WLADIMIR POMAR A Dialética da História Tomo 1 Tomo01.pmd 1 11/28/2013, 11:46 PM Copyright© Wladimir Ventura Torres Pomar Coordenação editorial Valter Pomar Capa Gilberto Maringoni Diagramação Sandra Luiz Alves P784 Pomar, Wladimir A dialética da história São Paulo, Página 13, 2013, 1a ed. 294 p. 14 x21cm ISBN 978-85-62508-08-3 1. Filosofia 2. História 3. Ciências sociais 4. Ciências políticas I. Título CDD-901-086 1a edição: novembro de 2013 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, sob qualquer forma, sem prévia autorização. Tomo01.pmd 2 11/28/2013, 11:46 PM Índice Volume 1 Sinfonia desencontrada ........................................................... 5 Apresentação ........................................................................ 6 A síndrome dos dinossauros ............................................... 12 Origem e desvios ................................................................ 27 História e mudança ............................................................. 39 Justificando a viagem ......................................................... 53 Volume 2 Redescobrindo o mundo ....................................................... 69 Apresentação ...................................................................... 70 Rudimentos das ciências .................................................... 75 Revendo a antiguidade ....................................................... 91 Entre a luz e a escuridão ................................................... 105 Caminhos invertidos ......................................................... 120 A explosão espiritual ........................................................ 134 Volume 3 Caminhos das ciências ........................................................ 151 Apresentação .................................................................... 152 A dialética do átomo ........................................................ 157 Tudo periódico e divisível ................................................ 172 Átomo dividido ................................................................ 188 A dialética quântica .......................................................... 205 Tomo01.pmd 3 11/28/2013, 11:46 PM Volume 4 Viagem ao início do tempo .................................................. 219 Apresentação .................................................................... 220 Estrelas conflitantes .......................................................... 223 Entre gravidade e repulsão ............................................... 238 A competência da ciência ................................................. 254 Expansão universal ........................................................... 266 Movimento e interação ..................................................... 278 Tomo01.pmd 4 11/28/2013, 11:46 PM Sinfonia desencontrada Tomo01.pmd 5 1 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apresentação O presente texto é o primeiro de uma série, cujo título geral será A Dialética da História. Nesta série pretendo discutir a história, não como estudo e relato do processo de mudanças exclusivamente humanas, mas como estudo do processo de mudanças, modificações, mutações, transformações, ou metamorfoses, que ocorrem em todos os aspectos da natureza, embora ainda não conheçamos devidamente todos esses aspectos e, talvez, nunca venhamos a conhecê-los totalmente. Em síntese, procuro retomar a discussão sobre a dialética. Este método, surgido na antiguidade clássica grega e chinesa, foi posteriormente retomado por Georg Hegel (1770-1831) e revirado de cabeça para cima por Karl Marx (1818-1883) e Frederich Engels (1820-1895). A partir daí, um sem-número dos adeptos do marxismo preferiu tomar a dialética como uma doutrina, ao ponto de Marx, em certo momento, ter afirmado não ser marxista. Cerca de 150 anos depois, com a crise do socialismo, a dialética foi relegada a um plano secundário, ou simplesmente deixada de lado, tanto por marxistas, quanto por anti-marxistas. Deixou de ser tida como um instrumento de análise, seja dos fenômenos da natureza, seja do desenvolvimento social. E passou a ser considerada, progressivamente, como ideologia, ou um simples artifício descritivo, desprovido de sentido, criado pelo pensamento humano. A dialética se tornou, assim, praticamente desconhecida dos ativistas sociais e políticos, e da maior parte dos cientistas. Em tais condições, providos de métodos de pesquisa pouco condizentes com o processo de evolução e desenvolvimento da realidade social e natural, uns e outros têm produzido análises incompletas e pouco consistentes. Isto, justamente no momento em que a história ingressa não só numa fase avançada de desenvolvimento das forças produtivas sociais e das contradições de classe, Q6 Tomo01.pmd 6 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mas também das contradições dos homens com a natureza. Ou seja, justamente no momento histórico em que, talvez, mais necessitemos de um instrumento de análise do porte da dialética. Por outro lado, além das vicissitudes da própria dialética, é necessário reconhecer que muita gente põe em dúvida que a natureza se movimente dialeticamente. E que o pensamento, para refletir aproximadamente a realidade, também deva ser dialético. Isto é, que o pensamento deva ser o reflexo do movimento das contradições que aparecem em todas as partes da natureza e que, num contínuo conflito e unidade ou fusão entre seus opostos, conduza a formas superiores de existência. Em virtude disso tudo, pretendo retomar o argumento de que a natureza e sua história se movem dialeticamente, com leis gerais próprias, geradas por todas as formas específicas de movimento, sejam mecânicas, físicas, químicas, biológicas ou sociais. Concordo, pois, com Engels, para quem a dialética tem apenas por incumbência estudar as leis gerais decorrentes da dinâmica e do desenvolvimento da natureza e do pensamento. Busco reafirmar que as leis dialéticas ou gerais decorrem daquele processo natural de mudanças que compõem a história. Elas são extraídas da história da natureza e da história humana, histórias entrelaçadas e interdependentes, cujo conhecimento é essencial para analisar as diferentes formas através das quais a natureza e os homens se movem. Desse modo, o problema consiste não em impor à natureza leis dialéticas predeterminadas, mas em descobri-las e desenvolvê-las, partindo da própria natureza. Os princípios não são o ponto de partida da investigação, mas seus resultados finais. Eles não se aplicam à natureza e à história humana, mas delas são extraídas. Em seu rascunho sobre a Dialética da Natureza, Engels acreditava que as leis dialéticas, conforme estabelecidas por Hegel, poderiam ser reduzidas a três: transformação da quantidade em qualidade, e vice-versa; interpenetração ou unidade e luta entre os contrários, ou lei da contradição; e negação da negação. Bento Caraça (1901-1948), por seu lado, reduziu ainda mais a realidade a duas características fundamentais: a interdependência e a fluência. Todos os aspectos da realidade, em virtude disso, evoluiriam e se transformariam. 7 Q Tomo01.pmd 7 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Hoje, com os avanços das ciências, com as experiências do desenvolvimento social e humano, e com as controvérsias geradas pelo próprio conceito de dialética, talvez se deva considerar como suas características fundamentais o movimento, em todas as suas formas; as contradições, ou a interpenetração, ou unidade e luta entre os contrários, ou opostos; as mudanças, mutações ou transformações da quantidade em qualidade, e vice-versa; a interdependência entre todos os aspectos da realidade, portanto entre as contradições internas e seu meio ambiente; a negação da negação como instrumento de solução das contradições; a reprodução ampliada, sem a qual um dos aspectos da contradição começa seu declínio; e o desenvolvimento desigual das diversas formas de movimento da matéria, fazendo com que cada história particular seja composta de várias histórias aparentemente desencontradas. Nessas condições, ainda de acordo com Engels, uma concepção da história, ao mesmo tempo dialética e materialista, exige o conhecimento das matemáticas e das ciências naturais. Reforçando essa exigência e complicando o assunto, o físico Stephen Hawking (1942-….) assevera que no século 21 a ciência se tornou tão técnica que somente um pequeno número de especialistas seria capaz de dominar a matemática necessária para lidar com ela. É evidente que isso me pareceu um desafio idêntico ao que os filósofos naturais enfrentaram há mais de 2500 anos atrás. O que, de cara, me deu vontade de desistir. Por sorte, o mesmo Hawking admitiu que, naturalmente, as idéias básicas com relação às origens e ao destino do universo podem ser consideradas sem o uso da matemática, de maneira que pessoas sem formação científica possam compreendê-las. Albert Einstein (1879-1955) também havia dito algo idêntico. Mas é evidente que ambos esqueceram de dizer que a dificuldade em compreender a ciência contemporânea não está apenas na tecnicidade da matemática, ou da física, química, biologia ou outras subdivisões em que elas se fragmentaram. Infelizmente está também na tecnicidade, muitas vezes rebuscada, parecendo uma sinfonia desencontrada, da linguagem que os cientistas utilizam comumente para tentar explicar suas hipóteses e comprovações. De qualquer modo, como eles abriram a brecha para pessoas sem formação científica explicarem a origem e a evolução histórica do universo, Q8 Tomo01.pmd 8 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR decidi aproveitá-la. O que exigiu de mim voltar a estudar as diversas ciências que procuram explicar o universo, as galáxias, as estrelas, os planetas, os átomos, as partículas, a vida, a humanidade e a sociedade. Aos poucos me convenci que talvez não seja tão difícil decifrar a noção física de que a luz pode ser refletida por um meio com um índice de refração. Como afirmou o físico e matemático Richard Feynman (19181988), isto poderia ser dito, mais simplesmente, afirmando que a luz pode ser refletida pela água e outros materiais que possuam idêntica capacidade de reflexão. O mesmo deve ocorrer com o conceito de direção da luz, que poderia ser explicitado, mais simplesmente, dizendo que a direção da luz depende da posição em que alguém está olhando. São esses os pressupostos que orientam esta série, que começa com o subtítulo Volume 1: Sinfonia Desencontrada. Espero que, na descrição de cada capítulo, os leitores possam perceber naturalmente a presença daquelas leis dialéticas listadas acima. E que desculpem minha necessidade de enfatizar tal presença, através de uma, ou mais de uma, de suas características marcantes, diante daquelas concepções que as negam, de uma forma ou de outra. Neste primeiro volume, além desta apresentação, constam quatro capítulos: Síndrome dos Dinossauros, Origens e Desvios, História e Mudanças, e Justificando a Viagem. A Síndrome dos Dinossauros trata da contradição do conceito da história como história humana e, ao mesmo tempo, como história da mudança no tempo, e de como o evento da extinção dos dinossauros colocou em xeque o conceito de história como algo exclusivamente humano. Em Origem e Desvios, tento fazer um voo de pássaro sobre a origem e a evolução da narrativa histórica desde a antiguidade grega e chinesa, mostrando como, ainda hoje, permanece como força invejável a crença de que se vive uma eterna repetição e de que as mudanças seriam uma simples aparência. Em História e Mudanças, procuro resgatar, também desde a antiguidade grega e chinesa, os pensadores que introduziram, cada um a seu modo, o conceito de mutação, ou de mudança, em oposição à idéia da imutabilidade histórica. E, em Justificando a Viagem, sugerimos que a 9 Q Tomo01.pmd 9 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 humanidade alcançou um ponto de desenvolvimento científico e tecnológico de tal ordem que já permite a alguém se embrenhar, ao mesmo tempo, pelas profundezas mais longínquas do universo e pelo mundo nano ou microscópico das partículas atômicas. Com isso, penso retomar o debate sobre a dialética e a história através de uma espécie de viagem virtual, utilizando-me dos conhecimentos e das diversas teorias que a sociedade humana moderna produziu. Primeiro, até a origem do universo atual. Depois, de volta pelo menos até a civilização humana atual. Serão, ao todo, mais dez volumes, cujos subtítulos preliminares, na falta de outros mais criativos, serão Redescobrindo o Mundo, Caminhos das Ciências, Viagem ao Início do Tempo, Brotamento da Vida, Evolução da Vida, Surgimento do Homem, Ingresso na Civilização, Escravidão Humana, Servidão Humana, Retardo Histórico, Regressão e Progresso e, talvez, mais um ou dois volumes, cada um dos quais com cinco ou seis capítulos. Talvez eu nem sempre tenha sido capaz de adaptar vários termos científicos à linguagem corrente. Ou, em vários outros casos, tenha escorregado em agressões involuntárias aos preceitos conceituais utilizados pelos cientistas. De qualquer modo, o que está dito nos textos será, apenas, o que tentei saber do conhecimento acumulado por outros autores nas diversas ciências. Tudo, com o objetivo de colocar em evidência o sentido histórico e dialético, da natureza e da sociedade humana, em suas relações internas e externas. Também por isso, como tais textos de destinam a um público amplo e diversificado, me abstive de citar, em notas de rodapé, as pessoas associadas às idéias descritas, assumindo de antemão toda a responsabilidade por qualquer deslize involuntário a tais idéias. Na medida do possível, procurei observar o alerta de Feymann, segundo o qual a verdade emergirá se levarmos em conta que são os fenômenos da natureza que confirmam ou desabonam as teorias. Nesse sentido, ele concordou plenamente, mesmo sem o saber, com o que disse Engels mais de um século atrás. Em outras palavras, não são os fenômenos da natureza e da sociedade que se adaptam às teorias. São as teorias que precisam adaptar-se aos fenôQ 10 Tomo01.pmd 10 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR menos naturais e sociais para serem consideradas verdadeiras. Esta talvez seja a lei dialética mais geral a ser observada por todos que pretendam, como cientistas ou ativistas da natureza e da sociedade, agir sobre elas. 11 Q Tomo01.pmd 11 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A síndrome dos dinossauros Sempre estranhei que alguns historiadores tomassem, como ponto de partida da história brasileira, a descoberta ou ocupação portuguesa do território, em 1500. Os povos indígenas que ocupavam esse território, pelo menos desde 11 mil anos atrás (alguns acreditam que eles já estavam aqui há mais de 40 mil anos), em geral não são considerados como parte do que ocorreu a partir da chegada dos europeus ao Novo Mundo. Além disso, por incrível que pareça, o holocausto dessas populações indígenas, durante mais de 300 anos de colonização européia e quase 200 anos de independência, aparece como tendo sido resultado de um processo natural de falta de adaptação aos novos tempos. Eles estariam despreparados para a chegada da civilização. Como decorrência, muitos historiadores sequer os incluem como parte do projeto escravista da Coroa portuguesa. Essa estranheza aumentou ainda mais quando resolvi escrever sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Ao escarafunchar textos de diferentes autores, descobri que, além de ignorar ou tomar como irrelevante a história anterior, algumas vezes chamada de pré-história americana, ou pré-colombiana, nossa história é contada de forma toda fragmentada e com sérias lacunas quanto às relações de seus diferentes aspectos. Nela se desconsidera, por exemplo, quase totalmente como os homens sobreviviam, seja diante da natureza, seja diante de seus semelhantes. A produção da própria sobrevivência e das condições materiais e espirituais da reprodução humana são quase sempre dissolvidas nos aspectos gerais da vida de cada momento, ou concentradas principalmente nas figuras de algumas personalidades. Tudo parece como em alguns filmes, nos quais os homens não se preocupam com o trabalho, nem com a organização da produção. A comida e o vestuário estão sempre à disposição, mesmo que não se saiba de Q 12 Tomo01.pmd 12 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR onde vieram. O que importa mesmo são os revólveres e winchesters, maravilhosos, que jorram balas que nunca terminam, por mais tiros que dêem. Para que perder tempo com algo aparentemente sem importância, como os problemas do trabalho, da produção, e das relações que tais necessidades impõem aos homens? Como decorrência, as análises de categorias históricas como formação econômico-social, modo de produção, forças produtivas, relações de produção e classes sociais, são quase inexistentes na narração histórica da sociedade que se formou no processo de colonização portuguesa. Na melhor das hipóteses, o que se tem é um agregado geográfico e populacional, de onde emergem relações culturais e políticas que parecem não ter raízes sociais e econômicas. Talvez isso ocorra porque cada historiador tem sua própria versão do que é a história, qual seu objeto, e como ela evolui. Constatei que, muitas vezes, se confunde o processo histórico real com a narração ou a explicação do que se considera tal processo. É provável que, no caso da língua portuguesa e algumas outras, a utilização de uma única palavra – história – tanto para o processo real de mudanças, quanto para sua narração, mesmo que a narração não corresponda ao real, seja um empecilho para uma melhor definição. Além disso, boa parte dos narradores parece concordar com o historiador francês Marc Bloch (1886-1944) que, como combatente anti-fascista, morreu fuzilado pelos nazistas, durante a Segunda Guerra mundial. Para ele, história seria tão somente a história dos homens no tempo. Os fatos históricos seriam, nada mais nada menos, do que fatos humanos. A natureza e as ciências naturais não seriam objetos da história. Aliás, para muitos, é uma aberração supor que a natureza tenha história. Para outros, a natureza faria parte de uma história natural, mas esta teria pouca ou quase nenhuma relação com a verdadeira história, a história humana. Mas, há sempre um mas. O próprio Bloch afirmava que a história é a ciência do tempo e da mudança. Comecei, então, a me perguntar se a história dos homens no tempo seria a mesma coisa que a ciência do tempo e da mudança. Como reduzir a história do tempo e da mudança à história dos homens? Como fica, diante da história dos homens, a teoria 13 Q Tomo01.pmd 13 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de Charles Darwin (1809-1882) e sua conclusão de que os homens descendem de algum tipo de macaco? Os macacos ancestrais fazem ou não parte da história dos homens? E se os macacos, por sua vez, descendem de algum outro tipo de mamífero, este será ou não parte da história humana? E se os mamíferos, por seu turno, descenderem de algum outro tipo de vertebrado? Assim, se formos seguir a longa cadeia evolutiva e de seleção natural dos seres vivos, dos quais os homens descendem, essa cadeia faz ou não parte da história? Diante dessas questões, como fica a teoria de que a história se relaciona apenas aos homens? Apesar disso, no frigir dos ovos, a maioria esmagadora dos historiadores parece concordar que os fatos históricos seriam, apenas, fatos humanos. Entre eles, por um lado, há os que postulam a história como história dos homens no tempo. Isto é, a história ocorre porque há mudanças de diferentes tipos, marcadas por idades, culturas e épocas. Por outro lado, há os que continuam acreditando na invariabilidade da sociedade humana, sua história sendo uma eterna repetição de fatos e acontecimentos. Há, portanto, consenso entre eles quanto à exclusividade histórica dos humanos, mas divergências quanto às mudanças no tempo, divergências que desbordam também para outros temas. Os fatos humanos seriam essencialmente fatos culturais? Econômicos? Políticos? Ou o que ocorre é uma multiplicidade de fatos? Qual a relação entre os diferentes fatos humanos? Como encarar o tempo histórico humano, o presente, o passado, e o futuro? Desse modo, todos simplesmente desconsideram a natureza, aqui compreendida como natureza terrestre e natureza universal. Ainda hoje, parecem amarrados ao período histórico de mais de mil anos atrás, que se caracterizou pela concepção de que a natureza era invariável. O Sol, as estrelas, os planetas e demais corpos celestes, assim como a geografia, a flora e a fauna terrestres existiriam da mesma forma, desde o começo dos tempos. E este começo teria não mais do que 4400 anos. É verdade que alguns gregos e chineses da antiguidade se aventuraram a dizer que a natureza terrestre sofria mudanças, e que tudo estava em movimento. Eles, porém, não possuíam ainda elementos de prova Q 14 Tomo01.pmd 14 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR para demonstrar suas teorias. Para superar questões relativamente mais simples, como colocar a Terra e os planetas girando em torno do Sol, mostrar que a Terra tinha, ela própria, um movimento rotativo, e que o movimento em torno do Sol não era circular, mas elíptico, foram necessários cerca de 1800 anos após Aristóteles (300 a.c.), e 1400 anos após Cláudio Ptolomeu (100-170). Imagine-se, então, a dificuldade para mostrar que as demais criações, tidas como divinas, eternas e invariáveis, eram criações históricas naturais e sofriam mudanças constantes. Para chegar a tal ponto foi necessário que os chamados naturalistas, ou filósofos naturais, coletassem e classificassem informações e dados durante cerca de dois mil anos. Mesmo Carl Lineu (1707-1778), em 1750, ao admitir que poderiam surgir novas espécies de plantas, apenas as admitiu como resultado de cruzamentos espacialmente restritos. Para ele, novas espécies eram somente uma possibilidade espacial. Não lhe passou pela cabeça que elas fossem o resultado de mudanças e desenvolvimento no tempo. Mudanças como desenvolvimento histórico natural estavam fora da sua percepção. Apesar dessa dificuldade, em grande parte religiosa, alguns dos filósofos naturais, que permearam a história da humanidade ocidental entre os séculos 15 e 19, retomaram o pensamento dos antigos dialéticos gregos e começaram a tratar a natureza como uma criação histórica. Com isso, criaram as bases para o surgimento das ciências, fazendo com que o conhecimento humano desse um salto, e que a Idade Média parecesse uma Idade de Trevas. No entanto, o caminho posterior não se viu livre dos obstáculos representados pelas idéias de invariabilidade, imutabilidade, eternidade e de um universo formado por corpos estáticos. Veremos, em outros locais, como essas idéias ainda hoje reaparecem, especialmente naquelas ciências que, ao contrário da química, necessitam isolar e colocar em repouso os corpos ou fenômenos, para estudar suas propriedades sem as interferências de corpos ou fenômenos externos. Além disso, enquanto os filósofos da antiguidade e, especialmente, da modernidade pós-século 15, tratavam do humano em sua relação com a natureza, os filósofos da atualidade não conseguem mais acompanhar a 15 Q Tomo01.pmd 15 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 evolução das ciências da natureza e das próprias ciências sociais. À medida que as sociedades humanas se tornaram mais complexas, e que as ciências se desenvolveram não apenas em quantidade, mas também em complexidade e em especialização, os filósofos passaram a se voltar, cada vez mais, para os aspectos humanos comportamentais. De tal modo que Ludwig Wittgeinstein (1889-1951), tido por alguns como o mais famoso pensador do século 20, chegou a admitir que a única tarefa que sobrou para a filosofia teria sido a análise da linguagem. Assim, parece natural que a maioria dos historiadores continue evitando debruçar-se sobre a história da natureza, na suposição de que ela não acrescenta nada à história humana. Deixam isso, como exercícios teóricos, supostamente inúteis, para astrônomos, físicos, astrofísicos, químicos, geólogos, biólogos, arqueólogos, paleontólogos e outros naturalistas. Sofrem, como todos os outros homens vivos, a pressão da conexão existente entre as diversas gerações humanas e a subordinação das novas gerações às antigas. Sem libertar-se da obrigação de carregar o legado dos mortos, por mais pesado que ele seja, alguns historiadores tendem a tratar os cientistas da natureza como alienados, à parte dos problemas e das preocupações humanas. Para alguns, arqueólogos e paleontólogos não passariam de inúteis caçadores de ossos. No entanto, a humanidade se vê cada vez mais obrigada a entender a história de sua ação em conexão com a história natural. A química e a geologia já têm uma longa e evidente tradição de participação no metabolismo entre os homens e a natureza. A geologia é responsável não só pelo estudo da estrutura da Terra, mas também pela descoberta da deriva continental e das jazidas minerais e energéticas. Aliada à química, permitiu que esta se tornasse uma das principais responsáveis pelos avanços de diversos ramos técnicos dos meios de vida humana, a exemplo da metalurgia, farmácia, medicina, alimentos, tecelagem, petroquímica e plásticos. Embora a participação da física nem sempre fique claramente definida, muitas pessoas já se aperceberam de seu papel no uso e desenvolvimento da mecânica dos sólidos, dos líquidos e dos gases, da aeronáutica, das energias elétrica, eólica, atômica, solar e das marés, dos aparelhos eletromecânicos, telecomunicações, informática, automação, robótica e outras áreas importantes da vida cotidiana. Q 16 Tomo01.pmd 16 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR O mesmo ocorre com a biologia e suas ramificações científicas no âmbito da medicina, agricultura, pecuária, silvicultura e ecologia. A arqueologia e a paleontologia, tendo por base os estudos geológicos e, por auxiliares essenciais outros ramos das ciências naturais, a cada dia acrescentam novos dados factuais sobre a evolução histórica articulada dos homens e da natureza. Passo a passo, principalmente diante das mudanças climáticas e da poluição, que afetam cada vez mais a vida humana sobre o globo, cresce o número dos que se dão conta de que é difícil desconsiderar que a natureza não-humana, ou inanimada, tem participação, tanto à parte, quanto paralela e intrincada, com a ação e a vontade humanas. Durante centenas de milhões de anos, a transformação dos restos orgânicos em óleo e gás metano processou-se naturalmente, nada tendo a ver com a ação do homem, mesmo porque o homem simplesmente ainda não surgira sobre a Terra. Durante milhões ou bilhões de anos, as atividades vulcânicas e também dos seres vivos pré-humanos emitiram dióxido de carbono para a atmosfera terrestre, contribuindo para diferentes modificações no ambiente terrestre. Esses processos naturais continuam ocorrendo, embora possam ter mudado sua escala e suas formas. Assim, a natureza, em seu sentido estrito, realiza infinitas mudanças ou transformações de desenvolvimento, de elementos simples para complexos, e de complexos para simples num processo que inclui dissociações, associações, destruições, criações etc. Em grande parte, sem que o homem tenha qualquer poder ou ação sobre elas. A própria vida surgiu de um processo de desenvolvimento natural, bem antes do surgimento de algo tão complexo como os antropóides e, depois, os homens. O que há de novo na história da natureza, pelo menos da natureza terrestre, não é apenas a continuidade das transformações naturais, incidindo fortemente sobre a ação dos homens. Há, principalmente, o fato de que a ação humana passou a incidir fortemente sobre as condições naturais de sua sobrevivência. A continuidade da evolução humana parece depender, mais e mais, da natureza terrestre e, talvez, da natureza sideral. Irônica e, às vezes, sarcasticamente, a natureza obriga a história dos homens no tempo a buscar, nela e em sua história, cada vez mais, as res17 Q Tomo01.pmd 17 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 postas, tanto para os problemas que os próprios homens infligiram a ela, quanto para as mudanças que parecem resultar da evolução histórica natural da Terra e do universo. Nessas condições, pode-se desconsiderar o desenvolvimento natural, esse processo de mudanças ou transformação da natureza por seus próprios meios, meios que aos poucos vão sendo descobertos e conhecidos pelos homens, como história da natureza? Diante de tantas evidências de uma história natural, da qual os homens fazem parte, pode-se deixar a história como exclusividade humana? A história humana já vinha sendo constrangida a incluir em sua grade temporal os hominídeos, assim como os primatas que os antecederam. Não havia outro meio de explicar suas origens, e entender como os primatas e os hominídeos se relacionaram com a natureza circundante ao longo do tempo. É verdade que existe gente que explica a presença dos homens na Terra pela ação de extraterrestres, ou por desígnios divinos. Na hipótese da ação de extraterrestres, certamente nos confrontaríamos com o enigma de sua origem no planeta e na galáxia onde se desenvolveram. No caso dos desígnios divinos, estaríamos diante de um axioma, que dispensaria demonstração. Porém, mesmo ai, os rastros dos homens primitivos, assim como de animais que viveram há milhões e bilhões de anos, recolhidos por geólogos, arqueólogos e paleontólogos, recolocam, a cada dia, novas indagações para os historiadores da vida humana. Eles nos obrigam a procurar a origem do homem e de seus ancestrais em algum lugar do tempo passado, onde a natureza sem os homens era soberana. Como fazer? Desprezar como história o tempo e a mudança da natureza, tanto da terrestre, quanto da universal, da qual os homens fazem parte? Por mais estranho que pareça, não foram cientistas e historiadores que colocaram em dúvida, para o grande público, essas noções de história imutável e de história exclusivamente humana. Sem que a maior parte das pessoas se apercebesse da contradição presente no fato, isso começou a ocorrer quando os dinossauros viraram moda humana, há mais de cem anos. Esses répteis, que viveram entre 170 e 65 milhões de anos atrás, passaram a atrair crescente atenção, em virtude das progressivas descobertas Q 18 Tomo01.pmd 18 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR de seus fósseis, a partir de metade do século 19, sendo popularizados tanto pela imprensa escrita, quanto pelo cinema. Primeiro foram encontrados fósseis de Tyrannosaurus rex, um dinossauro gigante, na Europa e na América do Norte. Depois, nos anos 1920, ocorreu um novo surto de descobertas na Mongólia. O que atiçou ainda mais o interesse por esses animais, que não faziam parte da lista dos pares salvos pela Arca de Noé, durante o dilúvio bíblico que teria coberto a Terra. Em 1930, apareceram os primeiros filmes tendo o Tyrannosaurus como um dos astros principais. Nos anos 1980 e 1990 foram descobertos na Argentina, China e África Ocidental, dinossauros ainda maiores dos que os encontrados anteriormente. Os Saurópodes, herbívoros de pescoço longo, achados na América do Sul, rivalizam em tamanho com as grandes baleias da atualidade. Por outro lado, na China foram localizados fósseis de pequenos dinossauros carnívoros. Portanto, os dinossauros ocorreram em todos os continentes. As sucessivas descobertas estimularam a crescente divulgação sobre sua existência, milhões de anos no passado. Revistas, livros, filmes e outras formas de divulgação transformaram os grandes dinossauros numa verdadeira síndrome, capaz de seduzir tanto às crianças, quanto aos adultos. Síndrome hoje alimentada pela hipótese de que, com a engenharia genética, seja possível reproduzi-los e colocá-los em parques especiais. O mais interessante dessa síndrome é que ela destrona o conceito de que a história seja apenas a história dos homens no tempo, apesar de centrar-se na hipótese de que os dinossauros foram extintos, há 65 milhões de anos, não por sua evolução histórica natural, mas em virtude da queda de um meteoro na península de Yucatan, no México. A partir da descoberta da existência de uma camada geológica de irídio, relativamente grande, em algumas regiões da Itália, Dinamarca e Nova Zelândia, o geólogo Walter Alvarez (1940-....) concluiu que um meteoro, com diâmetro superior a 10 km, teria atingido a Terra, há 65 milhões de anos. Sua dedução teve por base três fatos articulados. Primeiro, o irídio é um metal raro, geralmente associado à queda de asteróides na Terra. Segundo, as camadas geológicas de irídio estavam incrustadas em camadas de calcário de 65 milhões de anos. Terceiro, a queda de um asteróide 19 Q Tomo01.pmd 19 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 com aquele diâmetro teria causado uma explosão equivalente a um milhão de toneladas de dinamite. Ora, uma explosão dessa envergadura teria gerado uma nuvem de poeira e gases com capacidade de se espalhar sobre todo o globo através das camadas superiores da atmosfera. Sob tais condições, a luz solar teria sido impedida de atingir o solo terrestre por muitos anos, enquanto fragmentos incandescentes teriam caído por todo o mundo, matando todos os animais terrestres grandes demais para se abrigarem. A localização da área de impacto na costa do Yucatan, no México, onde existe uma cratera de meteorito de 200 km de diâmetro, tornou a hipótese de Alvarez uma certeza para muitos cientistas. Para o que nos interessa, no momento, talvez pouco importe que essa hipótese se transforme em certeza absoluta. Ela tem a vantagem de jogar a história para um tempo em que o homem ainda não estava presente na face da Terra. É até possível que a extinção dos grandes dinossauros tenha ocorrido com o auxílio desse evento extraterrestre. Da mesma forma que eventos do mesmo tipo podem ter causado a extinção de outras espécies, nos milhões de anos que antecederam aos dinossauros, ou que se seguiram a eles. Hoje se sabe que grandes desastres naturais ou cataclismos terrestres, como erupções vulcânicas, glaciações, terremotos, maremotos, tsunamis, enchentes e mudanças químicas nas águas e no ar, assim como pandemias causadas por germes, foram responsáveis por extinções de muitas espécies de seres vivos. Porém, espantoso não é o fato de haverem ocorrido tais extinções. Tão ou mais espantoso, no caso da hipótese de Alvarez, é o fato de metade dos animais e plantas marinhas, e a maioria das plantas terrestres, haverem sobrevivido a tal impacto e se adaptado ao novo ambiente resultante de vários anos de ausência de luz e calor solar. Valeria a pena, sobretudo, estudar como sobreviveram alguns descendentes diretos dos dinossauros pretensamente extintos pelo meteoro, como as aves, cujo precursor mais evidente parece haver sido o Archaeopterix. Assim, o realmente espantoso é que, apesar dos inúmeros desastres naturais, modificações químicas radicais ou disseminação mortífera de germes, ocorridos ao longo de mais de 4 bilhões de anos de vida sobre a Q 20 Tomo01.pmd 20 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Terra, as espécies vivas tenham continuado seu processo de evolução e seleção natural. Portanto, tão importante quanto o conhecimento do que causou a extinção de espécies inteiras, é o conhecimento do que permitiu que inúmeras delas sobrevivessem e evoluíssem. A paleontologia tem dado passos enormes nessas descobertas, mas ela é uma ciência muito nova. Nasceu da geologia, no século 19, em grande medida como bifurcação dos estudos que levaram os geólogos, durante suas escavações, a tropeçarem em dentes e ossos de animais gigantescos, tanto carnívoros, quanto herbívoros, provenientes de diferentes eras geológicas. Estes períodos guardam não apenas as camadas das diferentes rochas terrenas, cada uma contada por milhões e bilhões de anos, mas também fósseis de vertebrados e outros materiais orgânicos de cada período. Em meados dos anos 1800, a maioria dos geólogos calculava em cem milhões de anos a duração, quase incomensurável, exigida pelo depósito das camadas de origem sedimentária. Nessa mesma época, o zoólogo Ernest Haeckel (1834-1919) considerava que os arquivos paleontológicos de então apresentavam lacunas imensas. As principais encontravamse entre as eras Terciária (60 milhões a 600 mil anos atrás) e Quaternária (600 mil anos atrás até hoje), onde deveriam estar os restos fósseis que permitiriam descobrir a série ancestral dos mamíferos, dos quais os homens descendem. Ele também se lamentava dos vestígios pouco abundantes dos mamíferos no Mesozóico (200 milhões a 60 milhões de anos atrás). Mas reconhecia que a anatomia comparada e o estudo da origem dos fósseis comprovavam a história da evolução zoológica dos placentários. Isto é, dos mamíferos cujos fetos são envolvidos por placentas, ou órgãos localizados no útero das fêmeas, responsáveis pela comunicação entre a mãe e o embrião, através do cordão umbilical, durante toda a gestação. Os placentários surgiram no período Cretáceo, entre 140 milhões a 60 milhões de anos atrás, como bifurcação evolutiva dos marsupiais. Estes mamíferos também possuíam placentas, mas o feto migrava para uma bolsa, ou marsúpio, sustentado por um osso à frente da bacia, onde se encontrava uma teta mamária. O embrião permanecia nessa bolsa até completar a gestação do animal completo. Alguns descendentes dos marsupi21 Q Tomo01.pmd 21 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ais do Jurássico, que viveram entre 175 a 140 milhões de anos atrás, ainda continuam presentes entre nós, como os cangurus, gambás e cangambás. Os marsupiais, por seu turno, resultaram da evolução dos monotrêmatos ou monotremos, que viveram na era do Triássico, entre 200 milhões a 175 milhões de anos atrás. Eram mamíferos cujas fêmeas tinham dois úteros, que produziam e punham ovos através da cloaca. Suas glândulas mamárias não possuíam mamilos, o que obrigava os filhotes a lamberem o leite que escorria nos pelos. O sistema térmico e numerosas características do esqueleto apontam para a possibilidade desses mamíferos descenderem de répteis. O ornitorrinco, encontrado ainda hoje na Austrália, Tasmânia e Nova Guiné, é um sobrevivente dessa ordem animal. Em outras palavras, mesmo antes de Darwin dar à luz sua teoria de seleção natural, a realidade da evolução já se fazia presente na mente de muitos cientistas do período. Isto tudo apesar de George Cuvier (17691832), que desenvolvera o importante instrumento da morfologia comparativa e fundara a paleontologia, acreditar na hipótese bíblica de que os fósseis de dinossauros eram apenas restos de criaturas que haviam perdido o embarque na Arca de Noé. Portanto, não é novidade que a extinção dos dinossauros seja creditada a algum tipo de cataclismo. Nesse sentido, os documentaristas do meteoro caído no Yucatan, há cerca de 65 milhões de anos, apenas mudaram o dilúvio por um outro objeto vindo do espaço. Uns e outros acreditam que as extinções ocorreram apenas em virtude de cataclismos terrestres ou espaciais. Eles desdenham os problemas internos, relacionados com a própria evolução e desenvolvimento das espécies, que levaram muitas à extinção, mas também permitiram a muitas outras sobreviver e transformar-se. De qualquer modo, movida ou não pelo charme da síndrome dos dinossauros, a paleontologia aponta para o fato dos dinossauros haverem surgido e se desenvolvido num período histórico em que os continentes pareciam estar todos agrupados numa única massa territorial. Aos poucos, ela também está chegando à conclusão de que, numa época terrestre de grande abundância vegetal e animal, e durante um período de dezenas e centenas de milhões de anos, houve um constante processo de cresciQ 22 Tomo01.pmd 22 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mento físico de algumas espécies, com mudanças genéticas que as levaram a transformar-se em espécies cada vez maiores, até chegarem aos sáurios enormes, como o Tyranossaurus rex e o Saurópode. Essas descobertas também indicam a existência, no mesmo período, de dinossauros pequenos, parecidos a ratos, assim como a presença de espécies de insetos, anfíbios e mamíferos. Algumas das descobertas apontam para a existência de animais em transição, como parece ser o caso do Archaeopterix e do Ornitorrinco. Em outras palavras, o processo de mudanças no ambiente natural, incluindo a cooperação e a concorrência entre espécies e dentro de cada espécie, e a proliferação das próprias espécies, desencadeava mutações nos seus organismos, para adaptar-se aos novos ambientes. Nesse processo de mutação, entre 170 e 65 milhões de anos atrás, certas espécies de seres vivos, presentes nos períodos anteriores, haviam sido extintas, por incapacidade de adaptação ao novo ambiente. Algumas outras, modificadas de forma insuficiente, estavam em processo de extinção. Havia as que estavam totalmente adaptadas ao ambiente de abundância e concorrência, como os dinossauros gigantes. E havia ainda, provavelmente como os mamíferos, as que se mantinham em dificuldade de sobrevivência nesse ambiente, que era altamente predatório. Bem vistas as coisas, durante os 100 milhões de anos de vida dos dinossauros, continuou a ocorrer um processo natural ininterrupto de bifurcações, ou ramificações, com a destruição ou extinção de antigas espécies e surgimento de novas. Hoje há pouca dúvida de que várias das grandes extinções de espécies no passado ocorreram sem a ajuda de qualquer meteoro ou cataclismo terrestre. Muitas espécies desapareceram simplesmente pelo processo constante de mutações internas e no meio ambiente, sem deixar qualquer descendência. Muitas outras desapareceram ao transformar-se em novas espécies. Então, as questões relevantes são: por que e como isso tem ocorrido? Os dinossauros, assim como as diferentes espécies animais e vegetais, tiveram uma história evolucionista. Os que se transformaram em grandes (grandes mesmo!), talvez tenham sido extintos por seu próprio desenvolvimento incontrolado, numa era em que o antigo ambiente terreno 23 Q Tomo01.pmd 23 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de abundância exuberante da vida vegetal e animal, que lhes permitiu tal crescimento, se transformou num novo ambiente de escassez. Essas modificações no ambiente terrestre podem ter sido causadas por grandes secas, emergência de desertos, fortes mudanças climáticas, em combinação ou não com glaciações, erupções vulcânicas, queda de meteoros ou explosões solares. Ou mesmo pela ação predatória animal descontrolada. No caso de algum cataclismo, resultante da queda de um meteoro, aquelas espécies já em processo de extinção, sofreram um fim com maior rapidez. O evento externo apenas apressou um desenlace já em curso. O problema das espécies de grandes dinossauros talvez tenha consistido em que elas foram incapazes de adaptar-se ao novo ambiente, conformado aos 65 milhões de anos atrás, ao contrário de outras espécies de répteis, mamíferos e insetos, que deram continuidade à sua classe ou ordem, ao transformar-se em novas espécies, ou em novas classes, como parece ser o caso dos sáurios que deram surgimento às aves, aos crocodilos e jacarés, e aos marsupiais e ornitorrincos. Elas sobreviveram ao primeiro minuto do ano 64 milhões atrás, continuando seu processo evolutivo, ramificando-se em mudanças sucessivas de extinções e criações. Como essas questões não parecem ter apelo de marketing, a exemplo das catástrofes cósmicas e dos grandes sáurios (apesar destes nem sempre serem simpáticos), somos obrigados a conviver com a síndrome dos dinossauros. Em certa medida, ela é apenas a síndrome da evolução da própria humanidade. O homo sapiens surgiu de um longo processo de evolução dos vertebrados e dos primatas, embora não tão longo quanto o dos dinossauros. E, em algum momento do futuro, deve bifurcar-se, extinguindo-se e, na melhor das hipóteses, dando lugar a outra espécie, embora esta afirmação sofra restrições até de biólogos partidários de Darwin. Esta datação do processo evolutivo, não apenas das espécies vivas, mas da natureza em geral, deixa muitos historiadores e cientistas inconformados. Que se há de fazer? Na pior das hipóteses, como aconteceu a várias outras espécies, os homens podem simplesmente liquidar as condições de sua própria existência e extinguir-se, seja naturalmente, seja com o auxílio de algum grande Q 24 Tomo01.pmd 24 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR cataclismo. Eles certamente deixarão muitos rastros sobre a Terra, que deve prosseguir em sua evolução e desenvolvimento ainda por alguns milhões ou bilhões de anos. Muitas das formas hoje viventes poderão ser extintas, juntamente com a espécie humana, enquanto outras continuarão seu processo de bifurcação ou ramificação, sendo em parte destruídas e, em parte, criando novas formas viventes. Portanto, extinções continuarão a ocorrer, com a participação ou independentemente da queda de algum meteoro enorme, erupção de um super-vulcão, conjugação de inúmeros terremotos e maremotos, formação de tsunamis gigantes, novas glaciações, ou epidemias e pandemias. Ou, ainda, pela ação de algum artefato destrutivo criado pelo próprio homem. Esses desastres naturais e, agora, também artificiais, poderão se fazer presentes na existência terrena, em alguns ou vários momentos, porque eles têm sido intrínsecos às mudanças que marcaram a história natural desde bilhões de anos atrás. As inúmeras previsões sobre catástrofes terrestres e siderais, que há muito fazem o imaginário humano perder o sono e ter pesadelos e, agora, inundam televisões e revistas especializadas, apenas amplificam, consciente ou inconscientemente, o fato de que a natureza tem história. Os homens ainda não conseguiram medir a regularidade e o período de existência de muitos dos eventos históricos da natureza, a exemplo das mudanças climáticas, das mudanças no campo magnético terrestre e das transformações de vários tipos de átomos e partículas. Mas o avanço das ciências indica que, algum dia, eles podem chegar lá. Isso acontece, em parte, porque o tempo de existência do conhecimento humano ainda é infinitésimo em relação ao tempo de existência do próprio homem, da Terra e do universo. Em parte, também, porque apesar dos avanços científicos e da transformação da ciência, de instrumento de conhecimento, em uma das principais forças produtivas humanas, ainda estamos tateando às cegas o interior da crosta da Terra, a atmosfera, o universo, o mundo microscópico e a própria sociedade humana. De qualquer modo, devo agradecer à síndrome dos dinossauros. Fui confrontado com esses espécimes gigantes, e com sua história de mais de 100 milhões de anos, como contraponto à idéia de que a história seria 25 Q Tomo01.pmd 25 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 apenas a história dos homens no tempo. Portanto, comecei querendo estudar bem menos do que 500 anos de história, e estou sendo levado a fazer uma viagem bem mais longa ao passado, na tentativa de entender a história do tempo e da mudança. Porém, antes de seguir adiante, é conveniente repassar, mesmo sumariamente, o que a humanidade criou a respeito da história. Navegar por suas origens e desvios. Conhecer os argumentos que a consideram imutável. E, também, os daqueles que, dialeticamente, vêem a história como algo em constante movimento e mutação. Q 26 Tomo01.pmd 26 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Origem e desvios Qualquer sumário que se queira fazer das concepções sobre a história se confrontará, inevitavelmente, com um mosaico estraçalhado, independentemente do ângulo utilizado para analisá-las. É possível encontrar uma certa unidade na antiguidade grega e chinesa, quando a história era a narração dos fatos correntes, sem grandes preocupações com possíveis clivagens entre natureza e humanidade, ou dentro desta. Porém, à medida que a civilização humana avançou em sua espiral ascendente e foi tomando consciência de seu progressivo, embora hipotético, domínio sobre a natureza, assim como creditando tal domínio à Providência Divina ou ao Mandato Celestial, as correntes sobre a explicação da história multiplicaram-se. Em geral, a teoria histórica se reporta aos gregos antigos, pelo menos no lado ocidental do planeta, como os primeiros que tentaram investigar os fatos, os acontecimentos em curso, e explicá-los. Para eles, a istoria significava não só o fato, o acontecimento, mas também a investigação, ou a pesquisa sobre eles. Hesíodo (século 8 a.c.), em O Trabalho e os Dias, fez um relato circunstanciado das formas de trabalho, das técnicas agrícolas e dos costumes de sua época, como base do relato histórico. Heródoto (484-425 a.c.), por sua vez, deixou isso de lado e pretendeu extrair da história as lições, ou a verdade, que fossem úteis às gerações presentes e futuras. Ele não queria que o tempo apagasse os feitos heróicos dos homens. Para Heródoto, sem narrar a história dos acontecimentos, as grandes façanhas dos gregos e dos bárbaros cairiam no esquecimento. Portanto, ele não tinha o tempo como história, mas como um possível apagador das grandes ações humanas do presente vivido. Tucídides (471-400 a.c.) sucedeu Heródoto, com a pretensão de ser testemunha ocular dos acontecimentos e relatá-los, após a crítica das informações colhidas. Ele foi, talvez, um dos primeiros repórteres de guer27 Q Tomo01.pmd 27 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ra da história ocidental, que se punha a trabalhar, como disse, desde os primeiros sintomas dos conflitos. Tanto quanto Heródoto, ele não considerava o tempo como história, do mesmo modo que tinha esta como assunto exclusivo dos homens. A honra, ambições, avidez, heroísmo, violência, prudência, hipocrisia e paixões, que se encarnavam na política, seriam os fatores que transformavam os acontecimentos em matéria histórica. Desse modo, coisa tão banal como a produção dos meios de vida dos homens não poderia fazer parte dos fatores passíveis de transformarse em matéria histórica. Tucídides chegou a narrar o diálogo forte, entre atenienses e mélios, os primeiros pretendendo convencer os segundos a se entregarem sem combate e aceitar a escravidão. Mas, não explicou que tal escravidão estava relacionada à produção da vida material dos homens livres de então. E que garantir essa produção era o interesse real que colocava em movimento os combatentes. Desse modo, as guerras pareciam apenas decorrência das paixões humanas. No entanto, tinham raízes profundas na agricultura, no artesanato e em outras atividades produtores dos bens que, na ocasião, satisfaziam as necessidades dos homens. Tucidides não podia ir tão fundo. Apesar de sua perspicácia, não fazia parte de seu imaginário considerar as formas empregadas para a produção dos alimentos, vestuários, armas, carros e outros utensílios indispensáveis à vida humana, porque eram assuntos privativos dos escravos, e escravos, naquela época, haviam sido despojados de honra, ambições e outras peculiaridades humanas. Não eram tidos como seres humanos, mas como bestas falantes. Portanto, não poderiam fazer parte da narrativa histórica. Xenofonte (430-354 a.c.) também se limitou a narrar a campanha do persa Ciro contra os gregos e a retirada destes. Os romanos, depois dos gregos, também falavam em seus anais de fatos e acontecimentos, como fatos e acontecimentos em curso. Políbio (200-120 a.c.), de origem macedônica, mas obrigado a viver em Roma, desde 168 a.c., como prisioneiro de guerra, dedicou-se a estudar a transformação dos romanos em senhores do mundo. Em sua obra As Histórias, defendeu a idéia de que a história deveria fornecer os elementos de explicação dos fenômenos observados, tornando-se um instrumento pragmático de ensino. Porém, Q 28 Tomo01.pmd 28 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mesmo mantendo-se fiel à história dos fatos correntes, ele introduziu em sua narração uma relação de causa e efeito e de repetição histórica. Haveria causas gerais e particulares, mas delas deveriam ser excluídos os fenômenos de ordem física ou natural. Talvez por isso, embora tenha percebido que os organismos vivos atravessavam, inevitavelmente, os estados de crescimento, maturidade e declínio, Políbio tenha se negado a considerar esse processo como algo histórico. Vida e morte fariam parte apenas da ordem física ou natural. E, do mesmo modo que Heródoto e Tucídides, ele desconsiderou a produção dos meios de vida, coisa de escravos, como parte da história. No oriente, os historiadores da civilização chinesa seguiam passos idênticos a seus desconhecidos congêneres ocidentais. O Duque de Zhou (841-780 a.c.), tendo por base documentos literários e históricos escritos nos séculos anteriores, sintetizou os ensinamentos morais e administrativos de conduzir-se e de conduzir o Estado, a partir do conhecimento das causas que os levavam ao sucesso ou ao declínio. Para ele, a história era como um espelho ou uma lição para os condutores de homens. E homens eram apenas os seres livres. Confúcio ou Kong Qiu (551-479 a.c.) seguiu o mesmo caminho. Em seus Anais de Primavera e Outono, cobriu a história do Estado de Lu, entre 722 e 481 a.c. Nessa obra, destacou as relações entre homem e natureza, homem e sociedade, homem, família e Estado, relatando os acontecimentos políticos e militares do período. Mas, da categoria homem não faziam parte os escravos, nem o que eles produziam, embora sem eles a sociedade, a família e o Estado sucumbissem. Sun Wu ou Sun Zi (535-? a.c.), mais do que o grego Tucídides, especializou-se na história dos acontecimentos militares como base para sistematizar aquilo que chamou arte da guerra. As experiências históricas, positivas e negativas, de guerras, batalhas, combates, escaramuças, truques, boatos e espionagem, vividas por ele e por outros comandantes, foram analisados e transformados em ensinamentos para as gerações seguintes de reis e estrategistas. Ensinamentos que, ainda hoje, são estudados nas mais prestigiadas academias militares e de formação de empresários de todo o mundo. 29 Q Tomo01.pmd 29 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Sima Qian (145-90 a.c.) viveu durante a dinastia Han do Oeste. Apegado à história como história humana, em seus Relatos Históricos descreveu as figuras que compunham a sociedade daquele período. Incluiu reis, nobres, burocratas, letrados, mercadores, cavaleiros e pessoas do baixo escalão social, assim como a moralidade política, as intempéries, o controle do meio ambiente, o cultivo do solo, as colheitas e a invenção de ferramentas e instrumentos. Mas só se referiu aos escravos porque as rebeliões e os conflitos gerados por eles rebatiam negativamente sobre aqueles que considerava figuras humanas e suas realizações. Algo idêntico ocorreu com Tito Lívio (59 a.c.-17 d.c.), considerado o maior historiador da antiguidade romana. Ele trouxe à luz as inquietações e as desordens de seu tempo. Isto é, de declínio do Império Romano. Depois dele, Cornélio Tácito (56-112) concebeu a história como um gênero baseado na arte da expressão. A história seria distinta por estar a serviço da verdade, através da análise das causas e efeitos dos acontecimentos. Ele também descreveu com vivacidade o modo de vida dos bárbaros, em especial dos germanos, sobre os quais o império romano havia se imposto. Tanto Tito Lívio, quanto Tácito, não creditavam aos escravos qualquer papel na história. Porém, ambos acabaram por introduzi-los em seus relatos, da mesma forma como já haviam incluído os povos dominados por Roma, em virtude de seus distúrbios e rebeliões, que consideravam desvios no curso da história. Para empreender a narrativa histórica, os historiadores da antiguidade, tanto ocidentais quanto orientais, utilizaram-se tanto do instrumento de ver diretamente os acontecimentos, ou ouvir a versão dos que haviam participado deles, quanto de referenciar-se em documentos escritos. E todos eles já discutiam os possíveis enganos a que poderiam ser levados por visões incompletas e versões distorcidas ou mesmo falseadas. Tinham em conta, particularmente, a presença do gênero literário, como os anais e as epopéias, que deram renome ao grego Homero e davam mais atenção aos mitos e paixões, que à verdade dos fatos. De qualquer modo, este tipo de história contemporânea surgiu do gênero literário e do gênero de registros factuais. Hesíodo, Heródoto e Q 30 Tomo01.pmd 30 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Xenofonte, na Grécia, assim como seus congêneres chineses, iniciaram esses gêneros, que se mantêm vivos ainda hoje. Paul Veyne (1930-....), por exemplo, afirma que a história é um relato dos acontecimentos, todo o resto decorrendo disso. No mesmo rumo vai Lawrence Stone (19191999), que se opõe às investigações históricas que chama de estruturais e cientificistas, como a marxista e a ecológico-demográfica, e defende uma história narrativa, tendo o homem como primeiro objeto. Embora algumas correntes modernas da história dos fatos correntes admitam que a história teve uma existência temporal no passado, outras supõem que a história é apenas uma sucessão de fatos numa existência geral fixa. Aristóteles (384-322 a.c.), por exemplo, apesar de toda sua erudição, supunha que o tempo era imutável, uniforme e simultâneo, o mesmo por toda parte. A história, portanto, não fazia nem fez parte de suas preocupações. Essa concepção de imutabilidade histórica se acentuou durante a Idade Média européia, que se estendeu dos anos 300 aos anos 1450. A explanação histórica tornou-se progressivamente um gênero menor, a serviço da teologia. Para esta, a Providência Divina criara a Terra e todos as coisas e seres, mantendo-os da mesma forma para todo o sempre. A história, portanto, deveria dedicar-se exclusivamente à missão de contar os desígnios de Deus. A verdade histórica, desse modo, era ditada pela autoridade política, religiosa ou secular, que estivesse a serviço da Providência Divina. Algo idêntico ocorreu na Idade Média chinesa, que se estendeu dos anos 220 a.c. aos anos 1900. Seus historiadores dedicaram-se principalmente a escrever crônicas e compilações sobre as regiões e localidades dos sucessivos Impérios, pesquisando nos documentos anteriores os elementos necessários para o desenvolvimento e a sobrevivência das dinastias. Sima Guang (1019-1086), da fase final da dinastia Song, acreditava que a chave dessa sobrevivência histórica residia no espírito moral da benevolência (Ren), retidão (Yi), cortesia (Li), inteligência (Zhi) e veracidade (Xin). No período do expansionismo europeu das Cruzadas (1096-1270), surgiram cronistas, como Geoffrey of Villehardouin (1110-1212) e Jean 31 Q Tomo01.pmd 31 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de Joinville (1224-1317), que exaltavam a honra, a lealdade e o cavalheirismo dos reis e seus cavaleiros, ao narrar os combates que, a serviço de Deus, eles travavam contra os infiéis. As pretensões territoriais e a abertura de rotas comerciais para o oriente, que faziam parte dos interesses de boa parte dos que financiaram e participaram das Cruzadas, não foi tema da história desses cronistas. Eles sequer se deram conta de que esses interesses influenciaram fortemente a história real, fazendo com que as Cruzadas contribuíssem para a abertura de novas rotas de comércio e contatos com o oriente médio e extremo. E que levassem à descoberta de documentos e realizações, tanto dos antigos mundos grego e romano, quanto dos muçulmanos, que combatiam, e dos povos orientais, que em geral desconheciam. Numa das ironias de que é pródiga a história real, a Igreja cristã viuse constrangida a preservar de olhos ímpios, por alguns séculos, os documentos descobertos, que traziam à luz, no velho mundo medieval, o sempre jovem mundo grego. E mais tarde, já no final da Idade Média, acabou por se tornar a agente da universalização da história, ao dar conhecimento das inquietações e abordagens geniais da filosofia grega sobre o mundo e os homens. Mesmo então, porém, os cronistas medievais ainda procuravam exaltar as façanhas, reais ou imaginárias, da nobreza em decadência. Esta, já vivendo num novo tempo de ebulições sociais, políticas e militares, e de descobertas e invenções nos sistemas produtivos, procurava manter sua posição social privilegiada, através de versões fantasiosas de seu papel e de seus feitos. E excluía os burgueses e os camponeses das histórias de suas campanhas militares, embora fosse cada vez mais obrigada a leválos em conta. Afinal, essas classes subalternas eram o grosso de seus exércitos. E, em geral, seus motins tinham os nobres como alvo principal, na prática negando a história que os cronistas destes narravam. Talvez como reação a tudo isso René Descartes (1596-1650) tenha desprezado a história como um dos ramos do saber. Mas essa era uma época em que a suposição de espaços, tempo e história estáticas ou imutáveis, estava profundamente enraizada, mesmo na mente de muitos dos homens que revolucionaram o conhecimento a partir dos anos 1400 e Q 32 Tomo01.pmd 32 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR 1500. A começar por Nicolau Copérnico (1473-1543), que desfechou um golpe mortal na visão religiosa da Terra como centro do universo, ao situar o Sol como ponto central de sua teoria planetária. Apesar de haver imprimido rotação e movimentos circulares aos planetas, Copérnico permaneceu fiel à idéia da fixidez do Sol. Johannes Kepler (1571-1630) sofreu horrores diante das crenças religiosas de seu tempo, que também eram as suas. Primeiro, quando concluiu que a teoria de Copérnico concordava com as medições que fizera das órbitas dos planetas e que era a Terra, assim como os demais planetas conhecidos, que giravam em torno do Sol. Bem que tentou argumentar que isso, muito mais do que estava escrito nos livros sagrados, demonstrava toda a sapiência e beleza da obra de Deus. Tão terrível quanto sua comprovação da teoria de Copérnico foi a descoberta de que tal teoria, embora tivesse causado uma revolução no conhecimento do sistema planetário, estava tão errada quanto as escrituras religiosas em relação à forma geométrica das órbitas planetárias. Elas não eram formadas por círculos, tidos como a forma geométrica perfeita criada por Deus. Eram elipses que tinham o Sol como fulcro. Kepler tentou, mais uma vez, argumentar que as formas elípticas eram uma criação divina muito mais bela. Mas isto também não convenceu os sacerdotes, nem o livrou de perseguições e de ver sua mãe acusada de bruxaria. Foi preciso esperar outros dois séculos para que a teoria das órbitas elípticas fosse aceita em concordância com a realidade. Nesse meio tempo, Giordano Bruno (1548-1600) foi queimado na fogueira por defender a extensão da teoria de Copérnico a todo o universo. Galileu Galilei (15641642), por sua vez, embora tendo boas relações com o próprio Papa, foi excomungado por defender a idéia de que a Terra tinha um movimento de rotação. Isaac Newton (1642-1727) viveu num novo momento histórico e pode partir das premissas de Kepler, Laplace e Galileu, quanto ao sistema planetário e ao movimento dos corpos celestes, para elaborar sua teoria de gravitação. Mas desconsiderou o tempo, tomando-o como uma criação divina absoluta. Voltaire (1694-1778), por sua vez, apesar de haver liquidado a história teológica de Jacques Bossuet (1627-1704), introduzindo 33 Q Tomo01.pmd 33 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 a secularização da história e da evolução, e haver ajudado, juntamente com Descartes, a emancipar a história da tutela da teologia, também considerava o homem e a natureza imutáveis. Ou seja, negava a essência de seus próprios argumentos. Apesar da força demonstrada pelas idéias de imutabilidade, imobilidade, estática e eternidade, elas começaram a ter seus alicerces abalados a partir das descobertas marítimas e arqueológicas, da invenção de novos instrumentos de pesquisa e de produção, da recuperação dos textos clássicos gregos e da expansão do comércio. Essas mudanças, perceptíveis na história contemporânea européia desde meados dos anos 1400, deram surgimento a novas correntes de pensamento, que introduziram dúvidas nas concepções de um tempo eternamente fixo, ao mesmo tempo em que acentuaram a cisão entre literatura e história. Jean Bodin (1530-1596) iniciou o rompimento com a supremacia da teologia na história, introduzindo, além da forma divina, que trataria da ordem e da fé, a forma natural e a forma humana. A forma natural se ocuparia das causas secretas da natureza e se prenderia à ordem das necessidades. A forma humana explicaria as ações do homem vivendo em sociedade. A história humana decorreria principalmente da vontade dos homens, que nunca seria semelhante a si mesma e da qual jamais se poderia entrever o término, já que as ações humanas não cessariam de conduzir permanentemente a erros. Apesar desse pessimismo, Bodin não concordava com a filosofia cristã da história, que acentuava a decadência progressiva da humanidade. Comungando com o otimismo de seu tempo, ele introduziu a influência do clima na evolução das sociedades e citou as modernas descobertas do Novo Mundo, a expansão do comércio e o aparecimento de inventos, a exemplo da bússola, metalurgia e imprensa, como demonstração do progresso humano. Concluiu, daí, que o motor da história seria o instinto de sobrevivência dos homens, que os levaria ao desejo de adquirir riquezas e civilização. Nivelou, assim, interesses materiais e espirituais ao instinto de sobrevivência, teoria que ainda hoje se mantém em vários círculos acadêmicos. Logo depois, Jean Mabillon (1632-1707) se associou às preocupações quanto ao estudo da escrita e dos suportes materiais dos documenQ 34 Tomo01.pmd 34 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR tos, tomando-os como a verdadeira fonte da história, enquanto Alexandre de La Popelinière (1693-1762) assegurava que a essência da história consistia em conhecer os motivos e verdadeiras ocasiões dos fatos e acontecimentos humanos. Isto deu surgimento à paleografia, isto é, ao exame minucioso dos documentos antigos para verificar sua veracidade ou falsificação, que levou a descobertas desconcertantes. Muitos documentos emitidos por reis, nobres e religiosos não passavam de falsificações. A busca da verdade documental como a primeira regra da pesquisa histórica tomou vulto. Naquele momento, não se podia prever que a história da natureza e a história do homem estavam prestes a mostrar a existência de outros tipos de documentos, além dos escritos, a exemplo das ferramentas fabricadas pelos hominídeos, a partir do paleolítico e do neolítico, e dos restos fósseis. Mas deram uma contribuição importante ao estudo da história ao chamar a atenção para a necessidade de distinguir a verdade da falsificação, ou do erro, no processo de pesquisa. Na China da dinastia Qing (1644-1911), quando esta ainda considerava seu império o centro do mundo, os historiadores dedicaram seus estudos às relações entre os fenômenos astronômicos, as condições geográficas e a vida social e política. Nessa busca, muitos resvalaram para os antigos mitos da comunicação entre o Céu ou Mandato Celestial, e o homem, enquanto outros adotaram a idéia da existência de relações entre o ambiente natural e a vida social. Mas, como no ocidente, a conclusão principal foi que a história da natureza era absolutamente distinta da história da humanidade. Para Wang Fuzhi (1619-1692) o valor da história residia em seus serviços como mestre para a posteridade. Neste sentido, um historiador que relatasse muitos eventos em detalhe, mas negligenciasse os eventos importantes, que poderiam servir como lição às gerações seguintes, seria de valor histórico insignificante. Desse modo, a relação entre natureza e humanidade se diluía na necessidade de extrair noções morais da história de cada geração humana. A história da natureza possuiria suas próprias leis de desenvolvimento. Por outro lado, os fenômenos astronômicos ou geográficos não te35 Q Tomo01.pmd 35 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 riam, necessariamente, influência sobre o desenvolvimento das sociedades humanas. E, no embalo do quase completo autarquismo feudal da dinastia manchú, o filósofo Zhang Xuechang (1738-1801) pensava que os fatos anotados na historiografia não poderiam ser mais do que episódios como as biografias dos soberanos, incluindo aí seus deuses e seus mitos. A essa altura dos séculos 17 e 18, os estudos e discussões sobre a relação histórica entre natureza e humanidade haviam explodido na Europa. Gottfried Leibnitz (1646-1716) considerava a história no contexto do processo genético e de continuidade da sociedade humana, sugerindo haverem três modos de sua exposição: o narrativo, o pragmático e o genético. Enquanto isso, como já se viu, Descartes negava à história lugar nos ramos do saber. Já para Giambaptista Vico (1668-1744), em oposição a Descartes, a história seria a forma pela qual os homens conheceriam a si mesmos. O mundo ocidental, para Vico, teria surgido e se consolidado sob o dualismo homem-natureza.Tal dualismo teria levado a ciência social a transformar-se na filosofia da alteridade (ou da diferença) e esta, por sua vez, levara ao conhecimento da gênese do pensamento bárbaro, peculiar aos primeiros homens. Aí estaria a origem da complexidade histórica e das fábulas, que criaram o mundo civil. Isto, diferentemente da representação da natureza, que a Física e a Mecânica cartesianas explicavam unicamente sob uma forma plana, segundo a ordem e a medida de tudo aquilo que era matéria e movimento. Mas Vico recusou-se a pensar a história profana separada da história sagrada. Dedicou-se, então, a explorar a cultura de seu tempo, concluindo que ela era multidimensional e instrumento de conhecimento da história, embora cada cultura só pudesse ser compreendida em sua época singular. Ele também concluiu que a história não evoluía como processo linear, mas em espiral, no quadro da Providência, aceitando a idéia de declínio e queda. Assim, embora navegando no movimento dialético, Vico também vagou entre o idealismo e o materialismo filosóficos. Emanuel Kant (1724-1804), elaborou um conceito de história universal segundo o método de uma teoria geral da natureza, guiada pelo princípio mecânico. O universo teria surgido do caos de uma nebulosa, e Q 36 Tomo01.pmd 36 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR se desenvolvido num processo evolutivo e progressivo. Com isso, desferiu um golpe não apenas nas idéias de uma natureza, uma humanidade e uma história imutáveis, mas também naquelas que separavam irremediavelmente homem e natureza. Porém, contrariamente a Kant, J.G. Herder, (1744-1803), substituiu a história pragmática por uma história que seria um drama interior da humanidade. Ele via o homem não como a soma de seus atos, mas como a dinâmica de seu sentir. Na mesma linha de pensamento, o inglês Walter Dilthey (1833-1911) e o italiano Benedetto Croce (1866-1952) tomaram a história como o conhecimento do eterno presente e a história do espírito. Para Dilthey, entre o objeto da história e o historiador haveria uma relação de vida. Nessas condições, a natureza não poderia fazer parte dessa relação. Croce, por seu lado, queria livrar-se do materialismo vulgar das ciências de seu tempo e afirmou que toda a história era história contemporânea. Ela reviveria na própria consciência a atividade passada. Para ele, o que constituía a história era o ato de compreender e entender, induzido pelas exigências da vida prática. Ainda de acordo com Croce, as obras históricas de todos os tempos e de todos os povos teriam nascido dessas exigências e das perplexidades que implicavam. A ciência e a cultura histórica existiriam com o propósito de manter e desenvolver a vida ativa e civilizada da sociedade humana. A história seria, pois, obra do historiador, clara afirmação subjetiva. A história seria a história do espírito. Croce, desse modo, também vagou entre o idealismo e o materialismo. Embora reconhecendo que os homens faziam sua própria história, não levou em conta que eles a faziam sob condições naturais e humanas já dadas, e não ao livre arbítrio dos sujeitos contemporâneos. O abismo cavado por Dilthey, Croce e outros, entre as ciências naturais e as ciências do espírito, parece ter sido levado ao extremo por Heinrich Rickert (1863-1936), ao afirmar que a natureza e a história seriam dois conceitos opostos, que se distinguiriam por seus objetos e por seus métodos. Para Rickert, enquanto na natureza se considerava um fato, um ser, ou um fenômeno, sem referência a valores, a história estudava o fenômeno cultural na sua particularidade, na sua individualidade. Ou seja, os determinantes da história seriam os valores humanos, ou os fatores constituintes daquilo que se convencionou chamar de cultura. 37 Q Tomo01.pmd 37 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Em plena primeira metade do século 20, supostamente com base numa tese de Hegel, Alexandre Kojéve (1902-1968) defendeu o fim da história em virtude do advento da ciência. Com isto, a história pararia, desapareceria, emergindo uma pós-história, na qual o homem estaria de pleno acordo com a natureza, perpetuando uma vida natural. A imutabilidade retornaria, assim, aparentemente sob os auspícios de Hegel, o filósofo moderno que foi pioneiro em apresentar a história como o próprio processo de mudança ou transformação. Não muito depois disso, para Michel Foucault (1926-1984), a história do homem não poderia ser uma espécie de modulação, como as que ocorriam nas mudanças das condições de vida, a exemplo de clima, profundidade do solo, modos de cultura, exploração das riquezas, ou nas transformações da economia e, por via de conseqüência, da sociedade e das instituições ou, ainda, na sucessão das formas e usos da língua. O pensamento se formaria a partir do discurso e não da prática social. O homem, simplesmente, não seria histórico. Nessa mesma linha, nos anos 1990, Francis Fukuyama (1952-....) retomou a tese do fim da história. Porém, não mais em virtude do advento da ciência, mas em virtude da consolidação das ciências e tecnologias como motores da vida moderna, assim como da vitória supostamente definitiva do capitalismo sobre o socialismo. Portanto, a crença de que se viveria uma eterna repetição e de que as mudanças seriam uma simples aparência parece, ainda hoje, permanecer como uma força invejável. Ela apresenta uma vitalidade que a torna um dos principais entraves a uma abordagem mais consistente da história real. Q 38 Tomo01.pmd 38 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR História e mudança É verdade que o pensamento de um mundo imutável e estático ainda apresenta uma vitalidade que não se pode subestimar. No entanto, esse não é o pensamento único, nem agora, nem nos tempos passados. Durante a antiguidade grega e chinesa, diversos pensadores introduziram, cada um a seu modo, o conceito de mutação, ou de mudança, em oposição à idéia da imutabilidade. Na Grécia, o pensamento de que o movimento e as mudanças eram os componentes essenciais do mundo surgiu antes das idéias de um mundo imutável. Tales de Mileto (624-548 a.c.) procurou demonstrar a ideia das mudanças a partir da comprovação de que a água modificava constantemente seus estados físicos. Anaxímenes de Mileto (610-550 a.c.) usava o ar como elemento mutável por excelência. Tornava-se fogo ao esquentar, nuvem ao condensar-se, água ao condensar-se ainda mais, e pedra ao atingir um grau ainda maior de condensação. Heráclito (550-480 a.c.), por sua vez, ilustrava a idéia de que tudo estava em mudança constante ao dizer que nunca se mergulhava na mesma água de um rio. Na China, ao contrário, a teoria do Mandato Celestial, segundo a qual tudo se manteria em seu estado para todo o sempre, antecedeu em cerca de mil anos a teoria das mutações (Yi ou Yi Jing). Esta surgiu, por volta de 1200 a.c., em parte pelas dúvidas suscitadas com as crises das dinastias Xia (2070-1600 a.c.) e Shang (1600-1046 a.c.), as primeiras dinastias da história chinesa. E tomou vulto justamente durante a decadência da dinastia Shang (1075-1046 a.c.). Segundo a teoria das mutações, as mudanças seriam inerentes aos fatos e fenômenos, inclusive históricos. Lao Zi, ou Lao Tsé (580-500 a.c.), cujo nome verdadeiro parece ter sido Li Er, expressava essa idéia com a afirmação de que nenhum regente de um Estado poderia estar para sempre em sua posição e isento de mudanças. Para ele, no curso do tem39 Q Tomo01.pmd 39 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 po, colinas se transformariam em vales e vales em colinas; um furacão nunca duraria uma manhã toda, nem uma tempestade um dia todo. A história, desse modo, seria movimento e mudança constantes. Séculos depois, já no império romano, Marco Túlio Cícero (106-43 a.c.), considerava a história como o testemunho dos séculos, a luz da verdade, a vida da lembrança, a matriz da vida, a mensageira da antiguidade. Com isso, distanciou-se dos anais de sua época, que ficavam restritos aos acontecimentos do momento, e diferenciou-se das epopéias, onde os mitos predominavam, preocupando-se com as regras que podiam levar à verdade. Estipulou que não se deveria afirmar nada falso, contrapondo ao falso tudo que fosse verdadeiro, evitando qualquer parcialidade e respeitando a cronologia. Porém, preso aos ditames de sua época, em que os escravos e os povos tributários não faziam parte da humanidade, Cícero ignorou as formas de produção da vida dos homens, e também não chegou a indicar como diferenciar o falso do verdadeiro. Caio Plínio, o Velho (23-79) se aventurou a escrever uma História Naturalis, reunindo os conhecimentos sobre a natureza, produzidos até então. Foi uma exceção no mundo romano, cuja literatura entrara em decadência e se contentava com o picaresco. Só 1600 anos depois, John Locke (16321704) voltou a atacar a idéia da imutabilidade do ser humano, ao afirmar que apenas o prazer e a aversão seriam inatas. Todo o resto da natureza humana teria sido adquirido pela associação ou hábito no curso da história. Hoje, através do surgimento e desenvolvimento das neurociências, se sabe que também o prazer e a aversão são produtos históricos. O Barão de Montesquieu (1689-1775), por sua vez, retomou a idéia da história como uma imersão no tempo, a partir da qual se poderia compreender a relação entre as dimensões espacial e temporal. A história seria uma reflexão sobre o passado. Dela se extrairiam as diferenças e semelhanças entre os homens e o tempo de seu leitor. A lei histórica seria uma relação necessária entre termos variáveis, de tal modo que cada diversidade fosse uniformidade e cada transformação fosse constância, imanentes aos fatos. Tratar-se-ia de um conjunto de variáveis ligadas por um processo de comparação histórica, que estabeleceria correlações e formulações de regras gerais. Q 40 Tomo01.pmd 40 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR A idéia de história, para Montesquieu, compreendia as questões físicas, climáticas e geográficas, sendo mutável, submetida a leis dinâmicas e regulares, cujas mudanças conduziriam tanto a estados de desequilíbrio, quanto de estabilidade. Ele não ligava sua idéia de mudança àquela idéia de progresso entendido como uma mudança para melhor. Dizia que onde mais detinha sua mente era diante das enormes mudanças que fizeram as eras tão diferentes das eras, a Terra tão dessemelhante de si mesma. Jean Jacques Rousseau (1712-1789) acreditava que era somente na espécie humana que as necessidades, os desejos e as faculdades não se reconciliavam. Idealizando o mundo selvagem, supunha que apenas entre os homens existiriam guerras, escravidão, assassinatos e suicídios. Não tinha conhecimento de quão árdua era a vida dos animais não-humanos. Porém, ao contrário de grande parte dos pensadores de sua época, que consideravam imutável a natureza humana, Rousseau tinha consciência do caráter histórico do ser humano e da maleabilidade de sua natureza no curso do tempo. Quanto a Hegel, já nos anos 1800, criticou, sobretudo, o pragmatismo histórico. Considerava que a reversão histórica não era possível. Não haveria um caso sequer que fosse completamente igual a outro. Para ele, o problema residia em que os historiadores pragmáticos, que haviam dominado a narração histórica até o século 19, só procuravam saber o que havia ocorrido no passado em virtude do que estava acontecendo no presente. Portanto, não tinham interesse em conhecer o que realmente havia ocorrido. Se assistirmos hoje a qualquer programa televisivo sobre os acontecimentos internacionais e nacionais, poderemos comprovar ao vivo aquilo que Hegel chamava de pragmatismo histórico. A história ocorrida é sempre um pretexto de justificação do que está acontecendo no momento. Em reação a tal pragmatismo, Hegel opôs sua história filosófica. Isto é, a história das leis que regem os acontecimentos, tendo por base as contradições. Para ele, da mesma forma que para os dialéticos da antiguidade grega, as contradições estariam presentes e ativas em todos os momentos históricos. Essas contradições dariam um caráter singular, ou diferente, a cada um desses momentos históricos. E elas conteriam, dentro de si próprias, a condição de sua superação e de surgimento de um novo momento histórico e, 41 Q Tomo01.pmd 41 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 portanto, de novas contradições. As contradições seriam o motor da história, porque a partir delas teriam se originado os processos históricos. Hegel assegurava que a Razão deixava, astuciosamente, que as paixões agissem em seu lugar. Desse modo, através da ação das paixões, a Razão podia chegar a ter existência e a experimentar as perdas e a sofrer os danos das ações. Essa astúcia da Razão, por outro lado, levava os homens a acreditarem que faziam sua própria história, embora tal história se desenvolvesse às suas costas. Hegel não se dava conta de que ocorria justamente o contrário. Isto é, que a história se desenvolvia às costas dos homens porque eles a faziam, sempre, nas condições herdadas das gerações anteriores e das mudanças impostas pela natureza, levando a Razão a crer que os enganava com a astúcia das paixões, quando era ela a enganada. Apesar disso, Hegel tinha razão ao afirmar que não era no tempo que tudo se produziria e passaria. O próprio tempo produziria o futuro, negação do presente, gerando aniquilamento e criação. Embora ele considerasse o tempo uma abstração, que engendraria tudo e destruiria tudo que criava, a afirmação de que a história desdobraria seu processo segundo uma sucessão de épocas, cada uma constituindo uma totalidade e traduzindo uma plenitude do presente vivido, representava uma inversão materialista em seu pensamento. Bastava considerar as mudanças ou transformações como constituintes do próprio tempo, num processo progressivo, em que o futuro, bom ou ruim, seria a única perspectiva histórica, para retirar o tempo da abstração e colocá-lo na realidade. Em contraposição a Hegel, Leopold von Ranke (1795-1886) dissociou o estudo do passado das paixões do presente. Pretendeu narrar a história como na realidade teria sido, estabelecendo a necessidade da construção histórica basear-se em fontes estritamente contemporâneas. Juntamente com Barthold Niebuhr (1776-1831), procurou criar um método que deixasse os historiadores do século 19 indiferentes às soluções e imposições, tanto da dialética idealista de Hegel, quanto do determinismo de Auguste Comte (1798-1857) e do evolucionismo de Darwin. Desse modo, ao procurar livrar-se das contradições, do movimento, dos acasos e das determinações, resvalou numa história oca. Q 42 Tomo01.pmd 42 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR O positivismo determinista de Comte reduzira a história à descoberta e coleta dos fatos. No estudo de tais fatos seriam estabelecidas as relações de causa e efeito, e formuladas as leis gerais do desenvolvimento humano. H. Taine (1828-1892), na esteira de Comte e na contramão de Herder e Ranke, aventurou-se a tomar por base o desenvolvimento das ciências naturais e da mecânica, e deduzir daí que a história era um jogo das forças da raça, do meio e do momento, cuja conexão resultaria na conformação de leis históricas. Desse modo, o positivismo sempre vagou entre a dialética e a metafísica, sem entender a profunda relação entre acaso e determinação na história. Quanto ao evolucionismo, ele já estava em curso com Christian Wolf (1679-1754), Jean Baptiste Lamarck (1744-1829) e outros zoólogos, desde o final do século 18. Portanto, bem antes de Darwin e Alfred Wallace (1823-1913) fazerem suas descobertas sobre a seleção natural das espécies e introduzirem uma cunha dialética profunda na história biológica. A comprovação de que as espécies evoluíam através de um processo histórico de seleção natural deu uma base científica às teorias evolucionistas e representou um golpe poderoso contra as ideias, principalmente religiosas, de que a natureza era imutável e não tinha história. Por outro lado, estabeleceu um forte elo entre a história natural e a história humana, já que o homem provinha de alguma linhagem de vertebrados ou, como afirmou Darwin, descendia de algum tipo de macaco antropóide. Fustel de Coulanges (1830-1889), por seu turno, ponderava que a história era a ciência das sociedades humanas. O que lhe valeu críticas dos que consideravam tal ideia uma redução da parte que cabia ao indivíduo na história. Jacob Burckhardt (1818-1897) não acreditava na história como ciência. Considerando a cultura uma de suas forças universais, supunha a história reversível e procurava nela o típico e o constante. Já Pierre Proudhon (1809-1865) tinha a história como uma determinada série de acontecimentos, no rumo do progresso, nesse sentido concordando com o positivismo. Marx e Engels diziam conhecer apenas uma ciência, a ciência da história. Engels afirmou que, com o homem, os seres vivos haviam entrado na história. Com isto, ele não queria dizer que a história começou com os 43 Q Tomo01.pmd 43 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 homens, mas que estes evoluíram ao ponto de conhecerem como a história se processava. Reconhecia que os demais animais também tinham uma história, a de sua descendência e desenvolvimento gradual até seu estado atual. Essa história era feita por eles, mas na medida em que participavam dela, a realizavam sem que o soubessem ou quisessem. Os homens, pelo contrário, quanto mais se afastavam dos demais animais, tanto mais faziam sua própria história. Os resultados desta história poderiam corresponder, cada vez com maior exatidão, a objetivos previamente estabelecidos. No entanto, Marx e Engels frisavam que tais objetivos só obteriam os resultados desejados se observassem as leis da natureza. Mesmo porque, tudo quanto era criado acabaria perecendo. Milhões de anos podiam escoar-se. Centenas de milhares de gerações poderiam nascer e morrer. Mas, inexoravelmente, avançaria a hora em que o calor solar, em declínio, não conseguiria derreter os gelos invasores. Em que, pouco a pouco, desapareceria o último resquício de vida orgânica e em que a Terra giraria cada vez mais próxima do Sol apagado, e deveria ser por ele absorvida. John Haldane (1892-1964) achou que essas previsões fúnebres teriam sido desmentidas por Edward Milne (1896-1950) e Paul Dirac (19021984), entre 1936 e 1938. Os dois teriam demonstrado que as leis da natureza evoluiam e que as transformações químicas se aceleravam em relação às transformações físicas. Isto tornaria possível que o processo de aceleramento fosse suficientemente rápido para gerar calor e compensar o esfriamento das estrelas. A vida, desse modo, poderia nunca se tornar impossível. Infelizmente para Haldane, as observações astronômicas posteriores demonstraram que, além daquela hipótese fúnebre, pode haver outras que levem ao mesmo fim as estrelas e a vida terrena. A partir das considerações acima, Marx e Engels achavam possível enfocar a história de dois ângulos, dividindo-a em história da natureza e história humana. No entanto, não seria possível separá-las completamente. Enquanto os homens existissem, ambas se condicionariam mutuamente. Para eles, o problema chave no tratamento da história como ciência, assim como das ciências em geral, estaria no método. De um lado estaria o método metafísico ou lógico formal, cujas bases se encontravam em Aristóteles. Embora destruído teoricamente por Kant Q 44 Tomo01.pmd 44 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR e Hegel, esse método perdurava por inércia e pela ausência de um outro mais simples. Eles reconheciam que o método metafísico, ou lógico formal, perdurava no trabalho de grande parte dos cientistas, dos diferentes campos do conhecimento humano, porque conseguira responder razoavelmente bem a determinadas questões do movimento terrestre. Por exemplo, Kepler conseguira determinar as órbitas dos planetas sem jamais colocar em dúvida que Deus os tinha colocado lá. Newton estabelecera as leis da gravidade, sem entender o conteúdo das forças envolvidas, nem seus limites ao ambiente terrestre. Michael Faraday (17911867) determinara as leis de ação das correntes elétricas sem saber da existência do elétron. James Maxwel (1831-1879) explicitara o movimento da luz sem conhecer os fótons. E as leis da termodinâmica foram definidas sem que seus autores conhecessem o processo interno de movimento dos átomos. Nas chamadas ciências sociais, o próprio Aristóteles havia vislumbrado a existência do valor, sem nada saber sobre a força de trabalho. Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823) concluíram que o trabalho humano era o gerador da riqueza sem saber o mecanismo através do qual essa riqueza era gerada. Os historiadores relatavam os acontecimentos muitas vezes sem conhecer suas origens remotas e os diferentes interesses envolvidos, ou creditando a fonte geradora apenas a um ou a outro fator. O problema da lógica formal seria sua limitação para o conhecimento das leis internas que geram esses fenômenos. Diante dessa contradição, os metafísicos preferem dizer que é impossível conhecer a essência das coisas ou corpos. Mas os cientistas que, sem consciência dos métodos filosóficos envolvidos em qualquer pesquisa, tentam aplicar a metafísica a fenômenos relacionados à química, à física molecular, ao atomismo, à física das partículas (ou quântica), à biologia, à paleontologia, à economia política, à sociologia e a outras ciências nas quais as mudanças são uma constante evidente, emaranham-se em problemas e contradições de diferentes ordens. A questão do método tornou-se, então, vital para resolver tais problemas e contradições, surgidos com o desenvolvimento social e o avanço das 45 Q Tomo01.pmd 45 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ciências. O método dialético de Hegel, que se opunha à metafísica, tinha o defeito de apresentar-se sob uma forma abstrata, especulativa e idealista. Ao partir do pensamento puro, numa situação em que seria preciso partir dos fatos reais, o método lógico-dialético de Hegel tornava-se inservível. Mas esse método, apesar disso, tinha a vantagem de resolver as contradições da metafísica ao dar sentido histórico a tudo que é existente e permitir a investigação e o conhecimento das leis internas dos corpos. Ou seja, a lógica dialética não se limitava a calcular as órbitas de vários corpos celestes com uma certa precisão, nem a afirmar que o Sol deve nascer em determinada hora. Ela tinha a capacidade de explicar, mesmo usando apenas o raciocínio abstrato, a origem e a natureza desses movimentos, ou de suas mudanças, e de verificar se as descobertas das ciências naturais correspondiam às leis de movimento da natureza. A lógica dialética, por exemplo, admitia que as órbitas dos planetas do nosso sistema solar e os horários de nascimento do Sol, definidos através da metafísica, eram verdadeiros para o momento histórico em que vivemos. No entanto, ela também afirmava, antes que os astrônomos e astrofísicos se convencessem que o universo tinha uma história, que há alguns milhões de anos atrás, as órbitas e o nascer do Sol não eram os mesmos da atualidade. E que, daqui a vários milhões de anos, chegaria o dia em que o Sol não nascerá e seu sistema planetário deixará de existir. A lógica dialética do século 19 certamente errou nos milhões de anos, ao invés dos bilhões. Mas acertou na tendência geral. Assim, se desde o início os homens de ciência houvessem entendido que nada é estático, que o movimento e as mudanças são inerentes a todas as formas da matéria, e que a contradição é o motor que as gera, provavelmente estivéssemos mais avançados na compreensão de muitos fenômenos ainda desconhecidos. Porém, esse descompasso tem feito parte da história do pensamento, e ainda faz parte da realidade. De qualquer modo, foi em virtude do sentido histórico do método dialético hegeliano que Marx e Engels avaliaram, em meio a todo o material lógico existente na época, que ele era o único que podia ser utilizado. A dialética hegeliana era a única que marchava paralelamente ao desenvolvimento histórico universal. Nutrindo-se de conteúdo real, ela punha Q 46 Tomo01.pmd 46 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR em relevo o processo de desenvolvimento, suas conexões internas, em toda parte tratando a matéria historicamente. Tal concepção, submetida à crítica, poderia ser a premissa direta de uma nova concepção histórica, materialista, além de brindar um ponto de partida para o método lógico-dialético. No dizer de Marx, ele teria apenas restaurado o método dialético de Hegel, despojando-o de sua roupagem idealista e colocando-o sobre uma base materialista. A partir dessa conclusão, qualquer pesquisa científica poderia ser abordada tanto pelo método histórico, quanto pelo método lógico-dialético. Ao seguir o procedimento histórico, onde as coisas se desenrolariam a grandes traços, os pesquisadores se defrontariam, porém, com a interferência de fatores ou relações externos. Alheios ao processo gerador do fenômeno ou acontecimento, esses fatores ou relações externos fariam com que a história, freqüentemente, se desenvolvesse aos saltos e em ziguezagues, obscurecendo o processo real de desenvolvimento do fenômeno ou acontecimento pesquisado. Por isso, Marx considerou que o método lógico-dialético seria o mais adequado para estudar os fenômenos específicos de desenvolvimento da natureza e da humanidade. Da mesma forma que muitos cientistas já vinham isolando, empiricamente, seus objetos de pesquisa das interferências externas, a lógica dialética estabelecia essa prática como forma científica de analisar todo e qualquer fenômeno da natureza, incluindo a sociedade humana, em sua forma pura, de modo a descobrir seus aspectos internos de desenvolvimento. Marx e Engels não consideravam que isso representasse uma separação irreparável entre o método histórico e o método lógico-dialético. Este último não passaria do método histórico despojado de sua forma histórica e das contingências perturbadoras que a cercam a cada momento. Em outras palavras, apesar dos desvios e sobressaltos impostos por essas contingências externas, se a pesquisa lógico-dialética fosse correta, a prática a comprovaria mais cedo ou mais tarde, mesmo que, em muitas ocasiões, devesse esperar a história para realizar-se plenamente. Por exemplo, um ser humano tem um período de vida que inclui, a partir do nascimento, a infância, a puberdade, a juventude, a idade adulta, 47 Q Tomo01.pmd 47 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 a velhice e a morte. Completar todas essas fases representa completar todo o seu desenvolvimento lógico-dialético. Historicamente, porém, esse ser pode morrer logo após o parto, ou em qualquer das fases intermediárias, por problemas congênitos, por acidentes ou por outro motivo qualquer. Portanto, a história pode interromper o processo lógico-dialético de desenvolvimento, antes de que ele se complete. Ela também pode causar um desvio nesse processo, como é o caso dos seres humanos que, por algum fator externo ou interno, encurtam ou alongam algumas dessas fases, ou sobrevivem muito além do período médio de vida. Um dos problemas de alguns cientistas consiste em sua incapacidade de trabalhar essas duas ordens de desenvolvimento – o lógico-dialético e o histórico – de modo articulado. Para Marx, na aplicação do método lógico-dialético dever-se-ia sempre partir da relação primeira e mais simples, que existisse historicamente e de fato. Tomar tal relação significaria considerar a existência de dois lados ou aspectos, a serem analisados tanto separadamente, quanto em sua interdependência recíproca. Segundo ele, tal análise conduziria a contradições que reclamariam solução, seguindo uma sucessão real de fatos ocorridos real e efetivamente. Ao estudar o caráter da solução encontrada, lograr-se-ia uma nova relação, cujos aspectos contrapostos deveriam ser analisados na busca de outra solução, e assim sucessivamente. Como decorrência da utilização desse método na história humana, Marx deduziu que todas as lutas históricas das sociedades humanas, fossem aquelas que se realizavam nos terrenos social, político, religioso e filosófico, fossem as que ocorriam em qualquer outro terreno das idéias, não seriam mais do que a expressão relativamente clara de lutas entre classes sociais. Por sua vez, a existência dessas lutas estaria condicionada pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica e pelo caráter do modo de produção e de troca que davam base a tal situação. É lógico que Marx deixou de lado o período histórico da humanidade em que as classes e as sociedades ainda não existiam, e em que a cooperação e o conflito ocorriam tendo por base outros interesses. Por esse e por outros motivos, o método proposto e adotado por Marx e Engels encontrou reações contrárias de todos os tipos. Primeiro, porque Q 48 Tomo01.pmd 48 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Hegel, embora tendo sido posto sobre uma base materialista, permaneceu difícil de ser estudado e compreendido. Segundo, porque o próprio Marx, assim como Engels, acharam mais importante dedicar-se à aplicação desse método ao estudo econômico-político das relações internas do capital, do que tentar explicar didática e historicamente a evolução do próprio método. Terceiro, porque embora existam muitos textos em que tanto Marx quanto Engels apliquem seu método ao estudo de acontecimentos históricos, a maior parte dos historiadores não os conhece, nega-se a lê-los e, mesmo assim, os repudia como mecanicamente estreitos, ou deterministas. Além disso, muitos dos seguidores de Marx e Engels não entenderam o método de ambos e procuraram transformá-lo em doutrina. O que os tem levado a uma interpretação metafísica dos textos econômicos, filosóficos e históricos de ambos, e a uma avaliação pouco científica da realidade, em especial da realidade social. Por fim, à medida que o marxismo se tornou um instrumento para a transformação social, seu método passou a ser encarado como um método ideológico e não científico. Nessas condições, muitos pensadores deixaram de lado o método lógico-dialético, seja criticando-o ou simplesmente ignorando-o ou omitindo-o. Max Weber (1864-1920) e Ernest Troeltsh (1865-1923), por exemplo, o rejeitaram, acreditando na necessidade de estudar a história concreta, os acontecimentos particulares de cada momento. Tinham grandes reservas às generalizações, tendo em conta a multiplicidade dos fatores reais. Weber considerava que a história só seria uma ciência à medida que levasse em conta os procedimentos metodológicos. Em oposição às contradições do método dialético, criou a teoria da multiplicidade das conexões causais, da importância dos fatores ideais e da periodização da história universal, considerando as ciências históricas (sociologia, antropologia e história) fora do domínio das ciências naturais. Emile Durkheim (1858-1917), por seu turno, considerava que a história só poderia ser uma ciência com a condição de elevar-se acima do individual, deixando de ser ela mesma para tornar-se um ramo da sociologia. François Simiand (1873-1935) também pretendia que a história se juntasse à sociologia para tornar-se científica, libertando-se de seus ídolos. Ou seja, deixando de lado a preocupação dominante nos fatos políti49 Q Tomo01.pmd 49 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 cos e militares, o hábito inveterado de conceber-se como história dos indivíduos, e a cronologia, perdendo-se no estudo das origens. José Honório Rodrigues (1913-1987) se aproximou de Hegel e de Marx, ao afirmar que a história seria a ciência da mudança. Tratar-se-ia de uma ciência humana, que não temeria verdades incômodas, porque serviria à verdade e não aos acontecimentos políticos do dia. A história se colocaria em tudo, acompanhando o processo temporal no todo e em cada parte. A vida e a realidade seriam história, gerando passado e futuro. Ao mesmo tempo, porém, ele expressou a opinião de que o marxismo era mecanicamente estreito. Em oposição a tal estreiteza, sugeriu que o historiador deveria estar ligado ao ponto de vista contemporâneo. A realidade histórica seria uma pintura que dependia da perspectiva que o historiador tivesse. Um problema histórico, para ele, seria sempre uma questão levantada pelo presente em relação ao passado. Assim, ao invés de considerar o presente como um desenvolvimento do passado, oferecendo condições mais favoráveis para o entendimento desse passado, subordina este à perspectiva presente, distorcendo a visão histórica. Paul Ricoeur (1913-1986) opinou que a filosofia hegeliana da história teria empanado, com sua totalização, os interesses singulares dos indivíduos, do Estado e dos povos. Portanto, sua perda de credibilidade teria sido um grande acontecimento do século 20. Com isso, expressou o ponto de vista de uma grande corrente de historiadores que procura atacar o marxismo através do descredenciamento de Hegel. Mas Adam Schaff (1913-1989), na linha do pensamento de Hegel e Marx, afirmou que o historicismo, como corrente de pensamento, contestava o ideal da natureza imutável do homem e das leis naturais. Procuraria captar a natureza, a sociedade e o homem, em constante movimento, em suas mutações contínuas. Reconhecia, porém, que o historicismo havia se desdobrado em duas vertentes. Uma, anti-naturalista, não acreditava na existência de leis gerais, enquanto a outra, naturalista, embora sustentando a existência de leis de desenvolvimento histórico, discordava da utilização de leis universais para os fenômenos sociais. Em outras palavras, uma simplesmente descartava a dialética como imprestável. A historia se produziria totalmente de forma aleatória, sendo Q 50 Tomo01.pmd 50 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR impossível enxergar nela qualquer regularidade ou determinação. A outra reconhecia a existência da dialética, mas não nos processos sociais. Assim, a dialética teria acompanhado os hominídeos até constituírem a sociedade. A partir daí, o desenvolvimento histórico teria deixado a dialética de lado e seguido seu próprio rumo. Já a visão de Bloch, sobre a história como ciência do tempo e da mudança, não se coadunava com a sua própria idéia de que a história é a história dos homens no tempo. Pensava as duas coisas, sem considerá-las uma contradição. Para ele, seguindo Dilthey nesse aspecto, o objeto da história seria, por natureza, o homem. Ou, melhor: os homens, que deveriam procurar a verdade e a justiça na história. Por isso, Bloch também considerava que, ao invés de uma ciência do passado, deveríamos ter uma ciência histórica que levasse os homens a compreenderem o presente pelo passado e, correlativamente, o passado pelo presente, embora o passado não fosse objeto de ciência. Talvez nem se tenha dado conta de que, se o passado não for objeto da ciência, ele não poderá fazer parte da ciência histórica. Nestas condições, como os homens poderiam compreender o presente pelo passado e, correlativamente, o passado pelo presente? Fernand Braudel (1902-1985) procurou colocar a história como a ciência federativa das ciências humanas, opondo a longa duração histórica à antropologia estrutural de Claude Lèvi-Strauss (1908-2009). Supunha que a longa duração subordinaria até mesmo as estruturas imutáveis da antropologia. Para isso, ele pluralizou a dimensão temporal, considerando que o tempo se decompunha em ritmos heterogêneos, que romperiam a unidade da duração. No entanto, ao fazer isso ele não mais diferenciou passado, presente e futuro. Estes se reproduziriam sem descontinuidade. Ou seja, embora levando em conta a existência de ritmos diferentes ou desiguais no processo de mudanças, que nos dão um ritmo temporal plural (por exemplo, num mesmo momento histórico do planeta Terra, convivem sociedades de momentos históricos diferentes), Braudel misturou passado, presente e futuro e nos conduziu a um tempo estacionário. Para Walter Benjamin (1892-1940), a história não tem uma relação de causa e efeito, não se devendo pensar o passado e o presente como 51 Q Tomo01.pmd 51 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 uma relação de sucessividade. O passado seria contemporâneo do presente. Como a trama histórica seria de natureza dialética, identificá-la a um simples nó causal redundaria em desencaminhar-se. Seus fios ficariam perdidos durante séculos e se entrelaçariam, bruscamente, pelo curso atual da história. Este é um exemplo de onde pode nos levar uma leitura desatenta de Hegel. Emmanuel Le Roy Ladurie (1929-1973) achou que a história não colocava sua tônica nas acelerações e mutações, mas sobre os agentes da reprodução, que permitiriam a repetição idêntica dos equilíbrios existentes. Em conseqüência, seria nos fatos biológicos, mais do que na luta de classes, que se encontraria o motor da história humana. Finalmente, sob o impacto da física quântica, Alain Boyer (1954-....) considera a indeterminação essencial para pensar as várias possibilidades dos agentes da história. Com ele, o chamado princípio de incerteza, de Werner Eisenberg (1901-1976), saltou da teoria quântica para a teoria histórica. Embora nossa morte seja previsível, em algum tempo no futuro, o princípio da incerteza nos diz que é impossível prever a data certa, como se isso fosse uma descoberta científica fundamental. Assim, repassando o pensamento de uma relação apenas sumária de historiadores que trataram da teoria da história, nos deparamos com um mosaico desencontrado de escolas díspares. Questões sobre a história da natureza, sua relação com a história humana, sobre o espaço e o tempo histórico, sobre a imutabilidade e a mudança histórica, sobre o método de estudo histórico e sobre uma série de temas relacionados ao conhecimento da história como ciência, não só permanecem contraditórios, mas também obscuros em grande parte dos textos históricos. Decidi, então, tentar esclarecer para mim próprio esses assuntos. E, ao mesmo tempo, comprovar se Engels tinha razão ao afirmar que, na natureza, se aplicam, na confusão de suas inumeráveis transformações, as mesmas leis dialéticas do movimento, leis essas que governam a aparente contingência dos fatos históricos. Aparente porque, bem vistas as coisas, o acaso nada mais é do que uma causalidade ainda não descoberta. Assim, nada melhor do que começar por uma viagem ao início dos tempos atuais. Q 52 Tomo01.pmd 52 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Justificando a viagem Querer aventurar-se numa viagem ao início dos tempos atuais, mesmo de maneira virtual, parece coisa de ficção científica. No entanto, não é isso que estamos sugerindo. Estamos apenas afirmando que a humanidade alcançou um ponto de desenvolvimento científico e tecnológico que nos permite conhecer aquela realidade histórica com razoável grau de aproximação. Tal viagem seria impensável em qualquer outra época da história humana. Somente agora a ciência tornou viável a alguém se embrenhar, ao mesmo tempo, pelas profundezas mais longínquas do universo e pelo mundo nano ou microscópico das partículas atômicas. Ela reuniu uma massa de conhecimentos empíricos e teóricos, a partir de observações continuadas do cosmos e das partículas microscópicas, que permite discutir o processo histórico da natureza desde os seus momentos primordiais, como costumam especificar alguns físicos e filósofos das ciências. Portanto, nossa primeira preocupação será demonstrar que, apesar de uma nova barbárie estar à nossa porta, já alcançamos tal estágio de desenvolvimento. Esta é uma contradição que aponta para desafios de monta. Hoje, somos mais de seis bilhões de seres humanos sobre a Terra. À primeira vista, a maioria dessa humanidade está organizada em nações e regiões autônomas ou independentes. A maior parte delas é constituída de nações multi-étnicas, cada uma das quais com dezenas ou centenas de etnias, com seu próprio idioma. Algumas dessas etnias possuem apenas alguns milhares de seres, como a kaiuwa e a ianomami, enquanto outras possuem centenas de milhões, como a han e a hindu. Apesar da variedade de interpretações sobre a história e a essência humana, assim como sobre sua organização em sociedades, algumas destas bastante ricas e prósperas, uma observação mais atenta nos leva à conclusão de que, da mesma forma que seus ancestrais mais longínquos, a 53 Q Tomo01.pmd 53 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 maioria dos homens atuais continua tendo que trabalhar. Eles precisam produzir alimentos, vestuários, moradias, meios de transporte, energia e outros bens necessários à vida cotidiana, tanto as suas, quanto as dos demais membros da sociedade. Em função dessa necessidade, tanto biológica, quanto social, os homens continuam tendo que se organizar para realizar tal produção, assim como para distribuir seus resultados entre os diversos membros de cada sociedade. Esta produção e distribuição ganhou o nome de economia política ou, para alguns, simplesmente economia. A organização econômica depende, por sua vez, dos recursos ou matérias primas que a natureza coloca à disposição dos homens, assim como do nível técnico que alcançaram os meios de extração desses recursos naturais, os meios de transformação desses recursos em produtos úteis, e os meios capazes de distribuir tanto as matérias primas quanto os produtos criados a partir delas. Em outras palavras, dependem dos meios de produção e das relações que os homens estabelecem com a natureza e entre si. Assim, nos defrontamos com produções minerais, agrícolas e industriais e com meios de transporte extremamente desiguais em sua distribuição territorial, seja entre países e regiões globais, seja entre regiões dentro de um mesmo país. Em vários casos, nos defrontamos com as chamadas altas tecnologias, a exemplo das fabricações e transportes automatizados, com o auxílio de computadores e robôs. Em vários outros, predominam as tecnologias tradicionais, a exemplo do artesanato, da lavoura manual e do transporte de tração animal, aqui incluído o próprio homem. Na maioria das nações atuais predomina o modo de produção capitalista. Isto é, um modo de produção no qual uma série de pessoas concentra em suas mãos riquezas monetárias, ou dinheiro. Com o dinheiro, essas pessoas compram meios de produção, distribuição e circulação (prédios, máquinas, equipamentos, energia, matérias primas, transportes etc) e a força de trabalho necessária para o funcionamento daqueles meios. Através de tais meios, a força de trabalho transforma as matérias primas fornecidas pela natureza em produtos, mercadorias, ou valores de troca, para uso na vida humana. Q 54 Tomo01.pmd 54 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Meios de produção e força de trabalho constituem pólos de uma relação social normalmente chamada forças produtivas. Historicamente, o desenvolvimento técnico dos meios de produção tem desempenhado papel fundamental para o estabelecimento das relações entre a força de trabalho e os proprietários dos meios de produção. A invenção da agricultura levou a humanidade a estabelecer as relações escravistas, nas quais o dono da força de trabalho, isto é, o trabalhador agrícola, assim como a terra, era propriedade privada. O desenvolvimento dos instrumentos agrícolas, associada a diversos outros fatores históricos, introduziu mudanças importantes nas relações dos donos da força de trabalho com os proprietários privados. Nos campos, em geral, manteve o trabalhador agrícola como escravo da terra, mas não mais como propriedade privada do proprietário fundiário. O escravo da terra tornou-se proprietário privado de pequenos meios de produção e, ao mesmo tempo, tributário do proprietário fundiário. Ao lado disso, com a ampliação do artesanato e o surgimento da manufatura, fez surgir, embrionariamente, um trabalhador livre de qualquer propriedade, que vendia sua força de trabalho em troca de soldo. Posteriormente, com a transformação da manufatura em indústria, em virtude do desenvolvimento técnico dos meios de produção, da acumulação de imensas riquezas de metais nobres, transformadas em dinheiro, e da expropriação de massas de lavradores, a utilização desse tipo de trabalhador livre tornou-se cada vez mais intensa. O capital surge, historicamente, da relação que o proprietário de dinheiro estabelece com o proprietário da força de trabalho. O capital é, assim, uma relação social, ou um conjunto de relações sociais, que se materializa principalmente na compra e na venda. O espaço onde essas relações de compra e venda ocorrem é o famoso mercado, que muitos tratam como um ser vivente, mitologicamente eterno, embora tenha surgido apenas no estágio histórico do escravismo. Temos, então, de um lado os proprietários de capital dinheiro, que transformam esse dinheiro tanto em ativos ou capital constante (compra de meios de produção), quanto em capital variável (compra de força de trabalho). De outro, temos não-proprietários de capital, mas proprietários 55 Q Tomo01.pmd 55 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de força de trabalho, que podem vender essa sua força, como uma mercadoria qualquer, em troca de salário, para colocar em funcionamento os meios de produção pertencentes aos proprietários de capital constante. Temos aí uma relação de opostos em que a cooperação predomina para a realização da produção social. Mas o segredo do desenvolvimento do modo capitalista de produção reside no fato de que, no processo de cooperação para a produção social a força de trabalho, ao transformar as matérias primas em novos produtos, gera um valor superior ao valor que recebe para se reproduzir. Neste caso, para se reproduzir seja como força de trabalho, seja como ser humano. Esse valor a mais, ou mais-valia, ou capital excedente, ou lucro, é apropriado pelo proprietário dos meios de produção, que o divide para seu usufruto individual e para a substituição ou ampliação dos seus meios de produção. Esta é a base do conflito estrutural entre os proprietários dos meios de produção e os proprietários da força de trabalho, estes os produtores de fato. Os primeiros procuram aumentar a mais-valia através de uma série de artifícios, os principais sendo o rebaixamento dos salários e a extensão das horas de trabalho. Os segundos procuram melhorar as suas condições de reprodução, principalmente através da elevação dos salários, o que incide diretamente sobre a mais-valia. Assim, temos aqui uma relação entre opostos em que a disputa, a competição ou o conflito predomina no processo da produção social. Neste aspecto, como dizia Engels, Darwin não tinha a menor idéia da sátira amarga que escreveu sobre os homens, quando afirmou que a livre competição, a luta pela existência, que os economistas celebram como a maior conquista histórica da humanidade, constitui exatamente o estado natural do reino animal. Essa disputa entre os proprietários capitalistas e os proprietários da força de trabalho é um dos principais aspectos da luta de classes no capitalismo, mas não o único. Os proprietários dos meios de produção cooperam entre si, por diferentes meios, para elevar suas taxas de lucratividade, ou rentabilidade, na relação com os proprietários de força de trabalho. Por outro lado, o modo capitalista de produção também se move empurrado por uma constante concorrência ou competição entre os diversos proprietários de meios de produção. Q 56 Tomo01.pmd 56 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Esta competição os compele a realizar inovações técnicas e organizacionais, que elevem a produtividade do trabalho, reduzindo o valor de troca unitário de seus produtos e elevando suas vantagens, em termos de custos e preços, em relação aos concorrentes. Ao introduzir reduções nos valores de troca, a concorrência incide sobre a lucratividade dos capitalistas, fazendo com que a taxa média de lucro tenda a cair. Isto representa uma contradição entre semelhantes, difícil de ser resolvida porque a concorrência ou competição é vital para a sobrevivência dos proprietários capitalistas no mercado, como seres econômicos e sociais. Os que não conseguem vencer na concorrência do mercado são expelidos e aniquilados, como capitalistas, por seus próprios semelhantes. Os proprietários de força de trabalho também cooperam entre si para forçar a elevação dos salários e das condições de sua reprodução. No entanto, a elevação da produtividade, assim como outros fatores de funcionamento do processo produtivo, tendem a criar um excedente de força de trabalho disponível no mercado. A força de trabalho não empregada procura resolver sua situação de reprodução ofertando-se por salários mais baixos. Isto também representa uma contradição entre semelhantes, difícil de ser resolvida no quadro das relações capitalistas. Desse modo, cooperação e conflito se apresentam como aspectos contraditórios não só da relação entre os proprietários de meios de produção (capitalistas) e os proprietários de força de trabalho, os assalariados, (ou proletários como os chamavam os romanos da época do escravismo), mas também como aspectos contraditórios de cada um dos pólos da contradição entre capitalistas e proletários. Em cada nação ou região do mundo, esse modo capitalista de produzir possui diferentes graus de desenvolvimento de suas forças produtivas, o que inclui tanto os meios de produção quanto a força de trabalho. Em geral, elas estão mais concentradas em algumas zonas urbanas do que em outras. No Brasil, por exemplo, as principais forças produtivas estão concentradas nas capitais e em algumas grandes cidades da região sudeste, evidenciando seu desenvolvimento desigual. As relações sociais, em especial as que dizem respeito à divisão da propriedade, também são mais polarizadas em alguns países e menos em 57 Q Tomo01.pmd 57 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 outras. O Brasil também é um exemplo de país onde a propriedade, em especial a propriedade territorial, é altamente concentrada. O mesmo ocorre com a divisão social do trabalho, que se eleva proporcionalmente à concentração da propriedade capitalista e da força de trabalho. Além disso, em várias nações ou regiões o modo capitalista convive, às vezes em cooperação, às vezes em conflito, com remanescentes de modos de produção historicamente mais antigos, como o camponês, o feudal, o escravista e o comunitário. Também convive, em cooperação e/ ou em conflito, nos sistemas políticos socialistas, com as formas econômicas públicas e estatais sob controle do Estado, que têm poder de interferir no funcionamento do mercado e da economia como um todo. Em termos gerais, a maior parte da humanidade se encontra em sistemas de transição de um modo de produção para outro, seja dos antigos para o capitalismo, seja deste para outro. O socialismo, neste sentido, não passa de um sistema de transição. Essa situação gera grande multiplicidade de culturas, tanto antigas, quanto modernas. Isto é, idiomas, artes, literatura, teatro, cinema, culinária, comportamento, sensibilidade etc, são muito variados entre as diferentes nações, e dentro de cada uma delas. Os sistemas políticos também variam. Democracias liberais, democracias populares, regimes socialistas, monarquias constitucionais, monarquias hereditárias, ditaduras étnicas, teocracias, ditaduras militares etc, formam um mosaico variado, algumas vezes no interior de cada país. As disparidades regionais e de renda também são acentuadas. Na África, Ásia e América Latina, cerca de dois bilhões de pessoas vivem ameaçadas de extinção pela fome e pelas doenças. Mesmo nos países economicamente mais desenvolvidos, é possível verificar aquilo que Engels chamava colossal desproporção entre os objetivos fixados e os resultados obtidos. Se aplicarmos a tese de que os homens impõem cada vez mais sua própria história à história humana, verificaremos que os efeitos não previstos predominam sobre os objetivos fixados. As forças não controladas seriam muito mais poderosas do que as postas em movimento pelo plano estabelecido. Isto porque a principal atividade histórica do homem, aqueQ 58 Tomo01.pmd 58 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR la que o elevou da animalidade à humanidade, que constitui o fundamento material de todas as suas outras atividades – a produção para as necessidades de sua vida – estaria submetida ao jogo das influências indesejáveis, de forças não controladas, como é o caso do capitalismo. A conseqüência do domínio dos homens sobre as forças naturais, com o capitalismo elevando a produtividade a níveis inimagináveis, tem sido, acima de tudo, miséria e poluição. Assim, por um lado, os países ricos da Europa e América alcançaram um desenvolvimento material de tal ordem que permitiria à humanidade suprir as necessidades da maior parte de seus membros, se a apropriação dos resultados desse desenvolvimento fosse realizada de maneira socialmente equilibrada. Porém, esse desenvolvimento exponencial da capacidade produtiva proporcionado pelo capitalismo foi realizado, em grande parte, às custas da exploração dos demais países e povos do planeta. Paradoxalmente, ele estimulou e, ao mesmo tempo, foi estimulado pelo desenvolvimento científico e tecnológico. Se olharmos em retrospectiva, há mais de um milhão de anos atrás, os ancestrais dos homens começaram a dominar o fogo e a utilizá-lo para fins úteis à sua sobrevivência. Fósseis do hominídeo yuanmounensis, datados de 1,7 milhão de anos, apresentaram evidências de que esse antropóide já utilizava o fogo. Depois, entre 15 mil e 5 mil atrás, o Homo sapiens passou a domesticar animais e plantas, inventou a agricultura e, com ela, o pensamento de escrever e fazer operações com números. As primeiras ferramentas para lavrar a terra, de madeira, pedra e osso, surgiram entre 7 mil e 6 mil anos atrás, da mesma forma que o primeiro calendário solar, feito pelos egípcios. Para inventar a escrita, os homens consumiram uns 2 a 3 mil anos após a revolução agrícola. Os egípcios criaram os seus hieróglifos cerca de 5500 anos atrás, os chineses, os seus caracteres há 4700 anos, e os hindus há 4300 anos. Há 4100 anos atrás a cidade-estado de Ur, na Mesopotâmia, criou o primeiro código jurídico, enquanto os gregos de Creta criavam a primeira civilização do mar Egeu e os fenícios criavam uma escrita alfabética. A cobrança de impostos reais talvez tenha sido o primeiro impulso para a criação da geometria, já que as taxas de cobrança tinham por base a área de terra ocupada. Os agiotas da Babilônia aprenderam a calcular 59 Q Tomo01.pmd 59 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 juros, embora através de enigmas, e utilizavam um sistema de cálculo geométrico idêntico ao teorema de Pitágoras. A metalurgia de bronze foi praticada pelos chineses desde 4300 anos atrás. Mas a metalurgia do ferro levou pelo menos outros 1700 anos para ser praticada por hititas, babilônios, chineses e gregos. Os primeiros veículos de transporte de pessoas e cargas, e as primeiras máquinas que substituíram os músculos humanos na fabricação de fios e tecidos, só surgiram há uns 3500 anos. Por volta de 500 a.c. os chineses já escreviam em tiras de papel vegetal e fabricavam tecidos de seda, enquanto os egípcios utilizavam pergaminhos e tecidos de algodão. Depois disso, os humanos mais avançados gastaram mais 2 mil anos para inventar moinhos de água e de vento, relógios de água e mecânicos, a bússola, a pólvora e as armas de fogo, construir as primeiras embarcações oceânicas, pavimentar e iluminar ruas, redescobrir os continentes e conhecer outros povos. Mas, segundo um manuscrito alemão de 1481, esta foi a primeira vez que introduziram o sinal de + (mais) em seus cálculos. Depois, levaram apenas mais quinhentos anos para criar manufaturas, inventar a máquina a vapor, o fuso e o tear mecânicos, a locomotiva e os navios a vapor, as ferrovias, o motor elétrico, o motor diesel e a explosão, e o aço. Criaram a indústria, com suas máquinas ferramentas e linhas de produção, capazes de produzir substâncias químicas, tecidos, chapas e laminados de aço, navios e aviões em série. Constituíram assim um complexo sistema muscular e sanguíneo produtivo industrial, que multiplicou por milhares de vezes a capacidade do cérebro e das mãos humanas em produzir bens e equipamentos para sua comodidade. A seguir, num espaço de menos de 50 anos, na segunda metade do século 20, as sociedades humanas avançadas deram um salto ainda maior. Tendo por base o sistema industrial que seus técnicos e empreendedores haviam criado, elas passaram a produzir equipamentos e instrumentos capazes de analisar grandes corpos, como estrelas e galáxias, e corpos microscópicos, como partículas e vírus. Com isso, ampliaram consideravelmente o conhecimento que os homens de ciência tinham da realidade que cerca a vida terrena e o cosmos. E transformaram as ciências e tecnologias nas principais forças produtivas da humanidade. Q 60 Tomo01.pmd 60 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR No estudo dos corpos microscópicos, foram dados grandes passos para diagnosticar as doenças dos seres vivos e descobrir meios de curálos. Descobriu-se, por exemplo, que os vírus eram causadores de inúmeras doenças, como a febre amarela e a dengue. Em contrapartida, também foram descobertas e produzidas as sulfanilamidas, os antibióticos, as vacinas, a insulina, os fatores que permitem uma transfusão de sangue segura, o saneamento, a higiene pessoal e as dietas para a saúde humana. Ao mesmo tempo, com a invenção dos sistemas eletrônicos e das tecnologias de supercondutores de silício, puderam ser projetadas e fabricadas bobinas de escaneadores, para a obtenção de imagens por ressonância magnética, assim como microscópios de alta resolução, o eletroencefalograma, o tomógrafo e outros equipamentos avançados para diagnoses e cirurgia por imagens. A descoberta dos semicondutores levou à fabricação do transistor, no qual o fluxo de elétrons é controlado. Isso permitiu substituir as antigas válvulas amplificadoras usadas nos rádios e tornou o transistor usado universalmente em televisores e outros aparelhos eletro-eletrônicos, na forma de chips de silício. Os bioquímicos desenvolveram novas técnicas de difração dos raios X, que tornaram possível estudar a composição das grandes moléculas. Na química, tudo o que pode ser pensado com coerência e for possível de ser produzido, passou a ser realizado. Os químicos criaram os plásticos, os vidros e as cerâmicas refratárias, assim como as tecnologias de montagem dos circuitos eletrônicos miniaturizados em chips. Hoje ela avança nos trabalhos com fulerenos, nanotubos e supercondutores de altas temperaturas, materiais que podem revolucionar ainda mais o processo produtivo. Os fisiologistas conseguiram descobrir que bilhões de células dos organismos vivos morrem e são repostas a cada dia, mesmo estando fisiologicamente saudáveis. E descobriram a forma de produzir tecidos vivos em cultura, em especial as células-tronco embrionárias, que constituem o embrião inicial para a especialização e desempenho das células. Os geneticistas demonstraram que os genes eram feitos de DNA, a mais singular de todas as moléculas celulares, abrindo um campo vasto 61 Q Tomo01.pmd 61 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 para o conhecimento em profundidade da evolução histórica da vida e introduzindo a informação como um aspecto importante do processo de reprodução das espécies. Com o Projeto Genoma Humano, através de técnicas automatizadas para decifrar as informações codificadas do DNA, constataram que os seres humanos contam com menos genes do que se supunha. Apenas cerca de 35 mil, muitos dos quais são compartilhados com insetos e plantas, embora suas funções sejam diferentes. Em outras palavras, colocaram os seres humanos como mais um dos resultados do processo histórico de transformação de substâncias inanimadas em substâncias orgânicas e, destas, em seres vivos, com o surgimento das primeiras proteínas. Planos cada vez mais precisos e extensos permitem racionalizar a composição química, de tal modo que as qualidades dos compostos poderão ser previstas antes de qualquer experiência. O conhecimento profundo de uma substância particular pode ser aprimorado, precisado e multiplicado pelo conhecimento de substâncias diferentes ou pelo conhecimento do conjunto das substâncias. Ao se introduzir corpos novos em séries de corpos incompletamente conhecidos, como fizeram os geneticistas que modificaram alguns pares de genes do DNA, substitui-se o conhecimento de corpos particulares pelo conhecimento da série. Astrônomos, físicos, astrofísicos, cosmólogos e engenheiros criaram o radiotelescópio, o espectrógrafo, a óptica adaptável e a interferometria, abrindo janelas maiores para observar fenômenos cósmicos de baixa temperatura e determinar a composição química das estrelas a distâncias maiores. Os físicos descobriram a fissão e a fusão nucleares como poderosas fontes de energia. E a ciência física moderna, do mesmo modo que a química moderna, tornou-se cada vez menos ciência dos fatos e mais ciência dos efeitos. Em geral, as ciências estão se transformando, rapidamente, de instrumentos de pesquisa da realidade, em instrumentos de modificação da realidade e das forças produtivas. Cada vez mais nos encontramos em condições de conhecer as conseqüências mais remotas de nossas atividades mais comuns de produção. Teoricamente, o homem pode submeter a natureza, pondo-a a serviço de seus fins determinados e imQ 62 Tomo01.pmd 62 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR primindo-lhe as modificações que julga necessárias, sem romper com as leis naturais de desenvolvimento. Com a criação da espantosa tecnologia aeroespacial, que permite fazer viagens a longa distância, em curtos espaços de tempo, a humanidade pode chegar à Lua, enviar sondas astronômicas de pesquisa a outros planetas do sistema solar, e manter telescópios e satélites artificiais de controle meteorológico e militar ao redor da Terra. E pode sonhar com a possibilidade de explorar e habitar outros planetas e satélites do nosso sistema solar, num futuro não muito distante. Com tudo isso, a humanidade assistiu, ainda sem perceber todas as suas implicações, à criação daquilo que se pode chamar de sistema nervoso do processo produtivo e da comunicação social, através de equipamentos eletrônicos de coleta, tratamento e transmissão de dados, informação e comunicação. Com a invenção do rádio, televisão, computadores, telefones sem fio e, mais recentemente, da Internet, tornou-se comum realizar em poucos minutos cálculos matemáticos complexos e acompanhar ao vivo os acontecimentos, descobertas científicas, inventos e inovações tecnológicos, em cada canto do mundo. Embora persistam regiões em que esses meios de informação e comunicação ainda não aportaram, a solução deste problema não é mais técnica, mas estritamente econômica e social. Desse modo, de provados instrumentos de pesquisa e conhecimento, as ciências, associadas às tecnologias, se transformaram nas forças produtivas mais poderosas dos seres humanos, tendo por base novos ramos científicos, a exemplo da eletrônica, robótica, biotecnologia, nanotecnologia e química fina. Conhecendo em profundidade as leis da natureza, os homens se tornaram capazes de replicá-las em produtos projetados para uso humano. No entanto, apesar das ciências e tecnologias haverem alcançado esses níveis e demonstrarem uma capacidade de desenvolvimento cada vez maior, os homens ingressaram no século 21 às voltas com inúmeras lacunas no conhecimento sobre si próprios, seu entorno ou meio ambiente, e sobre o universo em que se encontram. Além disso, estão confrontados com os problemas resultantes dos danos causados à natureza, tanto pelas antigas formações sociais, quanto pelo atual sistema capitalista. 63 Q Tomo01.pmd 63 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Simulações em computador mostraram que a queima de combustíveis fósseis tem ligação estreita com a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera e pode causar a elevação da temperatura da camada de ar que envolve a superfície terrestre. Mas os modelos computadorizados também mostraram que o próprio processo natural de atividades vulcânicas, e dos seres vivos em geral, emite quantidades consideráveis de dióxido de carbono para a atmosfera. Assim, o atual processo de rápidas mudanças nos padrões atmosféricos e nas correntes oceânicas ainda é imprevisível, em grande medida porque o processo geral de resfriamento, tanto do Sol, quanto da Terra, continua. O exame de amostras nas capas de gelo da Groenlândia e da Antártida mostrou que ocorreram mudanças bruscas durante vários períodos glaciais dos últimos milhões de anos. O clima global pode ser apenas parcialmente estável, podendo saltar de um estado confiável para outro imprevisível, como ocorreu várias vezes no passado remoto. Em alguns momentos de sua história, a Terra esteve coberta por camadas de gelo que chegaram aos trópicos. Cada um desses períodos parece ter terminado quando erupções vulcânicas lançaram grandes quantidades de dióxido de carbono e outros gases-estufa na atmosfera, derretendo as camadas de gelo tão repentinamente quanto haviam surgido (repentinamente, no caso, podendo significar algumas centenas ou mesmo milhares de anos). Embora hoje saibamos, com a ajuda dos satélites artificiais de pesquisa, que as mudanças climáticas no Índico liberam grandes ondas de energia, mudando os padrões climáticos do Atlântico Norte, empurrando massas de poros e germes patogênicos do deserto do Saara para o Caribe e influenciando a vegetação marinha caribenha, ainda não temos um quadro claro sobre os malefícios e/ou benefícios desse fenômeno. Só há pouco tempo começou a ganhar foros de verdade a hipótese de que na natureza nada acontece isoladamente. Segundo alguns, o bater de asas de uma borboleta no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ou em qualquer outra parte do mundo, repercutirá em toda parte. A maioria das pessoas tem dificuldade de entender exemplos desse tipo, porque os matemáticos que procuram demonstrar essa interação entre todos os eventos do universo e da Terra (é disso que se trata), apresentando isso como uma novidade, não conseguem dar exemplos práticos. Q 64 Tomo01.pmd 64 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Poderiam, agora, tomar como exemplo a explosão do vulcão islandês Eyjafjalla, e a nuvem de cinzas que lançou no espaço, em abril de 2010. A nuvem, empurrada pelos ventos árticos no sentido leste e sudeste, causou caos ao transporte aéreo em toda a Europa, mesmo naquelas regiões aonde não chegou, e problemas no sistema de transporte aéreo de todo o mundo. Embora não tenha sido publicada a dimensão de todas as repercussões da cadeia de acontecimentos, ela certamente chegou a locais inusitados em todo o planeta, com resultados bastante contraditórios. Certamente ampliou de forma inesperada a ocupação dos hotéis próximos aos aeroportos e o transporte rodo-ferroviário, carreando lucros extras para esses setores. Certamente, também, causou prejuízos imensos às companhias aéreas, e deve ter impedido negócios no interior do Laos e da Bolívia. E pode ter levado outras pessoas a terem a mesma reação imbecil de um turista que declarou, na televisão, odiar a Islândia por causa da erupção. Na segunda metade dos anos 1800, bem antes das recentes teorias do caos e fractais, e sem os instrumentos matemáticos que só agora são possíveis, Engels frisava que a interconexão universal, sugerida por Hegel, era uma lei do movimento da matéria, em qualquer das formas que se apresentasse. No rascunho que preparava sobre a Dialética da Natureza, afirmou que os fenômenos exercem entre si influências recíprocas, num movimento de interação universal. Para demonstrar essa noção, com exemplo práticos, Engels lembrou que, tanto os animais inferiores, quanto os homens, modificavam a natureza exterior com suas atividades, ao mesmo tempo em que essa modificação repercutia sobre os próprios causadores. Esse exemplo, que em sua época pareceu uma bizarrice a um grande número de naturalistas, é hoje algo que biólogos e geneticistas têm comprovado cada vez com maior insistência. Os animais inferiores modificam a natureza em menor proporção do que os homens, e de modo involuntário e acidental, mas não há dúvidas de que as cabras desmataram os bosques da Grécia. O problema reside em que os homens, à medida que se afastam dos animais inferiores, mais exercem sobre a natureza uma influência intencional e planejada, a fim de alcançar objetivos previamente projetados. 65 Q Tomo01.pmd 65 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Isto é, ao provocar estragos na vegetação, os homens fazem isso com o propósito de utilizar a terra livre e a madeira, semear trigo, soja ou outros grãos, plantar árvores frutíferas, ou cultivar videiras e laranjais, conscientes de que a colheita será maior. Ao transportar, de um país para outro, plantas úteis e animais domésticos, os homens modificam a flora e a fauna de continentes inteiros, às vezes com danos irreversíveis, como ocorreu com a vegetação da Ilha de Santa Helena e com a fauna da Nova Zelândia e, modernamente, com a Mata Atlântica e parte do Cerrado do Brasil. Engels também analisou que as plantas cultivadas e os animas criados em condições artificiais sofriam uma influência tão grande nas mãos do homem, que chegavam a se tornar irreconhecíveis. Portanto, num texto escrito em 1876, bem antes de nossos ecologistas acordarem, esse filósofo já dizia que não deveríamos nos regozijar com as vitórias humanas sobre a natureza. Ele sugeria que, a cada vitória dessas ações humanas, a natureza respondia com uma vingança. Cada uma dessas vitórias produzia conseqüências que podíamos prever, como o aumento das safras agrícolas decorrentes da derrubada de bosques e matas. Porém, elas também resultavam em conseqüências muito diferentes, não previstas, que quase sempre anulavam as vitórias anteriores. Para reforçar sua visão ecológica, ele acrescentou os exemplos da destruição dos bosques e florestas na Mesopotâmia, Grécia, Ásia Menor e Alpes italianos. Essa destruição deu origem à desertificação dos solos, ao deslizamento das encostas e ao assoreamento dos rios das respectivas regiões. Ele lembrou ainda a propagação da escrofulose, pelo plantio da batata, e se mostrou indignado com a queima dos bosques das encostas montanhosas cubanas, para o plantio de cafeeiros. Sem dar a mínima importância às chuvas torrenciais dos trópicos, que varriam a camada vegetal do solo, esse plantio causou devastação e deixou como legado apenas rochas desnudas. Em outras palavras, a natureza nos adverte de que não podíamos dominála como um conquistador domina um povo estrangeiro, como alguém situado fora da natureza. Ao contrário, pertencemos à natureza, com nossa carne, nosso sangue, nosso cérebro. Estamos no meio dela, e nosso domínio sobre ela consiste na vantagem que levamos sobre os demais seres, de poder chegar a conhecer suas leis e aplicá-las corretamente. Q 66 Tomo01.pmd 66 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Engels tinha a esperança de que, com os progressos das ciências, os homens seriam capazes de prever e controlar cada vez mais as remotas conseqüências naturais de suas atividades de produção, pelo menos das mais comuns, e evitar os danos que até então vinham causando. Não tinha dúvidas de que a natureza e o homem eram mutáveis, sofriam transformações. No entanto, conhecendo as leis de transformação, os homens poderiam adaptar-se a tais leis naturais e agir positivamente sobre elas. É na busca dessas leis de transformação que nos propomos a fazer uma viagem ao início do tempo, no qual os homens ainda não estavam presentes. 67 Q Tomo01.pmd 67 11/28/2013, 11:46 PM Redescobrindo o mundo Tomo01.pmd 69 2 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apresentação Este é o segundo volume da série A Dialética da História. Como afirmei na apresentação do volume anterior, nessa série pretendo discutir a história como processo de mudanças, modificações, mutações, transformações, ou metamorfoses, que ocorrem em todos os aspectos do universo, mesmo não se havendo descoberto ou se conhecendo todos esses aspectos. Portanto, procuro discutir a dialética da história. Ou, em outras palavras, ressaltar como as leis dialéticas ou gerais decorrem do processo natural de mudanças que compõem a história. Nos capítulos do volume anterior, procurei ressaltar que a história humana é apenas uma parte da história da mudança no tempo. Se tomarmos como exemplo o evento da extinção dos dinossauros, comprovaremos que ele, acima de tudo, colocou em xeque o conceito de história como algo exclusivamente humano. Apesar disso, parte da humanidade ainda parece viver a crença de que tudo se reduz a uma eterna repetição. Mudanças não passariam de uma simples aparência. É verdade que, na antiguidade, pensadores gregos, chineses e de outras culturas, cada um a seu modo, introduziram o conceito de mutação, ou de mudança, como uma das principais características da natureza. Apesar disso, esse conceito permaneceu congelado por mais de dois mil anos, só voltando à cena histórica nos séculos 18 e 19, primeiro com Kant e, depois, com Hegel. Para Hegel, não havia uma natureza anterior e independente da história. A natureza seria apenas um modo ou um momento da história. Não era a história que ocorria na natureza. Esta é que deveria considerar-se como ocorrendo na história. Assim, a cada passo, como mais tarde disse Engels, na natureza se impunham, na confusão das inúmeras mutações, as mesmas leis do movimento que presidiam a trama, aparentemente fortuita, dos acontecimentos históricos. Q 70 Tomo01.pmd 70 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Essas leis formariam, do começo ao fim, o fio que acompanhava a história percebida pelo pensamento humano, e faziam com que este ganhasse consciência delas. Nem sempre facilmente, é verdade, porque a história teria um fluir constante, de movimentos diferenciados, nos quais o repouso seria apenas relativo e temporário. Por outro lado, os contrastes, diferenciações, ou contradições, encontrados na natureza, estariam sempre em relação interativa, reproduzindo-se e desenvolvendo-se de forma desigual, nunca em rigidez absoluta. Porém, a mente humana nem sempre parece alcançar o fato de que tais contradições são a essência da dialética da natureza. É comum que, em sua reflexão, o pensamento as encare rigidamente. Por exemplo, algo é bom ou mau, está em movimento ou parado, é lento ou rápido, e assim por diante. Esse senso comum de que bom e mau, em movimento e parado, lento e rápido, não podem ocorrer simultaneamente, numa relação de cooperação e conflito, ou de unidade e luta, parece predominar no pensamento de um grande número de pessoas. Para evitar tal rigidez e chegar a uma concepção também dialética, que corresponda à realidade natural, o pensamento humano tem trilhado um caminho difícil e tormentoso de acumulação de conhecimentos. Seus obstáculos têm sido ultrapassados pelos fatos estudados e desvendados pelas ciências naturais e sociais. É esse caminho de obstáculos que procuro sumarizar neste volume, sob o título Redescobrindo o Mundo. Seus capítulos são Rudimentos das Ciências, Revendo a Antiguidade, Entre Luz e Escuridão, Caminhos Invertidos e Explosão Espiritual. Na perspectiva de reunir informações que nos levem até o ziquezagues. Embora seja marcadamente dialético, o método histórico difere do método lógico-dialético. Neste, as divisões e associações dialéticas seguem um processo abstrato, sem interferência das contradições exteriores. No método histórico, tais divisões e associações sofrem os desvios e retrocessos das interferências externas, o que nos permite demonstrar, de forma mais ilustrativa, como a história é a própria mudança temporal. Neste volume, procuro contar, em linhas gerais, a evolução histórica do conhecimento, pelo menos desde que foi inventada a escrita, há mais de 4500 anos. Começando por Rudimentos das Ciências, tento discutir a 71 Q Tomo01.pmd 71 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 esperança, expressa por Engels, de que os progressos no conhecimento das leis naturais de transformação tornariam os homens capazes de prever e controlar cada vez mais as remotas conseqüências naturais de suas atividades de produção. Essa esperança tem encontrado enorme dificuldade para concretizarse. Ao invés de evitarem os danos que até então vinham causando à natureza e a si próprios, os conhecimentos científicos e seus resultados aceleraram tais danos, a tal ponto que não são poucos os cientistas que consideram que a humanidade chegou em seu ponto de não-retorno. Desse modo, a muitos parece mais fácil responsabilizar as ciências e os conhecimentos. Nem sempre é visível que o uso das ciências e dos conhecimentos é imposto, objetivamente, pelo contexto econômico e social existente. Nem que, se olharmos com mais acuidade os avanços científicos e tecnológicos alcançados até agora, talvez possamos demonstrar que a humanidade já possui instrumentos em condições de prever e controlar muitos dos danos de suas ações. Portanto, mesmo de forma não totalmente completa, podemos fazer com que grande parte de nossos atos correspondam às leis naturais. O problema consiste em que a essa prevenção e esse controle se chocam com os interesses de sistemas sociais que tenham o lucro como objetivo primordial. Como isto não é algo que se possa resolver com a simples vontade humana, em Revendo a Antiguidade tento resgatar, também sumariamente, o que produziram os gregos e chineses geniais da antiguidade. Essa produção foi um passo indispensável para o desenvolvimento científico posterior da espécie humana. As criações filosóficas naturais daqueles povos ilustram do que são capazes o pensamento humano e sua capacidade de abstração, no processo de conhecimento da natureza e do próprio homem. Mas também demonstram as contradições, oportunidades e limitações, econômicas, sociais e culturais, que estimulam ou freiam tal capacidade. Por tudo isso, no capítulo Entre Luz e Escuridão tento rever a série de noções e conceitos, sobre a natureza e sobre os homens, legada à humanidade pelas filosofias clássicas. Matéria, movimento, elementos primordiais, átomos, estados da matéria, infinito, caos, contradição entre opostos, Q 72 Tomo01.pmd 72 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR multiplicidade de mundos, atração e repulsão, vida surgindo da matéria inanimada, morte como componente intrínseco da própria vida – tudo isso representa uma massa de teorias empíricas, elaboradas por gregos e chineses, a partir das quais seria possível dar novos saltos no conhecimento. Alguns pensadores acham que tais conhecimentos poderiam ter continuado a se desenvolver, na mesma rapidez, se a humanidade não houvesse ingressado no que chamam de longa noite da Idade Média. Para eles, as ciências estariam muito mais adiantadas se não fosse essa pedra no meio do caminho. Descolam a história do pensamento e dos conhecimentos da história econômica e social, e supõem possível desenvolver o conhecimento sem necessidade da construção de uma base material que lhe dê suporte. Eis porque, em Caminhos Invertidos, relato os processos históricos que separaram por alguns séculos o desenvolvimento da China e da Europa Ocidental. A China ingressou no feudalismo e na monarquia centralizada cerca de mil anos antes da Europa, sendo responsável por grandes invenções e por um intenso desenvolvimento econômico, também anterior às invenções e ao desenvolvimento econômico europeu. No entanto, diante de um sistema feudal consolidado, os mercadores foram incapazes de impor à China um novo sistema mercantil. Na luta de classes entre mercadores e feudais, estes saíram vitoriosos. A China viuse dominada pelos manchus, estagnou em praticamente todos os terrenos e, foi espoliada durante cerca de 250 anos. Na Europa, ocorreu o contrário. O feudalismo, resultante das invasões bárbaras e do declínio do império romano, ainda não se consolidara quando os mercadores desenvolveram Comunas, Cidades-Estado e Ligas mercantis, constituíram forças armadas próprias, e ganharam influencia sobre diversas monarquias. Em vários casos, monarquias aliaramse a mercadores, criaram Estados nacionais, desenvolveram o comércio marítimo, realizaram a descoberta de novos territórios e criaram uma intensa e nova colonização de povos. Assim, enquanto os chineses sofriam uma regressão, em proporções ainda maiores do que a sofrida pelos gregos, ao serem submetidos ao império romano, vários povos europeus abriram o caminho para uma 73 Q Tomo01.pmd 73 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 nova revolução humana. É o período dessa revolução que procuro descrever em Explosão Espiritual. Esse período abrange o final da Idade Média européia, a transição mercantilista e o início do sistema capitalista, configurando aquilo que Engels considerou a maior revolução da humanidade, até então. Segundo ele, foi uma época que precisava de gigantes, e ela os criou, seja em poder de pensamento, seja em paixão, caráter, multilateralidade e sabedoria. Os homens que estabeleceram o moderno domínio da burguesia, ainda de acordo com Engels, não eram em nada limitados pelo espírito burguês. Pelo contrário, o caráter aventureiro dessa época se refletiu neles, numa dose considerável, fazendo com que todos participassem ativamente e tomassem partido nas lutas de seu tempo. Com esses capítulos, penso dar novos passos na introdução sobre a dialética da história, utilizando os conhecimentos e as diversas teorias que a sociedade humana produziu até o alvorecer do capitalismo. E me preparar um pouco mais para viajar ao início dos tempos. Q 74 Tomo01.pmd 74 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Rudimentos das ciências O Homo sapiens está há menos de um milhão de anos na história da Terra, que possui cerca de 4,5 bilhões de anos. O universo atual surgiu, para alguns, há 14,5 bilhões de anos. Outros garantem que foi há 13,7 bilhões de anos. Em qualquer dos casos, como disse Carl Sagan (19341996), a existência humana não passa de um segundo das 24 horas de existência do universo. Já o Homo erectus, do qual somos uma ramificação, teve uma existência de 1,8 milhão de anos. Mas desapareceu, do mesmo modo que os hominídeos que o antecederam. Isso nos leva a deduzir que, em algum momento do futuro, deveremos chegar a algum tipo de bifurcação, seja dando surgimento a uma nova espécie, seja simplesmente desaparecendo sem deixar descendentes, como parece haver ocorrido com várias das espécies animais e vegetais do passado. Não há indícios de que estejamos próximos a dar nascimento a uma nova espécie. No entanto, há muitos sinais de que podemos estar trilhando um caminho em que seremos simplesmente levados à extinção. Parecemos não conseguir nos afastar da inconcebível, absurda e antinatural ideia da antítese entre homem e natureza, perseverando na faina de destruir o mundo natural, como se pudéssemos viver sem ele. A idéia dessa antítese, assim como da antítese entre alma e corpo, se alastrou pela Europa e pelo mundo, como resultado da decadência da antiguidade clássica e do desenvolvimento das religiões e do capitalismo. Ela hoje parece haver se tornado tão predominante que vários cientistas apontam a possibilidade da humanidade ser extinta num curto espaço de tempo, por estar destruindo as condições externas de sua existência. Apesar disso, como sugeriu Engels, os homens também podem chegar a sentir e compreender sua profunda unidade com a natureza. Com isso, poderão resolver os problemas legados pelas gerações passadas e, 75 Q Tomo01.pmd 75 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ao mesmo tempo, tratar os novos problemas, tendo em conta suas conseqüências imediatas e futuras. Afinal, como disse Dai Zhen (1724-1777), um filósofo chinês, o que distingue os homens de todos os demais seres é que ele pode conhecer as leis necessárias da natureza, enquanto os demais se desenvolvem por um processo natural e espontâneo. Talvez por isso, da mesma forma que a possibilidade da extinção está em pauta, se apresenta cada vez com maior força a questão da superação das condições econômicas, sociais e políticas que promovem a destruição da natureza. O que inclui a necessidade de tornar o capitalismo um capítulo passado da história. Tudo na perspectiva de conhecer as leis naturais que nos permitam seguir a linha, também provável, de evolução biológica e social. Não é por acaso que astrônomos, astrofísicos, cosmólogos, físicos, químicos, biólogos, paleontólogos e cientistas de outros ramos se jogam com afinco no estudo da origem e evolução do universo. Num movimento aparentemente desconectado com a preocupação de superar o capitalismo, eles estão sendo impelidos a estudar a história do tempo e das mudanças do universo, da natureza terrestre e dos homens, de modo a confirmar a estreita relação entre a natureza e o homem. É verdade que eles nem sempre têm consciência clara dos objetivos e dos problemas envolvidos, assim como dos métodos mais adequados para resolvê-los. Mas, para confirmar aquela relação, eles hoje têm a vantagem de contar com os enormes avanços das ciências e com os poderosos instrumentos de pesquisa, fabricados com as técnicas desenvolvidas pelo moderno sistema industrial. Essa vantagem permite a todos, mesmo aos que não fazem parte do seleto grupo de especialistas de Hawking, lidar com as informações que podem explicar a evolução do universo, incluindo aí o Sol e seu sistema planetário, do qual participam a Terra e suas espécies vivas. Com esse progresso, como disse Engels, o homem conseguiu imprimir seu selo sobre a natureza, em tão alto grau, que talvez suas marcas só desapareçam com a morte da esfera terrestre. Então, se fomos capazes de fazer tudo isso, o que nos impede de criar as condições para que nossa bifurcação crie um ser vivente mais sábio e mais Q 76 Tomo01.pmd 76 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR duradouro do que nós? Os que apontam o desenvolvimento científico como responsável pela separação entre homem e natureza certamente não distinguem tal desenvolvimento do uso que cada geração humana fez dele. Para o que nos interessa no momento, o progresso científico pode ser a condição primordial para voltarmos a harmonizar e relação entre os seres humanos e a natureza. E é esse progresso que também nos proporciona a possibilidade de realizar uma viagem, mesmo virtual, ao passado mais longínquo, ao início do universo. Isso não só para comprovar a história do tempo e das mudanças, ou simplesmente a história, que é tempo e mudança, mas também para entender como e porque tais mudanças ocorrem, e para nos adaptarmos cientificamente a elas. Para realizar uma viagem desse tipo, mesmo virtual, precisamos conhecer, de maneira relativamente clara, como ocorreu o desenvolvimento científico até a atualidade. O que não é tão fácil porque as respostas às questões que emergiram com esse desenvolvimento estão longe de serem consensuais, até mesmo entre os que se consideram matematicamente capacitados a tratá-las. Muitos pensadores atuais, por exemplo, pressupõem que o objetivo da ciência seria prover uma teoria única para descrever todo o universo, desde a sua origem ou início dos tempos, e nos servir de parâmetro para o futuro. Acreditam que, se soubermos como o universo se comporta em qualquer estado dado, as leis físicas nos dirão como ele será em qualquer instante posterior. Em outras palavras, se soubermos as leis de funcionamento do universo na atualidade, elas servirão também para sabermos como se comportam as leis que governaram o estado inicial e que governarão os estados futuros. Esse pressuposto, porém, tem apresentado muitas dificuldades, porque se confronta com o modo real de existência do universo. Este não parece ser estático, nem uniforme, embora algumas teorias acreditem num ou noutro desses estados, ou em ambos. As leis que o explicam parecem valer para alguns espaços, mas não para outros. Por exemplo, a Lua não possui água. Portanto, a lei relacionada com a transformação da água em vapor, não tem qualquer validade na Lua. O Sol também não possui água, nem corpos sólidos, e tem apenas 2% de átomos pesados. 77 Q Tomo01.pmd 77 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Portanto, as leis terrestres relacionadas com esses estados ou formas talvez não sejam próprias para o Sol e outras estrelas como ele. Essas contradições têm levado alguns cientistas a concluírem que seus colegas do passado acharam impossível descobrir uma teoria que descrevesse todo o universo. Por isso teriam sido constrangidos a dividir o problema da teoria única em diversas partes e inúmeras teorias parciais. Cada uma dessas teorias parciais teria feito surgir novas teorias, como extensão das anteriores. Dessa maneira, teríamos chegado à teoria geral, como se encontra hoje, com as teorias da relatividade e as teorias quânticas. Outros cientistas argumentam que através do estudo das partes isoladas talvez seja impossível atingir uma solução plena para o fato de tudo no universo depender de todo o restante. Assim, bem vistos esses argumentos, podemos chegar à conclusão de que existe uma quantidade considerável de controvérsias a respeito do conhecimento científico. Talvez as mais complexas se refiram à possibilidade de ter uma lei única que, como dizem alguns, governe todos os fenômenos, ou como dizem outros, explique o conjunto das leis naturais. Não há muitas dúvidas de que a forma principal de progresso histórico da ciência tem ocorrido através do estudo das partes isoladas. Isto porque o conhecimento depende das condições de cada época, e até onde tais condições possam chegar. O exemplo mais evidente dessa dependência talvez seja aquele dado pelos filósofos gregos e chineses da antiguidade. Eles pensaram no todo para explicar as relações internas das partes, mas terminaram sendo superados pelos metafísicos, que se dedicaram ao estudo das partes, sem se preocupar com suas relações unificadoras. A dialética genial dos gregos e chineses antigos não podia explicar os detalhes das relações internas porque as condições técnicas para o exame dessas relações ainda não existiam. Os filósofos desse período não podiam, portanto, fornecer a comprovação das leis dialéticas totalizadoras. Nessas condições, a metafísica surgiu como uma negação histórica necessária da dialética ingênua para estudar os detalhes da natureza. O fato de, posteriormente, a metafísica haver se tornado não só um entrave ao desenvolvimento científico e do pensamento, mas também uma ideologia, apenas mostra o caráter dialético desse processo. De certo modo, Q 78 Tomo01.pmd 78 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR este problema permanece na atualidade, expressando-se no fato de que muitos falam em unificação, mas cada um fica encasulado em sua ciência, sem relacioná-la com as demais. Modernamente, o objetivo de descobrir uma teoria única para descrever o universo ressurgiu na história quando alguns cientistas supuseram dominar todo o conhecimento, como Newton, Pierre Simon Laplace (1749-1827), Comte, Albert Michelson (1852-1931), Lord Kelvin (18241907) e Einstein. Uma das dificuldades que encontraram, como teremos condições de ver adiante, reside em não considerarem a matéria em movimento como a unificação de todos os fenômenos que ocorrem no universo e na Terra. É comum ver cientistas colocarem universo, matéria, movimento, energia, átomos, partículas, espaço e tempo como termos independentes e, muitas vezes, excludentes. Não tomam, como deveriam, universo, energia, moléculas, substâncias, átomos, partículas, espaço e tempo como formas históricas de existência da matéria em movimento. Mesmo porque, como também veremos em várias ocasiões, não pensam no movimento como algo inerente à matéria. A suposição de corpos estáticos, estacionários, invariáveis, imóveis, inertes, é uma constante no pensamento de muitas mentes brilhantes, por paradoxal que isso pareça. Nessas condições, suas dificuldades para compreender a existência de leis gerais, presentes em todos os corpos e fenômenos, e leis particulares, relacionadas a condições diferenciadas, continuam presentes e fortes. Historicamente, o conhecimento e a ciência surgiram e foram se desenvolvendo aos poucos, sempre a partir das exigências de necessidades e condições práticas. Ainda hoje permanece fraca a consciência sobre a relação existente entre as condições de produção dos meios de vida e o pensamento e o conhecimento, relação que se exprime na combinação de atividades práticas com observações contínuas e o uso do raciocínio. Também parece não haver consciência de que, em virtude das mudanças, ou do tempo, ou da história, o conhecimento será sempre inacabado e parcial. Muitas vezes, a maior descoberta do conhecimento reside no delineamento dos problemas e das pesquisas futuras. A idéia de 79 Q Tomo01.pmd 79 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 que só se resolve um problema, criando pelo menos um outro, talvez seja a figura que melhor explique o processo de evolução do conhecimento. Tomemos como exemplo o processo que levou ao conhecimento científico da noção de calor. Vários hominídeos anteriores ao Homo sapiens já dominavam o fogo natural. Por experiência, aprenderam que o fogo produzia calor, queimava, e era útil a diversas aplicações, como assar alimentos e afugentar predadores. Seu problema, por algumas centenas de milhares de anos, foi produzir o fogo, independentemente da natureza. Talvez seus descendentes tenham aprendido, primeiro, também pela prática, que esfregando as mãos e os próprios corpos, obtinham calor, mesmo sem produzir o fogo. Isso pode tê-los levado a descobrir que, atritando certos tipos de madeiras e pedras, produziam fogo e calor. Todos esses conhecimentos foram empíricos, aprendidos ao azar, num processo de tentativa e erro, observações continuadas e raciocínios abstratos sobre as relações práticas envolvidas. Explicar por que alguns tipos de pedras e madeiras, ao serem esfregados, produziam fogo, e outros não, tornou-se um problema. E explicar por que esse esfregamento produzia fogo tornou-se um problema ainda maior. Para resolver esses problemas e chegar à noção de que o atrito é uma fonte de calor, já na era do Homo sapiens, foram necessárias outras centenas de milhares de anos. Depois, para chegar à noção de que todo movimento mecânico é capaz de converter-se em calor por meio do atrito, consumiram-se novos milhares de anos. E, para que Julius Mayer (18141878) e James Joule (1818-1889), em meados dos anos 1840, de modo independente um do outro, definissem que o calor podia se transformar em energia mecânica, e esta novamente em calor, passaram-se mais algumas centenas de anos. Finalmente, para que George Grove (1820-1900) chegasse à conclusão de que toda forma de movimento, sob condições determinadas em cada caso, pode e é compelida a transformar-se, direta ou indiretamente, em qualquer outra forma de movimento, foram necessários mais alguns anos. Portanto, para chegar a um conhecimento científico, através da solução de problemas sucessivos, como disse Engels, foi preciso muito tempo e uma quantidade enorme de conhecimentos empíricos. Algo idêntico Q 80 Tomo01.pmd 80 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR ocorreu com a observação das diferenças existentes entre os seres humanos. Os hominídeos, por experiência, sabiam diferenciar os diversos indivíduos que faziam parte de seu grupo social, embora cada indivíduo tivesse diferenças em relação aos demais. No entanto, em geral, consideravam totalmente diferentes os indivíduos de outros grupos. Foram necessários milhões de anos para que chegassem à noção de identidade do ser humano, embora dividido em diferentes raças, etnias e povos. E foram necessários outros milhares de anos e uma quantidade enorme de conhecimentos empíricos, para chegar à noção, consolidada cientificamente por Darwin, da identidade através da espécie. Noção que continua tendo que lutar, entre outras coisas, contra o conceito de raça, que pretende firmar o pensamento da diferença intransponível entre algumas etnias ou povos superiores e, outros, inferiores. Portanto, não é por acaso que o conceito da identidade de um ente qualquer consigo mesmo ainda hoje perambule para entender que a identidade requer, como complemento, o conceito de diferença com tudo o mais. É verdade que a matemática, ao alcançar um alto grau de abstração, isto é, de atividades mentais que aparentemente não são reflexos da realidade, admitiu a identidade abstrata e sua oposição à diferença. Porém, mesmo neste caso, a identidade abstrata é superada a cada momento, sendo obrigada a reconhecer a existência da diferença, num exemplo claro da contradição dialética, em unidade e em oposição. A geologia demonstra, por exemplo, como ocorrem as modificações na superfície terrestre tornando-a, ao mesmo tempo, diferente e idêntica a si mesma. As mudanças mecânicas, como a erosão, o congelamento, a desertificação e os movimentos das dunas de areia modificam paisagens e ambientes, mas qualquer ser humano identifica essas paisagens como terrestres. A diferenciação da célula determina a diferenciação do corpo, dando lugar ao músculo, à pele e aos ossos. Por sua vez, a diferenciação do corpo determina a diferenciação da forma, seja ela um jaguar, um camelo ou um ser humano. Desse modo, a célula continua idêntica a si mesma, embora suas formas e suas funções sejam diferentes. Isto é o que Engels chamava de inseparabilidade entre forma e conteúdo, ambos condicionando-se mutuamente. Apesar disso, grande parte dos homens 81 Q Tomo01.pmd 81 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de ciência imagina que identidade e diferença são opostos inconciliáveis. Não as considera como polos de uma mesma unidade, cuja verdade reside em sua interação, na inclusão da diferença na identidade, e vice-versa. Assim, bem vistas as coisas, os conhecimentos e as ciências, como tudo mais, têm evolução e desenvolvimento históricos. Não há um plano predeterminado de que se deva dividir o estudo científico em partes, para chegar a uma teoria única. Teoria, aliás, que talvez só fosse possível se vivêssemos num universo estático. Mas estamos num universo em constante movimento e processo de mudanças, no todo e em suas diversas partes, incluindo aí o conhecimento humano. Nessas condições, as noções ou conceitos científicos só podem desenvolver-se no cérebro humano e se tornarem científicos através de um longo processo de acumulação de atividades práticas e conhecimentos empíricos. E é no teste com a própria prática, como reiterava Feymann, que essas noções parciais apresentam suas contradições e são levadas a buscar novas soluções ou teorias, que comprovem sua correspondência com a realidade. Outra coisa que muitos cientistas esquecem, ou ignoram, é que o desenvolvimento técnico e produtivo está na base desse processo, mesmo quando são geradas as abstrações mais geniais, como as produzidas por gregos e chineses da antiguidade. Os conhecimentos e as ciências são uma demanda da vida prática. Por sua vez, só conseguem se desenvolver se o processo produtivo lhes fornecer os meios técnicos necessários a seu avanço. Só foi possível descobrir que alguns metais, como o mercúrio e o germânio, e não-metais, como o silício, se tornam supercondutores, quando se conseguiu construir equipamentos técnicos para fabricar e conter nitrogênio líquido, e chegar a temperaturas extremamente baixas, perto do zero absoluto. A astronomia da atualidade seria totalmente outra se não contasse com os enormes telescópios de espelhos angulares e os avançados equipamentos de espectrografia, instrumentos só possíveis de serem construídos no estágio alcançado pela técnica industrial contemporânea. As operações com números só surgiram quando os homens tiveram a necessidade de contar, ainda no estágio primitivo da coleta, da caça e da pesca. As necessidades correntes, a exemplo da sucessão dos dias e da Q 82 Tomo01.pmd 82 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR quantidade de alimentos para saciar-se, exigiram a contagem e levaram à criação dos números naturais, tendo por referência os dedos das mãos. Estudos antropológicos realizados nos séculos 19 e 20, com povos que ainda não haviam superado esse estágio primitivo de desenvolvimento social, mostraram que alguns só contavam até três, e outros chegavam a mais de dez, dependendo do grau de suas necessidades práticas de alimentação ou condições de vida. Contavam seus deslocamentos pelo número de sóis e luas, mas não conseguiam relacionar as estações frias e quentes com os movimentos aparentes das estrelas e do Sol. Heródoto escreveu que Sesóstris, rei egípcio, repartira o solo agrícola entre seu povo e dera a cada um uma porção retangular de terra, com a obrigação de pagar um tributo ao reino. Se a porção fosse reduzida pela enchente do rio Nilo, o rei enviava medidores para calcular a parte diminuída e abater o tributo devido. A partir dessas observações, Heródoto concluiu que a geometria nascera daí e depois passara aos gregos. A matemática e seu ramo geométrico, assim como a escrita, a mecânica e a astronomia, talvez tenham evoluído paralelamente às necessidades impostas pela nascente agricultura. Tudo indica que esta obrigou os homens a medir as terras de cultivo e o volume dos cereais, contar o número de animais de criação e os produtos que trocavam entre si, construir aglomerações agro-urbanas, comerciar com outros grupos humanos e inventar instrumentos que facilitassem todas essas operações práticas. Esses embriões do que viria a se transformar, bem mais tarde, em ciência, tiveram um desenvolvimento ainda maior com a revolução que tirou da selvageria uma parte dos humanos e os jogou na barbárie. A antiga comunidade de homens igualmente livres, e com propriedade comunitária, que Marx chamou de comunismo primitivo, foi substituída pela barbárie escravista. Nesta, para realizarem a produção agrícola e artesanal, alguns homens se tornaram proprietários territoriais e, também, proprietários de outros homens. A propriedade privada e o escravismo foram, desse modo, uma produção histórica do desenvolvimento da humanidade. Grupos humanos atingiram o estado em que podiam substituir o nomadismo da coleta, da caça e da pesca pelo sedentarismo agrário, e a domesticação de plantas e 83 Q Tomo01.pmd 83 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 animais por seu cultivo e criação. E descobriram, também, que a agricultura e a pecuária precisavam de mais braços para gerar não apenas o necessário para a sobrevivência do grupo, mas também excedentes trocáveis. A partir de então, as antigas guerras entre os grupos sociais pelos campos de caça e alimentos, entre estes últimos incluídos os seres humanos, transformaram-se, principalmente, em conflitos pela captura de escravos e de terras para cultivo e criação. Essas novas condições sociais de vida, mais complexas do que as anteriores, também tornaram necessária a organização estatal e a criação da escrita. A organização estatal surgiu para harmonizar os novos tipos de conflitos sociais que a propriedade privada trazia em seu seio, como as guerras de captura, as disputas por terras e a repressão às fugas e revoltas de escravos. E a escrita, para manter um histórico contábil da divisão das terras, da produção dos cereais e animais, das trocas realizadas, dos escravos capturados e dos tributos cobrados, e para registrar outras atividades sociais. A civilização escravista chinesa foi provavelmente a que mais cedo ingressou na organização estatal e na escrita, com sua primeira dinastia, a Xia, datando de 4100 anos atrás. A dos gregos data de 3900 anos atrás, com o estabelecimento da civilização micênica. Já a escrita chinesa parece haver surgido antes, há 4700 anos, conforme indicam cascos de tartarugas, ossos, pedras e lascas de bambu, encontrados em escavações arqueológicas. A escrita grega também deve ter surgido antes da civilização micênica, embora seus textos mais significativos só tenham surgido há 2800 anos, com Homero e Hesíodo. Os han, que ainda hoje conformam a maioria da população chinesa, iniciaram o plantio dos solos férteis dos vales dos rios Yangtse e Amarelo por volta de 7000 anos atrás. Os helenos ou gregos possuíam comunidades agrícolas e pastoris há 5500 anos. Isso significa que esses povos consumiram cerca de 2 mil anos experimentando a nova forma agrícola de produzir seus meios de vida, antes de inventar a escrita e criar uma organização estatal. Para os trabalhos agrícolas, tanto os gregos quanto os chineses utilizaram inicialmente ferramentas feitas de pedra, madeira ou osso. ComeQ 84 Tomo01.pmd 84 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR çaram com o chucho, uma simples haste para raspar e furar o solo. Ou seja, com o mesmo tipo de instrumento usado pelos indígenas brasileiros, no século 16, em seus plantios de mandioca e milho. Posteriormente, no caso dos chineses, o chucho foi substituído por arados de madeira, pedra ou osso, primeiro puxados pelos próprios lavradores, depois por bois de tração. No caso dos gregos, em virtude do relevo fragmentado e irregular de seu território, além dos solos reduzidos para a agricultura e a pecuária, e sua proximidade do mar, eles jogaram-se ao oceano antes que os chineses. Há 4600 anos, os diferentes agrupamentos agrícolas do litoral do mar Egeu já possuíam embarcações para a pesca e para a comunicação com outras comunidades litorâneas. Da mesma forma que os gregos e chineses, as demais civilizações escravistas da antiguidade, como a egípcia, assíria, babilônica, etrusca e persa, para ficar apenas em algumas, foram compelidas a desenvolver a mecânica. Construíram rodas e moinhos de água para a irrigação dos campos de cultivo. Fizeram novas construções e arruamentos urbanos. E fabricaram carros e navios para o transporte terrestre e a navegação comercial, e para os enfrentamentos bélicos. As primeiras pirâmides egípcias datam de 4700 anos atrás. As aglomerações urbanas indianas surgiram há 4300 anos e as cretenses há 4100 anos. Os assírios desenvolveram artefatos de ferro desde 3000 anos atrás, enquanto os gregos criaram os jogos olímpicos há 2800 anos. Há 2600 anos as naus fenícias, gregas e egípcias cruzavam os mares Egeu e Mediterrâneo, para comerciar e guerrear. Há 2400 anos, conforme consta no livro Ma Jing, os chineses já definiam que a força derivava da condição do corpo humano ser capaz de mover um objeto. Força e peso, para eles, eram equivalentes. E possuíam os conceitos de momento e fulcro, através da prática do uso de roldanas, polias, braços e eixos. Três séculos depois utilizavam os conceitos de centro de gravidade e de relação entre esse centro e a estabilidade de corpos flutuantes. O Ma Jin também descreveu diferentes tipos de movimentos, incluindo a inércia dos carros puxados por cavalos, que tendiam a manter-se em movimento quando os cavalos eram freados. Com base 85 Q Tomo01.pmd 85 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 no princípio da inércia Zhang Heng (78-139) criou, há 2143 anos, um sismógrafo. Mais do que os gregos, os chineses realizaram registros detalhados de suas realizações. Os de Kao Gong Ji, há mais de 4000 anos, fazem referência à exploração de minas e ao refino do cobre e zinco, assim como à produção de peças desses metais não-ferrosos, como sinos, grandes vasos de cozinha, eixos, lâminas de arados, espadas, pontas de flechas e espelhos. Essas peças incluíam combinações, em diversas proporções, de cobre e zinco, e o emprego de foles, tanto manuais quanto hidráulicos, no processo de produção. A produção de espelhos de bronze foi uma técnica utilizada e aperfeiçoada pelos chineses desde 3000 mil anos atrás. Há 1900 anos, eles já conheciam o princípio de reflexão dos espelhos planos, chegando a produzir periscópios. Depois, com a fabricação de espelhos côncavos, a partir da produção de espelhos planos, descobriram que tais aparatos podiam produzir fogo através da reflexão da luz solar. Entre 1900 e 1600 anos atrás, tanto os chineses quanto os gregos refinavam o ferro de meteoritos e de minas de ferro, para fabricar ferramentas e equipamentos, como arados agrícolas, eixos e aros para rodas. No Tratado sobre as Montanhas, escrito nos anos 400 a.c. (2400 anos atrás), os chineses listaram 89 minérios, minerais não-metálicos, rochas e barros, produzidos em 309 locais diferentes. Um pouco mais tarde, o grego Teofrates (371-286 a.c.) catalogou 16 minerais, pedras e barros, em seu livro Sobre as Pedras. No mesmo período, o chinês Guan Zi (760645 a.c.) descreveu as formas de pesquisa para descobrir minas através dos indícios na superfície. Foi através desse processo que os chineses descobriram as propriedades magnéticas de alguns tipos de minérios, que atraíam o ferro. Com isso, inventaram vários tipos de bússolas, ou agulhas magnéticas, há 2470 anos, e abriram condições para uma orientação mais segura, tanto terrestre quanto marítima. Sítios arqueológicos dos anos 700 a 400 a.c. (2700 a 2400 anos atrás) levaram à descoberta de eixos de carretas, lâminas de arados, sapatas, panelas e vários tipos de ferramentas, feitos de ferro fundido. Em outras palavras, artefatos produzidos com minério de ferro, que teve que ser liquefeito a temperaturas entre 800 e 1000 graus centígrados, em fornos Q 86 Tomo01.pmd 86 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR a carvão, e colocado em moldes com o formato apropriado. Em sítios dos anos 100 a.c. foram encontradas facas fundidas a temperaturas de 1100 a 1300 graus centígrados, com consistência de aço. O uso separado do carvão, do enxofre e do salitre era realizado pelos chineses desde 3500 anos atrás. O carvão, como combustível de fogueiras e fornos. O enxofre, conhecido por seu odor característico, toxidade e volatilidade, era usado pelos alquimistas como uma substância miraculosa, capaz de transformar o ouro, a prata, o cobre e o ferro. Ao combinarem o enxofre com o mercúrio, eles obtinham o cinabre vermelho, ou sulfeto de mercúrio. O salitre, depois designado nitrato de potássio, altamente inflamável e reativo, era usado para reduzir a toxidade e a volatilidade do enxofre. Este, cuidadosamente misturado ao salitre, fazia com que a reação inflamável cessasse. Mais de 1500 anos depois, ao acrescentarem carvão à mistura de salitre e enxofre, os alquimistas da dinastia Tang inventaram a pólvora. Gregos e chineses também precisavam controlar os períodos das estações climáticas, o que só era possível contando o tempo e observando a posição das estrelas no firmamento, o que levou à criação da astronomia. As primeiras anotações chinesas sobre manchas solares apareceram durante a dinastia Han, há 2200 anos, descrevendo massas escuras no centro do Sol, a partir da descoberta de observações registradas 4700 anos atrás. Os chineses também fizeram observações constantes sobre os cometas, desde 613 a.c. É desse ano o primeiro registro, nos Anais da Primavera e Outono, sobre o cometa Halley. Mais tarde, o Shi Ji, de 473 a.c., informou seu reaparecimento. Os registros seguintes apontaram as rotas e as aparentes velocidades de 31 aparições do Halley, uma a cada 76 anos. Os astrônomos britânicos Andrew Crommelin (1865-1939) e Philiph Cowel (18701949) compararam seus cálculos sobre o ponto em que o cometa Halley tinha a distância mínima em relação ao Sol, ou periélio, com as anotações chinesas de 240 a.c., e encontraram dados coincidentes. Os chineses deram aos cometas a denominação de estrelas hóspedes. Este termo, porém, era mais usado para estrelas que se tornavam muito brilhantes no firmamento e, depois, escureciam gradualmente, reaparecendo alguns anos ou uma década depois, como uma estrela menor. Rela87 Q Tomo01.pmd 87 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 tos sobre esses fenômenos astronômicos foram encontrados em cascos de tartaruga datados de 3600 anos atrás, repetindo-se nas eras seguintes. Ao todo, há o relato de 90 ocorrências, entre 3500 e 300 anos atrás (1500 a.c. a 1700 d.c.). Em outras palavras, os chineses observaram e registraram, por mais de 3200 anos, o que os astrônomos da atualidade chamam de supernovas. Apesar disso, o primeiro observatório astronômico chinês, o Observador de Antares (Huozheng), só foi criado há 2300 anos. Ele tinha que anunciar as estações climáticas que, segundo a crença da época, eram definidas pelo nascimento e ocaso daquela estrela. Apesar da incumbência de prioridade total à agricultura, a criação desse observatório foi um passo importante para ajudar a transformação da astronomia em ciência. Ele proporcionou meios para pesquisar e localizar corpos celestes, e determinar os momentos específicos em que ocupavam uma posição particular no espaço. E estimulou a criação de novos instrumentos de observação e de novas instruções para o estudo do cosmos. Paralelamente, Shin Shen (350 a.c.) organizou o primeiro catálogo astronômico chinês, contendo 115 estrelas, com as coordenadas equatoriais de cada uma delas em relação às fases lunares. Um século depois, dois astrônomos gregos tentaram determinar as posições relativas das estrelas. Este trabalho foi completado por Hiparco, nos anos 100 antes de nossa era, ao organizar o primeiro catálogo astronômico grego. Gregos e chineses também desenvolveram esferas, em períodos históricos idênticos, para obter as coordenadas astronômicas, com a diferença de que as gregas eram elípticas e as chinesas equatoriais. Por volta de 2100 anos atrás, os chineses possuíam calendários de natureza solar-lunar. Eles incluíam a predição do movimento aparente do Sol, da Lua e dos cinco planetas então conhecidos. E previam eclipses solares e lunares, assim como tempestades solares. Apesar de todos esses conhecimentos, os astrônomos chineses eram ignorantes quanto ao movimento de precessão. Isto é, já sabiam que a Terra girava em torno de seu eixo imaginário, mas desconheciam que tal eixo possuía um lento movimento cônico. Portanto, não sabiam que os solstícios de inverno variavam em virtude da Q 88 Tomo01.pmd 88 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR atração do Sol e da Lua sobre a região equatorial terrestre. Não conseguiam explicar aquela variação por supor que a Terra fazia uma volta exata em torno de seu eixo. Quando descobriram a existência da precessão, levaram quase mil anos para ajustar o ponto de variação dos solstícios, por não possuírem os instrumentos matemáticos necessários a tais cálculos. Por um longo tempo, desde a criação da escrita, todos os números naturais chineses foram expressos com a ajuda de poucos símbolos, que iam até o milhar. O que lhes permitiu criar o ábaco primitivo, há uns 3300 anos atrás. Entretanto, somente quando ocorreu a transição do sistema escravista para o feudal monárquico, há mais de 2200 anos, a matemática chinesa se viu obrigada a substituir os símbolos numéricos antigos. A mudança no conjunto dos aspectos sociais modificou o padrão de medida agrária de nove quadrados para padrões irregulares de pequenos lotes das áreas dos lavradores. Também modificou o sistema de elaboração dos calendários, tendo em conta a introdução de inovações técnicas na agricultura e no artesanato. Todas essas mudanças exigiam cálculos numéricos mais precisos, para responder às necessidades da agricultura e dos problemas mecânicos e astronômicos a ela relacionados. A matemática chinesa viu-se constrangida a adotar números naturais de traços simples, para poder realizar cálculos numéricos. O manual matemático Zhou Bi Suan Jing, desse período, descreve o triângulo retângulo, ou gongu, utilizado nos cálculos astronômicos para medir altura e distância por proporção. Outro livro do mesmo período, Jiu Zhang Sunshu, apresenta 146 problemas e soluções relacionados com nove grupos matemáticos, desde regras das 4 operações até equações algébricas. Desse modo, paradoxalmente, o cálculo prático chinês, com símbolos numéricos mais simples (arranjos diversos com base no traço reto), teve um desenvolvimento maior do que a matemática grega, onde a numeração não avançou tanto em virtude da ênfase na geometria. Os gregos mantiveram por um tempo demasiado longo seus números escritos com as letras do alfabeto, impraticáveis para qualquer tipo de cálculo numérico. De qualquer modo, em função das necessidades da produção e da distribuição social, os embriões de ciência que se desenvolveram durante toda a antiguidade, principalmente na Grécia e China, ficaram restritos à 89 Q Tomo01.pmd 89 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 astronomia, mecânica e matemática. É verdade que os povos dessas regiões demonstraram enorme curiosidade por outros aspectos da natureza. E que puderam atender a essa curiosidade, estudando e dando solução prática a diversos problemas mecânicos, astronômicos e matemáticos, e investigando outros aspectos da natureza, por causa da emergência das relações econômicas, sociais e políticas do escravismo. Essas relações deram surgimento a uma classe de senhores de escravos, de terras e de outros bens. E lhes apresentou as condições de usufruírem o ócio. É evidente que uma parte desses senhores pode ter utilizado seu ócio de forma improdutiva e ou degradante, do mesmo modo que, mais de 2500 mil anos depois, os colonizadores escravistas portugueses o usufruíram no Brasil. Mas outra parte, a que realmente contou para a história futura, foi criativa e empregou seu ócio criando, na Grécia e na China, de forma autônoma uma da outra, a filosofia clássica e os rudimentos das ciências, da lógica e da dialética. Q 90 Tomo01.pmd 90 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Revendo a antiguidade A filosofia clássica e os assuntos que ela tratou, que constituíram os rudimentos das ciências, da lógica e da dialética, surgiram entre os séculos 6 e 4 a.c., na Grécia e na China. Esses rudimentos foram condicionados pelas exigências e condições materiais e espirituais de sua época. Os gregos, imersos no turbilhão de consolidação e expansão do escravismo. Os chineses envolvidos nos conflitos da transição do escravismo para o feudalismo. Rever, mesmo sumariamente, o que produziram os gregos e chineses geniais da antiguidade, é um passo indispensável para ter uma visão mais ampla das potencialidades do pensamento humano no processo de conhecimento da natureza e do próprio homem. Em especial, para compreender a capacidade de abstração do pensamento, com suas contradições e seus limites. Na antiga Grécia, Tales de Mileto, há mais de 2630 anos, era um comerciante que, como tal, viajava pelos mares Egeu e Mediterrâneo. Indo ao Egito, verificou que o povo dessa região utilizava vários mecanismos para a construção de canais e pirâmides, assim como para outras necessidades práticas. Buscou, então, explicações para esses fatos. E parece ter sido o primeiro a descobrir que os números podiam ser empregados não só para contar quantidades. Também eram úteis para calcular volumes e valores de mercadorias e impostos, assim como distâncias e velocidades. Dos métodos empíricos empregados pelos egípcios extraiu alguns princípios ou idéias abstratas, aptas a serem aplicadas em outras atividades práticas. Com isso, estabeleceu as primeiras noções matemáticas, que lhe permitiram calcular o ano em 365 dias e predizer as datas de eclipses solares. Também deduziu técnicas geométricas, umas das outras, obtendo a solução de um problema a partir da solução de outro. 91 Q Tomo01.pmd 91 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Talvez tenha sido, portanto, um dos primeiros a inventar um sistema de raciocínio lógico. E estender a noção da igualdade numérica para objetos espaciais, ao afirmar a congruência, igualdade ou coincidência das medidas de figuras espaciais que derivam umas das outras por transformação circular. Tales afirmava que, pela observação e raciocínio, deveríamos ser capazes de explicar tudo o que acontecia na natureza, chegando à conclusão revolucionária de que a natureza seguia leis regulares. Lidou com o conceito de espaço físico e deduziu que toda a matéria do mundo, apesar de sua imensa variedade, deveria ser feita intrinsecamente da mesma coisa. Na ausência de qualquer comprovação prática, fez um extraordinário salto de intuição. Vivendo numa cidade portuária, e conhecendo, em suas viagens ao Egito, a imensa massa de água do mar Mediterrâneo, intuiu que a água era a matéria fundamental. A água estava relacionada à umidade e era possível comprovar que ela se apresentava tanto em estado líquido, quanto sólido e gasoso. Em estado líquido, estava no mar, e nos rios e fontes em que os homens e animais iam buscá-la para beber. Estava, ainda, em seu suor, na sua urina e em seu sêmen. Em estado sólido estava nas plantas, nos alimentos, na neve. Em estado gasoso estava nas nuvens, de onde caia. Esses pensamentos deram origem à filosofia do materialismo naturalista. Embora saibamos hoje que a visão da água como elemento primordial era ingênua, só o fato de haverem estabelecido a relação entre ela e a vida foi um avanço importante para o desenvolvimento do conhecimento. Se considerarmos o hidrogênio como um dos elementos que constituem a base de uma série enorme de compostos químicos que povoam a natureza, inclusive a água, a visão deles não era tão despropositada. Anaximandro de Mileto (611-546 a.c.), embora discípulo de Tales, discordava do mestre. Sustentava que o início da Terra e seu elemento essencial eram infinitos, sem necessidade de serem determinados como ar, água ou outra coisa qualquer. A partir daí, utilizando-se apenas do pensamento abstrato, para analisar as coisas e fenômenos que observava, estabeleceu os conceitos de matéria, infinito, movimento incessante e qualidades opostas. E chegou à teoria da evolução por um salto de intuiQ 92 Tomo01.pmd 92 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR ção semelhante, sugerindo que o homem tinha se originado de um peixe, que passara da água para a Terra. Pitágoras de Samos (580-500 a.c.), por sua vez, defendia que o número era o princípio fundamental, a essência de todas as coisas. O universo seria organizado de acordo com um sistema harmônico de números e de suas relações. Estaria, portanto, sujeito a leis definidas, da mesma maneira que os números. Além disso, Pitágoras colocou o fogo no meio desse universo e considerou a Terra um astro que girava, segundo um círculo, em torno daquele corpo incandescente central. Portanto, além de criar a geometria, descobrir as relações no triângulo retângulo e incluir a natureza nos números, introduziu o conceito de esfericidade da Terra e do Céu, e colocou o Sol no centro do sistema planetário do qual a Terra faz parte. Na linha geral desse pensamento, Pitágoras considerava a alma apenas uma centelha do éter, imortal e migratória. O corpo seria algo puramente acidental. Heráclito de Efeso (550-480 a.c.) também apresentava o fogo como a essência primitiva da matéria de que era feito o mundo. E considerava que tudo estava em perpétuo processo de movimento e mudança, reforçando as concepções embrionárias da dialética, já presentes em seus antecessores. Para ele, a realidade fundamental do mundo não consistiria em ser, mas sim em devir, variar ou mudar. Reconheceu o papel do aprendizado, ou da prática, através dos sentidos, mas não a tomava como critério da verdade. Ao mesmo tempo, defendia a tese de que a realidade é sempre uma unidade de opostos, instável, em permanente mutação. Anaxágoras (499-428 a.c.) supôs que os corpos eram formados por infinitas partículas divisíveis, deduzindo daí que deveriam existir muitos mundos habitados. Já Zenão de Eléia (490-? ), adepto do pensamento de Parmênides (570-540 a.c.), tomou o pensamento como o próprio ser, a verdadeira realidade existente. Fora do pensamento existiria apenas a aparência instável. E, ao exigir prova das concepções materialistas do movimento do mundo, segundo as quais tudo que existia seria originada da água, ar ou fogo, Zenão assestou um golpe fatal em tais concepções. Reduziu-as a noções absurdas, por serem incapazes de demonstrar, com os instrumentos técnicos de sua época, qualquer de suas abstrações. 93 Q Tomo01.pmd 93 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Aos ataques de que estabelecera a imobilidade como uma das características do existente, a escola de Parmênides e Zenão respondia que não se tratava de saber se havia ou não movimento, mas de saber se ele era ou não compreensível. Isto é, o movimento não seria compatível com a explicação racional dada ao universo. E, para exemplo, tomava a afirmação pitagórica de que o segmento de reta possuía um número infinito de mônadas, ou unidades finitas. O que se passava entre uma mônada e a próxima, quando a ponta de uma flecha em movimento percorresse um segmento de reta e ocupasse, a cada instante, um lugar numa mônada? Zenão respondia, convictamente: nada! Não havendo nada entre duas mônadas consecutivas, não se poderia dizer nada sobre um movimento que se realizava onde nada existia. Daí concluía que o movimento da flecha seria uma sucessão de imobilidades. Esse paradoxo de Zenão, como teremos oportunidade de rever em vários outros momentos, ainda hoje influencia o pensamento humano. Quase cem anos depois, Protágoras (480-410 a.c.) e os sofistas passaram a considerar os homens como a medida de todas as coisas. O saber seria algo impossível de alcançar porque existiriam apenas opiniões e sugestões humanas. A partir dessa visão, difundiram o ceticismo, segundo o qual a virtude seria apenas a destreza do forte. Demócrito (470-400 a.c.), por sua vez, aceitou que os corpos resultavam da combinação de partículas. Porém, em contraposição a Anaxágoras, chamou-as de átomos, negando sua divisibilidade. Ele também suspeitava que a Via Láctea remetia para a Terra a luz combinada de inúmeras estrelas. Sócrates (469-399 a.c.) representou um ponto de inflexão no pensamento clássico grego. Ele não se preocupava mais com o universo, seus movimentos e contradições. Do mesmo modo que os sofistas, passou a tomar o homem como centro de suas preocupações filosóficas, contrapondo a razão às sensações. Através do método indutivo, pretendeu chegar a um conceito que levasse os homens a ater-se à virtude, isto é, ao conhecimento do bem. A voz interior constituiria o único guia moral a ser perseguido. Coincidentemente, esse é um período histórico crítico para o escravismo na Grécia e, em especial, para Atenas, que exercia a hegemoQ 94 Tomo01.pmd 94 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR nia na península. A luta de classes entre os pobres livres e a aristocracia, pela divisão das riquezas que o escravismo propiciava, levou à instauração de um regime democrático na Ática, em 458 a.c. Os poderes da nobreza foram reduzidos e as classes populares livres conquistaram direitos de cidadania. Mas ficaram excluídos desses direitos os escravos e os estrangeiros, que formavam a massa produtora da população. Foi nesse contexto que Platão (427-347 a.c.), talvez mais do que Sócrates, do qual assimilou o sistema conceitual, construiu a doutrina das ideias, contrapondo-se ao mundo dos fenômenos. As ideias teriam uma existência prévia, e se imporiam ao mundo material. Através das ideias seria possível erigir um Estado ideal com base nas virtudes cardeais, regidas pela justiça. Desse modo, após o curto ressurgimento da democracia do anterior sistema gentílico, Platão talvez tenha sido a melhor expressão da volta dos aristocratas ao poder. Depois dele, profundamente envolvido na crise do declínio grego, Aristóteles conseguiu abarcar todo o saber da época clássica, discutindo todos os problemas apresentados desde Tales. Embora rejeitasse o radicalismo idealista platônico, ele consolidou as concepções de Sócrates e Platão ao realizar a crítica dos filósofos clássicos que haviam apresentado a essência primitiva sob a forma de matéria (água, ar, fogo). Atacou-os por haverem excluído a terra por sua múltipla composição. E os acusou de terem deixado sem explicação a origem do movimento e não dizerem como, sem mudança, poderia haver aparecimento e desaparecimento. Em seu livro Sobre o Firmamento, apenas observando a sombra arredondada que a Terra projetava na Lua, por ocasião de suas eclipses, Aristóteles foi capaz de evidenciar que nosso planeta era uma esfera e não um corpo achatado. Foi uma forma de provar a redondeza da Terra, diferente de Tales, que antes chegara à mesma conclusão ao notar o desaparecimento progressivo dos mastros dos navios sumindo no horizonte. Aristóteles dizia que toda a matéria do universo se compunha dos quatro elementos básicos, isto é, terra, ar, fogo e água. Esses elementos atuariam através de duas forças. A primeira seria a gravidade, ou a tendência da terra e da água para afundar. A segunda seria a volatilidade, ou tendência do ar e do fogo para subir. Ele também acreditava, ao contrário 95 Q Tomo01.pmd 95 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de Demócrito, que a matéria fosse contínua, isto é, pudesse ser dividida de modo infinito. Por outro lado, apesar de ter certa razão em suas críticas (para ele não bastava dizer que tudo era matéria e movimento, sendo preciso provar a origem e a natureza de ambos), Aristóteles pensava que a origem do movimento estaria em alguma força ou impulso externo. A inércia seria o estado geral. A matéria e suas formas nada mais seriam do que uma criação do pensamento. Com base nessa suposição, elaborou um sistema lógico formal, ou metafísica, que serviu de base para toda a construção filosófica que predominou até o século 19, e ainda hoje é referência para uma série nada desprezível de cientistas. Aristóteles também enfrentou à sua maneira a agonia do lento declínio do escravismo grego como sistema dominante no Mediterrâneo, antes de ser suplantado pelo escravismo romano. Ele chamava de mecânicas todas as artes que alteravam as disposições naturais do corpo e todos os trabalhos que considerava mercenários, ou feitos em troca de dinheiro. Segundo ele, não seria bom que o homem de bem, nem o homem de Estado, nem o bom cidadão, aprendessem essas espécies de trabalho, que só conviriam aos que estivessem destinados a obedecer. O único tipo de trabalho que ele admitia era aquele que servisse, apenas algumas vezes, para sua própria utilidade. De outro modo, ponderava, uns deixariam de ser senhores e os outros perderiam a condição de escravos. É impressionante como o escravismo, em qualquer época, se valeu das mesmas noções. No escravismo colonial brasileiro, cerca de dois mil anos depois de Aristóteles, os donos de escravos eram também tidos como homens de bem, enquanto os funcionários da monarquia eram homens de Estado. De qualquer modo, Aristóteles foi o ápice de quatro séculos de intensa e diversificada produção filosófica ocidental, que teve nos gregos os principais protagonistas. É verdade que eles, muitas vezes, se beneficiaram das observações e dos conhecimentos empíricos e teóricos elaborados por egípcios, persas, babilônios e outros povos. Mas é fora de dúvida que seu papel foi fundamental na sistematização desses conhecimentos. Já a filosofia clássica chinesa surgiu no momento e, em parte, como decorrência do declínio do escravismo e de transição para o feudalismo. Q 96 Tomo01.pmd 96 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR A fragmentada sociedade chinesa ingressou num período de crises e conflitos constantes, com a desagregação da dinastia Zhou do Oeste e a formação dos chamados Reinos Guerreiros, durante o Período de Primavera e Outono. Nessas condições, a eclosão da filosofia clássica chinesa, em que cem escolas floresceram em disputa, teve que dar maior ênfase ao tratamento das relações entre os homens. As relações entre estes e a natureza, e entre os diferentes aspectos da natureza, também fizeram parte de sua pauta, mas de forma subordinada. Até então, a filosofia chinesa tinha como referência o princípio, surgido há 3100 anos atrás, segundo o qual o universo (Céu) mantinha uma estreita relação com os homens. Esse Céu era a expressão de um deus supremo e consciente, que determinava os eventos humanos. Ele se manifestava através de um Mandato Celestial eterno e imutável. Tudo dependia apenas de seu estado. As coisas da natureza e dos homens também seriam imutáveis. Essa visão foi predominante pelo menos até 700 a.c., quando emergiram os problemas da transição do escravismo para o feudalismo, tendo como foco principal os conflitos entre os Reinos Guerreiros. Essa situação de crise, em todos os aspectos da sociedade existente, alastrou o ceticismo em relação ao Mandato Celestial. Além dos conflitos, surgiu uma intensa disputa de idéias, que cindiu a escola filosófica que tomava o Mandato Celestial como dominante. Dentro dela surgiu um ramo, baseado na relação Yin (homem, positivo, bom) e Yang (mulher, negativo, mau), que defendia a ideia de que as boas ou as más fortunas seriam determinadas pelo próprio homem. Como decorrência, os caminhos ou papéis do Celeste e do Humano seriam diferentes, não se devendo esperar a interferência de um nos deveres do outro. O Livro das Mutações (I Ching) estipulava que os opostos, no interior de cada coisa, seriam a fonte dos movimentos e mudanças que ocorriam no Céu e entre os homens. Para mostrar como as mudanças naturais e sociais poderiam realizar-se, o I Ching usava arranjos de 8 trigramas (3 sólidos ou linhas quebradas), que formavam padrões representando o Céu, Terra, Trovão, Vento, Água, Fogo, Montanhas e Lagos. As categorias em oposição, como a vida e a morte, significariam que todo o mundo estaria repleto de contradições, que intercambiavam e 97 Q Tomo01.pmd 97 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 interagiam entre si. Nessas condições, nada seria imutável ou invariável. No entanto, apesar desse sentido dialético, o I Ching aceitava a suposição de que a interação dos opostos, como fonte do movimento e das mutações, seria um desígnio divino. Ao contrário da dialética materialista dos gregos, a dialética chinesa nasceu idealista. Lao Zi, ou Lao Tsé (580-500 a.c.), fundador do taoísmo, considerava que a condição humana era o elo principal das três condições que possibilitavam a interferência humana nas relações com o Céu: a climática, a geográfica e a humana. Ele já havia sugerido a existência de uma lei natural, sumário teórico de todos os fenômenos naturais, a que chamou Tao, o Caminho, que unificava os seres naturais, Céu, Terra e Homem, em seu interior. Seu conceito de movimento e mudanças o levou a considerar que nenhum regente de um estado podia estar para sempre em sua posição e isento de mudanças. Ou a desconhecer que colinas se transformavam em vales e vales em colinas. Ou que um furacão nunca durava uma manhã toda, nem uma tempestade um dia todo. A fonte dessas mudanças estaria na interação dos opostos como um evento natural. Se um dos opostos estivesse ausente, a coisa tenderia a desaparecer. Por outro lado, ele considerava que a mudança ou a elevação dos opostos era incondicional. Confúcio (551-479 a.c.) considerava a natureza do Céu como algo sem desejo, como a mudança das 4 estações e o crescimento sem fim de cada coisa. A sobrevivência do homem dependeria exclusivamente de seu trabalho duro. Desse modo, Confúcio naturalizou o Céu. Além disso, as estações estariam sempre em rodízio e tudo em crescimento e declínio, fazendo com que o mundo se movesse como um rio. Portanto, nada no mundo seria imutável. Sun Wu, ou Sun Zi (535-? a.c.) especificou as condições que permitiam a interferência humana. Por condições climáticas ele considerava o Yin Yang, tempo quente-tempo frio, verão-inverno e primavera-outono. Por condições geográficas ele tomava as distâncias curtas ou longas, a cobertura vegetal das áreas ou a ausência dela, e as circunstâncias favoráveis e adversas. As condições humanas, por seu turno, significavam a existência ou não do suporte populacional e de sua força. O fraco origiQ 98 Tomo01.pmd 98 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR naria o forte, o que pressupunha o intercâmbio entre opostos. Portanto, haveria pré-condições para a mudança, sem as quais o fraco permaneceria fraco e não se transformaria em forte. Mo Zi, ou Mencius (479-381 a.c.) advogava que aquelas três condições fossem integradas num todo. Cada uma delas seria indispensável às outras. Além disso, em relação aos fenômenos naturais, ele foi um dos primeiros a notar que as imagens projetadas através de um orifício formavam-se inversamente, o que ele chamou de sombra. Por meio de diversas experiências, ele comprovou que uma sombra inversa era formada na parede oposta a uma pessoa no lado de fora do orifício. Esta parece ter sido a primeira explanação da projeção linear da luz. A sombra se formava porque a luz, viajando em linha reta, era bloqueada pelo corpo. Xun Kuang (313-238 a.c.) dizia que o natural que possuía o homem para saber chamava-se faculdade cognitiva. Esta faculdade deveria estar em conformidade com a realidade e, quanto isso ocorria, passava a chamar-se inteligência. O natural que possuía o homem para fazer algo chamava-se capacidade, que só era real quando estava em consonância com a realidade. Portanto, os homens eram desiguais em seu talento, mas a todos era comum o conhecimento das coisas mediante o aprendizado. E acrescentava que só o aprendizado tornava possível o conhecimento. Ele também dizia que ouvidos, vista, língua, olfato e pele tinham, cada um, sua própria função para perceber e reagir ante os estímulos do mundo exterior. Não seriam mutuamente substituíveis, mas eram órgãos dos sentidos que o homem tinha como dotes naturais. O coração, situado no centro do peito, controlaria os cinco sentidos, sendo o mando supremo do corpo humano, com sua capacidade de comprovar as informações recebidas do mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Para ele, a água e o fogo possuíam dinamismo, mas não vida. As aves e as bestas possuíam percepção, mas não juízo. Em troca, o homem possuía dinamismo, vida, percepção e juízo. Seria, portanto, o senhor máximo do mundo. Nas relações entre os sentidos, o pensamento e as atividades práticas, hierarquizava-as, dizendo que era melhor ouvir do que não ouvir, melhor que ouvir seria ver, melhor que ver seria saber, melhor que saber seria fazer, e o fazer seria o ponto final do estudo. 99 Q Tomo01.pmd 99 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Ele supunha que o homem excelso não o era porque havia nascido diferente dos demais, mas porque sabia utilizar os meios materiais. Sem uma profunda compreensão do sentido essencial de uma coisa seria difícil guardá-la na memória. Nesse sentido, seria preciso esquadrinhar a natureza das coisas para chegar à sabedoria. Mas, saber muito não significava ter grande capacidade. O homem só poderia lograr êxitos relevantes desenvolvendo-se simultaneamente nos três terrenos: capacidade, saber e discernimento. A seleção que fazia o coração entre os afetos chamar-se-ia reflexão. Embora houvesse uma certa concordância entre os filósofos clássicos chineses sobre a existência do movimento e das mudanças, suas opiniões diferiam quanto à relação entre movimento e repouso. Em 220 a.c. surgiu uma corrente filosófica para a qual as coisas-em-si estavam sempre em repouso. Este seria absoluto. O movimento surgiria dele e todas as coisas em movimento retornariam ao estágio estático da coisa-em-si. Os taoistas de então, em oposição às opiniões anteriores do próprio Lao Zi, adotaram uma posição similar. Se Aristóteles tivesse podido se corresponder com essa escola metafísica, certamente teria concordado com ela. Os budistas, que haviam se constituído então como uma escola filosófica chinesa, ao contrário, negaram a distinção entre movimento e repouso. Relacionavam todas as coisas e fenômenos do mundo a mudanças constantes e a um ciclo infinito de vida e morte. Concordaram com a opinião de que a interação dos opostos, um sobre o outro, produzindo mudanças, residiria em sua própria natureza ou propriedade. As mudanças seriam o resultado lógico da interação e fricção das duas forças opostas, Yin e Yang, duro e mole, movimento e repouso, vida e morte, quente e frio. Sua dialética era evidente. Por outro lado, se olharmos em retrospectiva o que os gregos e chineses elaboraram em termos de conhecimentos, salta à vista quão pouco eles conheciam sobre seu próprio organismo. Desconheciam que era o cérebro, não o coração, o centro de processamento dos sentidos. Desconheciam os diversos sistemas internos do organismo humano, como o sanguíneo e o nervoso. E tinham noções muito rudimentares sobre o sistema digestivo. Isto, embora os chineses tenham escrito os primeiros liQ 100 Tomo01.pmd 100 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR vros de classificação de doenças por volta de 2700 anos atrás, criado a acupuntura bem antes disso, e escrito o primeiro tratado sobre farmacologia há 1900 anos. De qualquer modo, deve-se reconhecer que, entre gregos e chineses, sem qualquer conhecimento uns dos outros, ocorreu uma explosão de pensamentos que ainda hoje nos causam perplexidade. Eles foram as crianças da humanidade atual, com uma curiosidade aguda sobre a natureza de seu entorno, incluindo o universo estelar. Muitos deles se deram conta da diversidade infinita do que existia na natureza e no universo. Começaram com uma noção ingênua sobre o que chamavam de elementos fundamentais, discutindo se eram três (água, fogo e ar), quatro (água, terra, fogo e ar), cinco (água, terra, fogo, ar e metais) ou oito, como no I Ching. Mas, o fato de que tenham deduzido que todos os corpos da natureza, inclusive os seres humanos, eram compostos por elementos fundamentais, foi essencial para o desenvolvimento do conhecimento científico. E, afinal, foram os gregos antigos que sugeriram que esse elemento chamava-se átomo. O monismo, como tem sido chamada a teoria do elemento primordial criada por Tales, às vezes parece superada e às vezes ressurge no correr dos tempos. Não esqueçamos que Anaximandro, discípulo de Tales, foi contra o monismo deste. Da mesma forma que seu mestre, ele achava que o mundo era constituído de uma matéria caótica e infinita, pré-existente. Porém, diferentemente dele, dizia que tal matéria possuía qualidades que se opunham mutuamente, imprimindo-lhe um movimento incessante, e também infinito. Entre tais qualidades opostas ele incluiu calor e frio, e umidade e secura. Se a água fosse o elemento primordial, não poderia haver calor, nem fogo. Haveria apenas frio e umidade. Portanto, o fogo, o oposto da água, também deveria ser considerado um elemento primordial. Assim, muito antes de Weber sugerir a teoria da multiplicidade das conexões causais, Anaximandro já as havia intuído, com a vantagem de também haver proposto a contradição como algo inerente à matéria. A mesma contradição que constituiu o ponto de partida dos filósofos chineses, apenas abordada por estes num contexto histórico de condições e problemas empíricos diferentes. Apesar disso, não deixa de ser impressionante que tenham chegado às mesmas conclusões lógicas. 101 Q Tomo01.pmd 101 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Coloquemo-nos nos anos 600 a 300 antes de nossa era. Tentemos reunir os conhecimentos existentes, e também os instrumentos disponíveis na ocasião, para pesquisar o que quer que fosse. Só conseguiremos nos valer do pensamento abstrato. É verdade que essa é uma capacidade impressionante de nossa mente em fazer operações mentais de entrelaçamento, com base apenas no que vê, ouve, tateia, cheira, lambe e experimenta. Mas, convenhamos, em tais condições, supor a existência de dois elementos primordiais em oposição mútua já seria algo surpreendente. Além disso, o que pensar se acrescentarmos a essa suposição a idéia de que deveriam existir outros mundos, como divisões de um universo infinito? Se intuirmos que esses mundos teriam se condensado pela ação mútua do fogo e da água, estando a Terra solta no espaço, equilibrada pela atração e repulsão em relação a outros mundos? E sugerirmos que a vida surgira do lodo quente e úmido, esquentado pelo Sol, primeiro na forma de peixes, e depois em outras formas, inclusive os homens, que se desenvolveram a partir daquela primeira forma? Temos que reconhecer que foi, simplesmente, genial. Por outro lado, algumas obras atuais, referentes aos gregos, sugerem que eles, embora tão materialistas em sua visão sobre do que era feito o mundo, acreditavam em deuses. E não se pode negar que Tales e outros autores gregos da antiguidade afirmavam que tudo era cheio de deuses. Mas este é um caso típico de uma leitura histórica feita fora de seu tempo e lugar. Os gregos de então haviam naturalizado e humanizado seus deuses, do mesmo modo que Confúcio naturalizara o Céu. Haviam rompido com o animismo e o fenomenalismo predominantes. Seus deuses, como Zeus, Juno, Atena e outros, possuíam superpoderes, mas qualidades próprias dos homens, como o amor e o ódio, a bondade e a maldade, além da forma humana. Com as exceções vistas acima, os gregos não distinguiam a mente do corpo, nem as qualidades ou propriedades da matéria fora dela, comparando-as a deuses. Assim, quando Tales se referia que tudo era cheio de deuses, ele estava apenas divinizando a matéria. Essa ingenuidade foi, ao mesmo tempo, genial, se a olharmos do ponto de vista de sua época histórica, e infantil, se a olharmos a partir de nossa época. Esses filósofos tinham clara a Q 102 Tomo01.pmd 102 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR existência da matéria e do movimento, e de sua associação. Mas sua suposição, de tudo sendo matéria e movimento, era uma abstração não demonstrável naquele momento histórico. O paradoxo de Zenão não é diferente da conclusão a que chegaram Aristóteles e os metafísicos chineses, em 220 a.c. Estes buscaram a origem do movimento em alguma força ou impulso externo. Com isso, estabeleceram a base de todas as teorias de um mundo estático, teorias que floresceram principalmente durante as Idades Médias da humanidade, tanto a européia quanto a chinesa. E forneceram os elementos para a suposição de que as leis que governam o universo são originadas no pensamento, na Providência Divina ou no Mandato Celestial. A suposição das metafísicas aristotélica e chinesa, de que as leis que governam o universo têm origem no pensamento, fincou raízes entre os homens. Elas são tão profundas que, mesmo cientistas que a consideram errada, muitas vezes afirmam, por exemplo, que as leis de Newton determinam o movimento orbital dos planetas do sistema solar. Ou que a lei da relatividade faz com que a luz sofra uma distorção, ao encontrar um corpo. Não se dão conta que invertem o fato de que as leis da relatividade e as leis de Newton só puderam ser estabelecidas tendo por base os movimentos reais da luz e das órbitas planetárias. O conhecimento da realidade é que permite aos homens deduzirem as leis com que tal realidade evolui e muda, ou se transforma. E uma das formas historicamente comprovadas de descobrir como age a realidade consiste justamente em experimentar, praticar, tentar e errar. Na história antiga, é possível descobrir o uso de muitas fórmulas eficientes, truques de cálculos e de engenharia, que permitiram aos homens realizarem feitos sem muita compreensão do que estavam fazendo. Quase todos os filósofos da antiguidade se preocuparam com coisas práticas, como comércio, artesanato, navegação marítima, guerras e, conseqüentemente, com astronomia, cálculos de medidas geométricas, pesos e volumes, confecção de mapas, medição das horas, dos dias e do ano. Mas praticamente todos eles tiveram a audácia de especularem sobre do que é feito o mundo. Muitos deles chegaram à conclusão de que, qualquer que fosse essa constituição, ela estava em constante movimento e mudança. Ou seja, a 103 Q Tomo01.pmd 103 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 idéia de movimento e mudança era algo fortemente enraizado em seu conhecimento. Neles se encontravam as concepções ingênuas materialistas e o germe da noção dialética de divisão e associação. Eles intuíam que nosso mundo havia surgido do caos, mas não tinham instrumentos através dos quais pudessem fazer observações e análises, tanto astronômicas quanto terrestres, para provar que suas teorias tinham por base a realidade. Também intuíram, principalmente os chineses, pela condição histórica em que realizaram suas observações, que as sociedades também estavam em movimento e eram mutáveis. De qualquer modo, basta fazer uma síntese superficial do que eles intuíram para encontrar os conceitos de matéria e movimento interconectados, elementos primordiais, átomos, estados da matéria, infinito, caos, qualidades mutuamente opostas, multiplicidade de mundos, atração e repulsão, vida surgindo da matéria inanimada, e morte como componente intrínseco da própria vida. São todos conceitos muito modernos, até hoje presentes nos problemas científicos. E são os embriões do desenvolvimento futuro do conhecimento científico, embora, pelo menos no caso dos gregos, tenham ficado esquecidos por mais de mil anos. Q 104 Tomo01.pmd 104 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Entre a luz e a escuridão A genial filosofia grega começou a fenecer entre os anos 400 e 100 a.c., quando a Grécia mergulhou na intensa turbulência política e militar de ascensão de Atenas como potência imperial. As preocupações com a natureza e o comércio, que marcaram a vida dos filósofos naturais, foram substituídas pelas preocupações políticas e militares. Elas colocaram o homem no centro do mundo, e a razão de Estado como nova hierarquia de valores. Essas mudanças no clima social grego, causadas pelas disputas entre Atenas e as demais cidades-Estado da península, e entre gregos e persas, foram mortais para o desenvolvimento do pensamento clássico. As questões, colocadas pela crítica de Zenão, ficaram sem solução. Concluiu-se, como disse Bento Caraça, pela incapacidade de resolver o problema da incomensurabilidade, ou das grandezas que não podiam ser medidas. O conceito quantitativo de infinito foi excluído, com horror. As concepções dinâmicas foram negadas, e criou-se um verdadeiro pânico diante do movimento. Predominaram, na ciência de então, as noções de finito, imobilidade e imutabilidade. Tudo passou a ser visto como estático. A noção de variável, tão comum entre os gregos anteriores, e indispensável para o estudo das leis quantitativas, desapareceu do pensamento de então. Com isso, os gregos foram incapazes de criar uma representação simbólica que, sem coincidir com nenhum dos números reais do intervalo de um conjunto, fosse suscetível de representar a todos. Até Descartes introduzir a variável, mais de dois mil anos depois, a matemática teve que se contentar com a álgebra, criada pelos árabes a partir da matemática indiana. Hoje, qualquer estudante de curso médio sabe que uma variável pode ser representada por (x) ou (y). A variável, portanto, é e não é, ao mesmo tempo, cada um dos elementos do conjun105 Q Tomo01.pmd 105 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 to. Ao possibilitar as operações de passagem do termo de um membro para outro, com troca de sinais, a variável demonstrou que certas grandezas freqüentes da vida corrente são suscetíveis de serem trabalhadas em sentidos opostos, como positivo e negativo, frente e atrás, o que lhe dá um caráter contraditório. Essa operação, eminentemente dialética, que muitos matemáticos não conseguem enxergar na realidade natural, conduziu muitos anos depois à criação de um novo campo numérico, o dos números relativos. Mas a aceitação desses números, assim como dos números irracionais e das raízes negativas, só foi ocorrer após o século 17. Além de haverem sustado o avanço da filosofia natural e dos embriões das ciências, as mudanças políticas na Grécia antiga também levaram as cidades-Estado à decadência, promoveram a expansão e crise do império alexandrino, e deixaram os gregos despreparados para enfrentar a expansão do império escravista romano. À medida que mudaram as condições sociais de sua existência, a filosofia clássica grega perdeu o pé e ingressou por linhas de pensamento que correspondiam às novas condições de vida de sua sociedade. Foram elas que levaram Platão a expor a divisão do trabalho como base natural da cidade. Ao contrário do senso comum, ele mostrou que o mercado não criara a divisão do trabalho, mas esta é que criara aquele. O desdobramento das unidades sociais anteriores e a nova divisão do trabalho daí resultante é que criaram o mercado, dando nova expressão à circulação de mercadorias e da moeda. Também foram essas novas condições que conduziram Aristóteles a descobrir que a circulação da moeda possuía duas formas diferentes. Uma, em que ela aparecia como simples instrumento de troca. Outra, em que agia como capital monetário. Assim, Aristóteles foi capaz de analisar a moeda em seu papel de medida de valor. Mas a persistência do escravismo não lhe permitiu chegar à descoberta do valor como expressão do trabalho humano. Afinal, para ele, o trabalho era algo próprio apenas das bestas falantes. Apesar desse evidente declínio do pensamento clássico grego, a época de Aristóteles ainda produziu figuras do porte de Euclides (330-260 Q 106 Tomo01.pmd 106 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR a.c.), Epicuro de Samos (342-271 a.c.), Zenão de Cítio (336-263 a.c.), Aristarco de Samos (320-250 a.c.), Eratóstenes de Cirene (280-200 a.c.), Arquimedes de Siracusa (287-212 a.c.), Aristófanes de Bizâncio (257180 a.c.), Hiparco de Nicéia (190-120 a.c.), e vários outros que se beneficiaram da existência da Biblioteca de Alexandria, no Egito. Euclídes, em especial, construiu uma influência que varou os séculos. Alguns pensadores sugerem que a obra dele rivaliza, em impacto, com a Bíblia. Suas ideias teriam sido tão radicais quanto as de Marx e Engels. Com seu livro Os elementos, ele teria aberto uma janela através da qual a natureza de nosso universo poderia ser revelada. Sua geometria teria abalado as crenças dos teólogos, destruído as preciosas visões de mundo dos filósofos e nos forçado a reexaminar e imaginar de novo nosso lugar no Cosmos. Euclides teria sido o arquiteto do primeiro relato abrangente sobre a natureza do espaço bidimensional. Teria feito isso através do raciocínio puro, sem nenhuma referência ao mundo físico. Seu método lógico teria sido inovador, tornando explícitos os termos e facultando definições precisas. Garantiria, com isso, a compreensão mútua de todas as palavras e símbolos. Com a explicitação dos conceitos, os axiomas ou postulados poderiam ser apresentados de forma clara, impedindo a utilização de entendimentos ou pressuposições não declarados. As conseqüências lógicas do sistema seriam deduzidas do emprego das regras e da lógica aceitas, aplicadas a axiomas e a teoremas previamente demonstrados. O que nos leva a supor uma grande identidade entre a lógica filosófica de Aristóteles e a lógica matemática de Euclides. No entanto, apesar dos argumentos favoráveis, se olharmos o método lógico de Euclides a partir das exigências das ciências modernas, ele é aplicável apenas a alguns ramos restritos da matemática e do mundo real, do mesmo modo que a metafísica aristotélica. Definições precisas, conceitos explícitos e axiomas têm aplicação limitada, porque o universo está em constante mutação, ou num processo dinâmico de momentos históricos diferentes. A história das matemáticas está cheia de definições precisas (a exemplo dos axiomas de Euclides), que se tornaram reduções absurdas, como 107 Q Tomo01.pmd 107 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 a relação entre o perímetro e o raio de uma circunferência. Por exemplo, qual é a exatidão de um número irracional, como a raiz quadrada de 2 ou 8? Um número com duas ou três decimais, ou um número infinito? Qual a exatidão do tempo para pessoas que, estando num mesmo prédio, uma está na base e a outra no 20º andar? Ambas supõem estar lá exatamente no mesmo momento, mas seus relógios estarão andando em velocidades diferentes. Esta é uma das armadilhas da lógica euclidiana. Se a demonstração ficar submetida apenas ao raciocínio, ela cria uma contradição que não corresponde à realidade. Para demonstrar a correção do procedimento lógico é necessário submetê-lo ao teste da realidade, ou da prática. A verdade é o que corresponde mais aproximadamente ao real. Como tudo está em constante movimento e mudança, a exatidão está condicionada à realidade histórica. As definições de Euclides incluíam termos como ponto, linha curva, linha reta, círculo, ângulo reto, superfície e plano, mas suas noções eram proposições lógicas não geométricas. E ele excluiu o movimento da geometria. Não dizia que a reta é o caminho mais curto entre dois pontos. Preferiu dizer que é uma figura que repousa igualmente em relação a seus pontos. Ele também não definiu a circunferência como a linha descrita por um ponto que se move num plano, conservando-se a uma distância fixa de um ponto desse plano. Definiu-a como a figura plana formada por uma só linha, de tal modo que todos os segmentos de reta traçados entre ela e um ponto situado dentro são iguais entre si. Ele postulava que duas coisas iguais a uma terceira seriam iguais entre si; duas coisas iguais adicionadas a outras iguais dariam totais iguais; coisas iguais subtraídas de coisas iguais dariam restos iguais; coisas que coincidissem uma com a outra seriam iguais entre si; e o todo seria maior do que a parte. Essas noções foram úteis, e continuam sendo, para o estudo das relações existentes dentro de determinados limites. Por exemplo, dois carros iguais a um fusca da Volkswagen, são iguais entre si. Se adicionarmos duas laranjas a um grupo de outras quatro laranjas, teremos seis laranjas. Se tirarmos três laranjas daquele total, teremos três laranjas e não três Q 108 Tomo01.pmd 108 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR tangerinas. Se dois triângulos tiverem lados com as mesmas dimensões, eles serão iguais entre si. E as seis laranjas daquele conjunto acima sempre serão maiores do que as partes da soma ou da subtração. No entanto, há aspectos da realidade que transbordam esses limites. Se examinarmos em detalhe cada carro idêntico saído de uma linha de montagem, acabaremos achando uma série de pequenas diferenças entre cada um deles. Eles serão, ao mesmo tempo, iguais e diferentes. O mesmo ocorre com as laranjas, que são iguais como espécie, mas diferentes em tonalidade, espessura da casca, volume, peso ou gosto. Aqui temos, novamente, igualdade e diferença, ao mesmo tempo. Dois triângulos de lados iguais tornam-se diferentes ao mover-se no espaço. Seis laranjas podem ser menores do que outras três, se estas últimas tiverem volume ou peso maior. Do mesmo modo, nosso sistema planetário é menor do que a Via Láctea, que é apenas uma pequena parte de todo o universo. Na realidade, as noções euclidianas são verdadeiras e falsas ao mesmo tempo, dependendo da realidade que examinam. Por isso, elas têm aplicação limitada. Apesar disso, desempenharam papel relevante no avanço científico, porque contribuíram para organizar a pesquisa parcelada sobre a natureza e a sociedade humana. De certo modo, superaram as limitações intuitivas da dialética ingênua. A geometria euclidiana serviu para Eratóstenes de Cirna medir a circunferência da Terra. E para Hiparco desenvolver um modelo geométrico do sistema solar, que podia prever eclipses lunares com um erro de apenas duas horas, embora fosse totalmente errado colocar a Terra como centro. O que também ocorreu, mais tarde, com o sistema planetário geocêntrico de Ptolomeu (100-170), que reuniu todo o conhecimento astronômico realizado até então, em grande medida aproveitando-se do modelo de Hiparco. Seus cálculos matemáticos estavam muito próximos do correto, e previam razoavelmente bem a posição dos astros do sistema solar em cada momento. No entanto, o modelo estava errado, como demonstrado posteriormente por Copérnico, por desconsiderar o Sol como seu centro. Ou seja, modelos cosmológicos errados podem, eventualmente, chegar muito perto de resultados matemáticos corretos. 109 Q Tomo01.pmd 109 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A diferença entre os modelos de Hiparco e Ptolomeu consiste em que o modelo deste serviu para, supostamente, confirmar as escrituras sagradas do cristianismo. Esta religião monoteísta consolidou-se por volta do ano 180. A partir de 325, em pleno declínio do império romano, assumiu o papel estatal diretor da filosofia ocidental, principalmente com a adaptação da metafísica aristotélica a seus desígnios. E funcionou como um espartilho que impedia a respiração da filosofia e das ciências. A filosofia clássica chinesa, por seu turno, nascida da crise de transição do escravismo para o feudalismo, ou da civilização antiga para a Idade Média chinesa, entre os anos 700 e 221 a.c., ainda prosseguiu seu curso pelo menos até os anos 1400, mas em condições diferentes daquelas que lhe deram surgimento, e bastante diversas da evolução da filosofia grega sob o escravismo romano. Dizendo de outra forma, o processo lógico de desenvolvimento do conhecimento humano, que deveria levar à sua posterior transformação em ciência, havia sido delineado em linhas gerais pelos filósofos da antiguidade grega e chinesa. Porém, o que ocorreu historicamente parece ter sido um brutal retrocesso, na então civilização ocidental, e um paulatino desvio, na civilização chinesa. Os textos dos filósofos gregos se perderam nos escaninhos dos templos bizantinos. Suas idéias desapareceram no horizonte do pensamento das gerações que os sucederam. Na civilização oriental chinesa, os textos dos filósofos clássicos não foram perdidos na tumba de algum imperador. Foram continuamente consultados. Mas suas concepções primordiais foram sendo modificadas ao sabor das mudanças sociais. Em grande medida, também desapareceram no horizonte do pensamento das gerações que as sucederam. Nessas condições, parece natural responsabilizar a Idade Média pelo aparente congelamento dos conhecimentos. Porém, o que teria acontecido de comum, no processo histórico de desenvolvimento das filosofias grega e chinesa, que as teria levado praticamente ao mesmo fim, embora sob formas diferentes? Recomecemos pelos gregos. Por volta de 2200 anos atrás, Roma havia se tornado a potência hegemônica do Mediterrâneo oriental, transforQ 110 Tomo01.pmd 110 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mando várias regiões gregas em colônias tributárias. Em 44 a.c., todo o antigo território grego fazia parte do império romano. Seu antigo modo de produção escravista se manteve inalterado. Porém, o sistema político e militar imperial romano introduziu mudanças importantes nos sistemas políticos e tributários locais, tornando quase impossível o desfrute do ócio, como antes praticado. Roma tornou o ócio uma exclusividade romana. E a política, o comando das guerras, e a repartição dos botins, se tornaram as formas principais de exercê-lo. Os conhecimentos mecânicos permaneceram como importante ramo do conhecimento, essenciais para a construção de vias, pontes, palácios, fortes e diversos apetrechos de guerra. Mas o interesse pela astronomia foi abandonado, embora a astrologia fizesse parte das considerações dos generais romanos. Quanto à matemática necessária à mecânica de construção civil e bélica, a que existia dava conta do recado. Portanto, as condições materiais e espirituais, que haviam possibilitado o florescimento filosófico anterior, entraram em vias de desaparecimento. A filosofia clássica grega foi substituída, no declínio do império romano, por uma filosofia teológica que colocava todo tipo de criação como resultado eterno da vontade divina. O cristianismo se firmou unificando as antigas comunidades em torno dos sínodos e das regras e escrituras comuns. Além disso, os cristãos abandonaram seu comunismo democrático por uma constituição hierárquica, o episcopado monárquico, e afirmaram o caráter universal, ou católico, de sua religião. Fizeram com que sua Igreja se transformasse numa instituição, estruturalmente organizada e depositária da doutrina da salvação. O que lhes permitiu transformar suas idéias numa enorme força material, capaz de impor-se aos bárbaros de todos os tipos. O que o egípcio Akenaton não conseguira com seu monoteísmo solar, e os hebreus com seu deus único, mas seletivo, os cristãos realizaram, com seu deus universal. Paralelamente a isso, o modo de produção feudal substituía, por toda parte da Europa, o antigo modo de produção escravista. O feudalismo europeu criou uma miríade de reinos e ducados feudais, na maior parte voltada para dentro de si mesma. E, entre os anos 300 e 800, encontrou no cristianismo sua ideologia consagradora. Desse modo, a Idade Média 111 Q Tomo01.pmd 111 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ocidental teria mesmo que parecer o congelamento do pensamento e dos conhecimentos. Tudo estava traçado pela Providência Divina e não havia o que discutir. Por algum tempo, os árabes escaparam dessa sina. Embora também tivessem criado seu próprio monoteísmo, este lhes serviu como motivação para espraiar-se pela Península Ibérica, Ásia Menor, Ásia Central, norte da China e Índia. Entre 756 e 1212, o desenvolvimento econômico experimentado nesses novos territórios lhes permitiu realizar avanços nos conhecimentos filosóficos e científicos. Avicena (980-1037) desenvolveu estudos médicos e astronômicos. E Averroes (1126-1198) traduziu e comentou Aristóteles, sustentando a independência do pensamento ante os dogmas religiosos, ao mesmo tempo em que defendeu a existência de uma relação estreita entre o homem e o reino animal. Ao beber da fonte dos textos gregos que haviam sido levados para as antigas civilizações da Mesopotâmia pelos exércitos de Alexandre, assim como dos conhecimentos empíricos acumulados por chineses, egípcios, persas, babilônicos, indianos e outros, os árabes adotaram a numeração decimal, introduziram o zero (criado pelos indianos) em seu sistema numérico, criaram o campo dos números reais, avançaram na construção dos cálculos algébricos, e elevaram a alquimia ao ponto em que ela podia dar surgimento à química como ciência. Os chineses, por sua vez, também há cerca de 2200 anos, haviam completado sua transição do escravismo para o feudalismo, com a instituição de um sistema político monárquico feudal. Este tinha por base os conceitos de nacionalidade ou país (guo) e de subordinação dos senhores feudais ao imperador. A terra era cedida à administração e ao usufruto dos nobres, enquanto os camponeses eram subordinados ao Estado e/ou aos nobres, e obrigados à vassalagem ao imperador. A existência de um império feudal, nacionalmente unificado, impôs novas exigências. Mais ou menos as mesmas que os reis e feudais europeus só foram conhecer 1500 anos depois. Antes de tudo, como depois no ocidente, o feudalismo necessitava de uma ideologia legitimadora, vinda do Céu. O Mandato Celestial da tradição filosófica chinesa estava à disposição de quem quisesse e pudesse usá-lo. Transformou-se, então, na Q 112 Tomo01.pmd 112 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR federação teológica estatal, que permitia a existência de várias religiões subordinadas. Ao receber o Mandato Celestial, o imperador estava obrigado a prover o país, tão vasto e tão populoso, das condições favoráveis aos plantios, às colheitas e ao transporte das safras, assim como da burocracia capaz não só de realizar a cobrança e a contabilidade dos tributos, mas de planejar e realizar as obras indispensáveis àquelas condições. O primeiro imperador chinês, fundador da dinastia Qin, unificou o sistema de pesos e medidas e adotou uma série considerável de decisões que deveriam garantir o cumprimento estrito das exigências do Mandato Celestial. Quando seus sucessores se mostraram incapazes de prosseguir com tais deveres, isto foi considerado um rompimento do Mandato Celestial, levando a revoltas camponesas e feudais, e à substituição da dinastia Qin pela Han através da sublevação de uma aliança de exércitos feudais e camponeses. A existência de uma monarquia centralizada no feudalismo mostrouse, desde o início, uma contradição conflituosa. Surgiu e se impôs por necessidade. Por um lado, de defender os territórios feudais contra as invasões e saques dos chamados bárbaros. Por outro, de prover o país de condições favoráveis para o desenvolvimento da agricultura e para a distribuição das safras. Porém, cada senhor feudal se sentia avassalado e oprimido, e sempre pronto a buscar autonomia, independência ou, mesmo, se impor aos demais como monarca. A contradição só poderia ter solução com a destruição de um dos opostos. A necessidade de defender o território conduziu à instalação de oficinas de fabricação de armas, carros de combate e apetrechos bélicos diversos, que estimularam o desenvolvimento do artesanato e da manufatura chinesa. E levou à organização de um exército monárquico que fosse não só a força principal nas guerras de defesa territorial, mas também nos conflitos contra os senhores feudais rebelados e contra insurreições camponesas. Mais tarde, esse exército monárquico foi a coluna vertebral das dinastias feudais que se lançaram à conquista de novos territórios. Os mais de oito mil Guerreiros de Terracota, com seus carros de combate e cavalos, legados pela dinastia Qin, talvez sejam uma reprodução resumida do que 113 Q Tomo01.pmd 113 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 fora seu exército real. E, do mesmo modo que os constantes conflitos com as tribos bárbaras e com as revoltas dos senhores feudais e dos camponeses haviam colocado a necessidade de um exército bem armado, também impôs a confecção de mapas acurados. Os mapas mais antigos, encontrados em sítios arqueológicos, datam justamente de 206 a.c., quando o processo de centralização monárquica já estava em curso de consolidação. A necessidade de desenvolver a agricultura e promover a distribuição das safras, por sua vez, impunha manter uma constante atenção com o clima, com a irrigação, com as técnicas de plantio, com a criação de novas variedades vegetais, e com a fabricação de carros e barcos de maior capacidade de transporte. Nos anos 100 os chineses já empregavam a técnica de pontes de pedras em arco, ao mesmo tempo em que davam vulto à construção de canais para facilitar a navegação e a irrigação. Bem cedo os chineses passaram a utilizar uma série de calendários relacionados com os fenômenos de cada estação climática. Eles estavam alertas tanto à eclosão ou hibernação dos insetos, roedores, plantas e outros seres vivos, quanto ao sentido do voo dos gansos e garças em migração. Observavam e registravam o sentido dos ventos, a intensidade das neves, a posição das estrelas e a localização do nascimento e do ocaso do Sol. E listavam as tarefas agrícolas periódicas, como plantios, tratos culturais e colheitas. Nessa mesma linha de preocupação, o método de seleção artificial, tanto de plantas quanto de animais, foi estimulado e praticado pelo menos desde os anos 100, conforme relato presente em Fan Sheng Zhi Shu, referente às sementes de trigo. A criação de peixes dourados a partir do cruzamento entre espécies diferentes de peixes, e a obtenção de mulas, a partir do cruzamento de eqüinos e muares, foram outros exemplos típicos da aplicação corrente da hibridação. Darwin fez referência explícita à prática chinesa de seleção artificial em plantas e árvores frutíferas em sua obra sobre A Variação de Animais e Plantas sob Domesticação. Depois, em A Origem das Espécies, acrescentou que estava longe da verdade que a seleção artificial fosse uma descoberta moderna, já que ela se encontrava registrada na antiga enciclopédia chinesa. Q 114 Tomo01.pmd 114 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Essa prática introduzia, de certo modo, uma cunha na suposição dominante da invariabilidade. Wang Guan, nos anos 900, observou que os tamanhos e cores das peônias podiam ser controlados, de modo que formas e cores raras podiam ser produzidas pelos homens. Li Ming, em 980, descreveu 35 variedades de de crisântemos e se perguntava por que os anciões, que escreviam loas a essas flores, nunca mencionavam os espécimes raros que descrevera em seu livro Ju Pu. Para ele, a descoberta de variações não esperadas seria a tarefa de todos os que se interessassem por esse campo. A indústria naval chinesa renasceu no final dos anos 900, com a construção de embarcações de fundo chato com capacidade de 4 a 6 mil piculs (equivalentes hoje a 500 e 800 toneladas). Mais adiante, na dinastia Yuan, após 1270, os juncos chineses alcançaram uma capacidade de carga de 1200 toneladas e podiam viajar em mar aberto. Além de contarem, há muito, com a ajuda da bússola, cartas de navegação e instrumentos de observação astronômica, as embarcações chinesas ganharam o auxílio de três novas invenções: o leme, a vela triangular e a divisão do casco em compartimentos estanques. Com isso, podiam manobrar mais facilmente as embarcações, viajar contra o vento e evitar naufrágios em caso de algum rombo no casco. Na primeira parte da dinastia Ming, entre 1368 e 1450, a navegação costeira e oceanográfica chinesa alcançou seu estágio máximo. Suas frotas de juncos chegaram a Java, Índia e África, bem antes que portugueses e espanhóis se lançassem ao mar salgado. Elas englobavam 100 a 200 embarcações, das quais 40 a 60 eram navios do tesouro, carregando produtos a serem comercializados. Cada navio media 150 metros de proa a popa, com mastros de 11 metros e 12 velas. Ao todo, essas frotas podiam conduzir até 28 mil homens. A presença de um Estado atuante, interferindo na sociedade feudal, levou Marx a supor, erroneamente, que isso representaria e presença de um modo de produção asiático, diferente do modo de produção escravista e do modo de produção feudal. Na verdade, em termos de relações de produção, na China desse período predominavam as relações feudais, embora com a presença localizada de relações escravistas, e com a introdução de manufaturas. 115 Q Tomo01.pmd 115 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Na Europa, diferentemente da China, a transição do escravismo ao feudalismo levou, desde o início dos anos 400, à desagregação do Estado escravista romano e à formação de inúmeros pequenos reinos. Os conflitos constantes entre esses reinos e seus senhores feudais pela supremacia política e militar, e pela conquista de mais territórios, perdurou por vários séculos, antes das monarquias começarem a consolidar-se como Estados nacionais. Na China, aquela transição conduziu, 600 anos antes, à centralização monárquica nacional e à unificação dos reinos então existentes. É verdade que tal unificação monárquica não conseguiu impedir disputas dinásticas e períodos de maior ou menor divisão, nem mesmo o domínio momentâneo do território por outros povos. Mas todas essas disputas tiveram sempre, como resultado, a substituição de uma centralização por outra, mantendo uma constante tensão contraditória na sociedade chinesa. As exigências do Mandato Celestial eram, na prática, exigências essencialmente econômicas e sociais. Foram elas que impuseram à centralização monárquica a continuidade do desenvolvimento da astronomia, da mecânica e da matemática, herdadas do escravismo. Com a peculiaridade de que esses assuntos se tornaram questões de Estado e, vários deles, segredos de Estado. Assim, não é de estranhar que os registros astronômicos sobre as manchas solares tenham tido continuidade, de 43 a.c. até 1638, só sendo interrompidos após a imposição do domínio manchú à China. Esses registros permitiram estimar os ciclos daquelas manchas por períodos de cerca de 10,6 anos, numa série de 106 ocorrências, e dois longos ciclos de 65 e 250 anos. O que se comprovou estarem muito perto dos períodos modernamente comprovados, de ciclos de 11 anos. Os registros das observações das estrelas hóspedes, isto é, das supernovas da astronomia moderna, também se prolongaram até 1700, computando 90 ao todo. A mais impressionante, segundo tais registros, ocorreu em 1054, na constelação de Touro, que colapsou e desapareceu em dois anos. Na continuidade dessas observações e registros, antes do ano 100, os astrônomos chineses já haviam elaborado mapas estelares, tendo a estrela Polar no centro, em torno dela girando o Sol, a Lua, os planetas e as demais estrelas. Q 116 Tomo01.pmd 116 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Nos anos 700, os astrônomos chineses conseguiram estabelecer o ponto de variação do solstício de inverno e determinaram os graus dos meridianos, através da medição da altitude da estrela Polar. Calcularam uma distância de 111,2 km entre cada grau de meridiano, uma diferença de 13,9% em relação à medida moderna de 129,22 km. Por volta de 1100, os chineses não só haviam construído uma torre de relógio astronômico movido à água, como haviam montado o anel equatorial, fixado ao extremo sul do eixo móvel dos telescópios, inovação que parece continuar em uso. Nesse mesmo período, eles classificaram várias constelações e estrelas, que faziam parte da região celeste hoje ocupada por Virgem, Libra, Escorpião e Sagitário. Quanto à matemática, a numeração natural chinesa conviveu paralelamente aos números indianos até 1700 anos atrás. A partir daí, ao introduzir o zero como fronteira de separação entre os números positivos e negativos, facilitando os cálculos, a numeração indiana demonstrou sua superioridade e foi adotada como dominante. Setecentos anos depois, os matemáticos chineses introduziram a incógnita em suas equações. Ao mesmo tempo, tendo por base as propriedades do triângulo retângulo, elaboraram um método geométrico e lógico, cujos axiomas consistiam em que a área de uma figura plana permanece a mesma quando a figura é elevada a outro lugar sobre o plano; se uma figura plana for cortada em diversas seções, a soma das áreas das seções será igual à área da figura original; as áreas das várias seções envolvidas antes e depois dos procedimentos de movimento no plano possuem relações aritméticas. Com isso, conseguiram calcular o valor da relação entre o perímetro e o raio da circunferência (Pi) na proporção 355/113. Enquanto isso ocorria na China, entre os anos 1000 a 1200, o ocidente cristão havia desenvolvido sua produção agrícola e avançara no artesanato. Surgiram novas invenções mecânicas na tecelagem, relojoaria e moinhos. Os alquimistas criaram a tinturaria, a metalurgia e o álcool. As lentes começaram a ser empregadas para enxergar coisas miúdas e corpos distantes. A arquitetura persistia em copiar a planta das construções anteriores, embora as colunas e as abóbadas fossem substituídas por novos formatos. Apareceu a arte gótica, e surgiram as oficinas gremiais, reunindo escultores, arquite117 Q Tomo01.pmd 117 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 tos e mestres de ofício, como associações fechadas de trabalho. Dentro delas se transmitiam os conhecimentos adquiridos e se aplicavam métodos próprios de organização do trabalho. Nessa época, a Itália estava à frente do processo de invenções e produção, embora toda a Europa Ocidental e Central acompanhasse esse desenvolvimento. Paralelamente, aguçavam-se as contradições entre o poder dos grandes senhores feudais e o poder monárquico. Os grandes feudais, que constituíam a alta nobreza, tendo por base a imunidade e a jurisdição territorial, fortaleciam seu poder à medida que emergiam novos feudos. Estes conformaram uma baixa nobreza, ao mesmo tempo em que foi consagrada a hereditariedade dos feudos. Esse crescimento dos feudos representava um desafio cada vez maior ao poder monárquico, que tentava se fortalecer através dos vínculos de fidelidade e de alianças com os mercadores, comerciantes ou burgueses. Foi em meio à essa disputa conflituosa que tomou forma um grupo social e político específico, o dos Cavaleiros, com regras e estilo de vida próprios. Ele alcançara seu status através do papel desempenhado pela cavalaria nos conflitos entre os senhores feudais, em torno das terras e do poder monárquico, e nas guerras contra os muçulmanos. Seu Código da Cavalaria foi estabelecido em 1090, exortando os Cavaleiros à submissão a seu senhor, à renúncia ao botim, à luta pelo bem público e contra os hereges, e à proteção dos pobres, viúvas e órfãos. Como se vê, uma mistura de propósitos inconciliáveis. Os Cavaleiros desempenharam papel saliente nas Cruzadas, iniciadas em 1096. Estas surgiram da conjunção de fatores ideológicos, políticos e econômicos da época. O crescimento populacional exigia novas terras de cultivo e pastoreio, intensificando ainda mais o belicismo da sociedade feudal. O desenvolvimento da produção agrícola demandava a oferta de mais bens, só possível com a abertura de novas rotas de comércio, livres da interferência dos maometanos que, em 1071, haviam tomado Jerusalém, aniquilado o exército bizantino, e cortado a principal rota de comércio terrestre entre a Europa e o Oriente. O pontificado católico, por seu turno, estimulava a intensificação da religiosidade e promovia o expansionismo da Igreja. O que só seria possíQ 118 Tomo01.pmd 118 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR vel confrontando-se com o islamismo, que unificara as tribos árabes e, apesar de suas guerras internas, se expandira. Desse modo, a tomada de Jerusalém, onde estava situado o Santo Sepulcro, transformou-se no pretexto para que o pontífice católico se tornasse o planejador e mentor de um Exército de Cavaleiros. Seus objetivos: libertar o túmulo de Jesus e os territórios ocupados pelos maometanos, e unificar as igrejas grega e romana. A esse tempo, os árabes já vinham, há muito tempo, negociando com a Índia e a China, através da rota terrestre da seda, que se estabelecera como ponte entre o Oriente e o Ocidente, desde 138 a.c. Saindo da então Chang’an, hoje Xian, ela se dirigia para oeste até Donghuan. A partir daí, bifurcava-se. Um ramo seguia para noroeste, atingindo as margens norte dos mares de Aral, Cáspio e Negro. Outro seguia para sudoeste, atingindo Samarcanda, Teerã, Bagdá e Antioquia. Mercadores da Ásia central, como os usbeques, casaques e uigures, além de chineses, europeus, indianos e árabes, levavam da China para o Império Romano as especiarias da agricultura e do artesanato, incluindo seda, laca, porcelana, cerâmicas, chá e produtos de ferro. Ao mesmo tempo, transportavam para a China cristais, pedras preciosas, uvas, nozes, alho e outros produtos. A dissolução do Império Romano do Ocidente, e sua substituição por um mosaico de reinos germanos, não interrompeu esse comércio internacional, já que o Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, ainda se manteve. Mas a expansão árabe, seja para o oriente, pela Pérsia, Ásia Central e Índia, seja para o ocidente, pelo Egito, norte da África e Península Ibérica, seja ainda para o norte, tomando Jerusalém e Damasco, e ameaçando Constantinopla, colocou a rota da seda sob monopólio árabe. Foi através dos árabes, a partir de então, que a seda e outras invenções chinesas chegaram à Europa nos séculos seguintes. A seda chegou à Espanha, no século 10, à Itália no século 11, e à França, no século 15. Foi também através da rota da seda que o veneziano Marco Pólo (12541324) chegou a Dadu, atual Beijing, apresentou-se ao imperador mongol Kublai Kan (1215-1294), da dinastia Yuan, e permaneceu na China por 17 anos. Mais tarde, descreveu ao mundo ocidental as possibilidades de uma riqueza incalculável. Assim, entre luz e escuridão, o mundo então conhecido se moveu por mais de mil e quinhentos anos. 119 Q Tomo01.pmd 119 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Caminhos invertidos Há mil anos, enquanto os europeus caminhavam para consolidar seu sistema feudal, o feudalismo chinês já ingressara na fabricação de bombas para sucção da água, em especial para a irrigação, e bombas para combate a incêndios. Os chineses já conheciam as propriedades plásticas de vários materiais, assim como as formas de cristais de substâncias usadas por farmacêuticos e alquimistas, como o quartzo branco (sulfato de cálcio). Seus espelhos de bronze, levemente convexos, refletiam a face das pessoas. E, para a fabricação das bússolas, usavam o processo de magnetização artificial, através do aquecimento e esfriamento rápido do ferro, após este atingir 600 a 700 graus centígrados. O papel de fibras vegetais, inventado por Cai Lun (? -121), um eunuco da corte imperial Han, vinha sendo utilizado pelos chineses desde os anos 105. Primeiro, tratavam as aparas vegetais com solução alcalina de cinzas, para a retirada das impurezas. Depois, a polpa obtida nesse tratamento era moldada e transformada em folhas, que iam para a secagem e, prontas, ofereciam uma maneira muito mais favorável para receberem a escrita. Apesar disso, pelo menos ainda por um século, o papel teve que concorrer com as lascas de bambu, as sedas e os tacos de madeira, antes de se tornar o principal meio de escrita. Nos anos 600, ele foi levado para a Coréia e o Japão. Nos anos 700, chegou à Ásia Central e à Arábia. E os árabes o levaram para a Espanha e para a França nos anos 1100. A criação desse novo tipo de material para escrever facilitou, por sua vez, a invenção da impressão. Nos anos 400, os chineses produziram as primeiras impressões sobre papel, com a utilização de gravações em relevo, feitas sobre pedra. Nos anos 600, apareceram peças de madeira com gravações em relevo, para a impressão de papéis usados em transações comerciais e na cobrança de taxas. Entre 1041 e 1048, portanto bem antes de Johann Gensfleisch, ou Q 120 Tomo01.pmd 120 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Gutemberg, Bi Sheng (? -1051) inventou os tipos móveis, primeiro feitos de cerâmica e, depois, de ligas metálicas. A alquimia chinesa teve avanço considerável, após os imperadores começarem uma frenética busca pela imortalidade. Qin Huangdi, em especial, que mandou construir os Guerreiros de Terracota, ficou famoso pelo incentivo às experiências com o cinabre, ou sulfeto de mercúrio, e outros minerais. Esses experimentos produziram muitos resultados práticos na metalurgia e na farmácia, e levaram ao conhecimento das propriedades de muitos elementos químicos, embora seus métodos se limitassem à pirogenia e à liquefação. Foi aquecendo o cinabre que eles descobriram sua decomposição em dois elementos distintos, mais tarde denominados dióxido de enxofre e mercúrio. Num processo reverso, o mercúrio combinava-se para formar novamente o sulfeto de mercúrio, principalmente o negro, que pode ser sublimado em seu estado original, ao ser aquecido uma vez mais. Essa capacidade de regeneração do mercúrio levou os alquimistas à crença de que isso lhes daria o poder de criar um elixir miraculoso. Acharam-se capazes de assegurar a longevidade, além de transformar outras substâncias em ouro. Jamais conseguiram qualquer dos dois. Essa crença errônea e infrutífera quanto ao prolongamento eterno da vida e da fabricação do ouro os obrigou, porém, a estudar intensamente as propriedades do cinabre e do mercúrio. O que lhes permitiu produzir um dos primeiros produtos químicos em laboratório, o sulfeto de mercúrio sintético, ou vermilion, ou jinzhu. Assim, mais uma vez, por caminhos tortuosos e negativos chegaram a resultados positivos. Entre os anos 600 e 900, os alquimistas chineses acrescentaram carvão à mistura de salitre e enxofre e criaram um combustível instantâneo, a pólvora. Nos anos 900, essa pólvora passou a ser utilizada nas flechas incendiárias, em substituição aos antigos materiais inflamáveis, com um efeito muito superior. Nos anos 1000, técnicos imperiais fabricaram dispositivos contendo pólvora, de poder destrutivo muito superior a tudo que havia sido inventado até então, e deram início à indústria de armamentos na China, incluindo foguetes. Os espanhóis foram os primeiros europeus a tomarem conhecimento da existência do novo invento, em 1200, através de textos árabes. Depois disso, 121 Q Tomo01.pmd 121 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 outros povos europeus experimentaram o poder de fogo dessa mistura durante as incursões mongóis no ocidente. Nesse mesmo período, os alquimistas chineses conheciam bem os metais mercúrio, enxofre, carbono, níquel, chumbo, cobre, ouro e prata, assim como os óxidos, sulfetos, cloretos, nitratos, carbonatos, boratos e silicatos relacionados com esses metais. As ligas de cobre e zinco (touchi), cobre e níquel (baijin), e chumbo e zinco (baila) eram de domínio corrente dos alquimistas chineses. Eles também possuíam um conhecimento razoável das areias, solos e solventes orgânicos como o vinagre (cu) e o álcool (jin). A essa altura eles também haviam criado uma parafernália de equipamentos laboratoriais que incluía fornos, vasilhas especiais, bacias, destiladores e desbastadores, ou esmerís. A alquimia chinesa teve muita semelhança com a alquimia árabe. Ambas foram motivadas pelo mesmo problema central de suas nobrezas: o elixir da vida eterna e a fabricação de ouro. Nessas condições, suas técnicas e instrumentos também eram idênticos. Por outro lado, embora o salitre e o cloreto de amônia fossem empregados na Pérsia e na Arábia, onde eram chamados de neve e sal da China, eles foram desconhecidos dos gregos e egípcios. O ocidente europeu também recebeu da China, além da pólvora, outros produtos cuja fabricação exigia um processamento manufatureiro mais avançado, a exemplo da cerâmica e da laca. Embora a cerâmica chinesa tivesse uma história desde o período neolítico, apenas nos anos 1000 ela atingiu o aperfeiçoamento que lhe permitiu obter uma superfície vítrea e uma aglomeração dura e sólida. Três séculos depois, na dinastia Ming, a porcelana atingiu um nível de sofisticação inigualável. Usando óxido de alumínio, dióxido de silício e uma pequena porção de solvente, os ceramistas obtiveram uma espessura tão fina que fazia a porcelana apresentar a suavidade e o translúcido do jade, e uma cor creme lustrada. Isto a tornou um artigo apreciado pelas nobrezas de várias regiões do mundo de então. A laca, por seu turno, uma secreção fisiológica da árvore selvagem Rhus vernicífera, passou a ser utilizada no artesanato para obter peças de grande durabilidade e aparência estética de leveza, tendo como qualidade a resistência à corrosão, aos ácidos e aos álcalis. Q 122 Tomo01.pmd 122 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Os avanços produtivos e dos conhecimentos na sociedade feudal chinesa a empurravam, cada vez mais, para a senda da manufatura artesanal, da intensificação do comércio interno e do mercantilismo externo. As frotas do almirante Heng He (1371-1433) comerciaram no sudeste asiático, Índia e costa oriental da África, entre 1405 e 1433, fazendo com que os mercadores e a monarquia acumulassem riquezas de forma crescente. Apesar, ou por causa disso, a história tecia contradições que fizeram a China ingressar na escuridão de sua Idade Média, quase ao mesmo tempo em que a Europa começou a enxergar a luz no fim do túnel. Entre os anos 1400 e 1500, os reinos feudais europeus e a monarquia feudal chinesa haviam chegado a um ponto, no desenvolvimento do comércio interno e externo, em que uma nova classe social começava a ameaçar os interesses e a posição de suas nobrezas territoriais. Os interesses dos mercadores chineses eram idênticos aos dos burgueses europeus. E, do mesmo modo que estes, tinham nos nobres feudais os principais obstáculos para o desenvolvimento dos seus negócios. A nobreza lhes cobrava tributos, e os tratava como classe de segunda categoria, embora sua riqueza fosse crescente e às vezes superior à dos senhores feudais. Além disso, os feudais arrancavam a pele, a carne e o sangue dos camponeses, impedindo que eles se tornassem um mercado florescente para as atividades mercantis. Mas o contexto europeu era o inverso do contexto chinês. Na Europa, a partir da revolução portuguesa de Avis, em 1380, era a monarquia que buscava apoio dos burgueses para, em aliança com eles, e com a riqueza que eram capazes de gerar, submeterem os nobres e se transformarem em monarquia nacional. Isto é, o mesmo tipo de monarquia que surgira na China cerca de 1600 anos antes. Na China, entre 1400 e 1424, a monarquia nacional Ming realizara uma política expansionista, incorporando a seu território a Manchúria, a Mongólia e o Anan (atual Vietnã). Em virtude das incursões mongóis, que haviam interrompido, pelo noroeste, o comércio com o Ocidente através da rota terrestre da seda, os Ming desenvolveram sua frota oceânica, abriram a rota marítima da seda, e ligaram Guangzhou (Cantão) ao sudeste asiático, Índia, África e península arábica. 123 Q Tomo01.pmd 123 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Com a riqueza gerada pelo comércio marítimo, os Ming construíram o Palácio Imperial, depois conhecido como Cidade Proibida, e o Palácio de Verão, ambos em Beijing, além de outras obras monumentais que continuam conservadas ainda hoje. Os mercadores, por seu lado, se sentiram suficientemente fortes para assediar a monarquia, e exigir que ela os apoiasse nas disputas contra o restante da nobreza feudal. A dinastia Ming viu-se, então, envolvida numa luta interna feroz. Uma parte dela queria aproveitar a nova riqueza gerada pelo comércio, em especial o comércio marítimo, e aliar-se aos mercadores. Outra parte queria manter o predomínio da nobreza sobre as terras e os camponeses. Nos anos 1440, justamente quando os portugueses já estavam a meio caminho para contornar o sul do litoral africano ocidental, com naus muito menores do que os juncos chineses, a balança começou a pender para o lado da nobreza feudal. A monarquia adotou medidas limitando o comércio externo e interno, proibindo as viagens comerciais de suas frotas oceânicas, e mantendo os mercadores manietados. As divisões internas conduziram a antes poderosa dinastia Ming a ingressar num processo de fragmentação. Em 1449, não conseguiu resistir a uma nova incursão dos mongóis, que chegaram a tomar Beijing. Entre 1500 e 1510, a incapacidade imperial de evitar que as inundações e as pestes disseminassem a fome pelo país pareceu, à sociedade chinesa de então, uma indicação de que o Mandato Celestial estava sendo rompido. A situação se agravou, nos cem anos seguintes. As incursões dos tunguses e de outras etnias nômades que habitavam as regiões limítrofes a oeste e noroeste, se intensificaram. As possessões sobre a Mongólia, Manchúria e Anan tiveram que ser abandonadas. Portugal conseguiu obter a concessão de Macau como feitoria. As pilhagens dos piratas japoneses por todo o litoral oriental obrigaram os Ming a transferirem todo o transporte de cargas da navegação costeira para a navegação interior, através do Grande Canal. E a insurreição de Li Zicheng (1606-1645), que se estendeu entre 1622 e 1644, com a participação de mais de um milhão de camponeses, foi a demonstração mais evidente do declínio dinástico. À medida que a monarquia nacional se fragmentava, a filosofia chinesa ingressou num processo idêntico ao vivido pelos gregos no final de Q 124 Tomo01.pmd 124 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR sua filosofia clássica. A concepção do Mandato do Céu voltou a ganhar proeminência, mas num sentido claramente conservador. Contradizendo a teoria de Sun Zi, os filósofos de então enfatizaram o papel do forte como o aspecto principal da contradição. Os pensadores confucianos procuraram demonstrar que idéias como superior e inferior, nobreza e ralé, alta e baixa posição, relacionadas com o conceito do fraco subordinar-se ao forte, correspondiam melhor à realidade social daquele tempo. O governante guiaria os súditos, os pais guiariam os filhos, os maridos guiariam as mulheres. Em suma, o Yin guiaria o Yang. Esta foi a filosofia que vingou durante o declínio da dinastia Ming. Declínio que não só a impediu de participar das grandes descobertas marítimas a partir do início dos anos 1400, como acabou por conduzi-la à derrota diante do minúsculo Estado feudal manchú. Este, contando com a colaboração e cumplicidade da maior parte da nobreza feudal Ming, entrou em Beijing, em 1644, dando fim à dinastia Ming e tornando sua dinastia Qing a nova monarquia dominante da China. Desse modo, havendo ingressado cedo na centralização estatal e no desenvolvimento da manufatura e do comércio, a China viu-se na contingência de entrar atrasada na escuridão e na letargia da Idade Média, paralisando o desenvolvimento das técnicas, dos conhecimentos e das ciências. A dinastia Qing reinou até 1911. Reforçou as características feudais, manietou o comércio e as manufaturas, adotou os aspectos mais atrasados do confucionismo como doutrina de Estado, e manteve o conjunto da população num baixo nível cultural. Enquanto isso, a Europa saia para a luz do dia e para um novo salto nos conhecimentos, criando as bases da ciência moderna. Ao contrário do que acontecera na China, a burguesia européia conseguiu fazer com que algumas monarquias evoluíssem para estados nacionais e apoiassem a expansão comercial e o nascente sistema manufatureiro. A revolução de Avis impôs uma reforma agrária à nobreza, re-dividindo os feudos e criando uma extensa camada de nobres sem-terra. Além disso, ao proibir que estes realizassem trabalhos manuais, a monarquia lusa deu um passo decisivo para transformar nobres sem-terra em comandantes de naus e esquadras, jogar o reino na aventura das descobertas marítimas, e iniciar a primeira onda de globalização colonial européia. 125 Q Tomo01.pmd 125 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A essa tempo, multiplicavam-se as notícias de um mundo de riquezas e oportunidades no Oriente. As histórias orais ou escritas dos mercadores, que haviam atravessado os caminhos terrestres para a Índia e China, a exemplo de Marco Pólo, aguçavam o interesse e a cobiça da crescente burguesia comercial e de aventureiros de todos os tipos. A navegação oceânica desenvolveu-se exclusivamente com a finalidade de lucro e produção, mas também resultou na descoberta de um material aparentemente inesgotável para a meteorologia, zoologia, botânica e fisiologia humana. Paralelamente, a Holanda desenvolvia a manufatura de tecidos, demandando volumes crescentes de lã para continuar se expandindo. Isto contribuiu para o processo de cercamento das terras inglesas e sua transformação em pastos a serem utilizados na criação de ovelhas e na produção de lã. Milhões de camponeses foram expulsos das terras em que trabalhavam, formando legiões de deserdados ou expropriados. Cidades e reinos bálticos, assim como Veneza e Gênova, haviam desenvolvido, desde os anos 1100, um sistema financeiro avançado de financiamentos mercantis, incluindo expedições armadas. O sistema Hansa, um tipo de cooperativa mercantil reunindo várias cidades, dominou o comércio do mar Báltico a partir de 1161, introduzindo novos procedimentos no comércio, como contabilidade, créditos comerciais e comissões pelas vendas. Em 1358, as Hansa criaram uma Liga para assegurar vantagens a seus membros, como o direito de armazenagem, enquanto obrigavam os não-membros a declararem sua carga e pagarem taxas de depósito. A Liga Hanseática efetuou boicotes armados contra as cidades não participantes, ao mesmo tempo em que instalava feitorias em cidades como Novgorod, a nordeste, e Londres, a sudoeste. A resistência das cidades dinamarquesas a essas ações produziu conflitos armados que se prolongaram até 1598, quando os reinos nórdicos deslocaram o comércio para o Atlântico, esvaziaram o poder das Hansa e as levaram a encerrar sua última feitoria, a de Londres. No Mediterrâneo, o declínio do domínio marítimo árabe, em virtude principalmente da reconquista da península ibérica pelos cristãos, abriu as condições para que as repúblicas marítimas de Veneza e Gênova assuQ 126 Tomo01.pmd 126 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR missem papel importante no comércio, tanto com o oriente, quanto com o ocidente. As mercadorias orientais mais procuradas continuavam sendo a seda, os brocados, os tecidos de gaze e algodão, as peles de camelos, os marfins, porcelanas, laca, corantes, pérolas e pedras preciosas. Eram trocadas por tecidos e outros produtos manufaturados da Europa, em especial de Milão, Florença, Flandres e cidades do sul dos territórios germânicos. Do mesmo modo que as Hansa bálticas, Veneza e Gênova haviam desenvolvido frotas marítimas, aproveitando-se especialmente das Cruzadas. Paralelamente, fundaram bancos e casas de crédito e aproveitaram os métodos comerciais bizantinos e árabes, que operavam com contabilidade, cartas de crédito e outros documentos mercantis. Entre 1192 e 1205, Veneza adquiriu portos e bases de apoio na rota do mar Adriático para o mar Negro. Em 1204, ao transportar 34 mil cruzados flamengos e franceses com destino ao Egito, convenceu seus nobres a desviar-se para tomar Zara e Constantinopla. Apesar da resistência bizantina, os cruzados conquistaram a capital de Bizâncio e realizaram o maior saque de objetos artísticos e religiosos registrado durante toda a Idade Média. O Império Bizantino foi então repartido entre os príncipes cruzados e Veneza. Quase 60 anos depois, os bizantinos se aliaram a Gênova, retomaram Constantinopla e deslocaram Veneza como potência mercantil hegemônica na região. Bizâncio, no entanto, estava com seus dias contados. A luta de classes se intensificara no interior do Império Romano do Oriente, enquanto Gênova e Veneza o mantinham sob dependência econômica. Entre 1321 e 1354, as guerras civis, algumas sob manto religioso, como a dos hesicastas, que consideravam o coração como o centro de integração das faculdades humanas e órgão do conhecimento de Deus, enfraqueceram Bizâncio ainda mais, tornando-a incapaz de resistir à crescente expansão turca. Paralelamente, em sua disputa contra Gênova, Veneza deu fim a esta concorrente, vencendo-a em 1381, durante a Guerra dos Cem Anos. Tornou-se a única potência marítima do Mediterrâneo, justamente no momento em que o império otomano emergia e assediava a capital de 127 Q Tomo01.pmd 127 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Bizâncio. Embora Veneza haja prestado ajuda aos bizantinos, estes não resistiram aos turcos que, em 1453, tomaram Constantinopla e deram fim ao Império Romano do Oriente. Quando isso ocorreu, toda a Europa Ocidental, tendo a Escandinávia, Polônia e Hungria como postos avançados, já havia se constituído uma região civilizada e fechada. Segundo Engels, em lugar dos contrastes que existiam entre gregos, romanos e bárbaros, nessa região européia existiam seis povos civilizados, com línguas estruturadas, que haviam se desenvolvido a ponto de participarem ativamente do movimento literário do século 15. Eles haviam criado uma cultura muito mais variada do que aquela que antes marcara os povos de língua grega e latina. O latim, em especial, estava em decadência há muito. Dante Alighieri (1265-1321) defendeu o uso da linguagem vulgar como idioma literário e filosófico. Petrarca (1304-1374) propôs a unidade dos italianos, com base em sua origem romana comum. Bocaccio (1313-1375) aplicou a proposta de Dante em suas obras, utilizando a linguagem vulgar e desdenhando o argumento da autoridade feudal. Leonardo Bruni (1369-1444) traduziu Aristóteles e foi, provavelmente, o primeiro a cunhar o conceito de Humanismo. Eles foram os precursores daquilo que, mais tarde, se chamou de Renascimento e Quinhentismo. A invenção dos tipos móveis na Europa, em 1445, por Gutenberg, abriu a possibilidade de produzir livros e jornais como manufatura impressa, criando as condições técnicas para o florescimento literário e artístico. A essa altura, Veneza já havia adotado o cêntimo de prata e o ducado de ouro, como moedas de troca. O sistema de transferências e depósitos monetários estava em vias de consolidação. E a produção das minas de ouro centro-européias contribuía para a monetização das relações feudais e para a criação de uma economia monetária por toda a Europa. Mudanças econômicas e sociais multiplicavam-se nos diversos reinos, criando fraturas de diferentes tipos no absolutismo feudal e teológico. Assim, em 1453, quando os europeus perderam Bizâncio, sua antiga via de comunicação com a China e a Índia, eles foram ao mesmo tempo presenteados pelos emigrados gregos, genoveses e venezianos, que levaQ 128 Tomo01.pmd 128 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR ram para a Itália os textos clássicos gregos. Essas obras introduziram um intenso sopro de modernidade no pensamento europeu. A primeira manifestação dessas mudanças econômicas e sociais foi a explosão espiritual que marcou profundamente os séculos 15 e 16. Alessandro Boticelli (1445-1510) introduziu o sensualismo na pintura. Leonardo da Vinci (1452-1519), talvez aquele que reuniu, num só indivíduo, todas as qualidades e curiosidades desse tempo, foi arquiteto, matemático, cientista, inventor e pintor. A Gioconda ainda hoje é considerada uma das obras primas da pintura universal. Da Vinci dizia que eram vãs e cheias de erros aquelas ciências que não nasciam da experiência, mãe de todas as certezas, ou que não terminavam na experiência. Ou seja, que sua origem, meio ou fim não passasse por nenhum dos cinco sentidos. Assim, nenhuma investigação merecia o nome de ciência se não passasse pela demonstração matemática ou não pudesse se ligar com as ciências matemáticas. Da mesma forma que Heráclito utilizou a imagem das diferentes águas de um mesmo rio para demonstrar o movimento e a mudança, Da Vinci sugeria que se olhasse uma chama e, depois, se fechasse os olhos e os abrisse. A chama já não seria a mesma vista anteriormente. Juan de la Mirandola (1463-1496), estimava que o homem era a realidade máxima da natureza e propunha uma religião natural, quase panteísta, em oposição à hegemonia cristã. Erasmo de Roterdam (14661536) rechaçou a escolástica e criticou a guerra, a avareza, o fanatismo e o obscurantismo de seu tempo. Nicolau Machiavel (1469-1527), sem jamais haver ouvido falar de Sun Zi, elaborou os conceitos da política ocidental moderna. Propôs um Estado forte, independente da Igreja, introduziu a noção de Razão de Estado, e defendeu o pluralismo ideológico e político. Tomas Moro (1475-1535) talvez tenha sido o primeiro comunista utópico, ao descrever um Estado ideal, organizado de forma comunitária. François Rabelais (1494-1533) satirizou o naturalismo epicurista. Miguel de Cervantes (1547-1616) refletiu a dualidade entre o idealismo humanista e o pessimismo realista com as contradições sociais. William Shakespeare (1564-1616), partindo da tradição histórica inglesa, reuniu em seus dramas todas as contradições humanas. Tomas Campanela (1568-1600), do 129 Q Tomo01.pmd 129 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 mesmo modo que Moro, descreveu a utopia de uma sociedade comunista perfeita. Michelangelo Buonarrotti (1575-1664) foi arquiteto, escultor e pintor, colocando o homem no centro do universo. Todos eles foram filhos dessa época de descobertas de um mundo novo, em grande parte impulsionadas pela centralização monárquica, pelo deslumbramento com as idéias da filosofia clássica grega e pelas aventuras e conquistas marítimas. Os portugueses descobriram o litoral africano ocidental e, em 1487, ao contornarem o cabo das Tormentas, depois chamado Boa Esperança, abriram o caminho marítimo para o lado oriental da África. Com isso, reabriram a via de comunicação com os centros de riquezas da Índia e da China. As notícias dessas epopéias marinhas, aliadas ao crescente conhecimento dos gregos clássicos, mexeram com o imaginário social, e deram o toque definitivo para aquele florescimento literário e artístico, numa dimensão até então desconhecida. Com o auxílio da bússola e do sextante, as Américas foram descobertas por espanhóis e portugueses. O restante da Ásia e da Oceania foi sendo paulatinamente conhecido. Vieram à mostra os inúmeros contrastes de vários mundos, num mundo único recém descoberto. O mundo europeu se deu conta de uma diversidade que não imaginava possível. Embora por todo o seu território a dominação feudal ainda imperasse, considerou-se avançado e civilizado em relação aos demais, principalmente porque possuía naus, canhões e outras armas de fogo. Sequer imaginava que esses avanços técnicos e militares tiveram origem em parte daquele mundo que tomavam como atrasado. No final dos anos 1400, os europeus já conheciam o mundo norteafricano, onde conviviam civilizações antigas, mas em declínio, como a egípcia e a etíope, e povos nômades, como os tuaregues. Mas desconheciam o mundo africano sub-saariano, onde se encontravam sociedade vivendo tanto no estágio escravista, quanto no sistema tribal e selvagem, do paleolítico ou neolítico, da coleta, da caça e da pesca. Os europeus já tinham ouvido falar do mundo asiático, com o qual seus mercadores negociavam. Mas desconheciam a amplitude da convivência de civilizações antiqüíssimas, algumas em pleno estágio feudal, Q 130 Tomo01.pmd 130 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR cheias de riquezas construídas pelos homens, com a miríade de povos aparentados aos africanos do neolítico. E, procurando chegar ao mundo asiático das Índias, encontraram o mundo americano, com duas civilizações escravistas (astecas e incas) e milhares de etnias paleolíticas e neolíticas. Em toda parte os europeus encontraram riquezas a serem extraídas, pela troca comercial, pela pilhagem armada, ou pela introdução de novos sistemas produtivos. Nas Terras de Santa Cruz, inicialmente, praticaram o escambo como meio principal de arrancar o pau Brasil através do trabalho indígena. Nos litorais da África, Índia, sudeste da Ásia e China, instalaram feitorias. No México, no Peru e em vários pontos da África e da Índia, a pilhagem armada foi a forma empregada para apropriar-se de ouro, prata, pedras preciosas e outras riquezas existentes. Mais tarde, passaram a explorar as minas de prata, no Peru e na Bolívia, e o plantio da cana e produção de açúcar, no nordeste do Brasil e nas Antilhas. Transferiram colonos livres e colonos escravizados por dívidas, para a América do Norte, e presidiários, para a Austrália. Tornaram a caça e o tráfico de escravos africanos para as zonas produtivas das Américas quase um monopólio estatal. E deixaram as pilhagens selvagens por conta de piratas, corsários e bucaneiros, muitos deles financiados por companhias de comércio ou diretamente pelo tesouro de suas potências imperiais. Trocas comerciais, pilhagens armadas, e emprego de sistemas escravistas em novas regiões coloniais produtivas, foram métodos de transferência de riquezas de todas as partes do mundo para a Europa. As diversas monarquias européias e suas burguesias organizaram companhias monopolistas de comércio ou mercantis para comandar e coordenar esses diferentes métodos. Foi através delas que as monarquias e as burguesias comerciais européias acumularam riquezas incalculáveis a partir dos anos 1500. O que lhes permitiu desenvolver, na própria Europa, um novo sistema produtivo, tendo por base as manufaturas e o trabalho assalariado. Esse processo histórico, extremamente complexo, aguçou contradições de diferentes tipos. A estrutura produtiva feudal era incompatível com as novas perspectivas das manufaturas, do trabalho assalariado e do comércio livre. E a estrutura política e ideológica era incompatível com o 131 Q Tomo01.pmd 131 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 novo papel da burguesia. As fraturas entre as monarquias e os nobres se alargaram. Colocaram, de um lado, os que preferiam se tornar comerciantes burgueses, a exemplo das monarquias portuguesa, holandesa e inglesa, ou de Martin Afonso e de Maurício de Nassau. De outro, aqueles que se mantinham aferrados a seus feudos, como os Bourbon, os Hohenzollern e os Romanov. Também estimulou os camponeses a revoltar-se para libertar-se das amarras feudais e emigrar para os novos territórios, ou poder vender livremente sua força de trabalho. E incentivou os cismas religiosos, para livrar-se de Roma e poder escolher livremente seus próprios dogmas. A revolta de Martinho Lutero (1483-1546), rasgando a bula papal, criando a prosa alemã moderna e elaborando uma nova interpretação bíblica, foi a mais característica, mas não a única. Antes dele, Jan Huss (1369-1415), Ulrich Zwinglio (1484-1531), os batistas e outras confissões religiosas difundiram-se pela Europa central e do norte, em protesto contra o absolutismo papal. Os novos processos produtivos, por seu turno, colocaram novos desafios para a astronomia, a mecânica e a matemática, os mesmos ramos do conhecimento que a filosofia clássica grega havia tratado, mas não conseguira desenvolver além dos limites de sua época. Apesar da longa noite da Idade Média, esta acumulara paulatinamente uma série de conhecimentos empíricos nas áreas da construção, navegação e observação astronômica. O comércio entre o ocidente e o oriente também permitira transmitir à Europa inúmeros outros conhecimentos empíricos obtidos por chineses, indianos e árabes. No final do século 15, seja através da prática da navegação, seja através da re-leitura dos gregos, como Tales, Aristarco e Aristóteles, já se tornara admissível voltar a admitir que a Terra era redonda. Em 1492, Martin Behaim (1459-1507) construiu o primeiro globo terrestre. Mas, na opinião de Engels, o ato revolucionário pelo qual a investigação da natureza declarou sua independência foi a obra imortal de Nicolau Copérnico (1473-1543). Embora timidamente e já próximo da morte, esse monge católico lançou à autoridade eclesiástica sua luva de desafio a respeito das coisas da Q 132 Tomo01.pmd 132 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR natureza, com sua teoria heliocêntrica. Defendeu o duplo movimento dos planetas, em torno de si mesmo e em torno do Sol e, apesar de ainda admitir que tal movimento era circular, a partir desse ponto, as ciências naturais iniciaram sua emancipação da teologia. Mesmo assim, a aceitação, pelas matemáticas, das raízes negativas, assim como dos números negativos e irracionais, demorou além do século 17. O próprio Descartes chamava as raízes negativas das equações de raízes falsas, e aos números irracionais de números surdos. Ele também chamava de imaginária a igualdade i ao quadrado = - 1. Hoje, os números imaginários constituem importante campo complexo das matemáticas superiores. Ainda segundo Engels, nesse primeiro momento de emancipação, a tarefa principal das ciências naturais seria o domínio das questões mais imediatas. Mesmo considerando o que já havia como conhecimento científico, era necessário recomeçar tudo desde o princípio. Isto é, das ciências naturais mais elementares, a astronomia e a mecânica, ou ciências dos corpos celestes e terrestres, e da criação e aperfeiçoamento dos métodos matemáticos, necessários à solução dos problemas relacionados com o conhecimento astronômico e mecânico. Não foi um caminho fácil. 133 Q Tomo01.pmd 133 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A explosão espiritual Alguns exemplos da expansão, no início dos anos 1500, dos conhecimentos e da busca de solução para os problemas relacionados com a astronomia e a mecânica, são pouco conhecidos. Um é o de Luis Nuñez Coronel (? – 1531) que, em 1511, enunciou o processo de perda gradual da velocidade na trajetória de um corpo. Outro é o de Jorge Agrícola (1494-1555), que realizou estudos sobre mineralogia e metalurgia. Eles são uma evidência de que, nesse período final da Idade Média, muitas áreas do conhecimento haviam avançado na reunião de dados empíricos e na elaboração de teorias a respeito deles. Philipp Von Hohenheim, ou Paracelso (1493-1541), por exemplo, reformou a medicina e a química e anunciou que a vida tinha fundamentos físico-químicos. Miguel Servet (1511-1553) descobriu a circulação sanguínea, ato considerado crime pelos calvinistas, que o condenaram à morte pela fogueira. Sua descoberta foi confirmada e sistematizada, menos de cem anos depois, por William Harvey (1578-1657). Outro que avançou além de seu tempo e pagou caro por isso foi Giordano Bruno (1548-1600). Ele ampliou o sistema de Copérnico para todo o universo, considerando-o material e infinito, e sem ponto central. Isto, que hoje poderia representar apenas um ponto de vista polêmico sobre o cosmos, levou a Inquisição Católica a mandar queimá-lo na fogueira. Apesar disso, vários outros homens dessa época foram se destacando nos diversos campos do conhecimento e fazendo as ciências avançarem e se diversificarem. Na matemática, esse avanço teve início com John Neper (1559-1617). Considerando que todos os números podiam ser escritos sob a forma exponencial, ele simplificou a multiplicação e a divisão através da soma ou subtração dos expoentes, facilitando os cálculos mais complexos. Q 134 Tomo01.pmd 134 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Dedicou muitos anos de sua vida criando fórmulas exponenciais das expressões trigonométricas, utilizadas principalmente na astronomia e na navegação, o que resultou na criação dos logaritimos. Suas tábuas logaritimicas exerceram grande impacto sobre as ciências de então, sendo comparadas, por muitos, aos computadores modernos. Galileu, por seu lado, apesar das pressões papais e de sua aparente subordinação a elas, chegou à conclusão de que o homem poderia compreender o funcionamento do universo através da observação do mundo real, e não das escrituras sagradas. Foi um dos primeiros a defender a teoria de Copérnico, de que os planetas giravam em torno do Sol. E não voltou atrás em sua suposição de que a Terra se movia num movimento rotativo, embora tenha sido obrigado a calar-se. Galileu também demonstrou que o efeito real de uma força consistia em mudar a velocidade de um corpo, e não apenas em colocá-lo em movimento. Portanto, sempre que um corpo não estivesse sob o efeito de alguma força, ele permaneceria em movimento, numa linha reta, desenvolvendo a mesma velocidade. Galileu já intuía que o movimento era um estado intrínseco à matéria. Em sua obra Duas Novas Ciências estabeleceu as bases da física clássica moderna. Kepler foi beneficiado em suas pesquisas pelos inumeráveis dados das observações astronômicas de Tycho Brahe (1546-1601), que fundou o primeiro observatório astronômico europeu e descobriu a supernova Cassiopéia. No entanto, em oposição à cosmologia ptolomaica que Brahe abraçava, Kepler comprovou e corrigiu a teoria heliocêntrica de Copérnico, ao descobrir que as órbitas planetárias não eram circulares, mas elípticas. Embora conservando o Sol estático, elaborou as leis do movimento planetário. Segundo tais leis, as órbitas dos planetas são elipses, nas quais o Sol ocupa um dos focos; as áreas cobertas pelo raio vetor que une o Sol ao planeta são proporcionais ao tempo; e os quadrados dos tempos das revoluções siderais dos planetas são proporcionais aos cubos dos grandes eixos de suas órbitas. Descartes foi outro que se debruçou sobre tais problemas, definindo as leis de reflexão e de refração da luz, na interface de dois meios. Juntamente com Pierre Fermat (1601-1665), criou a geometria analítica, uti135 Q Tomo01.pmd 135 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 lizando os métodos algébricos no estudo das curvas. Isto permitiu o aparecimento da idéia da equação de uma curva e do cálculo infinitesimal, que examina as propriedades que variam de um ponto a outro da curva. Ou seja, Descartes introduziu a variabilidade na matemática, algo até então considerado inconcebível. Mas Descartes não entendia por que os gregos antigos chamavam de mecânicas e não de geométricas as linhas simples e compostas das construções. Parecia desconhecer, ou não ter em conta, o escravismo grego, que criara um abismo entre a geometria, como ciência de sábios e homens de bem, e a mecânica e a construção, como arte e trabalho de escravos. Porém, para mostrar que o antigo sistema mercantil, ainda praticado pelo Estado inglês, não mais correspondia ao novo sistema mercantil praticado pela burguesia comercial nascente, Thomas Mun (1571-1641) deu à luz A Discourse of Trade, o primeiro trabalho de economia representativo dos interesses dessa nova classe social. Evangelista Torricelli (1608-1647), dedicado às obras hidráulicas e ao movimento dos fluídos, agregou novos conhecimentos às descobertas de Galileu e, com isso, fez com que a física começasse a separar-se da química. Mais tarde, Robert Boyle (1627-1691) completou esse processo. Em 1661, ao lançar seu livro O Químico Cético, e rejeitar a teoria aristotélica dos quatro elementos, ele apresentou as leis que governavam o movimento dos gases, propôs a noção de elemento químico, reconheceu o papel do oxigênio na combustão e na respiração e lançou os fundamentos da química como ciência. Os estudos ópticos avançaram ainda mais. Francisco Grimaldi (16181663) descobriu os fenômenos da interferência e da difração da luz, e sustentou a hipótese da sua curvatura. Christian Huygens (1629-1695), fundamentou a teoria do movimento luminoso ondulatório, além de apresentar o primeiro tratado sobre o cálculo das probabilidades, inventar a ocular que elimina a aberração cromática, descobrir os anéis de Saturno e o período de rotação de Marte, e defender que o Sol era uma estrela como as que apareciam no firmamento. Olaus Rommer (1644-1710) descobriu que a luz não se propagava instantaneamente e envidou esforços para calcular sua velocidade, chegando a determinar que ela deveria ser superior a 210 mil km/seg. Q 136 Tomo01.pmd 136 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Baruch Spinoza (1632-1677) tomou como hipótese que o entendimento humano, desembaraçado dos preconceitos, podia chegar a um conhecimento total da natureza. Esta seria totalmente inteligível e explicável por si mesma, colocando de lado os mistérios divinos. Leibnitz inventou o cálculo diferencial e integral, para resolver problemas relacionados com o infinitamente pequeno e com os limites. Isto é, com variáveis que tendem a zero ou ao infinito, neste último caso tornando-se um ramo especial do cálculo infinitesimal. Os iniciadores das ciências clássicas, surgidas então, viviam o turbilhão das mudanças que ocorriam em todas as regiões européias. Mas foi na Inglaterra que a efervescência social e política, desconhecida da história anterior, fez com que as mudanças tomassem um rumo inesperado para a monarquia feudal, que parecia eterna. A guerra civil entre a burguesia e a coroa, de 1642 a 1648, levou à instauração da república, governada pelo parlamento, cujas decisões sobre o comércio externo colocaram em evidência os interesses da burguesia inglesa contra seus concorrentes espanhóis e holandeses. Embora a monarquia tenha sido restaurada em 1660, a crescente participação da burguesia no parlamento, agrupada no partido whig, acabou conduzindo à chamada Revolução Gloriosa, em 1688. Desde então, estabeleceu-se um acordo entre a burguesia e a nobreza inglesa, através da Declaração dos Direitos. A monarquia passou a ser constitucional, subordinada a uma Câmara dos Comuns, abrindo o caminho para substituir o sistema feudal por um sistema de livre comércio, no qual estaria incluída a liberdade dos desprovidos de qualquer propriedade venderem sua força de trabalho no mercado. Com isso, a Inglaterra completava um caminho histórico próprio de transformação de seus campos agrícolas em campos de pastagens de ovelhas, expropriação de milhões de camponeses de suas terras e outros meios de produção, e acumulação de riquezas monetárias imensas, provenientes tanto do tráfico negreiro, quanto das pilhagens praticadas por seus navios piratas. Criara, portanto, as condições para combinar sua riqueza monetária com a disponibilidade da força de trabalho dos expropriados. Em outras 137 Q Tomo01.pmd 137 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 palavras, no final do século 17, a burguesia inglesa já criara as condições para começar a implantar o modo capitalista de produção, só faltando chegar ao domínio do poder político e transitar da manufatura, que tomara um impulso considerável, para a indústria. Assim, não foi por acaso que Wiiliam Petty (1623-1687), o fundador da economia política moderna, analisou a grandeza do valor das mercadorias, em 1662, em seu Treatise on Taxes and Contributions, concluindo que tal valor decorria do trabalho. Pierre Boisguillebert (1646-1714), John Law (1671-1729), Locke e Dudley North (1641-1691) foram outros que trilharam o caminho aberto por Petty, no final dos anos 1600, preparando o terreno para os futuros pesquisadores da economia política das sociedades burguesas. Ao lado desse ambiente de transformações econômicas, sociais e políticas, em especial na Inglaterra, os conhecimentos reunidos nos diversos campos da investigação permitiram um novo salto na filosofia natural. Este salto foi inicialmente empreendido por Newton, que introduziu na óptica a noção de frequência das ondas luminosas, construiu o primeiro telescópio de reflexão, produziu a teoria do cálculo infinitesimal, independentemente de Leibnitz e, em 1687, formulou uma lei para descrever o que chamou de força de gravidade universal. Tendo por base a inércia, e a proporcionalidade entre força e aceleração, e entre ação e reação, estabeleceu que todo corpo atrai outro com força proporcional à massa de cada um. Ele também estimou que quanto mais afastados estivessem os corpos, menor seria essa força gravitacional. E, ao contrário de Aristóteles, afirmou que não havia um padrão único de inércia. A não existência da inércia absoluta significaria, então, que não se podia atribuir a um evento uma posição absoluta no espaço. Todos os espaços estariam em movimento e a inércia seria relativa. Mas, da mesma forma que Aristóteles, Newton considerava que o tempo e o espaço eram apenas o cenário cósmico inerte, sem história, no qual os fenômenos do universo eram exibidos. Newton também acreditava num tempo absoluto, no sentido de que seria possível medir o intervalo de tempo entre dois eventos, desde que se usasse um relógio preciso. Nessas condições, o resultado seria o mesmo em qualquer local do espaço. Hoje se sabe que a medição do tempo na base de uma montanha Q 138 Tomo01.pmd 138 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR é diferente de sua medição no pico da mesma montanha. Feymann alertava que quanto mais se sobe no campo gravitacional, mais rápido o relógio anda, e quanto mais intensa for a gravitação, mais lentamente andarão os relógios. Espaços diferentes, tempos diferentes. O que é ainda mais evidente para objetos que se desloquem à velocidade da luz. Além de supor o tempo fora de sua relação com o espaço, Newton o colocou num pedestal divino, do mesmo modo que Aristóteles, a ser manuseado absolutamente por um deus. Esta questão se tornou chave na discussão da história, em particular da história da origem do universo, como teremos ocasião de ver mais adiante. Mais tarde, em sentido oposto a Newton e a Aristóteles, muitos cientistas tornaram absoluta a relatividade do tempo, ao comprovar que espaço e tempo estão em relação permanente. Desconsideraram que a relatividade diz respeito a tempos e espaços relativos, mas não à sua presença no universo. Neste, o tempo é absoluto, no sentido de estar em todos os espaços, como mudança e história. Esta confusão conceitual entre o absoluto e o relativo permanece ainda hoje, nos diferentes campos científicos e na filosofia. Com a elaboração de sua lei de gravitação universal, que depois se mostrou ser apenas a lei de gravitação planetária solar, Newton precisou explicar que a atração entre as estrelas as levaria a cair juntas em algum ponto, se houvesse um número finito delas, distribuídas sobre uma região finita do espaço. Para livrar-se dessa contradição, argumentou que, com um número infinito de estrelas, distribuídas mais ou menos uniformemente num espaço infinito, aquela colisão estelar não ocorreria porque não haveria qualquer ponto central onde elas pudessem cair. Assim, não deixa de ser irônico que Newton tenha tido que apelar para um universo infinito, de modo a evitar que a atração universal de sua teoria da gravitação levasse à colisão geral das estrelas. De qualquer modo, após Newton haver apresentado suas teorias gravitacionais, os conhecimentos sobre outros campos científicos avançaram rapidamente, embora sem relação direta com as teorias newtonianas. Um sinal claro de que amadureciam as condições para elaborar as teorias sobre os conhecimentos empíricos acumulados nos séculos anteriores. 139 Q Tomo01.pmd 139 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Multiplicaram-se pequenas e grandes descobertas, como resultado de experimentos práticos, alguns estapafúrdios, como as tentativas de produzir ouro a partir do chumbo. Edmund Halley (1656-1742) foi o primeiro a sugerir a idéia do movimento próprio das estrelas. Ele calculou as diferenças existentes nos dados sobre três estrelas, levantados tanto por Hiparco de Nicéia, entre 160 e 125 a.c., quanto por John Flamstead (1646-1719), e deduziu que as diferenças estavam relacionadas não a erros, mas ao movimento daqueles corpos celestes. David Hume (1711-1776) preconizou o empirismo, defendendo que as ideias nasciam das sensações. A finalidade da existência humana, a realidade do mundo exterior, e qualquer deus, não passariam de crenças. Paralelamente a essas especulações filosóficas, a mecânica dos líquidos deu seus primeiros passos para responder aos problemas relacionados com as águas servidas e com o abastecimento de água potável para as cidades. Daniel Bernouilli (1700-1782) fundou a hidrodinâmica, enunciando a conservação da energia mecânica no escoamento de um fluido. Também avançou nos estudos da teoria cinética dos gases e deixou um tratado sobre as marés. E Leonhard Euler (1707-1783), além de elaborar as equações gerais da hidrodinâmica, aplicou-se na elaboração de tratados matemáticos sobre as funções, sobre os cálculos diferencial, integral e infinitesimal, e sobre a análise do movimento. Charles de Coulomb (1736-1806) apresentou suas experiências sobre a atração e a repulsão das cargas elétricas e das massas magnéticas. E explicou a tendência de concentração de carga na superfície de condutores e o efeito de blindagem elétrica produzida por condutores ocos, além de introduzir a noção de momento magnético. Luigi Galvani (1737-1798) demonstrou que os animais também produziam eletricidade. Alessandro Volta (17451827) já havia inventado o eletroscópio e outros instrumentos elétricos, quando começou a polemizar com Galvani e tentar demonstrar que a eletricidade era apenas resultado da aproximação entre metais. Galvani estava com a razão, mas Volta acabou por inventar a pilha elétrica. Antoine Lavoisier (1743-1794) definiu a matéria pela propriedade de possuir massa e defendeu sua teoria da combustão orgânica do carbono e do hidrogênio como fonte do calor animal. Através da calcinação do Q 140 Tomo01.pmd 140 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mercúrio identificou o oxigênio e o nitrogênio do ar, estabeleceu o conceito de elemento químico e esclareceu o processo de oxidação dos metais. E apresentou sua teoria de conservação da energia. Frederic Bessel (1784-1846), por seu turno, descobriu que as estrelas Sirius e Prócion descreviam, além do movimento comum, uma trajetória ao redor de um corpo escuro, numa época em que ninguém supunha ainda a existência de buracos negros ou estrelas apagadas. Na química e na biologia, o processo de descobertas e invenções andou mais vagarosamente nesse período. Os espermatozóides foram conhecidos em 1677. Os sais de prata começaram a ser decompostos a partir de 1727. O nitrogênio, o oxigênio e o gás metano passaram a ser conhecidos entre 1774 e 1784. O cimento foi produzido, pela primeira vez nesse mesmo período. E Henry Cavendish ((1731-1810), ao detectar o hidrogênio, fez a primeira análise precisa do ar. Além disso, conseguiu combinar nitrogênio e oxigênio pela ação de faíscas elétricas. No final dos anos 1600, estimulado por Leibnitz, Denis Papin (16471714) conseguiu criar máquina idêntica à fabricada, em 120 a.c., por Heron de Alexandria. Ele inventara uma máquina posta em movimento giratório por meio do vapor emitido pela água fervente. Papin introduziu o uso de cilindros e pistões. Logo depois Thomas Savery (1650-1715) e Thomas Newcomen (1663-1729) também inventaram máquinas parecidas. Mas foi James Watt (1735-1815) quem deu o toque final na criação da máquina a vapor, ao inventar o condensador separado, em 1781. Com o invento da máquina a vapor estavam dadas as condições técnicas não apenas para revolucionar as transmissões e os transportes mecânicos, mas também para dar impulso à mecânica dos gases. O domínio desta, mais de cem anos depois, em 1888, permitiria aproveitar os avanços na metalurgia para construir a turbina a vapor, de constituição bem mais complexa. Todos os avanços científicos da mecânica e da física dessa época foram facilitados, tanto pela invenção de máquinas e instrumentos práticos, que demonstravam a existência e a ação de leis naturais, quanto de equipamentos técnicos que possibilitavam o estudo dos fenômenos da natureza. Entre 1590 e 1796, foram inventados o microscópio simples, a lente 141 Q Tomo01.pmd 141 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 astronômica, a máquina de calcular, o barômetro de mercúrio, o relógio de pêndulo, o manômetro, o lápis, a máquina multiplicadora, o telescópio de espelho plano, a marmita a vapor, a impressão em tricomia, o termômetro de mercúrio, o pararaios, a escala centígrada de temperatura, a máquina de fiar, a máquina a vapor, o primeiro veículo a vapor, a campânula de imersão, o globo aerostático, o procedimento de pudlagem, pudelagem ou descarburização do ferro, o aço fundido, o tear mecânico, a prensa hidráulica e a litografia. Paralelamente, desde meados do século 18, crescera consideravelmente a quantidade de dados e materiais botânicos e zoológicos, incluindo descrições anatômicas, fisiológicas, geográficas e climáticas pormenorizadas de plantas e animais. O uso do método comparativo e os progressos da paleontologia tornaram possível a investigação biológica mais minuciosa das colônias européias nos diversos continentes. E o microscópio possibilitara a descoberta de célula. Lineu, em sua Filosofia Botânica, de 1750, fez uma ampla classificação dos materiais botânicos e zoológicos e chegou a identificar novas espécies, produzidas por outras, mais antigas. Porém, foi incapaz de tomar esse dado como significativo do processo histórico de evolução e transformação. Antoine Baumé (1728-1804), por sua vez, continuava acreditando que o Criador utilizara a vegetação como primeiro instrumento para colocar a natureza em ação. Apesar disso, sustentou que a harmonia natural estava indicada, em grandes linhas, nas trocas químicas da vegetação, um avanço considerável para conhecer os processos internos desses seres. No mundo humano, o desenvolvimento da indústria capitalista fez com que, bem antes de Marx, Adam Smith defendesse a tese de que a fonte de toda riqueza era o trabalho. E Ricardo desenvolvesse a teoria de criação e determinação do valor pelo trabalho, explicasse os mecanismos de formação da taxa média de lucro e descobrisse o processo de formação da renda diferencial da terra. Com isso, ambos deram impulso à economia política, tentando explicar as contradições que o capitalismo aguçava dentro de cada uma das nações existentes, e entre elas. Contradições que, já em 1776, fizeram com que o mundo fosse abalado pela independência dos Estados Unidos e, em 1789, pela revolução Q 142 Tomo01.pmd 142 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR francesa. A revolução americana cortou as amarras da colônia com o império britânico, forçando este a procurar outras regiões de onde extrair matérias primas para sua indústria. Ao mesmo tempo, colocou a jovem nação no caminho forçado da industrialização, para aproveitar a abundância de terras agrícolas numa situação de escassez de força humana de trabalho. A revolução francesa liquidou o feudalismo e a monarquia e instaurou a república democrática, um sistema político no qual a burguesia detinha os mecanismos principais de poder. Por ironia da história, coube à revolução francesa abalar, pelas armas, o domínio feudal sobre a Europa continental, e permitir à Inglaterra o principal papel no desenvolvimento das novas técnicas de produção. Foi sob o impacto desses acontecimentos, e diante de uma massa enorme de conhecimentos empíricos e teóricos, que Kant escreveu suas obras filosóficas. Na opinião de Engels, ele sintetizou todos os conhecimentos então presentes e marcou uma nova etapa no desenvolvimento do conhecimento humano posterior. Abriu a primeira brecha na concepção imobilista da natureza, eliminou o impulso inicial e considerou a Terra e o sistema solar como algo que foi se formando no transcurso do tempo. Em 1791, pouco após a revolução francesa, e pouco antes que o século 19 e a revolução industrial marcassem presença, Kant discutiu as questões levantadas pelas teorias de Newton, e as chamou de antinomias (contradições) da razão pura. Ele sustentou que o mundo não tinha começo no tempo nem limite no espaço. Justamente nisso consistia a antinomia, ou a contradição irredutível segundo a qual poderíamos provar tanto uma tese, quanto a sua contrária. Para Kant, a teoria de Newton, ao excluir o tempo e acreditar num universo que se movimentava no espaço, mas não no tempo, sendo essencialmente estático e imutável, isto é, sem história, colocara sua lei da gravidade fora do universo, e tirara a Terra da história universal. Com isso, Kant deu historicidade à Terra, ao sistema planetário e ao universo. E deu partida a toda a discussão posterior a respeito da história e do método histórico, embora os homens de ciência de sua época, e também depois, tenham dado pouca atenção a esse aspecto de sua obra. 143 Q Tomo01.pmd 143 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Em História Natural e Teoria Geral sobre o Céu, Kant defendeu a tese de que o mundo tivera origem no seio de uma nebulosa. Para ele, tanto a Terra, quanto o sistema solar e o resto do universo, haviam se formado no transcurso do tempo. Todos, a partir de uma massa gasosa muito tênue, que possuía um movimento giratório como resultado da contração de si mesma. A teoria da gênese dos mundos atuais pela rotação das massas nebulosas foi o maior progresso que a astronomia fez desde Copérnico. Pela primeira vez abalou-se a idéia de que a natureza não teria história no tempo. É evidente que Kant se contradisse ao dizer, ao mesmo tempo, que o mundo não tinha começo no tempo e que o mundo tivera origem no seio de uma nebulosa. Ele não tratou começo e fim como conceitos necessariamente ligados. Como disse Engels, a infinidade é, por si mesma, uma contradição prenhe de contradições. É contraditório, por exemplo, que uma infinidade se componha de quantidades finitas, como acontece na realidade. Por outro lado, Kant introduziu um conceito que só foi relativamente aceito no século 20. Isto é, que as formas essenciais de todo ser são o espaço e o tempo. Um ser fora do tempo é um absurdo tão grande quanto um ser fora do espaço. Quando Kant falava em nebulosa primitiva, o que ele pretendia dizer é que nela estava a origem dos corpos celestes existentes e que ela era, pelo conhecimento de sua época (1870), a mais antiga forma de matéria a que poderiam remontar. O que absolutamente não exclui que a matéria tenha atravessado, antes da nebulosa primitiva, uma série infinita de outras formas. Se a Terra era algo que se formara no tempo, então estava claro que seu atual estado biológico, geográfico e climático, suas plantas e animais deveriam, também, ter-se formado pouco a pouco. A Terra tinha uma história, não só no espaço, das coisas colocadas umas ao lado das outras, como também no tempo, das coisas sucedendo-se umas depois das outras. Engels se lastimava das obras de Kant não terem encontrado o eco que permitiria às ciências naturais prosseguirem nas investigações de suas hipóteses, o que lhes teria permitido um avanço muito mais rápido. Somente muitos anos depois, Laplace e Herschel retomaram as hipóteses de Kant e procuraram dar-lhes comprovação. Q 144 Tomo01.pmd 144 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Laplace argumentou que deveria haver um conjunto de leis científicas que permitiriam prever tudo que acontecesse, bastando que se soubesse o estado completo do universo num determinado momento, incluindo o comportamento humano. Criou, com isso, o determinismo moderno, sem se dar conta de que o estado completo do universo, num determinado momento, já não seria o mesmo no momento seguinte, se a mudança fosse inerente ao movimento universal. Herschel construiu telescópios e tornou-se um dos fundadores da astronomia estelar. Descobriu Urano e satélites de Saturno, além de observar mais de 250 nebulosas. Bem antes de Hubble, confirmou a fuga do sistema solar em direção a um ponto situado na constelação de Hércules. Ao estudar as estrelas duplas, comprovou que tal duplicidade se devia a um elo físico entre as estrelas, com seus movimentos realizando-se ao redor de um centro de gravidade comum, mais uma comprovação das leis de Kepler. Herschel também deu início à fotometria das estrelas e empenhou-se em descobrir os efeitos térmicos dos raios infravermelhos. Fez, ainda, uma catalogação meticulosa das posições e distâncias de um grande número de estrelas da Via Láctea, confirmando que a aparência desta galáxia podia ser explicada porque a maioria de suas estrelas se concentrava numa configuração irregular, a exemplo do que hoje se chama galáxia espiral. Segundo Engels, as descobertas de Laplace e Herschel, assim como outras, ulteriores, teriam dado razão a Kant. Elas teriam mostrado que as estrelas possuíam movimentos próprios e o espaço inter-estelar oferecia resistência ao movimento dos corpos. A análise espectral, por sua vez, teria mostrado a existência dos mesmos corpos químicos em todo o universo e a existência de massas radiantes. Hoje, em pleno século 21, a discussão sobre o meio do espaço interestelar continua intensa, e se sabe que os corpos químicos das estrelas estão nos demais corpos celestes, mas a recíproca não é verdadeira. A maioria dos corpos químicos que existem na Terra não está presente nas estrelas, justamente porque são criações históricas. Engels também supunha que, apesar de todos esses avanços no conhecimento, o problema de todos os filósofos naturais que deram surgi145 Q Tomo01.pmd 145 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 mento à ciência moderna foi que eles tinham como característica comum considerarem a natureza e os homens em estado invariável, embora teorizassem sobre diferentes formas de movimentos mecânicos. Comparados aos gregos e chineses clássicos, seus conhecimentos e dados empíricos eram muito mais avançados. No entanto, eram mais atrasados quanto à noção das mudanças e da variabilidade. Apesar disso, Engels acreditava que, quanto mais se aprofundasse a investigação das ciências da natureza, mais se desfaria o sistema rígido de uma natureza invariável. Àquela altura, já haviam aparecido diferentes espécies de plantas e animais que apontavam para seu surgimento como resultado de transformações de espécies anteriores. Haviam sido descobertos animais que desafiavam as classificações existentes, como o Lepidossirênio, peixe ósseo com escamas pequenas, nadadeiras em forma de filamento e pulmão com dois lóbulos, que habitam brejos. E foram encontrados organismos a respeito dos quais não era possível decidir se pertenciam ao reino animal ou vegetal. Desse modo, impunha-se cada vez mais um paralelismo entre a história do mundo orgânico, como um todo, e a história de cada organismo, em particular. Para Engels era significativo que, quase simultaneamente ao ataque de Kant à eternidade do sistema universal, Wolff tivesse lançado, em 1759, o primeiro torpedo contra a invariabilidade das espécies, e proclamado a teoria transformista. Isso que pareceu uma antecipação genial, teria tomado forma consistente com as obras de Lorenz Oken (1779-1851), Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) e Karl Baer (1792-1876) e, cem anos depois, com Darwin. Mas, Louis Agassiz (1827-1873) continuava aferrado à idéia de que Deus partira do geral para o particular, criando primeiro o vertebrado e, logo depois, o mamífero, o animal de presa, o gato e, finalmente, o leão. Ernest Haeckel (1834-1919), ao contrário, defendeu com vigor a teoria darwinista. Nesse sentido, lembrou que Wolfgang von Goethe (1741-1832) havia concluído, por dedução, que o homem não tinha, normalmente, um osso pré-maxilar, mas que deveria tê-lo. Essa dedução era incorreta, porque o osso pré-maxilar não era uma condição normal dos homens. No entanto, ela era relativamente correta, porque o osso pré-maxilar foi uma característica anatômica de hominídeos que antecederam ao homem. Q 146 Tomo01.pmd 146 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Oken deduziu, por abstração, a existência do protoplasma e da célula, mais tarde comprovada como correta. Porém, indo mais longe no processo dedutivo, ele afirmou que apenas o pensamento seria capaz de resolver tal assunto, o que se mostrou totalmente incorreto quando o microscópio permitiu enxergar tanto o protoplasma quanto a célula. Depois disso, verificou-se que o protoplasma e a célula, já apontadas como as formas primárias de todos os organismos, existiam com vida independente, como as bactérias. Desse modo, eliminou-se uma das principais dificuldades que se opunham à teoria da transformação progressiva dos organismos. Conformava-se uma nova concepção da natureza, segundo a qual tudo que era rígido tornava-se flexível, tudo que era fixo era posto em movimento, tudo tido como eterno passava a transitório. A natureza se movia em fluxo e circulação, como supunham os fundadores das filosofias grega e chinesa. Tudo que, entre gregos e chineses, fora intuição genial, como um eterno vir a ser e desaparecer, uma corrente incessante, em incansável movimento e transformação, desde então tornou-se resultado de investigações científicas. Com base nisso, Engels deduziu que a química já demonstrara a validade de suas leis, quer em relação aos corpos orgânicos, quer em relação aos inorgânicos. Ela teria transposto o abismo que continuava a existir, mesmo depois de Kant, entre a natureza orgânica e a inorgânica. O que o levava a acreditar que as conexões entre as ações químicas e as ações elétricas conduziriam a importantes resultados em ambos os campos de investigação. Em 1939, Haldane achou surpreendente que Engels, ao escrever suas anotações sobre a dialética da natureza, tenha antecipado muitos dos progressos posteriores das ciências. Exemplos desses progressos puderam ser constatados nas teorias iônica de Svante Arrhenius (1859-1927), eletrônica de Joseph Thomson (1856-1840), e radioativa de Ernest Rutherford (1871-1937), que revolucionaram a física. Haldane supôs que, se o método dialético fosse mais familiar, a evolução das idéias sobre a física e sobre o darwinismo teria sido menos trabalhosa, e teria poupado uma certa quantidade de raciocínios confusos, inclusive a ele, que era biólogo. Infelizmente, as características apontadas por Engels como entraves ao avanço das ciências ainda hoje estão presentes. Isto, embora todos os 147 Q Tomo01.pmd 147 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 homens de ciência de seu tempo, e os que os seguiram depois, tenham se confrontado com o incessante desenvolvimento do processo produtivo e da indústria, que a toda hora apresenta uma intensa variabilidade. Durante os séculos 18 e 19, os homens haviam acelerado a construção de coisas novas, a partir das necessidades práticas e através de tentativas e erros. Fabricavam fornalhas, engenhos, carruagens, iluminação a betume e gás, espingardas, canhões, sem ter qualquer noção das leis naturais. Essa foi a época da subversão capitalista do mundo. A Europa ingressara na tempestade das mudanças sociais, políticas e militares. Napoleão comandara as tropas francesas, derrubando monarquias e tentando criar um império burguês no continente europeu. Os ingleses, por seu turno, ingressaram na revolução industrial, com a invenção da máquina a vapor, a criação do tear e das transmissões mecânicas, e a transição da manufatura para a indústria. Criaram núcleos fabris e disseminaram o trabalho assalariado. O artesanato, as pequenas vilas e os lavradores independentes foram substituídos por produtos industriais, vilas operárias e assalariados agrícolas. Surgiram novos métodos de construção de estradas, para agilizar o transporte e o comércio. A população passou de 7,8 para 14,3 milhões, entre 1750 e 1820, mas o mercado interno inglês não cresceu na mesma rapidez de seu desenvolvimento industrial. Assim, além de precisar de mercados externos onde vender seus produtos industriais, a Inglaterra necessitava de matérias primas que não possuía em seu território. Essas necessidades a obrigaram a confrontar-se com os franceses, em especial quando estes realizaram a revolução e ingressaram no mesmo processo de desenvolvimento capitalista. De traficante de escravos a Inglaterra transformou-se em seu oposto, combatendo o tráfico e pressionando países a liquidarem o escravismo colonial. Nesses países, ela precisava de homens livres, que vendessem sua força de trabalho e consumissem produtos industriais, para reproduzir-se como produtores de matérias primas. Para realizar essa missão, criou a ideologia da superioridade dos homens brancos e lançou as bases de sua política imperial colonialista. A França não só entrara resolutamente na produção capitalista e abalara os regimes feudais europeus, como também se jogara na constituição de um império colonial, concorrendo com a Inglaterra na dominação de Q 148 Tomo01.pmd 148 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR novos territórios, zonas de matérias primas, rotas comerciais e mercados para seus produtos industriais. O capitalismo promoveu, então, a segunda onda de globalização moderna, disputando entre si a submissão de regiões da África, Ásia e Américas, como colônias e semi-colônias. Transformou-as em produtoras de matérias primas agrícolas e minerais, e consumidoras de produtos industriais. Com isso, abriu campo para o desenvolvimento econômico e social europeu, às custas da predação dos povos submetidos, ao mesmo tempo em que era obrigado a estimular o desenvolvimento do conhecimento científico. Máquinas, indústrias e comércio empurravam os homens de ciência a explicar teoricamente os conhecimentos empíricos que se acumulavam à sua volta. E abriam caminhos inusitados para conhecer a natureza e os próprios homens. 149 Q Tomo01.pmd 149 11/28/2013, 11:46 PM Caminhos das ciências Tomo01.pmd 151 3 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apresentação Este é o terceiro volume da série A Dialética da História. No primeiro, Sinfonia Desencontrada, tratei da contradição do conceito da história como história humana e, ao mesmo tempo, como história da mudança no tempo. No segundo volume, Redescobrindo o Mundo, procurei discutir a esperança de que os progressos das ciências e o conhecimento das leis de transformação tornariam os homens capazes de prever e controlar as conseqüências futuras das atividades produtivas, evitando os danos até então causados à natureza e a si próprios. Neste terceiro volume, Caminho das Ciências, procuro examinar o caminho trilhado pelas diversas ciências. Levei em conta, em especial, que essas manifestações de progresso humano, com o tempo, passaram a se apresentar apenas como produtos do cérebro. As criações mais modestas da mão trabalhadora, ao contrário, desceram a segundo plano, acompanhando o fato de que as cabeças que planejavam podiam executar o trabalho através de outras mãos. Além disso, como tem acontecido a todos os campos do pensamento, ao chegarem a uma determinada fase de desenvolvimento, as leis abstraídas do mundo real se vêem separadas desse mundo do qual nasceram. Passam a ser consideradas como algo à parte, como leis vindas de fora e às quais o mundo deveria se ajustar. Os homens acostumaram-se a explicar seus atos como resultado exclusivo de seus pensamentos e de suas vontades. No entanto, o pensamento consiste, primeiro, em decompor analiticamente os objetos, representados na consciência através dos sentidos. Depois, em unir, ou sintetizar numa unidade os elementos descobertos durante a análise. Sem esta análise não há síntese. Dizendo de outro modo, os fatos e os atos se refletem no cérebro através dos sentidos. O cérebro processa as informações recebidas e as transforma em pensamento, formando a consciência. Q 152 Tomo01.pmd 152 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Por exemplo, tomemos um conjunto de objetos, detectados por nossos sentidos, que pretendemos simplesmente contar. Em nossa análise podemos e devemos prescindir de todas as demais qualidades deles, com exceção da qualidade de serem contáveis. Para saber quantas laranjas, ou cães, ou outro ser ou objeto qualquer diante de nós, não precisamos saber se a laranja é comestível e suculenta, ou se os cães ladram e são ferozes. Precisamos apenas contá-los um a um, sintetizando a análise num número que represente a soma dois, cinco, ou outro qualquer. O mesmo acontece com o conceito de figura. Ele foi tomado do mundo exterior. Não surgiu no cérebro de ninguém por obra e graça da pura especulação. Para que tal conceito pudesse surgir, tiveram que existir objetos que apresentassem formas que podiam ser comparadas entre si. Assim, para investigar essas formas e relações em toda a sua pureza foi necessário desligá-las completamente de suas outras qualidades, ou de seu conteúdo. O que interessava era sua forma. Seu conteúdo podia ser deixado de lado como indiferente. A síntese dessa análise resultou nos pontos sem dimensão, nas linhas sem largura e espessura, e em outros conceitos abstratos sobre a figura. Tal capacidade de prescindir, ou abstrair-se, da maior parte das qualidades de um objeto ou ato, para concentrar-se naquela que é necessário explicar, tem sido fruto de um longo processo histórico de conhecimento empírico. Quanto mais os homens foram levados a investigar ou analisar cada uma das qualidades, condições e relações existentes no mundo, mais eles se viram diante da contradição de abstrair-se das qualidades, condições e relações externas e, também, de várias das qualidades internas, para descobrir, em sua pureza, aquela qualidade que lhe interessava. Para agravar ainda mais essa contradição, os homens viram-se também diante da hipótese de jamais poderem resolver por completo os problemas colocados diante de si. A natureza dinâmica e mutável do sistema universal e dos próprios homens os coloca constantemente diante de novos problemas, cuja solução tem sido permanentemente incompleta. Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, os seres humanos viram-se acicatados a uma busca incansável para acumular conhecimentos sobre a natureza e sobre si próprios. O que os levou ao surgimento e ao desenvolvimento histórico das ciências. 153 Q Tomo01.pmd 153 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Muitos cientistas tentam explicar os fenômenos a partir de teorias préestabelecidas, ao invés de extrair as teorias dos fenômenos reais. Grande parte deles não consegue entender que a natureza, incluindo aí tanto a natureza inanimada, quanto a natureza viva e a sociedade humana, se move a partir de suas contradições internas, e da relação de tais contradições com as contradições externas que interferem no seu desenvolvimento histórico. E enfrentam dificuldade ainda maior quando se trata de entender como a natureza resolve os dilemas de suas contradições. Nessas condições, a matéria das ciências tem consistido em demonstrar, uma a uma, as transições e conexões na cadeia da existência do universo, e dar uma explicação aos dilemas que essa existência coloca diante da humanidade, num processo infinito. Paradoxalmente, embora o método de solução de dilemas matemáticos venha sendo praticado há muito, grande parte dos cientistas não consegue enxergá-lo claramente na vida prática e na ação da natureza. Por exemplo, ao tomarem dois números inteiros, m e n, entre os quais n é diferente de zero e m não é divisível por n, os matemáticos se encontram diante de um dilema, já que a operação m/n nega a existência do quociente. Esse dilema é hoje resolvido por qualquer criança de curso primário, que escreve a operação como um número fracionário. Ou seja, mesmo sem ter consciência do que se trata, a criança nega a negação do quociente e constrói um novo número. Isto, que hoje faz parte da vida corrente, foi um dilema intransponível para Pitágoras e seus alunos. Depois deles, passaram-se séculos até que essa negação da negação fosse realizada pelo pensamento e permitisse solucionar o dilema, criando um novo campo numérico. A continuidade tem sido outro problema importante das ciências, sendo entendida como uma variação que ocorre por gradações insensíveis. Em qualquer fenômeno em que ocorram tais variações, temos continuidade, como é o caso da linha reta. Apesar dessa conclusão aparentemente banal, Zenão de Eléia a transformou num mistério que perdurou por mais de dois mil anos. Apenas em 1872, Richard Dedekind (1831-1916) conseguiu desvendá-lo, ao afirmar que todo ponto de reta determina uma decomposição da mesma em duas classes, de modo que todo ponto de uma reta está à esquerda da outra, ou vice-versa. Q 154 Tomo01.pmd 154 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Portanto, ao afirmar que cada ponto de uma linha reta produz um corte nela, Dedekind introduziu uma contradição nessa figura geométrica, cuja continuidade consiste em negar o ponto à esquerda para passar ao ponto à direita, transformando-o em ponto à esquerda, ou vice-versa, dependendo do sentido do movimento. Mistérios e dificuldades idênticos ocorreram e continuam ocorrendo com os problemas científicos. Alguns deles são os assuntos principais dos capítulos deste volume. No capítulo Dialética do Átomo, ressalto como o desenvolvimento econômico, técnico e social que, a partir de 500 anos atrás, fez surgir o capitalismo na Europa, conduziu ao aparecimento de novas ciências, como a geologia e a paleontologia, e elevou a novo patamar a astronomia, a mecânica, a física e a química. Todas elas deram emergência a fatos e teorias que abalaram profundamente as concepções de imutabilidade predominantes. Restabeleceram a noção de existência de diferentes formas de movimento da matéria e introduziram nas concepções sobre a natureza a divisibilidade da matéria em elementos e unidades mais simples e contraditórias, também divisíveis, como o átomo. No capítulo Tudo Periódico, continuo a discussão sobre a divisibilidade e a contradição dos átomos, incluindo a questão do volume e do peso atômicos, algo considerado inconsistente até o século 19. Na segunda metade desse século, foram descobertas a relação periódica entre os diversos elementos químicos, a radiação atômica e a existência de cargas elétricas no interior dos átomos, enquanto o elétron foi experimentalmente detectado. A suposição de indivisibilidade do átomo se tornou insustentável e criaram-se condições para descobrir os fenômenos que permeavam o campo entre a física e a química. As discussões a respeito continuaram até meados do século 20, embora não se possa afirmar que estejam totalmente esclarecidas. No capítulo Átomo Dividido aproveito a discussão sobre a divisibilidade do átomo para introduzir a discussão sobre o método na ciência. De uma parte, a questão do uso da abstração e do método lógico-dialético, como instrumentos de análise e síntese teóricas. De outra parte, a questão da prática e do método histórico-dialético, como instrumentos de comprovação das teorias. Essas questões envolvem todos os campos das ci155 Q Tomo01.pmd 155 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ências da natureza e das ciências sociais e continuam extremamente controversas. Finalmente, no capítulo A Dialética Quântica, procuro mostrar que aquilo que parece uma brincadeira dos átomos é, na verdade, um dos principais métodos da história para evoluir. A divisibilidade do átomo, com a descoberta das partículas atômicas, tornou-se uma verdade difícil de rejeitar. Apesar disso, o conceito de indivisibilidade tenta se transferir para os quarcks, considerados por alguns como as partículas elementares do universo. E, mais uma vez, a divisibilidade se apresenta não só com a descoberta de anti-quarcks, mas também do anti de cada uma das partículas quânticas já detectadas. Q 156 Tomo01.pmd 156 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR A dialética do átomo Durante os séculos 18 e 19, o capitalismo nascente intensificou o desenvolvimento econômico e social europeu, e começou a se espraiar pelo mundo todo, em busca de matérias primas e mercados. Viu-se, com isso, diante de situações históricas diferentes, e de uma feroz concorrência entre suas diversas potências industriais. Essa competição, em especial, estimulou o desenvolvimento tecnológico e, em conseqüência, o desenvolvimento do conhecimento científico. Naquela ocasião, segundo Engels, os conhecimentos científicos acumulados eram divididos em três grandes ramos. Primeiro, o das ciências que estudavam a natureza inanimada e podiam ser tratadas pelos métodos matemáticos. Isso incluía a matemática, astronomia, mecânica, física e química, naquela época tidas como exatas. Essa noção foi derrubada pela introdução das grandezas variáveis, do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, embora ainda hoje continue viva no senso comum. Depois, havia o ramo das ciências que investigavam os organismos vivos, como a zoologia, botânica e medicina. Elas já incluíam uma série tão diversa de ações, reações e casualidades recíprocas, que cada problema resolvido sempre fazia aflorar um sem-número de problemas novos. As supostas verdades definitivas, em geral, se transformavam numa floresta de hipóteses. E, terceiro, havia o ramo das ciências históricas, que investigavam as condições da vida humana em sua sucessão histórica e nos seus resultados. No século 20, com o aprofundamento dos conhecimentos sobre a natureza, observou-se uma divisão mais diversificada em cada um desses ramos e nas respectivas ciências. Ao mesmo tempo, a interação entre as diferentes ciências tornou-se cada vez mais evidente, embora muitos cientistas se negassem a reconhecê-la. E todas as ciências, apesar das resistências, começaram a ser tomadas como integrantes do ramo das ciências históricas. 157 Q Tomo01.pmd 157 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Foi nesse contexto que o capitalismo nascente, ao impulsionar a exploração mineral em quase todo o mundo, para uso na metalurgia, promoveu a investigação paulatina, mas firme, da geologia. Através dela, comprovou-se a existência de camadas terrestres, colocadas umas acima das outras, e formadas em eras diferentes. Nessas camadas foram descobertos restos de espécies animais e vegetais já extintas, dando surgimento a um novo campo científico, a paleontologia. Porém, reconhecer que tanto a Terra, quanto sua superfície, plantas e animais, eram o resultado de um prolongado processo histórico, tornouse um caminho apinhado de debates e controvérsias. Tomemos Cuvier como exemplo. Ele realizou pesquisas sobre as ossadas fósseis, fundou a paleontologia, e enunciou o importante princípio de correlação dos caracteres, que permite inferir, entre outras, a estrutura das patas de um mamífero a partir da dentadura. Apesar dessa contribuição, Cuvier foi um anti-evolucionista intransigente. Para explicar a existência das ossadas e das camadas geológicas, ele forjou a teoria dos cataclismos, que teriam assolado a Terra em diferentes épocas. Segundo ele, Deus não teria criado a Terra de uma só vez, mas praticado uma série de atos criativos e catastróficos. Contra as teorias de Cuvier, Charles Lyell (1797-1875) defendeu a hipótese da mudança gradativa da Terra, em virtude de causas físicas, como calor e erosão. Como disse Engels, Lyell substituiu as súbitas revoluções catastróficas, provocadas pelo capricho do Criador, por ações graduais de lentas modificações. Esta hipótese, apesar de suas limitações, se chocou contra a noção de espécies orgânicas imutáveis. A transformação gradual da superfície terrestre, e das condições de vida sobre a mesma, conduzia diretamente à transformação gradual dos organismos, e sua adaptação a esse meio que se transformava. Conduzia, pois, à variabilidade das espécies. Apesar disso, Lyell tomava como constantes, em quantidade e qualidade, as forças que atuavam sobre a Terra. Não levou em conta o esfriamento do planeta, supondo que a Terra se desenvolvia de um modo incoerente e casual. Embora tenha apoiado as teses de Darwin sobre a seleção natural, não atinou para as contradições de suas próprias hipóteses transformistas, nas quais introduziu fatores invariáveis. Q 158 Tomo01.pmd 158 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Vista com atenção, a geologia estuda uma série complexa de negações negadas. Há os desmoronamentos de formações rochosas antigas. Depois, a sobreposição de umas sobre outras. E, mais uma vez, a justaposição de novas formações. Essa sucessão pode ter começado quando a crosta terrestre primitiva, uma massa fluida incandescente em resfriamento, se fracionou pela ação de eventos oceânicos, meteorológicas e atmosféricas, formando matérias estratificadas no fundo dos mares. Ao emergir à superfície das águas, em certos pontos, essas matérias estratificadas se viram novamente submetidas à ação das chuvas, estações climáticas, substâncias químicas da atmosfera e bombardeamento de corpos extra-terrestres. Desse modo, as diversas camadas terrestres se formaram principalmente por brotamento, num contínuo processo contraditório em que eram submetidas tanto às pressões interiores, quanto a fatores externos. Flutuando sobre a massa fluída incandescente, no curso de bilhões de anos de existência da Terra, essas camadas se juntaram, separaram-se, se chocaram e atritaram-se em diferentes momentos, num processo contínuo. Essas descobertas sobre a história geológica da Terra resultaram de uma necessidade para atender ao turbilhão das mudanças econômicas no continente europeu. Mas levaram a geologia a carregar, em germe, desde seu nascimento, todas as contradições científicas, sociais e políticas que se digladiavam nas sociedades capitalistas emergentes. Contradições que, ao dar surgimento à paleontologia, se intensificaram e colocaram em tensão os corações e mentes dos pensadores da época, que supunham invariáveis os seres viventes. Essas tensões se elevaram ainda mais quando, em 1831, Hegel deu renascimento à dialética, tendo como núcleo principal justamente a idéia da contradição. As mudanças seriam inerentes ao movimento produzido pelos opostos ou contrários existentes. Estes se manteriam em unidade e movimento equilibrado enquanto sua atração e repulsão fossem equivalentes. No entanto, a tendência ao desequilíbrio se desenvolveria porque cada um dos pólos da contradição também possuiria opostos em movimento e em desenvolvimento. Ao alcançar um determinado ponto, a atração ou a repulsão se tornaria maior ou mais intensa que seu contrário, negando-o de forma conflituosa. 159 Q Tomo01.pmd 159 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A forma de resolver a contradição consistiria em negar aquela negação, o que poderia levar tanto à transformação da repulsão em atração, ou vice-versa, quanto à transformação numa contradição diferente da anterior, embora mantendo aspectos dela. Mudanças de uma forma de movimento em outra forma, e de uma quantidade (ou uma qualidade) em uma nova qualidade (e uma nova quantidade), seriam expressões do processo de solução de contradições. A relação e o movimento eram, pois, ao mesmo tempo, absolutos, por estarem em tudo, e relativos, por apresentar-se de modo diferenciado em cada fenômeno específico. Portanto, nada seria estático nem isolado. Tudo tinha algum tipo de movimento, com um tipo transformando-se em outro. Tudo estava relacionado, seja interna, seja externamente, nada existindo de forma isolada. Com isso, Hegel criou um método lógico-dialético que dava sentido histórico ao existente, explicando a origem e a natureza dos movimentos. Um dos problemas de Hegel é que ele supunha que as noções ou leis que estabelecera para explicar o movimento da matéria eram leis do pensamento, impostas à natureza e à história, ao invés de serem deduzidas da observação da realidade. Apesar disso, como disse Engels, Hegel arranjou as coisas, em centenas de pontos de suas obras, de maneira que os exemplos mais esclarecedores das leis dialéticas provinham da história da natureza e da história humana. Se invertermos seu método, tomando como ponto de partida a natureza e a história, veremos claramente que as leis dialéticas são leis de desenvolvimento da realidade. Uma das primeiras evidências de que o método lógico-dialético de Hegel tinha correspondência com a realidade foi a invenção da máquina a vapor, acompanhada das conseqüências de sua utilização. Durante os anos 1840, elas levaram Mayer, Joule e Grove a realizarem os estudos sobre o calor e a energia, que conduziram a física a um novo patamar. Grove demonstrou que, sob determinadas condições, todas as chamadas forças físicas podiam transformar-se umas nas outras. O calor podia transformar-se em energia mecânica, esta em energia elétrica, que por sua vez podia transformar-se em energia mecânica, luz, calor, magnetismo, ou em reações químicas, dependendo do meio que atravessasse. EsQ 160 Tomo01.pmd 160 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR sas transformações, sem perda alguma de energia, hoje fazem parte do estudo cotidiano de qualquer estudante do curso médio. Engels lembrou que a verificação prática da transformação do movimento mecânico em calor era coisa tão antiga que, a partir da mesma, se poderia estabelecer o começo da história da humanidade. Sejam quais forem as invenções de ferramentas, bem como a domesticação de animais e plantas que a tenham precedido, o fogo obtido por intermédio da fricção deve ter sido o processo pelo qual os homens, pela primeira vez, puseram a seu serviço uma força natural inanimada. Porém, o fogo por fricção é um processo unilateral. Para ser completo, seria necessário que ele pudesse se inverter. Isto é, que fosse possível transformar o calor em outro tipo de movimento. O que só foi resolvido praticamente através da invenção da máquina a vapor, na qual o calor é transformado em movimento mecânico. Generalizando, as diferentes energias físicas, que poderiam ser chamadas de espécies invariáveis da física, permaneciam unificadas como formas de movimento da matéria. Segundo leis determinadas, as diferentes formas de movimento passaram a ser consideradas transformáveis umas nas outras. Nesse momento, do mesmo modo que antes chegara a astronomia, a física alcançou um resultado que apontava, como princípio último, a matéria em movimento. Todas as diferenças qualitativas na natureza se baseavam, seja numa composição química diferente ou em diferentes quantidades de formas de movimento ou energia, seja em ambas ao mesmo tempo, como no caso da eletricidade. Portanto, seria impossível modificar a qualidade de um corpo sem lhe acrescentar ou retirar parte de sua matéria ou de seu movimento ou energia. Isto é, sem provocar uma mudança quantitativa no corpo. Por outro lado, a mudança de forma do movimento seria um processo que se realizaria sempre, pelo menos, entre dois corpos, um dos quais perderia determinada quantidade de movimento, seja na forma de energia mecânica, elétrica ou química. Quantidade e qualidade se corresponderiam, assim, em ambos os sentidos e reciprocamente. Se um corpo estivesse isolado, não se conseguiria, de forma alguma, transformar seu movimento de uma forma em outra. 161 Q Tomo01.pmd 161 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apesar dessas conclusões, a física, ou melhor, os físicos de então ingressaram numa frenética tentativa de unificar as leis físicas, desconsiderando justamente a matéria em movimento como o elemento unificador. Sequer levaram em conta que a química estava destruindo as velhas concepções da natureza, que encaravam os corpos físicos como quimicamente invariáveis ou indiferentes. O ponto de partida da ciência química foi o contato direto com a natureza, através de experiências numerosas e diversificadas. A observação das características físicas dos objetos que, para interagir, dependem de si próprios, ou da matéria que os constituem, levou à descoberta das substâncias. Isto, mesmo sem saber se, numa reação química, estávamos diante de uma análise ou de uma síntese. Esse fato demonstrou a relação da realidade com o método lógicodialético, ganhando força após as descobertas de Lavoisier, John Dalton (1766-1844) e Joseph Louis Proust (1754-1826). Através delas, comprovou-se que na síntese havia aumento de peso e, na análise, diminuição. A substância que colaborava em várias reações, sempre aumentando o peso das substâncias, passou a ser considerada elementar, ou um elemento. Passou-se a distinguir a singularidade dos elementos químicos e que as interações entre eles eram regidas por leis quantitativas. Através do uso de balanças, Lavoisier distinguiu as substâncias simples das compostas, descortinou o mecanismo da combustão, e descobriu a composição química do ar e da água. Proust verificou e demonstrou que, quando dois ou mais elementos químicos se combinam, as relações entre as massas dos elementos empregados são determinadas, não variando de modo contínuo, como nas misturas. Dalton comprovou que os átomos eram a unidade básica para a realização dos processos que envolviam mudanças na qualidade dos corpos ou substâncias de qualquer tipo. E apontou que os componentes químicos, combinados em determinadas proporções, poderiam ser explicados pelos agrupamentos de átomos. Hoje, todos concordam que átomos formam unidades inorgânicas, ou inanimadas, chamadas moléculas, e unidades orgânicas, ou animadas, chamadas células. E que uma substância química só pode ser designada em relação a um conjunto de reativos. Fora dessa relação, todas as classificaQ 162 Tomo01.pmd 162 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR ções se mostrariam imprecisas, como supunha Hegel. Por isso, os corpos compostos tinham que ser caracterizados pelos elementos simples que faziam parte deles. Por outro lado, os elementos simples só podiam ser caracterizados pelo papel que desempenhavam na síntese dos compostos, demonstrando uma relação intrínseca e dialética entre o todo e as partes. Em outras palavras, podemos dizer que a análise dos corpos compostos ou complexos permite conhecer as características dos elementos mais simples. O que pode ser um método geral para o conhecimento de todas as ciências. Se analisarmos uma substância particular isolada, não conseguiremos conhecê-la com exatidão. Este conhecimento só é possível se soubermos o lugar que tal substância ocupa no corpo complexo, ou na totalidade. Só assim podemos determinar sua origem e suas qualidades específicas, o que concorda plenamente com o método lógico-dialético. Foi por isso que os químicos se deram conta de que as características físicas, a exemplo da maleabilidade e da fluidez, não poderiam decidir a classificação das substâncias. Por elas, o mercúrio não poderia estar na classe dos metais. A idéia de composição química não podia mais ser confundida com a de mistura física, ou resultado da ação de forças externas, como antes pensavam alguns. Jons Berzélius (1779-1848), por exemplo, afirmava que todos os efeitos nasciam de causas ou eram produzidas por elas. As forças, semelhantes a desejos, eram postas em atividade, atingindo um estado de repouso, quando tais desejos fossem plenamente satisfeitos. A força mais uma vez aparecia para mascarar a ignorância. Pierre Berthelot (1827-1907) também achava que a afinidade química era uma força como as outras. Ao acrescentar que a química criava seu próprio objeto, ele a distinguia das ciências naturais e históricas, porque estas teriam um objeto fornecido de antemão e independentemente da vontade dos estudiosos. A química, por seu turno, como outras ciências experimentais, teria o poder de realizar seus planos, que seriam confirmados ou negados por meio da experimentação, sem relação com os objetos fornecidos de antemão. Ou seja, Berthelot acreditava que as ciências experimentais apenas perseguiam o estudo das leis naturais para criar fenômenos artificiais. E estes não passariam de conseqüências lógicas daquelas leis. 163 Q Tomo01.pmd 163 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Assim, da mesma forma que Hegel, Berthelot acreditava que a química resultava do pensamento puro, e não da realidade. Apesar disso, a partir da capacidade da química, desde o seu início, de se tornar uma ferramenta de produção de novas substâncias, ele intuiu corretamente o futuro das ciências. De instrumentos de conhecimento da realidade, elas deveriam transformar-se em forças produtivas, o que começou a se confirmar cerca de cem anos depois. É certo que os químicos do início do século 19 percebiam mal que as propriedades das substâncias eram rigorosamente determinadas. E ainda hoje há químicos supondo que tal determinação rigorosa depende das condições externas. Georges Urbain (1872-1938), por exemplo, chamava a atenção para o fato de que o potássio e o ácido sulfúrico reagiam violentamente à temperatura comum, mas permaneciam inativos quando aproximados um do outro à temperatura do ar líquido, que ferve entre menos 193 e menos 182 graus centígrados. O que mostra a possibilidade das condições externas influenciarem na reação, mas nada diz sobre as massas envolvidas. Hoje se sabe que elementos químicos, moléculas físicas e células orgânicas, que constituem as unidades de análise de compostos químicos, massas físicas e órgãos vivos, são composições de átomos de diferentes tipos. Tomemos como exemplo o oxigênio molecular, com dois átomos (O2). Ele ocupa um quinto do volume do ar que respiramos, onde se combina principalmente com o nitrogênio, e ocupa um oitavo do peso da água do planeta, onde se combina principalmente com o hidrogênio. O oxigênio molecular, ou simplesmente oxigênio, existe em estado livre na atmosfera e tem participação em quase todos os corpos que formam a crosta terrestre, assim como nas substâncias orgânicas vegetais e animais. Suas propriedades incluem forte eletro-negatividade, e grande poder de combustão. Praticamente todos os metais podem arder na presença do oxigênio, o que se conhece pelo nome de oxidação, formando outras substâncias. Quando nós inspiramos o ar, estamos oxidando as substâncias orgânicas que constituem nossos tecidos. No entanto, se associarmos um outro átomo de oxigênio (O) à sua molécula bi-atômica (O2), formando o ozônio (O3), teremos um gás de Q 164 Tomo01.pmd 164 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR cor azul, com cheiro forte e propriedades diferentes do oxigênio. Ao contrario deste, essencial para a vida, o ozônio é perigoso para a respiração humana. Seu poder oxidante e bactericida é muito mais intenso que o do oxigênio. Então, bastou acrescentar um átomo à molécula livre de oxigênio, para termos uma substância diferente. Um acréscimo na quantidade originou uma nova qualidade, conforme a previsão de Hegel. Da mesma forma que o oxigênio, o ozônio é produzido tanto pelas plantas verdes, quanto por reações fotoquímicas na alta atmosfera. Aqui, ele forma uma película, a cerca de 25 mil metros de altitude, a ozonosfera, que absorve os raios ultravioletas de certo comprimento de onda, e impede que eles atinjam o solo terrestre. Se a camada ou película de ozônio for destruída, a vida sobre a Terra, de qualquer tipo, corre perigo sério, em virtude do poder destrutivo dos raios ultravioletas sobre os compostos orgânicos. A interação, ou relação total entre os fenômenos é, portanto, uma evidência mensurável. No mesmo sentido, um corpo puro cristalizado e bem definido pode dar, por simples fusão, um corpo novo, também puro, cristalizado e perfeitamente definido. Mas este segundo corpo, por uma nova fusão, torna a dar uma certa proporção do corpo original. Ou seja, realiza um processo de reversão, ou aquilo que em filosofia dialética se chama de transformação em seu contrário. Em outros capítulos já mostramos como isso acontece com o mercúrio, por exemplo, o que fez os alquimistas da antiguidade acreditarem nas propriedades miraculosas daquele metal líquido. Esses são exemplos da complexidade da dialética da natureza. O ozônio é uma substância inorgânica, corrosiva e perigosa. Paradoxalmente, é produzido naturalmente por compostos orgânicos, as plantas verdes, quase da mesma forma que o oxigênio foi produzido por bactérias no passado remoto. E, do mesmo modo que o oxigênio, o ozônio é vital à manutenção da vida como um todo. É como se as plantas produzissem uma arma perigosa para protegê-las de um inimigo ainda mais implacável. Frente a essa contradição, a velha metafísica nos apresentaria a pergunta: bom ou ruim? Ao contrário dessa exclusão absoluta, a realidade lógico-dialética, por seu lado, nos diz que o ozônio é, ao mesmo tempo, bom e ruim, numa unidade de opostos. 165 Q Tomo01.pmd 165 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Todas as propriedades químicas são relativas. Há sempre necessidade de uma substância para revelar outra. A relação, ou interconexão, é absoluta. As substâncias só apresentam suas características químicas se estiverem em relação com outras substâncias. Além disso, para serem extraídas do estado composto, complexo e misturado em que ocorrem na natureza, as substâncias elementares necessitam realizar ações recíprocas com outras substâncias. Para extrair um elemento envolvido numa combinação é preciso oferecer-lhe outro corpo com o qual deve combinar-se de novo. Logo, um elemento só pode sair de uma combinação para entrar em outra. Em 1845, Augustin Laurent (1807-1853) dizia ser possível saber quando corpos diferentes têm a mesma estrutura, mesmo sem nada conhecer de sua estrutura, pelo simples fato das características mais importantes serem aquelas que os corpos apresentaram quando se formaram e se metamorfosearam. Os corpos compostos podem ser gerados por diversos processos e podem gerar outros corpos que não lhe são semelhantes. Todas as substâncias vegetais que passam pela destilação fornecem os mesmos princípios gerais: água, óleo, fleuma, terra etc. Por isso, Berthelot acrescentava que as substâncias animais davam os mesmos produtos, e também o álcalis volátil. O trigo e a cicuta dão origem aos mesmos produtos gerais, que nada têm a ver com as substâncias que as forneceram, mostrando que a mudança, ou a transformação, ou a metamorfose dialética, é inerente à química. Essa realidade dialética nos brinda, desse modo, com o fato de que um simples acréscimo de quantidade (no caso, um átomo) pode causar uma profunda mudança de qualidade, dando surgimento a uma nova molécula ou uma nova substância. Isto ocorre praticamente com todas as substâncias existentes. Engels apresentou o exemplo do álcool etílico, base de todas as bebidas alcoólicas, que tem dois átomos de carbono, seis átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio (C2H6O). Acrescentemos a ele uma simples molécula de três átomos de carbono e seis átomos de hidrogênio (C3H6) e obtemos o álcool amílico (C5H12O). Este, ao invés do porre resultante da ingestão do álcool etílico, pode produzir uma diarréia insuportável. Q 166 Tomo01.pmd 166 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Fenômeno idêntico ocorre em virtude da forma com que os átomos se agrupam. O álcool amílico possui 8 formas diferentes de se agrupar na molécula, embora mantendo o mesmo número de átomos. Cada uma dessas formas, um isômero, possui propriedades ou qualidades diferentes das outras, apenas em virtude da arrumação diferente dos átomos. Por outro lado, podemos reverter o processo, re-arrumando ou subtraindo átomos e moléculas. Com isso, podemos transformar o ozônio em oxigênio, um isômero em outro, e o álcool amílico em etílico. Neste último caso, escaparemos da diarréia, mas não da bebedeira. Em termos gerais, os seres vivos, como os vegetais e animais, aqui incluídos os homens, assim como as substâncias inorgânicas, como os ácidos, sais e bases, são formados por átomos, bilhões ou trilhões de átomos, de diferentes tipos. Muitos historiadores consideram que isso nada tem a ver com as ações dos homens, que seriam movidos principalmente pela paixão. Esta seria o motor da história exclusivamente humana. No entanto, embora a paixão deva ser considerada na avaliação das ações humanas, assim como a ignorância, a ambição e o interesse material, as neurociências já demonstraram que a paixão também resulta das reações químicas e elétricas produzidas pelo organismo humano, e das informações que as células trocam entre si. Portanto, também na paixão, os átomos estão presentes. É verdade que átomos e moléculas só conseguem gerar as emoções, como a paixão, quando estão integrados num complexo de organismos físicos e neurológicos, cujo funcionamento só há pouco os homens começaram a desvendar. Mas certamente não os desvendariam se não houvessem se aprofundado no conhecimento dos átomos e de suas propriedades. Estes fenômenos, assim como outros existentes na fronteira entre as diversas ciências, a exemplo da eletricidade, magnetismo, luz, calor, radiação e informação, têm colocado os homens de ciência diante de novos desafios e dificuldades, apesar de todo o avanço científico dos séculos 19 e 20. Lembremos que até o século 18, primava a concepção de que eletricidade, magnetismo, luz e calor eram substâncias especiais que se distinguiam da matéria por não terem peso, isto é, serem imponderáveis. Isto impediu Nicolas Carnot (1792-1832), em 1820, de dar um tratamento correto a esses fenômenos, em especial aos elétricos, que se verifi167 Q Tomo01.pmd 167 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 cam em praticamente todas as transformações que ocorrem na natureza. Mas André Marie Ampére (1775-1836) já havia reconhecido, em 1816, que uma característica comum das propriedades dos elementos, por mais dominante que fosse, não poderia determinar, sozinha, uma semelhança. Em conseqüência, ele fazia uma clara distinção entre átomos e moléculas. E, para demonstrar a relação da química com a física, desenvolveu a hipótese, também formulada independentemente por Amedeo di Avogrado (1776-1856), de que os gases contêm, em volumes iguais e nas mesmas condições de temperatura e pressão, o mesmo número de moléculas. Na mesma linha de descobertas da relação entre as diversas formas de movimento, Ampére demonstrou, em 1820, que a atração e a repulsão magnéticas não estavam associadas somente aos imãs, mas também à corrente elétrica em fios condutores. Com isso, marcou a origem da teoria eletrodinâmica e, mais tarde, formulou a hipótese de que as propriedades dos imãs se deviam à existência de pequenas correntes elétricas em seu interior. Apesar disso, foram necessários mais de vinte anos para que, em 1846, Faraday estabelecesse que a eletricidade deveria ser um movimento produzido por um meio elástico, que penetrava todos os espaços e todos os corpos, e cujas partículas dispersas se repeliam segundo a lei da razão inversa do quadrado da distância. Se olharmos cada um desses avanços, comprovaremos que muitas das leis, relacionadas com eletricidade, luz e calor, foram estabelecidas sem considerar a existência dos átomos. Ou, ao serem considerados, foram tomados como indivisíveis ou maciços. O caminho para mudar o pensamento predominante por mais de 2 mil anos, a partir de Demócrito, e demonstrar as reais características dos átomos, só se pavimentou paulatinamente. Durante os séculos 19 e 20 tornou-se cada vez mais evidente que os átomos não haviam existido sempre. Ou seja, tinham história. E que não eram indivisíveis, nem maciços, mas compostos de partículas diversas. Dmitri Mendeleiev (1834-1907) teve um papel primordial nesse esclarecimento sobre o átomo. Ele descobriu que a radiação, decaimento, ou perda natural do peso atômico, causada pela emissão de elétrons, podia transformar um tipo de átomo em outro. Com isso, a noção da divisibilidade e da transformação do átomo, através de movimentos internos, podia Q 168 Tomo01.pmd 168 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR deixar de ser uma teoria e conquistar comprovação prática. Mesmo assim, não foi dessa vez que se conseguiu romper com a noção da indivisibilidade. A descoberta dos elementos desconhecidos, que coincidiam com os cálculos dos pesos atômicos previstos por Mendeleiev, também pareceu pouco para comprovar a divisibilidade atômica. O mesmo ocorreu com a descoberta dos isótopos. Eles apontavam de forma ainda mais evidente, que átomos e partículas deveriam ser entendidos não apenas a partir da ação de forças ou relações externas, mas principalmente a partir de suas relações internas. Faltavam, porém, instrumentos de pesquisa micro e macroscópica, e instrumentos matemáticos, que pudessem comprovar tais evidências. A matemática ainda teria que evoluir para estudar os problemas de combinações, arranjos e grupos, sugeridos pelas estruturas intra-atômicas. Mendeleiev propusera recorrer às características quantitativas para encontrar um conjunto convergente de propriedades similares. Para ele, as combinações químicas pareciam estabelecer, entre os elementos, um parentesco mais sólido do que as cristalizações físicas. A característica das combinações, que levara Proust e Dalton a postularem o papel do átomo, fez com que Mendeleiev deduzisse que a propriedade que levava os elementos a se combinarem, uns com os outros, mesmo sendo tão diversos, como o oxigênio e o hidrogênio, estaria sujeita a uma lei geral. Àquela altura, como se viu, já se dispunha da noção de que as propriedades de uma substância dependiam de sua massa. Isto levou Mendeleiev também a concluir, em 1869, que as propriedades dos corpos simples, assim como as formas e as propriedades das combinações entre eles, deviam ser uma função periódica da grandeza do peso atômico. A partir daí, ele formulou a lei química que tem como ponto de partida a noção do átomo e das moléculas combinando-se em proporções múltiplas. A lei periódica não pressupunha que o peso atômico se modificasse progressivamente. Isto é, não exprimia uma função contínua. Como a expressão por meio de figuras geométricas sempre supõe a continuidade, a lei periódica teria que se expressar por outro procedimento matemático. Seria necessário utilizar um procedimento semelhante ao usado na teoria dos números, ou por meio das funções trigonométricas. Isto, porque ha169 Q Tomo01.pmd 169 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 via uma relação de dependência entre as propriedades dos corpos simples e seus pesos atômicos. Desse modo, o problema da divisibilidade dos átomos, ou da matéria, tinha que ser resolvido matematicamente pela divisibilidade dos números inteiros e pela teoria das congruências, ou das diferenciações. No processo de construção de sua tabela, Mendeleiev percebeu, ainda, que a lei periódica podia residir nos princípios fundamentais da mecânica interna dos átomos e das moléculas. Se isto fosse verdade, a massa seria apenas um efeito, não bastando tomar o peso atômico como motivo de primeira ordem. E falar em mecânica interna dos átomos era o mesmo que falar em divisibilidade e movimentos internos, algo que ia muito além do horizonte científico da época. Portanto, ao tomar as propriedades dos átomos como função de seu peso, Mendeleiev abalou noções arraigadas na química e na física. Na física newtoniana predominante, a massa tinha papel de simples coeficiente. Quando os agentes físicos foram considerados em sua diversidade, a massa foi tida como indiferente a tais agentes. Até então se considerava que os agentes eram o aspecto peculiar, e não a matéria. Esta não passava de receptáculo. Só mais tarde, com a consolidação da química, como ciência, a matéria se impôs como a geradora dos agentes e fenômenos. Como diz Gaston Bachelard (1884-1962), a matéria ganhou personalidade. Com a substituição da noção de transmissão de qualidades, da alquimia anterior, pela noção de conservação de qualidades específicas, de Lavoisier, a noção de matéria se reforçou, mas não chegou a ser considerada como a unificação de todo o existente. Lothar Meyer (1830-1895) recorda que a física de então só considerava como qualidades variáveis o lugar e o tempo. Segundo as circunstâncias, o calor, a temperatura, a eletricidade e algumas outras grandezas também poderiam ser introduzidas nos cálculos. Mas a matéria própria dos corpos só se expressava por valores numéricos nas equações com massa. Sua qualidade só era considerada porque, nas equações diferenciais, as constantes relativas a cada espécie diferente de matéria tinham outro valor. Ainda não se havia considerado essas grandezas, que dependiam da natureza dos corpos, como variáveis. Q 170 Tomo01.pmd 170 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Tais variáveis só foram introduzidas muito tempo depois. Possibilitaram, então, demonstrar que o valor numérico dos pesos atômicos era a variável que determinava a natureza dos corpos. Com a introdução do peso atômico, as propriedades dos corpos não podiam mais ser tidas como simples função do tempo, do espaço e de algumas outras grandezas. Era preciso considerá-las também como função do peso atômico. As propriedades físicas se tornaram, desse modo, função de uma variável química. No entanto, restava demonstrar que os compostos resultavam da capacidade de saturação dos átomos e das circunstâncias externas sob as quais reagiam entre si. Meyer sugeriu a adoção de valências invariáveis como a solução mais oportuna. Afinal, a atração de um imã não se media pelo peso que ele podia carregar em dado momento, mas pelo peso máximo que ele podia carregar. Então, a capacidade de saturação de um átomo deveria ser determinada não pelo número de outros átomos que podia ligar numa combinação qualquer, mas sim pelo número máximo de átomos monovalentes que conseguia ligar. O mercúrio, por exemplo, só tira do calomelano um átomo de cloro. Isso acontece não porque a natureza do mercúrio é diferente da natureza do sublimado calomelano, mas sim porque o mercúrio não pode ligar um número de átomos maior do que aqueles que lhe oferecem. As qualidades químicas parecem ser, portanto, qualidades sobre as quais, nas condições normais, o exterior tem pouca ou nenhuma ação. Essa descoberta fez com que a discussão sobre a matéria se desenvolvesse em função das variáveis químicas. Os elementos aparecem ordenados de modo periódico, fazendo com que os fenômenos da matéria também apareçam periodicamente ordenados. Em vista disso, o conhecimento da periodicidade dos elementos, e sua organização na tabela periódica, poderiam ajudar a conhecer a ordenação periódica de toda a matéria de forma mais consistente. Isso, se a maior parte dos cientistas a tomasse como uma lei mais geral da matéria. No entanto, para tanto, seria necessário contar com instrumentos de pesquisa mais avançados do que os até então disponíveis, ou utilizar as abstrações do método lógico-dialético de Hegel. 171 Q Tomo01.pmd 171 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Tudo periódico e divisível As discussões científicas sobre os átomos ocuparam boa parte do século 19, atravessaram todo o século 20, e continuam no século 21, agora concentradas no entendimento de suas partículas. Ao considerar que o átomo tinha peso, e que todas as suas demais propriedades eram função do peso atômico, Mendeleiev desencadeou um debate em torno do volume atômico. Um átomo, tendo massa e peso, tinha ou não volume? Louis Couturat (1868-1914) argumentou que não existia qualquer necessidade de que a massa sempre ocupasse uma extensão. Isto é, que tivesse um volume. O conceito de ponto material já estava consagrado na identidade, ou congruência, da geometria com a física, não havendo dificuldade em conceber pontos materiais dotados de massa finita. Meyer, por sua vez, não aceitava que os átomos, mesmo infinitamente pequenos, fossem completamente desprovidos de extensão. Deveriam ser considerados como centros de força, ou pontos para os quais convergiam movimentos ou forças. Portanto, os átomos não seriam um conceito científico, mas uma coisa. A divisão material seria uma experiência, não uma operação matemática. Não deixava de ser interessante que Meyer, além de tornar idênticas as noções de movimento e de força, negasse a expressão do átomo no pensamento e na operação matemática. Para firmar sua natureza material, ele fez com que a coisa átomo coincidisse com a noção átomo. E lembrou que a densidade no estado sólido fora uma das raras propriedades dos corpos até então medidas com precisão. Densidade que se mostrara, claramente, como função periódica do peso atômico. Isto é, a massa diminuía ou aumentava à medida que o peso atômico diminuía ou aumentava. Havia uma relação entre o peso atômico e a densidade, ou entre sua massa e o volume que ocupava. Tal relação seria o Q 172 Tomo01.pmd 172 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR volume atômico, só podendo ser medido de forma relativa. Para determinar esse volume, seria necessário comparar o espaço ocupado pelas massas dos diversos elementos com a proporção de seus pesos atômicos, conforme estabelecido por Avogrado. Ou seja, mesmo em gases diferentes, sempre existiria o mesmo número de átomos ou moléculas em volumes iguais, à mesma temperatura e pressão. Haveria, então, uma ligação entre a densidade dos mesmos elementos, tanto na forma gasosa, quanto na forma sólida, provando que as propriedades físicas teriam um caráter eminentemente derivado das propriedades químicas. Assim, propriedades físicas, como fusibilidade, volatilidade, dilatação e refração da luz, derivariam dos volumes atômicos em função dos pesos atômicos. Elementos que fundem facilmente coincidem com uma alta relação entre volume e peso atômico, enquanto os que não se fundem coincidem com uma baixa relação. Elementos voláteis podem ser encontrados tanto num extremo, quanto no outro. O problema é que, no século 19, ninguém esperava que o estudo quantitativo das substâncias pudesse fornecer informações sobre uma outra substância, considerada independente. Hoje está claro que toda relação de peso entre os elementos continua oculta enquanto não se partir dos pesos atômicos. Há aí uma fonte de inferência, ou interação, que a química experimental de então não tinha condições de descobrir. Apesar disso, Herbert Spencer (1820-1903) supôs que os átomos químicos provinham de átomos verdadeiros ou físicos, por um processo de evolução histórica. Por isso, a periodicidade da tabela de Mendeleiev entrava em contradição com a classificação então existente dos pesos atômicos. Essa classificação deixava lugares vagos na tabela, indicando que poderiam existir elementos químicos ainda não descobertos, ou que a tabela estava errada. Por outro lado, a tabela ordenava os elementos de tal modo que alguns, cujo peso atômico era inferior, estavam acima de outros, de peso atômico superior. O telúrio, por exemplo, vinha antes do iodo, embora seu peso atômico fosse superior ao do iodo. O mesmo acontecia com o argônio, antes do potássio, com o cobalto, antes do níquel, e com o tório, antes do protectínio. 173 Q Tomo01.pmd 173 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 As contradições da periodicidade, apresentadas por essas inversões dos pesos atômicos crescentes, só foram resolvidas quando se notou que as anomalias referentes ao selênio e ao ferro, na curva dos valores atômicos, desapareciam ao utilizar o número atômico, no qual o número de prótons é igual ao de elétrons. Na classificação conforme os números atômicos, a correspondência entre as diversas qualidades dos elementos, como peso, compressibilidade, dilatação etc, passou a ser mais completa e mais facilmente explicada. Ela passou a ser basear na tendência de um elemento adotar a configuração eletrônica do gás raro mais próximo, por perda ou aquisição de elétrons. Mesmo assim, a tabela de Mendeleiev teve que esperar algum tempo para que os homens de ciência do século 20 enxergassem a divisibilidade desses pedaços de matéria quase-infinitamente pequenos. Foi preciso primeiro descobrir os elementos químicos que correspondiam às casas vagas, aguardar o aperfeiçoamento das técnicas de análise espectral dos átomos, e contar com a fabricação de microscópios eletrônicos potentes. Só então, os átomos puderam mostrar-se totalmente, com suas partículas. É verdade que os átomos são enganadores. Vários deles continuam fora da visão e só conseguem ser detectados por meio da interferência que causam no movimento das partículas visíveis. Um átomo não eletrizado se esconde de tal modo que não há chance de detectar sua presença enquanto seu número não ultrapassar um bilhão. Um átomo ou uma molécula eletrizada, ao contrário, é facilmente detectado. Por isso, a química moderna toma os cátions e anions, ou os pólos elétricos dos átomos, como elementos explicativos das reações químicas. A eletricidade oferece às substâncias o critério de pureza mais sensível para detectá-las, fazendo com que se tornasse a melhor forma de explicar, teoricamente, o fenômeno químico. Porém, antes de encontrar meios, métodos e aparelhos apropriados às pesquisas atômicas e sub-atômicas, não havia como detectar a eletricidade nas dissoluções. As dissoluções não permitiam isolar a característica elétrica fundamental, porque ela ficava implicada nas ações químicas secundárias. O mesmo ocorria em relação à característica individual do átomo. Para superar essa dificuldade, inicialmente se utilizou o estado rarefeito dos tuQ 174 Tomo01.pmd 174 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR bos à vácuo, onde o estado irradiante da matéria podia colocar em evidência os fenômenos da física atômica. Mais tarde, o estudo da condutibilidade elétrica dos gases mostrou que todos os corpos com carga perdem pouco a pouco a eletricidade por causa do ar ambiente. Porém, ao se filtrar o gás condutor por um tampão de algodão-de-vidro, constatou-se que ele perde instantaneamente a condutibilidade. Deste modo, uma operação puramente mecânica, como a filtragem, retirou um dos atributos do gás, mesmo respeitando todas as suas qualidades e propriedades químicas. Essa experiência levou à suspeita de que um gás condutor é eletricamente heterogêneo. A esse tempo, já se observara que os raios X e o rádio descarregavam um eletroscópio. Provou-se, então, que os raios X não traziam de fora os elementos capazes de explicar a condução. Esses elementos eram produzidos no interior do próprio gás pelo efeito da radiação. Na ionização até então conhecida, uma molécula de cloreto de sódio (NaCl) se separava espontaneamente em dois íons, um positivo (sódio) e um negativo (cloro). No entanto, na ionização produzida pelos raios X em gases raros, como o argônio e o hélio, que só possuem um átomo, ficou evidenciado que seus constituintes deveriam ser minúsculas cargas elétricas. Em 1876, Engels sugerira um limite definido de divisibilidade química, e que tal limite seria o átomo. Além desse limite, os corpos já não poderiam atuar quimicamente. Na química, vários átomos sempre estariam em combinação nas moléculas. Na física, porém, seríamos forçados a aceitar partículas menores do que o átomo, cuja disposição determinaria a forma e a coesão dos corpos. As vibrações dessas partículas deviam evidenciar-se em calor, uma forma de energia. Concordando com Hegel, Engels supunha que a matéria seria, ao mesmo tempo, as duas coisas: divisível e contínua. E, ao mesmo tempo, indivisível e descontínua, dependendo da forma de movimento que assumisse. Essas sugestões se confirmaram quando a estrutura complexa dos átomos e das cargas elétricas que entram em sua constituição foi descoberta, aprofundando o descrédito da indivisibilidade atômica. Em 1897, Thomson, empregou o método de desvio através de um campo eletro175 Q Tomo01.pmd 175 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 magnético e identificou o elétron experimentalmente, ao verificar que a partícula negativa, isolada na experiência dos raios X, tinha uma massa mais de mil vezes maior do que a do átomo do hidrogênio. Essa descoberta abriu um novo campo de pesquisas. Constatou-se que o elétron é encontrado numa multidão de fenômenos familiares. Ele gira em torno de um pedaço de metal aquecido. Ou escapa do filamento de uma lâmpada, desprende-se dos metais sobre os quais se reflete a luz ultravioleta, ou é emitido pelas substâncias radioativas e reações químicas. O elétron parece sempre se manifestar por uma mesma carga, uma mesma massa e dupla raiz de sua constância. O que levou à suposição de que só existe um tipo de elétron, que variaria em cada átomo por seu lugar e seu movimento relativos. Alguns químicos sugeriram que o fato do elétron ser idêntico a si mesmo indicaria que ele é a unidade da matéria nos dois sentidos do termo. Isto é, toda experiência se deteria dentro do limite do elétron, ao não se conseguir diferenciá-lo de outros. Poderia, assim, desempenhar o papel de uma verdadeira unidade aritmética. O elétron seria uma unidade concreta, adequada para servir de unidade abstrata. Com ele não se correria o risco de perder, por uma abstração mais ou menos regular, no início da pesquisa, uma característica da realidade. A diversidade, portanto, não teria origem além do elétron, encontrando-se aquém, como função do movimento e do arranjo dos elétrons. No entanto, verificou-se que o elétron só se manifesta se estiver em relação com outros elétrons e com núcleos atômicos. Em vista disso, as discrepâncias em torno dele tornaram-se intensas. Feymann até fez uma de suas brincadeiras, afirmando que o elétron era uma teoria tão útil para entender como a natureza funciona que quase se poderia considerá-lo real. Tão real que, se chacoalhássemos um elétron, ele irradiaria energia, o que representaria uma perda. Raciocinando no velho estilo da física clássica, Feymann argumentou que, quando o elétron estivesse carregado, deveria haver uma força atuando sobre ele de forma diferente de quando não estivesse carregado. Se a força fosse exatamente a mesma, estivesse o elétron carregado ou não, num caso ele perderia energia e, no outro, não. Q 176 Tomo01.pmd 176 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Como Feymann achava que não se podia ter duas respostas diferentes para um mesmo problema, concluiu que os elétrons não agiam sobre si mesmos, mas sobre outros elétrons. Alguns pensam que essa visão teria mudado a teoria padrão sobre os elétrons. De acordo com aquela teoria padrão, o elétron, ao agir sobre si mesmo, gerava uma força de reação. A experiência de chacoalhar o elétron, porém, tornou evidente que a origem da força de reação da radiação residia no efeito de reação do outro elétron. Bem vistas as coisas, o que não passou pela cabeça de uns e de outros, é que as duas possibilidades podem ocorrer. Bachelard, por sua vez, considerou que o elétron, além de sua carga e de sua massa, não teria individualidade. Quando lhe atribuíam uma rotação em torno de um de seus eixos, essa rotação seria de fato única. Todos os elétrons teriam o mesmo spin, o mesmo momento de rotação. Com o elétron, e as teorias eletrônicas dele derivadas, todas as qualidades seriam reduzidas à qualidade elétrica, pois o elétron exigiria uma doutrina que rompesse com as leis usuais da eletricidade. Os problemas suscitados pelo elétron não conseguiriam ser respondidos pelas leis da eletricidade de Coulomb, Ampère e Faraday. Desse modo, um dos problemas na análise do elétron residia em que alguns físicos e químicos enxergavam em sua ação apenas a geometria e a mecânica, omitindo as mudanças físicas. Isso os levava a aceitar que as partículas, como o elétron, deveriam ter leis matemáticas e mecânicas que diferiam das leis terrestres, mas não leis físicas. Apesar disso, o elétron não parece ser uma partícula desprovida de propriedades. Além de agir sobre o elétron vizinho, e sobre os núcleos atômicos, está envolvido na geometria do espaço real, e nas mudanças que ocorrem a partir de suas ações. E, como veremos depois, descobriram-lhe uma partícula oposta, o positron ou anti-elétron. Relembremos que, desde Coulomb, sabia-se que as cargas de nomes contrários se atraem na razão inversa do quadrado da distância. Para distâncias intra-atômicas, quase infinitesimais, a força de atração torna-se enorme, fazendo com que entrem em contato e se percam uma na outra, neutralizando-se. Assim, ao se aceitar a coexistência de partículas carregadas eletricamente, e não se saber como o contato entre elas pode ser 177 Q Tomo01.pmd 177 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 rompido, por exigir uma energia incomensurável, alguns cientistas viram-se diante de uma contradição. Para explicar essa contradição, Thomson modificou a lei de Coulomb, acrescentando à força de atração do elétron negativo e do núcleo positivo, uma força repulsiva. Em outras palavras, talvez inconscientemente, negou a negação, numa operação tipicamente dialética. A força atrativa agiria na razão inversa do quadrado da distância, como Coulomb afirmara, enquanto a força repulsiva agiria na razão inversa do cubo da distância. Através desse jogo algébrico, nas grandes distâncias só subsistiria a atração, garantindo os experimentos de Coulomb. Porém, nas distâncias ultra reduzidas, a repulsão seria predominante, impedindo o contato das partículas. Com isso, Thomson chegou perto da realidade, ao introduzir a repulsão como oposição à atração, na relação entre elétron e núcleo, pelo menos para explicar o equilíbrio dentro do átomo. No entanto, não considerou que tanto a atração, quanto a repulsão, também faziam parte do equilíbrio da própria partícula, e eram muito instáveis. Seu desequilíbrio podia levar cada partícula, ou átomo, tanto à fusão (no caso da predominância da atração), quando à fissão (no caso da predominância da repulsão). Este assunto, porém, ainda hoje parece ser uma incógnita em vários meios científicos. De qualquer modo, a teoria de Thomson foi um avanço na compreensão interna do átomo, levando-o a defender a necessidade da introdução de uma nova lei física, relacionada com comprimentos da ordem de 1/ 10.000 centímetros, para estabelecer qualquer teoria a respeito da estrutura do átomo. Mas a hipótese de que cargas elétricas se atraem e se repelem na razão inversa do quadrado da distância só oferece duas quantidades, a massa do elétron e sua carga. O que ainda hoje suscita muitas controvérsias, pelo fato de que qualquer teoria física deveria comportar, além da massa, unidades como espaço e tempo. Partindo do pressuposto que a base newtoniana era demasiadamente eestreita para explicar os átomos, Thomson introduziu uma constante especial para cada tipo de átomo, prevendo átomos com número crescente de elétrons, chegando um momento em que não se poderia mais dispor de qualquer novo elétron em um poliedro. Seu problema consistiu em Q 178 Tomo01.pmd 178 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR que não seria possível manter mais de 8 elétrons sem neutralizá-los eletricamente, a não ser que cada grupo de 8 elétrons girasse em órbitas diferentes e a uma distância maior. Como as propriedades químicas do átomo dependem de sua camada externa, e a periodicidade dessas propriedades é explicada pelo ritmo das oito partículas, a dedução de Thomson determinou pela primeira vez, mesmo por caminhos tortuosos, uma raiz matemática para a lei de Mendeleiev. Sua teoria das valências teve por base a constituição de coroas atômicas superficiais com 8 elétrons. Como o enxofre possui uma coroa superficial de 6 elétrons, nas relações com outros corpos ele tem a tendência de juntar-se a dois elétrons, completando a sua coroa pela fixação de dois átomos, cada um com um elétron superficial. Ou, em sentido inverso, a tendência de completar outro corpo, no qual faltem dois elétrons em seus 6 átomos. No primeiro caso, como na combinação do enxofre com o sódio, o enxofre é eletronegativo, com valência 2. No segundo caso, o enxofre é eletro-positivo, com valência 6. A inversão da polaridade é uma demonstração dialética das substâncias. Essa teoria das valências contribuiu para que, em 1875, Lecoq de Boisbandrou (1802-1897) descobrisse o gálio, idêntico ao eka-alumínio sugerido por Mendeleiev. Em 1876, Lars Fredrick Nilson (1840-1899) isolou o escândio, idêntico ao eka-boro da casa 21. Em 1886, Clemens Winkler (1838-1904) identificou o germânio, idêntico ao eka-silício da casa 32. Em 1925, D. K. Dobroserdov (1876-1936) reconheceu o elemento 87, ou ekacésio, também detectado em 1930 por Fred Allison (18821974) e, finalmente, confirmado por Marguerite Perey (1909-1975) com a denominação de frâncio, em 1939. Também em 1925, Walter Noddak (1893-1960) e Ida Tacke (1896-1979) descobriram o rênio, da casa 73. Em 1926, Smith Hopkins (1873-1952), Leonard Yntema (1892-1976) e J. Allen Harris detectaram o illinium, da casa 61, que em 1949 foi renomeado promécio. E, em 1937, Carlo Perrier (1886-1948) e Emilio Segré (1905-1989) acharam o tecnécio, da casa 43. A partir daí já não poderia mais haver dúvidas de que as antecipações de Mendeleiev estavam corretas. 179 Q Tomo01.pmd 179 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A noção de número atômico foi ainda mais consagrada, passando a ter valor de lei, quando Henry Moseley (1887-1915) comprovou que, nas radiações de raios X, a raiz quadrada dos comprimentos de onda correspondentes aos diferentes corpos emissores cresce como uma função linear do número atômico. Para o estudo da diversidade material, a noção de átomo teve grande vantagem sobre a noção de elemento, porque os átomos são suscetíveis de composição, e são obtidos por decomposição. Isso ficou ainda mais evidente com a descoberta da isotopia. Isto é, de elementos radioativos que, embora possuindo o mesmo peso atômico, diferiam entre si por sua radioatividade. O chumbo radioativo, extraído de um mineral uranífero, sempre contém um pouco de rádio, a despeito de todas as operações (cristalização fracionada, oxidação, vaporização, eletrólise) para separá-lo do rádio associado. Em suma, não se conseguia provar a diferença química entre dois corpos que a própria química não conseguia distinguir. Isto levou Frederick Soddy (1877-1956) a afirmar, em 1910, que se os métodos da química eram capazes de fazer variar as proporções de uma espécie química, essa espécie teria que ser composta. Se, ao contrário, as proporções fossem estáveis, a despeito de todo tipo de fracionamento, a espécie em questão deveria ser considerada um elemento, pouco importando que características adicionais, como a radioatividade, pertencessem ou não à substância. Concluiu, a partir daí, que se a posição de um elemento no sistema periódico era determinada pelo conjunto de suas propriedades, elementos quimicamente idênticos deveriam ocupar o mesmo lugar. A partir daí, o pequeno número de casas disponíveis deixou de ser um obstáculo para que se introduzissem na tabela de Mendeleiev todos os elementos radioativos. A noção de isotopia, ao mesmo tempo, mostrou aos químicos a multiplicidade íntima de vários elementos, e aceitou que a noção de transição também deveria fazer parte de sua ciência. Ou seja, os elementos radioativos, em especial, já apresentam em sua evolução histórica as indicações de que estão em processo de mudança para outro elemento. Com a criação da espectrografia de massa, em 1953, foi possível encontrar os isótopos de pesos atômicos 20 e 22, do neônio, cujo peso atôQ 180 Tomo01.pmd 180 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mico é 20,2. Todos os pesos atômicos dos diferentes isótopos, medidos pela espectrografia de massa com aproximações de milésimos, seriam números inteiros, com exceção apenas do hidrogênio, cujo isótopo teria peso atômico 1,008. A evolução da técnica da espectrografia de massa nos mais de 50 anos posteriores mostrou, porém, que todos os isótopos possuem décimos, centésimos ou milésimos em seus pesos atômicos. Se aceitarmos uma perda de massa de 0,008 por átomo de hidrogênio, pode-se concordar com Proust de que todos os átomos dos diferentes corpos resultam de uma condensação de vários átomos de hidrogênio, iniciando pelo hélio. O hidrogênio parece representar aquele elemento mais simples e mais geral, cuja análise lógico-dialética seria capaz de mostrar todos os aspectos do desenvolvimento do universo atual. Vamos ver mais adiante que essa conclusão é fundamental para entender o processo inicial de formação deste universo, embora ela entre em contradição com a sugestão daqueles químicos que supõem que toda experiência se deteria dentro do limite do elétron. Experimentos realizados com metais provenientes de camadas geológicas diversas e com ferros de origem meteórica, por outro lado, revelaram que os pesos atômicos desses elementos são os mesmos, após bilhões de anos de existência. Isto tem levado alguns físicos e químicos à conclusão de que a matéria foi feita tão misturada que tem por toda parte a mesma composição. Eles se esquecem, portanto, dos isótopos radioativos, que apontam fortemente para os processos de mudança. E não levam em conta que os processos de mudança são desiguais. Os tempos de existência histórica de alguns corpos são diferentes dos tempos de existência de outros. Além dos isótopos designarem o número atômico como uma nova variável, sua característica aritmética facilitou a pesquisa das ligações substância a substância. O peso atômico corresponde, assim, a uma dosagem particular e contingente, variando de modo complexo quando é estudado em função do número atômico. No átomo existem comportamentos tão diversos que sugerem a idéia de duas ordens de propriedades de origens bem diferentes. Por isso, nos átomos devem ser consideradas duas regiões: uma parte central e uma 181 Q Tomo01.pmd 181 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 periférica. Podemos ser levados à conclusão de que a periodicidade, evidente nos fenômenos físicos, é uma função da periferia, enquanto o peso atômico é uma função da região central. Assim, mais uma vez, os químicos se viram frente à frente com a dualidade dialética, sem saber como tratá-la. Os fenômenos elétricos, e a complexidade elétrica do átomo de hidrogênio, deixaram químicos e físicos perplexos. Viram-se obrigados a fazer experiências a partir da hipótese de que o átomo era divisível. E tiveram que tratar o problema da unidade da matéria de forma totalmente nova, embora permanecessem supondo que o átomo tinha um corpo maciço. Tal suposição só começou verdadeiramente a mudar no estudo das trajetórias dos raios X, expulsos pelo rádio quando suas trajetórias atravessavam diferentes meios. Observou-se, então, que um grande número de partículas alfa atravessava películas metálicas de centésimos de milímetro de espessura, sem sofrer qualquer desvio. Isto apontava para o caráter oco ou lacunar dos átomos. As partículas alfa não só passavam pelos espaços entre os átomos, mas atravessavam os próprios átomos. Além disso, nos mesmos experimentos descobriu-se que algumas partículas eram bruscamente desviadas de sua trajetória, quando passavam pelas películas. O que só seria possível se as cargas elétricas, positiva e negativa, no interior do átomo, reagissem à passagem de uma partícula de mesma carga, desviando-a. Mais tarde descobriu-se que, na desintegração radioativa, a emissão de uma partícula alfa carrega duas cargas elementares de eletricidade positiva, provocando uma diminuição de duas unidades no número atômico. O novo átomo que perdeu uma partícula alfa retrocede, a partir do átomo que lhe deu origem, duas casas na tabela de Mendeleiev. Já no decaimento beta mais (+), um nêutron transforma-se em um próton, num elétron e num anti-neutrino associado ao elétron. No decaimento beta menos (-), um próton transforma-se num nêutron, num positron, isto é, num elétron positivo, e num neutrino associado a um elétron. Os dois processos são, portanto, reversíveis. Nessas condições, as transmutações modernas seguem a escala atômica e confirmam a numeração material da ordem de Mendeleiev. Por outro lado, o estudo das trajetórias das partículas alfa não fornece informações sobre sua carga Q 182 Tomo01.pmd 182 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR elétrica real. Acredita-se que no próprio núcleo do átomo existam elétrons negativos que ocultam uma quantidade positiva equivalente. Foi a partir dessas conclusões que Bachelard deduziu que a química moderna continuava, como a antiga, a fazer experiências numerosas. No entanto, para ele, tais experiências têm um contato pequeno com o fato natural e imediato. Partem desse corpo, mas desenvolvem-se em profundidade, que podem ser agrupadas em experiências pouco numerosas. E só captam a substância ao término da experiência, já que o elemento químico é um tipo de substância limite. A malaquita (verde), a cuprita (vermelha) e a filipsita (negra) dão uma única substância, o cobre, porque através de múltiplas mudanças chegase a uma matéria que parece refratária à mudança. Por outro lado, embora o tálio e o chumbo sejam fisicamente idênticos, eles não possuem nenhuma característica elementar comum. O elemento tálio é bem mais próximo do elemento potássio, cujos sais são isomorfos, podendo dar cristais mistos, nos quais um dos corpos substitui o outro sem perturbar a construção cristalina. Portanto, segundo Bachelard, toda a química moderna estaria baseada na noção de composição. Não se trataria mais de estudar um corpo por suas reações sobre alguns outros corpos escolhidos, mas de coordenar um número cada vez maior de reações, multiplicar os compostos, estudar todas as possibilidades de agrupamentos. Os corpos presentes no fenômeno químico interessariam antes de tudo como peças de uma construção. Bachelard retoma, assim, em outro nível, a previsão de Berthelot sobre a transformação da ciência química em força produtiva. E acrescentava que, nem por isso os corpos deixavam de ser elementos com propriedades próprias. Só seria possível dominar o caráter individual dos corpos materiais apreendidos na experiência comum se fosse possível classificálos em essências separadas, bem seguras de guardar solidamente as propriedades que os distinguem. Sempre teria sido surpreendente a delicadeza com que certas manipulações permitiam modificar, com quantidades ínfimas de uma matéria bem escolhida, as qualidades de uma substância específica. O cobre tratado pela calamina assume cor dourada e, misturada ao arsênico, a cor pratea183 Q Tomo01.pmd 183 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 da. A dialética da transformação das quantidades em novas qualidades é evidente em todos esses exemplos. De qualquer modo, a natureza parece realizar poucas espécies químicas. Por exemplo, existem apenas uns vinte corpos graxos entre as centenas de milhares que se acredita poderem ser produzidos a partir deles. Na época de Berzelius, na metade do século 19, só eram conhecidos 54 corpos simples. Atualmente são 92, alguns dos quais com valências múltiplas, que permitem trabalhar com cerca de 200 valências. De qualquer modo, este é um número relativamente pequeno se comparado aos milhares de compostos já criados pelo homem. Portanto, alguns acreditam que não seria a vida que organizaria a química orgânica. Supõem que a inteligência humana, quando substitui o determinismo dos fatos pelo determinismo das idéias, impõe um plano, realiza uma finalidade, fazendo com que a ciência artificial vá muito além da ciência natural. O plutônio, que deve ter existido na natureza por um breve momento histórico, foi recriado pelo homem no processo de construção da bomba atômica. Diante disso, Engels sugeria que, através da investigação dos compostos orgânicos, a química poderia desvendar a natureza dos corpos mais importantes e, por outro lado, sintetizar corpos que só se apresentavam na natureza orgânica. A química conduziria à vida orgânica e teria chegado bastante longe para assegurar que somente por esse meio se poderia explicar a transição dialética do inorgânico ao orgânico. Aqui cabe a suposição de que a dialética, às vezes, se adianta à história. E vale relembrar as observações de Engels de que os homens, ao fazerem isso sem medir todas as conseqüências, estão desafiando a natureza a vingar-se de forma nem sempre suave. Talvez isso tenha levado alguns a intuírem que as forças químicas seriam as forças vitais. O químico agiria de modo oposto à natureza viva, ao queimar, destruir e operar por análise, pois apenas a força vital operaria por síntese, reconstruindo o edifício derrubado pelas forças químicas. Na verdade, a natureza age lógica e dialeticamente dos dois modos. De um modo, causa destruições com diversos dos produtos físicos e químicos que gera. Basta levantar uma simples estatística sobre as erupções Q 184 Tomo01.pmd 184 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR vulcânicas e os terremotos causados pelo atrito entre as placas tectônicas. De outro modo, faz construções através das sínteses, como a própria vida e sua maravilhosa diversidade. Porém, os homens podem adiantar-se, ao dominarem as combinações químicas que os elementos ofertados pela natureza possibilitam. Neste caso, os homens podem agir com mais rapidez do que o ritmo de evolução histórica da própria natureza. Seu problema consiste em saber medir, ou não, todas as conseqüências de longo prazo. Afora isso, astrofísicos e físicos têm buscado entender os movimentos de estrelas e de outros corpos celestes, através de telescópios e espectrógrafos de massa muito mais potentes do que os antigos. Através deles se dão conta da existência de vários tipos de partículas invisíveis, que se movimentam na matéria escura dos espaços intergalácticos. Detectadas desde 1912, por Victor Hess (1883-1964), como radiações vindas do espaço exterior com a capacidade de conduzir energia elétrica, essas partículas são filtradas pela atmosfera. Ao chegar à superfície terrestre, elas circulam em torno e através dos corpos, inclusive humanos. Para pesquisar o comportamento dessas partículas, seja na forma de prótons, partículas alfa e raios gama, os homens conseguiram fabricá-las artificialmente, a partir dos anos 1950. Desse modo, foram necessários mais de 50 anos, a partir das descobertas de Lavoisier, Proust, Dalton e Mendeleiev, para que se começasse a detectar a existência de prótons, nêutrons, quarcks, mesons, bósons, neutrinos e outros tipos de partículas. Ou seja, mais de 50 anos de demonstrações e comprovações empíricas para que a ciência moderna aceitasse a multiplicidade e a divisibilidade dos átomos, assunto que parte da antiguidade grega e chinesa já pensava haver esclarecido, mas não tinha condições técnicas de comprovar. A rigor, ainda hoje há um número considerável de cientistas que não o assimilou totalmente. Muitos físicos ainda tratam a matéria como um elemento à parte dos corpos e seus fenômenos. Apesar disso, há um certo consenso científico de que os átomos surgiram num determinado momento da formação do universo atual. Alguns físicos calculam que isso talvez tenha ocorrido uns 100 milhões de anos após o big bang, ou seja, há uns 14,4 bilhões de anos atrás. Outros 185 Q Tomo01.pmd 185 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 acham que os átomos vêm de antes, tendo havido apenas uma mudança de fase no processo dinâmico do universo. E há os que consideram que o universo infinito não sofreu qualquer mudança. Atualmente, do ponto de vista estritamente mecânico, um átomo é formado por um núcleo, com um próton, de carga elétrica positiva, e um nêutron, sem carga elétrica. Esse núcleo é orbitado por um ou mais elétrons, de carga elétrica negativa. O próton, por seu turno, é formado por quarcks e outras partículas. Todas as partículas possuem movimentos de rotação, que os físicos denominam spin, de diferentes velocidades e direções. Embora a troca de elétrons com outros átomos seja um dos principais elementos nos processos de dissociação e composição atômicas, atualmente há físicos que consideram os quarcks como as partículas determinantes. Na discussão sobre a estrutura dos átomos, William Crookes (18321919) supôs uma matéria original, o prótilo, que os formaria por aglutinação progressiva, através da ação de duas forças. Uma seria o tempo, acompanhado por uma queda de temperatura. A outra, a essência ou fonte de energia a que chamamos eletricidade, oscilante, com períodos de declínio e de elevação, de repouso e de atividade, intimamente ligada à matéria ponderável. Bachelard achou notável que Crookes tenha dado ao tempo um papel fundamental em sua teoria sobre o surgimento do átomo. No entanto, considerou que a variável temporal seria apenas uma força de adaptação. Para qualquer químico de laboratório, segundo ele, o que o tempo faz, o tempo desfaz. Dessa forma, o sentido do tempo seria apenas uma metáfora, como o sentido da corrente elétrica antes da descoberta do elétron. Talvez por isso, Hawking considere que o conceito de tempo não teria sentido antes do começo do universo. Embora a teoria de Crookes tenha se mostrado inconsistente quanto à matéria que levou à formação histórica dos átomos, sua intuição sobre a participação do tempo no processo foi realmente notável. É pena que ele, Bachelard e Hawking não tenham percebido que o tempo é o próprio processo de mudança, independentemente de tal mudança corresponder a um fazer ou a um desfazer. Q 186 Tomo01.pmd 186 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR O sentido do tempo não é apenas uma metáfora. Ele é a própria ação material de mudança. Desconsiderá-lo antes do começo do universo atual é o mesmo que supor a imutabilidade do antes. Ao negar a mudança anterior, seria necessário negar a impossibilidade do universo atual. Temos, pois, uma contradição. 187 Q Tomo01.pmd 187 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Átomo dividido No mesmo período em que Mendeleiev e Thomson se viam às voltas com a divisibilidade e a historicidade da natureza inorgânica ou inanimada, Marx também se via às voltas com a divisibilidade e a historicidade da sociedade humana. Para estudar de forma científica a natureza inorgânica, Mendeleiv e Thomson andaram às tontas por muito tempo. Eles não contavam com um método, nem com um aparato técnico que lhes permitisse analisar os fenômenos de acordo com o funcionamento geral da própria natureza. E, mesmo que tivessem um método, através do qual pudessem utilizar a abstração, a ausência de um aparato técnico poderia ter sido fatal para os experimentos práticos indispensáveis à demonstração de suas teorias. O primeiro passo de Marx, por seu turno, foi descobrir e sistematizar tal método. No caso da sociedade humana, o processo de construção dos aparatos técnicos teria que fazer parte da própria análise, através da abstração. Este era o instrumento principal com que ele poderia contar, tanto para elaborar, ou re-elaborar o método, quanto para aplicá-lo à análise histórica da sociedade humana. Entre 1848 e 1864, ao fazer a crítica ao idealismo de Hegel, Marx reelaborou o método lógico-dialético, para pesquisar as leis ou tendências potenciais de desenvolvimento interno dos corpos, e o associou ao método histórico, para examinar o processo real de desenvolvimento, sob a ação de fatores e inferências externas. Para demonstrar a validade teórica desses métodos, Marx pesquisou o processo de divisão e desenvolvimento interno da mercadoria, a célula mais simples e mais comum do modo de produção capitalista. No curso de exposição de sua pesquisa, em O Capital, mostrou como a mercadoria e seus pólos, o valor de uso e o valor de troca, eram produtos históricos que, em suas mudanças, levaram à constituição do capital e do modo de produção capitalista. Q 188 Tomo01.pmd 188 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Na época, a demonstração mais palpável dessa produção histórica encontrava-se na Inglaterra, embora num estágio ainda inicial. Para ilustrar sua exposição do desenvolvimento lógico-dialético da mercadoria até chegar à constituição do capital, Marx utilizou-se, em vários momentos, de descrições históricas como a da acumulação primitiva do capital. Portanto, na elaboração de O Capital ele apresentou capítulos que são puramente a exposição através do método lógico-dialético, e capítulos que são descrições em que emprega o método histórico. Marx alertou para a necessidade de não fazer confusão entre os dois métodos durante a leitura de sua obra. As narrações históricas eram apenas ilustrações para suavizar a descrição árida do texto. Porém, o desconhecimento das diferenças entre os dois métodos levou, e continua levando, muitos leitores a considerem O Capital como obedecendo apenas a um método. O que tem dificultado, a muitos, entender como o capital se desenvolveu de forma historicamente desigual e, apesar das nuances nacionais e regionais, acaba por colocar em evidência, em toda parte, as suas principais características. As variações e desvios históricos do capital pareceram, em alguns momentos, tornar inválidas algumas das leis descobertas por Marx em sua análise lógico-dialética. Não foram poucos os que acreditaram que, com o surgimento dos estados de bem-estar social na Europa, após as grandes guerras mundiais, a lei de pauperização relativa e absoluta da classe dos trabalhadores assalariados, trabalhadores cuja classificação Marx tomou dos romanos e chamou proletariado, havia se mostrado irreal. No entanto, bastou que o socialismo dos países do leste europeu entrasse em derrocada e que o capitalismo dos países desenvolvidos chegasse ao estágio das corporações transnacionais para que a realidade daquela lei se tornasse cada vez mais evidente. Uma leitura atual de O Capital dará a impressão de que Marx o escreveu no início do século 21, não na metade do século 19. Agora, nos países centrais, o capital se aproxima de seu estágio máximo de desenvolvimento, enquanto naquela época o capital ainda lutava por sua consolidação. Em outras palavras, o método lógico-dialético mostrou sua validade como método imprescindível para as pesquisas científicas sobre o desen189 Q Tomo01.pmd 189 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 volvimento da sociedade capitalista. Algumas das outras previsões históricas de Marx, como a de que as revoluções proletárias se realizariam primeiro nos países capitalistas desenvolvidos, mostraram-se equivocadas. Mas esses equívocos provaram, por outro lado, aquilo que ele e Engels repetiram muitas vezes. Isto é, que a história é cheia de desvios e ziguezagues e que, muitas vezes, a previsão lógico-dialética precisa esperar a história para realizar-se. Porém, por que o método lógico-dialético e o método histórico, utilizados com sucesso por Marx na demonstração da divisibilidade e da historicidade do modo de produção capitalista, não conseguiram conquistar os meios científicos como instrumento de análise da divisibilidade e historicidade da natureza? Uma das respostas plausíveis talvez resida em seu próprio sucesso no campo ideológico e político, embasando uma doutrina de combate para revolucionar o mundo. Como reação, o método lógico-dialético erigiu uma massa espiritual e material resistente sem igual na história da humanidade. Isto, apesar, ou por causa, da mudança social evidente na substituição do feudalismo pelo capitalismo, e de uma série de outros acontecimentos científicos que apontavam para a correção dos dois métodos. A célula havia sido descoberta, fazendo surgir a química orgânica e abrindo um vasto campo de investigação, a partir dela, para descobrir o funcionamento dos organismos vivos. Nesse mesmo período, Darwin e Wallace haviam elaborado, de forma autônoma, a teoria da seleção natural das espécies como base do processo de evolução dos organismos vivos. Mesmo inconscientemente, ambos haviam aplicado as noções dialéticas de mudanças no ambiente externo, em relação com as mudanças internas, para explicar o processo de evolução histórica das espécies animais. Os químicos também estavam descobrindo, como vimos, num longo processo de tentativas e erros, que somar ou diminuir quantidades, formando novos compostos, com propriedades e qualidades distintas dos anteriores, era uma das propriedades dos átomos. Modificar a propriedade de um corpo, mesmo conservando a quantidade de átomos, mas mudando sua forma de organização, como acontecia com o diamante e com o grafite, era outra das propriedades impressionantes dos átomos. Neste Q 190 Tomo01.pmd 190 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR caso, temos opostos tão distantes em dureza, que só o exame microscópico poderia demonstrar tratar-se apenas de organização diferente de átomos idênticos. Apesar desses indícios, que apontavam para o avanço científico e, ao mesmo tempo, para uma série considerável de problemas a serem enfrentados e resolvidos pelas ciências, alguns físicos renomados, como Michelson e Kelvin, na virada do século 19 para o século 20, consideraram que os princípios gerais de funcionamento do universo já haviam sido estabelecidos. Não haveria muito mais a ser feito. Kelvin chegou a afirmar que restava somente a determinação de alguns números mais com uma quantidade maior de casas decimais. Talvez, dando-se conta de que exagerava, admitiu haver duas nuvens a decifrar: as propriedades da luz e a radiação que os objetos emitem quando aquecidos. Se fosse mais modesto, poderia haver considerado que a descoberta do elétron, em 1890, por Thomson, apontava para a existência de nuvens mais densas no processo de conhecimento. Mas Kelvin, como muitos outros físicos, não considerou importante tal descoberta, se é que acreditou nela. Ainda hoje, boa parte dos cientistas considera que a física moderna, substituta da física clássica de Galileu e Newton, começou justamente no início dos anos 1900, com a teoria da relatividade de Einstein e com a teoria quântica de Max Planck (1858-1947) e Niels Bohr (1885-1962). Para eles, a física clássica teria descrito a dinâmica dos objetos maiores do que um átomo e menores do que o sistema solar, e havia incluído a eletricidade em seu conhecimento. Reconhecem, em geral, que a descoberta do elétron os teria alertado para a profundidade de sua própria ignorância a respeito do átomo e de sua divisibilidade. Mas desconsideraram Thomson como um dos iniciadores da física moderna. Isto talvez mostre o quanto eles tateavam, ou continuam tateando, no entendimento da verdadeira importância da descoberta do elétron, e do papel que esta partícula desempenha nas mudanças atômicas e moleculares. Assim, no início do século 20, tinham como física e quimicamente invariáveis e estáticos os corpos que examinavam, fossem os macros, como as galáxias e as estrelas, fossem os micros, como os átomos. Isto, apesar de Mendeleiev já haver apontado no sentido da transformação. Não é por 191 Q Tomo01.pmd 191 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 acaso, pois, que boa parte dos homens de ciência tenha ficado atônita quando a divisibilidade se mostrou incontornável. Eles estavam acostumados a considerar apenas os movimentos mecânicos, sem levar em conta a possibilidade de que, física e quimicamente, os átomos e os corpos se transformassem no curso desses e de outros movimentos, dando surgimento a novos átomos e novos corpos. Alguns físicos chegaram a afirmar que uma física das partículas só poderia ser exposta através de equações matemáticas, sem poderem ser vinculadas a coisas materiais, como na física clássica. Desse modo, acreditavam que a física das partículas se transformaria na mais abstrata e oculta das ciências. Os que pensavam assim talvez tenham se assombrado quando a física e a química tornaram possíveis coisas tão concretas como as destruidoras bombas atômicas e de hidrogênio, e os revolucionários chips de silício. A transformação da física e da química de partículas em ciências de resultados práticos muito palpáveis simplesmente mostrou quão obscuros eram aqueles pensamentos. Foi em meio a essas discussões e descobertas que Einstein contribuiu, em 1905, para subverter ainda mais as previsões de Michelson e Kelvin. Ele demonstrou matematicamente algo que vários filósofos da antiguidade, assim como de épocas posteriores, vinham afirmando há tempo. Isto é, que o espaço e o tempo eram a matéria prima da realidade, e que massa e energia podiam transformar-se uma na outra. Ele elaborou sua teoria da relatividade tendo por base a descoberta do movimento browniano. Este seria a prova da existência dos átomos e de que a luz seria composta de partículas. Em 1820, Robert Brown (17731858) havia observado, através de um microscópio, uma formação de fumaça composta de partículas em constante movimento. Essas partículas vibravam em torno de um mesmo ponto, em alta velocidade. Einstein deduziu que tais vibrações resultavam das colisões com as moléculas de ar. Essas moléculas, de todas as direções, bombardeavam as partículas, fazendo com que estas parecessem relativamente estacionárias. Portanto, mesmo enxergando única e exclusivamente o movimento mecânico, Einstein deu uma contribuição decisiva para demonstrar que espaço e tempo estavam em interação. Q 192 Tomo01.pmd 192 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR No caso da luz, Maxwel havia deduzido, no final do século 19, que sua velocidade deveria ser a mesma, qualquer que fosse a velocidade da fonte. Mensurações precisas confirmaram essa suposição. Einstein acrescentou que a luz se espalharia a partir de um evento, formando um cone tridimensional na dimensão temporal do espaço-tempo, chamado prisma de luz futuro do evento. Isso significava que, se uma vibração de luz fosse emitida num determinado tempo, por exemplo, a partir da explosão de uma supernova, localizada num determinado ponto do espaço, à medida que o tempo passasse, a luz se espalharia como uma esfera, cujo tamanho e posição seriam independentes da velocidade da fonte. A luz que chegava à Terra, vinda de estrelas e galáxias distantes, fora emitida há bilhões de anos. Portanto, o universo que vemos, através da luz emitida pelos corpos celestes, seria o universo do passado, não o do presente. Este, porém, era um problema que a maioria dos físicos também enfrentava mecanicamente. Não davam muita atenção ao detalhe de que tudo que existe no universo é datado. Isto é, sofre mudanças desde que surge até desaparecer. Portanto, se partirmos desse pressuposto, e também do fato de que o tempo é mudança, será preciso que o período de existência da luz de uma estrela, para continuar chegando até nós, tenha mais de 14,5 bilhões de anos. Se tiver menos, essa luz já morreu. Há seres vivos que duram apenas dias, semanas ou meses, como alguns insetos. Há animais que vivem 5 anos, outros 10 anos, outros 200 anos. Há árvores de 2 mil anos. Eras geológicas têm durabilidade de centenas de milhões de anos. Alguns átomos radioativos duram centésimos de segundo, enquanto o período de duração de um próton parece ser superior a vários bilhões de anos. Calcula-se que a Terra ainda dure 5 bilhões de anos e que o universo atual teve seu início há 14,5 bilhões de anos. A luz, assim como o calor e outras formas de energia, também estão sujeitas a essa lei geral de existência ou datação. Se a duração de existência da luz for igual ou inferior a 14,5 bilhões de anos, isto pode significar que a luz que está chegando até nós é de estrelas mais jovens e mais próximas. Para que a luz do universo primordial, como o chamam alguns físicos e astrofísicos, ainda esteja chegando até nós, isso significa que a durabili193 Q Tomo01.pmd 193 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 dade da luz deve ser igual ou maior do que 15 bilhões de anos. O que pode significar que a luz que está chegando até nós seja de um período anterior ao surgimento do universo. Podem existir partes mais antigas do universo cuja luz já se extinguiu e não podemos vê-las. Estaríamos tomando como início dos tempos algo no meio do caminho. Mas isso talvez seja algo a ser resolvido no futuro. De qualquer modo, Einstein desfez a teoria de que a luz consistia de ondas no campo magnético que permeia o universo, campo magnético até então tido como uma substância chamada éter. A descoberta do elétron, feita através da iluminação de uma lâmina de metal com luz ultravioleta, causando a emissão da partícula elétron através do anteparo e criando um efeito fotoelétrico, levou-o a deduzir que a causa de tal efeito era a emissão de energia em forma de luz. Embora revolucionário em alguns aspectos da teoria física, Einstein curvou-se a seu tempo e expressou a idéia de que essa energia luminosa deveria ser uma porção indivisível, uma partícula chamada fóton. Assim, por um lado mostrou que a existência do éter deixava de ter sentido, mas por outro decretou a indivisibilidade do fóton, mesmo sem experiências que a comprovassem. Tomando como um dado da realidade que a luz se desloca em linha reta, a uma velocidade de 300 mil quilômetros por segundo, Einstein concluiu que, ao aplicarmos uma força a um objeto, a fim de acelerá-lo, não só o faremos deslocar-se mais rapidamente, como também o tornaremos mais pesado. Conforme nos aproximarmos da velocidade da luz, despenderemos cada vez mais energia para fazer o objeto se deslocar mais rapidamente. Mas, com isso, o tornaremos cada vez mais pesado. Quando o objeto for acelerado até quase a velocidade da luz, não poderemos mais aumentar sua velocidade. E qualquer energia despendida a mais simplesmente aumentará sua massa. A taxa de conversão de energia em massa, E = mc2, na qual E = energia, m = massa e c2 = quadrado da velocidade da luz, significa que um pequeno aumento na massa necessita de um gigantesco gasto de energia para ocorrer. Ou, alternativamente, que uma quantidade mínima de massa pode resultar numa gigantesca liberação de energia, se ela Q 194 Tomo01.pmd 194 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR é impulsionada quase à velocidade da luz. Isto é o que ocorre na explosão de uma bomba nuclear. Ou na explosão de uma supernova. Ou ocorreu no big bang. No entanto, mais uma vez, todas as deduções de Einstein foram mecânicas e baseadas em partículas indivisíveis. Supor que elétrons, em seu movimento mecânico, pudessem se transformar em energia sob a forma de novas partículas fótons, não estava em seu pensamento. É verdade que ele, diferentemente de Newton, não considerava que a gravidade fosse uma força que os objetos exerciam uns sobre os outros, à distância. A gravidade seria uma distorção do espaço-tempo. A massa do Sol distorceria o espaço e o tempo de tal modo, que as trajetórias dos planetas pareceriam curvas. Assim, enquanto Newton transformou a gravidade numa força apenas atrativa, Einstein trocou essa força por uma distorção causada pela massa do Sol. Mas Einstein, ao contrário de Newton, tomou o espaço e o tempo como quantidades dinâmicas. Ou seja, quando um corpo se move, ou uma força atua, afeta a curva do espaço-tempo. A estrutura desta, por sua vez, afeta a forma como os corpos se movem e as forças atuam, enquanto também é afetada por qualquer coisa que aconteça no universo. Portanto, considerava a interação universal como um aspecto importante da realidade. Paralelamente à elaboração das teorias da gravidade de Einstein, entre 1905 e 1915, Ernest Rutheford vinha estudando a radiação. Na década de 1890, além da descoberta do elétron, se descobrira que elementos como o urânio, tório, polônio e rádio emitiam raios invisíveis, que podiam escurecer chapas fotográficas expostas a eles, tal como fazia a luz. Até então, as únicas fontes conhecidas de calor e luz eram as reações químicas. E a dedução lógica era de que tais elementos estavam submetidos a algum tipo de reação química espontânea. Tal dedução foi logo descartada por Rutheford. Ele verificara que o minério radioativo uraminita, continha vários elementos radioativos, como urânio e rádio. Constatara que a radiação da uraminita não podia provir de reações químicas porque, embora a radiação fosse muito alta, a composição química do minério não se alterava. Isto o levou a cometer, então, 195 Q Tomo01.pmd 195 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 o que deve ter parecido uma heresia. Declarou que a radiação provinha do interior dos próprios átomos. Isto, numa época em que a maioria dos cientistas ainda acreditava que os átomos eram indivisíveis e a possibilidade deles se desintegrarem era tida como impossível. Depois disso, ao trabalhar com o tório, Rutheford demonstrou que ele se transformava lentamente em outros elementos, primeiro numa substância que chamou de tório-X, que logo depois se transformava num gás, o torônio, que por sua vez se transformava rapidamente em hélio. O torônio, por sua vez, tornava radioativa qualquer substância com a qual entrasse em contato, mesmo que eventual e por pouco tempo. Soddy, assistente de Rutheford, que trabalhava na análise química das substâncias, concluiu que cada uma delas era um elemento independente, gerado a partir do tório. Diante disso, exclamou estar diante da transmutação, tão procurada pelos antigos alquimistas. A radioatividade não era, assim, um subproduto da desintegração dos átomos formando outros elementos. Era o próprio processo de desintegração e da transformação de um átomo em outros. Mais adiante, Rutherford descobriu que a radiação emitida por elementos radioativos consistia de partículas alfa, que não eram senão núcleos de átomos de hélio. Eles eram carregados positivamente e se moviam a uma velocidade apreciável, embora a uma fração da velocidade da luz. Essas partículas podiam atravessar gases e finas barreiras sólidas. Testes posteriores mostraram que a cada 8 mil partículas alfa lançadas numa lâmina de ouro de espessura micrométrica, uma ricocheteava. Rutherford descobriu, então, que os átomos têm toda a sua massa concentrada num minúsculo núcleo carregado positivamente, com o resto de seu volume constituído por uma nuvem de elétrons, que orbitam o núcleo. A maior parte de um átomo seria, pois, constituída de espaço vazio. Quando partículas alfa passam através de um sólido, elas passam pelas partes vazias dos átomos. As cargas positivas dos núcleos podem, ocasionalmente, desviá-las de seu caminho e fazer com que alguma delas colida diretamente com um núcleo. Neste caso, ela ricocheteará. Rutheford também deduziu que todo elemento químico conteria um número específico de prótons, com carga elétrica positiva. A quantidade de prótons, Q 196 Tomo01.pmd 196 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR porém, variaria. Se o núcleo contivesse prótons em demasia, ou de menos, tornar-se-ia instável e radioativo. Em continuidade, Rutheford utilizou um gerador capaz de acelerar núcleos de átomos de hidrogênio pesado, ou deutério, contra uma fina lâmina de lítio. O resultado foi a fusão nuclear. Sempre que um núcleo de deutério colidia de frente com um núcleo de lítio, os dois se fundiam antes de se partirem em dois átomos de hélio, movendo-se em direções opostas a velocidades imensas. Na fusão de dois átomos de deutério, por outro lado, detectou-se uma emissão de prótons rápidos com energia de até 20 mil eletrovolts. Em outras palavras, a fusão de dois núcleos atômicos, sendo um de deutério e outro de lítio, levaria à transformação deles em dois átomos de hélio. E a fusão de dois átomos de deutério levaria à transformação deles em prótons. Essas experiências e conclusões de Rutheford apontaram para vários aspectos inerentes à dialética. Primeiro, a divisibilidade. O átomo, como tudo mais, era divisível. Depois, a existência de opostos internos. Isto é, núcleo, com carga elétrica positiva, e elétrons, com carga elétrica negativa. Além disso, a transformação. Ou seja, no choque e fusão de dois núcleos atômicos, ou de dois átomos, a produção de dois novos átomos, diferentes dos anteriores, ou de prótons e energia. Em 1932, James Chadwick (1891-19740 descobriu que o núcleo continha outra partícula, chamada nêutron, com a mesma massa do próton, mas sem carga elétrica. Mais tarde se descobriu que os prótons e os nêutrons, quando colidiam entre si ou com outras partículas idênticas, davam surgimento a partículas ainda menores, que foram chamadas quarcks e existem em inúmeras e diferentes variedades. Na fissão nuclear, obtida apenas em 1938, o mesmo processo dialético se mostrou presente. Lise Meitner (1878-1968) disparou nêutrons contra o núcleo de átomos de urânio, constatando que um impacto direto no núcleo podia partir o átomo de urânio em duas partes quase iguais. Ela presumiu que as metades, ambas com cargas elétricas positivas, deveriam repelir-se mutuamente. Como uma gota líquida, elas saltariam em pedaços em grande velocidade. Mais intrigante do que isso foi o fato de que a divisão do núcleo produziu também um ou mais nêutrons, que poderiam 197 Q Tomo01.pmd 197 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 chocar-se com outros núcleos, fazendo com que eles, por sua vez, se dividissem, numa reação em cadeia. Uma quantidade de nêutrons, com qualidade determinada, disparada contra um núcleo de um átomo, também com qualidade determinada e diferente, causou a divisão do átomo em metades iguais (portanto diferentes do átomo original). Estas metades se transformaram, logo depois, em um ou mais nêutrons e núcleos, diferentes dos nêutrons e núcleos originais, liberando energia. Num processo sucessivo de transformações, nêutrons chocaram-se com outros núcleos, tornando-se nêutrons e núcleos diferentes e energia, até se esgotarem. A divisão e a transformação de quantidades e qualidades determinadas em novas divisões e em outras quantidades e qualidades, aspectos inseparáveis do processo dialético, são evidentes. O grave nessa reação em cadeia, na qual um único grama de urânio pode liberar energia equivalente à queima de 3 toneladas de carvão, transformando-se num processo gigantesco de explosão, como a das bombas nucleares, apenas mostra que os movimentos da natureza também podem conduzir à destruição. Outra das vantagens das teorias atômicas de Rutherford é que elas consideravam equivalentes as características elétricas e químicas dos átomos. Assim, no momento em que se verificou que os elétrons giravam a altas velocidades em torno do núcleo, deduziu-se que eles emitiam ondas eletromagnéticas, embora não se soubesse como eles reagiam à perda de energia causada por sua própria radiação. Isto levou Niels Bohr a dizer que as órbitas dos elétrons estavam separadas por um nada energético. William Campbell (1862-1938), por sua vez, afirmou que, quando um sistema mudava de alfa para beta de maneira descontínua, não existiria nada intermediário entre os dois estados. Filosoficamente, esse argumento é idêntico ao utilizado por Zenão de Eléia, contra os dialéticos gregos. Zenão dizia que era um absurdo supor algo cuja existência não podia ser provada. Nada muito diferente do que Bohr e Campbell fizeram, ao negar a continuidade do movimento, por considerarem inexistentes os estados intermediários. Bohr dizia que o espaço que separa duas órbitas Q 198 Tomo01.pmd 198 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR não teria realidade energética porque a radiação não seria determinada por um movimento de próximo a próximo, mas por uma função dos limites desse movimento. Deduziu então que a energia de uma órbita saltaria para outra órbita, por terem valores diferentes. Bohr talvez não tenha se dado conta de que, se isso fosse real, nos conduziria à conclusão de que o mundo atômico e o mundo terrestre não teriam qualquer influência entre si. O que deve ser um absurdo, a partir do fato de que todos os corpos terrestres, inclusive os corpos vivos, são constituídos de átomos. Os físicos explicam a corrente elétrica como um fluxo de elétrons através de uma substância, saltando de um átomo para outro. A cada salto, eles perderiam um pouco de energia, na forma de calor. Todas as substâncias, mesmo as melhores condutoras, como o cobre e os chips de silício, apresentam alguma resistência ao movimento dos elétrons, aquecendo-se. Além disso, alguns físicos acreditavam que os elétrons, ao oscilarem de um lado para o outro, emitiam energia na forma de ondas eletromagnéticas. No entanto, a teoria de que os elétrons, dentro dos átomos, oscilariam com enormes freqüências, irradiando toda a energia numa curta fração de tempo e caindo sobre o núcleo, parece não ter se mostrado real. O próprio Bohr descobriu que um elétron parece não perder energia continuamente, nem espiralar em direção ao núcleo do átomo. O elétron parece ganhar ou perder energia de forma escalonada, sendo aprisionado numa determinada órbita do núcleo a cada vez. Durante o tempo em que permanecer nessa órbita, ele não emitirá radiação. Foi preciso esperar mais de 20 anos para que o químico Linus Pauling (1901-1994), em 1930, dissesse que esse comportamento dos elétrons podia explicar como os átomos se ligavam para formar moléculas. Ou seja, isto se daria quando um átomo preenchesse uma órbita incompleta, compartilhando-a com um elétron de outro átomo. Em outras palavras, esse fato explicaria como a combinação de dois átomos diferentes produzia, dialeticamente, um corpo com estrutura e propriedades diferentes de cada um de seus formadores. Algo idêntico ocorreu com as experiências relacionadas com os materiais supercondutores. Em 1908, o físico holandês Heike Onnes (1853199 Q Tomo01.pmd 199 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 1926), ao estudar o comportamento de materiais a temperaturas extremamente baixas, havia conseguido liquefazer gás hélio comprimido a menos 269 graus centígrados. Nessa situação, os átomos quase deixavam de vibrar. Onnes mergulhou então várias substâncias no hélio líquido e, entre os experimentos realizados, tentou passar uma corrente elétrica através de vários metais. Para sua surpresa, a resistência elétrica do mercúrio desaparecia, de forma abrupta. Depois, verificou que vários outros metais exibiam a mesma supercondutividade a temperaturas extremamente baixas. No entanto, foram necessários outros 50 anos para descobrir que, num supercondutor, os elétrons se organizam em pares, ou pares de Cooper, e se comportam como partículas isoladas no nível mais baixo de energia. No par de Leon Cooper (1930-....) não acontece a propriedade do spin, isto é, da partícula girar em torno de seu próprio eixo, o que dá à parelha de elétrons a capacidade de ricochetear entre os átomos, sem dar ou receber qualquer energia. Eles se movem juntos através do supercondutor, passando direto pelos átomos, ao invés de saltarem de um em um. Além disso, a temperaturas extremamente baixas pode ocorrer um aglomerado de átomos. Eles se comportam como se fossem um único átomo, de tamanho imenso, o chamado condensado de Bose-Einstein. O físico indiano Nath Bose (1894-1974) tomou por base a teoria de Einstein de que todos os átomos podem ser descritos pelas mesmas equações matemáticas que podemos usar para descrever uma onda. Conforme um átomo vai esfriando, pode-se descrevê-lo como se estivesse aumentando seu comprimento de onda. A temperaturas extremamente baixas, por exemplo, menos 273 graus centígrados, o chamado zero absoluto, dois ou mais átomos adjacentes podem ter comprimentos de onda tão grandes que se sobrepõem, causando uma interferência mútua. Por fim, as ondas podem fundir-se, fazendo com que os átomos fiquem com as mesmas propriedades e comportamentos, não podendo mais ser descritos separadamente. Nos anos 1990, foram realizadas experiências para testar a teoria do condensado, que se comprovou certa, sendo possível que isso tenha implicações na fabricação de supercondutores. Q 200 Tomo01.pmd 200 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Porém, não passou pelas cabeças de Einstein e Bose, nem dos experimentadores que testaram a teoria do condensado, que em temperaturas extremamente baixas, os átomos devem fundir-se num novo átomo, e que este novo átomo ganha novas propriedades, novo comportamento e novo comprimento de onda. Parece não lhes passar pela cabeça que os átomos tem variabilidade, e que a temperatura desempenha papel importante nesse processo. Se o calor se reduz, reduzindo o movimento, a gravidade tende a crescer, superar a repulsão e causar a fusão dos pólos da partícula. Em sentido inverso, se o calor se eleva e, com isso, o movimento se acelera, a repulsão tende a superar a gravidade. O pólo negativo da partícula é expelido, podendo se unir a outra partícula, que será transformada em uma partícula de outro tipo. Ao mesmo tempo, o pólo positivo da partícula original pode se anular e desaparecer. O entendimento desses movimentos internos dos átomos ainda está longe do consenso científico. O caso de Max Planck, que cunhou o termo mecânica quântica, é emblemático da perplexidade em que se encontravam os físicos, ainda na década de 1930. Ele simplesmente não acreditava na existência dos átomos. Mas, para estudar como os objetos brilham quando aquecidos (aquilo que os físicos chamam de radiação do corpo negro), teve que admitir que a matéria é composta de átomos. Sem admitir a presença dos átomos não haveria como explicar que, à medida que a temperatura aumenta, freqüências de luz cada vez mais altas são acrescidas ao brilho, começando do infravermelho, passando para o vermelho, depois para laranja, amarelo, verde, azul, violeta, até chegar ao ultravioleta. Isto acontece porque, quando um objeto é aquecido, a quantidade de energia recebida pelos átomos que o compõem cresce passo a passo. Os átomos absorvem uma faixa de níveis discretos de energia. Para irradiá-la e perder temperatura, devem descer a escala passo a passo, emitindo luz em determinadas freqüências a cada passada. Essas pequenas porções discretas, que Planck chamou quanta, foram tidas como um fator invariável, uma constante, a constante de Planck, sendo representada em sua fórmula matemática pela letra grega h. 201 Q Tomo01.pmd 201 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Deduzindo-se que a energia atue por meio de quantidades discretas, ou quanta, significando a menor mudança possível em qualquer coisa, tudo deveria ocorrer de maneira semelhante. No entanto, como todas as constantes, a constante de Planck só é válida sob determinadas condições. Se tais condições mudarem, como no caso da liberação de energia das bombas atômicas e de hidrogênio, aquela constante não tem aplicação, do mesmo modo que a constante da gravidade terrestre não tem aplicação na Lua, e a constante da fervura ao nível do mar não tem aplicação a altas altitudes ou a grandes pressões. Essa é a contradição que a mecânica e a noção de invariabilidade geram ao procurar explicar fenômenos com alta taxa de mudança. O que não exclui a possibilidade de que, do mesmo modo que a fórmula de Ptolomeu deu conta, por um bom tempo, das medidas planetárias, a formula matemática de medida da energia contida num fóton, dada pela equação E = hv, onde E é energia, h é a constante de Planck e v a freqüência de cor da luz, seja útil dentro dos limites terrestres e planetários em que nos encontramos. Por essa fórmula, quanto mais alta a posição da luz no espectro, mais energia cada fóton carrega. Na luz ultravioleta, um fóton carrega energia suficiente para que, atingindo um elétron, possa extraí-lo de seu átomo original. O fato do fóton, ao atingir um elétron, extraí-lo de seu átomo original, transformando tal átomo em outro átomo, ou em diferentes partículas, necessitando de outra fórmula que explique a mudança, parece não interessar. Afinal, para explicá-lo seria necessário saltar da física e ficar num espaço intermediário entre ela e a química. Tanto que Louis Victor de Broglie (1892-1987), nos anos 1920, ao demonstrar que qualquer tipo de partícula, seja um elétron, um próton ou mesmo um átomo, se comportaria também como uma onda, apenas se interessou no comportamento mecânico da partícula como onda. Porém, como é possível que alguma coisa se comporte, ao mesmo tempo, como onda e partícula? Alguns físicos querem resolver essa questão pedindo que não se tente visualizar essas coisas, mas apenas conferindo os resultados dos experimentos com as equações teóricas, embora Feymann sempre pedisse que se dessem exemplos concretos para explicar as equações teóricas. Q 202 Tomo01.pmd 202 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Essas dificuldades teóricas e práticas, diante da existência de partículas menores do que os átomos, com movimentos aparentemente erráticos, levaram Werner Heisenberger a formular, em 1926, uma teoria matemática, a mecânica matricial, visando a aplicação da teoria quântica ao comportamento dos elétrons. Em 1927, Erwin Schrondinger (1887-1961) apresentou sua teoria da mecânica ondulatória, que chegava aos mesmos prognósticos de Heisenberger. Segundo este, seria impossível explicar os movimentos dos átomos e elétrons porque só se poderia explicar coisas possíveis de serem observadas num experimento. Ninguém jamais poderia definir a posição exata e a velocidade precisa de um elétron, ou de qualquer outra partícula, simultaneamente. Disso resultou seu princípio da incerteza, estabelecendo que nunca se poderá conhecer o presente com suficiente exatidão, o que nos impedirá de fazer qualquer previsão sobre o futuro. Portanto, com base nesse princípio da incerteza, que certamente seria apoiada por Zenão de Eléia, jamais se deveria tentar explicar os buracos negros, as estrelas de nêutrons, e as supernovas, porque são impossíveis de serem observadas num experimento. Ou até mesmo haver suposto que a Terra era arredondada, numa época em que não se podia fazer uma volta ao mundo, ou observar o planeta de um satélite artificial. Heisenberger e alguns físicos da atualidade parecem desdenhar o fato de que uma teoria científica precisa ter prognósticos claros que possam ser testados, mas estes testes também podem ser feitos por meios indiretos, como esperar um eclipse lunar para demonstrar que a luz faz um desvio quando encontra um corpo pela frente. Embora alguns físicos apelem para o princípio da incerteza toda vez que não conseguem explicar o comportamento de alguma partícula, Paul Dirac preferiu deduzir que deveria existir uma partícula jamais vista antes, igual ao elétron, mas eletricamente oposta. Se esse elétron positivo colidisse com um elétron normal, os dois se aniquilariam mutuamente, transformando suas minúsculas massas num lampejo de radiação, com energia de acordo com a equação E = mc2, o que foi confirmado em 1932. Em outras palavras, Dirac também poderia ter dito que o elétron é formado de dois aspectos opostos, cujo movimento de interação mútua 203 Q Tomo01.pmd 203 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 pode levar à transformação de ambos em energia. Anaximandro ou Heráclito, se vivos fossem, talvez dissessem que ele descobrira a contradição interna do elétron. Mas Dirac preferiu chamar o elétron positivo de pósitron, o que dará na mesma. Mais tarde, Emílio Segré descobriu o anti-próton e vários outros físicos propuseram anti-partículas para todas as partículas descobertas. Ou seja, é muito difícil estudar as partículas sem levar em conta a presença de seus opostos. Isto é, sem usar a dialética como instrumento de pesquisa. É levando isso em conta que vamos tentar nos aproximar do início dos tempos, ou do início da história do universo atual. Q 204 Tomo01.pmd 204 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR A dialética quântica O que parece uma brincadeira dos átomos e de suas partículas, é um dos principais métodos da história para evoluir. Não apenas da história da natureza viva, dos vegetais e animais, entre os quais nos encontramos, mas também da natureza inanimada, que alguns chamam de inerte ou morta, sobre a qual vivemos, arrancando nosso ar, nossa água, nosso calor e nosso sustento. No processo do conhecimento dos átomos e partículas, apesar de todos os percalços e vai-e-vens dos homens de ciência, já se chegou à compreensão de que átomos e partículas são divisíveis, apesar dos que consideram os quarcks indivisíveis. Também se sabe que as partículas ainda não são visíveis, nem mesmo com a utilização de microscópios de alta resolução. Mas elas podem ser detectadas através de experimentos com campos elétricos, emissão de raios, ou colisões entre as próprias partículas. Há uma compreensão razoável de que as partículas possuem energia, gerada por seu próprio movimento interno e por sua relação com as demais partículas do átomo. Neste caso, a existência de um núcleo carregado positivamente, e de elétrons carregados negativamente, é a base do movimento interno dos átomos e da intensa interferência ou interação entre as partículas e os átomos, assim como de suas divisões ou fissões, embora isto esteja longe de ser consensual ou ter sido assimilado por boa parte dos homens de ciência. Por exemplo, há uma certa suposição de que a energia não pode ser criada do nada. Alguns cientistas acreditam que, em tal condição, num par composto de partícula e anti-partícula, um dos elementos terá energia positiva e, o outro, negativa. O que tiver energia negativa seria condenado a ser uma partícula virtual, de vida curta, porque as partículas reais sempre apresentariam energia positiva em situações normais. A partícula negativa deveria, portanto, procurar um par e se anular 205 Q Tomo01.pmd 205 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 com ele. A energia da partícula real seria sempre positiva. Mas alguns cientistas admitem que, em algumas situações onde um campo gravitacional se apresente muito forte, mesmo uma partícula real poderia apresentar energia negativa dentro dele. Na presença desse campo gravitacional, a partícula virtual se tornaria uma partícula ou anti-partícula real. Este é um exemplo claro da dificuldade em entender a dualidade e a natureza da partícula. O fato de que ela possua, num de seus pólos, energia positiva, e no outro, que a maioria dos físicos prefere chamar de antipartícula, uma energia negativa, já significa que ela possui energia potencial. Esta energia é resultado do seu movimento natural, produzido pela atração e repulsão de seus pólos contrários. Além disso, ao agir sobre outra partícula, uma partícula pode transferir seu pólo negativo (a anti-partícula) para ela, anulando-se. Portanto, ao procurar um par, a partícula negativa anula a positiva e, ao mesmo tempo, se transforma (o que não deixa de ser uma forma de anular-se), assim como ao par que encontrou, criando uma partícula de novo tipo. Enquanto a anulação do pólo positivo da partícula foi destrutiva, a anulação do pólo negativo, em conjunto com a partícula para a qual se transferiu, foi criativa. Em todos os casos, temos partículas reais. E, ao contrário do pensamento corrente, é a partícula negativa que tem papel ativo. Pode até ter vida curta, mas só se anula para criar algo novo. Por outro lado, nas condições de um campo gravitacional muito forte, que reduza a velocidade do movimento dos pólos contrários, estes podem fundir-se, levando à criação de uma nova partícula, com a inversão dos pólos anteriores. No processo de interação, as partículas tendem a se compor em prótons e nêutrons, enquanto os átomos trocam elétrons entre si, anulando-se e, ao mesmo tempo, formando novos átomos ou moléculas. No processo de divisão dos átomos e partículas, também ocorre a anulação de alguns deles e a formação de novas partículas e átomos. Em todos os casos, ocorre a geração e a perda de algum tipo de energia, seja calor, luz ou outra forma de movimento da matéria. Assim, ao contrário do que pensam alguns físicos, não é o elétron que capta energia de um campo elétrico. É um elétron que, em seu movimenQ 206 Tomo01.pmd 206 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR to, gera tal campo. As partículas podem, assim, gerar campos eletromagnéticos de alguns bilhões de eletrovolts, que podem ser revertidos, por sua vez, em energia elétrica. As tempestades eletrônicas, por exemplo, conhecidas como radiações Cerenkov, são causadas pela colisão de raios gama contra átomos da atmosfera terrestre. Essa colisão produz pares de elétrons e positrons (ou anti-elétrons, ou o pólo negativo do elétron). Tais pares, por sua vez, se chocam com outros átomos, gerando mais fissões nos elétrons (ou mais pares de elétrons-positrons), numa reação em cadeia, que libera energia na forma de relâmpagos de luz. Em todos esses casos temos uma mesma lei geral. Um par de opostos, em movimento de atração e repulsão, ou unidade e choque, equilíbrio e desequilíbrio, evolui num processo de mudança ou transformação de sua quantidade, forma e qualidade, dando surgimento a uma nova quantidade, forma e qualidade de opostos. Os físicos ainda hoje têm dificuldade em entender que estão diante de uma lei geral do movimento da matéria. Os químicos, por seu lado, a tratam como prática corrente e muitos deles nem sequer se preocupam com o que alguns chamam apenas de aspectos filosóficos de sua ciência. O atomismo e a teoria das partículas se tornaram, assim, ciências que devem atender a todas as demais ciências naturais. Em todas elas apresentam-se, ao mesmo tempo, leis idênticas e uma enorme diversidade de leis particulares ou específicas. Tanto as leis idênticas, quanto a diversidade, só são dominadas pelo pensamento humano à medida que aparecem claramente na realidade dos corpos. O que, historicamente, como temos visto até agora, ocorreu lenta e tortuosamente, tendo que acompanhar a evolução técnica da sociedade humana. Por exemplo, as propriedades de bases e sais, que têm papel importante na classificação das espécies químicas, não foram percebidas de imediato. Só puderam aparecer claramente quando foi possível obtê-las em condições de pureza que eram difíceis de atingir sem um determinado estágio de desenvolvimento técnico. Já a mecânica quântica parece uma teoria extremamente bem sucedida para o desenvolvimento da tecnologia moderna. Ela não só explicaria, mas também comandaria o comporta207 Q Tomo01.pmd 207 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 mento dos transistores e circuitos integrados dos inventos eletrônicos, sendo ainda a base da química e da biologia modernas. No entanto, a maioria dos físicos reconhece que a mecânica quântica não conseguiu ser incorporada à gravidade e à macroestrutura do universo. Muitos cientistas pensam que poderão resolver esses problemas e, ao mesmo tempo, reproduzir as condições do início do universo, com experiências de choques de partículas a grande velocidade, nos chamados aceleradores ou colisores nucleares. No entanto, é muito provável que isto lhes permita conhecer um pouco mais sobre as transformações sofridas pelas partículas durante as colisões, mas pouco sobre a natureza interna das próprias partículas. Enquanto a teoria quântica continuar sendo mecânica e não incorporar a seus estudos a natureza física das partículas, dificilmente conseguirá resolver os problemas com que se defronta ante a estrutura delas. É útil lembrar que muitos dos avanços na eletrônica foram devidos aos químicos e seus experimentos quânticos práticos. O movimento quântico é o reino da atração e da repulsão em alta velocidade. Não é por acaso que a hipótese quântica sustenta que a luz, sob algumas formas, se comporta como se fosse composta de partículas, embora o mais adequado seria dizer que a luz é composta por partículas, mas pode se movimentar na forma de ondas. Os teóricos costumam inverter a realidade. Supõem que, para alguns de seus propósitos, é útil pensar nas ondas como partículas, ou que a interferência entre dois conjuntos de ondas ou partículas, que pode leválas a anular-se mutuamente, ocorre devido à dualidade introduzida pela mecânica quântica. Na verdade, é a verificação prática dessa dualidade partícula-onda que nos levou a pensar nela e teorizá-la como parte da física quântica. O movimento interno da partícula também pode se combinar com seu movimento externo. Como a maioria dos físicos só consegue visualizar as mudanças ou transformações quando átomos e partículas se chocam, temos uma quantidade enorme de experimentos comprovando os resultados das interferências externas sobre as mudanças atômicas. Tais choques dão surgimento a novas partículas e mesmo a átomos, ambos de Q 208 Tomo01.pmd 208 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR propriedades diferentes da partícula originária. Apesar disso, a maior parte dos físicos não acredita na dualidade interna das partículas. E, menos ainda, na possibilidade da dualidade entre esses opostos ser o motor principal das mudanças das partículas e dos átomos. Pior, eles acreditam haver encontrado na partícula quarck o elemento fundamental indivisível. Com ela, ter-se-ia chegado ao limite de divisibilidade da matéria. Este seria o derradeiro tijolo de construção da matéria, o mesmo conceito de Demócrito em relação ao átomo. A indivisibilidade se refugiou, assim, no nano, apesar dos antiquarks já serem, em si, uma possibilidade de divisão e oposição. Há um certo consenso de que as partículas apresentariam a propriedade chamada spin, um movimento de rotação em torno de um eixo pouco definido que, quanto mais alto for, menor será a fração de volta completa necessária para que a partícula pareça a si mesma. No esforço de decifrar esse movimento mecânico das partículas, os físicos chegaram à conclusão de que nem todas as partículas se assemelham. Algumas precisam de 2 voltas inteiras para assemelhar-se a si mesmas (são as de spin-½), enquanto outras não precisam chegar a tanto (são as de spin-0, spin-1 e spin-2). As primeiras, não se sabe bem por que, forneceriam a matéria do universo, enquanto as outras forneceriam os movimentos ascendentes às forças entre as partículas de matéria. A síndrome do éter retornou, pois, pelas mãos da mecânica quântica. Diante desse problema, Wolfgang Pauli (1900-1958) descobriu que duas partículas semelhantes não podiam existir no mesmo estado. Não podiam ter a mesma posição e a mesma velocidade, o que chamou de princípio de exclusão. A partir daí, chegou à conclusão de que, se o mundo tivesse sido criado sem esse princípio, os quarcks não formariam prótons e nêutrons diferentes e bem definidos. Nem estes formariam, junto com os elétrons, átomos diferentes e bem definidos. Em outras palavras, Pauli quase se desvencilhou da metafísica ao formular seu princípio de exclusão. Mas não conseguiu entender que as duas partículas podem ser um par, que se une e se exclui e, nesse movimento incessante, pode se transformar em prótons e nêutrons. Esta transformação, que poderíamos chamar de uma singularidade, escapa ao movimen209 Q Tomo01.pmd 209 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 to mecânico, embora este coopere para que ela ocorra. O mesmo ocorre com o par núcleo–elétron que, ao se unir, transforma-se em algum tipo de átomo e, ao se dissociar, pode tanto transformar o átomo em outro tipo de átomo, como anular-se como energia irradiada. Nessas condições, a exclusão é apenas um aspecto do processo de transformação, da mesma forma que a atração, ou união, é outro aspecto. Mas Pauli tinha razão em supor que a exclusão é o aspecto que leva à transformação. Uma das partículas é o elemento excludente. Ela leva à mudança na união anterior, do mesmo modo que o elétron exerce claramente esse papel na unidade que forma o átomo. É o elétron que pula de um átomo para outro e, ao fazer isso, transforma tanto o átomo do qual fazia parte, quanto o novo átomo ao qual se associou. Ao negar a si próprio como elemento negativo, ele transforma seu par positivo e cria um novo par, do qual pode ser o elemento positivo. Em termos genéricos, também poderíamos dizer que o elétron destruiu a contradição anterior e criou uma nova contradição. Apesar disso, boa parte dos físicos apenas admite a existência de uma anti-partícula para cada partícula, em relação à qual ela pode se anular, sem entender bem por que. Dirac dizia que partículas carregadas de força faziam supor que as anti-partículas fossem as próprias partículas. Desse modo, uma partícula de matéria, tal como um elétron ou um quarck, emitiria uma partícula carregada de força. A retração causada por essa emissão alteraria a velocidade da partícula de matéria, enquanto a partícula carregada de força colidiria com outra partícula de matéria e a absorveria. Esta colisão alteraria a velocidade da segunda partícula, exatamente como se houvesse uma força entre as duas. Portanto, ainda segundo Dirac, seria uma propriedade das partículas carregadas de força o fato de não obedecerem ao princípio de exclusão. Não existiriam limites para as trocas que podem ser efetuadas, aumentando assim uma força forte. Se as partículas carregadas de força tiverem massa elevada, seria difícil produzi-las e trocá-las a uma longa distância. As forças carregadas teriam apenas pequeno alcance. As partículas carregadas de força e trocadas com partículas de matéria seriam chamadas de virtuais porque, diferentemente das partículas reais, não poderiam ser Q 210 Tomo01.pmd 210 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR diretamente identificadas por um detector de partículas. Mas existiriam porque têm efeito mensurável e produziriam força entre as partículas. As partículas reais, por sua vez, poderiam ser detectadas. Elas apareceriam sob a forma do que um físico clássico chamaria de ondas, como as de luz e gravitacionais. Tais ondas seriam emitidas quando as partículas reais interagissem entre si, trocando partículas virtuais carregadas de força. Por exemplo, a força repulsiva entre dois elétrons seria devida à troca de fótons virtuais. Porém, se um elétron passasse por outro, provocaria fótons reais, detectados como ondas de luz. É impressionante como Dirac chegou quase lá, ao descobrir os opostos elétron e anti-elétron, partícula e anti-partícula. Mas, apegado à metafísica, não conseguiu entender os movimentos internos de atração, fusão, gravidade, união, ou unidade dessas partículas, movimentos nos quais aparecem como se fossem uma coisa só. Nem entender os movimentos de repulsão, exclusão, conflito, fissão, ou divisão, em que as partículas aparecem claramente como se fossem elementos opostos e diferentes, em que um nega o outro e, em seu movimento dissidente, pode levar à transformação de ambas as partículas em outra partícula, ou em um átomo. Viu-se obrigado, assim, a criar uma partícula de matéria e uma partícula de força, a famosa força que sempre reaparece quando não se tem a explicação de um fenômeno. Todas as partículas são formas de matéria. A idéia de que algumas são de matéria e outras carregadas de força, que umas são reais e outras virtuais, é incongruente e só serve para confundir a explicação da realidade. A chave para sair dessa armadilha quântica é compreender que as formas mecânicas de movimento da matéria podem se transformar em outras formas, físicas e químicas. Talvez por isso, Feymann tenha chegado à conclusão de que todos os fenômenos que vemos resultam da complexidade dos mecanismos internos que envolvem os átomos. O movimento interno da partícula gera energia, em sua forma de calor, ou repulsão, que se contrapõe à gravidade da massa da partícula, da mesma forma que o movimento dos átomos de hidrogênio e hélio, ao realizar a combustão do Sol e gerar calor, se contrapõe à gravidade da massa daqueles elementos. 211 Q Tomo01.pmd 211 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Hawking chegou a considerar que a mais interessante entre as teorias existentes é a previsão de que os prótons, que formam a maior parte da massa de matéria comum, podem espontaneamente deteriorar-se em partículas mais leves, como os anti-elétrons. Em outras palavras, Feymann e Hawking chegaram perto, mas também não conseguiram tirar as devidas conclusões. Um próton deve ser divisível por seu próprio processo interno, ou espontâneo, de movimento. Embora não necessite de qualquer força externa para isso, precisa que as condições externas sejam favoráveis à sua realização, do mesmo modo que uma semente só brota se as condições de temperatura, umidade e pressão forem adequadas. No interior de um átomo as condições externas podem estar relacionadas à interação com outros átomos. E, no interior de uma partícula, podem estar relacionadas à interação com as demais partículas do átomo. O processo de divisão, deterioração ou transformação do próton leva-o a transformar-se em antielétrons, mudando de qualidade. Porém, ao invés de realizar tais deduções, Hawking diz que a razão que torna possível a transformação do próton em anti-elétrons residiria em que, na energia da grande unificação (GUT), não haveria diferença essencial entre um quarck e um anti-elétron. Ou seja, mais uma vez subordinou as leis da realidade às teorias humanas, e considerou que todos os quarcks são iguais, além de indivisíveis. Para complicar ainda mais seu raciocínio, ele defendeu a idéia de que três quarcks de um próton não teriam energia suficiente para se transformar em anti-elétrons. Porém, ocasionalmente, um deles poderia adquirir energia suficiente para fazer a transição. Por quê? Porque o princípio de incerteza garante que a energia dos quarcks, dentro de um próton, não pode ser estabelecida com precisão. Sua conclusão: a possibilidade de deterioração espontânea do próton não pode ser testada experimentalmente. Mas, ele admite que é possível detectar uma deterioração observando a grande quantidade de matéria contendo elevado número de prótons. Ou seja, ele também poderia ter dito que as simples leis estatísticas podem descartar o princípio de incerteza e indicar as possibilidades de deterioração. Que é, aliás, o que ele faz quando indica que se pode calcular a vida provável do próton em mais de 10 milhões de milhões de milhões de Q 212 Tomo01.pmd 212 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR milhões (1 seguido de 31 zeros) de anos. O que o leva a deduzir que, embora seja difícil observar a deterioração dos prótons, este processo inverso seja o que predomina atualmente. Isto é, que os prótons estejam sendo produzidos a partir dos quarcks, pois esta seria a forma mais natural de se imaginar o universo começando. Essa teoria sugere a possibilidade de um próton transformar-se em antielétron. Além disso, proporciona instrumentos matemáticos para calcular sua durabilidade de existência. Apesar disso, seus autores não se aperceberam de que isso gera uma contradição com o tempo provável de início da existência do universo. Se um próton precisa de mais de um trilhão de anos para desaparecer, isso significa que eles são muito anteriores ao início do universo atual, conforme descrito pela teoria do big bang. Eles já estariam presentes antes dos 14,5 bilhões de anos atrás, o que contradiz a suposição de que eles teriam se formado depois, no processo de esfriamento, conforme explicitado por George Gamow (1904-1968) e outros. Essa contradição de Hawking o leva, na prática, a apoiar a teoria do universo dinâmico eterno, para o qual deve haver ocorrido apenas uma mudança de fase num universo eternamente uniforme, com a transformação da contração anterior na expansão atual. É verdade que a teoria do big bang peca por considerar o universo finito, desdenhando a possibilidade de que esse universo finito, com começo no big bang e provável fim no big crunch, faça parte da infinita matéria em movimento. A teoria do universo dinâmico eterno, por seu lado, peca por não considerar que o universo atual pode ter um início e um fim. Isto é, que as mudanças que ocorrem em sua evolução não sejam apenas mudanças de fase, mas mudanças de qualidade. Mas essas questões serão vistas mais adiante. No momento, continuemos com o raciocínio de Hawking, segundo o qual a Terra seria feita principalmente de prótons e nêutrons que, por sua vez, seriam feitos de quarcks. Ele não percebeu que isto também jogaria a idade da Terra para muito além dos números atuais. Além dessa contradição, ele afirma que não haveria anti-prótons e anti-nêutrons além daquele pequeno número que foi produzido como pares de partícula / anti-partícula durante as colisões sob energia elevada. Ou seja, ele parte do pressuposto de que a quantidade de partículas presentes na grande explosão seria imutável. Seu cálculo é de que, se em 213 Q Tomo01.pmd 213 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 nossa galáxia existissem grandes regiões do que ele chama de anti-matéria, isto nos levaria a observar grandes quantidades de radiação nos limites entre as regiões de matéria e anti-matéria. Nessas regiões, muitas partículas colidiriam com suas anti-partículas, anulando-se mutuamente e liberando radiação de alta energia. Com esses argumentos estamos imersos numa confusão total. Primeiro, ele desconsidera que, além de prótons e nêutrons, a Terra também deve conter elétrons numa proporção considerável, já que sem eles não teríamos átomos. Depois, é difícil dizer que o universo tem o predomínio de prótons e nêutrons, porque não temos ainda aparelhos que possam realizar medidas consistentes a respeito e porque as experiências têm demonstrado uma constante produção de elétrons e outras partículas. Além disso, se os anti-prótons e anti-nêutrons produzidos só existem em pares com seus prótons e nêutrons, detectados quando se transformam, liberando energia, por que desconsiderar que eles são opostos que só se mostram como tais ao dissociar-se? Finalmente, se a matéria existe, em movimento, através de suas diversas formas duais, físicas, químicas, biológicas e energéticas, por que cientistas que não acreditam na dualidade dessas formas se vêem constrangidos a introduzir a noção de antimatéria, supostamente existente nas galáxias, à parte de suas formas duais? Essa confusão se torna ainda mais interessante quando Hawking confirma que, pela teoria da grande unificação (GUT), sob altas energias os quarcks podem se transformar em anti-elétrons. Do mesmo modo, os anti-quarcks podem transformar-se em elétrons, e os elétrons e anti-elétrons podem transformar-se em anti-quarcks e quarcks. Ainda de acordo com ele, no início do universo, quando a matéria era tão quente que as energias eram elevadas o suficiente, aquelas transformações ocorreriam normalmente. Porém, por que ele deduz, daí, que existiriam mais quarcks do que anti-quarcks? Ele afirma que isso se deve ao fato das leis da física daquele período não serem exatamente as mesmas para partículas e anti-partículas. O que pode ser verdade, mas não explica nada. Vamos supor que os quarks sejam uma unidade de opostos que, numa situação de elevação da temperatura a níveis muito elevados, começam a dissociar-se, dando a impressão Q 214 Tomo01.pmd 214 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR de que são pares de partículas-anti-partículas, ou quarks-anti-quarcks. Numa situação dessas, num determinado momento, podem ter havido mais quarks em associação ou unidade, ou em composição, do que quarks em dissociação ou divisão. O problema é que Hawking e uma série considerável de cientistas não aceitam que partículas como os quarks sejam divisíveis. O que os leva a empacar do mesmo modo que muitos cientistas dos séculos 19 e 20 empacaram diante da divisibilidade do átomo. Assim, embora as antipartículas estejam a todo momento à sua frente, eles preferem agarrar-se à metafísica e colocar a física diante de uma bruta contradição. No momento que eles passarem a considerar as partículas compostas de pares que, em união, parecem uma partícula e, em exclusão, parecem uma partícula e uma anti-partícula, talvez a física dê um novo salto em seu desenvolvimento. Por outro lado, enquanto eles mantiverem as partículas como indivisíveis, será quase impossível examiná-las em seu movimento interno. Dificilmente poderão comprovar que, da mesma forma que os átomos se movem pela atração e repulsão de seu pólo positivo (núcleo) e seu pólo negativo (elétron), as partículas também devem mover-se impulsionadas por pólos opostos internos. Uma anti-partícula, tudo indica, deve ser apenas um pólo em unidade com outro. Tal partícula pode dividir-se, anular um de seus pólos e transformar-se em outra partícula, com outra dupla polaridade. Paralelamente a essas dificuldades com o movimento interno das partículas, Hawking considera que a teoria geral da relatividade, embora pareça comandar a estrutura macro do universo, não dá conta do princípio da incerteza da mecânica quântica. Para ele, a razão pela qual ela não é discrepante face à observação é que todos os campos gravitacionais experimentados são muito fracos. Entretanto, ele reconhece que os teoremas da singularidade indicam que o campo gravitacional deve ser muito forte em pelo menos duas situações: buracos negros e big bang. Ele não leva em conta que a teoria geral da relatividade de Einstein e a teoria gravitacional de Newton não são discrepantes quanto às realidades terrestre e planetária. Nestas realidades, a gravidade, e não a repulsão, é muito forte, predominando esmagadoramente sobre a expansão. Tudo indica que a gravidade também é muito forte na realidade dos buracos negros. 215 Q Tomo01.pmd 215 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Este é mais um exemplo claro de situação contraditória, já que o universo se encontra em expansão geral. Em relação ao big bang, é preciso distinguir a situação anterior a ele. Ou distinguir sua condição preliminar, na qual a gravidade era infinitamente grande, da realidade do big bang propriamente dita, de repulsão, ou expansão, infinitamente grande. Em ambos os casos, podemos ter uma singularidade. Ou a transformação de um tipo de realidade em outro tipo de realidade. Se considerarmos as transformações de um estado em outro, de uma forma em outra, de um conteúdo em outro, como singularidades, estas não ficarão restritas ao âmbito dos buracos negros e do big bang. Deveríamos incluir na categoria singularidade outros fenômenos de transformação, a exemplo das combinações das partículas que levaram à formação histórica do átomo de hidrogênio. Essas dificuldades, enfrentadas principalmente pelos físicos teóricos, estão relacionadas ao domínio exercido pela metafísica em sua metodologia de pesquisa. Basta lembrar que somente nos anos 1970 eles se convenceram de que os prótons e os nêutrons eram formados de partículas ainda menores. Isto, embora nos anos 1950 já houvessem sido identificadas seis partículas subatômicas, da família dos bárions, além de outras sete partículas leves, da família dos mésons. Aliás, eles consideram os mésons uma unidade de quarks e anti-quarks, sem atinar que estão, inconscientemente, aceitando a dialética do processo. Pensar na realidade das transformações das diversas formas da matéria em movimento tem sido uma dificuldade permanente. É verdade que os matemáticos se viram obrigados a criar a teoria dos grupos, na esperança de explicar a existência e o movimento das partículas subatômicas. Essa teoria matemática trabalha com grupos compostos por duas ou três partículas menores, os quarks, e admite que a cada quark corresponde um antiquark. Para que os cálculos funcionem, a teoria dos grupos parte da suposição de que é impossível a um quark isolado existir por si mesmo. Nada muito diferente do que Engels afirmava, cem anos antes, ao dizer que até então não se conseguira, dentro de um corpo isolado, transformar o movimento, passando-o de uma forma a outra forma. Isto, tanto para os corpos inaniQ 216 Tomo01.pmd 216 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR mados, quanto para os corpos animados. A teoria matemática dos grupos apenas expressa essa realidade da relação ou interação da matéria. Outro problema da física do século 20 consistiu em descobrir como as partículas que constituem os átomos se mantinham unidas, assim como que forças estariam envolvidas quando os átomos de elementos radioativos, como o urânio, decaíssem com partículas arremessadas para longe. Nessa busca, por volta dos anos 1970, eles começaram a falar de um modelo padrão de partículas subatômicas e das forças que governariam seus comportamentos. De acordo com esse modelo padrão, existiriam três forças agindo dentro do átomo: a força eletromagnética, que ligaria entre si os elétrons, prótons e nêutrons; a força nuclear forte, que manteria os quarks juntos, formando prótons e nêutrons; e a força nuclear fraca, que se relacionaria com certas formas de decaimento radioativo. Cada uma dessas forças seria transportada por uma partícula. A força eletromagnética seria transportada por fótons, conforme sugerido por Enrico Fermi (1901-1954), em 1920. A força nuclear forte seria conduzida por partículas chamadas glúons, observadas pela primeira vez em 1979. A força nuclear fraca seria enigmática, pois não conteria os objetos unidos. Ela apenas participaria momentaneamente das ações, na ocasião em que uma espécie de partícula decaísse em outra. Ela poderia ser transportada por dois tipos de partículas, chamadas W e Z, que em circunstâncias normais seriam partículas virtuais, apenas se manifestando quando partículas verdadeiras colidissem entre si, fazendo com que W e Z se manifestassem. O modelo padrão também previu a existência de um campo de Higgs, que tudo permearia e que determinaria a massa de diferentes partículas. Esse campo, na forma de uma partícula maciça, revelaria sua presença durante a colisão de duas partículas com força suficiente, esperando-se que seja possível testar essa possibilidade nos grandes aceleradores de partículas em construção. Em outras palavras, apesar de Thomson, Mendeleiev, Rutherford, Dirac e Pauli, a física ainda parece continuar dominada pelas teorias do éter e das forças genéricas. No passado, antes de Einstein, a teoria do éter seria 217 Q Tomo01.pmd 217 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 supostamente responsável pelo transporte da luz. A teoria das forças, nas mais diversas épocas da história do conhecimento, seria responsável pelos movimentos de tudo que houvesse sobre a Terra e no universo. Desse modo, as supostas forças internas das partículas necessitariam encontrar suas partículas transportadoras para realizar-se. Assim, ao invés de procurarem no movimento interno dos pares opostos das partículas as razões de sua ligação e sua divisão, ou de sua atração e repulsão, assim como de sua transformação em outras partículas diferentes, boa parte dos físicos teóricos prefere agarrar-se a forças virtuais. Não é por acaso, portanto, que eles tenham como objetivo desenvolver uma estrutura matemática que explique todas as forças que agem sobre a matéria. Em outras palavras, eles continuam tomando a matéria como o objeto passivo, e as forças como os objetos ativos, embora não saibam bem de onde elas vêm, talvez com exceção da força física humana e da energia, que são mensuráveis e há muito foram transformadas em mercadorias. Não parecem dar-se conta de que poderiam conseguir melhores resultados com uma estrutura matemática que explique como a matéria se transforma, naturalmente, em energia e em outros tipos de movimento. Ou seja, colocarem a matéria como ativa, e as forças como resultado das ações daquela. Para continuar tentando entender os processos dos movimentos dos átomos e partículas, teremos que dar um salto, da mesma forma que parece ter sido a passagem das nuvens de partículas altamente contraídas, para a formação dos corpos estelares. Em outras palavras, um salto do mundo quântico para o mundo galáctico, justamente onde vamos encontrar, numa interação fantástica, os grandes corpos estelares movidos pelo turbilhão das partículas. Este será o assunto do quarto volume desta série. Q 218 Tomo01.pmd 218 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Viagem ao início do tempo 4 219 Q Tomo01.pmd 219 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apresentação Este é o quarto volume da série A Dialética da História. No primeiro, Sinfonia Desencontrada, tratei da contradição do conceito da história como história humana e, ao mesmo tempo, como história da mudança no tempo. No segundo volume, Redescobrindo o Mundo, procurei discutir a esperança de que os progressos das ciências e o conhecimento das leis de transformação tornariam os homens capazes de prever e controlar as conseqüências futuras das atividades produtivas, evitando os danos até então causados à natureza e a si próprios. No terceiro volume, Caminhos das Ciências, examinei os obstáculos transpostos pelas diversas ciências, levando em conta que essas manifestações de progresso humano, com o tempo, passaram a se apresentar apenas como produtos do cérebro. Neste quarto volume, Viagem ao Início do Tempo, me esforço para discutir o processo de surgimento do universo em que vivemos e em que medida ele é uma demonstração clara da dialética da natureza e da história. Seus diversos capítulos parecem imitar o Bolero, de Ravel, ao repetir os mesmos problemas, fenômenos, conceitos e noções por meio de tonalidades e ângulos diferentes, convergindo para um sumário final que pretende destacar o conhecimento das leis naturais e sociais como condição para resolver harmoniosamente a relação do homem com a natureza. Neles são discutidos fatos e noções como nebulosas, vapores incandescentes, choques, colisões e colapsos estelares, movimentos mecânicos de estrelas e galáxias, temperatura, esfriamento universal, movimento, movimento e repouso, transformação de movimentos, partículas primordiais, formação histórica de novas partículas, átomos e elementos, finidade e infinidade, universo em expansão, gravidade, gravidade repulsiva, universo estático, universo estacionário, universo dinâmico eterno, universo liso e uniforme, universo irregular, radiação de micro-ondas, Q 220 Tomo01.pmd 220 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR big bang, atração e repulsão, contração e expansão, expansão inflacionária, mudanças, tempo, singularidades, constantes físicas, energia, matéria escura, energia escura, partículas virtuais, partículas reais, buracos negros, espaço e tempo, limitação caótica, interação, simetria e assimetria, lei única, método lógico-dialético, método histórico-dialético, leis gerais e leis particulares. Ao mesmo tempo, em cada um dos capítulos procuro dar destaque a alguns aspectos que reputoo mais relevantes. Por exemplo, em Estrelas Conflitantes, enfatizo as hipóteses de Mitchell, Kant, Laplace, Herschel, Engels, John Mitchell (1724-1793 ) e Alexander Friedmann (1988-1925) sobre a formação histórica do universo, e de como tais hipóteses coincidem, em grande medida, com as descobertas astronômicas contemporâneas. Friso a suposição de que o movimento das partículas primordiais deve tê-las levado à contração, densidade e temperatura infinitas e, no momento cósmico seguinte, à explosão, à expansão e ao esfriamento. As partículas fundiram-se e se dividiram, formando outras partículas, átomos, elementos e massas ou estrelas incandescentes de hidrogênio e hélio. Estas, por seu turno, geraram planetas, luas e inúmeros outros corpos celestes. No capítulo Entre Gravidade e Repulsão, discuto principalmente como, a partir da segunda metade do século 20, os homens de ciência tiveram que se dedicar ao estudo dos grandes corpos celestes, como galáxias, estrelas, supernovas e buracos negros, para explicar o movimento dos átomos e partículas, e sua historicidade. E aproveito para colocar em pauta o confuso debate sobre a atual expansão geral do universo, em contraste com o predomínio localizado da gravidade. Em A Competência da Ciência, enfatizo os cenários do universo anterior ao atual, contrapondo a competência da ciência ao desejo papal de manter essa era histórica como domínio divino exclusivo. Dedico atenção especial aos possíveis fósseis que restaram do big bang e como, do mesmo modo que os fósseis das eras geológicas terrestres, os fósseis do big bang podem fornecer as pistas para levar os cientistas a investigá-los e confirmarem, por um lado, a infinidade da matéria em movimento e, por outro, a finidade histórica de cada era, processo, corpo e partícula. 221 Q Tomo01.pmd 221 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 No capítulo Expansão Universal enfrento, principalmente, o tema da história, ou das mudanças, que ocorrem nos elementos constituintes do universo. Afinal, muitos supõem que a física, a matemática e outras ciências que estudam os eventos naturais não são ciências históricas e, embora a física atual esteja atrás da seta do tempo, ainda não sabem que as mudanças são o próprio tempo histórico. Finalmente, em Movimento e Interação, destaco a relação entre todos os aspectos da realidade e entre as diferentes formas de movimento, ao mesmo tempo em que procuro deduzir da viagem virtual ao início do tempo aquelas noções que podem contribuir para um conhecimento mais apropriado da natureza. Tem sido a obediência às leis mecânicas, físicas, químicas, elétricas, biológicas e sociais que permitem aos homens, em sua história, reproduzir os eventos naturais em mecanismos que não existem na natureza. Da mesma forma que a desobediência a tais leis os fazem causar danos a seu ambiente e a si próprios. Em geral, me esforço para destacar que se tornou um princípio da vida humana a tendência a estudar e generalizar todas as aquisições de seu pensamento. Seja qual for o caminho através do qual tais aquisições ocorreram, os homens têm procurado extrair delas o maior rendimento possível, através da exploração metódica de todas as suas conseqüências. No entanto, o mais complicado na análise das concatenações lógicodialéticas de qualquer produto da natureza consiste em que essas concatenações se realizam, no contexto histórico, em contradição com os demais produtos presentes na natureza exterior. Isso explica porque as diversas formas de movimento da matéria se desenvolvem, historicamente, de modo desigual. As relações serão sempre mais reais do que as coisas e os pensamentos. Elas jamais se limitarão a conectar os termos, os contrários, os aspectos opostos. Estes vão negar-se e produzir novos termos ou novos aspectos contraditórios. A anulação será, portanto, ao mesmo tempo, transformação. Que tal transformação esteja em conformidade com as leis naturais e seja útil à vida humana é um desafio ainda a ser alcançado. Espero que esta viagem virtual ao início do tempo ajude a encontrar algumas formas de vencer tal desafio. Q 222 Tomo01.pmd 222 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Estrelas conflitantes Por volta de 1870, Engels sustentava, em concordância com Kant, que as nebulosas eram universos insulares afastados. Com base nos avanços da astronomia, da física, da química, e do método lógico-dialético daquele período, ele também sugeriu que os inumeráveis sóis e sistemas solares de nosso universo insular Via Láctea, limitado por seus anéis estelares mais afastados, haviam se desenvolvido a partir de torvelinhos e vapores incandescentes, num processo progressivo de esfriamento. Ele acreditava que as leis de movimento desses torvelinhos e vapores incandescentes em algum momento seriam descobertas. Séculos de observação sobre o movimento das estrelas deveriam esclarecer que a evolução desses corpos celestes havia se produzido em diferentes ritmos temporais por toda parte. E a existência de corpos escuros não planetários, como os sóis apagados, em algum momento também seria imposta à astronomia. Concordando com Johann Madler (1794-1874) e Ângelo Secchi (1818-1878), Engels supunha que faziam parte de nosso sistema estelar algumas manchas nebulosas que não constituíam ainda sóis completos. E admitia a existência de outras nebulosas, ou universos insulares independentes, muito afastados, cuja presença só poderia ser determinada através do uso do espectroscópio. Engels também supôs que a ciência confirmaria a afirmação de Laplace, segundo a qual todo sistema solar seria proveniente de uma só massa nebulosa. Nos diferentes corpos assim formados, fossem estrelas, planetas ou satélites, predominaria, inicialmente, a forma de movimento da matéria que chamamos calor. Este, a uma temperatura semelhante à que ainda possui o nosso Sol, não permitiria combinações químicas. Se compararmos a noção atual de nebulosa com a que Laplace chamou de massa nebulosa, talvez esta esteja superada, como sugeriram 223 Q Tomo01.pmd 223 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Haldane e outros cientistas. No entanto, se compararmos a noção de Laplace com a da casca de noz de alta energia, de Hawking, da teoria do big bang, ou com a contração do momento da passagem da fase de alta contração para a fase de expansão, da teoria do universo dinâmico eterno, teremos que admitir que a previsão de Laplace é muito atual. De qualquer modo, a partir da afirmação de Laplace, Engels considerava assunto quase resolvido a suposição de que os movimentos mecânicos produzidos no Sol seriam resultantes, principalmente, do conflito entre o calor e a gravidade. E se perguntava quando seria descoberta a medida de intensidade na qual o calor se transformaria em eletricidade ou magnetismo, suposição que só foi confirmada através do estudo das manchas solares, que geram campos magnéticos de grande amplitude. Depois, para dar suporte à possível colisão entre estrelas, Engels partiu do pressuposto dialético de que tudo que existe é resultado de um processo histórico de mudanças sucessivas. Em seu desenvolvimento, esse processo chega a um ápice e se desdobra, então, numa parte que definha e morre e, noutra parte, que realiza um novo desenvolvimento. Ao colidir, as estrelas morreriam, mas também dariam nascimento a novas estrelas, isto é, a novos corpos estelares incandescentes, assim como a planetas e a outros corpos celestes. Esses corpos celestes entrariam num novo processo de evolução e transformação, tendo o progressivo esfriamento como um de seus aspectos principais. Os corpos maiores, resultantes da colisão, manteriam o alto grau de calor de sua matéria incandescente por mais tempo, tornando-se novas estrelas. Os corpos menores tenderiam a tornar-se planetas ou satélites. Ou, mesmo, estrelas menores, que poderiam esfriar totalmente, transformando-se em corpos escuros não planetários e sóis apagados. O esfriamento permitiria, a uma certa temperatura, que os movimentos das partículas dessem surgimento a elementos químicos diferenciados. Estes se combinariam em moléculas e compostos ainda não existentes, primeiro como gases, depois como líquidos e, finalmente como sólidos, dependendo das condições exteriores a cada corpo. Assim, transformações na própria matéria em movimento tinham gerado, naturalmente, a matéria prima incandescente dos sistemas solares de nosso universo insular. Q 224 Tomo01.pmd 224 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR A matéria em movimento seria capaz de reproduzir as condições para que as transformações se realizassem, mesmo que isso demorasse milhões de anos. Acreditando que essa abstração deveria corresponder à realidade, Engels supôs que tais transformações seriam admitidas cada vez mais, à medida que as observações astronômicas se apurassem. Chegar-se-ia, mais cedo ou mais tarde, à noção de que os corpos solares estariam destinados a colidir uns com os outros, podendo-se até calcular a quantidade de calor que seria liberado em tais choques. Uma vez admitidas as colisões, seriam mais facilmente explicados o aparecimento súbito de novas estrelas, e o repentino aumento da luminosidade de outras já conhecidas. Ainda segundo Engels, o movimento do universo não estaria restrito ao sistema planetário solar dentro da Via Láctea. Todo este universo insular se moveria no espaço, num equilíbrio temporário em relação às outras ilhas-universos, que hoje chamamos galáxias. Isto porque, mesmo um equilíbrio relativo de corpos que flutuam no espaço só poderia subsistir em virtude de um movimento reciprocamente condicionado. Numa época em que nem mesmo os astrônomos mais audaciosos tinham idéia de que a Via Láctea possuía bilhões de estrelas, Engels se perguntava o que era feito de toda a enorme quantidade de calor produzida por seus inumeráveis sóis. Estaria se perdendo na tentativa de aquecer o espaço inter-estelar, embora sequer fosse capaz de elevar em um milionésimo de grau centígrado a temperatura de tal espaço? Para ele, a possibilidade de que tal calor se perdesse no espaço negava a indestrutibilidade do movimento. Se, através de sucessivas precipitações dos corpos solares, uns sobre os outros, o movimento mecânico das estrelas fosse transformado em calor e irradiado no espaço, todo movimento seria destruído. Essa contradição só poderia ser resolvida se a futura pesquisa da natureza esclarecesse que o calor irradiado no espaço poderia transformar-se em outras formas de movimento. Dessa maneira, voltaria a acumular-se e, novamente, seria posto em ação, transformando sóis extintos em névoa incandescente. Engels deduzia que a repetição, segundo um ciclo eterno, dos mundos no espaço infinito, seria apenas o complemento lógico da existência de um número infinito de mundos no espaço ilimitado. Um ciclo eterno 225 Q Tomo01.pmd 225 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 em que se moveria a matéria, cuja trajetória ficaria encerrada em períodos de tempo para os quais o nosso ano terrestre não constituiria medida adequada. Um ciclo em que o momento de maior desenvolvimento, o momento da vida orgânica e, mais ainda, da vida animal e de seres conscientes de sua natureza, seria medido rigorosamente como o espaço em que a vida e a consciência conseguiriam realizar-se. Nesse ciclo, todo estado definido da matéria, fosse sol ou nebulosa, indivíduo ou espécie animal, combinação ou dissociação química, tudo seria igualmente passageiro. Nada seria eterno, a não ser a matéria em eterna transformação e em eterno movimento, bem como as leis pelas quais se moveria e se transformaria. Ao supor que semelhantes transformações seriam admitidas cada vez mais pelos cientistas, Engels errou redondamente. Não tinha qualquer idéia sobre os caminhos tortuosos e insondáveis pelos quais a astronomia, a física, e outras ciências correlatas ingressariam ao tentar aprofundar-se no estudo do universo. Sequer podia imaginar a produção de centenas ou milhares de teorias a respeito dos assuntos resumidos acima. Ou que suas teorias fossem ignoradas e desconhecidas da maior parte dos homens de ciência. Mesmo Haldane, um biólogo respeitado nos mais diversos círculos científicos, responsável pela publicação, em 1939, dos rascunhos de Engels sobre a Dialética da Natureza, tinha dúvidas sérias sobre várias das teorias apresentadas acima. Embora tenha afirmado, no Prólogo à primeira edição em inglês, que o método de pensamento de Engels, se tivesse se tornado mais familiar, teria tornado menos trabalhosa a evolução das idéias científicas, ocorrida nos primeiros 30 anos do século 20, considerou fúnebres as conclusões à respeito da finitude do universo atual. Milne e Dirac teriam demonstrado, segundo Haldane, que as próprias leis da natureza evoluem e que as transformações químicas se aceleram em relação às transformações físicas. Nessas condições, esse processo poderia ser suficientemente rápido para compensar o esfriamento das estrelas e evitar que a vida se tornasse impossível. Haldane nem percebeu que negava a transformação, uma das leis mais evidentes da dialética da natureza e da história. Q 226 Tomo01.pmd 226 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Haldane também considerou errada a suposição de Engels a respeito do choque entre estrelas. De acordo com ele, o aparecimento de novas estrelas passara a ser explicado, nos anos 1930, não como conseqüência de uma colisão, mas devido a uma crise interna da própria estrela, o que estaria mais de acordo com a dialética. No entanto, 40 anos depois, com a construção de telescópios mais possantes, comprovou-se que, além da crise interna, ou do colapso das supernovas, o choque entre estrelas, assim como de galáxias, era um fato corriqueiro no universo. Ele dava surgimento a novas estrelas e a outros corpos estelares, confirmando que os dois processos transformadores, crise interna e choques, estão presentes e são dialéticos. Haldade também informou que Einstein chegou a ler o rascunho de Engels, em 1924, mas não o considerou interessante sob o ponto de vista da física moderna. Embora Haldane não tenha feito qualquer comentário a respeito, pode-se supor que a observação de Einstein relacionava-se ao fato dele estar convencido de que o universo era estático, justamente o oposto do que Engels sugeria. Se Einstein houvesse prestado atenção àquelas anotações, talvez tivesse dado um outro formato à sua constante cosmológica. De um modo ou outro, os físicos continuam divididos. Há aqueles que supõem que o universo experimenta transformações cíclicas, conforme Engels pensava, diminuindo a entropia, ou a desordem, por processos que continuam sendo objeto de intensas polêmicas. Há os que defendem a idéia de que o universo sofre um processo de degradação, do mesmo modo que os átomos radioativos. E há os que sugerem que o universo, em seu conjunto, tem somente uma história infinita, no passado e no futuro. Haldane acreditava que seria quase certo que Engels daria seu beneplácito à idéia da história infinita, por admitir a eternidade das leis segundo as quais se moveria e se transformaria a matéria. De uma penada, Haldane excluiu a finitude do pensamento de Engels, confundindo as leis gerais da matéria em movimento, que permanecerão enquanto esta existir, com as leis particulares de comportamento da matéria em cada momento histórico, que são finitas e se modificam, constituindo o tempo. 227 Q Tomo01.pmd 227 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apesar de tudo, a história do conhecimento sobre esses assuntos tem sido mais favorável a Engels, embora a fama continue com Einstein e outros. É isso que poderemos comprovar examinando os avanços e os debates sobre as estrelas. Mesmo porque a possibilidade de estrelas e galáxias colidirem e criarem novas estrelas e sistemas estelares, conforme sugerido por Engels, e também por observações antigas de astrônomos chineses, era totalmente descartada até os anos 1960. É verdade que, antes disso, Hans Bethe (1906-1967) havia descoberto que o mecanismo de produção de energia em estrelas como o Sol residia na transformação de quatro átomos de hidrogênio em um átomo de hélio, liberando energia radiada. Isto é, quatro átomos de hidrogênio eram convertidos em um átomo de hélio e em energia de fusão radiada, indicando uma queima de combustível que teria limite e deveria gerar mudanças nas relações entre estrelas vizinhas. Mas essa descoberta, da mesma forma que as suposições de Engels, pareceu apenas ser uma informação que pouco tinha a ver com a formação do universo. As teorias da relatividade, que partiam do pressuposto de um universo estático, eram a bola da vez do mundo científico e, segundo alguns pensavam, capazes de resolver todas as questões. O quadro só começou a mudar em 1924, anos depois da descoberta de Bethe, com a ajuda de novas tecnologias e de telescópios de maior potência, que permitiram medir as distâncias entre as galáxias e a Terra através do brilho aparente irradiado das estrelas. Edwin Hubble (1889-1953) pode, então, demonstrar que a Via Láctea não era a única galáxia existente no universo e que, além disso, ela estava se afastando das demais. Seu método foi um avanço significativo no estudo das estrelas. Partiu do fato de que existem algumas cores que não estão no espectro desses corpos celestes, cores ausentes que podem variar de estrela para estrela. Como sabemos que cada elemento químico absorve um conjunto característico de cores específicas, se cotejarmos as cores que estão faltando no espectro de uma estrela pode-se determinar que tipos de elementos químicos estão presentes em sua atmosfera. Desse modo, descobriu-se que havia os mesmos conjuntos de cores ausentes, tanto em nossa galáxia, quanto nas demais. No entanto, o mais Q 228 Tomo01.pmd 228 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR interessante nessa observação foi que todas as galáxias apresentavam conjuntos de cores desviados pela mesma quantidade relativa, tendendo para o final vermelho do espectro. A relação entre a freqüência de luz ou de som e a velocidade, ou efeito Dopler, foi utilizada por Hubble na medição da luz das galáxias, levando-o a concluir que a maioria delas apresentava desvios para o vermelho. O significado dessa observação era que a freqüência de luz emitida pelas estrelas, isto é, o número de ondas por segundo que atinge nossa retina, era mais baixo porque as estrelas estavam se distanciando de nós. Se elas estivessem se aproximando, as ondas seriam mais altas e o final do espectro tenderia para o azul. Hubble calculou que as demais galáxias estavam se deslocando em direção oposta à nossa, numa velocidade diretamente proporcional à distância em que elas se encontram de nós. O universo estava em expansão. Esta descoberta quebrou mais uma das idéias estáticas ainda presentes entre os cientistas, inclusive Einstein. Isto, apesar de antes deles, vários gregos e chineses antigos, assim como Mitchell, Kant, Laplace, Herschel, Engels e Friedmann, haverem intuído e deduzido que o universo estava em expansão. Hubble demonstrou praticamente, através de observações e medições meticulosas, que tais intuições e deduções estavam corretas. Alexander Friedmann, em especial, havia levantado, desde 1922, a hipótese de que o universo não era estático, porque parecia idêntico em qualquer direção em que o olhássemos. Além disso, Friedmann construiu um modelo teórico de universo em que ele não seria infinito no espaço, mas o espaço tampouco teria limite. Introduziu a noção de gravidade repulsiva e afirmou que ela seria tão forte que o espaço se curvaria em volta de si mesmo, tornando-se semelhante à superfície da Terra. A velocidade de separação entre as galáxias, sendo proporcional à distância entre elas, faria com que o desvio para o vermelho do movimento da galáxia fosse diretamente proporcional à distância dela até nós. Justamente o que Hubble encontrou. Uma implicação direta do processo de expansão das galáxias, na velocidade prevista por Friedmann e detectada por Hubble, é que isso colocou em dúvida a noção corrente de que a gravidade seria predominante 229 Q Tomo01.pmd 229 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 em todo o universo. Os físicos passaram imediatamente a discutir quando o universo deveria parar sua expansão e começar a se contrair. Concluíram que tal questão só poderia ser respondida se a velocidade atual de expansão e a densidade média fossem conhecidas. Se a densidade fosse menor que 1, o valor crítico específico determinado pela velocidade da expansão seria maior do que a atração gravitacional. Esta não poderia, então, conter a expansão. Se a densidade fosse maior do que o valor crítico, a gravidade interromperia a expansão em algum tempo no futuro. Para complicar, descobriu-se que as galáxias não estavam se deslocando apenas em direções opostas umas às outras. Elas também estavam com pequenas velocidades laterais, sem estar nunca todas exatamente no mesmo lugar, mas apenas muito próximas. A partir desse fato, alguns físicos, como Hawking, acreditaram que talvez o atual universo em expansão tivesse resultado não da singularidade da grande explosão, mas de uma fase de contração. Quando o universo se esfacelara, suas partículas poderiam não ter colidido, mas flutuado, passando umas pelas outras, em afastamento, provocando o atual universo expansionista. O problema dessa hipótese é que ela toma como um só momento a fase de contração e a singularidade da grande explosão. Além disso, embora tenha introduzido inconscientemente a questão da contração histórica anterior ao big bang, deixou sem explicação a formação histórica de prótons, nêutrons, núcleos e átomos leves a partir das novas condições, que permitiram as fissões e fusões das partículas primordiais. Einstein e outros físicos, porém, continuavam convencidos de que o universo era estático. Ele chegou a modificar sua teoria da relatividade geral, introduzindo nela uma constante cosmológica, através da qual aceitou a existência de uma nova força, a anti-gravidade, construída dentro da própria estrutura do espaço-tempo. Ela contrabalançaria a atração de toda a matéria do universo, resultando num equilíbrio estático. Embora Einstein depois tenha se arrependido do que chamou de maior erro de sua vida, é provável que esse erro possa resultar numa explicação plausível para a origem do universo, desde que seja despojada da metafísica e do equilíbrio estático. Tanto Newton, quanto Einstein e a maioria dos físicos, só consideravam a atração, ou a gravidade, em seus Q 230 Tomo01.pmd 230 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR cálculos. Desprezavam a repulsão, que Einstein se viu constrangido a admitir e a chamar de anti-gravidade, do mesmo modo que Friedmann a chamou de gravidade repulsiva. Algo impressionante é que, quando reconhecem a repulsão, a tomam como algo estranho, uma força fantasma que apareceu não se sabe de onde, e que sempre tende a levar ao equilíbrio, portanto ao estado estático. Mesmo Haldane, que considerava altamente positivas e modernas as noções expostas por Engels, tentou desqualificar a noção de repulsão e igualá-la à noção de curvatura de espaço-tempo. Mas a noção de antigravidade, sugerida pelo próprio Einstein para contrapor-se à idéia do universo em expansão, mostra que a repulsão não tem o mesmo significado de curvatura de espaço-tempo. De qualquer modo, mesmo não querendo, Einstein e muitos outros cientistas viram-se obrigados a aceitar, oficialmente, em 1929, a expansão do universo e, implicitamente, a considerar a existência de uma antigravidade, ou a existência dialética de opostos gravitacionais. Apesar disso, não chegaram a aceitar que a noção de repulsão seria mais consistente na explicação da oposição à gravidade. Era essa a situação geral da discussão sobre o universo quando, em 1948, Ralph Alpher (1921-2007), George Gamow e Hans Bethe propuseram a teoria para explicar a origem do universo, conhecida deste então como a teoria do big bang ou da grande explosão. Gamow e seus colegas descartaram a colisão estelar como aquela origem. Colocaram, em seu lugar, o adensamento e a compressão, pela gravidade, a altíssimas temperaturas, das particulares elementares ou primordiais. A essa altura, a fabricação e a explosão da bomba atômica haviam demonstrado o enorme potencial energético das partículas e tornara natural procurar nelas a origem do universo. Em certo sentido, eles retornaram à nebulosa de Kant e Laplace, embora não admitindo isso (ou não a conhecendo). A teoria de Gamow sugeria que o adensamento e a compressão das partículas pela gravidade, a altíssimas temperaturas, seriam a origem da grande explosão. Um segundo após essa ocorrência, a temperatura teria baixado para dez bilhões de graus centígrados, ou mil vezes a temperatura do núcleo central do Sol. Cem segundos 231 Q Tomo01.pmd 231 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 depois, a temperatura teria baixado para um bilhão de graus centígrados, a temperatura normal de algumas estrelas pequenas. Assim, do mesmo modo que Engels, Gamow considerava esse processo de esfriamento de importância decisiva no processo histórico de transformação das partículas e criação dos átomos, moléculas químicas e corpos cósmicos. Em contraposição à teoria do big bang, alguns físicos desenvolveram a teoria do estado invariável, segundo a qual, à medida que as galáxias se deslocam, afastando-se umas das outras, novas galáxias estariam em constante formação nos espaços entre elas, resultantes de novas matérias continuamente criadas. Desse modo, o universo pareceria o mesmo em todos os tempos. Essa teoria não explica de onde surgiram as estrelas e galáxias primitivas. Tira, portanto, a historicidade da formação dessas estrelas e galáxias. E se vê obrigada a empurrar, goela abaixo de uma teoria que tem a variabilidade de estrelas e galáxias como principal argumento, um incompreensível estado invariável. Convenhamos, abusaram da criatividade. Hawking também tentou algo parecido. Ele admitiu que um sistema de objetos compactos poderia estabelecer-se eventualmente num estado estacionário, porque a energia de qualquer movimento seria afastada pela emissão de ondas gravitacionais. Comparou isso ao mergulho de uma rolha na água. Primeiro ela se agitaria um bocado para cima e para baixo, mas à medida que as ondulações carregassem sua energia, ela acabaria por assumir um estado estacionário. Hawking esqueceu que, para que tal estado estacionário ocorra, a rolha deveria estar em relação com um conjunto de objetos em movimento, da mesma forma que os satélites artificiais estacionários. Estes se encontram numa órbita que acompanha algum ponto geodésico. Portanto, estão num movimento aproximado de 1600 km/h, que é a velocidade em que a Terra gira. Assim, seria necessário que todo o sistema de objetos compactos de Hawking estivesse em relação com outro conjunto de objetos em movimento, pelo qual seria arrastado. Por isso, tal conjunto seria apenas relativamente estacionário. Os satélites artificiais estacionários, por exemplo, sofrem a ação do atrito com partículas e raios cósmicos e, em algum momento, começam a mergulhar Q 232 Tomo01.pmd 232 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR na atmosfera terrestre, queimam e ameaçam atingir zonas habitadas com algum caco de sua desintegração. Algo idêntico também ocorrerá inevitavelmente com a rolha. Mesmo que esteja em algum copo d’água, alguém poderá não ver serventia alguma nessa situação e arremessá-la longe, com água e tudo. Por outro lado, para que a rolha de Hawking permanecesse eternamente estacionária, seria necessário que todo o ambiente do entorno também assumisse o mesmo estado. O ar deveria paralisar até mesmo suas brisas, a água deveria congelar seu movimento de convecção e as placas tectônicas deveriam ficar imóveis. Nessas condições, esse conceito de estacionário não tem distinção alguma em relação aos conceitos de estático e de invariável. De qualquer modo, na década de 1960, pesquisadores americanos começaram a trabalhar com a hipótese de Gamow, de que o universo primordial deveria ter sido muito quente e denso, ardendo até incandescer. Deduziram, daí, que sua luz deveria estar chegando até nós, agora, com um desvio tão intenso para o vermelho que poderia parecer uma radiação de microondas. Paralelamente, alguns outros pesquisadores procuravam resolver problemas de telecomunicações através do uso de detectores de micro-ondas ultra-sensíveis (dez bilhões de ondas por segundo). Acabaram detectando ruídos em micro-ondas vindos de todas as direções. Depois de diferentes testes, deduziram que tais ruídos vinham de regiões além do sistema solar e da Via Láctea, porque não variavam com a rotação da Terra. Tal radiação deveria estar se deslocando através da maior parte do universo observável, o que apontava para a comprovação da teoria de Friedmann. Ao tomarem conhecimento da hipótese teórica dos demais pesquisadores, viram que tinham a solução prática em suas mãos. A partir de então, a possibilidade do big bang, ou da rápida expansão, ou da explosão de partículas, concentradas numa pequena porção, ou numa casca de noz, sob alta densidade, alta temperatura e alta energia, tudo na casa de trilhões de graus, foi admitida por grande parte da comunidade científica como ponto inicial da história do nosso universo. Mesmo antes disso, alguns físicos heterodoxos já vinham fazendo cálculos 233 Q Tomo01.pmd 233 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 de que tal início ocorrera há 2 ou 3 bilhões de anos, embora isto fosse um paradoxo em relação aos cálculos que davam à Terra a idade de 4,5 bilhões de anos. Cálculos posteriores colocaram o início do universo atual entre 13,8 e 14,5 bilhões de anos atrás. O problema desses cálculos, baseados nos ruídos de micro-ondas de fundo, causados pelo desvio para o vermelho da luz que está chegando até nós, é que eles, como já vimos, não levam em conta a duração de existência da luz. Partem da hipótese que a luz que os gerou é eterna e não sofreu mudanças em seu movimento. Se algum dia for descoberto que a luz tem uma durabilidade inferior a tais cálculos, a idade do universo terá que ser revista. Isso não impede, porém, que nos aproximemos bastante dos fenômenos que levaram ao início do universo atual. É verdade que a maior parte dos físicos declara explicitamente que não sabe de onde vieram as partículas primordiais, nem em que condições elas se concentraram, sob alta densidade e alta temperatura. Hawking chega a dizer que os eventos que foram anteriores ao big bang não podem ter tido qualquer conseqüência. Portanto, não deveriam fazer parte de um modelo científico do universo, pois sob tais condições, as leis científicas e a capacidade de pensar o futuro falhariam. Por outro lado, ele aceita que os quarcks devam ter uma existência de trilhões de anos, e que devem ter participado da grande explosão. Sem dar atenção às contradições de seu raciocínio, Hawking sugere que se deveria isolar os eventos anteriores ao modelo do big bang, e considerar apenas o tempo que começou daí. É como se propusesse que não interessam as armações táticas que levaram ao chute que resultou em gol, numa partida de futebol. Apenas interessaria o momento em que a bola chegou ao fundo da rede. Algo, aliás, com que a Igreja Católica concorda. Em seminário científico realizado no Vaticano, em 1981, para rever a pena contra Galileu, o papa afirmou que não havia problema em estudar a evolução do universo depois da grande explosão. No entanto, reiterou, não se deveria questionar a grande explosão, porque ela fora o momento da criação. Portanto, trabalho de Deus. Q 234 Tomo01.pmd 234 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Com isso, a Igreja parece haver descoberto um ponto de concordância com os cientistas, mesmo que alguns deles sejam ateus declarados. Para todos, o que ocorreu antes do big bang estaria fora do alcance científico, e não valeria a pena ser questionado. Afinal, para que brigar por algo que ocorreu há mais de 14 bilhões de anos? O problema consiste em que o big bang só pode ser explicado pela existência, antes dele, de condições materiais que levassem as partículas então existentes a se contraírem pela ação da própria gravidade e chegarem a um nível infinito de densidade, temperatura e movimento. Alguns cientistas procuram burlar o problema chamando justamente de grande explosão a esse processo preliminar, embora a grande explosão seja resultado e não causa da casca de noz de alta energia. No entanto, pode-se procurar uma explicação sobre a matéria anterior ao big bang na própria grande explosão e no processo posterior, em que atração e repulsão, e contração e expansão, ocorrem ao mesmo tempo, numa relação que ora tende ao equilíbrio, ora ao desequilíbrio, e em que o processo de transformação de partículas em átomos, de átomos em moléculas e das moléculas em corpos complexos, e vice-versa, é contínuo. Isso é possível porque, em qualquer processo de transformação, como tivemos ocasião de verificar em muitos dos exemplos dados em capítulos anteriores, a anulação dos pólos opostos não é imediata e total. Restos dos opostos da antiga contradição permanecem presentes por períodos maiores ou menores e podem ser detectados como elementos secundários na nova contradição. Assim, se aceitarmos a teoria do esfriamento de Engels, confirmada pelas teorias de Friedmann, pelas observações e medições astronômicas de Hubble e pelas conclusões de Gamow, podemos encontrar pistas seguras do processo que levou, primeiro à casca de noz de alta energia e, depois, ao big bang. Há indícios de que neutrinos, quarcks e outras partículas, muitas das quais talvez jamais venhamos a conhecer, por haverem desaparecido no processo, são anteriores ao big bang e devem ter sido comprimidas na casca de noz de alta energia que, ao chegar a determinado ponto, explodiu. No processo posterior de expansão e esfriamento, transformaram-se 235 Q Tomo01.pmd 235 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 primeiro em elétrons, prótons e nêutrons, através de choques e/ou de troca de partículas. Estes, por sua vez, ao encontrarem uma temperatura favorável, uniram-se em núcleos que, mais tarde, numa temperatura mais baixa (embora de alguns bilhões de graus centígrados ou Celsius), uniram-se a elétrons e se transformaram em átomos de elementos leves, como hidrogênio e hélio. Ao surgirem os átomos de hidrogênio e de hélio, formaram-se massas incandescentes que, através de processos diferenciados e localizados de contração e expansão, levaram ao surgimento das estrelas, que compõem os universos insulares das galáxias. Estas, por seu turno, também ingressaram em movimentos semelhantes de divisões, colisões e transformações. Hoje há certo consenso nas áreas científicas de que, além da explosão de supernovas, no universo ocorrem outros fenômenos que resultam do colapso de galáxias ou estrelas, como os buracos negros, as estrelas de prótons e as estrelas de nêutrons. Nesses colapsos, a gravidade, atração ou contração suplantou a expansão ou repulsão, rompendo tanto o equilíbrio interno quanto o equilíbrio do entorno imediato. Os corpos celestiais próximos são sugados, da mesma forma que o afundamento de um grande porta-aviões pode puxar para o fundo do mar, atrás de si, outras embarcações menores, perigosamente perto. Supernovas, buracos negros, estrelas de prótons e estrelas de nêutrons talvez sejam exemplos significativos de reversões, desvios, saltos e ziguezagues que qualquer processo histórico predominante apresenta em seu curso. A tendência histórica do atual universo é comprovada e claramente expansionista. Em termos estritamente lógicos, deveríamos ter um processo uniforme de expansão. Mas em termos lógico-dialéticos, a expansão ocorre através da contradição entre a repulsão e a gravidade. Por isso, astrônomos e astrofísicos continuam detectando explosões de supernovas e colisões de estrelas e galáxias, dando surgimento a novos sistemas solares e a um constante processo de constituição de partículas e de átomos. Portanto, historicamente, no processo predominante de expansão do universo atual, podem ocorrer, paralela e simultaneamente, processos particulares ou localizados de contração. E se for confirmada a Q 236 Tomo01.pmd 236 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR descoberta de Walter Baade (1893-1960), sobre a existência de um segundo tipo de estrelas variáveis pulsantes, ou cefeídas, até agora ignoradas nas medidas sobre o tempo do universo, este pode ser duas a quatro vezes mais velho do que até então se supunha. As hipóteses de Engels, dessa maneira, coincidem em grande medida com as descobertas contemporâneas sobre a história do universo, do sistema solar e da Terra. Seguindo seu mesmo método, é possível intuir que parte da matéria prima do universo anterior, que se transformou na matéria incandescente do universo atual, ainda hoje esteja entre nós. Em todo processo de transformação, o novo sempre carrega uma parte do velho. Este, muitas vezes, acompanha o desenvolvimento do novo por longo tempo, mesmo em forma modificada, como parecem ser os casos modernos de escravidão acompanhando o capitalismo desenvolvido. 237 Q Tomo01.pmd 237 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Entre gravidade e repulsão Engels supunha que a distância existente entre o Sol e seus planetas, assim como outras condições existentes há bilhões de anos e ainda não conhecidas em sua totalidade (chuvas de meteoros e suas colisões, por exemplo), criaram condições diferentes em cada um dos planetas e luas do sistema solar. Na Terra, criaram condições para as combinações químicas que levaram ao surgimento e ao desenvolvimento das proteínas e, a partir destas, dos seres vivos. Portanto, a partir do conhecimento sobre a natureza da Terra e de seu entorno, deduziu algo que pareceu uma aberração aos físicos e químicos de sua época (e certamente, a muitos físicos e químicos da atualidade). Isto é, que os elementos e compostos químicos, assim como as estrelas e demais corpos do universo, não teriam existido sempre. Que eles teriam uma origem e um desenvolvimento histórico. Essas suposições e deduções só começaram a ser esclarecidas a partir da segunda metade do século 20, quando os homens de ciência tiveram que se debruçar, cada vez mais, no estudo dos grandes corpos incandescentes para explicar o movimento dos átomos e partículas. Simplesmente porque é neles que o movimento de transformação das partículas em átomos leves, e destes em átomos mais pesados, ocorre de forma mais evidente. Talvez nada seja tão exemplar na interação, ou na interdependência universal, do que a relação do mundo microscópico das partículas e dos átomos com o mundo macroscópico das estrelas e das galáxias. É no estudo do mundo macroscópico que astrônomos, astrofísicos, cosmólogos, físicos e químicos estão procurando explicação para o átomo e suas partículas, e sendo obrigados a considerar a sua historicidade. Nesse sentido, entre as diversas teorias sobre o universo atual, a teoria do big bang tem a vantagem de reconhecer, mesmo que não explicite Q 238 Tomo01.pmd 238 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR cabalmente, que elétrons, prótons, nêutrons, átomos, moléculas, elementos e compostos químicos têm existência histórica. Gamow e seus colegas acreditavam que, durante a explosão provocada pela casca de noz de alta energia, as particulas elementares ou primordiais deram surgimento a novas partículas, num desenvolvimento que continua ainda hoje. Dirac, por seu turno, supunha que na primeira fração de segundo cósmico pós-big bang haveria quase tanta anti-matéria quanto matéria. As partículas e anti-partículas teriam se mantido em processo de colisão e aniquilação mútua até não sobrar qualquer anti-matéria. Embora esta teoria tenha um certo viés dialético, para ser coerente ela teria que especificar qual o novo pólo oposto à matéria, já que a aniquilação da anti-matéria teria que resultar em algum outro conjunto que formasse uma nova contradição. Em 1965, num desvio evidente da teoria de Gamow, Roger Penrose (1934-....) levantou a hipótese de que uma estrela, contraindo-se sob sua própria gravidade, ficaria presa numa região cuja superfície eventualmente se encolheria até o tamanho zero. E, dado que a superfície se encolheria até zero, assim também se comportaria seu volume. Toda a matéria da estrela seria comprimida numa região de volume zero. A densidade da matéria e a curvatura do espaço-tempo se tornariam infinitos, da mesma forma que no big bang. Deduziu daí que o big bang poderia ter surgido do processo de contração de uma estrela, da mesma forma que os teóricos do universo estacionário. Só não explica de onde veio a estrela. Na melhor das hipóteses, a estrela de Penrose poderia estar situada no espaço e no tempo anterior à casca de noz. Seus átomos leves poderiam, por reversão, ter se desintegrado em partículas, e tal processo de desintegração poderia tê-las conduzido, por gravidade, à contração formadora da casca de noz de alta energia. Supor que a estrela poderia ter ido diretamente ao big bang seria o mesmo que querer fazer o parto de uma criança gerada por um espermatozóide que não chegou ao óvulo. Ou seja, mesmo que se considere possível a hipótese dessa Estrela Eva de Penrose, teríamos que levar em conta pelo menos três momentos distintos, ou três transformações cósmicas. Primeiro, o colapso da estrela e a transformação de seus átomos numa nebulosa de partículas. Depois, a 239 Q Tomo01.pmd 239 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 contração dessa nebulosa de partículas até o ponto em que elas se comprimiram num volume infinitamente pequeno, sob uma compressão, densidade e temperatura infinitamente grandes. Finalmente, o momento em que, como qualquer gás submetido àquelas condições, produziu-se o big bang, com seus torvelinhos e vapores incandescentes que, no processo de expansão e esfriamento, levaram ao universo atual. As hipóteses de Kant, Laplace e Engels, que não contavam com os equipamentos e conhecimentos astronômicos da atualidade, aproximamse muito das teorias de Gamow e Penrose, em especial das explicações relacionadas com o processo posterior à grande explosão, ou big bang. De qualquer modo, tanto na hipótese de Penrose, quanto na de Gamow, consciente ou inconscientemente, entramos no terreno que o Papa considerou privativo da Providência Divina, anterior ao big bang. Nessas condições, a dialética nos impele a procurar, no próprio universo atual, os elementos mais simples e os restos daquele tipo de matéria que pode ter levado ao big bang. Como já frisamos, a maior parte das partículas que a compunham, com raras exceções, talvez jamais sejam detectadas, porque devem ter se transformado nas partículas que hoje supomos serem resultado do big bang. Antes deste, a maior parte delas pode ter se transformado em neutrinos, elétrons e vários dos quarcks que hoje costumam deixar cientistas de cabelos brancos, ou a ficarem carecas, mais cedo do que desejariam. Entre essas partículas, os neutrinos e os elétrons são candidatos sérios a terem participado do processo de formação da casca de noz, anterior ao big bang. Além disso, ainda presente no universo atual, temos uma matéria escura que parece remanescente do universo anterior. Por outro lado, o teorema de Penrose levanta uma dúvida a respeito da noção de singularidade. Ele demonstra, matematicamente, que qualquer estrela que se contraia deve acabar numa singularidade. Seu pressuposto é o que chama de argumento do tempo invertido. A queda ou contração da estrela se transformaria em expansão, desde que o universo fosse semelhante ao modelo de Friedmann. Portanto, qualquer universo em expansão deveria ter começado em uma singularidade. O que só poderia ocorrer se o universo estivesse se expandindo em velocidade suficiente para evitar novo colapso. Q 240 Tomo01.pmd 240 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Como vemos, Penrose, assim como vários outros físicos, tem dificuldade em raciocinar com o fato de que um tipo de movimento pode se transformar em seu contrário. Ou seja, que a expansão pode se transformar em contração, e vice-versa. Isto, que é um fenômeno corriqueiro na realidade, se torna para eles uma ginástica contorcionista. Acham-no tão raro que decidiram chamá-lo de singularidade. Se eles racionassem dialeticamente, e prestassem mais atenção a suas experiências com quarcks e anti-quarcks, elétrons e anti-elétrons etc etc, poderiam verificar mais facilmente que contração e expansão, assim como atração e repulsão, são pólos opostos das diferentes formas da matéria em movimento, pólos que andam juntos, dividem-se freqüentemente, e muitas vezes se revezam, um se transformando em seu contrário. Assim, a rigor, toda transformação pode ser considerada uma singularidade, tendo como limite uma constante a partir da qual se transforma em outra coisa. Hegel dizia, com razão, que o grau de temperatura é, no começo, indiferente quanto ao seu estado líquido. No entanto, ao aumentar ou diminuir a temperatura da água, chegará o momento em que seu estado de coesão se modifica e a água é transformada em vapor ou gelo. Em outras palavras, toda mudança é conseqüência de modificações quantitativas de movimento, sob uma forma qualquer. A partir dessa idéia, do exemplo de Hegel sobre a temperatura, e do fato de que uma corrente elétrica torna incandescente o filamento de platina da lâmpada de iluminação, Engels deduziu que cada metal deveria ter sua temperatura de incandescência e fusão, cada líquido seu ponto de ebulição e congelamento, e cada gás seu ponto de liquefação e explosão, tudo dependendo das condições externas de pressão e temperatura. Em outras palavras, Engels concluiu que as constantes físicas, em geral, não eram mais do que a designação de pontos nodais em que o acréscimo ou subtração quantitativa de movimento provocaria uma mudança de qualidade no estado do corpo considerado. Hoje, sabemos que as cores e as ondas representam pontos nodais dos corpos em movimento. Quando as moléculas, átomos e partículas aumentam sua velocidade de rotação e vibração, por exemplo, elas emitem ondas de luz cuja freqüência pode mudar, indo do vermelho até o violeta. 241 Q Tomo01.pmd 241 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Apesar disso, tanto as teorias do big bang, quanto as teorias do universo estático, do universo invariável e do universo dinâmico eterno, desconsideram a possibilidade de transformação de um estado universal em outro estado universal, de qualidade diferente do anterior. Em virtude disso, os teóricos do big bang chegaram a criar um medo pânico de ingressar no terreno divino anterior à grande explosão. Por exemplo, ao ignorar todos esses problemas Hawking foi levado a dizer que, para um grande número de partículas, as forças gravitacionais podem dominar todas as demais forças. Isto explicaria o fato da gravidade ser o elemento determinante da evolução do universo. Mesmo para objetos do tamanho das estrelas, a força atrativa da gravidade poderia se sobrepor a todas as outras forças e causar a queda das estrelas. Os buracos negros poderiam resultar dessas quedas estelares e dos intensos campos gravitacionais à sua volta. Temos aí uma meia verdade. As forças gravitacionais podem dominar as forças repulsivas ou expansivas (que medo de falar em repulsão!), podem causar a queda das estrelas, podem resultar em buracos negros e podem até levar à situação do big bang. No entanto, por outro lado, a gravidade pode transformar-se em seu contrário, em expansão, através de explosões cósmicas, choques de estrelas e de outros corpos celestes, explosões nucleares e uma série de outros fenômenos. É isso que pode explicar uma possível cosmologia, mesmo inflacionária, resultante da grande explosão. Portanto, gravidade (atração) e repulsão, contração e expansão, são pares determinantes na evolução do universo. Cada elemento do par não existe sem o outro. Engels discutiu que, se o elemento diretamente central do movimento planetário estiver representado pela gravidade, pela atração entre ele e o corpo central, o outro fator, o tangencial exposto por Newton, se apresentará como um resto, sob a forma transmitida ou modificada da primeira repulsão entre as diferentes partículas da esfera gasosa. O processo que deu origem ao sistema solar se apresentaria, assim, como um jogo alternativo entre atração e repulsão, no qual a atração assumiria um predomínio gradual e a repulsão seria irradiada no espaço cósmico, sob a forma de calor, sendo progressivamente perdida pelo sistema planetário. Q 242 Tomo01.pmd 242 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR Nessas condições, a forma de movimento concebida por Engels como repulsão é a mesma que a física moderna denomina energia. Em virtude da contração do sistema, e da diferenciação dos diversos corpos que o compõem, o sistema planetário teria perdido energia, sob a forma de repulsão, numa quantidade que alguns físicos chegaram a calcular em 453/454 de toda a quantidade de movimento existente originalmente. Mais tarde descobriu-se que os movimentos atômicos têm compensado em parte essa perda. No caso da formação das estrelas, isso parece haver ocorrido quando, no processo de esfriamento causado pela expansão universal, formaram-se os núcleos atômicos e os átomos de hidrogênio. Numa série de regiões localizadas do universo em expansão, onde a densidade dos gases de hidrogênio atingiu uma massa tal, que reduziu a velocidade do movimento expansionista, esses gases começaram a colapsar pelo predomínio gravitacional. À medida que se contraiam, os átomos de hidrogênio colidiam e ricocheteavam entre si com freqüência e velocidade crescentes, voltando a reaquecer os gases. Ao alcançarem altas temperaturas (milhões de graus centígrados), os átomos de hidrogênio deixavam de ricochetear, fundindo-se, ou amalgamando-se, formando átomos de hélio. A reação do hidrogênio com o hélio, que ele mesmo criara, transformou-se numa fornalha, uma massa incandescente, à qual se deu o nome de estrela. Se olharmos com atenção esse processo, verificaremos claramente uma série de movimentos dialéticos. Primeiro, temos uma reversão localizada do processo geral de expansão e esfriamento do universo. Em algumas regiões do espaço sideral, a repulsão se transforma em atração (os átomos de hidrogênio se fundem, gerando hélio), a expansão se transforma em contração (os gases de hidrogênio e hélio transformam-se numa massa incandescente relativamente homogênea, onde predomina a gravidade), o movimento linear de expansão se transforma num movimento mais complexo de rotação, e o esfriamento se transforma em aquecimento. As transformações não foram somente mecânicas. Foram também químicas e físicas. A transformação do hidrogênio em hélio (reação química) gerou energia, na forma de calor e luz (movimentos físicos). Além disso, o calor adicional das explosões do processo de combustão atômica 243 Q Tomo01.pmd 243 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 do hidrogênio e do hélio aumenta a pressão do gás, até que ela equilibre a atração gravitacional com a repulsão do calor. Isto faz com que a contração gasosa cesse momentaneamente. Desse modo, as estrelas podem continuar relativamente estáveis por muito tempo, com a repulsão do calor das reações nucleares equilibrando a atração gravitacional. Eventualmente, uma estrela pode esgotar seu hidrogênio e outros combustíveis nucleares. Quanto maior a quantidade de combustível que deu origem à estrela, mais rapidamente ela será consumida, pelo simples fato de que, quanto mais compacta for a estrela, mais calor ela necessitará para equilibrar a atração gravitacional, consumindo seu combustível mais rapidamente. No caso do nosso o Sol, calcula-se que ele tenha combustível para outros cinco bilhões de anos, mas estrelas maiores podem consumir seu combustível em apenas alguns milhões de anos. Ao esgotar seu combustível, uma estrela começa a se resfriar e a se contrair, e suas regiões externas podem explodir, como parece acontecer no caso das supernovas. Além de iluminar todas as demais estrelas da galáxia, elas lançam no espaço massas incandescentes de hidrogênio e hélio e elementos mais pesados, como o carbono e o oxigênio, que produziram durante seu processo de esfriamento e contração. Com sua morte, surgem novas estrelas, já contendo uma certa porcentagem de elementos pesados (nosso Sol teria 2% deles), e vários outros corpos celestes. Em sentido figurado pode-se dizer que morte e vida, esses opostos dialéticos tão presentes no mundo orgânico, estão também presentes nas estrelas e em toda parte. Em 1928, um físico indiano chamado Subrahmanyan Chandrasekhar (1910-1995), assim como um russo, chamado Lev Landau (1908-1968), independentemente um do outro, apresentaram a sugestão de que, ao tornar-se pequena, a estrela faria com que as partículas de matéria se aproximassem mutuamente, adquirindo velocidades diferentes, conforme Pauli previra em seu principio de exclusão. Esse desequilíbrio de velocidades levaria as partículas a se afastarem umas das outras novamente, forçando uma nova expansão da estrela. Em tais condições, uma estrela poderia manter-se em raio constante, através do equilíbrio entre a atração da gravidade e a repulsão do movimento das Q 244 Tomo01.pmd 244 11/28/2013, 11:46 PM WLADIMIR POMAR partículas, do mesmo modo que, no início da vida da estrela, a atração gravitacional foi equilibrada pela repulsão do calor. Mas Chandrasekhar se deu conta de que havia um limite para a repulsão. Quando a estrela se tornasse suficientemente densa, pelo esfriamento e pela redução da velocidade das partículas, a repulsão seria menor do que a atração gravitacional. A estrela perderia sua capacidade de sustentar sua própria gravidade, colapsando. Se a massa de uma estrela for menor do que uma vez e meia a massa do nosso Sol, massa conhecida como limite de Chandrasekhar, essa estrela pode parar de se contrair e se estabelecer num estado final, como uma anã branca. Ela teria um raio de alguns milhares de km e sua densidade seria de milhares de toneladas por centímetro cúbico. Neste caso, a repulsão se tornará predominante, causada pelo movimento dos elétrons de sua massa. Estima-se a existência de grande número de anãs brancas, a mais brilhante delas girando em torno de Sirius. Landau, por seu turno, sugeriu a existência de estrelas finais menores do que as anãs brancas, sustentadas principalmente pela repulsão de nêutrons e prótons. Estas estrelas, denominadas estrelas de nêutrons, teriam raio de apenas 16 km e densidade de bilhões de metros cúbicos. Durante os anos 1980, os astrônomos localizaram várias delas. Estes são exemplos de como a dialética salta da teoria quando esta descreve os movimentos reais, levando os físicos a reconhecerem até o ciclo de vida das estrelas. Estrelas com massa acima do limite de Chandrasekhar, quando chegam ao limite final de seu combustível, podem explodir. Chandrasekhar também sugeriu que elas poderiam se orientar no sentido de se livrarem de parte de sua matéria, a fim de reduzirem sua massa até abaixo do limite. Robert Oppenheimer concordou com essa hipótese. Ele garantiu que, se uma estrela desse tipo não estivesse presente, seu campo gravitacional não alteraria as trajetórias dos raios de luz no espaço-tempo. Mas, com ela presente, os prismas que indicam as trajetórias dos focos de luz emitidos de suas extremidades são curvadas ligeiramente para dentro, perto da superfície da estrela. Isto pode ser observado durante um eclipse do Sol, quando as curvaturas de luz das estrelas distantes se tornam visíveis. 245 Q Tomo01.pmd 245 11/28/2013, 11:46 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 À medida que a estrela se contrair, o campo gravitacional em sua superfície se torna mais forte e os prismas de luz se curvam mais para dentro, tornando mais difícil o mecanismo de escape da luz da estrela. Isto fará com que ela pareça mais opaca e avermelhada a um observador que esteja à distância. Alguns físicos supõem que, quando a estrela tiver encolhido até um determinado raio crítico, o campo gravitacional da superfície se tornaria tão forte que a luz não poderia mais escapar. Como parece que nada pode se deslocar mais rapidamente do que a luz, e se a luz não pode mais escapar, nada mais poderia. Tudo seria atraído de volta pelo campo gravitacional. Assim, teríamos um conjunto de eventos, uma região do espaço tempo, da qual não seria possível escapar para atingir um observador distante. Essa região é o que os físicos chamam de buraco negro, seu limite sendo o chamado horizonte de eventos, coincidindo com as trajetórias dos raios de luz que não conseguiriam escapar. No entanto, descobriu-se depois, que os buracos negros continuam emitindo radiação. Ou seja, algum tipo de repulsão continua atuando. Diante disso, Penrose e Hawking sugeriram que deve haver uma singularidade de densidade infinita e curvatura de espaço-tempo dentro de um buraco negro. Eles supõem que isso seria quase igual à grande explosão do começo dos tempos, onde as leis científicas e a capacidade de previsão do futuro falhariam. Para eles, as singularidades produzidas pelo colapso gravitacional ocorreriam apenas em buracos negros, onde seriam escondidas da visão externa por um horizonte de eventos. Em outras palavras, Penrose e Hawking acabam admitindo que, dentro de um buraco negro, há tanto contração e densidade infinitas, causadas pela atração gravitacional, quanto expansão térmica, causada pela repulsão. Um processo misto parecido não com a grande explosão do começo do universo atual, como pensam, mas com as condições prévias que levaram ao big bang. Eles continuam temerosos de entrar nos domínios divinos. Um dos grandes problemas relacionados com os buracos negros é que eles são um dos pouquíssimos casos, na história das ciências, em que uma teoria foi desenvolvida detalhadamente como modelo matemático, antes que houvesse qualquer evidência observável de que estivesse correta. Aliás, isso parece ser quase uma mania. Q 246 Tomo01.pmd 246 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR Modelos matemáticos sobre meteoros que poderiam eventualmente atingir a Terra e sobre as possíveis formas de desviá-los de suas rotas de colisão foram desenvolvidos tomando como hipótese que todos os meteoros eram perfeitamente compactos. Quando uma sonda japonesa conseguiu fotografar em detalhe um dos meteoros visados, mostrando que ele era formado por rochas porosas, os modelos desabaram. Essa é a vantagem da realidade sobre os modelos matemáticos. Portanto, embora eles possam ser importantes como hipótese, o critério de sua correção será sempre a realidade material. Em 1963, Roy Kerr (1934-....) encontrou um conjunto de soluções para equações que descreviam buracos negros rotativos que giravam a uma razão constante. Sua forma e seu tamanho dependiam apenas de sua massa e da razão de rotação, e o buraco negro arquearia na direção de seu equador, da mesma maneira que o Sol e a Terra se arqueiam devido à sua rotação. Apesar disso, alguns físicos consideram que foi Werner Israel (1931....), em 1967, quem revolucionou o estudo dos buracos negros. Ele teria demonstrado que, de acordo com a teoria da relatividade geral, os buracos negros deveriam ser estacionários, perfeitamente esféricos, seu tamanho dependendo apenas de sua massa. Quaisquer dois buracos negros, com massas equivalentes, seriam idênticos, podendo ser descritos por uma das equações de Einstein, de 1917. Até hoje não se sabe se aqueles físicos estavam fazendo ironia, ou acreditavam mesmo na revolução teórica de Werner. Numa época em que o conhecimento das leis do movimento da matéria se tornava evidente, aparecer com um delírio estacionário deveria ser tido como uma aberração teórica. Mesmo assim, Penrose e John Wheler (1911-2008) argumentaram, em concordância com Werner, que os movimentos acelerados atuantes no colapso de uma estrela implicariam em que ondas gravitacionais desprendidas dela a arredondariam e a deixariam absolutamente esférica, quando ela se estabelecesse no estado estacionário. Como vemos, os conceitos de estático, invariável, estacionário, imutável, têm raízes profundas. Ao invés de serem colocados em dúvida por chocar-se contra uma das leis mais gerais da matéria (toda a matéria está em movimento), são até apreciados como revolucionários. Mas, a obser247 Q Tomo01.pmd 247 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 vação da realidade está sempre proporcionando mais detalhes da diversidade dos movimentos e das transformações da matéria. Em 1963, Maarten Schmidt (1929-....) media o desvio para o vermelho de um objeto pálido, semelhante a uma estrela, e descobriu que tal desvio era muito grande para ser provocado por uma onda gravitacional. Se fosse uma onda gravitacional para o vermelho, o objeto teria que ser tão compacto e estar tão próximo da Terra que afetaria as órbitas dos planetas do sistema solar. Em virtude disso, ele deduziu o inverso, acompanhando as descobertas de Hubble. O desvio para o vermelho, que observava, era provocado pela expansão do universo. O objeto, que parecia pálido, deveria estar muito distante, mas ser muito brilhante e emitir enorme quantidade de energia. O único mecanismo conhecido e capaz de produzir tamanha quantidade de energia parecia ser o colapso gravitacional não de uma estrela, mas de toda a região central de uma galáxia. Depois dessa descoberta, diversos outros objetos quase-estelares equivalentes, ou quasars, foram localizados, sempre com grande desvio para o vermelho, mas sempre muito distantes. Por outro lado, em 1967, Jocelyn Bell Burnell (1943-....) e Anthony Hewish (1924-....) localizaram estrelas rotativas de nêutrons, de 16 km de raio, emitindo vibrações de ondas de rádio, devido a uma complexa interação entre seus campos magnéticos e a matéria à sua volta. Deram o nome de pulsars a esses objetos. Essa descoberta estimulou a suposição da existência de estrelas ainda menores, capazes de se transformarem em buracos negros. Os astrônomos também observaram sistemas nos quais duas estrelas giram em torno de uma outra, atraindo-se mutuamente pelo efeito da gravidade, podendo colidir a qualquer momento. E detectarem sistemas em que apenas uma estrela visível gira em torno de alguma companheira invisível. Em alguns desses sistemas, como Cygnus X-1, parece ocorrer um processo de deslocamento da matéria da superfície da estrela visível para a companheira não-visível. Isto faz com que a estrela não-visível desenvolva um movimento espiral, aquecendo-se consideravelmente e transformando-se em forte emissora de raios-X. Q 248 Tomo01.pmd 248 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR No entanto, para que o processo realmente ocorra como descrito acima, é indispensável que o objeto não-visível seja muito pequeno, como uma anã branca, uma estrela de nêutrons ou um buraco negro. No caso de Cygnus X-1, sua massa é aproximadamente seis vezes a massa do Sol. Ou seja, muito grande para ser uma anã branca ou uma estrela de nêutrons. O que leva à suspeita de que se trate de um buraco negro. Há evidências da existência de outros sistemas semelhantes a Cygnus X-1, na Via Láctea e nas Nuvens de Magalhães, que podem ser buracos negros. Estima-se que ao longo da história do universo, muitas estrelas devem ter queimado todo o seu combustível nuclear e entrado em colapso. Isso tem levado alguns cientistas a estimar que o número de buracos negros pode ser bem maior do que o das estrelas visíveis (mais de 100 bilhões, apenas na Via Láctea). Deduzem, daí, que possa existir uma atração gravitacional extra que explique porque nossa galáxia desenvolve sua rotação à razão em que o faz. A massa das estrelas visíveis seria insuficiente para justificar esse fenômeno. Não lhes passa pela cabeça que a expansão universal, causada pela repulsão da grande explosão, combinada ao predomínio localizado da gravidade, pode ser o responsável pelo tipo de movimento de rotação da Via Láctea e, provavelmente, de outras galáxias. Também parecem desprezar a massa da matéria escura existente nas galáxias, que está longe de ser desprezível, e cujos movimentos ainda fazem parte da ignorância a respeito de diversos aspectos do universo. Argumentam que, à medida que a matéria se desloca em espiral para um buraco negro, ela fará com que o buraco negro gire na mesma direção. Isto deve provocar um campo magnético tão forte que poderá lançar as partículas de energia, geradas pela matéria cedente, a uma altura muito elevada. Os jatos observados em galáxias e quasares, lançados para o exterior, ao longo do eixo de rotação do buraco negro, ou seja, em direção a seus pólos norte e sul, seriam a comprovação desse processo. O interessante, no caso, é que a observação da emissão desses jatos de energia, assim como de raios-X, a partir dos buracos negros, introduziu uma contradição nas teorias sobre esses corpos celestes. Se os buracos negros emitem raios-X e jatos de energia, isto significa que a gravidade 249 Q Tomo01.pmd 249 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 não pode ser absoluta, como alguns supõem. Os raios-X e os jatos de energia e matéria são formas de repulsão. Por outro lado, a existência de buracos negros, estrelas anãs, estrelas de prótons, estrelas de nêutrons e estrelas comuns, assim como dos planetas e outros corpos celestes frios, mostra que o processo predominante de expansão do universo, eminentemente repulsivo, convive mesmo com processos localizados predominantemente atrativos ou gravitacionais. Embora alguns vivam confundindo a realidade histórica, é um avanço que tenham admitido a repulsão, ou a curvatura do espaço-tempo, ou a anti-gravidade. Apesar da predominância quase absoluta da atração gravitacional na formação dos buracos negros, a realidade dialética continua se apresentando como um quebra-cabeça para o pensamento metafísico. A gravidade é predominante em vários corpos celestes, mas a expansão é predominante em termos universais e nas relações entre as galáxias, que estão se afastando umas das outras. E, como vimos acima, mesmo onde a gravidade é predominante, a repulsão continua presente, sob várias formas. Para escapar da contradição entre os vários modelos matemáticos criados ao longo do tempo e as observações práticas da realidade astronômica, Penrose e Hawking procuraram redefinir o buraco negro. Segundo eles, o buraco negro passou a ser um conjunto de eventos do qual não seria possível escapar para uma distância grande. Antes, nada escaparia. Agora, seu limite seria o horizonte de eventos, formado pelas trajetórias, no espaço-tempo, dos raios de luz que não conseguem se afastar dele, flutuando para sempre em sua margem. Essas trajetórias teriam que cumprir sempre rotas paralelas, ou que as afastassem umas das outras. Uma abordagem alternativa seria fazer com que o horizonte de eventos se comportasse como a orla de uma sombra. Desse modo, o comportamento não decrescente da área de um buraco negro seria muito semelhante ao de uma quantidade física, chamada entropia, que mede o grau de desordem de um sistema. Pode-se criar ordem na desordem, mas isto requer desgaste de esforço ou energia e a conseqüente diminuição da quantidade de energia ordenada disponível. Uma afirmação adequada a esta ideia está na segunda lei da termodinâmica, ao estabelecer que a entropia de um sistema isolado Q 250 Tomo01.pmd 250 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR sempre aumenta. Quando dois sistemas são somados, a entropia dos sistemas combinados é maior do que a soma das entropias dos sistemas originais. O que virou de ponta cabeça a matemática que teimava em dizer que dois mais dois só poderiam ser quatro. A segunda lei da termodinâmica não se aplica a todos os casos, da mesma forma que as leis de Newton e de Einstein, embora haja gente que ache o contrário. A segunda lei pode ser aplicada à maioria dos casos, como a área do horizonte de eventos. Se ela fosse uma medida da entropia do buraco negro, a matéria contendo entropia, que caísse nele, aumentaria sua área. Desse modo, a soma da entropia da matéria fora dos buracos negros e a área do horizonte de eventos jamais diminuiria. Hawking pensa, porém, que essa sugestão tem uma falha fatal. Se um buraco negro tiver entropia, também deve ter temperatura, emitindo radiação a determinada razão, já que todos os corpos com um mínimo de temperatura, como os seres humanos, emitem radiações, não violando a segunda lei. Mas, por sua própria definição, buracos negros seriam corpos não emissores de coisa alguma. Nessa hora, não violando a sacrossanta lei da gravidade, todas as demais podem ser rompidas. Temos, então, uma contradição entre os buracos negros e a segunda lei da termodinâmica. Em 1973, físicos da antiga União Soviética argumentaram que, de acordo com o princípio da incerteza da mecânica quântica, buracos negros rotativos deveriam criar e emitir partículas. Ao refazer os cálculos, Hawking verificou que mesmo os buracos negros tidos como não-rotativos aparentemente também emitiam partículas. A emissão seria real porque o espectro das partículas emitidas era exatamente o que teria sido emitido por um corpo aquecido, e que o buraco negro estaria emitindo partículas na razão correta para não evitar a segunda lei da termodinâmica. Como é possível um buraco negro emitir partículas se, por definição, nada pode escapar do seu horizonte de eventos? A resposta da mecânica quântica é que as partículas não vêm de dentro do buraco negro, mas de um espaço vazio além do horizonte de eventos. No espaço vazio haveria campos cujo valor e sua razão de troca com o tempo seria semelhante à posição e velocidade de uma partícula. Isto impõe uma certa flutuação ao 251 Q Tomo01.pmd 251 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 campo, pela dificuldade de se determinar a posição e a velocidade da partícula ao mesmo tempo, segundo o princípio de incerteza. Ou seja, se não há como negar a repulsão, é preciso criar limites a ela. Pode-se, então, pensar nessas flutuações como pares de partículas de luz ou gravidade, que aparecem juntas em algum momento, se separam, depois se reúnem novamente e se anulam uma à outra. Tais partículas seriam virtuais, como as que carregam a força gravitacional do Sol. Com tais explicações, os físicos não têm mais direito de reclamar das abstrações da filosofia. Além disso, eles deveriam explicar por que, toda vez que se vêem obrigados a emitir juízos dialéticos, transformam os fenômenos em virtuais, pelo suposto fato de não poderem detectá-los diretamente, embora seus efeitos indiretos possam ser medidos e comprovados. Em 1876, Engels deduzia que nosso sistema solar cedia, a cada instante, enormes quantidades de movimento ao espaço cósmico, sob a forma de uma qualidade determinada, calor solar, ou repulsão. sto, bem antes de ser demonstrado, em 1900, que o calor radiante e a luz exercem repulsão sobre os corpos que os emitem, absorvem ou refletem. A possibilidade teórica das partículas do entorno do buraco negro, ou de seu horizonte de eventos, serem emitidas, dando a impressão de que vêm de dentro do buraco negro, é crível. No entanto, isto salva o horizonte de eventos e o conceito de buraco negro, mas limita o poder atrativo da gravidade ao horizonte de eventos, enquanto no seu entorno o que vigora é a repulsão, ou a emissão de partículas. Desse modo, as contradições teóricas a respeito dos buracos negros se tornaram de tal ordem que surgiu a hipótese deles existirem desde os estágios iniciais do universo, tendo sido formados pelo colapso de irregularidades nesse período. Eles teriam uma temperatura muito mais elevada e emitiriam radiações em maior escala. Alguns, com pequenas massas, teriam se evaporado. Outros, porém, com massas maiores, ainda estariam emitindo radiações sob a forma de raios-X e raios gama. Em outras palavras, a hipótese dos buracos negros primordiais faz ruir por terra todo o conceito anterior de buraco negro. Esse é um dos resultados mais palpáveis da dificuldade em considerar que atração e repulsão, ou contração e expansão, coexistem para manQ 252 Tomo01.pmd 252 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR ter em equilíbrio instável os sistemas estelares e planetários. Em termos locais, uma ou outra pode predominar. Porém, mesmo onde a gravidade predomina, podem ocorrer fenômenos de repulsão que escapem dela, o que explica, de certo modo, não só a limitação do horizonte de eventos do buraco negro, mas também que fragmentos de outros planetas cheguem à Terra, e vice-versa. A gravidade da Terra tem um limite a partir do qual pode ser vencido pela repulsão (28 mil km/seg), o que nos permite enviar sondas para outros planetas do sistema solar ou mesmo para fora dele. Em algo emitido a 300 mil km/seg, como a luz, a gravidade quase não tem efeito algum, a não ser causar algum desvio. Assim, quando Einstein diz que objetos pesados em movimento devem provocar a emissão de ondas gravitacionais, ou ondulações na curvatura espaço-tempo, que se deslocam à velocidade da luz, ele está apenas considerando a presença da atração (ondas gravitacionais ou curvatura do espaço-tempo) e desprezando a repulsão, tornando inexplicável a expansão do universo. O que mostra o quanto ainda temos que caminhar, apesar de todos os avanços científicos, para esclarecer aquilo que muitos chamam de mistérios do universo. 253 Q Tomo01.pmd 253 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 A competência da ciência Uma noção mais clara sobre a relação atração-repulsão, contraçãoexpansão, ou gravidade-anti-gravidade, poderia contribuir de forma mais efetiva para a explicação de muitos dos fenômenos que hoje preocupam as ciências. Às vezes, a repulsão aparece nos textos de físicos renomados como forças mecânicas externas às formas da matéria. Ou através do conceito de curvatura do espaço-tempo de Einstein. Ou, ainda, como uma consequência estranha do princípio de exclusão de Pauli. Se essa dificuldade teórica é evidente no trato de fenômenos em que atração e repulsão aparecem tão claramente, como nos movimentos mecânicos da superfície do Sol e das demais estrelas, imaginemos o grau de dificuldade no trato dessas contradições que ocorrem nas moléculas, átomos e partículas. Por exemplo, em 1870, Engels sugeria que, na natureza, ocorrem casos em que impulsos extremamente pequenos provocam efeitos de extraordinária potência. Einstein, no início dos anos 1900, elaborou a fórmula matemática que deu embasamento teórico a essa hipótese. Mas apenas nos anos 1940, com a bomba nuclear, foi possível demonstrar que o choque de uma partícula de massa infinitesimal, à velocidade da luz, contra um núcleo atômico, também de massa infinitesimal, seria capaz de liberar uma energia milhões de vezes superior às massas originais. A hipótese e a fórmula matemática tiveram, então, uma demonstração prática incontestável. Essa foi a base prática que deu surgimento à teoria do big bang, ou da grande explosão, que parece haver dado nascimento ou início ao universo atual. A matéria existente antes da grande explosão, em processo de contração, teria comprimido seu espaço a um volume infinitamente pequeno. Colocada numa situação de densidade e temperatura infinitamente elevadas, tal matéria teria sido reduzida às suas partículas mais elementares, movimentando-se a velocidades extremas. Q 254 Tomo01.pmd 254 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR Em escalas mais reduzidas, idênticos processos de compressão criam as condições, tanto para grandes explosões, como ocorre numa granada ou num motor a explosão, quanto para uma combustão extremamente potente, como ocorre nos motores de combustão interna. Em qualquer dos casos, a contração molecular anteriormente predominante foi transformada rapidamente em seu contrário, num processo de descompressão ou expansão. Essa transformação de um fenômeno em seu contrário é uma das formas dialéticas da matéria atuar. A essa mudança brusca, ou transformação, alguns físicos chamam de singularidade, outros chamam de transição de fase, biólogos chamam de metamorfose, e vários filósofos chamam de revolução. Todas as mudanças ou transformações ocorridas desde o big bang representam o tempo escoado pelo processo expansionista em que o universo atual ainda se encontra. Mas, como vimos, ainda há cientistas que aceitam o big bang, mas não aceitam que tenha havido o período anterior ao big bang. Da mesma forma que o Papa, eles acham que este período anterior estaria fora da competência da ciência. Com isso, não conseguem explicar direito o que deu surgimento à casca de noz de alta energia, ou ao ponto físico de compressão e temperatura infinitamente altas, que resultou na grande explosão. Alguns chegam a confundir os dois momentos cósmicos, a formação da casca de noz de alta energia e a grande explosão, como se fossem um fenômeno único. Querem nos convencer que a fabricação da granada e sua explosão são a mesma coisa. Ou que a fabricação da granada é da competência divina, enquanto a explosão ficaria por conta dos homens. Deveríamos, portanto, nos interessar somente pela explosão em si, e por suas conseqüências, para explicar tudo o que veio depois. O começo de tudo teria sido a explosão, ou o big bang. Por outro lado, ainda subsiste um número considerável de cientistas para os quais o big bang parece um absurdo. Seu argumento principal consiste em supor que não existe qualquer prova da existência de uma sopa ultra-comprimida e ultra-quente de partículas elementares. Nem aceitam que tal sopa, naquelas condições, teria explodido ou se expandido rapidamente ao alcançar um determinado grau de temperatura e pres255 Q Tomo01.pmd 255 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 são. Embora aceitem tranquilamente, digamos de passagem, que processo idêntico ocorre com qualquer gás, não crêem que isso possa haver ocorrido com partículas elementares entre 13 e 15 bilhões de anos atrás. Em complemento, até mesmo físicos que concordam com a teoria do big bang, como Marcelo Gleiser (1959-....), supõem que não existam fósseis dos tempos primordiais de expansão do universo atual, embora acreditem que talvez seja possível descobrir pistas da sua infância através das medições de suas propriedades. Gleiser admite que, perto da origem do tempo atual, as coisas seriam bem estranhas. Nesse universo primitivo ou inicial, com pressão e temperatura extremamente altas, quanto menor a pressão, mais rápida a expansão do espaço. Portanto, para acelerar a expansão cósmica do espaço, a matéria deve ter reduzido sua pressão, criando um campo escalar, no qual as quantidades de matéria variariam constantemente no espaço, sem uma direção específica. À medida que o campo escalar retornou a seu ponto de equilíbrio, sua energia foi convertida em outras partículas, como ocorre durante o decaimento de um núcleo radioativo, em que uma partícula pode se transformar dialeticamente em duas ou mais partículas. Nessas condições, o campo escalar poderia se transformar nas partículas mais familiares, a exemplo dos tipos de matéria e radiação consideradas convencionais, como os elétrons, prótons, nêutrons, neutrinos e fótons. Mas estes teriam surgido mais tarde, durante a produção dos primeiros núcleos ou dos átomos. O campo escalar seria, pois, o primeiro antepassado da matéria. Essa explicação sobre os tempos primordiais e o campo escalar tem aspectos interessantes. Primeiro, ao não reconhecer a possibilidade da existência de fósseis, coloca-os em pauta, do mesmo modo que Cuvier fez ao criar a paleontologia. Depois, ao aceitar as mesmas condições de temperatura e pressão extremamente altas e admitir a conversão da energia em outras partículas. Isto é, admitir a formação histórica das partículas familiares, dos núcleos e dos átomos. Por outro lado, despreza a explosão e o processo de esfriamento como os mecanismos de redução da pressão e aceleração da expansão cósmica. Não se sabe como a temperatura e a pressão extremamente altas se transQ 256 Tomo01.pmd 256 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR formaram em baixa pressão e expansão. Nessas condições, a criação de um campo escalar, como antepassado da matéria, aparece como mais um passe de mágica para explicar a variação das quantidades de matéria no espaço e sua transformação em partículas. De certa maneira, essa teoria faz uma distinção substantiva entre espaço, energia e matéria. Desconsidera que espaço e energia são apenas formas de existência da matéria em movimento e, em conseqüência, se vê obrigada a inventar um campo escalar, anterior à matéria. Bem vistas as coisas, parecemos ter de volta mais uma variante da teoria do éter. Talvez fosse mais natural que os antepassados das formas atuais de matéria tenham sido algumas outras formas de matéria em movimento. Entre os adeptos da teoria do big bang parece haver um certo consenso de que, ao ocorrer esse evento, ou essa singularidade, só existiam partículas elementares ou primordiais. Estas, em seu movimento incessante e em seus choques, teriam dado nascimento aos quarcks, neutrinos, elétrons e fótons. A suposição principal é que tais neutrinos, quarcks, elétrons e fótons tenham surgido historicamente da transformação das partículas anteriormente existentes, nos primeiros momentos de expansão causada pela grande explosão da casca de noz de alta energia ou da sopa ultra-comprimida e ultra-quente. Como energia não é senão massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz, o problema consiste em saber que tipo de matéria formava aquela massa. A maior parte dos cientistas acredita que as partículas que compõem a matéria atual não existiam antes do big bang. Esta é uma possibilidade a ser considerada. No entanto, a história da natureza tem inúmeros exemplos de que uma transformação ou mudança de qualidade na matéria em movimento não liquida totalmente todos os aspectos ou formas de matéria anteriores. Às vezes, esses fósseis permanecem atuantes durante um tempo relativamente longo, como provas irrefutáveis das eras passadas, a exemplo de certas bactérias primitivas e de certos animais de transição, como o ornitorrinco. Como nosso universo ainda é relativamente jovem, é plausível considerar a possibilidade de que algumas das partículas já conhecidas, ou mesmo algumas partículas desconhecidas, sejam candidatas fortes a re257 Q Tomo01.pmd 257 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 manescentes fósseis do universo anterior. Por exemplo, os cientistas ainda não sabem que tipo de matéria é a matéria escura. Afirmam, com razão, que a matéria escura é invisível e não pode ser composta de matéria comum, ou seja, de estrelas e planetas, ou de qualquer coisa feita de átomos. Por outro lado, em sua tentativa de responder ao problema, entraram pela via de fazer distinção entre matéria escura e energia escura. Mais de 70% do universo seriam formados de energia escura, assim como pouco mais de 20% seriam formados de matéria escura. Talvez isso decorra do fato de que existem físicos e astrônomos que ainda não entenderam que a energia é uma das formas do movimento da matéria, que pode se transformar em massa, outra forma de existência material. Criaram uma oposição excludente entre energia escura e matéria escura, sem entender que a energia escura pode ser, simplesmente, resultado do movimento das partículas sub-atômicas que compõem a matéria escura. Esse quadro se complicou um pouco mais no final do século 20, quando alguns astrônomos, ao estudar supernovas a bilhões de anos-luz da Terra, pensaram haver constatado algum tipo de pressão negativa que estaria esticando a geografia do espaço mais rapidamente do que a velocidade da luz. Ou seja, eles acharam haver constatado que o universo estaria em expansão inflacionária, e que tal aceleração teria se iniciado há cerca de 5 bilhões de anos atrás. Isto é tanto mais complicado porque inverte totalmente as teorias anteriores sobre uma possível expansão inflacionária. Tais teorias afirmavam que a inflação ou aceleração teria ocorrido nos primeiros segundos após o big bang, reduzindo-se depois em virtude do esfriamento. Pelas observações recentes daqueles astrônomos, não teria havido expansão acelerada até 5 bilhões de anos depois do big bang. Daí em diante, o universo teria começado a se acelerar, o que poderia estar associado a alguma combinação de redução da pressão e elevação da temperatura. Essa suposta aceleração cósmica estaria sendo comprovada através principalmente dos efeitos da radiação cósmica de fundo. A causa dessa radiação estaria na energia escura. Esta energia seria diferente porque estaria por toda parte, sem forma e de baixíssima densidade. A matéria Q 258 Tomo01.pmd 258 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR escura, por seu turno, seria composta de partículas subatômicas e corpos celestes exóticos. Assim, ao tentar explicar o dilema da matéria escura desse modo, alguns astrônomos e físicos aumentaram a confusão a respeito, tendo que reconhecer que estavam apresentando tal matéria como uma falha da teoria da gravidade. Em outras palavras, a famosa equação de Einstein, de que energia é simplesmente massa à velocidade da luz ao quadrado, foi simplesmente jogada no lixo como imprestável. O assunto é ainda mais intrigante porque esses mesmos físicos e astrônomos reconhecem que radiações sem massa, como os fótons, são capazes de gerar partículas com massa. Portanto, energia eletromagnética pode se transformar em elétrons negativos e elétrons positivos, ou positrons, formas de matéria em movimento com massa. Elétrons negativos e positivos têm a mesma massa. Nessas condições, o fóton tem que ter, no mínimo, energia equivalente a duas vezes a massa do elétron para, ao ser multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz, criar a massa do par de partículas em que se transformará. Essas energias do fóton correspondem aos raios gama. Em outras palavras, se a energia comum pode se transformar em massa, por que a energia escura não pode se transformar em matéria escura? Talvez por isso, quando Pauli se interessou pela radioatividade, tenha alvitrado a possibilidade de existência de uma partícula desconhecida. Ele sabia que, quando um átomo radioativo decaia, parte de seu núcleo se rompia, sofrendo um tipo de desintegração chamado decaimento beta. O átomo se dividia em um próton e um elétron em alta velocidade, chamado, por sua vez, de partícula beta, um exemplo claro do desenvolvimento dialético das contradições internas dos átomos. Como uma fração significativa da energia envolvida nesse processo parecia se perder, Pauli deduziu que ela deveria ter se afastado na forma de uma partícula quase não-detectável, cuja única propriedade seria o spin, ou sua propriedade giratória em grande velocidade, comum ao comportamento de todas as partículas. Essa partícula alvitrada por Pauli, chamada neutrino, só foi confirmada 20 anos depois, quando experimentadores aplicaram a fórmula matemática dele ao inverso, para ver o que aconteceria se ela colidisse de frente com um próton. 259 Q Tomo01.pmd 259 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Projetaram um detector especial, constituído de vários tanques de água, onde dissolveram cloreto de cádmio. E o colocaram num local onde seria previsível esperar fartura de neutrinos. Isto é, em um reator nuclear. Seus cálculos diziam que seria possível enxergar lampejos minúsculos de raios gama, ocorrendo aos pares, o que realmente ocorreu. Com o detalhe de que a freqüência dos lampejos se relacionou à potência com a qual o reator estava funcionando. Os neutrinos se mostraram tão abundantes que, se pesarem alguma coisa, devem constituir uma fração substancial de todo o universo. Os neutrinos possuem a característica de serem pouco reativos. Isto é, oferecem muita resistência a fundir-se com outras partículas, e tendem a se concentrar em torno das galáxias, formando massas invisíveis imensas que poderiam explicar a rotação anômala dessas galáxias, ou seu comportamento quando em aglomerações. Segundo algumas estimativas, essas concentrações correspondem a massas cerca de dez vezes superiores à massa total das estrelas, planetas, buracos negros, asteróides, poeira, gás e outros elementos conhecidos que formam o universo. Ao mesmo tempo, os neutrinos atravessam tranqüilamente todos os corpos e não parecem oferecer qualquer resistência ao movimento da luz e de outras formas de radiação cósmica. Portanto, é provável que os neutrinos e outras partículas da matéria escura, gerando energia nem sempre escura, como mostraram as experiências, estejam entre os fósseis remanescentes do universo anterior. Eles talvez tenham dado origem ao elétron e a outras partículas familiares, durante o big bang, e ainda permaneçam no universo atual, assombrando astrofísicos e físicos como fantasmas invisíveis. Assim, não seria de estranhar que a matéria escura, incluindo outras partículas que provavelmente desapareceram, tenha feito parte da matéria-prima do processo histórico de contração que levou o universo anterior ao big bang. Esse universo anterior, para ter chegado a um tamanho que os físicos igualam a zero, e a uma densidade e temperatura infinitamente elevadas, deveria encontrar-se sob um forte processo de contração gravitacional. Ou seja, talvez há trilhões ou bilhões de anos antes do big bang, a tendência predominante desse universo anterior tenha sido a atraQ 260 Tomo01.pmd 260 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR ção gravitacional e a contração. Só isso, ou algo idêntico, pode dar sentido à teoria da casca de noz de alta energia, que levou ao big bang. Se verificarmos o que acontece no Sol ou em qualquer outra estrela, podemos fazer uma analogia com o que pode ter ocorrido antes do big bang. Num primeiro momento, o aquecimento e o aumento da densidade das partículas causaram contração. Quando a gravidade da massa das partículas primordiais suplantou em muito a repulsão e elevou a temperatura e a densidade a um ponto crítico (algo no qual se encaixa perfeitamente a constante cosmológica de Einstein, desde que despida de seu conteúdo estático), o processo se inverteu através da grande explosão. Esta grande explosão pode ter sido o ponto nodal, como o zero da numeração real, que separou e inverteu o sentido de contração do universo anterior, para a expansão do universo atual. No entanto, os teóricos da grande explosão, têm dificuldade em entender essa transformação dialética de um movimento em seu contrário. Não compreendem que foi essa expansão que proporcionou o esfriamento escalonado dos gases de partículas. E que isso permitiu a fissão e a fusão de algumas delas, e sua transformação em novas partículas, como os elétrons e os fótons e, a partir deles, a criação de prótons e nêutrons. Com isso, abriram flancos consideráveis para as teorias do universo invariável e do universo dinâmico eterno. Estas teorias aceitam o ponto de mudança da contração anterior para a expansão atual, mas apenas como uma mudança mecânica de fase. O universo seria o mesmo, um universo eterno, tendo mudado de direção num determinado momento de sua história infinita. Funcionando da mesma forma que um coração humano, num momento cósmico o universo estaria em sístole, em outro momento estaria em diástole. Seu dinamismo estaria comprovado nesse movimento mecânico de encolhe-distende. As teorias do universo invariável e do universo eterno dinâmico não aceitam, portanto, que o universo atual tenha tido um início e, muito menos, que provavelmente tenha um fim em algum momento do futuro. Contrapõem à teoria do big bang a ideia de um universo sem começo nem fim. Apesar disso, não deixa de ser interessante que seus autores aceitem, tranquilamente, a utilização do calendário gregoriano. Como se 261 Q Tomo01.pmd 261 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 sabe, este conta a história humana a partir do ano pretensamente marcado pelo nascimento de Cristo. Embora existam pesquisadores que remetem tal nascimento para antes ou depois daquele ano convencionado, esta convenção tornou-se universalmente aceita, dando como implícita a existência de um início no meio de uma história bem mais longa. O problema das civilizações que surgiram há mil, dois mil, três mil ou mais anos antes daquela data, foi resolvido simplesmente grifando que tais civilizações tiveram início antes de Cristo (a.c.). Alguns ateus ortodoxos procuram escapar da referência a Cristo grifando as datas com o termo antes de nossa era (a.n.e.) ou antes do presente (a.p.). O que dá na mesma, porque o big bang do calendário, gostemos ou não, tem como parâmetro a provável data do nascimento do criador da religião cristã, que marca uma inflexão de qualidade no processo religioso até então existente nos povos do ocidente terrestre. Esse é o mesmo problema apresentado pela teoria do universo eterno dinâmico, que pretende fazer com que a teoria do big bang perca a hegemonia conquistada desde os anos 1970. Para opor-se aos modelos cosmológicos singulares, que consideram paralisantes, nas palavras de Mário Novello, seus autores elaboraram um modelo de cosmologia bouncing, ou de ricochete, segundo o qual o universo não teve um começo. O momento de condensação máxima, ocorrido em algum momento do passado do nosso universo, seria apenas um momento de passagem de uma fase anterior do universo para a fase atual. Ainda segundo Novello, trata-se de retirar o limite que os cientistas se impuseram arbitrariamente, no século 20, ao considerar a existência de um estado único, especial, a partir do qual teria tido início a atual expansão do universo. Em lugar do big bang seria conveniente ter em conta os cenários de uma expansão lenta por um tempo infinito, ou uma contração que pudesse levar a um colapso e à fase de expansão. Tais cenários seriam eternos e dinâmicos, possuindo um valor mínimo para seu volume (bouncing), podendo passar da fase de contração para uma fase de expansão, possuindo momentos de ricochete e podendo repetir a configuração. Portanto, tais modelos atacam a teoria do big bang naquilo em que ela parece estar mais correta: a transformação de um universo anterior no Q 262 Tomo01.pmd 262 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR universo atual, qualitativamente diferente. Embora incorretamente não estabeleça o fim do universo anterior como condição para o surgimento do universo atual, ela está correta ao estabelecer o início e a finitude histórica deste universo. Os modelos eternos colocam, ao invés dessa mudança dialética, a teoria newtoniana de mudança apenas espacial, resvalando na história dos fatos repetidos. Seu infinito é um infinito sem mudanças, ou seja, sem história ou sem tempo. Embora estejamos longe de conhecer o processo que levou à contração das partículas primordiais, e conduziu esta contração à casca de noz de alta energia, podemos deduzir com um grau razoável de certeza que nosso universo em expansão deve ter surgido de algum tipo de explosão, ou o que a maioria dos meios científicos denomina de big bang. Com isso, conseguimos vislumbrar o início da história atual, ou o início das mudanças na matéria em movimento, ou o início do tempo do universo atual. O erro da teoria do big bang não está aí. Está em considerar que a matéria em movimento não é infinita e, por isso, entregar à Providência Divina a criação da grande explosão. É evidente que a datação do big bang cósmico envolve situações mais complexas, embora o problema de fundo seja idêntico. Isto é, existem ou não pontos nodais, constantes, singularidades ou transições de fase que marquem mudanças qualitativas na evolução histórica da matéria em movimento? Se a falha principal da teoria do big bang consiste em se restringir à finitude ou finidade do universo atual, a falha principal das teorias do universo invariável e do universo eterno dinâmico consiste em não reconhecer qualquer mudança de qualidade na infinita matéria em movimento. Portanto, em não reconhecer o elemento básico do tempo, a mudança ou transformação. Nesse sentido, é evidente que o big bang não pode ser o começo de tudo. Como vimos em capítulos anteriores, ao contrário de alguns físicos e, em concordância com outros, podemos afirmar que o universo atual representa uma mudança qualitativa, dialética, na infinitude ou infinidade da matéria em movimento. Para que o universo atual tenha tido um início, certamente foi indispensável que algum outro tipo de universo tenha chegado ao fim, transformando-se em um universo qualitativamen263 Q Tomo01.pmd 263 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 te diferente, que em algum momento do futuro também terá um fim, ao transformar-se em outro tipo de universo. Talvez por isso, as condições de limitação caótica, estabelecidas por vários físicos, assumam que o universo é espacialmente infinito. las admitem que pode haver um número infinito de universos, e supõem que o universo primordial pode ter sido caótico e irregular. Ele teria muito mais configurações caóticas e desordenadas do que planas e ordenadas. Isso contradiz o pensamento que considera difícil entender como condições iniciais caóticas podem ter dado origem ao universo atual, estimado por alguns como plano e regular. Na verdade, para corresponder ao desenvolvimento histórico real, as condições de limitação caótica deveriam ter assumido que o universo é também finito, que o número infinito de universos estaria condicionado pelos universos insulares representados pelas galáxias, e que não só o universo primordial foi caótico e irregular. Nosso universo atual, de 14,5 milhões de anos ou mais, continua sendo caótico e irregular, tendo um desenvolvimento histórico desigual e contraditório, apesar das aparências. Damos nomes diferentes a um mesmo processo, e talvez continuemos fazendo isso ainda por muito tempo. Concepções, noções ou conceitos profundamente arraigados não mudam com rapidez. Eles, como tudo mais, também são datados, mas talvez não feneçam tão cedo. Assim, continuaremos falando de história das mudanças no tempo, embora sabendo que podemos estar falando algo como história da história na história. As partículas têm história. O big bang foi um acontecimento histórico, do mesmo modo que a transformação das partículas em átomos de hidrogênio. Os prótons, nêutrons e átomos têm história. O hidrogênio, o hélio, o carbono, o oxigênio, o ferro têm história. Todos os elementos químicos surgiram no processo de desenvolvimento histórico do universo atual. As galáxias, as estrelas, os planetas e cada poeira deste universo tem história. Podemos até não ter condições de conhecê-la, nem vontade de pesquisar para contá-la. Mas não podemos ignorar o fato de que cada pedaço da matéria, em seu movimento, tem história. Hoje há certo consenso de que o ponto inicial de nosso universo, ou do universo atual, esteja entre 13,8 e 14,5 bilhões de anos atrás. Não fará Q 264 Tomo01.pmd 264 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR muita diferença se descobrirem, mais tarde, que o universo atual é mais antigo porque a luz só dura 12 ou 13 bilhões de anos. O que nos interessa é que, naquele momento primordial, se pudéssemos estar lá, nos depararíamos apenas com partículas, como os neutrinos, elétrons, fótons e, quase certamente, com inúmeros quarcks que desconhecemos. Estaríamos frente a frente, unicamente, com tipos de matéria natural pura, que muita gente considera inerte, morta. Temos, portanto, apenas a história de partículas, átomos, elementos e combinações químicas, assim como da radiação ou energia gerada pelo movimento desses corpos ou corpúsculos inorgânicos. Todos foram evoluindo progressivamente, criando novos corpos, num processo de mudanças ao qual deveríamos apenas dar o nome de tempo. No entanto, a noção de tempo, para a maioria das pessoas, está relacionada, sem muita consciência, aos movimentos de rotação, translação e precessão da Terra, medidos por relógios e calendários. De qualquer modo, uma leitura da realidade que não leve em conta a mudança, a transformação, o tempo, a história, está fadada a focar apenas um aspecto parcial. Ficará limitada ao princípio da incerteza, ou à metafísica, sem condições de vislumbrar os movimentos e as tendências que apontam para o futuro. No caso dos seres humanos, sem condições de vislumbrar as conseqüências históricas de seus próprios atos. 265 Q Tomo01.pmd 265 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Expansão universal Pouca gente dava atenção aos gregos e chineses antigos, para quem espaço e tempo deveriam sempre andar juntos. Ou deu crédito a Kant, quando afirmou que o universo tinha história. Ou a Hegel, quando sugeriu que as mudanças e a história não aconteciam através do tempo. Elas eram o próprio tempo, o processo real de mudanças. Foi preciso um longo percurso antes dos físicos e outros cientistas acordarem para essa dimensão da realidade, que supunham ocorrer fora e acima dela. Grande parte da comunidade científica só passou realmente a considerar tal dimensão quando Einstein confirmou que espaço e tempo jamais poderiam ser considerados isolados um do outro, sendo o tempo uma quarta dimensão. Porém, Einstein estabeleceu essa interação sem ter uma noção clara de que estava diante da relação entre o espaço e as mudanças que ocorriam ddentro dele. Talvez por isso, físicos como Brian Greene (1963-....) digam que a maioria dos cientistas não sabe bem o que é o tempo. O que talvez seja mesmo verdade. Nessas condições, eles têm dificuldade em explicar como, a partir das partículas elementares, foram se formando os átomos, elementos e compostos, durante alguns bilhões de anos. Não entendem que o tempo é justamente esse processo de mudanças, é a história. E permanecem na suposição de que a chamada matéria morta deve ser estudada apenas pelas ciências naturais, não pelas ciências históricas ou ciências do homem. Esquecem que os animais, inclusive os homens, são, de cabo a rabo, células e compostos químicos, que geram energia, eletricidade, magnetismo e movimentos mecânicos. Na história de nosso universo, o processo temporal de redução da temperatura deve ter criado as condições para que os prótons e nêutrons começassem a se combinar para produzir os núcleos dos átomos de Q 266 Tomo01.pmd 266 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR deutério, ou hidrogênio pesado. Os núcleos de deutério teriam, então, se combinado a elétrons para formar átomos de hidrogênio. Nessa mesma época foram formados o lítio e o berilo. Ademais, ao lado desse processo contraditório de transformações das partículas elementares, através de fusões e dissociações, propiciado pelo predomínio da expansão e do resfriamento do universo, os cientistas vão desvendando, aos poucos, que ele vem ocorrendo, desde o início, de modo desigual. Regiões cósmicas diversas, em contradição com o predomínio da repulsão, e da redução da temperatura, da densidade e da velocidade, apresentam o predomínio local da atração, ou da gravidade. Nessas regiões cósmicas localizadas, a contração elevou a temperatura e a velocidade dos gases de hidrogênio, estimulando sua transformação em hélio, numa reação que tornou os gases comprimidos em bolas de material incandescente, ou estrelas. Portanto, o hidrogênio não só desempenhou papel importante nas bifurcações temporais posteriores, incluindo a reação que levou ao surgimento do hélio, como também se tornou, juntamente com o hélio, no principal combustível dos corpos estelares. A partir da observação desses fatos não deveria ser difícil deduzir que a expansão (repulsão ou anti-gravidade) e a contração (atração ou gravidade) estejam em relação permanente, ora em unidade equilibrada, ora em desequilíbrio, com o predomínio de uma ou da outra. Elas não passam de aspectos contraditórios da relação espaço-tempo, plenamente verificáveis tanto no equilibro, quanto no desequilíbrio das estrelas. Apesar disso, alguns físicos supunham ser possível esperar um processo estritamente lógico da expansão promovida pelo big bang original. Porém, quando as irregularidades e interferências no processo de desenvolvimento do espaço-tempo se tornaram conhecidas, subvertendo tal pensamento, a primeira vítima foi o big bang inicial, sobre o qual surgiram dúvidas diversas. O modelo de Alan Guth (1947-....) é um dos exemplos mais característicos dessa subversão. De acordo com sua teoria, na grande explosão as partículas teriam aumentado sua velocidade e energia em virtude das temperaturas elevadas. Por outro lado, também se pode sugerir que as temperaturas teriam 267 Q Tomo01.pmd 267 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 sido elevadas pelo aumento da velocidade e da energia das partículas. Ambas as hipóteses são plausíveis, o que parece nos colocar a todos diante da história do ovo e da galinha. Sem levar isso em conta, Guth concluiu, a partir de sua hipótese. que em temperaturas tão altas, as partículas se manteriam unidas, devido à ação da gravidade sobre elas, com grande troca entre as partículas. Teria havido, então, um processo unificado daquilo que ele chamou de força nuclear forte, força nuclear fraca e força eletromagnética. Segundo ele, essa unificação poderia, eventualmente, ter sido rompida à medida que o universo se expandiu e se esfriou, e as energias baixaram seu nível. Mas também poderia ter ocorrido que o universo esfriasse sem recuperar aquela unificação. Isto o deixaria instável, com mais energia e a criação de um efeito repulsivo anti-gravitacional. Tal efeito agiria como a constante cosmológica introduzida por Einstein, fazendo com que o universo se expandisse a uma razão crescente, com a repulsão superando a atração gravitacional. Ou seja, para Guth, uma coisa ou outra. Seguindo sua linha de raciocínio, as regiões mais densas do universo de partículas, ao se expandirem de maneira acelerada ou inflacionária, fariam com que as partículas se afastassem mais, formando um universo que dificilmente conteria qualquer partícula e que tenderia para um estado super-resfriado. Em virtude disso, o universo teria evoluído de vários e diferentes estados iniciais nãouniformes para uma situação em que qualquer irregularidade seria aplainada. Isto explicaria o estado atual do universo, segundo ele, liso e uniforme. Essa argumentação apresenta inúmeros problemas e contradições. Há dúvidas de que o universo se expanda atualmente de forma inflacionária. Além disso, a ideia de que a quantidade de partículas existentes é finita, tornando-se rarefeita à medida que o universo se expande, choca-se contra as experiências quânticas em curso, que mostram as partículas dividindo-se e formando novas partículas. Tomando como base a própria teoria do big bang e a formação histórica de elétrons, prótons, nêutrons, núcleos e átomos, a reprodução ampliada parece ser uma característica importante do movimento de transformação das partículas. Q 268 Tomo01.pmd 268 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR Por outro lado, segundo Hawking e outros físicos da teoria quântica atual, as partículas teriam origem na energia, em forma de partículas e anti-partículas. A energia total do universo seria zero, a maioria da matéria estando em forma positiva. Toda a matéria seria atraída pela gravidade. Duas porções de matéria próximas entre si possuiriam menos energia do que duas porções iguais da mesma matéria afastadas uma da outra. Isto porque as mais afastadas uma da outra despenderiam energia para se separarem contra a força da gravidade, que as empurraria uma para a outra. Assim, num certo sentido, admite-se que o campo gravitacional também teria energia negativa. Eis a enrascada em que a presença absoluta da gravidade colocou os físicos. Primeiro chegam à conclusão de que as partículas têm origem na energia, em forma de partículas e anti-partículas. Porém, não conseguem entender que a energia é apenas uma forma de movimento da matéria que se manifesta na transformação dos pólos opostos de um tipo de partícula em outros tipos. Depois, para explicar que a matéria se forma de energia positiva, são obrigados a retomar o paradoxo de Newton, impondo à gravidade uma energia negativa, ou repulsiva. Do mesmo modo que Newton teve que aceitar o infinito para evitar o choque das estrelas, os mecânicos quânticos se vêem obrigados a criar uma gravidade repulsiva para evitar que a gravidade, agindo sozinha, leve tudo ao colapso. Além disso, se a energia for sempre positiva, como a soma total da energia existente no universo pode ser igual a zero? A saída tem sido dizer que, na expansão inflacionária, a densidade de energia do estado super-resfriado permanece constante, enquanto o universo se expande. Quando ele dobrar de tamanho, a energia positiva e a energia gravitacional negativa dobrarão, de modo que a energia total permanecerá zero. Em outras palavras, admitem a existência de uma energia repulsiva, ou negativa, mas continuam afirmando a existência apenas de energia positiva. Em termos práticos, ao descrever o universo real, ao mesmo tempo progressivo e cheio de reversões, ordenado e caótico, criador e destrutivo, esfriando e re-aquecendo, de expansão e contração, muitos astrônomos, físicos e astrofísicos parecem concordar com o caminho dialético 269 Q Tomo01.pmd 269 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 sugerido por Engels. Quando eles tentam teorizar esse processo real, eles se enredam nas malhas da lógica formal ou da metafísica, e mal percebem as contradições que suas teorias engendram. O processo real de desenvolvimento histórico do universo parece ser contraditório e desigual. Na prática, esse modelo talvez seja aceito por uma gama considerável de cientistas, embora eles ainda estejam enredados naquelas contradições teóricas metafísicas. É lógico que a maioria deles talvez não tenha qualquer ideia de que as relações internas sejam a questão chave para a compreensão do movimento de qualquer coisa existente no universo. Por exemplo, a grande maioria dos homens de ciência concorda que os movimentos do Sol são devidos à ação mútua da sua gravidade e do calor gerado pela queima de seu hidrogênio e hélio. Apesar disso, são raros aqueles que aceitam a ideia de que o calor exerce uma ação de repulsão, contrária à ação de atração da gravidade. E que atração e repulsão existem sempre em conjunto, não como exclusão absoluta. São pólos de uma mesma unidade contraditória, responsáveis pelo equilíbrio relativo do movimento dos corpos celestes. Não é por acaso, assim, que Hawking vaga entre a ideia correta de um universo dinâmico e a suposição incorreta da predominância da gravidade, ao invés de admitir que o universo, predominantemente expansivo, comporta processos locais predominantemente atrativos, de contração e de choques cósmicos. Ou que perambule entre a ideia correta de que o universo atual teve um início, e terá um fim, sendo finito, e a idéia incorreta de que isso nega totalmente a infinidade da matéria e do tempo. Com isso, não consegue explicar que a matéria em movimento deu origem ao atual universo, através da própria transformação. E que o universo atual, ao findar, talvez dê origem a um outro tipo de universo. E que há, pois, um processo infinito, no qual ocorrem processos finitos ou delimitados, como parece ser o caso de nosso universo atual, do nosso sistema solar, da Terra e da espécie humana. Enredados nessas contradições, Hawking e vários outros físicos são levados a afirmar que, para a teoria clássica da gravidade, existem apenas dois comportamentos para o universo: que ele venha existindo por um Q 270 Tomo01.pmd 270 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR tempo infinito, ou que tenha tido começo em uma singularidade, em algum tempo no passado. A teoria quântica da gravidade apresentaria uma terceira possibilidade, ao utilizar espaços-tempo euclidianos. Nestes, a duração do tempo estaria na mesma trajetória que as direções do espaço, tornando possível que o espaço-tempo tenha extensão finita e, ainda assim, não apresente qualquer singularidade. O espaçotempo seria como a superfície da Terra, acrescida de mais duas dimensões. Esta superfície, finita em sua extensão, não teria qualquer limite ou margem. Se navegarmos na direção do pôr-do-sol, não cairemos da margem, nem mergulharemos numa singularidade. Não deixa de ser impressionante essa capacidade de reduzir tudo à mecânica. Simplesmente descarta-se o fato de que, hoje, a superfície da Terra é finita em extensão, mas daqui a 5 ou 10 bilhões de anos, suas dimensões mergulharão no turbilhão causado pela extinção do combustível solar e na possível transformação do Sol numa anã-branca ou num corpo estelar explosivo. Portando, a finitude do tempo da Terra a levará a uma singularidade, para usar esse termo tão caro a alguns físicos. Apesar disso, o universo pode continuar seu caminho, já que a matéria é infinita (o que pode não significar eterna). O atual universo, por seu turno, também pode cair numa singularidade, mais adiante, que lhe dê fim e, ao mesmo tempo, resulte em algum outro tipo de universo. A dificuldade de um enorme número de cientistas em entenderem essa relação espaço-tempo se repete na questão da história dos elétrons. Hoje se sabe que essas partículas estão presentes em todos os elementos químicos, embora tais elementos tenham propriedades diferentes uns dos outros. Os elétrons giram tanto em torno de si mesmos e num movimento circular em torno do núcleo atômico, criando campos magnéticos e eletricidade. Conforme Faraday descobriu, mesmo sem conhecer os elétrons, e alguns bilhões de anos depois dessas partículas haverem surgido na história do universo atual, os campos magnéticos criam campos elétricos e estes, por sua vez, criam campos magnéticos. Essa questão é importante na história de expansão do universo porque durante muito tempo se acreditou que os elétrons apenas possuíam carga elétrica negativa, o que tornava difícil entender sua capacidade de geração 271 Q Tomo01.pmd 271 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 multiplicada e seu papel na criação histórica de outras partículas, dos átomos e dos elementos químicos. Mesmo após a descoberta de elétrons de carga positiva, por Dirac, muitos físicos continuaram acreditando que o par elétron negativo-elétron positivo apenas se atrai intensamente e que, somente neste momento, ele pode aparentar ser uma única partícula. Eles chegaram a entender que, ao colidir entre si, ou com átomos e moléculas, o par elétron negativo-elétron positivo podia transformar-se um no outro e, mais do que isso, criar uma chuva de novas partículas, a exemplo do que acontece quando um próton emitido pelo Sol colide com moléculas de ar da atmosfera terrestre. E também sabem, em geral, que tais transformações também podem ocorrer espontaneamente. Um nêutron pode transformar-se num próton, num elétron e num anti-neutrino. Ou seja, do mesmo modo que um imã pode mudar sua polaridade, as partículas predominantemente negativas podem transformar-se em partículas predominantemente positivas. Apesar de tudo isso, muitos não admitem que, além da atração, a repulsão esteja sempre presente, levando a que uma partícula possa dividir-se em novas partículas de pólos opostos. O mesmo tipo de dificuldade ocorre na questão da simetria e assimetria do universo. Há físicos que não conseguem se conciliar com a ideia de que o universo foi simétrico nos primeiros momentos após o big bang, mas num universo em expansão não seria possível manter tal simetria, tendo em vista a necessidade de gerar um excesso de matéria através das interações entre as partículas elementares. Segundo eles, para violar a simetria seria preciso que as partículas produzissem mais quarks, de carga supostamente positiva, do que antiquarks, de carga supostamente negativa, de modo que o excesso de matéria fosse preservado à medida que o universo se expandisse. Além disso, seria necessário considerar a assimetria entre matéria e anti-matéria. Eles parecem não ter em conta que a noção de matéria é uma contradição entre o todo existente e o movimento, que se expressa nas contradições entre as diferentes formas materiais de existência. Toda forma de matéria movimenta-se pela ação-reação, atração-repulsão, de pólos opostos ou contrários. Tais pólos podem estar unificados e aparecer como uma partícula, átomo ou elemento único, e podem estar em divisão ou confliQ 272 Tomo01.pmd 272 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR to, aparecendo como par partícula e anti-partícula, ou como átomo positivo e negativo. Simetrias e assimetrias, do espaço e do tempo, da massa e da energia, da atração e da repulsão, da contração e da expansão, são características do processo de evolução do universo atual. A expansão cósmica, em aceleração ou não, coexiste com a contração localizada. A compreensão sobre essas características talvez só avance quando os cientistas se convencerem de que as partículas são divisíveis, do mesmo modo que os átomos, os elementos e tudo que existe na natureza. E que seu movimento, tanto nas formas mecânicas, quanto nas demais formas mais complexas, como energia e luz, resulta de suas contradições internas na relação com seu ambiente externo. Até agora, embora desconfiem que todas as partículas possuem um par anti-partícula, e que as partículas que chamam anti-matéria são produzidas durante as colisões, gerando raios cósmicos, esses físicos têm se visto compelidos a continuar procurando a anti-matéria do universo, do mesmo modo que os caçadores de fantasmas. Com isso, continuam acreditando que o universo só pode se expandir se houverem mais partículas de carga positiva do que negativa, e que essa seria a condição para violar as supostas condições simétricas do inicio do universo. Portanto, simplesmente continuarão descartando a realidade de que as condições assimétricas existem dentro de cada partícula, de cada átomo, de cada molécula e de cada elemento, juntamente com as condições simétricas, tanto em harmonia, quanto em desarmonia, tanto em unidade, quanto em oposição. E permanecerão descartando a ideia de que o processo de expansão do universo não é uniforme nem linear. O processo de resfriamento é desigual, formando agrupamentos densos de partículas, que levaram e ainda levam à formação de estrelas. Recentemente os astrônomos começaram a perceber que há novas galáxias em formação, que chamam de galáxias-bebês. São bilhões de estrelas, a distâncias de 12 bilhões de anos luz da Terra, que surgem de massas gasosas e absorvem e espalham a radiação que incide sobre elas, fazendo com que a poeira volte a se aquecer e a irradiar calor. Esse processo de elevação da temperatura e da gravidade, em contradição ou 273 Q Tomo01.pmd 273 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 assimetria em relação ao esfriamento e à expansão predominantes do universo, é visível na nebulosa de Orion, que parece ser um berçário de novas estrelas. Por outro lado, a suposição de alguns físicos de que a assimetria não causa transformação, não condiz com a realidade. Em geral, quando as simetrias são violadas, seja no mundo macroscópico, seja no mundo microscópico, ocorrem mudanças substanciais nos corpos. Muitas vezes, são mudanças de qualidade, produzidas pelo fato da assimetria haver chegado a um ponto de ruptura. Exemplos disso são os choques entre estrelas, o colapso e explosão das supernovas, o choque entre átomos, núcleos, elétrons, prótons e nêutrons, o decaimento de átomos e partículas, e as explosões nucleares. As assimetrias e os desequilíbrios, ou a quebra dialética na unidade dos contrários ou opostos, como dizem alguns filósofos, estão na origem das mudanças ou do tempo, com conseqüências profundas para a história do universo. Como vimos, a quebra da simetria pode ser causada tanto pela interação das partículas elementares da matéria, quanto pela interação de grandes corpos cósmicos. A assimetria é apenas um dos aspectos das contradições através das quais o universo age. O processo de formação de estrelas e galáxias, em regiões localizadas do universo em expansão, teve início em algum momento histórico após a grande explosão, à medida que o átomo e os isótopos de hidrogênio começaram a ser gerados pela fusão de núcleos e elétrons. O hidrogênio é o mais leve dos elementos químicos. Ele tem apenas um próton no núcleo, mas seu isótopo deutério se diferencia do hidrogênio normal por ter mais um nêutron e seu isótopo trítio por ter mais dois nêutrons. À distância, um átomo de hidrogênio parece ser uma estrutura única, sem carga elétrica. De perto, quando estudado a energias semelhantes à que liga o elétron ao próton, a história é diferente. Seu elétron gira em torno do núcleo, chocando-se com ele, dividindo-o e gerando hélio. Esse processo de transformação de hidrogênio em hélio numa estrela, fazendo-a brilhar, segundo Bethe, pode perdurar por cerca de 20 bilhões de anos antes do hidrogênio começar a se esgotar. Hoje se estima que algumas estrelas tenham mais de 15 bilhões de anos, o que pode colocar em dúvida o tempo estimado do universo. Q 274 Tomo01.pmd 274 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR Em 1957, William Fowler (1911-1995) e Fred Hoyle (1915-2001) expuseram que quando o hidrogênio começa a esgotar, a região central da estrela se contrai sob o próprio peso, elevando sua temperatura e produzindo uma série de reações, nas quais os átomos se fundem e formam os elementos mais pesados, até chegar ao ferro. Os elementos mais pesados do que o ferro, por sua vez, são obtidos pela adição posterior de prótons e nêutrons, disseminados pelo espaço exterior quando a estrela explode. Embora Fowler e Hoyle tenham partido da teoria do universo estacionário para explicar a transformação do hidrogênio e hélio nos elementos mais pesados, sua explicação se mostrou condizente com a teoria do big bang. Todos os demais elementos químicos até hoje encontrados no cosmo, inclusive aqueles que são fundamentais na química da vida, como o carbono, oxigênio e nitrogênio, foram formados posteriormente, tendo por base as reações de hidrogênio com nêutrons e prótons, no processo de choques e colapsos de estrelas, principalmente das estrelas gigantes. Esses elementos químicos mais pesados participam com apenas 1% na matéria visível. Portanto, a suposição de que todos os elementos químicos são encontrados facilmente em todo o universo não procede. Os elementos pesados não estão presentes em grande parte das estrelas. E o carbono só está presente nas estrelas que resultaram dos choques e explosões entre estrelas e do colapso de supernovas. Engels asseverava, com razão, que na esfera gasosa da nebulosa que levou à formação das estrelas, embora as partículas se apresentassem separadas, elas se desvaneciam sob a forma de matéria pura, não atuando por meio de suas propriedades específicas. No Sol, como nas demais estrelas, não haveria equilíbrio entre as diversas substâncias, mas somente da massa em seu conjunto. Haveria um equilíbrio restrito, determinado por grandes diferenças de densidade. Na superfície haveria movimento e inquietude constantes, num processo permanente de dissociação. As antenas que apontam para as mais diferentes regiões do cosmos detectam sempre pequenas flutuações, que apontam para uma temperatura próxima a 2,73 Kelvin, ou algo em torno de 273 graus Celsius negativos. Os físicos concluem, daí, que o universo é homogêneo. No entanto, 275 Q Tomo01.pmd 275 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 como pode ser homogêneo um universo que apresenta o surgimento simultâneo de novas galáxias, o colapso e a explosão de supernovas, a formação de novas estrelas e sistemas solares? Estamos diante de uma contradição entre a temperatura medida pelas antenas terrestres e o dinamismo dialético do universo. Gleiser reconhece que a radiação cósmica de fundo, extremamente homogênea em torno de 2,73 Kelvin, cria um paradoxo um tanto bizarro. As regiões extremas do universo não poderiam ter equilibrado sua temperatura média em apenas 13,8 bilhões de anos. Como a temperatura é resultante de velocidades moleculares, e estas não poderiam viajar a velocidades superiores à velocidade da luz, estaríamos diante de uma situação real em que as leis conhecidas da física parecem estar sendo violadas. Tal situação, conhecida como problema do horizonte, tem levado os físicos a tentarem resolvê-lo admitindo que a radiação de fundo é proveniente do período que vai do big bang até 400 mil anos depois. Nessa época histórica, a matéria seria apenas composta de partículas elementares e núcleos leves de isótopos de hidrogênio, e a geometria do universo seria plana, com a matéria distribuída de forma homogênea. Tomam por base a hipótese de que a matéria não pode viajar mais rápido do que a luz, mas nada impediria que o espaço se inflasse a uma velocidade maior. Ou seja, para resolver uma contradição, criaram outra ainda mais complicada. Retiraram do espaço a propriedade de ser uma forma de existência da matéria, e o transformaram em um outro algo qualquer. De novo, desconsideraram que espaço é massa, indissoluvelmente relacionada com o tempo. Brian Greene, por seu lado, considera que o tempo pararia quando se viajasse à velocidade da luz. Para ele, o esquema temporal, que nos seria familiar, e seu confronto com os fatos da física moderna, nos levariam a supor que o único lugar em que tal esquema temporal poderia existir deveria ser a mente humana. Portanto, o conceito de mudança não teria significado com respeito a um momento único do tempo. A mudança teria que ocorrer através do tempo. Ela marcaria a passagem do tempo. Mas, que noção do tempo seria essa? De acordo com ele, por definição, os momentos não incluiriam a passagem do tempo, pelo menos do tempo que conhecemos. Os momentos Q 276 Tomo01.pmd 276 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR simplesmente existiriam, como matéria prima do tempo, mas não mudariam. Um momento particular não poderia mudar no tempo, assim como uma localização particular não poderia mudar no espaço. Se a localização mudasse de lugar, seria outra localização. Se o momento mudasse, seria outro momento. Eis o funil em que Greene se meteu para dissociar espaço de tempo e justificar que o espaço poderia superar a velocidade da luz. Retomou o paradoxo de Zenão, aplicando-o à seta do tempo. Desconsiderou que cada momento consiste justamente numa mudança. A mudança não ocorre através do tempo, ela é o próprio tempo. Seus momentos correspondem aos pontos críticos de uma sucessão infinita de mudanças. Quando alguém nasce, este é o momento de rompimento com a situação anterior de feto e o início da infância do novo ser. As mudanças, ou a seta do tempo do novo ser, que vinham desde a fecundação do óvulo pelo espermatozóide, desdobraram-se em vários momentos de meioses e mitoses, até romper com o útero e conquistar a luz do dia e o oxigênio do ar. O velho Hegel, embora fosse idealista, já dizia, bem antes de Engels, Einstein e Greene, que a essência do movimento consiste em ser a unidade imediata do espaço e do tempo. Ao movimento corresponderiam o espaço e o tempo. A velocidade, o quantum de movimento, seria o espaço em relação a um determinado tempo transcorrido. Espaço e tempo estariam preenchidos de matéria. Da mesma forma que não haveria movimento sem matéria, não haveria matéria sem movimento. Se Greene fosse mais atento às contradições, poderia ter dito que sua hipótese rompia com a teoria de Einstein e supunha que a forma espacial da matéria poderia ter velocidade superior à da luz. Poderia, também, ter levantado a hipótese de que a luz tem uma duração finita de existência e que a radiação de fundo que os aparatos humanos estão captando são de períodos posteriores ao big bang. Caso fizesse isso, teria que admitir que nosso universo é mais velho do que os 13,8 ou os 14,5 bilhões de anos estimados até agora. Talvez, com isso, tivesse contribuído mais para se entender o processo de emergência do universo atual, deixando a mente humana sem a responsabilidade de impor a seta do tempo à realidade. 277 Q Tomo01.pmd 277 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Movimento e interação Na viagem ao início dos tempos, identificamos a relação entre todos os aspectos da realidade, do mundo microscópio, esse mundo infinitamente pequeno, ao mundo macroscópico, ou infinitamente grande. Ambos, assim como seus diferentes aspectos, estão intrinsecamente relacionados, ou interconectados. Qualquer leitura da realidade que foque isoladamente, o que quer que seja, também está fadada a ver apenas um aspecto parcial da realidade. E constatamos que a contradição, ou a existência de aspectos opostos em cada relação, embora esteja cada vez mais presente nas considerações práticas dos homens de ciência, seja como uma anti-qualquer-coisa, seja como uma entidade virtual, permanece sendo um tabu no pensamento científico. O que mantém inúmeros cientistas presos ao movimento estritamente mecânico, mesmo quando já se convenceram de que a matéria possui diferentes formas de movimento. O que os incapacita de vislumbrar ou entender as transformações que explodem à sua volta, a todo momento. Ou seja, vimos a dialética da natureza em toda parte, assim como as dificuldades que ela enfrenta para se fazer entendida. Isso é ainda mais relevante quando os problemas práticos da sobrevivência da humanidade impõem a necessidade de conhecer de modo mais preciso as leis que governam o universo, que têm influência nas leis que governam a evolução da Terra e dos seres vivos. A busca, por alguns, de uma lei única que governe todo o universo talvez seja um paradoxo se levarmos em conta que o processo de mudanças, ou transformações, deve ser uma lei geral (não a única), que pode levar a modificações na diversidade das leis hoje válidas. Diferentes estados, formas e energias da matéria em movimento devem comportar, portanto, tanto leis gerais, válidas para todas esses estados, formas e energias, quanto leis Q 278 Tomo01.pmd 278 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR particulares, válidas apenas para alguns estados, formas ou energias. Não é por acaso que as leis da relatividade, conforme explicadas por Einstein, não podem descartar a lei da gravidade, explicada por Newton. De qualquer modo, o conhecimento e as ciências continuarão se desenvolvendo e, em algum momento, como supõe Hawking, a velha ideia de um universo essencialmente imutável, que tenha sempre existido e continue a existir para sempre, será substituído pela noção de um universo dinâmico, que parece ter começado num tempo finito passado e que deve terminar num tempo finito futuro. Para ele, corretamente, o universo teve um começo e, possivelmente, terá um fim. Só não enxergou que isso ocorre num processo infinito da matéria em movimento. Para evitar esses enganos seria preciso retomar o conhecimento do método lógico-dialético e do método histórico. É por isso que, nos textos seguintes, pretendemos narrar uma volta ao futuro, na qual procuraremos combinar o método lógico-dialético com o método histórico-dialético na abordagem, tanto das ciências da natureza, quanto das ciências da sociedade humana. Isso parece ser ainda mais necessário porque estamos assistindo á emergência de uma nova camada de filósofos e historiadores, que se autoproclamam marxistas, mas talvez não o sejam. A preocupação principal deles consiste em mostrar onde Marx e Engels erraram, não onde acertaram. Eles parecem pretender recriar um marxismo sem Marx. Criticam noções marxistas sem sequer contextualizá-las. Não se importam em falsificar frases que permitam suas críticas. Nem se preocupam em citar parágrafos pela metade, principalmente quando isso comporta uma contradição insolúvel. Como eles possuem cobertura midiática, isso talvez nos obrigue a repetir Marx quando, diante de marxistas desse tipo, simplesmente disse que não era marxista. Essa situação talvez não ocorra por acaso. A recente expansão do modo de produção capitalista pelo planeta comprova que a análise lógico-dialética do capital, feita por Marx há cerca de 150 anos, estava correta em seus pressupostos principais. Marx e Engels se enganaram em diversas de suas previsões históricas. Porém, como disse Engels ironicamente, o mais impressionante é que acertaram em muitas outras. 279 Q Tomo01.pmd 279 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Mais do que isso, o método lógico-dialético de análise do capitalismo demonstrou uma força de lei tão significativa quanto a lei da evolução biológica. Nessas condições, já morto e enterrado diversas vezes, desde seu surgimento, o pensamento de Marx ressurge das cinzas, obrigando seus opositores a encontrarem novos meios de desacreditá-lo. A dificuldade deles reside em que praticamente todos os problemas criados pelo desenvolvimento capitalista, hoje aflorados fortemente na realidade dos povos, estão expostos em O Capital e outras obras correlatas. O capitalismo está fazendo com que as conexões entre os homens, entre estes e a natureza terrestre, e entre esta e a natureza universal, estejam sendo levadas, cada vez mais, à situação de tensão extrema prevista por aqueles autores. Portanto, talvez mais do que antes, seja necessário dominar o método lógico-dialético e o método histórico-dialético para analisar cientificamente os problemas que as diversas gerações humanas anteriores deixaram para as gerações do século 21 resolverem. O estágio alcançado pelo conhecimento humano e pelas ciências talvez nos permita dar esse salto para o futuro. Nesse sentido, o que podemos deduzir, mesmo sumariamente, da caminhada que fizemos ao início dos tempos atuais? Uma das primeiras deduções, e talvez das mais importantes, seja que tudo que nos cerca é matéria em movimento, matéria em mudança, matéria realizando história. Para chegar a afirmar isso com uma certa dose de certeza foi preciso que a humanidade acumulasse uma incrível massa de informações e observações empíricas e uma soma considerável de inventos técnicos, e despendesse uma quantidade inimaginável de raciocínio e debate filosófico e científico. No processo de embate entre várias escolas de pensamento, nas mais diversas épocas históricas da humanidade, podemos constatar como elas chegaram a situar espaço, tempo, movimento e matéria como aspectos comuns a tudo que existe, apesar de nem sempre em suas relações ou interações. Hoje se sabe que energia e informação também são comuns a tudo que existe, embora haja muita gente que estranhe que a informação esteja nessa lista, ou mesmo que energia e matéria sejam a mesma coisa, a primeira sendo uma forma de existência da segunda, e que tudo esteja em movimento. Q 280 Tomo01.pmd 280 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR É evidente que as pessoas sem formação científica olham um prédio e acham que ele está parado, inerte, em repouso, estacionário, ou outro termo qualquer que signifique imobilidade ou situação estática. Isso é ainda mais evidente se confrontarmos o prédio com os carros e as pessoas passando por sua frente, ou com a água da chuva escorrendo por suas calhas e pelas valetas. Como podemos considerar em movimento um prédio que está solidamente fincado ao solo? Como é possível considerá-lo senão em seu estado de repouso, ou de inércia? Não há como escapar desse aspecto da realidade. O prédio realmente está em estado de repouso ou inércia em relação ao terreno em que está fincado e em relação a outros objetos próximos em movimento. No entanto, se considerarmos o prédio e o terreno em que está situado em relação às demais placas continentais, ao Sol e aos planetas do sistema solar, podemos afirmar, sem medo de errar, que o prédio está se movimentando pelo menos de quatro maneiras diferentes. Vamos deixar de lado seu movimento oscilatório. Também não vamos considerar os movimentos que, como partes do sistema solar, ele e a Terra realizam em relação à galáxia a que pertencem, a Via Láctea, nem o movimento, ou movimentos, que realizam acompanhando essa galáxia no universo estelar. Vamos apenas considerar que o prédio segue o movimento descrito pela Terra em torno do Sol, isto é, o chamado movimento de translação. Depois, vamos levar em conta o movimento de rotação que a Terra realiza em torno de seu eixo imaginário, à velocidade de cerca de 1600 quilômetros por hora. Em terceiro lugar, o movimento de precessão, que as pontas do eixo imaginário da Terra, seus pólos geográficos, realizam como um pião, formando cones também imaginários no espaço. Finalmente, vamos considerar que o prédio está fincado sobre uma das placas da crosta terrestre, que se movimenta sobre o núcleo central do planeta. Todos esses movimentos são mecânicos. Não estamos considerando os movimentos físico-químicos e químicos, realizados internamente pelas substâncias que compõem suas estruturas, como as vigas de aço e concreto, os tijolos, rebocos, pinturas etc. Podem ser movimentos mais lentos e imperceptíveis. Mas também estão presentes, causando mudan281 Q Tomo01.pmd 281 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 ças paulatinas e, às vezes, drásticas, como é possível constatar quando prédios ruem fragorosamente. Ignorar os movimentos das diferentes formas da matéria, mesmo num prédio aparentemente sólido e estático, pode ser desastroso. O movimento mecânico da matéria está relacionado a todos os movimentos terrestres e celestes. O movimento das ondas do mar e das marés, dos rios, dos deslizamentos de terras, das quedas d’água e dos corpos; o movimento das placas tectônicas, dos terremotos e maremotos; os movimentos do ar, desde as brisas suaves às correntes de jato da alta atmosfera e aos tornados, furacões e tufões; o movimento dos carros, ônibus, trens, aviões, motores, barcos; o nosso movimento de andar, correr, fazer ginástica, sentar, levantar; o movimento de ação e reação entre os corpos; o movimento de rotação, translação e precessão dos planetas, do Sol, das estrelas e das galáxias; o movimento de expansão e contração das estrelas e galáxias; o movimento repulsivo e gravitacional dos corpos celestes. Esses movimentos são mensuráveis pelo espaço percorrido no tempo, e/ou pela massa do corpo que o realiza, ou ainda pela energia que a massa despende ao movimentar-se. Na vida prática, há inúmeros movimentos mecânicos que realizamos, sem nos importar com a velocidade com que o fazemos, ou com a extensão que completamos, embora haja sempre os que procuram medir seu peso para saber quanta massa perderam na esteira das academias de ginástica. Supor que giramos no espaço a 1600 km/h talvez não passe pelo pensamento da maioria. Mas nada impede que façamos tais medições, se forem necessárias, como ocorre nos testes de esforço físico. Por outro lado, há uma certa tendência de considerar o movimento mecânico como o mais importante, ou mesmo aquele que pode representar todos as formas de movimento da matéria. Não é por acaso que o movimento das partículas atômicas tem sido classificado como mecânica quântica, ao invés de estar relacionado ao movimento físico. O movimento não pode ser criado, ele pode somente ser transmitido. O movimento deve encontrar a sua própria medida no seu contrário, o repouso, o que não apresenta dificuldade alguma para o pensamento dialético. Mesmo porque não existe repouso absoluto, nem equilíbrio inQ 282 Tomo01.pmd 282 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR condicional. Por isso, a situação se complica quando começamos a falar que essa matéria, que não tem vida, nasceu em algum momento do passado e tem um período de existência, devendo morrer em algum momento do futuro. As pessoas até entendem que os modelos de carro mudaram com o tempo, ou que o tipo de aço hoje produzido é diferente do aço produzido pelos nossos antepassados. Mas entendem isso como resultado da ação humana durante seu tempo de existência, não como o processo de existência, ou vida, da matéria tida como inerte ou morta. Grande parte das pessoas ainda não sabe como a crosta da terra, ou sua geologia, se modificou durante bilhões de anos de existência, sem qualquer ação humana. Para a maioria das pessoas, as coisas se tornam ainda mais complexas quando os físicos discutem se o universo, as galáxias, as estrelas, os planetas e demais corpos celestes surgiram de um big bang, ou grande explosão, há cerca de 14,5 (ou 13,8) bilhões de anos. Ou que o universo é estacionário, ou dinâmico eterno, ou encerrado em um buraco negro. Ou, ainda, quando procuram nos convencer de que o tempo geológico é diferente do tempo na superfície da Terra, e que este tempo, por sua vez, é diferente do tempo no espaço estelar. Afinal, estamos sempre vendo as estrelas aparentemente na mesma posição no céu, na maioria das vezes sem pensar que aquilo que realmente estamos vendo pode ser apenas a luz chegante de um astro que já morreu. Muitos sequer sabem que as estrelas também morrem, embora não tenham vida. Ou que a Terra não se formou no momento da grande explosão originária. Ela, assim como o Sol em torno do qual gira, provavelmente surgiu do choque entre duas estrelas, ou da explosão de uma supernova. Assim, apesar da massa de informações científicas veiculadas pelas televisões e pela Internet, ou talvez por isso mesmo, ainda permanece uma considerável ignorância sobre a existência de estrelas de diferentes tipos e tamanhos, e sobre os corpos não estelares que eventualmente as acompanham. E também sobre o fato de que as estrelas são verdadeiras fornalhas queimando hidrogênio, hélio e outras partículas leves, fazendo parte de uma longa cadeia de eventos, mudanças e conexões desencadeadas pelo big bang. 283 Q Tomo01.pmd 283 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Este, como uma potente granada ao explodir, parece ter iniciado um processo de expansão, lançando bolas de fogo, estilhaços, gases e poeira, conformando o espaço universal no qual estamos inseridos. É certo que muitas dessas informações ainda são hipóteses. A qualquer momento elas podem ser colocadas em dúvida por alguma nova descoberta. No entanto, como dizia Engels, a hipótese foi a forma de desenvolvimento em que o pensamento se manifestou para fazer com que a ciência chegasse a explicar fatos como os descritos acima. Toda vez que, num mesmo grupo, se observa um fato novo, talvez seja impossível explicá-la pelo modo de explicação dos fatos anteriores desse grupo. Isto torna necessário um novo modo de explicação, ou uma nova hipótese ou novas hipóteses. A princípio, essas novas hipóteses estão limitadas apenas a um número restrito de fatos e observações. O material destinado às observações posteriores as aperfeiçoa, deixando de lado umas e corrigindo outras, até que finalmente se estabelece a lei científica. Isto tem sido razoavelmente aceito por grande parte dos homens de ciência. Porém, outra parte suspeita que a quantidade e as modificações das hipóteses, suplantando umas às outras, não nos permite conhecer a essência das coisas. Na melhor das hipóteses, os homens apenas conseguiriam conhecer os fenômenos, ou os resultados que nos afetem diretamente, sem conhecer suas causas ou sua natureza. Apesar dessa suspeita, as ciências naturais e históricas têm se desenvolvido através do deslocamento de umas teorias por outras, mesmo quando as novas teorias apenas aperfeiçoam as antigas. O que nos permite dizer que o conhecimento humano, em conjunto, desenvolve-se segundo uma curva espiral ascendente. É verdade que, às vezes, essa linha de desenvolvimento aparenta estar nivelada a um plano, a exemplo dos vários períodos históricos em que os conhecimentos pareceram até mesmo haver regredido, como vimos em relação ao feudalismo ocidental, e como veremos em relação a largos períodos da evolução dos hominídeos e do Homo sapiens. Por outro lado, nessa espiral ascendente, frequentemente temos que contar com fatores que não são perfeitamente conhecidos. Nesses momentos, a ciência tem avançado justamente quando os homens têm a auQ 284 Tomo01.pmd 284 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR dácia de deixar tais fatores de lado e formulam hipóteses, mesmo incompletas. Um exemplo foi a adoção, pelas ciências modernas, do princípio filosófico da conservação da energia, adotado preliminar e exclusivamente apenas em seu aspecto quantitativo. Mas esse passo, mesmo parcial e insuficiente, foi fundamental para que a conservação da energia fosse também apreciada em seu sentido qualitativo. O movimento da matéria não consiste apenas no movimento mecânico, na mudança de lugar. Ele é, ao mesmo tempo, calor e luz, tensão elétrica e magnética, associações e dissociações químicas, vida, fusões e fissões nucleares, e consciência. Portanto, é inconcebível supor a existência de um movimento que tenha perdido a capacidade de transformar-se nas demais formas que lhe são próprias. Como dizia Engels, não existe um movimento que possua potência, mas não apresente qualquer atividade. As diferentes formas e variedades de matéria só podem ser reconhecidas por meio do movimento. Somente através do movimento se manifestam as propriedades dos corpos. De um corpo que não se move, nada se pode dizer. Eis porque Engels afirmava que o termo energia não traduzia corretamente todas as relações de movimento, já que apenas considerava um aspecto do mesmo – a ação – mas não a reação. E, como já tivemos ocasião de observar, o termo ainda é apresentado como algo exterior à matéria, como algo que lhe tivesse sido enxertado. Apesar disso, Engels o preferia ao termo força. E reiterava que a lei da conservação da energia só era verdadeira se uma forma de movimento, ao ser em parte destruída, representasse a criação de outra forma de movimento. Quando um freio elimina o movimento mecânico das rodas de um carro, ele destrói o movimento mecânico das rodas, mas o transforma em calor. A energia química de um corpo animal não se transforma em calor antes de transformar-se na energia dos movimentos musculares. Assim, a insuficiência da hipótese da conservação apenas quantitativa da energia foi superada pela hipótese da conservação também qualitativa da energia. Esta estipulou a capacidade da transformação de uma quantidade de movimento da matéria em uma qualidade diferente de movimento. Eletricidade transforma-se em magnetismo e vice-versa. Qualquer 285 Q Tomo01.pmd 285 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 quantidade de massa, movimentando-se ao quadrado da velocidade da luz, transforma-se em energia, do mesmo modo que a energia pode transformar-se em massa. A interação de átomos de hidrogênio e átomos de oxigênio transforma-se em água, da mesma forma que esta pode dissociar-se naqueles elementos. A radiação atômica pode transformar um átomo de urânio 238 num átomo de chumbo 206. Já vimos em outra parte que uma quantidade de nêutrons, com qualidade determinada, disparada contra o núcleo de um átomo, também com qualidade determinada e diferente, causa a divisão do átomo, cujas metades se transformam em um ou mais nêutrons e núcleos, diferentes dos nêutrons e núcleos originais, e assim sucessivamente. Essa capacidade da matéria em movimento transformar continuamente quantidades em qualidades diferentes, e vice-versa, pode ser considerada uma das leis fundamentais da dialética da natureza, presente em todos os fenômenos. As diferentes formas de movimento se transformam em outras por interações quantitativas e qualitativas complexas, tanto através de combinações, composições e fusões, quanto através de decaimentos, fissões e choques. Foi levando em conta essas hipóteses, algumas delas ainda não havendo passado pelo teste da prática, como a radiação atômica e a explosão nuclear, que Engels deduziu, ainda no final do século 19, que havia uma série contínua de raios, desde os da radiotelefonia até os raios gama, nos quais uma certa mudança quantitativa no comprimento de onda deveria resultar em grandes mudanças qualitativas. Essas previsões só foram cientificamente confirmadas após sua morte. Ele também supôs que o surgimento da Terra, como planeta de um sistema estelar, situado na falda de uma nebulosa com bilhões de estrelas, teria ocorrido através do processo de colisão, cerca de 9 bilhões de anos após o big bang, pelos cálculos atualmente mais aproximados. É verdade que não levou em conta outra hipótese, também viável, surgida anos depois, relacionada ao colapso de supernovas. Como vimos, da mesma forma que o choque entre massas estelares, o colapso de estrelas gigantes produz novas estrelas menores e outros corpos que podem transformarQ 286 Tomo01.pmd 286 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR se em planetas e outros objetos astronômicos. Portanto, o nosso sistema solar e a nossa Terra podem ter emergido tanto do choque de estrelas, quanto do colapso de uma supernova. Pode-se dizer que o sumário descrito acima ainda nutre viva polêmica. Uma boa parte dos meios científicos concorda com suas linhas gerais, mas há várias outras hipóteses discordantes. As principais questões que dividem os cientistas dizem respeito ao big bang, ou grande explosão, e suas conseqüências. Como tivemos oportunidade de ver nos capítulos anteriores, alguns negam a possibilidade de se conhecer o tipo de matéria que produziu a pressão e a temperatura, ambas imensas, que geraram as condições para a grande explosão. E outros negam a possibilidade daquela explosão. Algumas outras hipóteses científicas admitem que o universo está em expansão, mas sustentam o predomínio absoluto da gravidade. Outras supõem que o período inicial do universo foi de expansão acelerada, reduzindo-se depois. E há as que afirmam que a expansão acelerada teve início bem depois, encontrando-se acelerada justamente agora, com as galáxias afastando-se rapidamente umas das outras. Em outras palavras, praticamente todas as questões que envolvem os cientistas no tratamento do universo em que vivemos dizem respeito a relações aparentemente inconciliáveis entre finito e infinito, gravidade e anti-gravidade, contração e expansão, atração e repulsão, inércia ou movimento. Para alguns, consiste uma verdadeira heresia supor que o finito pode estar contido no infinito, que gravidade e anti-gravidade, assim como atração e repulsão, estão sempre em ação conjunta, podendo transformarse uma em outra, e que o repouso ou a inércia, como dizia Gustav Kirchoff (1824-1887), seja apenas um momento particular do movimento. Talvez eles se esqueçam, ou ignorem, que o conhecimento humano tem se desenvolvido, em grande parte, por descobertas e afirmações heréticas. Copérnico, embora monge, esperou a morte para cometer uma heresia que, em sua época, seria imperdoável e sujeita à fogueira. Kepler e Galileu, cerca de cem anos depois, persistiram na heresia, e quase a pagaram com a vida. Giordano Bruno e outros não tiveram a sorte de permanecerem vivos ao romper com os dogmas religiosos. 287 Q Tomo01.pmd 287 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Os filósofos da antiguidade haviam intuído o mundo como algo material surgido do caos, o movimento e a contradição estando presentes em tudo. No entanto, até cerca de cem anos atrás a maior parte dos cientistas, inclusive Einstein, considerava que o universo era estático e eterno, não tendo mudado desde que se formara. O máximo admissível eram os movimentos mecânicos das estrelas e da superfície terrestre, evidentes demais para serem ignorados ou negados. A comprovação científica, nos anos 1920, de que as galáxias estavam se afastando umas das outras, numa velocidade considerável, deixou em estado de choque um número considerável de cientistas, embora isso não fosse novidade para Kant, Laplace, Herschel e Engels. E a teoria do big bang só surgiu no final dos anos 1940, mesmo assim marcada pelo medo do infinito, tido como propriedade privada da Providência Divina. Foi aí que começou a ficar em evidência a interação indissolúvel entre o mundo macroscópico das galáxias, estrelas, planetas e outros corpos estelares, e o mundo microscópico dos átomos e partículas. A interação, segundo Engels, exclui tudo quanto seja absolutamente primário, assim como o absolutamente secundário. Ela é um processo bilateral que, em relação à sua natureza, pode ser considerada sob dois diferentes pontos de vista. Para ser compreendida em seu conjunto, deve ser examinada sucessivamente sob esses dois pontos de vista, antes que se possa coordenar o resultado geral. Caso nos aferremos unilateralmente a um dos pontos de vista, considerando-o absoluto em relação ao outro, permaneceremos encerrados na unilateralidade do pensamento metafísico. Nos escapará a correlação de conjunto e nos deixaremos enredar numa contradição após outra. Desse modo, ainda segundo Engels, todos os processos naturais seriam bilaterais, fundando-se na relação entre pelo menos dois lados atuantes, a ação e a reação. O conceito de força pressupõe que um dos lados é ativo e o outro é passivo, o que pode ser admissível numa série de domínios, quando se trata da simples transmissão do movimento e de sua medição. Porém, nos processos mais complexos da física, da química e da biologia ele não bastaria, o que vem sendo demonstrado cada vez mais fortemente. Q 288 Tomo01.pmd 288 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR A refração da luz reside na luz e no corpo transparente. A adesão e a capilaridade residem na superfície sólida e no líquido. O calor é uma força repulsiva que atua em sentido contrário ao da gravidade, bem como da afinidade química. O calor faz com que a água, em oposição à gravidade, se evapore e se eleve em forma de vapor. O calor de um cano incandescente faz com que se anule a atração entre o hidrogênio e o oxigênio. Em conseqüência do atrito ou fricção, desaparece o movimento mecânico, que reaparece como calor. Foi medindo esse processo que Proust, Joule e Ludwig Colding (1825-1888) determinaram experimentalmente o equivalente mecânico do calor. Embora as partículas ainda não houvessem sido descobertas, Engels não titubeou em afirmar que a repulsão era tanto maior na matéria mais sutilmente dividida. Ele citava como exemplo, então, a cauda dos cometas, onde a repulsão atua com força extraordinária, tornando a atração secundária em relação a ela. Quando os cientistas começaram a descobrir a existência do elétron e de outras partículas sub-atômicas, aquela hipótese de Engels também se mostrou em total correspondência com o mundo microscópico. Apesar disso, Engels concordava com o fato de que um sistema solar só poderia ser constituído através da preponderância gradual da atração sobre a repulsão originalmente existente. Tal constatação não o levava, porém, a aceitar que boa parte dos homens de ciência se negasse a reconhecer a existência da repulsão, e continuasse mantendo-se irredutível na suposição, tanto do predomínio universal da gravidade, quanto da indivisibilidade dos átomos. A suposição daquela indivisibilidade parecia resistir a tudo. Isto, embora há muito Hegel tivesse intuído que a contradição e sua unidade e divisão seriam a causa do movimento da matéria. Ou que Thomson, Rutheford e outros cientistas estivessem realizando experiências que demonstravam a presença incontestável da divisão atômica. E que Mendeleiev houvesse organizado sua tabela tendo por base a suposição da mudança de uns átomos em outros. Essas dificuldades no entendimento da matéria em movimento, em formas variadas e em interação, talvez estejam na raiz da resistência em 289 Q Tomo01.pmd 289 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 considerar que a história humana faz parte da história terrestre, que por sua vez é parte da história do sistema solar, esta um componente da história da Via Látea, que faz parte da história do universo. Em outras palavras, poucos concordam que tenhamos diversas histórias singulares, contendo inúmeras outras histórias singulares, todas fazendo parte da história da matéria em movimento. Mesmo porque também ainda não há consenso de que tempo, mudança e história sejam conceitos idênticos. Apesar disso, o tempo só parece existir porque existe mudança. Há indícios de que são as longas cadeias de mudanças, interconectadas e interdependentes, nos diversos campos ou agregados da realidade universal, sejam as sociedades, seres vivos, corpos geológicos, corpos planetários, corpos estelares, compostos químicos, moléculas, átomos ou partículas, que nos permitem comprovar a existência do tempo e, também, da história como uma sucessão não linear de mudanças. Os humanos convencionaram medir seu tempo de vida, assim como dos demais seres vivos, primeiro tomando como base as mudanças de luz e escuridão, e as mudanças nas formas da Lua. Foi preciso um longo processo de tentativa, erro e acumulação de conhecimentos, para chegar aos conceitos atuais de dia de 24 horas, semanas de sete dias, meses de quatro semanas, que variam de 28 a 31 dias, e anos de 12 meses, com 365 dias e algumas horas, embora se reconheça que essas medidas não são exatas. Mas elas são úteis para contar nossa idade e a dos seres vivos à nossa volta. Em outras palavras, a história já está presente mesmo na contagem dessas mudanças simplesmente mecânicas. Por outro lado, se sairmos da gravidade terrestre e, mais ainda, da gravidade planetária solar, vamos nos confrontar com outras referências e relações temporais. Vamos nos confrontar com a medida ano/luz, que tem por base a velocidade de 300 mil km por segundo. É difícil saber se, algum dia, alcançaremos algum planeta distante 500 anos/luz da Terra, e como vamos medir nossa idade nessa viagem. A teoria afirma que um gêmeo, numa viagem desse tipo, retornará mais jovem do que seu irmão, que permaneceu na Terra, ou que provavelmente não o encontre mais, porque morreu de velhice há bastante tempo. Q 290 Tomo01.pmd 290 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR Não por acaso Henri Poincaré (1828-1892) escreveu que não havia tempo absoluto. E Edward Lorenz (1917-2008) introduziu a diferença entre o tempo universal e o tempo local. E a suposição de tempos iguais não teria qualquer significado. Einstein se aproveitou desses avanças teóricos a respeito do tempo para formular suas leis da relatividade, nas quais espaço e tempo estão unificados. Isso tudo serve para nos alertar de que medidas usadas no espaço terrestre têm pouca serventia fora dele. Não é sem razão que aqueles físicos que supõem liquidadas as leis de Newton pelas teorias de Einstein, não se jogam de avião sem usar paraquedas. As leis de Newton continuam sendo válidas para o espaço terrestre, enquanto as teorias de Einstein podem ser apropriadas para alguns aspectos do espaço-tempo solar. Engels nos lembra que no interior da órbita da vida os saltos tornamse cada vez mais raros e imperceptíveis. Já as mudanças nos seres vivos individuais, que nos humanos incluem nascimento, infância, puberdade, juventude, maturidade,velhice e morte, se contam em semanas, meses, anos e dezenas de anos. No caso de algumas bactérias e algas, há as que permanecem na Terra por bilhões e milhões de anos. No caso dos espécimes vegetais, há alguns que chegam a alguns milhares de anos, como as sequóias. Em alguns outros poucos casos de animais, como as tartarugas, pode-se contar em centenas de anos. Entre os outros animais, apenas os deuses, os matusaléns bíblicos e os monstros mitológicos alcançam longevidade de centenas ou milhares de anos. Tempo e mudança parecem ser, assim, aspectos que se confundem, constituindo elementos fundamentais da história. Espaço, matéria, movimento, massa, força e energia, são outros aspectos que sempre aparecem quando tratamos do tempo, da mudança e da história. No entanto, essas noções nem sempre aparecem como uma explicação da ação da própria natureza. Por exemplo, alguns físicos não se dão conta de que invertem as coisas quando afirmam que uma das conseqüências da teoria da relatividade é a relação entre massa e energia. Na verdade, a relação entre massa e energia é uma ação da natureza, independentemente da explicação ou da ação humana. Os homens conseguem explicar essa ação natural através da teoria da relatividade, permi291 Q Tomo01.pmd 291 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 tindo-lhes utilizar esse conhecimento para nosso benefício, ou nossa destruição. Esse exemplo, assim como muitos outros do mesmo tipo, não são apenas uma questão semântica. Dizem respeito a como muitos homens de ciência vêem invertida a realidade universal e terrestre, com tempo, mudança, história, espaço, matéria, movimento, massa, força e energia. Não se apercebem que essa realidade ocorre independentemente de nosso conhecimento, nossas teorias e nossa vontade. Engels afirmava que toda a natureza que nos é acessível constitui um sistema, um conjunto de corpos, que tem existência material, desde a estrela ao átomo. Na época em que ele escreveu o rascunho de A Dialética da Natureza, a existência de partículas sub-atômicas ainda não havia sido comprovada. De qualquer modo, ele considerava que todos esses corpos, tanto macros, quanto micros, atuavam uns sobre os outros, exercendo uma ação que resultava justamente no movimento. Para ele, seria inconcebível conceber matéria sem movimento. Este reconhecimento havia sido uma aquisição da filosofia muito antes de adquirir valor efetivo para as ciências naturais. Por isso, ele reiterava que o postulado de Descartes, segundo o qual a quantidade de movimento existente no universo seria sempre a mesma, podia ser considerado errado apenas quando aplicado como uma expressão finita a uma grandeza infinita. Por outro lado, ele se espantava de que as ciências naturais ainda aplicassem, em 1876, duas maneiras distintas de expressar uma mesma lei. A lei da conservação da força e a lei da conservação da energia traduziam o mesmo aspecto da relação, mas uma seria o contrário da outra. Quando dois corpos atuam um sobre o outro, tendo como resultado a mudança de lugar de um, ou de ambos, essa troca de lugar só pode consistir na aproximação ou no afastamento. Ou ambos se atraem, ou ambos se repelem. Na mecânica, as forças que atuam entre dois corpos são centrais. Isto é, agem na direção da linha de união de seus respectivos centros. A ação central e a invariabilidade da quantidade de movimento se condicionam reciprocamente. As formas fundamentais de todos os movimentos são, portanto, a aproximação e o afastamento, a contração e a expansão. Em suma, a velha oposição polar dialética conhecida como atração e repulsão. Q 292 Tomo01.pmd 292 11/28/2013, 11:47 PM WLADIMIR POMAR Atração e repulsão não deveriam, então, ser concebidas como pretensas forças, mas como formas elementares de movimento. Todo movimento consistiria num jogo de intercâmbio entre atração e repulsão. Todas as oposições polares seriam condicionadas pelo jogo alternante de um pólo oposto sobre o outro. A separação e a oposição de ambos os pólos só existiria dentro de sua correspondência e união e, inversamente, por sua oposição. Por outro lado, em todos os processos em que uma forma de movimento é transformada em outra, há uma realização de trabalho, correspondente à própria quantidade de movimento. Na fricção e no choque inelástico, o movimento mecânico é destruído ao ser transformado em calor. A energia mecânica potencial não pode jamais gerar calor ou eletricidade, a menos que se transforme em movimento mecânico efetivo. Este, através do atrito, converte-se em formas de movimento qualitativamente diferentes, como calor e eletricidade. Estes, por sua vez, fazem com que o movimento da massa do corpo se transforme em movimento molecular. Em outras palavras, o atrito da massa de um corpo em movimento mecânico, objeto da ciência mecânica, faz com que a massa se transforme dialeticamente em movimento molecular, objeto da ciência física. Um dos problemas, surgido com a presença humana na história da natureza, consiste no fato de que os homens podem produzir movimentos cujas formas não ocorrem naturalmente, a exemplo da indústria. A esses movimentos artificiais, embora tendo por suporte os movimentos naturais, podemos dar uma direção e uma extensão predeterminadas. Dessa maneira, como observou Engels, em virtude das atividades dos seres humanos, estabeleceu-se a noção de causalidade. Isto é, a noção de que um movimento é causa de outro, embora isto não demonstre nada além do fato de que a atividade humana constitui a prova da causalidade. Os homens podem demonstrar que o calor é proveniente do Sol ao focarem os raios solares através de uma lente. Por ações anteriores, podem saber de antemão que uma ação pode produzir um determinado efeito. O desvio dessa regra, por outro lado, demonstra justamente a causalidade, ao invés de refutá-la, porque através dela se pode encontrar as causas do próprio desvio. 293 Q Tomo01.pmd 293 11/28/2013, 11:47 PM A DIALÉTICA DA HISTÓRIA Q TOMO 1 Portanto, compreender como agem a natureza terrestre e a natureza universal, em seus múltiplos e diferentes aspectos, e como se relacionam, é fundamental para resolvermos satisfatoriamente a relação entre as sociedades humanas e a natureza circundante. Supor que na natureza tudo é plano e simétrico, seja no cosmos e no sistema planetário, seja na química, na física e na biologia do mundo terrestre, é o mesmo que um míope olhando um bosque sem o auxílio de suas lentes. Como afirma corretamente Gleiser, a simetria é limitada. Toda transformação resulta de alguma forma de desequilíbrio, ou de assimetrias. Ele só não se deu conta de que tais desequilíbrios e assimetrias têm sua raiz nos movimentos opostos das contradições. É isto que vamos tentar estudar numa volta ao futuro, começando pelo brotamento da vida. Q 294 Tomo01.pmd 294 11/28/2013, 11:47 PM