teologia do prazer Coleção TEOLOGIA HOJE • Creio em Deus Pai, Andres Torres Queiruga • Reencarnação ou ressurreição: Uma decisão de fé, Renold J. Blank • Recuperar a Criação: Por uma religião humanizadora, Andres Torres Queiruga • Introdução à Trindade – Para estudantes universitários, Lynne Faber Lorenzen • Lumen Gentium: A transição necessária, Antônio José de Almeida • Teologia espiritual encarnada: Profundidade espiritual em ação, Victor Manuel Fernández • Pecado original… ou graça do perdão?, Barbara Andrade • Graça ancestral: O encontro com Deus na nossa história humana, Diarmuid O’Murchu • Um novo clima para a teologia: Deus, o mundo e o aquecimento global, Sallie McFague • Desafios atuais para a teologia, Urbano Zilles • Esperança em tempos de desespero, Albert Nolan • Ajudai a minha descrença, William J. O’Malley •Igreja: Comunhão viva, Paul Lakeland •Teologia do prazer, Ana Márcia Guilhermina de Jesus / José Lisboa Moreira de Oliveira ana mÁrcia GUILHERMINA DE JESUS JOSÉ lisboa moreira de oliveira TEOLOGIA DO PRAZER Direção editorial: Claudiano Avelino dos Santos Assistente editorial: Jacqueline Mendes Fontes Revisão: Cícera G. S. Martins Caio Pereira Diagramação: Dirlene França Nobre da Silva Capa: Marcelo Campanhã Impressão e acabamento: PAULUS Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Jesus, Ana Marcia Guilhermina de Teologia do prazer / Ana Márcia Guilhermina de Jesus, José Lisboa Moreira de Oliveira. — São Paulo: Paulus, 2014. — (Coleção Teologia hoje) Bibliografia ISBN 978-85-349-3909-6 1. Bíblia - Teologia 2. Espiritualidade 3. Prazer 4. Teologia I. Oliveira, José Lisboa Moreira de. II. Título. III. Série. 14-02163CDD-261.515 Índices para catálogo sistemático: 1. Prazer: Teologia: Psicologia e religião: Cristianismo 261.515 2. Teologia do prazer: Psicologia e religião: Cristianismo 261.515 1ª edição, 2014 © PAULUS – 2014 Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 – São Paulo (Brasil) Fax (11) 5579-3627 • Tel. (11) 5087-3700 www.paulus.com.br • [email protected] ISBN 978-85-349-3909-6 Sumário 11Prazeres 13Introdução 21I. O conceito e o sentido do prazer 22 1. Concepções científicas do prazer 23 Bases científicas do prazer 28 Definição de prazer 32 O prazer como meta da vida humana 33Teologia do prazer 36 36 41 46 51 57 62 67 72 2. Dimensões do prazer Dimensão intrapsíquica Dimensão relacional ou interpessoal Dimensão afetiva Dimensão amorosa Dimensão corporal Dimensão sexual Dimensão espiritual Dimensão cultural 81II. O ensinamento bíblico sobre o prazer 81 1. O conceito bíblico do prazer 82 A concepção positiva do prazer 84 A concepção negativa do prazer 87 O prazer no Segundo Testamento 89 90 2. Os prazeres divinos O prazer de criar e de se divertir 5 94O prazer de agraciar e de perdoar 97O prazer de dar a vida 101 Jesus: o prazer do povo 104 3. Os prazeres humanos 106 Vida prazerosa 111 O cultivo do prazer como vocação 114 O prazer sexual 121 Prazer sexual libertador 127 A abstenção do prazer sexual não é virtude 130 O prazer sexual como experiência espiritual 34 1 136 140 145 4. Os prazeres desumanos A mercantilização do prazer Os prazeres que desumanizam Por que esses prazeres desumanizam? 51III. O tema do prazer na história 1 da Igreja 52 1. Do seguimento prazeroso de Jesus à abolição 1 do prazer 152 A incursão do dualismo grego 155 A maleficência do maniqueísmo 60 1 160 165 170 2.A relação entre prazer, sexo e pecado Pedagogia do “quebra-molas” Resgate do valor do prazer sexual A mulher como símbolo do prazer degenerado 75 3. Um cristianismo triste e assustador 1 176 O resgate da beleza do prazer 178 O atual retorno ao dualismo e maniqueísmo 85IV.Afirmações teológicas para uma 1 vida prazerosa 86 Prazer: plenamente divino e plenamente humano 1 186 O valor da experiência de vida 6 91 Cristianismo: mística prazerosa 1 196 Cristianismo, prazer e ascese 01 2. Seguir Jesus com prazer 2 201 Prazer, discernimento e responsabilidade 205 Prazer ecologicamente correto 209Conclusão 215Bibliografia consultada 7 A Dom Angélico Sândalo Bernardino, nosso irmão bispo, pastor amoroso, profeta da justiça e defensor dos pobres, com quem temos o prazer de saborear uma gostosa amizade. Às amigas e aos amigos de Araci (BA), Borda da Mata (MG), Distrito Federal, Itaparica (BA), Frei Paulo (SE), Nápoles (Itália), Pouso Alegre (MG), Riachão do Jacuípe (BA), Rio de Janeiro (RJ), Roma (Itália), Salvador (BA), “Bairro” Paredes em Tocos do Mogi (MG), Vitória da Conquista (BA), com os quais temos o prazer de conviver numa sincera e profunda amizade. Prazeres O primeiro olhar da janela de manhã. O velho livro de novo encontrado. Rostos animados. Neve, o mudar das estações. O jornal. O cão. A dialética. Tomar banho, nadar. Velha música. Sapatos cômodos. Compreender. Música nova. Escrever, plantar. Viajar, cantar. Ser amável. Bertold Brecht, poeta e dramaturgo alemão (1898 – 1956) Introdução Goza a vida... (Ecl 9,9)1* O tema do prazer ainda é considerado um grande tabu pela maioria dos cristãos. Embora a Bíblia judaico-cristã veja essa questão com otimismo, a influência maniqueísta, infiltrada nas comunidades cristãs primitivas, terminou por se impor, levando o cristianismo a ver o prazer com bastante pessimismo. Atualmente, mesmo com os grandes avanços provocados por fatos como o Concílio Vaticano II e as descobertas científicas, a perspectiva ainda é bastante negativa. Nas Igrejas cristãs, o tema não é tratado explicitamente, a não ser em certas ocasiões e quase sempre para combatê-lo. Até mesmo textos da ala mais avançada da Igreja Católica tratam o assunto com muita desconfiança. O documento conclusivo da Conferência de Puebla (1979), considerado um dos mais ousados da Igreja Católica Romana no pós-concílio Vaticano II, ainda via o prazer como um ídolo erigido no mundo de hoje (n. 749). Não faltam esforços, por parte de algumas pessoas e por parte de alguns teólogos, no sentido de aprofundar a questão numa perspectiva mais positiva. Mas, apesar desses esforços, o prazer ainda é visto de forma muito negativa e nunca mereceu um tratado específico de teologia. Isso levou um franciscano, teólogo, bispo e psicólogo a pedir, no final1* As citações bíblicas são retiradas da Bíblia Tradução Ecumênica (TEB), São Paulo, Loyola, 1994, exceto quando optamos por uma tradução mais livre, feita a partir dos originais ou da indicação de determinados autores. 13 zinho do século passado, que os teólogos pensassem numa “teologia do prazer”.2 Dom Valfredo Tepe, que foi bispo de Ilhéus (BA), Brasil, e um pastor profundamente identificado com a vida do povo, lamentava um tipo de cristianismo amarrado a “antigas determinações morais repressivas”, incapazes de apresentar o lado positivo da fé cristã em questões importantes como “a corporalidade, a experiência da satisfação, do prazer”, as quais não são por si mesmas pecaminosas. Em seu livro, que acabamos de citar, Tepe discorre com muita propriedade sobre o tema do sofrimento humano e insiste muitas vezes na necessidade de se rever certo ascetismo que tomou conta das Igrejas, especialmente da Igreja Católica Romana. Denuncia a falácia desse ascetismo que acaba com a alegria de viver e que nos ensinou a projetar todas as satisfações, gozos, prazeres e gratificações para a outra vida. Isso fez com que o cristianismo se apresentasse sempre como “estresse ascético”. Por causa da anatematização do prazer, o cristianismo se tornou a religião dos “rostos tristonhos, sorumbáticos e macambúzios”.3 Uma religião que não consegue mais fascinar as pessoas do mundo de hoje, as quais estão cada vez mais conscientes do valor do prazer e de uma vida prazerosa e gozosa. Nós resolvemos acolher o convite de Dom Valfredo Tepe e nos atrevemos a refletir sobre o assunto. Depois de quase dois anos de pesquisas, leituras e estudos, produzimos o presente texto que agora chega às suas mãos. Temos consciência de que não esgotamos o assunto, mas esperamos que a nossa iniciativa estimule outros estudiosos cristãos a aprofundarem ainda mais a questão, ajudando suas Igrejas a reverem suas posições e a se abrirem mais à positividade da experiência do prazer. 2 3 14 Cf. Valfredo TEPE, Para que tanto sofrimento?, Petrópolis, Vozes, 1996, p. 24-25. Cf. ibid., p. 25-27. O presente estudo começará com uma análise do conceito e do sentido do prazer. Consideramos fundamental iniciar nossa reflexão apresentando as bases científicas do prazer. Uma teologia do prazer precisa começar com a constatação de que tal sensação ou experiência foi colocada no ser humano pelo Criador. As ciências, de modo particular a Psicologia e a Neurociência, ao desvendarem o mistério do prazer, nos revelaram a criatividade divina que, ao “modelar” (cf. Sl 139,13-15) a pessoa humana, dotou-a de tão complexo dinamismo. As ciências nos ajudam a perceber que o prazer faz parte da natureza humana, assim como foi pensada, sonhada e criada por Deus. A partir dessa perspectiva, fazemos um estudo de algumas dimensões do prazer, com a finalidade de ajudar os leitores e as leitoras a perceberem ainda mais a bonita complexidade desse fantástico estado emocional humano. Na segunda parte do nosso texto apresentaremos o ensinamento bíblico sobre o prazer. Não foi fácil abordar esta questão, dada a escassez de pesquisas e publicações específicas sobre o assunto, especialmente aqui no Brasil. As pesquisas que fizemos apontam inicialmente que há na Bíblia uma concepção positiva do prazer, embora não faltem textos que alertam sobre o risco de uma busca de prazer que desumaniza. Porém, como veremos mais adiante, a Palavra de Deus não demoniza a experiência prazerosa. Pelo contrário, convida o ser humano a viver prazerosamente sob a guia e proteção divinas. Para evidenciar esse aspecto positivo, antes de mencionar os prazeres humanos recomendados pela Bíblia, falamos dos “prazeres divinos”. Algo muitas vezes inédito, já que o cristianismo do “ascetismo mórbido” (TEPE) nos acostumou com a imagem de um Deus sempre irado e irritado com a possibilidade de um ser humano alegre e feliz. Somente ao final desse capítulo apresentamos algumas indicações bíblicas acerca de um tipo de prazer que pode alienar e desumanizar. 15 Após apresentar as bases científicas do prazer e a visão bíblica sobre o tema, faremos uma reflexão sobre a forma como o prazer foi visto ao longo da história da Igreja. Nesse capítulo, mostraremos como o cristianismo, de seguimento prazeroso de Jesus, se transformou na religião da abolição do prazer. Veremos que isso se deu pela incursão do dualismo grego e do maniqueísmo maledicente nas comunidades cristãs. Além disso, refletiremos sobre a relação que se criou entre prazer, sexo e pecado, fazendo com que as Igrejas introduzissem regras bem rígidas a esse respeito, as quais passaram a funcionar como verdadeiros “quebra-molas” que visam frear o gozo e o prazer. Depois dessas observações mostraremos que, em toda essa história, a mulher pagou um preço amargo, uma vez que ela foi considerada o símbolo do prazer degenerado. Concluiremos o capítulo afirmando que todas essas coisas transformaram o cristianismo em uma experiência triste e assustadora e que precisamos continuar vigilantes, uma vez que no atual contexto estão retornando formas cristãs dualistas e maniqueístas. No último capítulo, apresentaremos algumas afirmações teológicas acerca de uma vida cristã prazerosa. Insistiremos na necessidade de ver o prazer como uma realidade plenamente divina e plenamente humana e, em consequência, olhar para o cristianismo como mística prazerosa. Mas, para que isso aconteça, será indispensável repensar a relação entre seguimento de Jesus, prazer e ascese. Embora parte essencial do discipulado, esta precisa ser revista, de tal modo que não tire do cristianismo a sua dimensão gozosa. Isso significa que a vivência cristã do prazer inclui um processo de discernimento e uma educação para a responsabilidade, de modo que se possa falar de uma vida prazerosa ecologicamente correta, entendo por ecológico um estilo de existência que humanize sempre e cada vez mais. Nosso estudo se concluirá com uma reflexão acerca da necessidade de que as Igrejas renunciem à pretensão de 16 querer controlar, a todo custo, a vida das pessoas. Elas precisam mudar de pedagogia, uma vez que a atual pedagogia do controle e da imposição não funcionou e terminou por lançar os fiéis nas mãos da indústria do prazer. Propomos que as Igrejas sejam mais propositivas e educadoras, em vez de funcionarem como agências de controle dos crentes. Eduquem seus fiéis para a autonomia, para a condição de pessoas adultas, para a responsabilidade e, sobretudo, para a sensibilidade à voz da consciência, tida como a voz de Deus dentro do ser humano. Este texto destina-se a todos os cristãos e a todas as cristãs de todas as Igrejas, sem exceção, e que queiram aprofundar essa temática tão vital e tão marcante para a vida humana. Destina-se também a todos os homens e a todas as mulheres de boa vontade que, embora não professem a fé cristã, desejam ter uma compreensão mais positiva do tema do prazer na perspectiva do cristianismo. Mesmo conscientes de que não exaurimos a temática proposta, optamos por manter o simples título Teologia do prazer, sem mais substantivos ou adjetivos qualificativos. Com isso queremos ressaltar o caráter teológico do tema, diante de todo o desgaste a que foi submetida a questão do prazer dentro do cristianismo e ao longo dos séculos. Afirmamos, pois, que o conteúdo deste texto que você está para estudar é de ordem teológica, ou seja, uma reflexão lógica e metódica sobre um tema que está relacionado com a fé cristã e que associa o crer e o pensar. Está fundamentado na Palavra de Deus, centrado na pessoa de Jesus Cristo, o Filho revelador do Pai, e busca ser fiel a uma inspiração do Espírito Santo. Embora o próprio tema, o seu conteúdo e as suas propostas pareçam dizer o contrário, nosso objetivo é submeter a questão do prazer à razão dialética,4 argumen4 Por razão dialética entendemos aqui uma reflexão conduzida de forma racional e processual e que leva em conta a possibilidade de argumentações e reflexões diferentes que precisam ser ouvidas, acolhidas e profundamente consideradas. Na 17 tando segundo os princípios racionais, mas sempre à luz da fé que aceita Jesus Cristo como o Salvador do mundo (cf. Jo 4,42). Desde os tempos das primeiras comunidades cristãs foi ficando sempre mais evidente que os discípulos e as discípulas de Jesus não só devem crer, mas precisam crer de maneira inteligente. O ato de crer não é, como costumam afirmar alguns, um simples “salto no escuro”, como se Deus quisesse a nossa adesão à sua vontade sem nenhum questionamento e sem nenhum pedido de compreensão. Ao criar o ser humano à sua imagem e semelhança, o Criador o dotou de razão e de inteligência. Por isso é mais do que normal querer compreender enquanto se busca crer. A pregação sobre a renúncia a tentar compreender os mistérios da fé cristã é mais uma dessas terríveis falácias inventadas pelo sistema eclesiástico com a simples finalidade de manter o povo cristão subjugado e resignado aos seus caprichos.5 Como pensamos este texto para todos os cristãos e para todas as cristãs e para as pessoas de boa vontade, decidimos por incluir várias notas de rodapé, visando ajudar aqueles e aquelas que não estão familiarizados com certos termos teológicos e científicos a compreender melhor o seu conteúdo. Pedimos desculpas aos irmãos e às irmãs iniciados ou especialistas no assunto por esse detalhe, mas estamos convencidos de que vocês saberão compreender essa necessidade, solidarizando-se com as pessoas que não estão acostumadas com o linguajar teológico e técnico. reflexão racional dialética, as pessoas se posicionam de uma forma clara e evidente, mas permanecem abertas para escutar o que outras têm a dizer sobre o assunto. Elas não acreditam que suas palavras são as únicas verdadeiras, mas querem dialogar com posições diferentes. E essa é a nossa intenção neste texto. Acerca do conceito de dialética, veja-se Nicola ABBAGNANO, Dicionário de Filosofia, São Paulo, Martins Fontes, 2007, p. 315-322. 5 Acerca da necessária relação entre crer e compreender o que se crê, veja-se Félix Alejandro PASTOR, “Teologia e Modernidade: alguns elementos de epistemologia teológica”, em José TRASFERETTI e Paulo Sérgio Lopes GONÇALVES (orgs.), Teologia na Pós-Modernidade. Abordagens epistemológica, sistemática e teórico-prática, São Paulo, Paulinas, 2003, p. 71-101. 18 Fazemos votos de que este livro toque o coração de muitas pessoas, desperte-nos para a beleza do prazer, estimule em todos nós uma vida prazerosa, responsável e solidária e suscite em muitas outras pessoas o desejo e a vontade de aprofundar ainda mais essa temática tão bonita e profundamente cristã. 19