CÂMARA DOS DEPUTADOS DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL COMISSÃO ESPECIAL - PEC 098-A/07 - FONOGRAMAS / VIDEOFONOGRAMAS MUSICAIS EVENTO: Audiência Pública N°: 0196/08 DATA: 25/03/2008 INÍCIO: 14h52min TÉRMINO: 16h32min DURAÇÃO: 01h40min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 01h40min PÁGINAS: 36 QUARTOS: 20 DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO CARLOS DE ANDRADE – Diretor da Associação Brasileira da Música Independente. SANDRA DE SÁ – Cantora. MARCOS JUCÁ – Presidente da Associação Brasileira de Editores Reunidos. SUMÁRIO: Debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição nº 98-A, de 2007, que acrescenta a alínea “e” ao inciso IV do art. 150 da Constituição Federal, instituindo imunidade tributária sobre os fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil, contendo obras musicais ou lítero-musicais de autores brasileiros e ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros, bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham. OBSERVAÇÕES Houve intervenções fora do microfone. Inaudíveis. Há oradores não identificados. CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Com número regimental, declaro aberta a 3ª reunião da Comissão Especial destinada a proferir parecer à Proposta de Emenda à Constituição nº 98-A, de 2007, de autoria do Ilmo. Sr. Deputado Otavio Leite, que acrescenta a alínea “e” ao inciso IV do art. 150 da Constituição Federal, instituindo imunidade tributária sobre os fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil, contendo obras musicais ou líteromusicais de autores brasileiros e ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros, bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham. Encontram-se à disposição dos Srs. Deputados cópia da ata da 2ª reunião. Eu indago aos Srs. Deputados se há necessidade da leitura da referida ata. (Pausa.) Não havendo discordância com relação à proposta do ilustre Deputado Otavio Leite, fica dispensada a leitura da ata. Em discussão. (Pausa.) Não havendo quem queira discuti-la, em votação. Os Deputados que a aprovam permaneçam como se encontram. (Pausa.) Aprovada. Expediente. Correspondências recebidas. Informo que foram recebidos os seguintes expedientes: do chefe da Consultoria Legislativa, informando a substituição do Consultor Legislativo Gilsomar Silva Barbalho pelo Consultor Luís Fernando Botelho para prestar assessoramento técnico-legislativo especializado aos trabalhos desta Comissão Especial, e do Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Discos solicitando, em razão de cirurgia sofrida, o adiamento de sua participação na presente audiência pública. Ordem do Dia. Para nosso prazer já se encontram conosco na mesa a nossa querida Sandra de Sá, a nossa cantora — comunicamos a ausência do Raimundo Fagner, músico que por razões de foro pessoal não pôde estar nessa reunião; do querido Marcos Jucá, Presidente da Associação Brasileira de Editores Reunidos; de Carlos de Andrade, Diretor da Associação Brasileira da Música Independente e, obviamente, do nosso querido Relator, o brilhante Deputado José Otávio Germano, do Rio Grande do Sul. 1 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 A pauta de hoje prevê a realização desta audiência pública com os convidados que se encontram à mesa. Antes de conceder a palavra ao primeiro expositor, esclareço os procedimentos a serem observados durante a audiência de hoje. O expositor disporá de até 20 minutos. Finda a apresentação, será concedida a palavra aos Srs. Deputados, respeitada a ordem de inscrição para, no prazo de até 3 minutos cada um, formularem suas considerações, os pedidos de esclarecimento, dispondo o expositor de igual tempo para resposta. Serão facultadas as réplicas e as tréplicas pelo mesmo prazo de 3 minutos. A lista de inscrição para debate encontrase à disposição dos Srs. Deputados aqui na mesa de apoio. É evidente que nós não vamos seguir essa formalidade. Vamos procurar fazer uma audiência bastante informal, mas que ela possa, por meio dos nossos convidados, produzir um bom debate, que é a pretensão desta Comissão. Nós acertamos uma ordem de exposição, na qual o Carlos de Andrade abriria os trabalhos e, em seguida, falaria a Sandra de Sá, embora eu ache que ela deveria ficar por último para, no final, dar uma palhinha para nós. (Risos.) Mas como ela preferiu ser a segunda a usar da palavra, quem encerrará os trabalhos será Marcos Jucá, Presidente da Associação Brasileira de Editores. Então, passo a palavra ao Sr. Carlos de Andrade, Diretor da Associação Brasileira da Música Independente. V.Sa. dispõe de até 20 minutos. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Muito obrigado pelo convite. Meu nome é Carlos de Andrade, sou ex-Presidente da Associação Brasileira de Música Independente e atual diretor dessa associação. Faço ainda parte de uma quantidade de outros organismos e instituições que trabalham verticalizadas no segmento da música, tais como: a Associação de Engenheiros de Som, da qual faço parte há muito tempo; o American National Academy of Recording Arts & Sciences, que promove o Grammy americano, e o Latin Academy of Recording Arts & Sciences, que faz o Grammy Latino. Então, a minha vida como profissional tem sido dedicada a esse segmento, que talvez seja um dos mais importantes para a identidade e a diversidade brasileira. Em pesquisa recente feita pela OGILVY... Recente até um certo ponto, ela é do primeiro trimestre de 2006, uma pesquisa muito interessante. Vocês devem se lembrar que em 2006 tínhamos o time dos sonhos, que estava indo para a Copa do 2 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Mundo. Nós achávamos que íamos ser pentacampeões no primeiro jogo e foi aquele fiasco. Mas, no primeiro trimestre, todo mundo acreditava que seríamos pentacampeões. E a OGILVY fez uma pesquisa para avaliar qual era o maior motivo de orgulho do brasileiro: 62% dos entrevistados disseram música e 45%, futebol. Vejam: o Brasil é o país do futebol ou da música? Eu acho que o próprio povo elegeu a sua identidade nesta hora. Além disso, no Governo Fernando Henrique, pediu-se ao SEBRAE, na intenção de agregar valor e percepção de qualidade aos produtos brasileiros, que desenvolvesse uma pesquisa internacional para saber do estrangeiro o que ele definia como qualidade no Brasil. O relatório final, que está disponível no SEBRAE, foi feito por um grande pesquisador italiano, chamado Domenico De Mazzi, pesquisador para macroeconomias e tudo o mais, um homem de marketing que faz justamente pesquisas de identidade na Europa. O estrangeiro, mais especificamente o europeu, em geral italianos, franceses, alemães e todos esses que também vetam a nossa entrada em seus países, vê a qualidade do povo brasileiro arraigada à música brasileira. Ou seja, a música, mais uma vez, define a identidade do nosso povo e eleva a nossa qualidade como Nação. A recomendação é a seguinte: se você quiser vender produto de qualidade lá fora, atrele seu marketing à música, use a música brasileira, porque a percepção do estrangeiro é de que a música brasileira agrega qualidade aos nossos produtos. Dito isso, eu acho que todos vocês têm acompanhado pela imprensa uma derrocada gigante desse nosso setor por conta de uma prática infame, que é a pirataria, e das novas tecnologias da era digital, que transmutaram o perfil da nossa indústria — indústria essa que, até então, tem sido a única indústria auto-sustentável do País na área de cultura. Se vocês olharem bem, verão que aplaudimos de pé, o tempo todo, o nosso cinema brasileiro. Pois o carnaval fatura, em 3 dias de espetáculo, mais do que o cinema em um ano. Ele gera mais divisas para o País em 3 dias do que toda a indústria cinematográfica nacional durante um ano, sendo que o carnaval não é subsidiado, o cinema é. O carnaval é basicamente música, é uma festa musical; é uma manifestação que tem a sua raiz na música brasileira. Não obstante, de novo, nós estamos vendo essa indústria fonográfica indo para as cucuias, dia após dia. 3 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Nós hoje estávamos fazendo uma avaliação parca a respeito da nossa indústria. Em 1998, essa indústria gerava 1 bilhão de dólares, entre apenas as empresas aferidas, as empresas multinacionais. Hoje, essas mesmas empresas avaliam o seu faturamento em 150 milhões de dólares, sendo que em 1998 o câmbio era bastante diferente, um pouco mais alto que o câmbio de hoje. Então, os senhores hão de convir que o decréscimo foi de mais de 80%. Qual é o resultado disso tudo? É o crescimento enorme da pirataria, quer dizer, nós estamos vendo aí a pirataria cada vez mais.... Pessoas de baixa renda comprarem produto pirata não é aceitável, mas é tolerável até certo ponto — vamos levar em consideração os diversos desequilíbrios sociais que existem em nosso País — mas a classe média e as classes mais privilegiadas comprarem esse produto é uma total derrocada da civilidade. Nós estamos perdendo essa guerra para o pirata. O pirata não é aquele cara bacaninha, que rouba dos ricos para dar para os pobres, não. Em 1999, quando eu assumi a ABPD — Associação Brasileira dos Produtores de Discos —, nós estouramos 2 fábricas clandestinas em Ciudad del Este, e uma das fábricas pertencia ao camarada que tinha explodido a embaixada de Israel em 1992, na Argentina. Ou seja, era a pirataria fonográfica financiando o terrorismo internacional. Então, esses dados são muito contundentes. Nós precisamos urgentemente de mecanismos que nos permitam combater, e fazer com que essa indústria tão bonita, e que mora no coração e no orgulho de todos nós, possa subsistir pelas próximas décadas. É intenção dos governos brasileiros começar a desenvolver um princípio de exportação da propriedade intelectual. O que é propriedade intelectual? A propriedade intelectual se diz diretamente ligada às indústrias criativas. E essas indústrias criativas não são apenas as indústrias de música, cinema, teatro, dança; não é só isso. A patente, a invenção é uma indústria criativa porque, se os senhores notarem bem, o mundo tem o seguinte perfil: os países de Terceiro Mundo vivem do que plantam. São países agrícolas, agropecuários. Os países mais evoluídos vivem do que produzem. São países industrializados que processam aquilo que plantam para revender uma matéria já beneficiada. Agora, os países de Primeiro Mundo vivem do que pensam: a indústria farmacêutica, com suas patentes; a indústria 4 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 aeroespacial, com suas patentes; a indústria eletroeletrônica, com suas patentes. Agora, notem que música e cinema perfazem 8% do PIB mundial. Então, essa indústria criativa... Se os senhores forem olhar, Hollywood, as grandes gravadoras, todas, trouxeram uma noção de unidade mundial. Através de quê? De cinema e música. Nós vemos a nossa vida através da música. Todos nós temos alguma coisa na nossa vida, alguma trilha sonora que nos lembra momentos bons, momentos maus da nossa vida e tudo o mais. Então, a música está presente em tudo, de fato. Essa nossa indústria precisa, neste momento, de uma injeção terminal para que ela possa subsistir para que ela possa sobreviver. Ela está indo para o espaço, ela está-se acabando, as gravadoras estão morrendo. Um bom reflexo, talvez, até dessa diminuição não diria do monopólio, mas da grande presença das grandes gravadoras do Brasil, é justamente o resultado que trouxe a minha associação à tona, que foi o crescimento da indústria de música independente. Uma quantidade de artistas que anteriormente tinham contratos com grandes gravadoras hoje têm que criar suas próprias empresas para poderem subsistir, para poderem gravar, não? Está aqui uma artista que é uma das mais conhecidas do País, que sempre foi ponta de lança de multinacional. Todas as grandes gravadoras investiram muito em seu repertório, em sua imagem pública, no seu talento e tiveram muito resultado com ela, o tempo todo. Hoje, esses artistas estão buscando seus próprios caminhos em face de uma indústria fragmentada, não é? Então é muito importante, que nós possamos... E essa PEC vem trazer não um sopro de ar, mas uma respiração boca a boca em nossa indústria para que ela possa renascer, reviver e voltar ao brilhantismo que nós sempre vimos aí em rádio, televisão, cinema e tudo o mais. Pois a música está em tudo. Nem tudo está na música, mas a música está em qualquer lugar. Obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Com a palavra a Sra. Sandra de Sá. A SRA. SANDRA DE SÁ - Boa-tarde. Indo diretamente ao assunto, a gente veio aqui para isso, e, pegando o gancho, como Sr. Carlos de Andrade acabou de falar agora que a música está em tudo e sobre o que ele falou sobre subsídios do cinema, e o teatro também tem muito, eu acho o seguinte: o que seria do cinema e 5 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 do teatro sem a música? Acho que é só os senhores imaginarem suas vidas sem música. Nós, de certa forma, sustentamos isso tudo e não temos subsídio nenhum; nós não temos apoio nenhum. A nossa cultura, digamos assim, musical está sendo deteriorada nisso tudo. Agora, como eu estava conversando com as pessoas, não pensando somente na indústria fonográfica ou na vida do artista, sendo povo e sendo, digamos assim, uma compradora, uma consumidora também da música, antigamente, nós tínhamos lojas de discos. Nós poderíamos, digamos, de uma certa forma, pechinchar, porque era uma loja do lado da outra. Então, havia essa competição entre as lojas que era uma coisa muito sadia. Mas, hoje em dia, não tem mais loja de discos. Então, estou falando aqui em desemprego, não é? Porque existia, dentro de uma loja de disco, o dono da loja, o balconista, o faxineiro, o sujeito que faz a ponte e que vende, que vai à loja vender os discos. Isso não está acabando; acabou, acabou. Então, eu estou aqui falando não só do meu lado, não só como artista, mas como consumidora brasileira. Isto está se perdendo. E até falar-se na pirataria, acho que isso é estímulo à pirataria. Essa pirataria, também, leva o povo de baixa renda a comprar esse tipo de produto pirata. O coitado já não tem como ouvir, e esse produto, geralmente de baixa qualidade, acaba estragando inclusive o que ele tem. Ele usa um CD pirata que acaba estragando o seu aparelho. Então, ele não tem disco, não tem música, não tem nada. Quando alguém está aborrecido, ouve música; quando alguém está feliz ouve, música. É só, como o Carlão falou, pensar que em tudo a música está presente, e isso está acabando. A nossa música vai acabar, porque não temos mais como fazer música. Como as gravadoras estão acabando, nós estamos procurando esses meios independentes. Mas até quando, também, esses meios independentes vão se sustentar? Até quando? Se as grandes gravadoras, os grandes meios estão acabando. Temos que pensar nisso: até quando? Então, o que vai acontecer? Vai todo mundo sair do País, porque inclusive lá fora somos reconhecidos, temos estímulo, ajuda, e aqui isso não acontece. Eu acho que as pessoas têm que colocar isso na cabeça, têm que pensar mais nisso, e vamos nos ajudar. 6 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Quando falo nos ajudar, eu bato muito nisto: nas lojas de discos, em quem trabalha numa loja de discos, porque não é só pensar que vai melhorar para o artista, vai melhorar para a gravadora. Não! É pensar no emprego do povo brasileiro. Vamos pensar no povo brasileiro e na diversão mesmo também, porque acho que nós precisamos disso. Eu acho que a música é inclusive um meio para amenizar — não acabar, mas para amenizar — inclusive a música de qualidade, porque há muita música, muita coisa rolando por aí também que é um estímulo à violência. E isso aí, para quem tem grana para financiar, acontece. Mas uma música de qualidade que pode amenizar isso tudo, está total e completamente desestimulada, e nós precisamos desse estímulo. Precisamos viver, salvar o Brasil. Eu não estou sendo extremista nem dramática não. Se vocês pensarem bem, vão ver que é isso. Olhar para o Brasil é muito isso. Eu acho que a gente depende muito disso. Então, se nós tivermos essa isenção desses impostos na música, vamos poder fazer música de qualidade, vender música de qualidade e fazer do Brasil o que ele merece: ter um povo feliz. E reconhecer a música que nós temos, que só é reconhecida fora daqui. Eu tenho um orgulho imenso de trabalhar; nem de trabalhar, mas de conviver, de ser uma musicista, de trabalhar com a música do meu País; mas tenho uma vergonha muito grande de como a nossa música é tratada. Como eu falei, não estou sendo extremista, nem dramática. Basta pensar e ver o que acontece com a gente. Acredito que todos vocês — acredito não, tenho certeza —, que todo mundo aqui gosta de música, consome música. Então, prestem atenção na música que vocês estão consumindo e como vocês estão consumindo. A gente tem é que se unir. Nós temos que nos unir mesmo, estar juntos. Não adianta pensar: mas aqui vai esbarrar aqui, vai mexer daqui, mexer no bolso aqui, mexer no bolso ali. Eu acho que é hora de a gente começar a ser brasileiro e a pensar no nosso País. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Agradecemos à nossa querida Sandra de Sá. Antes de passar a palavra ao Sr. Marcos Jucá, nosso Presidente da Associação Brasileira de Editores, eu retorno, a pedido, com o Carlos de Andrade, para que ele possa fazer uma complementação. 7 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Eu já tenho aqui a inscrição de alguns colegas Deputados, mas sugiro que, ao final das exposições dos nossos ilustres convidados, se dê a palavra aos Srs. Deputados. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Só a título de informação, complementando o que a Sandra falou, dando alguns dados concretos, a nossa indústria empregava, em 1998, 66 mil pessoas, direta e indiretamente. Hoje, ela emprega menos que 15 mil. Não que elas tenham deixado a música, mas foram para o lado informal da música, o que é pior, porque esse é o imposto que mais dói na Nação, é o tributo social, que nós temos visto se esvair pela informalidade. A recuperação dessa indústria diz respeito à reestruturação dessa base e ao retorno dessas pessoas a uma quantidade de posições legais. Segundo, a Sandra falou a respeito do desaparecimento das lojas de discos. Nós, que somos a arte principal deste País, incontestavelmente a arte principal deste País, hoje somos coadjuvantes em bancas de jornal e livrarias para pagarmos menos ou não pagarmos impostos. Ora, francamente! Quantos, neste País, lêem? Com certeza, todos nós ouvimos música num momento ou noutro. A música tem uma comunicabilidade, uma expressividade cultural infinitamente mais representativa do que a literatura. Hoje, somos coadjuvantes dessa arte tão importante para o nosso País, mas que, inquestionavelmente, se ofusca perante a grandeza de arte maior: a música. Como dizia Sófocles, toda a arte aspira ser música. A música é a arte das artes. Eram essas as duas complementações que pretendia fazer aos dados apresentados pela Sra. Sandra. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Tem a palavra o Sr. Marcos Jucá. O SR. MARCOS JUCÁ - Antes de iniciar a palestra, gostaria de explicar o que é a ABER. A Associação Brasileira de Editoras Reunidas — ABER — é uma associação que congrega 32 editoras musicais brasileiras e multinacionais. Essas editoras representam algo em torno de 50 mil autores brasileiros desde 1940, desde Donga até a nossa música contemporânea. 8 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Umas das faces mais cruéis da situação que estamos vivendo afeta diretamente os compositores musicais. Os compositores musicais basicamente tiveram a venda de suportes como CDs e DVDs como fonte de renda. Essa fonte de renda está naturalmente sumindo. Para que todos tenham idéia, um DVD que contenha 26 faixas tem em torno de 60 compositores, pessoas que precisam vender seu produto. Um CD, em média, quando falamos de um artista que não seja compositor, mas um artista que grave músicas de outros compositores, tem em torno de 20 compositores. Hoje, há uma situação muito difícil que afeta o universos dos compositores musicais brasileiros. Eles passam muitas dificuldades. Paralelamente a isso, há o problema da digitalização da música, que também nos afeta diretamente. Criar os mecanismos que nos permitam arrecadar e controlar esse uso é um problema paralelo ao da pirataria. A pirataria para nós foi terrível, por que ela corta o que sempre foi a grande fonte de receita do compositor brasileiro, da mesma forma como a pirataria está afetando toda a cadeia produtiva da música e o universo das composições. O compositor, uma vez que tem sua obra gravada, obtém dinheiro gerado por meio da venda do suporte e por meio da execução pública, qual seja, o uso dessa música numa novela, na publicidade. Ou seja, toda uma cadeia de utilização do conteúdo que ele cria, simplesmente se deixa de viabilizar. Estou neste negócio cerca de 15 anos. Comentávamos o assunto, inclusive, no carro, quando vinha para cá. Tinha de 10 a 15 artistas que solicitavam músicas aos nossos compositores por mês. Hoje, são 2 ou 3 solicitantes. Todo um universo de autores, inclusive antigos, que eram regravados e não mais o são, hoje passam necessidade com isso. Comentava algo com o Carlão. Falávamos que emenda constitucional que vise dar imunidade tributária é algo muito difícil, hoje. Se esperarmos mais um pouco, ficaremos sem nenhuma receita tributária e sem nenhuma música. Por isso, é muito importante frisar esse aspecto. Houve uma queda de 85% em 10 anos. Isso significa praticamente a extinção do nosso negócio. Se continuar como está, o nosso negócio vai acabar. Repito: o nosso negócio vai acabar. Além disso, os 13 mil compositores que ainda trabalham, 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 os mil autores que ainda compõem músicas, vão ficar desempregados e não vamos ter receita de fonte alguma, porque não há vai mais haver negócios. A situação é muito grave e afeta todos. Trabalho com vários compositores. Tenho uma editora, uma editora brasileira. Represento Paulinho da Viola, Marcelo D2, Alceu Valença, Marcelo Camelo. Represento vários artistas que estão muito preocupados, e não só os artistas independentes que estão começando, em como se vai viabilizar essa história. Vamos também matar os novos artistas e os novos compositores, que não vão ter possibilidade de apresentar suas músicas e serem conhecidos. Trata-se esta de uma situação muito preocupante. A ABER está ombro a ombro com V.Exas. para o que pudermos ajudar, trazendo os compositores, colocando-os a serviço de V.Exas. e até apresentar das dificuldades todas que estamos passando. Hoje, durante o almoço, falava que há alguns anos participei de luta ecológica pela preservação e fim da caça às baleias, ocasião em que um americano disse a seguinte frase célebre: vocês sabem quando vão parar a caça das baleias? Quando não tiver mais baleias para caçar. Eu dizia há pouco o seguinte: V.Exas sabem quando vão acabar com a pirataria? Quando não tiver mais músicas para piratear. Aí, realmente, não teremos mais esse problema; aí, sim, estaremos erradicando o problema. (Risos.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Passo a palavra ao Sr. Deputado Marcos Montes paras suas considerações. O SR. DEPUTADO MARCOS MONTES - Inicialmente, cumprimento o Sr. Presidente. É um prazer estar, aqui, mais uma vez. Cumprimento também o Sr. Deputado José Otávio Germano. Em nossas falas, hoje, nesta Casa, demonstramos com clareza muito grande que não estamos num debate. Estamos aqui exatamente para mostrar aos presentes a nossa preocupação. Às vezes, a Casa encontra-se vazia, considerando que suas atividades são muitas, mas a certeza da formatação desse projeto, feito pelo Sr. Deputado José Otávio Germano, que teve de se retirar, há pouco, mas foi feito de forma muito regional, buscando nas representatividade de todos os Parlamentares e de todos os Estados exatamente a conquista de um grande projeto. 10 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Este é um grande projeto. Este é um grande projeto. Não tenham dúvidas disso. Tenho certeza de que, com um projeto relatado pelo competente Deputado José Otávio Germano, levaremos a matéria ao Plenário e, se não resolvermos o problema, daremos pelo menos um sinal de esperança maior a todos o interessados. Escutei atentamente os que se apresentaram aqui. Ouvi o Sr. Carlos Andrade mostrando-nos números importantes, dizendo da preferência nacional, que 62% dos brasileiros preferem a música do que o próprio futebol. No âmbito internacional, também há a preferência, principalmente dos europeus, pela música brasileira. Não há dúvida quando a isso. Precisamos, realmente, acertarmos um caminho. Conforme disse a nossa querida Sandra de Sá, figura maiúscula da música brasileira: não podemos chegar ao final dela. Com a música brasileira não pode acontecer como acontece com a caça às baleias. Temos realmente que dar uma parada e repensar a questão. Penso que este projeto chamará a atenção dos brasileiros não só para a isenção, mas, principalmente, para aqueles que compõem músicas que, seja na melancolia, seja na alegria, todos escutamos. Temos a certeza de que temos que chamar a maioria dos brasileiros. Se a música é responsável por tanto marketing, por tanto comércio no País, temos de colocá-la a serviço do próprio comércio da música, aí sim, dando estímulo maior aos produtores e autores. Infelizmente, a cada que passa, vê-se menos gente que se interessa pela música. Para mim é o equilíbrio social que o País tem. A única coisa que nos faz ver este País em dimensão de equilíbrio social, por mais esforços que os governantes queiram fazer, é por meio da música. Nem o futebol equaliza tantos pensamentos quanto a música. Discordo do Sr. Carlos quando diz que os países do Terceiro Mundo plantam e os países de Primeiro Mundo pensam. Fui Presidente da Comissão de Agricultura e tenho que defender a agricultura com muita ênfase. (Risos.) Por isso penso que o Brasil que luta... Estamos, com toda a certeza, plantando para o mundo, porque este é o maior celeiro mundial, mas também estamos pensando, pela música, para o mundo. 11 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Sinto-me feliz de participar desse grupo de Parlamentares. É o meu primeiro mandato nesta Casa, mas vejo que a Câmara dos Deputados produz coisas interessantes. O projeto apresentado pelo Deputado Otavio Leite, podem ter certeza, mexerá... Sr. Marcos, V.Sa, na condição de editor, que representa tantos compositores, infelizmente sua editora não está no topo, por não representar a nossa querida Sandra de Sá (Risos.). Mas tenham todos a certeza de que o projeto, pela forma como será relato pelo Sr. Deputado José Otávio Germano e como será defendido pelo Deputado Otavio Leite, cujo trabalho quero mais uma vez ressaltar, pela maneira como conduziu e criou o projeto, buscando nos Estados essa representatividade, daremos novo élan àquilo de que o Brasil precisa: a música. Imaginem o Brasil sem a música brasileira. Imaginem como vamos lidar com os nossos filhos e com as pessoas com que convivemos, como vamos fazer até política. Vale lembrar que até na política. Proibiram construir as nossas campanhas eleitorais por meio da música. Refiro-me aos showmícios, aquelas coisas todas, que era uma maneira alegre de fazer política e transmitir nossas mensagens às pessoas, principalmente as mais simples. Sr. Presidente, quis fazer uso da palavra não para promover debate, mas sim para parabenizar todos e dizer-lhes que não percam a esperança. Esta Casa, é muito criticada pela sociedade como um todo, onde, segundo dizem, a grande maioria é de pessoas que não honram a sociedade brasileira. Quem assim pensa está enganado. Embora existam pessoas nesta Casa que não a honram, a grande maioria honra a população brasileira. Essa grande maioria está representada pela Mesa, composta pelo Srs. Deputado Décio Lima, José Otávio Germano e Otavio Leite, Parlamentares que darão à música o devido respeito. Eu, por Minas Gerais, estarei com a bandeira em mão, sem dúvida alguma, para defender os interesses, não só dos presentes, de todos os brasileiros, que dormimos e acordamos com música. Parabéns a todos. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Obrigado, querido Deputado Marcos Montes. Pergunto se alguém da Mesa gostaria de fazer algum comentário após essa manifestação bonita e rica de Minas em nossa reunião. 12 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. CARLOS DE ANDRADE - Com certeza. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - É sobre a agricultura? O SR. CARLOS DE ANDRADE - Vive-se só da agricultura. O Brasil hoje em dia... A coisa que mais me dói.... Viajo muito, freqüento 5 conferências internacionais, todos os anos. Estive falando na UNESCO a respeito de diversidade cultural e tudo o mais, e uma das coisas que eu completamente discordo diante do que vejo mundo afora é o enquadramento do Brasil como País de Terceiro Mundo. Não vivo num País de Terceiro Mundo. Não vejo isso. Este não é um país de Terceiro Mundo, nem que se queira. Vamos lá, dois e meio, segundo mundo e meio, talvez, mas terceiro, de jeito algum (Risos.). Não há condição. Por quê? Porque nós exportamos os víveres, exportamos produtos e exportamos cultura. Hoje, temos grande representação fora do País com nossa cultura, com as nossas bases culturais. Isso é o que nos diferencia dos outros países do Terceiro Mundo. Uma observação interessante, conforme a Sandra de Sá falou, que iríamos ver as grandes gravadoras saírem do Brasil, porque o Brasil deixou de ser rentável. Sabem de onde saíram todas as gravadoras por causa da pirataria, que tornou insustentável a permanência delas? Da Nigéria, um dos países mais musicais do mundo. Saíram todas as gravadoras. Sabem onde eles não mais estão — aí por questões mais políticas? Em Cuba, país que tem perfil musical gigantesco e fenomenal, que não está conseguindo administrar sua música. Por quê? O negócio da música é feita por negociantes. Ele precisa desses negociantes, dos grandes e dos pequenos, das multinacionais e das nacionais. Essa estrutura, esse mecanismo, essa malha é fundamental para subsistência de uma indústria. Por que até agora não conseguimos ainda estruturar uma indústria de cinema no País? Porque não temos as sub-ramificações de uma indústria. A indústria é formada... Temos a música hiper popular, aquela bem representativa mesmo, de movimentos sociais dos mais arraigados possível, mais raízes possíveis e temos a música chiquérrima. V.Sa. falou uma coisa importantíssima, que é a equalização social que traz a música. Um Luiz Gonzaga é tão importante para o País quando um Villa-Lobos. Os dois vêm de extremos da nossa cultura. Compreenderam? Eles têm exatamente o mesmo peso nessa balança. O direito autoral de Villa-Lobos traz 5 mil euros para o 13 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Brasil por ano. O direito autoral referente à Garota de Ipanema, 4 milhões de dólares todo ano para Brasil — 2 milhões para Tom Jobim e 2 milhões para Vinícius de Moraes. E só traz isso, porque os outros 50% ficam nos Estados Unidos, que pertencem ao versionista americano. Entendeu? Então é muito importante que mantenhamos as estruturas da nossa indústria aqui dentro. Por quê? Uma coisa que estamos vendo fortíssimo aqui no País são sociedades arrecadadoras externas fazendo com a nossa música o que eles fizeram com Cuba. Na reunião da Organização Mundial de Propriedade Intelectual, da OMPI — ou WIPO que eles chamam World Intellectual Property Organization —o representante, o cônsul de Cuba virou para mim e falou: a nossa música tem tanta importância quanto a brasileira e nós não conseguimos ganhar dinheiro com a nossa música. O que você nos recomenda? Eu falei: a primeira coisa é tirar o seu direito da mão do espanhol. Todo o seu direito autoral está sendo recolhido na Europa pela SGAI. Crie a sua sociedade arrecadadora, como temos o ECAD que, por todos os defeitos que possa ter ou não ter, é um problema nosso. Nós temos que cuidar do ECAD. Temos que nos juntar com o ECAD e trabalhar. É muito fácil dizer quando uma coisa não funciona se a gente não fizer funcionar. A sociedade só funciona se nos tornarmos parte dessa engrenagem. Ela não anda sozinha. Esta Casa não anda sozinha. Esta Casa só anda por quê? Porque tem pessoas aqui com excelentes idéias, grandes iniciativas e que, com 2 tostões de empurrão, 2 tostões de apresentação, têm o apoio popular, pois eles representam o povo e aqui estão hoje representando os seus segmentos para justamente dar apoio a esta emenda tão importante para a nossa sociedade. Quer dizer, faz parte, é necessário que nós, cidadãos, nos organizemos para fazer com que esse negócio funcione em todos os sentidos. E agricultura na cabeça! Inclusive a música sertaneja é a trilha sonora do agronegócio. É a trilha sonora do agronegócio e é a música mais ouvida no Brasil. Podem dizer que é samba, que é isso, que é aquilo. A música do agronegócio, o sertanejo, é a música mais ouvida no Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Podem ir a qualquer lugar, menos no Rio de Janeiro, porque o Rio de Janeiro é meio devagar com o sertanejo, mas, no resto do Brasil, o sertanejo é campeão. 14 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. DEPUTADO MARCOS MONTES - Sr. Presidente, só uma informação... O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Mas é óbvio, Deputado Marcos Montes... O SR. DEPUTADO MARCOS MONTES - É só uma informação que acho que ajudará a construirmos esse debate no plenário. O Carlos disse que a música representa 8% do PIB mundial. Você tem aí dados em âmbito nacional, o que representa do PIB nacional? O SR. CARLOS DE ANDRADE - O que ela representasse no PIB nacional, hoje representa 80% menos. O SR. DEPUTADO MARCOS MONTES - Mas você não sabe o valor que hoje representa. O SR. CARLOS DE ANDRADE - O valor que ela hoje representa, não. A arrecadação representa 0,02%, isso dado de 2006. Hoje deve estar representando 0,005% da arrecadação. O SR. MARCOS JUCÁ - Talvez seja um mercado de 500 milhões de reais. Se envolvermos edições musicais, produção de fonogramas independentes, multinacionais, algo que gira em torno de 500 milhões de reais/ano. Em torno disso mais ou menos. Esse dado teria que ser apurado, porque sei que o mercado de venda de suporte estava em torno de 300 milhões ano passado, o mercado das edições em torno de 80, e se colocarmos o periférico, independente de estúdios e soma tudo que a música movimenta, deve chegar a 500 milhões de reais. Agora tem um detalhe, um adendo aqui ao Carlão. Eu agora estava em Canadá, em Toronto, participando de um congresso, de um evento. Saí do quarto do hotel, havia um comercial com Aquarela do Brasil. Desci. Quando cheguei ao corredor, havia uma banda de jazz tocando Na Baixa do Sapateiro. Então nesse hotel em Toronto, no Canadá, nevando lá fora, do meu quarto ao corredor, já ouvi duas músicas brasileiras, dois autores brasileiros. Isso dá um pouco a idéia de que, na realidade, a música é o nosso grande ativo cultural. Sem depreciar os demais, o Brasil não é no exterior conhecido pela dança, pela pintura ou pela escultura. É a música. Ela é que tem um papel preponderante na imagem do Brasil no exterior. As pessoas criam uma associação direta, e é muito 15 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 importante a gente lutar para preservar isso. Eu acho que é uma obrigação hoje se focar e se dedicar mesmo a essa causa. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Querido Deputado Marcos... (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - É? Muito obrigado. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Um dos co-autores, Sr. Presidente. Eu queria aproveitar essa reunião para solicitar, em primeiro lugar, ao Dr. Carlos de Andrade, nosso amigo, que fale sobre outra face que não essa que temos como face principal e com a qual temos enorme preocupação, a avalanche da pirataria. Nós temos modalidades, eu diria, contemporâneas da difusão musical, como a Internet, através dos downloads, que podem ser formais ou informais. O senhor tem números sobre quantitativo, ou receita, ou faturamento, ou ouviu dizer se alguém está feliz em ter colocado no seu site — alguém que eu digo um artista — a possibilidade de downloads pagos e se tem tido receita com isso, entre os músicos brasileiros? Um ponto é esse. Outro ponto: o senhor tem informações sobre o que tem sido o movimento de músicas disponibilizadas ou, melhor dizendo, serviços prestados por concessionárias de telefonia para usuários que querem ter músicas nos seus toques telefônicos? Esse volume já é razoável? Essa venda de fonograma já é substancial em relação às concessionárias de telefonia? E mais, o senhor tem números sobre vendas de CDs, DVDs, clips, nos últimos anos no Brasil? Gostaria de saber sobre esses 3 pontos: venda direta, a parte de Internet — downloads — e a parte de telefonia. São 3 indagações que eu queria dirigir a V.Sa. Eu tenho um tempinho e vou fazer perguntas a cada um e depois ouço as respostas. A nossa grande rubro-negra — e aí me permitam a licenciosidade, Sr. Presidente, Srs. Deputados — Sandra de Sá... (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - É porque quem ama cuida, não é? Quem ama cuida. O fato é o seguinte: ela tocou num ponto importantíssimo. Embora já tenhamos diagnósticos os mais fartos para justificar a necessidade de fazer algo em 16 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 prol da indústria e do músico, ela lembrou dos vendedores, das lojas de discos, da ponta. Esses números nós precisamos levantar, Sr. Presidente. Eu não sei se ela tem mais dados, mas a percepção, em qualquer canto do Brasil, é indiscutivelmente de quebra do setor. Nós tínhamos, por exemplo, na Av. Copacabana, no Rio de Janeiro, diversas lojas — Gabriela Discos e outras. Não vejo mais essas lojas, compreende? Agora há um distribuidor acima que faz a ligação entre a gravadora, a produtora e os vendedores. Quem são esses distribuidores? Quem sobreviveu a essa hecatombe quase homeopática? É meio paradoxal o que estou dizendo, mas é hecatombe, sim, porque estamos falando de um prejuízo muito grande a um valor cultural brasileiro, patrimônio da Nação. E é homeopática porque ela vem aos pouquinhos, quase que silenciosamente, mas produz o seu efeito. E nesse campo eu não sou nada alopata, eu sou homeopata. Eu interpreto isso como algo muito grave que tem que ser tratado de alguma maneira. Nós podemos ter de algum dos senhores da Mesa informações mais detalhadas quanto à degeneração econômica desses pontos de venda e em relação aos distribuidores? Quem ainda sobrevive e como sobrevive? Essa é outra indagação. Eu queria permitir ao Dr. Marcos falar um pouco mais sobre a definição entre a venda de suporte, 300 milhões, produção artística, cerca de cento e poucos milhões, e os 80 milhões dos insumos que gravitam em torno da produção de uma obra musical. Parece-me que a sua interpretação é dilatada, desde o instante de uma concepção artística qualquer que vai para o papel, seja na forma de letra completa, seja na forma de uma nota. E, se assim quiser o autor, ele pode contratar alguém diretamente e, portanto, o serviço para colocar a obra em condição de ser difundida. E aí há os meios mais diversos possíveis. Só que, antes disso, é preciso contratar uma equipe de músicos, é preciso contratar uma gravadora, que tem o equipamento, é preciso contratar uma série de outros recursos humanos e insumos os mais diversos, humanos e físicos, que compõem a possibilidade de se produzir um CDmãe, digamos, um fonograma-mãe, que depois é replicado por aí afora, seja numa grande empresa, seja diretamente. 17 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Chamou-me muito a atenção outro dia anúncio, na programação internacional da TV Globo, dentre os mais variados anúncios sobre médicos, advogados e outros profissionais que atuam no exterior em apoio aos brasileiros, de uma empresa vendendo equipamento que permite replicar 500 CDs ao mesmo tempo, uma espécie de forno de CDs. Coloca-se um CD-mãe, aperta-se um botão e a máquina faz 500. E o anúncio fazia uma observação com muita ênfase: entregamos em sua casa no Brasil. Eu logo pensei: isso deve ser suporte para muita pirataria. Estou certo ou estou errado? Ou suporte para alguém que quer montar uma empresa pequena de CD e DVD. Eu queria a opinião de vocês sobre essa minha reflexão, essa minha dúvida. É isso, Sr. Presidente, de maneira geral. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Com a palavra o Sr. Carlos de Andrade. A SRA. DEPUTADA VANESSA GRAZZIOTIN - Sr. Presidente, eu gostaria, se for possível, de juntar as perguntas do Deputado Otavio Leite às minhas, aí teríamos uma rodada de perguntas. É possível? O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Com a palavra a nossa querida representante da Zona Franca de Manaus. Mas é catarinense. Nasceu na minha terra. (Risos.) A SRA. DEPUTADA VANESSA GRAZZIOTIN - Faltava essa parte. Eu não ia começar a falar sem que S.Exa. falasse dessa parte. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - V.Exa. tem a palavra, Deputada Vanessa Grazziotin. A SRA. DEPUTADA VANESSA GRAZZIOTIN - V.Exa. quer tirar os poucos votos que tenho no Estado. Sr. Presidente, quero, primeiro, pedir desculpas a V.Exa. e a todos os convidados por não ter podido estar aqui desde o início. Certamente perdi intervenções importantes acerca desse assunto. Lamento não ter podido estar presente. Desde o dia em que instalamos a Comissão, esta é a terceira reunião, a primeira audiência pública. Acho que alguns conceitos temos que repetir. Parece-me que os Parlamentares que compõem esta Comissão Especial estamos divididos 18 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 entre aqueles que são a favor e aqueles que são contrários à Zona Franca de Manaus. Logo que o Deputado Otavio Leite veio me pedir para assinatura a PEC, eu disse: “Não faça isso, Deputado. O senhor tem alguma coisa contra a Zona Franca? O senhor tem algum problema com a Zona Franca de Manaus?” Ele me olhou e disse: “Não, em absoluto”. E eu disse: “Mas essa emenda, do jeito que está, vai atingir diretamente a Zona Franca de Manaus, não temos nenhuma dúvida”. Pergunto aos senhores, mas não peço resposta, porque eu mesma posso responder: onde está concentrada a produção de CDs no nosso País? Refiro-me à materialização, não à produção intelectual. Está concentrada na Zona Franca de Manaus. Quais são os tributos que as empresas instaladas na Zona Franca de Manaus pagam? Têm isenção de IPI, têm isenção de percentuais de II, enfim, têm isenção de uma série de tributos, isenções que foram concedidas para compensar as desvantagens comparativas não do Amazonas, mas da região amazônica como um todo, que representa mais de 60% do território brasileiro e não chega a 10% do PIB nacional. Além das desigualdades sociais a que a população está sujeita — uma das maiores concentrações de renda do planeta —, há as desigualdades regionais. Somente uma região do País contribui com quase metade do PIB, o Sudeste. Um Estado sozinho detém mais de 35% da produção nacional. Penso que a Zona Franca não é a melhor forma de expressar o que está instalado no Estado do Amazonas, o pólo industrial. Quando se fala em Zona Franca, as pessoas pensam em maquiagem, em poder comprar produtos baratos no comércio. O comércio da cidade de Manaus acabou há muito tempo, com a mudança da política econômica, quando todas as taxas de importação baixaram. Compra-se, hoje, um aparelho de televisão importado, em São Paulo, no mesmo preço que se compra na cidade de Manaus. Não compensa em absoluto comprar lá. Portanto, o que temos lá é um parque de produção incentivado, e nele há empresas como a Moto Honda, a Yamaha. A Moto Honda gera mais de 7 mil empregos, com a planta de produção mais nacionalizada fora do próprio Japão, mais do que a da China, por exemplo. 19 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Dentre esses setores que atuam naquela região está a indústria fonográfica. Lá estão, por exemplo, a Microservice e praticamente 90% das empresas do setor. O que se produz no Brasil em termos de DVDs e CDs com música, com conteúdo, é feito na Zona Franca de Manaus, com isenções tributárias. Disse isso ao Deputado Otavio Leite. Então, se aprovamos uma mudança constitucional concedendo isenção para qualquer região do País, um movimento vai acontecer muito rapidamente, o de deslocamento das empresas que estão hoje sediadas na Zona Franca de Manaus para qualquer outra região do País, porque elas usufruirão dos mesmos incentivos, estando próximas do mercado consumidor. Não temos dúvidas de que isso vai acontecer, nenhuma dúvida. Podemos até citar exemplos, mas não vêm ao caso. Podemos até, Deputado, fazer um estudo sobre isso. Vamos pedir um estudo. Temos um excelente grupo de consultoria técnica na Casa, que conhece todos os assuntos. Vamos pedir a eles uma simulação simples, porque a ciência exata é muito diferente das ciências biológicas, humanas. Um mais um é igual a dois. Não adianta querer pintar o amarelo de vermelho, porque o vermelho será sempre vermelho, não é verdade? O vermelho sempre será vermelho. Então é fácil. Vamos pedir simulações. É assim que o Governo está encaminhando o debate sobre a reforma tributária agora. É tudo a partir de simulações. Os Estados vão ter que ter fundos compensatórios. O Deputado José Otávio Germano sabe disso. Rio Grande do Sul, São Paulo, Amazonas vão ter que ter fundo compensatório. A primeira providência, se não se cria outro suporte, é a saída, a transferência desse parque produtor da Zona Franca de Manaus, no Estado do Amazonas, para as mais diversas regiões do País. Imagino que o Centro-Oeste vai ganhar muito. Isso de dizer que vai para o Nordeste é uma conversa de curta duração. É um papo — como se diz na gíria — de curta duração. Não se sustenta. Porque não é o Nordeste brasileiro o mercado consumidor, mas as Regiões Sudeste e Sul. Se todos chegássemos à conclusão de aprovar essa emenda constitucional, teríamos que ver como resolver o problema da Zona Franca de Manaus, porque o problema da música vai estar resolvido. 20 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Eu vivo no Estado do Amazonas há 30 anos. Estou completando, neste ano, 20 anos de atividade de Parlamento. Sou apenas catarinense, como disse o Presidente. Nasci em Santa Catarina, mas muito jovem fui para o Estado do Amazonas e tenho procurado me dedicar àquela terra, a estudá-la. Os interesses da Zona Franca são uma luta inglória, difícil, muitas vezes incompreendida. Mas quero dizer, diante de vários companheiros do meu Estado, inclusive, que se chegarmos a essa conclusão, tecnicamente, o Amazonas vai ter problema, a Zona Franca de Manaus vai ter problema. Mas, se resolvermos o problema da música, contem com o meu voto. Podem contar. Tenho grandes amigos na área. Aliás, conheço todos. O Dr. Lírio Parisotto, que não é nenhum empresário norte-americano, foi quem construiu a Videolar, logo que começou a Zona Franca, é do Estado do Rio Grande do Sul e vive conosco no Amazonas. Vive lá. Construiu a empresa e é meu grande amigo. O Dr. Amauri, que dirige a Microservice, a mesma coisa. Não tem problema, eu voto a favor, porque precisamos resolver o problema da música. Resolvendo o problema da música, resolveremos também o problema deles. Só que, por tudo, não que me disseram, mas com que já trabalhei, o que já li, o que já estudei, o que já vi, vamos criar um problema e não vamos resolver o outro. Vamos criar um problema, certamente, de transferência do setor produtivo de uma região para outra, e não vamos resolver o problema da música. Vamos discutir isso, Deputado Otavio Leite, porque 1 mais 1 são 2, com mais 2 são 4. Não adianta ficarmos perdendo tempo com discurso, Deputado Décio Lima. Não é porque defendo a Zona Franca, e o outro é contra. Não podemos votar baseados no discurso e em nossos interesses regionais, porque maiores do que os interesses regionais são os interesses nacionais, o interesse do setor que conheço plenamente. Você vai a qualquer lugar do mundo e ouve músicas brasileiras. Temos uma produção fantástica. Devemos ter orgulho de ver que nas nossas rádios, sem qualquer imposição legal, a maioria das músicas que tocam são brasileiras. Temos produção de qualidade, uma diversidade produtiva que é a cara do povo brasileiro, do índio ao caboclo, ao descendente de europeu, e vivemos todos bem, juntos, num sistema de fraternidade, numa sociedade fraterna. 21 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Digo isso porque estive na CPI da Pirataria. Foi uma CPI dura, e colhemos muitas questões positivas dali. Barramos um pouco o problema e o estudamos. Solicitei por requerimento, Deputado Décio Lima, porque não localizei — e mesmo que tivesse localizado, aquilo já é passado —, uma planilha do setor com a composição de custos. Pergunto: algum dos senhores trouxe a composição de custos do produto? (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) A SRA. DEPUTADA VANESSA GRAZZIOTIN - Não, já pedi ao Presidente. O Presidente encaminha, pedindo de vários setores. Vamos pedir da Receita Federal, das associações, de todo o mundo, e vamos comparar. Se você tem um item num processo produtivo que custa 60% da planilha, isentar aquele item é importante. Aquilo salva aquele determinado produto. Agora, se você tem um item que representa 5% do total, isentar essa parcela resolve o quê? Eu lhes pergunto. O que faz com que o CD, Sandra — você que é musicista, é da área e sofre com isso —, custe numa loja 30, 40 reais? O seu CD, por exemplo, custa 40 reais, se for lançamento. Se não for lançamento, você vai nas Lojas Americanas e compra o CD a 5 reais. Eu mesma compro CDs de 8, 9 reais, e não é de camelô, não. É nas Lojas Americanas. Vou muito lá. Em qualquer loja de departamento compramos. Esses estão na promoção. Dumping é produzir a um preço superior àquele que se está vendendo. Não se pratica isso no Brasil. Até onde sabemos, essa prática não é comum aqui. Então, o que acontece? O que é caro no CD? É o imposto que está caro? É ele que faz com que o CD fique a esse preço absurdo e faz com que prolifere o mercado marginal, dos piratas? Porque hoje é isso, não tenho dúvida. Amanhã, o pirata não vai ser problema para nenhum de nós. O problema do pirata, daquele que compra o suporte contrabandeado do Paraguai e, no laboratório de fundo de quintal, coloca o conteúdo, a música, é de uma década e olhe lá. Esse pirata, daqui a 10 anos, não vai mais existir, porque hoje você baixa tudo da Internet. Aí alguém diz: “Não, mas há dispositivo para impedir baixar alguma coisa”. Mas aí vem o hacker, que não é o pirata, e já consegue outro dispositivo mais avançado, que não barra mais aquilo. 22 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 Precisamos de um caminho para resolver o problema. Questiono que seja esse o real caminho, porque, até onde sei, na planilha de custos, os impostos representam muito pouco. Será que o que o cantor ganha o está deixando rico? Que nada! O cantor hoje ganha — posso estar até errada, não sou da área, convivo pouco com os artistas —, pelo que percebo, nos shows que faz, não nos discos que vende. Por que se vinculam às gravadoras? Porque precisam da promoção. Será que o Faustão é bonzinho, faz a propaganda dos músicos e leva lá quem ele quer, ou aquilo custa alguma coisa? Ou aquilo está no valor e na composição de custos? E será que não é essa a parcela que está elevada? Não sei. Levanto essas questões porque nosso papel é polemizar mesmo. E repito, Dr. Noronha: se depois de vermos o estudo chegarmos à conclusão de que, incentivando esse setor, em qualquer região do Brasil, resolvemos o problema, vou votar a favor da PEC, porque quero que o setor se salve, quero que o Dr. Lírio se salve, estando no Amazonas ou em São Paulo, não interessa. Precisamos salvar o nosso mercado, precisamos salvar a nossa produção. Mas, infelizmente, pelo que já vimos, não é esse o caminho. É muito pequena a participação do tributo no custo total da produção. Já solicitei essa informação e creio que temos de nos dedicar a esses levantamentos técnicos, a esses estudos, Deputado Germano, para chegarmos às conclusões. Há muito tempo, discutimos isso com os irmãos cantores Christian e Ralph, que já estiveram algumas vezes na Câmara, e tivemos notícia de que eles desenvolveram uma nova tecnologia, fecharam contrato com uma dessas empresas que parece estar livre de cópias. Seria importante que os trouxéssemos aqui. Eles firmaram um contrato recente com uma das empresas que fabricam CD, uma coisa fantástica! Sandra, você já entrou numa fábrica que produz CDs? (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) A SRA. DEPUTADA VANESSA GRAZZIOTIN - Eu fiquei encantada. Podemos fazer uma visita. Entra o pó e sai o CD pronto, impresso. Entra o pó e sai tudo pronto. Apesar de ser um setor muito mecanizado, muito automatizado, você ainda emprega volume importante de pessoas. Quando falo pó, refiro-me ao poliestireno, um produto químico. (Risos.) Tem gente que parece não pensar em 23 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 outra coisa. Temos de pensar em coisas melhores. Inclusive, a própria Videolar, sem qualquer centavo de incentivo, montou na Zona Franca uma fábrica que produz o poliestireno, matéria-prima para a indústria plástica, pois não só o setor da música o utiliza, mas também outros setores o utilizam, sem PPB, sem incentivo, sem absolutamente nada, e não dá conta de produzir para atender apenas à demanda local. Seria importante, então, que, primeiro, fizéssemos essa visita e, segundo, estudássemos para ver onde está o problema. Vamos detectar o problema. Porque, se o problema não for esse que estão afirmando, a briga estará comprada. Por que se vai tirar do Norte e colocar no Sul ou tirar do Sul e colocar no Nordeste ou tirar do Nordeste e colocar no Centro-Oeste? Para quê? Acho que pobre não deve brigar, pobre tem de se dar bem, pobre tem de fazer acordo. Nós somos todos pobres, todos pobres. Temos de fazer acordo. Não podemos ficar brigando entre nós. Nossa briga maior é para salvar o segmento, salvar o setor, salvar a música. Essa é a nossa briga maior, e dela sou aliada. Desculpem-me por ter-me alongado. Muito obrigada. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Não, absolutamente. Antes de passar a palavra aos debatedores para as respostas às indagações tanto da Deputada Vanessa Grazziotin quanto do nosso querido Deputado Otavio Leite, informo que teremos uma série de audiências. A próxima, inclusive, será na terça-feira da semana que vem, para a qual estão sendo convidados o Presidente da SUFRAMA, o Secretário-Geral da Receita Federal e o Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Discos. Enfim, serão mais 3 audiências públicas, justamente com o fim de podermos tirar todas as dúvidas que possam surgir neste debate que estamos realizando no âmbito desta Comissão. E esta Presidência solicita, até para ajudar a assessoria, que tragam formalmente os requerimentos para que possamos colher os dados, principalmente das instituições. No caso da Deputada Vanessa Grazziotin, apenas um foi indeferido, o que se refere à viagem formal a Manaus, pois haveria problema regimental. Mas vamos fazê-la informalmente. 24 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O Deputado Otavio Leite fez algumas perguntas com relação à cadeia produtiva do setor, sobre alguns números. Gostaria que V.Exa. nos trouxesse isso detalhadamente na forma de requerimento, para verificarmos se podemos colher as informações que faltam com as instituições pertinentes. Passo a palavra ao Sr. Carlos de Andrade e, em seguida, ao Sr. Marcos Jucá e à Sra. Sandra de Sá. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Tentarei responder na ordem. Respondo então, primeiramente, às perguntas do Deputado Otavio Leite Se V.Exa. me permite, vou inverter um pouco as questões, porque, talvez, eu seja mais eficiente respondendo com relação à distribuição formal do disco físico, que é a grande matéria da minha associação. Hoje, o produtor independente está infinitamente mais focado no mercado tradicional de inclusão de conteúdos em suportes físicos de diversos formatos, inclusive o próprio LP, que demos por morto, mas que não morreu de fato, pois existe até hoje em fábricas no Brasil e fora do Brasil. Os distribuidores existentes no País, que antes se dedicavam 100% ao produto fonográfico, num segundo momento, com o aparecimento do DVD, passaram a trabalhar também com a indústria cinematográfica e, hoje, estão vendendo biquíni, cachaça, enfim, todo tipo de produto que se pode ter à mão e distribuir pelo País. Isso porque eles têm a operação logística montada, mas o produto não tem mais local para escoamento, ou seja, as lojas de discos acabaram. Conforme citou o Deputado, quando andávamos por Copacabana, víamos uma loja ao lado da outra, e sobrou a Modern Sound. Hoje em dia, temos praticamente 2 lojas de discos usados, onde inclusive encontramos muitos LPs e fitas K-7 interessantes. Pior do que isso. Há tempos, conversando com um dos maiores distribuidores do Brasil, ao comentarmos a respeito da PEC da música, algo tão vital para a nossa indústria — quando a Deputada retornar e puder me referir aos dados que apresentou, com certeza, vou ganhar o voto dela, porque meus dados são bastante convincentes —, o Martins, dono da Universal, maior distribuidora do País e que possui operação logística gigantesca em São Paulo, disse o seguinte: “Carlos, a pior coisa não é a quantidade”. Nós caímos de 4.800 CGCs para 2.200 CGCs. “O pior de 25 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 tudo é que não temos uma unidade de loja de disco como CGC”. Hoje, elas são lojas de conveniência, de artigos para bebês e crianças, perfumarias, livrarias, lojas de presentes. Ou seja, a loja de disco em que você tinha contato com o que havia de moderno e inusitado não existe mais. Lembro-me de que, quando morava no Leblon, havia uma loja ao lado da minha casa, que também não existe mais, e, sempre que eu ia a essa loja comprar algum disco, entrava para comprar determinado produto e saía com outro completamente diferente, porque geralmente não havia o que eu queria, mas me convenciam a comprar outro. O dono dessa loja, hoje, não tem mais emprego, está na informalidade, como o camelô da esquina, vendendo disco pirata. Lá o camarada diz: “Vem cá, você tem o disco do ‘Alflenes não-sei-de-onde’?”, o cara diz: “Não tenho hoje, mas amanhã o senhor volta aqui que vou ter”. Ele vai para casa, copia e coloca ali na banca para você. O problema maior disso tudo é que hoje vemos aí uma quantidade de distribuidores que perderam o foco na nossa indústria. Nossa indústria perdeu a frente que tinha, perdeu a vitrine, e é uma indústria que sobrevive da venda por impulso. Está aqui um exemplo físico. Acabei de dar um depoimento de que entrava na loja para comprar um disco e saía com outro. Por quê? Porque havia a possibilidade da compra por impulso. Quantas vezes as pessoas vão ao supermercado comprar uma cocada e uma mariola e encontram lá o disco na gôndola na saída e dizem: “Poxa, está por um preço bom”, e pegam e levam? Então é necessário que nós tenhamos essa vitrine, é necessário que tenhamos a vitrine da mídia, também. Mas esse é outro problema, que envolve outras ações que precisamos fazer, com a colaboração desta Casa, para desenvolver uma retórica específica para esse outro problema, que também é grande, o problema da difusão. Mas aqui nós estamos tratando de produção e distribuição. Espero que a Deputada volte rápido, porque eu... O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Permite-me um esclarecimento? O senhor falou sobre um grande distribuidor denominando Universal. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Isso. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - O Sr. Martins tem monopólio nessa distribuição? 26 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. CARLOS DE ANDRADE - Não, não, não. Ele tem uma grande distribuição, é o maior distribuidor, mas tem vários concorrentes. E todos em São Paulo. Por quê? Porque em São Paulo não se cobrava o imposto pela substituição tributária. Com a eliminação da carga tributária, cria-se um ponto de referência. Todo mundo vinha a São Paulo comprar seus produtos, os produtos que interessavam no Martins. Por quê? Porque ele tinha um valor diferenciado. Se esse mesmo distribuidor estivesse no Rio de Janeiro, pelo fato de nós termos a substituição tributária, nós teríamos valor mais alto para que o comprador pagasse na boca do caixa. E quem comprava dele eram justamente os varejistas, as lojas, as pequenas lojas que talvez não pudessem ser atendidas pela distribuição das grandes gravadoras, por uma questão de crédito, de cobrança e uma série de outras questões. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Sim, mas um adquirente qualquer que comprasse um determinado número de CDs na sua cidade, no seu Estado, que não São Paulo, e fosse vender, sobre essa operação, na ponta, incidiria, como deve incidir e incide, o ICMS, por exemplo... O SR. CARLOS DE ANDRADE - Com certeza. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - ...em face da circulação de uma mercadoria. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Com certeza. Que é um dos grandes vilões na composição tributária do custo de um disco. Por quê? Eu acho que a coisa é contundente e fácil de ser explicada a V.Exas. É uma coisa simples. A ementa da PEC diz que a proposta trata— tentando responder aqui algumas questões da Deputada Vanessa Grazziotin — de imunidade tributária sobre os fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil, contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros. Ouvindo o discurso da Deputada, percebemos que S.Exa. fez uma abordagem muito grande, foi de moto a disco. Na minha exposição, a primeira coisa que eu disse a V.Exas. foi que eu faço parte de 4 associações ligadas à música e há 30 anos milito nessa área. A única coisa que eu sei fazer na minha vida é música. Ou seja, eu não penso em outra coisa a não ser música. Então, com o foco e 27 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 conhecendo a estrutura que foi montada em Manaus, um dos grandes detalhes desta PEC, a genialidade da redação dessa proposta é justamente focar no compositor brasileiro. Por quê? Porque é isso que nos interessa alimentar. Eu não estou interessado em alimentar Frank Sinatra. Ele que morra de fome. O meu negócio... (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. CARLOS DE ANDRADE - Já morreu. (Risos.) Não foi de fome, todavia. Eu não estou preocupado como Frank Sinatra, eu estou preocupado com a Sandra de Sá, com a Rosemary, com o Leoni, com o Roberto Frejat, com o Raimundo Fagner, com o Marcelo D2, com essas pessoas que vivem da música, e comigo mesmo. Estou preocupado com a minha vida, com a vida dos meus filhos daqui para a frente. Eu tenho um investimento muito grande nesse setor. Toda a minha vida foi dedicada a isso. E o que acontece? Pela estrutura montada em Manaus, as fábricas se estabeleceram em ali para tirar proveito de uma série de legislações que azeitam ou facilitam algumas isenções tributárias, quando esses produtos são distribuídos por essas fábricas — essa é uma peculiaridade da legislação — para esses distribuidores gerais ou para os varejos específicos. Só neste caso se consegue essa quantidade de isenções. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Mas há fábricas, não apenas em Manaus, que multiplicam fonogramas. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Com certeza. Há em São Paulo. Há no Ceará, uma fábrica muito importante, a primeira fábrica do Ceará, financiada pelo BNDES, inclusive, uma belíssima fábrica, a CD+. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Então não há monopólio em Manaus sobre esse assunto. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Não há monopólio em Manaus. E não só isso. O que acontece e é o maior dos problemas... O SR. DEPUTADO JOSÉ OTÁVIO GERMANO - Há monopólio de isenção, não é? O SR. CARLOS DE ANDRADE - ...é esse monopólio de isenção, Relator. Porque o que acontece é o seguinte: para que essa isenção exista — prestem bem 28 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 atenção nessa estrutura —, a fábrica localizada na Zona Franca de Manaus, tem que ter a licença de fabricação. Essa licença de fabricação é dada pelo produtor de conteúdo. Como disse a Deputada, entra o pó — que é de policarbonato, não de polietileno — numa ponta e sai o disco na outra, do outro lado. Se o disco não tiver música ou vídeo dentro ele será uma rodela de plástico que só serve para uma coisa: gravar ou programa pirateado, ou download de Internet, ou mesmo a duplicação do meu produto, desautorizadamente. E nisso a fábrica que S.Exa. citou, a Videolar, era um dos maiores conglomerados fabris de Manaus, mas saiu do setor. O Exmo. Sr. Lírio Parisotto deu uma declaração de que eles estavam saindo da música. Eles largaram o CD. Pergunta: largaram os CDs virgens? Não! Esses aí eles estão produzindo em quantidade lá. Por quê? Porque tem uma saída desgraçada. Não me perguntem para quem, porque eu não tenho como provar para dizer a V.Exas. que está indo para cá ou para lá. Eu tenho, sim, dados que podem ser aferidos, por meio da ABPD, de apreensões de produto pirateado, ou contrabandeado, ou até mesmo falsificado da música brasileira. Então, voltando à situação, o produtor tem que licenciar. Acontece que a missão da fábrica é fabricar, não é distribuir. Mas para que ela possa se locupletar desses incentivos fiscais, ela tem que distribuir. Ela não quer distribuir, quer fabricar. Então o que acontece? Ela fabrica da EMI, da Warner... Não, desculpem-me: ela fabrica da Warner, mas em uma outra situação, que vou explicar depois. Ela fabrica da Warner, da Som Livre, da Universal, da Sony/BMG. Lógico, são grandes gravadoras, com muito sucesso e discos que vendem muito. Quando V.Exas. entram no Carrefour, não vêem o disco do Torquato Mariano, vêem o disco do Roberto Carlos, o disco do Zezé Di Camargo e Luciano. Por quê? Porque esses são artistas de muita concentração. Mas a pulverização e a disseminação cultural que a indústria fonográfica propõe não está presente nesta ação. Mas é necessário que se mantenham esses artistas — Zezé Di Camargo e Luciano, Roberto Carlos. Não se pode prejudicar a venda desses artistas, porque esses artistas são preponderantes para o glamour da nossa indústria, para a grandeza que essa indústria traz para o nosso País e para a disseminação cultural no Brasil da música brasileira. Agora, voltando ao texto da PEC, essas fábricas que estão lá não querem distribuir a Visom, a minha gravadora. Por quê? Porque eu vendo um disco numa 29 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 loja aqui, outro disco numa loja ali, outro numa loja acolá, e eles não têm estrutura logística para atender todo mundo. Então, eles começam a dizer o seguinte: “Eu distribuo a EMI e repasso os benefícios fiscais para a EMI, mas eu não distribuo a Visom, porque eu não tenho estrutura para distribuir a Visom”. Ou seja, a Visom paga todos os impostos, a EMI não. A EMI tem a isenção. E não estou falando isso porque é multinacional ou qualquer coisa, muito pelo contrário, longe de mim isso. Graças a Deus existem multinacionais no Brasil, e eu quero que elas estejam aqui dentro, porque elas fazem bem a essa estrutura, de alguma maneira. Elas trazem à tona uma qualidade artística do tamanho de Sandra de Sá e de tantos outros grandes artistas que nós conhecemos. E nós os conhecemos por meio das ações delas, das grandes produções. Agora, a Warner, no seu regimento internacional, não permite que ela possa licenciar uma fabricante. Então, o que acontece? A Warner não pode ter esse benefício fiscal da maneira que está estruturado na Zona Franca de Manaus. Olha a desigualdade fiscal que nós temos em nosso País. Não é possível que isso permaneça, se sustente de qualquer maneira. E preocupada em não criar um problema para a Zona Franca de Manaus, a grande medida dessa PEC está justamente nesse texto que se refere a autores e compositores brasileiros. Por quê? Porque cada fábrica, para existir em Manaus, tem uma âncora multinacional por trás. É quem garante 20%, 30% do funcionamento dela. Essas fábricas são multinacionais. Ali dentro V.Exas. vão encontrar Nora Jones, Celine Dion, Britney Spears. Não vão encontrar só música brasileira. Na gravadora independente, provavelmente, V.Exas. vão encontrar só artistas brasileiros mesmo, que é o caso da minha gravadora, como é o caso da editora do Marcos Jucá. (Não identificado) - Eu acho importante, Sr. Presidente, se me permite, que os convidados esclareçam um pouco mais detalhadamente a preocupação da Deputada Vanessa Grazziotin, que me pareceu uma preocupação normal, natural. Nós temos que tentar encontrar aqui uma alternativa, se é que é possível, para retirar a dúvida e a angústia da Deputada. Se eu fosse Deputado do Amazonas eu estaria vivendo aqui o mesmo drama de quem é do Amazonas. Que sugestão, que contraponto, que encontro, na verdade, poderia acontecer no sentido de proteger a produção industrial do Amazonas? Eu acho muito 30 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 importante aquilo que foi aqui requerido, para se saber exatamente o que representa a produção de discos no PIB amazonense. Essa é uma resposta que nós não temos, e a pergunta é importante. Eu não acho que seja muito. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) (Não identificado) - Perfeito. Até dentro daquilo que foi colocado aqui pelo Carlos, tendo em vista todas as nuanças que estão ocorrendo com a produção de disco na Zona Franca de Manaus. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Com certeza. E na intenção só de complementar essa situação, que era exatamente onde eu ia chegar... O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Acho que o debate está sendo maravilhoso, só que nós temos um problema na Casa, meu querido Relator: nós já estamos sendo chamados para a Ordem do Dia no plenário. Então, eu peço... O SR. CARLOS DE ANDRADE - O comentário será bem rápido. A idéia é a seguinte: é só música brasileira. Essas fábricas hoje, como eu disse, a Videolar, principal fábrica de Manaus, do parque industrial de mídias óticas de Manaus, saiu da fabricação de CD. Ela anunciou publicamente que estava saindo da fabricação de CD. Agora, nós temos toda uma quantidade de fábricas hoje, como as de softwares, DVDs, música internacional, que vão permanecer em Manaus. Ou seja, não existe possibilidade de uma fábrica movimentar seu parque para ouro lugar só por causa de CDs de música brasileira. Então, esse é o princípio, essa é a idéia. O Sr. Marcos Jucá tinha um comentário, complementando a questão dos ringtones. O SR. MARCOS JUCÁ - É rápido. Quero apenas lhes passar um número. No mercado brasileiro digital, hoje, venda em download para PC é incipiente, representa muito pouco. No mercado para celulares, o perfil do consumidor brasileiro ainda é de celular pré-pago. Então, na realidade, tivemos muito bom retorno com o ringtone, polifônico e monofônico. Em 2005, tivemos 75 milhões de download de ringtones. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. MARCOS JUCÁ - Pago. As editoras recebem algo em torno de 30 centavos. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - E o músico? O SR. MARCOS JUCÁ - Por cada download. Aí, nesse caso do ringtone... 31 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Cada contrato é um contrato. O SR. MARCOS JUCÁ - ... o músico nada recebe. O ringtone é uma relação, simplesmente, entre a operadora, a integradora e a editora musical. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - A operadora adquire os direitos de... O SR. MARCOS JUCÁ - É. Existe uma empresa integradora, que, na realidade, transforma música em ringtone — e esse ringtone pode ser monofônico ou polifônico, dependendo da forma como o toque é realizado —; e essa integradora vende, disponibiliza, para a operadora, que então pode comercializar, na sua publicidade, no seu site, oferecendo aquilo como um produto de valor agregado. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - E é um produto muito comercializado. O SR. MARCOS JUCÁ - Muito comercializado. Até hoje. O que ocorre? Com a evolução do hardware, do equipamento, hoje existe o truetone e o fulltrack, quando se baixa para o celular a música inteira. Aí, sim, há uma participação da gravadora; aí existe o direito do produtor fonográfico. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Eu acho que o ringtone vai se tornar peça do passado. O SR. MARCOS JUCÁ - Do passado. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Ele tem vida curta, parece-me. O SR. MARCOS JUCÁ - Mas o perfil, hoje, do celular do brasileiro ainda é muito voltado para os ringtones. Ainda não se usam aparelhos com capacidade de baixar fulltrack bem. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Mas os senhores têm idéia de quando esses aparelhos de fulltrack... O SR. MARCOS JUCÁ - Não. A renovação do hardware é muito rápida. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - É muito rápida. O SR. MARCOS JUCÁ - É. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Estão falando que em 2 anos esse assunto já estará superado. O SR. MARCOS JUCÁ - Exatamente. Em 3 ou 4 anos vamos baixar tudo para os celulares de terceira geração. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Muito bem. 32 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O fulltrack, sendo estabelecido em definitivo, implica a comercialização do direito autoral de um fonograma. O SR. MARCOS JUCÁ - É claro! O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Muito bem. Esse é o dado que vale a pena tentar identificar. Qual o volume hoje a dimensionar? Porque é mais um espaço de mercado que será objeto, sendo produto de músico brasileiro,... O SR. MARCOS JUCÁ - Exatamente. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - ... sendo fonograma produzido no Brasil, de imunidade tributária, o que será, para a cultura nacional, importante. Para o músico e para a sociedade isso até tem de ser muito bem acompanhado, para que signifique concretamente uma comercialização menor, mais barata, para o usuário, que precisa ouvir música nacional. O SR. MARCOS JUCÁ - É claro! O SR. CARLOS DE ANDRADE - E, nesse caso especificamente, Deputado, o imposto representa 40%. O imposto é incidente sobre a telefonia, por exemplo. São 40%. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Ah! Aí é uma farra. O SR. CARLOS DE ANDRADE - É de 40% a carga tributária em cima disso. O SR. MARCOS JUCÁ - Se a pessoa vende por R$4,00, de cara, com os 30% de imposto, sobram R$2,80. Metade disso é da operadora; e depois tem a chave de distribuição para a entregadora, para a gravadora e para o editor. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Isso em alguns Estados. No Estado em que se situa a Cidade Maravilhosa, acho que são 37%. Não é isso? (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Isso de saída, não é? O SR. MARCOS JUCÁ - É. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Só para a largada. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - A Cidade Maravilhosa a que V.Exa. se refere é Blumenau, não é? (Risos.) O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Entre as quais, não é? (Risos.) 33 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Alguém gostaria de fazer mais alguma observação? Sr. Relator? (Pausa.) Então, antes de encerrar os trabalhos... O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Sr. Presidente, quero fazer uma indagação, aproveitando a presença de Sandra de Sá. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Pois não. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Gostaria que ela falasse um pouco dela, da evolução de vendas dos produtos dela, de como tem sido a vida dela — e ela sabe bem disso —, e de colegas. Se tiver, por acaso, uma ilustração qualquer. Porque são ilustrações muito importantes. E em shows, além disso. É possível vender nos shows também? Isso é importante na composição da receita do artista? Ou é um sonho de uma noite de verão? A SRA. SANDRA DE SÁ - Não, não. Isso acontece, pelo menos no meu caso e de amigos meus. Praticamente, quando nós vendemos em shows, são brindes que nós damos aos nossos fãs que vão ver os shows. Como é que nós fazemos? Nós compramos esses CDs da gravadora e temos de vender, realmente, por um preço... Como se fosse um brinde. Porque sai praticamente como brinde. Nós temos de vender bem mais barato, embora tenhamos comprado pelo preço que todos pagam praticamente. E se não tiver público no show? Digamos que eu faço um CD e durante 1 ano vou vender aquele trabalho. Se o seu público estiver fraco, eu não vendo, não acontece nada. Da mesma forma, como eu vendo pouco disco, e acabo gravando pouco porque a gravadora já vai gravar menos comigo por causa dessa pouca venda, o público diminui, eu começo a fazer menos shows. É uma bola de neve. Aliás, é um círculo vicioso, porque a bola de neve cresce, e nesse caso diminui bastante, muito. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - Você chegou a vender quantos exemplares de um disco ou de um CD? A SRA. SANDRA DE SÁ - Um milhão, mais ou menos, numa certa época. Hoje fica na base dos 30 mil, dos 20 mil. O SR. DEPUTADO OTAVIO LEITE - É muito impactante, Sr. Presidente. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Com certeza. 34 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. CARLOS DE ANDRADE - Sr. Presidente, um último dado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Pois não. O SR. CARLOS DE ANDRADE - Sr. Presidente, nós acabamos de lançar uns artistas, através de uma grande gravadora: a EMI. Esses artistas faziam shows por 500 reais. Graças à saída do disco, esses artistas hoje fazem shows por 3 mil reais. Ou seja, acresceu em 6 vezes o preço do show desses artistas, só por terem um disco lançado por uma grande gravadora. E isso é em resposta também à pergunta da Deputada que disse que o artista ganhava dinheiro mesmo era no show. Ele precisa do sucesso do disco para que o seu show tenha preço. A SRA. SANDRA DE SÁ - Justamente. O SR. DEPUTADO CHICO ALENCAR - Sr. Presidente, quero fazer um convite, já que trabalhamos tanto. Eu estava em 3 Comissões ao mesmo tempo. O dom da ubiqüidade, que eu não tenho, é exigido aqui na Câmara dos Deputados. (Risos.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Mas V.Exa. é um dos Deputados que mais trabalham nesta Casa. O SR. DEPUTADO CHICO ALENCAR - Não, não sou. (Risos.) Tudo vale para todo mundo. Já que Blumenau é a Cidade Maravilhosa, eu vou dividir com outros este qualificativo: V.Exa. trabalha mais do que os que mais trabalham. (Risos.) Mas eu faço, então, um bom convite: está sendo aberta agora, pelo Presidente da Casa, com a presença do Ministro da Cultura, a Exposição 60 anos do Baião — Tributo a Gonzagão, aqui mesmo na Câmara dos Deputados, a 10 passos daqui. Estão todos convidados. O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Maravilha. Acho que, com esse convite do Deputado Chico Alencar, nós encerramos a reunião de hoje com chave de ouro. Antes, porém, eu queria convocar... (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) 35 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ COM REDAÇÃO FINAL Nome: Comissão Especial - Fonogramas / Videofonogramas Musicais Número: 0196/08 Data: 25/03/2008 O SR. PRESIDENTE (Deputado Décio Lima) - Ah! A palhinha da Sandra! (Risos.) Ela vai ter de ficar muito tempo aqui conosco. Eu queria agradecer a honrosa presença aos nossos palestrantes — Srs. Carlos de Andrade, Diretor da Associação Brasileira de Música Independente; Marcos Jucá, Presidente da Associação Brasileira de Editores Reunidos; e a nossa querida e amada, a paixão brasileira Sandra de Sá, que tem assiduamente estado aqui, desde a primeira reunião, desde quando a instalamos — e convocar uma audiência pública para a próxima terça-feira, dia 1º de abril de 2008 — que não seja o dia da mentira (risos) —, quando vamos tentar trazer, como debatedores, o Presidente da SUFRAMA, o Secretário-Geral da Receita Federal e o Presidente da Associação Brasileira de Produtores de Disco. No mais, agradeço aos ilustres Deputados que nos honraram com a sua presença. Está encerrada a presente audiência pública. Muito obrigado a todos. 36