“FUTEBOL” UMA POSSIBILIDADE PARA O ENSINO DE HISTÓRIA
Charles Pires Neves*
GT1 – Espaços educativos, currículo e formação docente
Resumo: Este artigo buscou evidenciar a possibilidade da utilização de uma nova abordagem
para auxiliar o ensino de história, que torne mais atrativo a compreensão da disciplina pelo uso
de um tema pertencente ao cotidiano de alunos inseridos em qualquer nível de ensino. Nesta
perspectiva, foi dado ênfase ao tema futebol. Para tanto, a pesquisa fundamentou-se em autores
de diversos campos científicos, tais como: História, Educação, Jornalismo e Esporte, e buscou
relacionar situações ocorridas no futebol brasileiro, explicando fatos históricos, entre eles:
imigração, cultura, batalha de Termópilas. Este trabalho tem como objetivo principal mostrar
alternativas pedagógicas tendo como foco principal o ensino de História. Assim, esse trabalho
tem como objetivo específico aplicar esse esporte no ensino de história. O trabalho se justifica
por ser o futebol um esporte coletivo, inclusive considerado por alguns autores como uma
“paixão nacional” e que, por isso, move uma quantidade imensa de pessoas de todas as idades,
facilitando a sua utilização para explicar pedagogicamente assuntos relacionados a História.
Palavras-chave: Ensino de História. Práticas Pedagógicas. Novas Abordagens.
Abstract: This article aims to highlight the possibility of using a new approach to help teach
history, which become more attractive understanding of the subject by using a theme belonging
to daily life of students participating at any level of education. In this perspective, emphasis was
given to the soccer theme. For this, the research was based on the authors of various scientific
fields such as: History, Education, Journalism and Sports, and sought to relate situations that
occurred in Brazilian football, explaining historical facts, including: immigration, culture, Battle
of Thermopylae. This paper aims to show the main pedagogical alternatives, focusing mainly on
the teaching of history. Thus, this study aims to apply this particular sport in school history. The
work is justified because it is the football a team sport, even considered by some authors as a
"national passion" and that, therefore, move an awful lot of people of all ages, facilitating its use
to explain the pedagogical issues History.
Keywords: History Teaching. Teaching Practices. New Approaches.
INTRODUÇÃO
Atualmente podem-se encontrar diversas abordagens para o ensino de história.
Essas abordagens podem se relacionar a temas específicos, que favorecem o
entendimento dessa disciplina. Um desses temas pode ser o futebol, esporte que possui
dimensão mundial principalmente em nosso país, pois chega a exercer uma atração
ainda mais forte em nossa população, com mais intensidade quando existe alguma
rivalidade entre as agremiações que disputam os jogos, os chamados clássicos. Sejam
eles de âmbito regional e/ou nacional ou até mesmo internacionalmente.
* Pós-graduando no curso de Ensino de História: Novas Abordagens pela Faculdade São Luis de França.
Email: [email protected]
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À utilização de novas abordagens para o ensino de história é um dos aspectos
previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs – Ensino Médio. Sobre “O que
e como ensinar em História”, os PCNs enfatizam quanto alternativas válidas para o
ensino:
A diversidade de tradições historiográficas e a pluralidade de
vinculações teóricas, no entanto, ao contrário de indicarem crise,
esgotamento ou impasses, apontam para a área de pesquisa e do
ensino de História , muitas alternativas válidas, além da viabilidade de
criações pedagógicas. Desta forma, é importante considerar as
diferentes dimensões dos estudos históricos, na medida em que
possibilitam forjar teorias de ensino e aprendizagem. (BRASIL, 1997:
22).
Então os próprios PCNs deixam margem para que se procure novas formas de
abordagens que torne inócuo a sensação de crise, esgotamento ou impasse no ensino de
história. Dessa forma, esse trabalho se propõe apresentar novas abordagens utilizando o
esporte, mais precisamente o futebol.
Dentro de novas formas podemos procurar uma relação entre o presente e o
passado de uma forma mais atrativa e menos cansativa, problematizando um assunto ou
o conteúdo a ser estudado. Sobre problematização, Schmidt e Cainelli entendem que:
No ensino de História, problematizar é, também construir uma
problemática relativa ao que se passou com base em um objeto ou um
conteúdo que está sendo estudado, tendo como referência o cotidiano
e a realidade presentes dos alunos e do professor. Para a construção da
problemática, é importante levar em consideração o saber histórico já
produzido e, também, outras formas de saberes, como aquele
difundido pelos meios de comunicação (SCHMIDT & CAINELLI,
2004: 52).
O futebol é o esporte mais praticado em nosso país e um dos mais praticados em
todo o mundo, sobre a importância do futebol em nosso planeta, convém citar:
Os ídolos, heróis, vilões e as imagens desse notável esporte estão
presentes no cotidiano de pessoas de todo o mundo, desde localidades
pequenas escondidas nos recônditos até as metrópoles mais
conhecidas. Não surpreende que existam mais paises filiados a
Fedération Internationale de Football Association (Fifa) do que à
Organização das Nações Unidas (ONU). (MELO & ALVITO, 2006:
10).
O futebol já é visto como objeto de estudo da história e da sociologia, como
destaca Moletta Jr. et al. (2005) em seu estudo Nobert Elias, uma nova abordagem para
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o estudo da história do futebol brasileiro. Quanto à possibilidade de se compreender a
sociedade brasileira através do esporte futebol, convém considerar a seguinte afirmação:
O futebol no Brasil pode ser visto como um poderoso instrumento de
integração social. Através do futebol, a sociedade brasileira
experimenta um sentido singular de totalidade e unidade, revestindose de uma universalidade capaz de gerar paixões em milhões de
pessoas (HELAL in MOLETTA JR et al. 2005: 1).
Por ser um esporte coletivo com boa aceitação em todas as camadas sociais, o
futebol, e o que for unido a ele, desperta quase sempre um fascínio enorme em nossa
população. Sobre esse fascínio.
Uma das características da relação entre brasileiros e futebol foi a
paixão, demonstrada desde os primeiros momentos, seja na rápida
proliferação dos campos de “pelada”, clubes, campeonatos, seja na ida
de grande contingente de espectadores aos jogos da época. O futebol
desbanca outros esportes, como o remo e o turfe, no quesito
popularidade e vai aos poucos tornando-se a paixão nacional. (SILVA,
2005: 21).
Por ser uma “paixão nacional”, com grande poder de penetração e
popularidade, o futebol propícia a disseminação de atitudes e
comportamentos. Faz parte da realidade da grande maioria dos alunos
das escolas públicas, o que facilita muito a abordagem inicial.
(CARRARO et al, 2000: 127).
A depender do que formos trabalhar em uma sala de aula podemos utilizar
situações ou fatos ocorridos dentro do futebol de maneira que, utilizando uma
linguagem diferente, conseguiremos ministrar um conteúdo didático com o uso de
expressões, resultados e situações originárias do futebol, teoricamente, despertando
mais atenção do aluno, até mesmo por ser esse esporte considerando por alguns autores,
como uma paixão nacional, devido a quantidade de brasileiros que o acompanha,
desperta o interesse da classe, consequentemente do aprendizado por parte dos mesmos.
Nesse sentido, com nomes de times podemos trabalhar em salas de aulas com as
imigrações ocorridas em nosso país e que tanto contribuíram para o crescimento, pois
aqui temos times de origem inglesa, italiana, portuguesa, entre outras. Com partes de
letras de músicas e/ou hinos voltados às agremiações esportivas e de filmes podemos
trabalhar assuntos pontuais utilizando essa o futebol que possibilita despertar um
interesse maior. Com o uso de expressões populares, frases e situações ocorridas dentro
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do esporte futebol, inclusive com ações extra campo, podemos relacioná-los a temas que
serão ministrados em salas de aulas.
A CATÁSTROFE DO FUTEBOL BRASILEIRO
As conseqüências de resultados de uma partida de futebol podem inclusive gerar
tristeza de alguns torcedores, comoção de milhares e até mesmo o pesar ou o “luto” de
milhões. Quanto a esse tipo de resultado, nenhum espelha melhor o sentimento de
tristeza dos brasileiros quando do término da partida final da Copa do Mundo de 1950,
Brasil 1 x 2 Uruguai, consagrando aos mesmos seu 2 º título mundial. Antes do
começo, no entender de nossa população e de uma boa parte do mundo, já estava tudo
certo o Brasil ter o seu 1º título mundial. Do discurso do presidente da FIFA Jules
Rimet às manchetes de jornais pelo país; dos autógrafos assinados por alguns jogadores
como “campeões do mundo” até a ida para o Estádio de São Januário para serem
assediados por dirigentes esportivos e torcedores em detrimento da concentração. Ao
final da partida, Uruguai 2 x 1 Brasil, ficou um estádio com seu público em transe, um
país calado com uma tragédia, enlutando-o.
No resultado da final da Copa do Mundo de 1950, convém citar :
Um dia Napoleão, meio louco e meio soldado, saiu da França e
começou a dominar o mundo. Os seus exércitos foram crescendo em
entusiasmo e se transformaram numa gigantesca horda invencível. A
História narra os seus feitos mais incríveis, as suas conquistas quase
impossíveis, os seus lances de heroísmo. Ninguém podia vencer
Napoleão e ele, em seus sonhos de louco, já se considerava o senhor
do mundo. Mas nasceu a derrocada do inesperado: Waterloo. Seria
possível a destruição dos exércitos e dos planos do poderoso
conquistador?. Em Santa Helena, sozinho e amargurado, ele próprio
não encontrou a explicação que o universo inteiro procurava, atônito.
Ele apenas perdera a batalha.A seleção do Uruguai equivale ao nosso
Waterloo na Copa do Mundo (FOLHA CARIOCA in GUTERMAN,
2009: 97-100).
Pela visão dos uruguaios foi um feito para entrar na história:
O futebol continua sendo uma religião nacional e, a cada domingo,
esperamos que nos ofereça um milagre. A memória coletiva vive
consagrada às liturgias do Maracanã: o feito histórico vai cumprir
meio século [o autor escreveu em 1998], e o recordamos nos mínimos
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detalhes , como se tivesse ocorrido na semana passada, e à sua
ressurreição encomendamos nossas almas (GALENO in
GUTERMAN, 2009: 99).
A tristeza gerou um comoção tão forte em nossa população que um dos heróis
uruguaios, o seu capitão, Abdulio Varella, relatou sobre o clima que pairou sobre o
Brasil após a partida:
A tristeza de todos era tanta que terminei sentado em um bar bebendo
com eles", relembrou. "Quando me reconheceram, pensei que iriam
me matar. Felizmente foi tudo o contrário, me parabenizaram e
ficamos bebendo juntos." Varela regressou ao hotel ao amanhecer e se
sentiu aliviado. Resplandecente junto ao sol, nascia no horizonte uma
nova lenda (FIFA.COM, 2011).
Esse resultado, apesar dos seus mais de 60 anos é sempre lembrado como a
maior tragédia existente no futebol brasileiro, como bem retratado no jornal Folha
Carioca, foi o Waterloo do futebol brasileiro, porém vivendo no imaginário coletivo do
Uruguai, como sendo o maior feito conseguido por aquele selecionado, sobre essa
conquista uruguaia, Galeano (2010) escreveu:
Eu era um menino e peladeiro, e como todos os uruguaios estava
grudado no rádio, escutando a final da Copa do Mundo. Quando a voz
de Carlos Solé transmitiu a triste notícia do gol brasileiro, minha alma
caiu no chão. Recorri então ao mais poderoso dos meus amigos,
prometi e Deus uma quantidade de sacrifícios, se Ele aparecesse no
maracanã e virasse o jogo (GALENO, 2010: 92).
O mesmo fato pode ser visto para uns como uma tragédia ou algo similar,
enquanto para outros pode ser a gloria, a salvação ou até mesmo o maior feito já
conseguido, dependendo apenas o lado que conta.
Assim é a História, os fatos
acontecem e seu desenrolar, a sua descrição, depende da versão ou da visão dos
vencedores e/ou vencidos, bem como de todos nós que fazemos acontecer.
Assim, percebem-se que para a mesma situação existem explicações diferentes.
No caso da situação brasileira o que foi denominado tragédia, comoção nacional, não
foi nada mais que vitória, conquista, emoção e festa pelo lado uruguaio.
Diante de uma situação similar a essa, que a mesma história pode ter mais de
uma versão, ou que o lado considerado mais fraco pode vir a derrotar um adversário
mais forte podemos inserir como exemplos em sala de aula ao abordamos conflitos em
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que o lado menos favorecido, seja por menor tecnologia ou por possuir um quantitativo
menor de recursos tenha conseguido se impor a algum oponente mais forte.
Após a abordagem do futebol temos que vincular
com o que formos abordar no
assunto com a classe. Em nossos exemplos, vimos situações em que uma agremiação
esportiva considerada mais fraca que o seu oponente termina por conseguir a vitória, em
que pese as adversidades então existentes, quantidade de pessoas, lugar e recursos.
Assuntos em história, principalmente envolvendo conflitos entre civilizações foi muito
comum que um povo ou civilização com maior poder bélico ou até mesmo considerado
como “invencível” terminasse por ter seu intento interrompido ou retardado pela
resistência de outros povos teoricamente mais fracos, ou até mesmo ter seu poder
destruído antes da chegada aos campos de batalhas. Como exemplos históricos podemos
citar, inúmeros, entre eles: a batalha das Termópilas, em que o exército persa, apesar de
sair vitorioso na batalha, teve muitas baixas que o enfraqueceu para a continuidade da
guerra; a batalha de Marathon,em que os atenienses venceram os persas; a derrota da
invencível armada espanhola para os ingleses; a resistência russa em Stalingrado na II
Guerra Mundial, frente ao poderio nazista; o Estado de Israel, para manter suas
fronteiras, após seu reconhecimento como país.
O resultado da copa do mundo de 1950, em que um selecionado teoricamente
mais fraco, nesse caso o Uruguai conseguiu se superar enfrentando a seleção toda
poderosa da época, a seleção do Brasil pode ser vinculado ao ensino de história, pois
nessas situações existia o confronto do forte com o fraco, com a superação do segundo
apesar das adversidades existentes.
O FUTEBOL E A CULTURA
Podemos dizer que tudo é cultura, inclusive a cultura popular e a cultura de
massa, isto é todas as manifestações culturais da sociedade, Cinema, Teatro, Literatura,
Artes Plásticas, Televisão, Música, entre outras, são manifestações culturais. O que
diverge uma das outras é a maneira como foram transmitidas.
De uma maneira geral podemos perceber que a cultura é bem ligada
ao estudo, educação, e a formação escolar. Algumas vezes nos
referirmos a cultura para definir manifestações artísticas, mais
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especificamente ao teatro, a música, a pintura e a escultura. Outras
vezes, ao se falar na cultura atual nos leva a pensar na mídia de massa,
seja o rádio, o cinema, a televisão, e, ainda às festas e cerimônias
tradicionais, bem como, nas lendas e crenças de um povo, no modo de
se vestir, de se alimentar e até mesmo no idioma. Na verdade, tudo
isso também é cultura e podemos utilizar diversas maneiras de
representá-la. (BRYM, 2006: 75).
Brym (2006) discorre que, para os sociólogos, existe a alta cultura, a cultura
popular e a cultura de massa, diferindo que a alta cultura se refere ao balé, a opera e a
literatura, sendo consumida muito mais nas altas classes sociais, já a cultura popular e a
cultura de massa são consumidas em todas as classes sociais.
Os sociólogos definem cultura em geral no sentido muito amplo de todas as
práticas, idéias, valores e objetos materiais que criamos para nos ajudar a lidar com
questões concretas. Com base nessa definição, podemos afirmar que a principal
distinção entre cultura popular e cultura de massa é que a primeira se baseia em
concepções, valores, objetos etc., que leva em consideração as tradições, enquanto a
cultura de massa ocorre através da transmissão e difusão pelos meios de comunicação
de massa.
Assim, nesse contexto o próprio futebol faz parte da cultura. Sobre o futebol
brasileiro e a cultura, convém citar:
O futebol brasileiro tem se constituído, ao mesmo tempo, em
expressão da sociedade brasileira e em modelo para ela, espelhando
toda a sua dinâmica, com todas as contradições e todas as riquezas
nela presentes. Sem dúvida, o futebol brasileiro constitui-se numa das
principais manifestações culturais brasileiras, constantemente
atualizada e ressignificada pelo seus atores. (DAOLIO, 2005: 5-6).
Ao perguntarmos para quaisquer brasileiro quem é Pelé1 e o que significa para
nós brasileiros, no futebol. Se não todos, mas pelo menos a estrondosa maioria de uma
turma, grupo/pessoas dirão algo similar a que ele foi o maior jogador do mundo. Se
fizermos a mesma pergunta em outro pais a resposta será quantitativamente bem
parecidas, somente mudando o personagem central, o melhor. Se for na Argentina,
possivelmente será o Maradona. Na Holanda e na Alemanha em uma escala menor
teríamos Cruyff, Beckenbauer, e em outros países aparecerão outros melhores, que os
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Edson Arantes do Nascimento, Três Corações (MG), 23/10/1940. Eleito melhor atleta do Séc. XX, em
1980 pela revista L’Equipe e depois, em 1999, pelo Comitê Olímpico Internacional.
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citados. Sobre esse entendimento encontra-se a respeito de um antigo jogador brasileiro
chamado Arthur Friedenreich.
Fried foi um fenômeno extraordinário do futebol. Tornou-se a figura
número um do “association” do nosso país, como foi a de Carlos
Gomes na música, de Rio Branco na diplomacia, Rui Barbosa na
jurisprudência, Bilac na poesia Santos Dumont na aviação etc.
Mereceu ser chamado em 1919 um dos “maiores brasileiros vivos”.
Então sua fama atingiu o auge, juntamente com a fama do futebol
nacional. [...] Foi completo. Completíssimo. [...] Tudo ele teve, nada
deixou de fazer com a bola. [...] Todo o seu jogo foi um espetáculo,
como raro outro avante, desde que o futebol existe no mundo,
executou. [...] Que gênio! Que fenômeno! (MAZZONI, in
GUTERMAN, 2009: 40).
Ficou claro que, assim como o considerado melhor jogador de futebol, não
existe cultura certa, tampouco cultura errada, o que existe são culturas diferentes, povos
com entendimentos diferentes, porém todas as culturas são corretas, em que pese as
diferenças existentes entre as mesmas.
Quem já assistiu a uma partida de campeonato em um estádio, deve ter
percebido um festival de cantos, gritos peculiares, danças, coreografias feitas pelos
torcedores protagonistas da partida. Deve ter visto personagens com vestimentas pouco
comum para irmos a algum ambiente, porém tais vestimentas faziam naquele momento
um sucesso muito intenso, ao ponto de ser ovacionado por sua torcida. Cada uma delas
tentando demonstrar ser maior e/ou mais ativa que a outra. Esse tipo de situação
demonstra a participação popular, isso é cultura, afinal a cultura é uma manifestação
advinda da população. A participação de cada torcida no espetáculo pode ser comparada
como uma manifestação cultural de quaisquer população.
Um jogo de futebol é um espetáculo que torna cada gesto e/ou música de uma
das torcidas em um rito cultural típico, característico e representativo daquela
agremiação esportiva. Assim, acrescentando às torcidas dos clubes de futebol, os
personagens principais da dança, seja ele, africano, índio, nordestino, nortista ou sulista,
ou outros que tenham origens diferentes e, acrescentando, ainda as vestimentas
adequadas, o ritmo, o significado de cada uma, podemos falar de manifestações
folclóricas, seja qualquer delas, pois a participação popular é um item diretamente
associado à cultura dos povos, sejam eles de quaisquer origens.
Dentro do futebol é possível verificar, ainda, uma quantidade imensa de nomes
dos clubes de futebol, de músicas, de hinos que os representam, tornando muito vasto o
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campo de exploração do conhecimento do nosso patrimônio cultural e regional. As
representações de uma torcida de futebol pela música é uma cultura presente no futebol,
assim como também está presente em nosso cotidiano.
Como não poderia ser diferente existem frases e situações que vem sendo citadas
entre as gerações, Nesse sentido a frase “vai dar zebra” seja se não a mais conhecida,
porém possivelmente estará entre as mais conhecidas por todo o mundo esportivo, em
que pese sabermos a sua autoria, vem sendo passada por militantes do mundo esportivo.
Sobre essa frase - Vai dar zebra - até uma empresa da mídia televisa levou anos
animando uma pequena parte de um programa noturno dominical ao divulgar os
resultados da loteria esportiva. Sobre a mesma expressão, ressalte-se que no jogo do
bicho não existe a figura da zebra, pode-se enfatizar:
A expressão vai dar zebra foi usada pela primeira vez num Vasco x
Portuguesa, nas Laranjeiras, pelo Carioca de 1964! O técnico da Lusa
carioca era Gentil Cardoso, que profetizou: Vai dar zebra! E deu: o
time cruzmaltino perdeu por 2 x 1 e a expressão entrou para o folclore
do futebol brasileiro (TORCEDORES DO VASCO DA GAMA,
2011).
Pela origem do futebol em nosso país, trazida da Inglaterra por Charles Miller e
também com base em nomes de clubes de futebol, podemos associar às imigrações
ocorridas ou pelo menos a influência exercida em nosso país, pois através de nomes de
agremiações esportivas, algumas até mesmo centenárias, muitas colônias são
representadas. Assim, podemos destacar clubes de futebol que podemos diretamente
associar a outras culturas, mais precisamente as correntes migratórias existentes em
nosso país. Nesse contexto, podemos citar o Clube de Regatas Vasco da Gama, a
Portuguesa de Desportos, Tuna Lusa Brasileira etc, diretamente associados às colônias
portuguesas, enquanto a Sociedade Esportiva Palmeiras, o Cruzeiro Esporte Clube,
entre outros à imigração italiana, o Sport Club Corinthians Paulista, Sport Club do
Recife, Sport Club Internacional, Coritiba Foot Ball Club, tiveram em suas origens a
influência inglesa, como indica as grafias dessas agremiações esportivas.
Uma das grandes dificuldades em salas de aulas é o cotidianos, na visão de
(SCHMIDT & CANELLI, 2004: 30), “Assim o que se procura é uma prática docente
distanciada o mais possível da imagem do “professor-enciclopédia”, detentor do saber,
buscando a construção de um “professor consultor””, discorre ainda sobre o papel do
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professor que “fornece a matéria para raciocinar, ensina a raciocinar, mas, acima de
tudo, ensina que é possível raciocinar”.
Com base no entendimento de Schimidt e Canelli (2004) e nos PCNs que
orientam a utilização de novas abordagens para o ensino de história, podemos utilizar
uma correlação de como o futebol é difundido no Brasil, deixando de maneira clara para
os alunos o que é cultura; cultura popular; cultura de massa; e as diferenças culturais
existentes entre os povos. Por terem similaridade com as manifestações das agremiações
esportivas, pois cada agremiação esportiva tem a sua particularidade, seja na dança, na
comemoração, no cântico entoado pela torcida. Da mesma forma que as etnias tem as
suas particularidades específicas, podendo nesse aspecto, o uso do futebol como
ferramenta auxiliar no ensino de história.
Podemos ainda utilizar o futebol como ferramenta auxiliar para se trabalhar em
uma sala de aula a imigração, a formação do povo brasileiro, a contribuição de cada
colônia na formação do nosso país, pois, assim como no futebol, a participação de
outros povos foi essencial para a formação do nosso país. Como exemplo, podemos
citar: que a imigração italiana foi muito forte em São Paulo aonde os mesmos também
estão associados a times de futebol; times que representam a colônia portuguesa; sem
esquecer que os ingleses alavancaram o desenvolvimento do nosso futebol, até mesmo
em alusão aos portugueses que começaram a nossa colonização.
O FUTEBOL UTILIZADO COMO IDEOLOGIA
Podemos utilizar uma série de definições para ideologia, podendo ser cada uma
mais complexa que alguma outra definição anteriormente utilizada, porém, será adotada
no sentido da definição dada por Cabral (2010):
Ideologia é o conjunto de idéias, conceitos e comportamentos que
prevalecem sobre uma sociedade. Seu objetivo é encobrir as divisões
existentes na sociedade e na política, mostrando uma forma maquiada
de indivisão. A ideologia funciona invertendo os efeitos e as causas,
resultando em imagens e sintomas, produzindo uma utopia social,
usando o silêncio para encobrir a incoerência (CABRAL, 2010).
À utilização da ideologia como forma de controle não foi nenhuma novidade em
nossa contemporaneidade, até mesmo por ter sido utilizado por países e/ou grupos
dominantes como forma de manutenção e/ou aumento do poder então existente, ou a
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tentativa de assumi-lo. Assim foi a ideologia nazista/fascista com seus ideais
expansionistas e militaristas (décadas 1930/40); Ideologia comunista a partir de 1917,
que tinha entre a sua meta um sistema de igualdade social; ideologia capitalista no qual
a burguesia passou a visar o lucro e a acumulação de riquezas; ideologia anarquista que
visava extinguir a participação do estado na vida das pessoas; e, ainda a ideologia
nacionalista enaltecendo os feitos locais.
Com o fracasso do selecionado brasileiro na Copa do Mundo de 1966, na
Inglaterra, foi resolvido pela entidade máxima que dirigia o futebol em nosso país a
necessidade de uma reformulação total. Assim foi feito, porém o selecionado pós 1966
não vinha de bons resultados sob o comando de Aimoré Moreira. O técnico foi trocado
para as disputas das partidas eliminatórias passando a ser o João “Sem Medo” Saldanha.
Um dos jornalistas que mais criticavam a seleção. Ele, logo na primeira entrevista
deixou claro que não iria admitir pressões sobre convocação, que na sua visão foi
crucial para o fracasso na Inglaterra (1966).
Sobre essas pressões pode-se enfatizar:
44 jogadores foram convocados por Vicente Feola. [...] o Presidente
do Corinthians falou mais sério; “Olha, Feola, meu clube é grande
demais para não estar na lista. Feola perguntou quem do Corinthians,
na visão do Presidente, merecia ser chamado. “O Ditão” [...]. Feola
mandou alguém perguntar a algum jornalista o nome do jogador. Só
que o jornalista, desinformado, ligou para o Flamengo para perguntar
o nome do Ditão, o outro, irmão daquele, mas não aquele. A
informação foi passada ao Feola, que então completou a lista inicial de
44 jogadores (mais dois entrariam nela depois). De qualquer forma,
foi assim que o Ditão errado foi chamado para a Copa do Mundo de
1966 (MÁXIMO, 1996: 91).
Após as eliminatórias o Brasil ficou sendo o grande favorito para vencer a Copa,
tudo estava a favor; a seleção com um futebol vistoso que despertava a atenção do
mundo, seria realizada em território americano onde nenhuma seleção européia, até
aquele momento, tinha conseguido ganhar a Copa do Mundo.
No início de 1970 a seleção teve alguns reveses em amistosos e o trabalho do
João Saldanha passou a ser questionado, sendo demitido em 17 de março de 1970.
Sobre a sua demissão, Saldanha disse na entrevista que Médici (Presidente do País)
havia imposto a convocação do jogador Dário (um dos maiores goleadores à época) e o
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que ele respondeu? “O senhor escala seu ministério e eu escalo o meu time”. Ainda
sobre a saída do João Saldanha:
Anos mais tarde, em entrevista ao jornal cearense O Povo, o atacante
Jairzinho, um dos destaques da Copa de 1970 e amigo de Saldanha,
afirmou que o técnico caiu por pressão dos militares”. “O que
aconteceu foi que a retirada de Saldanha foi uma decisão política.
Nem política, porque era ditadura, e política não existia. Foi uma
imposição do presidente Médici. Foi um procedimento protocolar da
ditadura (GUTERMAN, 2009: 169).
O clima político no país, diferentemente do econômico, não era dos melhores,
estávamos no período de governos militar e o então Presidente Costa e Silva acabará de
se afastar da presidência por problemas de saúde, sendo empossado o General. Emílio
Garrastazu Medici, aficionado por futebol e tendo sido, inclusive, atacante do Grêmio
de Bagé, em sua cidade natal, tratou logo de associar o futebol às grandezas e os
resultados econômicos conseguidos pelo regime militar, afinal estávamos em períodos
de crescimento econômico, empregos em alta, juros internacionais baixos e
empréstimos externos facilitados, alavancando grandes obras.
Também estávamos nos anos de resistência, da luta armada, do AI 05, prisões e
torturas, para quem não estava no poder. Essa mesmo tempo era o dos sequestros
políticos, do terrorismo, do medo comunista, para os que estavam no poder. Dessa
maneira, a única unanimidade nacional era a seleção, e o governo associou seus feitos
econômicos aos da seleção, criando músicas e frases enaltecendo-a. Frases essas que
passaram a serem veiculadas nas rádios, televisões e jornais. Frases como; “Brasil,
Ame-o ou Deixe-o” (alusão aos que foram para o exílio, inclusive em troca da
libertação de embaixadores então sequestrados), “Ninguém Segura Este País”, e o
grande sucesso “Pra Frente Brasil”, de autoria de Miguel Gustavo, que se transformou
no Hino da Copa do Mundo 1970.
Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, Do meu coração...
Todos juntos vamos, Pra frente Brasil, Salve a Seleção!
De repente é aquela corrente pra frente,
Parece que todo o Brasil deu a mão...
Todos ligados na mesma emoção...
Tudo é um só coração!
Todos juntos vamos, Pra frente Brasil!
Brasil! Salve a Seleção!!!
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A vinculação do futebol com os feitos do regime militar, a própria esquerda
brasileira já criticava essa mobilização nacional. Sobre essa critica, convém citar O
Pasquim na abordagem do cartunista Henfil (1970):
Um país inteiro por causa do futebol, mas não para resolver o
problema da fome. [...]. Estou torcendo para o Brasil perder! Assim o
povo voltará a realidade e verá que a vida não é feita de gols, mas de
injustiças (...). Nossa realidade não é tão infantil como uma jogada
como está de Pelé invadindo a grande área inglesa e...Pênalti! Pênalti!
Juiz filho da mãe! Pênalti, seu safado (O PASQUIM in GUTERMAN,
2009: 162-163).
Quanto a participação dos militares em nossa seleção de 1970:
Mesmo a composição da comissão técnica da seleção já denotava o
desejo de militarizar a seleção. O chefe da delegação era Jerônimo
Bastos, um major brigadeiro. Seu assessor imediato era Roberto Câmara
Lima Pitanga dos Guaranys, um major. O supervisor era Cláudio
Coutinho, um capitão. Participaram também da preparação Raul
Carlesso, tenente e Kleber Camerino, capitão. Essa tendência se
acentuou dramaticamente nas duas Copas seguintes. (GUTERMAN,
2009: 183).
Sobre a vinculação dos militares com os resultados conseguidos pela seleção
brasileira de futebol:
Nos anos 1970, os ditadores mostravam seu rosto em outdoors ao lado
de seus slogans (“ Ninguém segura este país”). Nos eventos oficiais,
executava-se a música tema da conquista da Copa do Mundo de 1970
pela equipe liderada por Pelé. Na volta da seleção ao Brasil, o
presidente Emílio Garrastazu Médici anunciou: “Eu identifico essa
vitória obtida na fraternidade da boa prática desportiva com a
ressurreição da fé em nosso desenvolvimento nacional (FOER, 2005:
111).
A metodologia de utilização de estudo de um tema a partir de algum fato
ocorrido no tempo presente está inserido entre as propostas dos PCNs para o ensino de
história, pois existe uma com intuito de desenvolver intelectualmente o aluno. Sobre
essa proposta, existe “a recomendação de introduzir o conteúdo a ser estudado por um
problema situado no tempo presente, buscando em tempos passados as respostas para as
indagações feitas” (BITTENCOURT, 2009: 58-59).
Podemos ainda problematizar em sala de aula, que, governantes ao longo da
história contemporânea, independente de como eles se denominaram ou se denominam
politicamente, de direita, esquerda, capitalista, comunista podem utilizar situações em
que é possível vincular sua imagem a algo ou alguma coisa que os seus governados tem
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de destaque. È possível, ainda, dentro dessa visão, mostrar aos alunos que os
acontecimentos históricos podem, ao mesmo tempo ter mais de uma análise,
estimulando-os à pesquisa e ao entendimento do passado e/ou do presente.
Ainda é possível problematizar que a ideologia já foi largamente utilizada no
sentido de controle, seja de um pequeno número de habitantes, até mesmo de nações ou
de continentes. Essa forma de dominação sobressaiu-se bastante na Roma antiga, que,
como forma de esconder os problemas então existentes em sua economia, mais
especificamente o inchaço populacional em função de migrações decorrente do campo
e do desemprego, criaram o que foi denominado “pão e circo”. Essa pratica consistia
em levar diversão a população que, aliada com o pão, também distribuído, fazia com
que
passassem uma boa parte do tempo ocupado, deixando, no entender dos
idealizadores de tal política, de ter tempo para pensar em rebeliões.
CONCLUSÃO
Os PCNS têm entre as suas propostas à utilização de novas abordagens para o
ensino de História, deixando margem para busca nesse sentido, assim este trabalho
procurou dentro do futebol situações vividas que, diretamente ou indiretamente possam
ser utilizadas como auxilio ao ensino da disciplina História. Dentro dessa alternativa foi
discorrido sobre esse esporte e identificado situações que possibilitem sua utilização
pedagógica em sala de aula. Assim, foram expostas situações que possibilitam
relacionar o futebol com história, cultura, Termópilas, ideologia, entre outros.
Vimos ainda, a imensa contribuição dos emigrantes para o desenvolvimento da
nossa sociedade, do nosso país. Assim, não podemos esquecer que o futebol foi
inicialmente praticado por emigrantes, mas precisamente os que trabalhavam para
empresas que não eram oriundas do Brasil. Muitos dos clubes brasileiros se orgulham
de sua origem estrangeira, de trazerem essa “marca” em seus nomes, como Clube de
Regatas Vasco da Gama, Portuguesa de Desportos, Tuna-Luso Brasileira, até mesmo em
suas grafias; Coritiba Esporte Clube, Sport Club Recife, Sport Club Corinthians
Paulista.
Não basta apenas vincularmos o futebol com a história, muitos passos ainda
terão que ser dados para aplicabilidade em sala de aula, inclusive no que se relaciona ao
educador elaborar seu planejamento acerca do conteúdo e da metodologia que melhor
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irá se adequar para essa abordagem. Assim, longe de querer esgotar o assunto, trata-se
apenas de um começo, porém, pretendendo incluir na práxis educativa a utilização desse
esporte como ferramenta auxiliar para o ensino de História. Tal prática certamente
despertará o interesse dos alunos, e isso, é de suma importância, pois, estudar o que
gostamos é um passo firme para facilitar e melhorar o conhecimento, o rendimento e
assimilação do assunto.
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“FUTEBOL” UMA POSSIBILIDADE PARA O ENSINO DE