entende que a cultura escolar deve ser pensada estabelecendo as relações que ela mantém em cada tempo histórico com o conjunto de culturas que lhe são contemporâneas.
Segundo a dissertação de mestrado desenvolvida por Zen (2006), pelo Programa de Educação e Cultura (Udesc), é nos relatórios da biblioteca e do clube de leitura que se podem observar alguns indícios do uso dos livros e das práticas de leitura de 1941 a 1959, no Grupo Escolar Alberto Torres, em Brusque (SC).
85
O estudo de Zen (2006) traz evidências que mostram como o clube de leitura fazia parte da cultura da biblioteca e nos permite pensar essa instituição como um espaço físico do ambiente escolar, e o clube de leitura como responsável pelas atividades de incentivo à leitura e à cultura.
Segundo o decreto, tais clubes foram criados com o intuito de desenvolver o gosto pela “boa” leitura, oferecendo às crianças uma poderosa fonte de conhecimento para sua cultura e desenvolvimento social.
Este era, primeiramente, o objetivo da prática da leitura por parte dos alunos frequentadores do clube. Nenhum documento especifica que tipo de “boa” leitura era essa, nem se conserva processo de aquisição feito pelas bibliotecas dos grupos escolares em Santa Catarina na década de 1940. O que se pode pensar é que, além da aquisição da informação e do conhecimento, o livro seria capaz de diversos usos. Chartier (2003) acredita que a leitura não é uma invariante histórica, mas um gesto individual ou coletivo, dependendo das formas de socialização e do conceito de individualidade. Uma característica perceptível no começo do capítulo VIII do decreto ­ destinado exclusivamente aos clubes de 86
leitura ­ é que se acreditava que, através da leitura, ou melhor, do hábito de ler, os indivíduos iriam se tornar “grandes homens”. Como poderemos observar adiante, a leitura das atas dos grupos escolares mostra como as atividades de leitura eram sobre homens que simbolizavam a figura de heróis nacionais.
Não há, em momento algum do texto, menção à mulher. A leitura de bons livros é justificada pelo fato de que a vida de grandes homens, em todos os ramos da atividade, nos “bons” livros, “está cheia de exemplos que nos servem de guia” (DECRETO nº 3.735, p. 101). A década de 1940 e as práticas de leitura resguardam memórias que ainda podem ser percebidas nos dias atuais. Assim como em alguns espaços de leitura dos dias de hoje, o decreto apontava algumas “regras” a serem seguidas; talvez essa cultura possa ser classificada, de acordo com Chartier (2001), como uma prática que parte do gesto de como o leitor se posiciona em relação à atividade proposta pela leitura.
A obediência às regras é recomendada no decreto aos leitores/as e também aos bibliotecários:
578­ É recomendável a obediência das seguintes instruções:
1 – Os Clubes de Leitura destinar­se­ão aos alunos do estabelecimento, uma vez que já 87
possuam a necessária capacidade de compreensão.
2­ Os trabalhos desses Clubes deverão ser executados em perfeita harmonia com os da biblioteca.
3­ Quanto possível, os Clubes de Leitura terão as suas portas franqueadas aos alunos, pois, a determinação de horários nem sempre atenderá às circunstancias da vida do aluno quando fora da escola.
4­ Os regentes das escolas que possuam biblioteca devem esforçar­se no sentido da criação de seu clube de leitura, porque os livros da biblioteca não se destinam a simples enfeite da escola.
5­ O mesmo patrono da biblioteca será cultuado pelo clube de leitura.
6 – Para dirigir o clube de leitura anualmente, em fevereiro, será eleita uma diretoria composta de: um presidente, um secretário e um suplente (DECRETO nº 3.735, p. 101).
A cultura presente no decreto nos leva a pensar que os clubes de leitura fazem parte da biblioteca. Assim, como integrantes do ambiente e da cultura escolar, dirigiam suas atividades prioritariamente aos alunos, não deixando de servir a todos os membros da comunidade escolar; porém, como o decreto apontava para a regulamentação do ensino primário em Santa Catarina, o que fica mais explícito em sua análise é a cultura de incentivo à leitura às crianças do ensino primário.
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Como já foi exposto, não foram localizadas fontes a respeito do processo de aquisição de acervo das bibliotecas; portanto, não é possível pensar que tipo de literatura infanto­
juvenil era apresentado aos alunos (as), embora seja possível pensar em alguns tipos de uso presentes nas atividades.
O presidente, responsável pela direção do clube, tinha como dever presidir sessões, elaborar um plano de trabalho orientado por um professor, ser dinâmico e interdisciplinar, pois os trabalhos a ele designados tinham que estar “em plena comunhão de ideias com a diretoria da biblioteca” (DECRETO nº 3.735, p.101). Cabia a ele, entre outras atribuições, vigiar a conduta dos colegas e observar qual leitura mais interessava aos sócios.
A preocupação com a direção do clube é explícita no decreto, tanto nos aspectos administrativos (no que diz respeito aos deveres e objetivos do presidente), assim como nos de incentivo à leitura, tendo como foco principal a formação cultural e intelectual das crianças. Leão (2007), no seu estudo sociológico sobre Norbert Elias e a Educação, parte da ideia de que a difusão dos livros valoriza ideias e valores, o livro é um veículo de comunicação que aponta para o quê é permitido e proibido, intervindo no íntimo, nas emoções, e formando sensibilidades.
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Neste sentido, o trabalho em conjunto entre os membros atuantes do ambiente escolar e nos clubes de leitura faz parte do processo de “difusão dos livros”. Considerando a cultura presente ou as culturas de cada escola, cada uma se apropria de uma maneira específica, de alguma forma definindo como serão trabalhadas as diferentes culturas e representações sociais.
Nas disposições gerais e finais do capítulo VIII, além das últimas diretrizes de auxílio à direção e práticas no clube, há resquícios de uma cultura presente até os dias de hoje nas bibliotecas diversas; um deles, o de fazer “silêncio”.
É interessante pensar nessa cultura, que perdura até os dias atuais como o foi na década de 1940; se a finalidade do clube de leitura era socializar leituras, incentivar a leitura oral, inovar a biblioteca e fazer com que os alunos se sentissem à vontade naquele ambiente, a reflexão pode ser feita no sentido de se pensar nos hábitos que se estariam produzindo na cultura biblioteca e em como essas ações se refletem ainda hoje. A cultura nacionalista está presente tanto na biblioteca como nos clubes de leitura. Esta característica, presente no Decreto nº 3.735, não se limita a esses dois itens, mas se estende também às demais associações escolares, pois se 90
acreditava, com isso, que as crianças teriam melhor noção de Estado, vindo a se tornar indivíduos cultos e aptos para conviver em sociedade.
Este capítulo possibilita pensar que a extensão das associações auxiliares à escola ampliaria o número de clubes de leitura nos grupos escolares. Os clubes, por sua vez, ajudavam a fomentar a cultura produzida na escola, não somente através das práticas de leitura, mas, assim como nos professores e alunos, também junto a todos que participassem das atividades.
O ambiente escolar reproduz a atmosfera cívica que ronda a sociedade de uma época, assim como a cultura do silêncio nos momentos de leitura é reproduzida até os dias atuais, entendendo­se que, para formar “bons” leitores, é preciso um ambiente silencioso, assim como para formar um “bom homem” são necessários conhecimentos sobre a própria pátria.
Os fatores históricos, sociais e econômicos que influenciaram a regulamentação para os estabelecimentos de ensino primário no estado de Santa Catarina refletem­se nas ações e práticas adotadas pelas associações citadas no decreto. Para se analisar a cultura escolar é preciso levar em 91
consideração como estes significados se apropriaram dessa reformulação educacional.
As regras e os deveres são frequentemente citados ao longo do Decreto nº 3.735, talvez para tentar legitimar a “ordem e as boas maneiras” dentro no ambiente escolar. Essas diferentes culturas escolares da década de 1940 podem refletir­
se até hoje nos pátios, bibliotecas e salas das escolas.
No próximo capítulo, o Grupo Padre Anchieta e o Grupo Escolar Olívio Amorim serão apresentados a partir do exame das atas e relatórios de sua biblioteca e de seu clube da leitura, com o intuito de colher sua cultura através do prescrito em suas práticas. Esta análise prestará atenção às diferenças culturais entre um grupo escolar confessional (arquidiocesano) e um grupo escolar laico.
As atas e relatórios da Associação Biblioteca do Grupo Escolar Olívio Amorim revelam um espaço presente no ambiente escolar a partir do Decreto nº 3.735, ao qual se atribui a responsabilidade pela disposição em organizar e disponibilizar um acervo para alunos e professores do grupo escolar.
O clube desse grupo escolar apresenta características que se assemelham às do Clube do Grupo Escolar Padre 92
Anchieta, porém com algumas diferenças em relação aos nomes. O primeiro homenageia uma figura ligada ao cristianismo, o padre Anchieta, enquanto o segundo, um político, Olívio Amorim. Pretendo, a partir dessas evidencias, aprimorar o estudo e perceber as diferentes culturas escolares prescritas nas atas e relatórios de cada grupo.
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GRUPOS ESCOLARES E ASSOCIAÇÕES AUXILIARES
Neste capítulo apresento as associações auxiliares da escola, com foco nas associações de leitura (clube de leitura e biblioteca). Com relação às duas associações dos educandários citados, destaco que o que o conjunto de dados que compreendem relatórios e atas foi consultado no Arquivo Público de Santa Catarina.
O Decreto nº 3.735 oferece inúmeras possibilidades de leitura, embora me limite aqui a atas e relatórios dos clubes e bibliotecas citados, o que fiz seguindo como inspiração o estudo Leituras e leitores na França do Antigo Regime de Roger Chartier (2004). Muitas foram as dificuldades encontradas para entrar no “mundo do arquivo” ­ o Arquivo Publico do Estado de Santa Catarina. As primeiras dificuldades se referem aos quesitos localização geográfica e facilidade de acesso. Foram necessárias muitas idas e vindas para chegar até os materiais e para poder compreender o que as linhas das atas significavam naquele tempo e como elas poderiam ser (re)significadas nos 94
dias atuais. Apesar de algumas “pedras” no caminho, considero representativos os dados empíricos coletados sobre a temática e o período investigado. Não por sua quantidade, mas pelas características de uma cultura escolar de outro tempo e época.
Durante o processo de leitura das fontes coletadas senti necessidade de fazer algumas leituras teóricas que me ampliassem o entendimento ou o significado de alguns aspectos das atas. Neste sentido, a obra Vigiar e Punir de Foucault me auxiliou a entender melhor as estratégias e métodos utilizados para manter a ordem e a disciplina na sociedade daquela época, assim como alguns mecanismos utilizados naqueles grupos escolares, dos quais alguns resquícios sobrevivem até os dias atuais. A obra A Ordem do Discurso do mesmo autor também veio em meu auxílio para analisar os discursos presentes nas atas analisadas, juntamente com o proposto pelo Decreto nº 3.735, assim como para entender, da maneira historiográfica de Bacha Pereira (2004, p.14), “os diversos procedimentos que cerceavam e controlavam os discursos da sociedade autoritária”. Além das obras citadas, também precisei ler autores nacionais, por sua maior proximidade da realidade educacional latino­americana e, ainda, pelos aspectos políticos, culturais e historiográficos do nosso país. Refiro­me, em especial, à leitura 95
de pensadores signatários do Manifesto dos Pioneiros (1932), como a obra Educação não é privilégio, de Anísio Teixeira, e a diversas obras na área da educação de autoria de Cecília Meireles. Estas obras fundamentam melhor a minha leitura e a interpretação de outro tempo na história da educação de Santa Catarina. Além disso, estes autores vivenciaram o pensamento educacional do período estudado e exerceram influência direta sobre ele.
Seguindo esse mesmo raciocínio, uma obra que me ajudou a pensar a educação brasileira foi a de Paulo Freire, principalmente com seu texto A importância do ato de ler. Apesar de o autor não fazer parte da corrente pensadora do período estudado, ele nos leva a refletir acerca da educação brasileira de uma maneira geral, em razão da forte influência e do prestígio dentro da ciência, com destaque na área da educação. Paulo Freire é um dos mais importantes teóricos do Brasil; sua obra ajuda a compreender diversas questões que permeiam a problemática da educação. Sua visão sempre teve como foco o aluno, a criança, uma educação libertadora, gratuita e a emancipação do indivíduo oprimido.
Algumas outras leituras também são citadas, embora em menor proporção, mas não por isso menos importantes na perspectiva da história da educação nacional e, principalmente, 96
no estado de Santa Catarina, no período do qual se ocupa meu estudo (1946­1956). Trata­se de leituras sobre heróis nacionais, períodos históricos e conceitos políticos que também possibilitaram um entendimento mais ampliado das atas.
No decorrer do trabalho, transcrevo excertos de atas; em outros momentos, apenas alguns dados, por considerar que em determinadas situações é indispensável para o leitor a visão de todas as informações encontradas no documento e, em outros casos, por considerar que nem todas as informações contidas nas atas contribuem para a reflexão deste trabalho. A apresentação minuciosa de trechos de algumas atas é necessária para se entender e melhor compreender o discurso ali presente, suas características, a maneira como então se redigiam as atas e nelas se embutia a cultura escolar, diferente para cada grupo escolar, sempre admitida a elaboração de secretários pertencentes aos respectivos grupos. Destaco que a análise das atas não obedece a uma ordem cronológica, senão a uma “ordem” dos acontecimentos na medida em que foram se desdobrando durante o trabalho. Considero que, desta maneira, a leitura se dinamiza mais, à medida que os assuntos dialogam entre si independentemente de datas e fatos. Neste sentido, este capítulo se divide apenas entre os registros da Associação Auxiliar Biblioteca e Clube de 97
Leitura. Porém, no decorrer do trabalho, tento relacionar os grupos escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim, justamente para comparar suas culturas, de modo a tentar, de maneira historiográfica, descrever a história das culturas e práticas distintas de leitura de dois grupos escolares, admitido, por pressuposto, o princípio elaborado por Le Goff (1990, p. 6) de que documentos não são neutros, mas demonstram “o poder da sociedade do passado sobre a memória e o futuro”. Os clubes de leitura e as bibliotecas dos grupos escolares Padre Anchieta (arquidiocesano) e Olívio Amorim (laico) terão como foco três questões centrais: a cultura escolar nas práticas de leitura; a participação dos professores no desenvolvimento de práticas de leitura e o modo de socialização empregado nas atividades. É importante frisar, a partir da história da educação catarinense, que a trajetória destes documentos contemple o contexto educacional da reforma de 1946, realizada pelo professor Elpídio Barbosa. (MACHADO, 2002).
Os documentos mostram que fazia parte da cultura escolar dos grupos escolares de Santa Catarina da década de 1940 homenagear figuras políticas, educacionais ou até mesmo 98
religiosas para nomear as associações auxiliares da escola, o que vale para bibliotecas escolares e clubes de leitura.
Esta ideia de cultura dos grupos escolares remete novamente ao estudo de Prates, Teive e Toccheto de Oliveira (2012), no sentido de que a criação dessas associações tinha como objetivo, desde 1944, criar práticas singulares através de sua cultura específica, procurando atender às necessidades e especificidades da cultura presentes em cada grupo escolar. As atas foram analisadas na perspectiva de Faria Filho (2002), levando em consideração o contexto e a intenção dos sujeitos na descrição do conteúdo.
3.1 OS CLUBES DE LEITURA DOS GRUPOS ESCOLARES PADRE ANCHIETA E OLÍVIO AMORIM
As atas e os relatórios demonstram como eram presididas as reuniões e como eram realizadas as práticas de leitura pelos alunos nos clubes de leitura. Por meio destes documentos, também é possível perceber a hierarquia exercida pelo presidente. De acordo com Chartier (1995), hierarquias correspondem a produções ou hábitos culturais. No caso em estudo, tratava­se, de um lado, de uma cultura escolar presente 99
em um educandário arquidiocesano. Neste, as sessões de leitura compreendiam exercícios de autores famosos brasileiros e a declamação de poesias nacionais. As reuniões do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta ocorriam em salas de aula, sempre conduzidas por professores e alunos. A prática de leitura em voz alta era prática constante nas sessões mensais do clube de leitura. Já as atas e relatórios do clube de leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim não descreviam, até o ano de 1949, em que locais ocorriam as suas reuniões. No entanto, foi possível identificar nas atas desse grupo algumas características do ambiente no qual ocorriam as sessões ­ como cadeiras, mesas, utilização de cadernos, leitura de livros –, as quais indicam que essas reuniões talvez fossem realizadas na própria biblioteca da escola ou até mesmo em uma sala de aula reservada para esta associação.
A escolha do nome do político Olívio Januário de Amorim, da década de 193011, como patrono, deixa rastros para pensar que a cultura desta escola estivesse mais envolvida com os aspectos políticos da época do que com os religiosos, 11 Informações da AN Capital: http://www1.an.com.br/ancapital/1999/ago/11/index.htm. Acesso em: 10 set. 2014.
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da mesma forma que Tereza Ramos era uma homenagem prestada ao nome da mãe de Nereu Ramos, governador de Santa Catarina de 1935 a 1945. Tereza Ramos e Vidal Ramos (casados) eram personagens conhecidos da região sul, que colaboraram na expansão da educação em Santa Catarina.
Segundo consta na ata das Associações Auxiliares da Escola do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta, do dia 10 abr. 1948, as reuniões eram realizadas na sala “Tiradentes” e conduzidas pela presidente, professora Diná Cordeiro Ferreira, que nesta data abriu a sessão pedindo para que os alunos lessem os exercícios da sala de aula. Constam, na ata, como exercícios realizados pelos alunos o exame da biografia de Santos Dumont e do Duque de Caxias. Assim que terminassem a leitura, os alunos deveriam recitar uma poesia.
Ainda na mesma sessão12:
A senhora presidente recomendou aos presentes que, na próxima reunião, escolheria outros alunos para lerem seus exercícios de aula. Não havendo mais nada que tratar, ficou encerrada a sessão, lavrando eu, o 1º secretário, a presente ata (Ata, p. 309, 1948).
12 Sessão era o nome atribuído nas atas do Clube de Leitura do grupo escolar Padre Anchieta aos momentos de atividades como reuniões e práticas de leitura do clube. Todas essas atividades eram consideradas sessões e constavam em atas/relatórios direcionadas à Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina.
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Nesta sessão estavam presentes Kevirton Lisbôa, 1º secretário, Diná Cordeiro Ferreira, presidente, Guiomar Souza, 2º secretário e Edir Cardoso, suplente, alunos do Grupo Escolar Padre Anchieta, exatamente como prescrevia o Decreto nº 3.735 (1946, p. 101). As atas deste período no Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta apresentam muitos elementos da cultura brasileira como parte do projeto de nacionalização proposta pela Escola Nova. Em 10 mai. 1948, além das biografias de Duque de Caxias e Santos Dummont, os alunos teriam que pesquisar outros nomes da história do Brasil, ficando assim estabelecido na sessão:
Aos dez dias do mês de maio de 1948, reuniram­se a diretoria e os sócios do Clube de Leitura a fim de tratar de seus trabalhos.
Presidiu a reunião a senhora professora encarregada da referida associação.
Uma vez aberta a sessão, a sra presidente falou a respeito da organização de um álbum para o Clube de Leitura. Pediu às crianças figuras de personagens célebres da nossa história, heróis brasileiros, etc. Os presentes mostraram­se interessadíssimos no assunto.
A seguir foi lida a Ata da reunião anterior. (...) (ATA, 1948, p. 309­310).
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Era um momento histórico no Brasil, tanto no sentido político, econômico e social, como no da educação, em que o Estado sentia necessidade de (re)viver o espírito patriota no coração dos brasileiros e achava que os grupos escolares seriam uma ferramenta para despertar o sentimento de civismo no coração dos mais jovens. As associações auxiliares serviam de ponte para este pensamento, principalmente as que atuavam diretamente com a leitura. Ambos os grupos escolares mobilizaram o espírito patriótico por meio de sua cultura escolar. A partir das reuniões de 1949, os relatórios do Grupo Escolar Olívio Amorim passam a identificar os locais em que se realizavam as sessões do clube de leitura. O primeiro local a ser identificado no relatório é uma sala de aula que recebia o nome de José do Patrocínio, uma alusão ao jornalista, escritor e ativista brasileiro José Carlos do Patrocínio13 (1853­1905). Pode­se observar, nesta característica, a diferença entre as homenagens com que cada grupo pretendia fazer. Observam­se 13 José Carlos do Patrocínio fundou a Confederação Abolicionista e participou ativamente da campanha até o momento da Lei Áurea. “Patrocínio manteve­se ligado à Princesa Isabel, recusando adesão aos Republicanos. Os amigos da Confederação afastaram­se dele”. Fonte: <http://www.e­biografias.net/jose_patrocinio/>. Acesso em: 03 abr. 2015. 103
homenagens e menções a figuras cristãs na cultura escolar do Grupo Escolar Padre Anchieta, enquanto no Grupo Escolar Olívio Amorim estão presentes personagens da cultura brasileira, em sua maioria, cidadãos políticos que, de alguma forma, contribuíram historicamente para o crescimento do País. No caso do Grupo Escolar Olívio Amorim, laico, a figura política representa o fator do nacionalismo, crescente à época, ou que estava tentando se inculcar na cultura educacional brasileira através de uma nova pedagogia.
Na mesma sessão ocorrida na sala José do Patrocínio, pode­se observar o trabalho em conjunto da Associação Auxiliar Clube de Leitura e da Associação Auxiliar Biblioteca:
Aos quatorze (14) dias do mês de junho do ano de mil novecentos e quarenta e nove (1949) as onze horas e dez minutos (11,10 h) realizou­se mais uma reunião do Clube de Leitura na sala “José do Patrocínio. Achavam­se presentes todos os membros desta Associação, bem como diversos alunos dos terceiros e quartos anos. Procedeu­se a leitura da ata da reunião anterior. Logo em seguida foi marcado para o corrente mês, leitura de alguns livros da Biblioteca escolhidos pelo Presidente desta Associação, a fim de fazermos novo concurso com os alunos dos terceiros anos (Ata, 1949, p. 105).
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Identifica­se, além da parceria entre a biblioteca e o clube de leitura como associações auxiliares de leitura deste grupo escolar, a prática de leitura que seria realizada com os alunos dos terceiros e quartos anos, assim como um concurso de leitura com os alunos dos terceiros anos. Isto pode ser identificado como prática de incentivo e fomento à leitura, com a ideia de se premiar a turma que fosse considerada “melhor leitora”, além da possibilidade de se premiar a turma que lesse o maior número de livros, ou fizesse uma leitura “correta” dos textos escolhidos pelo presidente da associação. Ao mesmo tempo em que se definia a forma de disciplinar esta prática, escolhia­se naquele momento quem iria ler e quem julgar, confirmando a construção de um espaço hierárquico na cultura escolar e no ambiente desse grupo escolar: marcavam­se lugares, indicavam­se valores através de premiações, de meritocracia; garantia­se a obediência dos alunos e o controle dos afazeres de leitura presentes no contexto escolar (FOUCAULT, 1977, p. 135).
O Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim tinha como prática de sua cultura escolar leitora o que foi possível identificar ou traduzir como leituras além das sessões do Clube e da Biblioteca – a se realizar basicamente em datas pré­agendadas às sessões do Clube de Leitura ­, realizadas até 105
então na sala José do Patrocínio, na qual se praticava a “Hora de Boa Leitura”. Os membros sócios passavam, nas salas escolhidas para a realização da leitura com os alunos e as socializar entre os presentes nas salas escolhidas. “Logo em seguida foram marcados os dias para fazer a Hora da Boa Leitura nas seguintes salas: segundo, terceiro e quartos anos do turno da manhã” (ATA, 1949, p. 106).
Observando­se a partir de uma visão macro, na perspectiva da história da leitura nas escolas, pode­se perceber como característica das associações auxiliares, o envolvimento com o incentivo à leitura e os espaços necessários no ambiente escolar para o fomento de tais ações. Esta leitura permite perceber o diálogo atemporal presente na história da nossa educação e da leitura, com a aproximação histórica do pensamento norteador dos educadores do Manifesto dos Pioneiros com a pedagogia de Freire14. Tomando como base o estudo “Cecília Meireles, a escola nova e as significações de cultura em Freire”, de Todaro e Landolpho, os autores aproximam os elementos destes pensadores a respeito do 14 Este estudo não pretende, de maneira alguma, comparar a Educação Nova proposta pelo Manifesto dos Pioneiros com a Educação Libertadora, mas tão somente apontar resquícios, permanências e culturas similares, por entender ser historicamente pertinente e importante para se debater o âmbito educacional e de leitura dos dias atuais e com ele dialogar.
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sentido de cultura, “tema caro aos dois em suas atenções à condição humana e às praticas inclusivas e libertárias” (TODARO, 2013). A autora partilha da idéia de que os escolanovistas acreditavam na educação como um elemento de mudança, que se aproximava da filosofia freiriana, que expressava grande apreço por essa dimensão cultural, “indo além das conjecturas subjetivas de Cecília Meireles”. Segundo Todaro:
Cecília Meireles e Paulo Freire possuíam semelhanças inspiradoras: ambos acreditaram e lutaram com desvelo pela educação; ambos sofreram perseguições e difamações de ditaduras e de conservadores; tanto ela quanto ele demonstravam um profundo humanismo, expressos de maneiras particulares, mas com raízes muito próximas. Destas semelhanças, talvez, tenhamos a aproximação das significações de culturas, presentes nos trabalhos e convicções de ambos.
Paulo Freire, em sua obra “A importância do ato de ler”, de 1981, leva a refletir sobre alguns aspectos presentes na década de 1940, assim como ainda são muito atuais na ótica dos atuais estudos sobre leitura nas escolas:
A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem 107
dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado ­ e até gostosamente ­ a "reler" momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo (FREIRE, 1981, p. 4).
O autor nos ensinou a acreditar que a leitura, além das finalidades pedagógicas essenciais à formação da criança no sentido de aumentar sua sensibilidade, estimula o pensamento e ajuda na escrita, esta tem também o potencial de despertar seu senso crítico para além dos muros da escola e para além das páginas dos livros. A leitura e o ato de ler têm como função despertar o pensamento do cidadão para as desigualdades e opressões vivenciadas em nosso cotidiano, pois uma sociedade leitora é também uma sociedade crítica e capaz de enxergar com mais nitidez as falhas do nosso sistema.
Dentro da vasta produção de Paulo Freire, encontra­se uma de suas principais obras, a Pedagogia do Oprimido, cuja ideia central é a criação de uma nova pedagogia, que tem como segmento filosófico a educação libertadora, ou seja, uma pedagogia libertadora que é contra os meios didáticos 108
retrógrados que têm como característica elementos culturais burgueses e conservadores, impedindo, assim, o desenvolvimento intelectual, sensitivo e humanístico dos alunos. A educação libertadora proposta por Paulo Freire (2009) se opõe, de forma combativa, à educação “bancária”, alienante, que consiste na transferência de informações dos professores para os alunos, em que o aluno escuta e decora os conteúdos.
Em lugar de comunicar­se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá­los e arquivá­los (FREIRE, 2009, p. 66).
Considero o livro, a leitura e a biblioteca instrumentos elementares para a proposição de uma nova educação, uma educação de base que tenha como objetivo tornar os alunos pensadores críticos e humanistas. Na atual conjuntura, é importantíssimo que nossos alunos leiam cada vez mais, as mais diversas literaturas, sobretudo as brasileiras, nossos livros de história. É preciso, para que a nossa sociedade consiga se emancipar, que tenha o conhecimento do que se passou para que possa entender o presente e não voltar a cometer os 109
mesmos erros cometidos no passado. Neste sentido, através da leitura e do conhecimento, o povo leitor, de posse de sua própria história, possa criar uma nova historia social, memórias e identidades, fatores de extrema relevância para a emancipação de um país. Freire entende que:
Algum tempo depois, como professor também de português, nos meus vinte anos, vivi intensamente a importância elo de ler e de escrever, no fundo indicotomizáveis, com os alunos das primeiras séries do então chamado curso ginasial. A regência verbal, a sintaxe de concordância, o problema da crase, o sinclitismo pronominal, nada disso era reduzido por mim a tabletes de conhecimentos que devessem ser engolidos pelos estudantes. Tudo isso, pelo contrário, era proposto à curiosidade dos alunos de maneira dinâmica e viva, no corpo mesmo de textos, ora de autores que estudávamos, ora deles próprios, como objetos a serem desvelados e não como algo parado, cujo perfil eu descrevesse. Os alunos não tinham que memorizar mecanicamente a descrição do objeto, mas apreender a sua significação profunda. Só apreendendo­a seriam capazes de saber, por isso, de memorizá­
la, de fixá­la. A memorização mecânica da descrição do elo não se constitui em conhecimento do objeto. Por isso é que a leitura de um texto, tomado como pura descrição de um objeto, é feita no sentido de memorizá­la, nem é real leitura, nem dela portanto resulta o conhecimento do objeto de que o texto fala (FREIRE, 1989, p. 11).
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Partilho da ideia de que a leitura, tanto na década de 1940, com as associações auxiliares da escola, quanto nos dias atuais, seja um instrumento didático, que, se utilizado de maneira interdisciplinar, entendendo a sensibilidade dos alunos e compreendendo a cultura escolar dos pares, poderá provocar resultados satisfatórios do ponto de vista pedagógico. A leitura e os clubes de leitura, por sua vez, nos grupos escolares, não se faziam apenas de livros e professores, mas também de alunos, bibliotecários, assistentes, de todos os “sócios”, tanto dos clubes de leitura, quanto da mobília da escola, das salas de leitura e de suas bibliotecas.
Pode­se identificar nas reuniões do clube os atores como elementos marcantes das culturas escolares do Grupo Escolar Padre Anchieta, como afirma Viñao Frago (2007, p. 88). Não só de pessoas, porém, se formam os atores na cultura escolar; elas também podem ser representadas por linguagens, por formas de comunicação e aspectos organizacionais da instituição. Os aspectos arquidiocesanos, religiosos nesse caso, podem ser identificados nesta questão.
Contudo, as diretrizes do Decreto nº 3.735 enfatizam a enorme importância da biblioteca no ambiente da escola: “Se a 111
biblioteca representa parte material, o clube de leitura é por assim dizer a parte espiritual da associação” (DECRETO nº 3.735, p. 101). As atividades de leitura são inseridas neste local, o que não se percebe na sessão de 10 de outubro de 1948 em que se realizou ao que consta em uma sala intitulada “Tiradentes”.
A importância de estas duas associações atuarem em conjunto remete ao aspecto da biblioteca da escola como um espaço de sociabilidade para a comunidade escolar. Segundo o estudo de Eggert Steindel (2012, p. 73), no Decreto nº 3.735 é perceptível a categoria de sociabilidades atribuída às associações auxiliares, assim como é claro ao fazer entender que a biblioteca não é uma instituição complementar isolada, mas que necessita da integração com a outra associação.
Nos relatórios do Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim dava­se mais importância ao número de alunos presentes em cada sessão do que nas atas do Grupo Escolar Padre Anchieta. Além destes dados, a ata ainda apresentava os assuntos discutidos na sessão, como se pode observar na seguinte descrição:
Aos doze dias do mês de agosto, do ano de mil novecentos e quarenta e nove (12­8­1949), nêste grupo, na presença de trinta e três alunos (33) dos 3º, 4º, 2º sob a orientação da 112
Professora encarregada do Clube de Leitura, procedeu­se mais uma reunião para tratar de assuntos referentes a esta associação. Foram ventilados os seguintes assuntos: leitura da ata da reunião anterior feita pela sra. Secretaria
2) Teve a palavra o Sr. Presidente, pedindo que todos os membros desta associação procurem fazer propaganda da campanha do ovo. Nada mais havendo a tratar, dei por encerrada a reunião... (ATA, 1949, p. 91).
Por se tratar de um período de nacionalização do ensino, no Grupo Escolar Olívio Amorim se fazia questão de demonstrar ao Departamento de Educação o quanto estava empenhado no esforço de fazer cumprir as diretrizes do Decreto n º 3.735, que o faria através das suas associações auxiliares da escola, cumprindo com cada objetivo previsto em lei. Daí a importância das atas e dos relatórios, dos demonstrativos numéricos dos avanços e do andamento dos projetos das associações.
Chama a atenção, nas atas dos Clubes de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta, entre os anos de 1946 a 1948, o fato de que nenhuma reunião do clube de leitura haver sido realizada na biblioteca da escola. Todas as reuniões foram realizadas na sala “Tiradentes”, o que é interessante saber, pois, mesmo sendo essas atas oficiais e dirigidas à Secretaria de 113
Educação, a questão do local de reunião era informado com clareza, mesmo sendo estas sessões realizadas dois anos após o Decreto nº 3.735.
A cultura produzida pelo Grupo Escolar Padre Anchieta condiz com esta época na história da educação catarinense, a do período Elpídio Barbosa, quando as atividades, principalmente as das associações auxiliares da escola, seguiam as diretrizes apontadas pelo Decreto nº 3.735, que propunha de forma clara a hierarquia simbolizada por cargos escolares. O fato demonstrava a organização nas atividades e a socialização entre os envolvidos.
Sendo assim, as atas do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta reproduziam esta cultura escolar. As atas também revelam que seu clube de leitura não obedece totalmente às diretrizes propostas pelo Decreto nº 3.735. Embora as atividades de leitura condigam com os dispositivos do decreto, a relação do clube de leitura e da biblioteca não aparece nas atas deste grupo escolar, mesmo sendo essas atas, documentos direcionados à Secretaria de Educação.
A cultura dos nomes permanece no Grupo Escolar Olívio Amorim, com a diferença, porém, de que é uma cultura legalmente laica, para a qual os nomes não têm a mesma 114
influência do cristianismo, mas de forte característica nacionalista e cunho regionalista, fazendo alusão a personagens marcantes da cultura brasileira e catarinense, embora a cultura escolar brasileira seja carregada de resquícios históricos católicos. Por se tratar deste período histórico dentro da educação brasileira, pode­se entender que cada uma dessas homenagens tinha um significado que retratava diretamente o objetivo do estado em conjunto com a política dos grupos escolares. Enquanto o Grupo Escolar Padre Anchieta se preocupava com a cultura cristã, o Grupo Escolar Olívio Amorim estava mais interessado nas figuras políticas nacionais.
3.1.1 O CLUBE DE LEITURA E SEUS SÓCIOS
As escolas refletiram, assim, de acordo com o velho estilo, o dualismo social brasileiro entre os “favorecidos” e os “desfavorecidos”. Por isto mesmo, a escola comum, a escola para todos, nunca chegou, entre nós a se caracterizar, ou a ser de fato para todos. A escola era para a chamada elite. O seu programa, o seu currículo, mesmo na escola pública, era um programa e um currículo para “privilegiados”. Tôda a democracia da escola pública consistiu em permitir ao 115
“pobre” uma educação pela qual pudesse ele participar da elite. (TEIXEIRA, 1971, p. 29).
A partir do pensamento da Nova Escola, é possível perceber que as atas e relatórios do clube de leitura tentam esta pedagogia nova no ambiente escolar. O patriotismo, o olhar sensível para a realidade social de todos os alunos do grupo escolar e a maneira como eram divididas as tarefas entre os membros do clube são características de tanta importância a destacar neste trabalho, quanto a não laicidade do grupo e respectivas associações. Tentarei me explicar melhor em seguida. Ainda assim, pergunto­me se era intenção do movimento da Escola Nova uma cultura escolar ou se não se tratava de uma maneira de pensar a educação.
Todos os sócios do clube de leitura eram alunos e professores dos determinados estabelecimentos. Os antigos alunos dos educandários que tivessem desejo de contribuir com material, e até mesmo nos momentos de atividade do clube, poderiam tornar­se sócios. De acordo com Prates, Teive e Toccheto de Oliveira (2012), exigia­se dos alunos nesses educandários uma rígida disciplina e obediência, de modo a submeter a severas punições os alunos que desrespeitassem as 116
normas prescritas. Tais condutas remetem à pedagogia da escola tradicional e à da moderna.
Os sócios tinham como dever cuidar do acervo dos livros utilizados pelo clube, manter o silêncio durante as atividades e contribuir para os programas das festas e alguns deveres que chamam atenção nos dias de hoje, como o item “e” do Decreto nº 3.735, que prevê como dever “não levar o dedo à boca, nem amarrotar as folhas quando usar os livros” e, no item “l” das disposições gerais : Chamar à atenção dos alunos por meio de quadro com sugestivos como: “Conservem as mãos limpas”. “Não levem os dedos à boca para virar as páginas dos livros”. “Tenham cuidado com o livro que é seu leal amigo”. “O silêncio – o melhor companheiro da mediação”. “Psiu. Psiu. Não façam barulho. A leitura silenciosa é um bom exercício para os que amam livros (DECRETO nº 3.735, 1946, p. 103).
O clube de leitura exigia de seus responsáveis e sócios inúmeras responsabilidades para a organização e o andamento das atividades. Era necessário que os profissionais fossem preparados para atender às exigências do Decreto nº 3.735. As atividades de leitura deveriam ser conduzidas pelas professoras e, como estas práticas eram conduzidas nas bibliotecas 117
escolares, segundo consta nas diretrizes, contavam também com o auxílio das bibliotecárias.
Uma das atas do ano de 1948, do Grupo Escolar Padre Anchieta, mostra a intensa participação de alunos e demais sócios nas sessões e na organização do clube. Segundo a ata do dia 10 mai. 1948, estavam presentes a diretoria e os sócios:
Uma vez aberta a sessão, a senhora presidente falou a respeito da organização de um álbum para o Clube de Leitura. Pediu às crianças figuras de personagens célebres de nossa história, vistas brasileiras e etc. A seguir foi lida a ata da sessão anterior (ATA, p. 309, 1948).
Nas atas do Grupo Escolar Olívio Amorim, contavam­
se os alunos presentes nas reuniões e respectivas séries:
Aos doze dias do mês de agosto, do ano de mil novecentos e quarenta e nove (12­8­1949), neste grupo, na presença de trinta e três alunos (33) dos 3º, 4º e 2º anos sob a orientação da professora encarregada do Clube de Leitura, procedeu­se mais uma reunião para tratar de assuntos referentes a esta associação. (ATA, 1949, p. 131).
A participação dos presentes na sessão mostra que os trabalhos ocorriam em conjunto, o que facilitava a socialização 118
das ideias entre os membros do clube. Estas estratégias de ensino investidas no civismo e a leitura de exercício pautadas neste teor durante as sessões dos clubes de leitura dos grupos escolares remetem à ideia de cultura escolar de Viñao Frago (2000). Segundo o autor, por meio destas estratégias, a escola esperava inculcar valores nos alunos, fosse dentro da sala de aula quanto fora dela, com a finalidade de que as ideias interagissem no seu ambiente e circulassem em sua vida cotidiana.
A partir disso, não só a escola, como também o clube de leitura e seus sócios assumem o papel de reprodutores de uma cultura fora do ambiente escolar, pois o civismo, na década de 1940, permeava as diferentes esferas da sociedade e este era um dos objetivos perseguidos pela escola com suas atividades pedagógicas. De acordo com o pensamento de Pierre Bourdieu (1996), estas relações sociais que produzem a cultura em nossa sociedade são criadoras das relações sociais e mantêm a diferença de seus grupos, a partir do momento que permitem a cultura do grupo dominante. Neste sentido, a escola acaba não sendo um instrumento que resolve os problemas sociais, mas, sim, (re) produtora de uma cultura instalada em suas diversas formas.
119
As atas permitem uma análise singular sobre os seus relatórios, por se poder observar o que cada pessoa no momento das sessões deveria fazer. Os sócios, o presidente e o secretário, segundo consta das atas, realizavam suas funções de acordo com o que era proposto nas diretrizes do Decreto nº 3.735. Neste sentido, pode­se afirmar que a cultura do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta, em relação aos seus sócios, expressava as posições hierárquicas e divisões de tarefa entre os participantes. Nas primeiras reuniões de cada ano, as atividades em relação à organização do acervo da Biblioteca ­ escolha de livros para leitura, mecanismos e atividades de incentivo à escrita ­ eram divididas entre alunos e professores. Os professores, responsáveis pela escolha das leituras; os alunos, responsáveis por ler, escrever e seguir as atividades anuais da determinada associação. Já nas primeiras leituras das atas e relatórios do Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim não foi possível identificar de maneira concreta como eram divididas as tarefas. Guardam, porém, semelhança com as do outro grupo escolar na metodologia das tarefas, ou seja, nas primeiras reuniões do ano também eram definidas algumas tarefas, embora não especificassem 120
minuciosamente como essas tarefas iam ser divididas, nem os critérios em que iriam se basear.
Questões apresentadas nas atas do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta apresentavam, por vezes, ações com as características da Escola Nova. Na verdade, estas diretrizes eram apontadas por leis e pertenciam ao Decreto nº 3.735. Portanto, eram práticas culturais que precisavam de tempo para ser mudadas, principalmente por se tratar de práticas de leitura direcionadas por leis.
As práticas de leitura desta associação mostram, através das atas, a relação interdisciplinar necessária ao incentivo e ao fomento à leitura. A relação entre clube de leitura, biblioteca e sala de aula também aparece constantemente nos relatórios. Dia 22 de setembro de 1949, a sra. presidente determinou que os alunos participantes daquela sessão lessem os textos que estavam sendo lidos em sala de aula e que, após a reunião, os alunos começassem a pesquisar na biblioteca da escola a biografia de Ruy Barbosa, para depois realizarem um trabalho escrito a respeito do brasileiro (ATA, 1949, p. 53).
Era de caráter emergencial a renovação na perspectiva da educação trazida pelos intelectuais da época. Na hierarquia dos problemas nacionais, o de maior gravidade e importância 121
era, sem duvida, o da educação, superando até mesmo os problemas de caráter econômico, pois, se a evolução orgânica do sistema cultural depende das condições econômicas, é impossível desenvolver­se sem o preparo intensivo das forças culturais e o desenvolvimento das aptidões, que são os fatores fundamentais do acréscimo de riqueza em uma sociedade (MANIFESTO DOS PIONEIROS, 1932, p. 33).
Toda essa cultura de caráter nacionalista e patriota rondava os anos 1940 no País e, em especial, a formação de suas crianças na escola através da Educação Nova na qual era uma crítica a educação tradicional. Não foi possível perceber este tipo de leitura direcionada no Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim. A maioria das atas carrega relatos de que nas sessões desta associação eram realizadas práticas de leitura, e até mesmo agendadas leituras em sala de aula com as turmas do grupo escolar, ao contrário das sessões do Grupo Escolar Padre Anchieta, nas quais se tratava das obras trabalhadas nas práticas de leitura. As figuras nacionalistas, ou personagens que representavam a cultura nacional, estavam constantemente presentes nas leituras e práticas desse outro clube de leitura. É o que revelam as atas, que também citam a biografia de Ruy 122
Barbosa, e mais a do Duque de Caxias15, conforme relatório da terceira reunião do respectivo clube da em 1948:
A presidente, a mesma era a sra. Professora encarregada da referida associação. Aberta a sessão, a sra. Professora incumbiu vários alunos de lerem exercícios de aula, como por exemplo a biografia de Santos Dummont, de Duque de Caxias e alguns outros. Terminada a leitura, a sra. Professora encarregou três alunos de recitarem uma poesia (ATA, 1948, p. 309).
Ao analisar estes documentos, não se pode ignorar o período histórico que o País estava vivendo ­ de profunda crise econômica, política, cultural e educacional. O estudo realizado por Bacha Pereira (2004) mostra com nitidez como era o quadro do período pesquisado:
O projeto de nacionalização tinha como pilares “conteúdos nacionais”, como a imposição do uso da língua, e aspectos mais modernos, relacionados com o ufanismo verde­e­amarelo, a propagação da história mitificada dos “grandes vultos” (heróis nacionais), a disseminação dos hinos patrióticos, o culto às 15 "O Pacificador", ou "O Duque de Ferro" foi um militar, político e monarquista brasileiro. Caxias seguiu uma carreira militar assim como seu pai e tios. Ele lutou em 1823 contra Portugal, na Independência do Brasil, e, depois, passou três anos na Cisplatina,enquanto o governo tentava resistir, sem sucesso, à secessão da província. Caxias permaneceu leal ao imperador Pedro I durante os protestos de 1831, apesar de seus familiares terem abandonado o monarca. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Alves_de_Lima_e_Silva>. Acesso em: 25 abr. 2015.
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autoridades; enfim, a cultura e as tradições nacionais seriam assimiladas via escola. O projeto pregava ainda a padronização do ensino para todos os cursos, com um sistema federal de fiscalização que
garantisse a desejada homogeneidade (BACHA PEREIRA, 2004, p.10).
As atas mostram que neste período os trabalhos em sala de aula estavam sendo articulados com as demais associações auxiliares da escola que para efeito de integração dos atores escolares e no caso das associações aqui estudadas, o incentivo à leitura.
Cecília Meireles16, uma das intelectuais que assinaram o Manifesto dos Pioneiros, partilhava da ideia de que era necessário oferecer bons livros aos leitores, com o objetivo de estimular o desenvolvimento de habilidades intelectuais e de leitura (MEIRELES, 2001). Seu trabalho estava mais voltado para a literatura infantil. Não se pode, porém, ignorar a importância dos seus escritos na área da educação e no movimento da Escola Nova, na ampliação das bibliotecas no Brasil e do seu trabalho em conjunto com Fernando Azevedo 16 Cecília Meireles, Anísio Teixeira e Armanda Álvares Alberto foram perseguidos pelo regime nacionalista autoritário, pois eram considerados subversivos e uma ameaça intelectual para a sociedade brasileira no qual atravessa um período político delicado.
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no departamento de Educação. Neste sentido, é possível afirmar que as práticas de leitura estavam sendo realizadas conforme o esperado, para a época, no Grupo Escolar Padre Anchieta.
As leituras e práticas das associações clube e biblioteca estavam impregnados desse espírito. No dia 18 de agosto de 1940, por exemplo, ocorreu a quinta reunião do Clube de Leitura no Grupo Escolar Padre Anchieta na sala Tiradentes. Após os participantes ouvirem dos alunos a leitura de vários trabalhos produzidos por eles próprios, a sra. presidente aproveitou o espaço para ensaiar com as crianças o Hino Nacional e o Hino da Independência, com o objetivo de fazer uma apresentação à comunidade escolar no próximo dia 7 de Setembro.
Na quarta reunião do clube de leitura, em 1949, foi proposto que se coletassem os nomes dos bons leitores do mês de junho:
Aos 25 dias do corrente mês, às 10 horas e 30 minutos, reuniu­se mais uma vez o Clube de Leitura para a sua costumeira reunião mensal. O assunto a tratar foi a arrecadação dos nomes dos bons leitores de todas as classes durante o mês de junho. Cada encarregado de tomar nota de sua classe apresentou o seu caderninho com as anotações tomadas cada semana. Os nomes 125
dos alunos que mais se distinguiram durante o mês foram marcados no livro: Atividades do Clube. Marcou­se para o dia 8 do próximo mês uma nova reunião, na qual serão apresentados os nomes dos alunos que se distinguiram e faremos então o sorteio do prêmio (ATA, 1949, p. 103).
O prêmio para os alunos mais dedicados seria um livro de história, custeado através de uma coleta entre os sócios para a compra do referido prêmio (ATA, 1949, p. 103). Estes mecanismos são considerados pelo Grupo Escolar Padre Anchieta e a Associação Auxiliar da Escola Clube de Leitura como um instrumento de fomento e incentivo à leitura na sua cultura escolar.
Esta é outra característica que diferenciava o Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta do Olívio Amorim: a premiação. De acordo com Foucault (1975), a premiação seria uma forma de disciplinar e vigiar os alunos no espaço escolar. Na análise dos relatórios do Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim não foi encontrado resquícios de premiação para “bons leitores” ou de punição para “maus leitores”. É possível que a vigilância já tivesse como base o Decreto nº 3.735, que previa multas para os alunos que perdessem ou estragassem os livros do grupo escolar.
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Segundo Foucault:
A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ”dóceis”. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos econômicos de utilidade e em termos políticos de obediência). Em uma palavra: ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma ”aptidão”, uma ”capacidade que ela procura aumentar; e inverte”, por outro lado, a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita (FOUCAULT, 1977, p. 127).
As premiações relatadas nas sessões do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta aparecem claramente em seus relatórios e atas; porém, não foram encontrados punições ou castigos. Isto, contudo, não significa que os alunos destes grupos escolares não fossem punidos, sobretudo porque existia uma lei, com base em decreto, que regulamentava este tipo de prática nos grupos escolares, o que era uma característica da cultura escolar da época. Se o fato não consta, é possível que não fosse necessário ou interessante colocar estes dados nas atas enviadas ao Departamento de Educação.
No dia 21 de outubro de 1949, o clube realizou a última reunião do ano letivo, como de costume, na sala Tiradentes. 127
Nessa reunião foram cobrados dos alunos do curso complementar os livros em atraso. Consta da Ata que todos os livros foram devolvidos. Nesta reunião, ainda, a presidente determinou que os alunos começassem o trabalho sobre Ruy Barbosa, que já tinha sido definido na reunião anterior, em comemoração ao centenário de seu nascimento:
Aos 21 dias do mês de outubro de 1949 na sala Tiradentes do grupo Escolar Padre Anchieta houve a última reunião do Clube de Leitura. Presidiu a nossa sessão a nossa professora orientadora.
Aberta a mesma, a sra presidente deu a palavra ao secretário. Este leu a ata da reunião anterior.
Logo em seguida, a sra presidente perguntou aos alunos do Curso Complementar se haviam encontrado os livros perdidos e a resposta foi afirmativa.
Determinou então, a Sra. Presidente que iniciassem o seu trabalho escrito, que consta da biografia do grande estadista brasileiro Ruy Barbosa, cujo centenário de nascimento, iremos comemorar no próximo dia 5 de novembro.
A seguir falou, em linhas gerais, a respeito da vida pública de Ruy Barbosa, a “Águia de Haia”, salientando seus méritos, talentos e virtudes.
Logo após pediu aos mesmos alunos da complementar que, uma vez finalizados os trabalhos, passassem os mesmos para os cadernos de exercícios de aula de exercício de aula.
Em seguida ouviu­se, de alguns alunos, a leitura de varias historias de seus livros de aula.
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A sra presidente, ao encerrar a sessão da última reunião do ano, deu um voto de louvor a todos os alunos que vêm prestando espontâneo e valioso auxilio a esta associação (ATA, p.84, 1949).
Os alunos, após concluírem o trabalho sobre a biografia do personagem, deveriam transcrever o texto para o caderno de exercícios da escola. Em seguida, alguns alunos passavam à prática de leitura, lendo várias histórias de livros utilizados na sala de aula. Como se lê no excerto a presidente encerrou a reunião com um “voto de louvor” a todos os alunos que haviam prestado espontâneo e valioso auxílio à associação. Infelizmente, a ata não detalha o que seria este curioso “voto de louvor” concedido aos alunos aplicados.
Nas atas do Clube de Leitura do Grupo Olívio Amorim deste mesmo ano não consta que a prática de leitura e trabalhos estivesse sendo o foco das reuniões. Na reunião do 12 de agosto de 1949, por exemplo, o relatório do clube de leitura informa que o que havia sido discutido naquele mês fora que todos os membros (sócios) deveriam fazer divulgações e propagandas da Campanha do Ovo naquele grupo escolar (Ata, 1949, p. 91). Apesar da pesquisa em dez atas desse ano, não foi possível identificar se esta campanha tinha relação com o livro 129
ou a prática da leitura. As atas não mostram qual teria sido esta finalidade.
Se as atas do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta mostram a movimentação e os trabalhos que envolviam as práticas de leitura, o mesmo não se pode dizer dos relatórios do Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim, ao menos pelo que respeita tais práticas. Confirma­o o texto abaixo:
Aos cinco dias do mês de outubro, do ano de mil novecentos e quarenta e nove (5­10­1949), neste grupo, na presença de diversos alunos, realizou­se mais uma reunião para tratar de assuntos referentes ao Clube de Leitura. Foi orientado pela professora encarregada desta associação.
Foram ventilados os seguintes assuntos: 1) A secretária leu a ata da reunião anterior;
2) Falou a senhora presidente sobre a Campanha dos Lazaros, dando o resultado desta Campanha;
3) Falou a senhora professora pedindo que todos os alunos que estavam ali presentes trabalhassem um pouquinho para também auxiliar no pelotão de saúde e a baixa escolar. Nada mais havendo a tratar, eu, como secretária, lavrei a presente ata nesta reunião (ATA, 1949, p. 92).
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Destaco esta questão das práticas de leitura, pois a associação auxiliar da escola clube de leitura foi criada para estimular a leitura nos Grupos Escolares como já foi discutido aqui neste trabalho. O fato de estas atas serem documentos oficiais destinados ao Departamento de Educação não parece ter sido suficiente para informar a respeito das práticas oficiais de leituras que deveriam fazer parte do currículo escolar do Grupo Olívio Amorim. Parece, portanto, paradoxal que a função de vigilância das atas oficiais não tenha interferido diretamente sobre o conteúdo escrito e até mesmo sobre uma possível representação das reuniões ali realizadas. A leitura da Ata do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta destaca três pontos importantes para a análise da conjuntura cultural do final dos anos 1940. A primeira questão é em relação ao fomento e incentivo à leitura. A associação auxiliar continuava com o seu trabalho através da prática de leitura em voz alta nas reuniões dos livros que estavam sendo trabalhados em sala de aula. Neste ponto, cito mais uma vez Cecília Meireles, que também compartilhava do pensamento de que era muito importante para a formação dos alunos a leitura oral. Em seu trabalho “Problemas da literatura infantil”, afirma:
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O gosto de contar é idêntico ao de escrever – e os primeiros narradores são os antepassados anônimos de todos os escritores. O gosto de ouvir é como o gosto de ler. Assim, as bibliotecas, antes de serem estas infinitas estantes, com as vozes presas dentro dos livros, formas vivas e humanas, rumorosas, com gestos, canções, danças entremeadas às narrativas (MEIRELES, 1979, p. 42)
O segundo ponto é o caráter nacionalista que acompanhava os Grupos Escolares e as associações auxiliares da escola, em particular, serviam de veículo para impregnar dessa cultura seus alunos/sócios. Provam­no iniciativas como a analisada acima, sobre a “Biografia do grande Brasileiro Ruy Barbosa”. O terceiro e último ponto que chama a atenção é o do “voto de louvor” concedido aos alunos mais aplicados do Clube de Leitura, obviamente os que dominassem melhor o ato da leitura. É importante repetir que as atas não especificam em que constava tal “voto de louvor”. Anísio Teixeira, como já foi citado no decorrer deste trabalho, foi um dos intelectuais e percussores da pedagogia da Escola Nova e do Manifesto dos Pioneiros. Autor da obra “Educação não é privilégio”, problematiza a questão que considera “visceral” na educação, que é o processo de preparo de “alguns” indivíduos para uma 132
para uma “vida mais fácil e, em rigor, privilegiada” (TEIXEIRA, 1971, p. 22). As atas e relatórios mostram que ainda no final de 1940 este tipo de cultura estava presente no ambiente escolar, pois, para as escolas uma filosofia “nova” se permeasse, era preciso romper com as práticas da antiga pedagogia ainda presentes na educação.
No ano de 1949, o clube de leitura se organizou para os eventos e datas nacionais importantes daquele ano, como o centenário de nascimento do brasileiro Ruy Barbosa e o feriado nacional do dia 7 de Setembro. Como foi citado anteriormente, as associações auxiliares haviam adotado a cultura prevista pelo Manifesto dos Pioneiros e pela filosofia da Escola Nova, que deveria contar com grande participação e protagonismo por parte do alunado. Em agosto, na quarta reunião daquele ano, foi definido que alguns alunos seriam encarregados de anotar os nomes de bons leitores na sala de aula (ATA, 1949, p. 103). A ata não detalha o porquê dessa ação; na ata de novembro, porém, consta que a presidente faz um “voto de louvor” aos bons alunos leitores, o que permite pensar que esta atividade consistiu em parabenizar e valorizar o mérito dos bons leitores do Grupo Escolar Padre Anchieta.
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Compartilho do pensamento pedagógico da Escola Nova no sentido de tentar fazer com que os alunos e, em especial, as crianças, comecem sua jornada leitora já na escola, através de mecanismos de incentivo à leitura, que podem e devem estar presentes nesse espaço. Cecília Meireles escreve:
Se considerarmos que muitas crianças, ainda hoje, têm na infância o melhor tempo disponível da sua vida; que talvez nunca mais possam ter a liberdade de uma leitura desinteressada, compreenderemos a importância de bem aproveitar essa oportunidade. Se a criança, desde cedo, fosse posta em contato com obras­primas, é possível que sua formação se processasse de modo mais perfeito (MEIRELES, 1979, p. 96).
Sendo assim, a “perfeição” descrita por Cecília Meireles está no seu modo de pensar o fazer pedagógico. A história da educação tem mostrado a sempre preocupação para com a educação infantil e o futuro da sociedade, e, indiretamente, a importância da literatura na escola, esta de qualidade também para os dias atuais pela mediação e o trabalho em conjunto de professores e bibliotecários. A obra de Cecília Meireles, principalmente na área da educação, perpassa estas linhas sonhadoras e utópicas. Não que a Escola Nova ou todo o conjunto de intelectuais fossem utópicos, mas Cecília 134
Meireles era, e assim como ela, um dos mais importantes pensadores brasileiros, Paulo Freire, que também acreditava na utopia como melhoria e avanço social para toda a humanidade. “Para Freire, apenas os utópicos podem ser proféticos, porque são eles que anunciam e denunciam as injustiças e estão permanentemente comprometidos com os processos de transformação no mundo” (CONDINI, 2014, p. 141) 17.
Entretanto, não foi em todas as atas que foi possível perceber o protagonismo dos alunos sob a presidência do Clube de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta, nem que as crianças constituíssem o foco de suas ações. No dia 6 de maio de 1949, porém, “em uma das salas do Grupo Escolar Padre Anchieta”, realizou­se a segunda reunião do ano na Biblioteca Dom João Bosco. Nessa reunião, à qual estavam presentes os membros da diretoria da biblioteca (primeira e segunda secretária, primeiro e segundo tesoureiro e tesoureiro e primeira e segunda bibliotecária), foi realizado sob a presidência do aluno Francisco F. Ferreira, assistido pela professora orientadora Eugênia Silva. “A reunião consistiu em discutir assuntos como: recolher os livros espalhados pela 17 Graduado em Estudos Sociais e História pela Universidade da Cidade de São Paulo (UNICID), mestre pelo Programa de Ciências da Religião e doutor pelo Programa Educação: Currículo, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC­SP).
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biblioteca, angariar por meio de rifas dinheiro para iniciar a aquisição de livros, enfim reorganizar a biblioteca, instituição tão útil e necessária em todas as escolas” (ATA, 1949, p. 294).
Os estudos de Foucault também permitiram perceber o quanto a cultura de premiação, e ao mesmo tempo a de punição, permeia as diferentes instituições de nossa sociedade. No caso da escola, por exemplo, o autor observa que desde os colégios dos jesuítas havia diversas maneiras de disciplinar; dentre elas, o lugar que alguém pode ocupar numa classificação. Ela, então, “individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de revelações” (FOUCAULT, 1975, p. 133). Esta parece ser a razão pela qual a cultura da vigilância e premiação estava presente no Grupo Escolar Padre Anchieta, impregnando o Clube de Leitura, que, através destas práticas, fazia com que os alunos mantivessem a ordem e a disciplina, comprovando um paradoxo entre os ideais da Pedagogia Nova com a cultura hierárquica presente no Grupo Escolar, assim como a realidade autoritária que rondava o país.
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3.1.2 CONHECENDO UM POUCO DA CULTURA NA BIBLIOTECA DOM JOÃO BOSCO E A BIBLIOTECA TEREZA RAMOS
Ao longo da leitura dos relatórios dos clubes de leitura surgiu a dúvida em se conhecer se existia ou não uma associação auxiliar biblioteca no Grupo Escolar Padre Anchieta, pois, se até então todas as diretrizes do Decreto nº 3.735 estavam sendo seguidas pelo educandário, por que os relatórios do Clube de Leitura não mencionavam as reuniões que se realizavam na biblioteca da escola? Seria por falta de uma?
Pelas atas e relatórios da Associação Auxiliar Biblioteca do Grupo Escolar Padre Anchieta e do Grupo Escolar Olívio Amorim, constatei que as sessões dos respectivos clubes de leitura não se realizavam no espaço da biblioteca, como também raras são as vezes em que os relatórios revelam o lugar onde tais sessões se faziam. Ambos os grupos escolares então deixavam de cumprir diretriz do Decreto nº 3.735, que previa que as reuniões do clube de leitura deveriam ser realizadas no espaço da biblioteca, fazendo com que as duas associações atuassem em conjunto, e da melhor forma possível.
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Encontrei muitas dificuldades para analisar o material coletado (além da própria coleta). Algumas atas continham muitas informações a respeito de diretoria, orçamento e práticas de leitura. Outras nada continham, além do básico para ser enviado ao Departamento de Educação, como data, horário e membros. A maior dificuldade foi identificar os atores que integravam a diretoria de ambas as associações, assim como seus membros. Quem eram os membros, quais seus nomes e assinatura em ata? Algumas perguntas conseguiram ser respondidas, outras não. Tudo isso poderá vir a ser objeto de nova pesquisa no futuro.
Segundo Beirith (2009), as reformas educacionais pautadas nas características da Escola Nova fizeram com que a estrutura organizacional brasileira fosse reorganizada para o estabelecimento de uma política nacional. A reforma educacional que teve início em Santa Catarina no ano de 1946, através do Decreto nº 3.735, trazia em suas diretrizes a implantação da biblioteca escolar em seus educandários. As atas das associações auxiliares da escola, através dos relatórios da biblioteca do Grupo Escolar Padre Anchieta, identificados no Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, fornecem indícios a respeito da Associação Auxiliar Biblioteca a partir de 1949. Os achados levantam duas hipóteses: ou a associação 138
passou a enviar à Secretaria de Educação as atas das reuniões da Associação Auxiliar da Escola Biblioteca nesta data, ou o que se encontra no arquivo em relação à biblioteca são dados recuperados a partir desta data. Isto não significa que a biblioteca tenha sido inaugurada em 1949 e fechada em 1953 (último ano disponível para acesso no arquivo). Os exames dos documentos ainda não revelaram quando foi inaugurada a biblioteca do Grupo Escolar Padre Anchieta, ou mesmo quando foi realizada sua primeira reunião.
Já os indícios de atas das reuniões da Associação Auxiliar Biblioteca do Grupo Escolar Olívio Amorim começam a partir do ano de 1948, e, coincidentemente, o período perdura até 1953. A primeira ata revela que a primeira reunião desta associação serviu para distribuir as tarefas da diretoria encarregada de organizar os serviços da biblioteca naquele ano:
As quinze horas do dia supra – citado, reuniram­se na sala José do Patrocinio, diversos alunos do Grupo Escolar Olívio Amorim, sob a orientação da professora a fim de eleger a nova diretoria da Biblioteca Escolar Tereza Ramos para o corrente ano. Após ter a professora feito uma palestra sobre o valor das bibliotecas foi escolhida a diretoria [...] Nada mais havendo a tratar foi encerrada a reunião (ATA, 1948, p. 290).
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A diretoria em questão era composta por: presidente, vice­presidente, 1ª secretária, 2ª secretária, 1º tesoureiro, 2 ª tesoureira, 1ª bibliotecária e 2ª bibliotecária. Uma das dificuldades na análise dessas atas é que, apesar de conseguir descobrir o responsável pelos cargos da associação, não foi possível identificar o que estes “atores” representavam para o colégio. Não foi possível saber se eram professores, funcionários ou alunos, como previa o Decreto n º 3735. Uma característica, fator comum entre a associação biblioteca do Grupo Escolar Olívio Amorim e do Grupo Escolar Padre Anchieta, é que as respectivas diretorias eram predominantemente do gênero feminino, cabendo ao homem, geralmente, apenas o cargo de tesoureiro; nos outros cargos, predominava a presença do gênero feminino.
Um episódio tratado na segunda ata, contudo, revela que os membros da diretoria da Biblioteca Tereza Ramos, em 1948, eram alunos do próprio Grupo Escolar Olívio Amorim:
Às quinze horas do dia vinte e quatro (24) de março de mil e novecentos e quarenta e oito, reuniram­se na sala José do Patrocínio do Grupo Escolar Olívio Amorim, os membros da Diretoria da Biblioteca Tereza Ramos, do referido grupo, sob orientação da Professora Chefe (...). Foram tratados os seguintes assuntos: 1) Em virtude de ter saído do Grupo a 140
aluna x 2ª secretária, foi escolhida para o referido cargo a aluna y. Esta escolha foi aprovada por todos os presentes. 2) A professora falou­nos sobre a entrega dos livros que deve obedecer o seguinte: os alunos que não devolverem os livros no prazo marcado não poderão requisitá­los sem a entrega dos atrasados. Explicou mais uma vez, a cada membro da Diretoria os serviços que devem prestar a Biblioteca. 3) Marcou para fazermos as reuniões, no primeiro sábado de cada mês. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a reunião [...] (ATA, 1948, p. 289).
Destaco a presença das alunas tomando parte na diretoria da Biblioteca Tereza Ramos, assim como parte integrante do que se entende por cultura escolar no presente trabalho. Em cumprimento ao previsto por lei, no Decreto n º 3735, e ao projeto de Educação Nova, o aluno fazia parte central desta nova pedagogia. Anísio Teixeira (1975) explica que a nova escola teve que lutar para fugir dos métodos da escola antiga, “especializante”, que havia especializado os seus processos e transformado a cultura escolar numa cultura peculiar e segregada. Relativamente à punição dos alunos que não entregavam os livros no prazo, há que se reconhecer ser uma cultura que resiste ainda nos dias atuais em diversos organismos que tratam com a informação, além de bibliotecas, 141
em suas diversas esferas (pública, escolar, particular), locadoras e videotecas.
As atas mostram que no dia 20 de abril de 1949 aconteceu a segunda reunião da biblioteca no Grupo Escolar Padre Anchieta, que levava o nome de “Dom João Bosco”18, nome que demonstra a forte cultura católica­cristã presente neste grupo escolar arquidiocesano.
Segundo consta em relatório, a reunião foi presidida pela professora orientadora Eugênia Martins, e estavam presentes o presidente, o vice­presidente, a primeira bibliotecária, a segunda bibliotecária, a primeira secretária, a segunda secretária, o primeiro e o segundo tesoureiro. Esta estrutura condiz com as diretrizes do decreto, exceto pelo que foi combinado com os alunos durante a reunião:
Ficou combinado que cada aluno seria sócio da biblioteca, pagando Cr$ 0,20 de mensalidade. O dinheiro arrecadado serveria para a compra de novos livros. Nada mais havendo, foi encerrada 18 Dom João Bosco (João Melchior Bosco, 1815­1888), conhecido como Dom Bosco, foi um padre italiano católico. Foi beatificado em 1929, em Roma, pelo Papa Pio XI, e canonizado em 1934. Era considerado o pai e mestre da juventude e foi o criador da conhecida Congregação Salesiana. Fontes: <http://santuariodombosco.org.br/bosco.asp>; <http://www.santuariosagradocoracao.com.br/d_bosco.htm>; <http://pt.wikipedia.org/wiki/Dom_Bosco>. Acesso em: 28 abr. 2015.
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a reunião e eu como secretário lavrei a presente ata (ATA, 1949, p. 98,).
O único momento em que o decreto fala a respeito de arrecadação de fundos para a Associação Auxiliar Biblioteca está no Art.500, que prevê a arrecadação de fundo econômico através de festivais, benefícios ou donativos, a cargo de professores e da diretoria (DECRETO nº 3.735, p. 69).
Segundo Machado (2002, p. 98), por conta da não disponibilização de recursos públicos para compor o acervo das bibliotecas, os responsáveis eram obrigados a buscar alternativas para quem conseguir. Uma destas foi a organização das caixas escolares, que tinham como objetivo obter livros ou mesmo recursos financeiros para a aquisição de material para a biblioteca. Além disso, o objetivo era também estabelecer “um maior estreitamento de laços entre escola e comunidade”. (MACHADO, 2002, p.98).
Para o aumento da coleção da biblioteca, o decreto previa:
Parágrafo Único ­ As bibliotecas deverão ser enriquecidas sempre, por meio de recortes devidamente colecionados em volumes. Para a execução desses volumes haverá uma estreita colaboração entre alunos e professores, 143
desenvolvendo, assim, o gosto pela leitura de jornais e revistas e o aproveitamento da parte sadia das publicações (DECRETO nº 3.735, p. 70).
A arrecadação de verba, segundo o decreto, era prevista por uma série de alternativas que poderiam ser adotadas pela Associação Auxiliar da Escola Biblioteca em seus grupos escolares. Estas atividades envolviam professores e alunos, que deviam elaborar a maneira de viabilizar o recurso necessário ao aumento da coleção na biblioteca.
Em uma das reuniões da Biblioteca, foram rifados alguns objetos entre os alunos, com o objetivo de angariar fundos. A professora orientadora lembrou, ainda, as obrigações de cada membro da diretoria e pediu sua ajuda na organização dos livros nas estantes da biblioteca, assim como na organização de um catálogo que pudesse facilitar a busca de títulos por parte de professores e alunos (ATA, 1949, p. 294). Após o termino da reunião, todos os presentes cantaram o Hino Nacional.
Desde as primeiras atas, isto é, entre os anos de 1948 e 1949, as reuniões da Biblioteca Tereza Ramos, do Grupo Escolar Olívio Amorim, demonstravam preocupação com a 144
gestão da verba e a transparência com o que havia sido arrecadado:
Aos vinte e quatro (24) dias do mês de abril de mil novecentos e quarenta e nove (1949) reuniram­se os membros da Diretoria da Biblioteca Escolar Tereza Ramos do Grupo Escolar Olívio Amorim, sob a presidência da Professora Orientadora. Foram tratados os seguintes assuntos: 1) Foi lida a Ata da reunião anterior pela 1ª secretaria, tendo sido aprovado por todos os presentes. 2) O 1º tesoureiro apresentou o movimento financeiro de março e foi o seguinte: saldo de 1947 C$ 26, 90. Arrecadação de março C$ 4,00, saldo para o mês de abril – C$ 30,90. (ATA, 1948, p. 288). Aos quinze dias (15) do mês de abril de mil novecentos e quarenta e nove (1949), reuniram­
se membros da Diretoria da Biblioteca Tereza Ramos do Grupo Escolar Olívio Amorim, sob a orientação da Professora, a fim de tratarem de diversos assuntos. 1º) Foi lida a ata da reunião anterior pela secretaria, sendo assinada por todos os presentes; 2º) A presidente leu o plano leu o plano de trabalho da Biblioteca para o corrente ano. 3º) A professora explicou, mais uma vez, os serviços que os membros devem prestar à Biblioteca. 4º) Mostrou­nos a estatística de consultas que deve ser enviada mensalmente ao Instituto Nacional do Livro. 5º) Orientou o tesoureiro na execução do movimento financeiro de março, que foi o seguinte; saldo do ano de 1948 – C$ 50,50. Arrecadação de março 3,00; saldo para abril, C$ 53,50.
Em seguida foi dado um balanço nos livros, ficando combinado, para depois das aulas, colocarmos capas em diversos livros. Nada 145
mais havendo a tratar, foi encerrada a reunião (ATA, 1949, p. 308). No começo do ano há um intenso movimento de organização de recursos para a Biblioteca Tereza Ramos, com a atenção voltada ao ano letivo de 1949. São claras a divisão de tarefas e a atribuição de cada um dos membros na associação auxiliar e, em particular, na questão do orçamento. Contudo, a ata não revela como foi arrecadado o dinheiro; apenas cita o quanto havia de disponível para investimentos na biblioteca.
Analisando os relatórios das atas de 1949 dessa mesma biblioteca, na primeira reunião do ano se definiu a nova diretoria, que contava com presidente, vice­presidente, 1º e 2º tesoureiro e 1º e 2º bibliotecários. Estes cargos eram preenchidos por professores que atuavam no grupo escolar; em nenhum momento foi discutida a possibilidade de um aluno estar à frente de um destes cargos, como previa o DECRETO nº 3.735.
Analisei estes documentos sob a perspectiva de Foucault. Observei terem sido escritos por atores que faziam parte de uma cultura escolar, que contava, por sua vez, com membros dos grupos escolares ­ alunos, professores, pais, mães ­ assim como o próprio Departamento de Educação. Estes 146
também faziam parte da sociedade. Tratava­se, portanto, de uma organização não neutra. Era controlada e redistribuída por um numero de procedimentos, com objetivos definidos por determinadas razões, diferentes ou iguais, mas sempre com uma finalidade, embora comum, jamais neutra. Ainda no campo da educação, Foucault (2000) vê todo o sistema de educação como "uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo".
O que diz o filósofo se aplica, neste relatório, à discussão acerca da arrecadação de recursos financeiros da biblioteca. Contudo, não se explicita como foi arrecadada a quantia, diferentemente do caso da Biblioteca Dom João Bosco. Após a divisão de tarefas e demais assuntos, os presentes à reunião analisaram alguns livros desgastados do acervo da Biblioteca Tereza Ramos e combinaram que, após a aula, iriam se reunir novamente para colocar capas em diversos livros (ATA, 1949, p. 308). Esta ação representa o cuidado com a organização, a higiene e a restauração dos livros da biblioteca, que naquela instituição contava com pessoas que partilhavam da mesma cultura ao cuidar do acervo e o preservar.
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É curioso perceber este dado no relatório de uma associação escolar destinado à Secretaria de Educação, pois, cobrar mensalidade dos alunos com o objetivo de arrecadar fundos para a compra de livros não constava nas diretrizes do Decreto nº 3.735. Esta prática, adotada no Grupo Escolar Padre Anchieta, induz a pensar que talvez se tratasse de uma ação normal, já que é apresentada numa ata oficial do Grupo Escolar.
Esta mesma ata (1949, p. 308) da Biblioteca Tereza Ramos revela uma diretoria atenta ao cumprimento do que previa o Decreto nº 3.735 no que dizia respeito à transparência dos recursos financeiros destinados à biblioteca e ao trabalho em conjunto com a associação auxiliar clube de leitura: “A professora orientadora pediu­nos para fazer um convite aos membros do Grupo Escolar Clube da Leitura para uma reunião a fim de organizarmos uma festinha em propaganda da Biblioteca”. Seria interessante que todas as associações auxiliares da escola trabalhassem em conjunto, em prol de seus grupos escolares, principalmente as associações de leitura, que tinham uma ferramenta em comum: o livro.
Além da transparência nos orçamentos e nos trabalhos em conjunto com o Clube de Leitura, registra­se certa “rotatividade” de alunos na direção da Biblioteca Tereza 148
Ramos. Os relatórios não detalham os motivos pelos quais os alunos saíam de seus cargos, mas relatam quem os deixava e quem os assumia:
Às quinze horas do da vinte e dois (22) de mil novecentos e quarenta e oito (1948), reuniram­
se os alunos membros da diretoria da Biblioteca Tereza Ramos, do Grupo Olívio Amorim, sob a orientação da Professora. Foram ventilados os seguintes assuntos: 1) A 1ª secretaria fez a reunião da ata anterior, sendo aprovada por todos os presentes. 2) Em virtude da aluna presidente da Biblioteca ter saído, assumiu a presidência a aluna vice­presidente. 3) A professora mostrou­nos os livros que a Biblioteca recebeu ao Instituto Nacional do Livro e recomendou que fizéssemos propaganda dos mesmos durante o recreio. 4) O tesoureiro apresentou o movimento financeiro do mês de abril que foi o seguinte saldo do mês de março C$ 30,90. Arrecadação de abril C$ 5,00. Saldo para o mês de maio C$ 35,90. (...). (ATA, 1948, p. 286­287).
O documento mostra a cultura em vigor: nas sessões desta associação cumpria­se com a leitura da ata da reunião passada, com a aprovação de todos os membros da diretoria. A transparência era exigida em todos os quesitos de organização da Biblioteca, tanto a respeito dos “atores escolares”, como dos recursos financeiros apresentados pelo tesoureiro (saldo do mês anterior e arrecadação do mês corrente). Da mesma forma, 149
explicava­se como eram administrados os livros que a biblioteca recebia do Instituto Nacional do Livro e como se promovia a atividade de incentivo à leitura, que consistia na propaganda dos novos livros durante o recreio da escola. O Instituto Nacional do Livro foi criado em dezembro de 1937, por iniciativa do ministro Gustavo Capanema. Estavam previstas, como suas atribuições, a edição de obras literárias julgadas de interesse para a formação cultural da população, a elaboração de uma enciclopédia e um dicionário nacional e, finalmente, a expansão, por todo o território nacional, do número de bibliotecas públicas19. A diretoria da Biblioteca Tereza Ramos do Grupo Escolar Olívio Amorim foi, em 1948, o tema que mais chamou a atenção durante a leitura das atas, por sua maior fidelidade ao decreto. Esta mesma característica reaparece na 5ª reunião:
As quinze horas do dia vinte e oito (28) de janeiro de mil novecentos e quarenta e oito (1948), sob a presidência da professora orientadora, reuniram­se os membros da Biblioteca Tereza Ramos do Grupo Escolar 19Fonte http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos37­
45/EducacaoCulturaPropaganda/INL>. Acesso em: 20 maio 2015.
< 150
Olívio Amorim para tratarem dos seguintes assuntos: 1) A secretaria fez a leitura da Ata anterior que foi aprovada e assinada por todos os presentes. 2) A professora falou­nos sobre o movimento da biblioteca pedindo­nos mais atividades nos trabalhos, porque estes devem ser feitos pelos alunos e não pela professora, que é apenas orientadora. 3) Foi combinado a compra de um objeto para ser rifado em beneficio da biblioteca. 4) A seguir, o 1º tesoureiro apresentou o movimento financeiro de maio e junho, que foi o seguinte: saldo de abril C$ 30,90 – Arrecadação de maio – 5,00 – Arrecadação de junho – 4,00. Saldo para julho: 39,00. Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a reunião [...]. (ATA, 1949, p. 286).
Esta leitura mostra que a Biblioteca Tereza Ramos tinha uma cultura já presente e instaurada. Neste e nos relatos anteriores, sempre antes do início da reunião, lia­se a ata da reunião anterior, com aprovação e assinatura de todos os presentes. Nesta sessão, em especial, chama a atenção o fato de a professora falar sobre o movimento da biblioteca e sobre as atividades que deveriam ser feitas ou organizadas pelos próprios alunos, membros da diretoria, e participantes da biblioteca, como previam o Decreto nº3735 e o movimento escolanovista. Percebe­se também como esta associação lidava com a questão das verbas arrecadadas. Aliás, previa e exigia transparência, o decreto, na administração da associação. De 151
acordo com a ata, quem o faz é o 1º tesoureiro, apresentando os saldos do mês e dos meses anteriores, e as estratégias organizadas pela própria associação para angariar verbas para tal fim. A emancipação e auto­organização dos alunos no ambiente escolar são questões fundamentais para se pensar na educação nos dias atuais, que exigem uma pedagogia na qual o aluno, além de ser a questão central da educação, também é a peça de mudança do quadro atual da escola e da sociedade.
Já na Biblioteca Dom João Bosco, conforme revelou a análise, o espaço tanto servia como sala de leitura, quanto local de reunião da associação. A pauta desses encontros previa a leitura das atas das reuniões anteriores, o planejamento tanto do grupo escolar quanto da associação para o ano, além de prever as práticas de leitura entre professores e alunos, seguindo a praxe de os alunos lerem exercícios feitos em sala de aula e até poesias. É de se ressaltar, também, a escrita como prática, uma vez que, em algumas atividades, os alunos construíam textos a partir dos próprios textos lidos na reunião. Tudo isso constituía o papel da biblioteca, sempre conforme o decreto.
Do início dos anos 1950 em diante, a Biblioteca João Bosco já era utilizada como espaço de leitura, além de servir para uso e vivência dos alunos, que desde aquela época 152
trabalhavam com vistas a uma organização que o decreto transformaria numa das várias associações auxiliares da escola:
Às 11 horas do dia 4 de julho, sob a presidência do aluno Francisco, presidente da Biblioteca D. João Bosco, esteve reunida a diretoria da dita Associação, contando a presença da professora orientadora. O presidente, em poucas palavras, agradeceu a cooperação dos membros da diretoria e a boa vontade dos alunos na venda das rifas, que foi aproveitada para a compra de papel para o encapamento dos livros. A professora convidou então para os alunos à tarde virem ajudar a reorganização da biblioteca, para que fique pronta o mais breve possível, a fim de que os alunos e professores possam retirar livros.
O presidente pediu à diretoria que continuasse a trabalhar com afinco para obter mais livros e comunicou que o Instituto Nacional do Livro mandou alguns livros para a biblioteca [...]. (ATA, 1951, p. 295).
Como consta dessa ata, os alunos atuavam diretamente nos trabalhos de incentivo à leitura, assim como na organização do próprio espaço e no trabalho material do livro, atividade que também envolvia o Instituto Nacional do Livro, com a distribuição de livros aos grupos escolares, entre eles o próprio:
As atividades ali desenvolvidas convergiam para uma parceria entre leitura e biblioteca, que 153
o decreto confirmou e oficializou, embora a biblioteca se ocupasse mais da parte de gestão dos livros organizados naquele espaço do que propriamente com projetos de fomento à leitura. Em ata de uma sessão do Clube de Leitura mencionava­se um trabalho conjunto num processo que compreendia a leitura e o espaço para a guarda e organização do livro. Aos doze dias do mês de abril do ano de mil novecentos e quarenta e nove, às onze horas e dez minutos (11,10 h), a diretoria do Clube de Leitura reuniu­se para tratar afim de apresentar as suas atividades no decorrente mês. Em primeiro lugar teve a palavra a Sra. Presidente, ordenando que se fizesse, durante o mês, o “concurso de leitura” nos terceiros e quartos anos.
Ainda mais recomendou que os alunos membros desta associação cooperassem com a Biblioteca Tereza Ramos.
Nada mais havendo a tratar foi encerrada a reunião e eu como secretaria lavrei a presente ata (ATA, 1949, p.117).
Através dos documentos analisados, pode­se afirmar que nomear as associações auxiliares da escola Biblioteca e Clube de Leitura fazia parte da cultura escolar dos grupos escolares de Santa Catarina ainda na década de 1940, como também se costumava homenagear figuras políticas, educacionais e até mesmo religiosas. Exemplos desse costume são os nomes dados aos grupos e à biblioteca, de vez que 154
Teresa Ramos, esposa do governador Nereu Ramos (de 1935 a 1945), era conhecida na região sul por sua colaboração na expansão da educação em Santa Catarina. Esta cultura permanece até os dias atuais em diversas escolas municipais e estaduais. Comprovam o hábito os nomes de diversas escolas básicas20: Acácio Garibaldi, Almirante Carvalhal, Anísio Teixeira, Batista Pereira, Brigadeiro Eduardo Gomes, entre outras. Este tipo de cultura dos grupos escolares remete novamente ao estudo de Prates, Teive e Toccheto de Oliveira (2012), no sentido de que a criação das associações auxiliares desde 1944 tinha como objetivos criar práticas singulares e específicas, procurando atender às necessidades e especificidades da cultura de cada grupo escolar.
As fontes mostram que, mesmo com a criação de associações auxiliares da escola desde 1944, a expansão das bibliotecas se deveu ao Decreto nº 3.735, de 1946. É o caso da Biblioteca Escolar do Grupo Escolar Olívio Amorim, que, em 1949, três anos após a regulamentação, já se apresentava estruturada nos moldes do Decreto, como mostra a 20 A relação dos nomes completos pode ser encontrada neste link oficial da Prefeitura Municipal de Florianópolis: <http://www.pmf.sc.gov.br/entidades/educa/index.php?cms=escolas+basic
as&menu=17>. Acesso em: 27 abr. 2015.
155
ata de sua oitava reunião, que reuniu a secretária e professoras para debater assuntos como:
1)
A secretária leu a ata da reunião anterior, que foi assinada por todos os presentes da reunião;
2)
A professora nos relatou sobre a conservação dos livros, a maneira de conservar as capas, numerar, catalogar e etc;
3)
Ficou marcada a entrega de livros as quintas, sextas e sábados e para devolução as segundas, terças e quartas (ATA, 1949, p. 95).
Pelos dados, nas atas não se registrava a presença de cada membro; porém, o que se pode perceber é que, conforme diretrizes do Decreto nº 3.735, as sessões começavam sempre com a leitura da ata da reunião anterior, para, a partir disso, dar início à discussão sobre os temas de interesse da reunião do dia.
Isto faz lembrar o entendimento de cultura escolar de Viñao Frago (2000, p. 100): “Esses modos de fazer e pensar ­ mentalidades, atitudes, rituais, mitos, discursos, ações – amplamente compartilhados, assumidos, servem a uns e a outros para desempenhar suas tarefas diárias”. A biblioteca escolar assumia essa cultura que, para se adequar ao Decreto nº 3.735, precisava dos ritos e atores da escola em suas sessões.
156
As diretrizes do documento apontavam para um clube de leitura que contemplasse o “espírito” do ser humano e que fosse além do conhecimento técnico, fazendo com que o conhecimento adquirido no livro ampliasse a imaginação do indivíduo e o levasse à sua verdadeira vocação.
A biblioteca da escola em Santa Catarina, na década de 1940, demonstrava, através das atas, um caráter conservador, no sentido de uma intensa preocupação na guarda dos livros e na observação do silêncio, característico desse espaço. Esta cultura perdura até hoje em muitas bibliotecas públicas e particulares.
A punição consta dos relatórios da Biblioteca Escolar Tereza Ramos como parte dos rituais culturais da escola. Castigavam­se os alunos impedindo­lhes a leitura de livros, conforme trecho da ata acima transcrita: “[...] os alunos que até quarta feira não fizerem a devolução dos livros requisitados, não terão direito de ler novos livros, sem que a devolução seja feita” (ATA, 1949, p. 95).
As atas mostram que a biblioteca Tereza Ramos não se preocupava somente com os atrasos dos livros, mas também com sua conservação, no sentido de que era importantíssimo 157
para um local de grande rotatividade de materiais impressos o cuidado com os papéis e sua conservação.
Apesar de não estarem presentes nas sessões das bibliotecas escolares, como previa o Decreto nº 3.735, a biblioteca Tereza Ramos, em seus relatórios, tinha como característica apresentar quem a presidia: Foi apresentado o movimento da biblioteca em abril; não havendo nada mais para tratar, a Sra Professora encerrou a reunião, eu, Ondina Pereira, na atividade de 1ª secretária, lavrei a presente Ata. Trindade, 14 de maio de 1949. Aurora Piazza de Mello, Guilhermina Ventura, Jurema Maria Silveira, Ondina Ferreira e Leoni Carlota (ATA, 1949, p. 95).
Esta reflexão pretende dar visibilidade à história do Grupo Escolar Olívio Amorim e se embrenhar nas suas associações auxiliares de leitura, para entender o tipo de cultura escolar presente, ou (re) produzido, neste grupo. Pensar no passado e suas práticas são um modo para pensar em possíveis contribuições para a educação contemporânea. A possibilidade de visitar arquivos, ter acesso a atas e relatórios de grupos escolares leva a pensar na importância de movimentar as fontes e discutir a educação atual.
As reflexões até aqui desenvolvidas permitiram pensar que, como previa Viñao Frago, existem culturas escolares e 158
elas estão misturas às características de cada grupo escolar e de cada indivíduos que compõem o espaço escolar. A cultura escolar é construída através do tempo e do espaço de cada individuo; cada um carrega consigo a própria historia e, com isso, a própria cultura. Uma cultura pode ser diferenciada de outras por seu tempo, vivencia e ambiente. Num mesmo país, estado, bairro ou escola, pode­se pensar para cada um desses ambientes culturais que podem ser produzidas de maneiras diferentes ou reproduzidas de maneira semelhante.
As fontes sobre o Grupo Escolar Olívio Amorim, embora informem que se tratava de uma escola de ensino e cultura laica, não fugia aos padrões de cunho nacionalista, cristão e às delimitações de tarefas para os membros das associações escolares, características culturais semelhantes às encontradas em muitos grupos escolares da década de 1940. As ideias de nacionalização do ensino, hierarquia escolar e punição vinham acompanhadas, muitas vezes, da ideia de ordem, ou seja, eram características tão semelhantes ao ponto de facilmente se confundir com a catequização e a cultura cristã, esta também calcada na ideia de vigilância e punição. Os dez mandamentos, a Bíblia e as pregações são alguns exemplos que revelam esta cultura. Esta característica aparece claramente 159
nas atas do Grupo Escolar Padre Anchieta, assunto do subtítulo abaixo.
3.2 OS “DEVOTOS” DA BIBLIOTECA DOM JOÃO BOSCO
Os alunos do educandário Padre Anchieta, e até ex­
alunos (as), sócios do clube de leitura e das demais associações auxiliares da escola, tinham deveres e direitos muito bem delimitados. O Decreto nº 3.735, que traçava as diretrizes a serem seguidas pelos sócios, não somente no clube de leitura, também se impunha aos clubes agrícolas e demais associações auxiliares da escola.
Nota­se, no decreto, que todas as associações auxiliares, criadas em prol da comunidade escolar, já estavam instauradas no Grupo Escolar Padre Anchieta, assim como as associações de leitura (pró­língua nacional, biblioteca escolar, clube de leitura), que trabalhavam em conjunto com o objetivo de formar alunos leitores. O Clube Agrícola e a Liga de Bondade também atuavam em parceria, de modo a cumprir os seus objetivos21.
160
Como referi no decorrer do trabalho, algumas reuniões desta associação auxiliar da escola eram presididas de acordo com as diretrizes do Decreto nº 3735, pelos próprios alunos da instituição. Dia 4 de junho de 1949, a 3ª reunião da Biblioteca Dom João Bosco realizava­se sob a presidência do aluno Francisco:
O presidente em poucas palavras agradeceu a cooperação dos membros da diretoria e a boa vontade dos alunos nas vendas das rifas rendendo 81,50, que foi aproveitado na compra de papel para o encapamento dos livros. A professora Eugenia Silva Martins convidou então para os alunos à tarde virem ajudar a reorganização da biblioteca, para que fique pronta o mais breve possível, a fim de que alunos e professores possam retirar os livros (ATA, 1949, p. 295).
Francisco, aluno e presidente da Biblioteca Dom João Bosco durante o ano de 1949, pediu à diretoria da Biblioteca Dom João Bosco que continuasse seu trabalho para conseguir cada vez mais livros e aproveitou do momento para também comunicar que o Instituto Nacional do Livro havia mandado 21 O Clube agrícola e a Liga da Bondade não são foco deste trabalho, mas servem como exemplo para ilustrar a cultura e a apropriação do Decreto 3.735. 161
alguns livros para aumentar o acervo da biblioteca. Após o exposto, foi encerrada a reunião com os demais presentes e com a ata feita e assinada pela 1ª. secretária, Nicole Vieira (ATA, 1949, p. 295).
A “preocupação” de se manter movimentada uma biblioteca na escola e, ao mesmo tempo, zelar por seu material não é dos dias de hoje. Tenho indicados relatórios que informam que a biblioteca Dom João Bosco se preocupava com essas questões e tentava resolver com os seus membros e sócios propondo medidas adequadas aos problemas.
As medidas adotadas para movimentar a biblioteca na escola e o processo de atividades propostas entre ela, o clube de leitura e demais associações auxiliares, iriam permitir, segundo Machado (2002, p. 102), uma maior interação entre alunos e professores, além de estimular a circulação de produção de textos e outros materiais elaborados pelos alunos em suas atividades.
Durante a terceira reunião (1949) desta associação, em uma das salas do Grupo Padre Anchieta, estiveram reunidos os membros da diretoria da Biblioteca Dom João Bosco, sob a presidência de um aluno e uma professora orientadora, constituindo como os seguintes assuntos:
162
1º Que o número de sócios da Biblioteca é muito pequeno.
2º Falou a orientadora que é preciso ativar os trabalhos da Biblioteca para termos o resultado desejado.
3º A diretoria deve ter o máximo cuidado, marcando bem os sócios que estão tendo pouco zelo com os livros devolvendo­os com a capa estragada.
Esgotando­se o tempo, foi cantado por todos os presentes o hino nacional e encerrando a sessão, e eu como secretário lavrei a presente ata (ATA, 1949, p. 97).
A cultura das bibliotecas escolares tem deixado heranças, como o planejamento dos trabalhos pela gestão da unidade de informação, com enfoque nos resultados. Quanto a ativar os trabalhos da Biblioteca Dom João Bosco, as atas mostram que as ações de incentivo à leitura, como, por exemplo, as práticas da associação auxiliar da escola clube de leitura, eram realizadas em salas de aula do Educandário Padre Anchieta, em especial na sala “Tiradentes”, este e outros, espaços diferentes dos da biblioteca. Talvez fosse o momento adequado para promover um trabalho conjunto, fazendo com que a biblioteca alcançasse os resultados desejados. Mesmo em desacordo com o que previa o decreto, a partir dos anos 1950 fez­se um grande esforço para que os trabalhos fossem realizados com maior integração, não apenas 163
com as associações auxiliares da escola, mas também com todas as que contribuíam com a formação dos alunos.
Pensadores e educadores da época enfatizavam a importância destes espaços. Cecília Meireles, por exemplo, dedicou parte da sua vida às bibliotecas infantis. Legou­nos suas reflexões a respeito de sua importância:
As Bibliotecas Infantis correspondem a uma necessidade da época, e têm a vantagem não só de permitirem à criança uma enorme variedade de leituras, mas de instruírem os adultos acerca de suas preferências. Pois, pela escolha feita, entre tantos livros postos à sua disposição, a criança revela o seu gosto, as suas tendências, os seus interesses. Compõem­se, as Bibliotecas Infantis, de todos os livros clássicos, e dos que se vão incorporando a essa coleção. Deviam ser anotadas as preferências das crianças sobre essas leituras, para informação dos que se dedicam ao estudo do assunto (MEIRELES, 1979, p. 111).
Para a autora e os educadores da Nova Escola, a leitura era ferramenta básica para o desenvolvimento intelectual, artístico e sensitivo da criança, assim como um instrumento para os alunos dos grupos escolares conhecerem um pouco mais da história do seu país, da importância das figuras nacionais para a pátria, de como isso era importante para sua 164
formação, fazendo assim com que se tornassem futuros nacionalistas e cidadãos importantes para o Brasil.
O cuidado com os livros também era objeto de atenção da diretoria da Biblioteca Dom João Bosco, que estava disposta a marcar quais eram os sócios que não tinham cuidado com os livros. A cultura do “cuidar dos livros” era algo que devia ser trabalhado com toda a comunidade escolar, chamando a atenção para o cuidado com o material e a importância da informação para o crescimento social.
O cuidado com os livros representava também uma maneira de cuidar dos alunos e de vigiar sobre seu comportamento. Assim, os alunos que não cuidassem bem dos livros, ou atrasassem a devolução, pagariam multa à biblioteca (ATA, 1951, p. 89). A leitura destas atas informa sobre a problemática dos privilégios e das posições estratégicas ocupadas pelos diretores e professores nos grupos escolares e quem tinha competência para punir (FOUCAULT, 1975, p. 29). É relevante tocar nessa problemática, pois se tratava de uma época em que, no campo teórico, ou seja, na pedagogia da Escola Nova, expressa no Decreto nº 3.735 e pelos pensadores da época, não compartilhava esta condição; contudo, este ciclo, ou melhor, a mentalidade perdura incrustada em nossa cultura, sendo até difícil distinguir entre reação cultural e simples 165
rebeldia, embora se deva admitir que o sentido de penalização hoje é diferente e mais sutil do que foi à época que resultou no decreto. De fato, as atas do Clube de Leitura e da Biblioteca do Grupo Escolar Padre Anchieta, principalmente entre 1950 e 1953, revelam um tipo de vigilância que Foucault chama de “hierárquica”. A posição das cadeiras em sala de aula, o quadro na frente, onde fica o professor, a posição para o Hino Nacional e a fileira que separa meninos de meninas, já são maneiras de vigiar os corpos e punir algo quando saia do normal. Sentido de vigilância hierárquica, segundo Foucault:
O exercício da disciplina supõe um dispositivo que obrigue pelo jogo do olhar; Um aparelho onde as técnicas que permitem ver induzam a efeitos de poder, e onde, em troca, os meios de coerção tornem claramente visíveis aqueles sobre que se aplica. Lentamente no decorrer da época clássica, são construídos esses observatórios da multiplicidade humana para os quais a história das ciências guardou tão poucos elogios. (FOUCAULT, 1975, p. 154). A leitura dos documentos mostra uma problemática no sentido de que, segundo a pedagogia da Escola Nova, tanto alunos, quanto diretores e organizadores das associações auxiliares da escola deveriam gozar de total autonomia para desenvolver suas atribuições. Apesar de algumas vezes, como no caso da Biblioteca Dom João Bosco do Grupo Escolar Padre 166
Anchieta, os alunos terem autonomia para desenvolver atividades e presidir reuniões que constam em ata, não a tinham como a pregavam o Decreto nº 3.735 e propunha o Manifesto. Os alunos­diretores continuavam a ocupar um lugar de subordinação dentro dos grupos escolares. “O professor irá registrar no seu caderno que irá fazer as lições, os alunos que não trouxerem terão seus nomes anotados” (ATA, 1953, p. 75) Ou: “Os alunos que atrasarem os livros não poderão mais pegar livros no mês”. (ATA, 1953, p. 91).
Era preciso muito mais que iniciativas públicas para deixar os alunos mais “à vontade” no ambiente. Todo acompanhamento, ou vigilância de poder, não corresponde aos ideais do movimento escolanovista, mesmo considerados todos os elementos progressistas voltados à educação já destacados no decorrer deste trabalho.
Em contraponto, pelo que afirma Tonnac (2010, p. 10) no prefácio do livro “Não contem com o fim do livro”, que trata de um diálogo sobre a história do livro desde o papiro aos arquivos eletrônicos entre os autores Umberto Eco e Jean­
Claude Carrière, nos faz refletir até que ponto a questão da conservação dos livros não nos torna prisioneiros de um cuidado exagerado, privando­nos até da livre circulação dos livros.
167
O exame dos relatórios da Biblioteca Escolar Dom João Bosco, do Grupo Padre Anchieta, a ‘associação’, até o final da década de 1940, mostra que havia a preocupação em manter a periodicidade das reuniões mensais para discutir temas que envolviam principalmente os sócios, seu crescimento (ou diminuição) e o asseio no espaço.
A cooperação entre o Clube de Leitura do Grupo Padre Anchieta e a Biblioteca Dom João Bosco começam a se efetivar a partir dos anos 1950, quando há necessidade desta união entre as associações auxiliares da escola para comprimento do Decreto nº 3.735 e para o melhor alcance dos objetivos do educandário.
A integração das associações fica evidenciada pela cultura de sociabilidade presente neste espaço, o que, segundo as palavras de Eggert­Steindel (2012, p. 76), é a finalidade que estas instituições se propunham, como a formação do educando­aluno social e cultural, convertidas em objetivo e finalidade, tanto da biblioteca quanto do clube de leitura. Em relação à Biblioteca Dom João Bosco, no sentido de apropriação do Decreto nº 3.735, pode­se perceber as reuniões mensais e a preocupação com seu espaço e atividades. É importante ressaltar também a presença da diretoria (os atores) 168
e bibliotecárias nas reuniões nesse período. Machado (2002, p. 109) partilha da ideia de que os atores sociais envolvidos na elaboração de estratégias tiveram que assumir papéis para que os livros e as bibliotecas interagissem nas relações pedagógicas da escola e assim produzissem ou reproduzissem (novas) formas e movimentação da categoria cultura escolar.
Quando o estudo foi iniciado, o pressuposto de que a cultura desta biblioteca era cristã foi evidenciado pelas atas. Considerando tratar­se de um colégio arquidiocesano, nada mais lógico do que o predomínio cultura cristã católica até mesmo no nome da biblioteca. Além dessa forte cultura, o ambiente, cristão­católico­nacionalista, impunha­se como cultura escolar. O nacionalismo, também evocado nos nomes, como o de “Tiradentes”, era fortificado nas reuniões que se realizavam na Biblioteca Dom João Bosco. As atas relatam que mensalmente o Hino Nacional era cantado pelos presentes.
Nos anos 1950, esta cultura se fortalece pela socialização das associações auxiliares da escola (a biblioteca Dom João Bosco fortalece sua cultura através de práticas de leitura de cunho nacionalista e cristão).
As atas e relatórios das associações aqui estudadas permitem conhecer um pouco melhor a história dos grupos 169
escolares e como Santa Catarina, mais precisamente Florianópolis, se encontrava em relação à educação, no período em que se tentava nacionalizar o ensino.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste trabalho apresentaram­se ideias que se consideram relevantes para o debate no campo da educação, como a influência do pensamento da Escola Nova e a visibilidade das bibliotecas e clubes de leitura no ambiente escolar. É importante destacar que essas instituições foram regulamentadas num momento de destaque da história da nossa educação, de reforma educacional num período delicado da nossa política. Alguns pensadores e idealizadores do pensamento escolanovista foram considerados subversivos no período estudado, tamanha conturbação que agitava a sociedade.
Fica claro, com o presente trabalho, que tanto a biblioteca (sob a forma que venha a assumir numa época considerada pós­moderna e informatizada) quanto as práticas escolares de leitura (no formato disponibilizado pela tecnologia e a indústria eletrônica), continuam integrando a cultura escolar, e devem servir de referência às políticas públicas e aos projetos pedagógicos das escolas na atualidade, mas recuperando a interação dos diversos agentes da nossa educação, acabando com qualquer forma de isolamento. As associações auxiliares Clube de Leitura e Biblioteca dos grupos 172
escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim, a partir do Decreto nº 3.735, não apenas alteraram o conceito de cultura, como, sobretudo, o de “reprodução cultural” e a transformação do aluno em elemento principal do ambiente escolar.
No Grupo Escolar Padre Anchieta (religioso) e no Olívio Amorim (político) demonstram as questões dos heróis ou modelos. Hoje, com uma cultura global e inovadora em todos os campos, inclusive no da educação, a grande questão é encontrar quem possa servir de modelo para guiar num caminho de rumos ignorados. Dos clubes de leitura fica preservada a necessidade de ler, ou se informar, e a da biblioteca, de espaço para se pensar ou uma grande pasta na qual encontrar os arquivos necessários ao atendimento de interesses, tarefa hoje em grande parte disponibilizada “online” a quem esteja familiarizado com a linguagem eletrônica. Não há como negar o desencontro entre quem deve orientar (professores de outra geração com dificuldade de compreensão e diálogo com a linguagem pós­moderna e professores da geração pós­moderna) e alunos mais que equipados por meios de comunicação os mais avançados, mas com dificuldade de vislumbrar o futuro, mais tecido por relações do que por unidades estanques. Grupo Escolar Padre Anchieta ou Grupo Escolar Olívio Amorim? Um outro ou um outro? O que parece 173
essencial a se preservar do Decreto nº 3.735 é a necessidade de associações auxiliares da escola. A escola sempre existirá, pois sempre haverá novas gerações, mas a questão parece ser o tipo de necessidades que a escola apresenta, o que se traduzirá em diferentes “auxílios” por definir.
Consegui compreender como objetivo geral deste estudo, através das leituras das Atas dos Clubes de Leitura dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim como eram desenvolvidas suas atividades. Percebi em diversas vezes que o Clube de Leitura Padre Anchieta se aproximava muito do que previa o Decreto nº 3735 no que diz respeito ao trabalho integrado com outras Associações Auxiliares, como a Biblioteca por exemplo. Foi possível observar no caso do Clube de Leitura Olívio Amorim as incessantes atividades de leitura tendo como foco heróis nacionais no sentido de promover a cultura brasileira, salientar a importância do patriotismo no desenvolvimento nacional e a filosofia escolanovista. Destaco o paradoxo visível na leitura do conjunto de atas de ambas as instituições, isto é, foi possível perceber que os alunos em ambos os Clubes de Leitura eram responsáveis por desenvolver atividades e até mesmo livres para o desenvolvimento destas práticas em algumas sessões, contudo, a presença de uma professora orientadora nas sessões 174
de leitura servia para vigiar como as atividades estavam sendo desenvolvidas e se os alunos estavam cumprindo todas as atividades previstas pelo Clube. Tudo isto, previsto e legitimado através das diretrizes do Decreto nº 3735.
No primeiro capítulo, as associações auxiliares da escola foram evidenciadas sob uma perspectiva histórica, através da análise de leis que regulamentavam as atividades dos grupos escolares em Santa Catarina, pois já então se processava uma ruptura entre uma cultura conservadora e uma nova pedagogia, a “escola nova”. Na época, era possível traçar diretrizes, amadurecidas na experiência de pioneiros ou na visão de idealistas (Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova) estruturada na linha de experimentos bem­sucedidos, que poderiam servir de guia (diretriz), mas suficientemente convincentes para serem endossados por lei (os vários decretos).
A documentação consultada (atas e relatórios das associações e grupos escolares) serviam como elementos de exame para um diagnóstico a cargo de um departamento observador e pensante (Secretaria de Educação), e de imposições que, sob o formato de “reformas”, procuravam modificar os modelos vigentes, francamente conscientes das oposições ou dificuldades que lhes fariam frente. Os grupos 175
escolhidos para estudo opunham o religioso ao laico. Eram então posições claras. Hoje a situação não chega a ser tão claramente definida, de modo a se saber o que deve mudar e o rumo a se seguir. A lição do passado nos impele a não repeti­
lo, mas a lhe conservar o espírito inovador, ou o de enfrentar os desafios que vêm pela frente. Há que se perguntar o que hoje poderia corresponder aos clubes de leitura. As bibliotecas – não importa a forma que venham a assumir – devem fornecer material de consulta (sua atualização comporta tanto o passado histórico como os mais avançados pensadores). Os clubes de leitura são as interpretações, as leituras dos novos sinais e das novas linguagens a interpretar. O que resta de comum entre as diversas bibliotecas (uma de tendência confessional e outra, de tendência laica, ou seja, não propriamente opostas, mas de diferentes visões de mundo). Observou­se de maneira nítida através da análise das Atas dos Clubes de Leitura como estes se apropriaram das diretrizes do Decreto nº3735 e os saberes escolares contidos em cada sessão do Clube de Leitura, em um período de mudança curricular, o Clube de Leitura de ambos os Grupos Escolares analisados serviu como suporte para tentativa de se das novas filosofias escolares. Não só o Clube de Leitura, mas também as 176
Bibliotecas como foram analisadas neste trabalho, seu trabalho em conjunto e às vezes individual, como também era previsto por Lei. Não foi possível perceber o uso de manuais didáticos nas atividades do Clube de Leitura, como anunciado em um dos objetivos do estudo, no entanto a documentação examinada aponta que estes livros eram de cunho nacionalista na maioria das vezes em que estes eram citados para as atividades de leitura, assim como revistas quando se tinha como objetivo nas atividades o recorte de figuras celebres nacionais. Estes fatores aparecem com destaque através da evidenciação destas Associações Auxiliares na leitura de suas Atas.
Se era atribuição das bibliotecas ser referência de consulta e disponibilização de livros, aos clubes cabia a função de “estimular”. O estímulo é uma ideia que deve ser preservada, mas aplicável ao contexto atual. Com relação a isso, a chamada era pós­moderna é também conhecida como era da comunicação, e os estímulos são hoje os mais diversos e constantes. Alguns estudiosos se referem à massa de informação disponível. À biblioteca, ao clube, à escola ou a alguma “associação auxiliar” cabe a função de orientar, de pôr ordem no caos, na abundância desordenada de “informações” que cerca a todos indistintamente, mas que parece interessar 177
particularmente às mais novas gerações. Há urgência, pela velocidade com que os processos e técnicas se desenvolvem, em se encontrar referências e orientação. Pode­se dizer, traduzindo o conceito de biblioteca, que o mundo está hoje digitalizado, “online”, acessível e disponível a partir de algum aparelho eletrônico ou os multi­função de gerações cada vez mais novas e de vida mais curta. Esse mundo todo exige a escola, mas o “pensar junto” poderá levar à descoberta de caminhos sucedâneos aos do clube e da biblioteca.
Em meu trabalho de pesquisa, pude identificar as diferentes visões de cada um dos grupos e os saberes comuns. Não é pela abundância e variedade de alimentos que se pode impunemente tragar de tudo. A fome e o gosto são critérios que orientam na escolha do alimento necessário ao corpo. No caso da informação e do conhecimento, talvez se deva recorrer ao sábio princípio do autoconhecimento, pois será um instrumento seletivo do que se deva assimilar e orientador sobre o que fazer. Continua sendo uma tarefa básica a da educação, necessária à preservação e desenvolvimento da personalidade e não mero consumidor ou até objeto de consumo às avessas. Dados pessoais, endereços postais ou eletrônicos são informações fundamentais para o mundo do trabalho, que por eles se infiltra e tenta infiltrar seus produtos. Aos órgãos que 178
fazem a função da escola compete o trabalho da preservação e desenvolvimento da identidade do cidadão “cibernético”. Os tipos a seguir – em substituição aos modelos como Tiradentes, Anchieta, Caxias... – estão por ser descobertos ou inventados.
A partir das leituras realizadas no campo da leitura, biblioteca e cultura escolar, este estudo pretendeu viabilizar possíveis futuras discussões que tenham como tema o estudo da historia das bibliotecas nas escolas em Santa Catarina, a sua história da educação assim como a cultura que constrói o Estado, através dos muros da escola, dos livros da biblioteca, dos alunos e professores com compõe um ambiente escolar. Nesta perspectiva lembro­me de Chartier (2003, p. 173), em sua obra Leitura e leitores na França no Antigo Regime, no qual o autor escreveu que o livro (então uma novidade), “uma vez escrito e saído às prensas, seja ele qual for, está suscetível a uma multiplicidade de usos. Ele é feito para ser lido, claro, mas as modalidades do ler são, elas próprias, múltiplas, diferentes segundo as épocas, os lugares, os ambientes”.
Com certeza já dispomos de suficientes informações sobre clubes de leitura e bibliotecas. Este trabalho acaba de fazer uma exploração sobre duas unidades representativas de um passado recente, mas passado. O problema que afeta a educação são recursos presentes, com os quais ainda nos falta 179
familiaridade (o que é diferente de “uso”). É de se aplicar aos mecanismos atuais (internet, informática, eletrônica afirma Chartier com respeito ao livro: a mensagem nos chega: modalidades múltiplas, diferentes segundo lugares e tempos ou segundo o tempo, o lugar e o nível de “alfabetização digital” de cada um – pois a todos envolve ­, que é preciso aprender a ler. Há uma diferença fundamental entre domínio técnico e conhecimento e interpretação.
Este trabalho se propôs a investigar as Atas dos Clubes de Leitura e Bibliotecas dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim do período entre 1946 à 1956, por partir do principio que seria de grande relevância analisar apropriações do Decreto nº3735 dez anos após a sua regulamentação, contudo só foi possível ter acesso até o ano de 1953 no Arquivo Público de Santa Catarina por motivos do arquivo não ter recuperado as atas entre os anos de 1954 à 1963. Procurei algumas atas deste período também nas atuais escolas em Florianópolis, mas nenhuma delas tem em seu arquivo ou em sua Biblioteca. Contudo, acredito que a empiria que obtive neste trabalho conseguir dar conta dos objetivos a que me dispus neste presente trabalho. Os dados que obtive nos relatórios que continham as Atas destes Grupos Escolares no Arquivo do período entre 1946 à 1953 eram muitos e acredito 180
que as informações que obtive me fizeram cumprir com os objetivos deste trabalho. Ao final destas considerações será possível consultar uma tabela ilustrativa com alguns dados que foram analisados.
As novidades cibernéticas que aparentemente convulsionam a ordem estabelecida, com hierarquias funcionais, simplesmente assinalam novos tempos para velhos problemas. Há algo de clássico e atemporal nas ideias constantes do Manifesto dos Pioneiros, ou de Freire, com seu atualíssimo “A importância do ato de ler”.
Afora projetos e organismos oficiais de educação, num momento problemático que busca por orientação sinto­me como o contemplado com o pensamento de Freire, fazendo as suas palavras como por minhas. Como ele, sinto que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, pois linguagem e realidade se prendem dinamicamente. Compreender texto ou mensagem – que é o que se pretende alcançar ­ implica a percepção das relações entre texto e contexto (FREIRE, 1981).
Foi um trabalho um tanto quanto delicado, o de investigar uma cultura escolar do passado através de poucos vestígios embrenhados em várias prateleiras de um arquivo. Tarefa esta que permitiu com que fosse possível conhecer um 181
passado escolar a fim de resguardar uma memória viva que em muita das vezes permanece nos ambientes das escolas em que este estudo investigou. Questões do passado e do presente e como compartilha Le Goff (1990, p.207): “A distinção entre passado e presente é um elemento essencial da concepção do tempo”. Este tempo passado, que nos ajuda a problematizar o presente.
Com o presente trabalho pensei no passado, e suas práticas. Como aspirante a educador, foi um modo para pensar em possíveis contribuições para a educação contemporânea. A possibilidade de visitar arquivos, ter acesso a atas e relatórios de grupos escolares me convence da necessidade de pensar na importância de movimentar as fontes e discutir a educação contemporânea.
As reflexões até aqui desenvolvidas permitiram pensar que, como previa Viñao Frago, existem culturas escolares e elas estão misturadas às características de cada grupo escolar e de cada indivíduo que compõe o espaço escolar. O Decreto nº 3.735 serviu como base metodológica durante todo o percurso deste trabalho escrito. Desde os primeiros capítulos em que me aventurei a mergulhar em suas diretrizes e a tentar entender o que os seus regulamentos 182
significavam para aquele tempo (1946), até o ultimo capitulo em que investiguei como as Associações Auxiliares da Escola, em especial a Biblioteca e o Clube de Leitura se apropriaram de suas linhas, a fim de tentar estruturar uma nova pedagogia em seus grupos escolares brasileiros, movimento que foi citado muitas vezes neste trabalho: A Escola Nova.
Durante este trabalho senti a necessidade de conhecer um pouco mais sobre o que foi este movimento “escola nova” e tive que tentar compreender através de leituras citadas neste estudo, como estava a situação política, social e econômica do nosso país. Todo este exercício me fez perceber que o Decreto nº 3.735 tinha como principal objetivo tentar reproduzir uma nova pedagogia nos grupos escolares, como também estes dados já foram comprovados em outros trabalhos aqui citados. O que eu descobri é que as Associações Auxiliares de Leitura preocupavam­se em se apropriar dessas diretrizes em suas atividades e que através das suas “ferramentas” – o livro e a leitura – construíam, junto com os alunos (que eram o “objeto” de mais importância da filosofia da escola nova) o espírito e a cultura escolanovista, de modo a tentar recuperar o espírito patriota no coração da nova geração brasileira e a melhorar a situação política e econômica que havia se instaurado naquele momento.
183
Nesta perspectiva, foi possível observar uma proposta de uma nova pedagogia com progressos se contrapondo com as burocracias administrativas que resultavam por ecoar nas Atas analisadas do Clube de Leitura e da Biblioteca e a escolha de analisar um Grupo Escolar Arquidiocesano (Padre Anchieta) e um Grupo Escolar laico (Olívio Amorim) revelaram através de suas Atas estas características e paradoxos do que se previa em Decreto e do que ainda permanecia na cultura escolar. E dentro destas características ainda foi possível identificar as diferenças culturais, religiosas e políticas entre esses dois Grupos Escolares pertencentes de uma mesma cidade, Florianópolis­
SC, levando em consideração o que nos é alertado pelo estudo de Maria Teresa Santos da Cunha (2011) no qual a autora nos aponta que a Igreja Católica sempre foi detentora de grande parte da escolarização e cultura escolar, cabia a laicidade do ensino se contrapor a estas ações.
Para chegar a estas conclusões foi preciso mergulhar no universo do arquivo e das Atas destas Associações Auxiliares, objeto deste estudo. Se por um lado a burocracia administrativa da nova pedagogia se confundia com praticas da antiga pedagogia no trabalho dos escolanovistas, por outro lado elas acabam por auxiliar o trabalho dos pesquisadores da área da educação, como neste trabalho.
184
Particularmente, o que mais me chamou a atenção neste trabalho foi à permanência de práticas antigas no novo modelo de escola que estava tentando se aplicar no Brasil. Foi preciso uma incansável leitura nos regulamentos, leis e decretos do período estudado. O segundo capitulo deste trabalho foi de extrema importância para o entendimento tanto da cultura da escola nova como das praticas recorrentes das Associações Auxiliares da qual esse trabalho se dispôs a pesquisar. De fato, os Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim se apropriaram ou tentaram se apropriar da nova pedagogia, contudo as permanências pré­reforma educacional aparecem com nitidez nas suas praticas escolares, tanto do ponto de vista das Associações Auxiliares da Escola, como até mesmo dos seus Decretos que legitimavam tais ações através de suas diretrizes.
Entender uma cultura não é uma tarefa fácil, principalmente se tratando de uma cultura escolar no cenário brasileiro, principalmente porque grande parte do que nos foi ensinado, do que cabe pra educação e educadores e da nossa cultura, fogem da nossa ancestralidade. (MUNDURUKU, 2000). Portanto penso que seja de fundamental importância, nós da área da educação em pensarmos cada vez mais na nossa história e de como ela foi construída e esta sendo contada nos 185
dias atuais. Para isso, foi de fundamental importância conhecer através de suas atas os Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim. Mesmo na mesma cidade e no mesmo ano foi possível identificar suas peculiaridades e individualidades, ou seja, suas diferenças culturais, tanto no campo religioso como nas suas práticas. A importância que cada Grupo dava para suas respectivas Associações Auxiliares e a função que cada uma destas desempenhava em suas respectivas culturas escolares.
Finalizando, considero que este trabalho trouxe importantes contribuições e possíveis questionamentos para futuras pesquisas no campo da educação, história e historiografia da educação e para a biblioteconomia, minha área de formação. Portanto, gostaria de finalizar esta etapa com uma citação que me marcou durante esta trajetória de uma autora importantíssima para o período estudado e que continua sendo lida e estudada nos dias atuais, faço de minhas palavras, as palavras de Meireles (1943): “A educação é a única das coisas deste mundo em que acredito de maneira inabalável”. 186
187
FONTES CONSULTADAS
1
1.1
Arquivo Público do Estado de Santa Catarina
– Relatórios: Atas dos Clubes de Leitura do Grupo Escolar Padre Anchieta
A)
Ano – 1946
B)
Ano – 1947
C)
Ano ­1948
D)
Ano – 1949
E)
Ano – 1950
F)
Ano – 1951
G)
Ano ­ 1952
H)
Ano – 1953
1.2
– Relatórios: Atas da Biblioteca do Grupo Escolar Padre Anchieta
A)
Ano – 1946
B)
Ano – 1947
C)
Ano ­1948
D)
Ano – 1949
E)
Ano – 1950
F)
Ano – 1951
188
G)
Ano ­ 1952
H)
Ano – 1953
1.3
– Relatórios: Atas do Clube de Leitura do Grupo Escolar Olívio Amorim
A)
Ano – 1946
B)
Ano – 1947
C)
Ano ­1948
D)
Ano – 1949
E)
Ano – 1950
F)
Ano – 1951
G)
Ano ­ 1952
H)
Ano – 1953
1.4 – Relatórios: Atas da Biblioteca do Grupo Escolar Olívio Amorim
A)
Ano ­1948
B)
Ano – 1949
C)
Ano – 1950
D)
Ano – 1951
E)
Ano ­ 1952
189
F)
Ano – 1953
2) DECRETOS E OFICIOS
A) Decreto nº 3.735
B) Decreto – Lei nº2.991
C) Oficio Circular nº42/44
D) Decreto­Lei nº8.529/46
E) Decreto – Lei nº298 (1946)
F) Decreto nº3732
190
191
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201
ANEXO
Atas dos Clubes de Leitura e Bibliotecas dos Grupos Escolares Padre Anchieta e Olívio Amorim
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JOSÉ AUGUSTO DA SILVA NETO PRÁTICAS DE - Faed