José Paulo Paes - Vamos brincar de poesia?
"Como dizia aquele bem-te-vi que ficou míope: "bem te via ... bem te via ..." No Em Revista dessa edição, vida , obra e
ensaios do poeta José Paulo Paes. ( Leia completo)
Índice :
Pág. 01 - Ensaio : Um lugar para José Paulo Paes, por Régis Bonvincino
Pág. 02 - 50 poemas de José Paulo Paes
Pág. 03 - Ensaio : O jogo verbal em José Paulo Paes, por Maria Teresa Gonçalves Pereira
Pág. 04 - Vida e Obra
UM LUGAR PARA JOSÉ PAULO PAES
José Paulo Paes morreu em 8 de outubro de 1998, um ano e um dia exatamente antes que João Cabral de Melo Neto,
morto em 9 de outubro de 1999. A morte dos dois teve repercussões diversas: a de Cabral imensa, com jornais e
revistas, especializadas ou não, oferecendo-lhe capas e cadernos inteiros ; a de Paes, discreta, mesmo quando algum
veículo chegou-lhe a dar registro mais visível. Paradoxal: quando vivo, Paes estava constantemente na "media" e Cabral
não.Há cerca de um ano, lastimei, com amigos, o "desaparecimento" de Paes das menções e citações, por parte de críticos
e poetas, sua ausência das listas (mesmo sabendo-as perecibilíssimas) de "melhores" - uma espécie de morte da
morte da qual ora ele se resgata por meio do lançamento de "Socráticas" e de "Vejam como eu sei escrever", este
infantil, dirigido a crianças e adolescentes."Socráticas" reúne peças que estava escrevendo para o que seria um livro
novo de poemas, com esse título e certa organização. É, portanto, inconcluso. Não se pode lê-lo sem pensar que seu autor
morreu antes de terminá-lo. Seriam pois as tais um tipo de "memórias póstumas". Seu "tom" não diverge do de "Vejam
como eu sei escrever", concluido ainda em 1998, antes de sua morte física. Nos dois volumes, Paes adota uma dicção
simples, direta, numa linguagem quase unívoca, como se nos quisesse deixar "membretes", recados. Assim, filiá-los à
esta ou àquela tendência literária é pura tolice ou mera capacidade de "incompreensão".A palavra "recado" vem do
latim: recapitu, recapitare, receptare, que quer dizer "receber", "acolher" e "recuperar". Fixo-me na acepção de
"recuperar". Paes quis, com suas "Socráticas", recuperar, para a poesia também, certos valores éticos. Esta é a
inflexão que torna extremamente legíviel o conjunto: a cívica, de protesto contra os (des) valores atuais da sociedade.
Leia-se por exemplo "Apocalipse": "o dia em que cada / habitante da China / tiver o seu volksvagen". Ou o verso "Quem
já não passou por isso?", de "Fenomenologia da resignação". Nunca é demais, nestes tempos de apagões e corrupções,
transcrever um texto como "Do credo neoliberal": "laissez faire / sauve qui peut!". É contra este sentimento de "salve-se
quem puder" que se volta o poeta, tanto em "Socráticas", quanto em "Vejam como eu sei escrever", trabalho que
civicamente tenta captar a atenção das crianças para o verbo e a palavra, numa perspectiva de "solidariedade".Entre as
peças de "Socráticas" destacaria duas. A primeira, "Lição de coisas" : "Uma nêspera branca! / transtornou-se acaso a
ordem do universo? / Mordo-lhe a polpa: o mesmo / gosto das nêsperas amarelas. / Tudo é superfície". Aí, a linguagem
simples encontra coerência filosófica, materializando-se: a impossibilidade do habitar-se em profundidade tanto a coisa
(o mundo) quanto a palavra. O poema registra a fragilidade fraudulenta das mudanças contemporâneas e aponta para a
impotência da poesia: nêspera branca, que nada transtorna. A outra peça seria "Momento": "Visto assim do alto / no
cair da tarde / o automóvel imóvel / sob os galhos da árvore / parece estar rumo / a algum outro lugar / onde abolida a
própria / idéia de viagem / as coisas pudessem / livremente se entregar / ao gosto inato / da dissolução - e é noite". A
imobilidade do objeto (automóvel), flagrada, leva o poeta a imaginar para ele um outro tipo de percurso, o de coisa pura,
que adquire um ritmo natural e se dissolve, mas, na noite. Aqui reaparece a questão ética: a da mecanicidade do
mundo, de sua falta de reflexão.Da interdição da reflexão livre: a imagem da noite, plurívoca, interronpendo o rumo "a
algum outro lugar"."Vejam como eu sei escrever" é igualmente, como já se disse, um livro cívico. Diz às crianças que
"escrever" não é difícil e procura afastá-las do óbvio mundo das imagens. É feito de estranhamentos: "O elefante não dá
muito trabalho ao dentista / do zoológico porque só tem dois dentes". Os dois livros colocam questão para a poesia: como
reunir, num só trabalho, ética e estética, mundo e linguagem ?. A obra de Paes é um das respostas possíveis para esta
equação e, certamente, merece permancer.
Régis Bonvicino
( Artigo gentilmente cedido pelo autor ao LetraseLivros)
Sobre o autor :
RÉGIS BONVICINO nasceu na cidade de São Paulo, em 25 de fevereiro de 1955. Formou-se em Direito pela USP, em
1978. Trabalhou como articulista do jornal Folha de S. Paulo e de outros veículos até ingressar na magistratura, em
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1990. É casado, desde 1992, com a psicanalista Darly Menconi e tem três filhos: João, 27, Marcelo Flores, 20, e Bruna,
14.
Seus três primeiros livros, Bicho papel (1975), Régis Hotel (1978) e Sósia da cópia (1983) foram por ele mesmo editados.
Hoje, estão reunidos no volume Primeiro tempo (Perspectiva, 1995).
Entre suas participações em leituras de poesia destacam-se as atuações em Buenos Aires (1990); Miami (Miami Book Fair,
1992); Copenhague (1993); na III Bienal Internacional de Poetas em Val-de-Marne (1995), fazendo leituras em Paris
(Maison de La Amerique Latine) e Marselha (Centro Internacional de Poesia); Berkeley (1996), com Michael Palmer, e
na San Francisco State Universty. Em 1998, apresentou-se com Charles Bernstein no Segue Performance Foundation,
de Nova York; no ano de 1999 esteve em Santiago de Compostela, na Universidade de Santiago. Fez leituras em Iowa
City (2000), com Michael Palmer, e em Chicago; participou do IV Encontro Internacional de Poetas de Coimbra (2001).
Destaca-se ainda sua participação na Feira do Livro da Cidade do México (2004). Seu trabalho está traduzido para o
inglês, espanhol, francês, chinês, catalão, finlandês e dinamarquês.
Entre 1975 e 1983, dirigiu as revistas de poesia Qorpo Estranho – com três números –, Poesia em Greve e Muda.
Fundou, em 2001, e co-dirige, ao lado de Charles Bernstein, a revista Sibila (http://www.sibila.com.br), publicada
atualmente pela Martins Editora.
http://regisbonvicino.com.br
50 Poemas de José Paulo Paes
1) Acima de qualquer suspeita
a poesia está morta
mas juro que não fui eu
eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladmir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume appolinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos
não adiantou nada
em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense
porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido
nem eu
2) Passarinho fofoqueiro
Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra émuito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca..
xô , passarinho! chega de fofoca!
3) Acidente
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Atirei um pau no gato,
mas o gato
não morreu,
porque o pau pegou no rato
que eu tentei salvar do gato
e o rato
(que chato!)
foi quem porreu.
4) Convite
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
5) Raridade
A arara
é uma ave rara
pois o homem não pára
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode voar pelo céu.
E se o homem não pára
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara.
6) HINO AO SONO
sem a pequena morte
de toda noite
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como sobreviver à vida
de cada dia?
7) AO ESPELHO
O que mais me aproveita
em nosso tão freqüente
comércio é a tua
pedagogia de avessos.
Fazem-se em nós defeitos
as virtudes que ensinas:
o brilho de superfície
a profundidade mentirosa
o existir apenas
no reflexo alheio.
No entanto, sem ti
sequer nos saberíamos
o outro de um outro
outro por sua vez
de algum outro, em infinito
corredor de espelhos.
Isso até o último
vazio de toda imagem
espelho de um si mesmo
anterior, posterior
a tudo, isto é, nada.
8) DÚVIDA
Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver de seu dono.
Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?
9) Madrigal
Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.
DE NOVAS CARTAS CHILENAS (1954)
11) L'Affaire Sardinha
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente na eucaristia.
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E como um dia faltasse
Pão do bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente.
DE EPIGRAMAS (1958)
12) Bucólica
O camponês sem terra
Detêm a charrua
E pensa em colheitas
Que nunca serão suas.
DE RESÍDUO (1980)
13) Epitáfio para Rui
... e tenho dito
Bravos!
(mas o que foi mesmo que ele disse?)
14) Um Sonho Americano
CIA limitada
DE CALENDÁRIO PERPLEXO (1983)
15) A Verdadeira Festa (12 de junho - namorados)
mas pra que fogueira
rojão
quentão?
basta o fogo nas veias
e a escuridão
coração.
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DE A POESIA ESTÁ MORTA MAS JURO QUE NÃO FUI EU (1988)
16) Curitiba
O inventor no estado
era um pinheiro inabalável
inabaláveis pinheiros igualmente
o secretário da segurança pública
o presidente da academia de letras
o dono do jornal
o bispo o arcebispo o magnífico reitor
ah se naqueles tempos
a gente tivesse
(armando glauco dalton)
um bom machado!
17) Pisa: A torre
em vão se inclinas pedagogicamente
o mundo jamais compreenderá a abliqüidade dos
bêbados ou o mergulho dos suicidas.
18) auto-epitáfio n.2
para quem pediu sempre
/tão pouco
o nada é positivamente
/um exagero.
poema publicado na f. de são paulo - 18/10/98
19) DECLARAÇÃO DE BENS
meu deus
minha pátria
minha família
minha casa
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meu clube
meu carro
minha mulher
minha escova de dentes
minha vida
meu câncer
meus vermes
20) CANÇÃO DE EXÍLIO FACILITADA
lá ?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...
cá ?
bah!
21) 1º de janeiro
BRINDE
ano novo: vida
nova
dívidas novas
dúvidas novas
ab ovo outra
vez: do revés
ou talvez (ou
ao tanto faz como fez)
hora zero: soma
do velho?
idade do novo?
o nada: um ovo
salve(-se) o ano ano novo!
22) O SEGUNDO IMPÉRIO
Sejamos filosóficos, frugais,
Eruditos, ordeiros, recatados
Um casebre, se digno, vale mais
Que palácio de alfaias atestado.
Sejamos sobretudo liberais
E, ao figurino inglês afeiçoados,
Tolerantes, medíocres, legais,
Por jeito d'alma e por razões de Estado.
Sejamos, na cozinha, escravocratas,
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Mas abolicionistas de salão:
A dubiedade é-nos virtude grata.
Com ela se garante bom quinhão
Dessa imortalidade compulsória
Que é justiça de Deus na voz da História.
23) A MARCHA DAS UTOPIAS
não era esta a independência que eu sonhava
não era esta a república que eu sonhava
não era este o socialismo que eu sonhava
não era este o apocalipse que eu sonhava
24) ÁLIBI
se os poetas não cantassem
o que teriam os filósofos a explicar ?
25) O ÚLTIMO HETERÔNIMO
o poema é o autor do poeta
26) TROVA DO POETA DE VANGUARDA
OU
THE MEDIUM IS THE MASSAGE
se me decifrarem
recifro
se me desrecifrarem
rerrecifro
se me desrrerrecifrarem
então
meus correrrerrecifradores
serão
27) ORAÇÃO DO PUBLICITÁRIO
louvado seja o santo anunciante
jamais usaremos seu nome em vão
28) DE SENECTUTE
já antecipa a língua
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afeita à alegoria
na carne da vida
o verme da agonia
já tritura o olho
no gral da apatia
o carvão da noite
a brasa do dia
já se junta um pé
a outro em simetria
de viagem além
da cronologia
já por metafísico
o medo anuncia
sua máquina de espantos
à alma vazia
29) A Casa
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
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E no telhado um menino medroso que espia todos eles;
só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
30) O aluno
São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.
Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.
São meus também, os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.
Drummond me empresta sempre o seu bigode,
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.
(in O Aluno, 1947
31) Lápide para um poeta oficial
a morte enfim torceu
o pescoço à eloqüência
(in Meia Palavra, cívicas, eróticas e metafísicas, 1973)
32) Neopaulística
pelo mesmo tietê
onde outrora viajavam
bandeirantes heris
só viajam agora
os dejetos: bandeira
de seus filhos fabris
(in Resíduos, 1980)
33) Epitáfio
poeta menormenormenormenormenor
menormenormenormenormenor enorme
(in Calendário Perplexo, 1983)
34) Descartes e o computador
Você pensa que pensa
ou sou eu quem pensa
que você pensa?
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Você pensa o que eu penso
ou eu é que penso
o que você pensa?
Bem, vamos deixar a questão em suspenso
enquanto você pensa e já pensa
e eu peno se ainda penso.
35) Momento
Visto assim do alto
no cair da tarde
o automóvel imóvel
sob os galhos da árvore
parece estar rumo
a algum outro lugar
onde abolida a própria
idéia de viagem
as coisas pudessem
livremente se entregar
ao gosto inato
da dissolução - e é noite.
36) A Verdadeira Festa (12 de junho - namorados)
mas pra que fogueira
rojão
quentão?
basta o fogo nas veias
e a escuridão
coração.
37) Curitiba
O inventor no estado
era um pinheiro inabalável
inabaláveis pinheiros igualmente
o secretário da segurança pública
o presidente da academia de letras
o dono do jornal
o bispo o arcebispo o magnífico reitor
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ah se naqueles tempos
a gente tivesse
(armando glauco dalton)
um bom machado!
38) CANÇÃO DO ADOLESCENTE
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
39) OUTRO RETRATO
O laço de fita
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que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.
Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.
Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.
40) À TINTA DE ESCREVER
Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhas
mais duradouro o pergaminho
onde pudesses, arte longa em vida breve
inscrever, vitríolo o epigrama, lágrima
a elegia, bronze a epopéia.
Mas já que o duradouro de hoje nem
espera a tinta do jornal secar,
firma, azul, a tua promissória
ao minuto e adeus que agora é tudo História.
41) Poética
Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
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A posse é-me aventura sem sentido.
56 compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu
42) MUNDO NOVO
Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de
espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a
terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.
43)
A torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)
A luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
A porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro).
O Poeta...
44)
"Poesia
é brincar com as palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
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bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam."
45) CANÇÃO DO EXÍLIO
Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.
Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.
Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.
Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.
Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.
Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.
( "Prosas seguidas de Odes Mínimas" (Companhia das Letras, 1992)
46)
Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.
47)
Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
48)
Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo
não há pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.
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49) DRUMMONDIANA
Quando as amantes e o amigo
Te transformarem num trapo
Faça um poema,
Faça um poema, Joaquim!
50) CANÇÃO SENSATA
Dora, que importa
O juiz que escreve
Exemplos na areia,
Se livres seguimos
O rastro dos faunos,
A voz das sereias?
Dora, que importa a herança do avô
Sobre a pedra, nua,
Se do ar colhemos
Moedas de sol,
Guirlandas de lua?
De maior beleza
É, pois, nada prever
E à fina incerteza
De amor ou viagem
Abrir nossa porta.
Dora, isso importa.
51) DÚVIDA REVOLUCIONÁRIA
ontem foi hoje?
ou hoje é que é ontem?
52) AOS ÓCULOS
só fingem que põem
o mundo ao alcance
dos meus olhos míopes.
já não vejo as coisas
como são: vejo-as como querem
que eu as veja.
logo, são eles que vêem,
não eu que, cônscio
do logro, lhes sou grato
por anteciparem em mim
o édipo curioso
de suas próprias trevas.
53) À BENGALA
contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.
54) FOLHA CORRIDA
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Vão-se as amadas
despetaladas
no turbilhão
e o ex-adolescente
conta ao espelho
as primeiras rugas.
55) MOMENTO
Visto assim do alto
no cair da tarde
o automóvel imóvel
sob os galhos da árvore
parece estar rumo
a algum outro lugar
onde abolida a própria
idéia de viagem
as coisas pudessem
livremente se entregar
ao gosto inato
da dissolução ? e é noite.
56) OS FILHOS DE NIETZSCHE
- Deus está morto, tudo é permitido!
- Mas que chatice!
O JOGO VERBAL EM JOSÉ PAULO PAES
MARCA DE UM ESTILO PECULIARMaria Teresa Gonçalves Pereira (UERJ)
Para seduzir o leitor e envolvê-lo, um texto deve apresentar características que tornarão a leitura puro deleite. No que
tange a José Paulo Paes, dentre outras marcas, o ludismo verbal responde pelo prazer maior do ato de ler.
O seu fazer literário manifesta-se na articulação criativa dos planos fonológico, morfológico, sintático e semântico. A palavra
é manipulada com mestria, assumindo a forma pretendida pelo talento do autor, submetendo-se docilmente, gerando as
variações infinitas do jogo verbal que encanta e seduz.
Usa-se a linguagem coloquial concomitantemente à culta, uma não ofuscando a outra, ambas servindo de suporte ao
poético. A gíria renova-se tanto quanto os clichês, revitalizados em construções e textos inovadores, destacando-se as
parlendas, textos oriundos da cultura popular, sem preocupação com formalismos e regras. Dialogam entre si, numa
polifonia de épocas e lugares revisitados pelo poeta.
Na tessitura do texto, as palavras prestam-se a comparações, a decodificações, a repetições, a inversões baseadas e
sustentadas por evocações latentes ou contextuais nas quais estão presentes, no mesmo ambiente, até palavras
relacionais, como as preposições, assumindo papel fundamental para a dinâmica do texto.
O ludismo verbal multiplica-se em evidências. As palavras são, a um só tempo, instrumentos para o jogo e companhias
no ato de jogar. Transformam-se em peças que possibilitam essa ludicidade, conduzindo leitores de qualquer idade à
participação na brincadeira. Assim, no texto, há solicitação à presença e à cumplicidade do leitor, um convite à obra, simples
na transmissão de mensagens e complexa em consubstanciar-se na variedade dos fatores inerentes ao circuito
comunicativo.
José Paulo Paes é um artífice que instrumentaliza a poesia em perfeita inter-relação de modalidades lingüísticas ao lado de
eficiente quebra de barreiras formais. Dirige-se ao público infanto-juvenil, conjugando autor-leitor, na certeza de que a
expressividade e a plenitude da língua não se escondem em construções elaboradas e herméticas, realizando-se por
todos e para todos, além do que se associam escolhas primorosas fornecidas pelo sistema lingüístico à eficácia no ato
comunicativo.
Convite
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Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia ?PPB
O autor resgata a sensibilidade lingüística oriunda da escolha vocabular, do material gramatical disponível, da ordem das
palavras nas frases e da sua musicalidade, consolidando o valor plural dos textos na percepção de mundo e na sua
tradução através da Língua Portuguesa.
As manipulações lingüísticas ocorrem segundo a elaboração da mensagem, dos conteúdos afetivos na construção dos
poemas em que a poesia potencializa-se no manejo da língua, resultado de fatos complexos e variáveis, porém
acessíveis, para quem se dispõe a trabalhá-los e desvendá-los, apostando sempre na literariedade do texto.
Dedicada pretensamente ao público infanto-juvenil, a obra é um acervo literário comparável a qualquer produção
dedicada ao adulto. O cotidiano lingüístico caminha junto aos recursos elaborados, o coloquial ao padrão culto,
monitorados constantemente pelo autor. São rompidos limites impostos pelo tradicional e pelo erudito, em princípios
norteados por valores artísticos rígidos e anacrônicos, superados por um trabalho eficiente, centrado na função poética,
como o de José Paulo Paes.
No fragmento seguinte, encontra-se em sintonia perfeita o modelo formal, na regência do verbo pisar; a metáfora, na
caracterização da história - descalça; a mistura de imagens e sensações, em cabelos despenteados pelo vento; e o diálogo
aberto com os leitores estabelecidos pelo pronome lhes e pela forma verbal esperem, integrando os vários planos do
sistema lingüístico.
Vou lhes contar uma história
meio sem pé nem cabeça
e que por isso não usa
nem sapato nem chapéu.
É uma história descalça
que gosta de pisar grama
e de sentir os cabelos
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despenteados pelo vento.
Vou lhes contar uma história,
esperem só um momentoOMOD
Trata-se de um poeta que conhece o leitor, considerando-o, respeitando-o e apostando na sua inteligência.
Trabalhando a Língua Portuguesa, não desvaloriza ou hierarquiza qualquer aspecto lingüístico, usando todo o potencial
expressivo das variedades dialetais, regionais e culturais, José Paulo Paes mostra que a qualidade não se prende a
uma só vertente literária ou a uma modalidade de língua.
Para os estudiosos da linguagem, o reconhecimento de trabalho tão especial na abordagem da Língua Portuguesa traz
satisfação, principalmente em se tratando de literatura dedicada ao público infanto-juvenil. Há extremo cuidado com as
palavras, o que nem sempre se observa em obras "literárias" para leitores dessa faixa etária, considerados pouco
exigentes e incapazes de perceber certos refinamentos.
Respeita-se a língua, principal símbolo da cultura, não como objetivo em si mesma, mas como passaporte para interferir
em todos os aspectos da vida do homem. (...) o poeta tem de descobrir o tom certo para interessar seus pequenos
leitores. Um tom que seja ligeiro sem ser vulgar ou adocicado, que seja aliciante sem ser sentimental ou moralizador.
(QEUPQ)
Em nenhum momento o escritor é leviano em suas intervenções, mesmo em se tratando da linguagem coloquial que, na
obra, adquire nova expressão. A mestria do autor no trabalho com as palavras revela sensibilidade e intuição apuradas no
aproveitamento de recursos que o sistema lingüístico oferece. As construções são primorosas, assim como o
restabelecimento de sentidos perdidos, como a expressão cabeça cheia de minhocas, que se atualiza, ressignificando-se.
Pescaria
Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a idéia
de usar as minhocas
numa pescaria para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
Não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.PPB
Paes mostra-se capaz de unir o denotativo ao conotativo, distanciando-se do rebuscado e hermético, respeitando a
emoção do leitor, nunca se esquecendo do objetivo maior da língua - a comunicação - chegando a efeitos surpreendentes
na utilização de fatos corriqueiros. As barreiras da especificidade e adequação da obra para determinado público são
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desfeitas, independentemente de idade ou nível cultural, possibilitando identificação imediata com o texto.
José Paulo Paes faz parte da galeria de autores que são "verdadeiros artífices da palavra, trabalhando-a
artesanalmente, garimpando, na infinita gama de possibilidades lingüísticas, aquelas que vão instaurar o toque mágico
que abrirá corações e mentes". (PEREIRA; 1999:143).
Para efeitos de exemplificação do ludismo verbal, selecionamos algumas poesias cujas ocorrências comentaremos. A
visualização do fenômeno torna-se mais eficiente do que qualquer teoria:
O L é uma letra louca.
Transforma a nota mi em 1000
e faz a uva andar de luva,
cabra descobrir o Brasil.ULPO
Trabalha com as potencialidades das palavras, quase sempre misturando os recursos quanto a significantes, sons e
constituintes formais, e significados, a forma das palavras construída graficamente pelas letras. A ambigüidade também
ajuda a produção, criando ambiente favorável para que se processe no leitor as impressões sugeridas pelo texto.
Então, mi pode ser a nota musical ou o papel que representa dinheiro. A transformação de um significado em outro é
possível através da letra L: mi ® 1000. Há mudanças inesperadas como uva estar usando luva e cabra descobrir o Brasil,
proporcionadas pela loucura da letra L; o autor passa do nonsense para a realidade pela sugestão do fato histórico,
mesclando elementos do fantástico, da realidade e de humor. As mudanças são relevantes, principalmente em cabra
descobrir o Brasil. A distância entre o animal cabra e o nome do descobridor do Brasil Cabral é imensa, só transpondo-se
pelo jogo mágico com as letras, no caso específico, o L. Aparentemente um recurso simples, provoca possibilidades
infinitas, mas que prendem a atenção do leitor, aguçando sua percepção.
Em Raridade, observamos a elaboração da forma criada pelo autor com a finalidade de nomear o animal em extinção
arara, originando um neologismo, acentuado pela fragmentação da palavra em seus constituintes fônicos. A palavra
onomatopaica lembra a voz do animal. A sonoridade traduz o som e representa semanticamente a mensagem do
poema, remetendo ao título Raridade, que lembra o futuro desaparecimento da "arara", adequadamente chamada de
arrara.
Raridade
A arara
é uma ave rara
pois o homem não para
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode
voar pelo céu.
E se o homem não pára
de caçar arara
hoje uma ave rara,
ou a arara some
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ou então muda seu nome
para arrara.OOB
Além do recurso neológico, salientamos também as possibilidades sonoras que as rimas caçá-la/na sala sugerem, assim
como céu estar contido na palavra escarcéu.
No poema seguinte, verificamos a novidade na forma bem te via, aproveitando-se o sistema flexional dos verbos para a
elaboração de novo vocábulo.
Correção
Como dizia
Aquele bem-te-vi que ficou míope:
"bem te via ... bem te via ..."EIA
O processo de flexão submete o vocábulo à flexão inusitada em se tratando de sua classe: verbo. Morfemas flexionais
normalmente não são elementos usados para a criação de vocábulos como os derivacionais e lexicais.
Especificamente no poema, a forma verbal via aparece em oposição a vi. Fundem-se os recursos semânticos e
morfológicos. O elemento vi do substantivo bem-te-vi transforma-se em verbo via na nova criação bem te via, opondo
também tempo passado concluso (pretérito perfeito) a inconcluso (pretérito imperfeito).
Vejamos agora um fragmento do poema Gato da China.
(...)
que quando espirrava
só fazia "chin!"
(...)
e quando tinha fome
miava "ming-au!"
(...)PPB
O traço inovador está presente na elaboração das formas chin e ming-au, ambas destacadas no corpo do texto por aspas.
Animal chinês, o personagem não espirrava ou pedia alimento como os gatos comuns. Desconsiderando a
personificação, é diferente porque o som produzido por seus espirros é chin e não a onomatopéia tradicional para
representá-lo, atchin. O pedido por comida, o mingau, se transforma pelo desmembramento em partes: ming-au.
A especialidade da criação reside na nacionalidade chinesa do personagem propiciando ao autor referências às dinastias
antigas ming e ching. Além do jogo verbal, produzido pelos sons e pelas formas, há manifestação de intertextualidade.
O jogo de palavras instiga a inteligência, mostrando as infinitas possibilidades do vir-a-ser lingüístico. Ao interagir com o
leitor, oferece-lhe um texto de excelência, levando-o à construção de diferentes sentidos, mais plenos do que aqueles
proporcionados por uma linguagem correta, mas convencional.
Lendo-se e deliciando-se com sua produção poética, constatamos que suas preocupações eram completamente
infundadas: "Os livros são escritos para ser lidos; quando não o são, frustram-se em sua finalidade precípua".
Para sempre vivo em suas obras, Paes revela sabedoria ao afirmar no encarte do seu último livro Vejam como eu sei
escrever : "É pelo trampolim do riso, não pela lição de moral, que se chega ao coração das crianças. Até lá procuraria eu
chegar com as brincadeiras de palavras de meus poemas infantis".BIBLIOGRAFIA
ALVIM, Laila Maria Handam. Manifestações do ludismo verbal em José Paulo Paes. Dissertação de Mestrado em Língua
Portuguesa (Orientação: Maria Teresa Gonçalves Pereira). UERJ, 2000
PAES, José Paulo. É isso ali. 10ª ed. Rio de Janeiro. Salamandra. 1993.
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------. Olha o bicho. 9ª ed. São Paulo. Ática, 1997
------. O menino de Olho-d’Água. São Paulo: Ática, 1991
------. Poemas para brincar. 12ª ed. São Paulo: Ática, 1997
------. Uma letra puxa outra. São Paulo: Cia. das Letras, 1998
------. Quem, eu ? Um poeta como outro qualquer. São Paulo: Atual, 1996
------. Vejam como eu sei escrever. São Paulo: Ática, 2001
PEREIRA, Maria Teresa Gonçalves. Língua portuguesa e sedução: do binômio possível nos textos de literatura infantojuvenil; in Perspectiva, ano 17, nº 31. Florianópolis: UFSC, 1999.
( Artigo de autoria de Maria Teresa Gonçalves Pereira. Publicado em http://www.filologia.org.br/viicnlf/anais/caderno1012.html)
Biografia e obras Intelectual brasileiro nascido em Taquaritinga, SP, um dos mais refinados intelectuais do País, tradutor
respeitado de Seféris e autor de quase 30 livros de poesia. Estudou química industrial em Curitiba e ligou-se à Geração de
1945 e escreveu na revista Joaquim, editada no Paraná. Aproximou-se também da Poesia Concreta em sua fase
inicial e publicou seu primeiro livro, O Aluno (1947). Esse livro de estréia foi profundamente marcado pela influência da
sintaxe drummondiana. Numa carta enviada ao colega, Drummond o aconselhou a ler poetas de outras línguas para se
livrar da dicção poética de seus próximos, conselho que ele aceitou, tornando-se o grande divulgador da obra de poetas
como Ungaretti. A partir daí começou a escrever com regularidade para diversos jornais e periódicos (1948). Autodidata,
aprendeu grego moderno por intermédio de um curso de Linguaphone para produzir uma antologia de poesia grega,
que lhe custou três anos de trabalho, e lançar uma versão definitiva dos poemas de Kaváfis. Casado com a professora
de dança Dora, a quem dedicou poemas em seu segundo livro, Cúmplices (1951), morou em Santo Amaro, numa casa
freqüentada pelos maiores intelectuais de São Paulo. Toda sua obra poética foi reunida sob o título Um por todos (1986).
Dirigiu uma oficina de tradução de poesia na UNICAMP (1987) e foi indicado para o Prêmio Multicultural Estadão (1998).
Comemorou seus 50 anos de atividade poética lançando o livro Os Perigos da Poesia e Outros Ensaios, Editora
Topbooks (1997). Morreu aos 72 anos, a 9 de outubro, vítima de edema pulmonar agudo, no Hospital Beneficência
Portuguesa, e seu corpo foi levado para o Crematório da Vila Alpina. Colaborador habitual do jornal Estado de São Paulo,
jamais deu sinais de desânimo, mesmo quando teve sua perna esquerda amputada (1985). O drama foi tratado sem
tristeza no poema Ode à Minha Perna Esquerda.
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José Paulo Paes - Vamos brincar de poesia?