Práticas Interacionais em Rede Salvador - 10 e 11 de outubro de 2012 A VIDA NA PALMA DAS MÃOS: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO SOBRE MOBILIDADE E COTIDIANO Tatiana Paz1 Ivana Souza2 Lynn Alves3 Resumo: O presente artigo é resultado de uma pesquisa exploratória, cujo objetivo foi delinear um retrato das relações existentes entre mobilidade e cotidiano, a partir da rede social Facebook. Neste sentido, visando a familirização e identificação de idéias e questionamentos acerca desta temática, utilizamos uma amostra de 5 sujeitos, os quais acessam o facebook a partir de seus smartphones. As informações foram coletadas através de questionário contendo perguntas objetivas e subjetivas acerca do acesso e interação dos sujeitos. Os resultados da pesquisa revelaram que a publicização da vida no Facebook, a partir do uso do smartphone, tem sido uma alternativa buscada pelos sujeitos desta pesquisa. Palavras-chave: Mobilidade; Cotidiano; Redes Sociais Abstract: This article is the result of a research project whose goal was to delineate a picture of the relationship between mobility and daily life, from the social network Facebook. In this sense, aimed at identifying and ideas and questions about this issue, we used a sample of five subjects who access facebook from their smartphones. Information was collected through a questionnaire containing objective and subjective questions about access and interaction of individuals. The survey results revealed that the publicity of life on Facebook, from the use of the smartphone, an alternative has been sought by the subjects of this research. Keywords: Mobility, Daily Life, Social Networking 1. Introdução Como consequência da modernidade convivemos e participamos diariamente de um movimento, que nos aguça o desejo de participar, opinar, compartilhar idéias, registrar e divulgar acontecimentos e mostrar-nos de uma maneira mais ampla e disseminada, 1 Mestranda do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB). Membro do Grupo de Pesquisa Comunidades Virtuais (UNEB). E-mail: [email protected] 2 Mestranda do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB). Membro do Grupo de Pesquisa Comunidades Virtuais (UNEB) e do Grupo de Estudos em Cibermuseus (UFBA). E-mail: [email protected] 3 Doutora em Educação pela UFBA, professora titular da Universidade do Estado da Bahia e Coordenadora do grupo de pesquisa e desenvolvimento de jogos eletrônicos Comunidades Virtuais (UNEB). E-mail: [email protected] caracterizando o que Jenkins (2009) denomina de cultura da participação. Tais características estão no ar do tempo e se constituem em uma das máximas da cena contemporânea. Quase já não é “necessário espiar pelo buraco da fechadura: a tela global ampliou de tal maneira nosso ponto de observação que é possível nos encontrarmos, na primeira fila e em ‘tempo real’ diante do desnudamento de qualquer segredo” (ARFUCH, 2010, p.48). O avanço frenético da midiatização tem contribuido para que até as maiores forças da vida íntima – as paixões do coração, os pensamentos da mente, os deleites dos sentidos se tornem cada vez mais desprivatizados e desindividualizados, adequados portanto à aparição pública. Ser visto e ouvido por outros se tornou importante pelo fato de que todos veem e ouvem de ângulos diferentes (ARENDT, 2008). Acompanhando estas tendências, as redes sociais digitais/online, estão se revelando como ambientes que potencializam expressões desta natureza. Convidando os sujeitos interagentes à experimentar sua livre expressão e sua condição de autores e atores sociais, dando lugar, voz e vez aos movimentos e produções mais íntimas do seu cotidiano, as quais são criadas e compartilhadas em rede. O raio de abrangência de tais possibilidades se tornou ainda mais ampliado graças à fluidez comunicacional proporcionada pelos dispositivos móveis. Com a cultura da mobilidade em evidência, as ações desenvolvidas a partir das redes sociais se tornaram descondicionadas ao desktop, visto que é possível realizá-las em tempo real e em qualquer espaço, bastando apenas uma conexão wi-fi através de um dispositivo móvel, como um smartphone, por exemplo. Portanto, é tomando como referência este contexto, que o presente artigo busca de maneira exploratória, analisar as relações existentes entre mobilidade e cotidiano, a partir da rede social Facebook. 2. Cultura da mobilidade A cultura da mobilidade é uma das temáticas que tem sido alvo de variadas pesquisas no campo das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC); estudos que são especialmente influenciados pela explosão de acesso aos aparelhos celulares e demais dispositivos móveis conectados à rede wi-fi. Entretanto, ao contrário do que comumente se imagina, a cultura da mobilidade não nasce com o surgimento dos dispositivos móveis digitais ou com as redes sem fio da sociedade da informação. A mobilidade sempre atravessou a história da humanidade. Um exemplo disto são os processos civilizacionais e industriais, que buscaram controlar os nomadismos com o fortalecimento dos centros urbanos. A globalização, no entanto, representa um momento de forte desarticulação das fronteiras a partir de novos dispositivos que vão possibilitar deslocamentos físico e informacional. Podemos caracterizar a mobilidade a partir de três dimensões fundamentais: o pensamento, física (corpos, objetos, commodities) e informacional-virtual (informação). Quando pensamos na mobilidade física podemos referenciar uma lista variada de diferentes objetos que fizeram parte dessa cultura nômade: fogo, vestimentos, instrumentos musicais, ferramentas, armas, bijouterias, relógios de pulso, rádio, videocassete, walkman, etc. Hoje podemos citar os celulares, netbooks, GPSs, smartphones, videogames, etc. (LEMOS, 2011). A relação entre os meios massivos e a mobilidade apresenta algumas dificuldades, considerando que mover-se fisicamente no contexto das mídias massivas (televisão, rádio, impressos) representa dificuldades de acesso a informações. As mídias de função pósmassiva, móveis e em rede (computadores e celulares), no entanto, possibilitam não só o consumo de informação, mas também sua produção e distribuição. Neste caso a mobilidade física não é um empecilio para a mobilidade informacional (LEMOS, 2011). A possibilidade de ter dispositivos móveis digitais conectados à Rede parece intensificar o consumo e distribuição de informações, uma prática comum entre os sujeitos imersos na cultura da convergência, que segundo Jenkins (2009) refere-se à circulação de conteúdos, através de diferentes sistemas administrativos de mídias e depende da participação ativa dos sujeitos que com elas interagem, sendo incentivados a fazer conexões entre conteúdos veiculados em diferentes mídias. Portanto, a convergência não é simplesmente um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos, mas representa uma transformação cultural. Como tal, não acontece por meio dos aparelhos, por mais sofisticados que sejam; ocorre no cérebro daqueles que operam com estes e nas interações sociais com os outros (JENKINS, 2009, p.30). Um aparelho de celular com GPS, possibilidade de acesso à e-mail, redes sociais, vídeos, páginas de jornais pode ser explorado de diferentes formas por cada sujeito no seu cotidiano. A atual fase dos dispositivos móveis possibilita uma “ampliação da mobilidade”, que potencializa dimensões física e informacional. As tecnologias digitais, e as novas formas de conexão sem fio, criam usos flexíveis do espaço urbano: acesso nômade à internet, conectividade permanente com os telefones celulares, objetos sencientes que passam informações aos diversos dispositivos [...]. Os impactos estão se fazendo perceber a cada dia. A cidade contemporânea torna-se, cada vez mais, uma cidade da mobilidade onde as tecnologias móveis passam a fazer parte de suas paisagens. (idem, 2004, p. 2) No entanto, a mobilidade não pode ser vista apenas como um percurso entre pontos ou como acesso a uma informação. A mobilidade revela poder, controle, monitoramento e vigilância, devendo ser vista como potência e desempenho (LEMOS, 2011). Quando pensamos em mobilidade podemos pensar expressões de poder que a circundam: deslocamento com transporte público e privado, acesso à internet via banda larga ou serviço discado, possibilidades de deslocamento dentro e fora dos territórios nacionais. Aqueles que tem facilidade de mobilidade informacional tem provavelmente, segundo Lemos, autonomia com a mobilidade física. É assim também no ciberespaço, visto que a mobilidade não é neutra. O modo de comunicação todos-todos (LÈVY, 1994), propiciado pelo computador, trouxe importantes modificações nas relações sociais. Com aparelhos cada vez menores, uso de redes WiFi, celulares conectados à rede, a comunicação está cada vez mais móvel e isso trouxe alterações para o entretenimento, relações de trabalho, lazer, educação. O possível surgimento de uma cultura juvenil que encontra na comunicação móvel uma forma de expressão (ARTOPOULOS, 2011) requer reflexão sobre tais práticas sociais. A comunicação realizada a partir dos dispositivos móveis em conexão, como uma forma de mover informação de um lugar para outro, produzindo sentido, subjetividade e espacialização nos apresenta reflexões sobre como tais práticas alteram o cotidiano desses sujeitos e, também, como o cotidiano passa a ser representado e ressignificado através dessas novas práticas comunicativas. 3. Cotidiano No início do século XVII, pintores como Caravaggio e Velásquez inauguraram uma maneira subversiva de pintar, que afrontava os pactuados padrões estéticos de beleza e arte, sustentados na pintura histórica e erudita. A partir de então, “os temas religiosos foram paulatinamente banidos das telas para darem lugar a incômodos plebeus, como os que frequentavam as tabernas” (PAIS, 2003, p.25). A realidade foi aos poucos transposta para as telas, bem como as formas naturais e os fatos comuns. “Convertendo o cotidiano em permanente surpresa; com Caravaggio e Velásquez surgiu uma expressão artística que foi mais do que uma simples tentativa de realismo; tratava-se, antes, de uma necessidade de afirmação do próprio naturalismo da vida” (PAIS, 2003, p. 26). Este movimento subversivo foi alvo de difamações e descréditos lançados pelos adeptos dos padrões renascentistas. Mesmo assim, entre críticas e acusações o realismo das telas de Velásquez e Caravaggio pode ser considerado o ponto de partida para movimentos posteriores que acolheram a instantâneidade da vida e o deslizar do olhar pelos recônditos da sociedade, pelo cotidiano e seus fragmentos reais. Contudo, embora o cotidiano faça emergir diferentes silhuetas ou contornos do social através da sua alusão sugestiva (PAIS, 2003), é interessante compreendermos o que caracteriza o cotidiano. Como nos revela o referido autor, o cotidiano seria “o que no dia a dia se passa quando nada parece passar” (2003, p. 27). E o que se passa no cotidiano é a rotina, como se costuma dizer. Ou seja, diz respeito ao hábito de se fazer as coisas sempre da mesma maneira, através de recursos e práticas geralmente adversas à inovação. A rotina é um elemento básico das atividades sociais do cotidiano, mas a sua postura nesta relação não é única, tampouco dominante. Neste sentido, o cotidiano consiste num tecido de maneiras de ser, de estar e fazer (CERTEAU, 1998; PAIS, 2003). Trata-se das expressividades e condutas que margeiam a rotina e o habitual, e que são identificadas quando lançamos um olhar mais aguçado e crítico, como se estivéssemos passando um “pente fino” na realidade social e nos seus espaços mais marginais. Do mesmo modo, Certeau (1998) enfatiza que são as mil maneiras de caça não autorizadas que inventam o cotidiano; as quais, compreendem as maneiras de fazer, ser e estar “microorgânicas”, que formam uma antidisciplina - um impulso instituinte que germina das práticas instituídas. Fazendo uma alusão à Foucault (1979), o autor fala das operações microbianas que prolifera das “brechas” das estruturas impostas e legitimadas, alterando o seu funcionamento e promovendo uma multiplicidade de alternativas que reinventam constantemente o cotidiano. Tais práticas estão no plano da tática e são imensuráveis – compreendem as maneiras de falar, circular, cozinhar, comprar, etc, que representam as formas com que os sujeitos se reapropriam do espaço e dão novo sentido às suas vivências (CERTEAU, 1998). Se partirmos de uma visão generalista, a vida cotidiana poderá parecer uma presença repousante, inerte e superficial, nos impossibilitando de perceber o intenso movimento que acontece no seu interior, no sentido de criação e subversão de práticas instituídas e legitimadas. Como nos diz Bosi (2003) nós sempre criamos ao nosso redor espaços e movimentos expressivos, na tentativa de criar um mundo acolhedor entre as paredes que nos isolam do mundo alienado e hostil de fora. E diferentes são as vias que nos permitem expressar nossas subjetividades, histórias, impressões, saberes. Podemos citar os métodos científicos como histórias de vida, memórias, biografias e autobiografias, que segundo Pais (2003) apelam para uma sabedoria popular, de senso comum, onde se possa vislumbrar uma percepção do cotidiano. Mas também encontramos no movimento midiático, sobretudo, no ciberespaço, espaço de auto-expressão e atuação. Embora estes mecanismos valorizem o eu e a individualidade, isto não representa reflexos passivos de uma entidade individual sem envolvimento social. De acordo com Pais “o indivíduo não constitui um átomo social representativo [...] mas sim uma síntese complexa de elementos sociais” (2003, p.151). Neste sentido, é importante destacarmos que o cotidiano se apresenta como um reflexo social, em que as questões subjetivas e pessoais estão em constante interação e evidência. o indivíduo interessa-se, sobretudo, pelo setor do mundo cotidiano que está ao seu alcance e que do seu ponto de vista, se ordena espacial e temporalmente em volta de si como centro: a realidade da vida cotidiana organiza-se em torno do aqui do meu corpo e do agora do meu presente. (PAIS, 2003, p.84-85) As atividades que permeiam a nossa vida cotidiana são distribuidas de uma forma geral repetitiva: nos levantamos, tomamos banho, comemos, enfrentamos o trânsito, chegamos ao trabalho, etc. Contudo, como já observamos, a estrutura temporal da vida cotidiana, não se resume apenas à estas sequências prestabelecidas. Há portanto, o que Balandier (apud PAIS, 2003) chama de centro do cotidiano, que define-se como um lugar de relações de forte intensidade, cotidianamente vividas, geralmente de caráter privado e eletivo. Diz respeito àquelas relações duravelmente estabelecidas, tendo por base diferentes tipos de proximidades: familiar, amizade, vizinhança etc. São relações pessoais, diretas, de interação regular e relativamente fechadas. (PAIS, 2003). Outro ponto enaltecido pelo autor é o afeto associado ao espaço, como maneira de viver o presente nos variados gestos do cotidiano: os passeios de fim de semana nos espaços públicos ou na casa de parentes e amigos; os rumores da vizinhança; as conversas sobre determinado filme, peça ou partida de futebol ou as notícias e conteúdos em evidência nas redes sociais, por exemplo. Todos estes “pequenos nadas” que segundo Pais (2003) materializam certas formas de existência e de relação social; O cotidiano aparece assim, definido em termos de limites espaciais, muito embora a espacialidade surja como uma forma [...] que se modela, depois, de diversas maneiras. De fato o espaço é uma forma que em si mesma não produz efeito algum; o que tem importância social não é o espaço, mas as vivências sociais que nele decorrem. Nesta sintonia que identificamos o ciberespaço como um espaço de cotidianeidade que ilustra a idéia de Pais, na medida em que se configura como um espaço não demarcado por limites físicos, mas sobretudo, a partir de redes relacionais e compartilhamento de informações. Nestas redes conectadas fluem informações digitalizadas, prontas a serem apreciadas, consumidas e reconfiguradas (LÈVY, 1996), pelos interagentes que mantem viva a dinâmica da rede, postando seus conteúdos e autorias. Desse modo, o ciberespaço vai se edificando não no sentido de um espaço universal de identidade estática, mas como um ambiente em constante metamorfose e virtualização que é “sempre heterogênese, devir outro; processo de acolhimento da alteridade que põe em causa a identidade clássica, o pensamento apoiado em definições, determinações, exclusões, inclusões e terceiros excluídos” (LÉVY, 1996, p.25). Neste sentido, os fóruns, chats, blogs, webmails, wikis, sites de redes sociais, dentre outros recursos que brotam do ciberespaço funcionam e se organizam como agrupamentos sociais, em que os sujeitos, experimentam trocas intelectuais, profissionais, sociais, afetivas e culturais, permitindo aflorar os seus sentimentos, suas subjetividades, idiossincrasias e traços culturais, de maneira a estabelecer teias de relacionamentos, mediadas pelos computadores conectados na/em rede (RHEINGOLD, 1997) e em sua vida cotidiana. Os sites de redes sociais, hoje em evidência, são um dos espaços que acentuam continuamente a relação que existe entre o cotidiano, o espaço virtual online e a cultura da mobilidade, dissolvendo cada vez mais o limite tênue que existe entre o público e o privado; a ficção e o cotidiano. 4. Redes sociais O ser humano aprende e se desenvolve ao longo de suas vivências, e as diversas aprendizagens que ele realiza se potencializam quando são socialmente compartilhadas. Ao compartilhar, cada pessoa encontra no outro, de forma geral, apoio, companhia, segurança e outros tipos de colaboração. Cada um de nós faz o mesmo em maior ou menor grau e, assim, vamos construindo relações, vínculos e, por consequência, as nossas redes pessoais (LOPEZ, 2008, p.7). Quando fomentamos encontros entre pessoas, estamos reunindo histórias, multiplicando as conexões, ampliando a possibilidade de potencializar toda a riqueza construída nas relações ao longo da vida (DUARTE, 2008). Deste modo, conectados entre si, formamos redes sociais de diferentes naturezas e “nós”, que se originam de nossas relações em família, com os amigos, a comunidade, as relações profissionais, acadêmicas, além das relações virtuais por internet, as quais, vem dando novo sentido à comunicação e novas dimensões às relações de sociabilidade. Santana (2010), levanta uma questão interessante ao alertar que o social não é apenas um conjunto de homens, mas um conjunto de relações. E tais trocas e convivências quando transpostas para a teia da web, é que dão vida às chamadas redes sociais digitais ou online. Tais redes se constituem em agregações sociais que surgem na Internet, formadas por diferentes interlocutores com interesses variados. É nesta perspectiva que a rede, como metáfora para a compreensão dos grupos expressos na Internet, é utilizada através da idéia de rede social online (RECUERO, 2009). Esta autora define uma rede social como um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições – os nós da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais). Assim, uma rede é compreendida a partir das conexões estabelecidas por diferentes atores sociais em constante interação, os quais se constituem em elemento central na estrutura da rede, uma vez que são os responsáveis por moldar e constituir os laços sociais, ou seja, manter a rede viva. Uma característica relevante das redes sociais online que observamos livremente nos dias atuais, é a idéia de “expressão pessoal ou pessoalizada na Internet” [...] como uma presença do ´eu` no ciberespaço, um espaço privado e, ao mesmo tempo, público”. (RECUERO, 2009, p.26-27). Nesta sintonia, Santana (2011) reitera este raciocínio, baseandose nas estruturas sociais contemporâneas; esta autora afirma que a intimidade, a privacidade, a vida guardada em segredo são valores atualmente considerados obsoletos, pois hoje a vida parece só ter sentido, se for mostrada, narrada, exibida de diferentes maneiras em tempo real. E os sites de redes sociais tem se mostrado como autênticos redutos e expressões deste novo sentido construído e vivido pelos atores sociais, que encontram nestes ambientes, espaço para desenvolver e dar visibilidade a si mesmo, ao que pensa, faz ou gostaria de fazer. “Os sites de redes sociais se tornaram o lugar privilegiado para o sujeito, sempre conectado, falar de si, produzir e divulgar imagens, seus gostos, suas condutas de vida pessoal, acadêmica e profissional” (SANTANA, 2011, p.2), ações que são ainda mais potencializadas quando é possível realizá-las instantâneamente, a qualquer hora e lugar, graças aos dispositivos móveis conectados à rede sem fio; tornando ainda mais fluido o canal de comunicação entre os nós da rede. 5. Análise dos resultados A pesquisa exploratória foi a trilha metodológica escolhida e seguida para estruturarmos as idéias contidas neste artigo. Deste modo, o presente estudo se baseia numa pequena amostra de sujeitos, tem um caráter preliminar e visa a familiarização, a identificação de idéias e questionamentos que delineiem um retrato da relação entre mobilidade e cotidiano a partir do Facebook. Neste sentido, realizamos a escuta de sujeitos que estão imersos nesse contexto, utilizando como instrumento de coleta de dados, questionário com questões objetivas e subjetivas sobre o perfil dos sujeitos enquanto usuários de smartphones e interação com as redes sociais a partir destes aparelhos. Nesta pesquisa focamos no Facebook por ser um software de rede social popular nos centros urbanos do Brasil. Os sujeitos desta investigação são cinco jovens entre 22 e 30 anos que possuem smartphones e moram em Salvador; 2 deles são pós-graduandos, 1 possui o título de mestre e 2 graduados. Todos eles já possuíam aparelhos celulares antes do aparelho atual; sendo que 60% (3 pessoas) tinham celulares com acesso à internet e 40% (2 pessoas) não possuíam, o que revela uma possível proximidade no universo que envolve dispositivos móveis e conectividade. Os aparelhos celulares são trocados por eles em curto espaço de tempo, comparando a outros aparelhos eletrônicos como televisão e computador: 40% (2 pessoas) trocam anualmente, 20% (1 pessoa) a cada dois anos, 20% (1 pessoa) a cada 3 anos, e 20% não respondeu. (Ver gráfico). Gráfico 1 – Frequência em que troca de aparelho celular O motivo que leva 80% dos sujeitos (4 pessoas) a comprar um novo aparelho é o interesse por novos modelos e funções, enquanto que roubo é sinalizado por 20% (1 pessoa) como motivo principal. Os sujeitos afirmam que elegem diferentes critérios para a realização da compra como tamanho, estética, funções/recursos, marca, preços, usabilidade e resistência, mas o critério “funções/recursos” assume unanimidade nas respostas. Esta predominância ilustra o quanto os novos atributos do celular, aparelho cada vez mais equiparado a um computador tem sido valorizados. No que se refere ao acesso a emails e redes sociais pelo smartphone, 40% (2 pessoas) destes jovens afirmaram que acessam mais de três vezes ao dia, outros 40% (2 pessoas) acessam algumas vezes na semana e 20% (uma pessoa) acessa de uma a três vez ao dia. Percebe-se que o smartphone agrega ao uso de aparelhos celulares funções outras além das chamadas em voz, ligações telefônicas. As pessoas que possuem um smartphone tem à sua disposição variadas funções. Este grupo em específico interage predominantemente com email, redes sociais, jogos eletrônicos e músicas. (ver gráfico). Gráfico 2 –Funções utilizadas no smartphone Destes jovens, 60% (3 pessoas) acessam FB através dos seus smartphones mais de 3 vezes ao dia e 40% (2 pessoas) algumas vezes na semana, revelando que esta prática faz parte do cotidiano destes sujeitos. As circunstâncias nas quais interagem revelam o quanto a conectividade através deste aparelho está presente no cotidiano destes jovens. Nota-se que esta prática permeia os momentos de lazer, festas e eventos dos sujeitos investigados, além de ser uma possibilidade de distração e comunicação em momentos como a espera em fila de médico, e principalmente possibilitar a comunicação em circunstâncias de mobilidade. Gráfico 3- Circunstâncias em que interage com as Redes sociais pelo smartphone A publicização da vida nos sites de redes sociais é um prática comum entre os brasileiros e deve ser observada por diferentes olhares. A cultura da mobilidade traz novas configurações para esta prática já que permite que os atores sociais exibam o que estão vivenciando em tempo real. Os smartphones conectados à internet possibilitam a publicização da vida cotidiana, no entanto como afirma Lemos (2011), a mobilidade envolve relações de poder. Neste caso, o acesso ao serviço de internet traz implicação ao consumo e socialização de informações através destes aparelhos. Um dos sujeitos da pesquisa afirmou que a não qualidade do acesso à internet dificulta ou facilita a publicização de conteúdos nas redes sociais: “[...] se eu tivesse um smartphone com 3G, por outro lado, imagino que minha vida seria muito mais publicizada” (M.S). Pode-se observar também que os sujeitos que interagiam com mais frequência nas redes sociais a partir do smartphone, possuiam planos mais custosos de acesso a internet (póspago), enquanto aqueles que usufruiam de planos pré-pagos interagiam algumas vezes na semana, nos momentos que tinham acesso à redes Wi-fi, por exemplo. O tipo de interação muitas vezes é restrito por conta da qualidade do acesso à internet no aparelho: “Atualmente tenho usado raramente o Facebook para fins de publicização no smartphone, pois uso mais para acesso ao Feed de notícias e Timeline”, afirmou V.S, que utiliza o FB para publicização da vida, mas não o faz através do smartphone. Usa este aparelho apenas para visualizar informações e notícias veiculadas nessa rede social. Esta questão nos revela que a cultura da mobilidade é inerente ao ser humano e agrega questões que vão para além dos objetos em si como as questões políticas, econômicas e sociais. No caso destes sujeitos, a experiência com a mobilidade através dos smartphones foi comprometida por questões políticas, no que ser refere à democratização do acesso à rede, e econômica, já que acessar a Internet em tempo integral, envolve questões de ordem econômica. A presença do smartphone enquanto um artefato cultural vem tendo um perceptível crescimento no cotidiano das pessoas e no Brasil isso tem ganhado proporções consideráveis, já que se encontra hoje na décima posição no ranking mundial de comércio de smartphones. De acordo com o IDC (International Data Corporation), o país pode subir para a quarta posição até 2016. 4 Essa expansão portanto põem na mesa questões como quem (não)tem acesso a tais aparelhos, qual a qualidade da conexão através destes aparelhos, quais regiões 4 Informação disponível no site http://mobiletalk.mobi/2012/03/27/mercado-de-smartphones-nobrasil-tem-crescimento-de-84/, acessado no dia 28 de março de 2012. geográficas têm cobertura telefônica que possibilite uma boa conectividade? Pensar em como as pessoas usam estes artefatos no cotidiano portanto envolve pensar questões mercadológicas, de ordem social e também cultural. O descondicionameto ao Desktop envolve uma dessas questões: a cultural. Neste contexto em que os aparelhos da cultura digital estão cada vez mais móveis, as pessoas não dependem de estar em um computador fixo com acesso a internet para publicizar as suas vidas, para acessar informações, jogar online. Os computadores estão por toda a parte nas portas do supermercado, nos celulares, nas câmeras fotográficas, GPSs, consoles portáteis, etc. A possibilidade que os smartphones dão de estar conectado em diferentes locais permite a publicização da vida nos momentos que deseja ou interessa, já que estes aparelhos possuem pequenos computadores em si. Um dos sujeitos ao explicar como a possibilidade de estar conectado ao Facebook através do seu smartphone contribui para a publicização da sua vida afirmou: “posso postar o que me interessa no exato momento em que tenho vontade” (T.M). Os sites de rede social como o FB têm se configurado como espaço de encontros, trocas, bate-papos, convites, emissão de opiniões, etc. As pessoas contam o seu cotidiano neste espaço com fotos, frases, vídeos, etc. A interação entre os nós dessa rede afirma a presença dessas pessoas na rede através de comentários, posts, “curtir”, “cutucar”. A possibilidade de estar sempre conectado de maneira móvel é uma possível condição de atividade (estar ativo), na medida em que pode-se postar, curtir, comentar quando se está em diferentes lugares e contextos. Assim, os sujeitos que participam do FB se sentem continuamente estimulados à desenvolver sua condição de autores. Estas pessoas agem como se fossem “jornalistas”, na medida em que se visualizam como pólo de informações, que segundo elas são relevantes para pessoas específicas, ou os grupos dos quais elas fazem parte. Como afirmou JM, “Acredito que as ideias que eu tenho, sites que visito, textos e blogs que leio são interessantes e valem a pena compartilhar e disseminar essas informações na rede”. Esta fala, reflete uma das maneiras como as produções autorais neste tipo de site também são desenvolvidas. Baseando-se em reproduções de informações da mídia, apropriações e bricolagens. Já RM, enfatiza a possibilidade de “fazer algum comentário sobre uma dica de lugares a se frequentar, filmes ou livros. E também para reclamações ou comentários negativos sobre alguma empresa ou serviço”. Este último ponto, revela o que Jenkins (2009), fala sobre a nova postura dos consumidores, agora mais barulhentos e participativos. E como notamos a rede Facebook também se configura como um pólo disseminador de reclamações e insatisfações destes consumidores. Outro ponto identificado foi a motivação para interagir no FB através do smartphone. Um dos sujeitos, TM, afirmou que a sua motivação é “entrar em contato com amigos, principalmente”. A presença online de uma pessoa no FB e em outras redes sociais significa disponibilidade para estabelecer interações com pessoas em diferentes espaços. A relação espaço-tempo é alterada, as relações com o tempo e o trabalho também se organizam de uma nova maneira, reconfigurando o cotidiano já que momentos de lazer se tornam momentos de trabalho ao ler e/ou responder um email de ordem profissional na praia. O inverso também é verdadeiro, durante uma aula ou trabalho as pessoas interagem com outras pelos seus celulares conectados. A computação ubíqua ou pervasiva, onipresença da informática no espaço e no cotidiano das pessoas, intensificou esta nova configuração da relação tempoespaço. Mesmo com todas essas possibilidades de acesso e disseminação, existe uma parcela de interagentes do Facebook, receosa em disponibilizar as suas informações privadas e fazer parte deste “boom” de auto-exposição e protagonismo cotidiano que acompanhamos nas redes sociais como o FB. Estas pessoas criam estratégias para restringir o acesso público às suas vidas e seus movimentos, estabelecendo mecanismos de publicização da sua vida, restringindo e selecionando as pessoas com quem desejam compartilhar informações específicas, como afimou RM, “Eu utilizo o facebook mais como uma ferramenta de `notícias´ do que como um mural sobre mim. Utilizando os grupos para marcar encontros com os amigos, ou lendo as notícias dos meus sites favoritos pelas suas atualizações no facebook, pois assim ele funciona como um agregador de conteúdo.” Diante disto nos perguntamos até que ponto temos o poder de restringir o acesso a tais conteúdos? Se eles se encontram inteiramente disponíveis à equipe de desenvolvimento do FB? A auto-exposição nas redes sociais também tem sido alvo de críticas de parte da população cibernauta que considera o site como fonte de informações fúteis e irrelevantes, muito embora, todos acabam sendo, de certa forma, atingidos por este movimento. O sujeito J.M por exemplo, afirma que para ela a possibilidade de estar conectado ao facebook contribui para a publicização da vida “de forma positiva quando posto informações e notícias relacionadas à minha área de pesquisa. E ultimamente tenho focado nessa questão, no entanto ainda oscilo entre compartilhar informações pessoais e profissionais. Não sei de fato se ajuda na publicização da minha vida”. Observamos que este sujeito busca priorizar a socialização da sua vida profissional, pontuada como parte do seu cotidiano, diferentemente dos demais sujeitos que não mencionaram a profissão como elemento de suas postagens no FB. Por outro lado, notamos que J.M, revela em sua fala, um certo descontentamento na publicização de suas outras informações pessoais, muito embora, também realize esse tipo de compartilhamento. Estas e outras colocações que buscamos analisar neste artigo, representaram um ponto de partida para aprofundarmos nosso olhar acerca das questões que permeiam a relação entre mobilidade e cotidiano através das redes sociais. O Facebook, bem como as contribuições dos sujeitos participantes desta pesquisa se apresentaram como uma amostra preliminar para a nossa intenção que abriu espaço para intervenções futuras. Considerações finais Publicizar a vida nos sites de redes sociais é um prática que tem feito parte do cotidiano das pessoas e a cultura da mobilidade situada num contexto em que a informática está espalhada no espaço tem intensificado esta prática. Os sujeitos dessa pesquisa revelaram que os smartphones conectados à internet são mais uma possibilidade de publicizar a vida cotidiana, socializando informações que julgam interessantes para os seus pares nas redes sociais. Eles são desafiados por diferentes questões como a qualidade de conexão que têm disponível, revelando que a cultura da mobilidade em tempos de computação ubíqua revelam poder, na medida em que entrelaçam questões políticas, econômicas e sociais. Uma das principais características observadas neste contexto é o descondicionameto ao Desktop. As pessoas não dependem da presença de um computador fixo com acesso a internet para acessar e socializar informações, podendo dividir experiências, bater-papo, emitir opiniões, etc. A interação entre os sujeitos revela como exercem a sua autoria reproduzindo, criticando, sugerindo, já que a abertura do pólo de emissão estimula estas pessoas a desenvolver sua condição de autores. Ao construir esses caminhos de autoria os sujeitos dessa pesquisa também se dão conta dos excessos da publicização das suas vidas e criam estratégias para driblá-la, mas também consideram de alguma maneira relevante, já que é uma prática comum dos seus cotidianos. Os aspectos observados nos fizeram constatar que as relações entre cotidiano, mobilidade e redes sociais, revelam questões que extrapolam a publicização da vida. Por trás destas interações, existe uma trama de elementos como a autoria, a autonomia, a interatividade, a criatividade, dentre outros aspectos que interessam significativamente ao universo da educação e as tecnologias. Referências Bibliográficas ARENDT. H. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2008. ARFUCH, L. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea, Rio de Janeiro: UERJ, 2010. ARTOPOULOS, Alejandro. Notas sobre a cultura juvenil móvel na América Latina. In.: BEIGUELMAN, G. LA FERLA, Jorge (orgs.). Nomadismos tecnológicos. São Paulo: Editora SENAC, 2011. BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editoria, 2003. CERTEAU. M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 3. ed. Petrópolis: vozes,1998. JENKINS, H. 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