80 BCriai Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação Nº 05 Periodicidade Bimestral Organização: Editor-chefe: Co-editora: Sergio Fernando Zavarize Solange Muglia Wechsler Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 81 EDITORIAL 82 Tatiana de Cássia Nakano Primi A INFLUÊNCIA DA CULTURA ORGANIZACIONAL COMO ESTÍMULO OU BARREIRA À CRIATIVADE 83 Andresa Paula de Sousa; João Francisco Lins Brayner Rangel Junior IDENTIFICAR AS ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO: UM PROCESSO NO CONTEXTO EDUCACIONAL Susana Graciela Pérez Barrera Pérez ADULTOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO: UMA HISTÓRIA DE REVELAÇÕES 87 91 Susana Graciela Pérez Barrera Pérez ENSINO A DISTÂNCIA: APLICAÇÃO DO MODELO DE HABILIDADES DE PENSAMENTO DE PUCCIO, MURDOCK E MANCE NA CONSTRUÇÃO DE CONTEÚDOS 92 Vera Maria Tindó Freire Ribeiro PROMESSAS DE FINAL DE ANO... 93 Heide Castro VALE A PENA LER DOSSIÊ: ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO 96 ALTAS HABILIDADES / SUPERDOTAÇÃO:MANUAL PARA GUIAR O ALUNO DESDE A DEFINIÇÃO DE UM PROBLEMA ATÉ O PRODUTO FINAL Déborah Burns; Angela Virgolin 97 CABRUM!! CHUVA DE IDEIAS: DESENVOLVENDO A CRIATIVIDADE DAS CRIANÇAS 98 Angela Virgolim CHAMADA PARA A PRÓXIMA EDIÇÃO 100 Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 82 Editorial Tatiana de Cássia Nakano Primi Pontifícia Universidade Católica de Campinas Presidente da CRIABRASILIS E-mail: [email protected] Esse ano um dos grandes marcos alcançados pela Criabrasilis foi a criação do boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, atualmente em seu quinto número. Diversas notícias, relatos de experiências, divulgação de publicações e eventos na área relacionados à criatividade e inovação, foram compartilhados por profissionais nacionais e internacionais. A regularidade na sua publicação e sua proposta de continuidade qualifica parte das ações que vêm sendo planejadas e desenvolvidas pela nova diretoria, a qual permanece à frente da associação até o ano de 2016. Ao longo de 2014, os membros tiveram a oportunidade de participar de importantes eventos na área. Recentemente, destaque pode ser dado ao VI Encontro Nacional do Conselho Nacional de Superdotação, X Congreso Iberoamericano de Superdotación, Talento y Creatividad, no qual alguns membros estiveram presentes, apresentando seus trabalhos. Tendo como temática as “Altas habilidades/superdotação, criatividade e inovação: contribuições para novas práticas e saberes”. Especificamente a criatividade foi enfocada em uma palestra (Criatividade: uma relação ineludível), um minicurso (Estimulación creativa en um método de generación de ideas) e uma apresentação oral (Como entienden los profesionales vinculados a la educación la creatividad? Estúdio sobre las teorias implícitas sobre el tema de la creatividad de uma muestra de educadores). Nos demais trabalhos, a criatividade apareceu dentro do quadro das altas habilidades/superdotação, voltados, principalmente, à apresentação de programas de intervenção e atendimento à essa população específica. Aproveitamos a oportunidade para agradecer a todos os colaboradores do boletim e convidar os interessados a enviarem suas contribuições. Um criativo, inovador e produtivo ano de 2015 a todos. Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 83 A INFLUÊNCIA DA CULTURA ORGANIZACIONAL COMO ESTÍMULO OU BARREIRA À CRIATIVADE Andresa Paula de Sousa Centro Universitário do Vale do Ipojuca - UNIFAVIP E-mail: [email protected] João Francisco Lins Brayner Rangel Junior Doutor em Psicologia Cognitiva Universidade Federal de Pernambuco E-mail: [email protected] Cada organização possui particularidades formadoras de sua cultura, tais características norteiam o comportamento de seus colaboradores e a cultura organizacional pode refletir no posicionamento da empresa frente ao ambiente em que atua. Este cenário foi bem descrito por Schein (2009). O dinamismo necessário às organizações para sua adaptação às mudanças no cenário em que estão inseridas requer das mesmas que sejam criativas e inovadoras. A influência da cultura pode facilitar ou dificultar a promoção da criatividade nas organizações, pois para que se obtenha uma organização competitiva é necessário, entre outros fatores, um ambiente promotor de iniciativa e inovação. Partindo desse pressuposto, foi realizado um estudo com o objetivo de identificar a influência exercida pela cultura organizacional para a formação de um ambiente criativo sob o ponto de vista de 51 discentes de um curso de bacharelado em Administração, situado no interior do estado de Pernambuco. Para a realização da pesquisa, foram considerados os elementos formadores da cultura organizacional, que Motta (2010) identificou como sendo: Mitos, Tabus, Ritos Coletivos, Normas, Linguagem e Valores. A abordagem desses elementos permite o estudo da cultura organizacional de forma mais concreta. Já para o estudo da criatividade organizacional, foram utilizados aspectos dos Indicadores de Clima para a Criatividade (ICC), os quais, de acordo com Hill e Amabile (apud BRUNO-FARIA e ALENCAR, 1996) identificam o ambiente social no qual os indivíduos estão inseridos, apontando características que funcionam como promotores e como barreiras à criatividade corporativa. Wechsler (2008), aponta como aspectos importantes para uma organização criativa, cujo ambiente reflete a personalidade dos seus membros, as características de estrutura Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 84 descentralizada, favorecendo ideias da base para o topo e a presença da meritocracia, a qual inclui a premiação do indivíduo conforme seu talento criador. O procedimento metodológico adotado na pesquisa com os estudantes, constituiu-se por um estudo quantiqualitativo com um instrumento para coleta de dados composto por um questionário, no qual utilizou-se uma escala de Likert de 4 pontos dispostos entre “Discordo totalmente” e “Concordo totalmente”. Nos resultados, foi possível identificar quais elementos culturais foram mais percebidos pelos respondentes conforme a cultura organizacional da qual fazem parte. Vale ressaltar que os respondentes estão imersos em diversas realidades organizacionais, diante do fato de que trabalham em empresas distintas. Aquilo que a diversidade de contextos poderia apontar para os mais diversos elementos da cultura, de forma heterogênea, resultou em algo singular. Os resultados mostraram a recorrência de alguns valores culturais similares na percepção dos respondentes, o que pode evidenciar uma influência cultural que se manifesta de forma homogênea em uma microrregião do estado de Pernambuco, onde os respondentes estão inseridos, já que os mesmos trabalham, em sua maioria, nas empresas da cidade de Caruaru e cidades circunvizinhas, como: Bezerros, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Como a cultura organizacional recebe influências do ambiente externo, ao estudar a cultura de empresas de uma mesma microrregião, pode-se constatar uma percepção comum à maioria dos envolvidos, como apontado na pesquisa, em que a percepção destes elementos se deu na seguinte proporção: Valores (80,30%), Normas (62,30%), Ritos Coletivos (55,70%), Tabus (51,20%), Linguagem (44,80%) e Mitos (32,70%). Já na análise da cultura organizacional de forma geral em relação aos estímulos ou barreiras à criatividade, o tratamento dos dados foi desenvolvido com o auxílio do software SPSS Statistics versão 22, utilizando o teste de QuiQuadrado de Pearson (X²) para medir as proporções, de forma a verificar a diferença entre as frequências esperadas e as observadas. Deste modo, foi possível estabelecer uma relação entre a proporção de respostas de determinadas variáveis. Como valor alfa para o cálculo do X² adotou-se 0,05, ou seja, resultados de até 0,05 significam forte semelhança no comportamento de dois grupos de variáveis, no tocante a frequências observadas e as esperadas, quanto mais próximos de zero forem os resultados, mais forte a semelhança. Em análise da cultura sob a percepção dos respondentes em relação aos estímulos, foi obtido um X² 0,172, caracterizando a não existência de semelhança, ou seja, as culturas analisadas não apontaram a formação de um ambiente que estimulasse a criatividade. Isto pode significar que as organizações nas quais os respondentes trabalhavam, não atentaram ainda para o fato de que estiveram contribuindo para que seus colaboradores não desenvolvessem o seu potencial criativo, colocando dificuldades inclusive em Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 85 questões de competitividade no mercado para as organizações. QUADRO 1 - Teste Qui-Quadrado Cultura Estímulos Valor df Significância Sig. (2 lados) Qui-quadrado de Pearson 681,917 648 ,172 Razão de verossimilhança 230,788 648 1,000 2,752 1 ,097 700 células (100,0%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é ,02. Associação Linear por Linear N de Casos Válidos 49 Fonte: dados da pesquisa. Quanto a análise da cultura com relação as barreiras à criatividade, o teste resultou em um número que representa ainda mais baixa semelhança, X² 0,331. Este número indica que esta cultura não representa uma barreira à criatividade e com uma semelhança ainda menor que o número apresentado na análise em relação a estímulos. É possível inferir que a cultura como um todo não seja um empecilho para um ambiente criativo, e sim, um ou mais elementos formadores da mesma façam este papel. QUADRO 2- Teste Qui-Quadrado Cultura Barreiras 840 células (100,0%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é ,02. Valor df Significância Sig. (2 lados) Qui-quadrado de Pearson 798,700 782 ,331 Razão de verossimilhança 254,887 782 1,000 Associação Linear por Linear 11,486 1 ,001 N de Casos Válidos 49 Fonte: Dados da pesquisa O resultado obtido chama a atenção para o fato de que não foi encontrada uma semelhança na análise das culturas abordadas quanto a estímulos ou barreiras à criatividade. Isto pode advir do fato de estas empresas estarem inseridas em determinada microrregião e as características culturais desta microrregião influenciem a formação da cultura organizacional de forma que seus ambientes internos não sejam promotores e também não seja formadora de uma barreira para a criatividade. Não é possível generalizar os resultados, evidenciando que todas as empresas envolvidas tenham estas características culturais, pois seria necessário um estudo mais aprofundado das características da microrregião e destas organizações para tal conclusão. Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 86 É provável que, no caso das barreiras não terem se relacionado com aspectos culturais advenha de algum outro elemento importante da cultura dessas corporações, que não tenha sido analisado, ou que algum elemento abordado no estudo esteja exercendo este papel mas de forma muito intrínseca, não evidente e por isso a dificuldade de encontra-lo nesta pesquisa. Destaca-se a importância de um estudo mais aprofundado sobre o assunto para que se tenha um diagnóstico mais preciso. <http://www.rausp.usp.br/busca/artigo.as p?num_artigo=164>. Acesso em 20 de setembro de 2014. MOTTA, Fernando C. Prestes; VASCONCELOS, Isabella Gouveia. Teoria Geral da Administração – 3ª ed. São Paulo: Cengage Learning, 2010. SCHEIN, Edgar H. Cultura Organizacional e Liderança. São Paulo: Atlas, 2009. WECHSLER, Solange Muglia. Criatividade: Descobrindo e Encorajando. Campinas: LAMP/PUC-CAMPINAS, 2008. Referências ALENCAR, Eunice M. L. Soriano de; BRUNO-FARIA, Maria de Fátima. Estímulos e barreiras à criatividade no ambiente de trabalho. Revista de Administração. São Paulo, V 31, n 2, pág. 50-61, abril/junho,1996. Disponível em Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 87 IDENTIFICAR AS ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO: UM PROCESSO NO CONTEXTO EDUCACIONAL Susana Graciela Pérez Barrera Pérez 1 E-mail: [email protected] À medida que a legislação educacional brasileira mais recente começa a ser posta em prática, cresce a necessidade de identificação dos alunos com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) nas escolas brasileiras. A nova Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o Decreto 7611/11, a Resolução Nº 4 e o Parecer Nº 13 determinam o atendimento educacional especializado (AEE) a esta parcela de alunos com necessidades educacionais especiais, definindo as suas diretrizes operacionais nas Salas de Recursos Multifuncionais e a adjudicação de matrícula adicional para os alunos atendidos por essa modalidade. O novo Plano Nacional de Educação (Lei 13005/14), além de coincidir com os documentos anteriores, determina que todos os alunos com Altas Habilidades/Superdotação devem ser 1 Doutora em Educação (PUCRS), em estágio pósdoutoral (UFS), sócia fundadora e presidente do Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD); membro do Conselho Técnico da Associação Gaúcha de Apoio às Altas Habilidades (AGAAHSD) e delegada por Brasil na Federación Iberoamericana do World Council for Gifted and Talented Children; pesquisadora do Grupo de Pesquisa CNPq da UNIP Inteligência e Criação: práticas educativas para Portadores de Altas Habilidades. identificados. Para cumprir com essas legislações, torna-se essencial que esses alunos sejam declarados no Censo Escolar, algo que até o momento somente acontece com um número infinitamente inferior às estimativas mais conservadoras sobre a incidência de AH/SD, e, para isso, é imperativo que eles sejam identificados. Tradicionalmente, os profissionais da área da Saúde (psicólogos e neurologistas) utilizavam (e ainda utilizam) instrumentos padronizados de avaliação cognitiva, como os testes de QI, transformando os resultados do desempenho superior à média em um “laudo” de Altas Habilidades/Superdotação. O "laudo” é um parecer de uma área técnica, neste caso, psicológica ou médica, cujo uso é indicado para identificar transtornos de ordem neurológica ou psicológica, não necessidades educacionais especiais. No contexto educacional, o “laudo” é um resquício da concepção clínica da Educação Especial, que devemos deixar de lado quando a entendemos sob o paradigma inclusivo e que NÃO é requisito exigido nem para o registro no Censo Escolar e nem para o atendimento Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 88 educacional especializado de nenhum aluno com necessidades educacionais especiais na legislação federal, conforme determina a Nota Técnica Nº 4, do Ministério de Educação (2014) simplesmente porque a identificação e a elaboração do Plano de AEE que permitirá a sua declaração no Censo, na Educação Especial, é atribuição exclusiva do Professor do AEE. Quando se trata de alunos com AH/SD, o “laudo” produzido após testes padronizados de “inteligência” somente atesta um desempenho superior à média no raciocínio e fluência verbal (área linguística), e/ou no raciocínio numérico e na apreciação de sequências lógicas (área lógico-matemática), na memória e na capacidade de resolver problemas do cotidiano, que frequentemente são muito destacadas nesses alunos, especialmente naqueles do tipo acadêmico. Embora ainda sejam bastante utilizados como instrumentos de avaliação, os testes de QI não trazem contribuições importantes para a identificação do desempenho superior nas áreas musical, corporalcinestésica, naturalista, espacial, intra e interpessoal e não raramente falham quando os alunos são do tipo produtivocriativo e se destacam mais pelo seu pensamento indutivo e divergente. Isso os coloca em desvantagem como instrumentos para identificar o comportamento de AH/SD, visto que, por um lado, a habilidade acima da média (em qualquer inteligência) é apenas um dos seus componentes, e deve incluir também um elevado nível de criatividade e de comprometimento com a tarefa e, por outro, porque especialmente esses dois últimos componentes são fortemente influenciados pelo ambiente e, conseqüentemente, de difícil mensuração por meio de testes. A identificação dos indicadores de AH/SD deve ser processual e contextual e ter um objetivo muito claro – contribuir para a definição do tipo de AEE que deve ser oferecido ao aluno. Por isso, é responsabilidade prioritária da Educação, sendo os educadores especializados, com o auxílio dos professores (da sala de aula regular e outros), da família e/ou dos colegas, os encarregados desse processo. Apesar de que a constatação dos indicadores de AH/SD exige uma avaliação mais demorada, os instrumentos de identificação são parte importante desse processo, quando observados contextual e qualitativamente. Um instrumento de identificação tem que ter como objetivo distinguir, reconhecer os traços característicos das Pessoas com Altas Habilidades/Superdotação (PAH/SD), permitindo-nos saber quem elas são, onde estão e o que precisam, promovendo a busca de sua identidade. Deve constatar a intensidade, a frequência e a duração desses indicadores, porque são essas as magnitudes indispensáveis para verificar o comportamento de AH/SD. Por essa razão, por se tratar de um processo que requer tempo, apenas um instrumento aplicado de forma pontual dificilmente terá condições de fazer essa avaliação. Ele poderá apontar os indicadores presentes nesse momento ou no período de vida anterior ao momento de aplicação do Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 89 instrumento, mas a verificação da intensidade, da frequência e da duração forçosamente requer uma observação mais demorada. Um instrumento que procure identificar os indicadores de AH/SD deve ter um conceito de inteligência e um conceito de AH/SD subjacentes. O conceito de inteligência única e imutável está francamente em descrédito, na atualidade, mas ainda há alguns nostálgicos defensores, e existe um embate entre o conceito de inteligência fatorial ou multifatorial e aquele que a considera multidimensional ou modular. Se entendermos a inteligência como um conjunto de fatores, a exemplo da noção de “inteligência geral” e “inteligência específica” que foi defendida por puristas como Spearman, ou daquela defendida por pluralistas como Thurstone, que lhe adjudicavam diversos componentes, o conceito de AH/SD ficará restrito a algumas habilidades intelectuais que frequentemente podem ser aferidas no desempenho acadêmico constatado na escola tradicional. Nessa escola, são supervalorizadas as habilidades analíticas e o pensamento dedutivo e são aferidos, assim como nos testes padronizados de QI, a memória e o raciocínio verbal, o raciocínio numérico, a apreciação de sequências lógicas e a capacidade de resolver problemas do cotidiano que se referem, primordialmente, às inteligências linguística e lógicomatemática. Se as habilidades investigadas abrangessem as demais áreas cerebrais - horizontalizando a hierarquia que colocava no topo da pirâmide aquelas duas que a escola tradicional e os testes padronizados privilegiam, incorporando no mesmo patamar outras inteligências, como a musical, a corporal-cinestésica, a espacial, a naturalista, a intra e a interpessoal, o conceito de AH/SD também terá um caráter multidimensional. Um instrumento de identificação dos indicadores de AH/SD tem que levar em consideração a heterogeneidade desse grupo de pessoas, devido à diversidade de áreas de destaque, de características de personalidade, de condicionantes culturais e socioeconômicas, das diferenças de gênero, e de comportamento e de manifestação das AH/SD entre as PAH/SD do tipo acadêmico e do tipo produtivocriativo ou mesmo misto. As áreas de destaque podem ser extremamente variadas, podendo ser mais amplas, como em uma ou mais áreas do conhecimento (humanas, exatas, etc.) ou muito específicas, como por exemplo, em um tipo determinado de música, de dança, de ramo da física ou da química. As características de personalidade podem afetar muito a forma como se manifestam as AH/SD; uma pessoa muito tímida, por exemplo, poderá ser muito seletiva quanto a quem, onde e quando mostrar suas habilidades, enquanto que outra pessoa mais extrovertida poderá ter menos reservas nessa manifestação. As condicionantes culturais e socioeconômicas podem ter uma influência decisiva na manifestação das AH/SD, especialmente quando a área de destaque requer algum desses recursos para poder desenvolver-se. Por exemplo, uma pessoa pode ter um potencial Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 90 enorme para tocar piano, mas se ela não tiver acesso a um piano, como poderá demonstrar seu desempenho na música? Mesmo quando seu objetivo seja desenhar um atendimento educacional para os alunos com AH/SD, esses instrumentos não podem estar atrelados ao rendimento escolar, porque esse resultado, geralmente, não reflete o desempenho em todas as possíveis áreas de destaque e esse desempenho acima da média que procuramos pode acontecer fora do contexto escolar. Se entendermos a educação como um processo de formação de um ser humano integral, não demoraremos a nos dar conta de que a escola tradicional não é o lócus exclusivo dela e que o desempenho do aluno nessa escola somente é aferido nas áreas acadêmicas, tendo como filtro principal as duas inteligências que a sociedade ocidental mais aprecia. No nosso meio, são poucas as escolas que oferecem oportunidades para o desenvolvimento e manifestação das inteligências musical, corporal-cinestésica, intra e interpessoal, por exemplo, e, quando as oferecem, o desempenho nessas áreas é menos valorizado que o desempenho acadêmico propriamente dito, esperado dos alunos. Um instrumento de identificação dos indicadores de AH/SD deve coletar informações das mais variadas fontes possíveis: da própria pessoa que está sendo avaliada, de seus colegas, de sua família e de seus professores, porque existem fatores individuais ou ambientais de uns ou de outros que podem ofuscar ou mesmo ocultar esses indicadores. Por essa razão, Freitas e Pérez (2012) recomendam obter dados de diversas fontes; tomar extremo cuidado na avaliação das respostas aos instrumentos e no cruzamento das informações de todas as fontes, especialmente quando se evidencia a eventual subvalorização de alguma delas; e, sempre que possível, complementar as informações com outras obtidas de entrevistas, biografias, portfólios, avaliações de produtos por especialistas, etc. Desta forma, os instrumentos para identificar os indicadores de AH/SD devem ser utilizados para um primeiro levantamento de dados e, quando os indicadores forem constatados, devem ser integrados a um processo de identificação mais demorado. Como esse processo ocorre, geralmente, na escola, (na sala de aula regular ou em sala de recursos específica para as AH/SD ou sala de recursos multifuncional) e/ou no NAAHS ou em outros centros de atendimento, os alunos que estão sendo avaliados estão efetivamente recebendo um AEE e devem ser registrados no Censo Escolar na escola regular que frequentam e na instituição onde estejam sendo atendidos/identificados. Isso garantirá a adjudicação de matrícula dupla para fins da distribuição dos recursos do FUNDEB aos 2 ou 3 alunos que certamente serão encontrados em cada sala de aula. Assim, identificar os alunos com indicadores de AH/SD, sua freqüência, intensidade e duração, com base numa teoria de inteligência e numa teoria de AH/SD, com instrumentos qualitativos compatíveis, que coletem informações do maior número possível de fontes, adaptados à realidade na qual sejam Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 91 aplicados e considerando a heterogeneidade das PAH/SD deve ser um processo sério, relativamente demorado que efetivamente venha a contribuir com o reconhecimento, aceitação e valorização das AH/SD e, fundamentalmente, que promova um atendimento educacional especializado de qualidade para essas pessoas. ADULTOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO: UMA HISTÓRIA DE REVELAÇÕES Susana Graciela Pérez Barrera Pérez Os adultos com AH/SD são fontes inestimáveis de informação para aprimorar a escola e a educação que deveria tê-los atendido adequadamente na sua infância e adolescência, aceitando, reconhecendo, respeitando e valorizando suas diferenças. Isso foi o que me levou a estabelecer um diálogo prazeroso e enriquecedor com alguns deles, que compartilharam comigo parte de suas vidas e me ajudaram a compreender e a escrever minha tese de Doutorado em Educação que, infelizmente, ainda continua solitária na produção científica brasileira, quando se trata de adultos com AH/SD e a dar continuidade com uma investigação mais particularizada sobre a mulher com AH/SD. Consideradas uma minoria insignificante, que não precisam de nada e preconceituosamente vistas como membros de uma elite "superior", as pessoas com AH/SD tendem a ocultar sua identidade ou mesmo a não reconhecê-la. Essa atitude é muito freqüente em adolescentes e mulheres e é quase absolutamente generalizada entre os adultos, trazendo, logicamente, dificuldades de diversas ordens. O reconhecimento das AH/SD geralmente traz consigo uma reviravolta na vida da pessoa; um período de reavaliação, no qual ela revisa sua existência anterior e, finalmente uma etapa de reacomodação com a nova identidade, quando ela se aceita (ou não) como uma pessoa com AH/SD. A descoberta de que não são as "aberrações da natureza" que pensavam ser, às vezes, chega muito tarde para as pessoas com AH/SD identificadas quando adultas, mas, mesmo assim, traz para elas um sentimento de “alívio” que lhes permite compreender muitas incógnitas que antes pairavam em suas mentes. Os relatos de adultos com AH/SD são ao mesmo tempo gratificantes e dolorosos, porque provam que a causa de todos esses sentimentos é a falta de identificação, o desconhecimento, a falsa idéia de que ‘todos somos iguais’, a confusão que leva a pensar que ‘ter AH/SD’ necessariamente implica ser ‘melhor’ que as demais pessoas e, portanto, algo não desejável. Muitos adultos também experimentam dificuldades em manterem-se em seus trabalhos por períodos muito longos e esta é uma situação prejudicial, inclusive do ponto de vista econômico e social. Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 92 ENSINO A DISTÂNCIA: APLICAÇÃO DO MODELO DE HABILIDADES DE PENSAMENTO DE PUCCIO, MURDOCK E MANCE NA CONSTRUÇÃO DE CONTEÚDOS (Resumo de Dissertação) Vera Maria Tindó Freire Ribeiro Universidade Tiradentes E-mail: [email protected] Esta dissertação teve como objetivo analisar o uso da metodologia de “Resolução Criativa de Problemas: modelo de Habilidades de Pensamento” de Puccio, Murdock e Mance em três experiências de produção de conteúdo para a Educação a Distância: um curso autoinstrucional; um programa com mediação pedagógica e um programa presencial. Optamos por uma pesquisa qualitativa, do tipo pesquisa-ação, por permitir a compreensão (pesquisa) e mudanças (ação) no objeto pesquisado e considerar os múltiplos papéis que a pesquisa ação permitiu: o de pesquisador, o de conteudista e o de professor. O processo contemplou quatro ciclos: planejamento da construção dos cursos; aplicação do programa; monitoração e descrição dos resultados da ação e reflexão sobre a experiência. O modelo foi utilizado em suas três etapas: Clarificação (Exploração da Visão e Identificação dos Desafios); Transformação (Explorando Ideias e Soluções) e Implementação (Aceitação e Implementação), para definir estratégias de Criatividade a serem aplicadas para obtenção do pensamento criativo, identificar e analisar as facilidades e dificuldades encontradas com relação à utilização do modelo durante o processo e propor orientações para utilização do mesmo para a construção de conteúdos em EAD. Na primeira experiência o modelo foi usado para pensar a escrita de forma a provocar uma reflexão na interação alunoconteúdo. Na segunda experiência, utilizamos o modelo para criar conteúdos didáticos que preparassem esses alunos na desconstrução e reconstrução de seu papel docente sob a ótica do pensamento criativo. Na terceira experiência, utilizamos o modelo para ensinar professores-conteudistas de Educação a Distância a problematizar conteúdos de forma criativa.O modelo de Habilidades de Pensamento mostrou estar adequado à produção de conteúdos para EAD, no diagnóstico da situação proposta, na identificação de seus desafios, na exploração de novas ideias e na escolha das soluções mais adequadas para serem implementadas e por proporcionar ao pesquisador em seus múltiplos papéis, vivências de Metacognição que enriqueceram sua práxis e geraram autonomia criativa. Apesar das diferenças de características das experiências, o modelo de Habilidades de Pensamento mostrou ser um instrumento flexível, adequado à implementação de práticas diversas do pensamento criativo em EAD. Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 93 PROMESSAS DE FINAL DE ANO... Heide Castro E-mail: [email protected] Mais um ano se foi. Com nossos acertos e com nossos projetos que ficaram pelo caminho, ainda assim ele se foi. É a natureza, o fluxo. Ele se vai com a nossa existência ou não. Vai enquanto estamos aqui, e quando nos formos ele continuará indo. Qual é a sensação ao terminar o ciclo de 2014? Qual é o balanço que fazemos? Seja qual for o seu resultado, existe um que realmente aconteceu. Conclusão! Com resultados positivos para nós ou não, de alguma maneira faz com que nós, seres humanos, acreditemos que o próximo será diferente.... Mas ele será mesmo diferente? Dizem que um bom significado para loucura é fazermos as mesmas coisas e esperarmos que o resultado seja diferente ao final. E o próximo ano já está aí, batendo à porta, como uma criança mimada, indomável, querendo entrar. E em poucos minutos estará conosco. O que queremos neste próximo ciclo (2015)? Mesmo com o estresse e ansiedade, quem sabe frustração, iniciaremos de modo mais objetivo, pratico ou de forma inconsciente a fazer novos planos e metas. Nós seres humanos gostamos de medidas. Quanto de peso estou? Quantos anos de casamento? Como estão minhas medidas médicas (colesterol, glicemia, hormônios, etc...). Ao pensar neste próximo pacto, neste próximo acordo com você, gostaria de falar sobre um tema que o pesquisador, psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, estuda há várias décadas: o Flow. Mas o que tem o Flow com os nossos acordos de final de ano? “Podemos sentir prazer sem qualquer investimento de energia psíquica, mas o deleite só ocorre em consequência de investimentos extraordinários de atenção”. Csikszentmihalyi Que tipo de metas e sonhos deveríamos ter para 2015? Aqueles que nos desafiarem. Mas os desafios devem estar dentro de nossas habilidades e capacidades. Então se pudéssemos descrever uma formula esta seria mais ou menos assim: Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 94 Csikszentmihaly HABILIDADES ALTAS + DESAFIOS ALTOS = FELICIDADE Para sabermos se estamos em Flow, precisamos levar em consideração que as metas de algum modo deveriam: 1º) Ser bastante claras. Nenhum de nós sai pelo caminho sem ter muita certeza do que quer e tão pouco sobre o que vai encontrar. Nem iniciamos na maioria das vezes. Para que se envolva por inteiro em qualquer tarefa é preciso ter o conhecimento preciso dela. Que sejam minhas. Não de terceiros, da minha mulher, do meu chefe apenas. Mas com o meu ser envolvido. 2º) Fornecer feedback imediato: Ao longo da jornada, do caminho os sinais por onde estamos passando vão nos confirmando o objetivo alcançado. É muito difícil permanecer com energia e motivado para a tarefa sem receber o retorno periódico e rotineiro de seu resultado. O sentido maior do Flow deriva da certeza interna de que o que se faz é importante para mim e tem resultados, sejam estes quais forem, mas que tem resultados. 3º) Equilibradas entre desafios e habilidades: Se por um lado sonhar e se desafiar faz parte de nossa existência. Sonhar e colocar metas que estejam, neste momento, distante de nossas capacidades / habilidades, teremos mais um ano novo repleto de ansiedade e frustração, pois teremos poucas chances de êxito. Também, se as metas / sonhos forem muito pouco desafiadoras para a minha capacidade e habilidade entro em outro estagio chamado de apatia. Muito pouco de nossa energia será disponibilizada para atingir o que planejamos. 4º) Altos níveis de concentração: Esta é uma forma muito clara e precisa de vermos se os itens acima foram levados em consideração ao definirmos nossas metas. Se estamos em uma meta que está bastante clara, fornece feedback preciso e constante ao longo do percurso e equilibrada quanto ao nível de desafios x as habilidades, o nível de concentração é absoluto. A entrega é total. As minhas desculpas de “ausência de motivação” ficam em um plano bem distante. 5º) Experiência alterada do tempo: A nossa percepção do tempo em todo o nossos dias, depende, fundamentalmente da entrega. E podemos dizer que ele á muito relativo. O que acontece conosco quando estamos fazendo algo que realmente amamos fazer? E quando não queremos fazer o que estamos fazendo? No primeiro caso o tempo voa, enquanto no segundo parece que nunca passa. Quando a meta que nos propusemos a fazer for desafiadora, nossa visão do tempo estará alterada. Não veremos o tempo passar enquanto estivermos fazendo. Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 95 Pensando nestes itens, podemos olhar para o nosso passado recente e verificar o que nos propusemos a fazer. Fomos até o final? Se não atendeu os itens acima, provavelmente não, encontramos desculpas internas para não fazer. Mesmo que nossa resposta foi um sim, nos sentimos felizes ao final? Mas somente a meta pela meta não trará o Flow. Para recebermos o feedback imediato, precisamos desenvolver o sentido de aproveitamento, de concentração no caminho e não somente na meta, pois do contrario ficaremos viciados e ao terminarmos teremos que ter outra imediatamente para substituir a anterior. Vejamos o caso de um alpinista. Se sua meta for “somente” o pico do Everest, deixará de aproveitar, toda a caminhada. Seu corpo mudando ao longo da preparação. Os desafios menores atingidos. As pessoas / cultura que conhecera ao longo da jornada, o desenvolvimento do seu estilo de negociar o patrocínio, os parceiros, os apoiadores, etc. Se nossa meta for tão somente ser os melhores pais, podemos nos perder no caminho. Seremos pais que cumprem tudo o quer manda a nossa cultura, a medicina, a religião, mas não vimos os nossos filhos crescerem. E o tempo não volta. Se a nossa meta for tão somente ser o diretor da empresa que trabalho, por mais difícil que seja, se tivermos habilidades / capacidades, provavelmente chegaremos lá. Mas perderemos toda a jornada. Nossa evolução e aprendizado desde estagiários até chegarmos onde nos propusemos. Que 2015 seja um ano cheio de Flow, de Fluxo!!! Que aprendamos a traçar nossas metas de tal modo que tenhamos muitos momentos de felicidades e alegria. Que aprendamos a aproveitar a nossa caminhada, para que os momentos de prazer que tenhamos ao longo desta reflexão tão importante de final de ano possa nos alimentar para as próximas jornadas. FELIZ 2015. Heide Castro é Psicóloga, Consultora Organizacional e Coach, especialista em Psicologia Organizacional, Intervenção Cognitiva e Coaching Positivo. Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 96 Vale a pena ler DOSSIÊ: ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO O dossiê temático pode ser encontrado na Revista Educação Especial, editada pela Universidade Federal de Santa Maria, que objetiva veicular somente artigos inéditos na área da Educação Especial. A revista é quadrimestral, sendo que os dois primeiros números do ano atendem a demanda do fluxo contínuo e o terceiro número do ano é organizado na forma de Dossiê Temático. Acesse em: http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/educacaoespecial Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 97 ALTAS HABILIDADES / SUPERDOTAÇÃO: MANUAL PARA GUIAR O ALUNO DESDE A DEFINIÇÃO DE UM PROBLEMA ATÉ O PRODUTO FINAL Déborah Burns E-mail: [email protected] - [email protected] Este é um livro essencialmente prático, que busca apresentar aos professores, em dez lições, formas, sugestões e trajetórias para desenvolver a capacidade de investigação em seus alunos, começando na sala regular e se estendendo à sala de recursos; e almeja propiciar aos alunos com altas habilidades/superdotação um melhor entendimento do que se espera deles nestes contextos. O manual se encontra embasado no Modelo de Enriquecimento Escolar de Joseph Renzulli, que foi adotado no Brasil pelo MEC em 2005, quando o Ministério da Educação implementou os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) em todos os estados brasileiros. Desta forma, as dez lições aqui apresentadas ajudam o professor da sala de recursos a desenvolver passo-a-passo um caminho que perpassa pelos interesses individuais do estudante, suas áreas fortes e áreas de motivação, para chegar então ao delineamento de um projeto de investigação, pautado em necessidades reais do mundo atual. O estudante é levado a compreender o que significam projetos do tipo I (Atividades Exploratórias Gerais), do Tipo II (Atividades de Treinamento) e do Tipo III (Investigação de Problemas Reais). O livro contém um CD com fotos, pôsteres e formulários de exercícios que auxiliarão o professor nesta tarefa inicial. Tradução: Danielle Lossio de Araújo & Luiane Daufenbach Amaral Revisão da edição brasileira: Angela Virgolim Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 98 CABRUM!! CHUVA DE IDEIAS: DESENVOLVENDO A CRIATIVIDADE DAS CRIANÇAS Angela Virgolim E-mail: [email protected] É possível ensinar a criatividade? Há muito que esta pergunta vem sendo feita por estudiosos na área da educação e ainda não há um consenso sobre sua resposta. Muitos acreditam que não, assim como não se pode ensinar inteligência a alguém. No entanto, pesquisas mostram que pelo menos, podemos ensinar as pessoas a usarem de forma mais efetiva a sua criatividade (assim como a inteligência) e pensar de forma mais racional ou de forma mais imaginativa. Se todos nós nascemos com uma certa quantidade de inteligência e de criatividade, então é papel dos educadores ensinar estratégias criativas para que as crianças usem sua imaginação e sejam encorajadas a desenvolver suas habilidades de pensamento criativo de forma mais ampla. O livro “Cabrum!! Chuva de ideias!” traz uma série de atividades e exercícios para serem respondidos por crianças em sala de aula, ou mesmo junto aos pais no âmbito da família. O livro baseia-se na premissa de que quando a criança se sente bem com ela mesma (desenvolvendo um autoconceito forte e positivo) e com o ambiente em que ela está inserida (por exemplo, uma sala de aula livre de críticas e julgamentos, onde todas as ideias são bem-vindas), as ideias fluem naturalmente. O prazer de criar dá asas à imaginação, e ela aprende que o Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 99 humor, as ideias loucas, as soluções inesperadas, a brincadeira e a alegria fazem parte do processo natural de criar. Temos observado que na escola regular e tradicional, a criança aprende a pensar de forma convergente, a chegar a uma conclusão comum, à resposta única e correta. Ao longo do caminho, aquela curiosidade natural, as infindáveis perguntas que marcam a criança pequena, o espaço para ser ela própria e falar de si mesma se perdem, e assim ela chega a um ponto (normalmente por volta do terceiro ano) onde a criatividade é estrangulada. Se por um lado o pensamento convergente é fundamental para a aprendizagem, por outro, a solução de muitos problemas do mundo atual dependem de um pensamento divergente e imaginativo. Assim, uma escola com uma pedagogia mais aberta, menos tradicional, que deseja preparar adequadamente seus estudantes para os novos desafios do mundo que elas terão que enfrentar, não pode fechar os olhos para o papel da criatividade no ensino no século XXI. A criatividade em seus aspectos da geração de muitas ideias diferentes, originais e que ainda não foram pensadas, aliada ao humor, ao prazer e ao brincar, devem fazer parte obrigatória de um currículo que busca preparar o jovem para viver no mundo de amanhã. Assim, “Cabrum!! Chuva de ideias!” é um convite à criança para brincar com suas ideias e expandir sua imaginação; um espaço onde ela não precisa ter medo de falar de si, de suas emoções, do seu mundo interno e, a partir desta licença, usar sua imaginação de forma livre e sem barreiras. Trata-se de um instrumento útil para educadores e pais usarem com suas crianças, de forma a mostrar a elas que o mundo pode ser bem mais amplo e interessante quando se sentem livres para criar, imaginar e brincar com suas ideias e emoções. Ilustrações: Leninha Lacerda Diagramação: Tatiana Rodrigues Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015 100 Chamada para a proxima ediçao Convidamos a todos os interessados em publicar neste Boletim a enviar suas contribuições até dia 10 de fevereiro / 2015. Boletim nº 06 – Lançamento previsto para dia 25 de fevereiro de 2015. Este boletim aceita contribuições nos idiomas português, espanhol e inglês. Participem. Esta é uma excelente oportunidade para divulgar seus trabalhos para a comunidade ibero-americana. E-mail para o envio: [email protected] Cordialmente, Sergio Fernando Zavarize Editor-chefe Solange Muglia Wechsler Co-editora Organização: Boletim Ibero-americano de Criatividade e Inovação, Campinas, nº 05, 80-100, dezembro-2014/janeiro-2015