A CONTRIBUIÇÃO DE MANIFESTAÇÕES TEMPORÁRIAS NO CONTEXTO DE PAISAGENS URBANAS E CULTURAIS ARAUJO, Carolinne de Sousa Moura. (1) 1. Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) R. Ivan Tito de Oliveira, 2636, Lourival Parente. Teresina - PI [email protected] RESUMO Este trabalho visa divulgar o estudo acerca dos temas paisagem urbana e paisagem cultural relacionando-os a manifestações de caráter temporário, de valor imaterial, inseridas nesse contexto, que contribuem para novas leituras e abordagens do espaço citadino. Utilizou-se como recursos para realizá-lo levantamento bibliográfico, associando-o aos conceitos de percepção do espaço urbano, sociedade e mudanças de paradigmas, além de breves estudos de caso que contribuíram para apreensão do assunto e desenvolvimento do trabalho. Ver e sentir a cidade requer atenção. Olhos distraídos pela pressa ou falta de tempo turvam a leitura dos elementos presentes no ambiente construído. Tal leitura é considerada prática cultural, a decodificação dos signos que habitam as cidades dependem da sensação, vivência e experiências particulares e/ou coletivas, em que um contexto urbano dinâmico e integrado podem desempenhar, inclusive, um papel social. Desse modo, a boa leitura dos ambientes urbanos intensifica e potencializa as experiências e sensações do usuário, ultrapassando o limite do espaço físico, considerando as representações simbólicas que cercam o ambiente citadino, onde este figura o cenário ideal para elaboração desses significados apresentados por meio de bens culturais. Assim, a cidade se modifica, reinventa a partir das ações e intervenções diárias daqueles que nela habitam. Manifestações de caráter efêmero, nesse contexto, proporcionarão novas percepções do ambiente urbano, em que sua transformação temporária contribui para a valorização da rua enquanto espaço democrático de expressão cultural. Formas livres de expressão como feiras, exposições, instalações temporárias, festas populares e toda sorte de eventos no ambiente urbano representam grande importância para a sociedade, dinamizam o espaço, movimentam a economia e aproximam a arte e cultura de um público mais diversificado, alterando a paisagem temporariamente e contribuindo para a formação de imagem e memória nos usuários da cidade, estimulando novas formas de se fruir, perceber e senti-la. Intervenções temporárias transformam o espaço momentaneamente e, apesar desses lugares continuarem os mesmos, sua percepção se transforma, supera-se o cotidiano, novas possibilidades de uso tornam-se visíveis ao cidadão comum, agregando novos valores ao local, atuando de forma gradual para o entendimento e apropriação dessa paisagem. Dessa forma, espera-se com esse trabalho levantar a discussão e acentuar a importância de manifestações temporárias, no contexto da paisagem cultural urbana, contribuindo, ainda, para o fortalecimento e difusão da pesquisa acerca do tema. Palavras-chave: Paisagem urbana; Paisagem cultural; Manifestações temporárias. Introdução A cidade, desde sua invenção, é palco de diversas manifestações socioculturais que a transformam e trazem vida ao espaço urbano. Eventos, das mais distintas naturezas, apresentam forte caráter simbólico, unem grupos a favor de um fim, interrompem a repetição do cotidiano e, mesmo que temporariamente, chamam atenção e reinventam paisagens ocultadas pela familiaridade do usuário com o local. Ver a cidade, nesse contexto, torna-se uma experiência essencialmente sinestésica: cheiros, gestos, sons e imagens contribuirão para uma boa leitura do ambiente citadino (FERRARA, 1988). Manifestações de caráter temporário contribuem para que o espaço público urbano se reinvente, viva. Desde intervenções grandiosas, em que arte, arquitetura e paisagem se interseccionam, tornando-se uma só, a simples construções que abrigam atividades informais, estas, “[...] inicialmente ignoradas, mas que uma vez estabelecidas podem ter uma grande influência sobre a forma como as pessoas percebem e entendem a cidade” (KRONENBURG, 2009, p. 15). Feiras, exposições, festas populares ou mesmo instalações de ordem artística são acontecimentos singulares que podem atribuir diferentes formas de ver e sentir a cidade, despertar a curiosidade natural das pessoas. Tais manifestações valorizam o espaço público, em que este, “não é somente o receptáculo da obra, seu continente, porém, com frequência, um contexto ativo que atua, junto a outros fatores, na sua recepção e no seu entendimento” (DUARTE, 2006, p. 12) O presente trabalho se insere no eixo temático “Paisagem e paisagem cultural: tipologias e instrumentos” deste evento e visa divulgar o estudo acerca dos temas paisagem urbana e paisagem cultural relacionando-os a manifestações de caráter temporário, de valor imaterial, inseridas nesse contexto, que contribuem para novas leituras e abordagens do espaço citadino. Utilizou-se como recursos para sua realização levantamento bibliográfico, associando-o aos conceitos de percepção do espaço urbano, sociedade e mudanças de paradigmas, além de breves estudos de caso que contribuíram para apreensão do assunto e desenvolvimento deste estudo. Dessa forma, espera-se com esse trabalho levantar a discussão e acentuar a importância de manifestações temporárias, no contexto da paisagem cultural urbana, contribuindo, ainda, para o fortalecimento e difusão da pesquisa acerca do tema. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro O urbano e a sociedade O anseio por continuidade favoreceu durante séculos entre as gerações a valorização da permanência, transmitida como herança, tradição e cultura. Entretanto, hoje, o cenário se apresenta transitório e incerto, refletindo esses aspectos na sociedade, na cultura e até mesmo, na família. Todas as mudanças sociais ocorridas ao longo do tempo ecoam no modo de vida e no que se produz na contemporaneidade. Valores e instituições que sempre se mostraram sólidos, mostram-se hoje enfraquecidos, afetando o cotidiano das pessoas (CHAPPEL, [2005?]). A velocidade e a falta de tempo filtram a experiência do espaço. Por outro lado, seus usuários estão mais abertos a compreensões alternativas do ambiente construído e a percepção de novos elementos que, nessa conjuntura, relaciona-se diretamente com a rapidez e o tempo que se permite contemplar esses ambientes (PEIXOTO, 2003). Nesse contexto, a revolução tecnológica somada à globalização contribuíram bastante para essa realidade, aproximando e conectando, cada vez mais, mundo virtual e real, redimensionando o espaço na contemporaneidade. O próprio conceito de arte e o fazer artístico sofreram substanciais reformulações, surgindo a chamada arte conceitual, que considera a ideia como centro da criação artística, tornando, portanto, o produto dessa ideia supérfluo (STRICKLAND, 2003). Esses fatores contribuíram de forma significativa para a aproximação da arte e intervenções efêmeras do ambiente urbano, como as instalações, definidas por Strickland como conjunto de objetos que visam reflexão do interlocutor para temas do momento, por exemplo, ou mesmo a arte performática que envolve música, dança, poesia etc. e podem utilizar-se de interação direta com o público, favorecendo liberdade estética, criativa e, principalmente, readequação em distintos contextos de acordo com a necessidade do usuário, encontrado no espaço urbano o cenário ideal para o exercício dessas manifestações. Percepção da paisagem e do ambiente construído Ver e sentir a cidade requer atenção. Olhos distraídos pela pressa ou falta de tempo turvam a leitura dos elementos presentes no ambiente construído. Ferrara (1988) define essa leitura como prática cultural, a decodificação dos signos que habitam as cidades dependem da sensação, vivência e experiências particulares e/ou coletivas. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro Para Lynch (1997, p.5), “um cenário físico vivo e integrado, capaz de produzir uma imagem bem definida, desempenha também um papel social. Pode fornecer a matéria-prima para os símbolos e as reminiscências coletivas de comunicação de grupo”, sendo assim, a boa leitura dos ambientes urbanos intensifica e potencializa as experiências e sensações do usuário. Pesavento (1995) ratifica essa ideia ao afirmar que essa leitura ultrapassa o limite do espaço físico, considerando as representações simbólicas que cercam o ambiente citadino, entendendo a cidade como “o espaço por excelência para a construção desses significados expressos em bens culturais” (PESAVENTO, 1995, p. 3). Para Ferrara (1988), a cidade desenvolve linguagens que “se produz como informação, transformação e imaginação de outros modos de vê-la e vivê-la” (1988, p. 13), dialoga com o seu usuário, este sendo, portanto, parte constituinte de sua linguagem. Essa leitura torna-se experiência essencialmente sinestésica e multissensorial aos signos dispostos no espaço, de modo a apreendê-los e decodificá-los. Necessita-se, ainda, de certo distanciamento para uma melhor percepção de elementos que a familiaridade do cotidiano oculta (FERRARA, 1988). Pode-se conhecer intimamente um lugar, porém para sua real e nítida percepção se faz necessário vê-lo de fora. O que não significa que “olhos turistas” terão uma leitura definitiva, posto que para esses, lhes faltam a realidade intrínseca de quem habita o espaço (TUAN, 1983). Tuan (1980) em seu livro “Topofilia; um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente”, realiza aprofundada análise acerca do tema. Aproxima-se da visão de Ferrara, ao considerar que diferentes indivíduos irão perceber o ambiente de formas distintas, além de afirmar que o modo como se percebe o ambiente ocorre simultaneamente através do uso de todos os sentidos. Seu neologismo topofilia representa o amor expresso pelo lugar, os laços afetivos do homem pelo ambiente material. A familiaridade produz afeição. Isso pode ser facilmente apreendido pelo amor pela terra natal, o sentimento de pertencer ao lugar, memórias prévias de cada indivíduo que remetem a experiências pessoais e causam bem estar ou repulsa em determinados ambientes. Lynch (1999) endossa essa ideia, abordando a interação pessoa e local no conceito de identidade, em que um lugar pode ser entendido e diferenciado no tempo e espaço pelos seus usuários. Aborda a realização de eventos nesse contexto, em que: 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro As celebrações especiais e os rituais grandiosos desenvolvem este sentido num grau elevado. A ocasião e o local reforçam-se mutuamente para criarem um presente vívido. O resultado é um envolvimento activo no mundo imediato e material e um enriquecimento da personalidade (LYNCH, 1999, p.128) O homem tem grande inclinação a simbolizar tudo que está a sua volta e relacionam-se com esses símbolos como se fossem estímulos do próprio ambiente (RAPOPORT,1972). Lynch (1999), em seu livro “A boa forma da cidade”, ratifica essas ideias e enumera algumas características das cidades que vão ao encontro da ideia de que eventos culturais realizados no ambiente urbano valorizam e favorecem a percepção do ambiente citadino, dentre eles: 1. A cidade deve ser apreciada pela sua urbanidade; pela sua diversidade, pelas suas surpresas, pelo seu caráter pitoresco e pelos seus elevados níveis de interação. 2. A cidade deve exprimir e reforçar a sociedade e a natureza do mundo. Os seus elementos críticos são o simbolismo, os significados culturais, a profundidade histórica e a forma tradicional [...] (LYNCH, 1999, p. 343). Faz-se de vital importância no contexto urbano criar elementos que fujam ao cotidiano, que chamem a atenção para os elementos da cidade, que façam seus usuários abandonarem momentaneamente seu olhar apressado e perceber o ambiente a sua volta, podendo estreitar a relação com o lugar e fortalecer os laços de afeto com o mesmo, incluindo aqueles marginalizados, que coabitam o ambiente urbano e que, apenas: “[...]nas festas populares e nas manifestações de rua, nos acontecimentos singulares que quebram a rotina da vida urbana que podemos encontrar suas vozes ou resgatar os indícios do que seria a sua ordem, chegando às representações coletivas de uma ‘outra’ cidade” (PESAVENTO, 1995, p. 284). Dessa forma, festas populares, feiras livres, performances, instalações atuam no contexto contemporâneo como reeducadores do olhar, tornando visível, como suscita Calvino (2008), as diversas cidades dentro da cidade. Exercem, ainda, papel cultural e simbólico, democratizando o espaço urbano e fortalecendo vínculos do usuário com o ambiente em que vive. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro A reinvenção da urbe na contemporaneidade A cada dia a cidade se reinventa e modifica, a partir das ações e intervenções daqueles que nela habitam. Desde atividades simples, presentes em todas as aglomerações urbanas, como o comércio, que criam ambientes de familiaridades com os moradores e usuários da região, a elaboradas ações que interrompem o cotidiano desses lugares e levam arte e cultura ao espaço mais democrático das cidades: a rua. Feiras e mercados populares informais são baseados no sistema de trocas e seu sentido vai além do espaço que acontecem. Essas aglomerações possuem vida própria e estão em constante transformação, geram hábitos nas pessoas que as frequentam e as proporciona sentimento de familiaridade (CARVALHO, 2006). Como aborda Carvalho (2006), pela aproximação com a informalidade, abriga a parcela marginalizada da sociedade, tornando ambiente marcado pela adversidade, percebido desde a disposição desordenada de barracas adotada nesses mercados à própria estética dessas estruturas Surgem cidades instantâneas formadas por construções temporárias e podem apresentar grande influência no modo que se percebe a cidade, contribuindo substancialmente para um ambiente vivo e ativo (KRONENBURG, 2009). Carvalho (2006) cita que no Brasil, desde a escravidão, mercados informais eram espaços de reunião dos marginalizados, possibilitando encontros e comemorações, onde música e dança eram comuns. Tornava-se ambiente de celebração. Sons, cheiros, cores, movimento. Tudo isso contribui para a ruptura do cotidiano e essas manifestações proporcionarão novas percepções do ambiente urbano, sua transformação temporária e valorização da rua enquanto espaço democrático de expressão cultural, em que [...] tudo aquilo que antes representaria elementos de perturbação e descaracterização – a impessoalidade, o anonimato, a diferença, a complexidade, a separação entre o interior e o exterior, entre o privado e o público – pode se tornar o elemento de reeducação do olhar, oportunizar uma revelação e uma nova coerência para o mundo. (PESAVENTO, 1995, p. 285). Outro aspecto que se faz importante ressaltar seria a mudança no modo de ver e abordar a arte, que contribuiu de forma significativa para sua aproximação do ambiente urbano e fez 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro nascer novas formas de expressão artística, como instalações e arte performática (happenings) que podem inclusive ultrapassar os limites das salas de museu, chegando ao espaço público. Mais recentemente, com o amplo acesso as redes de comunicação, surgiu nova roupagem desta modalidade: os “flash mobs”, que se caracterizam por aglomerações instantâneas, reunidas com auxílio da internet ou outros meios de comunicação, que realizam ações coreografadas. São aplicadas desde em estratégias publicitárias a causas políticas, como os protestos para a deposição do presidente filipino Estrada (CHAPPEL, [2005?]). Desse modo, manifestações efêmeras são uma forma bastante eficaz de romper a rotina, transformar momentaneamente edificações e atrair novos olhares no contexto das cidades. Exemplos práticos são as intervenções de Christo e Jean-Claude, que embrulham prédios em sua totalidade e elementos da paisagem, com isso atraem a visão do passante, aguçando sua percepção e seus sentidos. Ou mesmo a “post it war”, que em 2011, de forma bem humorada, levou a cidade de Paris a entrar em “guerra”. Tudo começou com dois grupos de empresas instaladas em prédios vizinhos que começaram uma espécie de competição, colando em suas janelas papeis de nota (post it) formando imagens de desenhos animados (CORREIO DO POVO, 2011). A ação ganhou visibilidade através das redes sociais e a cidade virou palco de diversas intervenções, que redirecionaram o olhar dessas realidades existentes. Em Lisboa, a ideia da “post it war” foi adaptada e cobriu toda a fachada do Museu de Moda e Design (Mude) localizado a Rua Augusta, um cenário eminentemente histórico que temporariamente virou palco de intervenção artística que, ainda, apresentava um caráter social. Nessas notas estavam milhares de ideias para a cidade que seriam analisadas para votação do orçamento participativo da capital portuguesa (SOARES, 2012). 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro Figura 01_Intervenções urbanas Fonte: Volz (1995); Verdy (2011) e Wordpress (2012). Editado pela autora. Dessa maneira, efêmero e permanente se encontram no campo das artes e ampliam o leque de possibilidades de perceber a cidade, recriando realidades existentes e contribuindo para a renovação do ambiente citadino. Os exemplos anteriormente citados estimulam novas formas de se fruir a cidade, de percebê-la e senti-la. Intervenções temporárias transformam o espaço, “intervenções temporárias podem deixar marcas permanentes na cidade” (SANSÃO, 2013, p. 1). Nesse sentido, o efêmero dialoga com o permanente, convida a repensar rua, o espaço público e seus usos alternativos, cria potencial cênico para os mais diversos tipos de eventos e torna visível ao usuário comum a descoberta das “cidades invisíveis” com novos usos e funções. Com essas rupturas do habitual, a rotina e a indiferença são esquecidas e os usuários das cidades são envolvidos e convidados a participar ativamente dessas ações, são convidados, como afirma Sansão (2013), a usar a cidade. Rompendo as barreiras do real Associado a alguns desses eventos urbanos, não raramente, está o sonho. A tecnologia proporciona hoje uma interação do usuário com a edificação inimaginável há algumas décadas e possibilita inserir nessas estruturas temporárias verdadeiros experimentos que brincam com a percepção do espaço e com o lúdico. A exemplo, pode-se citar o Vivid Sydney Festival que desde 2009 transforma a capital australiana com luzes, música e ideias, como o slogan do festival se propõe. O evento atrai milhares de pessoas durante o mês de junho e colore, virtualmente, por meio de projeções, o 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro Sydney Opera House e outros edifícios da cidade, transportando o passante a um universo onírico, distinto da realidade cotidiana, modificando sua percepção em relação a esses elementos, revelando a cidade com uma nova abordagem (VIVID SYDNEY, 2013). No Brasil, algo semelhante ocorreu com o evento paralelo a Rio+20. Em 2012 A Eletrobrás projetou no cenário histórico dos Arcos da Lapa imagens que abordavam a questão da sustentabilidade, e faziam o espectador, através de sensações visuais e sonoras, refletir sobre o tema (MARENCO, 2012). Outro meio inusitado de aliar a paisagem urbana a tecnologias seria o uso de QR Code, amplamente utilizado em ações de marketing, são códigos cuja leitura se dá por meio de softwares próprios e transmitem informações previamente configuradas disponíveis na internet. Em Lisboa, 2012, ele foi aplicado em tradicionais calçadas em pedra portuguesa, de modo a divulgar o turismo local. A intervenção prendia a atenção do transeunte que, por curiosidade, interagia e recebia as informações turística, comercial e cultural do lugar. A ação levou inclusive os pixels em pedra portuguesa para outras cidades, de modo a divulgar o turismo de Portugal (FILIPE, 2012). Figura 02_Intervenções e tecnologia Fonte: Vivid Sydney (2013); Marenco (2012) e Fernandes (2013). Editado pela autora. Ainda, o desenvolvimento de estudos sobre realidade aumentada favorece um amplo leque de possibilidades na interação da arquitetura com o usuário. Essa combina o real e o virtual, com interações tridimensionais em tempo real e tem como objetivo potencializar a percepção do usuário em relação ao mundo físico, real e fornecer informações invisíveis no entorno, aumentando seus sentidos (AMIM, LANDAU, CUNHA. 2007). 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro Desse modo, propostas criativas associadas ao uso da tecnologia contribuem cada vez mais para novas abordagens do espaço urbano, estreitam os limites entre real e virtual, renovam e reinventam a relação dos usuários com o local. Intervenções temporárias e aceitação do público A ampla aceitação pelo público de algumas manifestações temporárias ou mesmo das estruturas nelas utilizadas viabiliza sua fixação em sítios, por vezes distintos dos originais. Os exemplos mais recorrentes são os das Exposições Universais, como a de Paris de 1889, que idealizou a torre que viria a tornar-se símbolo da cidade (BENEVOLO, 2009), ou mesmo, o pavilhão alemão para a Exposição de Barcelona de 1929, idealizado por Mies van der Rohe, desmontado após o término do evento, mas que, por ter se tornado referência da arquitetura moderna do século XX, adquiriu significância e valor e veio a ser reconstruído, como no projeto original, reaberto em 1986 (MIESBCN, [s.d.]). De forma mais abrangente, pode-se ainda citar o Pavilhão Serpentine enquanto evento anual, que se tornou permanente na agenda cultural de Londres e atrai um grande volume de visitantes às suas instalações. Desenvolve-se desde 2000, é associado ao Serpentine Gallery e surgiu da necessidade de promover maior presença nas atividades oferecidas pela instituição durante os meses de verão. Sua organização convida arquitetos de renome para projetarem espaços provisórios para seus jardins e encontra em patrocinadores o suporte para a construção de estruturas ousadas que atraem público e atenção (JODIDIO, 2011). Outro exemplo seria alguns pontos de comércio informal, que, como aborda Carvalho (2006), ao longo do tempo adquiriram visibilidade e importância no contexto da cidade, gerando interesse por parte do poder público, que formalizaram esses espaços, com a fixação de impostos e alugueis, bem como, a própria organização estética das estruturas adotadas nesses ambientes, vindo a deter o “controle tanto sócio econômico, quanto estético arquitetônico.” (CARVALHO, 2006, p. 5), fixando estruturas para práticas culturais efêmeras, alterando de forma permanente a paisagem em que se inserem. Soluções urbanas aliadas à intervenções temporárias Sabe-se que para atingir sucesso em obras de requalificação urbana é necessário tempo. Tempo, este, controverso a ideia de intervenções temporárias. Entretanto, mesmo que 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro pequenas manifestações não promovam amplas transformações, podem desencadear, em longo prazo, transformações mais consistentes. Isso funcionaria como uma espécie de corrente positiva em que “cada espaço potencialmente atraente que se concretiza como intervenção, cada vez mais vai estimular a sua reintervenção temporária e reinvenção permanente” (SANSÃO, 2013, p. 5). Adriana Sansão sugere que essas intervenções agregam vitalidade às ruas, o momento e a experiência tornam-se seu o principal legado. Atuam na construção de uma marca imaterial na memória coletiva do lugar e que, além do local em que se deu a intervenção, isso poderia ser aplicados em novos espaços, uma reação em cadeia que, aos poucos, seria ampliada e abrangeria uma maior parte da cidade. Park(ing) Day é uma ação que bem exemplifica isso. A ideia de transformar faixas de estacionamento em parques públicos por um dia, concebido por John Bela, ganhou grande dimensão, tornando-se uma ação mundial. Ele explica que o projeto surgiu quando percebeu que os espaços destinados para estacionamento de veículos ocupava maior área que a soma das áreas de todos os parques urbanos de São Francisco, Califórnia, e pela reflexão de como se usa o espaço da cidade (HANLEY, 2012). Criou-se então as estruturas de parklets, que funcionam como uma extensão da calçada e que permitem a reapropriação do espaço público pelos cidadãos. A intervenção se mostrou um sucesso e em 2010, o departamento de planejamento da cidade adotou solução similar, com o programa “Paviments to Parks”, que transformava espaços subutilizados das vias em pequenos espaços públicos (HANLEY, 2012). Figura 03_Parklets e apropriação do espaço público Fonte: Rebar (2005) e Nicholson (2009). Editado pela autora. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro Pode-se associar, ainda, a esses processos originários de intervenções efêmeras o conceito desenvolvido por Lerner de acupunturas urbanas. Ele se baseia na ideia de que se agindo em um ponto da cidade, isso não acarretará melhorias apenas nessa área, mas no seu entorno também (LERNER, 2005). Para ele, a gentileza urbana, ou seja, “atitudes que estimulam o amor pela sua cidade” é uma forma de acupuntura urbana. O Park(ing) Day é um claro exemplo de gentileza urbana, ação que transformou a subutilização do espaço existente em espaço requalificado e reapropriado pela população. “Uma boa acupuntura é ajudar a trazer gente para a rua, criar pontos de encontro e, principalmente, fazer com que cada função urbana catalise bem o encontro entre pessoas” (LERNER, 2005, p. 47). Desse modo, novas possibilidades de uso do espaço tornam-se visíveis ao cidadão comum, agregando novos valores ao local, atuando de forma gradual para melhorias urbanas. Seria no mínimo ingênuo acreditar que intervenções efêmeras pudessem criar soluções instantâneas e transformar realidades consolidas de problemas de ordem urbana. No momento que a intervenção é removida do local a paisagem circundante volta ao estágio inicial. Todavia, apesar desses lugares continuarem os mesmos, sua percepção se transforma, supera-se o cotidiano e cria-se uma memória coletiva em torno dele, atuando na apropriação desses espaços, criando novos cenários e tornando visível ao cidadão comum novas possibilidades de seu uso, agregando novos valores ao local, atuando de forma gradual para melhorias urbanas. Conclusão Compreender a configuração do espaço contemporâneo atrelado às mudanças ocorridas na sociedade, bem como a relação do usuário com o ambiente construído, revela-se importante etapa para o entendimento da paisagem urbana e cultural que se desenvolve na contemporaneidade. Diante disso, acredita-se ser fundamental esse estudo para compreensão da sociedade e de suas mudanças ao longo dos anos que favorecem a valorização da arquitetura efêmera e de manifestações temporárias no contexto urbano. 3° COLÓQUIO IBERO-AMERICANO PAISAGEM CULTURAL, PATRIMÔNIO E PROJETO - DESAFIOS E PERSPECTIVAS Belo Horizonte, de 15 a 17 de setembro Esse trabalho, contribui, portanto, para o fortalecimento e difusão da pesquisa acerca do tema, além de incentivar a discussão sobre a importância de manifestações temporárias, no contexto da paisagem cultural urbana, que “reinventam”, mesmo que temporariamente, realidades consolidadas, potencializando o uso espaço público, contribuindo para a sua apropriação e evolução da paisagem circundante. Referências AMIM, Rodrigo Rosa; LANDAU, Luiz; CUNHA, Gerson Gomes. Realidade aumentada aplicada à arquitetura e urbanismo. In: Workshop de Realidade Virtual e Aumentada, 9, 2007, Intubiara. Anais eletrônicos... 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