EXPORTAÇÕES
Cadeias produtivas no processo de integração
regional: o caso dos móveis de madeira no
Mercosul
Marta Bekerman e Santiago Rodríguez
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Marta Bekerman é diretora e Santiago Rodríguez é pesquisador do Centro de Estudos
da Estrutura Econômica (CENES) da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade
de Buenos Aires.
1. Introdução
A maior parte dos estudos econômicos considera os efeitos estáticos de criação
ou desvio de comércio como sendo a variável fundamental para a avaliação dos
custos e benefícios envolvidos nos processos de integração regional. No entanto,
tais efeitos não incluem todos os benefícios potenciais de caráter dinâmico
gerados a partir dos processos de integração. Eis a razão pela qual o presente
trabalho focaliza o desenvolvimento de cadeias produtivas em nível regional, uma
vez que elas podem promover a obtenção de benefícios derivados da
especialização produtiva bem como do aproveitamento de economias de escala,
influenciando favoravelmente o nível de competitividade sistêmica da região frente
a terceiros mercados.
Quais devem ser os objetivos dos
processos de integração e qual
a melhor maneira de administrá-los?
As dificuldades do Mercosul
são decorrência da forma
como tem sido gerenciado
Os efeitos dinâmicos desse tipo são aqueles que oferecem os argumentos mais
convincentes para a defesa dos processos de integração quando comparados aos
processos de abertura unilateral da economia. De fato, os processos de
globalização e descentralização da produção, bem como o desenvolvimento de
cadeias globais de mercadorias, geram profundos impactos sobre os sistemas
produtivos locais e impõem aos países afetados a necessidade de consolidar suas
cadeias de valor para fortalecer sua competitividade sistêmica e a qualidade de
sua inserção internacional (Gereffi e Korzeniewicz, 1994; Bekerman e Cataife,
2004).
Contudo, algumas experiências de integração, como é o caso do Mercosul,
mostram as dificuldades que podem se apresentar para promover a consolidação
das cadeias produtivas regionais. Essas dificuldades são fruto das fragilidades
apresentadas pelas cadeias produtivas dentro das fronteiras nacionais dos países
sócios e estão associadas a imperfeições de mercado que não chegaram a ser
neutralizadas com base na implementação de estratégias públicas ou privadas.
Elas são também uma decorrência da forma como o processo de integração do
Mercosul tem sido gerenciado até o momento. Isto nos coloca frente ao debate
acerca de quais devem ser os objetivos dos processos de integração e qual a
melhor maneira de administrar tais processos.
Cabe aqui indagar, inclusive, até que ponto as estratégias de integração entre
países periféricos podem contribuir efetivamente para corrigir falhas de mercado
que limitam a consolidação e/ou o desenvolvimento autônomo das cadeias
produtivas nos países membros.
Não há dúvida que essas limitações não se apresentam de forma homogênea
entre os distintos setores e cadeias produtivas, verificando-se a existência de
profundas heterogeneidades entre os mesmos. Isto nos impõe a necessidade de
trabalhar com dimensões mais desagregadas, que nos permitam detectar as
especificidades contidas em cada setor ou cadeia.
O presente trabalho analisa essa temática em relação à situação do setor de
móveis de madeira e sua cadeia produtiva em dois países integrantes do
Mercosul: Argentina e Brasil. Busca determinar, em primeiro lugar, quais são os
fatores mais relevantes para explicar a situação do setor em ambos os países e,
em especial, quais são os principais obstáculos ao seu desenvolvimento. Destaca,
também, as dificuldades que os países periféricos enfrentam para dominar as
etapas mais rentáveis da cadeia produtiva: o design e a comercialização. Com
efeito, apesar de se tratar de uma indústria tradicional, o gap tecnológico é um
fator que limita fortemente a competitividade das empresas produtoras de móveis
desses países. O trabalho procura indagar a respeito dos fatores que restringiram
o desenvolvimento regional do setor, no Mercosul, para, finalmente, avaliar as
estratégias de política que deveriam ser implementadas a fim de promover o seu
desenvolvimento.
A relevância do setor escolhido decorre de diversos fatores. Em primeiro lugar,
porque faz parte da cadeia produtiva da madeira que, em ambos países, detém
importantes vantagens comparativas naturais em função da disponibilidade de
regiões aptas para o desenvolvimento da atividade florestal.
Em segundo lugar, trata-se de uma indústria intensiva em mão de obra,
constituída
principalmente
por
pequenas
e
médias
empresas
(PMEs).
Adicionalmente, o setor detém uma significativa presença em algumas economias
regionais, como nas províncias de Santa Fé (Cañada de Gómez e Esperanza) e
Formosa (Pirané) na Argentina, e nos estados de Santa Catarina (São Bento do
Sul) e de Rio Grande do Sul (Bento Gonçalves), no Brasil.
Até que ponto estratégias de integração entre países
periféricos podem contribuir para corrigir falhas
de mercado que limitam a consolidação e/ou
o desenvolvimento das cadeias produtivas
nos países membros ?
Por outro lado, alguns países em desenvolvimento experimentaram uma
vertiginosa expansão exportadora durante a última década (países do sudeste
asiático, México e o próprio Brasil), passando a ocupar importantes posições entre
os principais exportadores mundiais de móveis de madeira. Esse fato contribui
para destacar as potencialidades presentes neste setor para os países periféricos.
O estudo se organiza em seis seções, além da Introdução. Apresenta o setor e
sua cadeia produtiva e analisa os obstáculos ao desenvolvimento dessa cadeia na
Argentina e no Brasil a partir de pesquisas de campo realizadas em ambos países.
Realiza uma avaliação comparativa da situação nos dois países, assim como dos
obstáculos que se apresentam ao desenvolvimento da cadeia em nível regional.
No final, traz algumas recomendações de políticas visando à remoção desses
obstáculos.
2. Cadeia produtiva de móveis de madeira e segmentação do
setor de móveis
A cadeia produtiva de móveis de madeira se inicia com a atividade florestal. Parte
da madeira bruta extraída é utilizada pela indústria de papel e celulose, enquanto
o restante é destinado, por um lado, às serrarias e às fábricas de compensado e
laminado e, por outro, às fábricas de painéis de madeira.
A madeira serrada e seca tem como principais destinos a indústria de produtos
manufaturados de madeira, a indústria de construção e a indústria de móveis. Esta
última incorpora também como insumos os painéis de madeira e os diferentes
subprodutos do processamento mecânico da madeira. Utiliza, ainda, outros
insumos, destacando-se principalmente os produtos para acabamento, a
tapeçaria, os abrasivos, as colas e adesivos e as ferragens.
A matriz de relações do setor moveleiro inclui também o suprimento de
ferramentas, bem como de maquinaria e de equipamento específico. Por último,
destacam-se as atividades de design e planejamento logístico, que podem ser
desenvolvidas no seio da empresa ou terceirizadas. Para frente, a cadeia
moveleira se vincula com distintos atores que podem participar nas atividades de
distribuição e venda, tanto a nível nacional (lojas do próprio fabricante,
representantes comerciais, lojas de móveis, distribuidores e atacadistas
independentes, supermercados e hipermercados, etc.), como internacional
(traders, grandes cadeias, boutiques de móveis, etc.).
Do ponto de vista analítico, é importante desenvolver uma discriminação do setor
por tipo de móvel, em função do padrão de qualidade, definido com base em
diversos aspectos produtivos, dentre os quais destacam-se:
• Móveis de padrão inferior: fundamentalmente lisos, com desenhos
simples de linhas retas, produzidos principalmente a partir de painéis de
madeira.
• Móveis de padrão superior: incluem um acabamento mais sofisticado e
incorporam um design de maior qualidade. De modo geral, são móveis
que detêm maior proporção de madeira maciça, bem como chapas de
madeira de qualidade.
Vale destacar, ainda, que as máquinas, o conhecimento em matéria de design e o
nível de qualificação da mão-de-obra requeridos na fabricação de um e outro tipo
de móvel são, de modo geral, bastante diferentes, o que se reflete em importantes
diferenças nos níveis de valor agregado e também nos preços (mais elevados no
caso dos móveis de padrão superior). De outro lado, os níveis de escala mínima
eficiente são também diferentes: de fato, as economias de escala são
particularmente relevantes na produção de móveis de padrão inferior.
2.1. Transformações internacionais da cadeia: novas barreiras à entrada
No comércio internacional, a despeito de importantes diferenças entre os diversos
países desenvolvidos, verifica-se uma tendência à concentração das vendas de
móveis de baixo e médio padrão, principalmente de móveis do tipo ready-toassemble e do-it-yourself, em grandes cadeias especializadas e discount-stores.
Essas empresas, que monopolizam os canais de comercialização, compram seus
insumos de centenas de fornecedores distribuídos ao redor do mundo, como é o
caso da cadeia sueca IKEA e da cadeia inglesa B&Q.
As mudanças na comercialização, somadas
a designs inovadores, promoveram
impactos na evolução das atividades
produtivas e do comércio exterior
mas contribuíram para gerar
novas barreiras à entrada
As mudanças na comercialização, somadas à crescente importância adquirida
pelo desenvolvimento de designs inovadores, promoveram impactos significativos
na evolução das atividades produtivas e do comércio exterior de alguns países
periféricos. Porém, essas mudanças contribuíram também para gerar novas
barreiras à entrada. De fato, a transferência de tecnologia, tanto de produtos
(através de designs sob encomenda) como de processos (obrigação de atingir um
padrão de qualidade internacional), aliada às soluções oferecidas em matéria de
logística e comercialização, possibilitaram o desenvolvimento de importantes
capacidades produtivas em países como a China, Polônia, México e Brasil1.
Contudo, em muitos casos, a inserção em cadeias produtivas globais limita as
possibilidades de se promover um upgrading funcional, com a incorporação de
novas capacidades em áreas onde prevalecem barreiras à entrada, restringindo,
portanto, a possibilidade de se alcançar as etapas mais rentáveis da cadeia
produtiva. De fato, a cadeia global de móveis de madeira tem evoluído em direção
1
O upgrading implícito na possibilidade de um produtor se inserir na exportação de móveis de madeira pode
ser exemplificado comparando-se os preços médios por kg observados nas exportações mundiais de madeira
bruta (0,12), madeira serrada (0,36), painéis de partículas e fibras de madeira (0,38 e 0,43, respectivamente) e
móveis de madeira (2,94).
a um tipo de um encadeamento produtivo denominado “cativo” 2, que opera na
modalidade conhecida como “liderada pelo comprador” (Gereffi e Korzeniwicz,
1994).
3. Cadeia produtiva do móvel na Argentina
3.1. Aspectos gerais do setor: produção, comércio exterior e padrão de
especialização
A indústria moveleira argentina é caracterizada pela presença de numerosas
micro, pequenas e médias empresas. De fato, as firmas de maior tamanho
contam, de modo geral, com até 100 empregados.
A indústria transformadora de madeira bruta, bem como as empresas laminadoras
se concentram em torno de complexos florestais-industriais regionais, ao passo
que a indústria produtora de móveis de madeira se localiza, principalmente, em
áreas próximas às regiões metropolitanas e em torno de pólos produtivos
regionais.
A produção física de móveis e partes de móveis de madeira atingiu seu pico em
1998, sofreu uma queda vertiginosa logo depois, até alcançar em 2002 um volume
equivalente a 41% da produção registrada em 1993. En dólares corrientes la
producción cayó de u$s 905 millones en 1998 a u$s 105 millones en 2002 (luego
de la devaluación)3.
Os níveis de exportação permaneceram estáveis ao longo da última década,
alcançando valores bastante modestos, em torno de US$ 11 milhões (1,8% do
2
Os encadeamentos “cativos” apresentam como principais características (i) uma elevada complexidade nas
transações; (ii) a possibilidade de codificar essas transações com base em planos e projetos que detalham o
design e as especificações técnicas dos materiais utilizados; e (iii) um baixo desenvolvimento da oferta. A
baixa capacidade da oferta está associada à existência de importantes barreiras à entrada em matéria de
design, logística, marketing e comercialização, o que contribui para tornar altamente dependentes aos
pequenos produtores industriais (Gereffi, Humphrey e Sturgeon, 2003).
3
A evolução da produção de móveis de madeira não conta com estatísticas adequadas. Em conseqüência,
utiliza-se a série de volume físico e de preços atacadistas do setor moveleiro em seu conjunto (que inclui
colchões e móveis de outros materiais) da Pesquisa Industrial Anual desenvolvida pelo INDEC para atualizar
os valores censitários.
VBP setorial em 2001). Os EUA tendem a consolidar-se como o principal mercado
de destino (60% da exportação em 2001), concentrando sua demanda em móveis
de padrão médio ou médio alto, de madeira maciça.
A inserção internacional do setor de móveis
depende de vários aspectos relevantes,
além da elevação da taxa de câmbio real,
como design, qualidade do acabamento
e desenvolvimento de redes de
comercialização adequadas
Após a desvalorização do peso, o padrão de exportação da cadeia moveleira sofre
uma importante transformação. As exportações de móveis registram um
incremento muito modesto, enquanto as vendas externas do resto da cadeia
experimentam um crescimento bastante significativo. De outro lado, as vendas de
móveis para os EUA, concentradas em produtos de maior valor agregado, caem
em termos absolutos em 2002, ao passo que crescem fortemente as exportações
para o Chile4. Essas exportações são constituídas fundamentalmente por móveis
de padrão inferior, fabricados a partir de painéis de madeira. Sua presença na
pauta exportadora é recente e tem sido viabilizada pela vigência de uma taxa de
câmbio real muito elevada (e, provavelmente, insustentável no longo prazo).
A competitividade estrutural do setor moveleiro argentino concentra-se nos móveis
de padrão médio e alto de madeira maciça. Contudo, a evolução recente sugere
que a simples elevação da taxa de câmbio real é insuficiente para alavancar a
exportação desse tipo de móveis, ao menos no curto prazo. Constata-se, portanto,
que a inserção internacional do setor depende de outros aspectos relevantes,
como o design, a qualidade do acabamento e o desenvolvimento de redes de
comercialização adequadas.
4
As vendas para o Chile concentram-se em um reduzido grupo de empresas sem experiência exportadora
prévia. Não fosse o incremento das vendas para o Chile, as exportações totais de móveis de madeira teriam
registrado uma queda superior a 20%.
Por sua vez, as importações de móveis de madeira cresceram significativamente
nos anos 1990, constituindo-se no elo mais importante dentro das importações da
cadeia produtiva. Com a recessão, as importações sofreram uma queda em 2001
até chegarem ao esgotamento no ano seguinte, ao registrarem a insignificante
cifra de US$ 2,1 milhões (uma queda de 95% com relação ao ano anterior). As
importações argentinas são principalmente provenientes do Brasil - cerca de 60%,
em média, nos últimos 5 anos - de onde são importados móveis de painéis de
madeira de padrão inferior. Até 2001, a cadeia produtiva registrou um saldo
comercial sistematicamente negativo (u$s 83 milhões, em média, entre 1997 e
2001) e sua reversão só ocorreu após a desvalorização do peso e como resultado
do virtual colapso das importações. As únicas rubricas a apresentar superávit
sistemático foram toras de madeira e painéis de madeira. Em contrapartida, o
setor de móveis de madeira constituiu-se na principal rubrica deficitária,
destacando a existência de um padrão de especialização com claras debilidades
no segmento de maior valor agregado da cadeia produtiva.
3.2. Obstáculos ao desenvolvimento da competitividade da cadeia produtiva
na Argentina5
Se bem que a cadeia produtiva de móveis de madeira conta na Argentina com
importantes vantagens comparativas naturais (em função da disponibilidade da
matéria-prima) e com uma longa tradição produtiva, o seu desenvolvimento
competitivo tem se deparado ao longo da história com uma série de obstáculos
que limitaram e ainda limitam a sua consolidação produtiva e exportadora. É
5
A presente seção está baseada em Bekerman M., Rodríguez S. e Sirlin P. (2004) “Obstáculos al desarrollo
de encadenamientos productivos en Argentina: el caso de los muebles de madera”, mimeo. Nesse trabalho,
utilizou-se como principal fonte de informação uma pesquisa de campo realizada entre maio e agosto de 2003.
Foram entrevistados 25 fabricantes de móveis, um fabricante de painéis de madeira e uma grande cadeia
comercial de móveis. Adicionalmente, foram realizadas 15 entrevistas com coordenadores de consórcios de
exportação, especialistas setoriais, designers e membros de associações de classe. A amostra selecionada não
tinha qualquer pretensão de representatividade estatística. O objetivo foi o de entrevistar empresas que: (i)
mostraram maior inserção e dinâmica exportadora; (ii) tivessem participado de experiências associativas; ou
(iii) estivessem localizadas nos principais pólos moveleiros de Cañada de Gómez e Esperanza.
possível identificar dois grandes conjuntos de fatores restritivos vinculados entre
si: os que dizem respeito às debilidades tecnológicas e aqueles relacionados ao
desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação.
3.2.1. O atraso tecnológico
O setor produtor de móveis de madeira argentino apresenta importantes
deficiências e uma grande heterogeneidade no que se refere a tecnologias de
produto, de processo e de organização.
Em termos de design, ponto-chave em tecnologia de produto, a indústria argentina
deixa transparecer importantes fragilidades, tanto no plano das empresas
individuais como no plano setorial. Não é possível falar da existência de um
padrão de design argentino possuidor de uma identidade própria. A maior parte
das empresas do setor trabalha sobre a base de cópia e adaptação deficientes,
desvirtuando os designs originais e depreciando assim o seu valor.
Adicionalmente, a profissionalização do design encontra-se muito pouco difundida
no interior das firmas, limitando-se quase exclusivamente às empresas
exportadoras e às grandes empresas (mais de 40 funcionários). Nesse sentido,
somente 44% das empresas entrevistadas declararam contar com funcionários
especializados, porcentaje que se reduce al 15% y 9% respectivamanete en las
empresas pequenas y en las nao exportadoras. Por el contrario, en las empresas
grandes dicho porcentaje aumenta al 77%, mientras que en las exportadoras lo
hace al 71%.
No que se refere a tecnologias de organização, observa-se que há uma baixíssima
utilização de tecnologias modernas de gestão, limitada exclusivamente às grandes
empresas. De fato, somente 16% das empresas entrevistadas declararam possuir
certificado de normas de qualidade ISO 9000.
No caso da cadeia de móveis na Argentina, é possível
identificar dois grandes conjuntos de fatores restritivos:
os que dizem respeito às debilidades tecnológicas
e aqueles relacionados ao desenvolvimento
de mercados e falhas de coordenação.
A inovação em tecnologia de processo caracteriza-se também por sua
heterogeneidade, destacando-se as grandes empresas e as produtoras de móveis
de madeira maciça por terem incorporado maquinaria de última geração em anos
recentes, sob estímulo de uma taxa de câmbio defasada.
O baixo desenvolvimento da capacidade inovadora das empresas do setor decorre
de diversos fatores, localizados nos planos macro, meso e microeconômico, que
se condicionam mutuamente.
Em termos macroeconômicos, o primeiro fator a ser mencionado é o tradicional
viés antiexportador, que afetou o setor na fase substitutiva de importações
induzindo-o a se voltar excessivamente para o mercado interno e a manter um mix
de produção demasiadamente amplo. A ausência de concorrência externa e a
existência de um mercado pouco exigente e de baixo poder aquisitivo restringiram
os incentivos e a disciplina que um ambiente competitivo é capaz de propiciar,
afetando principalmente a inovação em tecnologias de produto.
De outro lado, a instabilidade econômica tem levado a um encurtamento do
horizonte de planejamento, em detrimento de investimentos que requerem prazos
de maturação mais longos como aqueles orientados para a inovação tecnológica.
A instabilidade do tipo do câmbio real contribuiu, também, para desestimular os
investimentos em tecnologias de produto, cuja amortização só teria sido possível
mediante uma inserção sistemática nos mercados internacionais. Por último, a
forte instabilidade da demanda levou a uma excessiva diversificação horizontal
das empresas do setor, como estratégia defensiva para enfrentar as fases
recessivas do ciclo.
No plano macroeconômico,
o viés antiexportador afetou o setor
de móveis na fase substitutiva de importações,
induzindo-o a se voltar para o mercado
interno e a manter um mix de
produção muito amplo
A partir de uma perspectiva microeconômica, deve-se ressaltar que se trata de um
setor composto por um conjunto vasto de micro e pequenas empresas,
constituídas, em sua maioria, sobre a base de pequenas oficinas artesanais.
Esses artesãos-empresários carecem, de modo geral, de um patamar mínimo de
capacidades e competências (de gestão, educativa, empreendedora) necessárias
para a geração de processos inovadores. Em muitos casos, eles possuem níveis
de produção insuficientes para amortizar grandes investimentos em novas
tecnologias. Adicionalmente, a incorporação de tecnologia (principalmente de
produto e de organização) não é vista normalmente como um potencial fator de
competitividade, mas como um gasto desnecessário.
A capacidade inovadora e o desempenho das empresas são influenciados pelo
ambiente em que estas se desenvolvem, ou seja, por fatores localizados no plano
mesoeconômico, com destaque para o baixo grau de desenvolvimento do Sistema
Nacional de Inovação. Nossa pesquisa de campo detectou baixa vinculação entre
as empresas e o escasso desenvolvimento de instituições ligadas ao setor, sendo
essa interação muito fraca. O intercâmbio de informações (seja por via formal ou
informal) entre empresas competidoras, fornecedores e clientes locais é muito
restrito. No caso da matéria-prima, o intercâmbio de informações é prejudicado
pelo fato de que alguns insumos críticos (como os produtos para acabamento) são
importados. De outro lado, a situação crítica na qual se encontram as associações
empresariais setoriais (determinada, entre outras razões, pela diminuição do
número de sócios) constitui um fator inibidor para a ocorrência de uma fluida troca
de informações entre as empresas do setor.
Ao promover o contato com clientes
estrangeiros, a inserção exportadora
assume particular relevância como
fonte de transferência tecnológica
para as empresas e sistemas locais
A relação das empresas com o sistema educativo é praticamente nula. No que
tange às instituições públicas, cuja função é a de fornecer informação técnica e
comercial (INTI - Instituto Nacional de Tecnologia Industrial, Chancelaria,
Fundação
Exportar,
CFI
-
Conselho
Federal
de
Investimentos,
Centro
Metropolitano de Design), ainda que 41% das empresas entrevistadas declarem
ter tido algum tipo de contato, trata-se de relações muito esporádicas e as
experiências nem sempre foram positivas.6
Vale destacar que há um maior desenvolvimento do sistema de inovação em nível
local, no caso dos pólos moveleiros regionais, com destaque especial para o pólo
de Esperanza. Observa-se a existência de vínculos mais estreitos entre empresas
e instituições do entorno, registrando-se também um maior desenvolvimento
dessas últimas, o que mostra as vantagens derivadas da aglomeração geográfica
das empresas. Não obstante, as relações são ainda muito fracas, diferentemente
do observado em outras experiências internacionais, como é o caso dos distritos
industriais italianos ou até mesmo dos pólos produtivos brasileiros.
6
Os principias problemas apontados foram os seguintes: prazos de resposta muito demorados, falta de
capacidade técnica, falências na organização de atividades, falhas na informação fornecida.
A influência do ambiente local ou nacional sobre a capacidade inovadora das
empresas está condicionada, em parte, pela imperfeita comercialização do
conhecimento, o que limita o livre acesso a determinadas tecnologias. Eis a razão
pela qual a inserção exportadora, ao promover o contato com clientes
estrangeiros, assume particular relevância como fonte de transferência tecnológica
para as empresas e sistemas locais. Nesse sentido, conforme evidenciado em
nossa pesquisa de campo, a interação com os clientes internacionais envolve um
importante intercâmbio de informação em matéria de design e técnicas de
acabamento, levando a uma forte heterogeneidade entre empresas exportadoras
e não-exportadoras no que diz respeito a suas capacidades em matéria de design.
Não obstante, é importante salientar que nas empresas exportadoras tendem a se
reproduzir as mesmas características das cadeias produtivas cativas: o design do
produto é habitualmente fornecido pelo cliente no exterior, que mantém total
controle dos canais de comercialização.
3.2.2. Desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação
♦
Escasso desenvolvimento de mercados críticos e falta de fornecedores
especializados
O escasso desenvolvimento de certos mercados críticos limita enormemente o
desenvolvimento da indústria produtora de móveis de madeira. A existência de
importantes falhas de coordenação, associadas a uma considerável debilidade
institucional (formal ou informal), constituem os principais fatores limitadores.
Um mercado relevante para o desenvolvimento de um setor de móveis dinâmico e
competitivo é o de design. Ainda é um mercado muito pouco desenvolvido, apesar
de existir uma considerável capacidade no país, o que se traduz em grave
ausência de coordenação entre design e indústria. Isso se dá num contexto
marcado pela presença de instituições públicas com baixa capacidade para
solucionar falhas de coordenação. De fato, ainda que existam instituições formais
incumbidas de proteger a propriedade intelectual dos designs, o Estado não
possui capacidade de enforcement da legislação em vigor. Desse modo, a cópia
do design tende a se generalizar, desestimulando as empresas produtoras de
móveis a investirem nessa atividade e os designers a buscarem uma aproximação
com as empresas na tentativa de ofertar seus serviços.
Outro mercado relevante é o de madeira, dado que o fornecimento de madeira de
qualidade e com as especificações requeridas constitui um aspecto crítico para o
setor de móveis, principalmente no caso da madeira maciça. Nesse sentido, o
mercado argentino de madeira apresenta sérias deficiências: (i) uma grande
presença de nós; (ii) um forte déficit de madeiras de maior valor para móveis de
padrão alto; (iii) um forte déficit em matéria de capacidade e qualidade do
processo de secagem; e (iv) ausência de uma adequada classificação da madeira
maciça com base na qualidade.
Essas deficiências têm origem, por um lado, na existência de falhas de
coordenação nas decisões de investimento entre produtores de móveis e
fornecedores de madeira. Nesse sentido, a ausência de matéria-prima de
qualidade limita o desenvolvimento do setor de móveis de alto padrão, impedindo
o surgimento de fornecedores especializados. Por outro lado, o baixo
desenvolvimento institucional representa um importante fator limitador para a
resolução das falhas de coordenação mencionadas acima. De fato, a ausência de
instituições que estabeleçam normas de classificação da madeira e desenvolvam
atividades com o objetivo de promover a coordenação entre os agentes, impede a
redução dos custos altos de transação existentes, condicionando de forma
considerável o desenvolvimento desse mercado.
Em virtude desses problemas, os produtores de móveis têm adotado diversas
estratégias que, dada a atual matriz tecnológica e institucional, trazem soluções
adequadas para a empresa individual, mas tendem a limitar o desenvolvimento do
setor em seu conjunto. Nesse sentido, no caso das grandes empresas, chama a
atenção a integração vertical da etapa de secagem e, em alguns casos, da própria
produção florestal. Essas empresas optam por se integrar verticalmente, mesmo
às custas de diminuir o seu grau de especialização e manter parte de sua
capacidade ociosa, fato que ilustra bem a magnitude dos custos de transação
envolvidos no processo. Ao mesmo tempo, sendo os consumidores os principais
de madeira de qualidade, essas empresas promovem uma queda na demanda
desse tipo de matéria-prima, impedindo o desenvolvimento de fornecedores
especializados.
A importância do mercado de produto acabado indica como o acabamento dos
móveis constitui um aspecto crítico para a indústria de móveis de madeira maciça.
Não obstante, observa-se na Argentina uma ausência considerável de
fornecedores
especializados
nesse
tipo
de
produto.
Novamente,
o
desenvolvimento precário de um setor de móveis de alto padrão, com níveis de
qualidade adequados e capacidade para demandar esse tipo de insumos,
restringe o desenvolvimento (ou o estabelecimento) de uma indústria competitiva
de produto acabado. De outro lado, a ausência desses fornecedores condiciona,
por sua vez, o desenvolvimento da indústria de móveis.
Maior desenvolvimento das práticas
de sub-contratação permitiria alcançar
maior grau de especialização vertical
e contribuir para aumentar os níveis
de eficiência do setor
Por se tratar de um setor constituído primordialmente por pequenas e médias
empresas, um mercado de especial relevância para o desenvolvimento da
indústria moveleira argentina é o de partes e peças passíveis de sub-contratação.
Um maior desenvolvimento das práticas de sub-contratação permitiria alcançar
maior grau de especialização vertical, contribuindo para aumentar os níveis de
eficiência do setor. No entanto, somente 32% das empresas entrevistadas
declararam trabalhar sistematicamente com firmas sub-contratadas, terceirizando
15% ou mais de sua produção. O baixo desenvolvimento das práticas de subcontratação levou, nos anos 90, à incorporação generalizada de máquinas não
especializadas, resultando não apenas em baixos níveis de produtividade como
também em excesso generalizado de investimento em equipamentos.
Merece destaque a ausência de estratégias empresariais orientadas para a
formação e acompanhamento de fornecedores, haja vista que um dos principais
fatores que determinam a sub-contratação está associado a comportamentos
defensivos visando à obtenção de maiores níveis de flexibilidade ou uma
capacidade maior de ajuste frente a mudanças nos níveis da demanda. Por outro
lado, a instabilidade macroeconômica atua como um importante fator a restringir o
desenvolvimento de fornecedores, pois contribui para o aumento dos custos de
transação envolvidos nas relações de sub-contratação.
Vale salientar, no entanto, que há um maior desenvolvimento do mercado de subcontratação no caso das empresas situadas nos pólos moveleiros de Cañada de
Gómez e Esperanza, que terceirizam 50% da produção. Este fato parece indicar
que a proximidade geográfica e a existência de uma oferta abundante e variada de
empresas e oficinas especializadas permitem reduzir os custos de transação
implícitos no estabelecimento de relações de sub-contratação.
Finalmente, deve-se mencionar as imperfeições existentes no mercado de painéis,
onde a produção se concentra em um número pequeno de grandes empresas
(principalmente no caso dos painéis de fibra), gerando fortes assimetrias no poder
de negociação com as pequenas e médias empresas produtoras de móveis.
3.3. Relações associativas entre empresas
Por ter o setor de móveis uma estrutura produtiva baseada em micro, pequenas e
médias empresas, o desenvolvimento de relações associativas entre as empresas
é de vital relevância.
Essas relações permitem enfrentar os obstáculos que surgem em função dos altos
custos fixos e das indivisibilidades presentes em certas atividades chave, como é
o caso da comercialização, principalmente externa, e do design.
De fato,
consoante a nossa pesquisa de campo, a escala de produção mostra-se uma
variável relevante tanto na determinação da orientação exportadora das empresas
como na constituição de uma área especializada em design. A partir da pesquisa,
verifica-se que 73% das empresas que exportam ou exportaram recentemente são
relativamente grandes (mais de 40 funcionários). Adicionalmente, enquanto 77%
dessas empresas contam com funcionários especializados em design, no caso
das pequenas empresas o percentual cai para 15%.
As práticas associativas são
uma forma eficaz para a escala de comercialização
externa e design: facilitam
a inserção exportadora das pequenas
empresas, que podem superar
a barreira de tamanho
Nesse contexto, é importante salientar que, das três pequenas empresas
pesquisadas com forte orientação exportadora, duas fazem parte de um consórcio
exportador. De modo análogo, verificou-se que 100% das pequenas empresas
que contam com funcionários especializados na área de design estão associadas
a consórcios. As práticas associativas mostraram ser, portanto, uma forma eficaz
de se alcançar a escala requerida para atingir o sucesso em matéria de
comercialização externa e design. De fato, tais práticas permitiram às pequenas
empresas superar a barreira de tamanho e facilitar sua inserção exportadora.
Por outro lado, iniciativas associativas possibilitam o desenvolvimento de
esquemas de especialização produtiva, gerando maiores níveis de eficiência.
Contudo, as iniciativas associativas no setor moveleiro argentino têm se
restringido normalmente aos aspectos comerciais (comercialização externa ou
pool de compras), sendo excepcionais os esquemas de complementação
produtiva.
Apesar de sua relevância para o desenvolvimento do setor, as ações associativas
entre empresas encontram-se muito pouco difundidas na indústria argentina de
móveis de madeira.7 Ademais, cabe destacar que a maior parte das experiências
detectadas dizem respeito a empresas localizadas nos pólos produtivos regionais,
o que evidencia a importância da concentração geográfica para o relacionamento
interempresarial.
Contudo, é possível distinguir duas trajetórias diferenciadas. Em Cañada de
Gómez, de um lado, é alta a percentagem de experiências fracassadas,
evidenciando a ausência de “capital social”, apesar da concentração geográfica.
De acordo com os empresários entrevistados, os principais obstáculos para
avançar em projetos de natureza associativa são os entraves "culturais”, o
“individualismo”, etc. De outro lado, as entrevistas realizadas em Esperanza
permitiram detectar um nível mais alto de associação.
3.4.
Políticas públicas: situação atual e grau de utilização
As políticas orientadas para o setor moveleiro estão baseadas fundamentalmente
nos instrumentos de caráter horizontal de apoio às PMEs. Contudo, verifica-se a
ocorrência dos seguintes entraves:
7
Foram detectadas somente 8 iniciativas de cooperação entre empresas argentinas produtoras de móveis: 6
consórcios de exportação e 2 clubes de compra.
•
Uma forte desarticulação institucional entre os diferentes organismos que
realizam ações dirigidas ao setor (Secretarias de Indústria, de Agricultura e de
PMEs; M.R.E., Fundação Exportar e CFI entre outros)8.
•
Os
instrumentos
mobilizados
nem
sempre
atingem
as
empresas,
principalmente aquelas localizadas no interior do país.
•
Baixo nível de utilização dos instrumentos públicos de apoio, principalmente
no caso das empresas de menor tamanho9.
Quanto ao desenvolvimento de recursos
estratégicos para o setor, a
implementação de políticas orientadas para o desenvolvimento e difusão do uso
do design tem importância fundamental. Contudo, é bastante limitado o esforço
público para fomentar o desenvolvimento do design e baixo o grau de articulação
com a indústria10.
Por outro lado, no que se refere à promoção comercial, ainda que os consórcios
de exportação venham tendo uma difusão crescente, observa-se, em alguns
casos, uma certa deficiência na gestão desses consórcios (por exemplo: ausência
de critérios adequados de seleção de empresas participantes, insuficiente
monitoramento e controle das atividades dos coordenadores), o que limita
seriamente suas possibilidades de êxito. Nesse contexto, observa-se um escasso
apoio a estes grupos por parte das áreas oficiais encarregadas da promoção
comercial e da assistência técnica.
8
Essa desarticulação está tentando ser corrigida através da criação do “Fórum da Competitividade do setor de
Madeira e Móveis”, que reúne os organismos públicos envolvidos e as associações empresariais.
9
De fato: em matéria de subsídios para a capacitação, assistência técnica e inovação tecnológica, somente
24% das empresas declara ter utilizado o regime de crédito fiscal; 12% fez uso do Programa de Apoio para a
Reestruturação Empresarial para as Exportações (PREX) ou do Programa de Apoio à Reestruturação
Empresarial (PRÉ); e 20% algum outro tipo de subsídio (FONTAR, PROAMPRO, Pro Córdoba, etc.).
10
Uma notável exceção, ainda que incipiente, é a experiência do Centro Metropolitano de Design, que tem
promovido projetos de design, fabricação e comercialização de móveis que utilizam como matéria-prima
madeiras maciças nacionais não tradicionais. É uma tentativa para resolver as falhas de coordenação
existentes entre os diferentes elos da cadeia produtiva.
Outro aspecto a ser destacado é a ausência de programas integrais de promoção
de exportações, ou seja, programas que incluam capacitação, informação de
mercados externos e difusão da cultura exportadora, como os existentes no Brasil.
A ausência desses programas limita de forma considerável a inserção externa de
setores com alta participação de PMEs.
No que tange à política comercial, chama a atenção o fato de existir muita demora
no pagamento dos reembolsos às exportações. De outro lado, verifica-se a
acumulação de saldos técnicos de IVA nas empresas exportadoras, em virtude da
falência de mecanismos que permitam sua rápida recuperação ou compensação.
Essa situação difere consideravelmente da observada no caso brasileiro.
Além das políticas horizontais, destaca-se a política específica de promoção
florestal (Lei 25.080), que subsidia as atividades de reflorestamento (principal
matéria-prima do setor de móveis). Neste caso, os problemas decorrem do forte
atraso no pagamento dos subsídios e da ausência de incentivos suficientes para
fomentar o reflorestamento de espécies de maior qualidade utilizadas pela
indústria de móveis de alto padrão.
4. Cadeia produtiva dos móveis de madeira no Brasil
4.1 Produção e comércio exterior11
A cadeia de móveis de madeira no Brasil apresenta um desenvolvimento muito
importante, ainda que muito heterogêneo, com níveis de produção e de
exportação muito superiores aos observados na Argentina.
11
Cabe ressaltar que, no caso brasileiro, há também um grande déficit em matéria de elaboração sistemática
de estatísticas do setor de móveis de madeira. O último censo econômico foi realizado em 1985 e não há
séries confiáveis de valor da produção. Em conseqüência são apresentadas as principais variáveis
quantitativas do setor a partir das fontes fragmentárias de informação mais atuais que conseguimos obter.
Em 2000, a indústria brasileira de móveis de madeira era constituída por 13.133
estabelecimentos, principalmente PMEs, mas com tamanho médio três vezes
maior que o dos argentinos12.
Em termos de valores correntes, pode-se estimar a produção de móveis de
madeira, em 2002, em, aproximadamente, R$ 7 a 8 milhões13 (aproximadamente
vinte e cinco vezes maior que a Argentina).
As empresas brasileiras produtoras de móveis de madeira concentram-se, em
grande medida, em torno de pólos produtivos localizados em diferentes estados
distribuídos pelo sul e sudeste do país (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas
Gerais e Paraná). Conforme sobressaiu na pesquisa de campo, a concentração
geográfica fomenta o aproveitamento de economias de aglomeração e facilita o
desenvolvimento de instituições ligadas ao setor e o intercâmbio de informação
entre empresas produtoras, criando também um centro de atração para os
fornecedores e clientes do setor.
Há, no entanto, uma heterogeneidade marcante entre as diferentes áreas no que
se refere à estrutura produtiva, produtividade e design, entre outros aspectos.
Nesse sentido, pode-se afirmar que os pólos de Bento Gonçalves (Rio Grande do
Sul) e São Bento do Sul (Santa Catarina) se destacam como os únicos a alcançar
níveis adequados de competitividade internacional, respondendo em conjunto por
80% das exportações de móveis brasileiros (Ferraz Dias de Moraes e Nassar,
2002). Nos últimos anos, contudo, verificou-se um incremento significativo da base
exportadora14.
12
11,1 empregados por estabelecimento no Brasil contra 4,1 na Argentina, consoante dados censitários.
Estimativa dos autores a partir de dados fornecidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), ABIMÓVEL (2003) e Denk (2002).
14
De fato, enquanto em 1998 eram apenas sete os estados exportadores, no ano 2001 essa cifra aumentou para
doze. De outro lado, o número de empresas exportadoras aumentou em um 200% no período, até alcançar
357 empresas no ano de 2001.
13
Apesar do peso das exportações no faturamento total do setor ser ainda pouco
significativo (aproximadamente 15% em 2002), o Brasil é, depois do México, o
principal exportador latino-americano de móveis de madeira (e o décimo nono a
nível mundial em 1999). Suas exportações tiveram um crescimento vertiginoso ao
longo da última década, alcançando a cifra de US$ 489 milhões em 2002, valor
quinze vezes maior que o registrado em 1989.
Os principais destinos de exportação são os países desenvolvidos, com destaque
especial para o mercado norte-americano, que vem crescendo em importância
(46% das exportações em 2002) e para onde são direcionadas, principalmente, as
vendas de móveis de madeira maciça. Em 2001, a Argentina respondia por 12%
das exportações brasileiras, mas o país praticamente desaparece como destino
exportador em 2002, após a desvalorização do peso.
Por outro lado, as importações brasileiras de móveis de madeira são praticamente
nulas (US$ 4,7 milhões em 2002). Mesmo no ano em que as importações atingem
um pico, elas respondem por menos de 1% do consumo aparente. Sua principal
origem são os países desenvolvidos.
A desvalorização da moeda brasileira, em 1999, teve um efeito diferente sobre as
exportações de móveis de madeira comparativamente ao caso argentino. Por um
lado, observa-se uma rápida resposta das exportações à variação do tipo de
câmbio, revertendo a queda registrada em 1998 e alcançando um crescimento
médio anual de 18% até o ano 2002 (apesar da recessão e da desvalorização
ocorridas na Argentina). Por outro lado, os EUA se consolidaram como o principal
destino exportador, em detrimento dos países da região.
Essa evolução parece confirmar a emergência, no Brasil, de um padrão de
especialização baseado na fabricação de móveis padronizados de pinho e, em
menor grau, de painéis, no qual o preço desempenha um papel importante como
fator de concorrência, razão pela qual a melhora do tipo de câmbio foi fundamental
para impulsionar as exportações.
O caso do Brasil, contudo, ressalta também a importância de se contar com redes
internacionais de comercialização desenvolvidas (conforme apontado pelo
aumento das vendas externas de empresas que já estavam exportando), bem
como de políticas de apoio adequadas (conforme evidenciado pelo crescimento da
base exportadora).
4.2. Obstáculos ao desenvolvimento da competitividade da cadeia produtiva
no Brasil 15
A cadeia produtiva de móveis de madeira no Brasil apresenta limites ao seu
desenvolvimento competitivo, de caráter e similar ao observado no caso argentino.
É possível destacar, portanto, os problemas vinculados com as debilidades
tecnológicas, o desenvolvimento dos mercados e as falhas de coordenação, que
se mostraram particularmente graves em momentos de forte instabilidade
macroeconômica.
No entanto, existem alguns aspectos que diferenciam o caso brasileiro do caso
argentino. Eles dizem respeito a uma maior inserção nos mercados externos, a
uma cultura exportadora mais desenvolvida, à existência de uma indústria de
maior porte e a uma concentração maior em torno de pólos produtivos regionais,
possibilitando o aproveitamento de economias de aglomeração. Há, no entanto,
uma grande heterogeneidade nos níveis de competitividade entre as empresas
integrantes do setor – maior, talvez, que no caso argentino.
4.2.1. O atraso tecnológico
15
A presente seção é baseada, principalmente, em informações colhidas numa pesquisa de campo realizada no
Brasil em julho de 2003, que entrevistou 12 empresas localizadas nos pólos de São Bento do Sul e Bento
Gonçalves, além de duas associações empresariais. A amostra apresentou um viés favorável a empresas de
tamanho superior à media do setor e com propensão exportadora também mais elevada. As conclusões,
portanto, são apenas tentativas.
Há uma grande diversidade no grau de
atualização tecnológica das empresas
brasileiras: empresas detentoras
de tecnologia de última geração
coexistem com as que
utilizam tecnologias obsoletas
A indústria brasileira apresenta importantes falhas em matéria tecnológica, tanto
em tecnologia de produto e organização, como de processo. Há, porém, uma
grande diversidade no grau de atualização tecnológica das empresas, verificandose a coexistência de empresas detentoras de tecnologia de última geração com
empresas que utilizam tecnologias obsoletas.
Quanto às tecnologias de produto, deve-se ressaltar que não existe no Brasil um
design genuinamente nacional. O design nacional é muito pouco difundido e seu
uso está limitado, quase exclusivamente, às grandes empresas, de tal maneira
que a cópia e adaptação são práticas habituais. No caso das exportações
destinadas aos países desenvolvidos, o design é fornecido, na maioria dos casos,
pelos clientes no exterior, ficando a cargo da empresa brasileira somente o
trabalho de desenvolvimento dos protótipos (Gorini, 2000).
Contudo, a profissionalização do design encontra-se mais difundida que no caso
argentino, ainda que limitada principalmente às empresas dos principais pólos
moveleiros. Nesse sentido, todas as empresas entrevistadas em Bento Gonçalves
e São Bento do Sul declararam contar com um departamento de design.
Quanto ao grau de difusão alcançado na utilização de tecnologias modernas de
gestão, ele é consideravelmente maior do que o observado na Argentina, mas
inferior ao que caberia esperar das empresas integrantes da amostra. Em efeito,
apenas 42% das empresas declararam possuir certificado de normas ISO 900016.
No entanto, no que se refere à tecnologia de processo foi detectado um maior
grau de atualização (em maquinaria importada), facilitada pela abertura comercial
dos anos noventa, ainda que caracterizada também por alta heterogeneidade17.
As falhas tecnológicas da cadeia produtiva são determinadas, como no caso
argentino, por aspectos vinculados aos planos macro, micro e mesoeconômico.
No plano macroeconômico, destacam-se as variáveis relacionadas com situações
de forte instabilidade, em virtude dos efeitos deletérios sobre os investimentos de
longo prazo, e com a existência de um viés antiexportador característico do
período substitutivo de importações. De outro lado, no plano microeconômico
sobressai a capacidade precária dos agentes (empreendedora, de gestão,
educativa), num conjunto constituído por empresas de diferente tamanho. Pelo
contrário, a maior escala média de produção permite amortizar com maior
facilidade os investimentos em novas tecnologias.
Desde uma perspectiva mesoeconômica se destacam, também neste caso, certas
debilidades no Sistema de Inovação, observando-se, em geral, uma baixa
vinculação entre empresas competidoras. Não obstante, a situação difere
consideravelmente do caso argentino. Por um lado, observa-se um intercâmbio
mais fluido com fornecedores de insumos críticos (como os produtos para
acabamento ou certo tipo de madeiras), gerando processos dinâmicos de
aprendizado, principalmente no caso dos produtos acabados. Por outro lado, as
associações de classe, tanto nacionais como estaduais, apresentam uma situação
de maior fortaleza e representatividade, contribuindo para o fluxo de informações e
a vinculação entre as empresas do setor. Por último, observa-se, no caso de
alguns pólos regionais, uma relação crescente entre as empresas e os centros
educativos. No que tange às instituições, cuja função é a de fornecer informação
16
17
Deve-se ter em conta o tipo de empresas que compõe a amostra: firmas exportadoras médias e grandes.
Consideravelmente maior nos pólos de Bento Gonçalves e São Bento do Sul (Coutinho, 2001).
técnica, os centros tecnológicos do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial) têm uma forte penetração nas empresas.
A inserção exportadora ocupa lugar
de destaque como fonte de transferência
tecnológica para as empresas
e sistemas locais, como nos pólos
moveleiros de Bento Gonçalves
e São Bento do Sul
Merece particular destaque o elevado desenvolvimento alcançado pelo Sistema de
Inovação em nível local, como é o caso dos pólos moveleiros de Bento Gonçalves
e São Bento do Sul. Verifica-se, nesses pólos, a existência de vínculos mais
estreitos das empresas com seus fornecedores, clientes e, também, com as
instituições
do
entorno.
Estas
últimas
apresentam
um
maior
grau
de
desenvolvimento, merecendo destaque o papel exercido pelas associações de
classe regionais, bem como o surgimento de universidades e centros tecnológicos
orientados especificamente para a indústria moveleira, como é o caso da
Universidade de Caxias do Sul, em Bento Gonçalves, que tem uma carreira
específica e oferece cursos dirigidos para a formação de profissionais dessa
indústria. Verifica-se, portanto, o aproveitamento de certas vantagens derivadas
da aglomeração geográfica das empresas.
A forte heterogeneidade tecnológica existente entre os diferentes pólos
exportadores põe em evidência a importância que detém o ambiente local para o
desenvolvimento da capacidade de inovação das empresas, num contexto em que
se destacam os aspectos não transáveis da tecnologia. Deste modo, a inserção
exportadora ocupa lugar de destaque como fonte de transferência tecnológica
para as empresas e sistemas locais. Nesse sentido, todas as empresas
entrevistadas declararam que tanto o design como algumas técnicas de
acabamento são fornecidos por clientes do exterior. Essas novas tecnologias
permanecem nas redes de informação locais e explicam a existência de
importantes divergências em termos de capacidade tecnológica e níveis de
competitividade entre as empresas localizadas nos principais pólos exportadores e
as demais empresas do setor.
Deve-se destacar, no entanto, que o fato de não dispor de um design próprio
aprofunda o caráter subordinado ou cativo das empresas exportadoras brasileiras
na relação com seus clientes do exterior.
4.2.2. Desenvolvimento de mercados e falhas de coordenação
♦
Escasso desenvolvimento de mercados críticos e falta de fornecedores
especializados
A existência de importantes falhas de coordenação e de uma significativa
debilidade institucional (tanto formal como informal) restringe, da mesma forma
que no caso argentino, o desenvolvimento de certos mercados críticos,
condicionando de forma considerável o desenvolvimento da indústria de móveis
de madeira. No entanto, no caso brasileiro existem certas particularidades
relacionadas, principalmente, com o maior tamanho da indústria e das empresas
brasileiras.
A falta de instituições para proteger
os direitos de propriedade se
traduz na ampla difusão da
prática de copiar o design
No que tange ao mercado do design, existem certas debilidades institucionais do
mesmo tipo das observadas no setor de móveis argentino. De fato, a falta de
instituições que protejam os direitos de propriedade se traduz na ampla difusão da
prática de copiar o design 18.
O mercado de madeira possui especial importância também no Brasil, devido a
que grande parte da inserção exportadora do país se dá através de móveis de
madeira maciça (padronizados de pinho). Em conseqüência, apesar da maior
disponibilidade de madeira de boa qualidade, seu fornecimento, com as
especificações requeridas, constitui um aspecto crítico. Nesse sentido, as falhas
observadas se assemelham em grande medida às da cadeia produtiva da madeira
na Argentina19.
Entre as origens das deficiências,
observa-se uma fraca atuação
das instituições encarregadas
de promover a coordenação
entre os agentes e estabelecer
normas de classificação da madeira
Essas deficiências têm diversas origens. Por um lado, nota-se novamente a
existência de falhas de coordenação nas decisões de investimento entre
produtores de móveis e fornecedores de madeira (principalmente no que tange à
tecnologia de secagem). Por outro, observa-se uma fraca atuação das instituições
encarregadas de promover a coordenação entre os agentes e estabelecer normas
de classificação da madeira.
Nesse contexto, os produtores de móveis têm adotado diversas estratégias. Por
um lado, da mesma forma que no caso argentino, os empresários brasileiros têm
18
A maior profissionalização do design, observada nas empresas exportadoras, deve-se ao fato de que a tarefa
de design se limita principalmente à “absorção” dos designs provenientes do exterior e, também, ao fato de
que os produtos destinam-se exclusivamente ao mercado externo.
19 (i) alta presença de nós, (ii) forte déficit em matéria de capacidade e qualidade de secagem; (iii) ausência
de uma adequada classificação da madeira maciça em função de sua qualidade; e (iv) falta de madeira
serrada com as medidas requeridas
optado pela integração vertical. Dada a maior capacidade financeira das empresas
brasileiras, a indústria alcançou, de fato, um alto grau de integração vertical, que
abrange em muitos casos até a produção florestal (principalmente no caso dos
produtores de móveis de madeira maciça).
O mercado de partes e peças encontra-se, por sua vez, pouco desenvolvido na
indústria brasileira de móveis. De acordo com a pesquisa de campo de Coutinho
et al. (2001), aproximadamente metade das empresas dos pólos de São Paulo,
São Bento do Sul e Bento Gonçalves declararam terceirizar parte da produção,
enquanto que as cifras são menores para o restante dos pólos. De modo geral,
trata-se de grandes empresas que optam por terceirizar as partes do processo
produtivo que são mais intensivas em mão de obra. De qualquer forma, cabe
destacar que a terceirização não ultrapassa a 30% do total produzido pela
empresa.
Observa-se, também, a falta de estratégias empresariais dirigidas à formação de
fornecedores. De fato, os principais fatores que levam à sub-contratação são: (i) a
necessidade de enxugar o quadro de pessoal para superar algum tipo de
estrangulamento; e (ii) o atendimento de situações em que a capacidade produtiva
encontra-se plenamente utilizada.
Ressalta-se também que, de acordo com nossa pesquisa de campo, a
terceirização se realiza com empresas localizadas na vizinhança, em função da
necessidade de contar com um ágil intercâmbio de informação técnica.
Uma diferença importante apresentada pela cadeia produtiva no Brasil diz respeito
ao desenvolvimento do mercado de produtos para acabamento. De fato, a
existência, no Brasil, de uma indústria de móveis de madeira maciça com níveis
adequados de qualidade promoveu a demanda por móveis de pinho para
exportação e induziu o desenvolvimento e estabelecimento de fornecedores
especializados de lacas e vernizes. É possível encontrar, no Brasil, os principais
produtores internacionais desses produtos.
Quanto ao mercado de painéis, observa-se uma problemática similar à da cadeia
produtiva Argentina: a concentração da produção em algumas grandes empresas,
gerando assimetrias na relação com as empresas produtoras de móveis.
No caso dos pólos moveleiros exportadores brasileiros, deve-se destacar a
existência de um mercado adicional, o de serviços de comércio exterior, cujo
desenvolvimento foi possibilitado em virtude da razoável difusão da atividade
exportadora. De fato, tanto em Bento Gonçalves como em São Bento do Sul
encontra-se amplamente difundida a profissionalização e especialização em
atividades de comércio exterior. Agentes de venda são utilizados por 100% dos
entrevistados; esses agentes, por sua vez, têm seus próprios clientes no exterior e
trabalham por comissão.
♦
Relações associativas entre empresas
As experiências associativas entre empresas competidoras encontram-se pouco
difundidas no Brasil, menos ainda que na Argentina, e as poucas que existem são
relativamente novas. De modo geral, essas experiências ficam restritas aos
aspectos puramente comerciais (tanto a comercialização interna como a externa),
sendo pouco freqüentes os esquemas de especialização produtiva.
A pesquisa de campo detectou três experiências nos principais pólos produtivos,
com destaque para um consórcio constituído por 21 pequenas e médias empresas
(AFECOM) que compartilham a comercialização interna e externa.
O principal obstáculo ao desenvolvimento de práticas associativas, de acordo com
nossa pesquisa, está relacionado com o “problema cultural”. Outro problema
mencionado pelos empresários é a ausência de políticas públicas orientadas para
esse fim.
4.3. Políticas públicas: situação atual
Tanto a base institucional como as políticas públicas de caráter setorial parecem
estar mais desenvolvidas no Brasil do que na Argentina. No Brasil há, de fato,
programas de caráter nacional e estadual que contam com um grau importante de
difusão e penetração nas empresas.
Merece destaque o fato de que nos principais programas nacionais e estaduais o
setor privado tem, normalmente, um papel ativo e importante na difusão e coexecução das atividades. É o caso, por exemplo, da ABIMOVEL, que participa da
execução, em nível nacional, do PROMOVEL; no âmbito estadual temos o
exemplo da MOVERGS (no Rio Grande do Sul), com o programa Sebrae Export20.
Adicionalmente, observa-se que o grau de desenvolvimento e representatividade
das associações de classe empresariais, principalmente as de caráter estadual, é
maior no Brasil do que na Argentina21. Isso reduz a superposição de programas e,
sobretudo, evita a existência de uma multiplicidade de “guichês”, sem qualquer
coordenação, como acontece na Argentina.
No que se refere às políticas de caráter nacional, deve-se destacar que os
principais
programas
fundamentalmente
à
nacionais
promoção
dirigidos
de
ao
exportações,
setor
com
estão
orientados
destaque
para
o
PROMOVEL, concebido para promover a cultura exportadora, a capacitação
empresarial e a inserção em mercados externos. O programa tem tido ampla
difusão e penetração nas empresas22, além de boa receptividade.
Quanto às instituições que fornecem informação e assistência técnica, destaca-se
o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que conta com sedes nos
20
As empresas de Bento Gonçalves ligadas à MOVERGS concordaram que os programas nacionais têm
menor penetração nas empresas que os de caráter regional, em função dos primeiros não levarem em conta as
importantes diferenças evidenciadas entre os diferentes pólos moveleiros.
21
Todas as empresas entrevistadas declararam estar filiadas a alguma associação de classe ou sindicato e ter
um contato fluido e permanente com os mesmos.
22
Nesse sentido, 92% das empresas entrevistadas declararam conhecer o programa, enquanto 67% declararam
já tê-lo utilizado.
diferentes estados produtores e mantém uma estreita relação com as empresas
do setor23. Adicionalmente, no que se refere ao financiamento para exportação,
existem linhas de financiamento do Bndes tanto de pré-embarque como de pósembarque.
No que diz respeito ao desenvolvimento de recursos estratégicos, há uma
concentração de esforços orientados para promover o design, tanto através do
Programa Brasileiro de Design (do MDIC), como pelo lançamento de prêmios
nacionais de design e de núcleos de desenvolvimento de design de móveis, em
diversos estados.
Finalmente, no que se refere ao desenvolvimento de ações que promovam a
coordenação entre os atores da cadeia e o setor público deve-se destacar o
surgimento, em 2001, do Fórum Nacional de Competitividade da Madeira e do
Móvel, que tem merecido avaliação positiva por parte de algumas associações
empresariais.
Em matéria aduaneira, há algumas diferenças em relação à Argentina devido ao
fato de não serem cobrados direitos de exportação nem serem pagos reembolsos.
Também não existem problemas de acumulação de crédito fiscal.
Quanto às políticas de caráter estadual, destacam-se principalmente as atividades
desenvolvidas pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas
Empresas), que possui diferentes programas em cada estado. No Rio Grande do
Sul, sobressai-se o Sebrae- Export III, que se caracteriza por ser um programa de
promoção às exportações que é executado conjuntamente com a associação de
classe estadual (MOVERGS), contando com ampla difusão na região.
23
No caso de Bento Gonçalves, 83% das empresas entrevistadas declararam ter contato freqüente com essa
instituição, principalmente no que se refere ao teste dos produtos e embalagens.
5. Avaliação comparativa do setor em ambos países e obstáculos
ao desenvolvimento regional da cadeia produtiva de madeira e
móveis
5.1. Obstáculos ao desenvolvimento da cadeia produtiva de móveis de
madeira na Argentina e no Brasil
A partir do estudo realizado, é importante destacar alguns aspectos do setor de
móveis de madeira na Argentina e no Brasil. Em primeiro lugar, trata-se de uma
cadeia produtiva constituída principalmente por pequenas e médias empresas e
orientada, essencialmente, para o mercado interno.
Na Argentina, a cadeia produtiva possui um caráter estruturalmente deficitário,
apresentando um padrão de especialização de caráter primário, ou seja, com viés
desfavorável ao segmento que apresenta o valor agregado dentro da cadeia (os
móveis). O setor de móveis registra níveis de exportação baixos e sua resposta à
variação de preços relativos resultante da desvalorização do peso em 2001 foi
pouco expressiva. O Brasil, ao contrário, apesar da heterogeneidade existente
entre suas empresas, encontra-se entre os 20 primeiros exportadores mundiais de
móveis de madeira, com um grande crescimento de suas exportações durante a
última década e um permanente superávit comercial. Adicionalmente, suas
exportações têm respondido rapidamente à desvalorização do real em 1999.
A difusão de inovações tecnológicas
tem ficado restrita, quase exclusivamente,
aos pólos produtivos, promovendo
um contraste significativo com
a situação observada
no restante da indústria
A partir da constatação dessas diferenças fundamentais no comportamento
produtivo e exportador da cadeia produtiva moveleira na Argentina e Brasil,
ressalta-se a existência, em ambos países, de limitações competitivas derivadas
de problemas de natureza tecnológica e de falhas de coordenação.
Com efeito, as empresas apresentam um significativo atraso em matéria de
tecnologias de produto (design e produtos para acabamento), sendo habitual a
cópia de designs. Observa-se uma grande heterogeneidade entre as firmas,
sobressaindo
certas
empresas
(principalmente
empresas
grandes
e
exportadoras), que alcançaram padrões de qualidade adequados em matéria de
design e produtos para acabamento. No caso do Brasil, muitas dessas empresas
estão localizadas nos pólos moveleiros exportadores de Bento Gonçalves e São
Bento do Sul, onde a aglomeração geográfica tem contribuído para um maior fluxo
de conhecimento (adquirido normalmente através do contato com clientes do
exterior). Contudo, a difusão de inovações tecnológicas tem ficado restrita, quase
exclusivamente, aos pólos produtivos, promovendo um contraste significativo com
a situação observada no restante da indústria. Nas empresas argentinas é pouco
freqüente a existência de áreas específicas de design. No Brasil, as empresas
exportadoras contam habitualmente com uma área de design, mas ela é,
fundamentalmente, orientada para o desenvolvimento do design enviado pelos
clientes desde o exterior.
No Brasil e na Argentina
é baixo o grau de relacionamento
das empresas entre si e das
empresas com as instituições
do seu entorno
Por outro lado, observa-se uma baixíssima difusão de tecnologias modernas de
gestão, limitada exclusivamente às empresas maiores, sendo que, no caso do
Brasil, essas tecnologias estão mais difundidas nos pólos exportadores. No que
se refere às tecnologias de processo, a situação é muito heterogênea.
Há fatores de caráter microeconômico relacionados com a capacitação dos
empresários que poderiam explicar o atraso tecnológico do setor. Contudo, é
preciso apontar, em ambos países, a existência de um Sistema Nacional de
Inovação pouco desenvolvido, além de um baixo grau de relacionamento das
empresas entre si e das empresas com as instituições do seu entorno. A
debilidade do Sistema Nacional de Inovação mostra-se menor no Brasil, onde se
observa um maior desenvolvimento de instituições ligadas ao setor e uma maior
interação entre essas instituições e as empresas, principalmente nos pólos
produtivos. Dentre essas instituições aparecem as associações de classe
nacionais e, principalmente, as associações estaduais, que contam com maior
representatividade e com um papel mais ativo na gestão das políticas públicas
Por sua vez, o escasso desenvolvimento de certos mercados críticos (design,
madeira, partes e peças, somando-se, no caso argentino, o mercado de produtos
para acabamento) limita consideravelmente o desenvolvimento da cadeia
produtiva. A existência de importantes falhas de coordenação, somada a um
escasso desenvolvimento institucional capaz de contribuir para sua resolução,
principalmente no caso argentino, são os principais fatores limitantes. No caso do
mercado brasileiro de produtos para acabamento, o desenvolvimento de um
segmento produtor de móveis de madeira maciça com níveis de qualidade
adequados (móveis de pinho para exportação), permitiu que se alcançasse a
escala
mínima
necessária
para
a
instalação
rentável
de
especializados e competitivos de materiais para polimento.
No caso brasileiro, o processo de integração
Vertical - estratégia empresarial destinada
a superar as falhas de coordenação – está
mais difundido, como resultado da maior capacidade
fornecedores
financeira média das empresas da cadeia
.
A organização industrial do setor, tanto na Argentina como no Brasil, apresenta
diferenças consideráveis quando comparada à de países com estruturas
produtivas baseadas, também, no predomínio das pequenas e médias empresas,
como é o caso da Itália. Observa-se um elevado e, em alguns casos, crescente
nível de integração vertical e uma reduzida difusão de práticas de sub-contratação
e iniciativas de caráter associativo entre as empresas, o que afeta a
especialização vertical e horizontal do setor.
Isso impede que as empresas
explorem os ganhos resultantes de uma maior especialização produtiva ou das
economias de escala presentes em certas atividades, como a comercialização
(principalmente externa) e o design. No caso brasileiro, o processo de integração
vertical está mais difundido, como resultado da maior capacidade financeira média
das empresas da cadeia. A integração vertical tem-se mostrado uma estratégia
empresarial destinada a superar as falhas de coordenação existentes.
Não dispor de um design próprio e
não progredir na adoção de estratégias
associativas tende a aprofundar o
caráter subordinado ou cativo das
empresas em relação a seus
clientes no exterior
No caso argentino constata-se a existência de uma indústria atrasada
tecnologicamente, pouco especializada vertical e horizontalmente, com baixos
índices de competitividade e com uma inserção externa limitada principalmente às
grandes empresas. Trata-se de um setor composto majoritariamente por micro e
pequenas empresas e com um reduzido mercado interno. Tudo isso gera um
círculo vicioso no qual a escassa competitividade limita o acesso aos mercados
internacionais, impedindo o alcance de escalas eficientes de produção e
restringindo o desenvolvimento da capacidade inovadora das empresas locais. Já
no caso brasileiro observa-se uma maior heterogeneidade, com destaque para as
empresas localizadas nos pólos regionais exportadores, que apresentam níveis
tecnológicos adequados e elevados níveis de competitividade, enquanto o
restante da indústria apresenta notáveis sinais de atraso.
O que as experiências dos dois países parecem demonstrar é que num contexto
em que o conhecimento é imperfeitamente comercializado em nível internacional,
as capacidades individuais das empresas e as capacidades acumuladas no
entorno constituem-se em fatores chaves para explicar o nível de desenvolvimento
tecnológico alcançado pelas mesmas. Nessas circunstâncias, a inserção
exportadora adquire vital importância como fonte de geração ou de transferência
tecnológica para as empresas e sistemas locais, ao passo que a relação entre as
empresas pode assumir um papel importante na tentativa de expandir seu acesso
aos mercados externos.
Deve-se chamar atenção, no entanto, que, mesmo no caso brasileiro, no qual se
pode observar um maior avanço na inserção exportadora das empresas, o fato de
não dispor de um design próprio e de não progredir na adoção de estratégias
associativas, tende a aprofundar o caráter subordinado ou cativo das empresas
em relação a seus clientes no exterior. A razão para tanto é que esses clientes,
além de fornecer o design, controlam em larga medida a comercialização dos
móveis exportados.
5.2. Obstáculos ao desenvolvimento da cadeia a nível regional
Argentina e Brasil apresentam, no setor de móveis de madeira, fortes assimetrias
em termos de escala e de desenvolvimento exportador. Não por acaso, as
empresas brasileiras entrevistadas relataram uma experiência exportadora
consideravelmente mais rica que a das empresas argentinas. Contudo, conforme
constatado ao longo do presente trabalho, as empresas de ambos países
apresentam limitações competitivas derivadas de problemas de ordem tecnológica
e de falhas de coordenação. Nesse contexto, cabe afirmar que o Mercosul não
contribuiu para a superação dessas limitações, nem para o alcance de alguns
resultados teoricamente esperáveis quanto à criação de comércio e a geração de
maiores níveis de especialização e complementação produtiva. À luz dessa
constatação é possível elaborar um diagnóstico de quais devem ser os objetivos e
as formas de gestão mais adequadas em processos de integração.
As empresas argentinas produtoras
de móveis de madeira consideram
o mercado brasileiro importante,
mas o Brasil nunca ocupou lugar de
destaque como destino das vendas
externas dessas empresas
No que tange às relações comerciais entre os sócios, a Argentina detém um déficit
estrutural no segmento de maior valor agregado da cadeia (móveis), enquanto a
relação mostra-se mais equilibrada em matéria de intercâmbio de insumos. As
empresas argentinas produtoras de móveis de madeira de médio e alto padrão
consideram o mercado brasileiro importante, mas o Brasil nunca ocupou lugar de
destaque como destino das vendas externas dessas empresas.
Com efeito, apenas 20% das empresas argentinas entrevistadas realizaram
alguma exportação de móveis para o Brasil, mas na totalidade dos casos trata-se
de experiências fracassadas ou não recentes. Nesse sentido, há consenso entre
os empresários de ambos países quanto às dificuldades para penetrar no mercado
brasileiro sem dispor de um sócio local, principalmente em função da inexistência
de uma adequada rede de distribuidores.
Em contrapartida, as exportações brasileiras para a Argentina permitiram a
ampliação do mercado exportador brasileiro, pelo menos até o ano 2001, quando
o mercado argentino respondeu por 12% das vendas externas brasileiras. A partir
de 2002, com a queda do mercado argentino, ocorreu um re-direcionamento das
vendas para outros destinos, e as exportações brasileiras continuaram se
expandindo. Tal circunstância pode estar evidenciando a ocorrência, no Brasil, de
um processo de aprendizagem resultante das colocações no mercado argentino26.
Não se observa em nível regional
ações associativas ou iniciativas de cooperação
entre as firmas para
algum tipo de complementação
produtiva dos dois países
Por outro lado, não se observa em nível regional o desenvolvimento de ações
associativas ou de iniciativas de cooperação entre as firmas que impliquem em
algum tipo de complementação produtiva entre as empresas dos dois países.
Nesse sentido, a maior parte dos empresários argentinos entrevistados considera
improvável a adoção dessas iniciativas, seja pelo clima de desconfiança ou por
assimetrias existentes em matéria de escala e de estágio exportador. Entre os
empresários brasileiros, no entanto, observa-se maior predisposição para o
estabelecimento desse tipo de relações. O certo é que têm sido poucas as
experiências até o momento e nem sempre bem articuladas.
Nesse contexto, a principal associação de classe setorial brasileira (ABIMOVEL)
propôs um conjunto de atividades em matéria de promoção comercial e de
desenvolvimento de design com o intuito de promover atividades associativas
entre empresas de ambos países. Isto permitiria, talvez, que a Argentina
aproveitasse a experiência desenvolvida pelo Brasil, tanto em matéria de políticas
públicas como de inserção exportadora de suas empresas.
Até que ponto é possível desenvolver
26
Isto foi confirmado em algumas entrevistas realizadas com empresas brasileiras.
regionalmente cadeias e relações
associativas entre empresas para
resolver falhas de mercado,
quando estas são debilitadas dentro das
próprias fronteiras?
Cabe indagar, contudo, até que ponto é possível desenvolver regionalmente
cadeias e relações associativas entre empresas para resolver falhas de mercado,
quando estas apresentam um caráter debilitado dentro das próprias fronteiras dos
países envolvidos.
Por outro lado, a falta de coordenação de políticas micro e macroeconômicas, com
destaque para as flutuações da taxa de câmbio bilateral, constitui um importante
obstáculo para o avanço do processo de integração regional, pois contribui para a
geração de graves assimetrias nos fatores de competição entre as empresas de
ambos países.
É possível identificar significativas diferenças quanto à implementação das
políticas públicas que afetam o setor nos dois países:
•
Menor número de guichês, menor superposição de programas e maior
coordenação entre os organismos públicos brasileiros em relação com os
argentinos.
•
Existência, no Brasil, de programas integrais de grande envergadura e de
maior difusão entre as empresas, orientados principalmente para a
promoção das exportações e incluindo o desenvolvimento do design como
recurso estratégico (PROMÓVEL, Núcleos de desenvolvimento de design
para móveis, Programa Brasileiro de Design).
•
Inexistência no Brasil, diferentemente da Argentina, de problemas de
acumulação de saldos técnicos de impostos indiretos. Adicionalmente, as
exportações não pagam nenhum tipo de imposto nem encargos sociais.
•
Existência, no Brasil, de financiamento público, normalmente orientado para
as exportações (tanto pré como pós-embarque).
•
O papel importante desempenhado pelas associações empresariais
brasileiras na difusão e execução dos programas dirigidos ao setor,
contrastando com o que se observa na Argentina.
6. Propostas para promover o desenvolvimento da cadeia
produtiva no Mercosul
As características das indústrias
de móveis da Argentina e Brasil
sugerem a existência de benefícios
potenciais para maior complementação
produtiva e comercial
O processo de integração regional, conforme assinalado, avançou de forma lenta
e assimétrica no caso do setor de móveis de madeira, baseado principalmente nas
relações comerciais. Não obstante, as características apresentadas pelas
indústrias produtoras de móveis da Argentina e Brasil sugerem a existência de
importantes benefícios potenciais ligados ao desenvolvimento de uma maior
complementação produtiva e comercial no contexto do processo de integração. O
perfil de especialização mais adequado para as exportações argentinas está
vinculado aos móveis de médio e médio-alto padrão, principalmente de madeira
maciça, com um crescente conteúdo de design local e maior grau de diferenciação
dos produtos baseado na utilização do trabalho qualificado. Em contrapartida, o
Brasil apresenta maiores vantagens comparativas na produção de móveis
padronizados, onde as economias de escala são mais significativas.
Para se alcançar uma complementação maior em nível regional é fundamental a
superação das assimetrias existentes, promovendo a coordenação das políticas
públicas e a implementação de ações dirigidas a aumentar a competitividades dos
países da região, e da mesma com relação a terceiros mercados. Isto requer a
geração de processos de criação de comércio entre os mesmos, assim como o
desenvolvimento de uma ação conjunta em matéria de design e de aproximação
com os mercados do exterior.
No que se refere às políticas públicas, é preciso insistir na coordenação das
políticas macroeconômicas. É necessário alcançar a harmonização e estabilização
da taxa de câmbio para dar maior certeza aos processos de decisão
microeconômica e evitar as fortes oscilações no comércio bilateral. Deve-se
implementar, inclusive, uma coordenação de políticas microeconômicas como
forma de reduzir as assimetrias existentes e evitar a concorrência institucional
para captar investimentos, principalmente mediante a concessão de benefícios
fiscais. Cabe esperar, ainda, a partir do processo de integração, que a Argentina
assimile a maior experiência brasileira em programas de promoção de
exportações dirigidos ao setor. Deve-se contemplar também a possibilidade de
estender o programa PROMOVEL para todo o Mercosul.
Em segundo lugar, deveria ser estimulado, no seio do bloco, o crescimento de um
comércio do tipo intra-industrial, baseado num padrão de especialização
complementar
para
cada
país,
segundo
as
características
previamente
assinaladas. Nesse sentido, caberia estimular o aumento do relacionamento entre
as empresas de ambos países e incentivar a criação de show rooms, com móveis
do Mercosul, nos principais centros de consumo.
Existe um amplo espaço para a adoção
de iniciativas comuns destinadas a
melhorar a inserção conjunta
da região em terceiros mercados
Por outro lado, existe um amplo espaço para a adoção de iniciativas comuns
destinadas a melhorar a inserção conjunta da região em terceiros mercados,
contribuindo para que o Mercosul deixe de ser um jogo de soma zero para os
atores da cadeia. Para alcançar esse objetivo é necessário trabalhar de forma
conjunta para superar as imperfeições apresentadas pelos mercados nacionais.
Caberia,
nesse
sentido,
coordenar
as
estratégias
orientadas
para
o
desenvolvimento e incorporação do design. Para tanto, seria necessária a
consolidação de instituições incumbidas da proteção da propriedade intelectual do
design. É necessário, ainda, estabelecer alianças que se materializem na
participação conjunta em feiras internacionais, bem como realizar feira comum,
com caráter itinerante, para divulgação dos produtos do Mercosul tanto dentro
como fora da região.
Por outro lado, para aumentar a competitividade regional frente a terceiros
mercados, é importante favorecer o desenvolvimento de estratégias empresariais
que não se restrinjam a aspectos exclusivamente comerciais, mas dirigidas a
consolidar o desenvolvimento da cadeia em nível regional. Com essa finalidade,
caberia promover políticas de caráter vertical baseadas na concessão de
incentivos (financeiros, fiscais, etc.) visando ao desenvolvimento da cadeia
produtiva em nível regional.
Por último, é importante destacar que o Fórum de Competitividade do setor de
Madeira e Móveis do Mercosul é uma experiência que, apesar de ainda muito
incipiente, pode ser orientada para resolver os problemas de coordenação e
promover avanços na competitividade sistêmica da cadeia no Mercosul, o que
justifica a sua continuidade e aperfeiçoamento.
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EXPORTAÇÕES Cadeias produtivas no processo de integração