XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 ORGANIZAÇÃO CURRICULAR POR CICLOS: CONCEPÇÕES NECESSÁRIAS A FORMAÇÃO DOCENTE E AS MUDANÇAS DESENCADEADAS EM MATO GROSSO. ANDRUCHAK, Ana Lúcia Universidade do Estado de Mato Grosso- UNEMAT Este estudo tem como propósito evidenciar a efervescência que as concepções sobre ciclos têm proporcionado no âmbito educacional brasileiro com destaque para as mudanças educacionais desencadeadas em Mato Grosso na última década, tendo como base estudiosos que se envolvem com a organização curricular do ensino por ciclos como: Arroyo, Freitas, Krug, Mainardes, Barretto, Mitrulis, Souza entre outros. O referencial aqui apresentado é um estudo bibliográfico a partir de uma pesquisa de cunho qualitativa que permite ao leitor compreender a trama conceitual e suas conseqüências para a educação, proporcionados a partir da organização do ensino por ciclos, partindo de conceitos envolvendo vivências que ocorreram em diversos estados brasileiros os quais se propuseram experienciar uma nova organização curricular. As concepções teóricas evidenciam que a organização do ensino por ciclos de formação ou ciclos de aprendizagem trata-se de uma proposta que modifica não só a organização escolar em uma rede de ensino, mas promove a compreensão da educação em seu significado social mais amplo proporcionando um olhar macro sobre a sociedade. Essa mudança no modo de conceber a educação pública define o destino de toda uma geração de crianças e adolescentes que possivelmente estão sendo exclusas do processo educacional ou ainda mesmo participando desse processo tem sido desrespeitado seu tempo para aprender. A bibliografia estudada revela que os esforços tem sido grande para que professores, alunos e pais compreendam que a atitude pedagógica é um ato político que possibilita os cidadãos obterem ou não determinadas oportunidades e a política educacional gestada contribui nesse processo. Palavras chave: Currículo, Ciclo, Formação Docente, Política Educacional. Iniciaremos buscando o conceito de Ciclo no dicionário Aurélio, sendo para este uma “série de fenômenos que se repetem em uma ordem determinada”, trazendo essa compreensão para a organização curricular do tempo escolar, podemos compreender que o que vem sendo proposto é que seja oportunizado um tempo maior para que o aluno compreenda e participe do processo de construção do conhecimento, ou o tempo necessário para que cada aluno possa usufruir da escola até que os círculos se fechem, que os processos naturalmente se completem, que as etapas se cumprem, que se concluam os ciclos. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003289 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 Para Miranda (2005), a mudança que se verifica na organização dos espaços e tempos da escola pública – a escola constituída sob princípio do conhecimento estaria dando lugar a uma escola orientada pelo princípio da socialidade. Socialidade entendida como um tempo/espaço destinado à convivência dos alunos, a experiência de socialidade, diferente dos conceitos tratados em sociologia. Numa perspectiva liberal clássica a escola e uma instância socializadora que tem a incumbência de preparar as novas gerações para a vida social mediante o contato com a tradição, com valores e saberes do mundo para a partir de então imprimirem suas referências mais conservadoras ou mais autônomas. Essa concepção de escola nunca se efetivou totalmente, pois nunca deixou de reproduzir os interesses e valores do mundo burguês, produzindo violência, desigualdade e injustiça. O princípio que orienta a concepção e organização da escola seriada é o conhecimento, porque reúne os alunos, configura um processo de ensino-aprendizagem onde o professor mediara determinados conhecimentos que deverão ser aprendidos pelos alunos em uma série, no período de um ano, organizados por idade independente do domínio dos conteúdos da série. A preocupação com o desenvolvimento social do aluno ocorre por meio do processo de ensino-aprendizagem. O princípio que sustenta a organização da escola em ciclos de formação contrapõe-se ao anterior com grandes alterações. Os alunos serão agrupados em ciclos, sendo separados por idade ou etapa de desenvolvimento humano, para garantir sua permanência e não seja interrompido seu desenvolvimento na escola a retenção e evitada. Portanto o foco central da escola organizada em ciclos de aprendizagem, de formação ou de desenvolvimento, é a mudança radical no conceito de reprovação. O objetivo principal dessa mudança é fazer com que os alunos não sejam mais excluídos da escola e dentro dela não sejam excluídos do processo de aprendizagem, ou seja, não sejam marginalizados. Isso implica em mudar o conceito de escola, ou da noção de socialização que ela proporciona, deixando de ser orientada por um critério iluminista onde os “iluminados” tem sucesso pela aquisição de conhecimentos, saberes, técnicas e valores para ser orientado por uma escola que privilegie a socialidade como dimensão fundamental para o desenvolvimento humano, onde os alunos possam permanecer na escola e disponham de espaço e tempo para desfrutar o que ela tem a oferecer, que possam viver experiências de cidadania, de convivência de formação de valores sociais e também adquirir conhecimento sem ser a centralidade dos objetivos. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003290 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 Os autores tem variado nas respostas as questões sobre ciclos. Perrenoud (2004), “Um ciclo de aprendizagem é um ciclo de estudos no qual não há mais reprovação”. Para Krug (2002), ciclos de formação são organizados segundo as fases de formação: infância (6 a 8 anos); pré-adolescência (9 a 11anos) e adolescência (12 a 1 anos). Para Arroyo (1999), a noção de ciclos encontra-se situada nas “temporalidades do desenvolvimento humano”, na “especificidade dos seus tempos-ciclos” “as idades da vida, da formação humana passam a ser o eixo estruturante do pensar, planejar, intervir, e fazer educativos, da organização das atividades, dos conhecimentos, dos valores, dos tempos e espaços” (p.158). Freitas (2003), afirma não rejeitar essa concepção de ciclo com base nas fases do desenvolvimento, mas busca ir além, fundamentado em Pistrak(1924), e citado por Krug (2002), diz que além do lado psicológico do desenvolvimento existe “o lado da formação social”. Não se pode negar que diferentes idades reagem diferente aos fenômenos, e que cada idade tem suas particularidades, mas daí definir seus interesses, conteúdos de aprendizagem, processos de ensino-aprendizagem o que devem ou podem fazer em cada etapa da vida é outro extremo. Os ciclos não devem ser uma simples solução pedagógica, devem ser compreendidos como uma forma de desenvolver novas relações sociais, que visam contrapor às relações vigentes como “instrumentos de resistência”. Segundo Freitas (2003 p. 67), os tempos e espaços da escola são colocados a serviço de novas relações de poder formando para a vida. Há outras propostas de organização da escola por ciclos com diferentes denominações, a progressão continuada está preocupada com a correção estatística do fluxo escolar com uma aparente estrutura de ciclos. Segundo Miranda (2005), o sistema de ensino de São Paulo sofre freqüentes críticas nesse sentido. Freitas compara as propostas de progressão continuada e de ciclos de formação, identifica a primeira como um “projeto histórico conservador de otimização da escola atual, imediatista e que visa o alinhamento da escola às necessidades da reestruturação produtiva”, a segunda reconhece como “um projeto histórico transformador das bases de organização da escola e da sociedade, de médio e longo prazo, que atua como resistência e fator de conscientização, articulado aos movimentos sociais”. Ao tratar de reformas educacionais orientadas para os ciclos de aprendizagem, Perrenoud (1999), distingue três tipos: as de primeiro tipo transformam as estruturas Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003291 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 escolares; as de segundo tipo, os currículos e as de terceiro tipo “aberta e institucionalmente para o cotidiano dos alunos e professores nas classes e nas escolas”. Para Miranda (2005), a introdução dos ciclos de aprendizagem é uma reforma de terceiro tipo, ainda que se apresente como uma reforma de estrutura e de currículo. Pois o que de fato precisa ser transformado são as práticas profissionais, no entendimento da autora. “Os valores, as atitudes, as representações, os conteúdos, as competências, a identidade e os projetos de cada um são, portanto decisivos. Trata-se daquilo que os tecnocratas chamam de „fator humano‟, que passa pela formação”. Freitas (2003), também se preocupa com a implantação sistemática da escola organizada em ciclos, este autor entende que os ciclos não devem ser implantados como política pública com aplicação em massa, alerta para experimentos feitos em redes inteiras. A organização escolar em ciclos propõe uma alteração no modo de conceber a escola: deixa de orienta-se por uma lógica vinculada aos processos de aquisição do conhecimento para orientar-se por uma lógica de “princípio de socialidade” onde a escola é uma instância cuja finalidade seja de promover a socialidade dos alunos, como um espaço/tempo em que se entendam pertencentes ao mundo, e que a tarefa da instrução fica em segundo plano. Socialidade entendida como espaço/tempo de convivência promovido pela escola (MIRANDA, 2005). Na concepção organizada por ciclos a noção de tempo é diferente. O que se pretende é que o aluno permaneça o tempo necessário para que se desenvolva sem um limite determinado para avanços entre uma etapa e outra. De início se percebe que este modelo de organização escolar provoca o alívio nas taxas oficiais de fluxo escolar ― correção de fluxo, correção das distorções do sistema anterior (seriado). Miranda (2005), alerta para procedimentos de avaliação que a qualquer preço corrigem tais distorções e que estes sob a denominação de avanço, inovação, estão promovendo mecanismos ainda mais sofisticados de discriminação e exclusão. Os que escaparam da exclusão pelo princípio do conhecimento (ou a falta dele na escola), caem na exclusão social por falta de conhecimento para a vida adulta, profissional e pessoal. A autora citada propõe que “mais do que efetivamente transformar a educação, talvez esteja em causa mudar a maneira de compreendê-la, principalmente por parte daqueles que a realizam na prática” e questiona: “Por que é mesmo que a escola deve passar a ser organizada por ciclos?”. Esse pensamento nos provoca pensar no modo como esse modelo tem sido implantado no Brasil, na preocupação com a urgência dessa Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003292 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 implantação e a falta de um debate e compreensão aprofundados por parte de todos os envolvidos antes da implantação nos estados. Aceitamos a idéia da autora que debater se não ajudar a mudar os princípios adotados pelo menos ajuda a compreendê-los e pode contribuir para minimizar o atual estado de reprodução de práticas pedagógicas excludentes. A Escola Organizada por Ciclos de Formação Humana em Mato Grosso. Em Mato Grosso a escola organizada por Ciclos de Formação Humana é implantada inicialmente com o nome de Escola Ciclada, tendo como sustentação um interesse por parte do governo do estado em superar seus índices de repetência e evasão. O Governo do Estado de Mato Grosso elaborou e pôs em execução programas inovadores de formação docente e discente, com o propósito de romper com a cultura da evasão e da reprovação escolar através de um conjunto de ações com o objetivo de oferecer uma educação pública de qualidade. Uma análise feita pela própria SEDUC – Secretaria de Educação do Estado de Mato Grosso, apresentou índices elevados de repetência e evasão escolar alcançando um total de 34,4% de fracasso escolar em 1997. Esses índices alertaram a necessidade de assumir novos compromissos, renunciando paradigmas predominantes no sistema de educação seriada, orientados pelo tecnicismo como a linearidade, padronização e o controle, assumindo o desafio de não só reduzir os altos índices de fracasso escolar, mas transformar a escola num espaço propício de aprendizagem de todos, sem provocar baixas na auto-estima. Com essa perspectiva a implantação da organização curricular por Ciclos de Formação Humana, como atualmente é compreendida, tem a intenção de instigar os educadores para uma nova forma de trabalho pedagógico na educação do Estado de Mato Grosso. Vem sendo proposta a superação dos desafios encontrados nas escolas públicas do estado, tais como: falta de condições para atender alunos com dificuldades de aprendizagem; o sistema de avaliação classificatório; falta de espaço e tempo para a construção efetiva do conhecimento. O desafio está em colocar em prática a Pedagogia da Inclusão e empreender um novo fazer pedagógico, buscando considerar a situação histórica em que o estado foi colonizado, com um fluxo migratório intenso de pessoas vindas de todos os estados do país, fato que além do aumento da demanda escolar exige novas e diferentes Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003293 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 expectativas sobre o currículo para essa diversidade cultural e as diferentes etnias, pois o ensino que tem sido oferecido encontra-se distante dos avanços tecnológicos e da realidade sócio-econômica e cultural (SEDUC, 2000). Nas concepções da organização curricular por ciclos, em Mato Grosso há o reconhecimento que o currículo das escolas públicas tem negado uma das principais características do estado: a diversidade cultural. A SEDUC/MT, através de estudos, vem percebendo que o currículo escolar não contempla essa diversidade por não emergir da prática social, tornando-se distante da vida da maioria dos alunos”. (SEDUC, 2000). Nesse sentido a SEDUC/MT tem desenvolvido uma inovação nas propostas curriculares e na organização de novos tempos e espaços para as aprendizagens com o propósito de mudar o Sistema Seriado do Ensino para Sistema Ciclado. O projeto teve início com o Projeto Terra em 1996, o CBA – Ciclo Básico de Aprendizagem em 1997. Essa mudança na organização curricular do ensino em Mato Grosso aposta no sucesso da aprendizagem de crianças e jovens, propõe um diálogo permanente e desafia para a busca da utopia, lembrando que utopia é fundamental para o avanço qualitativo de qualquer projeto educativo. No texto publicado pela SEDUC, há uma comparação entre as concepções do Sistema de Ensino por Série e o Sistema de Ensino por Ciclo, para entendimento estão sistematizados no quadro apêndice 1. O grande desafio está em considerar o conhecimento dialógico sobrepondo ao conhecimento puramente enciclopédico ampliando o processo de compreensão do mundo. Na Escola Organizada por Ciclos de Formação Humana em Mato Grosso, as diferentes etapas dos Ciclos de Formação devem dar continuidade: De prever uma certa seqüência e progressão entre os conteúdos a serem construídos em articulação entre os Ciclos construindo uma lógica interna de conteúdos no contexto escolar; De priorizar nas diversas áreas, aspectos do conhecimento que são significativos, entre os acumulados ao longo da história humana e destacados pelo PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais; De construir os conceitos e os demais processos de desenvolvimento dos educandos através da vivência e reflexão das suas diferentes dimensões, expressas nos processos de socialização, construção de conhecimento e desenvolvimento do pensamento; De estabelecer relações entre o desenvolvimento social e o desenvolvimento individual, entendendo o que dificulta a concretização da vinculação entre esses dois aspectos no cotidiano escolar. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003294 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 A proposta curricular por Ciclo abandona o conceito restrito de currículo como listagem de conteúdos, adotando uma visão ampliada incluindo conteúdos, métodos, objetivos, organização do tempo e do espaço escolar, as relações de ensino e as interações sociais constitutivas da aprendizagem significativa, critérios de avaliação, realidades socioculturais dos alunos, abrangendo as relações entre todos esses aspectos e as aprendizagens sociais. Baseando se em Coll (1996), o currículo proposto tem como primeira função explicitar o projeto educativo apontando intenções e plano de ação para sua realização, contendo informações necessárias a serem desenvolvidas pelo professor e pela escola. O currículo torna-se uma maneira de oportunizar a aquisição da experiência social historicamente acumulada e culturalmente organizada. Além de ser uma oportunidade para os alunos, o currículo, concomitantemente é o modo, a forma, a maneira em que estes alunos vivem essas oportunidades. Portanto o currículo é sempre uma construção sociocultural que revela seu compromisso com os sujeitos, com a prática social, com a história, com a sociedade e com a cultura. Uma concepção pedagógica que tenha como centro a compreensão da realidade humana, na sua totalidade, tem como pressuposto básico o caráter histórico do homem como produtor de sua existência, participante ativo, construtor da realidade e dos conhecimentos, constituindo-o sujeito dessa história. Dessa forma possibilita-nos compreender que o conhecimento é construído socialmente, portanto dinâmico, e segue o caminho do interpessoal para o intrapessoal segundo Vygotsky (1996). Portanto a construção e apreensão do conhecimento não pode ser linear, compartimentado, que impede a visualização e compreensão do todo. Conhecer é mais que adquirir informações, conhecer é compreender a realidade, interferir, refletir, estabelecer conexões macro e micro, é entender que a realidade é constituída de uma diversidade de saberes, é exercitar uma visão interdisciplinar. De acordo com Fourquin (1992), os conteúdos escolares devem ser entendidos em seus múltiplos sentidos, contemplando conhecimento já apropriado pelo aluno, proposto pelas diferentes áreas da ciência, que explicitem o processo de construção e desenvolvimento, por meio de conteúdos significativos para o processo de construção da compreensão da realidade. A organização curricular por ciclos em Mato Grosso vem propor o redimensionamento das condições em que ocorre o ensino escolar, considerando a Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003295 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 prática social como fonte dos conteúdos de ensino. Prática social entendida como toda experiência produzida nas relações sociais, materiais ou não-materiais, sem colocar em segundo plano os conteúdos tradicionais. Porém há a intenção de ressignificar esses conteúdos possibilitando uma abordagem mais viva, significativa, atrativa e adequada à realidade. A reorganização curricular por Ciclos de Formação Humana adotada em Mato Grosso tem exigido uma série de medidas que dêem sustentação a este projeto educacional tendo como meta o alcance dos objetivos propostos e a formação inicial e permanente dos profissionais da educação é compreendida como ação fundamental. A compreensão da alteração do olhar primeiramente centrado no conteúdo para ter como centro o aluno, exige uma nova atuação pedagógica. Exige que os profissionais da educação compreendam, respeitem e considere em suas ações pedagógicas a diversidade sócio-cultural, as diferentes vivências afetivo-emocionais, os tempos para aprender e as diferentes formas de processar a construção do conhecimento em cada período do desenvolvimento humano. Percebemos que a introdução da organização curricular por Ciclos de Formação Humana por si só não proporciona um avanço no funcionamento da escola, produzindo uma mudança profunda na cultura dos profissionais envolvidos, muito há de ser feito. Portanto, tem sido um dos pilares prioritários de nossas pesquisas em Mato Grosso a compreensão das concepções e práticas que sustentam a formação de professores que estarão promovendo a formação inicial e continuada de outros tantos professores. É reconhecida a importância das ciências e o domínio de suas especificidades pelos professores e a apropriação do conhecimento de modo globalizado pelos alunos, valorizando a experiência e participação destes, deixando evidente que escola e vida se articulam. Para que essa prática se efetive nas relações de ensino é necessário articulação entre prática social global e experiência social do aluno. Espera-se que quem ensina conheça a natureza e o potencial de quem aprende e que tenha dinamismo e criatividade e condições de trabalho para instigar o raciocínio, a reflexão e o questionamento, por meio da atividade investigativa. Nesse sentido compreendemos a importância de termos profissionais da educação preocupados em explorar conteúdos significativos para uma aprendizagem significativa, apropriando-se do conceito desenvolvido por Ausubel (1980) e Coll (1996) se opondo a aprendizagem mecânica. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003296 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 A preocupação com a formação dos formadores está subjacente uma postura política pedagógica que visa garantir a compreensão com processos de ensinar no sentido de perceber com o olhar de Arroyo, Freitas, Krug e Mainardes que a simples permanência dos alunos na escola não é garantia de evitar a exclusão social. A marginalização não ocorre apenas com alunos excluídos do direito a escola, mas com alunos que freqüentam a escola, regularmente matriculados, visto que determinadas práticas pedagógicas podem excluir os “inclusos”. BIBLIOGRAFIA ARROYO. Miguel G., Ciclos de Desenvolvimento Humano e Formação de Educadores. Campinas: Educação e. Sociedade, v.20, nº. 68, 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php. AUSUBEL, David Paul, Novak, Joseph e Hanesian, Helen. Psicologia Educacional, Rio de Janeiro: Interamericana, 1980. 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Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003298 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 12 APENDICE 1 Sistema de Ensino por Série Sistema de Ensino por Ciclo Escola com longa e cruel história de Escola comprometida politicamente fracasso e exclusão, supostamente neutra, com a população de baixa renda, que presta serviços indistintamente; tornando-se bem-sucedida e de natureza inclusiva; Escola que produz analfabetos Escola que visa à formação do cidadão funcionais, depois de 8 a 12 anos de que demonstra, no cotidiano, depois da escolaridade; escolaridade obrigatória, competências e comportamentos alfabetizados; Escola acomodada, que aceita com Escola que se revolta com a sua naturalidade a deserção ou não- ineficiência social, criando alternativas aprendizagem ou pouca aprendizagem para garantir não apenas a permanência dos alunos; dos alunos, mas também sua aprendizagem significativa; Escola prestadora de serviços; Escola cumpridora de seus deveres sociais, que se preocupa com os direitos dos alunos; Escola que avalia para classificar, em Escola em que a avaliação, entendida que a avaliação é usada como uma arma como parte do processo de para classificar, rotular, enquadrar, reter; aprendizagem, constitui-se em um recurso de ensino fundamental para a tomada de decisões a respeito desse processo; Escola onde o conhecimento é trabalhado Escola que entende a possibilidade de de forma compartimentada, integração dos conteúdos de ensino e a importância da interdisciplinaridade; fragmentada; Escola que considera apenas o sujeito Escola que considera o sujeito sóciohistórico, constituído nas múltiplas cognitivo; relações interpessoais; Escola que espera aprender para poder Escola na qual se aprende fazendo. fazer. Junqueira&Marin Editores Livro 2 - p.003299