Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR EM PÁGINAS POLICIAIS SOB O OLHAR DO ISD Janete Maria de Conto 1 Introdução O presente estudo faz parte da pesquisa de doutorado em andamento na área de Estudos Linguísticos, linha de pesquisa Linguagem e Interação, do Programa de PósGraduação em Letras (PPGL), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que busca investigar as representações sociais de gêneros culturais no que diz respeito à violência doméstica e familiar. Diante disso, o objetivo deste estudo está centrado na descrição e análise de notícias jornalísticas sobre a violência doméstica e familiar recorrentes nas páginas policiais, em uma seção denominada Plantão de Polícia, do Jornal Folha de São Borja. O jornal disponibiliza suas matérias em edições impressas, cuja circulação é local, e também em seu site – http://www.folhadesaoborja.com.br, o que amplia seu potencial de circulação. O Interacionismo Sociodiscursivo (ISD) fundamenta teórica e metodologicamente o gênero textual selecionado, na relação texto e contexto. Para Baltar (2006), pesquisador que segue a concepção do ISD, notícia é o gênero básico do jornalismo, no qual é relatado um fato relevante do cotidiano. Bronckart (2007), pesquisador que propõe o ISD como teoria e método de análise linguística, concebe a organização de um texto como um folhado textual, constituído por três camadas superpostas: infra-estrutura geral do texto, mecanismos de textualização e mecanismos enunciativos. Para desenvolver este estudo, foram selecionados 15 textos, publicados na seção Plantão de Polícia, do Jornal Folha de São Borja, no período de 24 de abril a 07 de agosto de 2010. O critério utilizado para a seleção dos textos diz respeito ao tema violência doméstica e familiar, sem necessariamente observar se a vítima ou denunciante era mulher ou homem. As 15 notícias que constituem o corpus deste estudo são transcrições resumidas de Boletins de Ocorrência (BOs), decorrentes de denúncias das vítimas contra seus agressores. Isso as caracteriza genuinamente como informações oriundas de fatos relatados, o que, por sua vez, as caracteriza pelo discurso narrativo. Assim, nas notícias policiais analisadas, ou notas informativas sobre o que ocorre nos plantões de polícia, foi possível verificar a ocorrência predominante de sequências narrativas e, em segundo plano, descritivas, que funcionam no gênero, como importante mecanismo de organização textual. As notícias evidenciam a incidência preponderante de denúncias de agressão e ameaça, realizadas por mulheres, por isso, em primeira instância, classificadas como agentes do agir. Entretanto, na nota informativa, as mulheres que realizam as denúncias passam a cumprir o papel de atores e o jornalista passa a ser o agente-produtor. A partir da evidência preponderante de denúncias realizadas por mulheres, constata-se na atualidade o histórico problema da violência contra a mulher praticada pelo homem com quem vive ou viveu. 1 Doutoranda em Estudos Linguísticos, linha de pesquisa Linguagem e Interação, do PPGL da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Docente do Instituto Federal Farroupilha (IFF), Campus São Borja, RS. E-mails: [email protected] / [email protected] 242 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Este trabalho foi organizado em sete partes, além da introdução e das considerações finais. Na primeira parte, apresentam-se algumas considerações sobre os gêneros discursivos para Bakhtin (1999; 2003). Na segunda parte, sintetiza -se o Interacionismo Sociodiscursivo de Bronckart (2007), o que remete à terceira parte, que trata do modelo de descrição dos gêneros textuais com base no ISD. A quarta parte diz respeito à definição e à classificação dos gêneros jornalísticos, sendo que a notícia jornalística é especificada na quinta parte. Na sexta parte, apresenta-se uma rápida revisão sobre a violência contra a mulher e sobre a Lei 11.340/06, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha. Na sétima parte, as notícias policiais selecionadas são analisadas e, por fim, apresentam-se as considerações finais deste trabalho. 1 Os gêneros para Bakhtin Para refletir sobre gêneros textuais, do discurso ou discursivos – dependendo da linha teórica que se segue, deve-se acatar o conceito básico de Bakhtin (2003, p.279): “os gêneros do discurso são tipos relativamente estáveis de enunciados elaborados por dadas esferas de utilização da língua”. Nessa proposta, consideram-se todos os enunciados orais ou escritos, que atendam a um propósito comunicativo, como gênero do discurso. Segundo Bakhtin (1999, p.31), a linguagem permeia toda a vida social e preenche nela um papel central na formação social, política e nos sistemas ideológicos. A linguagem, portanto, é de natureza sócio-ideológica, e tudo “que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo” e é, portanto, um signo. Por outro lado, a ideologia é um reflexo das estruturas sociais, pois entre linguagem e sociedade existem relações dinâmicas e complexas que se materializam nos gêneros do discurso. Os gêneros são os responsáveis pela comunicação humana, pois as pessoas não se comunicam por meio de orações ou palavras, mas sim por meio de gêneros. Assim, os gêneros são os responsáveis pela interação do indivíduo em sociedade, através de suas formações sociodiscursivas. 2 Os gêneros para Bronckart Bronckart (2007) propõe o ISD, inspirado na psicologia da linguagem, na proposição interacionista da ação de linguagem, pensamento e consciência de Vygotsky, na tese do agir no mundo de forma comunicativa de Habermas, na interação verbal de Bakhtin, nas formações discursivas de Foucault e na concepção de linguagem como produto da interação social e do uso de Wittgenstein. No ISD, Bronckart (2007) considera que a linguagem é uma característica da atividade social humana e que os indivíduos interagem no intuito de se comunicar, por meio de atividades e de ações de linguagem. As atividades de linguagem podem ser consideradas eventos discursivos (unidades sociológicas, coletivas) dentro de zonas de cooperação social determinadas, os lugares sociais ou os lugares das formações sociais discursivas, que são o princípio constitutivo das ações de linguagem (unidades psicológicas, individuais), imputadas aos usuários da língua e organizadas em torno de unidades verbais ou, de acordo com Bakhtin (2003), os gêneros do discurso. Bronckart (2007) utiliza o termo gênero associado a texto (gêneros textuais) e usa o termo tipo associado a discurso (tipos de discurso). Nessa perspectiva, toda produção linguística é uma ação social situada, levada a efeito por indivíduos singulares 243 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em formações sociais específicas. Assim, as únicas manifestações empiricamente observáveis das ações de linguagem humana são os textos e os discursos que se apresentam como forma de ação social. Diante disso, podem-se compreender os textos como produtos culturais e as produções textuais como representações da articulação de situações de ação com motivos e propósitos socialmente construídos e essas representações manifestam regularidades configuradas nos gêneros de textos vigentes nessa cultura. 3 Modelo de descrição de gêneros textuais proposto por Bronckart A partir da ideia de que os gêneros são textos sócio-historicamente construídos, Bronckart (2007) propõe que eles sejam analisados a partir de um modelo de descrição. Esse modelo considera, primeiramente, o contexto de produção, que é a representação de três mundos, o físico, o social e o subjetivo. Diante disso, o contexto de produção deve ser entendido como os fatores que determinam a forma como um texto é organizado. O primeiro plano desses fatores refere-se ao mundo físico, ou seja, o lugar físico da produção, o momento da produção, o emissor do texto oral ou escrito e o receptor do texto produzido. O segundo plano refere-se ao mundo social e ao subjetivo, isto é, o lugar social, a posição social do emissor, a posição social do receptor e o objetivo da interação (op. cit., p.93-94). O modelo de descrição de Bronckart (2007) considera, também, o texto propriamente dito, que é constituído de três camadas superpostas. A primeira é a infra estrutura geral do texto, a segunda é composta pelos mecanismos de textualização e a terceira pelos mecanismos enunciativos. A infra-estrutura é o plano mais geral do texto e é constituída pelos tipos de discurso, pelas articulações estabelecidas por esses tipos de discurso e eventuais sequências. Os tipos de discurso ou os diferentes segmentos apresentados pelo texto são os seguintes: i) discurso interativo, ii) discurso teórico, iii) relato interativo e iv) narração (op. cit., p.155-164). As sequências são os modos de planificação da linguagem: narrativa, descritiva, argumentativa, explicativa e dialogal, segundo a perspectiva de Adam (apud Bronckart, 2007, p.219). Os mecanismos de textualização, responsáveis pelo estabelecimento da coerência temática, subdividem-se em: i) conexão, ii) coesão nominal e iii) coesão verbal. E, por fim, os mecanismos enunciativos funcionam como delineadores dos posicionamentos enunciativos e tradutores das diversas avaliações contidas no texto. Para Bronckart (2007), os mecanismos enunciativos contribuem para a manutenção da coerência interativa do texto, elucidando as posições assumidas pelo produtor do texto, as vozes sociais ou institucionais expressas implícita ou explicitamente no texto, e as modalizações, que são as avaliações formuladas sobre aspectos do conteúdo temático. 4 Os gêneros jornalísticos Bonini (2005, p.65) denomina o jornal de hiper-gênero, pois “é um típico exemplar de suporte convencionado [...] uma vez que é um gênero constituído por vários outros”. Para esse pesquisador, os gêneros centrados somente na informação, como a notícia, por exemplo, não requerem assinatura de seu produtor. Nessa concepção, os gêneros do jornal, em um sentido geral, são denominados centrais e periféricos. Os gêneros centrais dividem-se em livres e presos, e estão 244 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul presentes no ambiente de produção do jornal, como reunião de pauta e entrevista. Os periféricos ocorrem no jornal propriamente dito, como anúncio, propaganda, aviso, horóscopo, receita, editorial de moda, entre outros. Os gêneros centrais livres autônomos são os que constituem unidades textuais independentes, como o artigo, a notícia, a reportagem, o comentário, a crítica. Neste estudo, o interesse recai sob o gênero notícia. 5 O gênero notícia As pessoas buscam informações para se manterem atualizadas. As notícias, por sua vez, possuem o papel social de informar, arraigadas no ser humano, dos indivíduos comuns às personalidades, do fato trivial ao espetaculoso. As notícias cumprem seu papel social de informar e são caracterizadas, portanto, pela função comunicativa. Por isso, as notícias veiculam “não só fatos importantes [...], mas também ocorrências banais” (Franceschini, 2004, p.148). Para Baltar (2006, p.103), notícia é um gênero básico do jornalismo. Geralmente, em seu texto é relatado um fato cotidiano, considerado relevante, mas sem opinião do agente-produtor. É caracteristicamente narrativo e, por isso, o que se prioriza na notícia é o fato. Esse tipo de discurso narrativo é marcado por sequências narrativas e descritivas. De acordo com a pesquisa realizada por Baltar (2006, p.137), os gêneros textuais nos jornais estão dispostos em dois grandes grupos, que são os informativos e os opinativos. Os gêneros informativos possuem as seguintes características: i) o repórter não se posiciona, ii) a informação possui necessariamente uma fonte, iii) não há identificadores de enunciador em primeira ou segunda pessoa, pois o que o autor pensa não importa e não deve transparecer, iv) a linguagem deve ser simples, sem uso de gírias, v) deixa o leitor tirar as próprias conclusões, vi) trata do fato puro, vii) normalmente, não é assinado. Os gêneros opinativos não serão descritos, pois não contribuirão para o desenvolvimento deste trabalho. A notícia possui subgêneros, como a nota informativa, a nota de serviços e a entrevista. A nota informativa se difere da notícia propriamente dita pela sua extensão textual. A nota de serviços traz informações de utilidade pública, como endereços e telefones de teatros, cinemas, órgãos públicos. A entrevista é caracterizada pela sua estrutura dialogal, com perguntas e respostas, antecedidas de um texto explicativo de abertura. O discurso é predominantemente interativo, com sequências dialogais e expositivas. Neste trabalho, o interesse recai sob a nota informativa. 6 A violência contra a mulher e a Lei Maria da Penha No decorrer da história da humanidade, propagou-se, social e culturalmente, a superioridade do homem e a consequente subordinação da mulher. Essa condição passiva da mulher e o abuso de poder dos homens aos quais elas estavam - e muitas ainda estão - submissas contribuem para a prática de violência contra o sexo feminino. Os movimentos feministas, iniciados no Brasil por volta de 1960, tornaram visíveis as agressões sofridas pelas mulheres, já que a luta para erradicar esse tipo de violência constitui-se em uma das bases de suas reivindicações. Como consequência dessa luta, foi instituída no país uma legislação específica para proteger as mulheres que sofrem agressão e para aplicar penas, consideradas mais severas que as previstas em leis anteriores, aos seus agressores. A Lei 11.340, mais 245 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul conhecida como Maria da Penha, foi elaborada a partir de uma ideologia pautada na igualdade de direitos, com o objetivo de proteger as mulheres que sofrem violência doméstica e familiar e punir os agressores. Essa lei tem o propósito de tutelar à mulher vítima de violência o amparo legal e condições sociais indispensáveis ao resgate à sua dignidade humana. Com a sanção dessa lei, foram criadas as Delegacias da Mulher, com atendimento voltado às mulheres que sofrem qualquer tipo de agressão. Entretanto, as denúncias ocorrem, também, na Delegacia Civil ou na Central de Polícia Judiciária. A Lei 11.340/06 fundamenta-se em normas e diretrizes consagradas na Constituição Federal, no artigo 226, parágrafo 8º, bem como atende as recomendações da convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a eliminação de todas as formas de violência contra a mulher. Como a lei maior garante igualdade de direitos e deveres a homens e mulheres, a Lei Maria da Penha tem sido utilizada para proteger homens agredidos ou ameaçados por suas esposas ou companheiras. Como inovação da lei, destaca-se a concessão de medidas protetivas de urgência à mulher que esteja em situação de risco, diante da gravidade dos atos a que é submetida por parte de seu agressor. Essas medidas protetivas estão regulamentadas no capítulo II da lei, no artigo 22, que esclarece que o juiz poderá aplicar, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência: suspensão da posse ou restrição do porte de armas; afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; proibição de determinadas condutas, entre as quais: aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando limite mínimo de distância entre estes e o agressor; contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores; além de outras medidas previstas sempre que a segurança da ofendida exigir. Caso reconheça a necessidade de uma medida mais severa e estando presentes os requisitos legais, a autoridade policial deverá representar pela prisão preventiva do agressor embasada no artigo 313, inciso IV do Código de Processo Penal. O descumprimento de medida protetiva de urgência deferida ensejará nova atuação da autoridade policial em decorrência da prática do delito de desobediência pelo agressor. Diante da incidência de violência contra a mulher, a mídia tem cumprido o seu papel, informando o leitor sobre esses casos. No suporte jornal escrito ou virtual, o tema é abordado em notícias, reportagens, editoriais, artigos de opinião, entre outros. Nos gêneros informativos, a violência doméstica e familiar possui uma grande recorrência, fomentada pelo fato de existir a legislação específica para tratar de casos desse tipo. 7 Análise das notícias Novas tecnologias dominam o mundo moderno e o acesso a informações por meio da internet se tornou um procedimento usual para a maioria das pessoas que querem e precisam estar atualizadas sobre o que acontece no mundo. Assim, empresas jornalísticas dispõem virtualmente, ao público em geral, os diversos gêneros jornalísticos que compõem edições impressas, com adequações, quando necessárias, à internet. Os 15 textos que compõem o corpus deste estudo foram investigados nos dois suportes do gênero e não foi possível constatar qualquer adaptação. O mesmo texto, em termos de organização e escolha lexical, elaborado para o jornal impresso Folha de São Borja – que possui duas edições semanais - foi disponibilizado on-line. As notícias recorrentes em páginas policiais caracterizam-se como notas informativas, devido à extensão dos textos, que são resumidos à essência da informação. 246 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul A linguagem é simples, objetiva e direta, marcada pelo discurso arquetípico do mundo do narrar. Os modos de organização, com vistas a formar uma unidade textual coesa e coerente, ocorrem por meio de sequências narrativas, em terceira pessoa do singular, e descritivas. Especificamente, essas notas informativas são publicadas em uma seção denominada Plantão de Polícia, em que são divulgados os BOs, oriundos de denúncias das mulheres que sofrem/sofreram agressão doméstica e familiar. Normalmente, a ofendida faz a denúncia na Delegacia da Mulher e a pessoa responsável por esse atendimento lavra um BO. Esse BO é caracterizado pelo discurso narrativo em terceira pessoa e é minucioso na narração do fato e na descrição dos envolvidos e do local onde o fato ocorreu. O jornalista responsável pela publicação da nota informativa na seção policial resume a narração e a descrição do fato, divulgando somente a essência do BO em, apenas, um parágrafo. Isso caracteriza a nota informativa como um intertexto, constituído pelos gêneros de textos elaborados por gerações precedentes, o que, por sua vez, constitui uma nebulosa de gêneros (Bronckart, 2007). Assim, conforme o Exemplo 1 (anexo: texto 13), pode-se verificar, na arquitetura textual, a maneira como é organizada a infra-estrutura geral de uma nota informativa, sendo que as demais seguem um padrão semelhante. Exemplo 1: (oração 1) Uma mulher de 28 anos foi agredida a socos e pontapés pelo seu companheiro, de 29 anos, no último domingo, por volta das 22 horas. (oração 2) A agressão ocorreu na residência do casal. (oração 3) Ela informou que (oração 4) o homem tem ciúmes dela. (oração 5) A mulher solicitou as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. De um modo geral, ao noticiar um BO, o jornalista situa o leitor sobre quem fez a denúncia (na maioria dos casos a mulher que sofreu a agressão), quem a agrediu (normalmente o marido ou companheiro), o que e como ocorreu, ou seja, o fato em si, e onde e quando correu a violência, isto é, a localização espaço-temporal. As locuções adjetivas em destaque: de 28 anos e de 29 anos são sequências descritivas. O restante do texto apresenta as características de narração, com dois segmentos encaixados de discurso indireto (orações 3, 4 e 5). Assim, é possível identificar o fato – a agressão; os atores ou personagens: a protagonista – a vítima, em 11 das 15 notas informativas, é mulher (anexo: texto 1, 2, 4, 5, 6, 8, 9, 10, 11, 13, 15); o vilão – o agressor, em 12 das 15 notas informativas, é homem (anexo: texto 1, 2, 4, 5, 6, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 15). O tempo – dia e hora em que o fato ocorreu não é recorrente em todas as notas informativas desse corpus. No caso do Exemplo 1, só é possível o leitor se situar no tempo pela data do jornal, portanto o último domingo, nesse caso, foi dia 1 ° de agosto, pois o jornal data de 07 de agosto de 2010. O local situa vagamente onde ocorreu o fato, pois o endereço não é divulgado. Os processos, em sua maioria, apresentam-se no pretérito perfeito. A inversão de papéis dos personagens ocorre em apenas três notas informativas (anexo: texto 3, 7, 14). Nesses casos, os homens são as vítimas e realizam as denúncias, enquanto as mulheres são as agressoras. O texto 12 diferencia-se dos demais, pois constitui a informação de prisão de um homem, baseada na Lei Maria da Penha. O agente-produtor nas atividades de linguagem que culminam no BO, em primeira instância, é a vítima que realiza a denúncia. Em segunda instância, o agenteprodutor passa a ser o responsável pela transcrição da denúncia em forma de BO, e, em terceira instância, na nota informativa, subgênero da notícia re-elaborada para a publicação, o agente-produtor é o jornalista. Os agentes-produtores em segunda e em 247 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul terceira instância agem linguisticamente centrados na atividade de linguagem realizada pelo agente-produtor em primeira instância. E a vítima, de agente-produtor na primeira instância, passa a agir nas outras instâncias como ator, especificamente como protagonista. Este estudo não se esgota aqui. Há muito a ser analisado nesse pequeno corpus e nesses pequenos textos, entretanto o que está posto possibilita uma visão geral do subgênero da notícia: nota informativa, sob a perspectiva do ISD. Assim, a identificação e classificação dos mecanismos de textualização e dos mecanismos enunciativos nos textos desse corpus, não contemplados neste estudo, deverão constituir a ampliação da análise, sanando questionamentos que ainda persistem. Considerações finais As notas informativas, subgênero da notícia, apresentam um relato objetivo e distante dos fatos, isento de qualquer avaliação pessoal ou julgamento por parte do jornalista. O simples fato de ser um resumo do BO, com a omissão de algumas sequências narrativas e descritivas, caracteriza a infra-estrutura textual específica para a seção do jornal em que é publicada. Para haver notícia em jornal impresso ou virtual, é preciso que, primeiro, haja uma informação de interesse do público leitor. As notas publicadas na seção Plantão de Polícia do Jornal Folha de São Borja possuem o objetivo de tornar públicas as denúncias ou ocorrências realizadas na Central de Polícia da cidade. Assim como as notícias informam, também interferem na vida social das pessoas. Portanto, o jornal, ao publicar a síntese dos BOs, cumpre o importante papel de divulgar a iniciativa de denunciar, tomada, principalmente, por mulheres que sofrem agressão ou ameaça no âmbito doméstico e familiar. Além de popularizar a Lei Maria da Penha, essas notas informativas estimulam outras vítimas a denunciarem e a requererem seus direitos de proteção sob a forma da lei e, com isso, reproduzem a realidade e podem transformar as desigualdades sociais. Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BAKHTIN, M. [VOLOCHINOV, V.N.]. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1999. BALTAR, M. Competência discursiva e gêneros textuais: uma experiência com o jornal em sala de aula. Caxias do Sul: Educs, 2006. BONINI, A. Os gêneros do jornal: questões de pesquisa e ensino. In: KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K.S. (Org.) Gêneros textuais: reflexões e ensino. Palmas e União da Vitória, Paraná: Kaygangue, 2005, p. 61-78. BRASIL. Lei Maria da Penha. Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para Assuntos Jurídicos. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm - Acesso em 19 de Abr. de 2009. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para Assuntos Jurídicos. 1988. 248 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul BRONCKART, J.P. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por um interacionismo sociodiscursivo. Tradução de Anna Raquel Machado e Péricles Cunha. São Paulo: EDUC, 2007. DA SILVA, A.F. Um estudo da realização de seqüência narrativa no gênero notícia. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Ceará, 2007. FERNANDES, A.S. Processo penal constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1999. p. 279. FRANCESCHINI, F. Notícia e reportagem: sutis diferenças. Comum, RJ, v. 9, n. 22, p.144-155, jan./jun. 2004. FOLHA DE SÃO BORJA. Plantão de Polícia. Disponível em: http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de julho e 20 de agosto de 2010. Folha de São Borja. Plantão de Polícia. Edições impressas n.3437, 3439, 3449, 3452, 3460, 3462, 3463, 3467. RIBEIRO, J. M. Levantamento de elementos ensináveis nos gêneros “notícia impressa” em língua materna (LM) e “notícia virtual” em língua estrangeira. Signum: Estudos da Linguagem, Londrina, n.8/2, p.109-125, dez. 2005. ANEXO I Texto 1: PLANTÃO DE POLÍCIA Ameaça Uma mulher de 51 anos comunicou na Central de Polícia Judiciária que na última quinta-feira, por volta das 19 horas, o seu companheiro, de 46 anos, com quem vive há 17 anos, embriagado, ameaçou de morte ela e seus filhos. Além disso, a mulher foi expulsa da casa. Ela pede as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3437, 24 de abril de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 2: PLANTÃO DE POLÍCIA Ameaça Uma mulher de 28 anos informou que ela e seus três filhos menores estão sendo ameaçados de morte por seu ex-companheiro, com quem viveu por 9 anos. Ela requer as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3439, 30 de abril de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 3: PLANTÃO DE POLÍCIA Perturbação Um homem de 23 anos comunicou no Plantão Centralizado da Polícia Civil que no dia 27 deste mês, por volta das 13 horas, foi perturbado pela sua ex-companheira. Ele informou que existe uma determinação da Justiça para ele não se aproximar da mulher, baseada na Lei Maria da Penha, e que ele está respeitando esta medida. (Folha de São Borja, edição 3439, 30 de abril de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 4: PLANTÃO DE POLÍCIA Ameaça Uma mulher de 68 anos comunicou na Central de Polícia Judiciária, em São Borja, na manhã desta sextafeira, dia 4, que há vários dias vem sendo ameaçada pelo seu companheiro de 75. Ela solicitou as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3449, 05 de junho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). 249 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Texto 5: PLANTÃO DE POLÍCIA Agressão Uma mulher foi agredida pelo seu ex-companheiro na última sexta-feira, dia 11, por volta das 21h30min. Ela informou que o homem invadiu sua casa e a agrediu, e ela precisou fugir dele. A vítima disse que ambos participaram de audiência no Fórum para marcar os dias de visitas para ele ver o filho. Ela solicitou as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3452, 16 de junho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 6: PLANTÃO DE POLÍCIA Ameaça Uma adolescente de 16 anos informou que foi ameaçada pelo seu ex-companheiro, de 22 anos, na última quinta-feira, por volta das 17h30min. Ele teria dito que a vítima deveria começar a „cavar a sua sepultura‟. A jovem informou que a Justiça determinou que o rapaz não poderia se aproximar dela. (Folha de São Borja, edição 3452, 16 de junho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 7: PLANTÃO DE POLÍCIA Documentos Um homem de 44 anos comunicou no Plantão Centralizado da Polícia Civil que há 4 meses sua companheira pegou os seus documentos pessoais e não quer devolver. Ele informou que no dia 13 deste mês a mulher mandou embora de casa o filho e o enteado dele. A vítima disse que saiu de casa para não discutir com a agressora. (Folha de São Borja, edição 3452, 16 de junho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 8: PLANTÃO DE POLÍCIA Ameaça I Uma mulher de 44 anos comunicou que no último sábado, o seu companheiro, de 39 anos, estava embriagado e agressivo. Ela informou que foi ameaçada e ofendida pelo homem. A vítima pede as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3460, 14 de julho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 9: PLANTÃO DE POLÍCIA Ameaça IV Uma adolescente de 14 anos estava na escola quando foi tirada de lá à força pelo seu ex-companheiro, de 24, com quem conviveu por 3 anos. O agressor ainda ameaçou a vítima. (Folha de São Borja, edição 3460, 14 de julho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 16 de jul. de 2010). Texto 10: PLANTÃO DE POLÍCIA Agressão II Uma mulher de 46 anos foi atrás de seu companheiro, na residência da mãe dele, para tentar reatar o relacionamento, quando ele lhe agrediu com socos e pontapés. O homem disse que não quer mais viver com ela. (Folha de São Borja, edição 3462, 21 de julho de 2010, p. 14. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 20 de ago. de 2010). Texto 11: PLANTÃO DE POLÍCIA Agressão Uma adolescente de 16 anos comunicou na Central de Polícia Judiciária que na última quarta-feira, por volta das 17h30min, estava trocando a fralda de sua filha quando acidentalmente, ao se virar, bateu com a mão no rosto do seu companheiro, de 21 anos. O homem não gostou e deu um tapa no rosto da jovem. Ela 250 Anais do SITED Seminário Internacional de Texto, Enunciação e Discurso Porto Alegre, RS, setembro de 2010 Núcleo de Estudos do Discurso Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul pede as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3463, 24 de julho de 2010, p. 22. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 20 de ago. de 2010). Texto 12: PLANTÃO DE POLÍCIA Prisão A Polícia Civil cumpriu na tarde da última terça-feira, na rua Andradas mandado de prisão preventiva decretada pela juíza Mônica Marques Giordani baseada na Lei Maria da Penha. Na ocasião, foi preso um jovem de 22 anos. Após os procedimentos na Central de Polícia Judiciária, ele foi encaminhado ao Presídio Estadual de São Borja. (Folha de São Borja, edição 3463, 24 de julho de 2010, p. 22. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 20 de ago. de 2010). Texto 13: PLANTÃO DE POLÍCIA Agressão I Uma mulher de 28 anos foi agredida a socos e pontapés pelo seu companheiro, de 29 anos, no último domingo, por volta das 22 horas. A agressão ocorreu na residência do casal. Ela informou que o homem tem ciúmes dela. A mulher solicitou as medidas protetivas da Lei Maria da Penha. (Folha de São Borja, edição 3467, 07 de agosto de 2010, p. 22. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 20 de ago. de 2010). Texto 14: PLANTÃO DE POLÍCIA Agressão II Um homem de 21 anos comunicou na Central de Polícia Judiciária que a sua esposa, de 20 anos, o agrediu em seu local trabalho, na última segunda-feira, por volta das 15h30min. No final da tarde, ao retornar para a casa, foi novamente agredido pela mulher. Ele sofreu lesões no rosto e pescoço. As agressões teriam sido motivadas por ciúmes. (Folha de São Borja, edição 3467, 07 de agosto de 2010, p. 22. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 20 de ago. de 2010). Texto 15: PLANTÃO DE POLÍCIA Desobediência Uma mulher de 59 anos informou no Centro de Operações da Polícia Civil que na última terça-feira, por volta das 11 horas, o seu ex-companheiro, de 73 anos, desobedeceu a uma ordem judicial que determina que ele não se aproxime dela. (Folha de São Borja, edição 3467, 07 de agosto de 2010, p. 22. Disponível em http://www.folhadesaoborja.com.br - Acesso em 20 de ago. de 2010). 251