PEDOLOGIA E DESENVOLVIMENTO: A CIÊNCIA DO SOLO A SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO ALAIN RUELLAN. In: XXI Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, Campinas-SP, pg. 69-74, 1988. Ministère de l'Agriculture, Paris, França. RESUMO Desenvolvimento, para um país ou para uma sociedade, é a aquisição de meios adequados de alimentação, moradia, vestuário, saúde, educação e manutenção de sua cultura. O solo é um dos recursos essenciais, por si só e pela influência que exerce sobre os ambientes e sociedades: é a fonte de alimentos, de matérias-primas e energia: influencia o comportamento das águas; e é sobre ele que o homem constrói e edifica casas, estradas, fábricas, canalizações, etc. No entanto, o importante papel do solo sobre o desenvolvimento é pouco conhecido. O objetivo da Pedologia a serviço do desenvolvimento é aprender a utilizar os solos sem destruí-los. A contribuição da Pedologia para o desenvolvimento, sobretudo dos países e sociedades mais pobres, dá-se através da caracterização e cadastramento dos solos, das pesquisas sobre os constituintes e seus modos de organização, do funcionamento das coberturas pedológicas e dos estudos dos fatores de fertilidade. É preciso fazer um esforço no sentido de obter resposta para problemas de: a) conhecimento da morfologia dos solos; b) observação e medida do comportamento dos solos, quando utilizados, a fim de evitar processos de degradação; e c) transferência dos conhecimentos adquiridos de um meio pedológico a outro. Pedologia e desenvolvimento: a Ciência do Solo a serviço do desenvolvimento dos países e dos povos. Esse é o tema fascinante que vou procurar desenvolver. O tema é fascinante pois, quaisquer que sejam os avanços recentes da Pedologia através do mundo, é nesses termos que nós, cientistas, devemos pensar sobre o que fazemos. A Ciência do Solo, como todas as ciências, só ganha real significado se prestar serviços aos homens, e, hoje, os que mais necessitam de nossos serviços são exatamente aqueles homens, mulheres e crianças dos países e das regiões as mais pobres do mundo. A pergunta, então, é esta: qual é a contribuição de nossa ciência para o desenvolvimento dos povos? É claro que desenvolvemos, até hoje, um extenso trabalho mas a questão é saber se o que fazemos, como fazemos e como transmitimos as conclusões de nossa pesquisa, enfim se nosso trabalho, guarda coerência com as necessidades dos povos, com a eliminação de suas carências de hoje e de amanhã, com frequência, é terrivelmente urgente, pois trata-se na realidade, e para milhões de seres humanos, de sobreviver ou morrer. Primeiramente, algumas palavras sobre desenvolvimento. Desenvolver é adquirir os meios adequados, os meios mínimos de se alimentar, vestir, morar, cuidar da saúde, educar-se e, também, viver sua cultura. É preciso adquirir os meios para tudo isso e, ao mesmo tempo, é necessário tornar-se realmente independente. O desenvolvimento com segurança é a resultante da capacidade de cada país para tornar-se autônomo, sobretudo em alguns setores básicos como os de alimentação, energia, saúde, educação e cultura. Trata-se, para cada país, de colocar as raízes do desenvolvimento no educação e cultura. Trata-se, para cada país, de colocar as raízes do desenvolvimento no seu próprio território, de fixar sua segurança e sua capacidade de resistir a qualquer pressão externa nos recursos naturais e culturais próprios. O solo, por si só e por influência sobre os ambientes e sobre as sociedades é, evidentemente, um dos recursos essenciais: é preciso valorizá-lo em proveito do desenvolvimento autônomo. O solo é, na realidade, um dos fundamentos essenciais do desenvolvimento e desempenha principalmente quatro papéis que é bom lembrar, mesmo se a maioria das pessoas já os conhecem. O solo é fonte de alimentos - Essa é provavelmente sua função mais conhecida. Sabemos que os volumes, bem como a qualidade das produções agrícolas dependem das propriedades dos solos e, sobretudo, das maneiras pelas quais estas últimas são tratadas, trabalhadas, melhoradas e protegidas. O solo é fonte de materiais e energia - Em primeiro lugar, o solo é um material que pode ser utilizado, diretamente ou após tratamento, na construção civil, na produção mineira, na elaboração de materiais especiais, etc. Além disso, através da produção vegetal, que nele se desenvolve, e através do seu próprio potencial biológico, o solo é fonte não só de vários tipos de produtos de origem vegetal, como também de uma grande parte da energia de origem biológica. Isto é particularmente importante nas regiões tropicais e equatoriais, onde a atividade biológica, animal e vegetal, é muito intensa. O solo exerce grande influência sobre o comportamento das águas - Os regimes hidrológicos, bem como a qualidade química e biológica das águas, tanto dos lençóis freáticos como dos rios, são fortemente influenciados pelos solos. A razão é que as águas, antes de chegarem aos rios e lençóis freáticos, atravessam os solos, mais ou menos facilmente, mais ou menos lentamente, e segundo trajetos mais ou menos longos, que têm que ser conhecidos. O solo é, enfim, o suporte das construções dos homens - Sobre os solos o homem constrói casas, estradas, usinas, canais, reservatórios, etc. Também devolve aos solos os resíduos do seu desenvolvimento, resíduos esses que são cada vez mais numerosos e provocam, de forma crescente nas sociedades modernas, problemas de poluição e qualidade de vida. O solo é, portanto, um dos fundamentos essenciais do desenvolvimento. Isso parece muito evidente e óbvio. No entanto e infelizmente, a realidade dos fatos mostra que essa evidência não é tão óbvia para a maioria das pessoas. Para constatar o desconhecimento dos papéis fundamentais do solo no desenvolvimento, basta observar o comportamento daqueles que utilizam os solos, daqueles que são encarregados de planificar a utilização dos solos ou, ainda, o que é mais grave, o comportamento dos que sã encarregados de estudar os solos, tendo em vista sua utilização. A situação é bastante curiosa: o drama da erosão dos solos, a necessidade de conserválos, a noção de solos como base do desenvolvimento, tudo isso parece estar claro na cabeça de todos, desde o homem político até o utilizador. Mas, na realidade, esse fato não tem nenhuma base lógica, nem, muito menos, base cultural. Por quê? Pois bem, para a maior parte dos homens modernos, o solo ainda é desconhecido; o homem moderno não sabe o que é preciso observar, estudar e conhecer, para poder utilizar corretamente o solo. A maior parte das pessoas encarregadas, hoje em dia, de planejar e realizar o desenvolvimento dos solos, bem como a maioria das pessoas que os utilizam, não sabem o que é o solo, nem se interrogam sobre os conhecimentos que precisam ser adquiridos sobre que é o solo, nem se interrogam sobre os conhecimentos que precisam ser adquiridos sobre ele, antes de utilizá-lo. O solo não faz parte do patrimônio cultural do homem moderno, pela simples razão de que o conhecimento do solo nunca lhe foi ensinado corretamente desde sua infância, ao contrário do que se faz, por exemplo, com as rochas, com as plantas e com os animais. Tudo isso resulta em que, mesmo tendo consciência da importância do solo, raros são os projetos de desenvolvimento que verdadeiramente se baseiam em um conhecimento real e aprofundado dos solos, o que demandaria estudos detalhados, longos e custosos. A maior parte das pessoas envolvidas no desenvolvimento não querem nem esperar, nem pagar o preço desses estudos, pois não conseguem compreender as razões profundas dessa necessidade. Frequentemente, essas pessoas nem mesmo utilizam os conhecimentos existentes, o que é muito mais grave. Assim, acabamos percebendo por que, repetidas vezes, projetos de desenvolvimento fracassam sob a desculpa de que temos pressa, de que é necessário ser econômico, de que os estudos custam muito caro e não servem para grande coisa, vamos acumulando insucessos, atrasos, ou seja, desperdícios consideráveis. Em relação a tudo isso, o que faz a Pedologia e o que podem fazer os pedólogos para melhor conhecerem as condições de utilização desse recurso natural que é o solo a fim de valorizá-lo e preservá-lo para um desenvolvimento mais adequado da sociedade? É necessário insistir sobre isso: o objetivo da Pedologia a serviço do desenvolvimento deve ser o de ensinar a utilizar os solos sem destruí-los e conservá-los, com a finalidade de maximizar suas funções alimentares, energéticas, depuradoras, etc. Mas é preciso estar atento para que não se faça da conservação do solo uma questão apenas de princípios aleatórios. É o caso por exemplo, de se deslocarem agricultores para plantar algumas árvores, sob pretexto de que é necessário, a qualquer custo, conservar os solos, sem que se saiba, contudo por que devem ser conservados, já que não serão mais empregados de forma intensiva. Esse exemplo pode parecer exagerado, mas é uma caricatura de manejo tecnocrático que, infelizmente ocorre com frequência em muitos países, e cujos efeitos são, a meu ver, tão graves quanto os efeitos de milhões de hectares degradados pela erosão, lixiviação, salinização, compactação, consequências essas de operações de desenvolvimento, cujos estudos prévios foram mal feitos. Entre esses extremos - de um lado conservação não ou muito pouco produtiva e de outro a destruição - deve haver lugar para uma verdadeira política de utilização prolongada dos solos, fundamentada sobre o conhecimento detalhado do que eles realmente são. São numerosos e variados os trabalhos pedológicos que contribuíram, em todas as partes do mundo, para a melhoria das condições de utilização dos solos, visando a um melhor desenvolvimento das sociedades e dos países. Trata-se, principalmente, de: - trabalhos de inventário, em escalas variadas; - trabalhos que visam à relação solo-meio; - trabalhos sobre os constituintes e as estruturas dos solos; - trabalhos sobre os funcionamentos dos meios pedológicos; e - trabalhos sobre os fatores de fertilidade e sobre as condições de utilização dos solos. Mas, hoje, a questão é a seguinte: quais deveriam ser os trabalhos mais importantes, mais originais, a ser intensificados com urgência, na perspectiva de melhor abordar e resolver os problemas de desenvolvimento? Quando se tem como objetivo o estudo dos solos para utilização e preservação, visando a um real desenvolvimento, três são os pontos essenciais a atingir: a) conhecer os solos; b) ao utilizá-los, observar e medir sua evolução e seu comportamento, em função dos manejos, a fim de tentar impedir sua deterioração; c) saber transferir os conhecimentos, isto é, saber transferir as experiências adquiridas em um meio geográfico para outros meios equivalentes. A -Primeiro objetivo: conhecer os solos O aporte mais significativo da Pedologia moderna foi, sem dúvida, o que diz respeito ao conhecimento das organizações morfológicas das coberturas pedológicas, e também o do conhecimento das funções dessas organizações. A percepção de que todo o solo é um meio organizado, estruturado e que a distribuição dos constituintes não é aleatória e guarda uma relação entre si; a percepção de que, na totalidade, o solo - a cobertura pedológica - tem, como toda entidade natural, uma morfologia, isto é, uma anatomia, e que esta desempenha papéis importantes no comportamento dos solos; enfim, a percepção desse fato estrutural não é recente, principalmente para aqueles que souberam associar, desde há várias dezenas de anos, o campo ao microscópio. Entretanto, por razões que não temos tempo de evocar no momento, a percepção da importância fundamental da morfologia da cobertura pedológica, e seu corolário, o investimento científico necessário para conhecê-la, limita-se à minoria de pesquisadores. Desse modo, o conhecimento real, detalhado, das estrut uras das coberturas pedológicas bem como das funções dessas estruturas ficou muito atrasado. Em certas regiões intertropicais, no entanto, as pesquisas se desenvolveram de outro modo. Os estudos que foram feitos, em diferentes escalas, durante muitos anos, permitiram evidenciar duas realidades básicas, descritas abaixo: 1. O solo - a cobertura pedológica - é realmente um meio organizado e estruturado. Os constituintes do solo não estão dispostos entre si de um modo aleatório, e em todas as escalas, do cristal e da célula até a bacia hidrográfica e a paisagem regional, esses constituintes se organizam em estruturas. Sabemos, também, que essas estruturas estão ligadas entre si, no espaço e no tempo, e que são específicas do meio pedológico: elas constituem, na realidade, a principal originalidade dos solos. 2. Desempenhando, em todas as escalas, papéis fundamentais no funcionamento e no comportamento físico-químico e biológico dos solos, as estruturas pedológicas se traduzem em formas de distribuições e arranjo dos constituintes em todas as escalas; em termos de agregação, de concentrações lineares ou nodulares de certos constituintes; e também, e é muito importante, em termos de sistemas de vazios, de sistemas de porosidade. Assim, em função dessas duas realidades, quando nos propomos a estudar acuradamente questões como a fertilidade do solo, este enquanto fonte de matéria, as funções hidrológicas e depuradoras dos solos, ou ainda o seu comportamento mecânico, não podemos mais ignorar a anatomia dos solos: como ela é, como ela se organiza, como ela se transforma permanentemente, o que são suas funções. B - Segundo objetivo: observar e medir a evolução dos solos em função dos modos de sua utilização, a fim de impedir as evoluções destrutivas É necessário ter mais consciência e conhecer melhor o papel frequente e infelizmente devastador, da ação do homem sobre a evolução atual das coberturas pedológicas. Em diferentes regiões do mundo - mediterrânica, tropical, equatorial - foram feitas inúmeras comparações detalhadas entre solos de áreas não utilizadas pelo homem e os de áreas vizinhas, utilizadas de diferentes maneiras para agricultura ou outros fins. Foi possível, muitas vezes, em diferentes locais, acompanhar a evolução dos solos, à medida que se fazia o desmatamento e o cultivo comparando diversas técnicas de desmatamento e utilização dos solos. Estes estudos revelam que as rupturas de equilíbrio provocadas por mudanças ambientais, que à primeira vista afetam apenas a parte superficial dos solos, na realidade, frequentemente acarretam muito rapidamente modificações pedológicas significativas, em particular modificações importantes na morfologia superficial e profunda dos solos. A erosão dos solos é uma consequência aparente e superficial de modificações que ocorrem em profundidade, em geral de ordem estrutural, e cujos fatores são múltiplos. Entre essas modificações é preciso ressaltar as seguintes: - a compactação dos solos que se faz durante os desmatamentos e durante as operações de manejo; - as transformações e as diminuições das atividades biológicas; - as dessecações extremas que se produzem, durante as estações secas, no interior dos solos cuja cobertura vegetal foi totalmente modificada; e - as acumulações superficiais de sais ou, ao contrário, o empobrecimento em cátions que promovam a estruturação. Todas essas transformações afetam as estruturas e as porosidades dos solos, até várias dezenas de centímetros de profundidade; agem sobre os regimes hídricos, superficiais e profundos; e modificam o sentido da circulação das águas. Tudo isso, por sua vez, provoca também novos arrastamentos da matéria, portanto, mais empobrecimentos: - a destruição das estruturas libera partículas finas, que vão ser carriadas; - a aeração reduzida favorece a solubilização de elementos, que vão ser lixiviados; e - a diminuição das porosidades acelera o começo da erosão. E assim, vão se suceder, num mesmo lugar e muito rapidamente, diferenças nas estruturas e porosidades, acarretando novos processos, tudo caminhando, no geral, em direção a: - diferenciações estruturais verticais mais pronunciadas; - excessos temporários de água mais frequentes; - dinâmicas laterais mais acentuadas; e - empobrecimentos mais marcados. Tal situação resulta em solos cujas potencialidades diminuem consideravelmente, não somente por causa da erosão, mas também por causa das profundas modificações que ocorrem nas estruturas e nos constituintes dos solos. Eu insisto sobre o fato de que, quando falamos de conservação dos solos é preciso lembrar algo mais que o simples problema da erosão. Esta é, sem dúvida, um fenômeno grave; porém existem outros tão ou mais importantes do que a erosão, e que devem nos preocupar seriamente. São eles: - os fenômenos de compactação, superficiais e profundos; - os processos de gênese de novas descontinuidades nos solos, tais como as provocadas pelo pé de arado; - os fenômenos de empobrecimento de partículas finas; - as salinizações; - os excessos hídricos temporários; e - os empobrecimentos biológicos. Devemos desenvolver, com urgência, as pesquisas sobre todos esses fenômenos de degradação dos solos. Para terminar este assunto, eu queria ainda insistir sobre a necessidade de se atentar ao fato de que o essencial dos problemas de conservação dos solos depende muito mais do estado morfológico e biológico dos solos do que seu estado químico. É claro que as análises químicas são necessárias para avaliar certas propriedades e qualidades dos solos; mas elas são insuficientes e, muitas vezes, inadequadas para abordar os principais problemas levantados pela utilização e pela conservação dos solos. C - Terceiro objetivo: transferir os conhecimentos adquiridos A questão é saber como transferir os resultados das experiências de manejo, alcançados em um determinado solo, em condições geográficas bem conhecidas, para outro meio geográfico e pedológico. Esse problema é, com certeza, um dos mais difíceis de solucionar: é necessário reconhecer que a Ciência do Solo tem sido, atualmente, acusada de constituir um freio ao desenvolvimento, por causa da sua incapacidade em dar aos biólogos, aos agrônomos, aos planejadores e aos que trabalham com mecânica de solo, entre outros, os dados precisos que permitem identificar com certeza quanto e como dois meios pedológicos são idênticos ou diferentes. Esses dados são indispensáveis, se queremos conseguir a transferência de uma técnica nova, de um meio para outro meio. Por exemplo, uso de sementes e técnicas culturais novas, de técnicas de irrigação com efluentes, de ordenamentos hidráulicos, de técnicas de trabalho de engenharia, etc, tudo isso não é transferível de um meio pedológico a outro, se não dispusemos de ferramentas precisas para identificarmos os meio pedológicos, em particular os meios sobre os quais são efetuadas as experimentações e os aperfeiçoamentos das técnicas. aperfeiçoamentos das técnicas. Também nesse domínio, a Pedologia inter-tropical permitiu alcançar, nestes últimos anos, alguns progressos importantes. É possível salientar que, de modo geral, e no mundo todo, acreditávamos, e ainda acreditamos, que a chave das transferências de conhecimento é a classificação de solos, cada um sendo definido, dentro da maioria das classificações, por um perfil tipo, caracterizado com o maior rigor possível. O melhor resultado, nesse sentido, é sem dúvida o da Soil Taxonomy dos Estados Unidos. Essas classificações pedológicas são linguagens, são instrumentos de caracterização e de cartografia. No entanto, a experiência tem mostrado que, muitas vezes, esses instrumentos são insuficientes, e isso por duas razões principais, a saber: - em todas as classificações, a caracterização dos solos é insuficiente, o que ocorre mesmo com a Soil Taxonomy, apesar de ser a mais precisa; muitas características essenciais, particularmente de ordem estrutural, não são levadas em conta nesta e nas outras classificações; e - em todas as classificações, a unidade descrita e classificada, que é proposta aos cartógrafos e, posteriormente, aos utilizadores, é o perfil vertical, o pedon, que é uma unidade totalmente artificial. Em relação a esses problemas da transferência de conhecimentos, trabalhos recentes permitem afirmar que sendo fortemente estruturadas e fortemente diferenciadas vertical e lateralmente e sendo o sítio de transferências verticais e laterais de matéria, as coberturas pedológicas são o local de modificações estruturais rápidas e importantes. Todos esses aspectos obrigam a repensar os procedimentos bem como os métodos de caracterização dos solos e de suas potencialidades. Quatro pontos são particularmente importantes. 1. As unidades pedológicas naturais, que podem permitir as transferências de conhecimento, devem ser procuradas na direção do horizonte, do arranjo elementar e da unidade de paisagem, como a bacia hidrográfica elementar, e não deve se limitar, portanto, ao estudo do pedon. 2. A caracterização detalhada dessas unidades pedológicas naturais deve começar pelas organizações morfológicas, isto é, por aquilo que chamamos a análise estrutural, pois são as organizações estruturais que permitem definir e delimitar as unidades pedológicas naturais. 3. As análises físico-químicas e biológicas, assim como as observações e medidas de funcionamento da cobertura pedológica, devem ser feitas em função dos resultados da análise estrutural. 4. As experimentações com manejo e uso de solos não são transferíveis, se não forem feitas sobre unidades pedológicas naturais, corretamente caracterizadas. Isso é particularmente importante para as experimentações agronômicas, realizadas muitas vezes sobre solos não caracterizados, mal delimitados, mal conhecidos, e sem acompanhamento das evoluções e comportamentos de suas características essenciais. Nessas condições de desconhecimento dos solos, é certo que no momento da transferência geográfica dos resultados das experimentações, uma grande parte do conhecimento gerado por essas experimentações é perdida. Duas conclusões se impõem. A primeira é estritamente pedológica: devemos afirmar que o conceito fundamental, essencial, que deve servir de base para as pesquisas sobre os solos e seu uso é o conceito de solos como um meio organizado e estruturado. A cobertura pedológica, como toda entidade natural, é antes de tudo um meio estruturado, o que quer pedológica, como toda entidade natural, é antes de tudo um meio estruturado, o que quer dizer que: - conhecer um solo - uma cobertura pedológica - é, antes de tudo, conhecer sua organização morfológica; e - utilizar um solo - uma cobertura pedológica - é, também e antes de tudo, valorizar sua organização morfológica. A segunda conclusão concerne à precisão que se deve exigir de qualquer pesquisa, de qualquer estudo pedológico necessário para o desenvolvimento. Os estudos e as experimentações necessárias antes de qualquer operação de uso do solo, assim como todas as pesquisas para o desenvolvimento, devem ser realizadas com extremo cuidado. É preciso dispor do tempo que é necessário para fazer esses estudos, é absolutamente necessário que nós, pedólogos, recusemos a realização de estudos insuficientes. Nos últimos 40 anos, assistimos demais a projetos que fracassaram, pois es tavam fundamentados em estudos totalmente insuficientes. É absolutamente necessário impedir esses desperdícios e devemos exigi-lo. Isto é essencial: a nossa responsabilidade de cientistas e a nossa credibilidade dependem da nossa capacidade de ser exigentes.