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A TIPOGRAFIA, A IMPRENSA E A LIVRARIA:
EDUCAÇÃO E CULTURA NA CIDADE DE UBERLÂNDIA
Regma Maria dos Santos
Universidade Federal de Goiás
RESUMO
O objetivo desta comunicação é apresentar a importância que assume a difusão da tipografia e da imprensa
na cidade de Uberlândia em finais do século XIX até meados do século XX, na concepção de alguns
intelectuais, como Lycídio Paes, que as considera como instrumentos transformadores da educação social e
cultural de uma comunidade. Partindo das formulações da história cultural, e mais especificamente das
discussões sobre a produção de livros e a recepção dos leitores, como apresenta Chartier, podemos pensar
que dois dos principais aspectos na discussão sobre a cultura referem-se aos meios de difusão cultural e aos
locais de circulação da informação. Com relação à difusão, é importante salientar o papel da tipografia que
propiciou a impressão de livros e jornais, e que, no Brasil, chegou apenas no século XIX. O livro e a
imprensa foram, no Brasil, até os princípios do século XIX, objetos heréticos, e sua leitura era clandestina e
perigosa. O comércio de livros no Brasil surgirá nos fins do século XVIII, no entanto, a polícia fiscalizava
regularmente e severamente livreiros e livrarias, limitando a amplitude dessa atividade. Inúmeros
exemplos podem ser citados no sentido de fazer-nos refletir sobre a intolerância em relação ao
conhecimento, à difusão cultural do saber e ao passado. Para além das dificuldades da difusão e circulação
de livros e jornais, é preciso atentar para o fato de que numa dimensão histórica local, sabemos que a
primeira tipografia instala-se na cidade de São Pedro do Uberabinha, hoje Uberlândia, após 9 anos da
independência do Município, ou seja, em 1897, portanto, 89 anos após a publicação do primeiro jornal no
Brasil. A tipografia de João Luiz da Silva imprime o primeiro jornal da cidade A Reforma, no qual são
publicados os expedientes da Câmara Municipal. A tipografia é vendida para a Câmara que, por nove
anos, imprime os jornais Gazeta de Uberabinha, Cidade de Uberabinha e A Semana. A relação direta entre
a tipografia e o poder público na cidade é inequívoca, o que também é comum na história da imprensa
brasileira. A segunda tipografia instalada em Uberabinha pertencia ao jornalista Bernardo Cupertino que
funda o jornal O Progresso publicado de 1907 a 1914. Já em 1907 funcionam 3 tipografias: A Popular, de
Cupertino & Filho que imprimia o jornal O Progresso; a Tipografia Progresso, do jornalista Nicolau
Soares, que imprimia o Jornal Nova Era e a Tipografia A Escola do professor Honório Guimarães. Em
1909, funda-se na cidade a Livraria e Tipografia Kosmos de Zacarias Alves de Melo. Foram impressos na
sua oficina os jornais O Brasil e Livraria Kosmos; o Almanaque de Uberabinha, no período de 1911 e
1912, dentre outros. O aspecto interessante do funcionamento da Livraria e Tipografia Kosmos refere-se à
importância dada a esse espaço em comparação às livrarias do Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Considerase a Livraria como espaço privilegiado para os que amam os livros, o que é sinônimo de civilização e
cultura. O jornalista Salazar Pessoa escreve, em 1959, na comemoração de 50 anos da Livraria Kosmos,
uma crônica sobre a sua fundação, comparando-a a famosa Livraria Garnier no Rio de Janeiro, onde se
encontravam os grandes intelectuais da época, como Coelho Neto, Olavo Bilac, Aluízio e Arthur Azevedo.
Na Livraria Kosmos, encontravam-se o poeta Nicolau Soares, João de Deus Faria – criador do nome de
Uberlândia, o juiz de Direito Duarte Pimentel de Ulhôa, o promotor Manoel Lacerda: um bibliomaníaco, o
Padre Pio Dantas Barbosa, o Professor Honório Guimarães, o farmacêutico Leoncio Chaves e Figueiredo
Murta, o charadista José Guerreiro. Essa turma discute, na Livraria, problemas de ordem material e
intelectual sobre a cidade. Nos anos de 1950, a Livraria Kosmos passa a ser dirigida por João R. Machado,
que era balconista. A Livraria Kosmos foi quase totalmente tomada pelo fogo provocado por um curto
circuito no final dos anos de 1950. Em sua reinauguração, o cronista Lycídio Paes escreve, no jornal
Correio de Uberlândia, uma crônica comparando a Livraria a uma Fênix renascida das cinzas. Através dos
comentários do cronista, podemos perceber a importância daquele espaço na difusão do ensino e na
expansão cultural da cidade. Podemos concluir, então, que até a metade do século XX foram criadas as
bases para a produção e a difusão cultural de jornais e livros na cidade de Uberlândia. Os anos de 1950
representaram, com a criação dos cursos de ensino superior, a possibilidade dessa expansão. Mas, para
Lycídio Paes, o fato de Uberlândia ter se tornado uma cidade industrializada, progressista e burguesa não
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significou, necessariamente, um avanço cultural e intelectual, já que, apesar desses esforços, as artes não
encontraram um ambiente favorável para sua germinação.
TRABALHO COMPLETO
Os livros são objetos transcendentes.
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos magos e ciganos
Domá-los, cultivá-los em aquários.
Em estantes, gaiolas em fogueiras.1
Um dos principais aspectos na discussão sobre a cultura refere-se aos meios de difusão
cultural e aos locais de circulação da informação. E aí se inserem a tipografia, o jornal, a imprensa. É
importante compreender também que a leitura é uma prática cultural, e conforme Chartier2 sobre esse
terreno “encontram-se colocados, como num microcosmo, os problemas passíveis de serem
reencontrados em outros campos e com outras práticas.” Nesse sentido, o universo das gráficas, das
impressões diz respeito a uma prática cultural que se faz presente de forma inegável na sociedade
contemporânea.
Com relação à difusão é importante salientar o papel da tipografia que propiciou a impressão
de livros e jornais e que no Brasil talvez tenha chegado mais tarde do que em qualquer outro lugar do
mundo3 Podemos dizer que não se publicaram livros nos Brasil ao longo dos séculos coloniais. Os
jornais apareceram por volta de 1808 quando se publica a Gazeta do Rio de Janeiro.
Os livros vindos da metrópole destinavam-se, especificamente, ao ensino religioso e eram
submetidos à censura. As bibliotecas eram raras, e os jesuítas da Bahia possuiam a única coleção
apreciável de livros.
Diante dessas informações, Massaud Moisés, conclui que:
eram precários os meios de comunicação ao longo dos séculos coloniais, e
quando existentes, enfeixavam-se nas mãos de ordens religiosas e
circunscreviam-se às obras que lhes serviam para o proselitismo e catequese
dos indígenas. Numa palavra: o obscurantismo, de resto espelhando a
situação vigente na Metrópole, alastrava-se por toda a colônia.4
Ao estudar a formação do leitor brasileiro no período colonial, José Horta Nunes, confirma as
informações de Massaud Moisés, esclarecendo que textos de feição mais científica ou laica que
circulavam na Europa, não existiam por aqui. Afirma esse autor:
os missionários fazem circular livros religiosos, bem como outras obras úteis
à catequese, como dicionários, catecismos e os próprios relatos. Eles
realizam um trabalho de leitura que vai desde a produção de interpretações
até os gestos de cópia e tradução. Essas atividades constituem-se num modo
de trabalhar a relação dos índios com a escrita, com a tradição da leitura
européia.5
Nelson Werneck Sodré explica o atraso da imprensa no Brasil, devido à ausência de
capitalismo e da burguesia, afirmando que somente nos países onde o capitalismo se desenvolveu é
que a imprensa foi criada e expandiu-se. Com relação à existência do Correio Brasiliense, N. W. Sodré
1
Caetano VELOSO. “Livros”. CD Livro, Polygram, 1997.
Roger CHARTIER, A leitura: uma prática cultural, p.231
3
De acordo com Carlos Rizzini em sua obra “O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil”, citada por Massaud
MOISÉS, História da Literatura Brasileira, p.75.
4
Ibid., p.76
5
José Horta NUNES, Formação do leitor brasileiro, p.44
2
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considera que sua influência foi muito relativa e, dessa forma, não se pode enquadrá-lo no conjunto da
imprensa brasileira.6
No entanto, para mostrar a diferença entre a colonização espanhola e a colonização portuguesa
com relação ao desenvolvimento da imprensa, Werneck afirma:
Assim, onde o invasor encontrou uma cultura avançada, tece de implantar
instrumentos de sua própria cultura, para a duradoura tarefa, tornada
permanente em seguida, de substituir por ela a cultura encontrada. Essa
necessidade não ocorreu no Brasil, que não conheceu, por isso, nem a
Universidade nem a imprensa no período colonial.(...) O aparecimento
precoce da Universidade e da imprensa, assim, esteve longe de caracterizar
uma posição de tolerância. Foi, ao contrário, sintoma de intransigência
cultural, de esmagamento, de destruição, da necessidade de, pelo uso de
instrumentos adequados, implantou a cultura externa, justificatória do
domínio, da ocupação, da exploração.7
Parece-nos paradoxal a leitura de N.W. Sodré que em princípio atribui a existência e ao
desenvolvimento da imprensa uma relação direta com o capitalismo, ressaltando seus aspectos
técnicos e ideológicos ligados aos ideais liberais burgueses e, por outro lado, referir-se à inegável
existência de Universidades e imprensa na América espanhola desde 1539.8
Podemos refletir sobre esse aspecto, que a imprensa e a Universidade são locais e espaços de
circulação e divulgação do saber e, portanto, instrumentos de poder em qualquer sociedade.
Diante dessas considerações não podemos descartar, no entanto, que o livro e a imprensa
foram no Brasil, até os princípios do século XIX, objetos heréticos, e sua leitura era clandestina e
perigosa.
O comércio de livros no Brasil surgirá nos fins do século XVIII, no entanto, a polícia
fiscalizava regularmente e severamente livreiros e livrarias.
Alberto Manguel em seu livro Uma História da Leitura, apresenta-nos um aspecto mais
panorâmico dessa questão, afirmando que séculos de ditadores souberam ser mais fácil dominar uma
multidão analfabeta. E já que não se pode desaprender a arte da leitura, a prática é limitar seu alcance.
Nas palavras do autor:
A censura, portanto, de qualquer tipo, é o corolário de todo poder, e a
história da leitura está iluminada por uma fileira interminável de fogueiras de
censores, dos primeiros rolos de papiros aos livros de nossa época. As obras
de Protágoras foram queimadas em 411 A.C., em Atenas. No ano 213 A.C.,
o imperador chinês Chi Huang-Ti tentou acabar com a leitura queimando
todos os livros de seu reino. E, 168 A.C., a biblioteca judáica de Jerusalém
foi deliberadamente destruída durante o levante dos macabeus....9
Inúmeros exemplos são citados no sentido de fazer-nos refletir sobre a intolerância em relação
ao conhecimento, à difusão cultural do saber e ao passado.
O nazismo fez, desse gesto, um ritual quando Goebbels discursa para uma multidão ao
queimar cerca de 20 mil livros, que, na sua concepção, representavam as obscuridades do passado que
ressurgiriam das cinzas como um espírito novo de uma fênix. Entre essas obras obscuras estavam os
livros de Freud, Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H.G. Wells, Heinrich e Thomas
Mann, Jack London, Bertold Brecht, entre centenas de outros.10
6
Nelson Werneck SODRÉ, História da Imprensa no Brasil, p. 27
Ibid., p. 11
8
O debate historiográfico sobre esta abordagem encontra referência nas obras de Fernando Novais e Maria
Sylvia Carvalho Franco.
9
Alberto MANGUEL, Uma História da Leitura, p. 315
10
Ibid., p.316
7
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A partir dessas considerações gerais, nosso objetivo é enfocar a difusão e a circulação de
impressos na cidade de Uberlândia. Observando recentemente a cidade notamos a existência de poucas
livrarias para uma cidade com cerca de 500 mil habitantes, uma Universidade pública e vários Centros
Universitários, com inúmeros cursos.
A quantidade razoável de gráficas não influi ou reflete na produção e na difusão de livros ou
textos produzidos por escritores ou intelectuais locais.
Numa dimensão histórica podemos considerar que a primeira tipografia instala-se na cidade de
São Pedro do Uberabinha, após 9 anos da independência do Município, ou seja, em 1897.11
A primeira tipografia do Município de São Pedro do Uberabinha foi criada em 1897 pelo Prof.
João Luiz da Silva, considerado também o fundador da imprensa local na qualidade de proporietário
do semanário A Reforma, em 17 de janeiro desse mesmo ano era publicado o seu primeiro número.
Em 1898 a tipografia e todo o seu espólio é vendido à Câmara Municipal para impressão de seus
expedientes, o que durou nove anos e permitiu a impressão dos jornais: Gazeta de Uberabinha, Cidade
de Uberabinha e A Semana.12
A relação direta entre a tipografia e o poder público na cidade é inequívoca. A história da
imprensa no Brasil revela também essa questão. Três meses antes da impressão do jornal Gazeta do
Rio de Janeiro em 1808, outro jornal era publicado, o Correio Brasiliense de Hipólito da Costa, que
era impresso em Londres. Bethânia S.C. Mariani assim comenta esse fato:
Estava, assim, organizada uma curiosa concorrência instaurada sobre uma
contradição. No Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro era o resultado da
iniciativa oficial portuguesa, mas na Inglaterra o Correio Brasiliense tinha
um dono particular. Eram dois jornais coexistindo com referências nominais
a um país do Novo Mundo, mas com a quase totalidade de seu noticiário
voltado para Europa.13
A segunda tipografia instalada em Uberabinha pertencia ao jornalista Bernardo Cupertino que
funda o jornal O Progresso publicado de 1907 a 1914.
Já em 1907 funcionam 3 tipografias: A Popular de Cupertino & Filho que imprimia o jornal O
Progresso; a Tipografia Progresso do jornalista Nicolau Soares que imprimia o Jornal Nova Era e a
Tipografia A Escola do professor Honório Guimarães.
Em 1909 funda-se na cidade a Livraria e Tipografia Kosmos de Zacarias Alves de Melo.
Foram impressos na sua oficina os jornais O Brasil e Livraria Kosmos; o Almanaque de Uberabinha,
no período de 1911 e 1912; o romance Liberato e Afonso de Pedro Salazar M. da Veiga Pessoa;
Trovador Real; além de impressos comerciais.
O aspecto interessante do funcionamento da Livraria e Tipografia Kosmos, refere-se à
importância dada a esse espaço em comparação às livrarias do Rio, São Paulo e Belo Horizonte.
Em artigo do dia 25/12/1909, do jornal A Livraria Kosmos, vemos essa comparação
estampada. Considera-se a Livraria como espaço privilegiado para os que amam os livros, o que é
sinônimo de civilização e cultura.
As livrarias são descritas como espaços de encontro da elite intelectual. No Rio de Janeiro
frequentava-se o Garnier e o Briguet, na rua do Ouvidor; em São Paulo a casa Garraux e em Belo
Horizonte a Livraria Beltrão. Nesses lugares encontravam-se poetas, prosadores, médicos, advogados,
engenheiros e estudantes.
Na abertura da Livraria o jornal A Livraria Kosmos anunciava:
Para aqueles que estudam, que amam os livros, para aqueles que admiram a
resfolegação ritmada dos prelos em atividade, esse fato, a que os indiferentes
não dão importância, reveste-se de um alto valor. O livro é a civilização e a
terra onde o livro tem procura pode se gabar de ser culta. Em todas as parte,
11
Um Tópico da Nossa História. Revista Uberlândia Ilustrada, n.º 25, set. 1959.
Um tópico da nossa história. Uberlândia Ilustrada. N. 25, Setembro de 1959.
13
Bethânia Sampaio Corrêa MARIANI. Os primórdios da Imprensa no Brasil/ou: de como o discurso
jornalístico constrói memória. In: ORLANDI, Eni Puccinelli. Discurso Fundador: A formação do país e a
construção da identidade nacional. Campinas- SP, Pontes, 1993., p.
12
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nos grandes centros, as livrarias constituem os pontos principais, onde se
reúne a elite intelectual. É assim que, no Rio, quem quiser encontrar os
melhores escritores, os mais ilustres literatos, vá ao Garnier, onde eles
formam todas as tardes em cenáculo. O Briguiet, na rua nova do Ouvidor
concentra em seus vastos salões o mundo científico. Em São Paulo a casa
Garraux e em Belo Horizonte a livraria Beltrão são também os principais
pontos de reunião. Nesses lugares se encontram sempre os poetas,
prosadores, médicos, advogados, engenheiros e estudantes.14
O artigo cita que não querer comparar a “pequena mocinha” que é Uberabinha, a esses grandes
centros, mas que agora ela já possui os seu ponto de “great attracion”, que é a Livraria Kosmos, onde
seu amável e trabalhador dono atende a todos.
O jornalista, historiador e cronista Salazar Pessoa escreve, em 1959, na comemoração de 50
anos da Livraria Kosmos, uma crônica sobre a sua fundação.
Pessoa afirma que Zacarias Alves de Melo ao fundar, na ainda Uberabinha a Livraria e
Tipografia Kosmos, segue o exemplo de Arédio de Souza que fundou em Uberaba a Livraria Século
XX, que revoluciona as esferas jornalísticas, gráficas e culturais do Triângulo Mineiro.
Outra semelhança e proximidade destacada por Salazar Pessoa refere-se à famosa Livraria
Garnier no Rio de Janeiro, onde encontravam-se os grandes intelectuais da época como Coelho Neto,
Olavo Bilac, Pardal Malet, Emílio Menezes, Aluízio e Arthur Azevedo, dentre outros.
Na Livraria Kosmos encontravam-se Francelino Cardoso; Nicolau Soares – poeta; João de
Deus Faria, que criou o nome de Uberlândia, em plebiscito lançado no jornal O Brasil da Livraria
Kosmos; o juiz de Direito Duarte Pimentel de Ulhôa; o promotor Manoel Lacerda, que era
bibliomaníaco e gostava de ver os livros novos antes de qualquer outro cliente; o Padre Pio Dantas
Barbosa; o Professor Honório Guimarães; o farmaceutico Leoncio Chaves e Figueiredo Murta; o
charadista José Guerreiro.
Vemos ai representados profissionais das mais diversas áreas. Essa turma vai ampliando-se
cada vez mais e discutindo na Livraria problemas de ordem material e intelectual sobre a cidade.
Salazar Pessoa cita ainda os frequentadores como o cronista e jornalista Pedro Pezutti; Agenor
Paes, poeta, jornalista e gráfico; Júlio Alvarenga, cronista social; o Dr. Oliveira Martins; o médico
Eduardo de Barros; o historiador Tito Teixeira, e tantos outros.
Nos anos 50, a Livraria Kosmos passa a ser dirigida por João R. Machado, que de balconista e
viajante tornou-se proprietário.
Vítima de um incêndio, a Livraria Kosmos foi quase que em sua totalidade tomada pelo fogo
provocado por um curto circuito no final dos anos 50.15
Em sua reinauguração o cronista Lycídio Paes escreve no jornal Correio de Uberlândia uma
crônica comparando a Livraria à uma Fênix que renasce das cinzas. Através dos comentários do
cronista podemos perceber a importância daquele espaço na difusão do ensino e a expansão cultural da
cidade, conforme afirma:
Sou refratário aos panagericos e detesto redigir a parte comercial dos órgãos
de imprensa em que eles entram como fonte indispensável de venda, embora
reconheça a perfeita honestidade desse mister, às vezes um tanto excedido
em adjetivação, muito do gosto dos interessados (...) Mas o nome tradicional
da Kosmos que os uberlandenses estimam e prezam de longa data, força-me
a este exultamento, que não tem a suspeita da remuneração, mas o tributo da
espontaneidade. 16
14
Um estabelecimento útil. A Livraria Kosmos. Ano 1., Uberabinha, 25 de Dezembro de 1909, n.5. p.1(Tiragem
2000 exemplares)
15
Livraria Kosmos reabrirá brevemente. Correio de Uberlândia, 20/02/1960, p.1
16
Lycídio PAES. Fenix Renascida. Correio de Uberlândia, 10/04/1960, p.6.
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Sabemos que a Livraria Kosmos é hoje apenas mais um estabelecimento comercial da cidade e
não um espaço para encontros e debates intelectuais, além de recentemente ter se mudado de seu
antigo endereço na Av. Afonso Pena para a Av. Brasil.
Lycidio Paes escreve, provavelmente no final dos anos 40, que é possível aquilatar o grau de
desenvolvimento mental da cidade pela venda de livros. E comenta:
Não temos ainda, é verdade, uma grande livraria, visto que as duas casas
mais antigas que exploram esse ramo comercial e que têm explícito no seu
título essa especialidade são menos livraria do que bazar. Do seu sortimento
fazem parte objetos de louça, de vidro, de couro, numa variedade infinita de
artigos que fogem à esfera de sua denominação. 17
O cronista refere-se a Livraria Kosmos e à Livraria Pavan, chamando mais adiante atenção de
que recentemente foi inaugurada a a Livraria Chaves e ainda há a Tipografia Uberlândia, que também
faz trabalhos gráficos. Paes cita ainda duas agências de jornais que talvez tenham boa parte de sua
renda advinda da venda de livros. Os volumes de mais preço são comprados diretos dos editores, como
os livros de pedagogia, medicina. Outra fonte de aquisição, principalmente de livros populares é o
pedido por reembolso postal, o que facilita a compra por meio de catálogos .
Ao computar todas essas formas de aquisição de livros o cronista conclui que já se lê muito na
cidade, afirmando não ser baixo o nível da cultura. E não se lê mais em função do alto preço dos
livros, segundo o cronista: “a dificuldade do papel e a majoração do trabalho tipográfico tornaram
meio proibitiva a aquisição de livros.”
Por fim Lycídio Paes considera que os responsáveis pelos relevantes fatores que destacou são
os institutos de ensino. E assinala: “o comercio de livros existe evidentemente como conseqüência
dessas condições. Mas esse comércio estende o ensino além do curso escolar, e por isso devemos
estimá-lo e incentivá-lo.” Nesse sentido, para o cronista a formação cultural vai além da necessária
educação formal:
Folheando um romance de Camilo Castelo Branco ou de Machado de Assis,
às vezes se aprende mais português do que num compêndio dessa matéria,
lendo uma coleção de poesias modernas, aprendemos matemática: contandolhes os dispautérios de métrica e as inconseqüências da sintaxe e os
destemperos da imaginação.
Ao fim da crônica, Lycídio Paes não deixa de mais uma vez criticar a literatura moderna, mas
não deixa de contraditoriamente, incentivar sua leitura.
A imprensa e seus agentes:
Matéria da revista Uberlândia Ilustrada18 afirma que notícias vagas dão conhecimento que os
primeiros jornais da cidade surgiram em defesa da independência do Município, ou seja, de São Pedro
do Uberabinha da Cidade de Uberaba. Como não foram encontrados exemplares desses jornais, o
Jornal A Reforma é considerado o primeiro, impresso em Uberabinha.
Esse semanário independente teve seu primeiro exemplar publicado em 17 de janeiro de 1897
e circulou durante quatorze meses, sendo fundado pelo professor João Luiz da Silva. A redação era de
responsabilidade do Juiz . José Antonio de Medeiros Cruz, em colaboração com o professor Jerônimo
Teotônio de Morais diretor do Colégio Uberabinhense e o advogado Amando Santos, jornalista de
Franca.
Essas informações preliminares da matéria indicam-nos então que política, educação e
jornalismo estão entre os pilares básicos da formação intelectual da cidade e da atuação de grupos
políticos.
17
18
Lycídio Paes. O problema cultural. s/d, s/j.
Revista Uberlândia Ilustrada, n.14,Dez de 1947.
2982
Essa premissa pode se constatada na matéria do jornal n.11, reproduzida pela revista que
explicita a pena ferina do redator que denuncia abusos e costumes retrógrados dos que ocupam o
poder:
Estamos vivendo sob a forma de governo republicano, livre e independente.
Cada cidadão pode prestar os seus serviços à causa pública, do melhor modo
que entender, conforme as suas forças e aptidão. Mas retrair-se é faltar ao
dever de cidadão e patriota, é tornar-se um inerte. (...) É preciso que abramos
as vistas dos competentes, daqueles que têm em suas mãos o futuro e
prosperidade do município, e abusando mesmo façamos chegar ao
conhecimento do povo, que a República não admite privilégios, não admite
costumes retrógrados incompatíveis com as nossas vistas de povo educado e
tendende ao aperfeiçoamento moral e intelectual; é preciso que digamos bem
alto, que esse ou aquele ato emanado do corpo legislativo está prol ou contra
às disposições liberais de nossa lei orgânica, da lei que garante a autonomia
municipal.
O trecho acima é reproduzido na Revista Ilustrada, sem, no entanto, deixar claro as questões
que aborda, mas apresenta-nos o discurso que mobiliza a imprensa brasileira no século XIX, que é a
manutenção do espírito liberal e republicano como salvaguardas do direito de expressão e do papel
fiscalizador do jornal. O encerramento da mesma matéria é exemplar, nesse sentido: “Voltaremos, se
for preciso”. O que é também interessante destacar é que o jornal tendo resistido a apenas quatorze
meses vendeu seu maquinário para que a Câmara Municipal pudesse imprimir seus editais.
Em 1898 aparece então o órgão oficial da Câmara denominado Gazeta de Uberabinha. Seu
redator-chefe era o Promotor público da Comarca e também escritor e jornalista José Noden de
Almeida Pinto. Além de dar conhecimento dos atos da Câmara o jornal, segundo a matéria, publicava
pródigas bajulações àqueles próximos ao poder constituído. Com essa orientação o jornal funcionou
por cerca de 9 anos.
A tipografia da Câmara publicou também os jornais Cidade de Uberlândia e A Semana. O
primeiro deles surgiu no início do século XX e teve como fundadores o professor João Basílio de
Carvalho e Lamartine de Alencastro Moreira. A Semana surgiu 3 anos depois sob a orientação do
advogado Francisco Itajiba.
Em 1907 Bernardo Cupertino constitui uma nova tipografia, que passou a imprimir o jornal O
Progresso. O jornalista Nicolau Soares, estabelece também nesse período, uma nova tipografia onde
imprime seu jornal independente Nova Era, que teve apenas um semestre de existência. Nesse curto
espaço de tempo defendeu causas como a campanha para construção de ponte metálica sobre o Rio
Paranaíba ligando o Triângulo ao Sudoeste de Goiás, a organização de empresa para explorar o serviço
de eletricidade.
O jornal O Progresso teve oito anos de vida ininterrupta e contou com a colaboração de vários
jornalistas reconhecidos na cidade como Moizés Santos, Augusto César, Honório Guimarães, Cônego
Pedro Pezutti dentre outros.
Como sucessor do jornal O Progresso, extinto em 1914, José Peppe cria em 1918 o jornal A
Notícia que dura apenas 1 ano. Em 1915 surgiu o jornal O Brasil fundado por Zacarias Alves de Ulhoa
e Melo, que também criou a Livraria e Tipografia Kosmos em cooperação com o escritor Pedro
Salazar Moscoso da Veiga Pessoa.
O jornalista Moizes Santana fundou em 1914 o jornal O Paranaíba, também impresso nas
oficinas da Livraria e Tipografia Kosmos. Esse jornalista foi assassinado na cidade de Uberaba no ano
de 1922 quando ali redigia no Jornal Lavoura e Comércio. O Paranaíba, jornal de oposição, defendeu
ardorosamente a criação do Estado do Paranaíba com a junção do Triângulo Mineiro, parte de
Paracatu e do sudoesta goiano.
O jornal Diário de Uberabinha de propriedade da firma Guimarães & Cia, formada por
Honório Guimarães, Pedro Salazar Filho e Raulino Cota Pacheco, teve interrompida sua publicação,
num prazo de 10 dias, com a dissolução da firma.
Até o ano de 1919 foram circularam na cidade os jornais O Ferrão, A Escola. Gavião
(humorístico), Kosmos, Voz de Uberabinha, Martelo, Comércio e Binóculo, Corisco, Chaleira, O
Violino, Borboleta.
2983
Em 1919 é criado o jornal A Tribuna pela firma Rodrigues, Andrade e Cia. Esse semanário
noticioso e independente tece como redator principal o agente municipal João Severiano Rodrigues da
Cunha (Joanico). Este jornal manteve-se durante 25 anos em permanente atividade. Em 1920 o
jornalista fluminense Agenor Paes assume a direção do jornal mantendo-o até 1944. Com sua morte o
jornal dica paralisado por 2 anos e retorna como órgão católico em 1946. Em 1947 Corrêa Júnior
retoma a direção do jornal, pertencendo agora à firma Artes Gráficas Brasil Central.
Fundando em 1923 pelo jurista Dr. Manoel Martins da Costa Cruz, o jornal Sertão Judiciário
tratava de questões forenses, de forma destemida seu redator estava sempre alerta na defesa dos
direitos e nas causas de vultos. Achamos interessante reproduzir aqui o poema do jurista Como é o
amor em Goiás, por expressar certa sensibilidade com a causa feminina e seu fatídico destino:
Mulher
Mulher, sonho de amor, visão querida.
Mulher santa, mulher nunca igualada.
Mulher celeste, enquanto desejada
Mulher vulgar, depois de possuída
Quando não alcançada é a preferida
Mas, depois que se rende é desprezada
Vive no cativeiro se é casada,
Solteira, ei-la no cárcere da vida
Por mulher, angélica criatura!
cuja existência Deus encheu de espinho,
do níveo berço ao pó da sepultura.
Deste mundo no trânsito mesquinho
Sofres, se te conservas sempre pura
Morres, se cais na lama do caminho.
Órgão do partido oposicionista, denominado “coió”, o jornal A Reação foi criado em 1924, e
teve como seu redator-chefe o jornalista Lycídio Paes, que também fundou em 1923 O Reflexo e Voz
Central em 1940. Destaca-se na atuação do jornal as questões referentes ao abastecimento de água e a
força e luz.
A filha de Lycídio Paes, Yolanda Paes e Maria Stefani criaram no ano de 1925 o jornal A
Mariposa, jornal feminino que contou com diversos colaboradores, publicando poesias, crônicas,
frases pitorescas.
Nesse mesmo ano de 1925 é fundado o jornal O Repórter por Artur Barros e J. Faria. No ano
de 1947, quando publicada a matéria na Revista Ilustrada o seu diretor e proprietário era João de
Oliveira e o seu redator-chefe Lycídio Paes.
No período compreendido entre 1919 a 1928 circularam ainda em Uberlândia os jornais O
Lampeão, o Alarme, O Relâmpago, A Chispa, O Saber, O Lápis, A Letra, o Garotinho, Voz Infantil,
Voz Paroquial, a Esperança, O Jornalsinho, O Bohêmio, A Farpa, o Triângulo Mineiro, o Ideal, o
Agarra, O Município.
O farmacêutico Rosenvaldo Bernardes (Vadico) funda em 1931 o jornal A Pena, que circulou
num espaço de 5 anos. Em 1935 Odorico de Paula e Orlando Dias criam o Jornal de Uberlândia, cujo
redator era Antônio Macedo Costa, teve papel de destaque como jornal de oposição até 1936 quando
passou para a sociedade do jornal O Estado de Goiaz.
Em 1938 é fundado o jornal Correio de Uberlândia sob a direção de Osório Junqueira. No
início dos anos 40 teve paralisad suas atividades e sua oficina vendida ao jornal A Voz Central dirigido
por Lycídio Paes. No entanto, em setembro do mesmo ano, Corrêa Júnior e Hostildo Alves de Oliveira
reeditam o jornal. De todos os jornais até aqui citados o Correio, sua nova denominação, é ainda
atuante.
No período compreendido entre 1929 a 1947 outros jornais circularam como a Folha
Municipal; Diário da Revolução, Escola Normal, O Triunfo, Jornal Pequeno, Araponga, O
Brasileirinho, Escola Rural, O Estado de Goiás, o S.U. Jornal, O Mineirinho, O Povo, a Seara,
2984
Diário de Uberlândia, A Raça, O Momento, Luz e Caridade, Hora H, A Borboleta, Democracia, O
Crítico, O Bandeirante, Correio Popular, O Machado, O Cruzeiro, Mercúrio, Ginasiano, Oásis,
Mocidade Livre, Praia Clube, o Inconfidente, Nova Sento, Brasil Central, Voz do Povo.
Além desses jornais circularam as revistas A Escola, Ave Maria, Ilustração Mineira, A Bola,
Revista do CCP, Triângulo de Minas, Revista do Campeonato, Escola Normal, Uberlândia Rotaria,
Nossa Terra, a Camponesa, Uberlândia Ilustrada.
A matéria da Revista Ilustrada destaca ainda que ao comemorar em 1947 o cinquentenário da
organização da imprensa em Uberlândia estão em evidência os jornais: Correio de Uberlândia, A
Tribuna, Brasil Central, O Repórter, Uberlândia Ilustrada, Mocidade Livre, O Inconfidente, Nova
Sento, Voz do Povo e Praia Clube.
Em tom ufanista a Revista encerra a matéria reconhecendo o valor dos jornalistas do passado
descrevendo sua atuação destemida:
Fostes vós homens da pena, os intemeratos protetores da civilização regional
do passado, lutando destemidamente – qual o SOLDADO
DESCONHECIDO – em defesa do patrimônio sagrado de cultura, que com
orgulho conservamos.(...) Vossa vida foi um exemplo de abnegação e amor
ao trabalho construtivo à luz das letras, no testemunho da expressão do
vosso tirocínio que abriu perspectivas, rasgou horizontes.(...)(p.34).
Podemos concluir, então, que até a metade do século XX foram criadas as bases para a produção e
a difusão cultural de jornais e livros na cidade de Uberlândia, propiciando novas práticas culturais. Os anos
de 1950 representaram, com a criação dos cursos de ensino superior, a possibilidade dessa expansão. Mas,
tomando as palavras de Lycídio Paes, sabemos que o fato de Uberlândia ter se tornado uma cidade
industrializada, progressista e burguesa não significou, necessariamente, um avanço cultural e intelectual:
E tem Uberlândia sabido representar esse papel no conceito das comunas? De
um modo geral, a resposta é afirmativa. Poderão se fazer certas restrições, como,
por exemplo, a de que ao seu desenvolvimento material não correspondeu o
adeamento intelectual; a de que as artes não encontraram até hoje um ambiente
favorável para sua germinação.19
Podemos considerar, por fim, que as práticas culturais de leitura, estão necessariamente ligadas à
produção e difusão cultural, no entanto, o cronista desconfia sabiamente de que o desenvolvimento
econômico não corresponde, necessariamente, a um amplo desenvolvimento intelectual e artístico, que
ainda espera um solo favorável para germinar.
Fontes:
- Revista Uberlândia Ilustrada, n.º 14, Dez.1947. Acervo Jerônimo Arantes, Arquivo Público
Municipal;
- Revista Uberlândia Ilustrada. n.º 25, Set.1959. Acervo Jerônimo Arantes, Arquivo Público
Municipal.
- Jornal Correio de Uberlândia. Coleção Arquivo Público Municipal.
BIBLIOGRAFIA:
CHARTIER, Roger. A leitura: uma prática cultural: debate entre Pierre Bourdieu e Roger Chartier. In:
CHARTIER, R.et al.Práticas de Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
19
Lycídio PAES. Modos de Subir. Correio de Uberlândia, 16/03/1958, p.2/3.
2985
MARIANI, Bethania Sampaio Corrêa. Os primórdios da imprensa no Brasil/ou: de como o
discurso jornalístico constrói memória. In: ORLANDI, Eni Puccinelle. Discurso Fundador: A
formação do país e a construção da identidade nacional. Campinas, São Paulo: Pontes, 1993.
MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Origens, Barroco, Arcadismo São
Paulo: Cultrix, 1990.
NUNES, José Horta. Formação do Leitor Brasileiro: Imaginário da Leitura no Brasil.
Colonial. Campinas: Editora da Unicamp, 1994.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
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