UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO Grupo Interdepartamental de Economia da Saúde RAQUEL MARCONDES BUSSOLOTTI PROCESSO DE ACREDITAÇÃO HOSPITALAR E USO DE INDICADORES NO AC CAMARGO CANCER CENTER: AVALIAÇÃO DE RESULTADOS E QUALIDADE DA ASSISTÊNCIA NO CENTRO CIRÚRGICO São Paulo 2014 RAQUEL MARCONDES BUSSOLOTTI PROCESSO DE ACREDITAÇÃO HOSPITALAR E USO DE INDICADORES NO AC CAMARGO CANCER CENTER: AVALIAÇÃO DE RESULTADOS E QUALIDADE DA ASSISTÊNCIA NO CENTRO CIRÚRGICO Trabalho apresentado ao Curso de Especialização – MBA em Gestão e Economia da Saúde, Grupo Interdepartamental de Economia e Saúde, Universidade Federal de São Paulo, como quesito para aprovação. Orientador: Prof. Maykon Anderson Pires de Novais São Paulo 2014 FICHA CATALOGRÁFICA TERMO DE APROVAÇÃO RAQUEL MARCONDES BUSSOLOTTI PROCESSO DE ACREDITAÇÃO HOSPITALAR E USO DE INDICADORES NO AC CAMARGO CANCER CENTER: AVALIAÇÃO DE RESULTADOS E QUALIDADE DA ASSISTÊNCIA NO CENTRO CIRÚRGICO Trabalho apresentado ao Curso de Especialização – MBA em Gestão e Economia da Saúde, Grupo Interdepartamental de Economia e Saúde, Universidade Federal de São Paulo, como quesito para aprovação. BANCA EXAMINADORA São Paulo 2014 DEDICATÓRIA Aos pacientes, motivo primeiro de maior preocupação. AGRADECIMENTOS Ao Time de Liderança: Dr. Jarbas José Salto Jr. - Superintendente de Operações; Mauricio Alves da Silva - Superintendente RH/Qualidade; Lino Jose Rodrigues Alves - Superintendente Jurídico; Alexandre José Sales - CFO (Superintendente Financeiro); Mari Galvão Vieira - Superintendente de Hospitalidade: Dra. Lourdes Aparecida Marques - Superintendente de Suporte ao Negócio; Adriana Seixas Braga - Superintendente de Marketing. Ao Time de Cuidados Cirúrgicos: Dr Eduardo Henrique Giroud Joaquim – Médico Anestesiologista/Diretor Clínico/ Diretor do Departamento de Anestesiologia; Cecília da Silva Ângelo - Enfermeira Supervisora CC/CME; Daniela Manfre – Farmacêutica; Thais Sorbara – Nutricionista; Adriana Maria da Costa e Silva – Enfermeira SCIH; Dr José Guilherme Vartanian – Médico Cirurgião - Depto. Cabeça e Pescoço; Dra Sueli Akiko Nakagawa – Médica Cirurgiã - Depto. Pelvis – Ortopedia; Dr Rodrigo Campos – Médico Cirurgião - Depto. Pélvis – Urologia; Dr Ranyell Matheus S. S. Batista – Médico Cirurgião - Depto. Pélvis – Tumores Colorretais; Dr Clovis Rossi – Médico da Anatomia Patológica; Alexandre José Sales - CFO (Superintendente Financeiro)- Time de Liderança; Cleidileno Teixeira Silveira – Enfermeiro do Departamento de Qualidade. A todas as Equipes Assistenciais e Administrativas que possibilitaram a realização dos projetos. A todos os colaboradores do Hospital, que todos os dias buscam por qualidade e segurança do paciente. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................... 14 1.2 JUSTIFICATIVA ....................................................................................... 16 1.3 OBJETIVO..................................................................................................16 2 ACREDITAÇÃO HOSPITALAR ............................................................ 17 3 QUALIDADE EM SERVIÇOS DE SAÚDE E INDICADORES .............. 19 4 METODOLOGIA .................................................................................... 21 4.1 LOCAL DA PESQUISA ............................................................................. 22 5 RESULTADOS ...................................................................................... 23 6 DISCUSSÃO ......................................................................................... 35 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................40 REFERÊNCIAS .................................................................................... 42 LISTA DE QUADROS Quadro 5.1 - Projeto de Cirurgia Segura- marcação de lateralidade Quadro 5.2 - Administração correta de antibiótico profilático Quadro 5.3 - Garantia de Reserva de Hemoderivados Quadro 5.4 - Diminuição Cancelamentos de Cirurgias Quadro 5.5 - Diminuição do Tempo de Atraso das Cirurgias de Primeiro Horário LISTA DE ABREVIATURAS ATB Antibiótico BIREME Biblioteca Regional de Medicina BVS Biblioteca Virtual em Saúde CC Centro Cirúrgico GAT Grupo de Apoio ao Tabagista LILACS Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde MEDLINE Literatura Internacional em Ciências da Saúde OMS Organização Mundial da Saúde ONA Organização Nacional de Acreditação PUBMED Publication Medicine the National Library of Medicine ROPs Práticas Organizacionais Requeridas SCIH Serviço de Controle de Infecção Hospitalar UTI Unidade de Terapia Intensiva OPAS Organização Pan-americana de Saúde 11 RESUMO Bussolotti, RM. Processo de Acreditação Hospitalar e uso de Indicadores no AC Camargo Cancer Center: avaliação de resultados e qualidade da assistência no Centro Cirúrgico. São Paulo, 2014. (Trabalho de Conclusão de Curso) - Apresentado ao Curso de Especialização em Gestão e Economia da Saúde, Universidade Federal de São Paulo, UNIFESP – São Paulo, 2014. Introdução: A busca por qualidade em saúde está diretamente ligada à segurança do paciente, a fim de minimizar riscos, assegurar que todo o processo assistencial seja realizado dentro das normas estabelecidas por órgãos regulamentadores e que o paciente esteja satisfeito com o atendimento. O uso de indicadores é fundamental para medir, monitorar, e avaliar o desempenho dos processos de assistência; e a análise regular destes indicadores permite a criação de planos de ação para a melhoria contínua. Objetivo: A proposta deste estudo é descrever o processo de Acreditação Hospitalar no A.C. Camargo Cancer Center e, através dos indicadores, do período de setembro de 2011 a dezembro de 2012, analisar os pontos que poderiam promover a melhoria na qualidade de atendimento ao paciente oncológico do Centro Cirúrgico. Método: Para a revisão bibliográfica do tema tratado, foram utilizadas as bases de dados PUBMED/MEDLINE e LILACS com os descritores: Indicadores de Qualidade; Processo de Acreditação; Qualidade dos Serviços; Centro Cirúrgico. Resultados: Houve melhoria no cumprimento do protocolo de Cirurgia Segura (marcação da lateralidade); na realização do antibiótico profilático de forma adequada; na garantia da reserva sanguínea do paciente cirúrgico; na diminuição do cancelamento de cirurgias e na diminuição do atraso das cirurgias de primeiro horário. Palavras-Chave: Indicadores de Qualidade; Processo de Acreditação; Qualidade dos Serviços; Centro Cirúrgico. 12 ABSTRACT Bussolotti, RM. Hospital Accreditation Process and Use of Indicators at the AC Camargo Cancer Center: Evaluation of results and quality of treatment at a surgery center, São Paulo, 2014. (Final Text) - Presented for the Course in Health Specialization and Economy, Federal University at São Paulo (UNIFESP), São Paulo, Brazil, 2014. Introduction: The search for quality in health is directly linked to patient safety in terms of efforts to minimize risk and ensure that the entire care process is conducted within the standards set by regulatory agencies. In addition, the patient should be satisfied with the service. The use of indicators is critical for measuring, monitoring and evaluating the performance of care processes. Regular analysis of these indicators makes it possible to establish action plans for continuous improvement. Objective: The objective of this study is to describe the process of Hospital Accreditation at the AC Camargo Cancer Center and, through indicators between September 2011 and December 2012, analyze the areas that might call for improvements in the quality of care for cancer patients at the surgery center. Method: In order to review the literature on this topic, the PUBMED/ MEDLINE and the LILACS databases were used to trace the following describers: Quality Indicators, Accreditation Process, Service Quality, Surgery Center. Results: There was improvement in compliance with the Safe Surgery Protocol (laterality marking), the application of antibiotic prophylactics in the appropriate way, guarantee of blood reserves for surgical patients, decreased cancellation of surgeries and reduction of delays in the first surgery of each day. Keywords: Quality Indicators, Accreditation process, Service Quality, Surgical Center. 13 1 INTRODUÇÃO O AC Camargo Cancer Center é uma Instituição particular filantrópica criada em 1953 por Antônio e Carmen Prudente. É centro de referência em ensino, pesquisa e tratamento em câncer. O A.C.Camargo Cancer Center dispõe de 480 leitos. 1 Em 2012 realizou 14 mil cirurgias; 70 mil exames de anatomia patológica; 60 mil sessões de quimioterapia em 62 salas; 50 mil aplicações de radioterapia; 225 mil exames de diagnóstico por imagem; e 400 mil atendimentos ambulatoriais. 2 O atendimento é baseado no envolvimento interdisciplinar. Possui diversas especialidades médicas e nas demais áreas da saúde, que dão o suporte ao paciente oncológico. O Hospital reúne em um só lugar todas as necessidades do atendimento: parque tecnológico para diagnóstico molecular e por imagem e tratamento seja ele cirúrgico, radioterápico ou quimioterápico. 1 A interação dos profissionais em atividades interdisciplinares do Hospital resulta nos seguintes índices de cura: 75% para crianças e 70% para adulto. 2 A busca por qualidade em saúde está diretamente ligada à segurança do paciente. O objetivo é minimizar riscos, assegurar que todo o processo assistencial seja realizado dentro das normas estabelecidas por órgãos regulamentadores e que o paciente esteja satisfeito com o atendimento. O uso de indicadores é fundamental para medir, monitorar e avaliar o desempenho dos processos de assistência. A análise regular dos indicadores permite a criação de planos de ação para melhoria contínua e promover a segurança do paciente.3 O AC Camargo Cancer Center, conquistou em 2009, o nível máximo de excelência em atendimento e gestão, pela Organização Nacional de Acreditação 14 (ONA). E em dezembro de 2011 a certificação da Acreditação Canadense, do Canadian Council on Health Services Accreditation. 4 A Acreditação Canadense é uma metodologia internacional utilizada para implementar processos voltados, principalmente, à segurança do paciente, promovendo qualidade e melhoria contínua na assistência. O processo de implantação da Acreditação Canadense no Hospital permitiu a implantação de diversos indicadores de processo. A proposta deste relato é demonstrar como o processo de Acreditação Hospitalar no AC Camargo Cancer Center pôde levar à melhoria da qualidade da assistência e da segurança no atendimento ao paciente oncológico. A análise dos indicadores implantados no Centro Cirúrgico, objeto específico deste estudo, permitiu a criação de planos de ação para melhoria contínua da qualidade de atendimento. São eles: Aplicação da Lateralidade – Protocolo de Cirurgia Segura; Aplicação do Protocolo de antibioticoprofilaxia; Garantia da reserva de hemoderivados; Diminuição de cirurgias canceladas (não realizadas na data programada): por falta de autorização da fonte pagadora, por falta de vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), por falta de condições clínicas do paciente, por falta de vaga na internação; Aumento da porcentagem de cirurgias de 1o horário realizada até 30 min. do horário previsto (7:00 - 7:30h). Neste relato estão demostrados os projetos e dados dos trabalhos realizados no período de setembro de 2011 a dezembro de 2012. 15 1.2 JUSTIFICATIVA A análise dos indicadores no Centro Cirúrgico, objeto específico desde estudo, como: marcação da lateralidade; uso adequado da antibioticoprofilaxia; garantia da reserva de hemoderivados; diminuição de cirurgias canceladas; cirurgia de primeiro horário iniciada dentro do horário previsto; estes permitem uma avaliação contínua; análise crítica e, consequentemente, a criação de planos de ação para melhoria da qualidade de atendimento. 1.3 OBJETIVO A proposta deste estudo é demonstrar como o processo de Acreditação Hospitalar no AC Camargo Cancer Center pode levar à melhoria da qualidade da assistência e da segurança no atendimento ao paciente oncológico. 16 2 ACREDITAÇÃO HOSPITALAR De acordo com a Organização Nacional de Acreditação–ONA5 a Acreditação é definida como um “sistema de avaliação e certificação da qualidade de serviços de saúde, voluntário, periódico e reservado”. Ao contrário do que se conhece sobre o assunto, a característica principal da Acreditação é para fins educativos, visando sempre à melhoria contínua dos processos, para que o resultado reflita diretamente no usuário final. Com metodologia própria de serviços e avaliação, no âmbito nacional e internacional, a ONA é responsável pelo desenvolvimento dos processos cujos padrões podem proporcionar aspectos positivos dentro das organizações e/ou empresas. 5 Para as organizações que buscam melhorias nos processos com a acreditação, as principais vantagens são citadas pela ONA5; são elas: Segurança para os pacientes e profissionais; Qualidade da assistência; Construção de equipe e melhoria contínua; Útil instrumento de gerenciamento; Critérios e objetivos concretos adaptados à realidade brasileira; e O caminho para a melhoria contínua. O Canadian Council on Health Services Accreditation é uma organização independente, sem fins lucrativos, que tem credenciado instituições desde 1958. Já 17 credenciou mais de 1.200 organizações. O programa de Acreditação Canadense focaliza a segurança, a qualidade, a redução do risco e a melhora da eficiência do serviço. 6 O programa Canadense prevê a formação de Times de trabalho multidisciplinar. De forma direta, toda a equipe institucional deve estar alinhada aos procedimentos e processos, que serão instalados e acompanhados pelos responsáveis de cada departamento e/ou setor. Como principais interessados no processo de acreditação, podemos citar os lideres e administradores; os profissionais da saúde; as organizações de saúde; e os sistemas compradores de serviços, o governo e o cidadão. Nesse aspecto, quando uma instituição recebe a Certificação, todos são contemplados, pois os resultados são evidenciados através dos serviços que determinada instituição oferece ao usuário final. 18 3 QUALIDADE EM SERVIÇOS DE SAÚDE E INDICADORES A definição de qualidade em serviço de saúde está diretamente ligada ao controle de processos. Os processos, por sua vez, podem estar direta ou indiretamente ligados ao atendimento do paciente, e necessitam de avaliação contínua e minimização de riscos. Segundo Perroca e col 7, a melhoria contínua nos serviços de assistência e atendimento ao paciente, na área da saúde, tem sido uma preocupação constante das instituições. Para avaliação contínua da qualidade e produtividade, as instituições utilizam instrumentos gerenciais denominados Indicadores. Perroca e col7 ,ainda, definem estas medidas de desempenho, como instrumentos e/ou ferramentas com foco no resultado esperado, como processo essencial para a obtenção de resultados relacionados à qualidade do serviço. Nesse sentido, é imprescindível a mensuração da qualidade nos serviços, seja através de planejamento, organização, controle das atividades realizadas ou ferramentas que serão utilizadas para tal processo.8 Possari 8 completa sua teoria através dos indicadores, que poderão servir como uma direção das ações pela organização, tendo como foco o atendimento com qualidade. Os indicadores alertam quando ocorre desvio de uma situação considerada normal ou esperada, sinalizando para que o processo em questão possa ser revisado, impedindo a instalação do problema.7 Possari8 escreve que os indicadores funcionam como uma unidade de medição das atividades com a qual está se associando, ou mesmo uma avaliação 19 qualitativa e quantitativa que fará um monitoramento, e este medirá a qualidade assistencial, assim como as rotinas do setor. Segundo o autor, é “fundamental que os indicadores sejam direcionados para a tomada de decisões gerenciais voltadas para a solução dos problemas apontados, servindo de base inclusive para a revisão de metas já estabelecidas”. 8 Segundo a Organização Pan-americana da Saúde–OPAS9, os indicadores de saúde foram desenvolvidos para facilitar e quantificar as informações produzidas, com a finalidade de medir e avaliar os serviços oferecidos à população em relação à qualidade e à atenção ao paciente. Para Tronchin e col10, os indicadores são considerados essenciais para avaliar e monitorar os serviços, levando em consideração a qualidade como ele é feito. Os indicadores são conhecidos como ferramentas necessárias que visam identificar os problemas e, posteriormente, criar ações e decisões efetivas para solucioná-los e, consequentemente, monitorar seu desenvolvimento. Segundo Tronchin10, para a utilização de indicadores faz-se necessária a criação de políticas organizacionais que permitam a aplicação e gerenciamento dos dados no âmbito gerencial e assistencial. A validação é importante do aspecto da criação destes indicadores, pois será replicada com maior segurança e confiabilidade. Para a aplicação dos indicadores, também, é imprescindível a participação dos profissionais da saúde. A equipe precisa estar inteirada e permanecer em constante monitoramento para o sucesso dos processos. O acompanhamento contínuo dos indicadores é fundamental para o monitoramento dos processos. A detecção de mudanças e sinais de alerta no acompanhamento dos indicadores podem gerar ações de melhoria. 20 4 METODOLOGIA Como base teórica para a realização deste estudo foi utilizado como método de pesquisa a revisão bibliográfica de artigos no âmbito nacional e Internacional. A coleta de dados para a base teórica do assunto tratado ocorreu através do levantamento de produção nas bases de dados eletrônicas da Literatura LatinoAmericana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Literatura Internacional em Ciências da Saúde (MEDLINE) consultadas através do site da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) da Biblioteca Regional de Medicina (BIREME) e através da base de dados da National Library of Medicine (PUBMED). Para a realização da pesquisa de revisão bibliográfica nas bases de Dados, foram utilizados como descritores os termos: Indicadores de Qualidade; Processo de Acreditação; Qualidade dos Serviços; Centro Cirúrgico. Para o limite de pesquisa foi determinado como parâmetros textos em Inglês, português e espanhol, no período dos últimos 10 anos. Através da análise crítica dos resultados e acompanhamento dos indicadores obtidos no processo, podem-se evidenciar e implantar melhorias na qualidade do atendimento e na segurança dos procedimentos ao paciente oncológico no Centro Cirúrgico. 21 4.1 LOCAL DA PESQUISA A pesquisa foi desenvolvida no Centro Cirúrgico do AC Camargo Cancer Center, localizado em São Paulo, e teve como objetivo principal discutir a implementação dos processos de Acreditação com o uso de indicadores hospitalares, visando à melhoria da qualidade nos serviços direcionados aos pacientes no Centro Cirúrgico. O Projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. Eu, Raquel Marcondes Bussolotti, investigador principal responsável pelo presente projeto de pesquisa, declaro que não há conflito de interesse (financeiro, patrimonial ou administrativo), que possa influenciar o resultado da pesquisa. Declaro também não haver implicações éticas a serem consideradas neste projeto. 22 5 RESULTADOS O processo de Acreditação Canadense no AC Camargo Cancer Center envolveu toda a Instituição. Seguindo a metodologia canadense, foram formados Times de Trabalho Multidisciplinares que tinham como objetivo a revisão e/ou criação de protocolos assistenciais, com foco na segurança do paciente. Os Times também criaram indicadores para cada protocolo, com o objetivo de acompanhamento e monitoramento. O Time de Cuidados Cirúrgicos, Time assistencial, foi formado por: médico anestesiologista (Líder do Time); cirurgião de cabeça e pescoço; urologista; ortopedista; cirurgião oncologista cutâneo; cirurgião colorretal; médico patologista; gerente Médica do Centro Cirúrgico; coordenadora de enfermagem do Centro Cirúrgico; farmacêutica; nutricionista; enfermeira do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar; representante do Setor de Qualidade e; representante do Time de Liderança. 23 O Time de Cuidados Cirúrgicos elaborou e viabilizou projetos para disponibilizar plenas condições de atendimento ao paciente no pré, trans e pósoperatório, em toda a sua linha de cuidado, desde a entrada até a saída do Hospital. Foram implantados indicadores para cada projeto e os dados são objeto de discussão contínua no Time de Cuidados Cirúrgicos (time multiprofissional), para elaboração de planos de melhoria.10 Aplicação da Lateralidade – Protocolo de Cirurgia Segura O Time de Cuidados Cirúrgicos elaborou e viabilizou projetos para disponibilizar plenas condições de atendimento ao paciente no pré, trans e pósoperatório, em toda a sua linha de cuidado, desde a entrada até a saída do Hospital. Foram implantados indicadores para cada projeto e os dados são objeto de discussão contínua no Time de Cuidados Cirúrgicos (time multiprofissional), para elaboração de planos de melhoria.10 O processo de Acreditação prevê a implantação das Práticas Organizacionais Requeridas (ROPs).11 Os ROPs implantados pelo Time de Cuidados Cirúrgicos foram: “Prática Segura de Procedimento Cirúrgico” e “Administração Oportuna de Antibiótico Profilático”. O AC Camargo Cancer Center iniciou a implantação do checklist de Cirurgia Segura em 2009. O trabalho do Time visou à conscientização do corpo clínico da importância da marcação da lateralidade e à garantia da marcação da lateralidade em 100% dos pacientes cirúrgicos com indicação de marcação. Para tal foi criada uma barreira no Centro Cirúrgico e na Unidade de Internação, em que se verifica a marcação da lateralidade, sem a qual se impede o paciente de ser encaminhado ao Centro Cirúrgico. O Time discutiu todas as cirurgias que necessitariam de marcação de lateralidade, para que todas as equipes médica e de enfermagem pudessem colocar em prática o Protocolo. O Líder do Time realizou trabalho de orientação dos Diretores de Departamento Médicos a fim de promover conscientização e adesão ao Protocolo. O local de guarda da caneta demarcadora foi revisto, com o objetivo de minimizar entraves para a realização da demarcação. Auditorias para checagem da 24 realização da marcação do Protocolo foram estabelecidas pelo Time, com o objetivo de avaliar a realização e a qualidade da marcação da lateralidade. As equipes de Enfermagem da Unidade de Internação e do Centro Cirúrgico passaram a realizar uma checagem da descrição de lateralidade não aplicável (“não se aplica”) pelo cirurgião. O objetivo é avaliar se realmente o paciente não precisa ser demarcado. Em caso de dúvida, acionam a Gerência Médica para a confirmação, evitando, assim, a inadequação da escolha do “não se aplica”, ou seja, não marcação de cirurgias que necessitam desta. No quadro, a seguir, estão demonstrados os passos e indicadores do Projeto. Quadro 5.1 – Projeto de Cirurgia Segura- marcação de lateralidade Projeto Ações Responsável Cirurgia Segura - Lateralidade Time Cirúrgico Conscientizar equipe cirúrgica Gerência Médica CC Objetivo Orientar equipe de enfermagem sobre o checklist da cirurgia segura e demarcação Garantir a demarcação correta do sítio cirúrgico em 100% dos pacientes Definição do local para armazenamento da caneta demarcadora Orientação aos diretores de Departamento Enfermagem lateralidade" realiza checagem da “não Efetuar auditorias periódicas para certificação da aplicação protocolo Enfermeira da Unidade de Internação – última barreira para avaliação da necessidade e efetividade da marcação Cirurgia Segura - Lateralidade Gerência Unidade de Internação, Ger. Médica CC Gerente Unidade de Internação, Ger. Médica CC Líder do Time Gerente Médica do CC e Gerente da Unidade de Internação Gerente Médica do CC e Coordenadora de enfermagem do CC Gerência Médica CC e Gerente da Unidade de Internação Medição Início projeto Medição final projeto % de marcações nas cirurgias realizadas 100% 100% % de inadequação da opção “não se aplica” 22% 0,5% Indicadores de Resultado 25 Aplicação do Protocolo de antibioticoprofilaxia A administração do antibiótico profilático reduz as infecções pós-cirúrgicas. O uso prolongado e inadequado pode levar ao desenvolvimento de perfil bacteriano resistente. Portanto, é preconizado que o antibiótico profilático seja devidamente escolhido para cada perfil de cirurgia e realizado dentro de 60 minutos antes da incisão da pele. 12 O projeto de Administração Oportuna de Antibiótico Profilático envolveu as equipes de Anestesiologia, Farmácia, Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, Diretoria Clínica, Gerência Médica do Centro Cirúrgico, além da análise crítica de todo o Time durante toda a fase de implantação. O protocolo de antibióticoprofilaxia foi revisado pelo Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), divulgado para todo o corpo clínico pelo Líder do Time; pelo Diretor Clínico; e pelo médico responsável pelo SCIH. Foi disponibilizado um campo na Ficha de Anestesia, para registrar o horário do antibiótico, facilitando as auditorias. A Equipe de Farmácia do Centro Cirúrgico disponibilizou um kit dos antibióticos preconizados para as salas cirúrgicas, facilitando a administração pelo anestesiologista no momento correto. Todos os pacientes cirúrgicos passaram a ser acompanhados no Ambulatório de Curativos e todas as infecções de cirurgias limpas, diagnosticadas nessa avaliação, passaram a ser notificadas ao SCIH. Para a avaliação da taxa de conformidade foi estabelecida uma amostra diária de 10% das cirurgias e separadas as fichas de anestesia para auditoria pelas equipes de SCIH e de Anestesiologia. Nesta amostra foi verificado o horário da primeira dose do antibiótico e das doses subsequentes no intraoperatório. O SCIH acompanha os pacientes até 48 h após a cirurgia, para verificar a interrupção do uso do antibiótico. A Equipe de Farmácia passou a bloquear automaticamente a dispensação do antibiótico após 24 h de uso, para evitar o uso indiscriminado de antibiótico em cirurgias limpas. Caso haja a necessidade de prolongar o uso, o médico responsável pelo paciente entra em contato com o SCIH para a avaliação do caso, e se o médico da SCIH julgar pertinente, libera o uso do antibiótico por tempo maior que 24h. 26 A adequação da antibióticoprofilaxia foi avaliada quanto à: indicação correta do antibiótico; horário correto da primeira dose; dose de repique no intraoperatório e; manutenção do antibiótico durante o período adequado. Para estar conforme ao Protocolo de Antibioticoprofilaxia, o caso deve atender os quatro critérios. Seguem os passos e indicadores do ROP: 27 Quadro 5.2 - Administração correta de antibiótico profilático Projeto Ações Responsável Objetivo Administração correta de antibióticos profiláticos Time Cirúrgico Revisão dos protocolos de antibióticos profiláticos. SCIH Definição do kit cirúrgico de antibióticos profiláticos preconizados. Farmácia Implantação e divulgação dos protocolos de Líder do Time, Diretor antibióticos profiláticos atualizados Clínico e Chefe SCIH Garantir a profilaxia antimicrobiana de maneira correta no paciente cirúrgico Acompanhamento realizado pelo SCIH do total das cirurgias limpas e respectivas infecções Auditoria realizada pela equipe de anestesia / SCIH do início oportuno do ATB e dose de repique (amostragem pré-determinada) Campo Específico para registrar do ATB na Ficha de Anestesia Administração oportuna de antibióticos profiláticos Medição Início projeto Indicadores de Resultado % de conformidade em auditorias do protocolo de antibiótiocos profiláticos horário Time Cirúrgico SCIH Anestesia / SCIH Anestesia Medição final projeto 55% 79,17% Garantia da reserva de hemoderivados O Projeto de Garantia de Reserva de Hemoderivados envolveu as equipes do Banco de Sangue; Anestesiologia; Centro Cirúrgico; e Diretoria Clínica. O objetivo do Projeto foi garantir que todos os pacientes cirúrgicos eletivos tivessem reserva sanguínea realizada previamente ao seu encaminhamento ao Centro Cirúrgico. Inicialmente foi definido um fluxo de solicitação de reserva e encaminhamento do paciente ao Banco de Sangue, pelos Ambulatórios de Avaliação Pré-Anestésica e Ambulatórios Cirúrgicos, antes da internação. Foi definido, juntamente com as equipes cirúrgicas, um Protocolo de Reserva Sanguínea, determinando a quantidade de reserva de concentrado de hemáceas para cada tipo de cirurgia. Dessa forma, no momento da internação, a 28 Equipe do Banco de Sangue faz uma busca ativa, através da verificação do mapa cirúrgico, dos pacientes que necessitam de reserva, conforme a cirurgia agendada, e que, eventualmente não tenham solicitação prévia. No Centro Cirúrgico a Equipe de Enfermagem checa a solicitação de reserva sanguínea em dois momentos: no encaminhamento do paciente ao centro cirúrgico e no momento do checklist da cirurgia segura. Quadro 5.3 - Garantia de Reserva de Hemoderivados Projeto Ações Responsável Objetivo Reserva de Hemoderivados Garantir que 100% dos pacientes cirúrgicos eletivos, com reserva de sangue, estejam com reserva realizada previamente: - Momento da transfusão Encaminhamento ao CC Time Cirúrgico Definição do fluxo de reserva ambulatorial e préinternação Definição do Protocolo de Reserva Sanguínea com a equipe cirúrgica e Banco de Sangue Instituir controle do processo de busca ativa e checagem de tipagem Definição solicitante do médico Banco de Sangue Banco de Sangue e Cirurgiões C.C. e Banco de Sangue Diretoria Clínica, Banco de Sangue, Anestesia Reserva de Hemoderivados Medição início projeto Medição final projeto 100% 100% Indicadores de Resultado % de pacientes cirúrgicos eletivos com tipagem e reserva de hemoderivados no momento da indicação da transfusão sanguínea % de pacientes cirúrgicos eletivos sem reserva de sangue no momento da liberação da sala cirúrgica 0,4% das cirurgias 0,08% das cirurgias 29 Diminuição de cirurgias canceladas O cancelamento de cirurgias ocorre pelas principais causas: negativa de autorização da fonte pagadora; falta de vaga de Unidade de Terapia Intensiva; falta de condições clínicas do paciente e; falta de leito de internação. As demais causas referem-se a motivos relacionados ao paciente (recusa do tratamento, mudança de data da cirurgia por motivos pessoais, jejum inadequado, falta do paciente) e motivos relacionados à agenda médica (transferência de data). O projeto do Time de Cuidados Cirúrgicos foi minimizar o cancelamento de cirurgias na data inicial programada; nesse momento são consideradas cirurgias não realizadas na data programada. Após a resolução do motivo, as cirurgias são realizadas assim que possível. O fluxo de autorizações de cirurgias foi revisto junto às fontes pagadoras, e, também internamente. Uma enfermeira passou a fazer parte do Setor de Autorizações e a rever os processos, minimizando o tempo de autorização. A enfermeira passa a identificar as falhas nas solicitações de materiais. A Equipe de Gerenciamento de Leitos, juntamente com a Equipe do Centro Cirúrgico e o Setor de Autorizações, desenvolveram trabalho de checagem do mapa cirúrgico diariamente, na véspera da cirurgia, para a garantir que todas as cirurgias estivessem agendadas e confirmadas nos três setores, evitando cancelamentos e falhas de comunicação. Paralelamente, uma Equipe de Gerenciamento de Leitos da Unidade de Terapia Intensiva passou a trabalhar dentro do Centro Cirúrgico. Avaliando-se a média histórica de solicitações de reservas de vagas de UTI e a média de altas, pôde-se estabelecer um limite do número de vagas a serem solicitadas por dia, minimizando o risco de cancelamentos. As vagas de UTI passaram a ser monitoradas diariamente para a disponibilização para o paciente cirúrgico. Os motivos de cancelamento de cirurgia relacionados às condições clínicas do paciente foram avaliados individualmente, por prontuário de paciente, por dois meses. Percebeu-se que o paciente oncológico desenvolve uma série de 30 complicações inerentes ao tratamento e à doença, que por si só podem levar ao adiamento da cirurgia. Estas complicações foram identificadas como motivos não evitáveis. A checagem prévia realizada entre o Agendamento Cirúrgico e a Equipe de Gerenciamento de Leitos, diariamente, permitiu que fosse programada a internação dos pacientes, de acordo com o horário da cirurgia. Dessa forma, os pacientes se internam próximo ao momento de sua cirurgia e têm seu leito garantido, evitando espera e cancelamento por falta de leito. Seguem no Quadro 5.4 os dados sobre o cancelamento de cirurgia. 31 Quadro 5.4 - Diminuição dos Cancelamentos de Cirurgias Projeto Ações Responsável Objetivo Diminuição de cirurgias canceladas (não realizadas na data Time Cirúrgico programada) Gerente Médica do CC e Levantamento dos motivos de Coordenadora de enfermagem cancelamentos do CC Gerente Médica do CC, Rever fluxo de informações entre agendamento Cirúrgico, Autorizações, Internação e Centro Responsável pelo Setor de Cirúrgico. Checagem diária do Autorizações, Gerenciamento mapa cirúrgico no dia anterior. de Leitos. Gerenciamento de Leitos Diminuir o número Internação momento oportuno Gerente Médica do CC, de cancelamentos Revisão do fluxo de reserva de Coordenadora de enfermagem de cirurgias vagas de UTI para o paciente do CC, Gerenciamento de eletivas cirúrgico. Leitos. Gerenciamento de leitos da UTI. Redefinição do processo junto às operadoras para obtenção da Gerente CC, Setor de autorização prévia. Enfermeira no Autorizações Setor de Autorizações. Avaliação detalhada da suspensão por problemas clínicos Diminuição dos cancelamentos de cirurgias Indicadores de Resultado Gerente CC Medição início Medição final projeto projeto % total de cirurgias eletivas canceladas (não realizadas na data programada) 28% 21% Autorização fonte pagadora 7,2% 9,2% Falta Vaga UTI 3,8% Condições Clínicas 5,1% Falta Vaga Internação 1,1% 0,01% 5,5% 0% 32 Aumento da porcentagem de cirurgias de 1o horário realizada até 30 min. do horário previsto O atraso das cirurgias de primeiro horário foi avaliado pelo Time. Tal atraso pode comprometer o atendimento cirúrgico diário. Recurso humano especializado, enfermagem e médico, deve trabalhar em horário adequado, e consequentemente minimizar riscos ao paciente. A Equipe de Gerenciamento de Leitos, após checagem do mapa cirúrgico na véspera da cirurgia, com a Equipe de Agendamento Cirúrgico, passou a programar a internação dos pacientes no momento oportuno. Dessa maneira tornou-se possível que paciente internasse com tempo suficiente para o preparo solicitado pelo cirurgião, e chegasse ao centro cirúrgico no horário programado. Foi criada uma Equipe de Transporte, formada por Auxiliares de Enfermagem, dedicados exclusivamente ao transporte do paciente cirúrgico, promovendo agilidade na chegada e saída do paciente ao centro cirúrgico. O método de mensuração do horário da cirurgia de primeiro horário foi aprimorado. As principais causas passaram a ser estratificadas. Seguem no quadro 5.5 os dados sobre o atraso da cirurgia de primeiro horário. 33 Quadro 5.5 – Diminuição do Tempo de Atraso das Cirurgias de Primeiro Horário Projeto Ações Responsável Cirurgias realizadas no horários programado (primeiro horário) Time Cirúrgico Objetivo Levantamento dos principais motivos geradores de atrasos nas cirurgias eletivas Reduzir o tempo de atrasos para início das cirurgia eletivas Gerente CC Gerente CC e Gerenciamento de Leitos Implantação do gerenciamento de leitos Internação no momento oportuno Gerente CC Redimensionamento de pessoal CC (equipe de transporte) Gerente CC Melhoria métodos mensuração Gerente CC Cirurgias realizadas nos horários Indicadores de Resultado Medição início projeto Medição final projeto 51% 82% 81 minutos 28 minutos o % de cirurgias de 1 horário realizada até 30 min do horário previsto (7:00 - 7:30) Atraso médio entrada sala 34 6 DISCUSSÃO Os projetos desenvolvidos pelo Time de Cuidados Cirúrgicos, durante o processo de Acreditação Canadense no AC Camargo Cancer Center, promoveram mudanças na qualidade de assistência ao paciente cirúrgico. Em outubro de 2002 a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente. A Aliança tem o objetivo de estimular o desenvolvimento de políticas para boas práticas assistenciais visando à segurança do paciente. São, então, lançados os Desafios Globais para a Segurança do Paciente, sendo um deles com atenção para os procedimentos cirúrgicos seguros. Estima-se, mundialmente, que ocorram 3% de eventos perioperatórios; e que a taxa de mortalidade seria de 0,5%. Portanto, quase 7 milhões de pacientes cirúrgicos sofreriam complicações a cada ano, e que 1 milhão morreria durante ou imediatamente após a cirurgia.12 A preocupação com a segurança do paciente levou à elaboração de uma lista de verificação (checklist) pela OMS, de três fases: antes da indução da anestesia – sig in : antes da incisão da pele – time out e; antes de o paciente deixar a sala - sign out Estas fases preveem a checagem do nome do paciente, local da cirurgia, checagem de equipamentos, risco de sangramento, antibióticoprofilaxia, riscos intraperatórios, e na fase final, checagem de instrumentais, compressas e peças de patologia.13 O checklist envolve todos os profissionais que participam do procedimento: cirurgião, anestesiologista e 35 enfermagem. No Brasil foi lançado o Manual de Implementação de Medidas para o projeto Segurança do Paciente.12 O Projeto de marcação da Lateralidade no AC Camargo Cancer Center viabilizou a marcação em 100% dos pacientes com indicação de lateralidade. Porém, o Time entendeu que havia oportunidade de melhoria ao verificar com atenção os casos de lateralidade “não aplicável”. A medição durante o projeto mostrou que havia 22% de inadequação das marcações “não se aplica”, ou seja, lateralidade não marcada, quando deveria ser (dados levantados durante 2 meses). Foi definido que a barreira passou a ser a Equipe de Enfermagem da Unidade de Internação, ou seja, nenhum paciente chega ao Centro Cirúrgico sem demarcação. Os cirurgiões, membros do Time, participaram das auditorias dos casos de lateralidade “não aplicável” e as modificações foram implantadas, com orientações das equipes médicas. Após todas as medidas, houve queda da inadequação do “não se aplica” de 22% para 0,5%. As auditorias permitiram, também, verificar que havia casos que não se encaixavam no Protocolo de Marcação de Lateralidade. Após discussão no Time, o Protocolo foi ampliado e algumas cirurgias foram incluídas. A cirurgia de corda vocal passou a necessitar de marcação, mesmo sendo órgão interno. A cirurgia para colocação de cateter ureteral passou a necessitar de marcação, mesmo sendo cirurgia endoscópica e de órgão interno. A aplicação do Protocolo de Cirurgia Segura na sua totalidade, tendo a lateralidade como parte dele, necessita de treinamento contínuo e, principalmente, um trabalho de conscientização da equipe multidisciplinar quanto à importância desse passo para a segurança do paciente. A demarcação da lateralidade pré-operatória adequada e depois, um Time out realizado no momento certo, envolvendo cirurgiões, anestesiologista e equipe de enfermagem, podem minimizar os riscos de cirurgia no local errado. Apesar de existirem poucas evidências sobre a eficácia de uma política de combate à prevenção do erro na lateralidade da cirurgia,14 devemos insistir nos modelos de controle do processo e gerenciar os riscos. 36 O Projeto de antibioticoprofilaxia envolveu equipe multidisciplinar e as mudanças tiveram nítido impacto no processo de aplicação do antibiótico no momento oportuno. Todas as mudanças no processo foram fundamentais: a revisão do protocolo de antibióticos de acordo com cada cirurgia; disponibilização de kit com as medicações para a sala de cirurgia; mudança do encaminhamento do paciente no pós-operatório ao ambulatório de curativos; bloqueio do antibiótico em 24h: mudança na ficha de anestesia para identificação do horário do início. As auditorias realizadas pelo SCIH, de todo o processo, desde a dose inicial até a suspensão do antibiótico, possibilitaram identificar que houve melhoria. A taxa de conformidade antes de 55%, passou a ser 79,1%. Em pesquisa realizada por Alexiou VG e col , sobre a prática de antibioticoprofilaxia, em diversos países, mostrou que 26,1% dos cirurgiões não aplicam a primeira dose do antibiótico em até 60 minutos antes da incisão cirúrgica. Mostrou, também, que 27,2% dos cirurgiões que responderam à pesquisa, continuam a administrar o antibiótico por dois ou mais dias após a cirurgia. 15 A taxa de conformidade das etapas do processo, antibiótico correto, início correto, dose de repique no intraoperatório e manutenção no tempo adequado, monitorados no AC Camargo Cancer Center mostraram estar de acordo com os serviços, principalmente, da Europa e América do Norte, pois, segundo o estudo de Alexiou 15 , conforme o grupo de cirurgiões, chegou-se à adequação no horário da primeira dose do antibiótico de 80,8%, e a suspensão em 24 h, chegou-se a 85%. O Projeto de Garantia de Reserva de Hemoderivados teve participação ativa da Equipe do Banco de Sangue. O objetivo era minimizar o número de pacientes, com necessidade de transfusão no Centro Cirúrgico, e que não 37 tivessem a tipagem sanguínea previamente coletada, minimizando o risco de demora na transfusão sanguínea. As ações do Time promoveram diminuição do número de pacientes cirúrgicos eletivos que se encontravam sem tipagem no momento da liberação da sala cirúrgica, ou seja, no momento de ir para o Centro Ciruúrgico. O índice caiu de 0,4% para 0,08% do total das cirurgias. Esse número caiu de 1,8% para 0,4% do total de reservas sanguineas. A busca ativa dos pacientes internados, realizada pela Equipe do Banco de Sangue, baseada no Protocolo de Reserva Sanguínea, tem papel muito importante no processo, pois funciona como barreira e consegue garantir a reserva de pacientes que não tenham sido encaminhados, ambulatorialmente, para coleta de tipagem. A Equipe de Enfermagem do Centro Cirúrgico, por sua vez, realiza a última barreira, através da checagem da realização da tipagem antes do encaminhamento do paciente ao Centro Cirúrgico e no momento do checklist. O Projeto de Diminuição do Cancelamento do Número de Cirurgias envolveu, também, diversas equipes no Hospital. A melhoria foi nítida na diminuição de cancelamentos por falta de vaga de UTI e por falta de leito de internação. O trabalho das Equipes de Gerenciamento de Leitos de Internação e Gerenciamento de Leitos de UTI, em conjunto com o Centro Cirúrgico, foi fundamental para a melhoria. O trabalho diário de checagem do mapa cirúrgico, internação programada e monitoramento de reservas cirúrgicas de UTI, possibilitou minimizar os cancelamentos. A porcentagem de cancelamentos por falta de vaga de UTI caiu de 3,8% para 0,01% do total de cirurgias realizadas. A porcentagem de cancelamentos por falta de leito de internação caiu de 1,1% para 0% do total de cirurgias. Apesar de não ter havido mudança no número de cancelamentos por falta de autorização da fonte pagadora (operadoras), as discussões no time e consequentemente as mudanças no Setor de Autorizações, promoveram melhoria da qualidade do processo. A enfermeira que passou a trabalhar no Setor de Autorizações promove agilidade aos processos, pois minimiza falhas 38 nos pedidos de materiais e diminui o tempo total do processo de autorização. Porém, este processo ainda é dependente de prazos e normas préestabelecidos pelas operadoras de saúde e órgãos reguladores, que inviabilizaram a diminuição do número de cancelamentos. O cancelamento por falta de autorização permaneceu de 7% a 9%. A auditoria dos casos de cancelamento por falta de condições clínicas possibilitou verificar as causas específicas e avaliar se haveria possibilidade de alguma medida para evitar o cancelamento. No período avaliado, as causas clínicas pareceram não evitáveis, inerentes ao paciente oncológico e de seu tratamento, e permaneceram em torno de 5%. Vale ressaltar que a diminuição do número de cirurgias canceladas ocorreu em período com aumento de volume cirúrgico e taxa de ocupação hospitalar. O Time conseguiu discutir e viabilizar as ações que garantissem o atendimento crescente do paciente cirúrgico, sem comprometer sua segurança. As cirurgias canceladas, pelos diversos motivos, foram consideradas “não realizadas na data programada”, pois sempre que possível essas cirurgias são reagendadas após solução do problema, seja ele por motivo clínico, pessoal do paciente, agenda médica, falta de leito de internação ou de UTI, ou falta de autorização da fonte pagadora. O projeto de Diminuição do Tempo de Atraso das Cirurgias de Primeiro Horário atingiu o objetivo principal; e o atraso médio de entrada na sala, do paciente do primeiro horário, caiu de 81 minutos para 28 minutos. Antes das ações implantadas, somente 51% das cirurgias começavam no horário previsto. Houve um aumento para 82% das cirurgias começando no horário. A Equipe de Transporte dedicada exclusivamente ao paciente cirúrgico e o trabalho conjunto das equipes de Agendamento Cirúrgico e Gerenciamento de Leitos possibilitaram uma melhoria importante no processo. A mensuração contínua dos tempos e causas de atraso permitem que novas ações possam ser tomadas. 39 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS O processo de Acreditação no Centro Cirúrgico do AC Camargo Cancer Center incluiu a avaliação dos processos, implantação de indicadores e planejamento de ações para melhoria. O uso de indicadores é fundamental para monitoramento, acompanhamento, identificação de problemas e possibilitam a criação de ações para melhoria. O Time de Cuidados Cirúrgicos elaborou projetos de atendimento ao paciente cirúrgico. Os indicadores criados puderam mostrar que houve melhoria na qualidade da assistência em todos os projetos desenvolvidos. O caráter multiprofissional do Time foi importante na tomada de decisões e execução dos projetos. A conquista da qualidade acontece com o envolvimento de todos os participantes no processo de atendimento ao paciente, em toda a linha de cuidado. A busca por qualidade deve ser contínua. As mudanças, durante o processo de busca, devem ser de forma consiste e contínua. 40 É necessário uma mudança cultural em relação à qualidade e à segurança do paciente. Um trabalho contínuo e em equipe pode mostrar que as mudanças são possíveis. 41 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. AC Camargo Cancer Center. Sobre o AC Camargo: Nossas unidades. 2013a. Disponível em: <http://www.accamargo.org.br/nossas-unidades/> Acesso: 23/08/2013. 2. AC Camargo Cancer Center. Sobre o AC Camargo: Nossos números. 2013b. Disponível em: <http://www.accamargo.org.br/nossos-numeros/> Acesso: 23/08/2013. 3. 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