A CONTRIBUIÇÃO DE MANIFESTAÇÕES TEMPORÁRIAS NO
CONTEXTO DE PAISAGENS URBANAS E CULTURAIS
ARAUJO, Carolinne de Sousa Moura. (1)
1. Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)
R. Ivan Tito de Oliveira, 2636, Lourival Parente. Teresina - PI
[email protected]
RESUMO
Este trabalho visa divulgar o estudo acerca dos temas paisagem urbana e paisagem cultural
relacionando-os a manifestações de caráter temporário, de valor imaterial, inseridas nesse contexto,
que contribuem para novas leituras e abordagens do espaço citadino. Utilizou-se como recursos para
realizá-lo levantamento bibliográfico, associando-o aos conceitos de percepção do espaço urbano,
sociedade e mudanças de paradigmas, além de breves estudos de caso que contribuíram para
apreensão do assunto e desenvolvimento do trabalho. Ver e sentir a cidade requer atenção. Olhos
distraídos pela pressa ou falta de tempo turvam a leitura dos elementos presentes no ambiente
construído. Tal leitura é considerada prática cultural, a decodificação dos signos que habitam as
cidades dependem da sensação, vivência e experiências particulares e/ou coletivas, em que um
contexto urbano dinâmico e integrado podem desempenhar, inclusive, um papel social. Desse modo, a
boa leitura dos ambientes urbanos intensifica e potencializa as experiências e sensações do usuário,
ultrapassando o limite do espaço físico, considerando as representações simbólicas que cercam o
ambiente citadino, onde este figura o cenário ideal para elaboração desses significados apresentados
por meio de bens culturais. Assim, a cidade se modifica, reinventa a partir das ações e intervenções
diárias daqueles que nela habitam. Manifestações de caráter efêmero, nesse contexto, proporcionarão
novas percepções do ambiente urbano, em que sua transformação temporária contribui para a
valorização da rua enquanto espaço democrático de expressão cultural. Formas livres de expressão
como feiras, exposições, instalações temporárias, festas populares e toda sorte de eventos no
ambiente urbano representam grande importância para a sociedade, dinamizam o espaço,
movimentam a economia e aproximam a arte e cultura de um público mais diversificado, alterando a
paisagem temporariamente e contribuindo para a formação de imagem e memória nos usuários da
cidade, estimulando novas formas de se fruir, perceber e senti-la. Intervenções temporárias
transformam o espaço momentaneamente e, apesar desses lugares continuarem os mesmos, sua
percepção se transforma, supera-se o cotidiano, novas possibilidades de uso tornam-se visíveis ao
cidadão comum, agregando novos valores ao local, atuando de forma gradual para o entendimento e
apropriação dessa paisagem. Dessa forma, espera-se com esse trabalho levantar a discussão e
acentuar a importância de manifestações temporárias, no contexto da paisagem cultural urbana,
contribuindo, ainda, para o fortalecimento e difusão da pesquisa acerca do tema.
Palavras-chave: Paisagem urbana; Paisagem cultural; Manifestações temporárias.
Introdução
A cidade, desde sua invenção, é palco de diversas manifestações socioculturais que a
transformam e trazem vida ao espaço urbano. Eventos, das mais distintas naturezas,
apresentam forte caráter simbólico, unem grupos a favor de um fim, interrompem a repetição
do cotidiano e, mesmo que temporariamente, chamam atenção e reinventam paisagens
ocultadas pela familiaridade do usuário com o local. Ver a cidade, nesse contexto, torna-se
uma experiência essencialmente sinestésica: cheiros, gestos, sons e imagens contribuirão
para uma boa leitura do ambiente citadino (FERRARA, 1988).
Manifestações de caráter temporário contribuem para que o espaço público urbano se
reinvente, viva. Desde intervenções grandiosas, em que arte, arquitetura e paisagem se
interseccionam, tornando-se uma só, a simples construções que abrigam atividades
informais, estas, “[...] inicialmente ignoradas, mas que uma vez estabelecidas podem ter uma
grande influência sobre a forma como as pessoas percebem e entendem a cidade”
(KRONENBURG, 2009, p. 15).
Feiras, exposições, festas populares ou mesmo instalações de ordem artística são
acontecimentos singulares que podem atribuir diferentes formas de ver e sentir a cidade,
despertar a curiosidade natural das pessoas.
Tais manifestações valorizam o espaço público, em que este, “não é somente o receptáculo
da obra, seu continente, porém, com frequência, um contexto ativo que atua, junto a outros
fatores, na sua recepção e no seu entendimento” (DUARTE, 2006, p. 12)
O presente trabalho se insere no eixo temático “Paisagem e paisagem cultural: tipologias e
instrumentos” deste evento e visa divulgar o estudo acerca dos temas paisagem urbana e
paisagem cultural relacionando-os a manifestações de caráter temporário, de valor imaterial,
inseridas nesse contexto, que contribuem para novas leituras e abordagens do espaço
citadino.
Utilizou-se como recursos para sua realização levantamento bibliográfico, associando-o aos
conceitos de percepção do espaço urbano, sociedade e mudanças de paradigmas, além de
breves estudos de caso que contribuíram para apreensão do assunto e desenvolvimento
deste estudo.
Dessa forma, espera-se com esse trabalho levantar a discussão e acentuar a importância de
manifestações temporárias, no contexto da paisagem cultural urbana, contribuindo, ainda,
para o fortalecimento e difusão da pesquisa acerca do tema.
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O urbano e a sociedade
O anseio por continuidade favoreceu durante séculos entre as gerações a valorização da
permanência, transmitida como herança, tradição e cultura. Entretanto, hoje, o cenário se
apresenta transitório e incerto, refletindo esses aspectos na sociedade, na cultura e até
mesmo, na família.
Todas as mudanças sociais ocorridas ao longo do tempo ecoam no modo de vida e no que se
produz na contemporaneidade. Valores e instituições que sempre se mostraram sólidos,
mostram-se hoje enfraquecidos, afetando o cotidiano das pessoas (CHAPPEL, [2005?]).
A velocidade e a falta de tempo filtram a experiência do espaço. Por outro lado, seus usuários
estão mais abertos a compreensões alternativas do ambiente construído e a percepção de
novos elementos que, nessa conjuntura, relaciona-se diretamente com a rapidez e o tempo
que se permite contemplar esses ambientes (PEIXOTO, 2003).
Nesse contexto, a revolução tecnológica somada à globalização contribuíram bastante para
essa realidade, aproximando e conectando, cada vez mais, mundo virtual e real,
redimensionando o espaço na contemporaneidade. O próprio conceito de arte e o fazer
artístico sofreram substanciais reformulações, surgindo a chamada arte conceitual, que
considera a ideia como centro da criação artística, tornando, portanto, o produto dessa ideia
supérfluo (STRICKLAND, 2003).
Esses fatores contribuíram de forma significativa para a aproximação da arte e intervenções
efêmeras do ambiente urbano, como as instalações, definidas por Strickland como conjunto
de objetos que visam reflexão do interlocutor para temas do momento, por exemplo, ou
mesmo a arte performática que envolve música, dança, poesia etc. e podem utilizar-se de
interação direta com o público, favorecendo liberdade estética, criativa e, principalmente,
readequação em distintos contextos de acordo com a necessidade do usuário, encontrado no
espaço urbano o cenário ideal para o exercício dessas manifestações.
Percepção da paisagem e do ambiente construído
Ver e sentir a cidade requer atenção. Olhos distraídos pela pressa ou falta de tempo turvam a
leitura dos elementos presentes no ambiente construído. Ferrara (1988) define essa leitura
como prática cultural, a decodificação dos signos que habitam as cidades dependem da
sensação, vivência e experiências particulares e/ou coletivas.
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Para Lynch (1997, p.5), “um cenário físico vivo e integrado, capaz de produzir uma imagem
bem definida, desempenha também um papel social. Pode fornecer a matéria-prima para os
símbolos e as reminiscências coletivas de comunicação de grupo”, sendo assim, a boa leitura
dos ambientes urbanos intensifica e potencializa as experiências e sensações do usuário.
Pesavento (1995) ratifica essa ideia ao afirmar que essa leitura ultrapassa o limite do espaço
físico, considerando as representações simbólicas que cercam o ambiente citadino,
entendendo a cidade como “o espaço por excelência para a construção desses significados
expressos em bens culturais” (PESAVENTO, 1995, p. 3).
Para Ferrara (1988), a cidade desenvolve linguagens que “se produz como informação,
transformação e imaginação de outros modos de vê-la e vivê-la” (1988, p. 13), dialoga com o
seu usuário, este sendo, portanto, parte constituinte de sua linguagem.
Essa leitura torna-se experiência essencialmente sinestésica e multissensorial aos signos
dispostos no espaço, de modo a apreendê-los e decodificá-los. Necessita-se, ainda, de certo
distanciamento para uma melhor percepção de elementos que a familiaridade do cotidiano
oculta (FERRARA, 1988).
Pode-se conhecer intimamente um lugar, porém para sua real e nítida percepção se faz
necessário vê-lo de fora. O que não significa que “olhos turistas” terão uma leitura definitiva,
posto que para esses, lhes faltam a realidade intrínseca de quem habita o espaço (TUAN,
1983).
Tuan (1980) em seu livro “Topofilia; um estudo da percepção, atitudes e valores do meio
ambiente”, realiza aprofundada análise acerca do tema. Aproxima-se da visão de Ferrara, ao
considerar que diferentes indivíduos irão perceber o ambiente de formas distintas, além de
afirmar que o modo como se percebe o ambiente ocorre simultaneamente através do uso de
todos os sentidos.
Seu neologismo topofilia representa o amor expresso pelo lugar, os laços afetivos do homem
pelo ambiente material. A familiaridade produz afeição. Isso pode ser facilmente apreendido
pelo amor pela terra natal, o sentimento de pertencer ao lugar, memórias prévias de cada
indivíduo que remetem a experiências pessoais e causam bem estar ou repulsa em
determinados ambientes.
Lynch (1999) endossa essa ideia, abordando a interação pessoa e local no conceito de
identidade, em que um lugar pode ser entendido e diferenciado no tempo e espaço pelos seus
usuários. Aborda a realização de eventos nesse contexto, em que:
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As celebrações especiais e os rituais grandiosos desenvolvem este sentido
num grau elevado. A ocasião e o local reforçam-se mutuamente para criarem
um presente vívido. O resultado é um envolvimento activo no mundo imediato
e material e um enriquecimento da personalidade (LYNCH, 1999, p.128)
O homem tem grande inclinação a simbolizar tudo que está a sua volta e relacionam-se com
esses símbolos como se fossem estímulos do próprio ambiente (RAPOPORT,1972).
Lynch (1999), em seu livro “A boa forma da cidade”, ratifica essas ideias e enumera algumas
características das cidades que vão ao encontro da ideia de que eventos culturais realizados
no ambiente urbano valorizam e favorecem a percepção do ambiente citadino, dentre eles:
1. A cidade deve ser apreciada pela sua urbanidade; pela sua diversidade,
pelas suas surpresas, pelo seu caráter pitoresco e pelos seus elevados níveis
de interação.
2. A cidade deve exprimir e reforçar a sociedade e a natureza do mundo. Os
seus elementos críticos são o simbolismo, os significados culturais, a
profundidade histórica e a forma tradicional [...] (LYNCH, 1999, p. 343).
Faz-se de vital importância no contexto urbano criar elementos que fujam ao cotidiano, que
chamem a atenção para os elementos da cidade, que façam seus usuários abandonarem
momentaneamente seu olhar apressado e perceber o ambiente a sua volta, podendo estreitar
a relação com o lugar e fortalecer os laços de afeto com o mesmo, incluindo aqueles
marginalizados, que coabitam o ambiente urbano e que, apenas: “[...]nas festas populares e
nas manifestações de rua, nos acontecimentos singulares que quebram a rotina da vida
urbana que podemos encontrar suas vozes ou resgatar os indícios do que seria a sua ordem,
chegando às representações coletivas de uma ‘outra’ cidade” (PESAVENTO, 1995, p. 284).
Dessa forma, festas populares, feiras livres, performances, instalações atuam no contexto
contemporâneo como reeducadores do olhar, tornando visível, como suscita Calvino (2008),
as diversas cidades dentro da cidade. Exercem, ainda, papel cultural e simbólico,
democratizando o espaço urbano e fortalecendo vínculos do usuário com o ambiente em que
vive.
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A reinvenção da urbe na contemporaneidade
A cada dia a cidade se reinventa e modifica, a partir das ações e intervenções daqueles que
nela habitam. Desde atividades simples, presentes em todas as aglomerações urbanas, como
o comércio, que criam ambientes de familiaridades com os moradores e usuários da região, a
elaboradas ações que interrompem o cotidiano desses lugares e levam arte e cultura ao
espaço mais democrático das cidades: a rua.
Feiras e mercados populares informais são baseados no sistema de trocas e seu sentido vai
além do espaço que acontecem. Essas aglomerações possuem vida própria e estão em
constante transformação, geram hábitos nas pessoas que as frequentam e as proporciona
sentimento de familiaridade (CARVALHO, 2006).
Como aborda Carvalho (2006), pela aproximação com a informalidade, abriga a parcela
marginalizada da sociedade, tornando ambiente marcado pela adversidade, percebido desde
a disposição desordenada de barracas adotada nesses mercados à própria estética dessas
estruturas
Surgem cidades instantâneas formadas por construções temporárias e podem apresentar
grande influência no modo que se percebe a cidade, contribuindo substancialmente para um
ambiente vivo e ativo (KRONENBURG, 2009).
Carvalho (2006) cita que no Brasil, desde a escravidão, mercados informais eram espaços de
reunião dos marginalizados, possibilitando encontros e comemorações, onde música e dança
eram comuns. Tornava-se ambiente de celebração.
Sons, cheiros, cores, movimento. Tudo isso contribui para a ruptura do cotidiano e essas
manifestações proporcionarão novas percepções do ambiente urbano, sua transformação
temporária e valorização da rua enquanto espaço democrático de expressão cultural, em que
[...] tudo aquilo que antes representaria elementos de perturbação e
descaracterização – a impessoalidade, o anonimato, a diferença, a
complexidade, a separação entre o interior e o exterior, entre o privado e o
público – pode se tornar o elemento de reeducação do olhar, oportunizar uma
revelação e uma nova coerência para o mundo. (PESAVENTO, 1995, p. 285).
Outro aspecto que se faz importante ressaltar seria a mudança no modo de ver e abordar a
arte, que contribuiu de forma significativa para sua aproximação do ambiente urbano e fez
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nascer novas formas de expressão artística, como instalações e arte performática
(happenings) que podem inclusive ultrapassar os limites das salas de museu, chegando ao
espaço público.
Mais recentemente, com o amplo acesso as redes de comunicação, surgiu nova roupagem
desta modalidade: os “flash mobs”, que se caracterizam por aglomerações instantâneas,
reunidas com auxílio da internet ou outros meios de comunicação, que realizam ações
coreografadas. São aplicadas desde em estratégias publicitárias a causas políticas, como os
protestos para a deposição do presidente filipino Estrada (CHAPPEL, [2005?]).
Desse modo, manifestações efêmeras são uma forma bastante eficaz de romper a rotina,
transformar momentaneamente edificações e atrair novos olhares no contexto das cidades.
Exemplos práticos são as intervenções de Christo e Jean-Claude, que embrulham prédios em
sua totalidade e elementos da paisagem, com isso atraem a visão do passante, aguçando sua
percepção e seus sentidos.
Ou mesmo a “post it war”, que em 2011, de forma bem humorada, levou a cidade de Paris a
entrar em “guerra”. Tudo começou com dois grupos de empresas instaladas em prédios
vizinhos que começaram uma espécie de competição, colando em suas janelas papeis de
nota (post it) formando imagens de desenhos animados (CORREIO DO POVO, 2011). A ação
ganhou visibilidade através das redes sociais e a cidade virou palco de diversas intervenções,
que redirecionaram o olhar dessas realidades existentes.
Em Lisboa, a ideia da “post it war” foi adaptada e cobriu toda a fachada do Museu de Moda e
Design (Mude) localizado a Rua Augusta, um cenário eminentemente histórico que
temporariamente virou palco de intervenção artística que, ainda, apresentava um caráter
social. Nessas notas estavam milhares de ideias para a cidade que seriam analisadas para
votação do orçamento participativo da capital portuguesa (SOARES, 2012).
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Figura 01_Intervenções urbanas
Fonte: Volz (1995); Verdy (2011) e Wordpress (2012). Editado pela autora.
Dessa maneira, efêmero e permanente se encontram no campo das artes e ampliam o leque
de possibilidades de perceber a cidade, recriando realidades existentes e contribuindo para a
renovação do ambiente citadino.
Os exemplos anteriormente citados estimulam novas formas de se fruir a cidade, de
percebê-la e senti-la. Intervenções temporárias transformam o espaço, “intervenções
temporárias podem deixar marcas permanentes na cidade” (SANSÃO, 2013, p. 1).
Nesse sentido, o efêmero dialoga com o permanente, convida a repensar rua, o espaço
público e seus usos alternativos, cria potencial cênico para os mais diversos tipos de eventos
e torna visível ao usuário comum a descoberta das “cidades invisíveis” com novos usos e
funções.
Com essas rupturas do habitual, a rotina e a indiferença são esquecidas e os usuários das
cidades são envolvidos e convidados a participar ativamente dessas ações, são convidados,
como afirma Sansão (2013), a usar a cidade.
Rompendo as barreiras do real
Associado a alguns desses eventos urbanos, não raramente, está o sonho. A tecnologia
proporciona hoje uma interação do usuário com a edificação inimaginável há algumas
décadas e possibilita inserir nessas estruturas temporárias verdadeiros experimentos que
brincam com a percepção do espaço e com o lúdico.
A exemplo, pode-se citar o Vivid Sydney Festival que desde 2009 transforma a capital
australiana com luzes, música e ideias, como o slogan do festival se propõe. O evento atrai
milhares de pessoas durante o mês de junho e colore, virtualmente, por meio de projeções, o
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Sydney Opera House e outros edifícios da cidade, transportando o passante a um universo
onírico, distinto da realidade cotidiana, modificando sua percepção em relação a esses
elementos, revelando a cidade com uma nova abordagem (VIVID SYDNEY, 2013).
No Brasil, algo semelhante ocorreu com o evento paralelo a Rio+20. Em 2012 A Eletrobrás
projetou no cenário histórico dos Arcos da Lapa imagens que abordavam a questão da
sustentabilidade, e faziam o espectador, através de sensações visuais e sonoras, refletir
sobre o tema (MARENCO, 2012).
Outro meio inusitado de aliar a paisagem urbana a tecnologias seria o uso de QR Code,
amplamente utilizado em ações de marketing, são códigos cuja leitura se dá por meio de
softwares próprios e transmitem informações previamente configuradas disponíveis na
internet.
Em Lisboa, 2012, ele foi aplicado em tradicionais calçadas em pedra portuguesa, de modo a
divulgar o turismo local. A intervenção prendia a atenção do transeunte que, por curiosidade,
interagia e recebia as informações turística, comercial e cultural do lugar. A ação levou
inclusive os pixels em pedra portuguesa para outras cidades, de modo a divulgar o turismo de
Portugal (FILIPE, 2012).
Figura 02_Intervenções e tecnologia
Fonte: Vivid Sydney (2013); Marenco (2012) e Fernandes (2013). Editado pela autora.
Ainda, o desenvolvimento de estudos sobre realidade aumentada favorece um amplo leque
de possibilidades na interação da arquitetura com o usuário. Essa combina o real e o virtual,
com interações tridimensionais em tempo real e tem como objetivo potencializar a percepção
do usuário em relação ao mundo físico, real e fornecer informações invisíveis no entorno,
aumentando seus sentidos (AMIM, LANDAU, CUNHA. 2007).
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Desse modo, propostas criativas associadas ao uso da tecnologia contribuem cada vez mais
para novas abordagens do espaço urbano, estreitam os limites entre real e virtual, renovam e
reinventam a relação dos usuários com o local.
Intervenções temporárias e aceitação do público
A ampla aceitação pelo público de algumas manifestações temporárias ou mesmo das
estruturas nelas utilizadas viabiliza sua fixação em sítios, por vezes distintos dos originais. Os
exemplos mais recorrentes são os das Exposições Universais, como a de Paris de 1889, que
idealizou a torre que viria a tornar-se símbolo da cidade (BENEVOLO, 2009), ou mesmo, o
pavilhão alemão para a Exposição de Barcelona de 1929, idealizado por Mies van der Rohe,
desmontado após o término do evento, mas que, por ter se tornado referência da arquitetura
moderna do século XX, adquiriu significância e valor e veio a ser reconstruído, como no
projeto original, reaberto em 1986 (MIESBCN, [s.d.]).
De forma mais abrangente, pode-se ainda citar o Pavilhão Serpentine enquanto evento anual,
que se tornou permanente na agenda cultural de Londres e atrai um grande volume de
visitantes às suas instalações. Desenvolve-se desde 2000, é associado ao Serpentine Gallery
e surgiu da necessidade de promover maior presença nas atividades oferecidas pela
instituição durante os meses de verão. Sua organização convida arquitetos de renome para
projetarem espaços provisórios para seus jardins e encontra em patrocinadores o suporte
para a construção de estruturas ousadas que atraem público e atenção (JODIDIO, 2011).
Outro exemplo seria alguns pontos de comércio informal, que, como aborda Carvalho (2006),
ao longo do tempo adquiriram visibilidade e importância no contexto da cidade, gerando
interesse por parte do poder público, que formalizaram esses espaços, com a fixação de
impostos e alugueis, bem como, a própria organização estética das estruturas adotadas
nesses ambientes, vindo a deter o “controle tanto sócio econômico, quanto estético
arquitetônico.” (CARVALHO, 2006, p. 5), fixando estruturas para práticas culturais efêmeras,
alterando de forma permanente a paisagem em que se inserem.
Soluções urbanas aliadas à intervenções temporárias
Sabe-se que para atingir sucesso em obras de requalificação urbana é necessário tempo.
Tempo, este, controverso a ideia de intervenções temporárias. Entretanto, mesmo que
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pequenas manifestações não promovam amplas transformações, podem desencadear, em
longo prazo, transformações mais consistentes.
Isso funcionaria como uma espécie de corrente positiva em que “cada espaço potencialmente
atraente que se concretiza como intervenção, cada vez mais vai estimular a sua reintervenção
temporária e reinvenção permanente” (SANSÃO, 2013, p. 5).
Adriana Sansão sugere que essas intervenções agregam vitalidade às ruas, o momento e a
experiência tornam-se seu o principal legado. Atuam na construção de uma marca imaterial
na memória coletiva do lugar e que, além do local em que se deu a intervenção, isso poderia
ser aplicados em novos espaços, uma reação em cadeia que, aos poucos, seria ampliada e
abrangeria uma maior parte da cidade.
Park(ing) Day é uma ação que bem exemplifica isso. A ideia de transformar faixas de
estacionamento em parques públicos por um dia, concebido por John Bela, ganhou grande
dimensão, tornando-se uma ação mundial.
Ele explica que o projeto surgiu quando percebeu que os espaços destinados para
estacionamento de veículos ocupava maior área que a soma das áreas de todos os parques
urbanos de São Francisco, Califórnia, e pela reflexão de como se usa o espaço da cidade
(HANLEY, 2012). Criou-se então as estruturas de parklets, que funcionam como uma
extensão da calçada e que permitem a reapropriação do espaço público pelos cidadãos. A
intervenção se mostrou um sucesso e em 2010, o departamento de planejamento da cidade
adotou solução similar, com o programa “Paviments to Parks”, que transformava espaços
subutilizados das vias em pequenos espaços públicos (HANLEY, 2012).
Figura 03_Parklets e apropriação do espaço público
Fonte: Rebar (2005) e Nicholson (2009). Editado pela autora.
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Pode-se associar, ainda, a esses processos originários de intervenções efêmeras o conceito
desenvolvido por Lerner de acupunturas urbanas. Ele se baseia na ideia de que se agindo em
um ponto da cidade, isso não acarretará melhorias apenas nessa área, mas no seu entorno
também (LERNER, 2005).
Para ele, a gentileza urbana, ou seja, “atitudes que estimulam o amor pela sua cidade” é uma
forma de acupuntura urbana. O Park(ing) Day é um claro exemplo de gentileza urbana, ação
que transformou a subutilização do espaço existente em espaço requalificado e reapropriado
pela população. “Uma boa acupuntura é ajudar a trazer gente para a rua, criar pontos de
encontro e, principalmente, fazer com que cada função urbana catalise bem o encontro entre
pessoas” (LERNER, 2005, p. 47).
Desse modo, novas possibilidades de uso do espaço tornam-se visíveis ao cidadão comum,
agregando novos valores ao local, atuando de forma gradual para melhorias urbanas.
Seria no mínimo ingênuo acreditar que intervenções efêmeras pudessem criar soluções
instantâneas e transformar realidades consolidas de problemas de ordem urbana. No
momento que a intervenção é removida do local a paisagem circundante volta ao estágio
inicial.
Todavia, apesar desses lugares continuarem os mesmos, sua percepção se transforma,
supera-se o cotidiano e cria-se uma memória coletiva em torno dele, atuando na apropriação
desses espaços, criando novos cenários e tornando visível ao cidadão comum novas
possibilidades de seu uso, agregando novos valores ao local, atuando de forma gradual para
melhorias urbanas.
Conclusão
Compreender a configuração do espaço contemporâneo atrelado às mudanças ocorridas na
sociedade, bem como a relação do usuário com o ambiente construído, revela-se importante
etapa para o entendimento da paisagem urbana e cultural que se desenvolve na
contemporaneidade.
Diante disso, acredita-se ser fundamental esse estudo para compreensão da sociedade e de
suas mudanças ao longo dos anos que favorecem a valorização da arquitetura efêmera e de
manifestações temporárias no contexto urbano.
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Esse trabalho, contribui, portanto, para o fortalecimento e difusão da pesquisa acerca do
tema, além de incentivar a discussão sobre a importância de manifestações temporárias, no
contexto da paisagem cultural urbana, que “reinventam”, mesmo que temporariamente,
realidades consolidadas, potencializando o uso espaço público, contribuindo para a sua
apropriação e evolução da paisagem circundante.
Referências
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