HERÓI E NAÇÃO: JOSÉ MARTÍ E A COMUNIDADE IMAGINADA EM CUBA NA DÉCADA DE 1960 Leandro Gomes de Oliveira1 (FAFIT) Resumo: Para compreender a formação do estado revolucionário, em Cuba, será feito uma articulação entre a identidade nacional e gênero. Vale destacar que as identidades coletivas, que se apresentam como imutáveis, orientam a construção de subjetividades e tendem a reproduzir relações sociais, pois são constituídas por símbolos, práticas, valores e condutas que identificam o grupo. Essa pesquisa tem a intenção de analisar a construção do herói José Martí - um dos heróis da independência de Cuba, ocorrida no final do século XIX -, pelo Estado Cubano, em meados século XX. Entendendo, que o herói é um aparato fundamental para construção dos estados nacionais, será analisado como a figura do herói Martí foi construída no momento revolucionário. Para observar a construção do herói Martí, pela Revolução Cubana, voltaremos o olhar para o periódico cubano Bohemia, um dos meios de comunicação do Estado Cubano, a partir da década de 1960. A categoria de herói, apresentada por Girardet; o conceito de comunidade imaginada, de Anderson; e o conceito de virilidade, são norteadores da análise da construção de José Martí, como herói da Revolução Cubana e símbolo da nação cubana. Palavras-chave: comunidade imaginada; virilidade; herói. 1 Artigo referente ao projeto de iniciação científica das Faculdades Integradas de Itararé, orientado pela Prof.ª Dr.ª Andréa Mazurok Schactae. 2223 Introdução No processo de construção de um Estado Nacional, é necessário criar meios para que se construa uma unidade nas comunidades, para que se ocultem as diferenças e contradições que estão implícitas numa coletividade. Aparatos como discursos, monumentos, cerimônias, símbolos, língua, história e memória, fazem com que os membros da comunidade se sintam como participantes de um todo maior,a nação, mesmo com diferenças entre si. Para se pensar a construção do Estado Nacional em Cuba será analisado o processo de construção de um dos símbolos do âmbito político fundamental e muito difundido para se formar uma sociedade una – o herói. Sempre presente na construção de uma comunidade nacional, é um líder a ser seguido e um individuo que unira um todo heterogêneo em uma só nação, sendo eleito pela coletividade o representante nacional. Na concepção de Raoul Girardet a figura do herói se forma da seguinte forma: O herói redentor é aquele que liberta, corta os grilhões, aniquila os monstros, faz recuar as forças más. Sempre associado também a imagem de luz – o ouro, o sol ascendente, o brilho do olhar – e a imagens de 2 verticalidade – o gládio, o centro, a arvore centenária, a montanha sagrada É na perspectiva do herói como um salvador, é que elegemos um herói para estudar a construção de uma comunidade nacional cuabana em 1960. Entre todas as suas facetas, ele foi um escritor e um militante político atuante no campo de batalha, se trata de José Julián Martí y Peres3, dos 42 anos de Martí apenas dezesseis foram vividos em Cuba, muito por conta dos vários exílios que sua militância gerou. A inquietação de José Martí em relação à política de Cuba se iniciou logo cedo, já na sua adolescência, escrevendo um artigo contra o reformismo cubano em 1868. Segundo ele não era interessante uma reconciliação entre a colônia e a metrópole espanhola, colocando a tese de que o melhor para Cuba seria a independência. Ao longo de sua jornada militante José Martí foi preso e deportado varias vezes, por questões políticas, entre uma das suas varias peregrinações ele 2 GIRARDET, Raoul. Mitos e Mitologias políticas. Companhia das Letras, SP. 1987. José Martí nasceu em Havana, Cuba em 28 de janeiro de 1853. 3 2224 teve estadia no México, onde ficou horrorizado com o sistema político de caudilhos, com características carismática, mas com um poder validado por meio da força militar. Neste momento de sua vida ele já começa a trocar diálogos com um amigo em Cuba, assim resultando um Martí que já começava a militar por meio do discurso, passando por vários países dentre ele os EUA, México, Espanha. E esse Martí,que nos diz Maria Guidolin, Na condição de cubano, sem pátria e desterrado, residente em Madri ponto de convergência hispano-americana -, viajante e residente no México, Guatemala e Venezuela e, por último, cidadão de Nova Iorque, para onde afluem hispano americanosde todos os lugares, cidade de língua estranha, foi delegado e representante dos cidadãos de língua espanhola, que atribuíram a Martí a total categoria hispano americana entre todos os escritores de seu tempo. Foi um representante do Sul e um divulgador do 4 Norte. Foi e é lido em toda a América . José Marti em toda a sua jornada sempre foi um militante ativo, a fim de construir um projeto nacional que libertasse Cuba de sua colônia espanhola. Paul Estrade afirma que em “sua militância [...] José Martí não desvia de seu aspecto social, que se confunde com seu ponto de vista patriótico” 5. José Martí viveu treze anos em Nova Iorque, momento que sua militância passa ser forte através das palavras, sobre tudo por meio dos jornais americanos – instrumento de grande alcance e influência sobre a população. Neste período que viveu nos EUA como nos evidencia Guidolin foi um momento de amadurecimento para Martí, tornando-se um representante da latinidade6 As facetas de José Martí não se bastaram apenas na literatura, pois também foi um combatente nos campos de batalha contra a colônia espanhola, onde teve a sua derradeira ação como militante, após ser morto num dos combates pela independência de Cuba7. Mesmo morto as ideologias de Martí não ficaram presas 4 SANTOS, Maria Angélica Guidolin dos. José Martí: um olhar cosmopolita em la edad de oro. Florianópolis, 2004. Dissertação (mestrado em Letras) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004. Disponível em:<repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/86665/209159.pdf?sequence=1>..Acesso em: 03 nov. de 2013. 5 SANTOS, op cit. p. 31. 6 Ibidem. 25-26. 7 Para independência de Cuba, ver BETHELL, Leslie. História da América Latina – da Independência até 1870. São Paulo, EDUSP, 2009. p 315-316. 2225 apenas no momento de independência, a revolução de Fidel Castro a todo momento era remetida ao pensamento de Martí que mais uma vez foi retomada, mas agora em luta de resistência contra os EUA, a presença de José Martí se faz muito presente tanto no âmbito de suas ideologias ou até em partidos fundados em sua memória. O objetivo desse texto é identificar, a partir da analise de artigos da revista Bohemia, sobre José Martí, a construção do herói e de sua formação como um símbolo da revolução cubana. Entendendo esse processo como parte da formação do estado nacional no período revolucionário, fazendo uma articulação entre gênero e a formação da comunidade imaginada. A construção de um estado nacional passa por procedimentos sócio-políticos nos quais se deve apropriar-se de meios para que uma comunidade heterogenia se sinta parte de um todo nacional. Só assim podendo construir um estado nação, pois o estado nacional logo depende continuamente da sua população para que sua existência se revigore. Um dos aparatos que os Estados se apóiam para formar a comunidade imaginada é o herói. Porém, para que esse herói cative a população, a ponto de elegerem ele como seu representante, deve haver também toda uma dedicação para que se glorifique o herói não apenas como um personagem mais como parte intrínseca do nacional. Portanto é valido se analisar como se deu a construção desse herói nacional em um determinado recorte temporal e documental. Nessa pesquisa serão realizadas sobre artigo da revista Bohemia, publicados na década de 1960. Os documentos consultados estão disponíveis na versão digital do periódico8, onde os artigos fazem parte do acervo digital da revista feito em comemoração ao aniversário de José Martí. A revista será tomada como um dos meios que constrói toda a grandeza e a representatividade que essa figura expressa, pois Maria Helena Capelato e Maria Ligia Prado nos evidenciam que a escolha de um periódico “ [...] como objeto de estudo justifica-se por entender-se a imprensa fundamentalmente 8 Revista Bohemia, disponível em : <www.bohemia.cu> 2226 como instrumentos de manipulação e intervenção na vida social[...]” 9, assim nega-se a imprensa sendo apenas um instrumento de informação. As analise sobre o periódico nos levará uma discussão sobre o discurso que foi utilizado para a formação do estado revolucionário, o qual foi apresentado ao povo. Por meio da analise da construção do herói será possível identificar o modelo cidadão apresentado para a população. As revistas são de importância impar para se perceber tais pontos citados, pois segundo Jean-François Sirinneli nos afirma que “uma é revista antes de tudo lugar de fermentação intelectual e afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade”10, assim a revista denominadas com essas características é uma fonte com evidencias importantes para as questões colocadas, pois com a sua fermentação intelectual ela é capaz de formar um modelo de cidadão. A construção do estado nacional e da identidade nacional é norteada de características identificadoras da masculinidade, logo a cidadania também será marcada por uma virilidade dando o exemplo do herói com representante de um ideal masculinidade e um modelo de cidadão. Entender o modelo de masculinidade, encarnado no herói, é fundamental para compreender a sociedade. Esse herói em questão, José Martí, teve forte influência na revolução cubana, onde seus ideais foram difundidos por vários meios. Com pensamentos de liberdade e de formação de uma comunidade nacional, sua figura foi de importância em vários momentos até mesmo na propaganda criada pela Revolução Cubana, ou até Fidel Castro que foi comparado com Martí. José Martí na revista Bohemia 1960 Para dar inicio aos apontamentos sobre a formação da figura de Martí no processo revolucionário, tomo uma reflexão feita por Che Guevara momentos depois da tomada de Havana: 9 CAPELATO, Maria Helena. PRADO, Maria Ligia apud LUCA, Tânia Regina de, História dos, nos e por meio dos periódicos in: PINSKY, Carla. (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. 10 SIRINNELI, Jean-François apud CAPELATO, Maria Helena. PRADO, Maria Ligia apud LUCA, Tânia Regina de, História dos, nos e por meio dos periódicos in: PINSKY, Carla. (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. 2227 Com esforce sincero do homem simples foi erguido o edifício revolucionário e nossa missão é a de desenvolver o que há de bom e nobre de cada um, transformando todo homem em um revolucionário [...] de sacrifícios cegos e 11 sacrifícios não recompensados também se fez a revolução. Por meio dessa breve reflexão de Che Guevara de fazer todo homem um revolucionário e de se desenvolver a revolução, podemos iniciar as discussões sobre a formação da Comunidade revolucionaria, a qual estava por se construir. Vale destacar que não basta apenas conquistar a batalha, mas sim formar uma população homogenia, a qual se sinta pertencente ao novo estado nacional que se estava por construir. A formação de um estado nacional esta fundamentado em aparatos que servem de base para se formar uma homogeneidade entre membros heterogêneo, para haver essa possibilidade de união entre uma nação é necessário que aparatos sejam criados para se ter um norteador e espelho para a população – o herói é utilizado como um desses aparatos que leva a formação da comunidade imaginada. Para de Benedict Anderson a comunidade é imaginada: Porque até os membros da mais pequena nação nunca conhecerão, nunca encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa mesma nação, mas, ainda assim, na mente de cada um existe a imagem da 12 sua comunhão Para se formar uma nação faz necessário que os indivíduos tenham muitas coisas em comum, mas ao mesmo tempo abrir mão de algumas coisas, segundo Gellber o “o nacionalismo não é o despertar da consciência das nações onde elas não existem”13. Nessa perspectiva fica evidenciado que o nacionalismo é mascarado sobre aparências, onde é legitimada pelo estado por meio das práticas políticas, assim uma comunidade tem suas aparências orientadas constantemente no cotidiano. A nação é imaginada como comunidade, porque independente das desigualdades ela sempre será concebida como um todo homogêneo, formando 11 Reflexão de Che Guevara apud Héctor . Revoluções na América Latina: o que são as revoluções? Mexico e Bolivia, Cuba e Nicaragua. São Paulo: Atual. p. 73. 12 ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo, Cia das Letras, 2005, p. 25. 13 Gellner apud. ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo, Cia das Letras, 2005. p. 26. 2228 uma espécie de fraternidade na percepção de Anderson, e são essas fraternidades que levam milhões de pessoas matarem e quiseram morrer por imaginário construído. A construção dessa comunidade imaginada depende de um conjunto de construções discursivas como textos, símbolos, história, memórias – onde vão ordenar e construir uma homogeneidade nas comunidades imaginadas ocultando contradições. No período revolucionário a imprensa foi um desses aparatos que ajudaram a concretização da revolução, com sua forma discursiva, tomando um símbolo muito constante em varias processos de formação de estado nacional – o herói. No inicio de 1960, a revista Bohemia é uma porta voz do estado cubano. Nesse periódio foi publicado um artigo, em forma de poema, que apresenta um Martí que se alegra com a formação e a vitória da revolução. Segundo a publicação seria como se fosse as ultimas palavras do defensor da independência para Cuba que ri neste momento com a revolução. Ao longo do texto escrito por Jesús Orta Ruiz14, Martí é apresentado como se estivesse na figura de uma pedra, a qual traça o seu caminho desde das lutas por independência até a chegada da Figura de Fidel Castro. A publicação vem construir uma nova perspectiva de José Martí, um herói que vai narrar a sua inquietude de ficar imóvel feito uma pedra enquanto vê as necessidades que Cuba estava passando no período de revolução. O autor cria a imagem de Martí como se ele estivesse em um estado de pedra, vendo a situação de Cuba mais sem poder se mexer, assim fazendo uma alusão com o contexto de luta pela independência onde Martí teve que se exilar sem poder lutar ativamente por Cuba e demonstrando, que o martírio que Martí passou no passado, também está ligado aos revolucionários que tiveram que se exilar e ficar vendo os problemas de Cuba a distância, assim o herói do passado se torna providencial para o presente revolucionário. Para Girardet o herói é: 14 Poeta de caráter revolucionária, jornalista, mais conhecido por seu pseudônimo – El Indio, mas em suas obras também aparecem com Jesus Ribona, Criollo e Juan Martin de la Hoz. De origem humilde camponês ganhou Prémio Nacional de Literatura (1995) que foi traduzido para o Inglês, francês, italiano, checo, russo, búlgaro, chinês e vietnamita. Colaborador da revista Bohêmia e de outros periódicos nacionais. 2229 [...] o homem providencial aparece sempre como um lutador, um combatente. Sempre ameaçado, sempre resistindo à beira do precipício, recusa-se a submeter o destino [...] É na manifestação do presente imediato – presente de decadência, de confusão ou de trevas - que ele se afirma e 15 se define; com ele, graças a ele, o “depois” não será mais como o antes. É esse homem providencial que na luta contra a colônia espanhola e que sofreu em determinados momentos, sem poder estar em Cuba, mas também atuou em um campo de batalha, que o estado revolucionário precisa trazer a tona novamente. Era preciso demonstrar as semelhanças entre as lutas de Martí com aos dos membros da Revolução, o mesmo martírio e sofrimento que José Martí sofrerá no passado aconteceu novamente na revolução. Na sequência o autor continua desbravar a figura de Martí, trazendo ela para presente. Então nos seus versos Martí aparece cansado de apenas ser um monumento, ou seja, a figura do herói apenas em um estatua já não bastava para a revolução. O homem providencial, que serviu Cuba no passado, deveria estar de volta no imaginário da população e mais uma vez demonstrando que não foi fácil, já partindo para um apelo em referencias a Revolução. Ao escrever o autor incisivamente cria a imagem de Martí como um guerrilheiro da revolução, criando uma imagem de um herói do passado que retorna como um símbolo da revolução. Na sua descrição cada passo dado pelos lideres revolucionários, foram guiados pela imagem de José Martí. Mais ainda que guiados, se apresenta um imaginário de que ele esteve presente nas prisões e nas serras, como um verdadeiro guardião da Revolução. Vale destacar que Girardet, afirma que o imaginário que forma o herói se manifesta da seguinte maneira: [...] as manifestações do imaginário mitológico apresentam, com efeito, certo número de traços comuns. Elas pertencem, em outros termos, a um sistema particular de discurso ou, se prefere, a modos originais de expressão tão afastados, sem dúvida, de construção retórica quanto pode 16 estar a linguagem musical das estruturas da formação verbal. Com isso podemos dizer que o mito herói é formado pelo estado como um sonho que será organizado com um conjunto de imagens no imaginário, isso só é 15 16 GIRARDET, Raoul. Mitos e Mitologias políticas. Companhia das Letras, SP. 1987. p 80-81 GIRARDET, op cit, 1987. p. 34. 2230 possível por meio do discurso e da construção retórica. Ao longo dos tempos os estados criam imagens para unir as comunidades com um papel de mobilização afim de utilizar o mito/herói como o profético, que ocupa o lugar importante nas origens de revoluções ou união das sociedades em prol a uma manifestação maior. O herói é uma construção feita no imaginário, e essa figura do herói também é revestida de características que também são construídas pelo Estado, quando a publicação diz que Martí esteve diante da morte, mas mesmo assim em um ato de heroísmo enfrentou as dificuldades e que esteve nos momentos mais difíceis com os revolucionários demonstrando todo sua bravura e coragem, trata-se de formar uma figura que está disseminada em toda formação de um herói que é a questão da virilidade. A virilidade que é formada em torno da figura do herói, onde Claudine Harache nos define a virilidade como sinônimo de força, ou pelo menos ela se supõe – a força física, simbólica mais também moral, a força de caráter que tanto se fala também está presente no homem viril, essa força ira resultar numa aptidão para a liderança racional sendo quase que intrínseca com a detenção do poder, a virilidade não fica denominada apenas na força física como aparenta ser mais ela também se revela por atitudes como, autodomínio, firmeza e resistência.17 O Estado se apresenta como viril colocando o herói em um espaço que o cerca de características identificadoras da masculinidade que são pré-denominadas ao herói, a figura masculina cercada de virilidade, força, destreza, coragem colocando como um líder a ser seguido pela sociedade, assim por meio dessa virilidade o herói se configura como um guerreiro salvador.18 Esse herói que é formado como viril, é visto pelo Estado como um representante da força e da bravura. Portanto os discursos construídos estão cheios do ideal de virilidade, incorporado em um herói masculino. E o discurso da revista Bohemia não foge dessas características, pois aponta que a bravura e a coragem de 17 COURTINE, Jean-Jacques. HISTÓRIA DA VIRILIDADE. Rio de Janeiro, Vozes. 2013, p. 16. Traduzindo o debate: uso da categoria gênero é formada pelas relações sociais, estas estão baseadas nas diferenças entre sexos, assim constituindo no interior das relações de poder. Sendo que gênero é saber as diferenças entre os sexos , e este uso das diferenças nasce em uma disputa social e política sendo os meios para que as relações de poder e de dominação sejam formadas, portanto gênero se constitui em uma organização social formada pela diferença sexual. Para saber mais sobre gênero ver: PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate : o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História, São Paulo, v. 24, N.1, p.77-98, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/his/v24n1/a04v24n1.pdf>. Acesso em : 15 de fev. de 2014. 18 2231 José Martí, transcende do passado para o presente revolucionário. Criando um paralelo entre a virilidade do herói Martí e também sua imagem identificadora do homem viril, com a figura do guerrilheiro. As heroínas também contem traços marcantes de bravura, mas a sua construção é feita de uma maneira que não tira suas marcas de feminilidade como nos aponta Schactae, os heróis nacionais e das instituições armadas são reprodutores de modelos de masculinidade hegemônica. Os valores e as características que os definem são construções simbólicas, que se adaptam às necessidades apresentadas pelo presente e reproduzem um ideal de masculinidade. Enquanto para as heroínas nacionais é construído um modelo de feminilidade que está vinculado à maternidade e à santidade, portanto à esfera privada, o modelo masculino está ligado à esfera pública e às armas 19 – instituições armadas e conflitos armados. Essa justificativa do modelo masculino estar ligado ao publico, logo estando próximo dos conflitos armados constrói um herói cercado de sua virilidade, e o Estado como reprodutor de um cenário que se encontra ligado ao gênero masculino. A figura de José Martí construído pelo governo revolucionário, por meio do discurso da revista Bohemia, é este homem viril que está ligado ao publico e que volta ao imaginário da população como aparato formador da comunidade revolucionária com objetivo de unir a população em um todo. Considerações finais Essas considerações evidenciam que para a formação da comunidade imaginada dos revolucionários é preciso aparatos para que a população se sinta parte de um todo, formando o estado nacional cubano. O herói é parte desses aparatos mediadores entre estado e população, sendo ele um espelho a ser seguido e glorificado. 19 SCHACTAE, Andréa Mazurok Farda e batom, arma e saia: a construção da polícia militar feminina no Paraná (1977-2000) Curitiba, 2011. 282.f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011. 2232 O herói aparece com um formador de ideologias, ele que no passado já se fez glorificado como um salvador para nação, ressurge no imaginário da população cubana afim de glorificar agora uma nova etapa que ainda necessita desse homem providencial. José Martí deixa de ser apenas um monumento para se tornar muito mais vivo no imaginário população e assim participa ativamente do processo revolucionário. José Martí teve sua imagem construída pelo periódico Bohemia, de um modo que ele fosse o elo formador da comunidade revolucionária. Ao trazer Martí para o contexto atual de 1960, o Estado Cubano consegue que a nação veja a figura de um homem que lutou pela sua nação, no passado, dizendo que o processo, em que Cuba se encontra neste momento, o deixa feliz e que é uma ideologia própria dele que está se realizando. O Estado transformou Martí em um revolucionário, comparado a Fidel Castro ou outro membro da Revolução. É possível considerar que esse herói, formador da comunidade imaginada dos revolucionários, está cheio também de construções formadas pelas narrativas. Os textos traduziram para o leitor o mito histórico da imagem do herói, por isso é preciso construiu um apelo, uma glória e por fim martírio afim de que a nação se identifique de alguma maneira com Salvador/herói. Assim o mito tecido em torno do Salvador/herói, tende a combinar vários sistemas de imagens ou de representações. Certamente uma espécie de um imaginário criado no âmbito da política, para assim criar uma teia de união para se tornar um norteador de um sistema maior de criação das comunidades imaginas, sendo assim na formação dos estados nacionais. O herói Martí que é formado em novo contexto se torta um norteador da população que vê, por meio de um discurso construído pela revista Bohemia, o seu salvador da independência estar no meio dos revolucionários. Portanto, eles devem creditar seus votos aos revolucionários. Assim criando um elo de ligação entre estado e população formando a comunidade imaginada dos revolucionário. As características identificadoras da formação do herói apresentadas neste presente artigo são formadas por ideias masculinos e orientam as práticas da nação cubana. A permanência desta construção simbólica de domínio de masculinidades é um indício da permanência das diferenças de gênero que subordinam o feminino ao 2233 masculino e definem os espaços dos homens e das mulheres. A memória e o culto aos heróis os tornam guias e modelos que representam o ideal de um líder que mesmo através de memórias construídas é capaz de ser um aparato formador de um estado nacional. Referências ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas. São Paulo, Cia das Letras, 2005. CAPELATO, Maria Helena. PRADO, Maria Ligia apud LUCA, Tânia Regina de, História dos, nos e por meio dos periódicos in: PINSKY, Carla. (org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. COURTINE, Jean-Jacques. História da virilidade. Rio de Janeiro, Vozes. 2013 GIRARDET, Raoul. Mitos e Mitologias políticas. Companhia das Letras, SP. 1987. Héctor . Revoluções na América Latina: o que são as revoluções? Mexico e Bolivia, Cuba e Nicaragua. São Paulo: Atual. p. 73. PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História, São Paulo, v. 24, N.1, p.77-98, 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/his/v24n1/a04v24n1.pdf>. Acesso em : 15 de fev. de 2014. SANTOS, Maria Angélica Guidolin dos. José Martí: um olhar cosmopolita em la edad de oro. Florianópolis, 2004. Dissertação (mestrado em Letras) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004. Disponível em:<repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/86665/209159.pdf?sequence=1 >..Acesso em: 03 nov. de 2013. SCHACTAE, Andréa Mazurok. Farda e batom, arma e saia: a construção da polícia militar feminina no Paraná (1977-2000) Curitiba, 2011. 282.f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011. 2234