UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE BIOLOGIA DEPARTAMENTO DE ECOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ECOLOGIA PRODUÇÃO, DENSIDADE E BIOMASSA DA MACRÓFITA AQUÁTICA Eleocharis interstincta (VAHL) Roemer et Schults NA LAGOA DE JURUBATIBA (MACAÉ-RJ) ANDERSON MEDEIROS DOS SANTOS Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Ecologia, do Departamento de Ecologia, Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Ecologia. Rio de Janeiro 1999 _______________________________________ Orientador: Prof. Dr. Francisco de Assis Esteves ii FICHA CATALOGRÁFICA SANTOS, A. M. PRODUÇÃO, DENSIDADE E BIOMASSA DA MACRÓFITA AQUÁTICA Eleocharis interstincta (VAHL) Roemer et Schults NA LAGOA DE JURUBATIBA (MACAÉ-RJ). Dissertação de Mestrado. Departamento de Ecologia, UFRJ. Anderson Medeiros dos Santos, Rio de Janeiro, UFRJ, 1999. Palavras-chaves: Macrófitas aquáticas, produção, biomassa, Eleocharis interstincta, lagoas costeiras. iii À meus pais, Gil e Selma, por tudo que sou iv EI VOCÊ AÍ VOCÊ QUE ESTÁ MATANDO AS ERVAS, AS ÁRVORES POLUINDO OS RIOS E ASSASSINANDO OS ANIMAIS EI VOCÊ AÍ NÃO PODE FAZER ISSO NÃO SERÁ QUE VOCÊ NÃO PERCEBE COMO DEVE PROCEDER NÃO É ASSASSINANDO, NEM DESTRUINDO QUE VOCÊS VÃO RESOLVER NÃO MATE OS ANIMAIS, NÃO DESTRUA A NATUREZA ASSASSINATUREZA - CIDADE NEGRA (Dedicada à memória de Chico Mendes) v "A PEOPLE WITHOUT THE KNOWLEDGE OF THEIR PAST HISTORY, ORIGIN AND CULTURE IS LIKE A TREE WITHOUT ROOTS" (MARCUS GARVEY) vi AGRADECIMENTOS Aqui se encerra mais uma etapa de minha vida. Quando olho para trás, vejo que o caminho tortuoso pelo qual percorri, só foi possível graças à ajuda de inúmeras pessoas que estenderam a mão nos momentos difíceis. À elas o meu muito obrigado. Porém, seria uma desconsideração imensa de minha parte, deixar de destacar algumas pessoas que me marcaram para sempre. Gostaria de agradecer ao meu Professor, Orientador e Amigo Francisco Esteves por, além de me acolher em seu laboratório e ensinar as maravilhas dessa fascinante ciência das águas, me orientou na mais importantes das ciências: a ciência da VIDA. Ao meu amigo Júnior, por sua sincera amizade, companheiro das minhas primeiras coletas (e noites) em Macaé. Ao meu grande amigo Bias, sempre disposto a esclarecer minhas dúvidas e companheiro (juntamente com o Júnior) nas aventuras no Norte Fluminense. Ao Sérgio "bozelete" que, sem a preciosa e incansável ajuda nas coletas de campo, este trabalho não seria realizado. À Ignês e Lena, minhas "Mães" em Macaé, cujo coração não caberia na maior das lagoas deste mundo. À todos os membros do Laboratório de Limnologia da UFRJ, que durante 4 anos foram minha Segunda Família. Aos integrantes da pré-banca Ricardo Coutinho e Yocie Valentin, pelas valorosas sugestões no manuscrito. Aos integrantes da banca Dorothy Araújo e Maria Fernanda, pelas sugestões e observações finais que muito contribuíram para o enriquecimento da tese. Às secretárias do Depto. de Ecologia da UFRJ, Márcia e Sônia, que sempre resolviam os problemas “borocráticos” com um sorriso. À PETROBRAS, pelo apoio financeiro no convênio Ecolagoas. À CAPES, pela concessão da bolsa de mestrado. vii SUMÁRIO Capítulo 1 INFLUÊNCIA DA VARIAÇÃO DO NÍVEL D’ÁGUA DE UMA LAGOA COSTEIRA TROPICAL SOBRE A BIOMASSA AÉREA DA MACRÓFITA AQUÁTICA Eleocharis interstincta (VAHL) Roemer et Schults 1.1- Resumo ............................................................................................... 2 Abstract ............................................................................................... 3 Introdução ............................................................................................... 4 1.1.1- Hipótese ............................................................................................... 5 1.2- Área de estudo ............................................................................................... 6 1.3- Metodologia ............................................................................................... 7 1.3.1- Análise estatística ............................................................................................... 8 1.4- ............................................................................................... 9 Resultados 1.4.1- O nível d'água ............................................................................................... 9 1.4.2- Biometria .............................................................................................. 10 1.5- Discussão .............................................................................................. 12 1.6- Conclusão .............................................................................................. 16 1.7 Bibliografia .............................................................................................. 17 Figuras .............................................................................................. 20 Capítulo 2 PRODUÇÃO PRIMÁRIA DA MACRÓFITA AQUÁTICA Eleocharis interstincta (VAHL) Roemer et Schults NA LAGOA DE JURUBATIBA (MACAÉ), RJ. 2.1- Resumo .............................................................................................. 30 Abstract .............................................................................................. 31 Introdução .............................................................................................. 32 2.1.1- Hipótese .............................................................................................. 33 2.2- Área de estudo .............................................................................................. 34 2.3- Metodologia .............................................................................................. 35 2.3.1- Análise estatística .............................................................................................. 36 2.4- .............................................................................................. 38 Resultados viii 2.4.1- O nível d'água .............................................................................................. 38 2.4.2- Coortes .............................................................................................. 39 2.5- Discussão .............................................................................................. 42 2.6- Conclusão .............................................................................................. 47 2.7- Conclusão Final ............................................................................................. 48 2.8 Bibliografia .............................................................................................. 50 Figuras .............................................................................................. 54 Esta dissertação é composta por dois trabalhos científicos intitulados: “Influência da Variação do Nível d’água de uma Lagoa Costeira Tropical Sobre a Biomassa Aérea da Macrófita Aquática Eleocharis interstincta (VAHL) Roemer et Schults” e “Produção Primária da Macrófita Aquática Eleocharis interstincta (VAHL) Roemer et Schults na Lagoa Jurubatiba (Macaé), RJ” ix INFLUÊNCIA DA VARIAÇÃO DO NÍVEL D’ÁGUA DE UMA LAGOA COSTEIRA TROPICAL SOBRE A BIOMASSA AÉREA DA MACRÓFITA AQUÁTICA ELEOCHARIS INTERSTINCTA (VAHL) Roemer et Schults SANTOS, A. M. & ESTEVES, F. A. RESUMO O objetivo deste trabalho foi verificar as alterações fenológicas de Eleocharis interstincta em resposta às variações do nível da água da lagoa Jurubatiba, localizada no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, no município de Macaé (22o,00’ e 22o,30’ S e 41o,30’ e 42o,00’ W). As coletas foram realizadas a cada duas semanas de junho/97 a junho/98, com quadrados de 0,0625 m2. No laboratório, as amostras foram lavadas com água corrente e separadas em: Rametes – mais de 50 % do comprimento da haste constituído de partes clorofiladas; Detrito menos de 50 % do comprimento constituído de partes clorofiladas. Os rametes foram medidos e separados um a um para secagem em estufa a 70 oC por três dias, para a obtenção de sua biomassa, expressa em gramas de peso seco (g PS). O nível da água na lagoa Jurubatiba variou sazonalmente ocorrendo, durante o estudo, dois períodos em que o nível d’água no estande das macrófitas não foi registrado. O primeiro período se deu naturalmente no final do inverno início de primavera onde a pluviosidade na região é menor. O segundo período foi decorrente da abertura artificial da barra de areia, que separa a lagoa do mar, no verão, época de maior pluviosidade, quando o nível d’água da lagoa subiu até chegar ao máximo registrado (1,35 m). Foi encontrado uma forte correlação positiva do nível d’água com o comprimento médio e a biomassa aérea dos rametes de E. interstincta, indicando que o nível d’água tem um papel fundamental na determinação destes parâmetros. Houve diferença significativa entre o comprimento (ANOVA; p < 0,001) e a biomassa (ANOVA; p < 0,001) dos rametes de cada um dos períodos amostrais, variando de 143,9 cm e 338,8 g de peso seco/m2, antes da abertura de barra a 16,3 cm e 20,2 g de peso seco/m2 após a abertura da barra. A variação drástica do nível d’água da lagoa provocando a mortalidade em massa da parte aérea da maioria dos rametes, aliada ao menor valor de biomassa média/indivíduo (0,057 g de peso seco/indivíduo), registrado após a abertura de barra, não comprometeram muito a população de macrófitas aquáticas, já que o tempo de resiliência estimado para esta população foi de 30 dias. 2 ABSTRACT The objective of this work was to verify the fenologic alterations of Eleocharis interstincta in response to the variations of the water levels in Jurubatiba lagoon, located in the north coast of the State of Rio de Janeiro, in the municipal district of Macaé (22o,00 ' and 22o,30 ' S ; 41o,30 ' and 42o,00 ' W). The samples were harvested every two weeks from june/97 to june/98, with 0,0625 m2 quadracts. In the laboratory, the shoots were washed and separated into: Ramets - more than 50% of the stem length constituted of chlorophyllous tissue; Detritus - less than 50% of the stem length constituted of chlorophyllous tissue. The ramets were measured and separate one by one for dried in oven to 70 oC for three days and were weighed to determine biomass, expressed in grams of dry weight (g dw). The water level in Jurubatiba lagoon varied seazonality ocurring, during the study, two periods that the water level in the stand was not registered. The first period occurred naturally in the late winter where the precipitation in the area is lower. The second period occurred due to sand bar opening, in the summer, where precipitation is higher, when the water levels registered maximum (1,35 m). It was found a strong positive correlation of water level and shoots length and the aerial biomass of E. interstincta, indicating that the water level has a fundamental role in regulation of these parameters. There was significant difference among the shoots length (ANOVA; p <0,001) and shoots biomass (ANOVA; p <0,001) in each one of the periods, varying of 143,9 cm and 338,8 g of dry weight/m2, before the sand bar opening to 16,3 cm and 20,2 g dry weight/m2 after the sand bar opening. The drastic variation of water level in the lagoon provoking the mortality of the shoots, ally to the smallest value of mean biomass/ramet (0,057 g of dry weight /shoot), registered after the sand bar opening, didn't commit the population of aquatic macrophytes a lot, since resilience time estimated for this population was 30 days. 3 1.1. INTRODUÇÃO Lagoas costeiras são ecossistemas que ocorrem ao longo de todo o Brasil sendo considerado um dos conjuntos de ecossistemas aquáticos continentais mais representativos do país (ESTEVES, 1998). Além da ampla ocorrência as lagoas costeiras são conhecidas por sua elevada produtividade, apresentando valores comparáveis aos estuários e às regiões marinhas de ressurgência (KNOOPERS, 1994) sendo, desta forma, um dos ecossistemas aquáticos mais importantes do Brasil. As lagoas costeiras em geral exibem reduzidas profundidades máxima e relativa, sendo, portanto, altamente vulneráveis à ação dinâmica dos ventos e às oscilações dos fatores climáticos (PANOSSO et al., 1998). A pequena profundidade característica destes ecossistemas propicia o surgimento de uma região litorânea bastante extensa, permitindo o estabelecimento de grandes áreas colonizadas por macrófitas aquáticas (ESTEVES, 1998). WETZEL (1969 a e b) e HOGELAND & KILLINGBECK (1985) demonstraram que as macrófitas aquáticas desempenham um papel de grande importância no metabolismo tanto de ecossistemas lacustres quanto fluviais e estuarinos. Este fato é atribuído à sua capacidade de retirar nutrientes do sedimento reduzido, incorporá-los à sua biomassa e liberar esses nutrientes pela excreção de compostos orgânicos. 4 A sazonalidade das chuvas em regiões tropicais provoca uma acentuada variação do nível da água na maioria dos ecossistemas aquáticos continentais. Diversos trabalhos têm demonstrado a influência da variação do nível da água na biomassa, crescimento, produção e distribuição das macrófitas aquáticas em regiões temperadas (SEISCHAB et al., 1985; REA & GANF, 1994; FROEND & McCOMB, 1994; PIP & SUTHERLAND-GUY, 1987; LINTHURST & REIMOLD, 1978; SQUIRES & VAN DER VALK, 1992) e tropicais (JUNK & PIEDADE, 1993 a e b; FURTADO, 1994; PALMA-SILVA et al., (submetido); VILLAR et al., 1996), porém poucas pesquisas abordam as conseqüências deste fenômeno na biometria das espécies de macrófitas aquáticas. Esta pesquisa tem como objetivo verificar as alterações fenológicas de Eleocharis interstincta, um macrófita aquática emersa, em resposta às variações do nível da água da lagoa de Jurubatiba. 1.1.1. HIPÓTESE A hipótese a ser testada na presente pesquisa é de que o comprimento e a biomassa aérea dos rametes de Eleocharis interstincta são regulados pelo nível d’água da lagoa. 5 1.2. ÁREA DE ESTUDO A lagoa costeira Jurubatiba (Cabiúnas) possui uma área de 0,35 km2, com uma alta razão perímetro/superfície e profundidade máxima de 3,50 m. Está localizada no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, entre os municípios de Macaé e Carapebús (22o,00’ e 22o,30’ S; 41o,30’ e 42o,00’ W) (Fig. 1). O clima da região é sub-úmido/úmido, com pouco ou nenhum déficit de água, mesotérmico com calor bem distribuído o ano todo. A umidade relativa média anual é de 83% e a temperatura média anual em torno de 22 oC sendo a média de janeiro (verão) de 25 oC e a média de julho (inverno) de 19 oC. As chuvas alcançam a média anual de 1300 mm e se concentram nas estações de primavera e verão. A estiagem surge nos meses de inverno, sem a definição de uma estação seca acentuada. Os ventos ocorrem o ano todo, com o predomínio de Nordeste, e em menor grau de Leste, Sudeste e Sudoeste (FIDERJ, 1977). A origem das lagoas costeiras está associada ao surgimento de barras de areia durante a última regressão marinha (ESTEVES, 1998). Algumas vezes a barra de areia que separa a lagoa Jurubatiba do oceano é aberta, geralmente de maneira artificial, com o objetivo de controlar o efeito das enchentes diminuindo o nível d’água, e/ou permitindo a entrada de espécies de pescado de interesse comercial (FARIA et al., 1994; ALBERTONI et al., (submetido). Algumas áreas da região litorânea da lagoa apresentam densas formações de angiospermas aquáticas como: 6 Typha domingensis e Eleocharis interstincta. Nas partes mais profundas ocorrem Nymphaea ampla e Nymphoides humboldtiana (HENRIQUES et al., 1988). 1.3. METODOLOGIA As coletas foram realizadas quinzenalmente de junho/97 a junho/98 na região litorânea da lagoa Jurubatiba. Foram coletados 3 quadrados de 0,0625 m2 sempre na região intermediária do estande de E. interstincta. Estas coletas foram feitas com auxílio de um facão com o qual foram retirados cerca de 20 cm de sedimento. Com esse procedimento coletou-se tanto a parte aérea (rametes) quanto a parte subterrânea (raiz-rizoma) da planta. Na própria lagoa, o rizoma foi lavado para a retirada do sedimento aderido. O nível da água na lagoa era medido no mesmo ponto em que eram lançados os quadrados. No laboratório, as amostras foram lavadas com água corrente e separadas em: Rametes - mais de 50 % do comprimento da haste constituído de partes clorofiladas. Detrito - menos de 50 % do comprimento constituído de partes clorofiladas Após a separação, os rametes foram medidos com o auxílio de uma régua milimétrica e separados um a um. Devido a dificuldade em se padronizar uma região do ramete para medir o seu diâmetro, bem como a demanda de tempo e 7 acurácia necessários, foram tomadas apenas as medidas de comprimento do ramete. Após a secagem em estufa a 70 oC por três dias, o material foi pesado com auxílio de uma balança eletrônica AEL-210 LIBROR. para a obtenção de sua biomassa, expressa em gramas de peso seco. 1.3.1 ANÁLISE ESTATÍSTICA O comprimento e a biomassa média dos rametes entre os períodos amostrais foram comparados através da ANOVA monofatorial, e as médias comparadas pelo teste de Tukey HSD (honest significant difference). Já densidade, detrito e biomassa aérea foram comparados pelo teste não paramétrico de Friedman pela impossibilidade de verificar se estes parâmetros apresentavam distribuição normal. As análises foram realizadas com auxílio do programa STATISTICA, versão 4.2. 8 1.4. RESULTADOS 1.4.1. O nível d’água O nível d’água da lagoa Jurubatiba variou sazonalmente ocorrendo, durante o estudo, dois períodos em que o espelho d’água deixou de cobrir o estande das macrófitas. A primeira alteração do nível d’água ocorreu naturalmente em setembro/97 (final do inverno - início de primavera), período em que a pluviosidade na região é menor. Nessa época, o nível da água foi baixando gradualmente até o espelho d’água deixar de cobrir o estande das macrófitas em outubro de 1997. A segunda alteração do nível d’água ocorreu em fevereiro de 1998 (no verão), época de maior pluviosidade, quando um aumento incomum dos índices pluviométricos da região foi registrado (398,8 mm). Como conseqüência, a barra de areia que separa a lagoa do mar foi aberta de maneira artificial. Antes da abertura artificial, o nível d’água no estande era de 1,35 m, o valor máximo registrado durante o período de estudo. O impacto antrópico da abertura artificial da barra fez com que o espelho d’água se retraísse deixando, novamente, de cobrir o estande. No entanto, essa retração não foi gradual, como ocorreu em setembro/97 mas sim, abrupta. Após um período de duas semanas, a barra de areia foi recomposta naturalmente e o nível da água voltou a aumentar progressivamente. 9 (Fig. 2). 10 1.4.2. Biometria A figura 3 mostra a variação do comprimento dos rametes de E. interstincta durante o período de estudo. Foi encontrado uma diferença significativa no tamanho médio dos rametes (ANOVA; p< 0,001), variando de 143,9 cm em fevereiro de 1998, antes da abertura de barra, a 16,3 cm no mesmo mês, após a abertura da barra. A abertura artificial da barra refletiu num forte impacto na população das macrófitas aquáticas estudadas. No que diz respeito à biomassa aérea dos rametes (Fig. 4) observou-se um decaimento abrupto, alcançando o menor valor registrado durante todo o período amostral (Friedman, p< 0,05). Os valores de biomassa aérea variaram de 338,8 g de peso seco/m2 no período em que o nível d'água alcançou o seu máximo a 20,2 g de peso seco/m2, após a abertura da barra. A densidade dos rametes (Fig. 5) apresentou um padrão similar àqueles encontrados para comprimento e biomassa aérea exceto, porém, para a época em que o valor máximo foi registrado (Friedman; p< 0,05). A densidade dos rametes foi significativamente menor no período após a abertura de barra, quando comparada com o período em que o nível da água baixou naturalmente. O peso específico dos rametes , isto é, a razão biomassa média/comprimento médio (Fig. 6), variou de 5,38 mg de PS/cm quando o nível baixou naturalmente a 2,42 mg de PS/cm após a abertura da barra. 11 A biomassa média/ramete (Fig. 7) também sofreu influência negativa da abertura de barra, quando alcançou o menor valor registrado (ANOVA; p< 0,001) ao longo de todo período amostral (Tukey; p< 0,05). A figura 8 mostra a variação da biomassa dos detritos de E. interstincta, que foi significativamente diferente ao longo do período amostral (Friedman; p< 0,05). Porém, ao contrário das outras variáveis, a biomassa dos detritos apresentou um padrão diferente, alcançando o maior valor (152,4 g PS/m2) quando o nível d’água baixou naturalmente. 12 1.5. DISCUSSÃO Existem consideráveis evidências em estudos abordando a variação do nível d'água em áreas alagáveis que o crescimento e sobrevivência de macrófitas aquáticas emersas são dependentes do nível d'água (NEILL, 1990; SQUIRES & VAN DER VALK, 1992). Nesta pesquisa foi encontrado uma forte correlação positiva do nível da água com o comprimento médio e a biomassa aérea dos rametes de E. interstincta (Fig. 9). Este fato comprova a hipótese inicial de que o nível d’água tem um papel fundamental na regulação do tamanho dos rametes e, consequentemente, da biomassa aérea dos mesmos. Variações no nível d’água podem induzir mudanças na produtividade e na biometria de macrófitas aquáticas emersas dentro de uma população (FROEND & McCOMB, 1994). Pelo fato do nível d’água ser responsável pela regulação do tamanho dos rametes, à medida em que a lagoa foi secando, houve uma substituição do tamanho médio da população, passando de um tamanho maior para um tamanho menor, acompanhando o nível da água da lagoa de Jurubatiba. Essa alteração do tamanho médio dos rametes em função do nível da água, parece ser uma plasticidade característica das macrófitas aquáticas emersas para assegurar a sua sobrevivência em ambientes extremamente variáveis. A capacidade das macrófitas emersas alterarem o seu tamanho também foi reportada para Baumea articulata e Typha orientalis (FROEND & McCOMB, 1994), e para macrófitas 13 submersas (BROCK, 1991). Uma adaptação semelhante foi observada para Baumea arthrophylla, uma macrófita aquática emersa que apresentou classes de tamanho menores quando o nível d’água baixou de 50 para 0 centímetros (REA & GANF, 1994). Quando se aborda alterações na biometria de macrófitas aquáticas emersas, surge um aspecto de fundamental importância que é a sustentação da planta. Os tecidos de sustentação nas macrófitas aquáticas ainda estão presentes porém, sofrendo grande redução, já que a sustentação é feita pelo próprio meio aquático (ESTEVES, 1998). As adaptações encontradas em E. interstincta para suportar os problemas de sustentação quando seu habitat exibe características terrestres foram: I) redução do tamanho médio dos rametes e; II) diminuição do espaço entre os aerênquimas. O menor espaço entre os aerênquimas confere uma maior rigidez estrutural proporcionando, assim, maior sustentação. Dados obtidos na presente pesquisa que confirmam a afirmativa acima, foram que a espécie apresentou maiores valores para peso específico quando o nível d’água baixou naturalmente, embora o mesmo não tenha acontecido quando o nível d’água baixou decorrente da abertura de barra. A redução do tamanho e da porção do tecido aerenquimatoso para a sobrevivência de plantas aquáticas na fase terrestre, também foi reportado por JUNK & PIEDADE (1993 a) em diversas espécies na região amazônica. As alterações biométricas observadas nos rametes de E. interstincta, as quais resultaram na redução dos valores de biomassa dos rametes após a abertura da 14 barra, podem ser atribuídas à combinação dos seguintes fatores: I) a variação drástica do nível d’água da lagoa (abertura artificial da barra), que provoca a mortalidade em massa da parte aérea da maioria dos rametes (PALMA-SILVA 1998). Fato semelhante foi observado nesta pesquisa, onde a densidade dos rametes após a abertura artificial da barra, foi a menor registrada (357,3 indivíduos/m2); e II) o menor valor de biomassa média/indivíduo (0,057 g de peso seco/indivíduo). Isto é, após a abertura artificial da barra nasceram poucos e mais leves rametes, apesar da altura média entre o período em que o estande secou naturalmente e este período ser estatisticamente igual (Tukey; p> 0,05). PALMASILVA (1998) verificou para Typha domingensis (na lagoa Imboacica, Macaé-RJ) que tanto valores de densidade quanto biomassa, altura e peso médio dos rametes foram menores após a abertura de barra. O distúrbio causado pela abertura artificial da barra na população de E. interstincta refletiu na redução nos valores de biomassa aérea, densidade e peso específico dos rametes. Porém, essa macrófita aquática parece estar muito bem adaptada à este ecossistema bastante imprevisível constituído pelas lagoas costeiras. O tempo de resiliência desta espécie pode ser estimado como sendo de 30 dias, já que após esse período, é observado uma recuperação dos parâmetros acima citados. Durante o período em que o espelho d’água no estande de macrófitas retraiu naturalmente, não houve perda de detritos, já que no período seguinte, foi 15 registrado um aumento significativo de sua biomassa (fig. 8). Já após a abertura artificial da barra, os valores de biomassa dos detritos foram consideravelmente reduzidos, indicando que houve exportação dos materiais autóctones do estande. Segundo PALMA-SILVA (1998), o processo de abertura de barra causa, através do intenso fluxo de água em direção ao oceano, um grande carreamento de detritos das macrófitas aquáticas para fora da lagoa costeira. MAYE (1972) sugere que um aumento na biomassa dos detritos pode causar um aumento de nutrientes para a produção primária. Provavelmente a exportação de detritos decorrente da abertura da barra teve como conseqüência uma menor proporção de matéria orgânica disponível no estande de E. interstincta para subsidiar o crescimento e o desenvolvimento das plantas. Este fato justificaria os valores do peso específico terem sido menores após a abertura da barra, comparado aos valores encontrados no período em que o nível d’água baixou naturalmente, momento em que era de se esperar maiores valores deste índice para proporcionar maior sustentação à planta. 16 1.6. CONCLUSÃO A variação sazonal do nível d’água na lagoa Jurubatiba está de acordo com PANOSSO et al. (1998), afirmando que as lagoas costeiras são caracterizadas por serem ambientes altamente vulneráveis às oscilações dos fatores climáticos. Um dado que corrobora esta afirmação foi que, no verão (fevereiro/98), época de maior precipitação (FIDERJ, 1977), a pluviosidade na região alcançou 398 mm, justamente quando a barra da lagoa foi aberta devido ao elevado nível da água. O padrão de variação encontrado para comprimento e biomassa aérea dos rametes de Eleocharis interstincta durante esta pesquisa, mostra o importante papel do nível da água, na regulação destes parâmetros. A hipótese de que o comprimento e a biomassa aérea dos rametes de Eleocharis interstincta são regulados pelo nível d’água da lagoa, foi comprovada, já que estes dois parâmetros foram correlacionados com o nível da água na lagoa Jurubatiba. A abertura artificial da barra resultou num distúrbio para a população de macrófitas aquáticas na lagoa, já que após a abertura, biomassa aérea, densidade e peso específico do rametes, registraram os menores valores durante esta pesquisa. Porém, E. interstincta está bem adaptada à este ecossistema pois o tempo de resiliência estimado foi de 30 dias, tempo necessário para a recuperação dos parâmetros biométricos citados 17 1.7. BIBLIOGRAFIA ALBERTONI, E. F.; PALMA-SILVA, C. & ESTEVES, F. A. (submetido). Larvae and post-larvae of Penaeidae and Palaemonidae in coastal lagoons of the north of Rio de Janeiro (Macaé, RJ). Rev. Bras. Biol. BROCK, M. A. (1991). Mechanisms for maintaining persistent populations of Myriophyllum variifoliumI J. 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A seta indica o local de coleta. 21 160 abertura da barra Nível da água (cm) 140 120 100 80 60 40 20 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 2: Variação do nível da água na lagoa de Jurubatiba ao longo do período amostral. 22 Comprimento dos ramets 140 Nível da água 250 200 Nível da água (cm) 120 100 150 80 100 60 40 50 20 0 Comprimento dos rametes (cm) 160 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 3: Variação do nível d'água e tamanho médio dos rametes ao longo do período amostral. A barra de erro representa o desvio padrão. 23 Biomassa aérea Nível da água 160 450 2 Biomassa dos rametes (gPS/m ) 400 140 350 Nível da água (cm) 120 300 100 250 80 200 60 150 40 100 20 50 0 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 4: Variação do nível d'água e biomassa dos rametes ao longo do período amostral. A barra de erro representa o desvio padrão. 24 Densidade 160 1600 140 1400 120 1200 100 1000 80 800 60 600 40 400 20 200 0 Densidade (No./m2) Nível da água (cm) Nível da água 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 5: Variação do nível d'água e densidade média dos rametes ao longo do período amostral. A barra de erro representa o desvio padrão. 25 Nível da água 160 Peso específico 140 0.006 120 0.005 100 0.004 80 0.003 60 0.002 40 Peso específico (gPS/cm) Nível da água (cm) 0.007 0.001 20 0 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 6: Variação do nível d'água e peso especícico dos rametes ao longo doperíodo amostral. A barra de erro representa o desvio padrão. 26 Biomassa/ramete 160 1 Nível da água 0.9 140 0.7 100 0.6 80 0.5 0.4 60 0.3 Biomassa (gPS) Nível da água (cm) 0.8 120 40 0.2 20 0.1 0 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 7: Variação do nível d'água e biomassa média por ramete ao longo do período amostral. A barra de erro representa o desvio padrão. 27 Detrito 160 250 Nível da água 140 2 Detrito (gPS/m ) Nível da água (cm) 200 120 100 150 80 100 60 40 50 20 0 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12/97 08/02 29/03 12/05 Data Figura 8: Variação do nível d'água e biomassa dos detritos ao longo do período amostral. A barra de erro representa o desvio padrão. 28 400 Biomassa aérea Comprimento dos ramets 350 R2 = 0.65 300 250 200 150 100 R2 = 0.90 50 0 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Nível da água (cm) Figura 9: Correlação (r=0,94; p<0,05) entre o tamanho médio dos rametes e o nível d`água. 29 PRODUÇÃO PRIMÁRIA DA MACRÓFITA AQUÁTICA ELEOCHARIS INTERSTINCTA (VAHL) Roemer et Schults NA LAGOA DE JURUBATIBA (MACAÉ), RJ. SANTOS, A. M. & ESTEVES, F. A. 30 RESUMO Esta pesquisa teve como objetivo determinar a produtividade primária de Eleocharis interstincta em resposta às variações do nível da água na lagoa costeira de Jurubatiba, no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, localizado no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, entre os municípios de Macaé e Carapebús (22o e 22o 30’ S e 41o30’ e 42o W). As coletas foram realizadas quinzenalmente de junho/97 a junho/98 na região litorânea da lagoa, onde foram marcados 3 quadrados permanentes de 0,0625 m2 para o acompanhamento das coortes. Também foram coletados 3 quadrados de mesma área onde no laboratório, os rametes eram medidos com o auxílio de uma régua milimétrica, secos em estufa a 70 oC por 3 dias e pesados para a obtenção de sua biomassa, expressa em gramas de peso seco (g PS). O nível da água na lagoa Jurubatiba variou sazonalmente ocorrendo, durante o estudo, dois períodos em que o nível d’água no estande das macrófitas não foi registrado. O primeiro período se deu naturalmente no final do inverno início de primavera onde a pluviosidade na região é menor. O segundo período foi decorrente da abertura da barra de areia, que separar a lagoa do mar, no verão, época de maior pluviosidade, quando o nível d’água da lagoa subiu até chegar ao máximo registrado (1,35 m). Foi encontrada uma correlação positiva entre a média da altura das coortes e a média do nível da água no estande (r= 0,91 p< 0,01). A taxa de crescimento relativo de E. interstincta parece não estar influenciada pela variação do nível da água no estande , já que foi encontrada diferença entre as taxas de crescimento quando o nível da água se encontrava praticamente na mesma altura. A produtividade primária aérea variou de 0,54 a 1,84 g PS/m2/d, e foi encontrada uma correlação significativa entre essas duas variáveis (p < 0,05), indicando que o nível da água influencia nos valores de PPA. 31 ABSTRACT This research had as objective to determine the primary productivity of Eleocharis interstincta in response to the variations of water level of Jurubatiba, a coastal lagoon in the Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, located in the north coast of the State of Rio de Janeiro, between the municipal districts of Macaé and Carapebús (22o and 22o 30 ' S and 41o30 ' and 42o W). The samples were collected biweekly from june/97 to june/98 in the marsh on western side of the lagoon. Three 0,0625 m2 study plots were positioned in the marsh where every newly emerged shoot was individually tagged and measured its heigth. Three quadracts with same area of study plots were also harvested to evaluate aerial biomass. In the laboratory the shoots were measured, draugh in stove to 70 oC for 3 days and weighed for estimate aerial biomass, expressed in grams of dry weight (g dw). The water level in Jurubatiba lagoon varied sazonality occuring, during the study, two periods in that the water level in the marsh was not registered. The first period occurred naturally in the late winter where the pluviosity in the area is lower. The second period occurred due the sand bar opening, in the summer, where pluviosity is higher, when the water level in the marsh increases until maximum registered (1,35 m). It was found a positive correlation between the average of the cohorts height and the average of water level in the marsh (r = 0,91 p <0,01). The relative growth rate of E. interstincta seems not to be influenced by the variation of water level, since it was found difference among the growth rates when the water level was practically in the same height. The aerial primary productivity (APP) varied 0,54 to 1,84 g dw/m2/d, and it was found a significant correlation among those two variables (p <0,05), indicating that the water level influences the APP. 32 2.1. INTRODUÇÃO O acúmulo de biomassa, como resultado do crescimento das plantas, é usado para estimar a produção primária em muitos ecossistemas (DICKERMAN et ali., 1986). Em ecossistemas aquáticos, as vias básicas de entrada de energia são: a comunidade fitoplanctônica, que por muitos anos foi considerada a principal responsável pela produção de matéria orgânica (WESTLAKE, 1963; DAVIES, 1970); e a comunidade de macrófitas aquáticas, responsável pela produção de matéria orgânica principalmente em regiões tropicais, onde a maioria dos ecossistemas aquáticos apresentam pequena profundidade e extensas regiões litorâneas, possibilitando o estabelecimento de grandes áreas colonizadas por macrófitas aquáticas (ESTEVES, 1998). Devido a sua ampla ocorrência (ESTEVES, 1998) e elevada produtividade (KNOOPERS, 1994), as lagoas costeiras formam um dos ecossistemas aquáticos mais importantes do Brasil. As lagoas costeiras também são caracterizadas por serem ambientes altamente vulneráveis à ação do vento e às oscilações dos fatores climáticos (PANOSSO et al., 1998), principalmente oscilações no nível da água. Diversas pesquisas têm demonstrado a influência da variação do nível da água sobre a biomassa, crescimento, produção e distribuição das macrófitas aquáticas em regiões temperadas (SEISCHAB et al., 1985; REA & GANF, 1994; FROEND & McCOMB, 1994; PIP & SUTHERLAND-GUY, 1987; LINTHURST & REIMOLD, 1978; SQUIRES & VAN DER VALK, 1992) e tropicais (JUNK & 33 PIEDADE, 1993 a e b; FURTADO, 1994; VILLAR et al., 1996; PALMA-SILVA et al., .(submetido)). Porém, a maioria das pesquisas que aborda a variação do nível da água sobre a produtividade primária das macrófitas aquáticas emersas não leva em consideração as perdas por mortalidade e herbivoria. Desta forma, a acurácia na estimativa da produção primária de macrófitas aquáticas em lagoas costeiras pode ser seriamente comprometida, a menos que correções sejam feitas no intuito de minimizar os efeitos da mortalidade, herbivoria ou outro fator que influencie nas perdas de biomassa. Esta pesquisa tem como objetivo determinar a produtividade primária da macrófita aquática Eleocharis interstincta em resposta às variações do nível da água na lagoa costeira de Jurubatiba, bem como contribuir no conhecimento de sua biologia populacional. 2.1.1. HIPÓTESE A hipótese a ser testada na presente pesquisa é que a produtividade primária de Eleocharis interstincta é regulada pelo nível da água. 34 2.2. ÁREA DE ESTUDO A lagoa de Jurubatiba (Cabiúnas) possui uma área de 0,35 km2, com uma alta razão perímetro/superfície e profundidade máxima de 3,50 m (Fig. 1). Está localizada no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, entre os municípios de Macaé e Carapebús (22o e 22o 30’ S e 41o30’ e 42o W). Sua origem está associada ao surgimento de barras de areia durante a última regressão marinha (ESTEVES, 1998). Algumas vezes a barra de areia que separa as lagoas costeiras do oceano é aberta, geralmente, de maneira artificial com o objetivo de controlar o efeito das enchentes diminuindo o nível d’água, e/ou permitindo a entrada de espécies de pescado de interesse comercial (FARIA et al., 1994; ALBERTONI et al., (submetido)). O clima da região é sub-úmido/úmido, com pouco ou nenhum déficit de água, mesotérmico com calor bem distribuído o ano todo. A umidade relativa média anual é de 83% e a temperatura média anual em torno de 22 oC sendo a média de janeiro (verão) de 25 oC e a média de julho (inverno) de 19 oC. As chuvas alcançam a média anual de 1300 mm e se concentram nas estações de primavera e verão. A estiagem surge nos meses de inverno, sem a definição de uma estação seca acentuada. Os ventos ocorrem o ano todo, com o predomínio de Nordeste, e em menor grau de Leste, Sudeste e Sudoeste (FIDERJ, 1977). Algumas áreas da região litorânea da lagoa de Jurubatiba apresentam densos estandes de Typha domingensis e Eleocharis interstincta. profundas da região litorânea ocorrem Nas partes mais as macrófitas aquáticas com folhas 35 flutuantes Nymphaea ampla e Nymphoides humboldtiana, entre outras (HENRIQUES et al., 1988). 2.3. METODOLOGIA As coletas foram realizadas quinzenalmente de junho/97 a junho/98 em um dos braços da lagoa Jurubatiba. Na região litorânea, foram marcados 3 quadrados permanentes de 0,0625 m2 na porção intermediária do estande de E. interstincta, paralelos à linha d'água (Fig. 1). Em cada um dos quadrados os rametes foram marcados com etiquetas plásticas numeradas e o comprimento de cada ramete foi mensurado. A medida de comprimento compreendia a distância entre a interface sedimento-água e a extremidade do ramete. Dessa forma, os rametes marcados em cada visita ao local de coleta constituía uma “coorte”, que era acompanhada até a morte de todos os rametes. Também a cada visita ao local de coleta, foram coletados 3 quadrados de 0,0625 m2 com auxílio de um facão, para amostrar a parte aérea dos rametes de E. interstincta. No laboratório os rametes foram medidos com o auxílio de uma régua milimétrica, secos em estufa a 70 oC por 3 dias e pesados para a obtenção de sua biomassa, expressa em gramas de peso seco. Com o conhecimento do tamanho do ramete e sua respectiva biomassa, foram feitas regressões lineares entre o log 36 natural da biomassa vs. o log natural tamanho do ramete para cada período amostral. Assim, foi possível estimar o incremento de biomassa das coortes. Nas amostras coletadas pelo método destrutivo, foi verificado também se os rametes de E. interstincta apresentavam algum tipo de dano na haste. Caso fosse observado algum tipo de dano na haste, este também era mensurado. Com isso, através das equações, foi possível avaliar o quanto da biomassa de E. interstincta era perdida para a cadeia de herbivoria. Produtividade primária aérea (PPA) de E. interstincta foi calculada com os dados obtidos pelas coortes. Em cada coorte foi acompanhada a biomassa máxima registrada para cada ramete, independente da época em que esta biomassa foi alcançada e multiplicada pela densidade inicial da coorte. Este procedimento possibilitou estimar o potencial máximo de incorporação de biomassa para cada ramete da coorte, eliminado os fatores dependentes da densidade que poderiam regular a incorporação de biomassa por ramete (competição) e por coorte (mortalidade e herbivoria). Para o cálculo da produtividade primária aérea anual (PPAA), somou-se a PPA de cada coorte. 2.3.1. ANÁLISE ESTATÍSTICA Para verificar se houve diferença na relação peso seco e o comprimento dos rametes ao longo do período amostral, as amostras foram comparadas pela análise 37 de covariância (ANCOVA). As médias das taxas de crescimento relativo (TCR) das coortes foram comparadas pela análise de variância (ANOVA) monofatorial, e a densidade dos rametes, pelo teste não paramétrico de Friedman, ao nível de significância de 5%. 38 2.4. RESULTADOS 2.4.1. O nível d’água O nível d’água da lagoa Jurubatiba variou sazonalmente ocorrendo, durante o período de estudo, dois períodos em que o espelho d’água deixou de cobrir o estande das macrófitas. A primeira alteração do nível d’água ocorreu naturalmente em setembro/97 (final do inverno - início de primavera), período em que a pluviosidade na região é menor. Nessa época, o nível da água foi baixando gradualmente até o espelho d’água deixar de cobrir o estande das macrófitas em outubro de 1997. A segunda alteração do nível d’água ocorreu em fevereiro de 1998 (no verão), época de maior pluviosidade, quando um aumento incomum dos índices pluviométricos da região foi registrado (398,8 mm). Como conseqüência, a barra de areia que separa a lagoa do mar foi aberta de maneira artificial. Antes da abertura artificial, o nível d’água no estande era de 1,35 m, o valor máximo registrado durante o período de estudo. O impacto antrópico da abertura artificial da barra fez com que o espelho d’água se retraísse deixando, novamente, de cobrir o estande. No entanto, essa retração não foi gradual, como ocorreu em setembro/97 mas sim, abrupta. Após um período de duas semanas, a barra de areia foi recomposta naturalmente e o nível d’água voltou a aumentar progressivamente. (Fig. 2). 39 2.4.2. Coortes Foram acompanhadas 20 coortes de E. interstincta durante o período de julho/97 a julho/98. No verão (dez/97), três coortes não foram acompanhadas devido a impossibilidade de marcação dos rametes, já que nesta época o nível da água no estande foi superior a 1 m. Foram encontradas diferenças significativas entre a relação peso seco e o comprimento dos rametes ao longo do período amostral (ANCOVA; p< 0,01). Desta forma, as estimativas de biomassa para os dados coletados nos quadrates não destrutivos não foram obtidas com uma única equação que integrasse todo o período amostral e sim, por equações discretas obtidas a cada coleta (Fig. 3). A média de altura das coortes variou de 23,8 a 97,2 cm, sendo que a coorte que apresentou menor altura foi a que se desenvolveu sob os menores valores de altura do nível da água (9 cm), o inverso aconteceu com a coorte que apresentou maior altura, que se desenvolveu sob uma média de nível da água de 76,5 cm (Fig. 4). A densidade dos rametes das coortes (tabela 1) variou de 85 a 240 indivíduos marcados/m2. A maior densidade registrada foi obtida na coorte subsequente à abertura de barra. A taxa de mortalidade das coortes (Fig. 5) expressa em porcentagem, variou de 0,64 a 1,22 indv./m2/dia. A coorte que apresentou a maior taxa de mortalidade 40 foi aquela marcada anteriormente a abertura de barra, já que este processo causa a mortalidade em massa de macrófitas aquáticas emersas (PALMA-SILVA, 1998). A taxa média de mortalidade das coortes foi de 0,85 indv./m2/dia. A longevidade das coortes (tabela 1) variou de 112 a 163 dias salvo aquelas coortes em que a sua longevidade foi comprometida pela abertura de barra. As coortes que apresentaram maior longevidade foram aquelas marcadas sob um nível de coluna d’água mais baixo, quando este baixou sem a interferência antrópica. Tabela 1: Densidade, longevidade, pico de biomassa e produção primária das coortes de E. interstincta. A abertura artificial da barra ocorreu no dia 16/02/98 e após a abertura, o nível da água no estande baixou abruptamente. Coortes data 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 02/07 18/07 04/08 16/08 29/08 21/09 03/10 16/10 31/10 17/11 04/12 17/12 13 14 15 16 17 18 19 20 04/03 18/03 29/03 16/04 25/04 12/05 09/06 04/07 Longevidade Pico de Biomassa Densidade 2 (dias) (g PS/m2) * (rametes/m ) 139 120 50,15 144 138 27,10 155 139 25,71 85 121 10,54 107 106 13,09 181 163 32,17 149 140 62,42 155 146 34,53 107 123 23,3 171 108 69,96 149 91 65,58 91 74 48,28 ABERTURA ARTIFICIAL DE BARRA 240 142 43,78 107 126 15,89 133 112 18,26 91 115 16,94 85 130 17,97 101 120 22,84 128 132 29,5 112 128 22,39 PPA (g PS/m2/d) * 1,41 1,38 1,17 0,77 0,71 0,63 1,84 1,36 1,08 1,28 1,83 1,75 1,40 0,54 1,13 0,80 1,26 0,77 0,90 0,71 * 41 As taxas de crescimento relativo (TCR) dos rametes das coortes, obtida pela fórmula: TCR = ((ln W2 - ln W1) / (T2 – T1)) (HUNT, 1982), foram sempre maiores nas primeiras 2 semanas de vida das coortes (Fig.6). O valor máximo de biomassa produzida pelas coortes variou de 10,54 g PS/m2 a 69,96 g PS/m2 (tabela 1). Estes valores de biomassa estão muito abaixo daqueles obtidos por SANTOS & ESTEVES (em prep.) com o método destrutivo, onde a biomassa de E. interstincta variou de 20,2 a 338,8 g PS/m2. Os valores de produtividade primária diária das coortes de E. interstincta também apresentaram grande variabilidade, com mínima de 0,54 e máxima de 1,84 g PS/m2/d (tabela 1). A figura 7 mostra a fração da biomassa de E. interstincta consumida por herbívoros. O único inseto observado predando os rametes desta macrófita aquática foi Stenacris megacephala Bruner, (1919) (ORTHOPTERA:ACRIDIDADE). Este inseto utilizou E. interstincta como recurso durante, praticamente, todo o período amostral, exceto na época em que a barra foi aberta. 42 2.5. DISCUSSÃO SANTOS & ESTEVES (comunicação verbal) demonstraram que o nível da água tem papel fundamental na regulação da altura e consequentemente na biomassa dos rametes de E. interstincta. Nesta pesquisa, foi encontrada uma correlação positiva entre a média da altura das coortes e a média do nível da água no estande (r= 0,91 p< 0,01) (Fig. 8). A variação sazonal do nível da água no estande levando a uma variação da altura e da biomassa dos rametes, explica a diferença encontrada na relação comprimento-biomassa dos rametes ao longo do período amostral. A variação temporal dos valores de biometria de macrófitas aquáticas muitas vezes é negligenciada no que diz respeito à relação comprimento-biomassa dos rametes, já que esta relação, na maioria das pesquisas, é obtida com apenas uma coleta ou com um grande intervalo entre as amostragens. HOPKINSON et al. (1980) sugeriu a necessidade de equações diferentes para a estimativa da biomassa de Spartina alterniflora para classes de comprimento menores que 75 cm maiores que 75cm. Depois da abertura de barra, o número de rametes que emergiram nos quadrados permanentes foi o maior registrado (p< 0,05). Este fato mostra a rápida recuperação do estande de E. interstincta, por reprodução vegetativa, após um distúrbio. A reprodução vegetativa é uma estratégia importante na manutenção de espécies de macrófitas aquáticas em ambientes extremamente variáveis, como é o 43 caso das lagoas costeiras. O mesmo fenômeno de uma grande produção de rametes por reprodução vegetativa, após um distúrbio, foi relatado por PALMA-SILVA (1998) estudando Typha domingensis na lagoa costeira Imboassica. A estimativa das taxas de crescimento de plantas obtidas através de coleta não destrutiva permitem um melhor tratamento estatístico (CAUSTON, 1991), sendo possível comparar resultados obtidos em diferentes situações. Houve diferença significativa entre as taxas de crescimento relativo das coortes ao longo do período amostral (ANOVA, p < 0,001). A taxa de crescimento relativo de E. interstincta parece não estar influenciada pela variação do nível da água no estande, já que foi encontrada diferença entre as taxas de crescimento, como nas coortes 6 e 17, quando o nível da água se encontrava praticamente na mesma altura (fig. 9). As diferenças nos valores de biomassa das coortes de E.interstincta (Fig. 6) mostram a grande variabilidade na resposta dessa espécie face às mudanças ambientais a qual ela está sujeita, principalmente nas alterações no nível da água. E. rostellata também apresentou diferença nos valores de biomassa entre três diferentes locais de coleta no mesmo pântano, indicando grande abilidade adaptativa (SEISCHAB et al., 1985). Apesar das diferenças metodológicas na obtenção dos dados, a biomassa das coortes de E.interstincta apresentou valores relativamente baixos quando se 44 compara com outras espécies de macrófitas aquáticas emersas, mesmo até com espécies do mesmo gênero (tabela 2). 45 Tabela 2: Biomassa média anual e pico de biomassa de algumas espécies de macrófitas aquáticas emersas. E. interstincta foi a espécie que apresentou os menores valores. Espécies Biomassa média Anual (g PS/m2) Pico de biomassa (g PS/m2) Spartina patens1 900 1376 Juncus roemerianus1 827 1240 S. alterniflora1 469 754 S. cynosuroides1 394 808 S. alterniflora3 581 1018 S. alterniflora4 X 733 S. cynosuroides4 X 1234 Typha orientalis5 X 3500 Baumea articulata5 X 4000 Eleocharis Quadrangulata2 X 881 E. acicularis8 X 1060 E. rostellata 9 X 395 E. mutata 6 X 1515 E. mutata (E. cf. fistulosa)7 860 X E. interstinca ‡ 138 339 E. interstinca * 33 70 1 - HOPKINSON et allii 1980; 2 - BOYD & VICKERS 1971; 3 - KIRBY & GOSSELINK, 1976; 4 SCHUBAUER & HOPKINSON 1984; 5 – FROEND & McCOMB 1994; 6 - FURTADO 1994; 7 - PALMA-SILVA et allii 8 - REJMANEK & VELASQUES 1978; - SEISCHAB et allii.1985. ‡ - coleta destrutiva. * - quadrados permanentes. A PPA de E. interstincta apresentou valor próximo ao relatado por CARMO & LACERDA (1984), que encontraram um valor de produtividade primária de 1,7 g PS/m2/d para a parte aérea de E. subarticulata. Porém, PALMA-SILVA et al. (1998) relatou que a produtividade primária de E. mutata pode alcançar até 18,9 g 46 PS/m2/d, valor similar ao encontrado por BOYD & VICKERS (1971) para E. quadrangulata (18,5 g PS/m2/d), uma taxa bastante elevada. Apesar da TCR não estar influenciada pelo nível d’água foi encontrado, nesta pesquisa, uma correlação significativa (p < 0,05) entre a PPA e a média do nível d’água (Fig. 10). Este fato comprova a hipótese de que a PPA de E. interstincta é regulada pelo nível d’água. A TCR mostra a eficiência da planta na produção de matéria orgânica e E. interstincta, foi mais eficiente nas duas primeiras semanas de vida. Porém, a TCR não é um bom parâmetro para avaliar a resposta da planta face as mudanças ambientais. Como os rametes precisam ficar acima do nível d’água para a obtenção de recursos, principalmente luz, toda vez que ocorre um rápido aumento do nível d’água a planta precisa investir energia em crescimento para ficar acima do nível, e este investimento em energia, não ocorre necessariamente nas duas primeiras semanas de vida. As macrófitas aquáticas não são intensivamente predadas por herbívoros (PENFOUND, 1956). S. megacephala foi o único animal observado que preda os rametes de E. interstincta e a pressão de predação por ele exercida (4,31% da biomassa anual), não compromete muito a sobrevivência dos rametes, pois ele se alimenta apenas da parte apical dos mesmos. Porém, ESTEVES (1998) salienta a importância das macrófitas aquáticas submersas e com folhas flutuantes em regiões temperadas na cadeia de herbivoria, já que até 10% de sua biomassa pode ser consumida. COUTINHO (1989) verificou que as folhas de Eichhornia azurea 47 também eram utilizadas por insetos como fonte de alimento, principalmente por imenópteros e ortópteros, chegando a utilizar 15% das folhas dessa macrófita aquática. Com os dados obtidos nesta pesquisa foi possível calcular a produtividade primária aérea líquida anual (PPALA) de E. interstincta (tabela 3). Os métodos tradicionais utilizados para estimar a produtividade primária em plantas aquáticas não são sensíveis em detectar as perdas de biomassa, decorrentes da mortalidade dos rametes e da cadeia de herbivoria. No caso de E. interstincta as perdas foram de 16,59 % da biomassa anual. Tabela 3: Produtividade primária aérea anual (PPAA - média das taxas de natalidade), produtividade primária aérea líquida anual (PPALA) de E. interstincta, perdas pela mortalidade dos rametes e pela herbivoria. PPAA Mortalidade Herbivoria 2 2 (g PS/m /ano) (g PS/m /ano) (g PS/m2/ano) 1012,87 149,86 18,13 PPALA (g PS/m2/ano) 844,88 48 2.6. CONCLUSÃO A variação sazonal do nível d’água na lagoa Jurubatiba está de acordo com PANOSSO et al. (1998), afirmando que as lagoas costeiras são caracterizadas por serem ambientes altamente vulneráveis às oscilações dos fatores climáticos. Um dado que corrobora esta afirmação foi que, no verão (fevereiro/98), época de maior precipitação (FIDERJ, 1977), a pluviosidade na região alcançou 398 mm, justamente quando a barra da lagoa foi aberta devido ao elevado nível da água. As diferenças encontradas entre a relação peso seco e o comprimento dos rametes de E. interstincta ao longo do período amostral, mostram a grande abilidade adaptativa das macrófitas aquáticas na ocupação desses ecossistemas. O mesmo foi relatado para E. rostellata (SEISCHAB et al.). A rápida produção de rametes (reprodução vegetativa) que ocorre após um distúrbio (abertura de barra), também é um exemplo da adaptação dessa espécie. O sucesso de Eleocharis interstincta parece estar, principalmente, na eficiência dos mecanismos que regulam o comprimento dos rametes, já que estes precisam se manter acima do nível da água para obter recursos necessários à sua sobrevivência, principalmente luz. Os resultados desta pesquisa permitem concluir que o papel funcional de E. interstincta, em relação a entrada e transferência de energia no sistema, se faz em maior importância através da cadeia de detritos, visto que apenas 4,31% da biomassa aérea anual é consumida por herbívoros. 49 2.7. CONCLUSÃO FINAL A variação sazonal do nível d’água na lagoa Jurubatiba, está de acordo com PANOSSO et al. (1998), afirmando que as lagoas costeiras são caracterizadas por serem ambientes altamente vulneráveis às oscilações dos fatores climáticos. Sendo assim, as espécies que ocupam este peculiar ecossistema, principalmente as sésseis, como é o caso da maioria das angiospermas aquáticas, precisam exibir um nível de plasticidade que possibilite sua existência. O sucesso de Eleocharis interstincta parece estar, principalmente, na eficiência dos mecanismos que regulam o comprimento dos rametes, já que estes precisam se manter acima do nível da água para obter recursos necessários à sua sobrevivência, principalmente luz. A redução do espaço entre os aerênquimas conferindo maior sustentação a planta, quando seu habitat exibe características terrestres, também é uma importante adaptação dessa macrófita aquática. O padrão de variação encontrado para comprimento e biomassa aérea dos rametes de E. interstincta durante esta pesquisa, mostra o importante papel do nível da água, na regulação destes parâmetros. A hipótese de que o comprimento, a biomassa aérea e a PPA dos rametes de E. interstincta são regulados pelo nível d’água da lagoa, foi comprovada, já que estes parâmetros foram correlacionados com o nível da água na lagoa Jurubatiba. 50 A diferença entre biomassa aérea e densidade encontrada nos trabalhos, se deve, principalmente, a metodologia amostral. Na coleta não destrutiva (quadrados permanentes) é amostrado apenas os rametes de uma dada faixa etária, enquanto que na coleta destrutiva, há uma sobreposição de gerações. A abertura artificial da barra resultou num distúrbio para a população de E. interstincta na lagoa, já que após a abertura, biomassa aérea, densidade e peso específico do rametes, registraram os menores valores. Porém, E. interstincta está bem adaptada à este ecossistema pois há uma rápida produção de rametes (reprodução vegetativa) e o tempo de resiliência estimado foi de 30 dias, tempo necessário para a recuperação dos parâmetros biométricos citados Os resultados desta pesquisa permitem concluir que o papel funcional de E. interstincta, em relação a entrada de energia no sistema, se faz em maior importância através da cadeia de detritos, visto que apenas 4,31% da biomassa aérea anual é consumida por herbívoros. 51 2.8. BIBLIOGRAFIA ALBERTONI, E.F.; PALMA-SILVA, C. & ESTEVES, F. A. (submetido). Larvae and post-larvae of Penaeidae and Palaemonidae in coastal lagoons of the north of Rio de Janeiro (Macaé, RJ). Rev. Bras. Biol. BOYD, C. E. & VICKERS, D. H., (1971). Relationships between production, nutrient accumulation, and chlorophyll synthesis in an Eleocharis quadrangulata population. Can. J. Bot., 49: 883-888. CARMO, M. A. M. & LACERDA, L. D. (1984). 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The arrow indicates the sample area. 56 160 Aberturaartificial da Sandbar barra opening W ater level (cm) Nível d'água Water level (cm (cm)) 120 80 40 0 05/06 04/08 winter 21/09 31/10 17/12 spring 08/02 summer 29/03 12/05 fall D ate samples Figure 2: Water level variation in the Jurubatiba lagoon between june/97 to june/98. The arrow indicates the sandbar artificial opening (16/02/98). 57 450 Sandbar artificial 2) Biomass DW/m Biom as s (g a (g P S/m 2) 400 opening Altura (c m ) (cm) Shoot height 350 300 250 200 150 100 50 0 05/06 04/08 21/09 31/10 17/12 08/02 29/03 12/05 S am p le d ate Figure 3: Relation between aereal biomass and shoot height of E. interstincta in Jurubatiba lagoon along sample period. The bar erro indicates standard deviation. 58 180 Média do water nível da água Average level (cm) 160 Sandbar artificial opening Altura média da coorte Average cohorts height (cm) 140 H eight 120 100 80 60 40 20 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 Cohorts Figure 4: Average water level and average cohorts height of E. interstincta. The bar erro indicates standard deviation. 59 150 y = -0,922x + 124,25 2 R = 0,8379 100 R2 = 0.9378 50 100 150 y = -0.9357x + 112.22 150 R2 = 0.9444 100 50 100 150 R2 = 0.684 50 100 150 200 y = -0.7967x + 115.84 150 R2 = 0.9278 100 0 50 100 150 R2 = 0.9785 50 150 100 150 200 y = -0.7814x + 117.19 2 R = 0.7571 100 8 0 50 150 100 150 50 100 150 200 150 y = -0.7923x + 110.06 100 R2 = 0.9484 50 R2 = 0.7964 50 150 100 150 0 50 100 150 y = -0.9194x + 113.72 R2 = 0.9563 100 R2 = 0.9585 50 150 100 150 50 150 200 y = -0.7322x + 118.55 R2 = 0.8533 100 100 150 R2 = 0.9235 12 50 100 150 200 y = -0.9331x + 110.64 150 R2 = 0.9478 15 0 50 100 150 200 y = -0.7591x + 117.71 150 R2 = 0.7564 100 17 18 50 0 0 50 100 150 200 0 50 100 150 200 y = -0.6373x + 117.02 150 R2 = 0.6164 20 50 0 200 R2 = 0.7649 0 200 y = -0.774x + 112.97 100 19 50 150 y = -1.2186x + 117.33 150 50 0 0 100 0 0 50 0 50 100 14 100 16 50 9 0 200 y = -0.8996x + 108.29 150 200 200 R2 = 0.9296 50 0 0 150 0 50 0 100 y = -0.9596x + 117.52 100 11 100 13 50 150 200 0 0 0 50 y = -1.0306x + 119.51 50 0 6 0 100 10 50 200 R2 = 0.9062 100 0 0 150 y = -0.7776x + 121.55 150 200 y = -0.7365x + 104.93 150 50 0 100 0 100 7 50 50 50 0 0 0 100 5 50 0 200 y = -0.9104x + 123.65 150 100 4 50 3 0 0 200 R2 = 0.7007 50 0 0 y = -0.7207x + 123.92 150 100 2 50 0 No. De rametes marcados (%) y = -0.7962x + 116.87 100 1 50 150 0 0 50 100 150 200 0 50 100 150 200 DIAS Figura 5: Taxa de mortalidade das coortes de E. interstincta (% da densidade inicial) p < 0,05. Os números nos gráficos representam as coortes. 60 80 0.45 1 60 0.35 0.25 40 40 20 0.05 20 0 -0.05 0 50 100 150 80 4 60 80 0.35 60 40 0.15 0.05 20 0 -0.05 0 0 50 100 150 0.45 7 60 0.35 0.25 40 0.15 20 0.05 0 -0.05 0 50 100 80 60 0.35 0.25 40 0.15 13 60 80 60 40 0.15 0.05 20 0 -0.05 0 0 50 100 150 80 0.45 16 60 0.35 0.35 0.25 0.15 0.05 -0.05 50 100 100 60 40 0.15 20 0.05 20 0 -0.05 0 100 150 80 0.45 19 60 0.35 0.05 -0.05 0 50 100 150 80 0.05 -0.05 50 100 150 0.45 12 0.35 0.25 0.15 0.05 -0.05 50 100 150 0.45 15 0.35 0.25 40 0.15 20 0.05 0 -0.05 50 100 80 150 18 0.45 0.35 60 0.25 40 0.15 20 0.05 0 -0.05 0 50 100 150 0.45 20 60 0.35 0.25 40 0.15 0 40 50 0.25 0.25 0.15 0 0.35 0 60 0.35 0.25 0.45 9 20 80 0.45 150 40 150 17 100 0 0.35 -0.05 80 -0.05 50 20 0.45 0.05 100 0.05 0 0.15 50 0.15 40 60 0.25 0 0.25 60 150 14 0.35 80 80 -0.05 50 0.45 0 0.35 0.05 150 20 0.45 0.15 100 6 0 0.25 50 40 150 11 -0.05 0 0.45 40 20 60 150 8 0 0.35 0.25 100 40 0.45 80 -0.05 50 0.05 0 0.35 0.05 60 150 0.15 20 0.45 0.15 80 0 0.25 0 0.25 0 -0.05 80 5 20 0 0.35 40 150 40 20 100 100 60 0.05 50 50 80 20 0 -0.05 0 0.45 10 0.05 0 150 60 0.45 3 Taxa de Crescimento Relativo (g/g/d) 80 80 0.35 0.15 40 20 0.45 0.25 0 0.45 0.25 2 60 0.15 0 BIOMASSA (g PS/m2) 80 0.25 40 0.15 20 0.05 0 -0.05 0 50 100 150 0.15 20 0.05 0 -0.05 0 50 100 150 DIAS Figura 6: Biomassa (linha contínua) e Taxa Relativa de Crescimento (TRC - linha pontilhada) das coortes de E. interstincta . Eixo X: dias; eixo Y esquerdo: biomassa; eixo Y direito: TRC 61 6 160 aberturaartificial da Sandbar barra gBiomass P S /m 2 (g DW/m2) 5 opening nível Waterd'água level (cm) 140 120 B iomass 100 3 80 60 2 W ater level 4 40 1 20 0 0 02/07 16/08 03/10 17/11 07/01 04/03 16/04 09/06 S ample date Figure 7: Aereal biomass of E. interstincta used by Stenacris megacephala. 62 Average cohorts height (cm) 120 100 80 R 2 = 0,8208; p < 0,05 60 40 20 0 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Average w ater level (cm) Figure 8: Correlation between average cohorts height of E. interstincta and the average water level during cohorts life time. 63 Média do water nível da água Average level (cm) 100 opening TRC RGR (g/g/d) 90 Sandbar artificial 0,4 80 0,35 70 0,3 60 0,25 50 0,2 R GR Water level 0,45 40 0,15 30 20 0,1 10 0,05 0 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 C ohorts Figure 9: Average water level and Relative Growth Rate (RGR) of E. interstincta cohorts. The bar erro indicates standard deviation. 64 2 AP P (g P S /m2/d) 1,6 1,2 R 2 = 0,2924 p< 0,05 0,8 0,4 0 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Average w ater level (cm) Figure 10: Correlation between average water level and cohorts aereal primary productivity of E. interstincta. 65