LAZER E PROCESSOS EDUCATIVOS NO JARDIM GONZAGA – SÃO CARLOS/SP*1 Luiz Gonçalves Junior (Doutor - DEFMH2-PPGE3-SPQMH4-NEFEF5/UFSCar) Mônica dos Santos Lima (Licencianda - SPQMH-NEFEF/DEFMH/UFSCar) Matheus Oliveira Santos (Especialista - SPQMH-NEFEF/DEFMH/UFSCar) Maria Aparecida Maia (Graduada - SMEL/PMSC6) José Adônis da Silva Junior (Especialista - SMEL/PMSC) Resumo O presente estudo desenvolveu-se no Jardim Gonzaga, bairro periférico localizado no município de São Carlos, interior do Estado de São Paulo, que passa por processo de urbanização e no qual vimos desenvolvendo o projeto de extensão “Vivências em Atividades Diversificadas de Lazer”, da Universidade Federal de São Carlos, em parceria com o projeto “Campeões na Rua”, da Prefeitura do Município de São Carlos. A pesquisa teve como objetivos investigar: a) as percepções dos participantes dos projetos, bem como de seus pais ou responsáveis, sobre as mudanças de local de desenvolvimento das atividades em decorrência de urbanização do bairro; b) a expectativa com a urbanização do bairro e a construção de Estação Comunitária contendo equipamento específico de lazer; c) os processos educativos envolvidos nas vivências do projeto. Como procedimentos metodológicos buscamos, inicialmente nos inserir junto à comunidade, conhecendo o dia-a-dia dos moradores, anotando as observações em diário de campo, e posteriormente realizamos entrevistas semi-estruturadas com os participantes dos projetos e seus responsáveis. Como resultados identificamos: expressiva preferência dos participantes do projeto e de seus responsáveis pelo espaço atual (“Chacrinha” - provisório) em relação ao espaço anterior (“Campinho” – em obras); grande expectativa com a urbanização do bairro e o futuro equipamento específico de lazer na “Estação Comunitária”; e identificamos que além do que se aprendeu igual importância foi atribuída ao como se aprendeu. Introdução “(...) Olha o meu povo nas favelas e vai perceber, daqui eu vejo uma caranga do ano, toda equipada e o tiozinho guiando, com seus filhos ao lado, estão indo ao parque, eufóricos, brinquedos eletrônicos, automaticamente eu imagino, a molecada lá da área como é que tá, provavelmente correndo pra lá e prá cá, jogando bola, descalços nas ruas de terra, é... brincam do jeito que dá (...).” (Fim de semana no parque – Racionais MC’S). Entendendo a vivência do lazer como uma prática social e, portanto, como práxis humana que se dá no contexto do mundo através das relações entre pessoas, grupos, comunidades, sociedades e nações, desenvolvidas com certa finalidade e em certo espaço e * Referência: GONÇALVES JUNIOR, Luiz; LIMA, Mônica dos Santos; SANTOS, Matheus Oliveira; MAIA, Maria Aparecida; SILVA JUNIOR, José Adônis da. Lazer e processos educativos no Jardim Gonzaga – São Carlos/SP. In: XVII ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER – ÉTICA E LAZER NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, 2005, Campo Grande. Anais... Campo Grande: UCDB, 2005. (CD-ROM) 1 Endereço: UFSCar/DEFMH - Via Washington Luiz, km235 – Bairro Monjolinho – CEP13565-905 – CP676 – São Carlos – São Paulo – Tel.: (16)3351-8769 – Fax: (16)3351-8294 - e-mail: [email protected] 2 Departamento de Educação Física e Motricidade Humana. 3 Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos. 4 Sociedade de Pesquisa Qualitativa em Motricidade Humana. 5 Núcleo de Estudos de Fenomenologia em Educação Física. 6 Secretaria Municipal de Esportes e Lazer/Prefeitura do Município de São Carlos. tempo; e que tais pessoas ou comunidades são capazes de repassar conhecimentos e tradições, suprir necessidades de sobrevivência material e imaterial, pensar e refletir, sobre a situação de vida, inclusive propondo e executando transformações para garantir direitos ou dirimir distorções, resolveu-se estudar, após cuidadosa inserção na comunidade do Jardim Gonzaga (bairro periférico localizado no município de São Carlos, interior do Estado de São Paulo, em processo de urbanização): a) as percepções dos participantes dos projetos “Vivências em Atividades Diversificadas de Lazer” e “Campeões na Rua”, bem como de seus pais ou responsáveis, sobre as mudanças de local de desenvolvimento das atividades em decorrência de urbanização do bairro; b) a expectativa com a urbanização do bairro e o futuro equipamento específico de lazer; c) os processos educativos envolvidos nas vivências. Consideramos, desde logo, os participantes dos citados projetos, crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos, bem como seus pais ou responsáveis, não como receptáculos das situações que ocorrem na sociedade onde estão inseridos, mas como participantes dinâmicos das relações sociais, econômicas, culturais e históricas, o que permite que eles se apropriem/mantenham/questionem/modifiquem os valores e comportamentos de seu tempo e lugar. O Município de São Carlos e o Jardim Gonzaga São Carlos localiza-se na região central do estado de São Paulo, distante 230 Km da capital, sendo que esta localização permite rápido acesso a qualquer ponto do estado. Possui, de acordo com o IBGE (2002) 192.923 habitantes, sendo 183.369 na zona urbana e 9.554 na zona rural, e uma das maiores rendas per capita do Brasil. Na economia da cidade prevalece o setor industrial e de serviços, além de produção agropecuária (leite, laranja e cana-de-açúcar). A implantação de duas grandes universidades (Universidade de São Paulo – campus São Carlos – e Universidade Federal de São Carlos nas décadas de 50 e 60 respectivamente) aliada ao conseqüente surgimento de diversas empresas fez com que São Carlos ganhasse a condição de pólo tecnológico e se tornasse conhecida como a Capital da Tecnologia. Apesar de considerada como cidade pólo de alta tecnologia, São Carlos também possui bolsões de pobreza, entre eles, o Jardim Gonzaga. Área fronteiriça do perímetro urbano da cidade de São Carlos e detentor de altos índices de vulnerabilidade social (pobreza, violência, desemprego, drogas e baixa escolaridade) da cidade. O local começou a ser ocupado no período entre 1977 e 1979. Considerada “zona crítica”, de acordo com o perfil sócio-econômico, os moradores do bairro são bastante estigmatizados fora do mesmo (CAMPOS et al, 2003). Na atual realidade do Jardim Gonzaga podemos observar: alto índice de desemprego; predominante presença da mulher como “chefe de família”; pouca diferença de idade entre pais e filhos; quase inexistência de brinquedos industrializados; construção dos próprios brinquedos; desenvolvimento de brincadeiras de rua; relatos de jogos e brincadeiras das crianças compartilhados pelos pais ou responsáveis (CAMPOS et al, 2003). O bairro se caracteriza por ter uma ocupação irregular tanto no que se refere às dimensões e à ocupação dos lotes, como quanto ao caráter de ilegalidade de algumas construções, que se localizam próximas de uma grande área de risco e de preservação ambiental, chamada pelos moradores locais de “buracão” (local que possui nascentes, porém por ali também são despejados os esgotos das casas do Jardim Gonzaga, bem como de bairros circunvizinhos). Além disso, verifica-se a falta de serviços urbanos essenciais, principalmente na área da saúde, lazer e esportes, porém em processo de melhorias. O bairro passa atualmente por transformações através do “Projeto de Urbanização Integrado – Gonzaga e Monte Carlo” que se tornou possível graças a um financiamento viabilizado pela Prefeitura do Município de São Carlos (PMSC) junto ao “Programa Habitar Brasil do Banco Interamericano de Desenvolvimento” (HBB), cujo objetivo principal é o de revitalizar áreas degradadas econômica e socialmente, como é o caso do Jardim Gonzaga. Destacam-se as obras de infra-estrutura (drenagem, rede de água e esgoto, pavimentação, iluminação e contenção de encostas), as de reestruturação das casas e legalização daquelas em que os moradores já habitavam há mais de cinco anos (portanto, com direito de “usucapião”), a edificação de dois Conjuntos Habitacionais e da Estação Comunitária (ECO) - na qual haverá uma quadra poliesportiva coberta, um mini-campo de futebol, uma sala de projeção, uma área de convivência, um posto de saúde da família e uma creche. As obras e as atividades sociais já estão acontecendo, e a aparência dos dois bairros já está mudando, sendo que o HBB está envolvendo, ao todo, mais de 1500 famílias que vivem na região. O andamento das obras é acompanhado por uma Comissão de Moradores, que foi eleita entre eles a partir de várias chapas formadas; a eleição foi coordenada pela Secretaria Municipal de Orçamento Participativo. Destaca-se, no entanto, a existência de atraso nas obras da ECO, as quais deveriam ter sido finalizadas em agosto de 2004, sendo a previsão atual para conclusão das obras para agosto de 2005. A mudança do espaço e do cotidiano dos projetos A ECO está sendo construída em terreno que abrigava um campo de futebol, local chamado entre os moradores de “Campinho”, localizado na região central do Jardim Gonzaga, e que do ponto de vista fundiário era o único quarteirão regularmente destinado à Área Pública. Neste período de obras o desenvolvimento das ações da parceria entre o projeto “Vivências em Atividades Diversificadas de Lazer” (vinculado ao Programa Esporte Para Cidadania do Departamento de Educação Física e Motricidade Humana da Universidade Federal de São Carlos – DEFMH/UFSCar), e do “Campeões na Rua” (da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer – SMEL - e Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social – SMCAS - da PMSC) foram transferidas temporariamente do “Campinho” para a chamada “Chacrinha”, assim apelidada pelos participantes por lá ser no passado uma chácara particular de recreio denominada São Jorge, a qual foi inicialmente alugada pela PMSC, depois foi dada como área de utilidade pública e finalmente comprada, passando a ser denominada “Centro da Juventude Eliane Viviane”. O “Centro da Juventude Eliane Viviane” possui cerca de 12.290m² e localiza-se no bairro Monte Carlo, ficando nas imediações da Vila Conceição, Jardim Gonzaga, Cruzeiro do Sul, Cidade Aracy e Pacaembu. O citado Centro da Juventude possui um espaço agradável e atraente, muito arborizado, com árvores frutíferas de diversas espécies e horta comunitária. Também possui sala de vídeo, cozinha, refeitório, piscina, mini-campo de futebol e quadra poliesportiva. Para a transferência das atividades dos Projetos do “Campinho” (onde estão ocorrendo as obras da ECO) para a “Chacrinha” tomou-se como procedimento, inicialmente, conversar-se com os pais ou responsáveis das crianças, de que estaria-se acompanhando estas de suas residências para este espaço provisório. Cada mãe, pai ou responsável assinou uma autorização que permitia a criança participar das atividades no Centro da Juventude. Após entregue e recebida todas as autorizações passou-se a buscar as crianças em suas casas. Para chegar ao espaço provisório (“Chacrinha”) os educadores (professores da SMEL/PMSC; coordenador e monitora do projeto do DEFMH/UFSCar; voluntários do Programa de Pós Graduação em Educação da UFSCar), se encontram às 7h30min. no “Centro Comunitário Maria Bernadete Rossi Ferrari”, localizado no Bairro Pacaembu, e caminham pelas ruas dos três bairros (Pacaembu, Gonzaga, Monte Carlo) até chegarem a “Chacrinha”. Este trajeto, de aproximadamente 35min., fez com que as crianças, adolescentes e educadores ajudassem uns aos outros para a chegada ao destino, com muita conversa, discussões (especialmente para ver quem daria a mão para quem) e cuidado com aglutinações de grupos de participantes (que iam mais rápidos à frente ou que iam mais devagar atrás). No caminho de volta o mesmo ocorria, com a contribuição extra da Guarda Municipal devido ao trânsito intenso do horário (11h30min.) nas ruas locais. Tal deslocamento conjunto, na ida e na volta, se deu não apenas em decorrência da novidade do espaço, mas pela necessidade de segurança, em virtude da distância e do trânsito local ampliado e dificultado pelas obras. No desenvolvimento das atividades desta parceria, ao final de cada encontro com os participantes, em roda, discutimos, propomos e elaboramos conjuntamente (educadores e participantes) as atividades (brincadeiras, jogos, oficinas, dinâmicas, passeios, etc). Assim, respeitando os gostos e interesses compartilhados, desenvolvemos as atividades no encontro seguinte, que, aliás muitas vezes sofre alterações por iniciativa dos próprios participantes ou, em outras ocasiões, por limitações de espaço ou materiais. Também há momentos em que, apesar da combinação prévia, parte do grupo se dispersa com as atividades e acaba se organizando de modo autônomo e desenvolvendo outras. O foco central do trabalho pauta-se na atenção ao ser-com-os-outros-no-mundo, ser portanto integral, e que se faz e refaz nas relações de intersubjetividade com os outros seres tendo como pano de fundo o contexto do mundo. Ou, nos dizeres de FREIRE (2001): “consciente de que posso conhecer social e historicamente, sei também que o que sei não poderia escapar à continuidade histórica. O saber tem historicidade. Nunca é, está sempre sendo (...) A história é tão vir-a-ser quanto nós (...) quanto o conhecimento que produzimos. (...) Seria impensável um mundo onde a experiência humana se desse fora da continuidade, quer dizer, fora da História. (...) Não podemos sobreviver à morte da história que, por nós feita, nos faz e refaz.” (p.18-19). Salientamos ainda que, assim como MERLEAU-PONTY (1996), nos opomos a tradição cartesiana que “(...) habituou-nos a desprendermos do objeto: a atitude reflexiva purifica simultaneamente a noção comum do corpo e a da alma, definindo o corpo como uma soma de partes sem interior, e a alma como um ser inteiramente presente a si mesmo (...)” (p.268). Pois, “(...) o corpo não é um objeto. Pela mesma razão, a consciência que tenho dele não é um pensamento, quer dizer, não posso decompô-lo e recompô-lo para formar dele uma idéia clara. Sua unidade é sempre implícita e confusa. (...) Assim, a experiência do corpo próprio opõe-se ao movimento reflexivo que destaca o objeto do sujeito e o sujeito do objeto, e que nos dá apenas o pensamento do corpo ou o corpo em idéia, e não a experiência do corpo ou o corpo em realidade” (p.269). Metodologia Inicialmente buscamos nos inserir junto à comunidade, conhecendo o dia-a-dia dos moradores: seus gostos, necessidades, angústias, conflitos e, pouco a pouco fomos compreendendo a cultura dos habitantes do bairro, ainda que a partir de nossa cultura. Nossa atenção sempre foi mais voltada às crianças e adolescentes (entre 3 e 17 anos), participantes diretos dos Projetos “Vivências em Atividades Diversificadas de Lazer” e “Campeões na Rua”. Na inserção, além de muita conversa (fala e, principalmente, escuta), também houve muita brincadeira sendo co-participada entre nós e os participantes dos Projetos e vice-versa. Também houve cuidado para não imposição de saber, já que, conforme alerta FREIRE (2001): “estar no mundo implica necessariamente estar com o mundo e com os outros” (p.20) e não para os outros ou sobre os outros como se nos achássemos melhores, superiores, mais puros ou de vanguarda, até porque: “muito sonho possível ficou inviável pelo excesso de certeza de seus agentes, pelo voluntarismo com que pretendiam moldar a História em vez de fazê-la com os outros, refazendo-se nesse processo” (p.21). Para aprofundar o conhecimento sobre a mudança de espaço dos Projetos e o cotidiano do lazer nestes, além das observações registradas em diário de campo, realizamos entrevistas semi-estrutradas com 37 participantes (crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos) e seus respectivos pais ou responsáveis (25 pessoas), após o citado período de inserção na comunidade. No item “resultados” apresentamos análise dos dados coletados nas observações e entrevistas, incluindo algumas falas representativas dos sujeitos entrevistados. De acordo com NEGRINI (1999), entrevistas semi-estruturadas possuem característica menos formal, na qual o entrevistador tem maior liberdade para modificar a seqüência de perguntas, alterar a redação ou ampliá-las, oferecendo também maior liberdade ao entrevistado para dissertar sobre o tema ou abordar aspectos que sejam relevantes sobre o que pensa. Resultados A partir de nossa presença no bairro percebemos muito claramente que realmente trazemos em nosso corpo e em nossos movimentos marcas do que somos e de onde viemos. Assim, no início das atividades do projeto e deste estudo demos ênfase à observação aprofundada de gestos, palavras ou hábitos dos adolescentes e crianças participantes. Não descuidando das observações, demos início em um segundo momento, as entrevistas, nas quais obtivemos os seguintes resultados: a) Percepção das participantes dos projetos e seus pais ou responsáveis quanto à mudança do espaço Dos 37 participantes entrevistados 27 manifestaram no decorrer das entrevistas preferência pelo espaço atual (“Chacrinha” - provisório), enquanto 9 afirmaram preferir o espaço anterior (“Campinho” – em obras) e 1 (Matheus C., 7 anos) nunca foi ao novo espaço, pois sua mãe (Regina, 35 anos) não lhe deu autorização. A participante Fabíola, 11 anos (filha da Sra. Angelita, 24 anos) é uma das crianças que afirma preferir o espaço provisório: “gosto mais de ir na Chacrinha, porque lá tem as coisas pra brincar, gosto de tomar café, gosto de subir no pé de jabuticaba, no pé de acerola no pé de manga, gostava de pegar fruta no conde, gosto de nadar”. O participante Edvan, 14 anos (filho de Luzia F., 47 anos) também preferiu o espaço provisório, pois no anterior “não dava café da manhã. Aqui dá. Aqui tem piscina. Aqui têm mais árvores. Foi melhor ter mudado. O Campinho quando chovia era muito barro e agora na Chacrinha não, no campo não dava as coisas para comer e na Chacrinha dá, tem lugar para comer. Na chácara tem TV e no Campinho não tinha filme”. Apesar das afirmações acima, destacamos com base em nossas anotações diárias, que com a mudança do local de desenvolvimento das atividades do “Campinho” para a “Chacrinha” ocorreu um incremento na participação dos mais novos, entre 3 e 11 anos, diminuindo a participação dos mais velhos, entre 12 e 17 anos. Entre os 9 participantes que preferiam o espaço anterior está Milena, 12 anos (filha de Sra.Neide, 33 anos), ela achou “chata essa mudança, fica muito fechado lá. Aqui parece prezinho, tem muita criancinha, só porque aqui tem comida as mães deixa as crianças vir. Só porque tem comida. Lá nós fazia muita brincadeira, balanço, pega-pega, lá nós fazíamos mais suruba7, pé na lata. Aqui a gente não faz porque eles não deixa a gente ter a liberdade que a gente tinha no Campinho. Mas aqui na areia é legal. Lá só não tinha lanche, mas era perto de casa e dava pra ir comer”. Dos 25 pais ou responsáveis entrevistados 18 manifestaram no decorrer das entrevistas preferência pelo espaço atual (“Chacrinha”), enquanto 4 afirmaram preferir o 7 O jogo se desenvolve em um espaço retangular, no qual desenha-se três pares de quadrados alinhados, separados por um corredor, com espaço de aproximadamente 1 metro entre eles. Em uma das extremidades externas do espaço retangular se escreve céu e na outra suruba, tendo um grupo de jogadores, chamados de surubas, que atravessar da extremidade do céu até a da suruba pulando de um para outro quadrado sem deixar que o outro grupo de jogadores, chamados pegadores, os toquem e sem pisar fora dos quadrados. espaço anterior (“Campinho”), 2 mostraram-se indiferentes e outros 2 nada mencionaram a este respeito. A Sra. Marli, 33 anos (mãe dos participantes Leonardo, 8 anos; Willian, 9 anos e Maurício, 14 anos), por exemplo, entende ser “bom, melhor do que estar na rua. Melhor na Chacrinha, porque no Campinho era aberto. Aprendem mais na Chacrinha, o café da manhã, bolo de vez em quando; as professoras passavam na rua para levar as crianças, dá mais segurança”. Também prefere o espaço provisório Sra. Marina, 28 anos (mãe do participante Matheus T., 7 anos) pois “lá eles tem liberdade para brincar, lá é fechado e aqui no Campinho não era. Lá têm café da manhã, árvores, sombra. Aqui quando chovia não dava para brincar e lá tem lugar para proteger da chuva”. Sra. Regina, 35 anos (mãe do participante Matheus C., 7 anos) é uma das 4 pessoas que manifestou preferir o espaço anterior, inclusive, como já citado, não permitindo a ida de seu filho para o local provisório onde se desenvolvem atualmente as atividades do Projeto: “não deixo ir pra lá, porque as ruas são muito perigosas. Outra fica longe, aqui é pertinho. Eles brigam muito, aqui eu estou vendo”. b) a expectativa com a urbanização do Jardim Gonzaga e o futuro equipamento específico de lazer na Estação Comunitária (ECO) Dentre os 37 participantes entrevistados, 24 acreditam que a urbanização do bairro e a construção da ECO é totalmente positiva, 7 manifestam dubiedade nas respostas (mencionando prós e contras), enquanto 6 não expressaram opinião. Joice, 9 anos (filha de Luzia O., 47 anos) é uma das participantes que faz consideração positiva, pois, para ela “vai ficar legal, porque o Ginásio vai ser bem grandão, vai dá para brincar muito, vai ser muito bom o Posto de Saúde, não precisa ir lá em cima, lá lonjão, brincar na quadra vai ser melhor, porque vai ser um lugar fechado, vai dá para jogar vôlei, de futebol feminino, brincar de queima. Lá é melhor porque nesse Campinho, tem que ir lá no centro comer e voltar de novo e aqui não vai precisar disso mais, já vai ser no mesmo lugar”. Dentre as 7 participantes que manifestam dubiedade está Pamela, 14 anos (filha de Maria Lúcia, 41 anos), a qual entende que “vai ser bom o Postinho porque tem umas meninas passando mal, a quadra de vôlei para jogar aqui em vez de ir na UFSCar. O lugar vai ficar fechado não vai ter muita graça, fazer uma coisa pra umas pessoas e outras não. É melhor deixar o Campinho”. Dos 25 pais ou responsáveis entrevistados, 23 acreditam que a urbanização do bairro e a construção da ECO é positiva e 2 manifestam dubiedade nas respostas. Maria Catarina, 46 anos (mãe da Naiara F., 10 anos), expressa positividade em relação à urbanização, para ela “a Estação vai ajudar na orientação das famílias. Posto de Saúde, tem quadra de bola, isso ajuda bastante, é bom para o levantamento do Bairro. Vai ser uma grande coisa para o Gonzaga. Acho que lá vai precisar ter curso para poder tirar essa mulecada da rua. Vai ser bom, porque o bairro vai crescer, melhora as famílias. Tá quebrando tudo, mas vai ficar bom. Um bairro bonitinho, limpo, vai ser uma transformação da educação, da violência e da droga”. Dentre as pessoas que manifestam dubiedade está Sr. Aparecido, 46 anos (pai de Adriana, 16 anos), entende ele que “Vai ser bom, terá Posto de Saúde, bom será se todo mundo puder entrar na Estação, mas acho que não vai ser todo mundo não. Vai ser boa, para arrumar nossa rua para ficar bonito o nosso bairro”. c) Processos educativos envolvidos nas vivências Em nosso entendimento as pessoas estão permanentemente vivenciando processos educativos, educando-se na interação com outras pessoas, não devendo haver verticalidade entre estas, quer seja entre professores e alunos, pesquisadores e sujeitos da pesquisa, mais velhos e mais novos, e quaisquer outras. Tais processos se dão no seio das práticas sociais, como na vivência do lazer. A seguir damos destaque há alguns processos educativos por nós identificados (em diários de campo e entrevistas), apesar de já ser possível percebê-los permeando as falas destacadas nos itens anteriores (a e b). No trajeto de ida e volta entre o “Centro Comunitário Maria Bernadete Rossi Ferrari” e o “Centro da Juventude Eliane Viviane”, percebemos a ajuda não só nossa e dos Guardas Municipais para com os participantes no deslocamento nas ruas dos bairros Pacaembu, Gonzaga e Monte Carlo, como também entre os participantes mais velhos para com os mais novos, dando as mãos, orientando sobre como atravessar as ruas e cuidados com o trânsito. Na continuidade dos encontros também fomos notando uma melhor atenção dos mais velhos para com os mais novos nas situações de jogos e brincadeiras, no apanhar das frutas e na hora do lanche. Outra observação é referente às relações de gênero. No início das atividades na “Chacrinha” os participantes brincavam, jogavam e conversavam em grupos distintos, divididos quase exclusivamente em masculino e feminino. Tal ocorrência foi se modificando nos encontros, pudemos identificar, por exemplo, situações em que as meninas mais velhas ensinavam os meninos mais velhos a realizar os fundamentos do vôlei toque e manchete; as meninas mais novas convidando e recebendo os meninos mais novos para brincar de casinha; os meninos em geral, ajudando as meninas a confeccionar pipas e a jogar futebol. Percebemos também a ocorrência de significativa diminuição dos conflitos no dia-adia, passando a haver mais diálogo entre participantes – participantes, educadores – participantes e participantes - educadores, melhorando interação entre todos e possibilitando a formação de novas amizades. Na entrevista com o participante Elivelton, 14 anos (filho de Maria Helena, 53 anos) ele comenta que “a criançada se machucava, brigava” e isso diminuiu, declara ainda ter “aprendido a não mexer nas coisas dos outros, conquistando amigos”. Tiago, 9 anos (filho de Claudilaine, 34 anos) aprendeu a “brincar com estilingue mas não no passarinho, nem nas frutas”, demonstrando respeito e interação com o ambiente e a natureza, situação que pudemos observar nos diversos participantes: brincado na terra, subindo nas árvores, apanhando frutas no pé, brincando de Tarzã, de cavalinho nos galhos e de balanço. Observamos em dada situação alguns participantes jogando pedras em um animal silvestre (saruê) que apareceu em uma das árvores da “Chacrinha”, causando a morte do animal. Na ocasião ocorreu muita conversa, contação de história e trabalhos com dramatização e pintura sobre o episódio. Em momento posterior outro animal da mesma espécie apareceu no local e a reação dos participantes foi bem diferente, amistosa, sendo que inclusive levaram, juntamente com um dos educadores, um ovo para o saruê, acompanhando com curiosidade o animal até um buraco, no qual este se abrigou com o alimento. Outro processo educativo bastante destacado nos encontros diz respeito à elaboração das regras de convivência entre todos, bem como da combinação das atividades a serem desenvolvidas no encontro seguinte. Em roda discutíamos, propúnhamos e elaborávamos conjuntamente (educadores e participantes) as atividades (brincadeiras, jogos, oficinas, dinâmicas, passeios, etc) de modo compartilhado, sendo possível notarmos que a cada encontro crescia a participação e auto-organização. Nós educadores aprendemos com as crianças e adolescentes muitos jogos novos, como o “suruba”, e variações de regras de outros tantos, como “betsi” (conhecido por nós como “taco”), “vôlei”, “pique bandeira” e “futebol”. Um dos educadores que não sabia confeccionar pipa, também aprendeu a fazê-lo com os participantes. Considerações Finais Acreditamos que as transformações em curso no Jardim Gonzaga se fazem necessárias, devendo haver cuidado para respeitar a identidade e cultura dos moradores do bairro. É preciso observar a significância que os espaços do bairro tem para eles. Esperamos que os equipamentos e espaços que estão sendo construídos/revitalizados pela PMSC em parceria com o BID sejam mais do que visíveis, públicos, com administração compartilhada entre o poder público e a comunidade, possibilitando formas de lazer, interação social e definição de usos e prioridades. Percebemos que com a mudança do local de desenvolvimento das atividades do “Campinho” para a “Chacrinha” ocorreu um incremento na participação das crianças e diminuição da participação dos adolescentes. Entendemos através das observações sistemáticas e das entrevistas com os pais e/ou responsáveis que o aumento das crianças participantes se deve à oferta do lanche e da maior segurança que aqueles sentem ao verem seus filhos ou enteados se deslocarem na ida e volta a “Chacrinha” com os educadores e com a Guarda Municipal. Outro ponto positivo destacado pelos pais e/ou responsáveis é que a “Chacrinha” é fechada com muros e alambrados em seu entorno, enquanto o “Campinho” era quase completamente aberto. Por outro lado, a característica mais fechada da “Chacrinha” é um dos motivos expressado pelos participantes adolescentes como algo ruim. Além das atividades acordadas entre educadores e participantes (tais como brincadeiras populares; jogos adaptados de vôlei, basquete e futebol; contação de histórias; dramatização; pinturas e desenhos livres ou temáticos relacionados com a contação de histórias ou filme assistido), observamos que o espaço atual (“Chacrinha”), por ser bastante amplo e diversificado, também possibilitou a ocorrência de atividades em contato com a natureza (tais como subir em árvores; apanhar frutas; cada macaco no seu galho; balanço), sendo ainda mais autônomos os participantes neste processo. Por fim destacamos que além do que aprendemos (jogos; brincadeiras; respeito para com o outro, independentemente do gênero, da idade, da etnia, da condição social, da situação profissional, da cultura...) igualmente importante foi o como aprendemos (nos humanizamos): em experiências concretas, em vivências significativas, em reciprocidade. Referências CAMPOS, Silmara Elena Alves; GONÇALVES JUNIOR, Luiz; MAIA, Maria Aparecida; VASCONCELOS, Valéria Oliveira de; SILVA JUNIOR, José Adônis da; LIMA, Mônica dos Santos. O lazer cotidiano do Jardim Gonzaga - São Carlos. In: XV ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER - LAZER E TRABALHO: NOVOS SIGNIFICADOS NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, 2003, Santo André. Anais do.... CD-ROM. Santo André: 2003. FREIRE, Paulo. A sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d’água, 2001. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. URL: www.ibge.gov.br. Acessado em 29/08/2002. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 2ªed. São Paulo: Martins Fontes, 1996. NEGRINE, Airton. Instrumentos de coleta de informações na pesquisa qualitativa. In: MOLINA NETO, Vicente, TRIVIÑOS, Augusto N. S. (orgs.). A pesquisa qualitativa na educação física: alternativas metodológicas. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS/Sulina, 1999. p.61-93.