«Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28 VIVER EM LISBOA NO TEMPO DO MARQUÊS DE POMBAL: UMA BREVE PANORÂMICA – Vanda Anastácio A vida de Sebastião José de Carvalho e Melo, nascido em 1699 e falecido em 1782 acompanha grande parte do século XVIII, mas a sua actuação pública como estadista foi de duração bem mais curta. De facto, pode dizer-se que a sua presença no aparelho administrativo do Estado português terá sido visível a partir de 1738, data da sua nomeação (a 2 de Outubro) como Ministro Plenipotenciário na Corte de Londres. Regressando a Portugal em 1743, Sebastião José pouco tempo permanecerá em Lisboa, pois voltará a ser enviado, de novo como Ministro Plenipotenciário, à corte de Viena de Áustria. O seu segundo casamento com D. Maria Leonor Ernestina Daun, filha do Conde de Daun, realizou-se durante este período e contribuiu para aproximar o futuro ministro da alta aristocracia portuguesa, mas constituiu apenas um elemento relevante, entre muitos outros, na sua trajectória1. Em 1749, quando D. João V adoeceu gravemente, Carvalho e Melo foi chamado a integrar o governo da regência. Um ano depois, quando o mesmo monarca morre e seu filho D. José sobe ao poder, o futuro Marquês de Pombal é nomeado Secretário dos Negócios Estrangeiros. À laia de introdução à breve evocação da vivência que poderão ter tido os habitantes da cidade de Lisboa durante o «período pombalino» que procuraremos traçar em seguida, gostaríamos de sublinhar que a associação entre Lisboa e o estadista que permaneceu até hoje na memória colectiva é, em grande medida, o resultado da construção da imagem institucional de Sebastião José, levada a cabo pelo próprio ao longo dos últimos 22 anos em que exerceu cargos ministeriais. Neste sentido, o quadro que encomendou em 1766 a Louis Michel Van Loo (1701-1777) e que pertence hoje á Câmara Municipal de Oeiras, documenta, sem dúvida, o modo como o estadista gostaria de ser recordado: sentado num cadeirão (como num trono), a sua figura destaca-se sobre um fundo no qual se vê o porto de Lisboa, navios comerciais, o mosteiro dos Jerónimos e os estaleiros do novo porto em construção. À sua frente e a seus pés, também em primeiro plano, estendem-se os planos da reconstrução da cidade; por detrás de Pombal, elevada sobre uma mesa à direita do espectador, a maquette da estátua equestre de D. 1 Utilizamos aqui o conceito de “trajectória” tal como foi descrito por Pierre Bourdieu, «L’illusion biographique» in Raisons pratique: essais sur la théorie de l’action, Paris, Seuil, 1994, pp. Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio José I, inaugurada em 1775. O efeito cénico da disposição destes elementos é sublinhado pelo cortinado de seda vermelha, recolhido para um lado: no palco a que o retrato implicitamente alude, Sebastião José de Carvalho e Melo apresenta-se como o iniciador de uma nova era, indicando, num gesto largo, os projectos de que se orgulhava. O retrato representa-o como o reconstrutor da cidade destruída e o mais fiel vassalo de D. José I, capaz de homenagear, em pedra e bronze, o soberano que o engrandeceu. Nessa tela, Lisboa surge em pano de fundo e também aos pés do estadista, simbolicamente identificada, através da alusão à estátua equestre, simultaneamente como pedestal e como centro do poder régio. De facto, a ascensão política de Carvalho e Melo está associada, em grande medida, a Lisboa, ou por outras palavras, ao terramoto do 1º de Novembro de 1755. Perante a desorientação geral, o ministro revelou então uma enorme capacidade de gestão da crise, legislando imediatamente sobre assuntos como os preços dos bens alimentares, questões logísticas, o combate à criminalidade, a reorganização civil, os projectos de reconstrução e obras públicas, etc. A possibilidade de utilização da catástrofe como ponto de partida não apenas para a construção de uma nova cidade, mas também para a instauração de uma nova ordem política e social, surge claramente explicada por Sebastião José, na leitura dos factos que levou a efeito no texto intitulado Discurso político sobre as vantagens que o reino de Portugal pode alcançar da sua desgraça por ocasião do memorável terramoto do 1º de Novembro de 1755 quando diz: Da mesma forma que as inundações são necessárias aos rios extravasados para os fazer correr no natural leito donde tinham saído, pode haver casos onde, para restabelecer um Estado, é necessário que um Estado seja em parte aniquilado, e que o seja por algum acontecimento extraordinário2. Do ponto de vista do futuro Marquês, o terramoto foi, sem dúvida, o «acontecimento extraordinário» que, ao aniquilar «parte» do Estado, permitiu o restabelecimento deste, em moldes diferentes. Em parte como reconhecimento das capacidades evidenciadas no momento da catástrofe, em 1756 Carvalho e Melo é transferido da Secretaria dos Negócios 2 Citamos a partir da transcrição de Lília Schwarcz, A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis: do terramoto de Lisboa à independência do Brasil, São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 96 Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio Estrangeiros e da Guerra para a Secretaria dos Negócios do Reino, um cargo equivalente ao de Primeiro Ministro. O desconforto que a sua proximidade junto do soberano suscitou nos círculos da corte manifestou-se na tentativa, datável destes anos, de denegrir Carvalho e Melo aos olhos de D. José3. Afastados os seus opositores mais directos, a partir de 1756, irão suceder-se as propostas de reforma encabeçadas por Sebastião José dirigidas a áreas fulcrais da sociedade portuguesa, com destaque para as medidas destinadas a incentivar o comércio e a fomentar a produção industrial, tomadas em paralelo com tentativas de reforma educacional, intelectual e moral da sociedade. Quando, a 3 de Setembro de 1758, o rei D. José sofre um atentado, Sebastião José saberá gerir uma vez mais, em seu proveito e no do monarca, esta nova crise. Em Janeiro de 1759 grande parte dos membros da família Távora, o Duque de Aveiro e o Conde de Atouguia seriam acusados do crime, supliciados e executados publicamente. Essa demonstração de força na forma como foi punido o crime de lesa-majestade surge documentada em numerosas representações visuais (gravuras impressas, desenhos, etc.) difundidas no interior e no exterior do espaço luso-brasileiro, no que se assemelhou a uma verdadeira acção de propaganda destinada ao reforço da imagem da coroa portuguesa como poder absoluto e inabalável. O ambiente de perseguição e o clima de caça às bruxas parecem ter imperado ao longo do ano de 1759. A 6 de Junho do mesmo ano D. José concede a Carvalho e Melo o título de Conde de Oeiras, que foi lido como um sinal de apreço e de aprovação das acções levadas a cabo. No mês seguinte, assiste-se à expulsão dos jesuítas do Brasil, e a 3 de Setembro é promulgada uma carta de lei decretando a «proscrição, desnaturalização e expulsão dos jesuítas» dos domínios portugueses4. Ainda no mesmo ano de 1759 é extinta a Universidade de Évora, que havia sido gerida até então pela Companhia de Jesus. O número de reformas postas em marcha depois de 1759 e a rapidez com que foram executadas é visível através da consulta de uma simples cronologia: entre 1759 e 1777 o Conde Oeiras promulgará, em média, uma reforma por ano e procurará reconfigurar, por via legislativa, a organização administrativa, económica e social da 3 Referimo-nos à conspiração dita de Martinho Velho Oldemberg, que levou ao afastamento do Ministro Diogo de Mendonça Corte-Real. 4 As expressões entre aspas são transcrições do Decreto de expulsão dos jesuítas de 1759. Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio sociedade portuguesa. Medidas de carácter económico e financeiro de longo alcance, como a criação do Erário Régio (1759), o estabelecimento de Companhias de Comércio ou o apoio à indústria, serão acompanhadas por outras, de impacto imediato sobre a vida das populações. Referimo-nos, por exemplo, à expulsão dos jesuítas, amplamente publicitada em textos e imagens difundidas por iniciativa do próprio Sebastião José de Carvalho e Melo (1759), bem como à reformulação do sistema de ensino anteriormente baseado na rede de colégios da Companhia de Jesus, numa reconfiguração que abarcou tanto os estudos ditos «menores», como a Universidade (diplomas de 1760, 1772). Falamos também da proibição das publicações periódicas (1761) e das alterações introduzidas no sistema da Censura colocada sob o controle directo do Estado através da criação da Real Mesa Censória (1768). Mas referimo-nos sobretudo àquelas disposições legais que legitimaram a interferência do Estado na organização da vida quotidiana dos cidadãos ou, nas palavras de Figueiredo Marcos, às «frequentes incursões legais no domínio de práticas costumeiras até então esquecidas pela lei5»: a abolição do princípio de sucessão dos filhos nos ofícios dos pais (1753 e 1770) a abolição da escravatura no território de Portugal Continental (1761), a abolição da distinção, velha de quase três séculos, entre cristãos novos e cristãos velhos (1773), a regulamentação da duração e manifestações de luto das viúvas (1772), a legitimação legal das uniões matrimoniais sem o consentimento paterno, o ataque ao «puritanismo» da alta aristocracia do reino (1768), ou a legitimação legal de actividades até então olhadas com desprezo pela sociedade portuguesa, como o comércio, (declarado «profissão nobre, necessária e proveitosa» em 1770), ou a profissão de actor (declarada «não infamante» em 1771). Esta incessante actividade legislativa de Carvalho e Melo só foi possível, evidentemente, graças ao apoio incondicional do Rei. Como o próprio ministro não cessou de afirmar durante o processo que lhe foi movido após o falecimento de D. José, todas as decisões tomadas durante estes anos mereceram a concordância deste último, um consentimento muito evidente, se nos lembrarmos da concessão, em 1769, do título de Marquês de Pombal (quando o ministro, recorde-se, tinha 71 anos). O apoio do monarca não teve, porém, continuidade para além da sua morte, em 24 de Fevereiro de 5 Rui Manuel de Figueiredo Marcos, A Legislação Pombalina. Alguns aspectos fundamentais, Coimbra, Impr. Universidade de Coimbra, 1990, p. 82 Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio 1777. Se, como recordou, Borges de Macedo, as críticas à actuação de Sebastião José acompanharam todo o seu governo, quando D. Maria subiu ao trono, o ambiente de tensão que se vivia na sociedade lisboeta era manifesto e as explosões de animosidade contra o Ministro bem evidentes6. É o que podemos deduzir do relato que o próprio escreveu dos últimos dias de vida de D. José, no qual afirma especificamente: […] inventaram e disseminaram contra Mim as mais falsas calumnias; ao fim de me denegrirem, e fazerem odioso ao mesmo Povo, que eu tanto tinha procurado beneficiar, e promover á prosperidade em que hoje se acha. E isto com o sucesso de se achar o meu Nome quazi geralmente aborrecido naquela multidão de gentes ilusas, e alimando-as da memoria, e do entendimento; para seguirem as vozes vagas, e sem princípio algum de verdade ou de razão, com que enganavam, e estão enganando7. Carvalho e Melo apresentou formalmente a sua demissão a D. Maria I em carta datada de 1 de Março de 1777, rapidamente aprovada por um decreto régio de 4 de Março do mesmo ano. Dois anos mais tarde, em 1779 foi-lhe movida uma acção judicial por abuso do poder, corrupção e fraude8. Na sequência deste julgamento, terminado só em 1781, Sebastião o José de Carvalho e Melo foi considerado culpado e condenado ao desterro, na sua quinta de Pombal, vindo a falecer no ano seguinte9. A associação entre Pombal e Lisboa, tal como o elevado número e longa duração de muitas das reformas de fundo empreendidas durante os anos em que exerceu cargos governativos, não deve fazer-nos esquecer por um lado, que, como ficou dito acima, a sua intervenção na sociedade portuguesa como estadista ao serviço de um monarca absoluto se resumiu a um período relativamente curto, de aproximadamente 28 anos (entre 1750 e 1777) mas, por outro lado, também não deve apagar um outro aspecto fundamental: o facto de as profundas alterações introduzidas durante o governo pombalino na sociedade portuguesa terem sido postas em marcha à custa do sacrifício de interesses estabelecidos e contra a vontade de alguns sectores da população, 6 Jorge Borges de Macedo, O Marquês de Pombal (1699-1782), Lisboa, Biblioteca Nacional, 1982. «Documento nº 1» in Rocha Martins, O Marques de Pombal Desterrado 1777-1782, Lisboa, Ed. Empresa Nacional de Publicidade, p. 302. Veja-se ainda, sobre este período, a biografia de Joaquim Veríssimo Serrão, O Marquês de Pombal: o Homem, o Diplomata e o Estadista, Lisboa, Oeiras e Pombal, CML, CMO e CMP, 1982. 8 «Documento nº 5» in Op.cit, pp. 304-305. 9 Joaquim Veríssimo Serrão e Rocha Martins, Op. cit. 7 Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio nomeadamente de grupos pertencentes às elites aristocrática e eclesiástica com ligações ultramarinas que lhes opuseram frequentemente resistência10. Do ponto de vista do quotidiano da cidade, o período pombalino correspondeu a uma época de descontinuidades, poderíamos mesmo dizer de ruptura com os costumes tradicionais dos seus habitantes. A Lisboa do tempo do Marquês de Pombal era, pelo menos durante os últimos 22 anos do seu exercício do cargo (entre 1755 e 1777), uma cidade destruída em processo de reconstrução. Como tem sido sublinhado pelos historiadores da arquitectura e do urbanismo, a reconstrução da Lisboa ainda que «pombalina» na concepção, foi lenta e não se concluiu antes das primeiras décadas do século XIX11. Os estudos recentes continuam a recordar que «À data do fim do consulado do Marquês de Pombal, em 1777, estava construída apenas 46% da área que foi objecto de levantamento.»12 Assim, tanto quanto podemos deduzir da documentação existente, durante décadas a população lisboeta – de todos os grupos sociais – viveu em barracas e em construções provisórias, por entre estaleiros de obras e ruínas. Apesar das céleres medidas tomadas por Sebastião José logo a seguir ao terramoto destinadas a assegurar o abastecimento da cidade e a estabilizar os preços dos bens essenciais, houve camadas da população que sofreram com alguma frequência os efeitos da escassez de água potável e de víveres. A promulgação de sucessivas determinações legais contra o contrabando parece indicar, também, para além da dificuldade do Estado em controlar o pagamento de impostos sobre determinados bens, a existência de um mercado negro difícil de controlar. O rasto de catástrofe e de destruição que o terramoto deixou atrás de si em Lisboa permitiu ao ministro proceder à reconfiguração do seu tecido social paralelamente à reorganização do espaço urbano. Esta reconfiguração foi acompanhada 10 José Subtil, «Memória e Poder: o terramoto de 1755», O Terramoto de 1755. Impactos históricos, Lisboa, Livros Horizonte, 2007, pp. 209-224. 11 Veja-se a afirmação de Maria Alexandre Lousada e Eduardo Brito Henriques, «Viver nos escombros: Lisboa durante a reconstrução», O Terramoto de 1755. Impactos históricos, Lisboa, Livros Horizonte, 2007, p. 195: «Lisboa foi, durante largos anos após o terramoto de 1755, uma cidade de barracas, ruínas, estaleiros e casas novas. No início do século XIX, quando a família real partiu para o Brasil, a cidade já se apresentava reconstruída em larga parte e habitantes e visitantes podiam admirar as novas ruas e os novos edifícios.» José Augusto França, A Reconstrução de Lisboa e a arquitectura pombalina, Lisboa, ICLP, 1981 e Idem e Pierre Francastel, Lisboa pombalina e o Iluminismo, 3ª edição revista, Venda Nova, Bertrand, 1983. 12 Maria Alexandre Lousada, Op. cit, p. 185. Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio de medidas espectaculares de grande visibilidade, destinadas a influenciar a opinião pública – a expulsão dos jesuítas, a execução dos Távoras, a prisão do Bispo de Coimbra, a queima em auto de fé do Padre Malagrida, etc. – as quais não podem ter deixado de causar impressão na população lisboeta. Mas este «reordenamento» não atingiu do mesmo modo todos os habitantes da cidade. Assim, Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal pode ter sido uma experiência altamente gratificante para aqueles que faziam parte dos grupos sociais que as reformas pombalinas promoveram: capitalistas como os irmãos Cruz Sobral, António José, Anselmo José, José Francisco e Joaquim Inácio (mais conhecidos como «os Cruzes»), a família Quintela, ou o próprio Jácome Ratton13; figuras de intelectuais iluminados como o Padre Pereira de Figueiredo, Frei Francisco José Freire (o Cândido Lusitano da Arcádia Lusitana) ou Frei Manuel do Cenáculo; magistrados e funcionários da administração do Estado dados às letras, como os árcades lisboetas Correia Garção, Reis Quita ou Esteves Negrão e os brasílicos Tomás António Gonzaga, Alvarenga Peixoto ou Basílio da Gama, não menos desejosos da protecção estatal. Pelo contrário, pode ter sido uma experiência traumática, no limite do imaginável, para os membros de algumas famílias da alta aristocracia que haviam gozado de um estatuto privilegiado até ao reinado anterior (como as Casas de Távora, Alorna, Aveiro, Vimieiro, etc.) e para os jesuítas que, transformados em bodes expiatórios a partir de 1758, foram perseguidos, executados ou feitos prisioneiros sem culpa formada durante quase duas décadas. Um olhar atento sobre o modo como Sebastião de Carvalho e Melo se relacionou com os homens de letras do seu tempo é também ilustrativo do tipo de estratégias de reconfiguração de grupos, de hábitos e de práticas que procurou desenvolver durante os anos em que esteve no poder. Por exemplo, Francisco José Freire, mais conhecido pelo pseudónimo de Cândido Lusitano, na dedicatória que lhe faz em 1759, naquela que é a 2ª impressão da sua Arte Poética, (a mesma que havia sido publicada em 1748 com dedicatória a D. Filippe de Barros de Almeida)14 apresenta o ministro como um académico, numa possível alusão à frequência das sessões da Real 13 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre as ocorrências do seu tempo, de Maio de 1747 a Setembro de 1810, [ed. fac-similada: Londres, Bryer, 1813], Lisboa, Fenda, 1992. 14 Francisco José Freire, «Dedicatória» in Arte Poetica ou regras da verdadeira poesia em geral e de todas as principaes, Lisboa, Francisco Luís Ameno, 1759 Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio Academia da História fundada em 1720, que em 1733 acolheu entre os seus membros o futuro Marquês de Pombal. Diz, com efeito: […] considero tão indispensável o offerecer a V. Excellencia esta Obra, que eu não conheço igual Personagem, a quem a podesse consagrar com huma propriedade mais despida de artificiosa lisonja. Aqui dirão muitos, que eu alludo à natural circunstancia de ter V. Excellencia nos seus annos florentes cultivado nas Academias a sciencia poética com merecimento tão distincto, que (se não for V. Excellencia) não haverá quem delle duvide. Ora, as academias portuguesas do século XVII e da primeira metade do século XVIII eram também grupos de opinião e de pressão associados a grandes famílias aristocráticas e ao rei, destinados a promover, para além de repertórios intelectuais, ideias e pontos de vista políticos15. O rei D. José e o seu ministro sabiam-no bem e patrocinaram, de modo mais ou menos claro, a Arcádia Lusitana, fundada em 1757, honrando os seus membros com a sua comparência nas sessões públicas que pontuaram alguns dos momentos-chave da trajectória do estadista: por ocasião da atribuição do título de Conde de Oeiras, na sessão destinada a celebrar o facto de D. José ter sobrevivido ao atentado de 1758, quando se comemorou da nomeação do Conde de Lippe como chefe máximo do Exército Português, na sessão destinada a festejar a inauguração da estátua equestre do monarca, etc. O mesmo empenho em proteger aqueles que colocavam a sua pena ao serviço do engrandecimento pessoal do Ministro e do Estado parece explicar a protecção dada pelo Conde de Oeiras a Basílio da Gama, nascido no Brasil e condenado por «jesuitismo» ao chegar a Lisboa em 1757. Gama parece ter sido absolvido graças à composição de um célebre epitalâmio dedicado ao casamento da filha de Sebastião José, centrado no elogio deste último e da sua política16. Essa protecção dada aos intelectuais dispostos a 15 Veja-se a este respeito, Maria Natália de Freitas de Almeida Ferreira, Certames poéticos Académicos realizados em Lisboa nos séculos XVII e XVIII, Dissertação de Mestrado policopiada, Lisboa, Universidade Nova, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 1992, Maria Margarida Toscano, Racionalidade comunicativa, espaço público. Dissertação de Mestrado policopiada, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 1994 e Nuno Saldanha, «A Arcádia RomanoLusitana e os círculos de poder na cultura setecentista (1721-1756)» Propaganda e Poder. Congresso Peninsular de História de Arte, Lisboa, Instituto de História de Arte, Cátedra de Estudos Galegos, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2001, pp. 365-382. 16 Basílio da Gama, Epithalamio da Ex,ma Senhora D. Maria Amália, Lisboa, na Off. de Joseph da Sylva Nazareth, 1769. Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio contribuir para a construção da imagem literária do monarca ou do próprio Pombal transparece, ainda na sugestão dada pelo Arcebispo de Lacedemónia, José Dantas Barbosa a D. Leonor de Almeida Portugal durante os anos de clausura em Chelas: se desejava obter alguma graça do Rei, deveria compor alguns versos em louvor do Primeiro Ministro17. Tal como acontece em qualquer sistema de Monarquia absoluta, a posição dos homens de letras na Lisboa pombalina era de uma enorme dependência em relação ao poder real. Se observarmos as suas trajectórias, facilmente verificaremos que, a grande maioria dos poetas e dramaturgos empenhados na renovação das letras, tão apregoada e patrocinada depois de 1755, era constituída por funcionários do Estado e por jovens licenciados que pretendiam seguir a carreira da magistratura, ou ainda por membros do clero pertencentes ou com aspirações a pertencer ao funcionalismo eclesiástico – ou seja, eram elementos pertencentes àqueles grupos sociais que a política de Sebastião José procurou aliciar para o serviço do Estado. No contexto das academias – muito dependentes do poder real – e dos círculos mais informais formados por adeptos da política pombalina (como os Cruzes, os Quintela, etc.) era extremamente difícil e também arriscado manifestar por escrito opiniões e pontos de vista que contradissessem a política régia, quer porque o mecenato induzia uma relação de fidelidade difícil de quebrar, quer porque a censura da produção textual esteve sempre em vigor durante todo o ministério pombalino: até 1768 mantevese o sistema tripartido de censura que se encontrava constituído desde o século XVI (Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, Ordinário e Desembargo do Paço) mas este sistema foi substituído, como ficou dito, em 1768, pela Real Mesa Censória. Não é menos verdade, porém, que nem todos os intelectuais e homens de letras integraram as academias ou pertenciam a círculos afectos ao Ministro e que, apesar de toda a vigilância, a circulação de obras proibidas e de textos manuscritos se revelou sempre extremamente difícil de controlar. Por um lado, paralelamente à legislação censória manteve-se o sistema de concessão de privilégios de isenção da aplicação da lei através da concessão de licenças para leitura e/ou posse de obras proibidas. Por outro 17 Arquivo Particular do Palácio Fronteira, Cartas de Alcipe a D. João de Almeida Portugal, cota: ALC PAI Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. Actas das Jornadas, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, 2009, pp. 17-28. @ Vanda Anastácio lado, e apesar do papel de relevo desempenhado nesta época pela imprensa, uma quantidade apreciável de textos, sobretudo poéticos, continuou a circular, antes e depois do terramoto, em ambientes privados e semi-privados sob a protecção das elites cultas e a ser transmitidos através de cópias manuscritas em ocasiões da vida social lisboeta: durante os outeiros conventuais, nas sessões das academias e nas «assembleias» que se popularizaram depois de 1755. É nos textos difundidos por esta via que encontramos a manifestação de opiniões contrárias à política pombalina. E são estes mesmos textos que documentam a existência de grupos de opositores a Pombal, sobretudo durante os anos 1770-1777. Assim, um olhar sobre a Lisboa desta época que se atenha ao número de reformas levadas a cabo por Pombal, ou às medidas de reconstrução tomadas depois do terramoto corre o risco de esquecer o outro lado dessas mesmas reformas: as fortes tensões que provocaram, as resistências que suscitaram e as divisões que vieram instaurar no seio de grupos sociais relativamente coesos no reinado anterior, como eram a alta aristocracia ou o clero. Essas tensões e resistências, que são quase invisíveis na documentação oficial, podem observar-se em fontes como as correspondências, as memórias, os relatos de viajantes e a poesia manuscrita que se difundia em determinados círculos. São estas fontes que permitem entender o clima de medo em que viveu uma parte da população, originária de todos os grupos sociais, durante os anos que se seguiram ao terramoto, bem como o fracasso de alguns dos projectos pombalinos primorosamente concebidos, como foi o caso do Colégio dos Nobres. É ainda tendo em conta estas mesmas fontes que podemos entender o atentado a Sebastião José ocorrido em 1775, as violentas explosões de agressividade anti-pombalina que surgem na poesia panfletária disseminada em manuscrito posteriormente a 177718 e o processo que lhe foi movido depois da mesma data. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS A.A. V.V., O Marquês de Pombal e a sua Época. O século XVIII e o Marquês de Pombal, Oeiras – Pombal, CMO e CMP, 2001. 18 Antonio Ferreira de Brito, Cantigas de Escárneo e maldizer do Marquês de Pombal, ou Crónica rimada da Viradeira, Porto, Assoc. Jornalistas e Homens de Letras do porto, 1990 e Claude Maffre, Poèmes antipombalins, col. “Etudes Portugaises” 2, Montpellier, Université Paul Valéry, 2006. Vanda Anastácio, «Viver em Lisboa no tempo do Marquês de Pombal: uma breve panorâmica» Teresa Leonor M. VALE (org.) A Cidade pombalina: História, Urbanismo e Arquitectura. Os 250 anos do Plano da Baixa. 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