INVESTIGAÇÕES EM HISTÓRIA NATURAL NO CEARÁ:
OS ESTUDOS DO NATURALISTA JOÃO DA SILVA FEIJÓ
(1760-1824)
MARIA MARGARET LOPES
CLARETE PARANHOS DA SILVA
Instituto de Geociências
Universidade Estadual de Campinas
RESUMO
Esse artigo apresenta resultados de estudos que estamos realizando no campo da História das Ciências no Brasil. João da
Silva Feijó (1760-1824) foi um naturalista luso-brasileiro comissionado pela Coroa Portuguesa, na transição do século XVIII
para o XIX, com o objetivo de fazer investigações em História Natural. Como naturalista, foi enviado para as Ilhas de Cabo
Verde (1783-1797) e para a Capitania do Ceará, no Brasil, em 1799. Acreditamos que nossos estudos sobre as trajetórias de
naturalistas que – como Feijó – exerceram seu ofício na América portuguesa, na transição do século XVIII para o XIX,
podem contribuir para uma compreensão mais abrangente da cultura científica luso-brasileira no período ilustrado.
PALAVRAS-CHAVE: história; história das ciências; Brasil; colônia.
INTRODUÇÃO
O século XVIII foi o século da História Natural
também em Portugal. Como sugerido por Carvalho
(1987), foi nesse campo que os portugueses, durante todo
o século XVIII, mostraram grande capacidade como
investigadores. No cerne dos processos que marcam a
adesão do império português às ciências da época estão as
investigações em torno da História Natural nos territórios
do reino e do ultramar1 . Nas “viagens philosophicas”, que
se expandem no final do século XVIII sob a coordenação
geral da Academia Real das Ciências de Lisboa e,
especificamente, de Domingos Vandelli (1730-1815)2 ,
através da direção do Museu de Ajuda, situamos a
emergência mais sistemática das atividades relacionadas
às ciências naturais também na América portuguesa.
1 Além de Carvalho (1987), ver também Domingues, A (1991) e Silva, M.
(1999).
2 O italiano Domingos Vandelli (1730-1815) foi o primeiro lente de Química e
História Natural da Universidade de Coimbra após as reformas pombalinas.
Exerceu suas atividades naquela instituição entre os anos de 1772 e 1791. Foi
um dos mais vigorosos impulsionadores da criação da Academia Real das
Ciências de Lisboa (1779). Vandelli transitou por alguns dos espaços de
investigação mais importantes criados durante o processo reformista iniciado
pelo ministro de Dom José I, Marquês de Pombal (1699-1782), e continuado
por seus sucessores. Durante seu trabalho como professor e investigador em
Coimbra, Vandelli e seus alunos utilizavam o Laboratório Químico, o Gabinete
de História Natural e o Jardim Botânico. Ao mesmo tempo, Vandelli participava
ativamente dos trabalhos da Academia Real das Ciências de Lisboa, como
diretor da classe das ciências da observação, bem como do Museu da Ajuda
onde dava aulas desde 1782 (Brigola, 2000). Carvalho (1987) destaca o fato de
Vandelli ser o encarregado da “direção de todos os departamento de História
Natural, tanto na Universidade de Coimbra como na de Ajuda”.
Embora este seja um período bastante estudado pela
historiografia, Santos (1998), diferenciando as noções de
império colonial e o significado do projeto político que
concebeu um império luso-brasileiro, lembra que mesmo
“a história política desse período ainda carece de maior
atenção, tanto no lado português como no brasileiro”.
Muito também ainda está por ser feito, no que se refere a
uma compreensão mais abrangente da cultura científica
luso-brasileira do período e dos que se seguem. Nesse
sentido o levantamento documental e bibliográfico que
estamos realizando sobre o naturalista João da Silva Feijó
(1760-1824)3 , um dos integrantes do grupo de seguidores
de Domingos Vandelli, é exemplar no sentido de
demonstrar o quanto ainda está por ser feito para se
avançar em uma compreensão mais abrangente sobre as
trajetórias e produções de naturalistas que tiveram papéis
proeminentes na cultura ilustrada luso-brasileira, no final
dos setecentos, bem como em aspectos particulares da
História econômica do período colonial nas diferentes
regiões da América portuguesa.
3 Este artigo se insere no projeto de pesquisa mais amplo “Emergência e
consolidação das ciências naturais no Brasil (1770-1870)”, coordenado pela
profa. dra. Maria Margaret Lopes, que conta com o apoio da FAPESP/Brasil (no.
00/04751-0). Também integra a pesquisa de doutoramento de Clarete Paranhos
da Silva, que conta também com o apoio da FAPESP/Brasil (no 00/14396-3).
João da Silva Feijó não mereceu senão poucas e
incompletas menções no amplo estudo de Simon (1983)
sobre as expedições científicas portuguesas no Ultramar.
Segundo o autor - aparentemente sem maiores
informações -, Feijó, que partira para uma relativa
obscuridade em Cabo Verde4, eventualmente teria
retornado ao Rio de Janeiro.
Entre as informações contraditórias sobre a vida de
João da Silva Feijó, o que parece se saber com precisão é
que faleceu já no posto de Coronel, tendo sido enterrado
na sepultura de no. 24 dos Claustros da Capela de Nossa
Senhora da Consolação, do Rio de Janeiro, da Ordem 3a.
de São Francisco de Paula, em 10 de março de 1824 (Silva
Nobre, 1978), após mais de 40 anos a serviço da História
Natural em Portugal, Cabo Verde, Ceará e Rio de Janeiro.
Nascido em Guaratiba, Capitania do Rio de Janeiro em
1760, seus biógrafos se dividem quanto ao fato de Feijó
ter ou não cursado a Universidade de Coimbra5. De
qualquer modo, em companhia de Alexandre Rodrigues
Ferreira (1756-1815) – o conhecido naturalista que
percorreu a Amazônia brasileira entre 1784 e 1792 – Feijó
teria examinado a mineração de carvão de Buarcos, na
região de Coimbra, em fins de 1788.
Feijó, que foi sócio correspondente da Academia
Real das Ciências de Lisboa, empreendeu uma viagem
filosófica pelas Ilhas de Cabo Verde, onde teria
permanecido de 1783 a 1797. Durante esse período, Feijó
manteve correspondência sistemática com Julio Mattiazi –
responsável pelo Jardim Botânico de Coimbra e também
da Ajuda, com Vandelli e outras autoridades
portuguesas6 . Elaborou diversos artigos que foram
posteriormente publicados pela Academia Real das
Ciências de Lisboa e outros periódicos7 . Depois de
retornar de Cabo Verde, permaneceu por algum tempo em
4 Para análises dos trabalhos de Feijó em Cabo Verde ver: Guedes (1997, 2000)
5 Simon (1983), Carreira (1986), Guedes (1997, 2000) afirmam que sim, embora
não precisem exatamente suas fontes. Silva Nobre (1978) sugere que Feijó teria
cursado a Academia Militar de Lisboa, dado não ter encontrado seu nome nas
relações de alunos formados no período em Coimbra.
6 Ver documentação existente no Museu Bocage. Agradecemos a dra. Estela
Guedes pela referência a essa documentação e ao prof. Dr. Carlos Almaça pela
reprodução desse material.
7 Ver entre outros: Memória sobre a fábrica real de anil da Ilha de Santo
Antão. Publicada nas Memórias Econômicas da ARCL, tomo 1, 1789, pp. 407421. Memória sobre a urzella de Cabo Verde. Memórias Econômicas da ARCL,
tomo 5, 1815, pp. 145-154. Ensaio político sobre as ilhas de Cabo Verde para
servir de plano à história filosófica das mesmas. Publicado no Patriota, n. 5,
nov. de 1813. Memória sobre a última erupção vulcânica do Pico da Ilha do
Fogo, sucedida em 14 de Janeiro do ano de 1785, observada e escrita, etc..
Publicada no Patriota, tomo 3, n. 5, 1814, pp. 23 a 32. Ensaio Econômico Sobre
as Ilhas de Cabo Verde, provavelmente lido na Academia em 1797 (Guedes,
1997) e publicado pela mesma Academia, em 1815. Itinerário Filosófico que
contem a relação das ilhas de Cabo Verde, disposta pelo método epistolar.
Dirigidas ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro,
pelo naturalista régio das mesmas ilhas João da Silva Feijó, 1783. Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro, manuscritos, cód. 12984.
Lisboa onde elaborou um Discurso Político Sobre as
Minas de Ouro do Brasil8 , sendo também encarregado de
fazer experiências com o salitre da Ribeira do Alcântara,
deixando sobre esse trabalho um documento intitulado
Estado presente das experiências do salitre na Ribeira do
Alcântara em 1º de março de 17989 .
Feijó partiu para o Ceará, designado, por Carta
Patente de 25 de fevereiro de 179910 , com o mesmo
ordenado de quatrocentos mil réis que já recebia, para
ocupar o posto de “sargento- mor das milícias, incumbido
de vários objetos de História Natural”.
A TRAJETÓRIA DE JOÃO DA SILVA FEIJÓ NO
CEARÁ
Em 24 de outubro de 1799, depois de 32 dias de
‘terrível viagem’ por terra, o naturalista João da Silva
Feijó, vindo de Pernambuco, chegou ao Ceará. A 4 de
dezembro por ordem do governador, partia para “Vila de
Monte Mor o Novo de Baturité”, para examinar a
possibilidade de mineração de salitre na região de
Canindé, distante quinze léguas da vila. Já que não pode
desempenhar tal missão, por conta das chuvas que
lixiviavam os terrenos, Feijó dirigiu-se ao “Sitio da
Ribeira do Xoró” onde se supunha existir grande
abundância de salitre, embora só tenha encontrado sal
marinho. Comprometendo-se a repetir a análise em outro
momento mais adequado, Feijó partiria, seguindo as
informações do Capitão Mor do Distrirto de Baturité, para
verificar a existência de um abundante terreno de salitre
no Sitio de Caxerabomim, próximo à Serra dos Cocos,
onde, aí sim, a existência de salitre já havia sido
comprovada por suas próprias análises, realizadas ainda
em Pernambuco.
Estes são alguns dos primeiros informes do
naturalista a Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, em carta
enviada três meses depois de sua chegada11 . Nessa carta
já encontramos muitos dos temas que ocuparão o
naturalista nos próximo 15 anos em que se dedicará aos
“vários objetos de história natural”.
8 Manuscrito no Museu Paulista, Coleção José Bonifácio, D-79. Esta obra se
soma a um vasto conjunto de memórias, artigos e discursos escritos naqueles
anos de tentativas de recuperação do setor de produção mineral, particularmente
em terras da América Portuguesa. Precedido de breves comentários, o texto
integral desse discurso, que até recentemente parece ter permanecido em
manuscrito, encontra-se em Silva, C. P. & Lopes, M.M. “O ouro sob as luzes: a
“arte” de minerar no discurso do naturalista João da Silva Feijó (1760-1824) (no
prelo).
9 Biblioteca Nacional de Lisboa, Reservados, códice 610 (F.R. 762).
10 Livro de Registro da Vedoria Geral da Capitania do Ceará. Fls 9v e 10v
(publicado em Silva Nobre, 1978, pp. 177-178)
11 Carta de 21/12/1799. Coleção Studart, publicada em Silva Nobre (1978: 179180)
Feijó chegara ao Ceará no mesmo ano em que a
capitania se tornara independente de Pernambuco e em
que medidas administrativas estavam sendo tomadas para
viabilizar esta autonomia política e econômica da região.
Sua carta a Dom Rodrigo, em que recorre a fontes
históricas e a informações locais, evidencia os esforços
das autoridades em identificar e recuperar minerações
existentes na região.
Desde pelo menos o ano de 1735 se tem notícias,
não só de que o governo português buscava inventariar
possíveis recursos minerais na região que abrange o atual
estado do Ceará, como também de que esses já eram
objeto de litígio de particulares locais, dados os privilégios
e as ‘desordens’ em que se teria envolvido Antonio
Gonçalves de Araújo, o superintendente das minas de
prata da serra dos Cocos12 . Além da prata e do cobre de
Ubajara, o ouro também passou a ser explorado nessas
regiões da serra do Ibiapaba. Em continuidade a essas
investigações, por Carta Régia de 11 de outubro de 1742,
o mesmo Antônio Gonçalves de Araújo, Manoel
Fernandes Losada e João Baptista Rodrigues receberam
permissão para mandarem vir da Alemanha cinco mestres
e oficiais de fundir e separar metais para trabalharem nas
minas de ouro então em funcionamento no Ceará13 . Além
dessas minas em atividade, achou-se também ouro na
região do Cariri em 1752, e o capitão comandante e
intendente dessas minas dos Cariris Novos, Jerônimo
Mendes da Paz, passou a verificar a existência de novas
ocorrências nos riachos dos Crioulos e do Machado, no rio
Salgado, bem como de prata em um lugar conhecido por
Salamanca. A Serra de Uruburetama foi explorada, bem
como o salitre de Pilão Arcado e Salinas de Cima, distrito
da Nova Vila do Rio Grande, por volta de 1754. Ouro
também fora encontrado em Ribeira do Caracu e na Serra
da Ibiapaba, e o funcionamento de minas de São José dos
Cariris receberá atenção especial do então ainda governo
de Pernambuco, sendo objeto de diversos ofícios entre sua
descoberta, até 12 de setembro de 1758, quando uma
ordem régia recomendou a interrupção de todos os
trabalhos de exploração de minas da Capitania,
possivelmente pelo seu “pouco rendimento”, informado às
autoridades portuguesas pelo intendente das minas dos
Cariris Novos, Jerônimo Mendes da Paz14 .
12 Requerimentos de 24/01/1735 – n.164; 20/02/1736 – n.174; Provisão de
15/11/1745 – n.257; Certidão de 20/02/1746 – n. 265 pp. 60, 62, 77 e 79.
Quando não mencionadas outras fontes, a numeração e a página indicadas dos
documentos correspondem ao Catálogo de documentos manuscritos avulsos da
Capitania do Ceará (1618-1832), (CDACC) organizado por Jucá, G.N.M.
Ministério da Cultura; Fortaleza; UFC. Fund. D. Rocha, 1999 (Projeto ResgateArquivo Histórico Ultramarino, Lisboa, Portugal).
13 Correspondência de Sylva, M.A.R. da - Lisboa, 2 de abril de 1745. Coll.
Studart, v. 3, p. 407, publicada em Studart, 2001: 211.
14 Ver entre diversos outros documentos:Carta de 6/01/1754 – n.380; Ofício de
2/04/1757 – n. 433; Carta de 3/04/1757 - n. 436CDACC, pp. 99, 109, 110.
As investigações do naturalista Feijó na capitania
indicam uma retomada dessas iniciativas anteriores. Em
suas considerações sobre as ‘Minas de Cobre’, na
Memória sobre a Capitania do Ceará, Feijó reavalia
antigas explorações – que se supunha de prata - na serra
grande da Ibiapaba, considerando promissora a mina de
cobre que se encontrava em estado de “sulfate”,
prolongava-se até a região do Piauí, onde o metal era
utilizado na fabricação de arreios. Recomendava atenção
particular a essa exploração, não só pela “qualidade e
importância do metal” – cobre – como também “porque
com efeito me persuado conter também a matriz alguma
porção de prata” (SILVA NOBRE, 1997, p. 15). Por
ordem e “debaixo das vistas” do governador Feijó ainda
examinou as antigas lavras de ouro da Mangabeira, que
demonstraram ser pouco produtivas, adequando-se porém
ao emprego da faiscação, e não por conta da Real Fazenda,
obrigando-se possíveis interessados a pagar o quinto, e
sendo submetidos ao controle por denúncias públicas,
dada a facilidade de contrabando possibilitada pela
localização das lavras15 .
As ocorrências de salitre foram objetos da dedicação
de Feijó, em diversas regiões da Capitania do Ceará, tendo
sido construídos pelo menos dois laboratórios para
extração do produto, que funcionaram regularmente entre
1800 e 180516. Feijó empreende suas primeiras
investigações sobre o salitre na região de Tatajuba, pois,
segundo ele , tratava-se de uma mina muito fecunda. Ali
constrói um laboratório, em finais de 1799, que chegou a
funcionar regularmente, recebendo provisões do Estado.
Em julho de 1804, na administração do governador João
Carlos Augusto Oyenhausen, o laboratório é transferido
para a localidade de Pindoba, na Serra da Ibiapaba. As
razões dessa mudança são dadas pelo próprio Feijó em
longos ofícios enviados ao citado governador17 . Segundo
o naturalista, a produção em Tatajuba estava
“empobrecida e deteriorada”. Ao examinar as nitreiras em
Pindoba e arredores, Feijó chega à conclusão que a
transferência seria um bom negócio. De suas diligências
na região de Pindoba “que me certificaram ser abundantes
de minas e salitre”, o naturalista sugere que seu
aproveitamento seria de grande vantagem para Sua Alteza
Real. Para convencer as autoridades, faz um paralelo entre
as nitreiras de Tatajuba e as de Pindoba, apontando, entre
outras coisas, a maior riqueza das últimas, sua
proximidade com “olho d’água” – daí a possibilidade de,
no mesmo lugar, se extrair e purificar o produto para ser
15 Cartas de 11 e 31/12/1800 (Silva Nobre, 1978, pp.195-199).
16 Carta de 2/05/1804 ao governador do Ceará. (Silva Nobre, pp. 220-223)
17 Ofícios de 24 de abril de 1804, de 02 de maio de 1804 e de 31 de maio de
1804. Publicados em Nogueira (1888: 258-266).
“logo conduzido ao porto do embarque para Lisboa” – , e
a menor distância entre Pindoba e o porto mais próximo.
Sugere ainda que se aproveite o mais rápido possível os
produtos de Pindoba, erguendo ali oficinas de extração e
refinação, abrindo as estradas necessárias, trazendo as
caldeiras de Tatajuba, no intuito de poupar gastos. O
laboratório de Tatajuba foi extinto em 1803 pela
decadência em que se achavam as minas de salitre da
região, conforme dito pelo próprio Feijó. O de Pindoba
em 1805 porque
prometendo o naturalista fazer no primeiro ano
uma porção de salitre como se verifica do ofício
nº 3, exigindo para este estabelecimento a quantia
de 200$000 ao muito, o resultado, findo o tempo,
tendo-se despendido a quantia de 740$000 réis,
foi somente uma amostra de salitre, em
conseqüência do que foi mandado suspender o
mencionado laboratório pelo sobredito Exmo.
Governador, como declara o naturalista na
Representação que vai por cópia sob nº 1.18
Em suas múltiplas incumbências como naturalista,
Feijó classificou plantas e, por diversas vezes, enviou
caixotes ao Real Jardim Botânico da Ajuda e para a
instituição congênere da Prússia, em Berlim19 . As
relações de plantas e sementes seguiam arranjadas e
acondicionadas pelo “Methodo”. Divididas segundo as 24
classses da classificação lineana, as plantas e sementes
eram acompanhadas de seus nomes vulgares na remessa
para a Ajuda 20 . Também seu interesse e planos para a
realização de atividades botânicas já vinham enunciados
em sua correspondência, mencionada acima, ao Ministro
D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a quem solicitava o envio
de publicações e o auxílio de um ‘desenhador’, para o
bom andamento de seus trabalhos de reconhecimento da
flora cearense.
A minha particular inclinação ao estudo da
Botânica tem-me conduzido a examinar, alguma
coisa, deste fértil país: ele me oferece vastíssimo
campo para uma interessante flora, se Vossa
Excelência for servido dignar se de mandar me
providenciar com alguns livros, que me são
necessários, como são a Edição de Gmelin, e a
Encyclopedia Botanica de Frabicius e o auxilio de
um desenhador.21
18 Ofício da Junta da Fazenda ao Vice-Rei do Brasil (Luiz de Vasconcelos e
Souza) datado em 02 de junho de 1807. Publicado em Nogueira (1888: 266-268)
19 Carta de 17/10/1803 para D. Rodrigo de S. Coutinho (publicada em Silva
Nobre, 1978: 209-211)
20 Relação das sementes das plantas agrestes da Capitania do Ceará
(17/10/1803) e Relação das sementes das plantas Indígenas da Capitania do
Ceará (17/10/1803) (publicadas em Silva Nobre, 1978:213-214).
21 Silva Nobre, 1978. pp.179-180. Trata-se das obras “Onomatologia Botânica”
publicada entre 1771 e 1777 por Friedrich Gmelin (1748-1804) e a obra de
Johann C. Fabricius (1745-1808), discípulo de Lineu e professor de História
Natural em Kiel.
Em maio de 1811, João da Silva Feijó foi
promovido a Tenente Coronel agregado ao 1o Regimento
da Cavalaria de Milícias da Capitania do Ceará e fez uma
viagem ao Rio de Janeiro. Voltaria à capital do Império
novamente por volta de 1818. Em 1822, encontramo-lo já
como Tenente Coronel do Corpo de Engenheiros e lente
de História Natural, Zoológica e Botânica da Academia
Militar, solicitando ao já ministro José Bonifácio de
Andrada e Silva “franquear as salas do Museu Nacional,
para lá serem feitas demonstrações práticas de espécimens
de História Natural, um dia por semana22 . De acordo com
Silva Nobre (1997) os problemas políticos enfrentados por
Feijó, no Ceará, relacionados a princípio aos problemas de
subordinação ou não da região à Capitania de
Pernambuco, ou os rendimentos das minas de salitre
considerados não tão promissores como se esperava,
teriam impedido a continuidade dos trabalhos de Feijó.
Tais problemas teriam, por outro lado, possibilitado as
investigações botânicas do naturalista, que resultariam em
sua Coleção descritiva das Plantas da Capitania do
Ceará.
Seus trabalhos abrangeram de fato o amplo
espectro da História Natural da época. Alguns de seus
registros se situam entre o que podemos considerar as
primeiras
observações
sobre
as
características
paleontológicas marcantes da região. Tratando das “Raras
Petrificações” em sua Memória sobre a Capitania do
Ceará, Feijó aponta que na serra dos Cariris, em Milagres
– distante cerca de mais de 80 léguas do mar – encontramse “as mais raras e curiosas petrificações vagas de peixes e
de muitos gêneros de anfíbios, e alguns de grandeza de 4
palmos, incluídos como em uma espécie de Etites, de
substância calcárea, em cujo âmago se observa o animal
totalmente perfeito e reduzido interiormente a uma
cristalização spatosa”. Ressalta também a presença de
grande quantidade de ossadas fósseis de “grandioso
tamanho, como vértebras, costelas, fêmures” próximas à
serra dos Cariris, na região de Cronzó, na lagoa da
Catarina. Discutindo não somente as idéias comuns entre
os naturalistas de então, de que jamais se poderiam
petrificar as partes moles e musculares dos animais, mas
também tomando partido nas controvérsias sobre a
alegada inferioridade da América, iniciadas desde a
publicação, a partir de 1749, da História Natural de
Buffon23 , ele se pergunta:
22 Documento do Museu Nacional do Rio de Janeiro, n. 11, Pasta 1.
23 As controvérsias suscitadas pelo trabalho de Buffon são exaustivamente
discutidas por Gerbi (1996).
Que exemplos pois para suas provas não
deduzirão destes objetos os sectários do célebre
sistema de Buffon? Não menos para aqueles
naturalistas, que se persuadem que não podem
petrificar as substâncias moles ou carnosas dos
animais (SILVA NOBRE, 1997, p. 13).
Ao longo de sua permanência no Ceará, o
naturalista redigiu diversas memórias, resultantes de suas
investigações sobre salitre, ouro, ferro, gado, além de seus
trabalhos botânicos. Cumpriu seu ofício de naturalista na
região, mapeando, descrevendo e explorando objetos de
História Natural. Desse trabalho, emergem algumas cartas
topográficas e um grande número de memórias que vão
ser posteriormente publicadas, como se poderá ver pela
relação dos trabalhos que localizamos até o presente
momento e que mostraremos a seguir.
Entre os trabalhos que localizamos e estamos
analisando podemos mencionar: Preâmbulo ao ensaio
filosófico e político sobre a Capitania do Ceará para
servir para a sua história geral. Rio de Janeiro: Imprensa
Régia, 1810. Memória econômica sobre a raça do gado
lanígero da Capitania do Ceará, com os meios de
organizar os seus rebanhos por princípios rurais,
aperfeiçoar a espécie atual das suas ovelhas e conduzir-se
ao tratamento delas e das suas lãs em utilidade geral do
comércio do Brasil e prosperidade da mesma capitania;
escrita e oferecida ao príncipe regente. Rio de Janeiro,
1811. Publicada no Auxiliador da Indústria Nacional, em
1842 e na Edição fac-similar de Separatas de artigos da
Revista do Instituto do Ceará, tomo 3. Fortaleza:
Biblioteca básica cearense/Fundação Waldemar Alcântara,
1997, p. 368-397. Memória sobre a Capitania do Ceará,
1814. Publicada no Patriota, tomo 3, n. 1, p. 46-62 e na
edição fac-similar de Separatas de artigos da Revista do
Instituto de Ceará, tomo 3. Fortaleza: Biblioteca básica
cearense/Fundação Waldemar Alcântara, 1997, p. 4-27.
Memória sobre as minas de ferro do Cangati do Choró na
Capitania do Ceará, escrita em 1814. Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, Obras raras, 39,5,9. Memória sobre as
antigas lavras de ouro da Mangabeira da Capitania do
Ceará, (1814). Publicada na Edição fac-similar de
Separatas de artigos da Revista do Instituto do Ceará,
tomo 3. Fortaleza: Biblioteca básica cearense/Fundação
Waldemar Alcântara, 1997, p. 367-370. Carta topográfica
do Ceará à mina Salpetra, descoberta no sítio da
Tatujuba na distância de 55 léguas da villa da Fortaleza,
1800. Autógrafo na BNRJ. Carta topográfica da
Capitania do Ceará para servir à sua história geral, 1809.
Autógrafo no Arquivo Militar. Planta demonstrativa da
Capitania do Ceará para servir de plano à sua carta
topográfica, delineada pelo sargento mor naturalista, etc.,
1810. Cópia no Arquivo Militar. Coleção descritiva das
plantas da Capitania do Ceará, 1818. In: Estudos sobre a
coleção descritiva das plantas do Ceará (com o original
inédito do naturalista Feijó. Fortaleza: Gráfica editorial
Cearense Ltda, 1984 (coleção Estudos Cearenses).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo volume de informações sobre a história
natural e a economia do Ceará, as obras de Feijó são
consideradas umas das mais completas da época, sendo o
naturalista, considerado por diversos historiadores
brasileiros (BRASIL, 1997; BRAGA, 1962) o melhor
conhecedor da capitania do Ceará de sua época. Os
conhecimentos por ele produzidos foram de tal maneira
válidos que foram referência para as investigações em
ciências naturais após passados mais de 30 anos de sua
morte. Os trabalhos de Feijó no Ceará, retomados no final
da década de 1850, permaneceram referenciais para aquela
que será a primeira expedição científica nacional,
brasileira24 , organizada pelo Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro - IHGB, e pelos diretores do Museu
Nacional do Rio de Janeiro – a Imperial Comissão
Científica também chamada Comissão Exploradora das
províncias do Norte.
ABSTRACT
This paper results from our studies into history of science
in Brazil. João da Silva Feijó (1760-1824) was a LuzoBrazilian naturalist commissioned by the Portuguese
Crown in the transition of 18th to 19th centuries with the
aim of carrying out some investigation on natural history.
As a naturalist he was sent to Cabo Verde (1783-1797)
and to Ceará, Brazil, in 1799. We believe that our studies
of the trajectories of some naturalists who – like Feijó –
carried out their work in Brazil in the transition of 18th to
19th centuries may contribute to a better comprehension
about the Luzo-Brazilian scientific culture during the
illustrated period.
Key-words: history, history of science, Brazil, colony.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRAGA, R. História da Comissão Científica de
Exploração. Fortaleza: Imp. Uni. do Ceará, 1962.
BRASIL, T. P. de S. Ensaio Estatístico da Província do
Ceará, 1863 - ed. fac-símile de 1997. Fortaleza: Fundação
Waldemar Alcântara. V. I e II.
BRIGOLA, J. C. P. Coleções, gabinetes e museus em
Portugal no Século XVIII. 2000. 340 f. Tese (Doutorado) Universidade de Évora, Portugal, 2000.
24 Para uma discussão sobre os vínculos entre essas atividades ver Pinheiro, R.
& Lopes, M. M. (2002)
CARREIRA, A. “Apresentação e comentários”. Ensaio e
memórias econômicas sobre as Ilhas de Cabo Verde
(século XVIII), por João da Silva Feijó. Lisboa: Inst.
Caboverdiano do Livro, 1986.
SANTOS, A. C. M. dos. Do projeto de Império à
Independência: notas acerca da opção monárquica na
autonomia política do Brasil. Anais do Museu Histórico
Nacional, v. 30. Rio de Janeiro, 1998, p. 7-35.
CARVALHO, R. de. A História Natural em Portugal no
século XVIII. Lisboa: ICALP/Ministério da Educação,
1987.
SILVA, C. P.; LOPES, M. M. O ouro sob as luzes: a
“arte” de minerar no discurso do naturalista João da Silva
Feijó (1760-1824). História: questões e debates.UFPR:
Curitiba (no prelo).
GERBI, A. O Novo Mundo: história de uma polêmica
(1750-1900). São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
DOMINGUES, A. Viagens de exploração geográfica na
Amazônia em finais do século XVIII: política, ciência e
aventura. Lisboa: Secretaria Regional de Turismo/ Centro
de Estudos Históricos do Atlântico, 1991.
GUEDES, M. E.; ARRUDA, L. M. Feijó: naturalista
brasileiro em Cabo Verde século XVIII. In: As Ilhas e o
Brasil. Portugal/Madeira: Centro de Estudos de História
do Atlântico/ Secretaria Regional de turismo e Cultura,
2000, p. 509-523.
GUEDES, M. E. João da Silva Feijó: viagem filosófica a
Cabo Verde. Asclépio, v. 49, n. 1, 1997, p. 131-138.
NOGUEIRA, P. O naturalista João da Silva Feijó. Revista
trimensal do Instituto do Ceará, ano 2, tomo 2, 1888, p.
247-276.
PINHEIRO, R.; LOPES, M. M. João da Silva Feijó
(1760-1824) no Ceará: um elo entre a ilustração brasileira
e a construção local das ciências. Atas do 1o Congresso
Luso-Brasileiro de História das Ciências e da Técnica
(2000). Universidades de Évora e Aveiro, Portugal, 2001.
p 160-172.
SILVA NOBRE, G. da. “Apresentação”. Memória sobre a
Capitania do Ceará e outros trabalhos. Ed. Fac-similar de
Separatas. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza:
Fundação Waldemar Alcântara, 1997 (Biblioteca básica
cearense).
SILVA NOBRE, G. da. João da Silva Feijó: um
Naturalista no Ceará. Instituto Histórico do Ceará.
GRECEL. Fortaleza. 1978
SILVA, M. B. N. da. A cultura luso-brasileira: da reforma
da Universidade à Independência do Brasil. Lisboa:
Editorial Estampa, 1999.
SIMOM, W. J. Scientific expeditions in the portuguese
overseas territories (1783-1808) and the role of Lisbon in
the intellectual-scientific community of the late eighteenth
century. C. E. H. C. A./Inst. De Investigação Científica
Tropical, Lisboa. 1983.
Maria Margaret Lopes Professora Livre Docente no
Instituto de Geociências/ DGAE, Unicamp. Universidade
Estadual de Campinas, Instituto de Geociências/DGAE.
Clarete Paranhos da Silva Doutoranda no Instituto de
Geociências/DGAE, Unicamp. Universidade Estadual de
Campinas, Instituto de Geociências/DGAE
Download

INVESTIGAÇÕES EM HISTÓRIA NATURAL NO CEARÁ: OS