Lembrando Waldemar Lopes Anderson Braga Horta Conheci Waldemar Lopes no ano de O livro com esse belo título de sabor 1973, em seu apartamento na Asa Sul, em proustiano demoraria ainda cerca de seis anos reunião projetada por Domingos Carvalho da para sair: impresso em dezembro de 1970, Silva para a criação do Clube de Poesia de foi lançado no ano seguinte. Recebeu imedi- Brasília. Havia apenas três anos que publica- ata consagração, como a do Prêmio do PEN- ra seu segundo livro, Sonetos do Tempo Per- Clube do Brasil. Todas as peças que o inte- dido (o primeiro fôra Legenda – Recife, 1929), gram são antológicas. A segunda concentra, com isso candidatando-se à contumácia, em na sua fôrma clássica –o que, de resto, é termos editoriais, visto que até então o úni- característico da poesia waldemariana–, uma co livro de circulação nacional em que apa- sintaxe poética original, em que palpita, con- recia era a Antologia de Poetas Brasileiros densado mas vívido, um mágico sentimento Bissextos Contemporâneos, de Manuel Ban- da beleza das coisas; sentimento que é, deira (Rio de Janeiro, 2.ª ed., 1965). Mas transposto em forma verbal, um modo supe- bastaria o que o poeta de Estrela da Vida rior dessa beleza mesma, se me permitem Inteira colocara nessa antologia para gran- esta livre aplicação, aqui, do camonianopla- jear-lhe o merecido renome de grande sone- tônico “transforma-se o amador na coisa tista. amada”: SONETO DAS NUVENS E DA BRISA Os pássaros nostálgicos... Errantes mágicos do crepúsculo, soprando das longas asas trêmulas o brando vento da tarde; e logo, em céus cambiantes, alvos blocos de pluma vão distantes e efêmeras imagens modelando: sereias e hipocampos, entre o bando de carneiros, e rosas, e elefantes, cães e estrelas, dragões, ou aguçadas torres, na superfície roseoviva por onde voga, acesa, a caravela Jornal de Poesia. Editor Soares Feitosa - [email protected] www.jornaldepoesia.jor.br 1 e as longas asas captam, retesadas, a poesia da tarde, fugitiva, mas eterna no instante em que foi bela. A relativa bissextitude do poeta se dis- lada Sonetos, que preparei, em 2006, para a solveria na preamar de livros e opúsculos que coleção O Livro na Rua, da Thesaurus (n.º viria a seguir: Inventário do Tempo e Os Pás- 27 da série Escritores Brasileiros Contempo- saros da Noite (ambos de 1974); de 1976 a râneos). 1979, um por ano, Sonetos da Despedida, Os Pássaros da Noite, que se apresen- Sonetos do Natal, Elegia para Joaquim Car- ta com o selo do Clube de Poesia de Brasília, dozo e O Jogo Inocente; o citado Memória levantou o Prêmio da Fundação Cultural do do Tempo, de 1981, mais os Sonetos de Por- Distrito Federal. Vinte composições enfeixa, tugal (1984, 2.ª ed. em 1994 e 3.ª em 1995), todas de extraordinária beleza, escrínio de As Dádivas do Crepúsculo e A Flor Medieval que se destaca esta jóia de acabamento e (1996), Sombras da Tarde (1999) e Cinza brilho incomparável, que de imediato con- de Estrelas (2003). Não posso deixar de men- quista o amador de poemas para o círculo cionar a miniantologia, singelamente intitu- de seus admiradores, este maravilhoso: SONETO DOS SÍMBOLOS EFÊMEROS Os símbolos efêmeros: memento da vida breve: música secreta – do tempo, a se esvair na asa do vento, – do sonho, a esmaecer a chama inquieta. Cresça no céu de pedra o véu nevoento; junto à nuvens se perca a doida seta rumo ao não e ao talvez: o sentimento atrela-se a uma estrela, e essa incompleta visão apaziguante é misteriosa luz transcendência: rútila persiste, seiva do ser, essência poderosa, pois se foi dito o quanto a carne é triste, arde em perfume o espírito da rosa e é mais belo o que só no sonho existe. Sobre os Sonetos de Portugal, repito o sua linguagem é demasiado espontânea, sem que disse a propósito na ocasião do lança- maiores preocupações de ordem técnica”. mento – que nesses versos não pretendeu o Naturalmente, não são de aceitar essas e poeta mais altos vôos. Diz ele mesmo, em outras restrições que faz ao novo livro o pró- nota prévia, que, “do ponto de vista formal, prio autor. A circunstancialidade que presidiu Jornal de Poesia. Editor Soares Feitosa - [email protected] www.jornaldepoesia.jor.br 2 à elaboração dos seus trinta e oito sonetos, ção das expressões interparentéticas (perí- “registros de uma romaria sentimental à al- odos, versos inteiros, às vezes corporifican- tura dos setenta anos”, é amplamente trans- do a maior parte do soneto). E Gilberto Men- cendida pela pureza do sentimento e da lin- donça Teles, apresentando Memória do Tem- guagem, pela técnica que se resolve em sim- po, esmiúça, com a competência habitual, plicidade, pela autenticidade, enfim. Retra- iluminada por uma sensibilidade de poeta, ele tam eles paisagens de Portugal (e não se também, de notórios méritos, aspectos, téc- apaga de nossos olhos a imagem do “Minho, nicas, alumbramentos de um mago capaz de cão azul deitado”, nem se esquecem essas mergulhar o leitor no “encantamento de uma “asas de um moinho ao pé da encosta, / as sonata verbalmente construída em forma de doiradas pirâmides de feno, / os mansos bois soneto”. com flores nas cabeças”); cantam a gloriosa A poesia de Waldemar Lopes impõe-se epopéia nascida da “essência de ideal na alma e encanta pela rigorosa linguagem, não in- do Infante”, o “homem que fez maior o so- fensa contudo à invenção vocabular –”car- nho do Homem”; homenageiam os autores ne de lua / transluminosamente azuluzindo”– queridos –”Eça, Nobre, Camões, Régio, Pes- e perpassada de um frêmito constante – ”aura soa, / e o doce Antero, que era poeta e da aurora”– que vem do abismo-infância e santo”, e Cesário Verde, e Guerra Junqueiro, se projeta no “imprevisto itinerário” do abis- e Camilo, e Ferreira de Castro–; exaltam a mo-amanhã. São seus temas (colhidos à vol língua portuguesa, a “fala heróica de Camões”; d’oiseau sobre as superiores realizações de e, além e acima, sublinham o mais profundo, Sonetos do Tempo Perdido e Os Pássaros da o mais belo destino da gente portuguesa, Noite, que o situam entre os grandes sone- que: tistas da língua): o tempo, onipresente (“tudo é doar a semente do humanismo é memória: o só vivido / ou o apenas sonha- aos desafios do devir do mundo. do”), “a flor da infância”, a “noite metafísica” projetando “uma sombra na sombra de Muitos escritores de alta linhagem ma- outra sombra”, a vida, “o rude esforço sem nifestaram-se acerca dessa poesia. Lembre- sentido” (“viver não acrescenta: diminui”), o mos dois deles. Aurélio Buarque de Holanda, amor, cujo “êxtase pungente .... antes nos seu companheiro entre os bissextos de Ban- lembra a morte do que a vida”, mas sobretu- deira, prefaciando os Sonetos do Tempo Per- do o efêmero-eterno da beleza –”a poesia dido, tece penetrantes considerações em da tarde, fugitiva, / mas eterna no instante torno desse “disfarçado romântico”, em cuja em que foi bela”– e o sonho, “as coisas mais obra diz que “podemos ver, sem esforço, uma sonhadas que vividas”. técnica, uma estrutura pouco distante das Clássica na forma, com sugestões mais puras fontes simbolísticas”; comenta simbolistas e uma força de pensamento que elegantemente “l’enfance retrouvée”, da epí- a aproxima de um Antero e de um Leoni, essa grafe baudelairiana, e sua recaptura no ver- poesia de suave pessimismo nos convida a so de Waldemar, não sem frisar, heraclitica- descobrir “a transitória / dádiva do mistério: mente, que tal se dá com vestes e feições ínfimo instante = / sopro de eternidade no ar que não as de outrora, mas por meio de um perplexo”. transfazimento em símbolos, numa reconquis- Também no território da prosa passeia ta alegórica; e –recordo ainda, sem querer à vontade o grande mestre do soneto. No exaurir a seqüência de singulares e lúcidos opúsculo Amando Fontes: a Linha da Vida, o tópicos de sua análise– disserta magistral- Perfil da Obra (Recife, 1995), a propósito do mente sobre o notável emprego que dá ao autor de Os Corumbas, e aplicando em seu enjambement e sobre a freqüência e a fun- enfoque uma postura antípoda à dos Jornal de Poesia. Editor Soares Feitosa - [email protected] www.jornaldepoesia.jor.br 3 “tecnocratas da crítica”, relembra com justeza perfis psicológicos como o de Tancredo Ne- o fino ensaísta José Augusto Guerra, que, ves; desde o comentário erudito sobre cita- “em sua pertinaz defesa da crítica ções literárias até o elogio à idéia geradora impressionista”, sobrepunha “o imponderável de Goiânia, em ensaio de 1951, que preconi- da expressão estética” às “rígidas leis das za e defende a interiorização da capital do ciências exatas”. País. Em trabalho sobre Bandeira: Estrela Merecem destaque a competência e a Permanente no Céu de Pasárgada (Recife, sensibilidade com que fala de poetas e de 1996), o raro sonetista exibe as duas faces poesia, da essência desta, da validade ou de seu talento literário. São dois excelentes demagogia do engajamento poético, da in- ensaios – “Manuel Bandeira: Poesia sem transitividade de certa poesia contemporâ- Mistério” e “Presença de Teresópolis na Vida nea. São objeto de suas reflexões escritores e na Obra de Manuel Bandeira” (ao fim deste de todas as regiões do Brasil e de países tão se reproduz o soneto inédito “Luar de Maio”, distanciados quanto o Chile e a Bulgária, a escrito na cidade fluminense, em 1906, pelo Alemanha e o México, a Nicarágua e a Espa- poeta de “Evocação do Recife”); e, fechando nha. o volume, alguns poemas do ensaísta em louvor de Bandeira e de Teresópolis. Mesmo quando escreve sobre assuntos técnicos, ligados a suas vivências pro- Pouco antes de morrer, entregou ao fissionais, nunca se deixa tomar pelo frio tec- prelo, prontos e revistos, os três volumes de nicismo; ao contrário, seu estilo é sempre sua Prosa Variada de Ontem e de Hoje, con- irrigado de simpatia e calor humano. O que tendo “breves crônicas sobre fatos e idéias, se disse de Ferreira de Castro, que foi gran- textos à margem da História, notas sobre de “pela arte e pelo coração” (“que só assim livros e autores, discursos acadêmicos e não- se pode ser grande”, completa o nosso au- acadêmicos, memórias”: o primeiro, intitula- tor), tem perfeita aplicação a Waldemar Lo- do O Preço da Liberdade; o segundo, Laudas pes. de Louvação; e o terceiro, Veredas do Tempo. Waldemar era homem de grande afabilidade e simpatia. Alto, esguio, muito claro, Coube-me a honra de redigir as orelhas tendendo ao rubicundo, era uma figura ver- do inicial, onde registro que o grande poeta dadeiramente apolínea, coroada por uma ca- é também muito bom de prosa, e nos dois beleira de prata. A impressão de distância sentidos da expressão: conversador de irra- que essa figura poderia causar se desfazia diante simpatia, marcaram época as fidalgas de pronto ao influxo de uma fala mansa, de recepções que oferecia em sua residência voz um tanto embargada, e ao poder de en- no Lago Sul, em Brasília, com a esposa, sua volvimento de sua personalidade, de que querida Iracy; prosador de mérito, como tal emanava – como que temperando o apolíneo reconhecível pelo menos desde Austro-Cos- – uma leve brisa de melancolia (Antonio Car- ta, Poeta da Província, de 1970, oferece- los Villaça, nas abas de Memória do Tempo, nos, com os três tomos dessa “prosa varia- diz que ele tinha “a suprema coragem de ser da”, a inteira extensão de seu valor. Com só, sendo gregário” e que ele era “um ser tranqüilo domínio da língua e do estilo, dis- melancólico”). Na verdade, era um homem corre sobre assuntos que, se não o forem agregador, desses que se fazem cercar de por natureza, se tornam palpitantes mercê pessoas e derramam em torno de si as ondas de sua pena. E o espectro que abarca é am- lustrais da amizade, os eflúvios mais refina- plo e diferenciado: desde literatura, natural- dos e mais almos da inteligência e do espíri- mente, até história e, sobretudo, interpre- to. E um homem de ação. Jornalista, funcio- tação histórica; de economia e política a nário de proa do IBGE – Instituto Brasileiro Jornal de Poesia. Editor Soares Feitosa - [email protected] www.jornaldepoesia.jor.br 4 de Geografia e Estatística, diretor da Revis- a Academia Teresopolitana de Letras e o ta Brasileira de Estatística e da Revista Bra- Conselho Municipal de Cultura. sileira dos Municípios, diretor-secretário da De volta a seu Pernambuco natal, em Síntese Política, Econômica e Social, da Uni- Olinda primeiro, depois no Recife, exerceu até versidade Católica do Rio de Janeiro, serviu, o fim o seu papel oracular, de irradiador de de 1954 a 1976, à OEA – Organização dos cultura. Estados Americanos, tendo sido diretor de Waldemar Freire Lopes, nascido em 1.º seu escritório no Brasil e representante de de fevereiro de 1911, é natural de Peri-Peri, sua secretaria-geral junto ao Governo. Em então pertencente ao município de Quipapá Brasília, como dito, foi um dos fundadores do e hoje ao de São Benedito do Sul, em Per- Clube de Poesia, que presidiu em seu período nambuco. Faleceu no Recife, em 21 de outu- de ouro; com Domingos Carvalho da Silva, bro de 2006, aos 95 anos de idade. Entreva- entre outros, foi um dos luminares da Revis- do, com problemas sérios de locomoção, des- ta de Poesia e Crítica; vice-presidente da de alguns anos, manteve-se entretanto lú- ANE – Associação Nacional de Escritores e cido e ativo até o fim. Humanista de escol, secretário-geral da Academia Brasiliense de fino cultor da poesia e da amizade, deixou Letras. Saindo de Brasília em 1976, transfe- luminosa e indelével impressão em tudo que riu-se, com sua aura de sereno agitador cul- tocou, no coração dos que o conheceram e tural, para a cidade de Teresópolis, onde fun- de quantos têm tido a fortuna de ser toca- dou e dirigiu os Cadernos da Serra, presidiu dos pelo seu verso de pensativa beleza. Jornal de Poesia. Editor Soares Feitosa - [email protected] www.jornaldepoesia.jor.br 5