A disputa pelo poder simbólico no escândalo do mensalão1
José Henrique P. e Silva 2
Resumo: O segundo semestre de 2005 foi marcado na cena política
brasileira por uma intensa disputa simbólica, envolvendo o presidente da
República, em torno do que ficou conhecido como o "escândalo do
mensalão". Neste artigo mostro, em síntese, como alguns sentidos foram
mobilizados pela Folha de S. Paulo e pelo presidente na tentativa de impor
uma visão de mundo específica que criasse uma “estória” para o escândalo.
Aqui, me utilizo da “estrutura sequencial” indicada por J. Thompson para
identificar a evolução desses sentidos e dos principais momentos da disputa
simbólica. O trabalho resultou na construção de uma hipótese: uma
alteração significativa na discursividade do presidente ocorre ao longo do
escândalo e se manterá ao longo de seus mandatos. Uma nova
discursividade que, sustentada em determinadas condições políticas,
econômicas e sociais pode ter dado origem ao fenômeno do "lulismo".
Palavras-Chave: Escândalo; Mensalão; Discurso; Folha de S. Paulo; Lula.
1. O escândalo político-midiático como disputa simbólica
O "escândalo do mensalão" veio à tona em meados de 2005. Tratou-se de um
escândalo político-midiático. Foi além do campo específico do jogo político tradicional e
adentrou no espaço midiático, encontrando aí condições de reprodução por vários meses. Mas,
não são seus aspectos especificamente políticos, nem jurídicos, nem seus bastidores que
ocupam este trabalho e sim a disputa simbólica nele presente, a luta por respeitabilidade,
reputação, credibilidade. Um momento em que a "palavra" política foi tão exigida quanto a
"ação" política no seu desenrolar. É na busca destas "palavras" presentes nos discursos do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos editoriais do jornal Folha de S. Paulo que
buscaremos entender parte do que significou o jogo político naquele momento.
1
Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho "Jornalismo Político”, inserido na temática “Crise Política e
escândalo midiático”, do IV Encontro da Compolítica, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, 13 a 15 de abril de 2011.
2
O autor é especialista em Sociopsicologia, e mestrando em Política no Programa de Estudos Pós-Graduados em
Ciências Sociais da PUC-SP, com dissertação sobre A disputa pelo poder simbólico no escândalo do mensalão.
[email protected].
Thompson (2002) já nos apontou diversas razões para o estudo do escândalo: não
pode ficar reduzido ao declínio moral de jornalistas ou políticos; força debates na esfera
pública que ajudam a elucidar a forma como o poder político é exercido; pode criar ondas
reproduzindo um clima de crise e enfraquecendo governos; interfere diretamente nos níveis de
confiança na vida política; nos fala muito da mídia e sua relação com o poder.
O autor também já nos falou da centralidade da mídia tradicional na produção de
formas simbólicas e, quanto a esse aspecto em especial, Chaia (2004) já nos lembrou que uma
das linhas de pesquisa surgidas no âmbito dos estudos da relação mídia-política é justamente
o dos impactos da centralidade da mídia na vida política, mas, também nos lembra que,
quando se fala em centralidade da mídia não se fala, necessariamente, que sua agenda é
hegemônica. Há o que se poderia chamar de um “jogo de espelhos”, com inter-relações.
No escândalo, portanto, o jogo político ganha uma dimensão simbólica por
excelência e isso nos lembra Bourdieu (2007), para quem o poder é mais ignorado, menos
reconhecido, justamente no símbolo, nível em que é exercido com forte cumplicidade e
revelando que "são as estratégias linguísticas que materializarão as proposições, tornando
real, discursivamente, o que antes não passava de um plano de ação ou de uma intenção
ideológica" (Panke, 2010, p. 39), uma materialização que só é possível porque a força do
discurso vem principalmente da força de mobilização proporcionada pela crença, ainda que
silenciosa, em sua veracidade, ou seja, na possibilidade de ser verdadeiro. Assim é que, "o
poder simbólico e um poder que aquele que lhe está sujeito dá àquele que o exerce, um
crédito... pondo nele sua confiança. É um poder que existe porque aquele que lhe está sujeito
crê que ele existe" (Bourdieu, 2007, p. 188).
É do embate ocorrido que resultam impactos corrosivos na confiança social que
sustenta a vida política. Um capital que, segundo Bourdieu (2007, p. 188-9), “só pode ser
conservado mediante o trabalho constante que é necessário não só para acumular o crédito
como também para evitar o descrédito: daí toda a prudência, todos os silêncios, todas as
dissimulações...”.
O fato é que os escândalos não são processos simples, são eventos narrativos
prolongados afinal, como nos diz Thompson (2002, p. 102), “eles mostram também certa
estrutura sequencial, no sentido de que uma fase no desenrolar dos escândalos midiáticos é
previsivelmente seguida por outra. E o desdobramento dos escândalos midiáticos é
entrelaçado por um constante contar e recontar histórias”. E o autor nos diz que esta estrutura
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sequencial divide o escândalo em fases: a fase de pré-escândalo (as revelações inesperadas e
suas primeiras repercussões); a fase do escândalo propriamente dito (quando se coloca em
ação o processo de alegações e contra-alegações); a fase do clímax, ou desenlace (o escândalo
chega a seu ponto crítico); e, a fase das consequências (implicações resultantes do processo).
Neste trabalho não está em questão a busca de qualquer "verdade" por trás dos
discursos dos editoriais ou do presidente. Todos produzem formas simbólicas dotadas de
significados e mobilizadas para contestar ou sustentar determinada visão de mundo, ou seja,
todos revelam suas intencionalidades ideológicas. Não há porque, então, insistir em um
caminho que possa sugerir uma suposta "neutralidade descritiva" tanto do discurso
presidencial quanto do discurso do jornal. Então, quais os principais sentidos elaborados e
mobilizados pela Folha de S. Paulo, em seus editoriais, e pelas falas do Presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, em torno do escândalo do mensalão? Antes, algumas colocações acerca
da evolução da discursividade de Lula, até o momento de chegar ao poder.
2. A evolução da discursividade de Lula
Para vencer em 2002, Lula e o PT não contaram somente com o desgaste da
popularidade de FHC e o enfraquecimento da aliança PSDB-PFL. Enxergaram as vantagens
da política econômica vigente e também leram que os grandes anseios da população, naquele
momento, eram a retomada do crescimento e a geração de empregos, algo a que a conjuntura
internacional seria muito mais favorável pouco tempo depois. Mas, só esta leitura eficiente da
realidade não foi suficiente para explicar a vitória. Havia de ocorrer o combate a algumas de
suas principais fontes de rejeição. Isso nos leva para o terreno da discursividade e da imagem.
Na imagem, o marketing eleitoral levado a cabo no contexto das eleições contribuiu
decisivamente para o combate. Mas, talvez ele não tenha sido o passo decisivo e sim o último
numa trajetória de alteração de discursividade que já vinha ocorrendo há bem mais tempo,
talvez mesmo desde a derrota para Collor em 1989.
À época, falava-se muito de um suposto amadurecimento político da sociedade
brasileira que passava a "aceitar" Lula e o PT. Na realidade, esse "amadurecimento" tem que
ser contrastado com o processo de alteração na discursividade de Lula e com o marketing
eleitoral. Assim, a vitória em 2002 resulta, também, de um longo processo de escolhas no
sentido de capacitar o partido para chegar ao poder. Tentando resumir este processo recorro à
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Panke (2010). A autora nos diz que o discurso de Lula estaria dividido em três fases: uma fase
de extrema esquerda, uma fase de transição e uma fase de centro-esquerda, inaugurada com a
vitória nas eleições 2002. Panke (2010, p. 62-3) nos brinda com essa síntese:
Na fase de extrema esquerda, encontramos o sindicalista, o deputado federal e o
candidato à Presidência da República em 1989 cujo discurso era contra o
capitalismo, contra o governo e a favor da liberdade de expressão. Era o líder
"barbudo" dos metalúrgicos, inicialmente, e depois, representante do Partido dos
Trabalhadores... No que denominamos fase de transição, estão o líder petista e o
candidato derrotado pelo Plano Real em duas eleições presidenciais (1994 e 1998).
Há uma tentativa de reformulação de posicionamento e de imagem com o uso de um
discurso mais conciliador e ameno, bem como o Partido dos Trabalhadores começou
a ampliar o diálogo e as parcerias... Na fase de centro, está o resultado do processo
vivido por mais de uma década para amadurecer, tanto o candidato, quanto o
partido. É quando se divulga, em julho de 2002, a Carta ao Povo Brasileiro: um
conjunto de princípios que regeriam o governo Lula e que explicitam a aproximação
com a social democracia. Como consequência, a imagem reformulada e requintada
do candidato aliada a uma forma mais suave de expressão acaba marcando a
chegada do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República.
O que se viu a partir das derrotas em 1989, 1994 e 1998 foram sucessivos avanços
em direção a uma discursividade abrangente o que por sua vez, também exigia uma nova
imagem do PT e de Lula. É esse processo que vai se tornar vitorioso em 2002 quando há uma
combinação de elementos que favorecem a vitória de Lula: desgaste do governo Fernando
Henrique; crescimento econômico, geração de emprego e políticas sociais na pauta de
exigências da sociedade; e re-apresentação de Lula ao eleitor brasileiro. Falo "reapresentação" seguindo o que Panke (2010, p. 106) nos diz de um "novo" Lula.
A pregação pró-capitalismo, antes completamente recriminada por diversas alas do
PT, apareceu nessa campanha com evidente destaque. No programa de governo, por
exemplo, não se vislumbrou nenhuma citação nominal ao "socialismo" mas várias
menções ao termo "mercado".
É nesse sentido, então, que as tão criticadas "depuração interna" e "cultura de poder"
levadas a cabo nos anos 90 já apontavam para uma opção de Lula e do PT: sair dos limites
impostos por uma identificação "classista" e partir para o jogo político mais amplo onde as
alianças fossem mais abrangentes e onde o discurso tivesse um tom "nacional". É isso que
fica claro na disputa presidencial de 2002.
A cristalização desse combate às fontes de rejeição veio com o "lulinha paz e amor",
a isso somando-se a imagem de um Lula que circulava entre personalidades políticas do
mundo inteiro e que, definitivamente, trocara o macacão de torneiro mecânico pelos bem
cortados ternos de um político de sucesso. Mas, algo "mítico" permaneceria: sua sensibilidade
ao social sustentada pela sua vida de trabalho e lutas, e seu drama familiar. A re-apresentação
de Lula seria um sucesso... de público e crítica. É com base nesse contexto que Almeida
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(2006) mostra, com estatísticas, que Lula "encaixou-se" nos desejos do grande eleitor e este,
por sua vez, identificou-se àquele.
Já no governo, em seu início, entretanto, Lula mostrava-se tímido, parecia “esconderse” por trás do seu ministério, pouco falava e ainda tinha receio de seus improvisos. Parecia
intimidado com o poder e com a visibilidade oficial. Uma das maiores críticas ao presidente
Lula é que ele estaria fazendo um governo solitário, com muito pouco movimento pessoal.
Sua popularidade, nesse período inicial de 18 meses, oscilava em torno de 40% de ótimo e
bom. E, o primeiro semestre de 2005 tinha sido particularmente ruim do ponto de vista da
articulação política. Divisões internas no PT impediram a vitória para a presidência da
Câmara dos Deputados e o governo parecia ficar cada vez mais refém dos interesses
fisiológicos de sua própria base aliada.
Este era um conflito que vinha arrastando-se desde o início do governo. Tendo quase
que, por princípio, “governar sozinho” o PT impôs duras restrições até mesmo a partidos de
esquerda que participavam de sua coalizão. No Congresso, não buscou aliados em partidos
fortes, optou por partidos pequenos e que se contentassem com cargos secundários. Parecia
mais fácil adotar uma estratégia de estimular migrações partidárias para dar a estes partidos
maior robustez que permitisse ao governo ter uma base minimamente tranqüila.
É justamente em torno dos impasses e limites de uma articulação com esta
característica, de “pouca capacidade de negociação” com a base aliada, que vai surgir o
escândalo do mensalão. Repito, então, a questão antes citada: quais os principais sentidos
elaborados e mobilizados pela Folha de S. Paulo, em seus editoriais, e pelas falas do
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em torno do escândalo do mensalão?
3. A fase do pré-escândalo: a revelação e sua repercussão
O período vai da denúncia feita pela revista Veja em 14/05/05 até a primeira
entrevista de Roberto Jefferson, em início de junho. De fato, o ambiente estava carregado. E,
enquanto isso, as denúncias de corrupção apenas se insinuavam nas páginas da Folha de S.
Paulo. É neste cenário que a pauta vai, gradativamente, alterando-se. É um momento onde a
crise ainda não adquiriu a magnitude de um escândalo nem político, nem midiático, e ainda se
luta ferozmente em torno dessas denúncias, tentando-se fazer prevalecer uma postura
investigativa (Folha), ou desqualificá-las (governistas).
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De um lado, a tese de que era necessária uma CPI, de outro lado, a tese de que se
tratava de um "caso isolado" envolvendo um funcionário dos Correios e o PTB. A tese do
governo sustenta-se sobre o fato da solução já estar sendo encaminhada com a instauração de
inquéritos por parte da Polícia Federal e demissão de envolvidos. A "denúncia", então, só se
transforma em "escândalo" quando o governo se vê diante de pressões que denunciam a
tentativa de liberação de verbas para retirada de assinaturas para uma CPI. O golpe mais duro,
neste momento, vem com a seguida entrevista de Jefferson dando nome ao escândalo:
"mensalão". Nesse sentido, intimidado pelo impacto da entrevista, o governo recua
gradativamente. A tese de tratar-se de um "caso isolado" perde força e o governo se vê
envolvido nas denúncias.
4. O escândalo propriamente dito: a disputa simbólica
O período se inicia com a instalação da CPI (início de junho de 2005) e vai até o
momento de apogeu da "briga" entre Dilma e Palocci em torno da política econômica (fim de
novembro de 2005). É o momento da crise propriamente dita, o momento em que os embates
político e simbólico se apresentam e manifestam com maior intensidade revelando uma ida e
vinda de estratégias e táticas discursivas com a intenção de controlar os acontecimentos e se
tornar hegemônico diante da opinião pública. Temos os seguintes principais momentos:
"O governo está investigando" x "O governo tem que ser investigado"
06/06/05
07/06/05
08/06/05
09/06/05
Para o jornal, a entrevista de Jefferson abrevia ainda mais a distância entre o
presidente Lula e a crise política. O jornal passa a questionar: o presidente
sabia? O que fez para evitar a corrupção? Como resposta, o presidente inicia
uma "agenda positiva" com encontro com personalidade e celebridades.
Em discurso, o presidente continua exaltando o trabalho da Polícia Federal
e promete levar as investigações às últimas consequências.
O governo parte para medidas mais concretas, como mudanças em cargos
para acomodar aliados, mas não esquece da luta simbólica, pois neste dia o
presidente mostra que na história do país as instituições sempre foram alvo
de corrupção, mas que ele está fazendo a sua parte no combate.
Em editorial, o jornal reconhece o valor do discurso presidencial em levar,
mas acusa que veio "tarde demais" e que a CPI é um fato. O jornal chegar a
falar de uma possível "dissimulação" no discurso presidencial.
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"Não existem provas" x "O governo e o PT dissimulam"
12/06/05
13/06/05
14/06/05
15/06/05
O jornal repercute outra entrevista muito dura de Jefferson, e na capa,
sintetiza: "Dinheiro do 'mensalão' vinha de estatais e empresas, diz Jefferson".
O deputado isenta o presidente, mas não poupa o PT de nada e acusa
diretamente seus dirigentes. Em editorial, o jornal comenta os discursos do
presidente e diz que realmente a história está marcada por corrupção, mas o
governo, com seu discurso de "reforma política" só estaria desviando a
atenção das investigações. O jornal cobra do presidente a mesma "exigência
moral" dos tempos em que era oposição. A reação dos parlamentares é
imediata no sentido de classificarem o discurso de Jefferson como
"mentiroso" e "sem provas".
Em novo discurso, o presidente, além de enfatizar seu combate à corrupção,
traz um novo elemento simbólico para a cena: a crise é do Congresso e ele
precisa investigar, mas não pode parar o país por isso.
Em depoimento ao Conselho de Ética, Jefferson, ainda preservando o
presidente, confirma que todo o esquema era organizado por Delúbio a mando
de Dirceu e diz: "sai daí Zé".
Em editorial, fica cada vez mais claro que as palavras de Jefferson
adquirem um significado muito relevante para o jornal. Seguindo essa
linha, a não disposição do governo em levá-las a sério só aumentaria o
clima de "desconfiança" do próprio jornal contra o governo.
"Isso é golpismo" x "Lula e o PT são iguais a qualquer outro"
16/06/05
17/06/05
18/06/05
20/06/05
21/06/05
29/06/06
Em editorial o jornal acusa o governo de "dissociar-se" da perplexidade que
toma conta do país.
O título do jornal anuncia: "Mensalão derruba José Dirceu" e em editorial, o
jornal disse que o presidente sai do campo do discurso para a ação política.
O jornal elogia o convite feito a Dilma para a Casa Civil, pois vê aí um maior
apelo ao "gerenciamento técnico" e menos "político"
Entidades movimentos sociais divulgam a "Carta ao povo brasileiro"
denunciando um "golpismo" da direita contra o governo Lula, dado o caráter
"vazio" das acusações
Crescem as iniciativas do presidente Lula em direção a uma busca de apoio
político por parte do PMDB. O governo assume que a crise vai exigir uma
reordenação da base aliada e seu reforço. No mesmo dia, o presidente
anuncia: "ninguém é mais ético do que eu". Em editorial o jornal critica o
que chama de "fantasia conspiratória".
O jornal revela a fragilidade da capacidade de articulação política do governo
que anunciara o apoio do PMDB e este estaria negando-o. E faz uma
declaração profética: "Lula acredita que sua figura e suas palavras
possuem poderes encantatórios, capazes de transformar a realidade".
"Erramos e vamos consertar" x "O PT ético está liquidado"
30/06/05
Editorial denuncia que forças governistas estariam tentando "empurrar o lixo
para debaixo do tapete" ao evitar que o "mensalão" seja o principal tema a
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12/07/05
15/07/05
19/07/05
ser investigado.
Em editorial, o jornal decreta que aquele PT dos últimos anos, que parecia
honesto, está "liquidado"
O PT faz um mea culpa e, em seguida, Delúbio e Valério assumem que
utilizaram "caixa dois" na campanha. De imediato, o presidente, em entrevista
em Paris, também endossa a tese. Diz que se sentiu traído, que vai apurar
doa a quem doer, mas que se trata de um problema histórico.
O jornal faz uma pesada crítica ao que chama de uma "linha de defesa
orquestrada" para afastar-se o crime de corrupção.
"Voces não vão me fazer baixar a cabeça" x "Sua retórica é popularesca e fantasiosa"
20/07/05
22/07/05
24/07/05
29/07/05
03/08/05
O presidente intensifica sua agenda com setores mais pobres
O presidente aumenta o tom e diz que as elites não o farão baixar a cabeça.
Analisando o período o jornal percebe a capacidade de sobrevivência popular
do presidente e denuncia a "retórica populista".
O jornal, diante do fato do PSDB assumir que houve um esquema de
financiamento na campanha de Azeredo em 1998, denuncia a possibilidade de
um "acordão" para reduzir danos políticos.
Em discurso, o presidente comenta o medo que a oposição tem das eleições e
diz que "vão ter que me engolir". Há, cada vez mais, uma radicalização na
discursividade.
"Esta crise não pode prejudicar o país" x "O presidente só desvia o assunto"
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02/09/05
14/09/05
29/09/05
11/10/05
O jornal traz denúncias de ex-assessor contra o ministro Palocci. E o governo
é denunciado por "blindar" o ministro. Surgem as primeiras sérias
preocupações com o mercado e a economia. O próprio jornal e a oposição
seguem esta linha de raciocínio.
Diante do marasmo nas investigações e da pouca disposição da oposição, o
jornal denuncia o clima de paralisia e espetáculo que toma conta do
Congresso e das CPI's
Diante da aprovação do pedido de cassação de Jefferson o jornal diz esperar
que sua cassação seja apenas a primeira de uma série. No dia seguinte cobra o
mesmo para Azeredo.
Jeferson é cassado e mais uma vez envolve o presidente na crise, chamandoo de "malandro" e "preguiçoso". O jornal aplaude a cassação e pede o
seguimento dos processos.
O jornal denuncia de forma mais incisiva que o tema do caixa dois é um
"desvio semântico". Neste dia Aldo Rebelo é eleito presidente da Câmara e
muitos esperam que as investigações diminuam ainda mais. Para o jornal é
mais um exemplo da decadência da ética do presidente.
O presidente faz defesa aberta dos envolvidos ao dizer que podem ter errado
na questão do caixa dois, mas que isso não os transforma em corruptos.
"Eu estou aqui para cuidar do país" x "O PT perdeu sua identidade"
01/11/05
O jornal continua repercutindo as novas denúncias contra Palocci e também as
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23/11/05
31/11/05
acusações da Revista Veja a respeito de dólares cubanos para o
financiamento da campanha de Lula. O conflito político e simbólico se acirra.
Denúncias dão conta que recursos do Banco do Brasil serviam para abastecer
o valerioduto. Diante das negativas do presidente o jornal define sua postura
como de "alienação".
Em entrevista o presidente define o mensalão como um "folclore" e que o
"misere" de Cuba não permitiria que enviasse auxílio financeiro para nenhum
país do mundo.
Ao comentar que o governo não conseguiu impedir a prorrogação da CPI o
jornal define o fato como uma "grave derrota".
O jornal afirma que a prorrogação da CPI complica os objetivos eleitorais do
presidente.
Cada vez mais "discussões" entre Palocci e Dilma / José Dirceu levam a crise
para o terreno da economia.
Palocci vai prestar esclarecimentos na Comissão de Assuntos Econômicos do
Senado e não enfrenta nenhum constrangimento da oposição. Começa a entrar
em cena o "Partido da Economia". A "briga" com Dilma atenua a crise
política.
O presidente atua como um "apaziguador" entre Palocci e Dilma e seus
discursos são cada vez mais ocupados pelo tema do desenvolvimento do país.
José Dirceu é cassado. É o fim do ciclo "cortar na própria carne" e o fim,
gradativo, da crise "política".
5. O anticlímax: o esvaziamento da luta política e simbólica
O período se inicia com a cassação de Dirceu (31/11/05) e segue em direção
ao esvaziamento gradativo. É o momento em que a crise política e simbólica depois de atingir
seu ponto mais alto de efervescência começa a declinar em intensidade e encaminhar-se para
o desenlace final. Temos os seguintes principais momentos:
"Errar é humano... e eles já foram punidos"
A CPI dos Correios divulga seu relatório apontando para a existência do
mensalão.
O presidente da CPI dos Correios, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) sugere a
Lula que leia o relatório, pois trás informações muito relevantes. No mesmo dia,
22/12/05
o presidente da Câmara, Aldo Rebelo diz não acreditar na existência do
mensalão, por falta de provas.
A ministra da Casa Civil Dilma Rousseff também afirma que da CPI não saiu
23/12/05 nenhuma prova que confirme o mensalão. Lula, por seu lado, diz que é vítima de
inveja e rancor por parte da oposição e prevê uma guerra-santa em 2006 nas
21/12/05
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eleições. No mesmo dia, em discurso, o presidente Lula adota, definitivamente,
uma dinâmica conflitiva em seu discurso ("nós versus eles"). A temáticas das
eleições ocupa cada vez mais as atenções. Gradativamente, o conflito
"simbólico" em torno do mensalão vai perdendo força.
Lula concede entrevista à Rede Globo. Confrontado, diz que ainda não leu o
01/01/06
relatório final e diz que os erros que houveram já foram punidos.
Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios adverte para o
03/01/06
surgimento de um "acordão" que só traria mais descrédito aos políticos.
6. Considerações Finais
Sustentada na crença de que, em se tratando de cobertura política, o normal é uma
postura investigativa, a Folha se destacou por apresentar uma cobertura fortemente
denunciativa. O centro do escândalo sempre foi a "corrupção", manifestada no "mensalão" e,
para caracterizá-lo como algo que merecesse investigação o jornal desenvolveu tramas e
subtramas que envolviam parlamentares da base aliada, lideranças do PT, ocupantes de cargos
de 1º escalão do governo Lula, amigos do presidente, e o próprio presidente.
A narrativa seguiu várias trilhas. Inicialmente se apoiou nas denúncias de Roberto
Jefferson, partiu para a investigação de conexões as mais diversas, cobrou efetivamente de
parlamentares, comissões e, inúmeras vezes, se colocou frente a frente às palavras do
presidente. Sempre defendeu a tese de que a crise política originava-se pelos crimes de
corrupção envolvidos na transferência de recursos (privados e públicos) para parlamentares do
Congresso Nacional tendo em vista a formação de uma base de apoio político ao governo.
Desse modo, sempre recusou a tese de que tudo não passou de uso de recursos "não
contabilizados" para o financiamento de campanhas eleitorais, ou seja, "caixa dois".
Mas, e quanto ao presidente da Republica? Sem dúvida, passou a maior parte do
tempo na defensiva, o que era natural, pois como resultado de depoimentos e investigações os
assuntos sempre respingavam nele, ou então, ele sempre vinha à tona na tentativa de fazer
defesas ou fornecer explicações. O fato é que acabou tendo que desenvolver inúmeras
estratégias e construções simbólicas que lhe permitiram não só explicar quando interrogado
mas, continuar de pé, as vezes, cambaleando, quando se via em situações mais críticas. Que
recursos simbólicos principais foram estes? É o que se aponta a seguir.
a) Operações discursivas visando à legitimação ("não tenho nada a ver com isto") - O
recurso mais utilizado, quase repetidamente, durante a crise do mensalão, foi o da
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"narrativização". Aqui, o presidente constrói uma explicação para as denúncias e para o
escândalo. É com este recurso que o presidente "conta" a sua versão dos fatos na tentativa
de manter ou resgatar o capital simbólico perdido ao longo da crise. Com sua "explicação"
o presidente luta para que se esgote o entendimento sobre a crise. Como se traduziu esta
narrativização em seus discursos? Dessa forma: A corrupção é vista como uma constante
na história do país, mas, apesar disto, nenhum governo a enfrentou mais, para isto é só
ver os resultados das ações da Polícia Federal, por exemplo. E, se as denúncias têm
aparecido na imprensa é justamente porque o governo as tem combatido incessantemente.
Agora, se por outro lado, acusam o governo de algo é por preconceito contra um
presidente que vem da gente pobre, da gente comum, que está mudando a cara deste país.
Trata-se de uma narrativização que se utiliza também do recurso da "racionalização" e da
"universalização", ou seja, o presidente montou uma cadeia de raciocínio que explicou
uma determinada situação e lutou, através da repetição, para que ela se tornasse
hegemônica. Outro exemplo deste conjunto de recursos está presente na fórmula, também
muito repetida, de que o procedimento correto da crise seria: a CPI apura, o Ministério
Público indicia e a Justiça pune, então, o que o presidente tem a ver com isto? Na
construção deste modo de operação o presidente ainda se utilizou largamente de
estratégias de "naturalização" (recorrendo à história para mostrar que certos problemas são
"assim mesmo") e de "eternalização" ("ninguém é mais ético que eu" e "nunca na história
desse país");
b) Operações discursivas visando à dissimulação ("não quero discutir se eu sabia ou não")
– Aqui a dissimulação ocorre não na forma de "negar" (acusações) ou "ocultar" (fatos e
erros), mas de não discutir dentro do contexto proposto, pela Folha, por exemplo, criando
novas representações que obscurecem o teor do que está, efetivamente em questão. O
maior exemplo está na seguinte questão: "se todos os indícios vão na direção de crimes de
corrupção, o que nós vamos discutir, entretanto, é sobre o caixa dois".
c) Operações discursivas visando à unificação - fragmentação ("nós versus eles") - Os
recursos mais utilizados são, simultaneamente, o da "padronização" e o da "diferenciação"
e "expurgo do outro". No primeiro caso, o presidente reforça um sentimento de pertença
que visa uma total identificação com determinados grupos sociais. Aí estão envolvidos
recursos como conversar sobre casos corriqueiros, exemplos da vida pobre, piadas,
comentários sobre o futebol, etc. Nesse momento, o presidente diz: "Eu sou igual a
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voces...". Nos outros dois casos, o presidente faz o mecanismo que complementa e reforça
a primeira operação, ou seja, ele identifica os inimigos, os adversários, os outros que são
diferentes. Nesse momento, o presidente diz: "... e nós somos diferentes deles". Foi muito
fácil identificar que, no auge da crise, o presidente falava para vários auditórios e públicos
distintos, mas praticamente o discurso era o mesmo.
Um discurso presidencial que praticamente sintetiza grande parte dos recursos de
construção simbólica utilizados foi a entrevista que deu em Paris, no mesmo período em que
Delúbio inaugura a tese do "caixa dois", Valério a confirma e o PT divulga uma "autocrítica". Foi um discurso emblemático, pois passava a delimitar o terreno discursivo sobre o
qual o presidente iria trilhar, em grande parte.
Jornalista: Infelizmente, o Brasil atravessa uma nova crise política. Nós já
atravessamos outras crises no passado, ligadas à corrupção... Quando é que o Brasil
vai se livrar definitivamente dessa doença...?
Presidente: ... tem um problema grave, porque toda vez que você combate a
corrupção, ela aparece mais na imprensa e passa para a sociedade a impressão de
que tem mais corrupção exatamente porque você está combatendo... as últimas
pesquisas mostraram que o governo teve um crescimento na opinião pública. Isso
significa que o povo brasileiro está sabendo distinguir bem o que é denúncia
verdadeira, o que o governo está apurando e o que é peça de discurso de pessoas que
querem fazer discurso... O Congresso Nacional tem uma CPI que vai funcionar até
outubro, portanto, até outubro nós vamos ter ainda muita gente sendo ouvida, muita
denúncia. Algumas serão verdadeiras, porque terão nomes, e aí você terá como
investigar. Outras serão ilações que você, muitas vezes, não tem como investigar.
Depois que a CPI terminar o trabalho dela, vai ter que mandar isso para o Ministério
Público e o Ministério Público então vai decidir o que fazer com o resultado...
Jornalista: O senhor acredita que há males que vêm para o bem?
Presidente: A minha tese é que nós precisamos aproveitar esse momento... para
criarmos mais mecanismos de proteção do Estado brasileiro e vamos fazer. Goste
quem gostar, doa a quem doer, nós vamos continuar sendo implacáveis na apuração
da corrupção...
Jornalista: O senhor foi criador do PT... Eu queria saber onde foi que o pai, Lula,
errou?
Presidente: ... a minha tese é que o PT tem que explicar para sociedade brasileira
que erros cometeu. Na medida em que o PT trocou a Direção, agora, tem uma nova
Direção, e essa nova Direção está fazendo uma auditoria interna no PT, e o Tarso
Genro tem esse compromisso, de explicar para a sociedade onde o PT errou, por que
o PT errou, e como é que vai fazer para consertar aquilo que foi o erro cometido
pelo PT. O que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil
sistematicamente...
Jornalista: Mas Vossa Excelência estima que tem alguma culpa nessa crise do PT e
do país?
Presidente: Não. Já faz tempo que deixei de ser presidente do PT. Fui presidente
durante três anos. Depois que eu virei presidente da República, eu não pude mais
participar das direções do PT, não pude mais participar das reuniões do diretório do
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PT, e o PT tem muita autonomia com relação ao governo. E o governo tem mais
autonomia ainda com relação ao PT...3.
O roteiro da entrevista permitiu ao presidente Lula expor sua "narrativização"
enquanto estratégia de construção simbólica visando uma "legitimação". O presidente constrói
uma versão completamente distinta do que vem sendo divulgado pela mídia. E, nessa sua
versão, há uma "estória" a contar. Por exemplo: a corrupção é naturalizada na história do
Brasil; o governo em questão luta como nenhum outro contra esse mal; o presidente detalha
como deve ser o procedimento das instituições: o Congresso apura e depois o Ministério
Público decide o que fazer com o resultado; independente de tudo isso, o governo vai
promover e mudanças necessárias para o aperfeiçoamento institucional; a culpa é do PT, mas
não do partido, e sim da direção do partido; a direção do partido errou e tem que se explicar;
errou em que? em fazer aquilo que sempre se fez no Brasil, mas como o PT é um partido ético
ele tem que assumir o erro e explicar-se para a sociedade; o que o presidente tem a ver com
tudo isto? Nada! A narrativização está completa, e o presidente iniciava sua descolagem em
relação ao PT.
O escândalo teve um fim "político" quando José Dirceu foi cassado e encerrou a
promessa do presidente de "cortar na carne", teve um fim "simbólico" quando, diante da
polemica acerca da economia, criou-se um consenso que esvaziou a vontade de investigação e
quando o discurso de caixa dois parecia acomodar-se a quase todos os interesses em disputa,
mas e quanto ao fim "judicial"? Esse ainda não chegou. Mas, o fato é que, em agosto de 2011
prescrevem os crimes de formação de quadrilha e corrupção. Crime que foi muito citado
quando o STF acolheu a denúncia, criando, inclusive, forte expectativa de uma solução
judicial, qualquer que fosse. Mas, judicialmente, o "mensalão" pode deixar de ser o foco e
prevalecerá a tese do "esvaziamento" também no âmbito da justiça. Concretamente, os tempos
da mídia, da política e da justiça não andam no mesmo ritmo.
Vivemos um momento em que o "simbolismo" presente na ação das instituições merece
ser mais bem estudado para não cairmos o risco de vivermos uma situação de constante
dissociação com a realidade, acreditando que a ação das instituições não estão repletas de
intencionalidades ideológicas. As "palavras" merecem atenção.
Mas, e quanto à nova discursividade inaugurada pelo presidente? É claro que a
defesa dos mais pobres sempre esteve presente na discursividade do presidente, mas, no
3
Entrevista do Presidente da República à jornalista Melissa Monteiro (TV Francesa) em Paris, Paris-França,
15/07/05 e exibida no Programa Fantástico em 17/07/05, disponível em: http://www.info.planalto.gov.br/
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contexto da crise do escândalo do mensalão ela passa a ter uma importância decisiva para
marcar um território que se transformaria em principal ponto de refúgio e acúmulo de forças.
O "nós versus eles" toma conta, gradativamente, do centro da discursividade, criando uma
dinâmica conflitiva que se fará presente por todo o resto do seu 1º seu governo e todo o 2º
mandato. Neste quesito, portanto, é possível identificar que, discursivamente, o período de
governo do presidente Lula se divide em antes e após o mensalão.
Anteriormente, a estratégia do lulinha paz e amor havia possibilitado ao presidente,
e, em parte ao PT, uma amenização do tom crítico e transformista. Então, por que a
predominância, a partir da crise do mensalão, de um discurso de "nós" x "eles" quando, até
então, nada indicava essa mudança de rumo?
A hipótese, portanto, de uma alteração na rota discursiva do presidente, a partir da
conjuntura do escândalo do mensalão, deve ser considerada. E, uma vez considerada, exige
que se nomeie o que veio depois do lulinha paz e amor. Desse modo, pode-se levantar a
hipótese de que, a partir da conjuntura crítica do escândalo do mensalão uma alteração na
discursividade que implicou não somente mudança de tom, mas de conteúdo e destino
ocorreu. É para os mais pobres que, agora, o presidente Lula se dirige, especialmente, ao falar.
É nesses setores que vai buscar as condições de sua nova legitimidade. Não exclusivamente
neles, é evidente, mas, principalmente neles. Para os demais grupos, o conservadorismo
econômico vai fazendo surtir seus efeitos, com crescimento e novas oportunidades de
emprego e renda. E, por sobre este amplo pano de fundo, a discursividade do lulinha paz e
amor, inclusiva e abrangente, que já havia sido ferida de morte pelo escândalo do mensalão,
vai dando lugar ao que, hipoteticamente, poderíamos chamar de “lulismo”, ou seja, uma nova
discursividade sustentada, principalmente, sobre uma dinâmica conflitiva caracterizada pelo
nós versus eles.
Se o lulinha paz e amor tinha significado um severo baque na discursividade
“classista” tradicional do presidente e do PT, com o “lulismo” vemos um resgate de uma
discursividade conflitiva, embora não nitidamente classista, pois qualquer referência à classe
social é substituída pela figura do "pai protetor". Então, uma dinâmica não "classista", mas
"conflitiva" por certo, com a identificação das "elites" e da "mídia" como adversários.
Mas, esta hipótese do "lulismo" implicaria apenas em uma nova discursividade, uma
nova retórica? Não. Nos é evidente que, para ter sucesso político e simbólico essa nova
discursividade teve um suporte concreto: o crescimento material da sociedade, como um todo.
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Para as elites ganhos financeiros elevados, para as classes médias expansão econômica, para
os setores populares inclusão no mercado consumidor, para os mais pobres ajuda financeira
direta. Tudo isto possibilitado por um conjunto de condições nacionais e internacionais que
permitiram essa expansão material.
Então, expansão material do conjunto da sociedade, auxílio financeiro direto aos
mais pobres, suporte eleitoral nos menos "organizados" e uma discursividade conflitiva
sustentada no "nós versus eles" daria forma à hipótese que denominamos de "lulismo".
Nesse sentido, a conjuntura de crise do escândalo do mensalão não foi
exclusivamente política, ela também foi simbólica, significou perda de capital político e
simbólico, mais tarde recuperado elo presidente sob outras condições. Da mesma forma que a
discursividade do "lulinha paz e amor" foi forjada sob o impacto da realidade e perdas
eleitorais, a discursividade do "lulismo" foi forjada também sob o impacto da realidade e uma
severa perda de capital político e simbólico. Se com o "lulinha paz e amor" o político Lula se
destacava e tornava-se maior que o partido, com o "lulismo" o presidente Lula se descolava
do PT e tornava-se o protagonista praticamente único.
Sobre o termo "lulismo", evidentemente, há muito que se falar. E o que estamos
propondo é apenas uma hipótese para dar significado a um determinado momento histórico da
política brasileira. Então, o termo está aí, como uma sombra que se insinua e chama a atenção,
que reflete algo, mas que não se sabe exatamente o contorno, mas que vai exigir sempre
explicações mais robustas.
BIBLIOGRAFIA
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Portugal). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, 10ª edição.
CHAIA, Vera Lúcia M. Jornalismo e Política: escândalos e relações de poder na Câmara
Municipal de São Paulo. São Paulo: Hacker, 2004.
PANKE, Luciana. Lula – Do sindicalismo à reeleição: um caso de comunicação, política e
discurso. Guarapuava: Unicentro; São Paulo: Horizonte, 2010.
THOMPSON, John B. Ideologia e Cultura Moderna: Teoria Social Crítica na Era dos
Meios de Comunicação de Massa. Tradução Grupo de estudos sobre Ideologia,
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da PUCRS. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
____________. O Escândalo Político: Poder e Visibilidade na Era da Mídia. Tradução
Pedrinho A. Guareschi. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
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A disputa pelo poder simbólico no escândalo do