Cátedra Unesco de Comunicação e Desenvolvimento/Universidade Metodista de São Paulo
VIII Conferência Brasileira de Comunicação Eclesial, São Bernardo do Campo, SP, 22/8/2013
Mediações e Midiações: diferenças discursivas
entre celebridades religiosas brasileiras 1
Maria Tereza Mazziero de SOUZA2
RESUMO
Este artigo intenta reconhecer as relações entre o imaginário religioso e a mídia
televisiva, a partir de uma análise do discurso de um programa católico comparado à
posição neopentecostal, Renascer em Cristo. Por meio das estratégias discursivas
observadas, nos foi possível reconhecer os diferentes tipos de público aos quais se
destinam os programas e a identificar as diferenças entre a construção simbólica das
manifestações religiosas institucionalizadas para as midiatizadas. A escolha do
procedimento metodológico se deu por comparações discursivas no processo
exploratório que permitem o estabelecimento de parâmetros classificatórios. Desta
maneira, podemos distinguir os elementos responsáveis pela criação de uma imagem em
torno do representante religioso em detrimento da religiosidade propriamente dita, o que
permite o apropriar-se da religião como elemento da atividade cotidiana.
PALAVRAS-CHAVE: Religião; Análise do Discurso; Mídia; Imagem.
Introdução
A manifestação religiosa denuncia um traço de cunho cultural quando
experimentada de forma presencial, com base na interação entre o fiel, os símbolos e
costumes tradicionais mantidos e transformados ao longo da ação do homem enquanto
ser social e histórico que centenas de anos construiu um todo imaginário acerca desses
elementos. No momento em que a religião passa da instituição para a transmissão
midiática, deixa de ser vivenciada enquanto uma manifestação da religiosidade para ser
consumida enquanto produto. São necessárias, por tanto, transformações discursivas
para que, ao público seja permitida uma nova construção simbólica.
Os objetos escolhidos se tratam de dois trechos de exibições televisivas
divergentes: para análise discursiva da linguagem da igreja católica na mídia,
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Trabalho apresentado na VIII Conferência Brasileira de Comunicação Eclesical (Eclesiocom), realizada em São
Bernardo do Campo, SP, 22/8/2013
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Maria Tereza Mazziero de Souza: graduada em Letras, pelas Faculdades Integradas de Jaú e em Educação Musical,
pela Universidade do sagrado Coração, Bauru. Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Metodista de
São Paulo.
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escolhemos o programa "Direção Espiritual", apresentado pelo Padre Fábio de Melo,
com duração de uma hora, sendo iniciado e finalizado com a manifestação do padre que
canta músicas de sua autoria. Como objeto comparativo foi escolhido um trecho do
quadro "A Palavra do Dia" de um programa apresentado pela Bispa Sônia Hernandes.
A escolha pela TV como meio de comunicação, se fez fundamental por requerer
mudanças no formato das pregações, em questão do tempo de exibição, retórica como
estratégia de marketing, tipos de uso da voz falada e espaço delimitado. Ademais, este
meio de comunicação também oferece inúmeras possibilidades de leitura e diversos
tipos de linguagens por apresentar imagem dinâmica e som e o fácil acesso a todas as
classes.
1. Linguagem , estilo e gêneros do discurso
Uma mensagem não é reconhecida ou possível de produção de sentido, somente
pelo ato de proferirmos vocábulos específicos em uma dada sequência. A
intencionalidade e suas formas estão revestidas por inúmeras ferramentas, segundo
Roland Barthes (1998, p.103): "Todo sistema fonte de discurso é uma representação
(no sentido teatral: um show), uma encenação de argumentos, de agressões, de réplicas,
de fórmulas, um mimodrama, no qual o sujeito pode empregar sua fruição histérica."
Entretanto, para que uma mensagem cause impacto, há que se basear no receptor
da mensagem possibilitando, assim, mapear as formas das quais nos utilizaremos para
proferir o discurso, ou seja o estilo que segundo Mikhail Bakhtin (1997, p. 282): "o
estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e a formas típicas de enunciados, isto
é, aos gêneros do discurso".
2. Linguagem, representações simbólicas e análise do discurso
"Todo meio de expressão aceito numa sociedade repousa em princípio num
hábito coletivo ou, o que vem a dar na mesma, na convenção", afirma Ferdinand
Saussure (2006, p.82) cuja definição se faz fundamental para este trabalho, porém
insuficiente uma vez em que se apropria somente da língua e fala. Há, por tanto, outros
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sinais que fazem parte de um processo de representação simbólica como afirma Gilbert
Durand (2002, p.51): “[...] tomemos como hipótese de trabalho que existe uma estreita
concomitância entre os gestos do corpo, os centros nervosos e as representações
simbólicas." É a partir dessas afirmações que não nos detemos a uma análise de
conteúdo, somente. São 4 os principais enfoque deste procedimento metodológico
mencionados por Rosalind Gill (2002, p. 247):
É proveitoso pensar a análise do discurso como tendo quatro temas
principais: uma preocupação com o discurso em si mesmo; uma visão da
linguagem como construtiva (criadora) e construída; uma ênfase no discurso
como uma forma de ação; e uma convicção na organização retórica do
discurso.
Há, por tanto, que se trave uma relação dialógica a partir de diferentes recursos,
segundo José Luiz Fiorin (2011, p.10):
O texto pode ser abordado de dois pontos de vista complementares. De um
lado, podem-se analisar os mecanismos sintáxicos e semânticos responsáveis
pela produção do sentido; de outro, pode-se compreender o discurso como
objeto cultural, produzido a partir de certas condicionantes históricas, em
relação dialógica com outros textos.
Tanto para que um produto seja consumido quanto para que uma prática seja
inserida no cotidiano, é preciso que sejam criadas relações identitárias entre o objeto e o
público. Esse fenômeno ocorre com base nos elementos sócio-culturais em que o
espectador está inserido. Só assim são criadas as representações imagéticas que
impulsionam o individuo inserir esta ou aquela atividade em sua rotina. É inerente tanto
às relações de mediação cultural quanto à midiatização, a construção imaginária
coletiva, afirma Magali do Nascimento Cunha (2007, p.46):
Afirmar o "movimento perpétuo"da interrelação imaginário social e cultura é
também afirmar que identidades culturais são construídas, não determinadas,
moldadas pelo movimento de criação incessante que a dinâmica social
possibilita aos indivíduos e aos grupos. E aqui se colocam as mídias e suas
formações culturais como parte desta dinâmica .
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3. Novas demandas imaginárias
Ocorrem ao final dos anos 60's, permitidas pelo Concílio Vaticano II, muitas
mudanças em torno da manifestação religiosa e da dicotomia religião e religiosidade.
Segundo Silas Guerriero (2010, p.102) "A religião não fica mais somente na igreja e na
comunidade original, mas se desloca para outros lugares, assume novas feições e formas
de vivência".
Esse processo de desconstrução forja uma sensação de maior interatividade das
práticas sociais, permitindo ao público assim criar novas configurações da vivência
religiosa, baseando-nos na afirmação de Michel Maffesoli (2001):
Só é criador na medida em que consegue captar o que circula na
sociedade. Ele precisa corresponder a uma atmosfera. O criador dá
forma ao que existe nos espíritos, ao que está aí, ao que existe de
maneira informal ou disforme. [...] Assim, uma visão esquemática,
manipulatória, não dá conta do real, embora tenha uma parte de
verdade. A genialidade implica a capacidade de estar em sintonia com
o espírito coletivo.
O uso de uma linguagem informal e o desapego às vestes tradicionais da igreja
serviram como mudanças que permitissem ao público estar rodeado de elementos a que
pudessem estar habituado. Essas transformações também foram impactantes para as
vertentes evangélicas. De acordo com o neopentecostalismo, ao travar lutas constantes
contra o demônio é mantida a certeza de que irão conseguir tudo de que precisam, por
meio de uma teologia da prosperidade, segundo Ricardo Mariano (1996):
Com promessas de que o mundo seria locus de felicidade,
prosperidade e abundância de vida para os cristãos, herdeiros das
promessas divinas, a Teologia da Prosperidade veio coroar e
impulsionar a incipiente tendência de acomodação de várias
denominações pentecostais aos valores e interesses mundanos das
sociedades capitalistas.
A ausência dos dogmas outrora determinados pelas instituições religiosas
tornou-se possível novas representações simbólicas, afirma Silas Guerriero (2010, p.
109):
A secularização possibilitou o avanço do pluralismo e do transito
religioso, uma vez que não havendo as amarras das instituições
religiosas, o individuo pode manipular os bens simbólicos construindo
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seus arranjos religiosos sem medo de quebrar o eixo central no qual
está apoiado.
Assim, podemos perceber as transformações ocorridas não somente nas
manifestações religiosas em si, mas no imaginário coletivo ao redesenhar as formas do
que a religiosidade pode significar, diz Paula Monteiro (2006, p.50):
Nesse processo, as formas religiosas foram se constituindo e se modificando
em função de um jogo de forças que opôs a eficácia simbólica daquilo que
contextualmente fosse definido como mágico e a legitimidade social do que
fosse assumido como religioso.
Constata Paulo Freire (1997, p. 169): "As igrejas, de fato, não existem como
entidades abstratas. Elas são constituídas por mulheres e homens "situados",
condicionados por uma realidade concreta, econômica, política, social e cultural".
Com o surgimento da religião na mídia televisiva fora necessário substituir as
práticas social e ritualísticas, possibilitadas pela instituição por meio da sensação de
cotidianidade, como afirma Joana Puntel (2005, p.41) que os destinatários das
mensagens da mídia não são tanto parceiros em um processo recíproco de troca
comunicativa e, sim, participantes de um processo estruturado de transmissão simbólica.
A partir do uso racional de linguagens, com base no discurso com o qual o
público possa se identificar, o novo discurso adotado pelos apresentadores, também
permite ao público uma impressão dialógica. Segundo Jesús Martin-Barbero (2009,
p.295): "Da família como espaço das relações estreitas e da proximidade, a televisão
assume e forja os dispositivos fundamentais: a simulação do contato e a retórica do
direto".
Constata Paulo Ferreira (2011, p.221) no caso dos programas católicos, notamos
a "ruptura com os antigos estereótipos do sacerdote":
Para entender a essa lógica de mercado e do consumo, os padres [...]
conseguiram estabelecer uma mediação entre as figuras do sacerdote (de
discurso doutrinário) e da celebridade/artista (de discurso espetacularizado)
por meio da linguagem da música, do entretenimento, do espetáculo.
Já as exibições neopentecostais, baseiam-se nos elementos bíblicos porém com
ênfases diferentes, em consonância com Magali do nascimento Cunha (2007, p.59): "O
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eixo salvação-milagres-coleta de fundos era comum a todos, bem como o viés
fundamentalista da interpretação bíblica, mas as ênfases na pregação variavam."
Há portanto, um deslocamento do foco do espectador, afirma Paulo Ferreira
(2011, p.223): "A mediação entre objeto e consumidor realiza-se pela meio da imagem:
O artista em detrimento da obra, o mensageiro em detrimento da mensagem.
Do púlpito ao palco- o pregador transforma-se em celebridade e a palavra em imagem".
Entrelaçamos, por tanto, as migrações das atenções acerca das manifestações
culturais e ao excessivo desprendimento libertador, possibilitando-nos até fazer uma
alusão ao pluralismo religioso sem eufemismos, com base na afirmação de Bronislaw
Baczko (1985, p. 308):
Contudo, os “marxistas” de hoje passaram já pela leitura de Weber e os
“freudianos” trabalharam as obras estruturalistas. A época das ortodoxias
parece, pois, ultrapassada; vivemos, muito feliz-mente, na época das heresias
ecléticas.
4. Dos objetos
Direção Espiritual e Padre Fábio de Melo3
O programa Direção Espiritual, transmitido pelo canal Canção Nova, às quartasfeiras, às 22h. Padre Fábio José de Melo Silva, ordenado desde 2001, nasceu no dia 03
de Abril de 1971, em Formiga MG. Entendemos com base na reportagem de Marcelo
Marthe e Sérgio Martins (2009):
[...] exibe um vistoso relógio Diesel no pulso, não gosta de ser
fotografado com as mãos em posição de prece. "É piegas", diz. Vindo
de uma congregação liberal, a Sagrado Coração de Jesus, Melo
manifesta sem medo um dos pecados capitais – a vaidade. Usa calças
justas, tem sobrancelhas delineadas e, ainda que não admita em
público, já se submeteu a picadas de Botox para remover rugas da
testa e dos olhos [...]. "Quando as fãs vêm com histeria, logo corto.
Não vou acender fogueiras que não posso apagar", diz (...) é mestre
em antropologia teológica e autor de seis livros de auto ajuda numa
linha poético-religiosa. Seu maior incentivador nessa área – amigão do
peito, mesmo, do peitoral – é Gabriel Chalita, ex-secretário de estado
paulista.
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Trecho disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=iaZp4zyIxmk>
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O pensamento do dia e Bispa Sônia Hernandes 4
No programa Bem Estar, apresentando pela Bispa encontramos o quadro
Pensamento do Dia, tendo estado disponível no dia 12 de Julho de 2011. Veiculado há
16 anos, é exibido nos canais 28 NET, 21 TVA, 53 UHF, de segunda à sexta das 13h e
30 às 16h, aos sábados às 12h às 14h e aos domingos das 14h às 17h, em São Paulo.
Bispa Sônia Haddad Morais Hernandes nascida em no dia 22/11/1958, em São Paulo,
no bairro de Tatuapé.
Deixou a carreira de nutricionista para ser bispa da igreja
Renascer em Cristo, ao lado do marido, o apóstolo Estevam Hernandes. Com base na
matéria de Thaís Oyama (2011):
Suas roupas ostentam grifes de estilistas famosos, como Reinaldo
Lourenço, e tanto a maquiagem quanto o cabelo são obra de salão
cinco-estrelas que ela freqüenta religiosamente todos os dias.Diante de
uma platéia de até 5.000 pessoas, a bispa canta, dança, dá gargalhadas,
desfaz-se em lágrimas e leva o público ao paroxismo com seu sermão
heterodoxo. Entre parábolas e versículos da Bíblia, fala, por exemplo,
da importância da lipoaspiração para a saúde de um casamento e dá
um toquezinho apimentado aos conselhos sobre a multiplicação das
alegrias do sexo marital.
5. Análise: Direção Espiritual e Padre Fábio de Melo
Uma fonte primária caracteriza o objeto principal do programa: carta, e-mail ou
recados do de telespectadores, enviados pelas redes sociais. As combinações de cores
são contrastantes, porém, predominantemente frias e calmas: a cor azul da camisa e a
combinação harmônica que tece com a cor verde da paisagem bucólica, que compõe o
cenário. Assim, a única cor quente -amarela- destaca-se, como contraste, iluminando o
cenário.
Há
música
ao
vivo,
executada
pelo
pianista
Cristian.
Ao invés das vestes tradicionais da igreja, opta pelo estilo casual, calça jeans e camisa.
As expressões faciais não são muito variadas. No geral, oscila entre a seriedade e um
sorriso sutil. Mantendo-se sentado, utiliza sua voz em tom agradável, natural sem
muitas alterações. A linguagem é simples, porém não exageradamente intimista. Segura
o microfone o que limita um pouco sua expressividade nos elementos não verbais. As
4
Trecho do vídeo disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=4hbX3FhQsbY>.
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cores são predominantemente frias, calmas e o cenário é clean. Livre de qualquer
elemento que possa dispersar a atitude do público, é mais propício ao silenciar para
ouvir; sugere uma postura reflexiva. Além disso padre se faz ser visto, observado e
analisado. Em seu discurso, percebemos o uso frequente de ferramentas linguísticas
neutralizando as expressões faciais e corporais, comportamento tradicional e esperado
de líderes católicos.
Difere-se da bispa que Aos costumes estabelecidos pelo cenário católico, no
padre notamos com o uso do microfone, a postura de pregador e didata mantendo uma
posição de destaque, por meio do direcionamento da prática reflexiva, a partir de
linguagem diferente àquela do cotidiano. A abordagem se dá através de uma demanda
social e não da utilização da bíblia. Com base nessas características discursivas
atribuímos ao público a que se destina o programa característica reflexiva, utiliza-se de
postura politicamente correta, generalizando os fatos ao invés de assumir posição de
reprova, por meio do uso dos pronomes no plural ou colocando-se enquanto exemplo de
situações reais ou hipotéticas. Utiliza-se de discursos: autorizado - por
ser uma
autoridade que representa um todo, no caso um líder religioso; filosófico-questionador pois indaga a sociedade e sobre a sociedade; discorre sobre fatos relacionados à
questões naturais, sociais e suas essências e científico - com menor frequência - mas
explana, exemplifica, define e conceitua. Profere suas palavras, em alguns momentos
por oposição semântica complexa: /maldade/versus /bondade e oposição semântica
neutra: /coração/versus/mente/.
O tipo de manipulação, enquanto ferramenta retórica-embora sutil- é o de
intimidação: preceito de que o mal que fazemos também nos causa mal estar: o emissor
da maldade é também o receptor da mesma.
6. Análise: A Palavra do Dia e Bispa Sônia Hernandes
O cenário é predominante de combinações harmônicas de cores quentes. Expõe
livro de sua autoria em cima da mesa à que senta confortavelmente. Fazem parte do
cenário: espelho, mobília e globo terrestre como peças decorativas. O microfone da
bispa não é visível, o que possibilita maior expressividade em seus gestos. Há
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reprodução de música instrumental. Com vestimenta esvoaçante e formal opta por cores
quentes como o vermelho e o marrom ligadas ao dinamismo, elementos da Terra e fogo.
As cores quentes presentes no quadro do programa apresentado pela bispa estão
afinadas a sua eloquência. A mobília permite um toque de sofisticação ao cenário. Os
objetos como espelho nos remete às aparências, à permissão da preocupação estética e à
sofisticação. O globo terrestre nos convida a abraçar o mundo e, ao "viajar" por meio de
sua imagem nos remetemos à prosperidade. Toda a cena apresenta energia, dinâmica e
postura empreendedora, elementos relacionados à teologia da prosperidade. Demonstra
grande expressividade nos gestos, entonação e movimentos. A postura despretensiosa,
discurso direto, linguagem informal e intimista que permite um direcionamento ao
público diante de situações emergentes. O público a que se dirige o quadro da bispa, não
parece exigir tanta cautela ao delimitar as situações ou atitudes adequadas, além de
relacionar-se à proposta desta religião, ou seja, a responsabilização do diabo pela sua
manipulação diária e assim, lutar para combatê-lo. Também se utiliza de temas
cotidianos para proferir suas pregações, porém não parte deles, mas da sagrada
escritura. Percebe-se claramente os preceitos da teologia da prosperidade, a partir dos
pressupostos e subentendidos de valores, na cena "E": "exército" (poder); "rico" (bens
materiais); "lindo" (beleza). Utiliza-se dos discursos: autorizado -
já mencionado
anteriormente; sedutor - a partir de uma postura intrigante, de elementos estéticos
visuais, que envolventes ao espectador; discurso emocional, pois o conteúdo caminha
sobre o curso da emoção, submersa aos outros tipos de discurso e traços de discurso
autoritário são encontrados, em sua fala, nos momentos em que influencia
comportamentos sem questionamentos e que classifica o indivíduo, com base em uma
atitude não considerada adequada. Faz uso da linguagem fática e de oposições
semânticas complexas: /ódio/versus/perdão/; /Satanás/ versus/Deus/. O tipo de
manipulação retórica é o de tentação, pelo preceito de que se fizer o que ela recomenda,
abrem-se as possibilidades para recebermos os milagres.
Considerações Finais
Com base nessa análise, pudemos concluir que as transformações discursivas
sofridas não significaram lançar mão totalmente, das propostas religiosas segmentadas e
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seus conteúdos específicos. A tradição religiosa foi adaptada às estratégias midiáticas e
às demandas sociais, adotando assim, novas formas discursivas tendo seu conteúdo
proferido pelo viés da autoajuda.
O representante da Igreja Católica assume postura de didata, discreta e
diferenciada da que nos utilizamos em nosso cotidiano; não se utiliza da bíblia e procura
não julgar as pessoas mas, as situações. Dialoga com as classes mais baixas, mas não
profere suas palavras com base nesse tipo de linguagem. Ao contrário da bispa que
Direciona sua fala para as classes mais baixas que, por meio da bíblia trava conversa
eloquente com
o ouvinte. As diferenças culturais sobre as quais depositam as
estratégias da produção midiática podem ser identificadas pela linguagem que é o filtro
responsável pela interação. É pela relação dialógica e associação ao cotidiano por que
passa a intencionalidade que será consolidada a partir das estratégias retóricas, postura e
traços comportamentais, para que se torne possível processo de construção e
reconhecimento de identidades, em que se situa o consumo.
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APÊNDICE
QUADRO DESCRITIVO
Cenas
Direção Espiritual
1
Segura o microfone
Gesticula como se quem
fosse mostrar o coração e
a cabeça.
2
Gestos discretos e
poucas alterações
Discurso Verbal
0:40 a 0:42
"A mente é o lugar onde
nós acontecemos."
Cenas
Palavra do Dia
A
Sentada de pernas
cruzadas, braços sobre as
pernas.
Discurso Verbal
3:30 a 3:32
"Então, ficar odiando
resolve a tua vida? Não."
Não segura microfone
0:43 a 0:54
"A gente sabe que o
coração, ele tem esse
significado simbólico, de
ser o lugar do sentimento,
mas é na cabeça da gente
que nós somos
construídos."
B
Aponta para o público,
expressão facial de
reprova e ênfase gestual e
entoativa nas atitudes
negativas.
3:33 a 3:38
"Mas a pessoa tá de bem
com a vida e você ta aí
morrendo de ódio!"
Expressão facial de
reprova
Certa alteração na voz
3
Realiza gestos pouco mais
vigorosos com o braço.
4
Ao dizer maldade aponta
para a cabeça, com gesto
de similar a uma "arma"
Ao dizer "diminuir" faz
gesto relacionado e de
forma mais branda.
5
Gestos discretos e poucas
alterações
0:55 a 1:02
"A minha mente... é aqui
que eu me penso, é aqui
que eu penso o outro; é
aqui que eu me interpreto,
é aqui que eu interpreto o
outro."
1:03 a 1:07
C
Aponta para o público
Expressão facial negativa
3:39 a 3:43
"A tua vida é... você é um
perturbado! A tua vida é
ficar atrás do outro!"
Certa alteração na curva
melódica ao falar
D
3:44 a 3:46
"E é aqui que a maldade
pode crescer como ela
também pode diminuir."
Gesticula com a mão
direita levantada e com a
palma virada ao público
"Sabe Saul? Ce não sabe?
Deixa eu te contar!"
1:08 a 1:22
E
Ao dizer "lindo" os gestos
ficam mais vigorosos com
o braço erguido pouco
acima da linha do queixo.
"Então, se eu permito que
a maldade cresça dentro
da minha mente, se eu
começo a me configurar a
partir dessa maldade, eu
vou ter então, muita
dificuldade para fazer
crescer os meus amores".
Realiza gestos circulares
dando a impressão de
soma (de qualidades, no
caso).
Quando diz família,
utiliza as duas mãos.
3:47 a 4:10
"Saul era rei, tinha
exército, era rico, um filho
dele era lindo... melhor,
melhor de todos!
Guerreiro, Jonathas,
família maravilhosa...Mas,
ele tinha tanta inveja e
tanto ódio de Davi que ele
não desfrutava de nada. A
vida dele era cuidar da
vida de Davi".
Quando diz "inveja" e
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"ódio", emite som gutural,
articula mais
vigorosamente.
6
1:23 a 1:32
Aponta a cabeça para
dizer "maldade".
"E aí é certo que a minha
capacidade de amar,
porque ela está infectada
pela maldade, eu corro o
risco, então, de perder a
minha capacidade de
amar".
7
Realiza movimento
circular e ascendente.
1:33 a 1:35
"Como é que isso acontece
na prática, minha gente"?
8
Aponta o Cristian
sutilmente
1:36 a 1:49
"De repente eu sou amigo
do Cristian, alguém vem
falar mal do Cristian pra
mim. Eu permito que
aquela informação venha
fazer parte da minha
cabeça... do meu coração,
já ia dizer no sentido
simbólico".
Gesticula de acordo com
as palavras proferidas
A câmera abre para os
dois: Cristian e Padre
Doravante, a Câmera
fecha em Cristian, que não
olha para a câmera mas,
sorri discretamente
9
A câmera volta para o
padre.
Logo após abre para os
dois, enquanto o padre
aponta o instrumentista
mais uma vez.
Doravante, a Câmera
fecha no Cristian, que não
olha para a câmera mas,
sorri discretamente.
1:50 a 1:57
"Aí aquela história que me
contaram sobre o Cristian,
começa a macular a minha
capacidade de amar o
Cristian"
Apresenta fala mais
pausada com menos curva
melódica e mais potência
vocal.
F
4:11 a 4:15
Articulação expressiva.
Aumenta a potência vocal.
Enfatiza o pronome "tua".
Gesticula com as duas
mãos, apontando para o
"telespectador.
G
Altera a potência vocal
E gesticula vigorosamente.
"
H
Com as duas mãos faz
movimentos com os dedos
parecendo garras.
"A Tua vida tem sido
cuidar da vida dos
outros?"
4:16 a 4:19
"Mas, cê é tomado de... cê
não consegue sair!"
4:20 a 4:25
"Vem pra igreja! Vem pra
igreja! Resiste ao diabo"!
Doravante, mexe mais
rapidamente as duas mãos
fechadas ao dizer "resiste
ao diabo
I
Mantém as duas mãos
fechadas.
""X" no último "chega"!
4:26 a 4:33
- Quando ele vier: "fala
mal de fulano, fala mal de
ciclano, diz que cê tá com
ódio por causa disso e
daquilo."
Ao proferir "Deus me
ajuda" aponta com as duas
mãos abertas para si.
Emite som gutural.
Abre as mãos, perto da
face, uma a cada lado e
movimenta com
movimentos descendentes
e pausados no ritmo da
palavra "chega".
Ao proferir a palavra
"Deus", olha para cima.
J
Com as duas mãos
4:34 a 4:41
- Fala:" Chega, Satanás!
13
Cátedra Unesco de Comunicação e Desenvolvimento/Universidade Metodista de São Paulo
VIII Conferência Brasileira de Comunicação Eclesial, São Bernardo do Campo, SP, 22/8/2013
apontadas para si, aponta
com uma delas somente,
para o público
"Chega! Chega! Deus, me
ajuda a liberar perdão!"
Os braços mantém-se
esticados para o "público".
Diminui a tensão da voz
Aos poucos, modifica a
expressão facial de
repreensão para um sorriso
expressivo.
K
Os braços mantém-se
esticados para o "público".
Diminui a tensão da voz
4:42 a 4:51
"A hora que cê libera
perdão, esse espaço que
tava o ódio é o espaço que
Deus precisa pra fazer um
milagre, uma libertação na
tua vida!"
Aos poucos, modifica a
expressão facial de
repreensão para um sorriso
expressivo.
14
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diferenças discursivas entre celebridades religiosas brasileiras