UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU MESTRADO EM EDUCAÇÃO FÍSICA ANA LÚCIA LAGO NAKAMURA ENVELHECIMENTO: UM OLHAR SOBRE A PERSPECTIVA DE SAÚDE , AUTONOMIA e PROMOÇÃO DA SAÚDE EM PROGRAMA DE ATIVIDADE FÍSICA. São Paulo, 2007 Nakamura, Ana Lúcia Lago Envelhecimento: um olhar sobre a perspectiva de saúde, autonomia e Promoção da Saúde em programa de atividade física / Ana Lúcia Lago Nakamura. - São Paulo, 2007. Aa119 f. : il. ; 30 cm Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, 2007. Orientador: Profª. Dra. Maria Luiza de Jesus Miranda. 1. Envelhecimento. 2. Saúde. 3. Autonomia 4. Promoção da Saúde 5. Educação física para idosos. I. Título CDD- 796 Ficha catalográfica: Elizangela L. de Almeida Ribeiro - CRB 8/6878 UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU MESTRADO EM EDUCAÇÃO FÍSICA ANA LÚCIA LAGO NAKAMURA ENVELHECIMENTO: UM OLHAR SOBRE A PERSPECTIVA DE SAÚDE, AUTONOMIA E PROMOÇÃO DA SAÚDE EM PROGRAMA DE ATIVIDADE FÍSICA. Dissertação apresentada à Universidade São Judas Tadeu, como requisito parcial para a obtenção de grau de mestre em Educação Física sob a orientação da Profª. Drª. Maria Luiza de Jesus Miranda. São Paulo, 2007 Banca Examinadora: _____________________________ Profa. Dra. Sandra Matsudo _____________________________ Profa. Dra. Marília Velardi _____________________________ Profa. Dra. Maria L.J. Miranda Agradecimentos Agradeço a todas as pessoas que colaboraram para o meu crescimento pessoal e profissional: meus pais, meus irmãos, meus tios, meu esposo e a minha orientadora. SUMÁRIO RESUMO............................................................................................................... iii ABSTRACT........................................................................................................... iv APRESENTAÇÃO................................................................................................. v 1. INTRODUÇÃO.............................................................................................. 01 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1 Envelhecimento..................................................................................... 08 2.2 Promoção da Saúde e envelhecimento................................................ 13 2.3 Atividade Física e envelhecimento........................................................ 21 2.4 Envelhecimento e a Educação Física brasileira ................................... 24 2.5 Década de 1990 e a população idosa brasileira... ................................ 28 2.5.1 Economia, saúde, educação....................................................... 28 Programas de atividade física para idosos ......................................... 33 2.6 2.6.1 Descrição dos programas de atividade física voltados à população 3. 4. idosa...................................................................................................... 40 MÉTODO....................................................................................................... 53 3.1 Categorização do estudo........................................................................ 53 3.2 Participantes da pesquisa....................................................................... 53 3.2 Instrumentos........................................................................................... 53 3.3 Procedimentos........................................................................................ 54 3.4 Fase de análise do discurso................................................................... 56 PROJETO FÊNIX: BASES TEÓRICAS........................................................ 58 4.1 Descrição.............................................................................................. 59 4.2 Análise documental............................................................................... 64 4.3 Coordenadoras do Projeto Fênix: análise dos discurso........................ 73 i 5. 4.3.1 Caracterização dos sujeitos........................................................ 73 4.3.2 Caracterização dos temas.......................................................... 73 4.4 Discussão Geral.................................................................................... 88 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................... 94 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................. 96 7. ANEXOS............................................................................................................. 105 ii Resumo A natureza desse estudo é o resultado de questionamentos elaborados durante o período em que a pesquisadora atuou como docente em um programa de atividade física voltado à população idosa, o assim denominado Projeto Fênix – Terceira Idade com Qualidade desenvolvido nas Faculdades Integradas de Guarulhos – São Paulo. O Projeto tinha por objetivo proporcionar atividades e conhecimentos que possibilitassem a população idosa viver essa fase da vida com maior qualidade, autonomia e satisfação, proporcionados pelo sentimento de produtividade e efetiva inserção na sociedade como cidadãos ativos e participativos. Nesse sentido, adotamos o direcionamento de suas atividades coerentes com a perspectiva da Promoção da Saúde, bem como a utilização de uma pedagogia crítica para a obtenção de seus objetivos. Mas, apesar de tal perspectiva, notamos a presença de divergências entre o enunciado de sua proposta (intenções e justificativas) com os objetivos descritos em relação a visão de envelhecimento, conceito de saúde, autonomia e Promoção da Saúde entre os anos de 2003 e 2004. Dessa forma, para entendermos o contexto teórico dessas discordâncias e a implicação que possuem no direcionamento prático de suas atividades, esse estudo tem por objetivo geral: averiguar, a partir da perspectiva teórica da Promoção da Saúde, as divergências e convergências conceituais de saúde, autonomia e Promoção da Saúde, no norteamento das práticas de atividades físicas desenvolvidas pelo Projeto Fênix. Seguem-se ao objetivo geral três objetivos específicos: (1) analisar a fundamentação teórica e as ações empreendidas no Projeto para estabelecer qual a perspectiva filosófica de saúde, autonomia e Promoção da Saúde, que lhe dá orientação; (2) compreender as divergências e convergências conceituais que dão base às suas ações práticas; (3) refletir sobre o quanto a análise e compreensão do Projeto Fênix podem indicar o que ocorre no cenário mais geral de programas de atividades físicas para adultos e idosos. Palavras-chave: programa de atividade física; idosos e Promoção da Saúde iii Abstract The nature of this survey is result of questions elaborated during the period when the researcher was working as a teacher in a physical activity program destined to the elderly population, called Fênix Project – Third Age with Quality, developed in Faculdades Integradas de Guarulhos – São Paulo. The Project had the purpose of providing activities and knowledge in order to enable elderly people to live this phase of life with a higher quality, empowerment and satisfaction caused by the feeling of production and effective insertion into the society as an activity and participating citizen. Therefore, we observed the direction of their activities coherent to the perspective of Health Promotion, as well as the use of a critical pedagogy for obtaining their purposes. However, despite such perspective, we noticed the presence of divergences between the proposal statement (intentions and explanations) and described purposes concerning the point of view of aging, health concept, empowerment and Health Promotion between the years of 2003 and 2004. Therefore, in order to understand the theoretical context of such divergences and the way they affect the practical direction of the activities, this survey has the general purpose of: inspecting, from the theoretical perspective of Health Promotion, the concept divergences and convergences of health, empowerment, and Health Promotion concerning the practices of physical activities developed by Fênix Project. Besides the general purpose, there are three specific purposes: (1) analyzing the theoretical basis and the actions taken during the Project in order to establish the philosophical perspective of health, empowerment and Health Promotion which directed such Project; (2) understanding the concept divergences and convergences which provide the basis for practical actions; (3) pondering about how much the analysis and understanding of Fênix Project may indicate what occurs in the most general scenery of physical activity programs for adults and elderly people. Key words: physical activity programs; elderly people; Health Promotion iv Apresentação O presente estudo, discorre sobre a análise da prática pedagógica de um programa de atividade física voltado à população idosa – o Projeto Fênix Terceira Idade com Qualidade, desenvolvido entre os anos de 1998 a 2004 na Faculdade Integrada de Guarulhos. As constantes reflexões e questionamentos sobre divergências e convergências conceituais sobre saúde, autonomia e Promoção da Saúde, observadas pela pesquisadora no período em que atuou como docente no referido Projeto, geraram a necessidade de desenvolver o estudo aqui proposto. Na introdução, procuramos apontar toda a problemática que envolve o processo de envelhecimento, e que poderiam vir a influenciar o direcionamento prático e teórico de um programa de atividade física voltado à população idosa. A partir da delimitação dos objetivos a que nos propomos responder, no capítulo seguinte, discorremos sobre o processo de envelhecimento, abordando os aspectos biológicos com suas modificações e adaptações fisiológicas, bem como os aspectos sociais e históricos incidentes sobre essa população, como a categorização social do envelhecimento, a construção da velhice como um problema social e o interesse do envelhecimento como objeto de estudo. Em seguida, passamos a discutir as ações que compõem uma perspectiva de trabalho no âmbito da Promoção da Saúde e o incremento que a mesma proporcionaria ao processo de envelhecimento e, para tanto, dividimos esse capítulo em três períodos distintos, iniciados na valorização da Promoção da Saúde pela Medicina Social do século XIX, passando pelo movimento moderno da Promoção da Saúde em 1974 e, finalizando com a Primeira Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde e divulgação da Carta de Ottawa em 1986. Já em relação ao capítulo três, este aborda os benefícios proporcionados pela prática regular de atividade física e a importância da associação do direcionamento prático da Educação Física, com a perspectiva da Promoção da Saúde que, diretamente, contribuiria para um crescimento integral dos indivíduos v em relação ao discernimento da importância da adesão e da prática de exercícios em si. Dando continuidade a discussão sobre a atividade física e envelhecimento, no quarto capítulo procuramos construir um panorama geral sobre a atuação da Educação Física brasileira em relação ao processo de envelhecimento desde a sua implantação no Brasil-República até os dias atuais. Dentro desse panorama histórico, no quinto capítulo desse estudo, realizamos uma reconstrução da realidade social-histórica brasileira da década de 1990, incidente sobre a população idosa, buscando a partir desse levantamento histórico compreender as intenções, justificativas e objetivos descritos para a implantação do Projeto Fênix na Faculdade Integrada de Guarulhos. E, com o intuito de ampliar a compreensão sobre a década de 1990, em relação ao direcionamento prático da Educação Física, o capítulo seis analisa alguns programas de atividade física voltados à população idosa desenvolvidos em universidades brasileiras do período em questão. Para a execução dessa tarefa, o próximo capítulo discorre sobre a trajetória metodológica utilizada neste estudo, além de revelar os motivos pelos quais optamos pela pesquisa qualitativa e, apresentamos também os participantes deste estudo, os instrumentos e os procedimentos utilizados para a coleta de dados. A partir dessa descrição metodológica, iniciamos a descrição do Projeto Fênix e a ampliação de suas bases teóricas. De posse dessas informações, voltamos o nosso olhar aos responsáveis pela elaboração e coordenação do Projeto, a principal finalidade desse enfoque seria, captar a essência dos objetivos práticos e teóricos desenvolvidos entre os anos de 1998 e 2004 através da percepção individual de suas coordenadoras sobre o processo de envelhecimento, conceitos de saúde, autonomia, e a perspectiva de um trabalho pautado no âmbito da Promoção da Saúde. A essência desses direcionamentos nos dá subsídios para que possamos discorrer sobre a presença de convergências e/ou divergências conceituais dentro do Projeto Fênix, entre o que fora proposto em seu documento de implantação, com as ações que realmente foram empreendidas no decorrer de suas atividades. vi Tal proposição nos leva a responder o último objetivo desse estudo, que visa refletir sobre o quanto a análise e compreensão do Projeto Fênix contribuiria para dar-nos indícios sobre o que ocorre no cenário geral de programas de atividade física para adultos e idosos. vii 1. Introdução Atualmente podemos observar uma ampliação das discussões em torno do processo de envelhecimento para além das questões relacionadas à saúde, essa maior discussão observada tanto no âmbito científico, quanto na mídia em geral, tornou-se realidade em decorrência da necessidade em se assistir uma população que vêm crescendo ao longo das décadas, carregando consigo não apenas os problemas relacionados à saúde, mas problemas de cunho social, político e econômico (IBGE, 2000; MOREIRA, 2001). Seguindo a tendência mundial, as questões relacionadas à Previdência Social e à Saúde da população idosa, também se tornaram foco de atenção do governo brasileiro (Czeresnia, 2003), devido aos elevados gastos decorrentes do benefício das aposentadorias e pensões, e dos gastos oriundos da Saúde Pública (períodos prolongados de internações, prescrição de medicamentos, morbidade instalada, entre outras). Assim, aqui, como em outros países, as ações preventivas e de Promoção da Saúde, como por exemplo, políticas públicas sustentáveis, campanhas de vacinação, programas educativos e até a prática de atividades físicas, foram adotados, visando não só a redução de custos, mas também como um meio de contribuir com a qualidade do processo de envelhecimento (CHAIMOVICZ, 1997). Dentro desse contexto, encontramos a indicação da prática de atividades físicas, como um meio “alternativo” de se preservar a saúde da população, através da diminuição e/ou controle de vários fatores de risco como a obesidade, doenças metabólicas, cárdio-respiratórias, ósteo-musculares, entre outras. Porém o que podemos observar em nossa sociedade, atualmente, é a comercialização das atividades físicas como provedora de saúde, como se a prática em si fosse a solução dos problemas da população, delimitando-se a partir da prática ou não, os grupos de riscos eminentes a determinadas doenças (BAGRICHEVISKY e PALMA, 2005; CAPONI, 2003; CASTIEL, 2003). Essa visão biomédica da relação da atividade física como provedora de saúde, também é uma realidade dentro da área de Educação Física que, no 1 Brasil, como em outros países, foi construída a partir de parâmetros sanitaristas (CASTELLANI FILHO, 1988b; MARINHO, 1943). No caso do Brasil, a predominância do paradigma biomédico, iniciou-se logo na implantação da Educação Física no currículo escolar, em 1889 no BrasilRepública, devido a influência administrativa exercida pelas Forças Armadas, que estenderam os padrões sanitaristas por eles utilizados às práticas físicas escolares (MARINHO, 1943). É importante ressaltar que a construção desses padrões sanitaristas, dentro da Educação Física brasileira, acarretou na adoção de conceitos sobre a saúde e a doença que, até então, atrelavam a condição de saudável à ausência de doenças que foram construídos ao longo dos séculos com o desenvolvimento das ciências médicas (ROSEN, 1994). Esse desenvolvimento proporcionado pela adoção do pensamento científico, das freqüências estatísticas, do método experimental, possibilitou à Medicina o desvelar de várias doenças, mas por outro lado, a sua especialização conforme (Ayres, 1995; Ministério da Saúde, 2002; Rosen, 1994), proporcionou o reducionismo do ser humano, afastando todas as características ambientais e sociais incidentes sobre os indivíduos, isto é, a subjetividade passa a ser abandonada e o foco de atenção, torna-se exclusivo na doença concreta instalada (SANTOS e WESTPHAL, 1999). Para Czeresnia (2003), o abandono dessa subjetividade passa a desconsiderar a distância existente entre o conceito de doença, adoecer e a experiência de vida de um indivíduo, isso porque, a saúde e o adoecer se manifestam através de experiências singulares e subjetivas, impossíveis de serem reconhecidas sem a subjetividade que, por sua vez, foram bem exemplificados pela autora neste trecho: “...O doente se expressa pela palavra e o médico dá significado as suas palavras, os relatos cheios de emoção, passam a ser traduzidos para uma linguagem neutra e objetiva”. (CZERESNIA, 2003: 42) 2 Além dessa tendência oriunda das ciências médicas, encontramos como característica da Educação Física brasileira, o direcionamento de suas práticas associadas às realidades políticas, sociais e econômicas do país, como por exemplo: as práticas físicas em prol da eugenização 1 da raça brasileira (Castellani Filho, 1988b; Marinho, 1943); as influências européias no direcionamento da pedagogia a ser utilizada, destacando-se o método francês (Marinho, 1943); o “Esporte para Todos” na ditadura militar (Betti, 1991; Coletânea de autores, 1992); e a tendência mundial pela busca de conhecimentos sobre a infância (NERI, 1995; KOLYNIAK FILHO, 1996). Dentro dessa construção histórica, sobre os direcionamentos pedagógicos da Educação Física, não encontramos indicações sobre a inclusão da população idosa em relação à prática de exercícios físicos até meados 1936. Nesse período em questão até 1970, não existia uma preocupação direta com população idosa, que se exercitava em conjunto de demais coortes etários e, em programas desenvolvidos para a população em geral, que eram ofertados em praças públicas, programas de rádio, clubes privados, entre outros (FARIA JÚNIOR et al., 2005a; MARINHO, 1943). Uma preocupação mais efetiva, porém discreta, frente ao processo de envelhecimento, só veio ocorrer no Brasil a partir da década de 1970, fruto de uma primeira mudança paradigmática, no campo do conhecimento das atividades físicas e do envelhecimento. Essa transição, veio em decorrência do aumento demográfico da população idosa, das influências teóricas mundiais sobre a inclusão de idosos e adultos na prática de atividades físicas e também, das idéias sobre a terceira idade adulta como a fase da crescente diminuição do rendimento motor – demonstrando dessa forma, a necessidade de atenção e incremento nas capacidades físicas dessa população (FARIA JÚNIOR, 2004). 1 Eugenia: movimento criado no ano de 1882, para fortalecer a raça brasileira através da oferta de exercícios físicos às mulheres brasileiras para que os filhos por elas gerados fossem fortes. O intuito era de que essas crianças “fortes” defendessem a pátria quando necessário para assim, sobrepujar os negros que cresciam vertinosamente (CASTELLANI FILHO, 1988b; MARINHO, 1943). 3 Essa mudança paradigmática, segundo o referido autor, trouxe à população idosa uma gama de programas de atividade física, sem orientação específica; sem delimitação de coorte etário; sem uma pedagogia diferenciada que, na maior parte das vezes, era adaptada de outros modelos populacionais. Sobre essas adaptações, encontramos em Neri e Cachione (2004), que as mesmas, são corriqueiras e decorrentes da escassez de trabalhos específicos que contribuam diretamente na construção de pedagogias voltadas ao processo de envelhecimento. Avançando em nossas pesquisas, observamos na Educação Física da década de 1980, além de uma abordagem biológica sobre o processo de envelhecimento, a ampliação de temas que até então, pouco se haviam tido dentro da área, como as influências sociais incidentes sobre a população idosa, a necessidade de uma pedagogia própria para atuar com essa população e o direcionamento das ações encontradas no âmbito da Promoção da Saúde (FARIA JÚNIOR et al., 2005b). Sobre a Promoção da Saúde, gostaríamos de salientar que até então, suas práticas eram organizadas a partir de um enfoque mais behaviorista da década de 1970, oriundos das discussões promovidas pela divulgação do Informe de Lalonde que colocou em pauta a necessidade de políticas públicas que viessem contribuir com a qualidade da saúde da população (BUSS, 2003). Tal reconhecimento, foi convertido em ações que promovessem a modificação de “livre e espontânea vontade” do estilo de vida dos indivíduos. Ser responsável pelos seus atos e ações em relação a saúde, seria crucial dentro dessa perspectiva, que demonstrava claramente o direcionamento de suas ações para o fenômeno da culpabilização da vítima 2 (CARVALHO, 2004). Apesar dessa característica, as discussões iniciadas no Informe de Lalonde, serviram de alerta para a importância de inovações na área de Saúde em rumo a construção 2 Culpabilização da vítima: na área da Promoção da Saúde, a expressão é utilizada para fazer uma crítica ao modelo biomédico que, a partir do reducionismo nos estudos do processo saúde-doença, atribui única e exclusivamente ao sujeito a responsabilidade pela suas condições de saúde, desconsiderando que, muitas vezes, ele é submetido a relações sociais desiguais impostas pelo seu meio capaz de torná-lo mais vulnerável e sem poder de reação (GEREZ, 2006). 4 de um novo paradigma em saúde que veio a ocorrer em 1986 com a divulgação da Carta de Ottawa (BUSS, 2003). A Carta em questão, se opunha ao enfoque behaviorista que a Promoção da Saúde vinha adotando desde então, apontando a necessidade de revisão das intervenções práticas da Promoção da Saúde, da importância da presença de políticas públicas no direcionamento de suas ações, da necessidade de fortalecimento da autonomia dos indivíduos e comunidades e, principalmente, na importância de uma educação para a saúde pautada em uma pedagogia crítica (OPAS, 2002a). Foi o conjunto dessas ações que contribuíram para o início do movimento da “nova” Promoção da Saúde que viabilizava aos indivíduos agir com base em suas escolhas. O reconhecimento dessa ampliação conceitual em torno da saúde, autonomia e Promoção da Saúde dentro da Educação Física, passa efetivamente a conquistar um espaço dentro da área em meados da década de 1990. Nesse período, pode-se observar, também, a ampliação de discussões em torno dos deveres e responsabilidades políticas e sociais dos governos sobre essa população como, por exemplo, a promulgação da Política Nacional do Idoso (Brasil, 1994) e a Resolução 46/91 da Assembléia Geral das Nações Unidas de 16/12/1991 (ONU, 2000) que recomendava cinco princípios relevantes ao manejo dessa população como, a independência, a participação, a assistência, a autorealização, a dignidade, entre outras. A soma dessas discussões ocorridas dentro da Educação Física brasileira, pode ser observada no direcionamento de suas práticas frente ao processo de envelhecimento e na produção científica e literária produzida no período (FARIA JÚNIOR et al., 2005b). E, por esse motivo, acreditamos que exista certa dificuldade prática na utilização das ações que envolvem a visão de saúde, autonomia e Promoção da Saúde. Parece-nos que durante a trajetória de estruturação e implementação desses programas, tais conceitos não foram incorporados em sua essência apesar de estarem implícitos em suas propostas. 5 Se essa característica for corrente, tanto na década de 1990 quanto nos dias atuais, poderíamos afirmar, que haveria certa dificuldade no domínio conceitual por parte dos idealizadores dos programas desenvolvidos? Ou seria um problema de atualização conceitual da própria área de Educação Física? Para nós, é compreensível que tais dificuldades conceituais possam vir a ocorrer, quando conceitos tão complexos encontrados no âmbito da Promoção da Saúde são ampliados. O que não é compreensível é que, apesar da evolução da Educação Física, percebida através de mudanças paradigmáticas e de sua ampliação nas dimensões sociais, culturais, políticas, econômicas, da área da Saúde e Educação, conforme manifesto CONFEF (2002), tais dificuldades, ainda se apresentem, pois desde a década de 1970, a Promoção da Saúde e seus construtos vêm sendo ampliados e discutidos mundialmente. E, por esta questão, acreditamos que a análise de um programa de atividade física para adultos e idosos, planejado e desenvolvido na década de 1990, contribuiria diretamente para a compreensão da incorporação, ou não, dos conceitos encontrados no âmbito da Promoção da Saúde em programas que se propõem a essa relação. Com esse intuito, selecionamos um programa de extensão comunitária, denominado Projeto Fênix - Terceira Idade com Qualidade, das Faculdades Integradas de Guarulhos - São Paulo, que entre os períodos de 1998 a 2004 desenvolveu um programa de atividade física voltado à população adulta e idosa, que foi extinto no ano subseqüente a implantação da Faculdade para a Idade da Razão 3 . A intenção inicial do Projeto era, atender a população com idade superior a cinqüenta anos, apesar de envolver indivíduos ainda ativos economicamente e detentores de autonomia, pois havia a intenção de preparar esta fatia da população para a fase de transição para o envelhecimento, através de atividades que poderiam vir a tornar este momento menos agressivo e traumático. 3 Faculdade da Idade da Razão: curso desenvolvido na Faculdade de Guarulhos, voltado à educação de adultos, oferecendo informações sobre aspectos biopsicossociais do envelhecimento bem como o acesso a cultura, lazer, atividades físicas e educação continuada em disciplinas nos cursos regulares da instituição. 6 Desse modo, a estrutura na qual o Projeto Fênix foi elaborado nos possibilitaria visualizar o direcionamento de suas práticas dentro de um período em que o envelhecimento torna-se foco de discussão mundial e a Promoção da Saúde ganha espaço dentro da Educação Física brasileira. Tendo como foco de análise o ideário da Promoção da Saúde e levando em consideração a dificuldade prática de direcionamento de suas ações dentro de programas de atividades físicas voltados à população idosa, perguntamos: havendo falta de coerência no norteamento de ações baseadas na Promoção da Saúde, esta seria resultado de dificuldade com a implementação de tais ações ou seria um problema de ampliação e/ou atualização conceitual em torno das ações que envolvem a Promoção da Saúde dentro da Educação Física brasileira? Para desenvolver a pesquisa que responda a esse questionamento, o objetivo geral deste estudo será averiguar, a partir da perspectiva teórica da Promoção da Saúde, as divergências e convergências conceituais de saúde autonomia e Promoção da Saúde no direcionamento das práticas de atividades físicas desenvolvidas pelo Projeto Fênix. Seguem-se ao objetivo geral três objetivos específicos: (1) analisar a fundamentação teórica e as ações empreendidas no Projeto Fênix para estabelecer qual a perspectiva filosófica de saúde, autonomia e Promoção da Saúde que o norteou, (2) compreender as divergências e convergências conceituais que dão base às suas ações práticas; (3) refletir sobre o quanto a análise e compreensão do Projeto Fênix podem dar indícios o que ocorre no cenário mais geral de programas de atividade física para adultos e idosos. 7 2 - Revisão de Literatura 2.1 Envelhecimento Conforme Debert (1999) a velhice não é uma categoria natural, mas uma categoria socialmente construída que faz distinção, entre um fato natural (ciclo biológico, do ser humano), e um fato universal (fatores sociais e históricos) que proporcionam por sua vez, formas diferentes de se conceber e viver o envelhecimento. No ciclo biológico encontramos em Brach et al. (2004); Fried et al. (2000); Hayflyck (1996); Nelson et al. (2004) descrições sobre as alterações orgânicas que acompanham um indivíduo durante todo o seu processo de envelhecimento como, por exemplo, a diminuição da força muscular, VO2 máximo, acuidade visual, densidade mineral óssea; modificações hormonais; aumento de peso; demências; entre outras. Apesar da evidência dessas alterações, isso não significa que um indivíduo idoso, irá se deteriorar da noite para o dia, perdendo toda sua capacidade funcional, motora, cerebral, entre outras funções. Isso não ocorre porque tanto para os mais jovens quanto para os mais velhos, existem mecanismos compensatórios que procuram ajustar o indivíduo fisiologicamente a sua nova realidade, fazendo com que, no caso dos idosos, a qualidade funcional, seja preservada pelo maior espaço de tempo, limitando-se apenas às forças inexoráveis do envelhecimento (HAYFLYCK, 1996). Já em relação aos fatores sociais e históricos a sua visão, nos possibilita compreender, pelo menos nas sociedades ocidentais, como é o caso do Brasil, as questões que estão imbricadas dentro desse processo como, os estereótipos negativos, os termos classificatórios, a imagem de fragilidade, dependência, improdutividade, entre outras. Com base nessas informações podemos, a partir daí, refletir sobre o grau de impacto que esses fatores, desencadeiam na construção de um conceito individual e/ou coletivo sobre o envelhecimento, e o 8 quanto esse conceito pode vir a interferir em ações voltadas a essa população, principalmente na área de Educação Física. O que chama a atenção, quando se discute o envelhecimento em nossa sociedade é a segmentação das discussões que envolvem este processo, dandose a impressão de que os fatores biológicos ocorrem em separado às questões sociais e históricas e vice e versa. Mas, encontramos na literatura que a recíproca não é verdadeira, pois o processo de envelhecimento dá-se através da interação de diversos fatores sejam eles, sociais, políticos, econômicos, históricos, ambientais e biológicos (ALVES JÚNIOR, 2004; BRASIL, 2003; SILVA, 2004). Sob o ponto de vista e estudo da antropologia segundo Debert, (1999) esta segmentação, estaria relacionada a três problemas característicos: o primeiro se dá por ser o envelhecimento uma categoria socialmente produzida, que possui como referência os processos biológicos universais; o segundo diz respeito as questões que, nas sociedades ocidentais contemporâneas, passaram a ser problemas sociais e o último estaria relacionado aos temas em torno dos quais o envelhecimento é transformado em objeto de estudo. 2.1.1 Categorização social do envelhecimento A “categorização” pode ser observada através das grades específicas de idades, construídas e desconstruídas ao longo dos séculos em nossa sociedade (Debert, 1999; Motta, 2002; Neri, 1995) que, segundo a antropologia (abandonando-se a visão da psicologia clássica sobre as fases do desenvolvimento humano), seria um princípio constitutivo de grupos sociais, para se impor deveres e obrigações, como o tempo, para se educar, entrar na faculdade, casar, ter filhos, se aposentar e tornar-se velho. Essa tendência, também se estendem às dimensões do mundo doméstico, do trabalho e do consumo (MINAYO e COIMBRA JR., 2004; HECKHAUSEN e SHULTZ, 1997). Um exemplo simples dessa categorização, são as idades estipuladas para ingresso de idosos em programas de atividades físicas que variam, entre a idade de 50 anos (pré-aposentadoria), geralmente com o intuito de preparar o indivíduo 9 para o enfrentamento do envelhecimento e, acima de 60 anos (aposentadoria) visando, na maior parte das vezes, amenizar a falta de lazer, convívio social e capacidade funcional. Um exemplo clássico dessa categorização seria o termo mais comumente utilizado em nossa sociedade a “terceira idade”. 2.1.2 A velhice como um problema social A transformação da velhice como um “problema social”, segundo Debert, (1999) não seria decorrente do aumento demográfico dessa população assim como sugere os demógrafos e freqüentemente os cientistas sociais, mas sim, viria como resultado, da própria construção social do envelhecimento que, em nossa sociedade, assume um contexto de novas dimensões e definições, como o termo mais comumente utilizado “terceira idade” (Minayo e Coimbra Jr., 2002). Essa expressão, nascida na França da década de 1960 em pleno desenvolvimento capitalista, tinha como função estabelecer o período que uma pessoa deveria se aposentar. Essa estratégia criada para que os industriais da época aumentassem os seus lucros, foi realizada a partir do vinculo da imagem de trabalhadores experientes à incapacidade e à improdutividade. Dessa forma, justificou-se a troca da mão de obra “velha” e onerosa por uma mão de obra “jovem” e mais barata. Esse simples remanejamento empresarial transformou o benefício da aposentadoria em um estereótipo para a população idosa, em um problema sócio-econômico às empresas que posteriormente atingiram o Estado (PEIXOTO,1998). Além do termo “terceira idade”, observa-se, pelo menos nas sociedades ocidentais, a existência de adjetivos com o propósito de substituir a visão negativa atrelada à condição de velhice, dentre esses, destacamos: adulto maduro, melhor idade, pessoa idosa, idade de ouro, idade da razão, idoso, pessoa na meia idade, idade madura, maturidade, idade legal, entre outros (CARLOS, 1999; PEIXOTO, 1998). Entretanto, essa realidade conforme Debert (1999), pode vir a assumir novos direcionamentos principalmente se um indivíduo possuir, destaque na mídia, status social, político, econômico e intelectual. Nessa condição, os 10 marcadores biológicos passam a ser ignorados, valorizando-se então, a produção social desse indivíduo e não a sua condição de velho. Segundo Motta (2002), nem o âmbito científico estaria livre das influências sociais sobre o envelhecimento. Pois, a construção social dessa fase da vida bem como a construção de outros conceitos, são adquiridos ao longo de nosso desenvolvimento. Por esse motivo, torna-se importante, questionarmos o quanto essa influência pode vir a interferir e/ou direcionar a produção de intervenções voltadas à população idosa, não apenas no âmbito científico. 2.1.3 Envelhecimento como objeto de estudo O último fator que contribuiria para a segmentação das discussões sobre o processo de envelhecimento, estaria relacionado aos temas em torno dos quais a velhice é transformada em objeto de estudo. Essa transformação iniciou-se a partir do aumento demográfico da população idosa, em decorrência do desenvolvimento da área da Saúde (Canguilhem, 1978; Carstensen, 1995; Rosen, 1994), da urbanização das cidades e da melhoria do cenário trabalhista, proporcionando a população um progresso em sua qualidade de vida (NERI, 1995). Dessa maior longevidade, surgiu-se então, a curiosidade científica pelo processo de envelhecimento, pois, até meados do século XIX, a taxa de mortalidade em adultos era elevada, impedindo que um indivíduo chegasse ao longo dos séculos à velhice (ROSEN, 1994). As exigências sociais em relação às demandas, necessárias à manutenção dessa população, também tiveram um papel importante nessa transformação, principalmente, por permitir a ampliação de discussões indo além do foco no indivíduo como: apoio a familiares e cuidadores, custos previdenciários e da área da Saúde, formação de recursos humanos, oportunidades educacionais e ocupacionais para idosos e pessoas de meia-idade (PEIXOTO, 1998). Se observarmos atentamente o processo de envelhecimento não se dá apenas em uma vertente, vários fatores estão presentes dentro desse processo 11 fazendo com que a sua investigação não se aplique apenas na área da Saúde, nos estudos demográficos e nas políticas sociais e econômicas. A abrangência desse processo faz com que cada área de conhecimento nos forneça informações, com base no que lhe é pertinente a sua linha de pesquisa. Se fizermos uma rápida analogia dessa característica com os estudos anatômicos da Medicina, parece-nos que o envelhecimento vem sendo estudado por partes, partes essas, que procuram constituir um todo a partir da visão de cada área de saber científico. Essa tendência à especialização nos leva a refletir sobre dois aspectos: o primeiro seria em relação ao impacto que essas informações, produzem não só na comunidade científica, mas na sociedade em geral que vê a ciência como uma fonte de produção confiável; e a segunda, diz respeito a possibilidade de que a ciência não se isente das influências sociais incidentes sobre o processo de envelhecimento, não nos garantindo a imparcialidade de que a produção de conhecimento não esteja baseada nas crenças sobre o comportamento humano, retirados de representações coletivas, do mundo social dos próprios pesquisadores (BALTES e SILVERBERG, 1995; CARSTENSEN, 1995 MOTA, 2002). Questionando sobre essa possibilidade, como ficaria o direcionamento das práticas da Educação Física em prol da população idosa, já que a mesma utiliza a produção científica sobre essa fase da vida para o incremento de suas atividades? Essa é uma questão que discutiremos no decorrer dessa dissertação. Por enquanto, ateremos nossa atenção em torno das práticas encontradas no âmbito da Promoção da Saúde, pois podemos observar a freqüência com que sua indicação aparece na literatura produzida e nas propostas de atividades físicas voltados à população idosa (FARIA JÚNIOR et al., 2005a,b,c). 12 2.2 Promoção da Saúde e envelhecimento Nesse capítulo, abordaremos as ações encontradas no âmbito da Promoção da Saúde, por entender que a sua indicação também contribui para o incremento da manutenção da qualidade do processo de envelhecimento, através da educação para a saúde pautada em uma pedagogia crítica, assim como sugere o Relatório final da XI Conferência Nacional de Saúde, no capítulo em que se refere à Democratização das Informações: “As políticas de Informação, Educação e Comunicação devem [...] estar voltadas para a promoção da saúde, que abrange a prevenção de doenças, a educação para saúde, a proteção da vida, a assistência curativa e a reabilitação sob responsabilidade das três esferas de governo, utilizando pedagogia crítica, que leve o usuário a ter conhecimento também de seus direitos; dar visibilidade à oferta de serviços e ações do SUS; motivar os cidadãos a exercer os seus direitos e cobrar as responsabilidades dos gestores públicos e dos prestadores de serviços de saúde”. (CNS, 2000: 165-166) Levando em consideração a complexidade das ações que circunscreve o âmbito da Promoção da Saúde, e visando facilitar uma linha de raciocínio em nossas discussões, sobre ações que já são empreendidas frente ao processo de envelhecimento, decidimos por dividir nossos discurso em três momentos distintos: iniciados na valorização da Promoção da Saúde pela Medicina Social do século XIX, passando pelo movimento moderno da Promoção da Saúde em 1974 e, finalizando com a Primeira Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde e divulgação da Carta de Ottawa em 1986. Para tanto, necessitamos abordar que a organização das práticas que envolvem o movimento da Promoção da Saúde, se iniciaram a partir de conceitos objetivos não da saúde, mas da doença, construídos ao longo da história da Saúde Pública (CEZERESNIA, 2003). Essa característica, por sua vez, veio em decorrência das doenças que assolavam as sociedades ocidentais, fazendo com que muitos não chegassem a 13 fase adulta, e poucos passassem pela velhice. Foi diante dessa realidade iniciada no período medieval, que a doença e sua cura tornaram-se foco exclusivo de atenção e a saúde passou a ser entendida como a ausência de doenças, restringida inicialmente a termos mágicos-religiosos, organizada posteriormente em termos científicos-concretos e percebida no século XIX em termos sócioeconômicos (BAGRICHEWISKY e PALMA, 2005; ROSEN, 1994; SOUTO MAIOR, 1976). 2.2.1 Valorização da Promoção da Saúde A Promoção da Saúde como a conhecemos modernamente, começou a ser construída na metade do século XIX em plena era bacteriológica. Foi nesse ínterim que as políticas públicas financeiras, começaram a sofrer os impactos proporcionados pela expectativa de vida, que vinha aumentando com decorrer dos séculos, em associação dos fenômenos urbanos e dos desajustes sociais (CANGUILHEM, 1978; PALMA et al., 2003; ROSEN, 1994). Diante deste quadro, a Saúde Pública adota um novo discurso, valoriza a Promoção da Saúde e reconhece a existência de uma relação entre o status saúde e as condições de vida de um indivíduo que, até então, eram negadas desde o período greco-romano (CZERESNIA, 2003; ROSEN, 1994). Apesar dessa valorização, o campo de atuação da Promoção da Saúde, continuou vinculado às ações do modelo preventivo, vindo a conquistar o seu espaço e identidade apenas no século XX (Buss, 2003; Nunes, 1992; Teixeira, 2002a), com a ampliação do conceito de saúde oriundos, de mobilizações voluntárias de países industrializados, que se preocupavam com o bem-estar de sua população – principalmente em relação a classe operária (ROSEN, 1994). Essas ações voluntárias, dirigidas em sua maior parte ao campo da saúde, foram movidas apenas pelo senso de cidadania da população e, serviram como modelo e estímulo para as ações oficiais empreendidas posteriormente pelos governos. Foi através desses movimentos, que surgiram, serviços de saúde pautados em novas concepções, sobre a saúde e a doença, que até então, eram 14 inexistentes e apenas desenvolvidos em agências voluntárias de saúde 4 (ROSEN, 1994). Em meados dos anos 70, especialmente nos países como Canadá, Estados Unidos e Europa Ocidental, encontramos o início de questionamentos dentro da área da Saúde a respeito dessas novas concepções que envolviam o processo saúde-enfermidade-cuidado. Tudo isso porque as ações empreendidas não estavam direcionadas a uma determinada doença ou desordem, mas sim focadas em aumentar a saúde e o bem-estar geral de um indivíduo, de uma comunidade ou de uma população, transcendendo a idéia original de saúde como ausência de doenças, dando origem ao movimento moderno da Promoção da Saúde (BUSS, 2003). 2.2.3 Movimento Moderno da Promoção da Saúde O movimento moderno da Promoção da Saúde surge no Canadá em 1974 em decorrência das discussões ocorridas com a divulgação do Informe de Lalonde. Segundo Buss (2003), este documento foi o primeiro passo rumo a definição de um novo paradigma em saúde, abrindo portas para o reconhecimento político da necessidade de inovações na área e da importância das inter-relações com a eqüidade social (PALMA et al., 2003). Os fundamentos desse documento contemplavam a decomposição dos chamados determinantes da saúde em quatro componentes: biologia humana (genética), ambiente (natural e social), estilos de vida (comportamentos individuais que afetariam a saúde) e a organização dos sistemas de saúde que poderiam, desse modo, ser mais abrangentes em suas atuações (BUSS, 2003; OPAS, 2002b). Entretanto, as estratégias elaboradas no Informe de Lalonde, não estavam focadas única e exclusivamente as questões relacionadas à Promoção da Saúde, 4 Agências voluntárias de saúde: A sua origem deu-se na luta contra a pobreza e a privação da população, principalmente nos Estados Unidos, procurando demonstrar o papel destrutivo da insalubridade e das doenças nas vidas dos pobres que necessitavam de ações mais vigorosas para combater as enfermidades e suas conseqüências. Atuavam também na representação do interesse público no terreno da saúde; procuravam mostrar meios para que os serviços de saúde melhorassem; ocupavam-se em fazer avançar as pesquisas e legislações referentes á saúde estimulando-as por meio da educação (ROSEN, 1994). 15 a mesma foi utilizada para compor uma das cinco estratégias (regulação, eficiência da assistência médica, pesquisa, fixação de objetivos e promoção da saúde) elaboradas para abordar os assuntos relacionados à saúde, que por sua vez, estavam focadas em intervir, influenciar e assistir comportamentos individuais não-saudáveis da população (BUSS, 2003; CARVALHO, 2004). O resultado dessas intervenções, segundo Carvalho (2004), no que se refere a adoção de hábitos saudáveis, se deu em maior parte nas classes sociais mais abastadas, em contrapartida aos grupos sociais marginalizados que, por via de regra, deveriam compor a porcentagem dessa adesão. Essa constatação, segundo o referido autor serviu de alerta na década de 1980, sobre a perspectiva behaviorista, que a Promoção da Saúde vinha tomando desde então, principalmente, quando da sua utilização no suporte à implantação de políticas socialmente restritivas, que responsabilizavam as vítimas da iniqüidade social por suas ações. Isto é, cabia ao governo a oferta de informações, sobre hábitos saudáveis e a melhora dos serviços de saúde, mas a adoção e a procura por tais informações, seriam de responsabilidade dos indivíduos. 2.2.2 Promoção da Saúde e a Carta de Ottawa O grande marco da Promoção da Saúde ocorreu em Ottawa-Canadá, em 1986, com a Primeira Conferência Internacional sobre a Promoção da Saúde, tendo como base de suas discussões, os progressos obtidos com a Declaração de Alma-Ata para os Cuidados Primários em Saúde 5 em 1978; o documento, com bases estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde, sobre a Saúde para Todos e o debate ocorrido na Assembléia Mundial da Saúde a respeito de ações intersetoriais para o setor da Saúde (OPAS, 2002a; OPAS, 2002b). 5 Declaração de Alma-Ata: buscou chamar a atenção mundial sobre os pré-requisitos à saúde da população que, estariam relacionados a eqüidade social as medidas sanitárias eficientes, ao acesso à educação, saúde, moradia, paz; ecossistema estável, sustentabilidade dos recursos naturais e tecnologias, que proporcionassem o desenvolvimento social e econômico global das comunidades dando o direito a uma vida social e economicamente produtiva, viabilizando a participação das comunidades e suas famílias no desenvolvimento e organização dos assuntos relacionados à saúde e ao auto-cuidado, (OPAS, 2002b). 16 A proposta da Carta de Ottawa se opunha àquela visão behaviorista até então utilizada, apontando a necessidade no campo específico da saúde, de uma maior participação dos indivíduos e comunidades no controle desse processo para que, dessa forma, os indivíduos possam vir a modificar o seu ambiente favoravelmente, de modo a satisfazer as suas aspirações e necessidades (BYDLOWSKI et al., 2004; CZERESNIA, 2003). A saúde, nesse contexto, passa a ser vista como um conceito positivo, sendo prioritário à saúde uma base sólida, composta por paz, habitação, educação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça e eqüidade social. Demonstrando que as questões relacionadas à saúde, não poderiam ser de responsabilidade exclusiva da área da saúde e sim, de uma maior interação, com os governos e os demais setores públicos, privados, da mídia, dos profissionais da saúde, das famílias e suas comunidades, do voluntariado, entre outras ( BYDLOWSKI et al., 2004; OPAS, 2002a). Dessa maneira, a Carta de Ottawa sublinha a importância dessa parceria governamental com os demais setores da sociedade, pois seria através dessa interação que as ações - visando a construção de políticas públicas saudáveis, a reorientação dos serviços de saúde, a criação de ambientes favoráveis e principalmente a possibilidade no desenvolvimento de habilidades individuais da população - seriam alcançadas (OPAS, 2002a). Apesar das propostas citadas acima, apresentarem-se bem definidas, ainda hoje, após 20 anos de divulgação da Carta de Ottawa, percebemos que existe uma certa dificuldade na compreensão das ações, que constituem as práticas da Promoção da Saúde que, muitas vezes, passam a ser confundidas e/ou relacionadas apenas as ações preventivas à saúde. Essa dificuldade, talvez, possa ser explicada de duas formas: a primeira se dá na origem das duas práticas, que possuem como base, os conceitos clássicos que orientam a produção do conhecimento específico em saúde; e a segunda, viria da resistência em se aceitar um novo paradigma em saúde devido a credibilidade científica da Medicina construída ao longo dos séculos em nossa sociedade (CZERESNIA, 2003; QUEIROZ, 2003). 17 Agora, em relação ao processo de envelhecimento, entendemos que o direcionamento das práticas encontradas no âmbito da Promoção da Saúde, contribuiriam diretamente no incremento da qualidade dessa fase da vida, que não pode ser entendida apenas como o período de perdas e estagnação, mas como um período de ganhos vislumbrados pela singularidade do envelhecimento de cada indivíduo. A viabilidade desse incremento, ocorreria, por ser a autonomia um dos construtos básicos da Promoção da Saúde, que utiliza para a promulgação de suas ações a educação para saúde, pautada em uma pedagogia crítica, que leva em consideração as experiências e impressões diversificadas sobre a vida de cada indivíduo, que valoriza as potencialidades individuais, que facilita o diálogo e a construção de conhecimentos independente do status de saúde, condição social e econômica (AZANHA, 2006; OPAS, 2002a; PEREIRA, 2003). Segundo a Carta de Ottawa, “as pessoas não podem realizar completamente seu potencial de saúde se não forem capazes de controlar os fatores determinantes de sua saúde” (OPAS, 2002a: 2). Nesse trecho podemos observar a importância da capacidade em se “poder controlar” demonstrando, que o exercício da autonomia de um indivíduo, pode fazer toda a diferença em relação não só a sua saúde. A falta do ato de decidir por si só Freire (1997), contribuiria para o enfraquecimento da iniciativa e esforços individuais, que podem, por sua vez, afetar a auto-estima, o respeito próprio, produzindo um sentimento de incapacidade e até a submissão que, segundo Sen (2000), explicaria em parte a falta de iniciativas individuais em prol da saúde e do bem-estar. Apesar, da condição de fortalecimento da autonomia dos indivíduos apresentar-se bem definida nas práticas da Promoção da Saúde, é possível encontrar o conceito de autonomia atrelado ao desenvolvimento da condição física e motora de um indivíduo e não associada ao poder de decidir. Segundo Farinatti (2000), essa dificuldade em se distinguir a autonomia, dependeria diretamente da visão de saúde que os indivíduos possuem, mas se observarmos atentamente podemos acrescer a esse fato, toda a dificuldade de 18 compreensão de um conceito complexo que, culturalmente, não é observado na população brasileira e nem da América Latina (Galeno, 1987; Litvak, 1990 apud Chaimowicz, 1997), por sermos fruto de um país cujo sistema sempre foi assistencialista. Como podemos cobrar que o fortalecimento da autonomia de indivíduos, se circunscreva dentro de um ambiente crítico, se tanto para quem oferece informações quanto para quem recebe, essa oportunidade culturalmente é pouco desenvolvida? Como demonstrar que o “verdadeiro conhecimento” pode ser produzido através do diálogo? Como demonstrar que a adoção de uma pedagogia crítica possibilita para ambos os lados (profissionais e população) uma participação mais ativa na construção de conhecimentos? (FREIRE, 1997; AZANHA, 2006; PEREIRA, 2003; QUEIROZ, 2003) Essa é uma questão digna de discussão entre as áreas que atuam diretamente com a população idosa, pois podemos encontrar divergências conceituais no que tange a utilização da autonomia na área da Saúde, atrelada a significados como: dependência, invalidez, deficiência, incapacidade, dependência social, aptidão e desempenho (FARINATTI, 2000). Caberia a quem informar que a autonomia não se organiza apenas à relação de capacidade ou funcionalidade motora? Por esse motivo seria crucial aos profissionais que atuam com essa população, o questionamento sobre o tipo de autonomia que estão desenvolvendo, para que dessa forma, divergências conceituais deixem de ocorrer no direcionamento prático de ações em prol dessa população. Nesse contexto, entendemos que o ideário da Promoção da Saúde faz uma ligação harmoniosa no que diz respeito a interação da educação com os aspectos que norteiam a saúde, pois envolve os indivíduos e comunidades na ação, dando poder de voz para que, os mesmos, escolham o melhor caminho a ser trilhado dentro de seu próprio curso de vida. Por esse motivo acreditamos que a extensão dessa possibilidade dentro da Educação Física, no direcionamento de suas práticas, incrementaria os trabalhos desenvolvidos agregando aos benefícios fisiológicos proporcionados 19 pela prática de atividade física o fortalecimento de suas potencialidades em prol de seu bem-estar e de sua saúde. 20 2.3 Envelhecimento e atividade física No capítulo anterior, discutimos as ações encontradas no âmbito da Promoção da Saúde e o incremento que a sua utilização pode vir a proporcionar a qualidade do processo de envelhecimento de um indivíduo. No caso da Educação Física, essa perspectiva de ações, poderia ser desenvolvida em conjunto da prática de atividade física, que diretamente estimularia um crescimento integral dos indivíduos em relação ao discernimento da importância da prática em si. Isso significa que, atividade física, não seria adotada apenas pela obtenção dos benefícios fisiológicos, mas sim, em relação ao significado que a mesma possui para esses indivíduos, no qual os benefícios fisiológicos, compõem um dos significados da adoção de uma modalidade esportiva, de uma simples caminhada, entre tantas outras opções. Em relação aos benefícios proporcionados à população idosa pela prática regular de atividades físicas, observamos que atualmente a sua indicação é realizada como uma forma de se obter algum benefício, seja ele relacionado à saúde, estética, ou simplesmente pelo bem-estar oferecidos pela prática em si. Não podemos afirmar que é de conhecimento dessa população a extensão desses benefícios, mas podemos ressaltar, que devido a exploração que a mídia faz em torno do tema “atividade física” como provedora de saúde, grande parte de informações, relacionadas à saúde, estética, longevidade, entre outras, acabam por ser divulgadas não só à população idosa (MIRA, 2003; WAISSMANN, 2003). No âmbito científico a produção e divulgação de tais benefícios pode ser observada através de variáveis psicossociais, sócio-culturais e principalmente nas questões biológicas, visando preservar, por maior espaço de tempo a autonomia motora e a capacidade funcional dessa população (FARIA JÚNIOR et al., 2005a; SANTOS, 2002). Esse maior enfoque vêm em decorrência da observação na diminuição gradativa das atividades físicas vigorosas, moderadas, e da vida diária proporcionado pelo avanço cronológico dessa população, bem como da 21 possibilidade de resguardo físico, com o propósito de manutenção da integridade física (BRACH et al., 2004;), Levando em consideração essa realidade, fica impossível não estabelecer que a prática de atividade física mesmos que não propicie alterações fisiológicas, contribui diretamente para a manutenção do status de saúde dessa população, seja ela através da prática regular e/ou através de atividades pré-estabelecidas, por um profissional da área de saúde (ACSM, 2003; CHAIMOWICZ, 1997). O reflexo dessa contribuição, poderia ser observado principalmente na diminuição do período de morbidade ou pré-morbidade instalada; no número de internações por quedas e acidentes doméstico; na menor porcentagem de doenças crônicas não-transmissíveis (cardíacas, pulmonares, articulares) e na redução do agravo de quadros clínicos já instalados, entre outras (BRACH et al., 2004; FRIED et al., 2000; MATSUDO, 2000). A atividade física, nesse contexto, contribui para o incremento de uma vida saudável, não apenas na relação oriunda de estímulos biológicos, mas também pela viabilidade de benefícios em relação as variáveis sócio-culturais como a construção e/ou manutenção de uma nova rede de amizades sociais, culturais e inter-culturais (Chodzko-Zajko, 2002; Stella, 2002) e nas variáveis psicossociais como a satisfação com a vida, auto-estima, auto-conceito, aumento dos afetos positivos, diminuição dos afetos negativos, percepção de controle sobre os eventos (MIRANDA, 2002). O conjunto dos benefícios já descritos, contribuiriam para que cada indivíduo desse continuidade em sua vida, integrado ao contexto social e reconhecido com ser singular que o é (COSTA, 2001; OKUMA, 2003). Apesar dos benefícios biológicos, psicossociais, e sócio-culturais se apresentarem bem definidos e fundamentados na literatura científica, não gostaríamos de apontar a atividade física como uma solução para a saúde da população idosa, assim como, é observada na atual comercialização da prática como provedora de saúde conforme aponta Bagrichevisky et al (2005), senão como um caminho a ser trilhado em associação com políticas públicas que, venham a contribuir não apenas com a oferta de programas de atividade física, 22 mas com propostas educacionais que possibilitem o acesso a informações sobre essa fase da vida e o entendimento da necessidade da prática em si que, por sua vez, podem ser desenvolvidas dentro da Educação Física. Entendemos que a área em questão, como já diz o próprio nome, é um processo de “Educação” que, segundo Steinhilber (1996), seria um meio privilegiado por abranger o ser humano em sua totalidade, não se circunscrevendo apenas à relação de causa e efeito oriundos de estímulos biológicos (atividades físicas), mas de acordo com Mira (2003 p.174), representando um “fenômeno de múltiplas dimensões” associando questões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, nos quais os componentes da Educação se fazem presentes. 23 2.4 Envelhecimento e Educação Física Brasileira Esse capítulo tem como intuito, mostrar um panorama geral de como o tema envelhecimento vem sendo discutido no âmbito da Educação Física brasileira, levando em consideração suas transições, mudanças paradigmáticas e suas ampliações para as dimensões e realidades sociais, culturais, políticas e econômicas desde a sua implantação. Diante dessas transições, encontramos o direcionamento das práticas da Educação Física frente ao processo de envelhecimento, focados em maior parte às questões biológicas e ao desenvolvimento das capacidades motoras e funcionais. Essa característica que não se aplica apenas à população idosa seria decorrente da adoção do paradigma biomédico pela área (TOJAL, 1998; ROLIM e FORTI, 2004). Essa característica se inicia durante o período de implantação da Educação Física brasileira no Brasil República (1889-1930). Foi devido a ausência de um Ministério, que viesse assumir as responsabilidades da implantação da Educação Física no território nacional, que as Forças Armadas assumiram a primeira administração da área, fazendo com que os padrões higienistas da Medicina por eles utilizados, se estendessem a prática física escolar (MARINHO, 1943). Esse modelo higienista-militar, baseado nos conceitos anátomo- fisiológicos foi substituído na década de 1940, por um modelo mais abrangente baseado nas questões biosócio-filosóficas (DARIDO, 2003). Segundo a autora, essa mudança impulsionou a Educação Física a assumir um novo discurso, o qual se auto-afirmava como um “meio” para se educar, pois a educação do movimento por seu entendimento, seria a única forma capaz de promover a chamada educação integral. Entre as décadas de 1960 e 1970, observamos a pressão da ditadura militar em transformar o Brasil em uma potência através do esporte (BETTI, 1991; COLETÂNEA de AUTORES, 1992). Também houve o direcionamento de suas práticas para o processo mecânico de gestos em busca da perfeição, ocorrendo a super valorização das habilidades motoras e a discriminação dos menos 24 habilidosos (CASTELLANI FILHO, 1993a; CASTELLANI FILHO, 1988b). É nesse período que ocorre o surgimento do movimento “Esporte para Todos” e a frase “Esporte é Saúde”, segundo indicou Darido, (2003), expressão bem atual em decorrência da mercadorização da saúde e dos fatores de risco associados às pessoas que não se exercitam (BAGRICHEVISY E PALMA, 2005; CAPONI, 2003; PALMA et al., 2003). Dentro desses direcionamentos pedagógicos ao longo da construção da Educação Física, não observamos indicações sobre a inclusão da população idosa a prática de exercícios físicos até meados 1936. Nesse período em questão até 1970, não existia uma preocupação direta com população idosa, existia sim, uma preocupação com a “possibilidade” do envelhecer principalmente em torno do sexo feminino. A população idosa nesse sentido se exercitava em conjunto de demais coortes etários e, em programas desenvolvidos à população em geral que eram ofertados, em praças públicas, programas de rádio, clubes privados, entre outros (FARIA JÚNIOR et al., 2005a; MARINHO, 1943). Uma preocupação mais efetiva, porém ainda discreta, frente ao processo de envelhecimento só veio ocorrer no Brasil a partir da década de 1970, fruto de uma primeira mudança paradigmática, no campo do conhecimento das atividades físicas e do envelhecimento. Essa mudança, conforme Faria Júnior (2004), deu-se em decorrência da transição demográfica do envelhecimento associada a quatro influências teóricas: o Esporte para Todos de Per Hauge-Moe; o estímulo e a inclusão de adultos e idosos nos programas de atividades físicas de Kenneth H. Cooper; a matroginástica (atividade entre mães e filhos de diferentes idades) de Helmt Schultz e das idéias de Kurk Meinnel que caracterizava a terceira idade adulta como a fase da crescente “diminuição do rendimento motor”. Essa nova realidade paradigmática, fez com que a oferta de programas de atividade física, voltados à população idosa, aumentasse demasiadamente, sem uma fundamentação teórica adequada, sem uma delimitação de coorte etário, sem qualidade e segurança nas sessões, que poderiam variar entre funções profiláticas e reparadoras (FARIA JÚNIOR et al., 2005b). 25 Na década de 1980, ainda observamos a predominância da Educação Física voltada as questões biológicas e ao desenvolvimento das capacidades motoras e funcionais da população idosa. Apesar desse enfoque mais biológico, notamos nesse período que as questões de cunho social, pedagógico e da área da Promoção da Saúde, passam a conquistar um pequeno espaço de discussão dentro da área, sendo ampliados apenas na década de 1990 (FARIA JÚNIOR, 2004; 2005b). Em conjunto dessa ampliação observamos, na sociedade da época, mudanças de cunho social e político em relação ao envelhecimento citamos a Resolução 46/91 da Assembléia Geral das Nações Unidas de 16/12/91 (ONU, 2000), que colocou em pauta as responsabilidades e deveres sociais, políticos e econômicos em relação à qualidade do processo de envelhecimento; a Política Nacional do Idoso, na criação e incentivo de programas de lazer, esporte, atividade física, pesquisa, a inclusão da Gerontologia e Geriatria nas disciplinas curriculares dos cursos de ensino superior, entre outros (BRASIL, 19994). Um fato que chamou a atenção dentro dessa ampliação foi o reconhecimento pelo Ministério da Educação e Turismo de que os idosos vinham conquistando novos espaços na sociedade e que o ato de aprender se fazia necessário. Nesse sentido, a Educação Física, teria por incumbência a busca por estratégias de intervenção prática que viessem a contribuir com a vida dessa população (FARIA JÚNIOR et al., 2005a). A década de 1990 foi um período importante no direcionamento das práticas da Educação Física frente ao processo de envelhecimento. Pois, encontramos que a sua indicação deveria estar aliada aos processos de prevenção e promoção da saúde, nos quais o componente educação, começam a se destacar como item necessário para a promoção da qualidade do envelhecimento. Tais ações eram preconizadas, porque já se vislumbrava para o século XXI as demandas que seriam necessárias para a manutenção dessa população (CHAIMOWICZ, 1997; RAMOS, 1987; RASSI, 1994). Com a passagem do século XX para o século XXI, a Educação Física brasileira manteve a mesma freqüência na busca de saberes voltados às 26 questões biológicas e ao desenvolvimento das capacidades motoras e funcionais do envelhecimento. Entretanto questões antes não discutidas passaram a vigorar dentro da área, como políticas públicas; deficiência (visual, auditiva e física); idosos presidiários; ações efetivas no âmbito da Promoção da Saúde; velhice bem-sucedida; espiritualidade; auto-conhecimento; bem-estar, entre outras (FARIA JÚNIOR et al., 2005b). Com a apresentação deste panorama gostaríamos de mostrar que a produção e a disseminação de conhecimentos na área desde 1930 até os dias atuais, vêm mantendo uma constância na buscar e produção de conhecimentos relacionados ao envelhecimento biológico. Apesar dessa característica, a Educação física, a partir de meados da década de 1990, ampliou suas práticas às questões pedagógicas, sociais e da Promoção da Saúde dando um novo rumo ao direcionamento de suas intervenções que foram impulsionadas, pelas demandas e os problemas sociais que essa população já registrava no período em questão, e que se tornariam maiores com a virada do século acarretando problemas de cunho social, político e econômico. Por ter sido a década de 1990 importante para a relação da Educação Física brasileira com processo de envelhecimento, passaremos a discorrer no capítulo seguinte sobre os fatores incidentes sobre essa população que impulsionaram a modificação das práticas da Educação Física e chamaram a atenção da sociedade e dos governos para a realidade do envelhecimento populacional. 27 2.5 Década de 1990 e a população idosa brasileira 2.5.1 Economia, saúde, educação: influências sobre o envelhecimento A década de 1990 foi um período de mudanças na política econômica brasileira, caracterizada por um processo de abertura comercial abrangente, que se iniciou no governo Fernando Collor de Melo estendendo-se até o governo Fernando Henrique Cardoso. Os acontecimentos que mais se destacaram dentro desta década e que causaram um impacto direto na vida dos brasileiros foram: os déficits na balança comercial; a vulnerabilidade de segmentos industriais; as privatizações, o controle de preços; as flutuações no câmbio; a inflação; os pacotes econômicos (Plano Collor, confisco de poupanças e aplicações financeiras; Plano Real, inflação chegando 1100% em 1992 e quase 6000% em1993); a desvalorização da moeda brasileira; os cortes nos gastos em áreas cruciais de aprendizado econômico, educação, pesquisa e desenvolvimento, entre outras (Averbug, 1999; DIEESE, 2003; SEADE, 1990; VILLASCHI, 2005; WIKIPÉDIA, 2006). Esses acontecimentos segundo Serra e Serra (2006) especialmente nas décadas de 80 e 90, atingiram, e ainda atingem, as camadas mais pobres da sociedade brasileira. Segundo os autores, a sociedade é deixada de lado pelas políticas governamentais, que davam maior ênfase aos planos de estabilização econômica do que aos problemas sociais da população brasileira, que por via de regra seriam decorrentes da estrutura no qual a nossa sociedade foi organizada. A população idosa no Brasil conforme o Censo de 2000 era de 14.536.029 pessoas, contra 10.722.705 em 1991. No início da década de 1990 o peso dessa população representava 7,3%, passando para 8,6% em 2000 representando neste período um aumento de quase quatro milhões de idosos. As previsões da década de 1990 também apontavam o aumento de quinze vezes da população centenária ou mais que passaria da razão aproximada de 145 000 pessoas em 1999 para 2,2 milhões em 2050 (IBGE, 2001; BERQUÓ, 1999). Neste período, a classificação da população idosa era realizada segundo as orientações da Organização das Nações Unidas de 1985, que adotava como 28 idosa a população com idade igual ou superior a 60 anos para os países subdesenvolvidos e 65 anos para os países desenvolvidos (SEADE, 1990). Sendo o envelhecimento um fenômeno mundial, podemos observar na década de 1990 uma ampliação da preocupação com o bem-estar e com a qualidade desse envelhecimento. A resolução 46/91 da Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU, 2000), demonstra claramente a preocupação com o envelhecimento mundial, apontando através dessa resolução cinco princípios relacionados: à independência, à participação, à assistência, à auto-realização e dignidade dos idosos. Esses cinco princípios tinham por objetivo informar e alertar que a população idosa deveria ter acesso e continuidade ao convívio social na fase do envelhecimento; autonomia preservada e estimulada através da participação direta na formulação e implementação de políticas que viessem a afetar diretamente o seu bem-estar; dignidade, através do acesso à educação, cultura, lazer e principalmente a garantia de acesso à saúde, pois segundo a ONU (1991) apud OPAS (2002a) a saúde seria uma forma para que essa população, pudesse manter ou adquirir um bem-estar físico, mental e emocional, prevenindo desta forma a incidência de doenças. Já no Brasil encontramos a promulgação da Lei no 8.842/94 (Brasil, 1994), que dispõe sobre a Política Nacional para o Idoso (PNI). De acordo com o texto da referida lei, teria por objetivo assegurar os direitos sociais dos idosos criando condições para promover a sua autonomia, a sua integração e a sua participação efetiva na sociedade, incentivando a criação de programas de esporte, lazer e atividade física em prol da melhoria da qualidade de vida dos idosos; promoveria também incentivos e apoio a estudos e pesquisas relativas ao envelhecimento, no que se refere a adequação de currículos, metodologia, material didático, como também a inclusão da Gerontologia e Geriatria nas disciplinas curriculares dos cursos de ensino superior, que no ano de 2003 deixou de ser um item obrigatório devido a Lei nº 10.741/03 (BRASIL, 2003). A sociedade brasileira na década de 1990, esperava ansiosamente a ampliação dos direitos dos trabalhadores através da reforma da previdência 29 social, que só veio a se confirmar em Emenda Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998. Até então, a população brasileira estava sujeita a realidade política da época que se refletia no acesso a previdência social e a aposentadoria (BELTRÃO et al., 2000; CAMARANO, 1988; 2002). A previdência social sequer conseguia assegurar ao contribuinte a proteção dos seus direitos adquiridos diante dos riscos de declínio social, nem mesmo as aposentadorias por tempo de serviço e aposentadorias especiais escapariam da tendência ao declínio do valor absoluto dos benefícios, que poderiam vir a se tornar vulneráveis frente às crises econômicas, ao desemprego, à informalização da economia, aos baixos salários e à concentração de renda; (BELTRÃO et al., 2000; CAMARANO, 2002; Debert 1999). O analfabetismo dentro da população idosa era elevado, representando 40% para os homens e 48% para as mulheres conforme PNAD de 1993 (IBGE, 1993). Dos idosos que freqüentaram as escolas, apenas 50% conseguiram terminar o curso primário e este quadro educacional, segundo Berquó (1999), declina com o coorte etário. Mas, para que possamos considerar essas porcentagens, Berquó (1999) salienta a necessidade de levarmos em consideração que esses indivíduos remontam a períodos nos quais as chances de acesso à educação se davam de forma bastante assimétrica, por classe social e gênero. A população masculina se beneficiava com o maior acesso a educação, pois o homem, socialmente, tinha o papel de “provedor” e a mulher de “cuidadora” indicando assim a sua menor participação em processos educativos. A realidade desse quadro educacional emerge no momento em que a falta de escolaridade, influência diretamente nas tentativas de busca por condições de existência e de sobrevivência, principalmente para as mulheres idosas. Essa diferença entre homens e mulheres de 65 anos ou mais se torna inverso quando observamos a taxa de mortalidade entre ambos. Em 1991 a expectativa em anos para as mulheres idosas pulou de seis para sete anos a mais de vida em relação aos homens. Esse quadro vem a confirmar segundo, 30 Berquó (1999) a forte tendência à feminização do envelhecimento. O número de mulheres com mais de 60 anos de idade passou de 3,8 milhões em 1980 para oito milhões em 2000, ou seja, mais do que dobrou em 20 anos (CAMARANO, 2002; TELAROLLI JÚNIOR et al., 1996). As mulheres também se destacaram na década de 1990 em relação a sua inserção no mercado de trabalho entre 1989 e 2001, essa expansão pode ser caracterizada pela ampliação de sua participação no desemprego, na conquista de espaço ocupacional, no processo de precarização das relações de trabalho (expansão da condição assalariada para a condição autônoma), na precariedade social econômica, que afetou a família obrigando, tanto os homens quanto as mulheres disputarem um espaço no mercado de trabalho para a manutenção de suas necessidades (BERQUÓ, 1999). Enfim, a década de 1990 apesar de ter sido empreendedora quanto a abertura do mercado financeiro, que nos beneficia atualmente, foi um período em que o brasileiro perdeu o seu poder de compra, passando por grandes dificuldades financeiras em decorrência dos pacotes econômicos e da desvalorização constante da moeda (WIKIPÉDIA, 2006). Este quadro social afetou em sua maior parte a população com a situação financeira menos privilegiada e os idosos que na maioria das vezes tinham nas aposentadorias e pensões a sua principal fonte de renda. A situação sócio-econômica segundo Lima Costa et al., (2003), desempenha um papel central na determinação da saúde de indivíduos e populações. Conforme a autora, vários estudos de base populacional confirmam está tendência e apontam que a população idosa com melhor situação sócioeconômica apresentam melhores condições de saúde. Está diferença acaba por diminuir, ou até desaparecer, nas idades mais avançadas. Em países industrializados a queda das taxas de mortalidade e fecundidade iniciadas no século XX, acompanharam a ampliação da cobertura dos sistemas de proteção social, de melhorias das condições de moradia, saneamento básico, alimentação e trabalho. No Brasil, por outro lado, essa menor taxa de mortalidade que deu início à transição demográfica da população, 31 foi marcada mais pela ação médico-sanitarista do Estado que por políticas que melhorassem o entorno da população brasileira, como o acesso à educação, moradia, alimentação, dignidade para se viver, entre outras. Apesar dessa atenção sanitarista os idosos, segundo Chaimowicz (1997), não encontram na década de 1990 um amparo adequado no sistema público de saúde e previdenciário. Conforme o referido autor, a falta dessa assistência provocaria o acúmulo de doenças que gerariam seqüelas na população idosa, aumentando as suas dependências, a perda de sua autonomia e de sua qualidade de vida. Em Inquérito Domiciliar realizado em 1989, no Município de São Paulo, Chaimowicz (1997) observou quando se comparou o estado funcional em Inquéritos Domiciliares de outros Estados, a freqüência de queixas relacionadas às doenças crônico degenerativas e também a impressionante proporção de transtornos afetivos que afetavam as famílias. Segundo o autor, esses transtornos influenciavam diretamente a qualidade de vida dessa população obrigando com que as famílias se ajustassem a essa nova realidade. Resumindo, as questões relacionadas à saúde da população brasileira da década de 1990, assim como dos países que compõem a América Latina, conforme (LITVAK 1990 apud CHAIMOWICZ), são ditados pelas condições sociais e econômicas do indivíduo. Segundo o autor, existe uma tendência maior na área da saúde em evitar o processo de envelhecimento subvalorizando às questões que realmente compõem essa fase da vida. Esse quadro social brasileiro segundo Chaimowicz (1997) reforça a noção de que o envelhecimento populacional da década de 1990 poderia passar a representar mais um problema que uma conquista da sociedade, na medida em que os anos de vida ganhos não sejam vividos em condições de independência e saúde implicando geralmente em custos elevados para o sistema de saúde. 32 2.6. Programas de atividade física para idosos no Brasil Neste capítulo abordaremos as características de programas de atividade física voltados à população idosa na década de 1990. A seleção desses programas, foi realizada através da obra de Lamartine DaCosta intitulado “Atlas Atividade Física no Brasil” do ano de 2005, no qual Faria Júnior e colaboradores, discutem um mapeamento regional preliminar sobre programas de atividade física voltados a essa população. Nesse mapeamento, identificamos quatorze programas de universidades brasileiras, eleitos por Faria Júnior e colaboradores (2005c), como programas de “excelência nacional” voltados à população idosa. Destacam-se nessa excelência, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ-RJ); Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ); Universidade de São Paulo (USP-SP); Universidade Estadual de São Paulo (UNESP de Rio Claro-SP); Universidade de Campinas (UNICAMP-SP); Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS); Universidade Federal de Viçosa (UFV, Uberlândia-MG); Universidade Federal de Uberlândia (UFU-MG); Universidade Estadual de Londrina (UEL de Londrina-PR); Universidade Federal do Paraná (UFPR, Curitiba-PR); Universidade de Brasília (UNB-DF); Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, Florianópolis-SC); Universidade Estadual do Amazonas (UFA-AM) e Universidade Federal do Pará (UFPA, Belém-PA). Devido a relevância das ações contidas nesses programas, que reflete todo momento histórico da década de 1990 incidentes sobre a população idosa e que nos mostram o reflexo desse momento na construção de suas atividades ao longo da década e na atualidade, adotamos por critério de inclusão apenas os programas que atuaram com a população idosa, independentemente destes se organizarem na oferta prática de atividades físicas e/ou na discussão teórica dos benefícios obtidos. Como critério de exclusão, optamos por não analisar as universidades cujo trabalho não estava disponível na rede mundial de computadores e que não 33 disponibilizavam, em suas respectivas páginas eletrônicas, informações suficientes para compreensão da estrutura de suas propostas. Com base nesses critérios, excluímos, Universidade Estadual de Londrina (PR); Universidade Federal do Paraná (PR); Universidade Federal Fluminense (RJ); Universidade Federal de Viçosa (MG); Universidade Federal do Amazonas (AM), Universidade de Campinas (UNICAMP-SP), Universidade de Brasília (UnBDF); Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, Florianópolis-SC) e Universidade Federal do Pará (UFPA, Belém-PA), restando para nossa análise, cinco universidades e seus respectivos programas. A coleta dessas informações foi obtida através da rede mundial de computadores, diretamente na página eletrônica de cada universidade. O procedimento adotado para análise desses programas, foi realizado através da comparação das intenções e justificativas descritas no enunciado de cada programa com seus respectivos objetivos. Após o processo de triagem dos documentos e transcrição das informações, conforme procedimento descrito por Gil (1991); Lakatos (2001) e Laville e Dione (1999), realizamos uma leitura minuciosa sobre os mesmos para elaboração de significados. Foi durante esse processo que percebemos, em alguns programas, uma relativa divergência entre o enunciado de suas propostas e os objetivos descritos, principalmente em relação a visão de envelhecimento e aos conceitos de saúde, autonomia e Promoção da Saúde. Essa observação, por sua vez, nos fez refletir sobre a possibilidade de que um programa de atividade física elaborado para a população idosa poderia vir a sofrer influências no direcionamento de suas práticas quando tais conceitos divergissem dentro de sua proposta. A intenção nesse capítulo não é criticar ou julgar os programas de atividade física selecionados, mas sim, buscar informações que ajudem compreender e refletir como essas divergências conceituais estão evidenciadas na estrutura desses programas, no que se refere ao direcionamento de atividade física voltadas à população idosa. E, para tanto, tomamos o cuidado de pesquisar todo o contexto social, político e econômico incidente sobre a população idosa 34 brasileira da década de 1990, bem como as ampliações conceituais da área da Saúde e das práticas de Educação Física frente a população idosa do período em questão. Mas, para que se possa compreender a relevância de nossas observações e questionamentos, retornaremos a alguns pontos que entendemos serem importantes para compreensão da visão de envelhecimento adotada pelos organizador(es) dos respectivos programas, bem como os fatores que podem diretamente contribuir para a falta de concordância conceitual em relação a utilização dos termos saúde, autonomia e Promoção da Saúde. Em relação a velhice, encontramos em Debert (1999) que essa fase da vida não seria uma categoria natural, mas sim uma categoria socialmente construída que faz distinção entre um fato natural (ciclo biológico, do ser humano) e um fato universal (fatores sociais e históricos), fatos que proporcionam aos idosos formas diferentes de se conceber e viver o envelhecimento e, aos indivíduos, visões diferenciadas sobre essa fase da vida. No ciclo biológico pode-se observar toda uma discussão, principalmente na área da Saúde, que visa minimizar e/ou adiar as modificações fisiológicas ocorridas durante a velhice (GOBBI et al., 2002; NELSON et al., 2004; STELLA, 2002). Isto somado às questões sociais e históricas incidentes sobre essa população está acompanhado de estereótipos negativos, de termos classificatórios, da vinculação da imagem do idoso à fragilidade e dependência, contrapondo-se a uma visão mais positiva da velhice, com possibilidade de desenvolvimento (PEIXOTO, 1998). Sem querer generalizar, foi com base nessa realidade social incidente sobre a população idosa, facilmente percebida pelas modificações biológicas e pelo estigma de improdutividade, que nos questionamos sobre a possibilidade de que essa representação social de envelhecimento construída ao longo do desenvolvimento de um indivíduo possa ter influenciado ou possa vir a influenciar o direcionamento das práticas de Educação Física frente a população idosa. O que reforça esse nosso questionamento seria a possibilidade descrita por Baltes e Silverberg, (1995) e Motta, (2003), de que nem a ciência se isentaria 35 das influências sociais incidentes sobre o processo de envelhecimento, não nos garantindo a imparcialidade de que a produção de conhecimento não esteja baseada nas crenças sobre o comportamento humano, retirados de representações coletivas, do mundo social dos próprios pesquisadores. Essa possibilidade nos fez refletir sobre o quanto essa representação individual de quem organiza uma intervenção voltada à população idosa influenciaria o direcionamento das atividades e o posicionamento de outros profissionais que lidam diretamente com esses idosos. Por esse motivo, acreditamos que idosos que estejam engajados em programas que atuem apenas com base nas representações individuais sobre o envelhecimento de seus organizadores, sem um aprofundamento teórico que possibilite vislumbrar esse processo em várias dimensões (política, econômica, social, histórica, psicológica, biológica), deixam de ter a possibilidade de explorar o seu envelhecimento como um todo. Por outro lado, em relação ao conceito de saúde, a sua identificação dentro de um programa de atividade física para a população idosa dá a possibilidade de compreendermos o enfoque utilizado no desenvolvimento das atividades, que pode estar voltado para a perspectiva biológica de prevenção, ou para a perspectiva de Promoção da Saúde. É importante frisar que a diferenciação dessas duas vertentes da Saúde Pública se dá através da identificação do conceito de autonomia, dos processos educativos utilizados e do conjunto de ações empreendidas, que possuem como base o conhecimento científico e os conceitos clássicos que organizam a produção de conhecimentos em saúde, que até o final do século XIX, vislumbravam a saúde como a ausência de doenças, e que, lentamente, passaram a ser discutidas e questionadas dentro da área de Saúde (CANGUILHEM 1978; CZERESNIA, 2003; ROSEN, 1994). Desses questionamentos, o conceito de saúde foi ampliado com o reconhecimento de que a saúde não poderia se organizar apenas na ausência de doenças, mas da interação de vários fatores incidentes sobre um indivíduo como a iniqüidade social, por exemplo. A partir desse momento identificamos a 36 influência das idéias encontradas no âmbito da Promoção da Saúde contribuindo para a construção de um novo paradigma em saúde que não se focava apenas nas questões preventivas, mas entendia que o status de saúde poderia ser influenciado pelas questões sociais, políticas, econômicas incidentes sobre os indivíduos e que a saúde não se encerraria na doença (BYDLOVISKY et al., 2004). Para tanto, a ampliação conceitual de saúde ocorrida dentro da perspectiva da Promoção da Saúde, ocorreu em três fases distintas: (1) o reconhecimento que as questões sociais poderiam estar vinculadas ao status de saúde dos indivíduos, mas ainda atrelada às ações preventivas de saúde; (2) uma perspectiva mais behaviorista – voltada a intervir, influenciar e assistir comportamentos individuais não-saudáveis da população (Buss, 2003 e Carvalho, 2004) e (3) a “nova” Promoção da Saúde, que tenta através de suas ações promover uma maior participação dos indivíduos e comunidades não na oferta de informações, mas na construção de conhecimentos desenvolvidos através de uma pedagogia crítica que valorize as potencialidades dos indivíduos para que estes possam atuar com base em suas escolhas (BYDLOWSKI et al., 2004; CARVALHO, 2004; CZERESNIA, 2003; OPAS, 2002a). Apesar de toda essa ampliação conceitual estar muito bem documentada na literatura, ainda existem dificuldades na diferenciação das duas linhas de trabalho da Saúde Pública que, no caso da Promoção da Saúde, mesmo após a sua grande divulgação realizada pela conferência de Ottawa-Canadá, ainda pode ser entendida apenas como uma ação preventiva de saúde. Essa dificuldade, segundo Queiroz (2003), poderia ser oriunda da resistência em aceitar um novo paradigma em saúde que coloca em discussão a hegemonia da Medicina, construída a partir da doença e não na perspectiva de saúde. A possibilidade descrita, pelo referido autor, nos faz refletir sobre o fato de que a falta de coerência no posicionamento sobre a adoção de um conceito de saúde de um programa de atividade física talvez possa ocorrer em virtude da dificuldade em se aceitar um novo paradigma em saúde, ou em se compreender 37 um conceito tão complexo quanto a Promoção da Saúde, ou ainda por falta de discussões dentro da área de Educação Física. Outro fator que contribui para que ocorram divergências entre o enunciado de uma proposta de atividade física e a descrição de seus objetivos estaria na utilização do termo autonomia. Segundo Farinatti (2000), a atribuição do status de autonomia como valor, ao lado da saúde, representou um grande avanço teórico para a área da saúde, pois a autonomia de um indivíduo poderia vir a influenciar diretamente o status de saúde de outrem. Entretanto, essa condição vislumbrada a partir do entendimento de que o poder de agir com base em suas escolhas seria a base desse conceito e, por esse motivo, nossas escolhas poderiam realmente interferir no status de saúde de outrem, precisamos entender que, ao longo da construção desse conceito tão complexo, noções como justiça, liberdade e independência foram atribuídos ao termo autonomia, produzindo uma gama de significados que na área da Saúde, conforme aponta (Farinatti, 2000), foram associados à dependência motora e social, invalidez, deficiência, incapacidade, aptidão e desempenho. Talvez por esse motivo e pela complexidade de discussões em torno da autonomia de um indivíduo, seja comum encontrarmos o termo autonomia na área da Saúde e também na Educação Física, vinculado à independência motora que, dentro de uma intervenção prática de ambas as áreas, estaria voltada a repelir a condição de dependência. Por esse motivo, entender o enfoque utilizado em torno do conceito de autonomia, nesses programas nos daria subsídios para identificarmos ações que realmente são empreendidas em prol da população idosa, que estariam coerentes com a perspectiva da Promoção da Saúde ou não. Enfim, estamos tentando explicar que existe a possibilidade de que a percepção sobre o processo de envelhecimento estaria relacionada à visão de saúde e autonomia adotada, ou vice-versa, tanto por parte de quem organiza, quanto de quem atua diretamente com idosos dentro um programa de atividade física. 38 Essa possibilidade nos levaria a diferentes formas de desenvolver um trabalho com essa população. Partido do princípio de que o envelhecimento é um período de modificações não apenas de ordem biológica, um programa de atividade física poderia ser desenvolvido apenas na perspectiva preventiva, com intuito de reverter tais modificações, Mas, por outro lado, poderia ser construído de acordo com a perspectiva da Promoção da Saúde, que engloba as ações preventivas atividades que possibilitem o desenvolvimento das habilidades individuais dessa população, para que os mesmos passem a atuar com base em suas escolhas. Dentro dessas duas vertentes, nas quais as intenções de trabalho estão bem definidas, é que podemos observar o aparecimento de divergências no enunciado de uma proposta de atividade física em relação ao direcionamento prático das atividades (objetivos) que são acompanhados pela falta de alinhamento conceitual sobre saúde, autonomia e Promoção da Saúde. Citamos como exemplo, um programa de atividade física de enfoque coerente com a perspectiva da Promoção da Saúde, com abordagem apenas preventiva nas ações que empreende. Levando em consideração as demandas necessárias para a população idosa em nossa sociedade, não importa como os programas de atividade física estão organizados desde que suas intenções e justificativas para uma intervenção direta com essa população apresentem-se coerentes com o direcionamento de suas atividades (objetivos), principalmente quando observamos as propostas dos projetos para viabilizar, através de suas atividades, um maior engajamento social dos idosos em prol da qualidade de seu processo de envelhecimento. Por esse motivo, a divergência conceitual, ao nosso ver, resultaria em ações que impossibilitariam a população idosa de se beneficiar das intenções realmente elaboradas por um programa de atividade física que, em um primeiro momento pode estar coerente com uma perspectiva positiva sobre essa fase da vida, passível de realizações e desenvolvimento, mas que se encerram no direcionamento de práticas focadas apenas nas modificações biológicas do 39 envelhecimento, como se a prática motora em si fosse a solução de todos os problemas dessa população. Acreditamos que a atividade física, simplesmente ofertada, não tenha o poder de abranger o envelhecimento como um todo sem que exista por trás um suporte técnico multidisciplinar. Após essa discussão, acreditamos que a análise dos programas de atividade física de universidades brasileiras por nós selecionadas, poderá contribuir diretamente para uma maior reflexão e discussão na área de Educação Física em relação à construção de propostas de atividades físicas voltadas à população idosa. 2.6.1 Descrição dos programas de atividade física voltados à população idosa Universidade Federal de Uberlândia (UFU-MG) 6 O Projeto Vida Ativa - AFRID (Atividades Físicas e Recreativas para a Terceira Idade), é desenvolvido pela Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Uberlândia, e vêm desenvolvendo, desde 1989, um conjunto de atividades teóricas e práticas para indivíduos com idade superior a 50 anos, com a finalidade de estimular a participação ativa e dinâmica da comunidade idosa, buscando minimizar o estigma a que sempre estão submetidos, valorizando suas potencialidades. O projeto AFRID é organizado a partir de uma equipe interdisciplinar composta por médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, psicólogos e educadores físicos que procuram contribuir, “cada um em sua especialidade para o enriquecimento e valorização dessa iniciativa”. Em relação à atuação da Educação Física, seu(s) idealizador(es) deixa(m) claro o enfoque nas atividades corporais e nos movimentos expressivos, incluindo em suas atividades aulas de natação e hidroginástica e assistência a indivíduos institucionalizados. Além desse enfoque, o projeto AFRID visava colaborar no sentido de “reeducar esses indivíduos para valorização de suas potencialidades” 6 Universidade Federal de Uberlândia, disponível em: www.afrid.faefi.ufu.br/ 40 nos segmentos, físicos, psíquicos, sociais e econômicos, utilizando como estratégia atividades estimulantes, desafiadoras, que propiciem momentos de descontração, liberdade, cooperação, interação e criatividade. Durante a análise desse documento, observamos a preocupação de seu(s) idealizador(es) em descrever(em) a evolução de seu trabalho durante a década de 1990, colocando em pauta as questões, sociais, políticas e econômicas referentes ao envelhecimento, bem como o redirecionamento das demandas necessárias a essa população, citamos como exemplo dessa observação o seguinte trecho: “...diferentes são as necessidades desse seguimento populacional [...] que até então consistia em uma minoria e era preterida em função de outras faixas etárias [...] passando a ser alvo de atenção dos governos, estudiosos e pesquisadores [...] nesse sentido, as diferentes concepções que orientam esse novo contexto, juntamente com a implantação de novas linhas de ação estão redimensionando o olhar sobre o processo e, criticamente, ampliam o campo de estudos sobre a velhice”. Nesse sentido, além da ampliação da visão de uma velhice excluída da década de 1990, para uma velhice socialmente mais ativa nos dias atuais, encontramos a ampliação do conceito de saúde como um “bem-estar, físico, mental e social e não apenas com a ausência de doenças”. Seguindo essa ampliação conceitual sobre saúde, procuramos na descrição desse projeto, indicações sobre a utilização de processos educativos e a utilização do termo autonomia. Sobre a educação, seu(s) idealizador(es) aponta(m) que a população idosa "demanda por educação”, que foi classificada dentro do projeto como: “qualquer atividade que possa vir a enriquecer ou promover a qualidade de vida dessa população” e, talvez por esse motivo, não encontramos especificações em relação a processos pedagógicos utilizados. Já em relação ao termo autonomia, não encontramos a sua citação literal no referido documento, e nem o termo atrelado à condição de independência motora, mas observamos citações condizentes com a perspectiva de uma autonomia vislumbrada no fortalecimento das potencialidades individuais quando 41 se propõe a “levar os indivíduos a conhecerem melhor a sua própria condição, tanto nos aspectos da saúde física e mental, quanto na situação sócio-econômica e cultural” assim como “lhes abrir perspectivas de ação política”. Encontramos também uma breve citação dentro da perspectiva de um envelhecimento bemsucedido, que não é explorada em sua descrição. Tendo como base essas informações, notamos que o suporte para construção do projeto AFRID deu-se a partir da relevância de vários fatores incidentes sobre a população idosa decorrentes da realidade social, política e econômica da década de 1990 como os estereótipos negativos, perda de papéis sociais, falta de ações efetivas em prol da saúde, educação, previdência, entre outras. Apesar dessa referência social negativa, observa-se no projeto AFRID a preocupação de seu(s) idealizador(es) em situar(em) suas atividades dentro das evoluções conceituais pertinentes às áreas de Educação Física e Saúde como considerar as necessidades e desejos dessa população, buscar atividades que promovam e estimulem as potencialidades dos mesmos, utilização da perspectiva de um envelhecimento bem-sucedido, importância dos benefícios fisiológicos e do incremento de processos educativos que colaborem para o incremento da qualidade do processo de envelhecimento. Parece-nos que as ações que compõem o projeto AFRID estejam coerentes com a perspectiva da “nova” Promoção da Saúde, mas por não encontrarmos indicações sobre os processos pedagógicos adotados, que dentro dessa perspectiva vislumbraria uma pedagogia crítica, não podemos confirmar tal possibilidade, apesar do projeto apresentar coerência entre a visão de envelhecimento, conceito de saúde e autonomia, conceitos que foram ampliados de acordo com as transições conceituais de cada período. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS) 7 7 Universidade Federal de Santa Maria http://www.coperves.ufsm.br/prograd/downloads/File/Grupodeatividades.pdf disponível em: 42 O Núcleo Integrado de Estudos e Apoio à Terceira Idade (NIEATI), é realizado no Centro de Educação Física e Desportos, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS) e vêm desenvolvendo desde 1984, um conjunto de atividades físicas de caráter extensionista, com a comunidade idosa e adulta acima de cinqüenta e cinco anos de Santa Maria e região. O projeto tem por intenção valorizar a pessoa idosa a partir do “reconhecimento de seu potencial individual”, incentivando-o para um maior engajamento responsável e participativo dentro da sociedade, para que dessa forma, possam “interagir no equacionamento e na transformação das questões sociais incidentes sobre essa fase da vida” O NIEATI é um programa de atividade física integrado aos demais cursos oferecidos na UFSM. O intuito dessa interação entre áreas tem, por objetivo principal, oferecer “novos conhecimentos e intercâmbio de experiências” através da possibilidade de atualização cultural, política e do convívio social entre gerações a partir do acesso livre aos cursos de pós-graduação e graduação da universidade. Em relação à atuação da Educação Física, seu(s) idealizador(es) deixa(m) claro o direcionamento de suas atividades voltadas aos estímulos biológicos compatíveis ao status de saúde e realidade funcional de cada indivíduo, visando a melhoria da “autonomia de movimento” e servindo de laboratório para os futuros profissionais de Educação Física que atuavam tanto no campus da universidade quanto nos próprios grupos de convivência existentes na comunidade de Santa Maria. Apesar do enfoque exclusivo da área de Educação Física nos benefícios biológicos, seu(s) idealizador(es) entendia(m) que a prática de atividade física não era suficiente para atender o desejo de tornar essa população mais engajada nas questões sociais, políticas e econômicas refletem-se sobre o processo de envelhecimento. E, talvez por esse motivo, não encontramos referências sobre ações pedagógicas dentro da Educação Física, fato que parece ter sido delegado às demais áreas de saberes científicos da UFSM. 43 Durante a análise desse documento, não fica clara a transição das atividades desenvolvidas pelo NIEATI da década de 1990 para os dias atuais, entretanto observamos toda a influência da década de 1980 e 1990 incidentes sobre a população idosa no direcionamento de suas justificativas e intenções que podem ser observadas por entre a da descrição, da necessidade de socializar os idosos através de uma maior interação entre gerações, do acesso a educação e cultura, bem como a melhoria da “autonomia de movimento”. Nesse sentido, podemos observar a visão de envelhecimento relacionada às perdas sociais, motoras, culturais, em que o direcionamento das atividades visa amenizar ou reverter essa realidade, adotando-se um posicionamento mais biológico e preventivo. Porém, como seu(s) idealizador(es) entende(m) que a atividade física não seria suficiente para dar conta dos objetivos propostos para essa população “um maior engajamento social”, observamos a associação da oferta de atualização cultural e educacional dentro do NIEATI, por intermédio da interação dos demais cursos da UFSM. Isto é, notamos a ampliação da visão biológica sobre o envelhecimento, para uma velhice passível de “ação social”, sem que o projeto perdesse o enfoque biológico de suas atividades. Durante a análise desse projeto, não encontramos menção da ampliação do conceito de saúde dentro da perspectiva de Promoção da Saúde. Contudo, observamos referências sobre a ampliação do direcionamento das práticas da Educação Física frente a população idosa, quando seu(s) idealizador(es) aponta(m) que a atuação da área não pode estar organizada apenas na oferta de estímulos biológicos e, por esse motivo, viabiliza o acesso a educação e cultura. Com base nessa oferta educacional, procuramos referências sobre processos pedagógicos e não encontramos indicações quanto à utilização de uma pedagogia específica elaborada para a população idosa. Mas, acreditamos que na intenção de seu(s) idealizador(es) em proporcionar(am) uma maior interação com as demais faixas etárias da universidade, essa perspectiva pedagógica tenha sido pouco explorada e, por esse motivo, não aparece descrita em seu enunciado. 44 Já em relação à utilização do termo autonomia, encontramos a sua citação dentro da área de Educação Física atrelada à condição de independência motora, mas observamos citações condizentes com a perspectiva de uma autonomia vislumbrada no fortalecimento das potencialidades individuais na parte que cerne os processos educativos como: “incentivar o seu engajamento responsável e participativo na sociedade [...] interagir no equacionamento e na transformação das questões sociais incidentes sobre os idosos”. Acreditamos, dessa forma, que as ações que compõem o NIEATI estejam coerentes com uma perspectiva mais preventiva e biológica do processo de envelhecimento, que vislumbra a importância de processos educativos para o incremento na qualidade de vida desses indivíduos, demonstrando uma coerência entre a utilização da visão de envelhecimento, conceito de saúde e autonomia em relação aos objetivos traçados. Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) Rio Claro 8 O Programa de Atividade Física para a Terceira Idade (PROFIT), foi elaborado a partir de uma interface entre ensino, pesquisa e extensão em 1989, vindo a se consolidar em 1991, nas instalações do Departamento de Educação Física - UNESP - Campus de Rio Claro. Seu(s) idealizador(es) deixa(m) claro que o foco de atenção do projeto AFRID seria o atendimento da comunidade idosa, dos portadores de doença de Parkinson e demência de Alzheimer, bem como idosos institucionalizados, e a sua produção de conhecimentos estariam direcionados apenas aos benefícios proporcionados para a saúde (física e mental) e para a capacidade funcional da população idosa. No início, as atividades estavam voltadas apenas a atender as demandas e as carências sociais da população idosa. Porém em decorrência da ampliação do conceito de velhice, passando de um “...desengajamento para uma efetiva participação social contextualizada com suas limitações e ganhos referentes a 8 Universidade Estadual de São Paulo www.rc.unesp.br/ib/efisica/fef2002/projetos/profit.doc – Rio Claro, disponível em: 45 essa fase da vida”, o projeto passou a ser organizado não apenas na aplicação prática de movimentos corporais, mas no processo de motivação para a conscientização da prática regular de atividade física na perspectiva de transformar a realidade dessa população quanto a manutenção da independência motora, prevenção de doenças não-transmissíveis e reabilitação de problemas de saúde. Dessa forma, o objetivo central de suas atividades estaria voltado ao desejo de valorizar os interesses e necessidades dos idosos através da adaptação de suas atividades, voltadas para um envelhecimento mais participativo nas questões relacionadas ao auto-cuidado e à saúde que seriam obtidas a partir da “conscientização” e não da simples “aplicação” de atividades corporais. Nesse sentido, também observamos a valorização da atividade física como uma “vivência humana” que não poderia estar “encerrada nela mesma”. Justificando, dessa forma, a criação de uma “Diretoria dos Idosos” cuja função seria atender os demais interesses e necessidades de seus alunos (fora do âmbito da prática de atividades físicas), que funcionaria também como um complemento de informações para o planejamento das atividades e implantação de novas modalidades físicas. Desse modo, acreditamos que suas ações estejam coerentes com a perspectiva da “nova” Promoção da Saúde que, além do enfoque preventivo, visa instrumentalizar essa população para que possam atuar em prol de um autocuidado em saúde. Com base nessa perspectiva, procuramos indicações sobre processos educativos e a utilização do termo de autonomia na descrição desse projeto. Sobre a educação, não fica claro qual foi a pedagogia utilizada para o desenvolvimento do processo de conscientização para a prática de atividades físicas, entretanto durante a descrição de suas atividades observamos indicativos quanto a utilização de uma pedagogia crítica em que os conhecimentos são construídos a partir da valorização da experiência de cada indivíduo. 46 Já em relação ao termo autonomia, não encontramos a sua citação literal no referido documento, e nem o termo atrelado à condição de independência motora, no entanto observamos citações condizentes com a perspectiva de uma autonomia vislumbrada nas potencialidades individuais quando seu(s) idealizador(es) organiza(m) o direcionamento de suas práticas no do desejo de “conscientizar e não aplicar” apenas conteúdos práticos. Em suma, observamos na descrição das atividades do PROFIT toda uma preocupação de seu(s) idealizador(es) em situar(em) suas atividades dentro das evoluções conceituais pertinentes às áreas de Educação Física e Saúde. E, por esse motivo, não apresenta divergências entre a visão de envelhecimento, conceito de saúde e autonomia adotados na elaboração de sua proposta e de seus objetivos, que parecem estar coerentes com a perspectiva da “nova” Promoção da Saúde. Universidade de São Paulo – PAAF (USP) 9 O Programa Autonomia em Atividade Física (PAAF), da Universidade de São Paulo (USP), iniciou suas atividades no ano de 1994. Estruturado como um programa educacional tinha como intuito instrumentalizar a população idosa com conhecimentos teóricos e práticos, sobre a prática de atividade física, visando a autonomia para a auto-gestão de exercícios físicos e/ou seleção de programas supervisionados. Por ser uma fonte de pesquisa, o projeto buscava avaliar, durante o período de doze meses, a evolução dos seguimentos físicos, motores, psicológicos e de aprendizagem desses idosos para que, dessa forma, sua proposta de atividade física fosse adequada quanto as possibilidades de ativação dos domínios físico, motor, cognitivo e psicossocial, redundando, segundo sua idealizadora, em conhecimentos sobre as condições favoráveis em que tal ativação ocorreria, e em conhecimentos aplicados para a atuação profissional à área de Educação Física. 9 Universidade de São Paulo, disponível em: http://www.usp.br/eef/efp/lapem/grepefi/ 47 Neste contexto, seus objetivos visavam o direcionamento de suas práticas ao “saber o que fazer”, “como fazer” e “quando fazer” atividades motoras em relação aos diferentes sistemas corporais; visavam a mudança de comportamentos individuais para uma prática sistemática de atividades físicas, a promoção de experiências motoras prazerosas e com sucesso, e a manutenção e/ou melhoria das capacidades físicas, motoras e funcionais. Dentro desse intuito, apesar de não existir uma citação literal sobre a utilização das ações que envolvem a “nova” Promoção da Saúde, acreditamos que a proposta elaborada pelo PAAF, esteja coerente com tal perspectiva com a intenção de “instrumentalizar idosos” através de processo pedagógico que vise a construção de “conhecimentos para o auto-cuidado, ensinando-os a saber o que fazer, como fazer e quando fazer atividades físicas”. Quanto a utilização do termo autonomia, também não encontramos a sua citação literal no referido documento, e nem o termo atrelado à condição de independência motora, mas observamos a organização de suas práticas a partir de uma pedagogia crítica, com intuito de construir conhecimentos relacionados ao poder de gerir e escolher uma atividade física coerente ao seu desejo e sua realidade funcional. Nesse sentido, suas atividades pedagógicas trabalhavam em sincronia com o conteúdo teórico desenvolvido (informações elementares de anatomia e fisiologia) com o conteúdo prático (atividades motoras) que eram divididos, em seis partes relacionadas ao estímulo dos diferentes sistemas corporais (cardiovascular, respiratório, neurológico, músculo-esquelético e articular). A análise desse projeto vêm demonstrar a utilização de uma ação pedagógica dentro de um programa de atividade física que dá oportunidade para que seus alunos incorporem informações e as transformem em ações em prol de seus benefícios demonstrando que um programa de atividade física pode vir a ser incrementado com processos educativos. Dentro desse contexto, não observamos no PAAF divergências entre a visão de envelhecimento, conceito de saúde e autonomia adotados na 48 elaboração de sua proposta e construção de seus objetivos que, parecem estar coerentes com a perspectiva da “nova” Promoção da Saúde. Apesar de encontrarmos coerência entre intenções, justificativas e objetivos descritos nos referidos programas de atividade física no que refere a visão de envelhecimento, conceitos de saúde, autonomia e Promoção da Saúde, gostaríamos de discutir alguns pontos que nos chamaram atenção na composição desses programas, em relação ao termo “educação”,com a adoção de processos pedagógicos e a perspectiva de trabalho no âmbito da Promoção da Saúde. Nos programas por nós analisados encontramos o termo “educação” relacionado com “qualquer atividade que possa vir a enriquecer ou promover a qualidade de vida dessa população” AFRID (UFU-MG); como um meio de proporcionar “um maior engajamento social” NIEATI (UFSM-RS) e visando instrumentalizar os idosos na prática de atividade física PROFIT (UNESP-Rio Claro) e PAAF (USP-SP). De tal modo, podemos observar vários significados atribuídos a Educação como um componente necessário para incrementar a qualidade do processo de envelhecimento incluindo, além da atividade física, o acesso à educação, cultura e o fortalecimento das capacidades individuais dessa população. Mas apesar dessa indicação, não encontramos referências específicas no enunciado dessas propostas sobre os processo pedagógicos utilizados para obtenção de seus objetivos, nos deixando apenas indícios e possibilidades de estratégias utilizadas, e, por esse motivo, não pudemos discorrer em profundidade sobre esse processo tão importante na elaboração de uma intervenção para a população idosa. Por esse motivo não podemos afirmar que a questão educacional e a adoção de um processo pedagógico elaborado para assistir a população idosa não tenha sido considerada, porém podemos refletir sobre a atribuição dada à educação nos respectivos programas, no sentido de contribuir para uma maior discussão em torno dos fatores que podem vir a influenciar a indicação e/ou elaboração de processos educativos voltados a essa população. 49 Pois, conforme Neri e Cachione, (2004), existe uma escassez de pedagogias voltadas à população idosa que poderiam estar relacionadas a imagem do idoso associada com a dependência, improdutividade e às regras sociais que, por sua vez, acabam por determinar os comportamentos individuais e coletivos. Só que, no caso da população idosa, essas regras fazem com que nós, sociedade, esperemos a todo o momento que estes idosos comportem-se de maneira dependente, mesmo que não haja necessidade para tal (BALTES E SILVERBERG, 1995). Essa consideração nos leva a refletir sobre a possibilidade de que uma proposta educativa relacionada ao envelhecimento seja atribuída de acordo com a visão que se possui sobre o que é ser velho. Isto é, o grau de relevância da necessidade de uma intervenção pedagógica elaborada especificamente para essa população, dependeria desse posicionamento e da finalidade que se atribui à educação. Isso, segundo Martins de Sá (2004), poderia ser algo permanente e co-existente à própria vida, se voltada a um processo de humanização e de transformação social dos indivíduos. Por esse motivo, o acesso à educação pode nos proporcionar conhecimentos, experiências e impressões diversificadas sobre a vida, mas não acreditamos que a sua oferta seja suficiente para dar conta da expectativa de que a população idosa possa, através desta, tornar-se apta para decidir, recusar, escolher, discernir o que é pertinente à sua vida principalmente em relação a sua maior participação social em ações em prol de seu envelhecimento. Para tanto, o componente pedagógico crítico se faz necessário para a obtenção de um objetivo tão amplo que envolve procedimentos que transcendem a simples transmissão de conhecimentos – isso porque quem nunca na vida pode decidir por si só alguma coisa não poderia apenas com acesso a educação e cultura ter o “poder” de se auto-governar, pois conforme Freire (1997), o “poder” para se auto-governar vai se constituindo ao longo da vida das pessoas, dentro de um processo contínuo de decisões. Dessa maneira, intervenções que tenham como propósito o fortalecimento das potencialidades individuais em prol da auto-gestão de atividades físicas ou do 50 maior engajamento dos idosos nas questões que estão imbricadas nesse processo devem levar em consideração certos aspectos: (1) o perfil da população a ser atendida, com intuito de conhecer quais são realmente as suas necessidades, desejos, vontades e carências para compor os objetivos a serem traçados; (2) com base no perfil traçado, adotar uma linha pedagógica que não seja copiada de outros modelos e populações para que não se corra o risco de subestimar as capacidades e produtividade dessa população; (3) adotar uma pedagogia crítica para valorizar as experiências individuais e do cotidiano do educando, propiciando uma linguagem de fácil compreensão no qual educador e educando interagem para a aquisição de conhecimentos valorizando o diálogo, incentivando a criticidade e, por tanto, criando um ambiente favorável ao fortalecimento da autonomia desses indivíduos (AZANHA, 2006; FREIRE, 1997; PEREIRA, 2003). A relevância desses três fatores contribuiria para que uma proposta de atividade física não se limitasse à participação da população idosa aquém de seu desenvolvimento e necessidades e, sim, valorizando-a. Entretanto, se o intuito de uma intervenção for apenas fornecer conhecimentos diversos, não podemos desmerecer nenhuma dessas iniciativas, pois novos conhecimentos nos levam a novas experiências ou, pelo menos, a refletir - mesmo que por um instante sobre essas novas descobertas. Sobre a perspectiva de um trabalho elaborado no âmbito da Promoção da Saúde preconizada após a Carta de Ottawa, não encontramos a sua citação literal nos programas de atividade física por nós analisados (AFRID, PAAF e PROFIT), mas observamos indícios de que essa perspectiva de trabalho tenha sido utilizada para compor o direcionamento de suas atividades. Não podemos afirmar que tal menção não tenha sido realizada por falta de conhecimentos a respeito das ações que organizam a Promoção da Saúde, afinal encontramos indícios de ampliações conceituais no enunciado desses programas. Contudo, podemos aproveitar tal observação para refletirmos sobre a possibilidade de que, atualmente as ações que compõe o âmbito da Promoção da 51 Saúde como o processo de capacitação de indivíduos e comunidade para que possam atuar com base em suas escolhas; utilização de uma educação pautada em uma pedagogia crítica; conceito de saúde amplo constituído por um conjunto de valores (saúde, educação, equidade social, entre outras) não sejam amplamente discutidos no âmbito da formação Profissional de Educação Física, isso porque quando procuramos programas atuais dentro de universidades brasileiras que trabalhem dentro dessa perspectiva, não encontramos a indicação literal de uma proposta pautada no âmbito da Promoção da Saúde, contudo encontramos assim como nas quatro universidades por nós analisadas da década de 1990, indícios e possibilidades condizentes como essa perspectiva de trabalho. Dentro disso, poderíamos vislumbrar a possibilidade de que discussões mais profundas sobre ações que envolvam a Promoção da Saúde seriam necessárias para que não ocorram divergências quanto a sua utilização e para que indícios e possibilidades se transformem em posicionamento reais sobre essa perspectiva. 52 3. Método 3.1 Caracterização do estudo Para que possamos refletir sobre o quanto a análise e compreensão do Projeto Fênix poderia vir indicar o que ocorre no cenário geral de programas de atividade física para adultos e idosos, adotamos a metodologia da pesquisa qualitativa por entender que outro método não nos possibilitaria compreender um fenômeno em toda sua essência. Para tanto, realizamos um estudo de caso, que nos possibilitou uma análise esclarecedora do Projeto Fênix e de toda a sua organização e significado social em relação a população idosa assistida (DEMO, 2001; GIL, 1999; THOMAS e NELSON, 2002). 3.2 Participantes Fizeram parte desse estudo os profissionais que organizaram e coordenaram o Projeto Fênix, entre os anos de 1998 a 2004. Escolhemos analisar apenas os coordenadores porque esse estudo pretende averiguar a partir da perspectiva teórica da Promoção da Saúde, as divergências e convergências conceituais de saúde, autonomia e Promoção da Saúde no direcionamento das práticas de atividade física desenvolvidas pelo Projeto Fênix. Isso significa que posicionamentos e perspectivas individuais desses profissionais estariam imbricados na elaboração e direcionamento de suas atividades. Os participantes foram informados dos objetivos e procedimentos do estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (Anexo I), segundo as normas do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu. 3.3 Instrumentos Para a obtenção de todas as informações necessárias a respeito do projeto a ser analisado, vários instrumentos foram utilizados e, serão descritos a seguir: 53 1. Documentos do Projeto Fênix: Projeto pedagógico e proposta de implantação do programa para realizar a descrição de suas bases teóricas; Planejamentos das aulas, contendo objetivos e conteúdos propostos; relatórios semanais e semestrais de atividades desenvolvidas e trabalhos científicos, para compreender as bases teóricas do Projeto Fênix, que nos dará subsídios para compreendê-lo em sua profundidade em relação ao direcionamentos prático de suas atividades. 2. Entrevista semi-estruturada, realizada com as coordenadoras, para compreender o significado de sua atuação no direcionamento teóricoprático das atividades realizadas no Projeto Fênix. 3.4 Procedimento para coleta de dados Para a realização desse estudo, primeiramente, enviamos uma carta à reitoria das Faculdades Integradas de Guarulhos, demonstrando o nosso interesse e solicitando autorização para utilizarmos, como objeto de pesquisa, os dados referentes ao extinto programa de extensão comunitária denominado Projeto Fênix – Terceira Idade com Qualidade (ANEXO II). Com o deferimento dessa solicitação iniciamos a coleta de dados na instituição. Documentos do Projeto Como pesquisadora e participante no referido Projeto, obtive livre acesso a todos os documentos sem prazos e datas de entrega, que possibilitou, através do agrupamento cronológico do projeto de implantação; do projeto pedagógico; das descrições dos planos de aula; dos relatórios semestrais, das anamneses e trabalhos científicos, compreender o início da trajetória do Projeto Fênix, bem como a construção de seus objetivos e o direcionamento de suas atividades em relação à população idosa. Entrevista com as coordenadoras 54 As entrevistas semi-estruturadas foram realizadas individualmente, seguindo os procedimentos indicados pela estrutura da entrevista narrativa, que têm por objetivo estimular o entrevistado a contar uma história sobre um acontecimento importante. Esse procedimento foi adotado para captar as impressões pessoais das coordenadoras sobre a atividade física em relação a população idosa, a construção e a utilização de conceitos como saúde, autonomia, Promoção da Saúde e envelhecimento, no direcionamento das atividades realizadas. A escolha pela estrutura da entrevista narrativa deu-se pelo fato de considerá-la a mais adequada ao objetivo em questão, pois segundo Bosi (2003), os procedimentos tradicionais da pesquisa empírica não seriam capazes de entender o mundo amolecido pela opinião, isto é, a percepção alheia à experiência. A autora coloca que a entrevista narrativa propicia um ambiente favorável para que o entrevistado se expresse e estabeleça uma ordenação pessoal aos fatos obedecendo uma lógica afetiva cujo os motivos nós ignoramos. Sendo assim, o resgate da memória oral, faz intervir pontos de vista contraditórios, distintos entre eles e ricos em conteúdo. Pela memória, segundo a autora: “o passado não só vêm à tona das águas presentes, misturando com percepções imediatas, como também empurra ‘descola’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência. A memória aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora”. (BOSI, 2003:36) É a partir dessa subjetividade que podemos colher uma gama de informações factuais, onde o pesquisador deve fazer emergir desse conteúdo uma visão de mundo. Isto é, interpretar as pausas, a rememoração, o esquecimento, a decomposição dos pensamentos, idéias, episódios vividos e as “curvas melódicas da fala” (Bosi, 2003:46). Para a realização das entrevistas, elaboramos um roteiro de temas que não permitissem passar pontos fundamentais e essenciais para a análise desse programa de atividade física como: a visão sobre envelhecimento, aspectos que 55 influenciaram a elaboração da estrutura e dos objetivos, dos propósitos, como era estabelecido a relação professor-aluno, o que era importante ensinar, como os estagiários eram orientados, como era o direcionamento prático das atividades. E, para tanto Iniciamos nossa entrevista com uma questão geradora: no período em que você esteve a frente do Projeto Fênix como coordenadora, como foi a sua gestão durante esse período? A introdução de cada tema, foi realizado com base no discurso dos entrevistados, portanto, a ordem dos questionamentos não foi realizada em sua seqüência original, mas respeitando o discurso do entrevistado. Dessa maneira, acreditamos que um ambiente natural contribua diretamente na fluidez das respostas, contribuindo para que fatos relevantes sejam relembrados e discursados. Para a realização dessas entrevistas, utilizamos um gravador portátil e fitas cassetes. 3.5 Análise Para que se possa responder os objetivos traçados nesse trabalho, iniciamos a nossa análise a partir de uma descrição do Projeto Fênix – Terceira Idade com Qualidade, assim como o mesmo é descrito em seu documento de implantação. Posteriormente, para ampliar nosso entendimento em relação a estrutura e a construção das atividades, iniciamos uma análise documental conforme as orientações Flick (2004); Gil (1991); Lakatos (2001); Laville e Dione (1999), realizando: (1) processo de triagem para julgamento dos documentos; (2) transcrição de conteúdo; (3) elaboração de unidades de significado para categorização dos documentos e conteúdos e (4) interpretação. Após essa ampliação sobre a trajetória e o direcionamento das atividades realizadas no Projeto Fênix, passamos a nos focar nos atores (coordenadoras) que possibilitaram o andamento desse Projeto. Pois a partir da análise de suas entrevistas teremos a possibilidade de responder os nossos objetivos e refletir sobre o quanto a análise e compreensão do Projeto Fênix podem indicar o que ocorre no cenário amplo de programas de atividade física para adultos e idosos. 56 Para tanto, seguindo as orientações para elaboração de uma análise documental, realizamos primeiramente a transcrição literal dos discursos, a elaboração de unidades de significado, agrupamento por temas e categorias para facilitar a identificação dos depoimentos; síntese e integração para que se possa buscar convergências ou divergências atribuindo a eles significado. E, para a interpretação das respostas utilizamos a fundamentação teórica que dá suporte a essa pesquisa. 57 4. Projeto Fênix: bases teóricas Antes de iniciarmos esse capítulo que tem por intuito discutir profundamente o Projeto Fênix – Terceira Idade com Qualidade, gostaria de assumir um discurso em primeira pessoa que abre espaço à pesquisadora, no momento, compartilhar suas experiências e observações como docente dentro do referido projeto entre os anos de 2003 e 2004. Acredito que dessa forma o conteúdo da análise pode vir a ser enriquecido. E, para discutir em profundidade o Projeto Fênix e a fundamentação teórica que deu base às ações empreendidas em seu programa de atividade física, iniciei essa análise a partir do conteúdo descrito no documento original de implantação do projeto e de sua posterior reformulação; em sua proposta pedagógica; nos relatórios semanais e semestrais de atividades desenvolvidas, bem como na utilização de trabalhos científicos que diretamente contribuam para a descrição prática de suas atividades. Através disso, decidi dividir essa análise em três momentos distintos, iniciando pela descrição do Projeto Fênix tal como aparece em seu documento original de implantação e de sua posterior reformulação no ano de 2004 10 , passando para um segundo momento em que me utilizo dos princípios da análise documental descritos por Flick (2004); Gil (1991); Lakatos (2001); Laville e Dione (1999), para discorrer sobre a fundamentação teórica que dava suporte ao Projeto Fênix em relação a concepção de velhice e as perspectivas de saúde, autonomia e Promoção da Saúde que o norteava e, que deram base ao direcionamento prático de suas ações. De posse das informações teóricas que davam suporte ao Projeto, iniciei a última fase dessa análise, que envolveu o discurso das experiências vivenciadas pelas coordenadoras que organizaram o Projeto Fênix, dando subsídios para discorrer sobre o direcionamento prático das atividades desenvolvidas sobre a presença de divergências e convergências entre o enunciado de sua proposta 10 Documento de implantação: no ano de 2003 a coordenação do Projeto Fênix foi alterada e junto a essa mudança, valores foram agregados ao trabalho até então desenvolvido que por sua vez, passaram a constar em seu documento original de implantação. 58 (intenções e justificativas) e os objetivos descritos, bem como as ações que de fato foram empreendidas nesse programa de atividade física. De tal modo, o confronto desse conteúdo teórico com as experiências práticas narradas por suas coordenadoras, possibilita uma visão concreta das atividades e posicionamentos adotados para o desenvolvimento do Projeto Fênix. 4.1 Descrição Por ser o Projeto Fênix, um programa de atividade física oriundo da década de 1990, inicio essa descrição procurando situar o leitor sobre a realidade social brasileira incidente sobre a população idosa que, por sua vez, dá base às justificativas de implantação desse Projeto, bem como ao direcionamento de suas intenções de trabalho. Nesse período a população idosa era classificada segundo os padrões estabelecidos pela Organização das Nações Unidas de 1985 (ONU, 2000), que considerava uma pessoa idosa aquela que possuísse idade igual ou superior a sessenta anos para os países subdesenvolvidos e sessenta e cinco anos para países desenvolvidos. Assim como em outros períodos, os adjetivos negativos atrelados a condição de velhice como dependência, incapacidade e improdutividade, também se faziam presentes na década de 1990 (PEIXOTO, 1998). No caso do Brasil, esses estereótipos eram reforçados pela crise econômica e a falta de investimentos na Previdência Social, que comprometia o valor do benefício das aposentadorias fazendo com que a população idosa, principalmente a menos afortunada, que tinha nesse benefício sua única fonte de rendimento, sofresse com a diminuição do poder de compra, perda de papéis sociais, restrição de atividades de lazer e cultura, comprometendo a sua sobrevivência sócioeconômica sem a dependência de outrem (BELTRÃO et al., 2000; BERQUÓ, 1999; SEADE, 2006;). A carência de ações tão básicas à sobrevivência dessa população foi um reflexo da falta de investimentos do período ditatorial que veio se acumulando ao longo das décadas e se agravando na década de 1990 com a crise econômica 59 que, segundo (Serra e Serra, 2006), fez com que as ações de cunho social, mais uma vez, ficassem em segundo plano de atenção, pois o enfoque governamental até então, era controlar o caos econômico brasileiro. Com base nesses acontecimentos político-econômicos, encontramos no trecho do livro “O Tempo Vivo da Memória” que: “quando um acontecimento político mexe com a cabeça de um determinado grupo social, a memória de cada um de seus membros é afetada pela interpretação que a ideologia dominante dá desse acontecimento. Portanto, uma das faces da memória pública tende a permear as consciências individuais”. (BOSI, 2003:21) Nesse sentido, venho colaborar com minha consciência individual sobre a década de 1990, pois durante os pacotes econômicos e a transição da moeda brasileira, pude observar atividades como lazer e cultura se tornarem supérfluas e alimentos, antes indispensáveis na mesa dos brasileiros, transformarem-se em artigo de luxo. Por esse motivo, acredito que a consciência individual da organizadora do Projeto Fênix se fez presente na elaboração de tal proposta de atividade física, quando descreve no enunciado do Projeto que a “população brasileira além de apresentar problemas comumente relacionados à velhice possuía o estigma de ter vivido a sua juventude e sua fase adulta em condições desfavoráveis que tenderiam a se deteriorar ainda mais na velhice e que seriam influenciadas para mais ou para menos de acordo com o acesso ao sistema de saúde e as condições satisfatórias de vida que, por sua vez, determinariam o grau de saúde e de autonomia destes indivíduos”. Com base neste panorama, o programa de extensão comunitário de atividade física voltado à população idosa, o assim denominado Projeto Fênix – Terceira idade com Qualidade, foi implementado nas Faculdades Integradas de Guarulhos (atual Unimesp), no ano de 1998 sendo encerrado no ano de 2005 quando da criação da Faculdade da Idade da Razão na Instituição. 60 Com efeito, o Projeto foi elaborado com a preocupação de que este segmento populacional que vinha aumentando ao longo das décadas segundo Fundação SEADE (1990), necessitaria de maiores investimentos na área da saúde, educação, cultura, condições favoráveis de vida, trabalho, políticas públicas preventivas, estudos e pesquisas para assim, poder suprir as futuras demandas sociais em relação ao envelhecimento populacional. Conforme a sua idealizadora, a explosão demográfica prevista para a virada do século XX traria como conseqüência uma pressão crescente sobre a sociedade quanto as demandas específicas que esta população apresentaria, ocasionando uma concorrência direta com os demais segmentos etários que, por sua vez, também eram carentes de demandas e que estariam longe de ser solucionadas. Em sua proposta de implantação, consta que o Projeto Fênix foi elaborado para atender as três vertentes de trabalho: o ensino, pesquisa e extensão. Sobre o ensino, a presença de idosos dentro da Faculdade contribuía para o incremento da formação profissional dos graduandos em Educação Física em um laboratório prático de atividades, visando a percepção do processo de envelhecimento como um todo e não apenas na aplicação prática de atividade física. No que concerne à pesquisa, o documento original de implantação não dá indícios sobre a organização de um grupo de estudos e uma linha de pesquisa adotada, unicamente faz menção sobre a contribuição de suas atividades para a construção de conhecimentos em Gerontologia relacionados à Educação Física, no sentido de poder contribuir para as futuras demandas sociais 11 em relação ao processo de envelhecimento. A adoção de um grupo de estudos voltados à produção científica só passa a vigorar e a constar como um objetivo efetivo no Projeto a partir do ano de 2004. Participavam desses encontros semanais a coordenação, monitores, estagiários e voluntários que atuavam diretamente com a população idosa no intuito de 11 “futura demanda social”: estaria relacionada a falta de conhecimentos da população sobre o processo de envelhecimento que, com a explosão demográfica prevista para a virada do século XX estaria despreparada para lidar e compreender as necessidades reais dessa população. 61 discutir e compreender o processo de envelhecimento em busca de uma maior qualificação profissional. Quanto à atividade de extensão, o Projeto Fênix fazia parte de um projeto maior voltado ao bem-estar da população guarulhense, relacionado especialmente aos segmentos menos privilegiados, atendendo num primeiro momento às crianças carentes, aos deficientes físicos e, por último, aos idosos. Neste segmento, a população a ser atendida inicialmente teria a idade superior a 50 anos (apesar de ainda serem ativos economicamente e deterem autonomia), pois havia a intenção de preparar esta fatia da população para a fase de transição para o envelhecimento, através de atividades que poderiam vir a tornar este momento menos agressivo e traumático. Além do requisito idade, os idosos selecionados, após apresentarem atestado médico, anamnese (recordatório sobre o status de saúde) e preencherem um termo de responsabilidade, eram submetidos a avaliações motoras, afetivas e sócio-demográficas, inicialmente com intuito de acompanhar a evolução do trabalho desenvolvido e, posteriormente, no ano de 2004, visando nortear a elaboração de pesquisas científicas e traçar novas estratégias de trabalho. A base do Projeto era formada pela oferta de atividade física terrestre e aquática divididas inicialmente em três sessões semanais (segundas, quintas e sábados), passando, no ano de 2004, para duas vezes por semana (segundas e quintas-feiras), uma hora por sessão. Os idosos estavam divididos em três turmas (13:50, 15:00 e 16:00 horas), que eram compostas em média por trinta e cinco alunos. As demais atividades, como palestras, aulas teóricas, projeção de filmes, passeios, entre outras, eram concentradas dentro da grade de atividades oferecidas para que os alunos pudessem se engajar em outras atividades dentro e fora da Instituição. Devido a baixa rotatividade das turmas e uma grande lista de espera, a capacidade anual de atendimento variava entre cento e três e cento e quinze idosos, fazendo com que a idade mínima para ingresso passasse de cinqüenta anos em 1998 para sessenta anos no ano de 2004. 62 O espaço físico para o desenvolvimento das atividades compreendia sala de aula - para reuniões e aulas teóricas; sala de ginástica – para as atividades semanais; quadra coberta e externa – para caminhadas e jogos coletivos; piscina - para hidroginástica; pista de atletismo – para caminhadas; laboratório de avaliação física; anfiteatro - para palestras e projeção de filmes. Apesar desta estrutura, havia o desejo de fornecer transporte; assistência social; exame médico e a interação com os outros cursos oferecidos na Instituição. Desejos que, infelizmente, não foram concretizados. Utilizando como base de seu referencial teórico, os dados fornecidos pela Fundação SEADE do ano de 1990 e da Organização das Nações Unidas do ano de 1985 sobre a perspectiva do envelhecimento da população idosa brasileira no âmbito demográfico, político, econômico e social e, levando em consideração a diminuição do tempo livre das pessoas mais jovens para com os idosos (devido a sua intensa atividade econômica), os objetivos traçados para o programa visavam: 1. Qualificar os futuros profissionais de Educação Física para que possam atuar junto a esta população; 2. Proporcionar aos participantes atividades e conhecimentos que possibilitassem viver esta fase da vida com maior qualidade, maior autonomia e satisfação, produzidos através do sentimento de produtividade e a efetiva inserção na sociedade como cidadão ativo e participativo que levaria a uma melhor perspectiva para a sociedade futura; 3. Desenvolver atividades físicas, sociais e culturais para buscar preencher, de forma produtiva, as carências destas pessoas, visando preservar por maior espaço de tempo a autonomia, saúde, integração social, produtividade e participação política e social; 4. Instrumentalizar adultos e idosos com conhecimentos referentes ao processo de envelhecimento através da troca de experiências, discussões, convívio com indivíduos de mesma faixas etárias para tornar essa fase de transição menos agressiva e traumática, diminuindo a sensação de solidão, abandono e inutilidade que acometia essa faixa etária. 63 5. Favorecer a manutenção e/ou melhoria das capacidades funcionais e motoras. Com essa descrição, procurei apresentar a estrutura do Projeto Fênix levantando algumas possibilidades que parecem ter norteado as suas ações, além da preocupação sócio-econômica incidente sobre a população idosa, como a perspectiva de saúde, autonomia e Promoção da Saúde implícito nessa proposta de atividade física. Portanto, pretendo prosseguir com essa análise a partir do que ficou explícito e, também, implícito no procedimento de descrever o Projeto. Por exemplo, questiono qual teria sido a perspectiva filosófica de saúde, autonomia e Promoção da Saúde que o norteou? Como as divergências e convergências conceituais sobre essas perspectivas influenciaram o direcionamento de suas práticas? Sobre esse contexto, acredito que o fato de ter vivenciado o Projeto Fênix como docente, participante do grupo de estudos e ter contribuído para a construção das atividades elaboradas, possuo ferramentas suficientes para uma análise mais profunda na tentativa de colaborar com a reflexão sobre as implicações que o desacordo entre proposições e ações têm sobre os mais interessados, os participantes idosos. 4.2 Análise documental Para discorrer sobre a fundamentação teórica que dava suporte ao Projeto Fênix, em relação a visão de velhice e as perspectivas de saúde, autonomia e Promoção da Saúde, se faz necessário compreender como tais perspectivas aparecem no contexto teórico desse Projeto que, por sua vez, encontra-se dividido em dois períodos: implantação e primeira coordenação (1998 a 2003) e fase de transição de gestão e, segunda coordenação (2003 a 2005). E, para tanto, analisei os documentos de implantação; planos de aula (relatórios semanais); relatório semestral das atividades realizadas; proposta pedagógica; trabalhos científicos; avaliações sócio-demográficas e anamneses. Quanto a visão de velhice no contexto do Projeto Fênix, a análise documental, possibilitou visualizar em parte a construção de certos 64 posicionamentos teóricos sobre o processo de envelhecimento tanto no âmbito biológico quanto no social. Segundo Debert (1999), a velhice seria uma categoria socialmente construída que faz distinção entre os fatores biológicos do ser humano e os fatores sociais e históricos que norteiam essa fase da vida – pode-se considerar que o envelhecer, nesse sentido, tanto para quem envelhece quanto para quem o assiste, possuiria formas diferenciadas de percepção e vivência. Tendo como base esse contexto, pude notar a clareza de tal distinção no conteúdo teórico da proposta de implantação do Projeto Fênix. Só que ao contrário de outras propostas de atividade física analisados para compor esse estudo e ampliar conhecimentos, a questão biológica prima em maior parte com justificativa de implantação de uma intervenção, embora no caso do Projeto Fênix a necessidade de uma intervenção biológica é construída através da percepção de que os fatores sociais e históricos incidentes sobre essa população influenciam diretamente o status de saúde e a qualidade de vida da população idosa brasileira. Tal indicação de cunho social e histórico, pode ser observado quando sua organizadora descreve que “o brasileiro, na sua grande maioria, além dos problemas comuns do processo de envelhecimento [...] viveu a sua juventude e a sua fase adulta em condições desfavoráveis, que tendem a deteriorar-se ainda mais na velhice” ou quando refere-se a permanência do período de saúde e autonomia de um indivíduo que, “... poderá ser maior ou menor, dependendo do acesso que este tenha, ou não ao sistema de saúde, às condições mais satisfatórias de vida e de trabalho”. Graças a essa observação, o direcionamento de políticas públicas como metas “preventivas” que visassem investimentos em educação, cultura, melhores condições de vida e trabalho seriam cruciais para evitar em um futuro próximo, um colapso social, principalmente em relação ao aumento demográfico previsto para a população idosa que, com a virada do século XX, representaria um contingente de quatro milhões de idosos a mais no Brasil, isto é 8,6% a mais em relação ao ano de 1991 (BERQUÓ,1999; IBGE, 2001). 65 Até aqui é possível visualizar parte dos argumentos utilizados para a construção de uma visão sobre a velhice que estaria relacionada à realidade social brasileira. Mas, dentro desse contexto, sua organizadora faz menção sobre “algumas situações típicas” atreladas à condição de velhice como: a categorização de idade utilizada para estabelecer o período em que um indivíduo se torna velho que, no caso do Brasil - país classificado como subdesenvolvido na década de 1990, compreendia a idade de sessenta anos, em contrapartida aos países desenvolvidos, com idade superior a sessenta e cinco anos. Nesse sentido, a categorização da idade também serviria como um marcador social do período em que se encerra a atividade econômica dessa população, como a fase de perda de autonomia em função da saúde física e mental e como o período em que a dependência de terceiros para realização de atividades rotineiras surgem. Conseqüentemente, os “estereótipos” atrelados à condição de velhice passam a ser considerados, no enunciado da proposta de implantação do Projeto Fênix, como pode-se observar no trecho extraído de seu documento: “serão atendidos adultos a partir de cinqüenta anos e mais, pois acreditamos que essa camada da população, apesar de ainda ser economicamente ativa e ter autonomia, deve ser preparada para a terceira idade, instrumentalizando-se para que essa transição seja menos agressiva e traumática”. Tal indicação também pode ser encontrada na literatura da época como nos trabalhos de Brink, (1990) e Santos (1990), que apontam a necessidade de intervir na fase pré-aposentadoria para amenizar o sentimento de perda oriundos da velhice e aposentadoria. Outros exemplos, que indicam a preocupação com os estereótipos que acometem essa população, podem ser visualizados no contexto desse documento como: a formação de grupos sociais para, a “diminuição da sensação de solidão, de abandono e de inutilidade que acomete essa faixa etária” demonstrando a realidade da década de 1990; nos temas de cunho social, escolhidos para as palestras e projeção de filmes; nos relatórios semanais de aula com a descrição de atividades visando socialização dos alunos. 66 Só a partir da descrição da problemática social, incidente sobre a população idosa brasileira e de sua influência sobre o status de saúde e autonomia de um indivíduo, que encontrei uma breve menção sobre a perspectiva biológica de trabalho a ser desenvolvido entre os anos de 1998 a 2002 no sentido de ser um dos componentes a ser desenvolvido dentro dos objetivos traçados. Mas, na adenda 12 desse documento do ano de 2003, o enfoque biológico e seus benefícios passam a constar e a primar como objetivos dessa proposta, visando: “a manutenção ou melhoria das capacidades funcionais, cardiovasculares, respiratórias, articulares e de coordenação motora. Essa indicação pode ser verificada no direcionamento prático de suas atividades na descrição dos planos de aula (relatório semanal) que, confirmam um enfoque mais biológico do Projeto em contrapartida ao seu período de implantação e primeira coordenação. Em síntese, a visão de envelhecimento no contexto teórico do Projeto Fênix, entre 1998 a 2002, vislumbra essa fase da vida como passível de produção e aprendizagem e, por esse motivo, havia o desejo de instrumentalizálos com conhecimentos e troca de experiências sobre essa fase da vida, no qual os benefícios proporcionados pela prática de atividade física seriam coadjuvantes de um desejo maior de torná-los mais ativos e participativos socialmente. Entretanto, apesar da manutenção desse posicionamento quanto a uma visão sobre o processo de envelhecimento, essa concepção assume outro contexto no ano de 2003 quando a nova coordenação acrescenta uma adenda ao documento de implantação do Projeto que, discorre sobre as novas metas e objetivos a serem realizados. Nesse sentido, os objetivos traçados divergem do posicionamento descrito sobre o envelhecimento em que, a prática de atividade física deixa de ser um “componente” e passa a ser “foco principal” de atenção. Essa transição pode ser observada nos objetivos descritos nos planos de aula focados em sua maior parte ao desenvolvimento da capacidade funcional, 12 “Adenda”: do latin addenda; substantivo feminino : o que se ajunta a uma obra para completá-la, o que acrescenta para complementar, suplemento, apêndice (PRIBERAM -DICIONÁRIO ON-LINE) disponível em: http://www.prieberam.pt/dlpo/dlpo.aspx). 67 motora e no desejo de socializá-los. Apesar das reuniões do grupo de estudo e atividades educacionais e culturais permearem outras vertentes do processo de envelhecimento não apenas o biológico, essa vertente biológica primava em nossas aulas. Essa constatação me fez refletir sobre a diferença que existe em afirmar que o processo de envelhecimento é passível de realizações e reverter essa afirmação em ações condizentes a esse desejo. Se o grupo de profissionais que atuava no Projeto Fênix entre os anos de 2003 e 2004, não vislumbravam o envelhecimento como uma etapa da vida constituída por perdas, incapacidades e dependência, por que o direcionamento prático de nossas atividades mostrava o contrário? Será que apesar de todas as nossas discussões sobre a abrangência do processo de envelhecimento, atuávamos com base no que acreditávamos ser o melhor para essa população? Nesse sentido, teria a concepção individual de cada profissional sobre a velhice, imperado durante a elaboração das atividades? Que implicação essa divergência trazia ao Projeto Fênix? Estes são questionamentos que gostaria de responder ao longo desse capítulo. Dando continuidade a essa análise, passarei a discorrer sobre a perspectiva de saúde e a indicação de ações que compõe o âmbito da Promoção da Saúde adotada no contexto teórico do Projeto Fênix. Em relação à saúde, sua organizadora, tendo por base os dados obtidos pela Fundação SEADE de 1990, deixa claro que o status de saúde de um indivíduo, estaria relacionado a vários fatores e, cita como exemplo desse posicionamento: “as condições de uma vida inteira de trabalho e existência desfavoráveis que, em um futuro próximo, viriam a influenciar na qualidade do processo de envelhecimento de um indivíduo, bem como na sua condição física e mental”. De tal modo o status de saúde e a autonomia de um indivíduo, estariam relacionados as condições de vida, trabalho, bem como ao acesso à educação e à saúde, sendo necessário para tanto “políticas públicas” que permitissem suprir tais demandas para que, em um futuro próximo essa população tivesse a 68 manutenção e/ou um incremento na qualidade de seu processo de envelhecimento. Um conceito de saúde nesse sentindo ultrapassaria a atenção na doença, vislumbrando a saúde como um conjunto de valores como paz, saúde, educação, eqüidade, entre outras, assim como podemos observar na Carta de Ottawa (OPAS, 2002a). Nesse sentido, uma perspectiva coerente com as ações que compõem a Promoção da Saúde, cabem a descrição do Projeto Fênix que, apresenta coerência entre o enunciados de sua proposta (intenções e justificativas) como os objetivos propostos. E, para ilustrar essa indicação citamos como exemplo, o objetivo principal do Projeto, que visava proporcionar aos seus participantes atividades e conhecimentos que possibilitassem viver esta fase da vida com maior qualidade, maior autonomia e satisfação. Pois, conforme sua organizadora “o sentimento de produtividade e a efetiva inserção na sociedade como cidadão ativo e participativo” faria a diferença, por levar essa população a uma melhor perspectiva de vida para uma sociedade futura no qual a população idosa seria numericamente representativa. Isto é, para quem envelhece, uma intervenção voltada ao processo de fortalecimento de suas potencialidades proporcionaria além de uma perspectiva melhor de vida no decorrer de seu processo de envelhecimento, diminuiria seu grau de dependência em relação a população mais jovem, que segundo a organizadora do Projeto, cada vez mais em decorrência de sua atividade econômica, vinha diminuindo o seu tempo livre para lidar com essa população. Outra referência estaria na proposta de instrumentalizar adultos e idosos com conhecimentos referentes ao processo de envelhecimento através da troca de experiências, discussões, convívio com indivíduos de mesma faixa etária para tornar essa fase de transição menos agressiva e traumática, diminuindo a sensação de solidão, abandono e inutilidade que acometia essa faixa etária na década de 1990. Assim sendo, parece que o direcionamento pedagógico do Projeto Fênix estaria pautado dentro de uma pedagogia crítica, pois pode-se observar tanto no 69 enunciado de sua proposta quanto nos objetivos descritos, o desejo de discutir e trocar conhecimentos e experiências sobre o processo de envelhecimento com base na realidade vivida por essas pessoas na década de 1990. Entretanto, como o enunciado dessa proposta não apresenta uma descrição direta de tal proposição e sim, indicações condizentes com uma pedagogia crítica, esse direcionamento pedagógico, só poderá ser confirmado através da análise de discurso da entrevista realizada com suas coordenadoras. Seguido essa seqüência procurei referências quanto a utilização do termo autonomia, encontrando três referências, a primeira vêm descrevendo a realidade social brasileira e a falta das condições favoráveis de vida que acabam por influenciar o futuro de quem irá envelhecer, no qual um indivíduo poderá se “manter sadio e autônomo, dependendo do acesso que este tenha, ou não, ao sistema de saúde e à condições mais satisfatórias de vida” como o acesso à educação e cultura. Desse modo, a autonomia estaria relacionada ao poder que um indivíduo tem em gerir a sua vida. A segunda referência “proporcionar atividades e conhecimentos que possibilitem viver essa fase da vida com maior qualidade, maior autonomia e satisfação”, da forma com que é colocada, poderia indicar tanto a dependência motora quanto o fortalecimento da autonomia, porém o complemento desse objetivo que visa “produzir o sentimento de produtividade e efetiva inserção na sociedade”, volta a utilização desse termo ao fortalecimento da autonomia dos indivíduos. Em relação a terceira referência, que aparece na indicação de “atividades físicas, sociais e culturais que busquem preencher as carências (demandas) dessa população, visando preservar por maior espaço de tempo a autonomia, saúde, integração social, produtividade e participação política e social” - o termo autonomia nesse contexto, também faz menção ao fortalecimento das potencialidades individuais porque, durante descrição do Projeto Fênix, sua organizadora deixa claro a diferença da dependência motora e do exercício da autonomia de um indivíduo. 70 Já em relação a adenda introduzida no documento original de implantação do Projeto Fênix no ano de 2003, não encontrei referências sobre o termo autonomia e o mesmo se repetiu na análise dos planos de aula (relatórios semanais) e nos três trabalhos produzidos sobre o Projeto. Em suma, a fundamentação teórica que dava suporte ao Projeto Fênix em relação a visão de velhice e as perspectivas de saúde, autonomia e Promoção da Saúde, necessárias para compreender como tais perspectivas apresentavam-se no direcionamento prático de suas atividades encontra-se dividido entre as duas gestões ocorridas ao longo do Projeto de 1998 a 2004. Apesar de ambas as gestões utilizar a mesma base teórica, observei que entre os anos de 2003 e 2004, essa base teórica, passou a divergir em relação a adenda que descreve novas metas e acrescenta novos objetivos. Isto é, as ações que estariam coerentes com a perspectiva da Promoção da Saúde no período anterior são substituídas por uma perspectiva mais preventiva. Apesar da amplitude das discussões realizadas no grupo de estudo e do direcionamento das atividades educacionais e culturais que visavam contribuir para um maior entendimento sobre o processo de envelhecimento, essa divergência pode ser observada na descrição dos planos de aula, em que a atividade física e seus benefícios fisiológicos passam a primar na descrição de suas atividades. Um exemplo claro dessa predominância, ocorre no segundo semestre do ano de 2004. Tendo por base as discussões realizadas com os alunos na reunião semestral de avaliação das atividades, identificou-se a falta de motivação do grupo para as atividades até então realizadas. Em virtude disso, surgiu o entendimento de que o Projeto Fênix deveria passar por uma reestruturação tanto de seu conteúdo prático quanto teórico. E, para tanto, as atividades foram divididas em três modalidades distintas (esporte coletivo com bola, atividades recreativas e expressão corporal) como intuito proporcionar novas experiência e motivar os alunos através de atividades pouco desenvolvidas – essa foi uma medida paliativa para atender de imediato o desejo dos alunos, pois para reestruturarmos o Projeto como um todo 71 demandaria tempo e amplas discussões, que não foram concluídas devido ao encerramento do Projeto Fênix na Faculdade. Enquanto sua primeira gestão visava instrumentalizar os idosos através de discussões e troca de experiências para o fortalecimento de sua autonomia que nos dá a possibilidade de que um pedagogia crítica tenha sido utilizada para tanto, a segunda gestão possuía a mesma intenção, mas valendo de minhas observações como docente e após analisar todas as descrições das atividades desenvolvidas, e os planejamentos semestrais, observava-se muito mais a oferta de informações diversificadas sobre o processo de envelhecimento, do que ações que visassem o fortalecimento da autonomia desses idosos. Contudo, em alguns momentos, essa característica se invertia como nas reuniões semestrais realizadas para discutir o planejamento até então realizado, que geravam um grande debate sobre a prática de atividade física, sobre os problemas sociais e, com efeito, o grupo se organizava partilhando suas informações e experiências na busca de soluções aos problemas expostos. Outro momento de destaque em relação ao fortalecimento das potencialidades individuais era proporcionado por uma das monitoras que trabalhava no intuito de instrumentalizar a sua turma para a prática consciente de atividade física. Os demais monitores, como eu, ofertávamos informações sobre o conteúdo das atividades, mas essa monitora, além das informações, trabalhava um conteúdo teórico e prático diferenciado, construindo conceitos e não apenas transmitindo-os. Como o Projeto Fênix no ano de 2003, estava iniciando o seu grupo de estudos sobre o envelhecimento, posso afirmar que tal posicionamento veio em decorrência de discussões anteriores realizadas no grupo de estudos sobre envelhecimento da Universidade de São Paulo – USP no qual essa monitora participava a um ano. Essas observações só foram possíveis porque no ano de 2004 eu estava engajada em outro grupo de estudos que me fez refletir sobre outras vertentes de trabalho em relação a população idosa e, nesse sentido, conceitos como saúde, autonomia e Promoção da Saúde foram ampliados e me deram subsídios para, 72 elaborar posteriormente esse estudo e tentar responder porque tais conceitos deixam de ser ampliados ou divergem dentro do enunciado de uma proposta de atividade física. E, com intuito de complementar as informações colhidas nessa análise documental passaremos a discorrer sobre a análise de discurso dos atores que deram vida ao Projeto Fênix. 4.3 Coordenadoras do Projeto Fênix: análise dos discurso 4.3.1 Caracterização dos sujeitos Sujeito A (SA) Mulher, profissional de Educação Física, formada em 1974, com mestrado em Educação, organizou em 1997 o documento que daria início, no ano subseqüente as atividades do Projeto Fênix – Terceira Idade com Qualidade. Atuou à frente desse Projeto como coordenadora, entre os anos de 1998 a 2002. Sujeito B (SB) Mulher, profissional de Educação Física, formada em 1995, com mestrado em Educação, participou como observadora das atividades realizadas no Projeto Fênix, no segundo semestre de 2002 (período de transição de gestão), atuou à frente desse Projeto como coordenadora, entre os anos de 2003 à 2004. 4.3.2 Caracterização dos temas A abordagem dos temas, será realizada a partir de seis enfoques: (1) Origem do Projeto Fênix – discorre sobre a idéia inicial e aprovação das atividades; (2) Interesse em trabalhar com a população idosa – visão de envelhecimento: que trará a idéia de como uma concepção de velhice era trabalhada dentro do Projeto Fênix; (3) Perspectiva de saúde – aborda a percepção individual do que seria saúde para as entrevistadas; (4) Ações que 73 compõem uma perspectiva de trabalho pautado no âmbito da Promoção da Saúde – discute a coerência e/ou a falta desta no direcionamento das atividades sobre as ações que compõem o âmbito da Promoção da Saúde, bem como identificar o conceito de autonomia a partir da percepção das entrevistadas e (5) Ensino - quais eram as prioridades em relação a orientação pedagógica de monitores, estagiários e voluntários sobre o processo de envelhecimento e no direcionamento prático das atividades. Origem do Projeto Fênix: Em relação a origem do Projeto Fênix, apenas SA discorreu sobre o processo de criação e aprovação do Projeto, que surgiu do desejo do coordenador do curso de Educação Física das Faculdades Integradas de Guarulhos, em desenvolver um trabalho voltado à terceira idade, que atendesse a comunidade local. SA coloca que a partir de uma conversa informal, ela se ofereceu para montar a matriz do Projeto elaborado em 1997 e deferida no ano posterior. Interesse em trabalhar com a população idosa: visão de envelhecimento Sobre esse tema, observei que o desejo da coordenadora, em participar da elaboração do Projeto, vinha de sua experiência pessoal no trato com seus familiares – pais idosos e uma avó com quase cem anos de idade. Dessa realidade cotidiana, o questionamento sobre a perspectiva de vida de seus pais e de sua avó eram freqüentes, e nesse contexto o que mais lhe chamava atenção era o isolamento proporcionado pelo avanço da idade: “....eu percebia que as pessoas se sentiam muito sozinhas e tinham apenas o vínculo familiar, que muitas vezes se acabavam”. (SA) A partir dessa percepção, SA passa a discutir outros fatores que justificam um olhar crítico sobre o processo de envelhecimento, como a construção social da velhice e a sua influência sobre a população mais jovem: 74 “...na verdade, o jovem não conhece a velhice, existe uma imagem do idoso sempre associada a uma visão frágil, incapaz, como uma pessoa que não progride e que não avança, essa é a concepção que o jovem tem do idoso, isso é culturalmente e socialmente colocado, e eu sempre via essa dificuldade de aceitação do idoso inclusive em nossas práticas [...] essa era uma colocação que eu discutia muito com os estagiários do Projeto - o que de fato acontece com o idoso nesse contexto social?”. (SA) No caso do sujeito B, o seu interesse em desenvolver um trabalho voltado ao processo de envelhecimento, veio do convite realizado pelo sujeito A. Até então, SB nunca havia desenvolvido um trabalhado direto com a população idosa. Com intuito de ampliar seus conhecimentos, SB se propôs a participar como observadora do Projeto, durante o período de seis meses, (fase de transição de gestão) antes de coordenar o Projeto Fênix. Segundo SB, a experiência como observadora a fez desmistificar gradualmente alguns conceitos sobre o processo de envelhecimento: “Antes, eu não tinha noção de como era o trabalhar com a população idosa, então para mim, o trabalho era uma coisa muito distante da população mais jovem. Achei que teria muita dificuldade”. (SB) “Mas, com a proposta do Fênix, eu comecei a ter uma nova visão, no sentido da grandeza que seria uma população idosa trabalhar com a atividade física, que embora tenham limitações, essas limitações são superadas a partir do momento que tais atividades comecem, ou seja, que o corpo comece a se exercitar”. (SB) Dessa forma, o sujeito B complementa que o trabalho desenvolvido, com a população idosa, a fez perceber o quanto seria importante pensar no envelhecimento futuro, isto é: “O que eu posso fazer para que eu me torne uma idosa com mais habilidade e com condições melhores de movimentação? O quanto essa preocupação seria importante para o futuro de quem ainda vai envelhecer?”. (SB) 75 Em relação ao sujeito A, a percepção das questões sociais incidentes sobre a população idosa, como a diminuição da perspectiva de vida, o isolamento social e as relações inter-pessoais quase que restritas à família, foram focos motivadores para o seu engajamento em uma proposta de atividade física voltada à população idosa. Pois o grande desafio para o sujeito A, seria a estratégia utilizada dentro do Projeto para estimular a manutenção dessas relações interpessoais, já que grande parte dos alunos viviam “escravizados” por suas famílias, tanto pelo lado financeiro, quanto o pelo lado emocional. De fato, estudos como de Carstensen (1995), mostram que a redução das interações sociais na velhice, são uma realidade que não provém apenas da passagem do tempo, mas provavelmente de uma complexa rede de interações representando as percepções passadas, presentes e futuras, bem como, as oportunidades disponíveis no ambiente que satisfaçam as necessidades humanas básicas, no qual o indivíduo deve contribuir para a manutenção de suas relações inter-pessoais. Já em relação ao sujeito B, o interesse em desenvolver um trabalho voltado ao processo de envelhecimento, foi decorrente da desmistificação do que era realmente trabalhar com a população idosa. Isto é, a quebra da visão de fragilidade e impotência atribuída à condição de velhice. Essa fase de desmistificação, que impulsionou SB para a realidade do trabalho a ser desenvolvido com os idosos, é apontada por SA como primordial em relação a oferta de atividade física, pois a visão que os jovens e a sociedade possuem dos idosos, é estereotipada, e essa concepção negativa deveria ser modificada. Na literatura, os estereótipos atrelados à condição da velhice, são correntes a essa população desde a história antiga, como podemos observar em um trecho da obra “República”, de Platão (428/7-348/7 a.C.) apud Zacharewizc (2003) sobre o tema velhice: “...a maior parte de nós lamenta-se com saudades dos prazeres da juventude, ou recordando os gozos do amor, da bebida, da comida e outros da mesma espécie [...] alguns lamentam-se ainda pelos insultos que um ancião sofre de seus parentes, e em cima disto entoam 76 uma litania de quantos males a velhice lhes causa (ZACHAREWIZC, 2003:82)”. Assim sendo, a visão de velhice construída ao longo dos séculos, pelo menos nas culturas ocidentais, acaba por limitar um posicionamento realmente positivo sobre essa fase da vida, encontrada na perspectiva da velhice bemsucedida, que diferentemente de outros modelos antigos e deficitários focalizados nos deficits inerentes ao processo de envelhecimento, não exclui a possibilidade de um envelhecimento positivo (CARSTENSEN,1995). Nesse contexto, SB também aponta que a velhice não estaria apenas relacionada ao status da saúde física, mas: “...estaria relacionada com a saúde mental, então a partir do momento que a atividade física me proporcione alegria e bem-estar, esse bem-estar, refletiria no lado físico”. (SB) Uma visão sobre o envelhecimento, dentro da composição do Projeto Fênix, estaria para o sujeito A, relacionado à realidade social, incidente sobre essa população estereotipada, mas passível de realizações. E para o sujeito B, estaria no adiamento da dependência motora. Porém, ambas as coordenadoras, apontam os estereótipos como uma problemática a ser vencida dentro da área de Educação Física, que para SB, foi desconstruido ao longo de sua gestão frente ao Projeto Fênix, e para SA, no decorrer de sua convivência com seus familiares. Essa percepção individual tanto de SA quanto de SB eram repassados aos monitores, estagiários e voluntários que atuavam diretamente com essa população. Perspectiva de saúde Para o sujeito A, a perspectiva de saúde estava atrelada à realidade social, incidente sobre a população idosa brasileira, como o isolamento social, a dependência familiar, cerceio da liberdade de ir e vir, estereótipos atrelados à condição de velhice e a perda dos papeis sociais e econômicos. Por esse motivo, um programa de atividade física deveria ter: 77 “...um lado de Saúde Pública, visando melhorar a qualidade de vida dos indivíduos como um todo, mas o que seria qualidade de vida dentro do contexto da Educação Física? Será que só o exercício físico seria responsável por essa qualidade?”. (SA) Para ela, o exercício físico era um componente importante, entretanto não teria todo esse poder, isso porque: “...se as pessoas não possuírem no mínimo, condições de resgatar a sua vida social [...] eu acho que as pessoas não sentiriam força nem para buscar a atividade física para melhorar a sua condição de saúde”. (SA) Segundo Minayo et al. (2000), o patamar mínimo e universal para se falar em qualidade de vida, diz respeito a satisfação das necessidades mais elementares do ser humano, como alimentação, água potável, educação, saúde, elementos matérias que gerem conforto, lazer, bem-estar, realização individual e coletiva. No entanto, em sociedades ocidentais o fator desemprego, exclusão social e a violência, de acordo com a autora, são reconhecidos como a negação da qualidade de vida de um indivíduo. Dessa forma, o sujeito A discorre que preocupar-se apenas com a oferta de exercícios para melhorar a condição física dos idosos não bastaria, seria necessário, para quando fosse o caso, “o resgate da auto-estima e do prazer de viver”. A intenção de SA, era fazer com que os idosos incorporassem uma nova perspectiva de vida, pautada em um envelhecimento positivo, independente de seu status de saúde. Ela costumava dizer aos idosos que: “...não importa quanto tempo eu vou viver, eu posso viver só um dia, mas eu posso viver muitos anos e, o que eu posso fazer com esses anos de vida que eu tenho pela frente?”. (SA) Agora, em relação ao discurso do sujeito B, não obtive um posicionamento claro sobre um conceito de saúde, apenas uma percepção a partir de sua atuação frente ao Projeto Fênix, desde seu estágio de observação, que a fez refletir sobre a condição real da velhice: 78 “...eu passei a valorizar mais o momento em que eu estava vivendo, enxergando aquilo que eu poderia fazer para que eu me torne uma idosa com mais habilidade e com condições melhores de movimentação. A saúde não é só física, ela estaria relacionada com a saúde mental, então a partir do momento que a atividade física me proporcione alegria e bem-estar, esse bem-estar, refletiria no lado físico”. (SB) Segundo SB, o trabalho desenvolvido, no projeto, teria por intuito fazer com que os idosos percebessem que a velhice não era uma limitação e sim, aquilo que a pessoa espera, pensa e percebe enquanto visão de mundo. Em suma, a percepção de saúde para o sujeito B, encontra-se dentro de uma perspectiva biológica-preventiva, na qual a condição motora e os aspectos psicológicos, contribuem para aumentar o bem-estar e o sentimento de felicidade desses indivíduos. Para o sujeito A, o conceito de saúde estaria relacionado à reunião de vários fatores como: a qualidade de vida antes e durante o processo de envelhecimento que envolvem dignidade; bem-estar; o acesso a educação; políticas públicas condizentes; entre outras. A atividade física nesse contexto, seria um componente integrante dessa qualidade que, não poderia ser ofertada apenas pela prática exclusiva de exercícios vislumbrado pelo status de saúde dos indivíduos. Do ponto de vista geral, esse conceito mais biológico adotado pelo sujeito B, estaria relacionado a visão de saúde, a partir da perspectiva de doença construída ao longo do desenvolvimento da Saúde Pública. E, vencer um paradigma com essa magnitude, não seria uma tarefa fácil, pois aceitar que a saúde pode se circunscrever a partir da doença e que a falta de trabalho, a exclusão social, o acesso a educação, entre outras, são determinantes para o status de saúde de um indivíduo, requereria, conforme Capra (1999) apud Moreira (2001), uma expansão não apenas de nossas percepções, mas também de nossos valores. 79 Ações que compõem a perspectiva de um trabalho pautado no âmbito da Promoção da Saúde As ações que compõem a Promoção da Saúde após divulgação da Carta de Ottawa, apresentam algumas características específicas como: um conceito de saúde vislumbrado a partir de um conjunto de valores; a necessidade de interação com vários segmentos da sociedade (governo, mídia, profissionais diversos, setores privados, entre outros); uma educação para a saúde pautada em uma pedagogia crítica e, a autonomia vislumbrada no poder que um indivíduo possui em agir com base em suas escolhas (OPAS, 2002a). Em relação a um conceito de saúde vislumbrado a partir de um conjunto de valores, o sujeito A, discorre sobre essa necessidade: “A responsabilidade social de instituições, seja ela de ensino ou empresas, como é o caso da Faculdade, engajada em programas de extensão comunitária, passa a cumprir o seu papel quando esse trabalho [...] realmente faz uma diferença na vida de uma comunidade, [...] se houvesse a sensibilidade do ponto de vista das instituições e dos órgãos públicos e, se a gente pudesse transferir essa responsabilidade social para a formação das pessoas, principalmente em relação ao envelhecimento, poderíamos proporcionar um maior envolvimento de outros profissionais não só na área de Educação Física”. (SA) Agora, em relação a utilização de uma pedagogia crítica, o direcionamento das atividades desenvolvidas no Projeto Fênix durante a gestão do sujeito A, indicam a utilização dessa perspectiva pedagógica, iniciada em um primeiro momento a partir da oferta de um ambiente em que os alunos se sentissem acolhidos: “...não adianta nada entrar com o processo de malhação, se as pessoas não estabelecerem vínculos. Se eu imagino que a atividade física trás benefícios - que já foram comprovados por pesquisas [...] para que os benefícios possam ocorrer eu preciso de regularidade na participação dos alunos que, não seja apenas pela pressão de perder a vaga”. (SA) 80 Inserido nesse contexto, os monitores e estagiários eram orientados para respeitar a realidade de seus alunos, com seus pontos fracos e fortes. Segundo SA, “esse foi o embrião do Projeto”, pois “abraçar, ouvir, conversar, respeitar e discutir” era fundamental. E a base das atividades desenvolvidas, eram construídas através do que ela entendia ser importante ensinar e também, sobre os relatos das experiências vivenciadas por seus alunos. Já sobre um conceito de saúde vislumbrado a partir de um conjunto de valores, o sujeito B, não discorre sobre essa perspectiva, apontando a saúde sob um ponto de vista mais biológico, no qual corpo e mente devem ser trabalhados para um mesmo propósito. Sobre a interação com os demais segmentos da sociedade, tanto públicas quanto privadas, ela também não discorre sobre essa vertente. Em relação a adoção de uma pedagogia crítica, não encontrei indicações suficientes para afirmar a adoção de tal perspectiva, mas encontrei o relato da importância na relação de tratamento entre professor e aluno, que deveria primar no acolhimento, no toque, na correção e orientação, para que os alunos tivessem prazer em retornar à próxima aula. Tanto para SA quanto SB existia uma preocupação em criar vínculos para a manutenção da adesão de seus alunos. Conforme Baltes e Silverberg, (1995) e Teixeira (2002a), um ambiente acolhedor e seguro facilitaria à população idosa a exploração do ambiente, o desenvolvimento da uma maior independência e a criação de laços afetivos entre outras atribuições. Embora, acolher e criar vínculos, não significa estar trabalhando dentro do contexto de uma pedagogia crítica, características como: a valorização das experiências individuais e do cotidiano do indivíduo; a interação entre profissional e educando no mesmo nível de igualdade e a construção de conhecimentos através do diálogo crítico, são essenciais nessa perspectiva (FREIRE, 1997 e PEREIRA, 2003). Por esse motivo, as ações narradas pelo sujeito A, assemelham- se a essa perspectiva pedagógica. Portanto, para a conclusão dessa perspectiva de trabalho pautada no âmbito da Promoção da Saúde, falta identificar como o conceito de autonomia era utilizada pelas coordenadoras. 81 Conforme Freire (1997); Pinheiro (2003) e Pereira (2003), o fortalecimento da autonomia de um indivíduo, ocorre a partir do desenvolvimento das habilidades individuais construídas através de uma pedagogia crítica, que não ocorre da memorização ou da imposição, mas do nível crítico de conhecimento obtido pelo processo de compreender, refletir e criticar. Tendo isso em vista, observei que a pauta das discussões realizadas pelo sujeito A, durante as atividades no Projeto, eram construídas primeiro com base no que ela percebia ser importante discutir dentro do cenário social e em segundo lugar, a partir do que os idosos relatavam de seu cotidiano, como por exemplo: “...meu filho não admite que eu erre, a minha filha e meu filho não admitem que eu não consiga mais fazer as coisas [...] meu filho briga comigo se eu não fico cuidando do meu neto [...] meus filhos que decidem se eu posso ou não namorar ”. (SA) Segundo SA, essa estratégia pedagógica, gerava questionamentos dentro do grupo sobre a competência individual de cada aluno orientando, para o ato de “experienciar” antes que se afirmassem incompetentes para uma ação. O retorno de que essas discussões surtiam o efeito desejado, vinham dos depoimentos dos idosos e de seus familiares. Para SA, o ato de experienciar, causava ciúmes principalmente das famílias, cujos idosos eram mais dependentes como podemos observar nesse trecho da entrevista: “...eles começaram a formar grupos de amigos [...] na verdade eles pouco tinham amigos fora do elo familiar e, quando eles começaram a estabelecer outros elos e a realizar outras atividades como ir ao cinema, freqüentar a casa do amigo, coisas que eles não faziam, o ciúmes aparecia. Algumas famílias, começaram a ter atitudes um pouco mais ativas no sentido de se oporem as imposições dos filhos e maridos, e os maridos diziam para nós, que éramos culpadas por conta dessa rebeldia”. (SA) O intuito de criar vínculos afetivos era utilizado como um meio para que os idosos pudessem se expressar sem medo de uma recriminação, mas muitos, segundo SA, não conseguiam fazê-lo e a estratégia era continuar estimulando-os. 82 Um fato que se tornou foco de discussão e que SA frisava constantemente, era a questão da dependência que eles criavam para a realização de várias coisas, como por exemplo: o desejo em constantemente passear, que conforme SA, tal constância era inviável dentro do Projeto, conseqüentemente, o posicionamento adotado e narrado pela orientadora era: “...Vocês não precisam só da gente para fazer as coisas [...] sobre os passeios e excursões, vocês já sabem como fazê-lo, se organizem. E foi o que eles fizeram [...] descobriram que eles não precisavam pagar a passagem de ônibus [...] descobriram que existe vários passeios culturais que não custam nada ou quase nada”. (SA) Fazê-los experienciar contribuiu para que os alunos se organizassem em outras atividades. Era visível o prazer que os alunos tinham em mostrar aos seus familiares sua produção e o grande responsável por essa maior autonomia, argumenta SA, foi o sentimento de produtividade desses alunos. Indubitavelmente, o desejo de SA era fazer com que os idosos acordassem para a vida, que se questionassem sobre o cerceio de sua liberdade imposta por seus familiares e que pelo menos pensassem a respeito do quão produtiva poderia ser a vida, independente de sua idade e de seu status de saúde. Já em relação ao sujeito B, a autonomia seria um componente fundamental para o andamento das atividades desenvolvidas no Projeto Fênix, que tinha por objetivo dentro desse contexto: “...fazer com que os idosos desenvolvessem sua autonomia a partir das atividades desenvolvidas no Projeto [...] a autonomia seria fundamental para que eles pudessem evoluir, pois não adianta que os idosos fiquem esperando que os outros façam alguma coisa por eles”. (SB) Tanto para os idosos quanto para os monitores, o sujeito B enfatizava a liberdade de expressão: “...eu dava essa liberdade e priorizava que tudo fosse discutido em grupo, eu queria que fosse uma troca de aprendizagem 83 valorizando a experiência de cada componente do grupo [...] essa liberdade, era importante para que ninguém ficasse chateado quando discutíamos algum problema, idéias, sugestões e até nas correções dos monitores no direcionamento das atividades”. (SB) O sujeito B relata que quanto mais “se abria espaço para a autonomia” mais retorno positivo ela obtinha dos idosos. Isto é, manifestações individuais e/ou coletivas dos alunos quanto ao direcionamento das atividades, das propostas de passeios, atividades culturais e até na modificação de exercícios. Quanto a utilização de uma pedagogia crítica, durante as atividades que proporcionassem o fortalecimento da autonomia desses alunos, o sujeito B não discorre sobre essa possibilidade pedagógica, porém comenta sobre a falta de “autonomia” de parte do grupo: “Todo grupo tem as pessoas que conseguem expor mais as suas idéias. Para alguns foi fácil, mas para outros, nem tanto. O que a gente poderia ter feito para estimular isso? Talvez se a gente tivesse um pouco mais de conhecimento para tal proposição”. (SB) Discutir autonomia ou o poder de se auto-governar não seria uma tarefa fácil, porque ao longo da construção desse conceito, noções diversificadas foram atribuídas ao termo como: justiça; liberdade e independência (FARINATTI, 2000). E essa atribuição pode ser observada no discurso de SB, que atribui a noção de liberdade ao conceito de saúde. Possuir liberdade, nesse sentido, não seria um indicativo para que um indivíduo realmente se auto-governe, pois a liberdade não seria apenas a ausência de obstáculos externos para fazermos o que queremos, ou seja, a liberdade dependeria de circunstâncias pessoais, sociais, e ambientais. (SCHENEEWIND, 2001). Ensino: trabalho desenvolvido com os monitores Em relação ao ensino, o direcionamento pedagógico desenvolvido no estágio de monitoria segundo o sujeito A, deveria abranger três vertentes: (1) 84 visão de envelhecimento (quebra de estereótipos); (2) interação professor-aluno (valorização das experiências individuais) e (3) incentivo ao ato de experenciar. Todo trabalho era iniciado pela revisão dos estereótipos atrelados à condição da velhice, pois os monitores e estagiários chegavam ao Projeto com uma percepção negativa sobre o processo de envelhecimento, baseado na comparação das capacidades motoras entre jovens e velhos, acrescenta SA. A estratégia utilizada para tanto era de situá-los na perspectiva real sobre o que seria a velhice e posteriormente discorrer sobre as atribuições da Educação Física em prol dessa população, cito como exemplo desse direcionamento pedagógico, o trecho a seguir: “...Quando se trabalha com crianças você sempre vê a evolução, eles melhoram, eles crescem, ficam mais fortes. O idoso você trabalha, trabalha e vê melhorias. Fazendo uma analogia, eu diria que o idoso é como se colocar água sobre a mão, e por mais que você feche seus dedos, a água vai escorrendo, isto é, eles vão perdendo. Existe uma perspectiva de avanço, mas as perdas são inevitáveis. Então, qual é o trabalho que nós profissionais de Educação física fazemos? Lutamos para que esse processo de perda seja mais lento, mas ele é inevitável”. (SA) O sujeito A, deixa claro que o processo de envelhecimento transita na perspectiva de avanço e de perdas, nesse sentido, o profissional de Educação Física deveria ultrapassar essa visão estereotipada de incapacidade, para que o direcionamento prático de suas atividades não visasse apenas a independência motora. Já em relação a interação professor-aluno, a orientação era para que os monitores e estagiários acolhessem os idosos com intuito de criar um ambiente agradável e acolhedor, para que os mesmos tivessem prazer em retornar na próxima aula. Isso garantiria a adesão dos idosos, contribuindo diretamente para: “...melhorias de suas condições físicas [...] nós fazíamos todo o trabalho de desenvolvimento das capacidades motoras e funcionais como: desenvolvimento da capacidade cardiovascular; musculação; coordenação; alongamentos; entre outras, mas a atividade 85 física não bastava, por isso nós oferecíamos palestras regulares [...] tentando dar aos idosos e monitores informações e conhecimentos sobre temas variados”. (SA) O sujeito A também ressalta que a obrigatoriedade de acolher os idosos, com toque e com palavras afáveis, tinha como intuito não apenas criar vínculos, mas reverter a aversão à pessoa idosa, pois em relato colhido por SA, alguns dos monitores e estagiários se sentiam desconfortáveis ao tocar, abraçar e criar vínculos com seus alunos, que aos poucos foi se modificando: “...a visão dos monitores [...] foi se modificando ao longo do tempo [..] o olhar para o idoso, como uma pessoa frágil, de vidro, que a gente não pode fazer nada, foi substituída, bem como o receio de tocálos”. O terceiro foco, visava orientar os monitores e estagiários para que estimulassem os idosos a experienciar, aproveitar e investir em coisas novas para que pudessem, quando fosse o caso, recuperar o seus sentimentos de produtividade, pois para SA em relatos colhidos nas anamneses, os idosos apresentavam baixa perspectiva de vida. E, por esse motivo, a estratégia utilizada era de questioná-los para que ao menos pensassem a respeito de: “Você já parou para pensar o que representa vinte anos na vida de qualquer pessoa? O que você pode fazer com vinte anos a mais?” Já em relação as reuniões pedagógicas, essas eram realizadas antes e/ ou após ao final das atividades. As pautas das discussões, giravam em torno do que acontecia durante as atividade e sobre temas pertinentes ao processo de envelhecimento. Quanto ao grupo de estudos, o sujeito A comenta que as reuniões eram regulares, mas devido a indisponibilidade de tempo dos monitores e estagiários, para além das seis horas semanais de atividades já realizadas, o grupo de estudos ficou estagnado: “... eu acho que o grupo de estudo tornou-se mais efetivo quando o sujeito B assumiu [...] nós, na minha gestão discutíamos as 86 atividades, as reações dos grupo, novas propostas, nós fazíamos leituras para subsidiar o trabalho, mas como a gente queria estruturar primeiro o Projeto, demoramos um pouco para dar o ritmo ao grupo de estudos”. (SA) Agora, em relação a gestão do sujeito B, sobre a perspectiva de ensino e formação profissional, ela primava que seus monitores, estagiários e voluntários investissem na interação professor-aluno, pois segundo suas observações, parte dos idosos apresentavam uma carência afetiva e, nesse sentido, seria primordial: “...ter um tratamento mais próximo e mais carinhoso com os idosos, para que eles se sentissem acolhidos e ficassem bem com eles mesmos [...] o retorno desse acolhimento era muito positivo, mantínhamos a adesão e proporcionávamos um sentimento de bemestar”. (SB) Dessa maneira, o sujeito B discorre que o fundamental não era apenas transmitir as atividades, contudo a forma como elas eram trabalhadas seria fundamental, afinal deveriam levar em consideração o “lado pessoal dos indivíduos”. Seria importante acrescer a esse acolhimento outros complementos que: “...dessem aos idosos um retorno do trabalho desenvolvido, como: porque desse exercício; a importância de certos procedimentos; o porque de avaliação física e nutricional [...] o partilhar dessas informações contribuía [...] para que eles se sentissem queridos e tranqüilos em relação ao trabalho desenvolvido ”. (SB) Outro fator que era indispensável para o sujeito B, era a participação no grupo de estudos e nas reuniões pedagógicas. Seria fundamental que o Projeto tivesse uma aprofundamento teórico para basear o seu trabalho, pois conforme SB: “...de nada adiantaria reproduzir o que cada um achava interessante ensinar sem ter uma fundamentação teórica, pois nossa proposta de trabalho seria superficial”. 87 A idéia era buscar no grupo de estudos, procedimentos e metodologias diferenciadas, que se revertessem em benefícios à população idosa assistida. Já o objetivo das reuniões pedagógicas, segundo o sujeito B, além de discutir o cotidiano das aulas e organizar o direcionamento teórico e prático das atividades, visava atribuir responsabilidade aos monitores no planejamento semanal de suas atividades no desenvolvimento e na busca de novas estratégias. O sujeito B acrescenta que o planejamento das atividades em geral eram bem democráticas, afinal levava em consideração todas as observações realizadas pelos alunos nas reuniões semestrais de avaliação e por conta dessa relevância, SB percebeu que existia a necessidade de reestruturar o Projeto Fênix, mas a reestruturação que seria realizada no ano de 2005, não foi concretizada devido o encerramento do Projeto e a implantação da Faculdade da Idade da Razão na Faculdades Integrada de Guarulhos. 4.4 Discussão Geral Com base na análise e interpretação proposta nesse estudo observei que o Projeto Fênix durante a sua existência, independentemente de quem o geriu, foi um programa de referência para a comunidade dos bairros próximos a Faculdade Integrada de Guarulhos. Cada coordenadora, dentro de suas possibilidades, com empenho e criatividade, ofereceram em conjunto aos monitores, estagiários e voluntários, atividades que visaram além da manutenção e/ou melhoria da capacidade funcional e motora, a ampliação de conhecimentos sobre o processo de envelhecimento, atividades de lazer e cultura, bem como o estímulo das potencialidades individuais de seus alunos e, para tanto, utilizaram estratégias semelhantes para a adesão de suas turmas, porém distintas no direcionamento prático de suas atividades. A partir dessa aparente semelhança entre os objetivos descritos em seu documento de implantação e as ações que de fato foram empreendidas durante as duas gestões existentes no Projeto Fênix, que observei a presença de divergências quanto a percepção de velhice, conceito de saúde, autonomia e 88 Promoção da Saúde na segunda gestão do Projeto, pois até então, sua estrutura de trabalho apresentava-se coerente com a perspectiva da Promoção da Saúde pós Carta de Ottawa. Foi com base na observação de que a fundamentação teórica utilizada pelas duas gestões do Projeto foi a mesma que passei a me questionar sobre o quanto um posicionamento individual, poderia vir a influenciar o direcionamento de atividades propostas à população idosa, como foi o caso do Projeto Fênix. Pois, o grande problema desses posicionamentos estaria relacionado aos valores e conceitos construídos ao longo do desenvolvimento de cada indivíduo, que só podem ser modificados através da quebra desses valores e quebrá-los, nesse sentido, não seria uma tarefa fácil. Porquanto valores e conceitos são tecidos através da interação de vários fatores, que devem ser revistos em sua totalidade antes que sejam ampliados ou modificados CAPRA (1999) apud MOREIRA, (2001). No caso de uma intervenção voltada à população idosa, o primeiro valor a ser revisto seriam os estereótipos de incapacidade e dependência atrelados à condição de velhice, construídos pela sociedade que, além de ditar regras e comportamentos individuais e coletivos como o tempo para se casar; entrar na faculdade; envelhecer e até se aposentar, espera a todo momento que a população idosa se comporte como dependente, mesmo que não haja necessidade para tal (BALTES e SILVERBERG, 1995), Nesse sentido, o caminho para a quebra desses estereótipos no contexto teórico do Projeto Fênix, estaria relacionado a quatro fatores: (1) reconhecimento do público a ser assistido e quais eram suas necessidades e desejos; (2) ampliação do enfoque biológico da Educação Física; (3) reconhecimento de que os aspectos sociais, políticos e econômicos estariam diretamente relacionados ao status de saúde dos indivíduos, (4) que os profissionais fossem capacitados para trabalhar dentro de uma perspectiva de avanço, mas cientes que as perdas seriam inevitáveis. Dentro desse contexto, percebi que existe uma grande distância em acreditar que o processo de envelhecimento é passível de desenvolvimento e, 89 atuar com base nessa perspectiva, pois essa distância pôde ser observada no Projeto Fênix entre os anos de 2003 e 2004. Isto é, o grupo de profissionais possuíam uma visão positiva sobre o processo de envelhecimento, porém o direcionamento prático de suas atividades focava-se nas questões biológicas e na independência motora, por quê? Talvez a resposta para tal indagação estivesse relacionada a falta de aprofundamento das discussões em torno do processo de envelhecimento, ou no posicionamento individual adotado de cada profissional sobre o que seria importante a ele ensinar, ou ainda na característica mais biológica da área de Educação Física. Seguindo essa linha de raciocínio, procurei referências sobre o porquê desse enfoque biológico dentro da Educação Física em relação à população idosa e observei que a raiz dessa vertente, remonta ao período do BrasilRepública, que adotou as práticas sanitaristas da Medicina Social da época e características como o abandono da subjetividade e o enfoque na doença instalada, passaram a primar na Educação Física. Tal característica, por sua vez, pode ser observada na produção literária da área, nos trabalhos científicos produzidos e até nas propostas de atividade física que em relação à população idosa, apenas em meados da década de 1990 passa ampliar esse enfoque mais biológico. (CASTELLANI FILHO, 1988b; FARIA JÚNIOR et al., 2005a,b,c; MARINHO, 1943; SANTOS e WESTPHAL, 1999). É importante ressaltar que dentro desse contexto, a área de Educação Física não se circunscreve apenas na razão dos benefícios oriundos de estímulos biológicos, mas representa um fenômeno complexo de dimensões múltiplas, biológicas, sociais, psicológicas e culturais, nos quais o componente Educação se faz presente (Mira, 2003), Entretanto, apesar dessa abrangência, a sociedade e a mídia acabam por estereotipar a área, simplificando-a na razão de causa e efeito, ou seja, a Educação Física seria muito mais vislumbrada como provedora de saúde através da atividade física, do que como uma área de produção de conhecimento e 90 formação profissional (BAGRICHEVISKY E PALMA, 2005; LEFÈVRE, 1999; MIRA, 2003; MOREIRA, 2001; WAISSMANN, 2003). Dentro desse argumento, qual seria o objeto de estudo da Educação Física? Seria prover saúde através do exercício? Quantos profissionais influenciados por esse estereótipo acreditam que são provedores de saúde e relevam que a área não se circunscreve apenas na vertente biológica? Por esse motivo discutir, ampliar e rever conceitos individuais e universais como o conceito de saúde e autonomia, deveriam constar na construção de uma intervenção voltada à população idosa, para que a perspectiva de um trabalho pautado no envelhecimento bem-sucedido não se encerre no enfoque biológico como se o status de saúde e a independência motora fossem os únicos a circunscrever a vida de quem envelhece. Para a ampliação dessa discussão, busquei além do Projeto Fênix, referências sobre programas de atividade física de universidades brasileiras, tanto da década de 1990, período de implantação do referido Projeto, quanto da atualidade, com intuito de verificar a ocorrência de tais divergências. E notei que, nos programas baseados na perspectiva de um envelhecimento bem-sucedido, a dificuldade de diferenciação das ações que compõem uma atenção preventiva das que constituem o âmbito da Promoção da Saúde, bem como o termo autonomia vinculado a independência motora. Não posso afirmar que o conceito de saúde e autonomia não foram discutidos e ampliados dentro desses programas e nem que não eram de conhecimento de seus profissionais, mas posso afirmar que, dos vinte e um programas de atividade física utilizados para compor essa discussão, apenas dois programas discorrem sobre essa delimitação e quatro incluindo o Fênix, deixam implícito tais perspectivas. Segundo Czeresnia (2003), a dificuldade em se diferenciar a prevenção de promoção da saúde, não deveria existir, pois a diferença entre ambas são radicais e implicam em formas diferenciadas de operar as práticas em saúde. Mas, apesar dessa radicalidade, essas duas vertentes seriam próximas por 91 possuírem como base de suas ações, os mesmos conhecimentos e conceitos clássicos em saúde. Em síntese, conhecer a percepção sobre um conceito de saúde, dos profissionais que atuam diretamente com essa população, seria um ponto de partida para que tais divergências não ocorressem dentro de uma proposta de atividade física. Por esse motivo, entre os anos de 2003 e 2004 o direcionamento prático das atividades desenvolvidas no Projeto Fênix deixou de atuar dentro da perspectiva da Promoção da Saúde, não apenas pelo fato de divergir quanto a perspectiva de saúde, mas por atrelar o conceito de autonomia a noção de liberdade e independência motora. É importante frisar que não basta ter liberdade para que um indivíduo exerça o seu poder de auto-gestão, isso porque os alunos do Projeto Fênix tinham liberdade para manifestar seus desejos e expressar suas opiniões, mas aqueles que não articulavam bem, palavras e pensamentos, segundo depoimento de uma das coordenadoras, não o faziam, por quê?. Porque não basta ter liberdade se um individuo não pode controlar os eventos que a possibilitam – dessa forma, a falta do poder de decidir, escolher e discernir, seriam fundamentais para o exercício da autonomia desses indivíduos, que deveriam ser estimulados para tal proposição através de uma pedagogia crítica. Contudo, como garantir que um trabalho venha a se circunscrever dentro de um ambiente crítico se no Brasil assim como em toda América Latina, essa oportunidade culturalmente é pouco desenvolvida? (GALENO, 1987; LITVAK, 1990 apud CHAIMOWICZ, 1997). Sobre essa vertente pedagógica, observei que apenas dois programas no enunciado de suas propostas discorrem sobre a importância de uma pedagógica crítica, pois os demais programas assim como o Fênix deixam implícito a utilização dessa estratégia ou não fazem menção a ela. A grande questão das divergências apontadas nesse estudo seria o porquê de sua ocorrência nos dias atuais, já que os eventos históricos apontam que, desde meados da década de 1990, as demandas necessárias à manutenção 92 dessa população passam a ser valorizadas e discutidas em nossa sociedade; a Educação Física brasileira amplia seu enfoque biológico no processo de envelhecimento para as questões pedagógicas e da Promoção da Saúde; no Brasil a Política Nacional do Idoso passa a incentivar a pesquisa, ensino e a inclusão Gerontologia nas grades curriculares dos cursos de Educação Física, entre outras (BRASIL, 1994; FARIA JÚNIOR et al., 2005a,b; ONU, 2000). 93 5. Considerações Finais Com esse estudo pude concluir que a elaboração de um programa de atividade física voltado à população idosa, apresenta como característica os valores e os conceitos individuais de quem o organiza e de quem o executa. Isto é, o conteúdo das atividades desenvolvidas, poderia ser influenciado tanto pela percepção de velhice que os profissionais possuem quanto pela fundamentação teórica que estabelece suas diretrizes. Já sobre o processo de envelhecimento estereotipado e as divergências quanto ao conceito de saúde, autonomia e Promoção da Saúde, observei tanto na análise Projeto Fênix quanto nos demais programas de atividade física utilizados para compor esse estudo, que tais divergências, poderiam estar relacionadas com falta de ampliação desses conceitos e/ou pela forma com que estes, foram culturalmente construídos em nossa sociedade. Dentro desse contexto, não poderíamos exigir que tais conceitos sejam ampliados por todos indivíduos em sua essência, pois essa ampliação, requereria a revisão de valores construídos por esses indivíduos ao longo de suas vidas e, para tanto, o poder de discernir seria um item crucial para que essa ampliação ocorresse. Isto é, vencer uma “consciência mágica” não seria para todos. Mas, no âmbito científico essa parcimônia deveria ser aceita? Talvez, se partirmos do princípio que nem no âmbito científico, exista a garantia de que a produção de conhecimentos não esteja baseada nas representações coletivas do mundo social dos próprios pesquisadores. Mas, acredito que essa brecha de aceitação, não deveria ocorrer nas áreas que estão diretamente envolvidas com o processo de envelhecimento como é o Caso da Educação Física. Com esse estudo, também pude observar que existe um consenso dentro da Educação Física sobre a ampliação do conceito de saúde e das ações que compõem o ideário da Promoção da Saúde, pois foi possível encontrar essa indicação implícita ou explícita nos programas utilizados para compor esses estudo, porém parece-me que tais conceitos em alguns programas, apesar de sua indicação, não foram incorporados em sua essência. 94 Em suma, apesar de toda ampliação que área de Educação Física teve na década de 1990 sobre as outras vertentes que concerne o processo de envelhecimento, ainda hoje, pode-se observar a predominância do enfoque biológico tanto no direcionamento prático área quanto na produção e divulgação de conhecimentos. E, foi dentro deste contexto que notei a freqüência de utilização do termo autonomia atrelado à condição de independência motora. Portanto, para que divergências quanto a percepção de velhice, conceitos de saúde, autonomia e Promoção da Saúde não ocorram dentro de uma proposta de atividade física voltado à população idosa, seria necessário que a área de Educação física, ampliasse as discussões em torno dessas perspectivas para que dessa forma, possamos melhorar e/ou aumentar a qualidade das propostas de atividade física, proporcionando um incremento na qualidade do processo de envelhecimento da população. 95 6. Referências Bibliográficas ALVES JUNIOR, E. D. Procurando superar a modelização de um modo de envelhecer. Revista Movimento, Porto Alegre, v.10, n.2, p. 54-71, 2004. AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE (ACSM). Diretrizes do ACSM para os testes de esforço e sua prescrição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. AVERBURG, A. Abertura e Integração Comercial Brasileira na Década de 90. In: Giambiagi, F. Moreira, M.M. (orgs.). 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Assinando este Termo de Consentimento, estarei ciente de que: 1 – O objetivo deste estudo será averiguar, a partir da perspectiva teórica da Promoção da Saúde, as divergências e convergências conceituais de saúde autonomia e Promoção da Saúde no direcionamento das práticas de atividades físicas desenvolvidas pelo Projeto Fênix – Terceira Idade com Qualidade entre os anos de 2003 e 2004. 2 – Durante o estudo será aplicado entrevistas individuais semi-estruturadas com as organizadoras do Projeto Fênix. 3 – Obtive todas informações necessárias para assim, poder decidir conscientemente sobre a minha participação na referida pesquisa, bem como da possibilidade reduzida de riscos em minha participação. 105 4 – Estou livre para interromper a qualquer momento minha participação na pesquisa. 5 – Meus dados pessoais serão mantidos em sigilo, as entrevistas gravadas em fita serão apagadas depois da transcrição. Os resultados gerais obtidos através da pesquisa serão utilizados apenas para alcançar os objetivos da pesquisa expostos acima, incluindo sua publicação na literatura científica especializada. 6 – Poderei contatar o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu para apresentar recursos ou reclamações em relação à pesquisa através do telefone (11) 6099-1665. 7 – Poderei entrar em contato com o responsável pelo estudo, Profª. Drª. Maria Luiza de Jesus Miranda, sempre que julgar necessário pelo telefone (11) ________. 8 – Este Termo de Consentimento possui duas vias, permanecendo uma via em meu poder e outra com o pesquisador responsável. São Paulo, ____ de ________________ de ____________ _______________________________________________ Nome do voluntário _______________________________________________ Assinatura do voluntário ________________________________________________ Nome e assinatura do pesquisador responsável pelo estudo 106 Anexo - II Guarulhos, 06 de maio de 2005 Prezados Senhores, Gostaria de solicitar a Direção Geral das Faculdades Integradas de Guarulhos, autorização para utilizar o Projeto Fênix como referência para elaboração de minha dissertação de mestrado que está sendo realizada na Universidade São Judas Tadeu, sendo orientada pela Drª Maria Luiza de Jesus Miranda. Atenciosamente, Ana Lúcia Lago Nakamura Universidade São Judas Tadeu prontuário: 200480642 107