EXPORTAÇÕES Cadeias produtivas no processo de integração regional: o caso dos móveis de madeira no Mercosul Marta Bekerman e Santiago Rodríguez ________________________________________________________ Marta Bekerman é diretora e Santiago Rodríguez é pesquisador do Centro de Estudos da Estrutura Econômica (CENES) da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires. 1. Introdução A maior parte dos estudos econômicos considera os efeitos estáticos de criação ou desvio de comércio como sendo a variável fundamental para a avaliação dos custos e benefícios envolvidos nos processos de integração regional. No entanto, tais efeitos não incluem todos os benefícios potenciais de caráter dinâmico gerados a partir dos processos de integração. Eis a razão pela qual o presente trabalho focaliza o desenvolvimento de cadeias produtivas em nível regional, uma vez que elas podem promover a obtenção de benefícios derivados da especialização produtiva bem como do aproveitamento de economias de escala, influenciando favoravelmente o nível de competitividade sistêmica da região frente a terceiros mercados. Quais devem ser os objetivos dos processos de integração e qual a melhor maneira de administrá-los? As dificuldades do Mercosul são decorrência da forma como tem sido gerenciado Os efeitos dinâmicos desse tipo são aqueles que oferecem os argumentos mais convincentes para a defesa dos processos de integração quando comparados aos processos de abertura unilateral da economia. De fato, os processos de globalização e descentralização da produção, bem como o desenvolvimento de cadeias globais de mercadorias, geram profundos impactos sobre os sistemas produtivos locais e impõem aos países afetados a necessidade de consolidar suas cadeias de valor para fortalecer sua competitividade sistêmica e a qualidade de sua inserção internacional (Gereffi e Korzeniewicz, 1994; Bekerman e Cataife, 2004). Contudo, algumas experiências de integração, como é o caso do Mercosul, mostram as dificuldades que podem se apresentar para promover a consolidação das cadeias produtivas regionais. Essas dificuldades são fruto das fragilidades apresentadas pelas cadeias produtivas dentro das fronteiras nacionais dos países sócios e estão associadas a imperfeições de mercado que não chegaram a ser neutralizadas com base na implementação de estratégias públicas ou privadas. Elas são também uma decorrência da forma como o processo de integração do Mercosul tem sido gerenciado até o momento. Isto nos coloca frente ao debate acerca de quais devem ser os objetivos dos processos de integração e qual a melhor maneira de administrar tais processos. Cabe aqui indagar, inclusive, até que ponto as estratégias de integração entre países periféricos podem contribuir efetivamente para corrigir falhas de mercado que limitam a consolidação e/ou o desenvolvimento autônomo das cadeias produtivas nos países membros. Não há dúvida que essas limitações não se apresentam de forma homogênea entre os distintos setores e cadeias produtivas, verificando-se a existência de profundas heterogeneidades entre os mesmos. Isto nos impõe a necessidade de trabalhar com dimensões mais desagregadas, que nos permitam detectar as especificidades contidas em cada setor ou cadeia. O presente trabalho analisa essa temática em relação à situação do setor de móveis de madeira e sua cadeia produtiva em dois países integrantes do Mercosul: Argentina e Brasil. Busca determinar, em primeiro lugar, quais são os fatores mais relevantes para explicar a situação do setor em ambos os países e, em especial, quais são os principais obstáculos ao seu desenvolvimento. Destaca, também, as dificuldades que os países periféricos enfrentam para dominar as etapas mais rentáveis da cadeia produtiva: o design e a comercialização. Com efeito, apesar de se tratar de uma indústria tradicional, o gap tecnológico é um fator que limita fortemente a competitividade das empresas produtoras de móveis desses países. O trabalho procura indagar a respeito dos fatores que restringiram o desenvolvimento regional do setor, no Mercosul, para, finalmente, avaliar as estratégias de política que deveriam ser implementadas a fim de promover o seu desenvolvimento. A relevância do setor escolhido decorre de diversos fatores. Em primeiro lugar, porque faz parte da cadeia produtiva da madeira que, em ambos países, detém importantes vantagens comparativas naturais em função da disponibilidade de regiões aptas para o desenvolvimento da atividade florestal. Em segundo lugar, trata-se de uma indústria intensiva em mão de obra, constituída principalmente por pequenas e médias empresas (PMEs). Adicionalmente, o setor detém uma significativa presença em algumas economias regionais, como nas províncias de Santa Fé (Cañada de Gómez e Esperanza) e Formosa (Pirané) na Argentina, e nos estados de Santa Catarina (São Bento do Sul) e de Rio Grande do Sul (Bento Gonçalves), no Brasil. Até que ponto estratégias de integração entre países periféricos podem contribuir para corrigir falhas de mercado que limitam a consolidação e/ou o desenvolvimento das cadeias produtivas nos países membros ? Por outro lado, alguns países em desenvolvimento experimentaram uma vertiginosa expansão exportadora durante a última década (países do sudeste asiático, México e o próprio Brasil), passando a ocupar importantes posições entre os principais exportadores mundiais de móveis de madeira. Esse fato contribui para destacar as potencialidades presentes neste setor para os países periféricos. O estudo se organiza em seis seções, além da Introdução. Apresenta o setor e sua cadeia produtiva e analisa os obstáculos ao desenvolvimento dessa cadeia na Argentina e no Brasil a partir de pesquisas de campo realizadas em ambos países. Realiza uma avaliação comparativa da situação nos dois países, assim como dos obstáculos que se apresentam ao desenvolvimento da cadeia em nível regional. No final, traz algumas recomendações de políticas visando à remoção desses obstáculos. 2. Cadeia produtiva de móveis de madeira e segmentação do setor de móveis A cadeia produtiva de móveis de madeira se inicia com a atividade florestal. Parte da madeira bruta extraída é utilizada pela indústria de papel e celulose, enquanto o restante é destinado, por um lado, às serrarias e às fábricas de compensado e laminado e, por outro, às fábricas de painéis de madeira. A madeira serrada e seca tem como principais destinos a indústria de produtos manufaturados de madeira, a indústria de construção e a indústria de móveis. Esta última incorpora também como insumos os painéis de madeira e os diferentes subprodutos do processamento mecânico da madeira. Utiliza, ainda, outros insumos, destacando-se principalmente os produtos para acabamento, a tapeçaria, os abrasivos, as colas e adesivos e as ferragens. A matriz de relações do setor moveleiro inclui também o suprimento de ferramentas, bem como de maquinaria e de equipamento específico. Por último, destacam-se as atividades de design e planejamento logístico, que podem ser desenvolvidas no seio da empresa ou terceirizadas. Para frente, a cadeia moveleira se vincula com distintos atores que podem participar nas atividades de distribuição e venda, tanto a nível nacional (lojas do próprio fabricante, representantes comerciais, lojas de móveis, distribuidores e atacadistas independentes, supermercados e hipermercados, etc.), como internacional (traders, grandes cadeias, boutiques de móveis, etc.). Do ponto de vista analítico, é importante desenvolver uma discriminação do setor por tipo de móvel, em função do padrão de qualidade, definido com base em diversos aspectos produtivos, dentre os quais destacam-se: • Móveis de padrão inferior: fundamentalmente lisos, com desenhos simples de linhas retas, produzidos principalmente a partir de painéis de madeira. • Móveis de padrão superior: incluem um acabamento mais sofisticado e incorporam um design de maior qualidade. De modo geral, são móveis que detêm maior proporção de madeira maciça, bem como chapas de madeira de qualidade. Vale destacar, ainda, que as máquinas, o conhecimento em matéria de design e o nível de qualificação da mão-de-obra requeridos na fabricação de um e outro tipo de móvel são, de modo geral, bastante diferentes, o que se reflete em importantes diferenças nos níveis de valor agregado e também nos preços (mais elevados no caso dos móveis de padrão superior). De outro lado, os níveis de escala mínima eficiente são também diferentes: de fato, as economias de escala são particularmente relevantes na produção de móveis de padrão inferior. 2.1. Transformações internacionais da cadeia: novas barreiras à entrada No comércio internacional, a despeito de importantes diferenças entre os diversos países desenvolvidos, verifica-se uma tendência à concentração das vendas de móveis de baixo e médio padrão, principalmente de móveis do tipo ready-toassemble e do-it-yourself, em grandes cadeias especializadas e discount-stores. Essas empresas, que monopolizam os canais de comercialização, compram seus insumos de centenas de fornecedores distribuídos ao redor do mundo, como é o caso da cadeia sueca IKEA e da cadeia inglesa B&Q. As mudanças na comercialização, somadas a designs inovadores, promoveram impactos na evolução das atividades produtivas e do comércio exterior mas contribuíram para gerar novas barreiras à entrada As mudanças na comercialização, somadas à crescente importância adquirida pelo desenvolvimento de designs inovadores, promoveram impactos significativos na evolução das atividades produtivas e do comércio exterior de alguns países periféricos. Porém, essas mudanças contribuíram também para gerar novas barreiras à entrada. De fato, a transferência de tecnologia, tanto de produtos (através de designs sob encomenda) como de processos (obrigação de atingir um padrão de qualidade internacional), aliada às soluções oferecidas em matéria de logística e comercialização, possibilitaram o desenvolvimento de importantes capacidades produtivas em países como a China, Polônia, México e Brasil1. Contudo, em muitos casos, a inserção em cadeias produtivas globais limita as possibilidades de se promover um upgrading funcional, com a incorporação de novas capacidades em áreas onde prevalecem barreiras à entrada, restringindo, portanto, a possibilidade de se alcançar as etapas mais rentáveis da cadeia produtiva. De fato, a cadeia global de móveis de madeira tem evoluído em direção 1 O upgrading implícito na possibilidade de um produtor se inserir na exportação de móveis de madeira pode ser exemplificado comparando-se os preços médios por kg observados nas exportações mundiais de madeira bruta (0,12), madeira serrada (0,36), painéis de partículas e fibras de madeira (0,38 e 0,43, respectivamente) e móveis de madeira (2,94). a um tipo de um encadeamento produtivo denominado “cativo” 2, que opera na modalidade conhecida como “liderada pelo comprador” (Gereffi e Korzeniwicz, 1994). 3. Cadeia produtiva do móvel na Argentina 3.1. Aspectos gerais do setor: produção, comércio exterior e padrão de especialização A indústria moveleira argentina é caracterizada pela presença de numerosas micro, pequenas e médias empresas. De fato, as firmas de maior tamanho contam, de modo geral, com até 100 empregados. A indústria transformadora de madeira bruta, bem como as empresas laminadoras se concentram em torno de complexos florestais-industriais regionais, ao passo que a indústria produtora de móveis de madeira se localiza, principalmente, em áreas próximas às regiões metropolitanas e em torno de pólos produtivos regionais. A produção física de móveis e partes de móveis de madeira atingiu seu pico em 1998, sofreu uma queda vertiginosa logo depois, até alcançar em 2002 um volume equivalente a 41% da produção registrada em 1993. En dólares corrientes la producción cayó de u$s 905 millones en 1998 a u$s 105 millones en 2002 (luego de la devaluación)3. Os níveis de exportação permaneceram estáveis ao longo da última década, alcançando valores bastante modestos, em torno de US$ 11 milhões (1,8% do 2 Os encadeamentos “cativos” apresentam como principais características (i) uma elevada complexidade nas transações; (ii) a possibilidade de codificar essas transações com base em planos e projetos que detalham o design e as especificações técnicas dos materiais utilizados; e (iii) um baixo desenvolvimento da oferta. A baixa capacidade da oferta está associada à existência de importantes barreiras à entrada em matéria de design, logística, marketing e comercialização, o que contribui para tornar altamente dependentes aos pequenos produtores industriais (Gereffi, Humphrey e Sturgeon, 2003). 3 A evolução da produção de móveis de madeira não conta com estatísticas adequadas. Em conseqüência, utiliza-se a série de volume físico e de preços atacadistas do setor moveleiro em seu conjunto (que inclui colchões e móveis de outros materiais) da Pesquisa Industrial Anual desenvolvida pelo INDEC para atualizar os valores censitários. VBP setorial em 2001). Os EUA tendem a consolidar-se como o principal mercado de destino (60% da exportação em 2001), concentrando sua demanda em móveis de padrão médio ou médio alto, de madeira maciça. A inserção internacional do setor de móveis depende de vários aspectos relevantes, além da elevação da taxa de câmbio real, como design, qualidade do acabamento e desenvolvimento de redes de comercialização adequadas Após a desvalorização do peso, o padrão de exportação da cadeia moveleira sofre uma importante transformação. As exportações de móveis registram um incremento muito modesto, enquanto as vendas externas do resto da cadeia experimentam um crescimento bastante significativo. De outro lado, as vendas de móveis para os EUA, concentradas em produtos de maior valor agregado, caem em termos absolutos em 2002, ao passo que crescem fortemente as exportações para o Chile4. Essas exportações são constituídas fundamentalmente por móveis de padrão inferior, fabricados a partir de painéis de madeira. Sua presença na pauta exportadora é recente e tem sido viabilizada pela vigência de uma taxa de câmbio real muito elevada (e, provavelmente, insustentável no longo prazo). A competitividade estrutural do setor moveleiro argentino concentra-se nos móveis de padrão médio e alto de madeira maciça. Contudo, a evolução recente sugere que a simples elevação da taxa de câmbio real é insuficiente para alavancar a exportação desse tipo de móveis, ao menos no curto prazo. Constata-se, portanto, que a inserção internacional do setor depende de outros aspectos relevantes, como o design, a qualidade do acabamento e o desenvolvimento de redes de comercialização adequadas. 4 As vendas para o Chile concentram-se em um reduzido grupo de empresas sem experiência exportadora prévia. Não fosse o incremento das vendas para o Chile, as exportações totais de móveis de madeira teriam registrado uma queda superior a 20%. Por sua vez, as importações de móveis de madeira cresceram significativamente nos anos 1990, constituindo-se no elo mais importante dentro das importações da cadeia produtiva. Com a recessão, as importações sofreram uma queda em 2001 até chegarem ao esgotamento no ano seguinte, ao registrarem a insignificante cifra de US$ 2,1 milhões (uma queda de 95% com relação ao ano anterior). As importações argentinas são principalmente provenientes do Brasil - cerca de 60%, em média, nos últimos 5 anos - de onde são importados móveis de painéis de madeira de padrão inferior. Até 2001, a cadeia produtiva registrou um saldo comercial sistematicamente negativo (u$s 83 milhões, em média, entre 1997 e 2001) e sua reversão só ocorreu após a desvalorização do peso e como resultado do virtual colapso das importações. As únicas rubricas a apresentar superávit sistemático foram toras de madeira e painéis de madeira. Em contrapartida, o setor de móveis de madeira constituiu-se na principal rubrica deficitária, destacando a existência de um padrão de especialização com claras debilidades no segmento de maior valor agregado da cadeia produtiva. 3.2. Obstáculos ao desenvolvimento da competitividade da cadeia produtiva na Argentina5 Se bem que a cadeia produtiva de móveis de madeira conta na Argentina com importantes vantagens comparativas naturais (em função da disponibilidade da matéria-prima) e com uma longa tradição produtiva, o seu desenvolvimento competitivo tem se deparado ao longo da história com uma série de obstáculos que limitaram e ainda limitam a sua consolidação produtiva e exportadora. É 5 A presente seção está baseada em Bekerman M., Rodríguez S. e Sirlin P. (2004) “Obstáculos al desarrollo de encadenamientos productivos en Argentina: el caso de los muebles de madera”, mimeo. Nesse trabalho, utilizou-se como principal fonte de informação uma pesquisa de campo realizada entre maio e agosto de 2003. Foram entrevistados 25 fabricantes de móveis, um fabricante de painéis de madeira e uma grande cadeia comercial de móveis. Adicionalmente, foram realizadas 15 entrevistas com coordenadores de consórcios de exportação, especialistas setoriais, designers e membros de associações de classe. A amostra selecionada não tinha qualquer pretensão de representatividade estatística. O objetivo foi o de entrevistar empresas que: (i) mostraram maior inserção e dinâmica exportadora; (ii) tivessem participado de experiências associativas; ou (iii) estivessem localizadas nos principais pólos moveleiros de Cañada de Gómez e Esperanza. possível identificar dois grandes conjuntos de fatores restritivos vinculados entre si: os que dizem respeito às debilidades tecnológicas e aqueles relacionados ao desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação. 3.2.1. O atraso tecnológico O setor produtor de móveis de madeira argentino apresenta importantes deficiências e uma grande heterogeneidade no que se refere a tecnologias de produto, de processo e de organização. Em termos de design, ponto-chave em tecnologia de produto, a indústria argentina deixa transparecer importantes fragilidades, tanto no plano das empresas individuais como no plano setorial. Não é possível falar da existência de um padrão de design argentino possuidor de uma identidade própria. A maior parte das empresas do setor trabalha sobre a base de cópia e adaptação deficientes, desvirtuando os designs originais e depreciando assim o seu valor. Adicionalmente, a profissionalização do design encontra-se muito pouco difundida no interior das firmas, limitando-se quase exclusivamente às empresas exportadoras e às grandes empresas (mais de 40 funcionários). Nesse sentido, somente 44% das empresas entrevistadas declararam contar com funcionários especializados, porcentaje que se reduce al 15% y 9% respectivamanete en las empresas pequenas y en las nao exportadoras. Por el contrario, en las empresas grandes dicho porcentaje aumenta al 77%, mientras que en las exportadoras lo hace al 71%. No que se refere a tecnologias de organização, observa-se que há uma baixíssima utilização de tecnologias modernas de gestão, limitada exclusivamente às grandes empresas. De fato, somente 16% das empresas entrevistadas declararam possuir certificado de normas de qualidade ISO 9000. No caso da cadeia de móveis na Argentina, é possível identificar dois grandes conjuntos de fatores restritivos: os que dizem respeito às debilidades tecnológicas e aqueles relacionados ao desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação. A inovação em tecnologia de processo caracteriza-se também por sua heterogeneidade, destacando-se as grandes empresas e as produtoras de móveis de madeira maciça por terem incorporado maquinaria de última geração em anos recentes, sob estímulo de uma taxa de câmbio defasada. O baixo desenvolvimento da capacidade inovadora das empresas do setor decorre de diversos fatores, localizados nos planos macro, meso e microeconômico, que se condicionam mutuamente. Em termos macroeconômicos, o primeiro fator a ser mencionado é o tradicional viés antiexportador, que afetou o setor na fase substitutiva de importações induzindo-o a se voltar excessivamente para o mercado interno e a manter um mix de produção demasiadamente amplo. A ausência de concorrência externa e a existência de um mercado pouco exigente e de baixo poder aquisitivo restringiram os incentivos e a disciplina que um ambiente competitivo é capaz de propiciar, afetando principalmente a inovação em tecnologias de produto. De outro lado, a instabilidade econômica tem levado a um encurtamento do horizonte de planejamento, em detrimento de investimentos que requerem prazos de maturação mais longos como aqueles orientados para a inovação tecnológica. A instabilidade do tipo do câmbio real contribuiu, também, para desestimular os investimentos em tecnologias de produto, cuja amortização só teria sido possível mediante uma inserção sistemática nos mercados internacionais. Por último, a forte instabilidade da demanda levou a uma excessiva diversificação horizontal das empresas do setor, como estratégia defensiva para enfrentar as fases recessivas do ciclo. No plano macroeconômico, o viés antiexportador afetou o setor de móveis na fase substitutiva de importações, induzindo-o a se voltar para o mercado interno e a manter um mix de produção muito amplo A partir de uma perspectiva microeconômica, deve-se ressaltar que se trata de um setor composto por um conjunto vasto de micro e pequenas empresas, constituídas, em sua maioria, sobre a base de pequenas oficinas artesanais. Esses artesãos-empresários carecem, de modo geral, de um patamar mínimo de capacidades e competências (de gestão, educativa, empreendedora) necessárias para a geração de processos inovadores. Em muitos casos, eles possuem níveis de produção insuficientes para amortizar grandes investimentos em novas tecnologias. Adicionalmente, a incorporação de tecnologia (principalmente de produto e de organização) não é vista normalmente como um potencial fator de competitividade, mas como um gasto desnecessário. A capacidade inovadora e o desempenho das empresas são influenciados pelo ambiente em que estas se desenvolvem, ou seja, por fatores localizados no plano mesoeconômico, com destaque para o baixo grau de desenvolvimento do Sistema Nacional de Inovação. Nossa pesquisa de campo detectou baixa vinculação entre as empresas e o escasso desenvolvimento de instituições ligadas ao setor, sendo essa interação muito fraca. O intercâmbio de informações (seja por via formal ou informal) entre empresas competidoras, fornecedores e clientes locais é muito restrito. No caso da matéria-prima, o intercâmbio de informações é prejudicado pelo fato de que alguns insumos críticos (como os produtos para acabamento) são importados. De outro lado, a situação crítica na qual se encontram as associações empresariais setoriais (determinada, entre outras razões, pela diminuição do número de sócios) constitui um fator inibidor para a ocorrência de uma fluida troca de informações entre as empresas do setor. Ao promover o contato com clientes estrangeiros, a inserção exportadora assume particular relevância como fonte de transferência tecnológica para as empresas e sistemas locais A relação das empresas com o sistema educativo é praticamente nula. No que tange às instituições públicas, cuja função é a de fornecer informação técnica e comercial (INTI - Instituto Nacional de Tecnologia Industrial, Chancelaria, Fundação Exportar, CFI - Conselho Federal de Investimentos, Centro Metropolitano de Design), ainda que 41% das empresas entrevistadas declarem ter tido algum tipo de contato, trata-se de relações muito esporádicas e as experiências nem sempre foram positivas.6 Vale destacar que há um maior desenvolvimento do sistema de inovação em nível local, no caso dos pólos moveleiros regionais, com destaque especial para o pólo de Esperanza. Observa-se a existência de vínculos mais estreitos entre empresas e instituições do entorno, registrando-se também um maior desenvolvimento dessas últimas, o que mostra as vantagens derivadas da aglomeração geográfica das empresas. Não obstante, as relações são ainda muito fracas, diferentemente do observado em outras experiências internacionais, como é o caso dos distritos industriais italianos ou até mesmo dos pólos produtivos brasileiros. 6 Os principias problemas apontados foram os seguintes: prazos de resposta muito demorados, falta de capacidade técnica, falências na organização de atividades, falhas na informação fornecida. A influência do ambiente local ou nacional sobre a capacidade inovadora das empresas está condicionada, em parte, pela imperfeita comercialização do conhecimento, o que limita o livre acesso a determinadas tecnologias. Eis a razão pela qual a inserção exportadora, ao promover o contato com clientes estrangeiros, assume particular relevância como fonte de transferência tecnológica para as empresas e sistemas locais. Nesse sentido, conforme evidenciado em nossa pesquisa de campo, a interação com os clientes internacionais envolve um importante intercâmbio de informação em matéria de design e técnicas de acabamento, levando a uma forte heterogeneidade entre empresas exportadoras e não-exportadoras no que diz respeito a suas capacidades em matéria de design. Não obstante, é importante salientar que nas empresas exportadoras tendem a se reproduzir as mesmas características das cadeias produtivas cativas: o design do produto é habitualmente fornecido pelo cliente no exterior, que mantém total controle dos canais de comercialização. 3.2.2. Desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação ♦ Escasso desenvolvimento de mercados críticos e falta de fornecedores especializados O escasso desenvolvimento de certos mercados críticos limita enormemente o desenvolvimento da indústria produtora de móveis de madeira. A existência de importantes falhas de coordenação, associadas a uma considerável debilidade institucional (formal ou informal), constituem os principais fatores limitadores. Um mercado relevante para o desenvolvimento de um setor de móveis dinâmico e competitivo é o de design. Ainda é um mercado muito pouco desenvolvido, apesar de existir uma considerável capacidade no país, o que se traduz em grave ausência de coordenação entre design e indústria. Isso se dá num contexto marcado pela presença de instituições públicas com baixa capacidade para solucionar falhas de coordenação. De fato, ainda que existam instituições formais incumbidas de proteger a propriedade intelectual dos designs, o Estado não possui capacidade de enforcement da legislação em vigor. Desse modo, a cópia do design tende a se generalizar, desestimulando as empresas produtoras de móveis a investirem nessa atividade e os designers a buscarem uma aproximação com as empresas na tentativa de ofertar seus serviços. Outro mercado relevante é o de madeira, dado que o fornecimento de madeira de qualidade e com as especificações requeridas constitui um aspecto crítico para o setor de móveis, principalmente no caso da madeira maciça. Nesse sentido, o mercado argentino de madeira apresenta sérias deficiências: (i) uma grande presença de nós; (ii) um forte déficit de madeiras de maior valor para móveis de padrão alto; (iii) um forte déficit em matéria de capacidade e qualidade do processo de secagem; e (iv) ausência de uma adequada classificação da madeira maciça com base na qualidade. Essas deficiências têm origem, por um lado, na existência de falhas de coordenação nas decisões de investimento entre produtores de móveis e fornecedores de madeira. Nesse sentido, a ausência de matéria-prima de qualidade limita o desenvolvimento do setor de móveis de alto padrão, impedindo o surgimento de fornecedores especializados. Por outro lado, o baixo desenvolvimento institucional representa um importante fator limitador para a resolução das falhas de coordenação mencionadas acima. De fato, a ausência de instituições que estabeleçam normas de classificação da madeira e desenvolvam atividades com o objetivo de promover a coordenação entre os agentes, impede a redução dos custos altos de transação existentes, condicionando de forma considerável o desenvolvimento desse mercado. Em virtude desses problemas, os produtores de móveis têm adotado diversas estratégias que, dada a atual matriz tecnológica e institucional, trazem soluções adequadas para a empresa individual, mas tendem a limitar o desenvolvimento do setor em seu conjunto. Nesse sentido, no caso das grandes empresas, chama a atenção a integração vertical da etapa de secagem e, em alguns casos, da própria produção florestal. Essas empresas optam por se integrar verticalmente, mesmo às custas de diminuir o seu grau de especialização e manter parte de sua capacidade ociosa, fato que ilustra bem a magnitude dos custos de transação envolvidos no processo. Ao mesmo tempo, sendo os consumidores os principais de madeira de qualidade, essas empresas promovem uma queda na demanda desse tipo de matéria-prima, impedindo o desenvolvimento de fornecedores especializados. A importância do mercado de produto acabado indica como o acabamento dos móveis constitui um aspecto crítico para a indústria de móveis de madeira maciça. Não obstante, observa-se na Argentina uma ausência considerável de fornecedores especializados nesse tipo de produto. Novamente, o desenvolvimento precário de um setor de móveis de alto padrão, com níveis de qualidade adequados e capacidade para demandar esse tipo de insumos, restringe o desenvolvimento (ou o estabelecimento) de uma indústria competitiva de produto acabado. De outro lado, a ausência desses fornecedores condiciona, por sua vez, o desenvolvimento da indústria de móveis. Maior desenvolvimento das práticas de sub-contratação permitiria alcançar maior grau de especialização vertical e contribuir para aumentar os níveis de eficiência do setor Por se tratar de um setor constituído primordialmente por pequenas e médias empresas, um mercado de especial relevância para o desenvolvimento da indústria moveleira argentina é o de partes e peças passíveis de sub-contratação. Um maior desenvolvimento das práticas de sub-contratação permitiria alcançar maior grau de especialização vertical, contribuindo para aumentar os níveis de eficiência do setor. No entanto, somente 32% das empresas entrevistadas declararam trabalhar sistematicamente com firmas sub-contratadas, terceirizando 15% ou mais de sua produção. O baixo desenvolvimento das práticas de subcontratação levou, nos anos 90, à incorporação generalizada de máquinas não especializadas, resultando não apenas em baixos níveis de produtividade como também em excesso generalizado de investimento em equipamentos. Merece destaque a ausência de estratégias empresariais orientadas para a formação e acompanhamento de fornecedores, haja vista que um dos principais fatores que determinam a sub-contratação está associado a comportamentos defensivos visando à obtenção de maiores níveis de flexibilidade ou uma capacidade maior de ajuste frente a mudanças nos níveis da demanda. Por outro lado, a instabilidade macroeconômica atua como um importante fator a restringir o desenvolvimento de fornecedores, pois contribui para o aumento dos custos de transação envolvidos nas relações de sub-contratação. Vale salientar, no entanto, que há um maior desenvolvimento do mercado de subcontratação no caso das empresas situadas nos pólos moveleiros de Cañada de Gómez e Esperanza, que terceirizam 50% da produção. Este fato parece indicar que a proximidade geográfica e a existência de uma oferta abundante e variada de empresas e oficinas especializadas permitem reduzir os custos de transação implícitos no estabelecimento de relações de sub-contratação. Finalmente, deve-se mencionar as imperfeições existentes no mercado de painéis, onde a produção se concentra em um número pequeno de grandes empresas (principalmente no caso dos painéis de fibra), gerando fortes assimetrias no poder de negociação com as pequenas e médias empresas produtoras de móveis. 3.3. Relações associativas entre empresas Por ter o setor de móveis uma estrutura produtiva baseada em micro, pequenas e médias empresas, o desenvolvimento de relações associativas entre as empresas é de vital relevância. Essas relações permitem enfrentar os obstáculos que surgem em função dos altos custos fixos e das indivisibilidades presentes em certas atividades chave, como é o caso da comercialização, principalmente externa, e do design. De fato, consoante a nossa pesquisa de campo, a escala de produção mostra-se uma variável relevante tanto na determinação da orientação exportadora das empresas como na constituição de uma área especializada em design. A partir da pesquisa, verifica-se que 73% das empresas que exportam ou exportaram recentemente são relativamente grandes (mais de 40 funcionários). Adicionalmente, enquanto 77% dessas empresas contam com funcionários especializados em design, no caso das pequenas empresas o percentual cai para 15%. As práticas associativas são uma forma eficaz para a escala de comercialização externa e design: facilitam a inserção exportadora das pequenas empresas, que podem superar a barreira de tamanho Nesse contexto, é importante salientar que, das três pequenas empresas pesquisadas com forte orientação exportadora, duas fazem parte de um consórcio exportador. De modo análogo, verificou-se que 100% das pequenas empresas que contam com funcionários especializados na área de design estão associadas a consórcios. As práticas associativas mostraram ser, portanto, uma forma eficaz de se alcançar a escala requerida para atingir o sucesso em matéria de comercialização externa e design. De fato, tais práticas permitiram às pequenas empresas superar a barreira de tamanho e facilitar sua inserção exportadora. Por outro lado, iniciativas associativas possibilitam o desenvolvimento de esquemas de especialização produtiva, gerando maiores níveis de eficiência. Contudo, as iniciativas associativas no setor moveleiro argentino têm se restringido normalmente aos aspectos comerciais (comercialização externa ou pool de compras), sendo excepcionais os esquemas de complementação produtiva. Apesar de sua relevância para o desenvolvimento do setor, as ações associativas entre empresas encontram-se muito pouco difundidas na indústria argentina de móveis de madeira.7 Ademais, cabe destacar que a maior parte das experiências detectadas dizem respeito a empresas localizadas nos pólos produtivos regionais, o que evidencia a importância da concentração geográfica para o relacionamento interempresarial. Contudo, é possível distinguir duas trajetórias diferenciadas. Em Cañada de Gómez, de um lado, é alta a percentagem de experiências fracassadas, evidenciando a ausência de “capital social”, apesar da concentração geográfica. De acordo com os empresários entrevistados, os principais obstáculos para avançar em projetos de natureza associativa são os entraves "culturais”, o “individualismo”, etc. De outro lado, as entrevistas realizadas em Esperanza permitiram detectar um nível mais alto de associação. 3.4. Políticas públicas: situação atual e grau de utilização As políticas orientadas para o setor moveleiro estão baseadas fundamentalmente nos instrumentos de caráter horizontal de apoio às PMEs. Contudo, verifica-se a ocorrência dos seguintes entraves: 7 Foram detectadas somente 8 iniciativas de cooperação entre empresas argentinas produtoras de móveis: 6 consórcios de exportação e 2 clubes de compra. • Uma forte desarticulação institucional entre os diferentes organismos que realizam ações dirigidas ao setor (Secretarias de Indústria, de Agricultura e de PMEs; M.R.E., Fundação Exportar e CFI entre outros)8. • Os instrumentos mobilizados nem sempre atingem as empresas, principalmente aquelas localizadas no interior do país. • Baixo nível de utilização dos instrumentos públicos de apoio, principalmente no caso das empresas de menor tamanho9. Quanto ao desenvolvimento de recursos estratégicos para o setor, a implementação de políticas orientadas para o desenvolvimento e difusão do uso do design tem importância fundamental. Contudo, é bastante limitado o esforço público para fomentar o desenvolvimento do design e baixo o grau de articulação com a indústria10. Por outro lado, no que se refere à promoção comercial, ainda que os consórcios de exportação venham tendo uma difusão crescente, observa-se, em alguns casos, uma certa deficiência na gestão desses consórcios (por exemplo: ausência de critérios adequados de seleção de empresas participantes, insuficiente monitoramento e controle das atividades dos coordenadores), o que limita seriamente suas possibilidades de êxito. Nesse contexto, observa-se um escasso apoio a estes grupos por parte das áreas oficiais encarregadas da promoção comercial e da assistência técnica. 8 Essa desarticulação está tentando ser corrigida através da criação do “Fórum da Competitividade do setor de Madeira e Móveis”, que reúne os organismos públicos envolvidos e as associações empresariais. 9 De fato: em matéria de subsídios para a capacitação, assistência técnica e inovação tecnológica, somente 24% das empresas declara ter utilizado o regime de crédito fiscal; 12% fez uso do Programa de Apoio para a Reestruturação Empresarial para as Exportações (PREX) ou do Programa de Apoio à Reestruturação Empresarial (PRÉ); e 20% algum outro tipo de subsídio (FONTAR, PROAMPRO, Pro Córdoba, etc.). 10 Uma notável exceção, ainda que incipiente, é a experiência do Centro Metropolitano de Design, que tem promovido projetos de design, fabricação e comercialização de móveis que utilizam como matéria-prima madeiras maciças nacionais não tradicionais. É uma tentativa para resolver as falhas de coordenação existentes entre os diferentes elos da cadeia produtiva. Outro aspecto a ser destacado é a ausência de programas integrais de promoção de exportações, ou seja, programas que incluam capacitação, informação de mercados externos e difusão da cultura exportadora, como os existentes no Brasil. A ausência desses programas limita de forma considerável a inserção externa de setores com alta participação de PMEs. No que tange à política comercial, chama a atenção o fato de existir muita demora no pagamento dos reembolsos às exportações. De outro lado, verifica-se a acumulação de saldos técnicos de IVA nas empresas exportadoras, em virtude da falência de mecanismos que permitam sua rápida recuperação ou compensação. Essa situação difere consideravelmente da observada no caso brasileiro. Além das políticas horizontais, destaca-se a política específica de promoção florestal (Lei 25.080), que subsidia as atividades de reflorestamento (principal matéria-prima do setor de móveis). Neste caso, os problemas decorrem do forte atraso no pagamento dos subsídios e da ausência de incentivos suficientes para fomentar o reflorestamento de espécies de maior qualidade utilizadas pela indústria de móveis de alto padrão. 4. Cadeia produtiva dos móveis de madeira no Brasil 4.1 Produção e comércio exterior11 A cadeia de móveis de madeira no Brasil apresenta um desenvolvimento muito importante, ainda que muito heterogêneo, com níveis de produção e de exportação muito superiores aos observados na Argentina. 11 Cabe ressaltar que, no caso brasileiro, há também um grande déficit em matéria de elaboração sistemática de estatísticas do setor de móveis de madeira. O último censo econômico foi realizado em 1985 e não há séries confiáveis de valor da produção. Em conseqüência são apresentadas as principais variáveis quantitativas do setor a partir das fontes fragmentárias de informação mais atuais que conseguimos obter. Em 2000, a indústria brasileira de móveis de madeira era constituída por 13.133 estabelecimentos, principalmente PMEs, mas com tamanho médio três vezes maior que o dos argentinos12. Em termos de valores correntes, pode-se estimar a produção de móveis de madeira, em 2002, em, aproximadamente, R$ 7 a 8 milhões13 (aproximadamente vinte e cinco vezes maior que a Argentina). As empresas brasileiras produtoras de móveis de madeira concentram-se, em grande medida, em torno de pólos produtivos localizados em diferentes estados distribuídos pelo sul e sudeste do país (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná). Conforme sobressaiu na pesquisa de campo, a concentração geográfica fomenta o aproveitamento de economias de aglomeração e facilita o desenvolvimento de instituições ligadas ao setor e o intercâmbio de informação entre empresas produtoras, criando também um centro de atração para os fornecedores e clientes do setor. Há, no entanto, uma heterogeneidade marcante entre as diferentes áreas no que se refere à estrutura produtiva, produtividade e design, entre outros aspectos. Nesse sentido, pode-se afirmar que os pólos de Bento Gonçalves (Rio Grande do Sul) e São Bento do Sul (Santa Catarina) se destacam como os únicos a alcançar níveis adequados de competitividade internacional, respondendo em conjunto por 80% das exportações de móveis brasileiros (Ferraz Dias de Moraes e Nassar, 2002). Nos últimos anos, contudo, verificou-se um incremento significativo da base exportadora14. 12 11,1 empregados por estabelecimento no Brasil contra 4,1 na Argentina, consoante dados censitários. Estimativa dos autores a partir de dados fornecidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ABIMÓVEL (2003) e Denk (2002). 14 De fato, enquanto em 1998 eram apenas sete os estados exportadores, no ano 2001 essa cifra aumentou para doze. De outro lado, o número de empresas exportadoras aumentou em um 200% no período, até alcançar 357 empresas no ano de 2001. 13 Apesar do peso das exportações no faturamento total do setor ser ainda pouco significativo (aproximadamente 15% em 2002), o Brasil é, depois do México, o principal exportador latino-americano de móveis de madeira (e o décimo nono a nível mundial em 1999). Suas exportações tiveram um crescimento vertiginoso ao longo da última década, alcançando a cifra de US$ 489 milhões em 2002, valor quinze vezes maior que o registrado em 1989. Os principais destinos de exportação são os países desenvolvidos, com destaque especial para o mercado norte-americano, que vem crescendo em importância (46% das exportações em 2002) e para onde são direcionadas, principalmente, as vendas de móveis de madeira maciça. Em 2001, a Argentina respondia por 12% das exportações brasileiras, mas o país praticamente desaparece como destino exportador em 2002, após a desvalorização do peso. Por outro lado, as importações brasileiras de móveis de madeira são praticamente nulas (US$ 4,7 milhões em 2002). Mesmo no ano em que as importações atingem um pico, elas respondem por menos de 1% do consumo aparente. Sua principal origem são os países desenvolvidos. A desvalorização da moeda brasileira, em 1999, teve um efeito diferente sobre as exportações de móveis de madeira comparativamente ao caso argentino. Por um lado, observa-se uma rápida resposta das exportações à variação do tipo de câmbio, revertendo a queda registrada em 1998 e alcançando um crescimento médio anual de 18% até o ano 2002 (apesar da recessão e da desvalorização ocorridas na Argentina). Por outro lado, os EUA se consolidaram como o principal destino exportador, em detrimento dos países da região. Essa evolução parece confirmar a emergência, no Brasil, de um padrão de especialização baseado na fabricação de móveis padronizados de pinho e, em menor grau, de painéis, no qual o preço desempenha um papel importante como fator de concorrência, razão pela qual a melhora do tipo de câmbio foi fundamental para impulsionar as exportações. O caso do Brasil, contudo, ressalta também a importância de se contar com redes internacionais de comercialização desenvolvidas (conforme apontado pelo aumento das vendas externas de empresas que já estavam exportando), bem como de políticas de apoio adequadas (conforme evidenciado pelo crescimento da base exportadora). 4.2. Obstáculos ao desenvolvimento da competitividade da cadeia produtiva no Brasil 15 A cadeia produtiva de móveis de madeira no Brasil apresenta limites ao seu desenvolvimento competitivo, de caráter e similar ao observado no caso argentino. É possível destacar, portanto, os problemas vinculados com as debilidades tecnológicas, o desenvolvimento dos mercados e as falhas de coordenação, que se mostraram particularmente graves em momentos de forte instabilidade macroeconômica. No entanto, existem alguns aspectos que diferenciam o caso brasileiro do caso argentino. Eles dizem respeito a uma maior inserção nos mercados externos, a uma cultura exportadora mais desenvolvida, à existência de uma indústria de maior porte e a uma concentração maior em torno de pólos produtivos regionais, possibilitando o aproveitamento de economias de aglomeração. Há, no entanto, uma grande heterogeneidade nos níveis de competitividade entre as empresas integrantes do setor – maior, talvez, que no caso argentino. 4.2.1. O atraso tecnológico 15 A presente seção é baseada, principalmente, em informações colhidas numa pesquisa de campo realizada no Brasil em julho de 2003, que entrevistou 12 empresas localizadas nos pólos de São Bento do Sul e Bento Gonçalves, além de duas associações empresariais. A amostra apresentou um viés favorável a empresas de tamanho superior à media do setor e com propensão exportadora também mais elevada. As conclusões, portanto, são apenas tentativas. Há uma grande diversidade no grau de atualização tecnológica das empresas brasileiras: empresas detentoras de tecnologia de última geração coexistem com as que utilizam tecnologias obsoletas A indústria brasileira apresenta importantes falhas em matéria tecnológica, tanto em tecnologia de produto e organização, como de processo. Há, porém, uma grande diversidade no grau de atualização tecnológica das empresas, verificandose a coexistência de empresas detentoras de tecnologia de última geração com empresas que utilizam tecnologias obsoletas. Quanto às tecnologias de produto, deve-se ressaltar que não existe no Brasil um design genuinamente nacional. O design nacional é muito pouco difundido e seu uso está limitado, quase exclusivamente, às grandes empresas, de tal maneira que a cópia e adaptação são práticas habituais. No caso das exportações destinadas aos países desenvolvidos, o design é fornecido, na maioria dos casos, pelos clientes no exterior, ficando a cargo da empresa brasileira somente o trabalho de desenvolvimento dos protótipos (Gorini, 2000). Contudo, a profissionalização do design encontra-se mais difundida que no caso argentino, ainda que limitada principalmente às empresas dos principais pólos moveleiros. Nesse sentido, todas as empresas entrevistadas em Bento Gonçalves e São Bento do Sul declararam contar com um departamento de design. Quanto ao grau de difusão alcançado na utilização de tecnologias modernas de gestão, ele é consideravelmente maior do que o observado na Argentina, mas inferior ao que caberia esperar das empresas integrantes da amostra. Em efeito, apenas 42% das empresas declararam possuir certificado de normas ISO 900016. No entanto, no que se refere à tecnologia de processo foi detectado um maior grau de atualização (em maquinaria importada), facilitada pela abertura comercial dos anos noventa, ainda que caracterizada também por alta heterogeneidade17. As falhas tecnológicas da cadeia produtiva são determinadas, como no caso argentino, por aspectos vinculados aos planos macro, micro e mesoeconômico. No plano macroeconômico, destacam-se as variáveis relacionadas com situações de forte instabilidade, em virtude dos efeitos deletérios sobre os investimentos de longo prazo, e com a existência de um viés antiexportador característico do período substitutivo de importações. De outro lado, no plano microeconômico sobressai a capacidade precária dos agentes (empreendedora, de gestão, educativa), num conjunto constituído por empresas de diferente tamanho. Pelo contrário, a maior escala média de produção permite amortizar com maior facilidade os investimentos em novas tecnologias. Desde uma perspectiva mesoeconômica se destacam, também neste caso, certas debilidades no Sistema de Inovação, observando-se, em geral, uma baixa vinculação entre empresas competidoras. Não obstante, a situação difere consideravelmente do caso argentino. Por um lado, observa-se um intercâmbio mais fluido com fornecedores de insumos críticos (como os produtos para acabamento ou certo tipo de madeiras), gerando processos dinâmicos de aprendizado, principalmente no caso dos produtos acabados. Por outro lado, as associações de classe, tanto nacionais como estaduais, apresentam uma situação de maior fortaleza e representatividade, contribuindo para o fluxo de informações e a vinculação entre as empresas do setor. Por último, observa-se, no caso de alguns pólos regionais, uma relação crescente entre as empresas e os centros educativos. No que tange às instituições, cuja função é a de fornecer informação 16 17 Deve-se ter em conta o tipo de empresas que compõe a amostra: firmas exportadoras médias e grandes. Consideravelmente maior nos pólos de Bento Gonçalves e São Bento do Sul (Coutinho, 2001). técnica, os centros tecnológicos do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) têm uma forte penetração nas empresas. A inserção exportadora ocupa lugar de destaque como fonte de transferência tecnológica para as empresas e sistemas locais, como nos pólos moveleiros de Bento Gonçalves e São Bento do Sul Merece particular destaque o elevado desenvolvimento alcançado pelo Sistema de Inovação em nível local, como é o caso dos pólos moveleiros de Bento Gonçalves e São Bento do Sul. Verifica-se, nesses pólos, a existência de vínculos mais estreitos das empresas com seus fornecedores, clientes e, também, com as instituições do entorno. Estas últimas apresentam um maior grau de desenvolvimento, merecendo destaque o papel exercido pelas associações de classe regionais, bem como o surgimento de universidades e centros tecnológicos orientados especificamente para a indústria moveleira, como é o caso da Universidade de Caxias do Sul, em Bento Gonçalves, que tem uma carreira específica e oferece cursos dirigidos para a formação de profissionais dessa indústria. Verifica-se, portanto, o aproveitamento de certas vantagens derivadas da aglomeração geográfica das empresas. A forte heterogeneidade tecnológica existente entre os diferentes pólos exportadores põe em evidência a importância que detém o ambiente local para o desenvolvimento da capacidade de inovação das empresas, num contexto em que se destacam os aspectos não transáveis da tecnologia. Deste modo, a inserção exportadora ocupa lugar de destaque como fonte de transferência tecnológica para as empresas e sistemas locais. Nesse sentido, todas as empresas entrevistadas declararam que tanto o design como algumas técnicas de acabamento são fornecidos por clientes do exterior. Essas novas tecnologias permanecem nas redes de informação locais e explicam a existência de importantes divergências em termos de capacidade tecnológica e níveis de competitividade entre as empresas localizadas nos principais pólos exportadores e as demais empresas do setor. Deve-se destacar, no entanto, que o fato de não dispor de um design próprio aprofunda o caráter subordinado ou cativo das empresas exportadoras brasileiras na relação com seus clientes do exterior. 4.2.2. Desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação ♦ Escasso desenvolvimento de mercados críticos e falta de fornecedores especializados A existência de importantes falhas de coordenação e de uma significativa debilidade institucional (tanto formal como informal) restringe, da mesma forma que no caso argentino, o desenvolvimento de certos mercados críticos, condicionando de forma considerável o desenvolvimento da indústria de móveis de madeira. No entanto, no caso brasileiro existem certas particularidades relacionadas, principalmente, com o maior tamanho da indústria e das empresas brasileiras. A falta de instituições para proteger os direitos de propriedade se traduz na ampla difusão da prática de copiar o design No que tange ao mercado do design, existem certas debilidades institucionais do mesmo tipo das observadas no setor de móveis argentino. De fato, a falta de instituições que protejam os direitos de propriedade se traduz na ampla difusão da prática de copiar o design 18. O mercado de madeira possui especial importância também no Brasil, devido a que grande parte da inserção exportadora do país se dá através de móveis de madeira maciça (padronizados de pinho). Em conseqüência, apesar da maior disponibilidade de madeira de boa qualidade, seu fornecimento, com as especificações requeridas, constitui um aspecto crítico. Nesse sentido, as falhas observadas se assemelham em grande medida às da cadeia produtiva da madeira na Argentina19. Entre as origens das deficiências, observa-se uma fraca atuação das instituições encarregadas de promover a coordenação entre os agentes e estabelecer normas de classificação da madeira Essas deficiências têm diversas origens. Por um lado, nota-se novamente a existência de falhas de coordenação nas decisões de investimento entre produtores de móveis e fornecedores de madeira (principalmente no que tange à tecnologia de secagem). Por outro, observa-se uma fraca atuação das instituições encarregadas de promover a coordenação entre os agentes e estabelecer normas de classificação da madeira. Nesse contexto, os produtores de móveis têm adotado diversas estratégias. Por um lado, da mesma forma que no caso argentino, os empresários brasileiros têm 18 A maior profissionalização do design, observada nas empresas exportadoras, deve-se ao fato de que a tarefa de design se limita principalmente à “absorção” dos designs provenientes do exterior e, também, ao fato de que os produtos destinam-se exclusivamente ao mercado externo. 19 (i) alta presença de nós, (ii) forte déficit em matéria de capacidade e qualidade de secagem; (iii) ausência de uma adequada classificação da madeira maciça em função de sua qualidade; e (iv) falta de madeira serrada com as medidas requeridas optado pela integração vertical. Dada a maior capacidade financeira das empresas brasileiras, a indústria alcançou, de fato, um alto grau de integração vertical, que abrange em muitos casos até a produção florestal (principalmente no caso dos produtores de móveis de madeira maciça). O mercado de partes e peças encontra-se, por sua vez, pouco desenvolvido na indústria brasileira de móveis. De acordo com a pesquisa de campo de Coutinho et al. (2001), aproximadamente metade das empresas dos pólos de São Paulo, São Bento do Sul e Bento Gonçalves declararam terceirizar parte da produção, enquanto que as cifras são menores para o restante dos pólos. De modo geral, trata-se de grandes empresas que optam por terceirizar as partes do processo produtivo que são mais intensivas em mão de obra. De qualquer forma, cabe destacar que a terceirização não ultrapassa a 30% do total produzido pela empresa. Observa-se, também, a falta de estratégias empresariais dirigidas à formação de fornecedores. De fato, os principais fatores que levam à sub-contratação são: (i) a necessidade de enxugar o quadro de pessoal para superar algum tipo de estrangulamento; e (ii) o atendimento de situações em que a capacidade produtiva encontra-se plenamente utilizada. Ressalta-se também que, de acordo com nossa pesquisa de campo, a terceirização se realiza com empresas localizadas na vizinhança, em função da necessidade de contar com um ágil intercâmbio de informação técnica. Uma diferença importante apresentada pela cadeia produtiva no Brasil diz respeito ao desenvolvimento do mercado de produtos para acabamento. De fato, a existência, no Brasil, de uma indústria de móveis de madeira maciça com níveis adequados de qualidade promoveu a demanda por móveis de pinho para exportação e induziu o desenvolvimento e estabelecimento de fornecedores especializados de lacas e vernizes. É possível encontrar, no Brasil, os principais produtores internacionais desses produtos. Quanto ao mercado de painéis, observa-se uma problemática similar à da cadeia produtiva Argentina: a concentração da produção em algumas grandes empresas, gerando assimetrias na relação com as empresas produtoras de móveis. No caso dos pólos moveleiros exportadores brasileiros, deve-se destacar a existência de um mercado adicional, o de serviços de comércio exterior, cujo desenvolvimento foi possibilitado em virtude da razoável difusão da atividade exportadora. De fato, tanto em Bento Gonçalves como em São Bento do Sul encontra-se amplamente difundida a profissionalização e especialização em atividades de comércio exterior. Agentes de venda são utilizados por 100% dos entrevistados; esses agentes, por sua vez, têm seus próprios clientes no exterior e trabalham por comissão. ♦ Relações associativas entre empresas As experiências associativas entre empresas competidoras encontram-se pouco difundidas no Brasil, menos ainda que na Argentina, e as poucas que existem são relativamente novas. De modo geral, essas experiências ficam restritas aos aspectos puramente comerciais (tanto a comercialização interna como a externa), sendo pouco freqüentes os esquemas de especialização produtiva. A pesquisa de campo detectou três experiências nos principais pólos produtivos, com destaque para um consórcio constituído por 21 pequenas e médias empresas (AFECOM) que compartilham a comercialização interna e externa. O principal obstáculo ao desenvolvimento de práticas associativas, de acordo com nossa pesquisa, está relacionado com o “problema cultural”. Outro problema mencionado pelos empresários é a ausência de políticas públicas orientadas para esse fim. 4.3. Políticas públicas: situação atual Tanto a base institucional como as políticas públicas de caráter setorial parecem estar mais desenvolvidas no Brasil do que na Argentina. No Brasil há, de fato, programas de caráter nacional e estadual que contam com um grau importante de difusão e penetração nas empresas. Merece destaque o fato de que nos principais programas nacionais e estaduais o setor privado tem, normalmente, um papel ativo e importante na difusão e coexecução das atividades. É o caso, por exemplo, da ABIMOVEL, que participa da execução, em nível nacional, do PROMOVEL; no âmbito estadual temos o exemplo da MOVERGS (no Rio Grande do Sul), com o programa Sebrae Export20. Adicionalmente, observa-se que o grau de desenvolvimento e representatividade das associações de classe empresariais, principalmente as de caráter estadual, é maior no Brasil do que na Argentina21. Isso reduz a superposição de programas e, sobretudo, evita a existência de uma multiplicidade de “guichês”, sem qualquer coordenação, como acontece na Argentina. No que se refere às políticas de caráter nacional, deve-se destacar que os principais programas fundamentalmente à nacionais promoção dirigidos de ao exportações, setor com estão orientados destaque para o PROMOVEL, concebido para promover a cultura exportadora, a capacitação empresarial e a inserção em mercados externos. O programa tem tido ampla difusão e penetração nas empresas22, além de boa receptividade. Quanto às instituições que fornecem informação e assistência técnica, destaca-se o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que conta com sedes nos 20 As empresas de Bento Gonçalves ligadas à MOVERGS concordaram que os programas nacionais têm menor penetração nas empresas que os de caráter regional, em função dos primeiros não levarem em conta as importantes diferenças evidenciadas entre os diferentes pólos moveleiros. 21 Todas as empresas entrevistadas declararam estar filiadas a alguma associação de classe ou sindicato e ter um contato fluido e permanente com os mesmos. 22 Nesse sentido, 92% das empresas entrevistadas declararam conhecer o programa, enquanto 67% declararam já tê-lo utilizado. diferentes estados produtores e mantém uma estreita relação com as empresas do setor23. Adicionalmente, no que se refere ao financiamento para exportação, existem linhas de financiamento do Bndes tanto de pré-embarque como de pósembarque. No que diz respeito ao desenvolvimento de recursos estratégicos, há uma concentração de esforços orientados para promover o design, tanto através do Programa Brasileiro de Design (do MDIC), como pelo lançamento de prêmios nacionais de design e de núcleos de desenvolvimento de design de móveis, em diversos estados. Finalmente, no que se refere ao desenvolvimento de ações que promovam a coordenação entre os atores da cadeia e o setor público deve-se destacar o surgimento, em 2001, do Fórum Nacional de Competitividade da Madeira e do Móvel, que tem merecido avaliação positiva por parte de algumas associações empresariais. Em matéria aduaneira, há algumas diferenças em relação à Argentina devido ao fato de não serem cobrados direitos de exportação nem serem pagos reembolsos. Também não existem problemas de acumulação de crédito fiscal. Quanto às políticas de caráter estadual, destacam-se principalmente as atividades desenvolvidas pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que possui diferentes programas em cada estado. No Rio Grande do Sul, sobressai-se o Sebrae- Export III, que se caracteriza por ser um programa de promoção às exportações que é executado conjuntamente com a associação de classe estadual (MOVERGS), contando com ampla difusão na região. 23 No caso de Bento Gonçalves, 83% das empresas entrevistadas declararam ter contato freqüente com essa instituição, principalmente no que se refere ao teste dos produtos e embalagens. 5. Avaliação comparativa do setor em ambos países e obstáculos ao desenvolvimento regional da cadeia produtiva de madeira e móveis 5.1. Obstáculos ao desenvolvimento da cadeia produtiva de móveis de madeira na Argentina e no Brasil A partir do estudo realizado, é importante destacar alguns aspectos do setor de móveis de madeira na Argentina e no Brasil. Em primeiro lugar, trata-se de uma cadeia produtiva constituída principalmente por pequenas e médias empresas e orientada, essencialmente, para o mercado interno. Na Argentina, a cadeia produtiva possui um caráter estruturalmente deficitário, apresentando um padrão de especialização de caráter primário, ou seja, com viés desfavorável ao segmento que apresenta o valor agregado dentro da cadeia (os móveis). O setor de móveis registra níveis de exportação baixos e sua resposta à variação de preços relativos resultante da desvalorização do peso em 2001 foi pouco expressiva. O Brasil, ao contrário, apesar da heterogeneidade existente entre suas empresas, encontra-se entre os 20 primeiros exportadores mundiais de móveis de madeira, com um grande crescimento de suas exportações durante a última década e um permanente superávit comercial. Adicionalmente, suas exportações têm respondido rapidamente à desvalorização do real em 1999. A difusão de inovações tecnológicas tem ficado restrita, quase exclusivamente, aos pólos produtivos, promovendo um contraste significativo com a situação observada no restante da indústria A partir da constatação dessas diferenças fundamentais no comportamento produtivo e exportador da cadeia produtiva moveleira na Argentina e Brasil, ressalta-se a existência, em ambos países, de limitações competitivas derivadas de problemas de natureza tecnológica e de falhas de coordenação. Com efeito, as empresas apresentam um significativo atraso em matéria de tecnologias de produto (design e produtos para acabamento), sendo habitual a cópia de designs. Observa-se uma grande heterogeneidade entre as firmas, sobressaindo certas empresas (principalmente empresas grandes e exportadoras), que alcançaram padrões de qualidade adequados em matéria de design e produtos para acabamento. No caso do Brasil, muitas dessas empresas estão localizadas nos pólos moveleiros exportadores de Bento Gonçalves e São Bento do Sul, onde a aglomeração geográfica tem contribuído para um maior fluxo de conhecimento (adquirido normalmente através do contato com clientes do exterior). Contudo, a difusão de inovações tecnológicas tem ficado restrita, quase exclusivamente, aos pólos produtivos, promovendo um contraste significativo com a situação observada no restante da indústria. Nas empresas argentinas é pouco freqüente a existência de áreas específicas de design. No Brasil, as empresas exportadoras contam habitualmente com uma área de design, mas ela é, fundamentalmente, orientada para o desenvolvimento do design enviado pelos clientes desde o exterior. No Brasil e na Argentina é baixo o grau de relacionamento das empresas entre si e das empresas com as instituições do seu entorno Por outro lado, observa-se uma baixíssima difusão de tecnologias modernas de gestão, limitada exclusivamente às empresas maiores, sendo que, no caso do Brasil, essas tecnologias estão mais difundidas nos pólos exportadores. No que se refere às tecnologias de processo, a situação é muito heterogênea. Há fatores de caráter microeconômico relacionados com a capacitação dos empresários que poderiam explicar o atraso tecnológico do setor. Contudo, é preciso apontar, em ambos países, a existência de um Sistema Nacional de Inovação pouco desenvolvido, além de um baixo grau de relacionamento das empresas entre si e das empresas com as instituições do seu entorno. A debilidade do Sistema Nacional de Inovação mostra-se menor no Brasil, onde se observa um maior desenvolvimento de instituições ligadas ao setor e uma maior interação entre essas instituições e as empresas, principalmente nos pólos produtivos. Dentre essas instituições aparecem as associações de classe nacionais e, principalmente, as associações estaduais, que contam com maior representatividade e com um papel mais ativo na gestão das políticas públicas Por sua vez, o escasso desenvolvimento de certos mercados críticos (design, madeira, partes e peças, somando-se, no caso argentino, o mercado de produtos para acabamento) limita consideravelmente o desenvolvimento da cadeia produtiva. A existência de importantes falhas de coordenação, somada a um escasso desenvolvimento institucional capaz de contribuir para sua resolução, principalmente no caso argentino, são os principais fatores limitantes. No caso do mercado brasileiro de produtos para acabamento, o desenvolvimento de um segmento produtor de móveis de madeira maciça com níveis de qualidade adequados (móveis de pinho para exportação), permitiu que se alcançasse a escala mínima necessária para a instalação rentável de especializados e competitivos de materiais para polimento. No caso brasileiro, o processo de integração Vertical - estratégia empresarial destinada a superar as falhas de coordenação – está mais difundido, como resultado da maior capacidade fornecedores financeira média das empresas da cadeia . A organização industrial do setor, tanto na Argentina como no Brasil, apresenta diferenças consideráveis quando comparada à de países com estruturas produtivas baseadas, também, no predomínio das pequenas e médias empresas, como é o caso da Itália. Observa-se um elevado e, em alguns casos, crescente nível de integração vertical e uma reduzida difusão de práticas de sub-contratação e iniciativas de caráter associativo entre as empresas, o que afeta a especialização vertical e horizontal do setor. Isso impede que as empresas explorem os ganhos resultantes de uma maior especialização produtiva ou das economias de escala presentes em certas atividades, como a comercialização (principalmente externa) e o design. No caso brasileiro, o processo de integração vertical está mais difundido, como resultado da maior capacidade financeira média das empresas da cadeia. A integração vertical tem-se mostrado uma estratégia empresarial destinada a superar as falhas de coordenação existentes. Não dispor de um design próprio e não progredir na adoção de estratégias associativas tende a aprofundar o caráter subordinado ou cativo das empresas em relação a seus clientes no exterior No caso argentino constata-se a existência de uma indústria atrasada tecnologicamente, pouco especializada vertical e horizontalmente, com baixos índices de competitividade e com uma inserção externa limitada principalmente às grandes empresas. Trata-se de um setor composto majoritariamente por micro e pequenas empresas e com um reduzido mercado interno. Tudo isso gera um círculo vicioso no qual a escassa competitividade limita o acesso aos mercados internacionais, impedindo o alcance de escalas eficientes de produção e restringindo o desenvolvimento da capacidade inovadora das empresas locais. Já no caso brasileiro observa-se uma maior heterogeneidade, com destaque para as empresas localizadas nos pólos regionais exportadores, que apresentam níveis tecnológicos adequados e elevados níveis de competitividade, enquanto o restante da indústria apresenta notáveis sinais de atraso. O que as experiências dos dois países parecem demonstrar é que num contexto em que o conhecimento é imperfeitamente comercializado em nível internacional, as capacidades individuais das empresas e as capacidades acumuladas no entorno constituem-se em fatores chaves para explicar o nível de desenvolvimento tecnológico alcançado pelas mesmas. Nessas circunstâncias, a inserção exportadora adquire vital importância como fonte de geração ou de transferência tecnológica para as empresas e sistemas locais, ao passo que a relação entre as empresas pode assumir um papel importante na tentativa de expandir seu acesso aos mercados externos. Deve-se chamar atenção, no entanto, que, mesmo no caso brasileiro, no qual se pode observar um maior avanço na inserção exportadora das empresas, o fato de não dispor de um design próprio e de não progredir na adoção de estratégias associativas, tende a aprofundar o caráter subordinado ou cativo das empresas em relação a seus clientes no exterior. A razão para tanto é que esses clientes, além de fornecer o design, controlam em larga medida a comercialização dos móveis exportados. 5.2. Obstáculos ao desenvolvimento da cadeia a nível regional Argentina e Brasil apresentam, no setor de móveis de madeira, fortes assimetrias em termos de escala e de desenvolvimento exportador. Não por acaso, as empresas brasileiras entrevistadas relataram uma experiência exportadora consideravelmente mais rica que a das empresas argentinas. Contudo, conforme constatado ao longo do presente trabalho, as empresas de ambos países apresentam limitações competitivas derivadas de problemas de ordem tecnológica e de falhas de coordenação. Nesse contexto, cabe afirmar que o Mercosul não contribuiu para a superação dessas limitações, nem para o alcance de alguns resultados teoricamente esperáveis quanto à criação de comércio e a geração de maiores níveis de especialização e complementação produtiva. À luz dessa constatação é possível elaborar um diagnóstico de quais devem ser os objetivos e as formas de gestão mais adequadas em processos de integração. As empresas argentinas produtoras de móveis de madeira consideram o mercado brasileiro importante, mas o Brasil nunca ocupou lugar de destaque como destino das vendas externas dessas empresas No que tange às relações comerciais entre os sócios, a Argentina detém um déficit estrutural no segmento de maior valor agregado da cadeia (móveis), enquanto a relação mostra-se mais equilibrada em matéria de intercâmbio de insumos. As empresas argentinas produtoras de móveis de madeira de médio e alto padrão consideram o mercado brasileiro importante, mas o Brasil nunca ocupou lugar de destaque como destino das vendas externas dessas empresas. Com efeito, apenas 20% das empresas argentinas entrevistadas realizaram alguma exportação de móveis para o Brasil, mas na totalidade dos casos trata-se de experiências fracassadas ou não recentes. Nesse sentido, há consenso entre os empresários de ambos países quanto às dificuldades para penetrar no mercado brasileiro sem dispor de um sócio local, principalmente em função da inexistência de uma adequada rede de distribuidores. Em contrapartida, as exportações brasileiras para a Argentina permitiram a ampliação do mercado exportador brasileiro, pelo menos até o ano 2001, quando o mercado argentino respondeu por 12% das vendas externas brasileiras. A partir de 2002, com a queda do mercado argentino, ocorreu um re-direcionamento das vendas para outros destinos, e as exportações brasileiras continuaram se expandindo. Tal circunstância pode estar evidenciando a ocorrência, no Brasil, de um processo de aprendizagem resultante das colocações no mercado argentino26. Não se observa em nível regional ações associativas ou iniciativas de cooperação entre as firmas para algum tipo de complementação produtiva dos dois países Por outro lado, não se observa em nível regional o desenvolvimento de ações associativas ou de iniciativas de cooperação entre as firmas que impliquem em algum tipo de complementação produtiva entre as empresas dos dois países. Nesse sentido, a maior parte dos empresários argentinos entrevistados considera improvável a adoção dessas iniciativas, seja pelo clima de desconfiança ou por assimetrias existentes em matéria de escala e de estágio exportador. Entre os empresários brasileiros, no entanto, observa-se maior predisposição para o estabelecimento desse tipo de relações. O certo é que têm sido poucas as experiências até o momento e nem sempre bem articuladas. Nesse contexto, a principal associação de classe setorial brasileira (ABIMOVEL) propôs um conjunto de atividades em matéria de promoção comercial e de desenvolvimento de design com o intuito de promover atividades associativas entre empresas de ambos países. Isto permitiria, talvez, que a Argentina aproveitasse a experiência desenvolvida pelo Brasil, tanto em matéria de políticas públicas como de inserção exportadora de suas empresas. Até que ponto é possível desenvolver 26 Isto foi confirmado em algumas entrevistas realizadas com empresas brasileiras. regionalmente cadeias e relações associativas entre empresas para resolver falhas de mercado, quando estas são debilitadas dentro das próprias fronteiras? Cabe indagar, contudo, até que ponto é possível desenvolver regionalmente cadeias e relações associativas entre empresas para resolver falhas de mercado, quando estas apresentam um caráter debilitado dentro das próprias fronteiras dos países envolvidos. Por outro lado, a falta de coordenação de políticas micro e macroeconômicas, com destaque para as flutuações da taxa de câmbio bilateral, constitui um importante obstáculo para o avanço do processo de integração regional, pois contribui para a geração de graves assimetrias nos fatores de competição entre as empresas de ambos países. É possível identificar significativas diferenças quanto à implementação das políticas públicas que afetam o setor nos dois países: • Menor número de guichês, menor superposição de programas e maior coordenação entre os organismos públicos brasileiros em relação com os argentinos. • Existência, no Brasil, de programas integrais de grande envergadura e de maior difusão entre as empresas, orientados principalmente para a promoção das exportações e incluindo o desenvolvimento do design como recurso estratégico (PROMÓVEL, Núcleos de desenvolvimento de design para móveis, Programa Brasileiro de Design). • Inexistência no Brasil, diferentemente da Argentina, de problemas de acumulação de saldos técnicos de impostos indiretos. Adicionalmente, as exportações não pagam nenhum tipo de imposto nem encargos sociais. • Existência, no Brasil, de financiamento público, normalmente orientado para as exportações (tanto pré como pós-embarque). • O papel importante desempenhado pelas associações empresariais brasileiras na difusão e execução dos programas dirigidos ao setor, contrastando com o que se observa na Argentina. 6. Propostas para promover o desenvolvimento da cadeia produtiva no Mercosul As características das indústrias de móveis da Argentina e Brasil sugerem a existência de benefícios potenciais para maior complementação produtiva e comercial O processo de integração regional, conforme assinalado, avançou de forma lenta e assimétrica no caso do setor de móveis de madeira, baseado principalmente nas relações comerciais. Não obstante, as características apresentadas pelas indústrias produtoras de móveis da Argentina e Brasil sugerem a existência de importantes benefícios potenciais ligados ao desenvolvimento de uma maior complementação produtiva e comercial no contexto do processo de integração. O perfil de especialização mais adequado para as exportações argentinas está vinculado aos móveis de médio e médio-alto padrão, principalmente de madeira maciça, com um crescente conteúdo de design local e maior grau de diferenciação dos produtos baseado na utilização do trabalho qualificado. Em contrapartida, o Brasil apresenta maiores vantagens comparativas na produção de móveis padronizados, onde as economias de escala são mais significativas. Para se alcançar uma complementação maior em nível regional é fundamental a superação das assimetrias existentes, promovendo a coordenação das políticas públicas e a implementação de ações dirigidas a aumentar a competitividades dos países da região, e da mesma com relação a terceiros mercados. Isto requer a geração de processos de criação de comércio entre os mesmos, assim como o desenvolvimento de uma ação conjunta em matéria de design e de aproximação com os mercados do exterior. No que se refere às políticas públicas, é preciso insistir na coordenação das políticas macroeconômicas. É necessário alcançar a harmonização e estabilização da taxa de câmbio para dar maior certeza aos processos de decisão microeconômica e evitar as fortes oscilações no comércio bilateral. Deve-se implementar, inclusive, uma coordenação de políticas microeconômicas como forma de reduzir as assimetrias existentes e evitar a concorrência institucional para captar investimentos, principalmente mediante a concessão de benefícios fiscais. Cabe esperar, ainda, a partir do processo de integração, que a Argentina assimile a maior experiência brasileira em programas de promoção de exportações dirigidos ao setor. Deve-se contemplar também a possibilidade de estender o programa PROMOVEL para todo o Mercosul. Em segundo lugar, deveria ser estimulado, no seio do bloco, o crescimento de um comércio do tipo intra-industrial, baseado num padrão de especialização complementar para cada país, segundo as características previamente assinaladas. Nesse sentido, caberia estimular o aumento do relacionamento entre as empresas de ambos países e incentivar a criação de show rooms, com móveis do Mercosul, nos principais centros de consumo. Existe um amplo espaço para a adoção de iniciativas comuns destinadas a melhorar a inserção conjunta da região em terceiros mercados Por outro lado, existe um amplo espaço para a adoção de iniciativas comuns destinadas a melhorar a inserção conjunta da região em terceiros mercados, contribuindo para que o Mercosul deixe de ser um jogo de soma zero para os atores da cadeia. Para alcançar esse objetivo é necessário trabalhar de forma conjunta para superar as imperfeições apresentadas pelos mercados nacionais. Caberia, nesse sentido, coordenar as estratégias orientadas para o desenvolvimento e incorporação do design. Para tanto, seria necessária a consolidação de instituições incumbidas da proteção da propriedade intelectual do design. É necessário, ainda, estabelecer alianças que se materializem na participação conjunta em feiras internacionais, bem como realizar feira comum, com caráter itinerante, para divulgação dos produtos do Mercosul tanto dentro como fora da região. Por outro lado, para aumentar a competitividade regional frente a terceiros mercados, é importante favorecer o desenvolvimento de estratégias empresariais que não se restrinjam a aspectos exclusivamente comerciais, mas dirigidas a consolidar o desenvolvimento da cadeia em nível regional. Com essa finalidade, caberia promover políticas de caráter vertical baseadas na concessão de incentivos (financeiros, fiscais, etc.) visando ao desenvolvimento da cadeia produtiva em nível regional. Por último, é importante destacar que o Fórum de Competitividade do setor de Madeira e Móveis do Mercosul é uma experiência que, apesar de ainda muito incipiente, pode ser orientada para resolver os problemas de coordenação e promover avanços na competitividade sistêmica da cadeia no Mercosul, o que justifica a sua continuidade e aperfeiçoamento. Bibliografia ABIMOVEL-Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (2003). Panorama do setor moveleiro no Brasil Aguerre, M (2002). Panorama Económico de la Evolución del Sector Forestal Argentino (mimeo). Bekerman M. e Cataife G. (2004). Encadenamientos productivos: Impactos sobre el desarrollo de los países periféricos, em Romero Padilla e Pelupessy W. (Orgs.) Teoría y Práctica del Enfoque Globales de Mercancías en América Latina. Bercovich, N. (2001). Evolución y Situación Actual del Complejo Forestal en Argentina (mimeo). Bertero, J., J. (2003). Historia de empresas y funcionamiento de los distritos industriales en Argentina. Coutinho, L. Gonçalves da Silva, A.; Dos Santos, R. M. Pamplona, T. Barbieri Ferreira, M., J. (2001). Design na indústria brasileira de móveis. ABIMOVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário). Denk, A (2002). Pólos Moveleiros. São Bento do Sul. ABIMOVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário). FAIMA - Federación Argentina de la Industria Maderera y Afines (2000). Sector Muebles. Ferraz Dias de Moraes, M. A.; Nassar, A.M. (2002). Estudo da Competitividade de Cadeias Integradas no Brasil: Impactos das Zonas de Livre Comércio. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Economia. Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (UNICAMP-IE-NEIT). Gereffi, G. e Korzeniewicz, M. (Orgs.) (1994). Commodity Chains and Global Capitalism. Westport, CT: Praeger. Gereffi, G., Humphrey J. e Sturgeon, T. (2003). The Governance of Global Value Chains: An Analytic Framework. Gorini, A.P.F. (2000). A indústria de móveis no Brasil. São Paulo: ABIMOVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário). Hoff, K. e Stiglitz, J.E. (2001). Modern Economic Theory and Development, em Meier, G. e Stiglitz, J. (editors) Frontiers of Development Economics: The Future in Perspective, Oxford University Press e Banco Mundial. INDEC - Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (1994). Censo Nacional Econômico 1994. Indústria Manufatureira. Total do País. Ministério de Economia. Secretaria de Programação Econômica. Instituto Nacional de Estatísticas e Censos. INDEC. Base de Dados do Comércio Exterior. INDEC. Pesquisa Anual Industrial International Trade Centre UNCTAD/WTO. United States Statistical Division, Base de Dados PC-TAS, 1992-1996 e 1995-1999. Kaplinsky, R., and J. Readman (2000). Globalization and upgrading: what can (and cannot) be learnt from international trade statistics in the wood sector? (mimeo). Kaplinsky, R., Morris, M., and Readman, J. (2001). The Globalization of Product Markets and Immiserising Growth: Lessons from the South African Furniture Industry (mimeo). MDIC - Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Secretaria de Comércio Exterior. Alice-web (Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior via Internet). OECD. Structural Statistics for Industry and Services (SSIS) database. STCP (2003). Plan Estratégico de las Pequeñas y Medianas Industrias Madereras de la Provincia de Misiones y Noreste de Corrientes.